Rousseau
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) nasceu em Genebra na Suíça,
transferindo-se para a França em 1742, onde escreveu suas grandes obras.
Entre elas podemos destacar O contrato social, na qual expôs a tese de que o
soberano deveria conduzir o Estado segundo a vontade geral de seu povo,
sempre tendo em vista o atendimento do bem comum. Somente esse Estado, de
bases democráticas, teria condições de oferecer a todos os cidadãos um regime
de igualdade jurídica. Em outra de suas importantes obras, o Discurso sobre a
origem da desigualdade entre os homens, Rousseau glorificou os valores da
vida natural e atacou a corrupção, a avareza e os vícios da sociedade civilizada.
Fez inúmeros elogios à liberdade que desfrutava o selvagem, na pureza do seu
estado natural, contrapondo-se à falsidade e ao artificialismo do homem
civilizado. Rousseau tornou-se célebre como defensor da pequena burguesia e
inspirador dos ideais que estiveram presentes na Revolução Francesa.
Rousseau, na verdade, antecipa algumas das críticas que no século seguinte
os socialistas farão ao liberalismo. Denuncia a propriedade como uma das
causas da origem da 38 desigualdade e, ao desenvolver os conceitos de vontade
geral e cidadania ativa, rejeita o elitismo da tradição burguesa do seu tempo.
Além disso, as teorias contratualistas se baseiam em uma concepção
individualista da sociedade, o que é típico do pensamento liberal. A sociedade é
compreendida como a somatória dos indivíduos, e o Estado têm por fim garantir
que os interesses particulares possam coexistir em harmonia. Esta concepção
será criticada pelas teorias socialistas.
Apesar das diferenças, o que existe em comum nas teorias contratualistas é a
ênfase no caráter racional e laico ( não-religiosos) da origem do poder. É o
próprio homem que dá o consentimento para a instauração do poder,
reafirmando assim o valor absoluto do indivíduo e do cidadão.
A concepção de Rousseau (no século XVIII), segundo a qual, em estado de
natureza, os indivíduos vivem isolados pelas florestas, sobrevivendo com o que
a Natureza lhes dá, desconhecendo lutas e comunicando-se pelo gesto, pelo
grito e pelo canto, numa língua generosa e benevolente. Esse estado de
felicidade original, no qual os humanos existem sob a forma do bom selvagem
inocente, termina quando alguém cerca um terreno e diz: “É meu”. A divisão
entre o meu e o teu, isto é, a propriedade privada, dá origem ao estado de
sociedade, que corresponde, agora, ao estado de natureza hobbesiano da
guerra de todos contra todos.
O estado de natureza de Hobbes e o estado de sociedade de Rousseau
evidenciam uma percepção do social como luta entre fracos e fortes, vigorando
a lei da selva ou o poder da força. Para fazer cessar esse estado de vida
ameaçador e ameaçado, os humanos decidem passar à sociedade civil, isto é,
ao Estado Civil, criando o poder político e as leis.
A passagem do estado de natureza à sociedade civil se dá por meio de um
contrato social, pelo qual os indivíduos renunciam à liberdade natural e à posse
natural de bens, riquezas e armas e concordam em transferir a um terceiro – o
soberano – o poder para criar e aplicar as leis, tornando-se autoridade política.
O contrato social funda a soberania.
Como é possível o contrato ou o pacto social? Qual sua legitimidade? Os teóricos
invocarão o Direito Romano – “Ninguém pode dar o que não tem e ninguém pode
tirar o que não deu” – e a Lei Régia romana – “O poder é conferido ao soberano
pelo povo” – para legitimar a teoria do contrato ou do pacto social.
Parte-se do conceito de direito natural: por natureza, todo indivíduo tem direito
á vida, ao que é necessário à sobrevivência de seu corpo, e à liberdade. Por
natureza, todos são livres, ainda que, por natureza, uns sejam mais forte e outros
mais fracos. Um contrato ou um pacto, dizia a teoria jurídica romana, só tem
validade se as partes contratantes foram livres e iguais e se voluntária e
livremente derem seu consentimento ao que está sendo pactuado.
A teoria do direito natural garante essas duas condições para validar o contato
social ou o pacto político. Se as partes contratantes possuem os mesmos direitos
naturais e são livres, possuem o direito e o poder para transferir a liberdade a
um terceiro, e se consentem voluntária e livremente nisso, então dão ao
soberano algo que possuem, legitimando o poder da soberania. Assim, por
direito natural, os indivíduos formam a vontade livre da sociedade,
voluntariamente fazem um pacto ou contrato e transferem ao soberano o poder
para dirigi-los.
Para Hobbes, os homens reunidos numa multidão de indivíduos, pelo pacto,
passam a constituir um corpo político, uma pessoa artificial criada pela ação
humana e que se chama Estado. Para Rousseau, os indivíduos naturais são
pessoas morais, que, pelo pacto, criam a vontade geral como corpo moral
coletivo ou Estado.
A teoria do direito natural e do contrato evidencia uma inovação de grande
importância: o pensamento político já não fala em comunidade, mas em
sociedade. A idéia de comunidade pressupõe um grupo humano uno,
homogêneo, indiviso, que compartilha os mesmos bens, as mesmas crenças e
idéias, os mesmos costumes e que possui um destino comum.
Quem é o soberano? Hobbes e Rousseau diferem na resposta a essa
pergunta
Para Hobbes, o soberano pode ser um rei, um grupo de aristocratas ou uma
assembleia democrática. O fundamental não é o número dos governantes, mas
a determinação de quem possui o poder ou a soberania. Esta pertence de modo
absoluto ao Estado, que, por meio das instituições públicas, tem o poder para
promulgar e aplicar as leis, definir e garantir a propriedade privada e exigir
obediência incondicional dos governados, desde que respeite dois direitos
naturais intransferíveis: o direito à vida e à paz, pois foi por eles que o soberano
foi criado. O soberano detém a espada e a lei; os governados, a vida e a
propriedade dos bens.
Para Rousseau, o soberano é o povo, entendido como vontade geral, pessoa
moral, coletiva, livre e corpo político de cidadãos. Os indivíduos, pelo contrato,
criaram-se a si mesmos como povo e é a este que transferem os direitos naturais
para que sejam transformados em direitos civis. Assim sendo, o governante não
é o soberano, mas o representante da soberania popular. Os indivíduos aceitam
perder a liberdade civil: aceitam perder a posse natural para ganhar a
individualidade civil, isto é, a cidadania. Enquanto criam a soberania e nela se
fazem representar, são cidadãos. Enquanto se submetem às leis e à autoridade
do governante que os representa chamam-se súditos. São, pois, cidadãos do
Estado e súditos das leis.
A origem da desigualdade
A concepção política de Rousseau estabelece uma trajetória de evolução da
organização social que difere de outros pensadores. Assim como Hobbes,
Rousseau constrói uma hipótese de estado de natureza e estado civil, mas
considera o "estado de guerra" hobbesiano presente na sociedade civil. O estado
de natureza é apresentado como um momento de ampla felicidade humana,
onde os seres humanos não tinham a necessidade de se relacionarem e não
havia desigualdade. Este modo de vida, hipoteticamente construído para
justificar sua proposta de República, teria sido destruído com a instituição da
propriedade privada e das leis. É na sociedade das instituições civis que reside
a crítica de Rousseau e o fundamento de sua teoria política. Entretanto, se com
a razão o ser humano construiu uma civilização corrompida, é com a capacidade
racional que a humanidade deverá encontrar suas soluções.
Diante da constatação de que "o verdadeiro fundador da sociedade foi o primeiro
que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer ‘isto é meu’ e encontrou
pessoas suficientemente simples para acreditá-lo", Rousseau encontra na
desigualdade humana o principal problema da organização política.