Economia Monetária
Capítulos 1 e 2
Ano 2021/2022 Comissão Finalistas Bárbara Tavares
Nota: este é um trabalho realizado por alunos, pelo que
não está livre de conter gralhas ou falta de informação.
São essenciais a análise crítica e a leitura cuidada por
parte dos utilizadores, tendo em conta a matéria lecionada
nas aulas.
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A moeda
Sistemas de trocas
De acordo com a forma como se realizam as transações económicas entre
indivíduos, os sistemas económicos distinguem-se segundo dois tipos – as economias de
troca direta e as economias monetárias.
Economias de troca direta
Correspondem a um estádio inicial e bastante imperfeito no desenvolvimento das
sociedades humanas.
- Não existe moeda (mercadorias e serviços trocam-se diretamente);
- Modelo primitivo;
- Caracterizado por imperfeições: levam à busca de soluções;
- É altamente ineficiente;
- Impede à troca em condições de eficiência;
- Impede a especialização do trabalho: tendem a ser economias de subsistência – incapazes
de promover uma afetação ótima dos recursos produtivos conducente à maximização do
nível de bem-estar dos indivíduos e dos povos.
- Para haver transação é necessário, mas não suficiente, a dupla coincidência de desejos.
Dificuldades:
- Heterogeneidade das mercadorias: classificam-se segundo espécies/tipos (p.e. há vários
tipos de café)
- As mercadorias podem não apresentar as qualidades que se procura.
Com tudo isto, sentiu-se a necessidade de criar a moeda, que por sua vez tendo sio
sujeita a um processo de aperfeiçoamento que se prolonga até aos dias de hoje.
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Economias Monetárias
- Surgem com a invenção da moeda;
- As trocas são efetuadas com recurso à moeda;
- Processo de aperfeiçoamento ao longo do tempo;
- Desmaterialização da moeda.
O conceito de moeda
Inicialmente a moeda é também uma mercadoria. O que a distingue de todas as
demais é gozar do atributo de desejabilidade generalizada; isto é, todos os sujeitos anseiam
possuí-la pois é símbolo de riqueza, de poder e de prestígio social.
Daqui decorre uma consequência fundamental: todos estão dispostos a recebê-la
em pagamento por qualquer outra mercadoria que vendam, não importa qual. Em suma,
rompe-se a necessidade de haver dupla coincidência de desejos, há separação dos atos de
compra e de venda, e cada qual ou é vendedor ou comprador.
Moeda é tudo aquilo que é geralmente aceite como meio de pagamento. Portanto,
moeda não é nada em concreto; não é nada que se identifique com uma forma ou com um
qualquer material. Pelo contrário, a moeda define-se em termos funcionais.
Definição funcional: a capacidade de algo para desempenhar aquela função de meio de
pagamento geralmente aceite. Esta é uma função que só a moeda consegue desempenhar e
que, por isso, lhe é exclusiva e bastante para a definir.
“Money is not what it is, but what it does”.
A moeda é capaz de desempenhar outras funções, mas que não a caracterizam,
porque não são exclusivas da moeda.
A definição funcional contrasta com a definição legal. Esta é de índole mais jurídica
do que económica. Diz-nos que moeda é tudo aquilo que o governo decrete como tal. Os
economistas recusam-na pois o público pode recusá-la enquanto meio de pagamento
geralmente aceite.
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Outras funções da moeda
o Reserva de valor: a riqueza de um indivíduo/o seu poder aquisitivo pode ser
conservado e mantido na forma de moeda. Contudo, não é uma função exclusiva da
moeda, pois também pode ser conservado na forma de ativos imobiliários (terras e
casas), mobiliários (ações, obrigações, warrants,…), joias, arte, …
Para avaliar a eficiência com que a moeda desempenha esta função, devemos
distinguir entre preço e valor da moeda. Qualquer que seja o sistema monetário, o preço da
moeda é constante e igual a 1. Portanto, a taxa de juro não é o preço do dinheiro, mas sim o
preço do crédito. O valor da moeda é o cabaz de bens e serviços que se pode comprar com
uma certa quantidade de moeda.
1
𝑉𝑎𝑙𝑜𝑟 𝑑𝑎 𝑚𝑜𝑒𝑑𝑎 =
𝑃
Assim sendo, como reserva de valor a moeda não funciona bem em períodos
inflacionários, mas é preferível a outros ativos em períodos deflacionários.
o Unidade de conta: o preço das mercadorias pode-se exprimir em unidades
monetárias, com a vantagem adicional de permitir agregar num só número
montantes relativos a mercadorias distintas, como é o caso da contabilidade,
promovendo uma gestão eficiente da atividade económica. Não é exclusiva da
moeda.
- Nem sempre a moeda é o melhor instrumento para este efeito.
- Causa problemas em períodos hiperinflacionários: como seria se os preços mudassem de
minuto a minuto?
- Utilização de uma unidade monetária distinta como unidade de conta (p.e. o USD)
o Meio de pagamento diferido no tempo: meio para a liquidação de débitos
contraídos em períodos passados. Não é exclusivo da moeda, em princípio qualquer
outro ativo pode ser selecionado para o efeito. A moeda simplifica este processo,
contudo apresenta algumas dificuldades: e se a taxa de inflação verificada for
superior à taxa de inflação esperada? – ganhos aos devedores (há redistribuição de
rendimento não planeadas entre devedores e credores).
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Formas Monetárias atuais
À luz da definição funcional:
- Moedas metálicas
- Notas de banco (as normais)
- Depósitos à ordem (no caso do cheque é apenas o instrumento para mobilizar dinheiro)
- Cheques de viagem (emitidos pelas instituições financeiras, distinguem-se dos cheques
normais porque surgiram com o intuito de facilitar o transporte de moeda para outros
países)
Note-se que os cartões de crédito e de débito, tal como os cheques, não são moeda à
luz da definição funcional. O cartão multibanco e os cheques são antes instrumentos de
mobilização de depósitos à ordem, esses sim, moeda; enquanto o crédito não é moeda.
Moeda e crédito
Desde logo se compreende que o crédito não pode ser moeda por lhe faltar a
característica de meio de pagamento geralmente aceite, contudo está relacionado com a
moeda.
O crédito é um contrato entre duas partes pelo qual, a troco de uma remuneração
na forma de juros, alguém, o credor, transfere temporariamente para outro, o devedor, o
uso de moeda que lhe pertence. Se o crédito fosse considerado moeda levaria a uma
duplicação de valores
Evolução das Formas e dos Sistemas Monetários
Moeda Mercadoria
- A moeda vale o que valer o seu valor intrínseco;
- Cobertura a 100% que lhe é dada pelo seu conteúdo material;
- Desejabilidade generalizada.
Exemplos: cabeças de gado, conchas, sal, tabaco,…
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Inconvenientes:
a) Peso e volume;
b) Perecibilidade;
c) Indivisibilidade;
d) Heterogeneidade;
e) Volatilidade do valor;
f) Elevados custos de transação.
Sistemas Metálicos
Baseiam-se na utilização de um ou de ambos os metais preciosos: ouro e prata.
Estes metais gozam de características privilegiadas para assumirem este papel:
desejabilidade generalizada porquanto são símbolos de riqueza; elevador valor por unidade
de volume, especialmente o ouro; não perecível, o que os habilita a conservar valor durante
períodos de tempo infinitos; perfeitamente divisíveis; disponibilidade de tecnologia barata
para avaliação da qualidade e pesagem; estabilidade dos respetivos valores.
Monometálicos → um só metal
Bimetálicos → dois metais
Lei de Gresham
A má moeda expulsa a boa moeda de circulação. O aviltamento da moeda pode
assumir diferentes formas, por exemplo:
- Falsificação pelos soberanos;
- Erosão do conteúdo metálico devido ao uso;
- Amputação de uma parte da moeda.
Esforços para minimizar a probabilidade de ocorrência da lei de Gresham:
- Definição da unidade monetária exclusivamente num único metal; +
- Colocação em circulação de moeda fiduciária (no sentido que valor facial/monetário >
valor intrínseco (valor enquanto mercadoria)), também dita de simbólica (no sentido que o
seu valor enquanto moeda depende do símbolo que lhe é posto), para acomodar as
necessidades de pagamento das transações de baixo valor.
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Padrão-Ouro
No sistema do padrão-ouro a unidade monetária é definida em termos de uma
certa quantidade de ouro com um certo grau de pureza. Não obstante, as transações de
baixo valor são suportadas por moeda simbólica, enquanto as de grande valor o são por
notas de banco, assumindo estas ou não a qualidade de moeda representativa.
O Reino Unido é o 1º país a introduzir este sistema monetário em 1821 na
sequência da cunhagem do soberano de ouro. O Canadá fá-lo em 1853 e Portugal foi o 1º
país da Europa a seguir a Inglaterra na adesão ao padrão-ouro como resposta aos
problemas monetários e económicos da época. A partir de 1870 verifica-se uma adesão
generalizada dos países ao padrão-ouro (p.e. a Alemanha adere em 1873, França em 1878 e
os EUA em 1879) e o Gold Standard Act de 1900 reafirma e reforça o regime do padrão-
ouro nos EUA. O regime transformou-se num Sistema Monetário Internacional.
Notas de banco
Não utilização de recursos produtivos reais na circulação monetária (eficiência
económica). Podem assumir a qualidade de moeda representativa ou não.
Moeda representativa:
- Emissão coberta a 100% em ouro mantido em reserva pelos bancos que procedem à sua
emissão;
- Livremente convertível em ouro à cotação oficial;
- Não é fiduciária.
Moeda fiduciária:
- Cobertura inferior a 100% (reserva fraccionária);
- Importância da confiança do público na capacidade do banco emissor honrar o seu
compromisso de remissão à cotação oficial.
Moeda simbólica
Princípios de emissão:
- A sua emissão e destruição é monopólio do tesouro, ou da autoridade monetária;
- Restrição quantitativa: a emissão deverá ser pelos montantes estritamente necessários.
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Receio de processo inflacionário.
Reduz, mas não elimina, os perigos a que se reporta a lei de Gresham:
- Anos 60 e 70 do século XX, as moedas portuguesas de mais baixas denominações eram
produzidas em cobre
- Nos anos 70, o Chile (forte produtor de cobre) sofreu convulsões políticas
- Diminuição da oferta de sobre nos mercados mundiais conduziu a um aumento muito
significativo do seu preço
- O valor intrínseco dessas moedas ultrapassou o seu valor facial, pelo que desapareceram
rapidamente da circulação
- As moedas, cada vez com menor peso para as mesmas denominações, passaram a ser
produzidas com ligas metálicas de pouco valor.
Papel-moeda: duas fases
Em 1933 o padrão-ouro é definitivamente abandonado. Nessa altura, e até hoje, o
sistema monetário passa a basear-se exclusivamente no papel-moeda, ou moeda fiduciária,
que circula com um valor intrínseco inferior ao seu valor facial e sem qualquer
possibilidade de conversão oficial em ouro.
Por razões atinentes à psicologia dos agentes económicos, habituados desde sempre
à circulação de moeda mercadoria, foi necessário evoluir com prudência para se evitarem
ruturas bruscas com hábitos longamente arreigados, e facilitar uma transição suave e
sustentável para o novo sistema monetário. É assim que o padrão do papel-moeda se
apresenta em duas fases. A primeira delas, em vigor durante um período de tempo
bastante curto, com a designação de papel-moeda ouro, e a segunda, aquela em que ainda
hoje nos encontramos, com a designação de papel-moeda puro.
Padrão papel-moeda ouro
As notas de banco não eram convertíveis em ouro mas a unidade monetária
continuava a ser definida como uma certa quantidade de ouro com um certo grau de
pureza; e os bancos eram obrigados a manter reservas em ouro. Contudo, nada disto tinha
consequências efetivas.
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Padrão papel-moeda puro
Eliminação de qualquer vínculo entre moeda e as reservas em ouro. Ainda hoje
vigora.
Em qualquer dos casos, a emissão e destruição do papel-moeda são monopólios das
autoridades monetárias.
Papel-Moeda: viabilidade
O processo de transição ao longo do tempo nega qualquer probabilidade de sucesso
a reformas monetárias que rompam com as experiências passadas. Esta conceção inscreve-
se na Escola Austríaca.
Que condições para que uma reforma monetária, como a adoção do papel-moeda, seja
viável?
Para Simmel (1990), a chave para que isso aconteça é a confiança do público na
capacidade do governo para manter o valor real da moeda fiduciária. Para tal, impõem-se
que a moeda fiduciária seja escassa.
Este princípio é violado sempre que as autoridades monetárias promovem emissões
excessivas de moeda que arrastam processos inflacionários, se não mesmo
hiperinflacionários; verificando-se uma quebra de confiança, o público repudia a nova
unidade monetária.
Outra importante condição para que o papel-moeda conserve valor e o público
guarde confiança nele e na autoridade emissora: a emissão de moeda tem de acontecer
num mercado monopolista. É incompatível com mercados perfeitamente concorrenciais,
com custo de produção basicamente zero e produzindo utilidade marginal positiva, a
emissão sob concorrência perfeita ditaria expansão monetária conducente a hiperinflação.
A emissão pelo monopolista também deve estar limitada, exigência de independência dos
Bancos Centrais face aos poderes políticos.
Contributos de Von Mises: teorema da regressão
- Conseguiu ultrapassar o problema da circularidade (círculo austríaco)
- O valor da moeda em qualquer instante é função da sua procura nesse mesmo período
- Por outro lado, essa procura depende do valor da moeda no período anterior.
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O teorema da regressão sobrevém por substituições sucessivas neste mecanismo de
formação de expectativas que nos conduzem às experiências mais recuadas no tempo, de
tal sorte que se conclui que as expectativas quanto ao valor futuro da moeda são
determinadas pelo seu valor no passado mais longínquo. Por outras palavras, o
lançamento com êxito do padrão papel-moeda depende criticamente da sua relação com
sistemas anteriores baseados na moeda mercadoria.
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