Coleção UAB−UFSCar
Pedagogia
Alexandre Morand Góes Kathryn Marie Pacheco Harrison
Ana Cláudia Balieiro Lodi Lara Ferreira dos Santos
Cristiane Satiko Kotaki Maria Cecília de Moura
Cristina Broglia Feitosa de Lacerda Mariana de Lima Isaac Leandro Campos
Juliana Fonseca Caetano
Língua brasileira de
sinais – Libras
uma introdução
Apresentar a língua brasileira de sinais (Libras ou língua de sinais bra-
sileira – LSB, para alguns) a um público de certa forma distante dos estudos
e das discussões que atravessam a surdez e a educação de surdos e que,
pela primeira vez, faz contato com o tema: este é o desafio deste capítulo.
A maior preocupação nesse caso é fazê-lo de uma maneira tal que os leitores
tenham acesso a conceitos novos de uma forma ao mesmo tempo compreen-
sível, simples e correta.
Para atingir esse objetivo, optou-se por dividir o capítulo em cinco temas,
partindo de algumas ideias que a maioria das pessoas tem a respeito das lín-
guas de sinais e que não correspondem à realidade, para então explicar por-
que a Libras é uma língua com o mesmo estatuto e com qualidades iguais às
das línguas orais, apenas com uma modalidade muito diferente de expressão e
recepção. Por fim, realizar uma breve reflexão sobre o processo de desenvolvi-
mento da Libras em seus diferentes usos sociais.
Alguns estereótipos ligados às línguas de sinais
Uma das ideias mais comuns entre aqueles que já viram pessoas surdas
conversando entre si em língua de sinais ou o intérprete de Libras nas “jane-
linhas” da TV é a de que o que vêem é um conjunto de gestos, mímica e tea-
tralização, incapaz de expressar conceitos abstratos. Embora os sinais sejam
produzidos por movimentos das mãos, do corpo e por expressões faciais, eles
possuem as mesmas qualidades das palavras faladas. Por essa razão, as lín-
guas de sinais podem expressar qualquer ideia, discutir economia, ou filosofia,
contar piadas, fazer reflexões as mais complexas, fazer poesia. Como ficará
mais bem evidenciado na próxima sessão deste capítulo as evidências científi-
cas demonstram que as línguas de sinais permitem o mesmo grau de abstração
alcançado pelas línguas orais.
Outra ideia bastante comum é de que as línguas de sinais seriam uma ver-
são sinalizada das línguas orais, isto é, de que, por exemplo, a Libras seria uma
versão em sinais da língua portuguesa falada no Brasil, ou de que a língua fran-
cesa de sinais seria uma sinalização da língua francesa oral. No entanto, trata-se
de mais uma ideia sem fundamento, pois as línguas de sinais são autônomas
das línguas orais, assim como das demais línguas de sinais. Possuem, além
disso, uma estrutura linguística diversa, viso-espacial, com sintaxe, morfologia
e “fonologia” próprias, como se verá mais adiante.
Uma terceira ideia é a de que a língua de sinais é universal, ou seja, uma
vez que se conheça uma língua de sinais pode-se conversar com surdos de
qualquer lugar do mundo. Essa ideia também não tem base na realidade e em
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descobertas científicas, pois, como qualquer língua, as línguas de sinais são
geradas pelas comunidades de surdos no interior da cultura de cada país e se
diferenciam entre si, assim como os diferentes povos têm seus idiomas, cos-
tumes e manifestações culturais próprios. Um exemplo desse fato é a diferen-
ciação para o sinal para a cor branca, que na língua brasileira de sinais possui
uma ou duas variações regionais, mas que na língua norueguesa de sinais tem
mais de cinco sinais, pois para aquele povo há necessidade de denominar a cor
branca relacionada à cor da neve recém caída, da neve mais antiga, do leite,
das nuvens e assim por diante.
Como acontece com a língua portuguesa, por exemplo, que teve sua ori-
gem no latim, assim como o francês, o italiano e o espanhol, entre outras línguas
orais, as línguas de sinais também têm influência de uma língua de origem, e as
semelhanças e diferenças que se percebem se devem a ela.
A língua brasileira de sinais e a língua americana de sinais (American Sign
Language – ASL) têm como influência comum a língua francesa de sinais, pois
a escolarização formal das pessoas surdas brasileiras e americanas foi forte-
mente influenciada pelos primeiros educadores surdos que vieram da França
para a constituição das primeiras escolas para surdos nos dois países. Quando
esses professores surdos, usuários da língua francesa de sinais, chegaram ao
Brasil e aos Estados Unidos, encontraram uma comunidade surda que utilizava
a língua de sinais local, e assim formaram-se essas duas línguas, que mantêm
até hoje semelhanças entre si, embora sejam autônomas.
Embora os Estados Unidos tenham sido colonizados pela Inglaterra e o
Brasil por Portugal, as línguas brasileira e americana de sinais têm mais seme-
lhanças com a língua francesa de sinais do que com a língua gestual portugue-
sa e com a língua de sinais inglesa.
Além dessa influência comum entre algumas línguas de sinais e da diver-
sificação própria da língua de cada país, é importante explicar que a Libras possui
variações regionais, como o português falado no Brasil apresenta variações de
vocabulário e de sotaque nas diferentes regiões do país. Mais uma prova de que
as línguas de sinais funcionam como as línguas orais.
Após a apresentação de alguns argumentos que desmistificam noções do
senso comum sobre as línguas de sinais, a próxima sessão irá desenvolver um
pouco mais profundamente os conceitos que sustentam o estatuto da Libras
como língua natural.
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O estatuto da Libras enquanto língua natural
Ao ler o subtítulo acima, pode-se perguntar o que significa a palavra “natural”.
Seria legítimo pensar que é uma língua que surge espontaneamente quando a
pessoa nasce com uma perda auditiva, mas seria uma ideia errônea.
Na verdade, o termo “natural” designa a característica das línguas orais e
sinalizadas utilizadas pelos seres humanos em suas diversas interações socias,
e se diferencia do que se chama de “linguagem formal”, isto é, linguagens cons-
truídas pelo ser humano, como as linguagens de programação de computador
ou a linguagem matemática.
Outro fator que explicita a característica natural das línguas de sinais é a
sua organização cerebral. Estudos desenvolvidos no Laboratório de Neurociên-
cias Cognitivas da Universidade da Califórnia (EMMOREY, BELLUGI & KLIMA,
1993) com surdos com
lesões cerebrais estabeleceram que o hemisfério esquerdo subserve as
funções linguísticas para língua de sinais, apesar de que a ASL utiliza dis-
tinções espaciais e ser processada visualmente – domínio para os quais os
hemisférios direitos de pessoas ouvintes têm sido encontrados como domi-
nantes (EMMOREY, BELLUGI & KLIMA, 1993, p. 19).
Em outras palavras, significa que, embora as línguas de sinais sejam pro-
duzidas principalmente por movimentos das mãos no espaço (o que em pes-
soas que ouvem e falam é percebido pelo hemisfério direito do cérebro), esses
movimentos são percebidos pelo hemisfério esquerdo das pessoas surdas que
usam língua de sinais, justamente porque eles são entendidos como língua, e
não como gesticulação ou movimento corporal aleatórios.
Para que esses e outros estudiosos das línguas de sinais pudessem che-
gar a essas conclusões houve um primeiro estudo, o estudo linguístico funda-
dor, realizado pelo linguista americano William Stokoe, em 1960. A partir de
sua observação de surdos sinalizando na universidade em que lecionava, ele,
curioso, resolveu estudá-la. Seria uma língua? Para obter a resposta a essa
pergunta, aplicou os rigorosos métodos de pesquisa da linguística estrutural. Os
resultados de seus estudos demonstraram evidências de que, ao contrário do
que se pensava até então “a língua e sinais dos surdos têm estrutura e função
semelhante às demais línguas” (STOKOE, 1960, p. 3), veiculada por um sistema
que utiliza um meio sensorial diferente. Em seu trabalho, Stokoe apresentou
uma breve história da educação de surdos e chegou a detalhar o sistema lin-
guístico da ASL.
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Para descrever uma língua antiga, produzida em uma modalidade tão dife-
rente das línguas faladas e nunca antes estudada, criou alguns termos próprios
para definir os elementos constituintes da ASL, como:
• sinal: a menor unidade da língua de sinais com significado;
• gesto: movimento comunicativo não analisável linguisticamente;
• quirema (do grego: kiros = mãos): conjunto de posições, configurações
ou movimentos que tenham a mesma função na linguagem, o ponto de
estrutura da língua de sinais (análogo ao “fonema” nas línguas orais);
• alocação: qualquer um do conjunto de configurações, movimentos ou
posições, i. e., quirema, que sinaliza identicamente na língua.
Além disso, propôs a decomposição dos sinais da ASL em três parâmetros
formacionais: configuração de mão (CM), locação da mão (L) e movimento da
mão (M).
O trabalho de Stokoe teve grande repercussão nos meios linguísticos ao
redor do mundo e nos movimentos de surdos, que a partir de então tinham em
suas mãos uma evidência científica de que sua comunicação sinalizada tinha
o estatuto de língua semelhante ao das línguas orais e, portanto, merecedora
de respeito, e não de proibição, como ocorreu por mais de cem anos, desde o
Congresso de Milão.1
A partir desse que pode ser considerado o texto fundamental dos estudos
linguísticos das línguas de sinais, outros se seguiram, trazendo sua contribuição
para os achados de Stokoe e estendendo os estudos para as línguas de sinais
do resto do mundo. Um exemplo de contribuição a esses achados iniciais foi
realizado por Battison (1974, 1978, apud AMARAL, COUTINHO & MARTINS,
1994; QUADROS & KARNOPP, 2004), Lidell (1984, apud AMARAL, COUTI-
NHO & MARTINS, 1994), Lidell & Johnson (1984, 1989, 1992, apud AMARAL,
COUTINHO & MARTINS, 1994).
Battison (1974, 1978, apud AMARAL, COUTINHO & MARTINS, 1994),
por exemplo, adicionou dois parâmetros formacionais aos três descobertos por
Stokoe: orientação da mão (Or) e aspectos não manuais (NM), pois se percebeu
que a mudança de um desses dois novos parâmetros mudava o significado do
sinal realizado. Já Lidell & Johnson (1984, 1989, 1992, apud AMARAL, COUTI-
NHO & MARTINS) discutiram o conceito inicial de Stokoe da simultaneidade na
produção dos sinais e mostraram que a ASL apresenta estruturas sequenciais
e outras simultâneas.
1 Congresso que discutia a educação de surdos, em 1880, e que após vários debates sobre
56 a pertinência e adequação das línguas de sinais decidiu pelo banimento destas na educa-
ção de surdos, apoiando apenas as práticas de oralização das pessoas com surdez.
No Brasil, pode-se citar os trabalhos de Ferreira Brito (1995), Quadros &
Karnopp (2004), Pereira, Moura & Lodi (1996) e, mais recentemente, McCleary
& Viotti (2007), entre outros estudiosos na área, que vêm estudando, publicando
e apresentando trabalhos sobre a nossa língua de sinais. Importante ressaltar
que os achados de Stokoe nunca foram derrubados e, portanto, estabeleceram
inequivocamente o estatuto de língua das línguas de sinais. Aos pesquisadores
das línguas de sinais de cada país coube e cabe a tarefa de descrever suas
línguas de sinais e de estabelecer comparações.
A modalidade viso-espacial
Após a discussão a respeito do conceito de língua natural e a apresenta-
ção dos estudos a respeito do estatuto linguístico das línguas de sinais, cabe
explicitar melhor as características da Libras, propriamente dita.
Quando falamos, um complexo sistema de órgãos e funções entra em ação,
basicamente: lábios, língua, dentes, nariz (para articular as palavras), a laringe
(para produzir a voz) e os pulmões, que produzem o ar que passa pela laringe e
depois pela boca, e finalmente as palavras se deslocam pelo ar, para chegar
aos nossos ouvidos, onde as escutamos e compreendemos. Além disso, os
sons da fala (os fonemas) são produzidos um depois do outro, pois é impossível
anatomicamente produzir dois sons ao mesmo tempo. Por essa razão dizemos
que a fala é produzida sequencialmente no tempo.
As línguas de sinais, por outro lado, são produzidas por movimentos das
mãos, do corpo e expressões faciais em um espaço à frente do corpo, chamado
de espaço de sinalização. A pessoa “recebe” a sinalização pela visão, razão pela
qual as línguas de sinais são chamadas de viso-espaciais ou espaço-visuais.
Dependendo do tipo de enunciado produzido, dos sinais utilizados, do que se
deseja expressar, pode-se obter uma sinalização em que vários sinais podem
ser feitos ao mesmo tempo, simultaneamente, pois, no caso dos movimentos
envolvidos, não há impedimento anatômico. Em outros momentos, os sinais são
produzidos um após o outro, sequencialmente.
Os estudos linguísticos demonstram, além do mais, que as línguas de
sinais, e aí está colocada a Libras, possuem as mesmas características e qua-
lidades de qualquer outra língua, ou seja:
1. Versatilidade e flexibilidade: é a qualidade que as línguas possuem de
poder expressar qualquer sentimento, emoção, fazer indagações, fazer
referência ao passado, presente ou futuro, ou até mesmo a fatos e coi-
sas que não existem.
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2. Arbitrariedade: é a característica segundo a qual a forma da palavra
(seja falada, escrita ou sinalizada) não tem relação direta com seu sig-
nificado. Se ouvirmos uma palavra em língua estrangeira, o som da pa-
lavra não nos ajudará a saber seu significado. Da mesma maneira,
ver um sinal, não ajudará a conhecer o que significa, a não ser que
conheçamos a língua.
3. Criatividade/produtividade: é a possibilidade que as línguas possuem
de produzir infinitos enunciados a partir de um número finito de fonemas
ou quiremas.
4. Dupla articulação: é a característica das línguas de possuir um número
finito de unidades (fonema ou quirema) que isoladamente não têm signifi-
cado. Apenas se forem combinados a outros fonemas/quiremas adquirem
significado. Por exemplo, os sons o, p, t, a, isolados, não têm significado,
mas ao serem combinados, como em pato ou topa ou opta, ganham dife-
rentes sentidos. Pode-se compreender, então, que há duas camadas nas
palavras, uma de unidades menores e outra de unidades maiores.
Na sessão anterior foram apresentados os achados de Stokoe, com os
conceitos que criou para poder descrever a ASL, como quiremas, sistema qui-
rêmico, quirologia, entre outros. As denominações dadas são bastante exatas,
por exprimirem a modalidade eminentemente manual das línguas de sinais. No
entanto, por serem termos estranhos à maior parte das pessoas e sem referên-
cias para que possam estabelecer relação com denominações mais conhecidas
ligadas às línguas orais, alguns estudiosos realizaram uma aproximação da no-
menclatura inicialmente proposta por Stokoe àquela utilizada para a descrição
das línguas orais, constituindo os aspectos gramaticais da Libras.
A língua em uso e em desenvolvimento
O objetivo deste capítulo foi apresentar a língua brasileira de sinais a um
público que, pela primeira vez, faz contato com uma série de conceitos que
cercam a Libras.
Torna-se relevante discutir que o movimento que levou a Libras para as
salas de aula de faculdades e universidades teve início há muitos anos atrás e
está em pleno desenvolvimento.
Como comentado anteriormente, o estudo linguístico da ASL, realizado
por Stokoe em 1960, deu ensejo a pesquisas sobre as línguas de sinais de todo
o mundo, além de fornecer subsídio científico para que os movimentos surdos de
58 diversos países pudessem reivindicar respeito à sua língua e, posteriormente,
que ela fosse utilizada na educação de surdos, aceitando sua condição de su-
jeitos bilíngues membros de uma comunidade minoritária.
No Brasil, esses movimentos tiveram início na década de 1980 e contaram
com a participação da comunidade surda e de estudiosos surdos e ouvintes
preocupados com as dificuldades enfrentadas por esses cidadãos em diversas
áreas da nossa sociedade.
Ao lado de um movimento mundial para melhorar a participação e o aces-
so de todas as pessoas aos bens sociais, surge uma ampla legislação que gradu-
almente faz com que as pessoas com deficiência, entre elas os surdos, tenham
respaldo para suas exigências. Pode-se citar, como exemplo, a Lei de Acessibili-
dade (Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000), que determina a eliminação de
barreiras físicas e de comunicação nos setores público e privado, garantindo, no
caso das pessoas surdas, a presença do intérprete de Libras e a correção dife-
renciada de provas e avaliações escritas por alunos ou candidatos surdos.
Dois anos após essa lei e após muita luta, é promulgada a Lei da Libras
(Lei no 10.436, de 24 de abril de 2002), que reconhece:
como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileirade Sinais -
Libras [...] forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico
de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um
sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos, oriundos de comunida-
des de pessoas surdas do Brasil (BRASIL, 2010b).
Somente três anos depois a Lei 10.436 é regulamentada pelo Decreto
o
n 5.626, de 22 de dezembro de 2005, e faz uma série de determinações em
relação ao ensino da Libras em cursos de formação de pedagogos, fonoaudiólo-
gos, de licenciatura, além de estabelecer a formação necessária ao professor e
instrutor de Libras, ao intérprete de Libras, e estabelece prazos para que essas
determinações entrem em vigor em nosso país.
Paralelamente a essas conquistas, pode-se observar uma política de educa-
ção para todos, que incentiva a inclusão de alunos com necessidades educativas
especiais na rede regular de ensino. Entre esses alunos, encontram-se crianças,
jovens e adultos surdos que gradativamente entram ou retornam aos bancos
escolares, agora amparados por uma legislação que visa a atender às suas
necessidades específicas, como a presença de intérpretes em sala de aula e a
educação bilíngue.
Toda essa movimentação provoca, em primeiro lugar, a exposição da Li-
bras para uma parcela da população que antes a desconhecia, como gestores,
professores, colegas ouvintes e pais.
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Em segundo lugar, dá acesso aos alunos surdos a níveis de educação an-
tes pensados como inalcansáveis. Esse acesso faz com que cada vez mais sur-
dos possam frequentar o ensino superior. Sem dúvida, um importante impulso à
continuidade dos surdos nos estudos é o direito de terem intérpretes em sala de
aula, garantido pela recente legislação referente à acessibilidade de “pessoas
portadoras de deficiência” e ao reconhecimento da Libras como meio legal de
expressão e comunicação das comunidades surdas brasileiras.
Esse crescimento vem impondo novos desafios tanto para o profissional-
intérprete de Libras, quanto para os surdos. O intérprete tem de se haver com
conteúdos e dinâmicas acadêmicas até então desconhecidos (HARRISON &
NAKASATO, 2004) por ele, principalmente ao se lembrar de que grande parte
dos intérpretes profissionais não cursou uma faculdade. Aos surdos, abre novas
perspectivas de participação na sociedade, em funções que requerem mais do
que atividades repetitivas, mais qualificadas, ao mesmo tempo em que terá de
se preparar para poder responder a essa nova demanda.
Interessante poder observar esse processo de evolução da Libras no mo-
mento atual da sociedade brasileira, no momento mesmo em que ele se proces-
sa, no qual um número sem precedentes de adultos jovens surdos encontram,
no trabalho com a própria língua de sinais, um caminho profissional, na condição
de instrutor de Libras para ouvintes (professores e pais de surdos, profissionais
da área da saúde ou pessoas interessadas em aprender a língua para se comu-
nicar com amigos, namorados, colegas de trabalho, etc.) ou diretamente com
surdos (crianças, jovens e adultos) em escolas ou projetos sociais variados.
Os contatos iniciais dos instrutores pioneiros no ensino da Libras com pro-
fessores e demais profissionais ouvintes ligados à educação ou à saúde cau-
saram um primeiro movimento de evolução da língua, pois, ao solicitarem ao
instrutor alguns sinais para poderem trabalhar os conteúdos escolares ou con-
ceitos importantes para as atividades desejadas, exigiram um refinamento (a
amplitude do espectro semântico) até então desnecessário para as interações
verbais entre surdos. Frente a esse primeiro desafio, os instrutores resolveram
marcar encontros para trocarem experiências, esclarecerem dúvidas e, se fosse
o caso, criarem sinais novos.
Um segundo impulso, causador de movimento perceptível de evolução da
Libras, ocorreu (e ainda ocorre) a partir do desenvolvimento de uma atividade
socialmente valorizada entre o grupo de surdos, o ensino de Libras, levando
muitos desses jovens adultos a retomarem seus estudos, para melhor com-
preenderem as implicações de seu trabalho para o desenvolvimento de seus
alunos. A entrada no ensino médio (supletivos, programas de educação de jo-
vens e adultos, etc.) e posteriormente nas universidades colocou um problema
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a surdos e intérpretes de Libras: como realizar a interpretação de aulas e textos
acadêmicos, com conceitos e reflexões até então inacessíveis aos surdos e
desconhecidos pelos intérpretes (a maioria dos quais sem formação de nível su-
perior)? Novamente houve a necessidade de reuniões entre intérpretes, surdos,
alguns professores e profissionais preocupados com tal situação, dispostos a dis-
cutir esses conceitos, para que a comunidade surda pudesse criar sinais a serem
partilhados entre surdos e intérpretes na vida universitária, alargando, sensivel-
mente, o espectro semântico de parte da comunidade surda com acesso ao ensi-
no superior (e daqueles com quem interagem) e dos intérpretes universitários.
Dessa forma, pode-se constatar que a Libras encontra-se em pleno uso e
em constante desenvolvimento, como todas as línguas vivas, e que conhecê-la
profundamente exige dedicação e estudos constantes.
Esperamos, com este capítulo, ter dado o primeiro passo para incentivar
cada vez mais pessoas a entrarem nesse campo de conhecimento.
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