A História de Lúcia e Paulo no Rio
A História de Lúcia e Paulo no Rio
(Grupo 1)
Glória Maria está sentada um uma cadeira no canto da sala e sobre a mesa a sua frente
estão várias cartas.
Ela se levanta e começa a ler a carta que estava escrevendo, enquanto anda pelo cômodo.
Lucíola é o lampiro noturno que brilha de uma luz tão viva no seio da treva e à beira dos
charcos. Não será a imagem verdadeira da mulher que no abismo da perdição conserva a
pureza d'alma?
Demais, se o livro cair nas mãos de alguma das poucas mulheres que leem neste país,
ela verá estátuas e quadros de mitologia, a que não falta nem o véu da graça, nem a folha
de figueira, símbolos do pudor no Olimpo e no Paraíso terrestre.
Novembro de 1861.
G.M
SEGUNDO ATO
(Grupo 2)
Entram em cena Paulo, Sá e Glória Maria lendo uma das cartas de Paulo.
G. M.(NARRADOR) - A primeira vez que vim ao Rio de Janeiro foi em 1855. Poucos dias
depois da minha chegada, um amigo e companheiro de infância, o Dr. Sá, levou-me à festa
da Glória, uma das poucas festas populares da corte.
PAULO - Acho que fui muito inocente ao não suspeitar a ausência de algum acompanhante.
Paulo e Sá vão em direção a Lucíola que está distribuindo moedas aos pobres.
DR. SÁ - Lúcia!
LUCÍOLA - Não há modos de livrar-se uma pessoa dessa gente! São de uma impertinência!
Lucíola nega.
LUCÍOLA - Em qualquer outra ocasião aceitaria com muito prazer; hoje não posso.
LUCÍOLA - O senhor sabe que não é preciso rogar-me quando se trata de me divertir.
Amanhã, qualquer dia, estou pronta. Esta noite, não!
(TERCEIRO ATO)
(Grupo 1)
G.M (NARRADOR)- Após a festa da Glória havia me encontrado com Lúcia várias vezes,
ela por sua vez fingia não me reconhecer em todos os nossos encontros, até que em uma
ocasião em um teatro tive coragem para falar com ela e a recordar-lhe de quem eu sou.
Depois daquele momento nós começamos a conversar.
PAULO - Há pouco mais de um mês. Cheguei justamente no dia em que a vi pela primeira
vez.
LÚCIA - Sério?!
PAULO - Se achar meio de estabelecer-me. Sou pobre, preciso fazer uma carreira; e a corte
oferece-me outros recursos, que não encontro em Pernambuco.
PAULO - Em 1853... Devo tê-la visto alguma vez! Nesse tempo era eu estudante e conhecia
todas as moças bonitas da cidade.
LÚCIA - Então já vê que não me podia conhecer! Demais, estive apenas uma tarde. Logo
tive que voltar para o navio.
LÚCIA - Da Europa. Apenas desembarquei, meti-me num carro, e fui passear. Vinte dias
embarcada! Sabe o que é isso? Tinha saudade das árvores e dos campos de minha terra,
que eu não via há oito meses! Nesse meu passeio o que mais me encantou foi uma linda
casa na Soledade, onde duas senhoras colhiam flores. Mandei parar o carro, e fiquei
olhando com inveja para a casa e as duas senhoras, pensando na vida tranquila e
sossegada que se devia viver naquele lugar.
PAULO - A senhora me faz saudades de minha terra. Lembrei-me de minha casa, e das
tardes em que passeava assim por aqueles sítios com minha mãe e minha irmã.
PAULO - Quem é que não tem uma irmã?! E minha mãe ainda é muito jovem para que eu
tivesse a desgraça de a ter perdido.
LÚCIA - Perdi a minha muito cedo e fiquei só no mundo, por isso invejo a felicidade
daqueles que têm uma família. Há de ser tão bom a gente sentir-se amada sem interesse!
G.M (NARRADOR)- Depois de uma longa conversa com Lúcia, sem ter arriscado um gesto
ou palavra duvidosa, desperdi-me.
LÚCIA - Já vai?
PAULO - Não posso ficar por mais tempo. Se a visita não lhe incomodar, voltarei outro dia.
LÚCIA - De jeito nenhum! Sua visita me agrada muito. Até amanhã, sim?
(QUARTO ATO)
(Grupo 2)
G.M (NARRADOR)- Encontrei-me à tarde com Sá no hotel onde costumávamos jantar.
SÁ - Ora! Intimamente!
PAULO - Tens toda a certeza de que ela seja o que me disseste na Glória?
SÁ - E essa? Pois duvidas?... Vá a casa dela, já te apresentei.
PAULO - Supunha que fosse apenas uma dessas moças fáceis, a quem contudo é preciso
fazer a corte por algum tempo.
SÁ - O tempo de abrir a carteira. Andas no mundo da lua, Paulo. Queres saber como se
corteja à Lúcia?... Dando-lhe uma pulseira de brilhantes.
PAULO - Não é sem motivo que te pergunto isso; encontrei-a há dias, e a sua conversa, os
seus modos, pareceram-me tão sérios!
SÁ - Eu lhe digo, Paulo; essas borboletas são como as outras, quando lhes dão asas,
voam, e é bem difícil então apanhá-las. O certo, acredita-me, é deixá-las arrastarem-se pelo
chão no estado de larvas. A Lúcia é a mais alegre companheira que pode haver para uma
noite, ou mesmo alguns dias de extravagância.
SÁ - Pois vá jantar comigo. Podes dormir durante o dia. Prometo que não perderás o teu
tempo.
(QUINTO ATO)
(Grupo 1)
G.M (NARRADOR) - No dia seguinte voltei a casa da Lúcia e achei-a ao piano.
PAULO - Continue!
LÚCIA - Não sei tocar, não! Estava brincando, não tinha o que fazer. Como está?
PAULO - Bem, obrigado. Já vê que a minha segunda visita não demorou muito.
LÚCIA - Tanto como na Glória. Ainda que se tivessem passado anos, creio que, em
qualquer parte onde me encontrasse com o senhor, o reconheceria.
PAULO - Por que motivo então fingiu ontem não se lembrar de mim, logo que entrei?
LÚCIA - Pois bem, eu lhe digo. Queria ver se ainda se lembrava do nosso primeiro
encontro.
PAULO - Duvidava?... Não tinha razão, talvez fosse eu o que melhor guardasse essa
lembrança.
PAULO - É um defeito meu. Não reparo nas roupas das moças bonitas pela mesma razão
do porque não se repara na moldura de um belo quadro.
LÚCIA - Que desculpa!... Eu reparei no seu traje, na cor de sua roupa, em tudo, até na sua
bengala? Não é essa; a outra era mais bonita; tinha o castão de marfim. Está vendo que me
lembro perfeitamente, e entretanto não tenho esses objetos diante dos olhos!
LÚCIA - O vestido, as joias, o penteado, o leque, aquele que o senhor apanhou. Nem desse
se lembrava! Só falta o chapéu! Quer vê-lo?
PAULO - Ah! já sei! O que eu pensava?... Mas ainda penso, acho-a hoje tão bonita ou mais
do que naquela tarde.
LÚCIA - Não é isso!
( Paulo abraça Lúcia de maneira vulgar e Lúcia fica desconfortável, Paulo percebe e se
afasta furioso.)
PAULO - Acabemos com isso, Lúcia. Sabes o que me traz à tua casa, se te desagrado por
qualquer motivo, diz francamente, que eu vou embora e não te aborrecerei mais. Se pensas
que valho tanto como os outros, não percas o tempo a fingir o que não é. Essa comédia de
amor pode divertir os mocinhos de dezoito anos e os velhos de cinquenta, mas te garanto
que não lhe acho a menor graça.
LÚCIA - Não seja tão injusto! Em que lhe pareço fingir? Já me perguntou alguma coisa que
eu lhe negasse? Já me recusei a um pedido seu?
LÚCIA - Não me ofendi; e a prova é que não dei sinal de desagrado, nem conservo o menor
ressentimento. Não me conhece!... Sei o que valho, e não sou capaz de iludir a ninguém,
muito menos ao senhor.
LÚCIA - Ah! não repare! Sofro do coração, às vezes sobe-me o sangue à cabeça, fico muito
pálida, e sinto uma dor aguda que me arranca lágrimas dos olhos!... Não é nada, passa
logo. Já passou!
SEXTO ATO)
(Grupo 2)
( Eles vão pro quarto e ela começa a tirar a roupa, Paulo fica indignado e joga a carteira
nela)
LUCÍOLA — Que importa? Contanto que tenha se divertido da minha mocidade! De que
serve a velhice às mulheres como eu?
CUNHA - A mais bonita mulher do Rio de Janeiro e também a mais caprichosa e excêntrica.
Ninguém a compreende.
PAULO - Conheço-a apenas de vista, porém me disseram que é uma boa moça, muito
amável...
CUNHA - Oh! Posso falar a esse respeito. Fui seu amante durante quatro meses.
CUNHA - Não a deixei. É seu costume; um belo dia, sem causa, sem o mínimo pretexto,
declara a um homem que as suas relações estão acabadas; e não há que fazer. Podem
oferecer-lhe muito dinheiro, é tempo perdido. Também no dia seguinte, ou no mesmo, de
uma hora para outra, toma outro amante que não conhece, que nunca viu.
CUNHA - Nem tanto. Há mulheres que, ou por interesse, ou por amizade, ou mesmo por
hábito, se inquietam com a ideia de que seu amante as abandone; mas para ela é
absolutamente indiferente. Tem dias em que está com um humor insuportável: fica uma
estátua, e não há forças humanas que possam arrancar dela um sorriso, uma palavra, um
movimento. Se o homem não possui grande dose de paciência para aguenta-la calado, ela
fecha a porta muito delicadamente, e manda-lhe dizer pela criada: “Que tenha a bondade de
deixá-la em paz para todo o sempre”. E uma vez dito isso, não volta.
CUNHA - É engano seu. A Lúcia não admite que ninguém adquira direitos sobre ela.
Façam-lhe as propostas mais brilhantes: sua casa é sua e somente sua; ela o recebe,
sempre como hóspede, nunca como dono. Na ocasião em que o senhor a toma por amante,
ela avisa de que tem plena liberdade de fazer o que quiser e de deixá-lo quando ela quiser,
sem explicações e sem pretextos, o que acontece sempre antes de seis meses. Está
entendido que lhe concede o mesmo direito.
CUNHA - Ela nunca pede nada, nem sequer um doce. Nunca a vi pedir um desses desejos
disfarçados que as mulheres pedem, se aproveitando da generosidade de seus
apaixonados. Se perguntam do seu gosto a respeito de algum objeto que lhe presenteará,
desconversa e não responde; aceita friamente o que lhe dão, e nada mais. Ora, com uma
mulher dessa natureza, que não oferece a mínima ocasião de prestar-lhe um serviço e
ganhar-lhe a amizade ou a gratidão, é possível ter direitos adquiridos?
PAULO - Há de sofrer com isso!... Tenho-a visto duas ou três vezes e sempre vestida de
forma simples. Não traz um brilhante; enquanto outras, que não valem tanto, andam
cobertas. Repare!...
CUNHA - Não é essa a razão! Nunca lhe faltam amantes; sei de grandes ricos no Rio de
Janeiro que se dariam por felizes se ela se decidisse ser sua amante. E para não ir muito
longe, embora não seja rico, caso ela ainda me quisesse…
CUNHA - Inteiramente. Vou-lhe contar. Passeávamos numa noite; vendo minha mulher na
janela, escondi-me involuntariamente no fundo do carro com receio de que me
reconhecesse. Era inútil, porque estava distraída olhando para o mar. Entretanto Lúcia, por
maldade, mandou ao cocheiro que parasse, saltou do carro, e esteve muito tempo, em pé,
na grade de frente para minha casa. Eu não sabia o que fazer, me entende? Não queria
mostrar-me, e tinha medo de um escândalo. Felizmente ela foi caminhando, e a alguma
distância mandou parar um carro que passava; ele a acompanhou; chegou perto de mim e
disse-me: “Não gosto de gente que se esconde, meu senhor. Vá olhar para o mar ao lado
de sua mulher; é mais inocente e mais poético. De amanhã em diante não nos
conhecemos”. Quis impedi-la, mas ela logo entrou no carro e saiu em disparada. Voltei
nessa mesma noite e nos dias seguintes à sua casa, mas sempre encontrei a porta fechada
para mim.
PAULO - Se não a procurasse, ela o mandaria chamar no outro dia. É como dizem: só
queremos quem não nos querem.
(OITAVO ATO)
(Grupo 2)
CUNHA - São águas passadas. Estávamos falando da simplicidade de seu trajar. A razão é
outra;pura avareza.
PAULO - Não disse que ela não se deixava levar pelo interesse? Não compreendo. Uma
mulher que rejeita ofertas brilhantes e nunca pede nada, nem mesmo uma coisa
insignificante... Essa mulher não pode ser avarenta! O senhor conserva algum
ressentimento. E em todo o caso, ainda que ela fosse de uma mesquinhez sórdida, as joias
não se gastam com o uso.
CUNHA - Também duvidei por muito tempo, mas tive a prova. Há aqui um Sr. Jacinto que
fez sociedade com ela, tudo que lhe dão, até roupas, é imediatamente reduzido a dinheiro.
PAULO - Deve guardar para a velhice, se lá chegar.
(NONO ATO)
(Grupo 1)
NARRADOR - Nós estávamos tão inertes naquela conversa que nem percebemos que a
peça havia terminado. Logo após fui de encontro a Lúcia, que estava cercada de
admiradores, esperei pacientemente todos saírem para ir até ela.
LUCÍOLA - Não tinha nem uma moça bonita do seu conhecimento a quem dar essas flores
tão lindas?
PAULO - Ficam muito bem em você; parecem ter nascido aí entre as rendas e os cabelos.
LUCÍOLA - Disse isso à toa. Não tenho paciência, nem gosto para essas coisas! Agora foi
só um pensamento e já me está aborrecendo.
NARRADOR - Desta vez, diferente das outras, sua voz tinha um tom ríspido, me mostrando
de forma transparente a cortesã que era.
LUCÍOLA - Não.
LUCÍOLA - Ah! Não me lembrava que ele é seu amigo! E o senhor, também vai?
LUCÍOLA - Nós iremos nos divertir muito, o Sá tem gosto para festas.
NARRADOR - Me distrai por um curto momento e quando percebi Lúcia tinha desaparecido.
(DÉCIMO ATO)
(Grupo 2)
NARRADOR - Cheguei por volta da meia noite, o jantar não tinha nada de especial ainda
que assustasse os bons costumes.
Havia vários convidados de nomes importantes, nós bebemos, conversamos.
Lúcia que estava tão animada e alegre agora estava distraída, enquanto eu a admirava, ela
olhou para mim e deu-me um sorriso decaído.
LUCÍOLA - Não lhe disse que nós iríamos nos divertir muito?
PAULO - Contudo preferia estar só contigo. Todo o prazer da sua tão amável companhia,
todo o brilho de teu espírito, nada disso faz esquecer a manhã de ontem!
LUCÍOLA - Ora! Há tanta mulher bonita! Qualquer dessas vale mais do que eu, acredite!
Além de que, quando tiver bebido alguns copos de álcool e sentir-se eletrizado, saberá o
senhor de quem são os lábios que toca? Não! É uma mulher! Uma presa em que sacia o
apetite! Que importa o nome? Sabe o nome dos animais que lhe serviram nesta ceia?
Conhece-os?... Nem por isso as comidas lhe parecem menos saborosas.
LUCÍOLA - Que mal faz? Comprará outras horas de igual prazer: custam-lhe tão pouco!
PAULO - Sei tudo, mas não o quero saber e menos ainda da tua boca! Não sou para ti mais
do que os outros; não valho nada para você, porém deixa-me a venda sobre os olhos, eu te
peço! Sinto-me feliz com ela.
LUCÍOLA - O que não o impediria de ver-me com indiferença passar dos seus braços aos
de qualquer desses homens, daquele velho por exemplo.
LUCÍOLA - O que tenho eu feito toda a minha vida? Logo ou alguns dias depois... Questão
de tempo!
LUCÍOLA - Odeio o fingimento, não gosto de passar pelo que não sou. É tão ridícula essa
comédia do amor, que representam os velhos e os meninos!
LUCÍOLA - O Sr. Paulo fazendo-me a corte!?... Seria soberanamente ridículo para nós dois!
PAULO - É a segunda vez que repete uma palavra dita por mim num momento de
indignação. Se te ofendi, me perdoe.
SÁ - Meus senhores, confesso que a minha vaidade de anfitrião, amador das artes, está um
tanto humilhada! Ainda não disseram uma palavra a respeito dos meus quadros!
COUTO - De quem é a culpa? Essa ceia maravilhosa e a amabilidade dos convidados não
me permitiram prestar atenção nestas obras, mas são realmente incríveis essas pinturas!...
PAULO - Digo que vi ontem um quadro desse gênero, mas que eu não trocaria por todas as
tuas pinturas! Era uma mulher, porém mais viva que todos esses quadros juntos, tão viva
que até mesmo podia sentir a palpitação de seu coração ou a macieza de sua pele.
PAULO - Não é um artista de todos os tempos e de todos os países; é o artista divino que
fez as flores, as estrelas e as mulheres!
COUTO - Ah! nesse gênero de pintura tenho visto o melhor que é possível!
LUCÍOLA - Eu aposto que o Sr. Silva, como os poetas, embelezou o seu quadro. Viu o que
sentia, mas não o que era.
COUTO - Magnífico!
PAULO - Eu te suplico.
SÁ - O que é isso? Vergonha de Paulo? É a única pessoa nova que está aqui hoje.
PAULO - Ah! não é a primeira vez?
SÁ - Será a primeira vez que copiará esses quadros, pois não há oito dias que os comprei,
mas Lúcia já nos mostrou, não uma, porém muitas noites, sua beleza através de estátuas.
Não é verdade, meus senhores?
(Lúcia se solta do aperto de Paulo e quando ela vai subir na mesa ele se levanta e vai
embora, Sá vai atrás)
SÁ - Que é isso? Porque não fica? Não gostou? O que viste era mais perfeito!
PAULO - Com certeza não!... Esses quadros são mais expressivos e naturais! São sublimes
de verdade! Porém sinto-me sufocado pela atmosfera desta sala,
preciso de ar.
LUCÍOLA - Tens razão, Laura, perdi a vergonha para ganhar o dinheiro de que precisas; e
desci a esse ponto, Nina, desde que me habituei a desprezar os insultos tanto como o corpo
que nós costumamos vender.
LUCÍOLA - Dignidade de quem despreza a si mesma!... O que é este corpo que lhes
mostrei há pouco, e que lhes tenho mostrado tantas vezes! O que vale para mim? O
mesmo, menos ainda do que um simples vestido que uso. Sinto-me mais nua agora do que
naquela hora, mesmo estando nesta escuridão e coberta. Sua alma vê o que fui e o que
sou, e tenho vergonha!
LUCÍOLA - Eu tinha o direito de recusar? Não foi para isso que se deu essa ceia!
LUCÍOLA - Não, mas adivinhei. Queria que lhe roubasse a surpresa que estava preparada
para a festa de seu amigo? Além do mais, você iria saber, iriam lhe contar, se não já
contaram, sobre toda a minha vida.
PAULO - Não me incomodaria tanto como o que vi.
PAULO - Não sabia o que ia acontecer, mas suspeitava que te encontraria aqui; porém
nunca pensei que homens de educação achassem prazer em obrigar uma pobre mulher a
semelhante degradação!
LUCÍOLA - Eles compram o seu prazer onde o acham; a degradação e a miséria é de quem
recebe o preço. Senti-o hoje! Nunca isso custou-me tanto!
PAULO - Lúcia, me promete... Sei que não sou nada para ti, porém em nome da indignação
que senti e do interesse que sinto por você, promete-me que nunca mais fará coisa
semelhante.
LUCÍOLA - Se não tivesse vindo talvez olhasse para mim como das primeiras vezes que
nos vimos, ao menos ainda poderia dar-lhe um pouco de prazer, já que nada mais tinha
para dar-lhe.
PAULO - Te quero para sempre! Quero que sejas minha e minha só.
LUCÍOLA - Sim! Esqueça tudo, e nem se lembre que já me viu! Seja agora a primeira vez!...
Os beijos que lhe guardei ninguém nunca os teve! Esses, acredite, são puros!
LUCÍOLA - Tenha a bondade de dizer: quem lhe deu o direito de pensar que me incomoda?
LUCÍOLA - Pois a sua mente te enganou, fique sabendo que o senhor nunca incomoda.
Nunca, ouviu?
LUCÍOLA - Ah! já lhe disseram que sou volúvel! Eles têm razão de o dizer; porém, ainda
assim não me julgue pelo que lhe contarem.
PAULO - Não te julgo, nem quero julgar. Conheço-te de ontem; de ontem somente, você
mesma disse!
LUCÍOLA - Pois essa que fui ontem continuarei a ser, já que Deus não quis que fosse a
outra, que viu da primeira vez.
PAULO - A que vi pela primeira vez não era mais bonita do que a de ontem.
LUCÍOLA - Quem sabe? Mas diga-me, você pensou hoje alguma vez em mim, ou
esqueceu-se quando nos separamos?
(Paulo da as duas caixas com as joias pra Lúcia, ela abre a caixa com a joia mais cara,
porém fica com um rosto apático e de desprezo)
LUCÍOLA - Que bonito, meu Deus! Quero ver como me fica! Vou usá-lo sempre!
PAULO - O que significa essa admiração fora de propósito, Lúcia? Estou arrependido de te
haver oferecido semelhante bijuteria; mas achei que iria me perdoar por causa da outra joia,
que não me parecia muito indigna de tua beleza. Não sou rico e há pouco a indiferença com
que recebeste essa pulseira fez-me sentir bem amargo em relação a minha pobreza. Estou
convencido que o fizeste sem querer.
PAULO - Torno a te pedir, Lúcia; nunca me digas o que não sentes. Tem o mau hábito de te
rebaixares.
LUCÍOLA - Se eu quisesse parecer melhor do que realmente sou e fingir sentimentos que
não posso ter, me tornaria ridícula. Talvez o senhor fosse o primeiro a se cansar de mim.
PAULO - Tudo isso, sabes o que é? É orgulho ofendido por algumas palavras que me
escaparam anteontem. Não negues, já te conheço melhor do que tu mesma.
LUCÍOLA - Experimente!
PAULO - Não, dizem que é muito caprichosa e não há nada que eu respeite mais do que os
caprichos de uma mulher. Seja quem tu é, somente sentiria que fez excessos como os de
ontem.
PAULO - Acredito nele. Portanto não há necessidade de se humilhar diante de mim, que
não tenho direito de te pedir satisfação de tua vida. Não te pergunto pelo passado. O que te
peço são alguns instantes de prazer. Quando te aborrecer, me mande embora.
LUCÍOLA - O senhor nunca me aborrece! Se esse prazer que lhe dou vale alguma coisa,
tome dele quanto queira; pertence ao senhor.
SÁ - Com Lúcia, já se sabe! Ainda está muito atrasado, Paulo. Tens o amor doce, bom e
ainda assim prefere um amor pobre e podre.
PAULO - Sou extremamente egoísta nessa questão, meu amigo. Só compartilho o amor
com a mulher que o sente.
SÁ - São gostos; mas ficaste sabendo o que é Lúcia, e entretanto ela estava de mau humor.
Num dos seus bons dias, não tem que invejar às cortesãs gregas ou às messalinas
romanas.
PAULO - Ela já contou-me tudo isso, Sá.
SÁ - Duvido! Sou seu amigo, por isso te aviso. É uma mulher que só pode ser apreciada de
copo na mão e charuto na boca depois de ter no estômago dois litros de champanha pelo
menos. Nessas ocasiões torna-se sublime! Fora disso é excêntrica, estonteada e
insuportável. Ninguém a compreende.
NARRADOR - Era uma carta, quando a tirei do envelope caiu algumas notas de dinheiro.
Era de Lúcia, e dizia: “O senhor se enganou. Sou eu que lhe devo e tanto que não poderei
pagar nunca.” Senti um bem-estar inexplicável ao ler aquela carta.
SÁ - O que me diz?
PAULO - Afirmo-te que não sabia disso. Lúcia seguiu o seu próprio impulso, arrependeu-se
do que fez e te agradece a lição. Nada mais natural.
SÁ - Somos ambos moços, Paulo; porém sou três anos mais velho e oito anos morando no
Rio. A corte é um lugar onde se envelhece depressa; por isso não te admires se falo como
um homem de cinquenta anos. Quer se divertir? É justo, é mesmo necessário, porém não
leve Lúcia a sério.
SÁ - Não sabes o quanto é terrível quando uma cortesã se apaixonas por um homem,
buscando todo o amor que não lhes pertence e iludindo seus amantes.
SÁ - Bem, cumpri o meu dever de amigo; cumpre o teu de homem sensato. Adeus.
NARRADOR - A tarde fui me encontrar com Lúcia, mas à mesma estava discutindo com
uma das cortesãs do jantar, Laura. Elas tiveram uma breve conversa e Laura foi embora
logo após.
PAULO - Por que estavas tão zangada?
PAULO - Querias me esconder isso, mas entendi tudo. Acabou de fazer um favor à uma
mulher que lhe ofendeu.
PAULO - Em todo o caso é preciso muita coragem para pedir um favor à uma pessoa que
você ofendeu.
LUCÍOLA - Não.
LUCÍOLA - É o mesmo.
LUCÍOLA - Que teimoso! Meu Deus! Quer saber tudo? Ontem eu lhe mandei dinheiro para
que conseguisse pagar suas contas. Está contente? E ainda assim não foi uma boa ação,
quando chegar a minha vez de precisar, ela me dará.
LUCÍOLA - Na verdade, disse sem motivo! Não precisarei de nada, senão que venha me
ver! Isso fique certo que lhe pedirei todos os dias, mas vou deixar dois dias para ver seus
amigos... E não é o suficiente? Bastava um. E não digas a ninguém sobre isso, nem se lhe
perguntarem, nem mesmo ao Sá. Seria o primeiro a me julgar.
PAULO - Bem, Lúcia, tu queres que eu viva quase em tua casa. Mas é preciso saber o que
serei eu dela!
PAULO - O que achou da festa? Há muito tempo não me divirto tanto!... Rostos
encantadores, excelente serviço, nada falta!
SÁ - Deixa esses elogios para depois. Compreendes que não te chamei para ouvir sua
opinião sobre a reunião do Sr. R...
PAULO - A mim?
SÁ - Porque se admira? Só porque não os dou, pensa que não posso pedi-los? Ao
contrário!
PAULO - Vejamos, que negócio importante é esse que exige a minha opinião?
SÁ - Você acha que um amigo deve falar ao outro tudo o que se diz a seu respeito? Vamos;
a tua opinião sincera!
PAULO - Digo que é o maior serviço que possa fazer uma amizade.
SÁ - Pode ser que tenha razão; mas ouve primeiro. Há aqui no Rio certa classe de gente
que se ocupa mais com a vida dos outros do que com a sua própria. Essa gente já sabe
quem tu és, quanto ganha, onde mora e como vive.
PAULO - É fácil saber, não preciso esconder. Mas ainda assim, Sá, o que pretendes com
isso? Que me importa o que pensam a meu respeito? Não tenho reputação a perder.
SÁ - Mas tem reputação a ganhar. És amante de Lúcia e sabes o que se pensa e o que se
diz por ai? Que está fazendo Lúcia se sacrificar por ti... que está vivendo à suas custas!
SÁ - Que ouviu de outro e outro. Procura em um lago a gota de água que o começou?
NARRADOR - Depois da festa fui para casa de Lúcia e nós discutimos, eu lhe disse para
arrumar amantes e continuar com seus costumes antigos, não queria que pensassem que
ela me sustentava. No dia seguinte ela apareceu acompanhada de Couto e isso de alguma
forma irritou-me, então convidei Nina, uma das prostitutas do jantar, para um encontro.
NINA - Estou muito zangada com o senhor! Me fez esperar até não sei que horas!
NINA - Ah! Achou que o colar que me mandou paga o prazer de sua companhia?! Se
enganou.
PAULO - Colar?!
NINA - É muito lindo. Não há outro igual, a Lúcia não tem um melhor. O senhor nem sabe
como lhe agradeço.
NINA - Ora, não se faça de desentendido! Já não se lembra de que me mandou pelo seu
criado essa manhã? Ah! percebo!Queria me ver usando! Tem razão.
NARRADOR - Ela veio com uma caixa de joia. Quando ela abriu reconheci o colar de
brilhantes que dei a Lúcia.
PAULO— Estas joias são de muito valor!... Mas falta uma, a mais insignificante! Não era
digna de ter esse colar no seu pescoço?! Deu de esmola a uma mulher atoa como Nina e
deu uma lição ao bobo que teve a ousadia de oferecer-lhe semelhante miséria.
LÚCIA — Foi uma loucura, e eu mereço toda a sua cólera. Mas para que me fazer penar
assim, meu Deus! Que prazer essa mulher poderia lhe dar?... Não tinha a mim?
LÚCIA — É tão diferente! Não foi você que me disse para fazer isso? E ainda assim,
esperei durante todo o tempo que o senhor me desse algum sinal de desgosto para voltar
correndo para você.
PAULO— Quem deve pedir perdão como todas as vezes, Lúcia, sou eu, mas não o mereço.
Sou um miserável, indigno de ti. Eu só com o meu orgulho estúpido fui causa do que temos
sofrido, é justo que a punição recaia sobre mim unicamente. Se a ideia de que tive um
instante aquela mulher, te aflige, expele essa lembrança de sua memória.
LÚCIA — Tudo bem. Não fale mais nisso! Acabou, foi um pesadelo que tivemos. Esqueça
tudo!
PAULO— Nunca mais, eu juro, Lúcia, tu me ouvirá dizer as palavras te falei ontem; nunca
mais também me verás te rejeitar, ou ao seu amor, por causa das calúnias de alguns
miseráveis.
NARRADOR - Ficamos bem após essa conversa. Acho que com Lúcia era sempre assim,
uma hora estávamos muito bem e já na seguinte discutíamos. Nunca algo sólido.
( VIGÉSIMO ATO)
NARRADOR - Talvez não se lembre de um Jacinto, cujo nome, então desconhecido para
mim, ouvira uma vez da boca de Lúcia. O encontrava agora todos os dias na casa de Lúcia
e desde a primeira vez antipatizara com a sua enjoativa figura.
PAULO - Que importantes negócios são esses que eu não posso administrá-los?!
LUCÍOLA - Compras... Não tenho outros. Para que incomodá-lo com isso?
PAULO - Também sou ciumento, não quero que ocupes outra pessoa além de mim.
LUCÍOLA - Esse homem é quase um criado.
NARRADOR - Saí da casa de Lúcia para tomar um ar e andando pelas ruas me encontrei
com Sá, ele me convidou para jantar e depois de muita insistência sua eu aceitei. Quando
passeávamos numa parte mais afastada da cidade vimos Jacinto de frente para uma
pequena casa.
SÁ - Como! Lúcia vem morar numa casa térrea e de duas janelas? Não é possível.
JACINTO - Também não acreditei quando ela me falou nisso! Achei que estava brincando;
porém é negócio sério.
JACINTO - E mandou prepará-la. Já está mobiliada e pronta. Devia mudar-se hoje; não sei
que transtorno houve. Ficou para a próxima semana!
SÁ - Está bem! São luxos de passar o verão no campo! Não lhe dou um mês para que
esteja arrependida e volte para a sua casa da cidade.
JACINTO - Qual! Tem muito dinheiro e quer ter o prazer da vida tranquilamente. Doidice,
podia fazer uma fortuna e ajudar os outros.
NARRADOR - Depois daquela conversa que observei, voltei correndo para a casa de Lúcia.
LUCÍOLA - Deixamos nossa cidade para vir morar na corte; tinham dado a meu pai um
emprego nas obras públicas. Vivemos dois anos ainda bem felizes. À noite toda a família se
reunia na sala, para contar histórias e brincarmos. Ainda sinto saudades de ouvir “Maria da
Glória, vem jantar.”
LUCÍOLA - É verdade! Foi um ano terrível. Meu pai, minha mãe, meus irmãos, todos
ficaram doentes, só quem não adoeceu foi minha tia e eu. Uma vizinha que veio nos ajudar
adoeceu à noite e não amanheceu. Ninguém mais se animou a fazer-nos companhia.
Estávamos na miséria; o dinheiro que nos tinham emprestado mal dava para comprar a
comida. O médico que nos fazia a generosidade de nos tratar caiu de cavalo e estava mal.
Para cúmulo do desespero, minha tia uma manhã não pôde levantar da cama, estava
também com a febre. Fiquei só! Uma menina de quatorze anos para tratar de seis doentes
graves, e achar recursos onde não havia. Não sei como não enlouqueci.
( Lúcia passa a mão no cabelo como se estivesse desesperada com a lembrança e Paulo
aperta sua mão)
LUCÍOLA - Tudo quanto era possível, meu Deus, sinto que o fiz. Já não dormia;
sustentava-me com uma xícara de café. No momento de repouso ia à porta e pedia aos que
passavam. Pedia para os meus pais doentes, não tinha vergonha. Uma tarde perdi a
coragem; meu irmão estava na agonia, minha mãe despedira-se de mim, e Ana, minha
irmãzinha, que eu tinha criado e amava como minha filha, já nem sabia mais quem era.
Passou um vizinho. Lhe contei tudo, ele me consolou e disse-me que o acompanhasse à
sua casa. A inocência e a dor me cegavam e eu dormi com ele por dinheiro… Esse homem
era o Couto.
PAULO - Ah!
NARRADOR - Lúcia começou a chorar, desolada com aquelas lembranças. E eu, sem
saber o que fazer e sabendo que não existiam palavras para consolar dor tão profunda,
beijei a face de Lúcia.
LUCÍOLA - Obrigada! Alguma coisa me diz que mereço esse consolo. Terei forças para
concluir. O dinheiro ganho vendendo o meu corpo salvou a vida de meu pai e trouxe-nos um
raio de esperança. Quase que não me lembrava do que se tinha passado entre mim e
aquele homem; a consciência de me ter sacrificado por aqueles que eu adorava fazia-me
forte.
LUCÍOLA - Pouco tempo depois minha família quase inteira faleceu, felizmente meu pai
estava melhor e saiu para tratar do enterro. Ele não tinha dinheiro, lhe mostrei as últimas
moedas de ouro que me restavam. “Quem te deu este dinheiro?... Roubaste?...”Contei-lhe
tudo, tudo que eu sabia na minha inocência. Ele compreendeu o resto. Expulsou-me!
LUCÍOLA - Meu pai julgava que eu tinha um amante e iria viver com ele! O único familiar
que me deu um sorriu e me abraçou quando fui embora foi o anjinho que Deus me dera,
Ana. Sentei-me na calçada. Era bastante tarde já, quando uma mulher que se recolhia me
perguntou o que fazia ali àquelas horas. “Perdi meu pai e minha mãe”, respondi, “não tenho
onde viver.” Ela levou-me consigo. Não me esqueci dos meus. A mulher mandava
constantemente pessoas a casa saber notícias e levar os socorros necessários: nada faltou,
nem médico nem enfermeiros. A paz voltou enfim; e eu tive o supremo alívio de comprar
com a minha desgraça a vida de meus pais e de minha irmã.
LUCÍOLA - Foi então que aceitei agradecida a oferta que me fizeram de levar-me à Europa.
Um ano de ausência devia quebrar os últimos laços que me prendiam. Meus pais choravam
sua filha morta, mas já não se envergonhavam de sua filha prostituída. Quando voltei, só
restava de minha família uma irmã, Ana, meu anjo da guarda. E aqui está a minha vida,
vendendo meu corpo e tendo nojo de mim mesma e daqueles que se dizem meus amantes,
tentando desesperadamente sair dessa vida miserável.
(Paulo abraça Lúcia, enquanto ela chora e limpa as lágrimas de seus olhos)
LUCÍOLA - Se eu ainda tivesse junto de mim todos os entes queridos que perdi, veria
morrerem um a um diante de meus olhos e não os salvaria por tal preço. No passado tive
força para sacrificar o meu corpo virgem; hoje, depois de cinco anos, sinto que não teria a
coragem de profanar a castidade de minha alma. Não sei o que sou, sei que começo a
viver, que ressuscitei agora. Ainda duvidará de mim?