21º Encontro ANPUH-Rio: História e Diversidade
21º Encontro ANPUH-Rio: História e Diversidade
COMISSÃO CIENTÍFICA
CONFERÊNCIAS..........................................................................................................08
MESAS REDONDAS......................................................................................................09
LANÇAMENTO DE LIVROS............................................................................................14
MINICURSO.................................................................................................................24
PÔSTER VIRTUAL..........................................................................................................25
SIMPÓSIOS TEMÁTICOS...............................................................................................26
Apresentações Orais
UNIVERSIDADE UNIGRANRIO
Avenida Professor José de Souza Herdy, 1216
Jardim Vinte e Cinco de Agosto – Duque de Caxias – RJ
Entrada pelo Shopping UNIGRANRIO
6
FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA BAIXADA FLUMINENSE (FEBF)
R. Gen. Manoel Rabelo, s/n
Vila São Luís – Duque de Caxias – RJ
Apoio:
CREDENCIAMENTO E REGISTRO DE FREQUÊNCIA
Lista de Leitura do
Lista de
frequência QR-code e
Credenciamento presença
física no preenchimento
MODALIDADE presencial
Simpósio do formulário
virtual
(ação única) (a cada
Temático
(a cada sessão)
digital
(ação diária)
atividade) 7
COORDENADORES
DE SIMPÓSIO X X X
TEMÁTICO
APRESENTADORES
DE COMUNICAÇÃO X X X
ORAL
APRESENTADORES
DE PÔSTER X
VIRTUAL
PARTICIPANTES DE
MINICURSO
X
OUVINTES X X
Apoio:
CONFERÊNCIAS
Segunda-Feira
08/07/2024 (18:00-20:00)
Sexta-Feira
12/07/2024 (18:00-20:00)
Apoio:
MESAS REDONDAS
Terça-Feira
09/07/2024 (18:00-20:00)
MESA 01 (FEBF)
Escravidão, História Pública e Reparação
______________________
9
MESA 02 (UNIGRANRIO)
Visões sobre a propriedade e o rural: historiografia e ofício do historiador
______________________
MESA 03 (UNIGRANRIO)
Ditadura, Memória e Cidadania
Apoio:
Quarta-feira
10/07/2024 (18:00 - 20:00)
MESA 04 (FEBF)
Baixada Fluminense: educação, historiografia e diversidade
______________________
10
MESA 05 (UNIGRANRIO)
Humanidades Digitais
______________________
MESA 06 (UNIGRANRIO)
A história na escola: reformas curriculares e o novo ensino médio
Apoio:
Terça-feira
09/07/2024 (10:00 - 12:00)
11
Apoio:
Quinta-feira
11/07/2024 (13:30 - 15:30)
12
Apoio:
Quinta-feira
11/07/2024 (16:00 - 18:00)
13
Apoio:
Sexta-feira
12/07/2024 (18:00 - 20:00)
LANÇAMENTO DE LIVROS
O lançamento de livros será realizado logo após a Conferência de Encerramento,
no hall do Auditório da Universidade UNIGRANRIO. Veja os títulos a serem
lançados:
A cidade e o poeta:
diálogos com o
14
historiador Antonio
Edmilson
Apoio:
A culpa não é sua!
15
As Outras Faces do
Sagrado:
Protestantismo e
Cultura na Primeira
República Brasileira
Apoio:
As propriedades e suas
dimensões: estudos
sobre Ciência, História
e Memória
ANPUH-RIO/NUPEP. Rio
de Janeiro. 2024
16
De ‘Colina Sagrada’ a
‘Dente Cariado’: a
modernidade carioca e
o desmonte do Morro
Castelo (1822-1922)
Antônio Edmilson M.
Rodrigues | Luciene
Carris
Apoio:
Educação Básica;
teorias, experiências e
aprendizado
Alexandre de Salles |
Lucimar Felisberto dos
Santos (Org.)
Afrodiálogos. Rio de
Janeiro. 2022
17
Entre a escravidão e a
liberdade: Africanos e
crioulos nos tempos da
Abolição no Brasil
(1870-1910)
Ramalhos Produções
Acadêmicas. Osasco.
2023
Apoio:
Fronteiras da
escravidão: da África ao
cemitério de pretos
novos de Santa Rita no
Rio de Janeiro
Editora do Senado
Federal. Brasília. 2024
18
Gol de letra
Liliane Mesquita
Edição Independente.
Duque de Caxias. 2022
Apoio:
História da Imigração no
Brasil: conversas com
pesquisadores
FGV/Faperj. Rio de
Janeiro. 2024
19
História e Turismo: um
olhar sobre a cidade de
Juiz de Fora, MG
(1900-1930)
Inácio Botto
Apoio:
Histórias do Turismo no
Rio de Janeiro
20
Libertação e Luta:
reflexões
contemporâneas sobre
o pensamento de Paulo
Freire
Apoio:
O esquecimento das
desavenças passadas: o
processo de
Independência do Brasil
no Projeto Resgate
"Barão do Rio Branco".
Documentos do Arquivo
Histórico Ultramarino
de Lisboa
Apoio:
Qual é a sua forma?
Liliane Mesquita
Edição Independente.
Duque de Caxias. 2023
22
Raízes da Sabedoria:
Borí pedagógico e
individualização nos
saberes ancestrais do
povo negro
Apoio:
Travestis em todos os
lugares: resistências,
alianças e ativismo
Amadeu Cardoso do
Nascimento
23
Turismo e história em
perspectiva: revisitando
as comemorações da
Independência e da
Semana de Arte
Moderna
Telha/Faperj. Rio de
Janeiro. 2024
Apoio:
Quarta-feira
10/07/2024 (10:00 - 12:00)
MINICURSO
(atividade virtual)
Leandro Silveira
(PPGHS FFP/UERJ | SEEDUC)
Objetivos do minicurso
Através do minicurso buscaremos abordar o samba, as escolas de samba e as
práticas sociorreligiosas afrobrasileiras como práticas socioculturais que é ao
mesmo tempo: lazer, cultura, expressão de fé e religiosidade, mas também arma
política e saída econômica, ou seja, é uma prática social que precisa ser analisada
24
em seus múltiplos aspectos e conexões com o todo social. Tendo como base de
análise a história em amplo diálogo com a Antropologia, a Arte, a Geografia, o
Jornalismo.
O minicurso foi pensado para ser executado em duas partes:
I- Os sambas, os batuques de Momo, as macumbas entre 1905 e 1950 na zona
Portuária, no Estácio, no Salgueiro, em Mangueira, em Madureira e Osvaldo Cruz.
II- Niterói e São Gonçalo: Entre as décadas de 1930 a 1960: Boêmia, os Blocos
Carnavalescos, as primeiras Escolas de Samba... o samba firma sua pemba. As
agremiações e seus componentes enfrentaram lutas para se firmarem e projetarem
suas identidades negras em um contexto social diverso.
[Link]
Apoio:
Segunda-feira
08/07/2024 (10:00 - 12:00)
PÔSTER VIRTUAL
(atividade virtual)
Apoio:
SIMPÓSIOS
TEMÁTICOS
ENSALAMENTO DOS SIMPÓSIOS TEMÁTICOS
Apoio:
ST 21: Impérios Ibéricos no Antigo Regime: política, sociedade,
J504
economia e cultura
ST 22: Instrumentos e artefatos "científicos": agentes, práticas e
J505
circulação das ciências nos séculos XVII ao XIX
ST 23: Mapeamento, memórias e histórias do solo afro-indígena do Rio
J505
de Janeiro entre os séculos XIX e XX
ST 24: Marxismo e História: Luta de Classes, Democracia, Igualdade e
J506
Diversidade
ST 25: Militares na História: Complexidades Históricas, Acontecimentos,
J606
Pesquisas e Ensino sobre os Militares na História
ST 27: Mulheres em espaços associativos do Brasil Republicano J508
ST 28: Mundos do Trabalho e Movimentos Sociais – História Social e
J507
experiências de classe, raça e gênero no século XIX, XX e XXI
ST 29: O estudo do Rural no Brasil: História, democracia, igualdade e
J508
diversidade
ST 30: Paisagem, memória e diversidade nas cidades fluminenses: entre o
patrimônio de pedra e cal, material e o intangível, imaterial de indígenas, J502 28
quilombolas e imigrantes que conformam nossa paisagem cultural
ST 31: Patrimônio, Preservação, Ações Educativas e Ensino de História J607
ST 32: Por uma História insurgente: o lugar do negro, indígenas e das
J608
mulheres no currículo escolar
ST 33: Propriedades e Tecnologias: práticas científicas em debate
J509
(séculos XIX ao XXI)
ST 34: Refúgio, migração e exílio em tempos de guerra e outras crises
J601
humanitárias
ST 35: Visões da Ásia: historiadores brasileiros e estudos asiáticos J509
Apoio:
ST 01: A BNCC e os currículos de História: múltiplas
interseções
Coordenação:
Teresa Vitória Fernandes Alves (Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro), Renata Rodrigues Brandão
(Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
29
Renata Rodrigues Brandão (Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro)
O presente trabalho tem como objetivo abordar o conceito de decolonial, ensino decolonial e a sua
ausência/presença nos materiais didáticos de história. A análise será focada no material didático de história
produzido e ofertado pela rede municipal do Rio de Janeiro, dos anos 2023 e 2024. Dissertarei sobre o conceito
e pensamento decolonial na perspectiva de apresentar o modo como as questões sobre racismo, feminismo e
orientação sexual são inerentes a ele, bem como, o pensamento decolonial se vincula a filósofos e
pesquisadores latino-americanos. Se só faz sentido pensar o decolonial em relação a colonialidade, serão
enfatizados os conteúdos que fazem referência explicitamente a conquista e a colonização da América. Assim
busca-se notar o modo como os estudos da própria colonização brasileira pelos europeus dialoga ou não com
a colonização da América Latina. Continuamos invisibilizando a américa latina e sua relação com a nossa
história? Quais são os obstáculos que essa invisibilidade proporciona para se pensar a história dos nossos
povos originários? De que modo o ensino da colonização brasileira desarticulado ao da América latina
corrobora para darmos continuidade ao racismo epistêmico e a um conteúdo eurocêntrico?
Em tempos atuais torna-se cada vez mais necessária a implementação de políticas públicas educacionais de
promoção da equidade étnico-racial. Nessa empreitada, as pautas dos Povos Roma (Povos Ciganos)
apresentam avanços com a proposta de obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Cigana Brasileira no
currículo escolar (PL 1387/2022). Os povos ciganos integram a categoria dos Povos e Comunidades
Tradicionais brasileiros, que atualmente reivindicam reconhecimento e direitos sociais. A situação de
vulnerabilidade dos ciganos é resultante do anticiganismo, da falta de investimento em políticas públicas e do
desconhecimento de sua história milenar. Variadas fontes históricas (decretos régios, correspondências
ultramarinas, relatos de viajantes, iconografias, tradição oral) comprovam que a presença cigana no Brasil se
iniciou com a chegada dos Calons degredados durante primeiro século de colonização portuguesa na América.
Nas cidades coloniais do Rio de Janeiro e de Salvador, os povos ciganos construíram territorialidades étnicas,
integraram as fortificações costeiras, trabalharam em obras públicas e realizaram diversos espetáculos
Apoio:
culturais, originando a tradição circence na América. Ora, se os povos ciganos há séculos participam dos
processos históricos de formação do Brasil, por que aprendemos tão pouco sobre as suas contribuições?
Afinal, o que sabemos sobre os povos ciganos brasileiros? Onde estão os povos ciganos nos livros didáticos?
Com base nessas questões centrais a presente comunicação problematizará a construção histórica da
categoria dos povos genericamente conhecidos como “povos ciganos” e apresentará a importância da
epistemologia decolonial para a consolidação do campo da História Romani (História Cigana) e para o
desenvolvimento de materiais educativos voltados para o Ensino de História e Culturas dos Povos Ciganos nos
bancos escolares brasileiros.
Povos Ciganos/ Romani pela perspectiva do ProfHistória: orientações e a vivência na Rede Estadual de
Educação do Rio de Janeiro
Este trabalho entende como ciganos/ romani, povos de etnia calon, sinti e rom, a partir do olhar de uma
professora na Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro (SEEDUC), lotada na cidade de Nova Iguaçu,
Baixada Fluminense e mestranda do ProfHistória. No Brasil, quando buscamos aspectos históricos sobre esse
povo, enfrentamos um problema significativo de falta de bibliografia, de dados demográficos e historiográficos
e, infelizmente, a produção acadêmica sobre o tema é muito escassa. Em 2018, a partir do levantamento do
MUNIC (Pesquisas de Informações Básicas Municipais), o Brasil possui cerca de um milhão e meio de ciganos,
números que podem estar subnotificados, já que para este órgão só são considerados ciganos, os que vivem 30
em situação de itinerância, excluindo os sedentarizados. Dos vinte e sete estados brasileiros, vinte e dois deles
possuíam acampamentos ciganos, e estes acampamentos vivem crianças e jovens que frequentam ou,
deveriam frequentar, a escola. Entretanto não há na legislação brasileira, leis que assegurem aos ciganos,
garantias e direitos como minorias étnicas, apesar do reconhecimento de diversas convenções internacionais.
Nenhuma legislação específica de proteção aos povos ciganos/ romani foi até hoje estabelecida, o que existem
são apenas dispositivos constitucionais abertos que contemplam a minoria cigana. Em 2011 foi aprovada a
obrigatoriedade de matrícula aos povos em situação de itinerância, que os privilegia, no entanto, ainda não há
ações voltadas para a permanência e promoção desses povos no ambiente escolar. Desta forma, é preciso a
inclusão da história e cultura dos povos ciganos na academia, na formação dos professores, nos materiais
didáticos, nos currículos, nas práticas e vivências pedagógicas, de uma maneira não pejorativa, estereotipada
ou discriminada. Em 2023, a Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro trouxe a público, e direcionada
aos docentes da rede, uma correspondência interna com orientações acerca das ações pedagógicas voltadas
às relações étnico-raciais para aquele ano letivo. O documento também estabeleceu que nos dias de 22 a 26
de maio, às unidades escolares comemoram a Semana do Povo Cigano/Romani. Este trabalho pretende
contribuir para a discussão dos povos ciganos/ romani na sala de aula, especificamente nas aulas de história
refletindo como a escola pode ser inclusiva, intercultural, popular e democrática.
Ao participar do Projeto de Residência Pedagógica na Escola Municipal Orsina da Fonseca, diante dos
conteúdos trabalhados em sala, foi planejado e produzido para uma turma de 7º ano a aplicação da aula
temática intitulada “Mulheres no medievo” seguindo a proposta do currículo da BNCC e baseando-se na
habilidade EF06HI16 que destina-se a “descrever e analisar os diferentes papéis sociais das mulheres no
mundo antigo e nas sociedades medievais”. O objetivo da atividade era explicar a dinâmica social das mulheres
inseridas no contexto medieval perante aos ideais e pensamentos de clérigos e cristãos, acerca do padrão de
Apoio:
dignidade, bondade e virtude que os homens desejavam e/ou obrigavam-nas a possuir. Nesse cenário, também
foram abordados os critérios de avaliação e definição da bruxaria medieval e de que forma eram aplicadas, em
sua maioria, à figura feminina. A atividade “Caça-palavras” foi utilizada como forma de avaliação aos alunos
para reflexão, debate e fixação do conteúdo abordado.
O uso de jornais na pesquisa histórica em sala de aula: formas de reconstrução do passado através dos
cotidianos
O Objetivo desse trabalho é discutir a relevância da pesquisa histórica através de jornais na construção dos
cotidianos da educação de meninas na segunda metade do século XIX, na cidade de Campos dos Goytacazes.
A pesquisa em jornais pode construir para aproximar do aluno da educação básica temas que sejam relevantes
para sua formação como cidadãos críticos de sua própria temporalidade, contribuindo para a diversidade e
inserção de personagens esquecidos pela historiografia tradicional, como a história das mulheres. A imprensa,
principalmente a escrita, tem apresentado subsídios importantes para o estudo da história, facilitando o
entendimento de alunos e alunos sobre o passado e suas imbricações com o presente. Através do uso de
jornais em sala de aula os educandos/educandas poderão ser eles próprios artífices de seus próprios
conhecimentos, sendo o professor um guia nesse processo. Neste sentido o uso de jornais em sala de aula na
pesquisa histórica favorece a autonomia de pensamento do aluno/aluna e o desenvolvimento de habilidades e
competências solicitadas em uma sociedade cada vez mais complexa e desigual, além de ser uma das funções 31
previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC/2017). Dessa forma, o uso de jornais como fonte
primária de análise documental poderá revelar e habilitar vozes que antes estavam silenciadas pela
historiografia tradicional, seja pela dificuldade de acesso a documentos oficiais ou pela falta de registros de
fatos que faziam parte das vivências diárias e, por isso mesmo, não mereciam destaque oficial, como o caso
da educação doméstica no Brasil. Isso não significa que os jornais representam o "real" vivido em determinada
época, antes, devem ser encarados como discursos produzidos em períodos específicos e ricos em
significados políticos e sociais. Assim, o uso de jornais como pesquisa histórica de diferentes cotidianos
poderá contribuir para a formação das identidades coletivas e individuais dos alunos e alunas.
A recorrência aos estudos baseados na sociologia do currículo podem fornecer ao historiador subsídios para
compreensão das diferentes perspectivas educacionais e, através das suas práticas, dar a conhecer os
modelos de organização da sociedade (MONTEIRO, 2003). Logo, mudança e participação são conceitos que
medeiam a prática do ensino, estimulando o debate em sociedades mais abertas e propensas as mudanças, e
apelando ao conservadorismo e a repetição do saber em meios onde a transformação social é vista como
ameaça (ENGUITA, 2007). Com a necessidade da renovação de trabalhos que pensem o passado e o presente
de indivíduos, grupos e lugares vinculados a educação carioca é que apresentamos o trabalho desenvolvido
em uma escola do município do Rio de Janeiro que tem como objetivo estruturar, catalogar e divulgar o acervo
documental (textual, mobiliário e imagético) existente no Centro de Memória Orsina da Fonseca (CMOF) e que
conta com um material rico que se refere à trajetória da escola e que dialoga com as mudanças nas estruturas
educacionais tanto da cidade do Rio de Janeiro quanto do próprio país. Ao organizar e manter de um espaço de
instrumentalização científica que auxilie na concepção dos(as) alunos(as) da importância de preservação do
patrimônio escolar existente, busca-se dialogar com objetivos gerais da disciplina de História contidos nos
Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) do Ensino Fundamental, que visa: “(...) valorizar o patrimônio
Apoio:
sociocultural e respeitar a diversidade social, considerando critérios éticos” e com a proposta apresentada
pela BNCC com relação ao exercício de transformar um objeto em documento para que o sujeito, que nesse
caso são os(as) estudantes do ensino fundamental, que observa e interroga todas as fontes existentes no
CMOF a fim de desvendar e entender a sociedade que o produziu logo afim de “(EF06HI02) Identificar a gênese
da produção do saber histórico e analisar o significado das fontes que originaram determinadas formas de
registro em sociedades e épocas distintas”. O trato do acervo por parte dos(as) estudantes volta-se para o
exercício, por intermédio da instrumentalização deste patrimônio documental, eles/elas irão reconhecendo-se
como parte integrante da vida e da história política e social desta escola.
O Atlântico Negro na Sala de Aula: Diálogos entre História Global e Educação Histórica
O presente trabalho é resultado do projeto de Iniciação à Docência e Iniciação Científica intitulado “História
Global e Educação Histórica: novas possibilidades metodológicas para o ensino de história”, aplicado no
ensino de história das turmas do oitavo ano do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira — CAp-
UERJ. A partir do diálogo inovador entre História Global e Educação Histórica, abordamos a Modernidade como
um período de gradual integração global, mas de maneira violenta e desigual. Por meio do estudo do processo
de escravização de africanos e a mobilização do conceito de “Atlântico Negro” de Paul Gilroy, realizamos uma
proposta de trabalho para a IV Semana da Consciência Negra do CAp-UERJ, onde os alunos deveriam organizar
três cartazes com composições visuais que representassem a experiência do Atlântico Negro no passado, 32
presente e futuro. Dessa maneira, o presente estudo se propõe a investigar a influência da abordagem da
História Global na consciência histórica dos estudantes, observável através das produções realizadas para o
evento. Utilizando os trabalhos da Semana da Consciência Negra, foi possível identificar a maneira com que a
abordagem pôde impactar as percepções dos alunos sobre as diferentes temporalidades e suas rupturas e
continuidades, sobre o espaço geográfico e sobre a integração do mundo moderno. Além disso, por meio de
uma análise qualitativa dos resultados, visamos entender se os estudantes conseguiram relacionar as
questões estudadas com sua própria realidade; como o racismo, resultado da experiência da escravização e
que ainda é presente em nossa sociedade, mas, também, as formas de resistência e luta contra a
discriminação. Mais do que um trabalho de conscientização, buscamos criar e fortalecer o pensamento crítico
por parte dos alunos, para que entendam o cenário global em que fazem parte.
O Global em Sala: uma análise dos efeitos da História Global em uma turma da educação básica
O presente trabalho, orientado pela Professora Bárbara Araújo Machado, tem como objetivo analisar quais os
efeitos da inclusão de elementos pertencentes ao campo da História Global no planejamento da disciplina de
história de uma turma do 8° ano do ensino fundamental. Este trabalho integra o projeto de Iniciação à Docência
intitulado “História Global e Educação Histórica: novas possibilidades metodológicas para o ensino de
história”, coordenado pela professora Bárbara. Através da análise de produções feitas pelos alunos, foi possível
identificar em que pontos um planejamento que propõe um diálogo entre História Global e Educação Histórica
pôde auxiliar (ou não) no desenvolvimento da aprendizagem histórica dos estudantes. O objeto da pesquisa foi
uma das turmas de 8º ano do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira, cujas aulas de História
foram ministradas pela professora Bárbara no decorrer de 2023. Inserido no contexto do projeto supracitado, o
ano letivo da turma observada contou com um planejamento elaborado a partir do encontro entre a História
Global e a Educação Histórica. Deste modo, atividades e aulas de campo foram propostas, visando despertar
nos alunos uma visão histórica que pudesse ir além das histórias nacionais, com noções alternativas de tempo
Apoio:
e espaço, privilegiando conexões e integração. Além da História Global e da Educação Histórica, outros
conceitos foram utilizados na elaboração do presente trabalho, como “O Atlantico Negro” de Paul Gilroy e a
ideia de formação de Consciência História, conforme Luís Fernando Cerri e Jörn Rüsen. Quanto aos dados,
foram reunidos durante o meu período como bolsista de Iniciação à Docência, em que pude acompanhar as
aulas dos alunos do 8º ano, assim como ter acesso aos trabalhos realizados por eles durante o ano. Desta
forma, tive a oportunidade de analisar dados como: os temas favoritos de cada aluno, as matérias que mais
tem dificuldade, quais temas já conheciam antes da aula, etc. Foram analisados também produções feitas para
a IV Semana de Consciência Negra do CAp, onde os alunos tiveram que organizar composições visuais tratando
de temas como escravidão, racismo e resistência em diferentes temporalidades. Após a análise dos dados, foi
possível constatar uma melhor compreensão de algumas questões destacadas pelos alunos em seus registros.
Logo, este trabalho concluiu que o encontro entre Educação Histórica e História Global presente no
planejamento de uma turma do 8° ano auxiliou na complexificação dos temas debatidos em sala, oferecendo
noções de espaço/tempo que abrem novas perspectivas para o debate de temas como Colonização,
Escravização e Tráfico Transatlântico.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Práticas didáticas e Ensino de História: a História Local e a construção da identidade através de projetos
integrados
33
Thiago de Souza dos Reis (SEME Cabo Frio)
A presente proposta de apresentação oral busca apresentar os resultados iniciais do projeto de pesquisa
intitulado "Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Ensino de Ciências Humanas: Cabo Frio, história,
memória e território" que conta com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado
do Rio de Janeiro, FAPERJ, através de edital específico para apoio às escolas públicas sediadas no Estado do
Rio de Janeiro (Edital FAPERJ E_45/2021). Assim, buscaremos apresentar as motivações e os resultados iniciais
da implantação de um laboratório interdisciplinar de pesquisa e ensino em uma escola municipal do município
de Cabo Frio. Foi verificado que as atividades desenvolvidas a partir da implantação do laboratório interligaram
as atividades tradicionalmente realizadas no contexto escolar pelos docentes responsáveis pelas disciplinas
da grande área das Ciências Humanas, criando conexões e sinergias nas práticas didáticas realizadas. Houve
evidência do uso da História Local como elemento agregador entre as atividades, o que estabelece
consonância com as previsões e competências previstas na Base Nacional Comum Curricular e nos Temas
Contemporâneos Transversais. Diante disso, ficou evidente o empenho e protagonismo dos estudantes
envolvidos na condução das atividades didáticas, o que colaborou para o fortalecimento da identidade
regional.
Apoio:
fundamental da Universidade Brasileira (ensino-pesquisa-extensão). A iniciativa fundamentada em questões e
tarefas que visam estimular a reflexão dos estudantes, os debates em grupo e procedimentos próprios da
disciplina como análise de diversos tipos de fontes, se demonstra um elemento motivador de aprendizagens
significativas que super a lógica mecânica da memorização e estimulem a apropriação dos estudantes do seu
processo de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, a intenção desse trabalho é analisar a percepção docente e
discente da participação de três equipes de um colégio particular da cidade do Rio de Janeiro na edição de
2023 da ONHB – 15ª edição. A percepção discente sobre a participação vai ser compreendida por meio de um
questionário on-line aplicado com os estudantes, com a prévia autorização de seus responsáveis. A maioria
das perguntas foi formulada de maneira aberta e abrangente, buscando compreender questões como os
conhecimentos desenvolvidos ao longo da participação, as dificuldades percebidas, os elementos destacados
como motivadores e também a relação estabelecida entre esse projeto e as discussões realizada em sala de
aula. Nossa intenção é, com isso, aferir as potencialidades e desafios desse projeto no chão da escola,
entendendo as nuances de construção de aprendizagens que vão além dos conteúdos factuais, mas envolvem
formas de pensar, fazer e agir e formam cidadãos capazes de refletir sobre e atuar no mundo que estão
inseridos.
Evento "Amostra de experiências pedagógicas UVA": Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Cientifica 34
(PIBID) & Residência Pedagógica (RP), ocorrido no dia 4 de abril. Durante o evento foi apresentado as atividades,
e planos de ensino, para as turmas do 7º e 8º ano (Invasões Bárbaras & Império Romano, Respeito & Impressões
das Normas de Sustentabilidade da ONU - ODS e Início da Escravidão). As aulas transcorreram na Escola
Orsina da Fonseca (RJ) e apresentação das Experiências Pedagógicas foi apresentada na unidade de ensino
superior (Universidade Veiga de Almeida).
A Utilização do Cotidiano dos Jovens nas Atividades da Sala de Aula Por Meio da Residência Pedagógica
Por meio do Programa de Residência consegui dar meus primeiros passos como futura professora,
principalmente no quesito de utilizar tecnologias atuais e vivencias cotidianas dos alunos, ainda mais quando
se há a possibilidade de fazê-la em uma escola pública, já que a maior parte das escolas privadas atualmente
não dão esse espaço ao professor, muito menos a um residente. Nesse contexto. experiência de observar o
cotidiano das aulas de história na Escola Municipal Orsina da Fonseca consegue dar ao residente uma noção
de classe, raça e principalmente de inclusão que a falta deste programa poderia resultar. Sendo assim, a
oportunidade de utilizar meio antes vistos como não convencionais para aulas no EF II é única, algo que se a
metodologia das escolas particulares não fosse focada nos vestibulares, poderia ter algo comum na sociedade.
Um dos projetos feitos por mim no segundo semestre de 2023, tinha como intuito relembrar os alunos do que
eles aprenderam antes das férias de uma forma divertida. Foi então passado para eles o filme A Era do Gelo e,
posteriormente, utilizando slides, fizemos jogos correlacionando o filme com temas como memória coletiva e
individual, os períodos neolítico e paleolítico e entre outros assuntos. Por meio deste exercício, consegui ver
como é possível fazer crianças se interessarem por assuntos de história ao conectá-los com objetos de
interesse deles, como filmes e brincadeiras, porque isso faz parte do cotidiano de cada um deles. Pois já dizia
Freire: “Por isso é que, acrescento, quem tem o que dizer deve assumir o dever de motivar, de desafiar quem
escuta, no sentido de que, quem escuta diga, fale, responda. É intolerável o direito que se dá a si mesmo o
educador autoritário de comportar-se como proprietário da verdade de que se apossa e do tempo para
Apoio:
discorrer sobre ela. Para ele, quem escuta sequer tem tempo próprio pois o tempo de quem escuta é o seu, o
tempo de sua fala. Sua fala, por isso mesmo, se dá num espaço silenciado e não num espaço com ou em
silêncio. Ao contrário, o espaço do educador democrático, que aprende a falar escutando, é cortado pelo
silêncio intermitente de quem, falando, cala para escutar a quem, silencioso, não silenciado, fala” (FREIRE,
1996, p. 132). Portanto, a experiência que tive na residência pedagógica serviu e muito para a possibilidade de
fazer projetos que eu não teria possibilidade fora. Além disso, esses projetos são ótimos exemplos de como
uma educação mais inclusiva, humanizada e cotidiana são a melhor escolha para desenvolver nos alunos um
senso de protagonismo, cidadania, coletividade, pensamento crítico e consciência racial, social e de gênero.
O presente estudo realiza uma discussão sobre a correlação entre as disciplinas de História e Artes para pensar o
ensino de História a partir de duplo lugar, isto é, tanto como professora no Ensino Médio no município de Duque de
Caxias quanto na condição de mestranda no ProfHistória. Como pressuposto metodológico, a interdisciplinaridade
contribui para integração de diferentes áreas proporcionando o diálogo entre aluno, professor levando em
consideração o cotidiano deles. Com isso, a relação entre disciplinas de História e Artes colabora no
desenvolvimento dessas, tendo como fim o desenvolvimento do aluno. Sendo a aprendizagem elemento central da
prática docente, que resulta da atuação intelectual em associação com o conteúdo que foi transmitido, tornando-se
ponto inicial e escopo que dá orientação para o método de ensino de História, e entendendo a complexibilidade da 35
aplicabilidade de distintas abordagens, fizemos uso elementos das Artes em sala de aula. Para tanto, o estudo sobre
as imagens de fantasias usadas em 2024 pelo Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio,
escola de samba do município de Duque de Caxias, e pela interpretação feita através de códigos culturais dos alunos,
estando também atrelados a História Local, reúne estas duas áreas do conhecimento e esta possibilidade foi
vivenciada no CIEP Brizolão 320 Ercilia Antônia da Silva em Duque de Caxias/RJ. Assim, diante dessa perspectiva, e
na condição de discente no ProfHistória vivenciando a aplicabilidade de proposta didática com imagens,
compartilhar a experiência obtida. Pois, o ensino de História também implica em contribuir com o aluno na tarefa da
compreensão do processo histórico enquanto construção de diversificadas leituras e interpretações, e essa
conjectura os leva a reflexão sobre o conhecimento histórico e, assim, confrontar as vozes dominantes que
perpassam os atravessam os saberes escolares (MOLINA, 2007).
Das palavras soltas à criação: uma reflexão sobre os primeiros passos na sala de aula
Este trabalho apresenta uma proposta de reflexão sobre a prática docente a partir de uma confluência entre
saberes. Partindo de um movimento que se realiza de dentro para fora, pretendo explorar, nas primeiras
vivências e experiências como professor de História da educação básica, um conjunto de considerações
constituído a partir de dois eixos. No primeiro, busco organizar um espaço de partilha sobre os primeiros passos
na docência em História, além de explorar a experiência como categoria de análise útil para a reflexão sobre a
atuação profissional e o Ensino de História. No segundo eixo, pretendo elaborar uma reflexão sobre a
experiência inicial e as possibilidades de diálogo entre saberes dentro e fora da sala de aula. Para isso, busco
investigar os tensionamentos existentes entre a História e a Literatura, evidenciando suas possibilidades como
saberes diferentes, mas capazes de dialogar, enriquecer as aulas de História e qualificar o debate sobre a
aprendizagem e a formação para a transformação.
Apoio:
Cartas da Trincheira
Ao participar do programa da Residência Pedagógica no ano de 2023, foi desenvolvido um projeto para a turma
de 9° ano sobre a Primeira Guerra Mundial seguindo a proposta do currículo da BNCC da habilidade EF09HI09
que fala sobre "Identificar e relacionar as dinâmicas do capitalismo e suas crises, os grandes conflitos mundiais
e os conflitos vivenciados na Europa" e os alunos participaram de maneira ativa e criativa na confecção de
cartas fictícias como soldados ou como familiares de soldados que foram e não sabiam quando voltariam para
casa. O objetivo do trabalho era, além da pesquisa necessária para a construção dessa narrativa como datas,
locais e acontecimentos, também o entendimento do que de fato uma guerra é, sem as romantizações que
muitos estão acostumados através das mídias. O resultado foi a produção de cartas extremamente bem
escritas e sensíveis ao tema proposto.
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
36
Apoio:
ST 02: A Violência contra a mulher no Brasil e suas
interseccionalidades
Coordenação:
Márcia Regina Castro Barroso (Universidade Unigranrio), Etyelle Pinheiro de Araújo (PUC-Rio)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
A violência contra a mulher é uma infração aos direitos fundamentais, além de ser uma transgressão aos
tratados internacionais. O combate à violência contra a mulher tem sido preocupação fundamental dos
movimentos sociais na América Latina, onde destacamos as lutas feministas que ocorreram em meados da
década de 1970. No Brasil, o movimento de mulheres contra a violência doméstica e sexual procurou
desmantelar a tese arraigada na cultura nacional que justificava a violência como “legítima defesa da honra”
do homem. Nesse sentido, tivemos importantes conquistas como a aprovação da Lei 11.340 de 2006, a lei
Maria da Penha, que foi um avanço nas medidas protetivas para mulheres que sofrem violência doméstica; e,
também, podemos citar a Lei 13.104, de 2015, que foi a lei do Feminicídio. Com o avanço dos estudos sobre a
violência doméstica e familiar, amplia-se a problematização em torno do tema. As pesquisas que analisam a
37
violência nas intersecções entre gênero e raça, cor, etnia, deficiências, entre outros marcadores sociais,
problematizam a distribuição desigual da violência entre grupos de mulheres e a forma como as
interseccionalidades contribuem não apenas para a exposição à violência, mas também para os obstáculos no
acesso a direitos e à justiça (Crenshaw, 2019). Nesse sentido o trabalho apresenta uma análise sobre o papel
da Psicologia nesse contexto evidenciando as formas de atuação dos psicólogos no Brasil. Para tanto,
analisamos os documentos publicados pelo Conselho Federal de Psicologia sobre essa temática.
Narrativas e resistência de mães negras contra a violência policial: um estudo comparativo entre Brasil e
Estados Unidos
Um relatório publicado pela Anistia Internacional, em 2015, apontou que as polícias brasileiras figuram dentre
as que mais matam no mundo, sendo jovens negros, o maior número de suas vítimas. Este mesmo relatório
apontou uma quantidade desproporcional de homens afro-americanos vitimados por tiroteios envolvendo
policiais nos Estados Unidos. Diante desse cenário, algumas das mães de vítimas da brutalidade policial se
engajam em movimentos sociais para lutar por justiça, tais como o Mães de Manguinhos (no Brasil, mais
especificamente no Rio de Janeiro) e o Black Lives Matter (nos Estados Unidos). Este trabalho objetiva fazer um
estudo comparativo entre as narrativas contadas por mulheres negras brasileiras e afro-americanas engajadas
em movimentos sociais para lutar por justiça. A proposta é analisar as histórias com base na Análise de
Narrativa (Bastos; Biar, 2015) e na metodologia qualitativa-interpretativista, partindo do entendimento da
narrativa como uma maneira de organizar a experiência humana (Bruner, 1997; Linde, 1993), objetiva-se
compreender de que maneira essas narrativas funcionam como uma forma de resistência e que efeitos elas
produzem sobre o contexto macro, ao denunciarem o racismo e demandarem mudanças no sistema legal. O
corpus abrange gravações dos discursos das mães brasileiras nos protestos (entre 2016-2018), e das mães
afroamericanas em eventos disponíveis na internet. A análise aponta para semelhanças em como essas
mulheres elaboram suas narrativas de engajamento: elas extrapolam o contexto micro da luta por justiça para
Apoio:
uma luta contra o racismo estrutural; também sublinha como a maternidade é reivindicada como elemento de
autoridade moral nas narrativas. Esta pesquisa pode proporcionar entendimentos sobre como as lutas dessas
mulheres podem ser concebidas como parte de uma esfera mais global de luta contra o racismo estrutural.
Violência contra Mulheres do Espectro Autista: ações necessárias para assistência e proteção
Muitas pessoas encaram dificuldades diárias em virtude de deficiências ocultas ou invisíveis, isto é, aquelas que não
são identificadas visivelmente e de modo instantâneo pelos outros, o que geralmente provoca incompreensão e
preconceito estrutural pelos estigmas já arraigados na sociedade, bem como falta de empatia e de apoio por aqueles
que fazem parte de seus contextos de vida. Sendo assim, dentre as deficiências ocultas ou invisíveis temos o
Transtorno do Espectro Autista. Atualmente, tem crescido o número de diagnósticos tardios relacionados ao
espectro, principalmente em mulheres que, por habilidades operacionais, desde cedo aprenderam a camuflar suas
características (mesmo que com extremo esforço e com consequentes prejuízos na saúde física e emocional), mas
que, com o passar do tempo, sentem a necessidade de se autoconhecerem para se transformarem. Considerando
tais pressupostos, o objetivo desta pesquisa é discutir sobre a propensão à violência que mulheres com Autismo,
seja em que idade for, podem sofrer dentro e fora de casa, em virtude das dificuldades que as mesmas apresentam
na comunicação e nas interações sociais, aliadas frequentemente à vulnerabilidade e à fragilidade emocional. Isto
porque, ao não reconhecerem perigos iminentes ou por não conseguirem lidar com problemas de ordem complexa,
na busca por vínculos de confiança, pertencimento de grupo e afetividade (fatores obviamente inerentes a qualquer 38
ser humano), podem sofrer episódios de bullying na escola (pelo jeito de agir e pela forma como se apropriam ou não
de seus corpos), entrar em relacionamentos abusivos (sejam de teor psicológico ou físico) ou, até mesmo, serem
vítimas de violência sexual. Sem a pretensão de esgotamento do tema proposto, desejamos que o presente estudo
ratifique um pouco mais sobre a importância do respeito e da abertura às diferenças pensando, por conseguinte, em
ações que se fazem necessárias para a assistência e a proteção das mulheres que fazem parte do espectro, pois ao
serem valorizadas em suas potencialidades singulares, surgirão reais oportunidades para que alcancem autonomia
e independência, empoderando-se de verdade para assumir o controle de suas escolhas e de suas próprias vidas.
Esta pesquisa investiga através da mídia jornalística, como também embasados em referências bibliográficas de
conceituados teóricos, a violência das operações policiais nas comunidades do estado do Rio de Janeiro. Nesse viés,
queremos saber se as garantias dos direitos humanos fundamentais dos indivíduos estão sendo respeitadas, como
também se a transparência das ações policiais nas favelas, encontram-se de acordo com os aspectos legais
estabelecidos em leis. Nessa perspectiva, esta dissertação propõe uma reflexão sobre como os veículos de
comunicação retratam a violência policial. Sabendo que a mídia, geralmente, reproduz a versão legitimada pelo registro
de ocorrência produzido pelos policiais, esta pesquisa observa outros registros midiáticos produzidos por moradores de
favelas para mostrar a visão dos habitantes acerca das incursões policiais no seu espaço de pertencimento. Para tanto,
analisa vídeos disponíveis no Youtube e em páginas como Observatório das Favelas e o Jornal A Nova Democracia.
Espero com esse estudo, colaborar para uma reflexão amparadas nas investigações teóricas realizadas, a forma de
imposição do poder e da guerra como um recurso político de gestão da vida e da morte de certos lugares habitados na
cidade do Estado do Rio de Janeiro.
Apoio:
Síndrome da Mulher-Maravilha: Uma análise interseccional sobre seus os impactos na vida das mulheres
negras brasileiras
Esse ensaio busca discutir os impactos da interseccionalidade de gênero, raça e classe social na vivência da
"Síndrome da Mulher-Maravilha" no contexto do mercado de trabalho contemporâneo, analisando como esses
fatores contribuem para a sobrecarga de responsabilidades e o consequente esgotamento físico e psicológico
das mulheres. Para analisar o termo “Síndrome da Mulher-maravilha”, faz-se necessário, a priori, voltarmos
para a gênese da personagem, que foi criada na década de 40, por William Moulton Marston, que,
curiosamente, é o inventor do detector de mentiras, representado nos quadrinhos como o fictício laço mágico
da verdade. Estudos científicos sobre bem-estar e felicidade indicam um fenômeno surpreendente: nos
últimos 40 anos, as mulheres têm relatado níveis mais altos de infelicidade, ansiedade e estresse. Esse dado é
paradoxal considerando que as mulheres conquistaram melhores oportunidades, maior reconhecimento
profissional, influência e poder financeiro. A síndrome da Mulher-Maravilha, por exemplo, revela não apenas a
pressão sobre as mulheres para desempenharem múltiplos papéis de forma sobrecarregada, mas também a
maneira como as expectativas sociais são moldadas por estruturas patriarcais e capitalistas. Mulheres negras,
em particular, enfrentam uma série de desafios adicionais, desde a falta de representatividade nos espaços de
poder até a precariedade econômica resultante de décadas de discriminação estrutural. Além disso, a
interseccionalidade emerge como uma lente crucial para entender as complexas interações entre raça, gênero
e classe, destacando como esses sistemas de opressão se entrelaçam e se reforçam mutuamente.
39
As narrativas Indígenas: reflexões e expectativas
Refletiremos a respeito da historiografia atual da história dos povos indígenas, contrapondo com a literatura
que nos foi mostrada escrita por quem não viveu a invisibilidade e a escravidão de quem nos dominou.
Ressaltaremos como os grupos indígenas em uma constante diáspora, por conta de sua história de luta por
direito as suas terras e o encadeamento interétnicas que foram se apropriando e criando novas formas de
sobreviver. Assim pensaremos como essa resistência, pertencimento sobre a literatura produzidas pelos
próprios nativos e pensar como esses autores estão se tornando autores de sua própria história.
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
O tema da determinação da guarda de crianças no direito das famílias é complexo e abrange uma variedade de
aspectos jurídicos, sociais e culturais. Nesse contexto, a figura de Íyá emerge como uma influência central,
carregando consigo uma rica carga histórica e cultural. Ela desempenha um papel fundamental nas dinâmicas
familiares, especialmente em comunidades onde as tradições culturais desempenham um papel
preponderante na estruturação das relações familiares. A guarda compartilhada tem sido cada vez mais
adotada no Brasil, representando cerca de um terço dos divórcios que envolvem filhos. O princípio do "melhor
interesse da criança" é fundamental, priorizando os interesses dos menores conforme estabelecido pela
Convenção Internacional dos Direitos da Criança. A centralidade de Íyá também se reflete na religiosidade
Apoio:
Yoruba, onde ela é vista como a fonte da vida e da espiritualidade. Na determinação da guarda, o Código Civil
brasileiro modificou o termo "pátrio poder", reconhecendo a importância tanto da mãe quanto do pai na vida
da criança. A presença da centralidade de Íyá no direito das famílias ressalta a importância das mães na
estruturação dos laços familiares e na transmissão de valores culturais, destacando a necessidade de uma
abordagem justa e inclusiva que valorize tanto as relações familiares quanto a herança cultural Yoruba. Neste
ensaio, exploraremos a centralidade de Íyá na determinação da guarda de crianças, examinando sua
importância e influência no contexto do direito das famílias.
A luta das Mães de Acari representada em jornais: uma análise a partir da Folha de São Paulo (1990-1995)
O presente trabalho tem como intuito analisar representações da luta das Mães de Acari no jornal A Folha de
São Paulo durante a década de 1990. Esse grupo se refere ao movimento de mães que se formou no ano de
1990 face à Chacina de Acari, que culminou no sequestro e desaparecimento de onze jovens moradores da
favela de Acari, situada no bairro da Zona Norte do município do Rio de Janeiro. Ainda que não se encontrassem
necessariamente inseridas na luta política, as Mães de Acari lutaram por diferentes formas de justiça e,
consequentemente, travaram demandas sociais na esfera pública, diante da violência de Estado que impactou
no assassinato de seus filhos e filhas. As demandas reivindicadas pelas Mães sofreram modificações ao longo
do tempo, também em diálogo com os embates e disputas que se travaram publicamente em torno do caso.
Um exemplo desses embates pode ser compreendido a partir de representações da mídia que deram foco para
suas lutas, ainda que isso não significasse a construção de um espaço legítimo de escuta social. Na tentativa 40
de realizar as análises propostas, este trabalho considera a Folha de São Paulo como fonte histórica, na medida
em que o jornal possuía ampla circulação na década de 1990, sendo responsável pela construção de uma
parcela da opinião pública brasileira. Diante do referido caso, objetivo investigar como suas representações
perpassam pelas relações desiguais de raça e classe, uma vez que relativizam a Chacina e, por conseguinte, a
luta das Mães de Acari. Em contrapartida, ou, em concomitância, os estudos de gênero e a história das
emoções são utilizadas para ressaltar as representações em torno da maternidade que, por vezes, se associam
a uma tentativa de sensibilização da opinião pública. Assim, busco intercalar tais representações com a forma
de mobilização das lutas das Mães em torno do desaparecimento de seus filhos, ressaltando suas ações
também como respostas aos embates travados na esfera pública. Outrossim, esta pesquisa se insere no
campo da História do Tempo Presente, ao investigar aspectos de um passado recente da violência de Estado
no Brasil e suas representações, refletindo sobre as reminiscências daquele contexto no presente. Intento
refletir, dentro deste campo, como as relações entre as lutas das Mães se relacionam com a própria forma com
que este grupo se relaciona com o tempo histórico.
O artigo em questão busca explorar a legitimidade da arte e a luta das mulheres por sua voz, destacando as
contribuições de Elisa Lucinda como uma artista multifacetada. Suas obras não apenas abordam preconceitos
e explorações, mas também promovem uma formação antirracista por interpretações poéticas, literárias e
musicais, com potencial aplicação em diversos contextos, incluindo o educacional. Nesta perspectiva, a
referida artista corrobora por meio de suas contribuições poéticas que além de problematizarem recorrentes
desigualdades sociais, servem como subsídios para a efetivação de uma formação antirracista difundida nos
palcos, possivelmente aplicáveis nos meandros escolares, bem como em distintos espaços. A partir dos
discursos de resistência que se sobrepõem aos discursos hegemônicos, propõe-se aqui evidenciar algumas
Apoio:
contribuições poéticas de Elisa Lucinda sob o viés interseccional, dentre as quais servirão como referências de
análises críticas, configurando-se como instrumentos pertinentes ao engajamento antirracista.
Este ensaio explora a intersecção complexa entre feminilidade, ancestralidade e os cuidados com o cabelo por
parte das mulheres negras. Ao longo da história, os cabelos têm sido um símbolo poderoso de identidade e
resistência para mulheres afrodescendentes, refletindo sua herança cultural e enfrentando as normas
eurocêntricas de beleza. O cuidado com os cabelos é muito mais do que uma questão estética; é um ato de
conexão com a ancestralidade e uma forma de resistência contra a opressão sistêmica. As mulheres negras
frequentemente enfrentam pressões sociais e padrões de beleza que as desvalorizam e marginalizam,
particularmente em relação à textura e estilo de seus cabelos. Essas pressões são enraizadas em um legado
de colonialismo e racismo que perpetua a ideia de que apenas cabelos lisos e eurocêntricos são aceitáveis e
bonitos. No entanto, muitas mulheres negras estão desafiando essas normas ao abraçarem suas raízes e
expressarem sua identidade através de seus cabelos naturais. Para muitas mulheres negras, cuidar de seus
cabelos vai além de uma rotina de beleza; é uma prática profundamente espiritual e cultural. Os rituais de
cuidados capilares são transmitidos de geração em geração, refletindo uma conexão com a ancestralidade e
uma maneira de honrar as tradições passadas. Além disso, esses cuidados podem ser uma forma de
resistência política, desafiando ativamente as normas dominantes e reivindicando o espaço para a 41
autodeterminação e a expressão individual. A relação entre feminilidade e cabelo na comunidade negra é
multifacetada, refletindo uma diversidade de experiências e perspectivas. Algumas mulheres optam por usar
seus cabelos naturais em estilos como tranças, cachos ou afros, enquanto outras escolhem alisá-los ou usar
perucas como uma forma de experimentação ou conveniência. Essas escolhas são pessoais e variadas, mas
todas representam uma afirmação da identidade e uma rejeição das normas opressivas impostas pela
sociedade. É importante reconhecer que a jornada de aceitação e amor próprio em relação aos cabelos
naturais pode ser desafiadora para muitas mulheres negras, dada a prevalência de mensagens negativas sobre
sua aparência. No entanto, à medida que o movimento de aceitação capilar cresce, mais mulheres negras
estão encontrando apoio e solidariedade umas nas outras, fortalecendo sua autoestima e senso de
comunidade. A relação entre feminilidade, ancestralidade e cuidados com os cabelos das mulheres negras é
profundamente enraizada na resistência e na celebração da diversidade. À medida que essas mulheres
continuam a reivindicar seu espaço e sua voz na sociedade, seus cabelos permanecem como um lembrete
poderoso de sua força, resiliência e beleza inerentes.
Em 2024 continuam alarmantes os índices de violência contra meninas e mulheres. Mesmo com os avanços
da Lei nº 11.340/2006, a Lei Maria da Penha, não é suficiente. Já o Dossiê mulher 2015, publicado pelo Instituto
de Segurança Pública do Rio de Janeiro aponta que a violência doméstica ainda era a primeira instância sobre
a falta de informações. Este trabalho pretende evidenciar que ainda em 2024 não atingimos o suficiente número
de informações nem tão pouco a redução da violência em questão. Desta forma este trabalho pretende refletir
através de duas publicações, O Dossiê Mulher 2015 e o Plano Nacional de Educação de 2014, a necessidade
do aumento das reflexões, debates, reportagens e projetos em nossa sociedade sobre a violência secular
contra as mulheres. O destaque ocorre através da supressão desta temática na criação do último Plano
Nacional de Educação – o PNE de 2014 e consequentemente seus Planos Municipais de Educação,
Apoio:
documentos que orientam todas as ações nos próximos dez anos nas esferas federal, estadual e municipal.
Lembrando que o PNE - Lei Nº 13.005 de 2014 - foi criado para alinhar a educação brasileira aos diferentes
contextos e realidades escolares no Brasil (plano decenal) focando o respeito a diversidade, além de
estabelecer parâmetros com a garantia de dez metas para uma educação de qualidade até 2024. A utilização
de frases como “superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção de igualdade racial,
regional, de gênero e de orientação sexual" foram retiradas por pressão sociais e de alguns deputados neste
PNE, que em 2014 acreditavam que essa pauta estaria ligada ao conceito de família. E a frase foi substituída
por "erradicação de todas as formas de discriminação", sem citar quais eram esses tipos de discriminação.
Segundo o professor da Universidade de São Paulo Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo
Direito à Educação, em entrevista na revista escola (...) tratar desses temas vai contra o que algumas pessoas
acreditam que seja o conceito de família. A questão se relaciona com homossexualidade, construções
familiares e identidade. Diante da complexidade da construção da cidadania de homens e mulheres, serão
destacadas algumas estratégias e metodologias a serem desenvolvidas em nossa prática docente.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 4 42
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 03: Áfricas: sociedade, política e cultura
Coordenação:
Crislayne Gloss Marão Alfagali (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), Priscila
Maria Weber (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
A intenção desta apresentação é investigar e acompanhar a atuação de militares pretos no Atlântico Sul. Para
isso, serão acompanhadas as trajetórias de dois homens naturais de Angola, pretos e livres, no século XVIII que
se destacaram no serviço militar em Angola e Benguela. A partir de suas histórias será proposta uma discussão
sobre a atuação de homens “pretos” no serviço militar, suas conexões atlânticas e os recursos utilizados por
homens centro-africanos para buscar por melhores posicionamentos sociais dentro do sistema administrativo
colonial português. Dessa forma, a partir da poesia de José Basílio da Gama conhecemos Domingos Ferreira
de Assunção sob a alcunha de Quitúbia, o “forte capitão da guerra preta”, homem preto, livre, descendente da
rainha Jinga e capitão-mor de Ambaca – presídio no sertão do Reino de Angola. No poema, Quitúbia é
apresentado com honras em uma audiência com Dona Maria I em Portugal, no entanto, representando uma
quase dualidade também são encontradas documentações em que Domingos Ferreira de Assunção é retratado
como “insolente” e “com costumes quase gentios”. Por outro lado, há Bento Pereira Henriques, homem preto e
livre natural de Angola que teria passado parte de sua trajetória preso nas galés do Rio de Janeiro. Tendo
apresentado um requerimento ao rei de Portugal em busca de um melhor posicionamento social – solicitava o
título de mestre de campo de um terço de homens pretos que queria reformar em Luanda, após um período
também solicita o título de capitão-mor de presídios pelo sertão. Ele justificou seus pedidos expondo suas
experiências no serviço real, em sucessivas batalhas, no Reino de Angola e em Benguela. Em seus
requerimentos destaca que a criação desse terço seria proveitoso para o combate de quilombos e mocambos
localizados em áreas consideradas inóspitas e, até o século XX, inalcançáveis para a força colonial portuguesa.
A vista disso, suas trajetórias permitem discutir sobre a representação dos homens pretos no serviço militar e
sobre o conceito de guerra preta na historiografia. Sendo possível analisar as formas de atuação militar de
homens pretos, as possibilidades de conexões atlânticas estabelecidas no século XVIII e os marcadores de
diferença como prática discriminatória – o racismo - que os impediram de galgar degraus em busca de
ascensão social dentro do sistema colonial do século XVIII.
Apoio:
A História profunda da escravidão na África: evidências linguísticas e arqueológicas contra o silêncio
A história da escravidão na África, conforme descrita por Achille Mbembe no início do século XXI, continua
envolta em um assombroso silêncio no continente. Kwame Nkrumah já havia observado que este silêncio fora
forjado pelas elites locais durante as lutas pela independência que, em nome da unidade e da construção de
ideias de “nação”, evitaram discutir questões controversas, incluindo a escravidão. Por outro lado, o
assombroso silêncio recoloca uma vez mais o problema da inovação metodológica na história da África, posto
que o tema extrapola a massa documental produzida pelos Estados europeus a partir do século XVI. Uma vez
mais, ao abordarmos a história da África, torna-se essencial adotar uma perspectiva multidisciplinar se
quisermos investigar a fundo o papel das estratégias escravizantes na formação de estados, criação de
etnicidades, ou mesmo crescimento econômico na antiguidade do continente. Este estudo propõe a integração
de disciplinas como arqueologia e linguística histórica para revelar as experiências de escravização e seus
significados no passado distante da África Central, com especial atenção às comunidades do grupamento
Kongo e do subgrupo Njila em Angola. Essa abordagem não somente ilumina a antiguidade das práticas
escravistas e suas categorizações pelos falantes desses subgrupos linguísticos, mas também estimula o
diálogo entre historiadores especializados na África pré-colonial e na África sob o domínio atlântico e colonial.
Paulina Chiziane e a Literatura Africana: Ferramentas para o Ensino Antirracista e a Redefinição Histórica
no Brasil 44
Anne Marylin da Silva Santos (Sec. Municipal de Educação do Rio de Janeiro)
Esta apresentação propõe uma reflexão sobre o papel da literatura africana, em especial da obra da escritora
moçambicana Paulina Chiziane, como instrumento pedagógico para o ensino da história e cultura africanas no
Brasil, em conformidade com a Lei n. 11.645/2008. Tal legislação enfatiza a necessidade de inserção da história
e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas brasileiras, buscando promover uma educação que
contribua para a superação de estereótipos e práticas racistas. A partir da análise da narrativa de Chiziane, este
trabalho discute como a literatura africana pode oferecer uma perspectiva renovada e crítica acerca da África,
contrapondo-se a visões reducionistas e estereotipadas. A utilização de obras literárias africanas em sala de
aula visa não apenas cumprir um mandato legal, mas também fomentar um letramento crítico que permita aos
alunos compreenderem as dinâmicas históricas e contemporâneas das sociedades africanas e
afrodiaspóricas. Assim, este estudo destaca a importância de uma abordagem educacional que integre
literatura e história para a construção de uma consciência antirracista, promovendo uma educação mais
inclusiva e representativa.
O presente estudo visa investigar a história da prospecção de ouro em Angola, no século XVIII, e suas conexões
com Minas Gerais. Os pontos em comum são as vidas de dois Caetanos, tio e sobrinho, que unem as duas
margens do Atlântico e revelam tentativas de prospecção de ouro em Angola, mundos do trabalho e técnicas
mineralógicas.
Apoio:
A Batalha do Dande e a mudança nas relações de poder do Ndongo, meados do século XVI
O objetivo desta comunicação é discutir as ligações entre a ocorrência da chamada Batalha do Dande, em 1556
– momento que coincide com uma fase crítica de sua abertura ao Atlântico –, e as transformações nas relações
políticas entre o Ndongo e o Congo, bem como nas suas relações com os estrangeiros atuantes na região. E,
dessa maneira, refletir sobre seus significados para a história política local. Nesse sentido, é preciso ter em
consideração que o Ndongo ocupava uma larga faixa da África Central Ocidental em uma região a sul do rio
Dande, que nesta época era considerado, pelos portugueses, como limite entre os territórios do Congo e de
Angola. Além disso, o ano de 1556 foi eleito pela historiografia como um dos grandes marcos de sua história
política por esta ser a data atribuída à emancipação do Ndongo em relação ao Congo, fato que parece possuir
relação direta com os processos ligados à sua associação ao comércio atlântico. De acordo com Ralph
Delgado, ao vencer o Congo, Angola libertou-se de sua tutela, o autor afirma que este evento teria aberto as
portas a uma “nova experiência colonizadora” (DELGADO, 1946). Para o historiador Alberto Oliveira Pinto, a
vitória na Batalha do Dande no ano de 1556, levou a mudanças que resultaram na maior autonomia do Ndongo
em relação ao Congo no que compete a atividades diplomáticas e comerciais com o exterior, pois, a partir daí,
o Ndongo deixa de pagar tributo ao manicongo (rei do Congo). Oliveira Pinto, pontua que este acontecimento
teria sido supervalorizado pelos historiadores coloniais, encabeçados por Ralph Delgado, elevando-o “à
categoria de marco da ‘independência’ do ‘Reino de Angola’”, enquanto “os historiadores pós-coloniais
parecem desvalorizá-la” (PINTO, 2015). Este autor propõe a necessidade de reflexão sobre os efetivos
significados da Batalha do Dande para o Ndongo, afirmando que a tentativa de compreensão desta deve passar
pela consideração dos interesses dos vários agentes envolvidos nesse contexto. A partir do reconhecimento de 45
que nesse momento estavam em jogo não apenas a disputa por poder na região, mas também interesses
comerciais atlânticos, nos propomos a questionar esse acontecimento, seus antecedentes, desdobramentos
e interpretações, na busca de contribuir para um melhor conhecimento da história do Ndongo nesse período.
Esta pesquisa objetiva analisar as dinâmicas de liberdade e as relações de gênero presente nas trajetórias de
mulheres alforriadas que viveram na região da Vila de Nossa Senhora do Livramento das Minas do Rio das
Contas, entre os anos de 1730 a 1750, demonstrando suas estratégias de sobrevivência e sua participação na
formação da sociedade sertaneja. O recorte temporal refere-se ao período de colonização e povoamento dos
sertões baianos. A região, nesse período, passava por um processo de formação específico, com a migração
de homens e mulheres livres, libertos(as) e escravizados(as), que tiveram que se adaptar às ordenações do
governo. Para fundamentar a pesquisa foram analisadas fontes primárias, como os inventários post-mortem e
os processos crime que envolvem tais mulheres. Estas fontes, localizadas no Arquivo Público de Rio de Contas
(AMRC), possibilitam investigar suas ações para além dos aspectos estritamente normativos relegados ao
gênero, revelando informações preciosas que possibilitam inferir sobre relações sociais/afetivas entre sujeitos
de "condições" e etnias distintas; e reconstituir seus trabalhos, revelando a constância e improvisação de
papéis informais, que eram socialmente desvalorizados e hostilizados pelas autoridades locais. Nesse sentido,
a análise documental, atrelada à abordagem microssocial do cotidiano, permitiu encontrar fragmentos da vida
de mulheres alforriadas que viveram na região da vila durante a primeira metade do século XVIII. Essas
mulheres estabeleceram relações sociais com figuras em posições hierárquicas superiores, amealharam
pecúlio com seu trabalho para sua sobrevivência e de outros e, até mesmo, recorreram à justiça pelo
reconhecimento da exploração da sua mão de obra, mesmo diante das hierarquias e mecanismos de domínio
e sujeição que envolviam as instâncias judiciais. Investigar suas vidas é colocá-las como protagonistas das
Apoio:
suas próprias histórias, percebendo suas ações de resistência e improvisação, que evidenciam, sobretudo,
suas estratégias de sobrevivência diante do regime escravista.
Colonização dos sertões baianos: Transmissões culturais e vivências de mulheres africanas (1700-1750)
Objetiva-se neste estudo analisar o trabalho e as experiências de mulheres escravizadas na colonização dos
sertões baianos, na primeira metade do século XVIII. Através da análise de inventários post-mortem,
localizados no Arquivo Público de Rio de Contas-BA, pretende-se identificar mulheres africanas escravizadas,
evidenciando o seu protagonismo na estruturação das fazendas de gado sertanejas. O trabalho feminino esteve
inserido na dinâmica dos movimentos de penetração no sentido das franjas litorâneas para o interior da
colônia. De modo geral, os fatores impulsionadores desses movimentos foram amplamente abordados pela
historiografia brasileira, contudo, centrados no protagonismo masculino, do colono português. A presente
pesquisa visa investigar o trabalho das mulheres escravizadas na estruturação das fazendas de gado, na
primeira metade do século XVIII. Trata-se analisar a cultura do trabalho feminino, cujas raízes remontam às
tradições africanas, suas transmissões geracionais e seus processos adaptativos e de resistência à dura faina
das fazendas de gado período de expansão da colonização. O papel das mulheres africanas na colonização
está totalmente conectado a ancestralidade cultural africana. Ao investigar a ancestralidade do trabalho,
teremos como ponto de partida os territórios de origem das africanas traficadas atuando como referência. O
projeto tem como premissa, que as experiências das africanas escravizadas não se restringem à sua chegada 46
na colônia. Entende-se que essas mulheres trouxeram consigo experiências e saberes que são anteriores à
diáspora, e que por sua vez serão primordiais para as vivências nas fazendas sertanejas. As africanas, agora em
solo sertanejo, se organizaram tanto a partir de suas experiências obtidas em África, como nas práticas
cotidianas, com as lavouras e criações de gado que tiveram que lidar. O povo africano também tinha
conhecimentos importantes para o desenvolvimento das atividades que seriam desenvolvidas nas fazendas.
Para conseguir identificar como essas mulheres atuavam, é fundamental se desprender de uma estrutura rígida
no qual estabelecem a funções e papéis que homens e mulheres hegemonicamente exerciam, ou deveriam
exercer. As africanas escravizadas realizavam diversas funções não havendo espaço delimitado e assim
estabeleciam diversas estratégias de sobrevivência. É nessa nova realidade que reestabeleceram seu modo de
viver. A partir do cruzamento de culturas diferentes, em que costumes iam sendo apropriados e integrados na
rotina, recriaram assim suas práticas através de trocas entre a sua própria herança cultural juntamente com
elementos de outras culturas existentes no cotidiano das fazendas sertanejas em formação.
Entre cores e insígnias de chefaturas: os frontispícios da obra de Oliveira de Cadornega (Luanda, século
XVII)
As estampas dos frontispícios manuscritos da obra História Geral das Guerras Angolanas, escrita entre 1670 e
1681 em Luanda, por António de Oliveira de Cadornega, um cristão novo a serviço da coroa portuguesa nas
conquistas das Angolas, são ainda pouco observadas. A obra de Cadornega é uma importante fonte
documental para historiografia que trabalha com Angola seiscentista, mas, geralmente, apenas o texto é
analisado, e as estampas aparecem citadas rareadas vezes e de modo ilustrativo. Portanto, esse trabalho se
debruçará na análise das estampas da obra, dos frontispícios aquarelados que provavelmente foram feitos por
um artista, e não pelo autor, e que abrem os tomos que atualmente fazem parte do acervo da Academia das
Ciências de Lisboa. Os tomos desse acervo são os que consideramos o translado definitivo da obra, ou seja,
escrito a próprio punho pelo autor, saído de Luanda em 1681 e chegado em Lisboa em 1683, conforme informa
Apoio:
a qualificação do Santo Ofício presente no final do tomo primeiro, que também carrega um frontispício que
analisaremos.
O objetivo principal deste trabalho é examinar o contexto sócio-político e cultural que deu origem ao
movimento social angolano denominado Revús, bem como analisar sua atuação e impacto na história
sociedade angolana contemporânea. Esse movimento foi protagonizado por membros da sociedade civil,
principalmente pelo grupo representativo da juventude conhecido também como "ultra-confrontacionistas" ou
“jovens revolucionários”, apelidados popularmente como Revús. Sua formação remonta ao ano de 2011, em
Angola, com a intenção de questionar o sistema político vigente e de remover o presidente do país, à época,
José Eduardo dos Santos ocupava o cargo de presidente de Angola há 32 anos. O movimento foi influenciado
pela conjuntura da "Primavera Árabe", que consistiu em ondas de protestos no Norte da África e no Oriente
Médio, visando derrubar regimes políticos longevos, autoritários e desestruturados economicamente para a
maioria da população. Além deste, vamos analisar outros movimentos sociais luandenses.
47
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 04
Artes de Curar e Práticas de Assistência no Brasil: História da
Saúde, Cultura e Sociedade
Coordenação:
Anne Thereza de Almeida Proença (Fundação CECIERJ), Caroline Gil (Fiocruz)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
48
“O Typho veraneia em Friburgo”: medidas de enfrentamento e o olhar social sobre as epidemias de Febre
Tifoide nos anos 1934 e 1936
O presente trabalho tem como objetivo investigar as epidemias de Febre Tifoide que ocorreram em 1934 e 1936
em Nova Friburgo, cidade da Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro, e os impactos destas emergências
sanitárias para o município que era conhecido desde o século XIX como um verdadeiro sanatório natural. Esta
proposta de apresentação marca o início das minhas pesquisas sobre o tema, estimulado pelas obras de
revitalização de um dos locais utilizados como hospital de isolamento neste recorte temporal, conhecido pela
população friburguense como Casarão do Lazareto. Atualmente, as nomenclaturas Tifo e Febre Tifoide
correspondem às doenças com patógenos, sintomas e métodos de tratamento diferentes. Porém, na década
de 1930, ambos os nomes se confundiam e acabavam por designar uma mesma enfermidade, que acometia
indivíduos que tivessem contato com água contaminada pelo chamado bacilo de Eberth (Salmonella typhi),
descoberta pelo médico alemão Carl Joseph Eberth em 1880. As grandes contaminações eram favorecidas em
períodos de grandes chuvas, sendo o verão a época mais comum das epidemias, tal como aconteceu em Nova
Friburgo. Esta, porém, era a estação em que a cidade recebia o maior número de visitantes. Por isso, o aumento
no número de doentes se apresentou como um problema a ser rapidamente combatido pelo governo local,
recebendo auxílio do governo estadual através do envio de médicos, enfermeiras, recursos materiais para os
hospitais de isolamento temporários e disponibilização de créditos para financiar obras de melhoria no
saneamento e abastecimento de água da população mais atingida pela epidemia, que vivia nas áreas ainda
rurais da cidade. Destacamos ainda que a década de 1930 foi um período de grande disputa na política
friburguense, envolvida pelo contexto do primeiro governo de Getúlio Vargas. E isto também influenciou nas
respostas aos primeiros indícios dos dois episódios epidêmicos. A Febre Tifoide fez mais vítimas em Nova
Friburgo do que a Gripe Espanhola, o que inevitavelmente influenciou às dinâmicas sociais, políticas,
econômicas, culturais e na infraestrutura da cidade no período. Assim, além das grandes obras de engenharia
hidráulica e da utilização do Casarão do Lazareto serem resquícios destas emergências sanitárias, temos ainda
a Igreja de São Roque, no bairro de Olaria, um dos mais atingidos na segunda epidemia. Para os fiéis, o santo
Apoio:
foi um grande intercessor contra o mal que os acometeu e a construção de uma igreja dedicada a ele cessou a
epidemia que dizimava a população local. A História da Saúde está intrinsicamente ligada à História de Nova
Friburgo desde sua criação no século XIX e sua materialidade passou a fazer parte da rotina da população,
sendo constantemente ressignificada por ela.
Um olhar sobre o sertão ao sul: A Guerra do Contestado e o discurso médico e militar sobre as práticas de
cura de João Maria
A Guerra do Contestado (1912-1916) foi um dos principais conflitos entre civis e militares ocorridos na Primeira
República. De um lado estavam os caboclos, que, à medida que a região era inserida numa complexa rede do
capitalismo internacional, viam-se prejudicados, perdendo suas terras, empregos, casas e fontes de renda.
Além disso, havia uma longa disputa de terras entre os estados de Santa Catarina e o Paraná. Nesse contexto,
encontravam na figura dos monges curandeiros conhecidos como João e José Maria um fator de unificação e
resistência. Do outro lado, estavam militares, políticos e oligarcas locais, que, dialogando com instituições
científicas da época, produziram obras buscando compreender as origens do conflito na região sul. Este
trabalho se propõe a analisar a obra do médico militar Ezequiel Antunes, intitulada "O Contestado Entre Paraná
e Santa Catarina: Gênese do Fanatismo e a Lenda do Monge", com o objetivo de compreender as origens do
conflito, a partir da perspectiva de um médico que esteve presente na guerra e posteriormente se dedicou a
escrever sobre ela. Durante a análise, busca-se demonstrar que o resultado da pesquisa do médico militar 49
decorre de um extenso diálogo com outros colegas militares, como Dermeval Peixoto, Herculano de
Assumpção, Antonio Alves Cerqueira e Pinto Soares, que também se dedicaram a escrever sobre o mesmo
tema, além de setores civis, principalmente aqueles ligados ao movimento do sertão. Isso aponta para uma
obra inserida em um complexo, porém dominante, debate nacional que enfoca a preocupação em conectar o
sertão ao litoral. A conclusão apontada é que, segundo o autor, as origens do fanatismo que levou à Guerra têm
suas raízes na presença dos curandeiros na região do planalto catarinense. Estes curandeiros acabaram
servindo de conforto e solução para os enfermos locais, estabelecendo um culto ao redor de suas figuras que
resultaria em um fanatismo incontrolável. Ezequiel Antunes sugere que este episódio é expressão do descaso
do Estado brasileiro para com o sertão, deixando sua população desassistida em saúde e educação,
entregando-os às mãos das oligarquias locais. Esse apontamento exemplifica a preocupação existente entre
as elites intelectuais republicanas, que desenvolviam análises semelhantes à do médico militar, enfatizando a
necessidade de educação e cuidado com a saúde do sertão, indicando uma narrativa que dialogava com uma
preocupação mais ampla com os sertões brasileiros.
Este trabalho busca analisar a interferência da indústria de alimentos na saúde da primeira infância, entre os
anos de 1920 e 1940. Em fins do século XIX a mortalidade infantil no Brasil era objeto de atenção médica, e alvo
de debates travados nas principais faculdades de medicina do país. O período é marcado pela consolidação
de uma rede de assistência construída por meio de recursos públicos e privados, por intermédio de uma
intelectualidade preocupada com os rumos da pátria. Nas primeiras décadas do século XX a alimentação nos
primeiros meses de vida se dava, sobretudo, mediante a contratação de amas de leite, o emprego do leite de
vaca e a utilização de farinhas alimentares. E, no decorrer dos anos de 1920 é possível acompanhar um
aumento crescente de anúncios em jornais e revistas em favor do leite industrializado. Busca-se aqui observar,
através de propagandas de alimentos e escritos médicos, a dinâmica alimentar dos habitantes da cidade do
Apoio:
Rio de Janeiro, e os limites entre o discurso e a prática médica tendo a via alimentar como meio de combate à
mortalidade infantil. As instituições de assistência à infância foram responsáveis pela distribuição de leite
esterilizado, a educação da mulher e a promoção de concursos de robustez, como os realizados pelo Instituto
de Proteção e Assistência à Infância. Havia uma linha tênue entre o discurso científico e as práticas sociais
impostas pela própria cultura. A partir de teses médicas, de relatórios e da legislação em vigor na capital da
república brasileira, buscaremos compreender o desenvolvimento de políticas de proteção à saúde da criança,
entre os anos de 1920 e 1940.
Essa pesquisa de doutorado visa analisar, em suas múltiplas manifestações na sociedade brasileira, a
instituição do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), voltado para a alimentação de escolares no
Brasil entre os anos de 1955, quando seu marco oficial tem início sob o nome de Campanha da Merenda Escolar
(CME) até 1993, quando já nomeado PNAE conta com uma gestão centralizada no governo federal e com
recursos próprios do Brasil. A merenda escolar - como é popularmente conhecido o PNAE - se localiza em
termos de programas nacionais de resguardo à alimentação e nutrição, como o mais antigo em vigência no
país. Referenciado como um dos maiores programas de alimentação em âmbito mundial, possui relevante
alcance territorial, com presença em todos os municípios brasileiros e atendimento a mais de 40 milhões de
estudantes por dia. Quando em 2014 a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) 50
anunciou a saída do Brasil do “Mapa da Fome”, os dados apresentados apontavam uma redução em 82% no
número de brasileiros em situação de subalimentação no país. Segundo a FAO a nova conjuntura brasileira se
devia dentre outros fatores ao acesso de 43 milhões de crianças e jovens a refeições ([Link], 2022). Dados do
novo relatório da FAO produzido sobre o período que cobre 2019-2021, revelaram o regresso do Brasil ao Mapa
quando o país passou a contar com 15,4 milhões de pessoas em grave situação de insegurança alimentar neste
recorte. Na total contramão da apresentação de solução o problema da fome vivido em solo nacional, o PNAE
sofreu um veto ao artigo 25°, parágrafo 3°, da LDO pelo governo Bolsonaro, que aprovado pelo Congresso
Nacional previa o reajuste de 34% dos valores per capita do PNAE pela inflação, baseado em sua última
atualização, no ano de 2017 (ÓAÊ, 2022). A conjuntura sugere discussão urgente sobre o programa, que além
de contribuir em termos de redução da fome, é responsável pela redução da evasão escolar e mecanismo de
suma importância para o processo de aprendizagem e rendimento do educando. A partir de uma análise crítica
e em perspectiva histórica, pretende-se abordar contextos favorecedores da gênese e permanência desta
política alimentar durante múltiplos governos no Brasil, avaliando os papéis estatais em sua formulação e
manutenção, as articulações políticas ocorridas no país e a importância dos convênios promovidos com
organismos exteriores para sua efetivação nacional, a reverberação deste programa na imprensa e sua
recepção enquanto política de atenção à nutrição dos escolares pela sociedade, com ênfase nas
permanências e mudanças observadas na estrutura do programa ao longo dos anos, à medida que se assentou
como política pública.
Neste trabalho buscamos analisar a obra do médico português Heliodoro Jacinto de Araujo Carneiro, intitulada:
Reflexões e observações sobre a prática da inoculação da vaccina, e as suas funestas consequências. Sob o
patrocínio do Monarca Dom João VI, a obra foi publicada em 1808 e sua importância revela-se por ser uma das
Apoio:
primeiras publicações sobre o tema da vacina antivariólica em Portugal, tendo destaque por ser a principal obra
contra a vacinação no império português no início do século XIX. Mais do que um simples embuste contra a
prática da vacina, como foi tratada pelos médicos apoiadores da vacinação da época, a obra apresenta casos
empíricos e questionamentos teóricos sobre a vacina e diversas críticas à obra do médico inglês Edward Jenner,
o descobridor da vacina. Para construir o seu livro, Heliodoro Carneiro não praticou efetivamente a vacinação,
mas se baseou nas obras de uma série de autores ingleses e nas suas observações visitando os práticos e os
hospitais particulares na Inglaterra, deste modo o autor argumentou ter entrado em contato com todos os
fenômenos em relação à vacina e suas “funestas consequências”. O principal argumento da obra de Heliodoro
Carneiro, era a teoria que ao se introduzir uma doença animal em seres humanos, isso trazia o risco de
introduzir outras doenças no homem sem nem mesmo com isso garantir a proteção contra a varíola. O autor
buscou comprovar este argumento através da observação de diversos casos empíricos na Inglaterra, e mesmo
em Portugal, onde as pessoas vacinadas estariam contraindo diversas moléstias, de diferentes intensidades,
que teriam levado até mesmo a morte. Portanto, o estudo da obra de Heliodoro Carneiro torna-se interessante,
pois em meio a construção de seus argumentos arguição contra a vacina o autor utilizou de argumentos que
circundavam os campos médico, social, cultural, histórico e científico, para assim explicar porque a prática
não deveria ser utilizada e porque até então estava tendo tanta aceitação. Deste modo a obra, é uma importante
ferramenta para entendermos os debates sobre a vacina e da medicina da época.
Apoio:
Entre Lepra e Hanseníase: Narrativas e Significados na História da Saúde Brasileira (1930 – 2023)
Ao longo das décadas de 1920 e 1930, a doença então chamada “lepra” espalhou-se pela maioria dos estados
brasileiros. Em 1921, de acordo com o Decreto nº 16.3006, a lepra passou a ser considerada uma endemia de
progressão geométrica no Brasil. Por esse motivo, foi reforçada a política de que o isolamento dos doentes
deveria ocorrer em locais apropriados para tal uso (CARVALHO, 2016). Na década de 1930, o Estado Brasileiro
intensificou a campanha higienista no intuito de suplantar os déficits do saneamento nacional. Segundo
Bezerra (2019), o combate à lepra alcançou escala nacional ao longo da Era Vargas (1930-1945), período no
qual o movimento higienista chegou ao seu auge. Com o decreto nº 19.402 de 1930, o isolamento tornou-se
compulsório no Brasil. O objetivo do presente trabalho é problematizar os diferentes sentidos atribuídos aos
nomes da doença causada pela Bacilo de Hansen - “lepra” e “hanseníase” – desde o período das internação
compulsórias até o tempo presente. A metodologia empregada é qualitativa e exploratória, utilizando fontes
documentais e bibliográficas. Optou-se pela história oral e por entrevistas temáticas e de história de vida com
roteiros parcialmente estruturados. A análise das entrevistas demonstrou que diversas concepções atribuídas
à doença seguem reverberando no tempo presente. De modo geral, foi possível observar que os sujeitos que
escolhem se identificar com os sentidos atribuídos à hanseníase reconstroem seus respectivos passados
angariando a eles novos arranjos no tempo presente. Enquanto isso, foi possível perceber que sujeitos que se
identificam com os sentidos atribuídos à lepra reproduzem uma narrativa rígida que tende a desconsiderar
novos arranjos no presente, ao passo que repercute marcas associadas à metáfora da lepra.
52
Saberes e práticas de saúde: os boticários jesuítas, no Rio de Janeiro (1650-1750)
No século XVIII, sob os auspícios do Antigo Regime, Portugal encarava a saúde pública como um elemento
fundamental para a estabilidade governamental. Neste contexto, proteger a saúde e controlar as doenças
emergenciais como preocupações centrais para as autoridades, refletia uma mudança significativa nas
políticas de saúde que passaram a valorizar a preservação da vida humana. Contudo, a implementação desses
novos paradigmas na América Portuguesa ocorre de forma lenta e gradual. Neste momento, os jesuítas
começaram a introduzir práticas de aviar medicamentos para tentar controlar ou erradicar doenças, suprindo
a falta de serviços médicos e farmacêuticos. Esta apresentação buscará explorar o papel crucial
desempenhado pela prática farmacêutica — uma disciplina então em plena expansão em Portugal — no
trabalho dos boticários jesuítas que tratavam doenças e promoviam a saúde nas comunidades locais.
Para aprofundar esta análise, será examinada a documentação dos Autos de sequestro de bens das fazendas
jesuíticas em Campos dos Goytacazes e do Colégio do Rio de Janeiro. Esses documentos fornecem uma rica
bibliografia sobre farmacologia, incluindo textos de autores relevantes que detalham as práticas médicas e
farmacêuticas dos jesuítas. Incorporaremos o estudo de outras duas obras manuscritas importantes: a Árvore
da Vida (1720), escrita por jesuíta e boticário Affonso a Costa, e a Coleção de várias receitas e segredos
particulares das boticas jesuíticas de Portugal, da Índia, de Macau e do Brasil (1766). Estas fontes não apenas
detalham os autores das receitas, mas também descrevem os ingredientes utilizados, as formas de aplicação
e os propósitos terapêuticos, oferecendo informações importantes sobre as doenças mais comuns na época.
Ao focar na farmacologia jesuítica, este estudo não apenas enfatiza sua importância para a história da saúde
pública no Brasil, mas também ilumina as interações entre ciência e religião na América Portuguesa. Através
deste exame detalhado, é possível compreender melhor como as práticas médicas e religiosas se
entrelaçavam, refletindo uma complexa rede de influências culturais, espirituais e científicas que moldaram o
desenvolvimento da saúde pública na região.
Apoio:
Uma história do Sistema Único de Saúde: assistência descentralizada e participação popular na capital
paraense entre 1990- 2000
A implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), a partir de sua regulamentação em 1990, formalizou a saúde
como um direito de todo cidadão brasileiro e envolveu diversas frentes, atores e situações. Com o objetivo de
ser um sistema de saúde descentralizado e com plena participação da sociedade, a construção do SUS
mobilizou diversos setores da sociedade civil organizada e atores institucionais locais, tal como Secretarias
Estaduais e Municipais de Saúde (ARRETCHE, 2001, 2005; NOGUEIRA, 2010). O SUS como uma construção de
diversos atores no campo da História da Saúde, em grande medida, ainda se restringe às discussões da
Reforma Sanitária nos anos 80, sendo necessário avançar para entender seu percurso posterior (AZEVEDO,
2016; SOPHIA, 2012; PAIVA, TEIXEIRA, 2014; PAIVA; FONSECA, 2015). Diante disso, o objetivo desse trabalho é
analisar em perspectiva histórica a construção de uma assistência à saúde descentralizada e a participação
popular nesse processo em Belém do Pará entre 1990 até o ano 2000, quando as discussões sobre
descentralização ganham outros direcionamentos com os projetos de regionalização da rede de atenção à
saúde. Esse quadro local será trabalhado, metodologicamente, a partir de discussões que pautem interações
entre local e nacional, entendendo que a capital paraense faz “[...] parte de um sistema de relações que integra”
(SILVA, 1990: 43). Nesse sentido, a construção do SUS no Pará será posta em interação com o sistema de
relações estabelecido na Federação brasileira, ou seja, esse processo regional informa um processo nacional
em desenvolvimento: a implantação do SUS. Para isso, partimos de documentos institucionais e literatura
periódica, bem como depoimentos de atores-chave.
53
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 05
As singularidades como potência: o individual e o local na
pesquisa e no ensino de história
Coordenação:
Andréa Camila de Faria Fernandes (Colégio João Lyra Filho), Claudia Patrícia de Oliveira Costa
(Secretaria do Estado de Educação do Rio de Janeiro)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
A presente comunicação visa apresentar o processo de elaboração coletiva de dois jogos de dominó com duas
turmas, uma de 1º e outra de 3º anos do Ensino Médio, de dois colégios da rede pública estadual de educação
do Rio de Janeiro, localizados nos bairros de Bonsucesso e Brás de Pina, respectivamente. Tais atividades
ocorreram no ano de 2023, no contexto dos eventos relacionados aos projetos anuais que visam atender,
durante o mês de novembro, às determinações das Leis 10639/2003 e 11645/2008. Como preconiza o
pesquisador José Morán, “os jogos colaborativos e individuais, de competição e colaboração, de estratégia,
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com etapas e habilidades bem definidas se tornam cada vez mais presentes nas diversas áreas de
conhecimento e níveis de ensino.” (2015, p. 18). Orientada por essa perspectiva, planejei e realizei dois jogos
com as regras do dominó tradicional, em uma ação coletiva com as referidas turmas, tendo como tema,
pequenas biografias de lideranças femininas da África pré-colonial (no 1º ano) e de pensadores pan-
africanistas (no 3º ano). Para a atividade, as turmas foram divididas em 7 grupos, cada um ficando responsável
pela pesquisa e levantamento de dados biográficos das personalidades selecionadas. No caso do trabalho
realizado pela turma de 3º ano, foram utilizados os verbetes e episódios do podcast do projeto “Escritores Pan-
Africanistas”, elaborado pelo Laboratório de Pesquisa e Práticas de Ensino em História, da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro. Nessa mesma turma, os estudantes também contaram com o acompanhamento de
um bolsista ligado ao projeto ProDocência intitulado “Usos do (auto)biográfico e educação antirracista: uma
proposta de intervenção”, sediado mesma universidade, sob a coordenação da professora Lívia Beatriz da
Conceição. Ao pensar e elaborar os jogos físicos, com uso de materiais simples e incluindo os estudantes em
todas as etapas da proposta, tornando-os protagonistas da ação pedagógica, acredito que estamos colocando
em evidência uma das funções da história e de seu ensino, qual seja, a produção de sentido ou orientação para
as vidas.
A comunicação aqui presente pretende expor um relato de experiência obtido através da nossa participação,
enquanto estagiários, no projeto ProDocência Usos do (auto)biográfico e a Educação Antirracista, promovido
pela UERJ em parceria com o Colégio Estadual Professor José de Souza Marques, no bairro Brás de Pina,
localizado na Zona da Leopoldina. No qual acompanhamos uma turma de 2° série na disciplina Relicário de
Heranças, componente da trilha de aprendizagem intitulada “Oportuna(i)dade”, pertencente ao Currículo
Referencial do Estado do Rio de Janeiro para o Novo Ensino Médio. Tal relato se passa no segundo semestre do
ano de 2023, onde foi proposto pela nossa preceptora, Profª. Dra. Cláudia P. de Oliveira Costa, uma sequência
Apoio:
pedagógica em que eles deveriam entrevistar moradores da sua comunidade escolar e familiar, dentro das
temáticas: migração e ser mulher, porém que não se desenvolveu como o esperado. A validação do documento
oficial dentro da historiografia, e por consequência, no Ensino de História, por muito tempo facilitou o
cerceamento de outras narrativas sobre eventos e experiências históricas, além contribuir para o
fortalecimento de que apenas a história dos vencedores fosse válida. Contudo, com a ampliação do que se
entende por fontes históricas, e pela produção de pesquisas que levassem em consideração memórias de
grupos subalternizados, começamos a ver no século XX outras práticas ganhando espaço dentro da academia
e instituições de ensino no território brasileiro, como a História Oral, essa vista como meio de projetar a voz de
grupos marginalizados e auxiliar na contextualização histórica das suas vivências, os colocando com agentes
históricos e os ligando ao passado, como diz Nadia Maria Guariza, no artigo “A história oral e o ensino de
história: A discussão em revistas acadêmicas brasileiras”. Sendo assim, a história oral pode privilegiar
comunidades periféricas onde o acesso às fontes oficiais históricas são escassas, capaz de contar histórias de
vidas diversas, com o objetivo de gerar identificação entre as partes, e desenvolver uma consciência histórica
do aluno para com o objeto de estudo. No artigo História do Cotidiano e Ensino de História, por Elisa Vermelho
Morales, a autora nos relata um suposto declínio do homem público, e exalta a possibilidade de relacionar o
mundo em que o estudante está inserido e seu engajamento com a compreensão da História. Auxiliando assim
a literacia histórica (LEE, 2006) dos discentes. Entretanto, na experiência que vivenciamos enquanto parte do
projeto, percebemos um movimento diferente do que esses autores da educação nos relatam, sendo notória a
dificuldade dos alunos de perceberem a relevância de suas agências e de seus objetos de pesquisa.
Apoio:
Saberes históricos em jogo: caminhos entre universidade e escola – Programa de Educação Tutorial (PET)
História PUC-Rio
O Programa de Educação Tutorial (PET) é um programa do governo federal. Ele foi criado para apoiar atividades
acadêmicas que integram ensino, pesquisa e extensão. Nessa perspectiva, o PET vinculado ao Departamento
de História da PUC-Rio desenvolve diversas atividades, promovendo a aquisição de conhecimentos
abrangentes e complexos sobre o mundo físico, cultural, social e digital, além de atitudes e práticas voltadas à
cidadania. Dentre as atividades do grupo, está a elaboração de materiais didáticos visando a aplicação de
oficinas em escolas públicas e privadas no âmbito do projeto “História, Memória e Patrimônio Cultural: o bairro
da Gávea e seu entorno”. Para esta comunicação, possuindo como horizonte a preparação dessas oficinas
didáticas, propomos refletir sobre experiências exitosas do diálogo entre teoria e prática, escola e universidade,
graduação e pós-graduação, ocorridas a partir de duas oficinas oferecidas no PET História PUC-Rio por
professores regentes da educação básica, um deles mestrando do ProfHistória (Mestrado Profissional em
Ensino de História). Versando sobre a utilização de jogos analógicos no ensino de história, as trocas ocorridas
nas oficinas permitiram a compreensão da escola como espaço de pesquisa e criação, espaço de articulação
entre o conhecimento historiográfico acadêmico e o espírito lúdico dos alunos e alunas. Afinal, como afirma
Thompson, o caminho para a construção de um conhecimento vivo não pode ser outro a não ser o de
sucessivas perdas e retomadas do equilíbrio entre o rigor intelectual e o respeito à experiência. Entendemos,
assim, que a experiência posta na centralidade do processo de construção e disseminação do conhecimento
histórico, seja ele escolar ou acadêmico, reflete o respeito e a valorização de histórias plurais e criativas.
56
Ensino de História e História local: fortalecendo identidades em um município do interior do Piauí (São
Raimundo Nonato 2022/2024)
A comunicação objetiva problematizar algumas das ações pedagógicas desenvolvidas pelo subprojeto de
História da Universidade Estadual do Piauí, campus São Raimundo Nonato, no âmbito do programa residência
pedagógica, regulamentado pelo edital CAPES n. 24/2022. Outro objetivo será debater o impacto do programa
no processo de formação do/a professor/a – pesquisador/a dos/as discentes vinculados ao curso de
Licenciatura em História da referida instituição. Ao longo dos três módulos do programa, desenvolvido entre
nov/2022 e abr/ 2024, os/as residentes desenvolveram um conjunto diversificado de intervenções pedagógicas
nas escolas-campo para ampliar o senso crítico, o sentimento de pertencimento e o interesse dos(as)
alunos(as) pelo estudo da História de São Raimundo Nonato e, ao mesmo tempo, favorecer o desenvolvimento
da postura profissional, ética, autônoma e reflexiva para o exercício da docência. Além do aperfeiçoamento do
processo de formação, a participação no programa Oportunizou aos/às graduandos/as a elaboração de
produtos educativos voltados à promoção do ensino da história local, a exemplo de sequências didáticas,
jogos, folders, cartilhas, aplicativos, exposições fotográficas, quando puderam colocar em prática as
metodologias de ensino apreendidas na teoria. As ações desenvolvidas nas escolas-campo também foram
importantes no processo de articulação das perspectivas de ensino, pesquisa e extensão universitárias a partir
da aplicação de instrumentos de pesquisa, coleta de materiais e ações pedagógicas voltadas para a
problematização e aprofundamento acerca da História do município de São Raimundo Nonato.
Apoio:
Para não esquecer: usos da História Oral em Rondônia
Glauco José Costa Souza (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia - IFRO)
A importância da História Oral se deve em larga escala a possibilidade de dar vozes a sujeitos que outrora não
puderam ser inseridos nos registros históricos. Ela nos permite, por exemplo, apresentar narrativas que não se
mostram, originalmente, no formato escrito e que, por isso, foram ignoradas. Não obstante, isso não significa
que ela seja imune a adversidades. A questão tecnológica é um exemplo de possíveis desafios a serem
superados pelo pesquisador em seu dia a dia. Sem ser um especialista na Tecnologia de Informação e muitas
vezes sem suporte de pessoas que dominam essa área, o historiador se vê frequentemente diante de situações
para as quais não foi moldado, mas que o fazer história exige soluções. Apesar disso, a História Oral consiste
em uma ferramenta riquíssima para escapar de situações há séculos prejudiciais a alguns sujeitos históricos.
Se consideramos que até o século XX e antes do surgimento da Escola dos Annales as fontes históricas se
concentravam quase que exclusivamente no formato escrito, temos milênios de histórias perdidas pela falta
de registro. A partir dos anos 1900, entretanto, isso passou a ser superado com o advento da tecnologia áudio
visual e atualmente seus instrumentos têm sido utilizados por historiadores a fim de constituir um instrumento
de grande potencial para novas pesquisas históricas. Tal situação é realidade no estado de Rondônia. Local que
se tornou estado federativo do Brasil na segunda metade do século XX, ele teve um grande impulso de imigração
nos últimos 40 a 50 anos e possui muitos agentes históricos deste processo vivos na atualidade. Dessa forma,
a região se apresenta como um importante polo atrativo para colher registros orais de pessoas que vivenciaram
a Ditadura Civil-Militar (1964 a 1985), bem como vivem na Nova República (1985 até hoje). Ali tivemos
verdadeiras cidades sendo construídas a partir das ações destes sujeitos, o que aponta a importância dos
indivíduos de determinadas localidades nos processos históricos e permitem, por meio dos registros orais, 57
valorizar essas experiências. Assim, seguindo o esteio da proposta do Simpósio, como afirma Leonor Arfuch
(2010), “contar a história de uma vida é dar vida a essa história”, Rondônia se apresenta como um espaço
singular de boa parte de sua história ainda pode ser registrada. Natural de Duque de Caxias, eu confesso que
me senti bastante estimulado a tal empreitada ao trabalhar naquele estado e, por isso, tenho como objeto
apresentar um pouco dos desafios e resultados do projeto que está sendo desenvolvido acerca do tema.
O presente trabalho investiga os obstáculos enfrentados pelo jornal Gazeta de Sergipe (1927 a 2004) durante o período
mais repressivo da Ditadura Militar, marcado pela instauração do Ato Institucional número 5, em 1968 e pelo governo
Emílio Garrastazu Médici, vigente entre os anos de 1969 a 1974. Por isso, buscou-se compreender a posição jornalística
do periódico acerca da censura e de algumas temáticas primordiais para o estudo da época, como os setores
econômico e educacional, a administração dos militares na presidência do país e a política local, no caso a sergipana.
A pesquisa iniciou-se com a catalogação dos eixos temáticos mais recorrentes nos editoriais da Gazeta de Sergipe, isto
é, política sergipana, economia e governo dos militares, os quais foram discutidos ao longo do trabalho. Foram
analisados os editoriais do periódico publicados a partir do início do ano de 1968 até 1974, destacando-se temas como
combate à corrupção, AI-5 e movimento estudantil. A partir da consulta aos exemplares, foi possível compreender que
mesmo com a existência de pontos contrários às práticas realizadas pelos militares em sua gestão, não havia um
direcionamento crítico direto, predominando ambiguidades políticas em um contexto de censura. Notou-se o interesse
da equipe jornalística em apontamentos específicos sobre a realidade local, às vezes, com críticas a um determinado
governante estadual, mas sem relacionar com as decisões vindas do Governo Federal. Esta tática, levou o leitor a ter
uma visão parcial dos fatos ao acreditar que aquele assunto abordado não tem relação com os militares, apenas com a
política local.
Apoio:
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Nascido na cidade maranhense de Caxias, em agosto de 1823, Antônio Gonçalves Dias é até hoje identificado como um
dos grandes nomes da nossa literatura. Alçado ao panteon literário brasileiro já a partir da publicação de sua obra
inaugural, os “Primeiros Cantos”, que vieram a luz em 1847 e eram iniciados pela, hoje célebre, “Canção do exílio”, não
tardou muito para que sua vida e sua obra, fossem consagradas como signos de uma identidade nacional brasileira que
se construía, num processo marcado por escolhas, mais ou menos deliberadas, entre o que deveria ser lembrado e o
que deveria ser esquecido na fixação de sua memória de poeta nacional. Nesse processo de construção identitária,
Gonçalves Dias tornou-se, por sua vida e sua obra, uma espécie de representante ideal do ser brasileiro, quase um ícone
de identidade, de tal modo que, da data do seu nascimento aos temas de suas principais obras, passando pela sua
filiação, já que era filho de pai português e mãe cafuza, tudo foi associado à sua memória de poeta nacional. Memória
essa, que segundo nosso entendimento, teve seus alicerces lançados por ele próprio. Assim, reconhecendo sua
posição consagrada e sem buscar desmerecê-la, temos em mente que a fixação de seu nome entre os grandes de nossa
literatura foi mais do que o resultado de um esforço individual do próprio poeta de “fazer o seu nome”. Foi o
desdobramento de um projeto de criação identitária, nacional e individual, que se mostrou vitorioso. Projeto esse que
buscava criar uma identidade nacional para um Estado recém independente politicamente, e que nesse caminho
procurava criar uma literatura brasileira que cumprisse o duplo papel de ser independente sem, contudo, abandonar
completamente as normas estabelecidas por uma cultura europeia, dita civilizada. Nesse sentido, falar da construção 58
de identidade de Gonçalves Dias enquanto “poeta nacional”, é falar dos projetos de construção de identidade nacional
que estiveram associados ou foram atravessados por sua memória (auto)biográfica. Aqui, em particular, visitando seus
registros autobiográficos e a construção memorial desenvolvida por alguns de seus críticos e biógrafos, de modo a
problematizar essas narrativas e perceber quais as identidades que foram se forjando para Gonçalves Dias nesse
processo que o fixou definitivamente como um dos grandes nomes da nossa literatura.
Edgard Cavalheiro: a escrita biográfica como um dos artefatos culturais viabilizadores da construção e
difusão do conhecimento histórico
A escrita biográfica, em especial, sua versão renovada, fruto de intensos debates que agitaram a
intelectualidade nas primeiras décadas do século XX, tem se constituído ao longo do tempo, como um dos
artefatos culturais viabilizadores da construção e difusão do conhecimento histórico. A reflexão sobre seus
usos, formas e funções pode se caracterizar como um dos caminhos de análise não apenas acerca de seus
biografados e do contexto em que se inserem, como também da própria época em que essas biografias foram
escritas. Em terras brasileiras, o biógrafo paulista Edgard Cavalheiro (1911-1958), foi um dos escritores que
apostaram na chamada biografia moderna, deixando registrado em muitas de suas produções importantes
contribuições ao debate biográfico do período. Exemplo disso é seu ensaio intitulado Biografias e biógrafos,
publicado em 1943, em que fez uma importante reflexão sobre o gênero literário. Já a biografia de Fagundes
Varela, sua primeira grande produção, publicada três anos antes, reúne características que a situam dentro do
contexto das biografias modernas. É o caso por exemplo, de serem situadas as qualidades literárias sem
endeusamento do biografado. Além disso, fornece um panorama criterioso do cenário intelectual e da vida
social da capital de São Paulo entre as décadas de 1830 e 1850. Auxiliando assim, na compreensão da vida e
obra da personalidade retratada, daquele período histórico e da própria escrita da história nacional.
Apoio:
Itinerários de Dalcídio Jurandir e o Concurso Vecchi-Dom Casmurro (1939-1941): o ingresso do romancista
amazônico na cena literária nacional
Dalcídio Jurandir, escritor paraense, produziu o Ciclo do Extremo Norte, conjunto de dez romances que narram
vivências amazônicas do início do século XX. Seu ingresso na cena literária nacional se deu com a vitória do
Concurso de Romances Vecchi-Dom Casmurro (1939-1941), realizado por meio de uma parceria entre o jornal
literário Dom Casmurro e a Editora Vecchi, instituições sediadas no Rio de Janeiro. O sucesso no certame
concedeu ao autor, além da premiação financeira de 5 mil réis, a publicação de seu romance inaugural,
intitulado Chove nos Campos de Cachoeira. Com essa publicação, em 1941, o escritor realizou sua mudança
de residência do Pará para o Rio de Janeiro, cidade onde desenvolveu sua carreira na condição de escritor
profissional, atuando na colaboração a periódicos e na produção de romances. Levando em consideração o
itinerário intelectual de Dalcídio Jurandir e sua relevância como mediador cultural de saberes, linguagens e
vivências amazônicas, este trabalho tem o objetivo de apresentar o processo de publicação de seu primeiro
romance, fato profundamente imbricado em sua oportunidade de migração para o Rio de Janeiro. Serão
analisadas, assim, peças de divulgação de Chove nos Campos de Cachoeira, notícias e críticas literárias
publicadas no hebdomadário Dom Casmurro, destacando-se a vinculação do autor ao concurso, bem como a
construção da identidade dalcidiana profundamente relacionada à sua naturalidade dita provinciana. Neste
trabalho, os impressos (jornais e romances) são percebidos como portadores de representações sociais
associadas à formação cultural nacional. Para a realização da pesquisa, mobilizamos os conceitos de
itinerários de formação intelectual, como proposto por Sirinelli (2003), e de campo e capital cultural e
simbólico, como proposto por Bourdieu (1989, 1996). Trata-se de um recorte de uma pesquisa de doutorado 59
em andamento, que se encontra na interseção entre a Literatura, a Educação e a História.
O presente artigo tem como objetivo defender duas teses: a da existência de um romance de formação dentro do
romance social Les Misérables; e acreditando nessa primeira tese, a segunda, de que tal formação se dá de forma
dialética entre a História da França e a narrativa sobre o personagem Marius. Ao longo da trajetória do personagem
em questão é possível observar que o mesmo passa pelas etapas formativas presentes nos romances de formação,
não sendo este um clássico, mas uma revisão que está em diálogo com a sociedade francesa do século XIX. Existe
ainda uma relação intrínseca entre a narrativa de Marius e a história pessoal do autor, Victor Hugo, o que leva a um
terceiro ponto interessante na narrativa do personagem. Sendo assim, o artigo faz uma análise de trechos do
romance, relacionando com teóricos literários, críticos, historiadores e biógrafos de Hugo.
Bens, Valores e Vontades na trajetória familiar da Africana Maria do Carmo Friandes no pós abolição
(1888-1904)
O artigo tem como objetivo principal dar notoriedade à trajetória familiar da africana Maria do Carmo Friandes,
sequestrada de sua matriz familiar pelo tráfico transatlântico no século XIX e escravizada na Bahia. Ao longo da vida,
Maria do Carmo conseguiu acumular diversas propriedades no distrito de Salvador. Tornou-se proprietária de mais de
vinte e cinco imóveis, entre os quais havia casas de luxo, avenidas, casebres e terrenos. Seu único filho Manoel da Silva
Friandes foi um militar, condecorado como Coronel, que possuiu diversos empreendimentos imobiliários na cidade de
Apoio:
Salvador. Apesar dos poucos indícios das existências de mulheres negras que se encontram na documentação oficial,
os que já foram localizados e discutidos pela historiografia evocam aspectos das relações interpessoais, comerciais e
sociais de uma parcela da população, possibilitando aos historiadores ter um vislumbre da trajetória e dos mecanismos
de sobrevivência das africanas e dos africanos no pós-abolição. Com base no testamento, inventário e, também,
processos crimes que envolvem Maria do Carmo e o seu herdeiro o Militar Manoel Friandes, buscamos tecer algumas
análises sobre a sua trajetória e de sua família, fazendo ecoar uma história que, por muito tempo, permaneceu invisível
à historiografia. A evidência à mobilidade social vivida pela africana liberta Maria do Carmo e sua família, revela uma
trajetória extraordinária e de protagonismo negro no pós abolição.
Não raro a figura e a obra de Fernanda Montenegro são tomadas como patrimônio artístico nacional. Diferentes
discursos a inventam e a definem como “grande dama do teatro brasileiro”, consagrando sua imagem e enfatizando o
lugar de prestígio que a atriz ocupa junto à cultura das artes no Brasil. Esse processo de invenção e produção de
significados em torno de sua trajetória não se limita às muitas narrativas que constantemente a constroem, haja vista
que a atriz também se preocupou, ao longo do tempo, em tecer diferentes narrativas e escritas de si, e em arquivar a
própria vida, demarcando sua importância, fazendo de sua obra um exemplo, e preocupando-se com a imagem de si
para a posteridade. Minha tese de doutorado, que está sendo elaborada, trata sobre sua trajetória. A pesquisa busca 60
compreender como a atriz viveu autobiográficamente (Eakin, 2019), inventando e arquivando a si mesma (Artières,
1998), através de seu trabalho de memória (Ricoeur, 2007). Parto do pressuposto de que, especialmente nos últimos
anos, ciente da finitude da vida, a atriz tem se empenhado em um projeto autobiográfico propriamente dito. Este
empreendimento envolve não apenas a construção de lugares de memória (Nora, 1993) em forma de
foto/autobiografias, escritas de si que foram elaboradas em razão de seus aniversários de 90 anos de vida e 70 anos de
carreira, que oportunizaram exercícios comemorativos e de retrospectiva de si. Mas também envolve a ocupação de
lugares de memória que corroboram para a monumentalização e imortalização de seu legado artístico, e que a
legitimam como “mulher-monumento”. Entendo, assim, que sua entrada como imortal da Academia Brasileira de
Letras, em 2022, se revela como uma importante estratégia na demarcação de seu lugar junto à cultura nacional, e é
sobre este aspecto que esta comunicação trata. Ao investigar o processo de candidatura e eleição da atriz à cadeira 17
da renomada instituição, abordo como essa entrada foi, de certa forma, encomendada por outros imortais que ali
transitam. Abordo, de igual modo, como sua autobiografia Prólogo, Ato, Epílogo, escrita em colaboração com a jornalista
Marta Góes e publicada pela Companhia das Letras, em 2019, além de se constituir como um documento-monumento
(Le Goff, 2006), cujo propósito é arquivar para o futuro seu legado (Heymann, 2005, 2012), serviu como porta de entrada
que possibilitou e legitimou sua incursão como imortal da ABL. A comunicação é norteada pelas perspectivas da história
do tempo presente, dos estudos biográficos e dos arquivos pessoais, que viabilizam a análise de trajetórias não
encerradas e processos inacabados, entre os quais, os movimentos de monumentalização de célebres personalidades,
como Fernanda Montenegro, que figuram entre os grandes nomes no interior de uma nação.
Apoio:
remanescentes quilombolas de Mato Dentro, em Conselheiro Lafaiete, município localizado na região do Alto
Paraopeba, em Minas Gerais. O podcast se constitui de uma entrevista com uma das lideranças da
comunidade, onde busca-se escutar, conhecer e valorizar as histórias e saberes locais. Em uma comunidade
matriarcal, Simone Filomena se apresenta como uma importante liderança para preservação e construção de
saberes, o que a coloca, assim como seu lugar de vivência, como campo de construção de conhecimento e
possibilidades que dialoguem com o ensino de História. Com este trabalho, queremos, ao ouvir e apresentar a
história e os conhecimentos na constituição da comunidade de remanescentes quilombolas, afirmar, em
paráfrase a Gayatri Spivak (2010), que pode sim o subalterno falar. Além disso, objetiva-se também, valorizar
as diferentes formas de conhecimento para além do institucionalizado pela universidade e, como já muito
debatido pela historiografia, afirmar as possibilidades e potencialidades da utilização da história local como
caminho para o ensino de história na educação básica.
Meu corpo é ponte que liga ao outro. Francisco de Assis na diluição dos Poderes
Este estudo se propõe, à partir de uma nova reconstituição e debate das fontes franciscanas, a ir ao encontro
de um francisco de assis capaz de atuar em processos de diluição do poder pelos seus meios imitadas, e, ao
mesmo tempo, acolher e gerenciar novas novas relações e conexões ao redor de uma experiência fraterna, num
processo envolvendo uma certa diversidade cultural e de interesses. Desta forma, este estudo traz uma
contribuição muito importante para o diálogo entre diferentes culturas. Os encontros aqui apresentados são 61
encontros nos quais os lados não estão vinculados a negação das suas identidades a partir de algum tipo de
força impositiva, no entanto, existe um esforço, em várias dimensões, para além da palavra falada, um esforço
que se manifesta na ação e nos significados dos corpos, no esforço de aproximar-se. Se entendermos que em
enorme parte a história é a história dos conflitos, nos é necessário compreender todas as ferramentas que
tenhamos para lidar com estes conflitos. E portanto, sem dúvida, são de grande importância fontes de
aprendizado desta natureza nestes nossos tempos, sejam nos contextos locais ou globais, de forma ainda mais
especial, num país como o Brasil, especialmente receptivo, ao menos de forma comparativa, à pessoas de
diversas origens, de forma que além dos fluxos já estabelecidos e constantes no nosso dia a dia, poderemos, à
partir de conflitos mais recentes ou conflitos de data mais anterior, receber novas e expressivas demandas de
uma capacidade de comunicação e acolhimento.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 06
Deslocamentos de ontem e de hoje: história, memória e
diversidade
Coordenação:
Rui Aniceto Nascimento Fernandes (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Giselle Pereira
Nicolau (Universidade Salgado de Oliveira), Ismênia Maria de Lima Martins (PPGH-UFF)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 3
62
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
O Comitê Intergovernamental para as Migrações Europeias (CIME) desenvolveu programas específicos para o
direcionamento, admissão e contratação de imigrantes no Brasil. Segundo o acordo estabelecido na década
de 1950, todos os emigrantes apresentados pelo CIME deveriam ser aprovados pelo Instituto Nacional de
Imigração e Colonização (INIC) por meio da atuação do Serviço Brasileiro de Seleção de Emigrantes, cuja sua
sede de trabalho localizava-se na cidade de Roma, Itália. O CIME subvencionou a maior parcela da emigração
italiana para o Brasil no pós-Segunda Guerra. O Brasil, seguido pela Venezuela, foi o país latino-americano mais
favorável à cooperação internacional no campo migratório, tendo em vista a sua participação incipiente no
CIME. No pós-Segunda Guerra, a emigração italiana para o Brasil destaca-se como uma das mais expressivas
nos anos 1950, ao lado dos portugueses, espanhóis e japoneses. O governo brasileiro buscou incentivar e
encaminhar esse fluxo migratório por meio da instauração de diversos acordos com a Itália em 1950-1953, 1958
e 1960, tornando-a o país mais favorecido em relação aos acordos de migração. A atuação do CIME também
concorreu largamente para a imigração italiana no Brasil, uma vez que se encarregou do recrutamento e da
seleção dos candidatos à migração em território italiano, ofertando, inclusive, cursos profissionalizantes para
eles. Desse modo, viabilizou-se a emigração para o Brasil tanto de forma dirigida quanto de modo espontâneo,
utilizando-se da colaboração e da assistência do CIME ou de outros organismos previamente acordados.
Além disso, o Instituto Nacional de Imigração e Colonização criou, em setembro de 1955, o Serviço Brasileiro
de Seleção de Emigrantes, cuja sede de trabalho situava-se na cidade de Roma, Itália. Uma das suas primeiras
incumbências referia-se à manutenção de um estreito contato com o CIME, o qual era responsável pelo
encaminhamento dos imigrantes selecionados pela equipe do serviço brasileiro. Tendo em vista esses
aspectos, o presente trabalho objetiva compreender a cooperação político-diplomática entre Brasil e Itália e a
configuração da política e/imigratória estabelecida na década de 1950, período de auge das entradas dos
imigrantes italianos no território brasileiro e de efetivação dos acordos bilaterais de alocação de mão de obra,
Apoio:
assim como da atuação do CIME no direcionamento dos fluxos migratórios em cooperação com o Serviço
Brasileiro de Seleção de Emigrantes.
Entre embates e espaços: resistência religiosa e transformações urbanas nos conflitos entre católicos e
protestantes em Nova Friburgo
Durante a década de 1820, as imigrações suíça e alemã para Nova Friburgo/RJ desencadearam embates entre
o pastor luterano Friedrich Sauerbronn e o vigário católico Jacob Joye. A travessia transatlântica enfrentou
adversidades, seguidas por desafios no Brasil, incluindo confrontos religiosos devido à tentativa de estabelecer
o culto protestante. Em um primeiro momento, quando chegaram os suíços, este culto teve a investida de ser
realizado pelos poucos calvinistas presentes na colônia (calvinistas estes que estavam no Brasil apesar do
contrato fechado com João VI ter sido claro sobre a presença somente de católicos entre os imigrantes), que
foram rapidamente contidos e assimilados pela liderança católica de Joye. Mas com a chegada da colônia
luterana de alemães liderada por Sauerbronn, o culto protestante se fixa realmente em Nova Friburgo. A
resistência religiosa entre Sauerbronn e Joye delineou a dinâmica social, enfrentando não só barreiras físicas,
mas também políticas. As mudanças espaciais revelaram a transformação da paisagem de Nova Friburgo,
moldando não apenas crenças, mas também assentamentos e estruturas físicas, refletindo as tensões sociais
na região.
63
Migrantes do século XXI: das práticas às representações assimétricas entre deslocados do Norte e do Sul
Global
A incorporação social de imigrantes italianos em Monte Alto – interior do Estado de São Paulo – 1880 a
1930
A literatura mais atual sobre a imigração para São Paulo aponta que alguns italianos participaram do processo
de formação de uma elite estrangeira no Estado. Este projeto de pesquisa, em andamento, investiga as
dinâmicas de incorporação social dos italianos que se dirigiram para o interior paulista, entre as décadas de
1880 e de 1930, fixando-se na cidade de Monte Alto. Utiliza-se a micro-história, investigando as múltiplas fontes
que permitem um olhar mais aproximado das dinâmicas socioeconômicas, como inventários, testamentos,
Apoio:
processos-crime, jornais, registros cartoriais e religiosos, com o objetivo de compreender as estratégias de
sociabilidade e de sobrevivência dos imigrantes, a partir de uma rede de relações estabelecidas entre os
estrangeiros e os nacionais. Uma pesquisa exploratória preliminar permitiu reconhecer o êxito das atividades
desse grupo, em que alguns estiveram associados a lideranças políticas do município. O presente projeto
também aborda os conceitos de compadrio, redes de imigração e formação de elites.
Feira de São Cristóvão: trançando histórias e culturas a partir da migração nordestina para o Rio de Janeiro
Partindo da pluralidade observada na dinâmica das grandes metrópoles e dos fenômenos migratórios internos no Brasil
a partir da década de 1950, o presente trabalho almeja compreender a Feira de São Cristóvão como ancoradouro da
cultura nordestina no Rio de Janeiro. A pesquisa de cunho qualitativo, irá adotar a observação participante como método
para produção de dados, fazendo uso de um roteiro definido previamente para observação das performances. A partir
da análise dos dados almeja-se verificar como a Feira de São Cristóvão contribui para a preservação e o
compartilhamento da cultura nordestina, considerando os deslocamentos históricos e contemporâneos. Por fim, ao
evidenciar a função da feira na construção da identidade e memória dos migrantes nordestinos, espera-se que o estudo
contribua para a compreensão da diversidade social e cultural da cidade do Rio de Janeiro.
64
A Educação Profissional e Tecnológica como estratégia de inclusão social e empregabilidade para jovens
migrantes
Maria Helena de Oliveira Pereira de Carvalho (UNIGRANRIO), Haydéa Maria Marino de Sant'Anna Reis (UNIGRANRIO)
No panorama das migrações sul-sul, nas últimas décadas o Brasil tem configurado como opção para migrantes de
diversos países sul-americanos. A partir dos anos 1990, este fluxo aumentou significativamente. Ao se estabelecerem
no país, muitos formaram família aqui, e outros, com o direito à reunião familiar, puderam trazer seus filhos que estavam
fora do país. Considerando que estes foram inseridos no sistema educacional brasileiro, muitos deles chegaram ao
ensino médio. O objetivo deste trabalho teórico é analisar Educação Profissional e Tecnológica oferecida no ensino
médio como possibilidade de inserção social e melhores chances de empregabilidade para filhos de migrantes pós
ensino médio. Nos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o
percentual de matrícula de jovens de 15 a 19 anos em ensino médio vinculado à educação profissional é de 37%. O
Brasil atualmente está atrás de países como Colômbia e Chile, com apenas 15%. Para atingir a marca, o objetivo é dobrar
o número de matrículas, chegando a mais de 3 milhões de alunos matriculados no ensino médio técnico até 2030.
Nesse sentido, pretende-se analisar a atual configuração do ensino médio técnico, e suas conexões com o mundo do
trabalho, seus impactos na formação, chances de empregabilidade e remuneração de jovens migrantes e a influência
dos atuais programas de governo como “Pé de meia” e “Juros por educação”, em fatores como a permanência e a
conclusão do ensino médio.
Análise político-social dos impactos da Onda Hallyu no Brasil: transformações no bairro do Bom Retiro a partir da
comunidade coreana, em São Paulo, no final do século XX e ao longo do século XXI
O desenvolvimento do presente trabalho tem como propósito analisar as mudanças político-sociais da comunidade
coreana, constituída por imigrantes e descendentes, situada no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, diante da queda do
Apoio:
comércio têxtil e da ascensão da Onda Hallyu. Dessa maneira, faz-se importante pontuar as respectivas chegadas ao
Brasil, estabilização social e financeira a partir de redes de solidariedade, assim como as mudanças que aconteceram
na relação da comunidade com o local e com demais grupos. Nesse sentido, o recorte do estudo em questão leva em
consideração o final dos anos de 1990 e primeiras décadas de 2000, elencando como ponto principal de observação as
alterações realizadas pelos moradores e trabalhadores do bairro diante da ampla divulgação da cultura sul-coreana. Os
primeiros passos para a movimentação migratória de coreanos foram inicialmente direcionados para países vizinhos e,
com o passar dos anos e dos embates, novos países - inclusive de outros continentes - tornaram-se novas opções para
esse povo. A partir da década de 1960, o deslocamento para o Brasil passou a acontecer de maneira oficial e legalizada,
em diferentes ondas e momentos, o que possibilitou a chegada de famílias, delegações culturais e trabalhadores, sendo
esses grupos indispensáveis e decisivos na estabilização no Bom Retiro, tornando a produção e venda e roupas o
principal comércio do grupo. Dada a finalização do extenso período de conflitos tanto da península coreana quanto dos
países separadamente estabelecidos, percebemos a Coreia do Sul como uma grande potência de desenvolvimento ao
longo dos anos finais do século XX. Juntamente ao investimento em exportação de produtos produzidos na Coreia do
Sul, houve também aplicações para a disseminação mundial da cultura coreana, prática denominada de Korean Wave,
a Onda Hallyu. A divulgação cultural sul-coreana tem tido, sem dúvidas, principalmente nos anos da segunda década
do século XXI no que diz respeito à países do ocidente, grande destaque tanto em produções audiovisuais quanto em
músicas, beleza, culinária e jogos eletrônicos. Ao retomar os olhares para a comunidade estabelecida no Bom Retiro,
percebemos, em seguida da decadência do comércio têxtil, a adaptação e criação de outros comércios, anteriormente
voltados para os coreanos e descendentes, para receber consumidores que têm como objetivo experimentar uma
imersão cultural nesses espaços. Mercados, restaurantes, bares, feiras, salões de beleza e demais espaços tornaram-
se ambientes amplamente frequentados também pelos consumidores, em diferentes manifestações, da cultura sul-
coreana, o que marca uma grande influência da disseminação de costumes também nos imigrantes e seus
descendentes, mesmo que estabelecidos em um outro país. 65
Patrimonializando a Imigração: a criação do Museu da Imigração da Ilha das Flores
Durante muito tempo, a Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores foi referenciada na historiografia da imigração como
o primeiro estabelecimento do gênero criado pelo governo imperial como elemento integrante das políticas públicas de
atração de estrangeiros no século XIX. As poucas menções eram rapidamente suplantadas pela análise das
experiências paulistas e do sul do país. Era uma espécie de introito para aqueles movimentos considerados de maior
volume e repercussão no período. A ausência de estudos sobre o tema era acompanhada por um desconhecimento
sobre os destinos do espaço e do seu acervo documental. Encerrada suas atividades em 1966, as dependências da
antiga hospedariam foram transferidas para a Marinha do Brasil, que, posteriormente, ali instalou o Comando da Tropa
de Reforço dos Fuzileiros Navais e, desde então, se tornou uma base militar. Em finais da primeira década do século XX,
um grupo de pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro passou a se dedicar ao estudo das experiências
da imigração tomando como ponto de partida a história da Hospedaria da Ilha das Flores. As pesquisas realizadas,
assim como um contato contínuo com os atuais gestores do espaço, ensejaram a criação de um circuito de visitação e
de um Museu – O Museu da Imigração da Ilha das Flores – nas dependências da base militar possibilitando o acesso do
público em geral ao espaço. Diferente de outros espaços museais dedicados à imigração, a patrimonialização do
espaço foi um desdobramento de pesquisas acadêmicas e do compromisso social da Universidade com a comunidade
por ela atendida. O objetivo dessa comunicação é analisar a especificidade do processo de constituição do Museu da
Imigração da Ilha das Flores e seu papel enquanto espaço de patrimonialização da experiência migrante.
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 07
Diálogos de saberes entre História, Turismo e Lazer:
abordagens de ensino, patrimônios plurais e memória
Coordenação:
Vera Lucia Bogea Borges (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), Valeria Lima
Guimarães (Universidade Federal Fluminense), Amanda Danelli Costa (Universidade do Estado
do Rio de Janeiro)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
A apresentação tem o objetivo de se concentrar no recorte histórico que compreende as décadas de 1890 a
1910, ambientada na cidade do Rio de Janeiro, então capital da república. A temporalidade abarca consigo o
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conjunto de reformulações urbanísticas e transformações sociais conhecidas na historiografia como o período
das Reformas, no qual a cidade passa por intensas transformações que tinham como principal objetivo uma
maior adequação de seus espaços aos novos padrões burgueses e a superação de suas características de
entreposto colonial. O uso de textos literários e periódicos mostram-se de grande valia para que se possam
formular perguntas sobre as tensões entre os grupos em disputa, os discursos que estariam movimentando os
debates ligados ao pertencimento à cidade e suas subjetividades. Em um contexto histórico marcado pelo
sentimento exacerbado de transitoriedade e causador de variadas rupturas em antigos arranjos sociais, se
torna de grande importância a indagação e problematização de algumas questões ligadas ao campo da história
em seu aspecto cultural, o uso da obra: A Capital Federal-Impressões de um Sertanejo (1893), apresenta
diversos aspectos caros ao período histórico pelo qual a cidade era atravessada. A cidade desde a década de
1870 sofre intensas transformações nas suas estruturas físicas, fruto direto da necessidade de adequação e
melhoramentos para suprir as novas exigências do mercado internacional. Os novos parâmetros de produção
em escala capitalista já se apresentavam incompatíveis com muitas estruturas sociais e econômicas, sendo a
cidade do Rio de Janeiro uma espécie de observatório dos crescentes problemas histórico-sociais ligados ao
colapso do sistema escravista, o declínio do governo imperial, e as incontáveis crises sanitárias que estavam
no bojo das pautas ligadas as reformas empreendidas entre as décadas de 1870 a 1900 BENCHIMOL, 1990,
p.46-52). Dentro do contexto de intensas mudanças nas estruturas físicas e culturais da cidade, podemos
conjecturar as obras de Henrique Maximiniano Coelho Neto (1864-1934), como fruto direto de tal efeito
transitório. O interesse do autor em explorar os descaminhos entre uma nação muito ligada ao passado colonial
e suas incongruências com o mundo burguês cosmopolita aparece de modo flagrante já em 1893, data de
publicação do romance A Capital Federal-impressões de um Sertanejo (1893), obra permeada por questões
dicotômicas entre a tradição e a modernidade, atraso em relação ao mundo burguês civilizado, e o modo
dramático sob o qual o autor enxerga a posição brasileira dentro de tal sistema (NETO, 1915, pp.166-167).
Turismo para quem?: Uma investigação sobre o acesso aos atrativos turísticos pela juventude carioca
Como bem pontua Castro (2001), a natureza turística da cidade do Rio de Janeiro consiste em uma construção
histórica e cultural, que envolve uma criação de um sistema integrado de significados pelos quais se negocia,
Apoio:
estabelece e mantém a realidade turística de uma determinada localidade. São as narrativas engendradas ao
entorno da cidade que se modificam com o tempo que antecipam o tipo de experiência que o turista deve ter.
Para além disso, Bottino & Costa (2018) vão levantar o debate acerca do turismo, enquanto atividade, sendo
praticado também pelos residentes de uma localidade, confrontando as múltiplas definições, que foram sendo
construídas, por pensadores, ao logo dos anos, mas que engessam e limitam o turismo, sem dar conta de que,
como um fenômeno social que é, este acompanha os processos, as transformações, os gostos e predileções
da sociedade. É nessa seara que o presente trabalho se insere para trazer à baila questionamentos a respeito
da cidade maravilhosa, cartão postal do Brasil, ainda desconhecida, ou melhor, interdita a grande parte dos
seus residentes. Uma cidade turística para quem? Pergunta que direciona essa pesquisa. Ao observar durante
meus 10 anos, como docente, em cursos de turismo, para guias e bacharéis, que os alunos chegavam nas salas
de aula sem nunca ter visitado o Cristo e/ou o Pão de açúcar, me acendeu o alerta sobre o acesso aos atrativos
turísticos do Rio de Janeiro e o quão partida se mostra a nossa cidade. Assim, de forma experimental, apliquei
um questionário em alunos de uma escola municipal na Pavuna e ao mesmo tempo, em alunos do primeiro
período do bacharelado em turismo, para confrontar as experiências da juventude carioca e buscar
compreender suas experimentações de cidade, seu grau de conhecimento, se, com o passar do tempo, estes
vão ocupando mais os espaços turísticos da cidade ou se ambos tem sua experiência turística limitada, seja
pela distância da residência até os atrativos, seja pelo desconhecimento completo, desinteresse e preços dos
atrativos. Assim, esse trabalho, ainda em construção, que submeto, tem como norte suscitar o debate acerca
do abismo entre o “Rio”, vitrine para o mundo e o “de Janeiro”, do outro lado do túnel, aquele onde a maior parte
da população da cidade, hoje, reside e para onde o Cristo dá as costas.
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Rio de Imaginários: cidade, megaeventos e planejamento estratégico
De gestores urbanos a artistas, passando por empresários e publicitários, a marca “Rio” é mundialmente
conhecida e consumida. A projeção midiática que a cidade teve durante os preparativos e a realização dos
Jogos Olímpicos de 2016 possibilitou a construção de um imaginário largamente utilizado na intenção de
legitimar práticas institucionais que modificaram o espaço e o readequaram aos interesses de coalizões
governamentais e empresariais. Este modelo de governança olha para a cidade e a administra, literalmente,
como uma mercadoria que deve ser valorizada e cultuada, a fim de se projetar num mercado internacional
onde concorre com outras cidades. Pretendemos debater neste artigo as mutações do Rio (e da marca Rio)
como a construção de uma "vocação" para atrair investimentos através da realização de megaeventos.
Amanda Danelli Costa (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Frank Andrew Davies (UERJ)
Escrito por Paula Pessoa, engenheiro civil, o Guia da Cidade do Rio de Janeiro resultou de uma encomenda da
organização do 3º Congresso Científico Latino-Americano, realizado em agosto de 1905. O guia foi escrito em
língua portuguesa, é fartamente ilustrado, possui 196 páginas e não traz seção de anúncios. Está dividido em
duas partes principais: a primeira fornece informações gerais sobre o país e lista os estados brasileiros – com
breve síntese histórica, geográfica e da produção agrícola e/ou manufatureira de cada um – e a segunda dedica-
se exclusivamente à cidade do Rio de Janeiro. A segunda parte do guia, que leva o mesmo nome – “Guia da
Cidade do Rio de Janeiro” –, está dividida em seis itens, sendo eles: Entrada da Barra; A Bahia; A cidade – breve
notícia; Arrabaldes; Subúrbios; e Excursões. Um dos principais elementos a diferenciar os arrabaldes e os
subúrbios era a forma de acesso: nos primeiros se chegava por bondes e nos subúrbios, majoritariamente, por
trem. Mangueira, São Francisco Xavier, Engenho Novo, Méier, Encantado, Cascadura, Campinho, Madureira,
Realengo, são exemplos de bairros nos quais o principal destaque era cada uma das estações de trem,
Apoio:
registradas em dezenas de imagens. A presença dos subúrbios e o destaque às estações de trem, inclusive em
registro fotográfico, é um dado que distingue o "Guia da Cidade do Rio de Janeiro" de outros guias publicados
na mesma época, como o Guide des Etats-Unis du Brésil (1904) ou o Guide L'Etoile du Sud (1905). Nosso
objetivo é analisar como ao trem, neste guia, se incorporam os sentidos da civilidade, viabilizando a reunião
dos bairros mais afastados do centro da cidade naquele corpo urbano heterogêneo, que se pretendia moderno
e atualizado de acordo com os paradigmas do ocidente civilizado.
O Instituto Pretos Novos como Patrimônio difícil e sua relação com o ensino de História pelas lentes do
Profhistoria
O Instituto Pretos Novos é uma Instituição de Pesquisa e Memória que foi criada em 2005, e tem como principal
propósito resguardar e preservar os vestígios arqueológicos que emergiram do antigo Cemitério dos Pretos Novos do
Valongo. Desta maneira, a Instituição tem sua gênese atrelada às escavações de uma casa construída no século XIX sob
o aterro de um cemitério. Logo, o local luta pela preservação da memória histórica dos africanos escravizados
chamados pretos novos, que foram desembarcados no Rio de Janeiro entre o final do século XVIII e início do século XIX.
Este trabalho faz parte da nossa pesquisa histórica e acadêmica, caracterizada sob o nosso olhar para esta importante
Instituição de Pesquisa e Memória - IPN. Portanto, à luz de uma ampla bibliografia pesquisada, a abordagem que
pretendemos elucidar está centrada na proposição do estudo e reconhecimento do Instituto Pretos Novos como
Patrimônio difícil (Meneguello, 2021, p. 08). Nossa análise parte do contexto da escravidão no Brasil, observando a 68
trajetória das viagens nos tumbeiros, as condições físicas e psicológicas de milhões de seres humanos que chegavam
debilitados e doentes em consequência dos sofrimentos decorrente das viagens e que morriam alguns dias depois. Em
decorrência da morte, esses africanos eram incinerados e inumados numa cova rasa (Medeiros, 2006, p.15). Neste
contexto, ao revisitar esse passado traumático, caracterizado pela violência (dor e sofrimento) perpetrada aos pretos
novos, fica clara a violação dos direitos humanos. Com efeito, reconhecer o Instituto Pretos Novos como patrimônio
difícil significa compreender que esta Instituição foi constituída a partir da emergência dos restos mortais de seres
humanos escravizados, quando das descobertas arqueológicas do Cemitério dos Pretos Novos. Assim, a partir do
estudo e reconhecimento desse patrimônio material e imaterial africano, conseguimos fazer conexões com a memória
sensível que é abrigada neste lugar de memória (Nora, 1993, p.13). Nesta perspectiva, este lugar de memória se
relaciona ao ensino de História na medida em que oferece conhecimentos deste passado insepulto. Defendemos
também a abordagem de temas sensíveis, em sala de aula, como aqueles que permeiam o IPN, pois é fundamental que
os docentes possam mediar a construção do conhecimento dos seus discentes a partir de temas e lugares que
resguardam memórias que tendem a ser invisibilizadas ou apagadas. Finalmente, este trabalho visa contribuir para a
historiografia e para o ensino de história, inserindo-se aos estudos acerca do patrimônio.
Experiência da FLIEMAS
A Universidade Veiga de Almeida desde 2019, fazendo com que os alunos da área de licenciatura possam obter
a oportunidade de adquirir um nível alto de experiência e troca com os docentes que nos auxiliam. Quando
houve a possibilidade de poder participar do PIBID, não pensei duas vezes em agarrar essa oportunidade. A
realização desse projeto tem sido de extrema importância para a minha formação não só como docente, mas
também como indivíduo. Acompanhar e auxiliar o trabalho da Fernanda, além da interação com os alunos tem
feito com que eu me apaixone cada vez mais pelo processo de letramento e pela arte de lecionar. A Fliemas se
trata de uma feira, onde esse ano o objetivo era ler, experimentar, escrever e encantar. Onde cada parte da
escola se dividiu para proporcionar uma experiência que foi para além dos alunos da Escola Municipal Azevedo
Apoio:
Sodré, onde pode contar também com a participação de outros colégios. A Feira Literária da Escola Municipal
Azevedo Sodré - FLIEMAS – está diretamente ligada a dois textos de suma importância, são eles: “Notas Sobre
a Experiência e o Saber de Experiência” do Jorge Larrosa Bondía e o “Letramento em Verbete: O Que é o
Letramento?” da Magda Soares. Ambos tratam da importância da experiência para a aprendizagem.
A feira apresentou inúmeras oficinas, uma delas foi a atividade de contação de histórias onde pude notar os
olhinhos dos alunos brilhando, sua imaginação e criatividades sendo estimuladas e aguçadas. Acredito que
atividades de culminância são excelentes oportunidades para podermos ampliar a vivência de um grupo ainda
maior de alunos, além de estimular as boas práticas e a troca entre todos os integrantes do ambiente escolar.
A feira de leitura desempenha um papel crucial na dinamização das práticas educacionais. Ao oferecer uma
abordagem mais interativa, ela contribui para que os alunos se envolvam de maneira mais ativa com a leitura.
A diversidade de obras disponíveis na feira proporciona aos alunos a oportunidade de explorar uma ampla gama
de gêneros literários, expandindo seus horizontes culturais e estimulando sua criatividade. Ao integrar a leitura
a diferentes disciplinas, os alunos percebem sua relevância como uma ferramenta essencial para a
compreensão do mundo ao seu redor. Isso demonstra a importância da abordagem interdisciplinar e da
diversidade cultural tanto nas escolas quanto na seleção de literatura oferecida aos alunos.
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
A presente comunicação tem por objetivo compreender a importância do Turismo de Base Comunitária (TBC) no processo
de construção das identidades quilombolas nas comunidades de Santa Rita do Bracuí e Feital, ambas localizadas no
Estado do Rio de Janeiro e ainda não tituladas. O TBC tem como uma das principais características o protagonismo de
homens e mulheres que planejam e administram as atividades turísticas no território. Esta modalidade vem crescendo
como uma ferramenta que contribui para o desenvolvimento sustentável e na preservação do patrimônio ambiental e
cultural, mas também como uma estratégia de resistência e de luta pelo território nas chamadas “comunidades
tradicionais”. Através dos relatos orais dos quilombolas, receber visitantes que ainda percebem estas comunidades através
de uma ideia essencializada, que muitas vezes não se aproxima da realidade destas, é fato recorrente. Assim, as atividades
do TBC oportuniza que os visitantes reconheçam as comunidades quilombolas como construções operadas no tempo e
no espaço, inseridas em campos de disputa e lógicas discursivas diversas. Seus sujeitos, longe de serem participes de uma
tradição fixa e estática, possuem protagonismos diversos, reconstruindo no quotidiano suas identidades e modos de ser.
No entanto, segundo relato das lideranças das duas comunidades em questão, durante as atividades do TBC surgem
contestações por parte dos visitantes sobre a comunidade anfitriã, de forma a tentar enquadrá-la em um padrão construído
no imaginário social, sem considerar que as comunidades quilombolas são construções operadas no tempo e no espaço,
inseridas em campos de disputa e lógicas discursivas diversas. Diante de tais questionamentos, trazidos por visitantes, que
veem as comunidades quilombolas através de lentes distorcidas, os moradores do quilombo tendem a reforçar a
afirmação das suas práticas, costumes, narrativas, como elementos identitários que demarcam sua particularidade,
apresentando um posicionamento que rechaça qualquer tipo de comparação com outras comunidades e definições
estereotipadas. Embora o Decreto 4887/2003 tenha estabelecido que a caracterização das comunidades remanescentes
Apoio:
de quilombo seja feito mediante a autodefinição da própria comunidade, na prática, o que parece é que apesar do
reconhecimento pela Fundação Cultural Palmares, na prática, nem sempre os elementos identitários e a trajetória histórica
de uma comunidade são respeitadas. Desse modo, o TBC oportuniza a desconstrução de pré-conceitos sobre as
comunidades, a definição dos elementos identitários quilombolas, contribuindo na legitimação das reivindicações dos
direitos assegurados pela Constituição de 1988.
Jacob do Bandolim (1918 - 1969), importante músico e pesquisador sobre o choro, dizia no final da sua vida que
o choro iria morrer com ele. Esse gênero que pode ser considerado como a primeira música genuinamente
urbana, sobreviveu ao prognóstico do chorão. Contudo o choro vem sofrendo profundas transformações da
forma que é praticado (tanto em relação à performance quanto em relação a própria forma de transmissão
deste saber) nas cidades do Brasil. No último mês de março de 2024, o choro foi registrado como patrimônio
imaterial do Brasil pelo IPHAN. Nossa proposta é discutir esse processo e compreender como o choro
representa uma prática musical espalhada por todo o Brasil. Interessante também discutir a
internacionalização do choro com rodas, livrarias especializadas e escolas de choro em diferentes partes do
mundo como Japão, Holanda, França e Portugal.
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Um olhar sobre o bairro de São Bento", memória e imaginário
Este artigo tem por objetivo um comentário sobre a memória e o imaginário do bairro de São Bento em Duque
de Caxias, Rio de Janeiro. Servirá como parte para um projeto maior sobre um roteiro histórico-cultural de locais
para visitação de escolas públicas e pessoas em geral. Na metodologia será empregada a História oral e local ,
através de entrevistas de campo com moradores, alunos de escolas do bairro , além de questionários sobre o
imaginário local empregado em alunos da Escola Municipal Nísia Vilela Fernandes situada no bairro. O ponto
importante deste trabalho será o casarão do século XVI, sede da fazenda dos Beneditinos, dito “mal
assombrado”, com rico imaginário referente a escravidão, centro de memória local.
Essa investigação se propôs ao estudo sobre as políticas educacionais na região da Vila Iguassu a partir do período régio.
As análises partirão do século XIX com a implantação das estradas de ferro Rio D`Ouro e Dom Pedro II. As reflexões são
sobre a chegada das instituições de ensino pós – ferrovia, com o objetivo de averiguar a origem das organizações
escolares. O artigo igualmente pretende compreender como se deu as ocorrências de políticas e práticas educacionais
nessa localidade a partir da averiguação de suas vias ferroviárias. A ferrovia Dom Pedro II destaca-se o percurso da linha
férrea para a localidade Fluminense, como também as análises que se debruçaram no uso da estação de Engenho de
Dentro como principal meio de fomento para educação profissionalizante no final do século XIX, quando foi criada a
Escola de Aprendizes para os filhos de operários. Na ocasião, a escola foi instituída por Francisco Pereira Passos e
ofertava aos discentes disciplinas básicas como: português, desenho, matemática, física e química. Em 1906, início do
século XX houve criação da Escola Profissional Silva Freira importante incentivo para a criação de outras escolas de
Apoio:
ensino industrial no Brasil (Rodriguez, 2004, p. 25). Ao contrário da ferrovia Dom Pedro II que manteve boa parte de seu
percurso em funcionamento até os dias atuais, Estrada de Ferro Rio D`Ouro foi extinta na segunda metade do século
XX. A desvanecida linha que cortava a região do subúrbio e da Baixada Fluminense até hoje possui trechos preservados.
Alguns se constituem como acervos culturais, outros foram reaproveitados para compor a linha 2 do metrô. Nesse
contexto, as reflexões serão voltadas para a localidade da Vila Iguassu tratando da estação de Vila de Cava que atendeu
a população local com o Movimento de Alfabetização Brasileira. O programa ocorreu no final da década de 1960, no
período da ditadura militar. Apesar de o programa ser oriundo das abordagens freirianas, algumas de suas premissas
foram cooptadas em prol das políticas vigentes daquela época. As elucidações também partirão do conceito de
memória ferroviária, criado a partir do campo de patrimônio industrial. Este conceito segundo Oliveira (2019) se iniciou
a partir do evento da Revolução Industrial na Inglaterra no século XIX. O autor reitera que as ferrovias estão presentes no
cotidiano e na vivência dos indivíduos. A partir dessa afirmação, pode-se assegurar que as estradas de ferro influenciam
na formação dos espaços, das cidades e dos contextos culturais desde sua criação.
Tendo nascido e sido criada na Baixada Fluminense, cresci sob o estigma da exclusão e dos preconceitos de
origem. Era comum ouvir dos adultos, residentes na região ou fora dela, e também das crianças, que não
morávamos, nos escondíamos. Lugar distante, de pouca coisa para fazer e poucas perspectivas de futuro, sem
atrativos e reduto da violência. Assim ficou conhecida a Baixada Fluminense. Entretanto, essas marcas 71
depreciativas foram combatidas com um forte ativismo social, tanto por parte das alas progressistas da Igreja
Católica quanto pelo lado do associativismo dos moradores e das classes de artistas, estudantes,
trabalhadores e intelectuais da região. Este trabalho rende uma homenagem aos grupos pioneiros de
pesquisadores que se empenharam no levantamento e salvaguarda das fontes e na produção da pesquisa
histórica sobre a Baixada Fluminense, revelando outras faces da Baixada, inclusive a sua face turística, com a
promoção de expedições científicas que davam acesso a um rico e desconhecido patrimônio cultural da
Baixada Fluminense. Esse rico patrimônio remonta à sobreposição de camadas históricas desde antes do
descobrimento até a contemporaneidade. Será dado especial enfoque ao Instituto de Pesquisas e Análises
Históricas da Baixada Fluminense (IPAHB) e à Associação APPH-Clio (Associação de Professores de História
da Baixada Fluminense), duas das entidades as quais tive o privilégio de conhecer, convivendo com seus
protagonistas, inclusive tendo acesso aos eventos acadêmicos por elas produzidos e às excursões que
revelaram testemunhos materiais da face histórica desconhecida da Baixada Fluminense. Recuperar a
memória das iniciativas pioneiras de preservação da história da Baixada e de seus lugares de memória, bem
como da visitação aos sítios históricos da região, é também celebrar as lutas e iniciativas contemporâneas com
os mesmos propósitos, sejam ela feitas pelas instituições escolares e universidades, ONGs, movimentos
sociais, ou por aquelas que assumem novos formatos comerciais, dialogando fortemente com a atividade
turística, nos segmentos do turismo pedagógico, do turismo social e do turismo histórico-cultural.
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
O trabalho tem como principal objetivo analisar o processo de turistificação do Morro do Imperador, localizado na
cidade de em Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais, no Sudeste do Brasil. Tal processo ocorreu em diversas fases
Apoio:
distintas que acompanharam a evolução do turismo a partir do final do século XIX até os dias atuais, sendo este o
recorte temporal do estudo. A pesquisa valeu-se de um diálogo entre o conhecimento histórico, a pesquisa
geográfica e os estudos turísticos. A investigação parte da pesquisa bibliográfica em livros e artigos acadêmicos;
realiza a análise de fontes documentais, particularmente da imprensa; e produz uma contextualização e
interpretação históricas, apoiando-se nas teorias sobre a produção do espaço turístico, com destaque para as
contribuições de Knafou (1996) e de Fratucci (2000; 2008; 2014), especialmente, na obra deste último autor, no que
se refere à categorização dos agentes sociais responsáveis pela turistificação dos espaços, bastante útil a este
estudo. O corpus documental principal foi composto por jornais que circularam nas cidades de Juiz de Fora e do Rio
de Janeiro, tais como: O Pharol, Correio da Manhã e Jornal do Commercio, disponibilizados na internet pela
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Também foram utilizados relatos de diários, leis e decretos municipais.
Como resultado, verificou-se que os processos de turistificação da cidade de Juiz de Fora, que incluíram
melhoramentos urbanos, e os projetos de intervenção turística no Morro do Imperador, foram esforços que buscaram
incluir a cidade no rol da modernidade, tendo o turismo representado um papel fundamental como expressão do que
é ser moderno e civilizado, ideais bastante almejados pelas cidades urbanizadas nas primeiras décadas do século
XX. Foi possível perceber também várias outras transformações no Morro do Imperador ao longo do tempo, que
envolveram as práticas de visitação, o perfil dos visitantes e a ordenação turística do espaço, com intervenções do
poder público no sentido de regular a atividade e inclusive proteger o local como um patrimônio, sendo este hoje o
segundo atrativo mais visitado da cidade. O trabalho realiza também uma contribuição à história do turismo
brasileiro, a partir da perspectiva juiz-forana, revelando que a pesquisa histórica em turismo, aqui trabalhada numa
abordagem multidisciplinar, ajuda a elucidar as motivações e sentidos da turistificação dos lugares e de suas
particularidades ao longo do tempo, bem como as conexões turísticas entre o local, o regional e o global.
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Memória e Turismo: as praias de Santos em imagens
Esta pesquisa visa desvendar como as imagens colaboraram para construir e/ou consolidar uma representação visual
da cidade de Santos como espaços de lazer para os turistas na primeira metade do século XX. Nos postais as praças
centrais, as ruas, as avenidas, os edifícios, a circulação dos bondes, carros e pessoas do início do século XX deu lugar a
praia, o mar, os banhistas e o lazer à beira-mar. Para entender como a imagem de locais de veraneio voltados para o
turismo e para o turista se consolida para a cidade de Santos e região, e como a fotografia auxilia nesse processo, a
pesquisa caminha na busca de um histórico dos banhos de mar e do frequentar a praia na região e a sua representação
visual, procurando identificar os elementos de representação da cultura visual da praia e compreender os aspectos de
consolidação da memória sobre a praia como espaço privilegiado de lazer.
Patrimônio cultural: uma nova relação entre memória, história e o turismo nas cidades
A relação entre turismo e o campo do patrimônio cultural tem beneficiado o turismo cultural, sobretudo no
ambiente das cidades que ainda preservam seus traços de origem. Este trabalho se justifica pelo potencial do
turismo em (re)significar histórias e memórias que são contadas através de roteiros turísticos na cidade do Rio
de janeiro. O objetivo geral é chamar a atenção para a construção de narrativas inclusivas e transformadoras
acerca do patrimônio cultural. De que forma o patrimônio é utilizado pela indústria do turismo? O Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tem trabalhado em conjunto com os ministérios do Turismo
e da Cultura em ações conjuntas para promover e proteger o Patrimônio Cultural Brasileiro, preservando suas
memórias para as gerações futuras. Depois da pandemia de COVID-19, o turismo tem procurado se estruturar em
bases sustentáveis, de uma convivência mais humanizada e acolhedora com os destinos receptivos. O mundo pós
Apoio:
pandemia deixou suas marcas nas escolhas e no posicionamento ideológico dos turistas e viajantes, mais
preocupados com as questões culturais e ambientais. Dentro do ambiente das cidades, o patrimônio cultural tem se
revelado uma grande oportunidade de criação de novos roteiros turísticos que valorizam não somente os lugares e a
arquitetura local sob o ponto de vista da colonização, mas nas entrelinhas a diversidade cultural das comunidades
locais, outrora apagadas de suas memórias e histórias. Por isso se fazem necessárias outras narrativas, além das
convencionais nos roteiros turísticos. Justamente na relação entre história, memória e patrimônio que se busca
revelar a formação das identidades e dos diversos patrimônios que compõem a nossa diversidade cultural brasileira.
A pesquisa se caracteriza como exploratória e descritiva de caráter bibliográfico buscando relacionar o patrimônio
cultural a história e a memória presentes no turismo cultural. Segundo Rostoldo (2021), “a história deve esclarecer a
memória e ajudá-la a retificar seus erros”.
Isabella Vicente Perrotta (ESPM), Leandro de Melo Fernandes (ESPM), Natalia da Costa Capano (ESPM), Anna
Carolina Alvim Cardoso (ESPM), Matheus Dias de Oliveira (ESPM), Naira de Oliveira Luiz de Paula (ESPM)
Desde o final da década de 1980, “os ventos” que caracterizavam o privilégio dado ao futuro, ao longo das primeiras
décadas da modernidade do século XX, mudaram e começou a se dar “uma verdadeira explosão de memória”
(Huyssen, 2014, p. 7), transformando o foco “dos futuros presentes para os passados presentes” (Huyssen, 2014, p. 9).
Neste contexto, o conceito de patrimônio, que é uma construção social e política em constante ressignificação – por
isso, o “patrimônio é vivo” e “depende da memória e da história” – também evolui muito (BENHAMOU, 2012, p. 11-13). 73
Desde 2003, então, a Unesco estendeu o campo de forma a salvaguardar o patrimônio cultural imaterial que absorve as
expressões culturais vivas, transmitidas (em geral oralmente), de ancestrais a descendentes, configurando-se em
tradições de inúmeros grupos ou comunidades em todo o mundo. “O patrimônio imaterial distingue-se assim por duas
dimensões: integra o patrimônio intangível por natureza (normas, savoir-faire, costumes, músicas, línguas etc.) e é uma
extensão do patrimônio material, dando-lhe sentido” (BENHAMOU, 2012, p.19). Nos últimos anos, comidas, pratos
típicos, sistemas alimentares e práticas culinárias, que guardam tradições e culturas locais, passaram a integrar a lista
de patrimônios imateriais da Unesco. Benhamou (2012) lembra que a refeição gastronômica dos franceses é
considerada patrimônio da humanidade, desde 2010, justificado pela Unesco em função de um conjunto de hábitos
que vão das escolhas das iguarias, as práticas das receitas, a combinação de sabores e vinhos, a arrumação da mesa e
até mesmo um gestual específico durante a degustação. Para a Unesco, a gastronomia é uma das categorias que
chancela uma “Cidade Criativa”, e o Brasil tem quatro cidades chanceladas como Cidades Criativas da Gastronomia:
Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Florianópolis (SC) e Paraty (RJ). A Rede de Cidades Criativas da Unesco hoje reúne 295
cidades do mundo e reconhece, além da gastronomia, os outros seguintes campos criativos: artesanato e artes
populares, artes digitais, cinema, design, literatura e música. Este trabalho pretende relacionar os potenciais do
Patrimônio Gastronômico com o conceito de Turismo Cultural 4.0, desenvolvido por Greg Richards (2022), que relaciona
os avanços tecnológicos da era digital com a preservação e promoção da cultura local e do patrimônio histórico. Neste
contexto, a tecnologia é vista como uma ferramenta facilitadora para melhorar a experiência do turista, fornecendo
informações precisas e oportunas sobre a cultura local e os locais históricos, garantindo a personalização da
experiência do turista e o acesso ampliado ao patrimônio cultural.
A pandemia de COVID-19 impactou de forma marcante o contexto histórico e os estudos referentes ao turismo
e lazer, com destaque para as abordagens que envolvem bem-estar, ganharam destaque nas agendas dos
Apoio:
pesquisadores sobre o tema. Em linhas gerais, o bem-estar pode ser associado à geração de satisfação, isto é,
à saúde, segurança, estabilidade financeira e ao conforto que podem proporcionar disposição física,
psicológica e espiritual. A busca por práticas que possam elevar os níveis de bem-estar tem sido uma constante
na vida das pessoas, inclusive ao associá-los ao sentido de felicidade. Cada vez mais, a conscientização sobre
a importância de uma alimentação equilibrada é amplamente veiculada. Desta forma, as escolhas feitas
durante as experiências turísticas vivenciadas tanto por turistas quanto por residentes podem revelar a
importância da gastronomia enquanto forma eficaz de promover a saúde durante a estadia em destinos
turísticos. Assim, a jornada alimentar pode permitir a conjugação do prazer do paladar com a opção de nutrir
os corpos de forma saudável. O objetivo geral do estudo é analisar historicamente o papel do lazer e da
sociabilidade do reduto português do CADEG na cidade do Rio de Janeiro para pensar as possíveis articulações
entre turismo, gastronomia e bem-estar. Em 2012, o Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara
(também chamado pelos cariocas de a CADEG) recebeu o título de Mercado Municipal do Rio de Janeiro. A
inauguração do prédio, que fica localizado do bairro de Benfica, ocorreu em 1962 por comerciantes, com
destaque para os portugueses, vindos do antigo Mercado da Praça XV. Atualmente, o local é o maior entreposto
comercial de plantas do estado, além de ser considerado importante polo gastronômico da cidade atraindo
turistas e residentes que visitam suas mais de quinhentas lojas dos mais diversos segmentos como, por
exemplo, hortifrutigranjeiros, bebidas, empórios, decoração, vestuário, bebidas e descartáveis, além de
oferecer serviços, como banco, loteria, farmácia, entre outros. A presente pesquisa se caracteriza como
exploratória e descritiva, de caráter bibliográfico buscando contribuir para o avanço dos estudos da interface
sobre turismo, gastronomia e bem-estar, notadamente tendo como objeto experiências turísticas e de lazer
vivenciadas no CADEG e suas possíveis conexões com outras cidades do estado do Rio de Janeiro.
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Apoio:
ST 08
Dimensões do Regime Vargas e seus desdobramentos
Coordenação:
André Barbosa Fraga (Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro), Thiago Cavaliere
Mourelle (Arquivo Nacional)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
A atualidade dos governos de Vargas e das temáticas relacionadas aos mesmos, tornam latente o estudo desse
recorte temporal. Porém recuamos um pouco mais no tempo, para refletir sobre o contexto de formação da
75
Aliança Liberal e o desenvolvimento da campanha aliancista, mais especificamente no estado do Espírito
Santo. Partimos da revisão bibliográfica e de observações iniciais em um jornal local, A gazeta, entre os meses
do surgimento da aliança até a eleição em março de 1930, utilizando o roteiro de análise da imprensa periódica
para compreender e refletir a campanha aliancista no Espírito Santo.
Durante a Era Vargas houve a criação de novos órgãos e instituições governamentais, bem como a extinção de outros,
o que faz com que se estabeleça uma diferenciação daqueles existentes na chamada Primeira República (1889-
1930), com os que vigoram em momentos posteriores da história republicana. Entretanto, a Consultoria-Geral da
República permaneceu atuando. Estabelecida pelo Decreto nº 967, de 2 de janeiro de 1903, só teve as suas
atividades encerradas pela lei complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993, sendo substituída pela Consultoria-
Geral da União, componente da Advocacia-Geral da União. Durante o período de transição entre um regime e outro,
se considerado o fim da vigência da Constituição de 1891 e a promulgação da Constituição de 1934, um dos seus
gestores foi o ex-ministro da Justiça, Carlos Maximiliano (entre 1932 e 1933), jurista que se notabilizou por exercer o
cargo de Procurador-Geral da República e ministro do Supremo Tribunal Federal, nomeado para ambos os cargos por
Getúlio Vargas. Dada a sua importância, faz-se um recorte temporal no qual se procura entender quais questões
foram analisadas pela Consultoria, por meio de pareceres. Percebe-se, previamente, que havia muitos pareceres
ligados ao quotidiano da administração pública, na condução das atividades burocráticas, como a administração do
quadro de pessoal. Porém, ao lado destes, o jurista expôs o que havia de moderno para a época em termos de
reconhecimento de direitos, como os direitos sociais consagrados na Constituição alemã de Weimar. Pensa-se, por
fim, que as considerações sobre o período são importantes para as pesquisas em História do Direito em específico e
para o entendimento geral do período estudado.
Apoio:
A atuação de Oswaldo Aranha como embaixador nos EUA durante o governo Vargas: a dimensão
americanista (1934-1936)
O trabalho apresentado consistirá em uma análise sobre a atuação de Oswaldo Aranha como embaixador do
Governo de Getúlio Vargas nos Estados Unidos da América e na perspectiva americanista presente nesta.
Aranha, em princípios de sua empreitada voltada para as Relações Internacionais, passa a servir como
diplomata em terras estadunidenses e tal serviço foi de contundente importância para a construção de uma
visão que entendemos que, paulatinamente, se apurou de maneira a considerar indispensável para o Brasil
relações próximas com os EUA. Durante sua gestão como embaixador nos Estados Unidos, Oswaldo Aranha
desempenhou um papel crucial na consolidação das relações bilaterais entre Brasil e EUA. Sua habilidade
diplomática foi fundamental para fortalecer os laços políticos, econômicos e militares entre os dois países.
Aranha trabalhou arduamente para promover o Brasil como um parceiro confiável e estratégico para os
interesses americanos na América Latina. O político brasileiro também buscou estreitar os laços culturais entre
os dois países, promovendo intercâmbios acadêmicos, culturais e científicos. Assim, sua gestão como
embaixador foi marcada não apenas pela diplomacia política, mas também pelo impulso econômico e cultural
que proporcionou às relações entre Brasil e EUA. Sua capacidade de negociar e articular acordos diplomáticos
complexos contribuiu para fortalecer a posição do Brasil no cenário internacional e para garantir sua voz em
questões cruciais. Assim, a atuação de Oswaldo Aranha como embaixador nos Estados Unidos foi marcada
por uma visão ampla e abrangente. É válido considerar que por sua atuação como representante brasileiro,
Oswaldo Aranha deixou um legado de destaque na política externa do país, promovendo uma visão pró-
americana que moldaria as relações bilaterais por décadas seguintes. Dessa forma, é possível pontuar que o 76
período no qual Oswaldo Aranha esteve nos EUA na condição de embaixador pode elucidar destacadas
nuances dos elementos constitutivos da visão americanista que o mesmo elabora para si e passa a defender
nos meandros do governo varguista.
A presente proposta de comunicação possui como objetivo a demonstração documental e primeiras conclusões
alcançadas na vigente pesquisa de mestrado, voltada para a análise do estabelecimento de contatos policiais e
diplomáticos brasileiros com agentes europeus e latino-americanos ao longo da década de 1930. Levando em
consideração o contexto histórico do Entreguerras, principalmente a partir da formação da Terceira Internacional em
1919 e o consequente momento de subida autoritária, é possível apontar crescentes esforços para o combate ao
comunismo internacional por meio de forças de policiamento e de vigilância no Ocidente. Esta preocupação política
constitui, ao longo do recorte temporal ressaltado, a motivação principal para esforços de internacionalização de
contatos e ações de vigilância por meio da polícia brasileira, durante o período de chefatura de Filinto Müller - este agente
passa a estabelecer uma rede de contatos global voltada para o compartilhamento de publicações relativas à polícias
internacionais, propaganda comunista apreendida, vigilância de indivíduos considerados subversivos entre fronteiras,
envio de agentes de polícia brasileiros para outras nações consideradas exemplares na ação anticomunista e, em casos
mais extremos, para a expulsão e assassinato de indivíduos considerados perigosos. A participação brasileira em
Congressos Internacionais Anticomunistas ocorridos em 1936 e 1937 na Alemanha nazista e o interesse brasileiro em
periódicos sobre literatura anticomunista, que circulavam internacionalmente por financiamento de organizações
internacionais, revelam novas fronteiras transatlânticas da atuação do regime varguista e permitem a compreensão do
período Entreguerras e suas questões historiográficas por novo ponto de vista. A análise da documentação situada no
Arquivo Histórico do Itamaraty permite apontar as ações internacionais incentivadas diplomaticamente por oficiais do
governo autoritário de Getúlio Vargas e, simultaneamente, as motivações individuais sustentadas por agentes de polícia
- no caso brasileiro, estes passam a construir ao longo do Entreguerras uma rede de contatos transnacional que
Apoio:
demonstra a existência de uma cultura policial coerente e com os mesmos objetivos, frequentemente para a
manutenção da ordem política, no Ocidente.
Este artigo realiza uma breve análise historiográfica acerca da relação entre História e Memória, com foco no
estudo da Ação Integralista Brasileira (AIB). Mesmo após sua derrota em 1937, a AIB conseguiu obter êxito em
determinados setores da sociedade brasileira. Destaca-se a relevância da memória no processo de construção
de identidades políticas, notadamente evidenciada no contexto do integralismo brasileiro. Os integralistas
empregavam rituais políticos, uniformes e símbolos como instrumentos para moldar a identidade cultural. A
memória, por sua natureza seletiva, é constituída por eventos, personagens e elementos nacionais.
Partindo da evidência histórica que de 1930 a 1945 Getúlio Vargas governou a maior parte do tempo através de 77
regimes autoritários, é compreensível constatar que havia uma estreita relação entre a imprensa e o Estado
varguista. Analisar a natureza dessa ligação auxilia tanto em uma melhor compreensão histórica do período
quanto também possibilita o aprofundamento teórico e conceitual que envolve a conexão entre os jornais e os
regimes autoritários. Por um tempo significativo da existência da humanidade, a imprensa foi o principal
mecanismo de difusão tanto de notícias quanto de ideias e ideais. Com base na sua capacidade de propagação
discursiva, ela foi rapidamente compreendida por regimes autoritários como um importante instrumento de
legitimação, divulgação e defesa dos seus projetos políticos. Dessa forma, ao estudar a dinamicidade da
relação que se constituiu entre o periodismo e o os governos de Getúlio Vargas, acredito ser possível contribuir
para o debate dessa temática observando a historicidade do jornalismo político que predominava naqueles
anos, assim como um importante período da história do Brasil Contemporâneo.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Estátua de Santos Dumont e valorização do pioneiro da aviação brasileira durante o governo Vargas
Durante o Governo Vargas (1930-1945) houve um projeto de reestruturação da aviação no Brasil, marcado por
alterações significativas, entre as quais está incluída a criação, em 1941, do Ministério da Aeronáutica e da
Força Aérea Brasileira (FAB). Em tal período, a administração varguista procurou generalizar a compreensão e
o interesse da população pelo desenvolvimento da navegação aérea. Nesse processo, a história ocupou um
lugar central no discurso estado-novista, que passou a procurar nela, principalmente a partir de 1940,
personagens brasileiros que de alguma maneira tivessem contribuído para o incremento da aviação mundial.
Com isso, o Estado Novo foi buscar no passado precursores da aviação. Entre as figuras destacadas estão
Bartolomeu Lourenço de Gusmão, Júlio Cesar Ribeiro de Souza, Augusto Severo e Alberto Santos Dumont. No
Apoio:
entanto, apesar de existir o interesse de se valorizar esses quatro vultos brasileiros considerados pioneiros da
navegação aérea, os recursos materiais e simbólicos disponíveis foram empregados principalmente para
enaltecer Santos Dumont. Inúmeras políticas culturais foram elaboradas com o objetivo de manter a figura
desse personagem histórico em evidência. O objetivo do presente trabalho é analisar uma delas, ocorrida no
campo das artes plásticas. Durante o governo Vargas, houve o empenho para que saísse do papel um projeto
de construção de uma estátua em memória das façanhas de Santos Dumont. O monumento, projetado pelo
escultor Amadeu Zani, foi inaugurado em 1942 e pode ser inserindo em uma política maior de desenvolvimento
da navegação aérea no Brasil durante o Estado Novo.
“Na hierarquia dos problemas de uma nação, nenhum sobreleva em importância ao da educação”. Quanto a esse
ponto, intelectuais conservadores e liberais dos anos 1920 pareciam concordar. E Fernando de Azevedo,
representante do campo liberal, responsável, junto com outros intelectuais, pelo histórico "Manifesto dos Pioneiros
da Educação Nova" de 1932, pareceu dar tanta importância à causa que, independentemente do campo político dos
governos, fez-se neles presente, a fim de garantir o sucesso da causa pela qual lutava fazia anos. Atuante desde o
então ensino primário, na década de 1920, até a universidade, Azevedo percebeu que a educação era um campo
político, cujo combate, seja em termos internos do funcionamento da escola, seja em termos externos a ela, valeria
uma efetiva transformação da sociedade. Neste ponto, Azevedo operava o espírito reformador da época. A presença 78
nas instâncias burocráticas facilitaria esse embate. Da mesma maneira, a existência de um Estado forte, como
Vargas pareceu construir, lhe parecia fundamental para o sucesso da empreitada. “No terreno da educação, é que se
está travando a grande batalha moderna das ideias”, dissera Alceu Amoroso Lima em carta a Gustavo Capanema, na
qual não recomendava a Azevedo para o cargo de diretor nacional de educação, pois sua atuação nesse campo seria
uma bandeira política. Era a década de 1930 um momento de propor novas interpretações sobre o país, e a educação
tornava-se peça-chave deste debate – como, aliás, também fora na década de 1870. Qual a participação, bem como
a contribuição, de Fernando de Azevedo para este debate? Espera-se discutir essa questão, à luz de críticos e
comentadores da obra de Azevedo, neste trabalho.
A pesquisa objetiva analisar as ações da Cruzada Nacional de Educação nas décadas de 1930/40. Pretende-se
compreender as estratégias de mobilização e engajamento utilizadas num amplo movimento contra o
analfabetismo que contou com apoio da imprensa escrita e radiofônica. Quem eram esses intelectuais e de que
forma buscaram atuar na construção da identidade nacional capitaneada por Getúlio Vargas são questões que a
pesquisa busca responder. As ideia e projetos escolanovistas tiveram papel determinante no pós-1930, porém, os
“educadores profissionais” não estavam sozinhos, havia outros projetos e propostas se aliando ao poder
constituído. Nesse sentido, as iniciativas da Cruzada Nacional de Educação tiveram o apoio do Estado Novo que
procurava colocar as ações educacionais a serviço de sua política autoritária. Acreditamos que a pesquisa
contribuirá com (re)visões de embates, projetos e disputas em curso no Brasil naquele contexto, revelando novas
e velhas perspectivas sobre a educação e o analfabetismo. Disputas e embates que interferiram na construção e
no enquadramento de uma memória nacional que acabou por esquecer as ações da Cruzada.
Apoio:
70 anos da morte de Vargas - apontamentos sobre desdobramentos e permanências
A presente apresentação visa debater um pouco sobre aspectos gerais do governo de Getúlio Vargas aplicados
à atualidade e às décadas subsequentes ao seu suicídio. São inegáveis os impactos das décadas de 1930 a
1950 na História do Brasil, influenciando a posteridade em diversos pontos, como a construção de um
nacionalismo, a repressão policial e uso da tortura, o fortalecimento das Forças Armadas, a exaltação ao líder,
o uso da Lei de Segurança Nacional com viés anticomunista, o debate em torno das leis trabalhistas, o
protagonismo dos trabalhadores e tentativa de controle do Estado sobre eles, entre outros pontos.
Este trabalho tem como objetivo apresentar os resultados da monografia do autor, aprovada em dezembro de
2023. A referida monografia tinha como foco investigar se o brasileiro tem consciência do voto e a importância
deste ato, bem como tem ciência sobre quem são os candidatos nos quais ele está votando. Assim sendo, para
que seja possível responder a esta pergunta tão importante e muito atual optamos por recuar no tempo para
realizar tal investigação. Desta forma, foram analisadas duas eleições presidenciais ocorridas durante a 3ª 79
República (1946-1964), a de 1955 e a de 1960, devido ao formato distinto apresentado por estas eleições. Em
outras palavras, durante a 3ª República existiam pleitos separados para escolher quem seria o presidente e o
vice-presidente da República. A existência de pleitos separados ocasionou dois resultados peculiares, a saber:
João Goulart, vice-presidente eleito em 1955, obteve mais votos que próprio presidente, Juscelino Kubitschek,
e em 1960 o presidente e o vice eleitos, João Goulart e Jânio Quadros, eram de partidos diferentes que não
estavam formando uma coligação. Assim sendo, tendo em vista estes episódios, fora feito um estudo de caso
sobre João Goulart como forma de comparar sua figura, trajetória, ideologia e crenças com os presidentes que
foram eleitos junto com ele. O objetivo central da monografia fora verificar se “fazia sentido” de uma perspectiva
política e ideológica, eleger conjuntamente estes homens. Dito isto, após meses de investigação chegamos a
um veredito positivo tanto para a questão da consciência do voto como para a questão da ciência sobre em
quem se está votando. Isto porque para além da luta pelo voto ter sido uma demanda recorrente de diversos
grupos alijados do jogo democrático até a Constituição de 1988, fora possível observar aumentos constantes
nos alistamentos durante os pleitos realizados na 3ª República. Ademais, fora possível perceber conexões
profundas estabelecidas entre a população e os candidatos, seja em virtude do programa e da pessoa destes,
seja em razão de alguma motivação pessoal que levou determinada pessoa a se identificar com algum político.
Em outras palavras, pudemos perceber como o voto é algo complexo influenciado pelos mais diversos fatores,
sendo até mesmo errôneo e impreciso tentar julgar o voto pela categoria do racional/consciente.
A teoria marxista da dependência recebeu duras críticas do marxismo uspiano, especialmente a partir dos
anos 1980. Com elas, configurou-se um verdadeiro bloqueio acadêmico aos autores da TMD, o qual
prolongou-se num exílio intelectual pouco estudado. Nesta apresentação, pretende-se passar em revista
essas críticas, considerando-as não só marcas geracionais, mas também aspectos de uma dolorida
Apoio:
superação teórica. O vetor dessa passagem foi o golpe de 1964, cujo efeito intelectual foi a crítica à ideia de
um capitalismo especificamente latino-americano e à noção de dependência.
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
80
Apoio:
ST 09
Formação docente e práticas de ensino em territórios
escolares e não escolares enfrentamentos e diálogos num
mundo em (des)construção - PIBID, Residência Pedagógica e
Estágios Supervisionados
Coordenação:
Giovanni Codeça da Silva (Seeduc RJ e UVA)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
A metodologia interativa é uma das formas para capacitar os discentes em se interessar pelo conteúdo histórico
passado, pelo docente, sem se tornar enfadonho ou cansativo durante as aulas. Visto que fará os estudantes absorver,
de forma focada, o compartilhamento das informações. Diante da preparação para o projeto de ciências realizado no
dia 7/6/2023, o tema da BNCC: “Identificar os Processos de Formação de Diferentes Culturas e Povos, Relacionando-os
81
ao Espaço Geográfico da Cidade do Rio de Janeiro”; foi escolhido para a realização de duas aulas, realizadas nos dias
20/4/2023 e 11/5/2023 perante a turma do 5º ano na Escola Municipal Azevedo Sodré. Ambas as aulas foram realizadas
mediante slides que foram unicamente apresentados com títulos e imagens diante da oralidade do docente, já que a
ferramenta do PowerPoint concedeu todos os meios e aplicativos para as imagens pesquisadas ao longo da construção
dos seminários. O planejamento sobre: “Habilidade, Objetivo, Recurso, Estratégia, Materialização e Produção Final” foi
meticulosamente pensado quando os seminários foram construídos. Dado que foi bastante prático, dinâmico e intuitivo
a realização da atividade que os alunos realizaram, em grupo de cinco. Visto que os estimularam a trabalhar em equipe,
quando foram informados que os seus desenhos, sobre as aulas dos “Bantos” e “Temiminós”, estariam expostos na feira
de ciências. E o resultado foi de um intuitivo acesso, tanto para os discentes como os seus responsáveis, de
contemplarem a expressão de seu aprendizado de forma artística ao longo da feira de ciências. Dado que ostentou o
aprendizado da turma destas duas civilizações históricas diante dos processos étnicos e culturais que formaram o
estado do Rio de Janeiro. Assim como a turma ficou extremamente entusiasmada em saber sobre a história destes
extraordinários povos que contribuíram muito, tanto no aspecto cultural quanto no linguístico, para a formação do povo
carioca. E foi somente com a interação de “contar história” que foi possível este grandioso feito. Visto que os discentes
se tornaram autores/escritores através da expressão de seu aprendizado de forma artística. Visto que a metodologia
tradicional, com o uso do quadro para escrever as informações nos cadernos, já está demonstrando o seu cansaço
perante os discentes que estão cada vez mais cansados desta monótona maneira de ensinar história. Pois, da mesma
forma que os docentes de História pretendem compartilhar o seu saber, os discentes também desejam se tornar os
novos atores e autores. Já que me foi gratificante em experienciar este conceito para minha formação como professor.
Este estudo visa analisar a obra da professora Helenice Aparecida Bastos Rocha, do Departamento de Ciências
Humanas da UERJ, conduzido pelo estagiário Felipe Nobre de Araújo, participante do "Programa Institucional
Apoio:
de Bolsas de Iniciação à Docência" (PIBID). Utilizando observações, estudos e participação ativa em aulas, o
estagiário atuou no Ensino Fundamental da “Escola Municipal Azevedo Sodré” e no Ensino Fundamental II do
“Ginásio Educacional Olímpico Martin Luther King.” De acordo com a autora Helenice Aparecida, uma
dificuldade enfrentada na escola brasileira, que impacta de forma significativa o processo de ensino e
aprendizagem em história, diz respeito às habilidades de leitura e escrita dos alunos. Os educadores de história
frequentemente destacam um desafio persistente em suas práticas: o ensino da disciplina a estudantes que
não possuem um domínio adequado da escrita. Diante de tal problemática, foi percebido claramente, ao longo
da minha trajetória como estagiário em História com formação em literatura, onde tive a oportunidade de
observar turmas de ensino fundamental I e fundamental II, que os problemas expostos pela autora foram
evidenciados por mim nessas turmas. Especialmente, as turmas na “Escola Municipal Azevedo Sodré”, uma
instituição de ensino público. Nessa escola, foi constatado em alguns alunos as dificuldades mencionadas por
Bastos. Diante desse cenário, é crucial compreender que a pandemia acentuou as lacunas educacionais
existentes e exacerbou as dificuldades já presentes. Os desafios impostos pelo ensino remoto, a falta de
acesso adequado à tecnologia e as mudanças na dinâmica de aprendizado contribuíram para agravar as
dificuldades de leitura e escrita dos alunos. A trajetória de aprendizado não se limitou às quatro paredes da sala
de aula, estendendo-se para além do ambiente escolar. Ao trazer à tona as experiências obtidas na “Escola
Municipal Azevedo Sodré”, foi vivenciado novas oportunidades de aprendizado no “Ginásio Educacional
Olímpico Martin Luther King”, no qual foi aberto e receptivo para adesão de novas abordagens.
A trajetória descrita neste estudo revela não apenas os desafios enfrentados no processo de ensino-
aprendizagem em história, mas também a necessidade premente de uma abordagem reflexiva e adaptativa no
ensino. À luz das experiências vivenciadas durante o estágio, é evidente que a formação docente deve ser
constantemente revisitada e aprimorada para enfrentar os desafios contemporâneos, especialmente diante de
eventos disruptivos como a pandemia da Covid-19. Portanto, este estudo não apenas contribui para o 82
entendimento das dificuldades enfrentadas pelos alunos, mas também ressalta a importância de uma
educação inclusiva e de qualidade, capaz de preparar os estudantes para os desafios do mundo atual.
O artigo articulando o texto do autor Peter Lee - Por que aprender história? Junto a realidade experienciada no
GEO Martin Luther King reflete em modos práticos o que o autor teoriza nos aspectos das experiências.
Para o autor, o ensino em história se torna crucial para novas visões de mundo, construção de cidadania e
consciência social na operação de simbologias subjetivas. No ambiente escolar foi possível destacar alguns
momentos em que a ‘’experiência vicária’’ se deu no sentido de construir um conhecimento com os alunos para
algo que não está a espera, a imprevisibilidade da sala de aula torna-se um desafio para o professor, que ao
final das tarefas, se enriquece com a troca oferecida por esse espaço. Importante salientar que através do
artigo, pode-se cristalizar algumas situações vivenciadas para entendimento empírico e trazer à tona os
anseios vivenciados pelos alunos. A reflexão crítica em relação ao tema esclarecendo metodologias na
historiografia em si e dialogada em sala de aula, levanta conceitos que o autor citou como a funcionalidade da
‘’história eventual’’ ou ‘’midiática’’. Abarcar pontos que atravessam as pluralidades transforma o ensino em algo
rentável na prática pedagógica e que geram ferramentas autônomas para os estudantes na construção da
cidadania. Durante a elaboração do artigo, foram retratados alguns exemplos práticos no ambiente escolar,
especificamente no decorrer do debate histórico e o quanto determinado tema apreende os estudantes no
sentido de significação e formação da subjetividade individual. O autor deflagra aspectos relevantes da história
de modo a taxar o processo de ensino-aprendizagem como um agente somatizador para que o aluno, por meios
táteis próprios, consiga absorvê-lo e criar valores significativos. A relevância do estudo em história deflagra a
demanda e a necessidade do espaço da matéria dentro da grade de estudos escolar e o quanto é significativo
para o conhecimento estudantil dentro dos seus aspectos almejando e difundindo características cruciais no
saber histórico. Por fim, a proposta do artigo se dá na costura entre o experiencial definido pelo autor e as
Apoio:
práticas existenciais desafiadas em sala de aula oxigenando-se pontos de vistas relevantes, situações-
problemas que se depõe ao decorrer das ações de ensino e exemplos bem definidos retratados no ambiente
escolar levando-se em pauta agentes que modificação esse campo, como alunos, professores e estagiários.
Reflexões sobre o pós-colonial nas aulas de História do ensino fundamental: desafios da práxis na
residência pedagógica
O pensamento pós colonial tem sido largamente incorporado nos debates epistemológicos no campo da teoria
da História para aprofundar as reflexões acerca da relação entre conhecimento e poder. As possibilidades de
se pensar a "desprovincialização " do conhecimento do chamado sul global se revela numa perspectiva crítica
acerca da dominação epistêmica de matriz colonial que se desdobra no campo de questionamentos
localizados na teoria da História, e por consequência na práxis escolar, indissociada da matriz teórica da
História. Entendemos que algumas reflexões epistemológicas da História aparecem como intrínsecas a práxis
docente no cenário escolar e que portanto o conjunto de debates acerca da condição pós colonial do
conhecimento histórico deve se inserir elemento presente na narrativa conformadora do conhecimento
histórico. Reconhecemos como amplo desafio pensar a transposição desse debate para o campo da sala de
aula na abordagem das relações coloniais e especialmente no alargamento da base de debates produzidos
pelas críticas da modernidade à herança colonial. Qual seria o impacto das propostas pós coloniais na
produção, reprodução e apropriação de conhecimentos no campo da História? E como esse debate aparece 83
ilustrado no interior do saber escolar ampliando os desafios de se produzir uma experiência pedagógica
atrelada ao declínio das grandes narrativas historiográficas hegemônicas.
Este presente estudo tem como finalidade relatar a obra da professora e pesquisadora universitária brasileira
Magda Soares referência em alfabetização e letramento no Brasil, estudo conduzido pela estagiária Flavia Maria
Candido, participante do “Programa Institucional de bolsa de Iniciação à Docência” (PIBID). Manuseando
registros feitos em sala de aula, observações e relatórios executados pela estagiária. O estudo baseia-se na
análise das práticas sociais nas áreas de leitura e escrita e na importância da alfabetização na vida social dos
alunos do ensino fundamental. A Feira de Ciências é um projeto realizado na Escola Municipal Azevedo Sodré
que tem como objetivo fazer com que os alunos entendam o que é ciência e como o conhecimento científico é
importante no contexto social dos alunos. Na escola municipal Azevedo Sodré foi observado pela estagiária
um cenário pós-pandêmicos de alunos dispersos em suas atividades e com dificuldades de compreender a
leitura e a escrita em momentos de aula, foi executado atividades de letramento como contação de histórias,
produções de texto e rodas de conversas com a finalidade de despertar questionamentos e a comunicação
entre os discentes, em um contexto social onde os alunos estavam praticando uso excessivo de telas foi
necessário uma aula sobre a história do lugar onde vivem e a importância de residirem na região, pois a história
do local trabalhado na aula faz parte da identidade de cada aluno. O letramento histórico e a
interdisciplinaridade em sala de aula foi de suma importância para despertar um olhar crítico entre os alunos
e a apropriação da história onde vivem, o letramento é se apropriar e interpretar a tecnologia da escrita,
socialmente e politicamente dando autonomia ao educando e oportunidades de uma educação crítica e
libertadora utilizando a imaginação e desenvolvendo uma visão de mundo de acordo com a realidade vivida
pelos discentes. O estudo conclui a importância do senso crítico e a interdisciplinaridade no ambiente escolar
e a necessidade da socialização entre os educandos para que haja uma troca subjetiva no saber em sala de
Apoio:
aula, a prática do letramento não fica restrito em só alfabetizar e sim impregnar no sentindo de se apropriar de
uma leitura ou de contexto histórico. “A arma social de luta mais poderosa é o domínio da linguagem" (SOARES
2015).
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
O papel do professor em sala de aula é um muito interessante em análise, pois ao contrário de outros trabalhos
onde o serviço se está na produção ou manutenção de um objeto ou serviço, o papel do professor é o próprio
serviço em si, em uma transmissão de conhecimentos os quais possui, em uma tentativa de fazer com que
seus alunos retenham tais conhecimentos, ou seja, em comparação a tantos outros trabalhos, onde o processo
do trabalho é muitas vezes ignorado pelo receptor do “produto”, na área do ensino não só o processo é o foco
do trabalho, quanto a retenção do que se está ensinando é uma parte vital dele, onde o professor pode ser
comparado a um manual, tentando transmitir conhecimentos certeiros para que o seu “leitor” aprenda sobre
tal tópico e não cometa possíveis erros. Porém, ao se pensar no papel do professor e do ensino dessa maneira,
questionamentos podem surgir, no fato em que se o professor é visto como um “manual”, existiria uma perda 84
na qualidade do conteúdo quando é necessário a modificação do ensino para as necessidades dos seus
alunos? Essa questão se expande ainda mais quando se analisa o alto nível de analfabetismo, especialmente
nas instituições públicas de ensino. Essa foi a pergunta que então me questionei durante o período de preparo
de minhas aulas como estagiário de história na Escola Municipal Azevedo Sodré. Durante apresentações por
slides, os alunos aparentavam interesse e atenção, mas seria somente na realização de atividades após a aula
que poderia se analisar o quanto tinham entendido o assunto dado. O mais notável evento durante a realização
de minhas aulas, foi perceber que não se existe uma inerente superioridade a trabalhos escritos, com as
atividades que envolvessem a imaginação dos alunos sendo não só os que mais aparentaram se divertir, quanto
foram os que eles mais se empenharam em suas realizações, pois esses eram trabalhos que aproximavam de
suas realidades ao existirem em um formato o qual não tinham dificuldades. Retomando a pergunta anterior,
pude experienciar que não necessariamente existe uma perda de qualidade, e que um modelo de ensino mais
criativo não só é tão válido quanto o modelo textual, como podem ir muito além como um modelo ao
compreender aqueles o qual ensina, e usufruir da criatividade e a realidade na qual vivem. O ensino deve ir
além de simplesmente uma fonte profunda sobre um tópico e pletoras de informações, e o fator vital deve se
estar na formação de um modelo de ensino que consiga conectar com os estudantes. Após a realização de
minhas aulas, minha visão é de que um bom modelo de ensino seria um que se adapta para o despertar do
interesse dos estudantes, indo além, mas sem descartar, os livros didáticos, o qual estimula suas capacidades
e a reflexão de maneira natural e efetiva.
Apoio:
apresentado aos alunos o conceito de bairro por meio de exemplos visuais, estimulando a participação e o diálogo
constante com os estudantes. Na segunda aula utilizando da habilidade de geografia “Retratar as transformações e
permanências das diferentes paisagens existentes no seu bairro”, utilizei de figuras impressas, escolhi imprimir e
levar para eles devido a possível falta de recursos nas escolas, e principalmente para terem acesso a outras formas
de linguagens, como a fotografia, pois como já dizia João Paulo Wiederkehr “foto não é apenas uma recordação, mas
também uma forma de estudo, bem mais prática e divertida”. Para assim mostrar aos alunos como o bairro da escola
deles havia mudado. Com isso utilizei a metodologia de resgatar o que havia sido dito na aula anterior, que cada bairro
possuía sua identidade, enfatizando a importância da memória na construção da identidade de um grupo. Para
promover a reflexão sobre questões locais, os alunos foram incentivados a identificar um problema em seu bairro e
propor possíveis soluções. Chegando na última aula, e resgatando a segunda aula, utilizei a escola como local
comum entre eles dentro dos bairros, então escolhi a escola para ser alvo dessa exaltação. Pegando assim a música
“o meu lugar” do Arlindo Cruz que é uma homenagem ao bairro de Madureira e alterando alguns trechos, para assim
fazer uma homenagem a EMAS. Na hora da excussão, iniciei contando mais sobre a história da escola, já que alguns
alunos não havia comparecido à aula anterior. Coloquei-a para que eles pudessem ouvir o ritmo e entender o
significado dela, e depois de ouvirem, entreguei uma folha com a música já modificada para a escola, onde essa se
chamaria “o nosso lugar”. Ao final da aula, gravamos um vídeo cantando-a, pois seria um dos produtos apresentados
na feira das ciências. Essa atividade teve um impacto significativo em minha vida acadêmica. A experiência de
imaginar, montar e desenvolver uma aula agregou demais. Essa oportunidade me dá uma visão de sala de aula, pois
terei uma experiência prévia de como desenvolver uma aula. Além disso, ter a capacidade de lidar com as frustrações
que surgirão. Foi desafiador pegar uma turma de 3°ano e prender a atenção deles, mas acho que dentro do possível
consegui e espero ter conseguido agregar a eles também, pois sai dessas aulas aprendendo mais do que ensinando.
85
Letramento histórico
Este trabalho visa analisar as experiências vividas no planejamento de uma sequência didática, aulas ministradas,
que foram participes do projeto Feira das ciências da Escola Municipal Azevedo Sodré (EMAS), que em conjunto com
as outras experiências serão analisadas — pela estagiária Ana Luisa Bispo Pereira do Programa institucional de
bolsas de iniciação à docência (PIBID) e graduanda em História na modalidade de licenciatura na Universidade Veiga
de Almeida (UVA), estas vivências foram analisadas a partir das obras de Maria Amélia Dalvi, doutora em educação,
Magda Soares, doutora em didática e a partir da ótica do letramento histórico. Utilizando como fonte relatórios,
diários e registros fotográficos das aulas e da Feira das ciências desenvolvidos pela estagiária. A pesquisa se baseou
em analisar as experiências vivenciadas com base em leituras posteriores de ““Criatividade” no ensino de literatura
e na formação de leitores” de Dalvi (2019) e “Letramento um tema em três gêneros” de Soares (1999), além do
letramento que fez parte do projeto este trabalho buscou aprofundar o letramento histórico presente na
intencionalidade da confecção da sequência didática para o terceiro ano do ensino fundamental sobre patrimônios
do Rio de Janeiro, destacando a importância da memória e história em um contexto pós pandêmico e em uma escola
municipal perpassada por diversas realidades que influenciam a visão individual de cada discente. Na Escola
Municipal Azevedo Sodré (EMAS) a estagiária observou as dificuldades enfrentadas pelos alunos do terceiro ano,
durante as aulas em que colocou em prática a sequência didática —entre elas a de maior destaque era a dificuldade
em compreender o que se solicitava e a partir dessa experiência se buscou inserir práticas de letramento com mais
atividades de escrita e contação de história, por esta razão que se adotou na intencionalidade práticas de letramento
em conjunto com letramento histórico. A análise posterior possibilitou verificar que os objetivos surtiram efeito e
integraram o processo de letramento dos alunos em conjunto com que foi desenvolvido pela docente da turma no
decorrer do ano. O estudo concluiu que o letramento histórico para as turmas de ensino fundamental I é de suma
importância para que estes além de se inserirem na sociedade possam compreender que estão vivenciando a
história a partir de suas próprias experiências e que não estão apenas observando o desenvolvimento desta, as
experiências demonstraram que estes conseguem se inserir na história como agentes e essa ação possibilita a
Apoio:
valorização da história e da memória, ademais possibilitou verificar que letramento e letramento histórico podem
coexistir em um projeto com intencionalidade e objetivo não se torna enfadonho para os alunos.
A presente pesquisa tem por objetivo investigar os modos de produção de subjetividade no governo da infância
e da juventude, centralizando seu olhar nas relações pedagógicas, a partir dos processos históricos que
instituem a escola como política de Estado no século XIX no Brasil, com a lei de Primeiras Letras, em 1827.
Assim, buscamos analisar a naturalização da lógica punitivo-penal como elemento próprio à razão de governo
da época, ou como propõe Michel Foucault, a “governamentalidade” liberal, entendida por este como
“princípio e método de racionalização do exercício do governo” (Foucault, 2008, p.432). Desse modo, é por
meio de ferramentas conceituais desenvolvidas por autores como Friedrich Nietzsche, como a genealogia, que
rastreamos nas fontes primárias encontradas nos acervos do Arquivo Nacional e do NUDOM (Núcleo de
Documentação do Colégio Pedro II) a produção da lógica saber-normalização-subjetividade que define o direito
e suas ferramentas como as normas, códigos, leis e penalizações, como articulador das relações modernas.
Portanto, ao colocarmos em análise a escola brasileira do século XIX em sua perspectiva punitivo-penal,
entendemos que são os postulados legais, as práticas pedagógicas moralizantes e os procedimentos
disciplinadores presentes neste espaço e alicerçados pelo direito, que produzirão o indivíduo alinhado às
premissas do novo sistema – liberal –, a saber: “serializado, registado, modelado” (Guattari). 86
Este texto busca analisar a dinâmica aplicada a três turmas do terceiro ano do ensino médio do Colégio
Estadual Antônio Prado Júnior, como parte do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência - PIBID.
Nesta dinâmica apresentamos uma roda de conversa focada na instituição das leis 19.639/03 e 11.645/08 e a
importância que essas tiveram na vida escolar destes alunos. Ao final desta roda de conversa foi aplicado um
questionário avaliativo para esses estudantes, onde estes avaliavam a dinâmica que acabaram de participar. O
papel deste trabalho consiste em analisar e comparar os resultados obtidos nestes questionários. Colocando-
os em ressonância com as informações obtidas por mim e meus colegas de PIBID durante a realização desta
dinâmica. Para assim entendermos como estes alunos reagiram correspondentemente às ações que
planejamos e se os objetivos que colocamos para esta roda de conversa foram atingidos.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
O senador Paulo Paim denunciou o aumento de casos de racismo em fevereiro de 2024 . “O racismo não está
piorando , agora ele é filmado .” É o que diz o ator Will Smith dentro de uma realidade em que as mídias sociais
Apoio:
tem tanta relevância, e , enquanto futuros docentes não podemos tapar os olhos para a urgência desse assunto.
Em natureza estrutural , a desigualdade social no Brasil é inquestionável e pensar no cenário escolar isso
reafirma-se por ter se tornado um dos maiores palcos para o racismo e todo tipo de discriminação e é
exatamente por isso que é o lugar ideal para mover-se estrategicamente para a construção uma educação
antirracista. Durante o período de estada do GEO Martin Luther king , o orientador e professor Aluísio Barreto,
propôs que organizássemos um Projeto antirracista . Tivemos como base a lei 10.639, a palestra “ O perigo de
uma história única - Chimamanda Adichie.” e as mais diversas realidades que víamos no dia a dia na escola .
Entre falas , brincadeiras e comportamento , foi perceptível anseio dos discentes por serem ouvidos e poderem
ser vistos para além do que o tempo de aula proporciona. O artigo tem como objetivo lançar luz sobre os
diversos estereótipos que caem constantemente sobre os alunos negros e periféricos . Levantar uma discussão
sobre a importância da representatividade para a construção identitária das crianças e adolescente negros e o
quanto é importante fazê-los refletir e se expressarem, mas não somente a partir do que a cultura eurocêntrica
chamou de correto , mas a partir de sua própria cultura . A partir de escritas de rimas , letras funk e samba,
poesias , desenhos.
Sobre a lei 10639 de 2003, fica estatizado que todas as redes de ensino, publicas ou privadas, devem incluir em
seu currículo a temática "História e Cultura Afro-Brasileira e Africana", o conteúdo da lei destaca, no entanto, 87
que esta lei não se trata de mudar o foco da educação brasileira de uma ótica etnocêntrica, fortemente
marcada pelo estudo intensivo da história europeia por uma ótica afrocêntrica, apesar do Brasil ser uma país
de maioria negra, como mostra o IBGE, 56% da nossa população é negra, mas ocupam só 26% das cadeiras no
Congresso Nacional, fato esse que demonstra o racismo estrutural do nosso país. O artigo atrela ainda a Lei
Euzebio de Queiroz a Lei de Terras, ambas promulgadas em 1850, uma, a primeira, era o inicio da desaceleração
da escravidão no Brasil e estipulava a proibição do tráfico negreiro no país, a outra estipulava que ‘terras
devolutas’, ou seja, terras que não tinham donos, só poderiam ser ocupadas mediante compra junto ao
governo, e essa compra não podia ser parcelada, tinha que ser paga a vista, dificultando sua compra para a
maioria da população recem liberta e marginalizando mais da metade da população brasileira.
A cotrovérsia entorno da Lei do Ventre livre apontada por José do Patrocinio, e a Crueldade da Lei do
Sexagenário, trata ainda da transição da mao de obra escrava para a mão de obra imigrante paga e como isso
afetou a população negra brasileira. O artigo também trás as repressões da primeira Republica contra espaços
e ambientes antes seguros para a população negra brasileira deixando essa população ainda mais vulnerável.
O trabalho relata uma experiência dos alunos do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência –
PIBID, através de Roda de Conversa sobre a importância das Leis 10.639 e 11.645, realizada no Colégio
Estadual Antônio Prado Junior, às turmas 3003, 3004 e 3005 do 3° ano do Ensino Médio. A análise fundamentou-
se nas narrativas dos participantes com a mediação da professora e dos estagiários do Pibid que fizeram os
registros decorrentes das anotações feitas em seus relatórios de campo. Ficou evidenciado uma contribuição
para a edificação de laços de reconhecimento sobre a questão das desigualdades raciais e o estímulo à postura
crítica e de não aceitação às ocorrências habituais de racismo percebidas em seus convívios sociais. Concluiu-
se que o diálogo entre os saberes acadêmicos e a vivência cotidiana dos alunos constitui uma oportunidade
Apoio:
ímpar em busca de desenvolvimento de habilidades e competências imprescindíveis aos discentes enquanto
futuros professores.
A educação brasileira enfrenta desafios, que embora sejam atuais, tem origens seculares. A desenvolvimento
dessa crise educacional perpassa as gerações. O ser humano vive uma constante inquietação durante a
manutenção existencial da vida humana; valores que um dia foram reverenciados, hoje já estão
ultrapassados. O objetivo é a mudança, sempre constante. Porém, o quanto estamos preparados para as
mudanças que vem com as novas gerações? Será que estamos abertos a essas novas discussões? A novas
formas de educar e formar um educador? Em 2003, com o intuito de tornar obrigatório o ensino sobre História
e Cultura Afro-Brasileira no ensino fundamental e médio, a lei 10.630 é criada. 20 anos depois, a prática dessa
lei enfrenta grandes desafios. O porquê que fica é: depois de tantos anos, como é possível um país composto
majoritariamente por pretos e pardos, ainda ter dificuldade em implantar o ensino de África e africanidades na
base curricular? É curioso e um tanto contraditório quando se olha para a cultura brasileira: o Brasil que foi
construído nas frestas da colonização tem como base a cultura africana; toca tambor, aplaude samba enredo,
fala o “pretugues”, faz festa pra Ogum e entrega doce para Cosme e Damião. No entanto, enfrentamos um
desafio ao levar aquilo que não é ocidental, aquilo que não está na história escrita, para o campo do intelectual
brasileiro. Resquícios de um passado colonial e ocidental, que não nos deixa pensar outras formas de 88
existência e de ensino. Nessa linha de raciocínio, vemos nascer a cosmofobia, em outras palavras, o medo de
cosmologias distintas. Os processos de ensino-aprendizagem devem ser pensados para além daquilo que nos
é ensinado. O pensador Antônio Bispo dos Santos, também conhecido como Nego Bispo, traz um conceito
interessante: a contracolonização. Em sua tese, contracolozinar é pegar palavras que estão enfraquecidas e
potencializá-las. Nessa lógica, enquanto o mundo fala de ódio, falaremos de amor, enquanto o mundo fala da
razão, falaremos do coração, enquanto o mundo fala de lugar, falaremos de território. Durante meu tempo na
escola municipal Azevedo Sodré, pude entender na prática a dinâmica do ensino que vai para além daquilo que
é clássico e tradicional. Vi, de diferentes formas, o corpo docente educar trazendo referências africanas, afro-
brasileira e indígenas. É preciso aprender a trazer esse cenário para a normatividade da escola e da sociedade,
entender e dialogar com o passado brasileiro, de forma a criar vínculos entre comunidade-território-sociedade.
A educação precisa ser entendida como um lugar de vínculos, como um lugar de infinitas possibilidades,
ramificações e diversidade, por que, como diz Nego Bispo, a sociedade se faz com iguais, a comunidade se faz
com os diversos.
As vivências na formação docente ao longo de duas décadas de atuação envolvendo a formação teórica,
projetos de extensão e pesquisa, estágios, Pibid e residência pedagógica, me permitiram perceber
deslocamentos e o surgimento de novas formas de ser e fazer para (e na) docência. No passado próximo, dois
fatores contribuíram para a incongruência entre a História e o Ensino: a arrogância dos bacharelados e a ação
nefasta da ditadura militar - no primeiro vivia as heranças de um passado colonial, seus classismos e um certa
aversão pela Escola como Instituição promotora de Conhecimentos e Saberes, era o tempo dos bacharelados
como marcador de distinção social; no segundo a política da ditadura militar, subserviente aos interesses
estadunidense e da elite colonialista, agindo na destruição da qualidade até ali alcançada, realizando o
sucateamento da educação pública, o açodamento dos salários no magistério, servindo ao modelo privativo e
Apoio:
estraçalhando a formação do pensamento crítico nas instituições de formação de bacharéis e licenciandos.
Passados sessenta anos após o Golpe dos militares na democracia brasileira, o Ensino de História passou a
trilhar novos rumos. Ainda distante de travar a principal batalha causadora de suas mazelas, a questão salarial,
outros caminhos foram sendo construídos e algumas políticas acertadas permitiram a construção da
percepção de que a qualidade pedagógica é um ponto fundamental na formação do docente. É bem verdade
que nestes caminhos travamos batalhas duras contra uma educação neoliberal patrocinada e alimentada pela
ação do capital internacional e nacional, pela ação dos organismo multilaterais, pela pressão da Unesco/ONU
e por agentes nacionais com interesses privatista como o Todos Pela Educação, Fundações e Institutos, “bem-
intencionados”. Mas, floresceu durante a redemocratização, muito pela resistência dos movimentos sociais
que guardaram os ensinamentos de Paulo Freire, uma outra forma de ensinar: a preocupação com o Outro e
com o Território pautada no diálogo. É a partir destas práticas e diante destes desafios que a formação docente
e o as práticas de ensino de História passaram a ser realizadas em nossas ações. Assim convidamos para
dialogar, nos propondo a ouvir os educandos, as ruas, os territórios e as comunidades. A partir de Paulo Freire
(1967, 1968 e 1996), Abdias do Nascimento (1978 e 2020), Lélia Gonzalez (1982 e 2020), Maria Beatriz
Nascimento (1989), Circe Bittencourt (1997 e 2005), Ailton Krenak (2020) e outros autores que nos permitem
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
A importância das Leis 10.639/03 e 11.645/08 para a educação e formação dos estudantes 89
Maria Luíza de Souza Brito (UVA)
A partir da discussão gerada pelo projeto de roda de conversa em torno das leis 10.639/03 e 11.645/08 no
Colégio Estadual Antônio Prado Junior, a reflexão que apresento é sobre a importância das leis dentro da
educação e quais são os resultados de valorizar as culturas de povos negros e indígenas por meio do ensino. A
experiência do projeto de roda de conversa mostrou na prática que ao serem informados do se tratam as duas
leis, os alunos se sentiram confortáveis em não só participar do assunto mas também de compartilhar suas
vivências em torno da temática, indicando que se identificaram com tema. As leis 10.639/03 e 11.645/08
representam um marco importante na história de grupos que tem sido marginalizados no Brasil. Ao serem
trabalhadas em sala de aula os alunos podem entrar em contato com a verdadeira história do seu país e
aprender a valorizar a diversidade, dessa forma o combate ao racismo e discriminação passa a ser tratado de
forma diferente ao se atrelar a educação.
Pontua-se no presente artigo, as problemáticas ainda enfrentadas pela prática eficiente da lei 10.639.
Destacamos as dificuldades encontradas a partir de nossa vivência no Programa Institucional de Bolsas de
Iniciação à Docência (PIBID). A lei que tem em seu objetivo ampliar o conhecimento de África e africanidades
na base escolar, ainda é muito precária em sua realização. O intuito seria letrar historicamente a sociedade de
uma história que por tanto tempo foi ignorada. Usamos de teóricos, como Magda Soares e Paulo Freire para
ressaltar a importância de mais do que ensinar, transmitir o conhecimento. O intuito da lei é letrar
historicamente a sociedade; transmitir informações de uma história que por tanto tempo foi ignorada.
Apoio:
Projeto antirracista: um olhar para o ensino de história
Como alunos do Pibid frequentamos a escola e vivemos com os alunos e com os professores, assim com
olhares novos podemos identificar problemas na sala de aula e dessa forma, com as ferramentas que temos
tentar solucioná-los. Ao entrarmos na sala de aula reparamos que havia um problema de piadas com
conotação racial dentro das salas, o que é extremamente problemático por si só, pois são jovens reproduzindo,
mas que parece ainda pior em uma escola chamada Marthin Luther King. Então ao identificarmos o problema,
decidimos juntamente com o professor realizarmos um projeto, onde falaríamos o quão terrível era e quanto
peso tinha aquelas piadas e brincadeiras. Portanto, para se abordar diversas formas de racismo foi pensado
em quatro subitens dentro do contexto de racismo. São eles: Racismo estrutural, Personalidades Negras,
Racismo religioso, Educação antirracista. Os subitens foram divididos por duplas, sendo que cada uma ficou
com apenas um dos subitens. Então ocorreu uma apresentação sobre cada subitem por cada dupla.
No final da explicação sobre cada subitem e utilizando de personalidades negras, e exemplos atuais de casos
de racismo, por exemplo, o que ocorreu com o jogador de futebol Vinícius Júnior em uma partida. Uma roda de
conversa foi criada para ouvir os alunos e tanto identificar o que foi absorvido pelos mesmos, mas também
ouvir também suas experiências. Ao final da roda de conversa passamos um dever para ser realizado naquele
momento onde a resposta era pessoal do aluno. Duas perguntas: o que é (um dos subitens) e como te afeta?
Assim foi pensado para podermos mapear os problemas relacionados ao racismo dentro da sala de aula e
tentar solucionar. O ensinar história passa por mudanças o tempo todo, e nesse decorrer de mudanças alguns
debates vão surgindo e assim se evolui o ensino. Como Marco Antonio da silva e Selva Guimarães Fonseca
dizem, há alguns debates que se tornaram recorrentes dentro da academia, dentre eles o principal para o 90
projeto foi: O debate da cultura escolar isolada de outras culturas (universitária, industrial, não escolar,
tradições populares) fazendo que as escolas se vêem reduzida a uma ilha fora da História. No projeto
estabelecido foi realizado para quebrar esses paradigmas que cerca no ensino da história, portanto quando
ensinamos a matéria curricular para os alunos, apesar de toda sua devida importância, acontece em muitos
casos o sentimento de não pertencimento daquela história, então ao realizarmos a palestra utilizando de
exemplos atuais da sociedade e de que geralmente aqueles jovens se identifiquem, mostramos para eles e
criamos um sentimento de pertencimento, que o racismo está mais presente do que eles imaginam e que eles
fazem parte daquela sociedade que tem esse problema.
Elisa Samara de Jesus Viana Drumond (UVA), Chrystiane Dantas Barreto Gouveia (UVA)
Este estudo explora os desafios encontrados na formação docente e nas práticas de ensino em ambientes
escolares, diante de um mundo em constante (des)construção. Focamos na interseção entre história,
tecnologia e educação, destacando o papel crucial de programas de formação docente como o PIBID,
Residência Pedagógica e Estágios supervisionados na promoção de abordagens inovadoras e colaborativas
para ensino. Pra isso iremos analisar o contexto desafiador do ensino de história caracterizado pela supressão
do tempo de construção, esvaziamento das salas de aula e na falta de identificação dos discentes com o
conteúdo. Exploraremos os conceitos de tecnologia e a integração desta ao ensino de história destacando o
projeto Instagram desenvolvido em colaboração com alunos do segundo ano do ensino médio, em disciplina
eletiva do NEM (Novo Ensino Médio), do Colégio Estadual Antônio Prado Júnior na Praça da Bandeira, na cidade
do Rio de Janeiro como exemplo de aproximação dos conteúdos às necessidades contemporâneas.
Examinaremos ainda o papel desempenhado pela docente que supervisionou o programa na seleção cultural
e didatização cuja articulação possibilitou a formação de representações e de valores pelos alunos e produção
de sentido a partir dos posts criados por estes. Essa abordagem demonstra a interação de tecnologia, métodos
Apoio:
pedagógicos inovadores e colaboração entre os diferentes atores educacionais e como são cruciais para
enfrentar os desafios contemporâneos e preparar os alunos para um mundo em (des)construção.
Durante a minha trajetória no pibid tive a oportunidade de vivenciar a fundo como é a rotina em uma escola
pública na cidade do Rio de janeiro, ao longo da minha experiência na escola tive a oportunidade de fazer
grandes atividades e projetos, mas Jorge Larrosa Bondía fala “ A experiência é o que nos passa, o que nos
acontece, o que nos toca” ( LARROSA, 2002, 21), por isso de tudo que passei, vivenciei e produzi dentro da
escola o projeto antirracista que eu juntamente com meus colegas tivemos a oportunidade de elaborar e
apresentar, foi a melhor experiência que tive. De início o trabalho seria uma aula que daríamos, cada aluno
ficaria com um tema, daria a aula e faríamos um trabalho com um grupo determinado grupo de alunos, porém
nosso professor orientador mudou de ideia e nos pediu um trabalho que falássemos sobre o racismo, daí surgiu
o projeto antirracista. Cada estagiário escolheu algo relacionado sobre o racismo para falar, alguns falaram
sobre racismo estrutural, figuras históricas do nosso país que lutaram contra o preconceito. Eu optei nesse
primeiro trabalho do projeto falar sobre a diferença entre preconceito e discriminação racial e sobre o racismo
no esporte, busquei trazer personagens como o ex goleiro Mario Lucio Duarte da costa e um caso de racismo
sofrido pelo Vini júnior jogador da seleção e do Real Madrid, após a atividade os alunos fizeram desenhos, e
escreveram frases que eles já ouviram falar, alguns já tinham vivenciado o racismo e foram a frente falar ou só 91
falaram para a turma em seus lugares mesmo. Esse trabalho contou com mais uma apresentação, porém foram
com outros estagiários que não puderam estar presente no dia, em 2024 voltamos a fazer a atividade dessa vez
com um pouco diferente da primeira, trazendo novos assuntos. Na primeira a atividade foi proposta para uma
turma do oitavo e nono ano, dessa vez a proposta era de levar para a turma do sexto ano, mas acabou que
levamos para oito turmas, a apresentação foi na quadra, essa experiência não foi como nos imaginávamos que
seria foi um pouco difícil a comunicação a caixa de som não estava muito boa e os alunos ficaram um pouco
dispersos, entretanto a experiência foi boa. Eu voltei a trazer o tema esporte para a minha participação, dessa
vez eu apenas trabalhei com os casos que o jogador Vini Junior sofreu na Espanha, infelizmente o número de
casos são tão grandes que pude elaborar um trabalho inteiro sobre. Esse trabalho contou com uma parte dois
onde conseguimos fazer uma atividade com a turma do oitavo ano na semana seguinte, onde eles escreveram
o que eles mais gostavam neles e frases contra o racismo, com as frases que foram escritas em com coração
colamos em um cartaz.
O caderno de registros diários e a memória do trabalho pedagógico da equipe diretiva de uma escola
pública na Baixada Fluminense-RJ
O Regimento Escolar das Unidades Escolares do Município de Duque de Caxias publicado em 2005 descreve a
composição da Equipe Diretiva no contexto da organização dos recursos humanos na escola pública na rede
municipal de ensino de Duque de Caxias. O entendimento inicial trazido fundamenta este estudo que busca
refletir sobre os cadernos de registros diários da equipe diretiva dessa e o seu papel como instrumento de
preservação da memória do trabalho pedagógico realizado pelos profissionais da Educação na dinamização
das práticas formativas e curriculares necessárias ao desenvolvimento do ano letivo. Através da análise
qualitativa de natureza básica, com finalidade exploratória/descritiva procura-se conhecimento sobre o
assunto proposto, tendo na pesquisa documental realizada junto às anotações e escritos diários contidos
nesses cadernos, o principal procedimento de coleta de dados privilegiado. Apoiando-se nas contribuições de
Apoio:
Denice Barbara Catani (2000;2002), Belmira Oliveira Bueno(2002), Henry Rousso(2009), Antônio Nóvoa (1992 e
2005) e Vani Moreira Kenski(2000), este estudo sobre o patrimônio educativo contido nos cadernos das equipes
diretivas escolares compreende a possibilidade de colaboração no que tange à História da Profissão Docente
e como também a História do Tempo Presente, uma história na qual o historiador investiga um tempo que é o
seu próprio com testemunhas vivas e com uma memória que pode ser a sua. Diante dos estudos sobre a vida
dos professores, as biografias e autobiografias, relatos memorialísticos, quais seriam as percepções que
podem ser realizadas? O esforço de compreender o próprio fazer, o prazer de dizer-se ou contar-se contribui
para que o indivíduo/aluno/professor inicie a reflexão sobre sua história dos processos formadores e de atuação
profissional. Além disso, favorece a constituição da memória pessoal e coletiva inserindo o indivíduo nas
histórias e permitindo-lhe a partir destas tentativas, compreender e atuar. Especificamente, este estudo
favorece a compreensão desses processos no âmbito da atuação da equipe pedagógica de uma escola pública
da Rede Municipal de Ensino de Duque de Caxias.
92
Apoio:
ST 10
Habitação, História e direito à cidade: favelas, subúrbios,
periferias e assentamentos informais no Brasil
Coordenação:
Mauro Henrique de Barros Amoroso (UERJ/FEBF), Mario Sergio Ignácio Brum (UERJ), Rafael
Soares Gonçalves (PUC-Rio)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
A luta pela permanência da favela Metrô-Mangueiras sob o olhar de suas moradoras: estigma, lutas e
reinvenção
O presente trabalho relaciona o processo de (re)produção do espaço (Lefebvre, 1974) a partir do habitar a favela
Metrô-Mangueira, como modo criativo, através da perspectiva dos moradores, com destaque para as narrativas
femininas. Para tanto, foi utilizada a técnica de observação participante, com intenção de compreender a luta
cotidiana após a violenta e contínua intervenção do Estado visando à remoção de suas moradas. Além disso, a
pesquisa se dedica a perceber as estratégias de resistências e reinvenção no espaço da favela a partir da
93
narrativa daqueles que foram diretamente afetados.
A história que a História não conta: o passado negligenciado da Favela Miguel Pereira
Estudar a história do Rio de Janeiro é perceber e tentar contornar as diversas lacunas que foram deixadas ao longo do
tempo. Durante séculos preponderou-se a visão da elite privilegiada, cultivando uma percepção idealizada e
culminando na construção da imagem da “Cidade Maravilhosa”. O poder é a habilidade não apenas de contar a história
de outra pessoa, mas de fazer que ela seja sua história definitiva (ADICHIE, 2009). Atualmente questionamos esse poder
que narra uma história única e tendenciosa e ministramos lutas para revisitar esse passado dotado de apagamentos,
onde procuramos rever os protagonismos dos que tiveram suas histórias negligenciadas. Baseamos a pesquisa nessa
premissa, tendo como objetivo central ajudar a dar destaque a uma das histórias que a História não conta, sobre a antiga
favela de Miguel Pereira, onde atualmente se situa o Parque do Martelo, na região do Humaitá, Zona Sul Carioca. Após
uma visita ao parque, onde foi possível observar vestígios de uma antiga favela que perdeu-se no tempo, constatamos
que quase não há registros sobre o passado daquele local, exceto por poucos escritos sobre sua remoção. Tal fato gerou
incômodos: como pode o passado de inúmeras pessoas ter sido apagado da história? E o que fazer para resgatá-lo? A
favela é definida pelo que ela não é ou pelo que não tem (SOUZA E SILVA, 2002). Pensando em contornar esse
estereótipo, iniciou-se uma busca documental, iconográfica e de campo, procurando reunir todos os dados existentes
para que possamos remontar a história desse local, sem reduzi-la a sua remoção, mas também sem deixar de lado esse
momento doloroso de seu passado. Assim, foi feito um recorte temporal entre os anos de 1951 e 2024, traçando uma
linha do tempo que percorre o início da favela até os dias atuais. Procuramos dar início a uma discussão que transpasse
as barreiras acadêmicas, mas que também ganhe relevância nela. Viver sem conhecer o passado é viver no escuro
(BOLOGNESI, 2013), por isso acreditamos na importância de trazer à tona todos os tipos de narrativas, reconhecendo e
validando a ancestralidade daqueles que por muito tempo tiveram sua história negligenciada.
Apoio:
A Ditadura Militar em 5 casos de remoção
O presente artigo trabalhará com a história da Ditadura Militar a partir de cinco casos de remoção de favelas,
em que realizaremos a análise das dinâmicas de mobilização política e da repressão ditatorial sobre o
movimento comunitário e moradores de favela. Os casos são Brás de Pina, que logrou impedir a remoção;
Esqueleto, primeira favela removida na Ditadura; Praia do Pinto, removida já sob o período mais repressivo e
letal da Ditadura; Vidigal, que marca a retomada da resistência dos movimentos de favelas; e favelas da Maré,
que apresenta um caso de ampla negociação entre o Estado e os movimentos de favela que conseguiram uma
política de urbanização inédita. O objetivo é, a partir desses casos, demonstrar de que modo a Ditadura agiu
com violência sobre o movimento comunitário das favelas cariocas para realizar seu projeto de segregação
urbana, como, por exemplo, a política de remoção de Lacerda ganhou ímpeto a partir do Golpe de 1964. No
auge da Ditadura, sob o Milagre Econômico e em plena vigência do AI-5, as remoções ganham fôlego pela total
impossibilidade de resistência, culminando com o incêndio da Praia do Pinto; até que, no final da década de
1970, sob a política de Abertura, de um lado a luta do Vidigal e da Pastoral de Favelas era ao mesmo tempo
sinal e impulsionador da redemocratização, por outro o anúncio das obras de saneamento das favelas da Maré,
lidas por moradores e imprensa inicialmente como uma política de remoção, tornou-se uma política ampla e
inédita de urbanização a partir da intensa mobilização de moradores e da negociação das autoridades a frente
do Estado tendo em vista o processo de Abertura e as eleições no horizonte político, envolvendo atos,
campanhas e apoios para candidaturas. De modo que, direcionamos o olhar para, nos 60 anos do Golpe de
1964, compreendermos parte das dinâmicas da Ditadura em relação à produção do espaço urbano e sua
incidência não apenas no movimento comunitário, mas na vida de centenas de milhares de pessoas moradoras 94
das favelas do Rio de Janeiro.
A tropa e a cidade: a Polícia Militar no Rio de Janeiro durante a abertura e seus impactos negativos futuros
para a consolidação de um universo de direitos para as favelas
Este trabalho objetiva analisar a formação e os preceitos embasadores da forma de atuação da Polícia Militar
do Rio de Janeiro na virada dos anos 1970 para os anos 1980. Para tanto, parte da perspectiva que esses
elementos contribuíram para a criação de estigmas negativos para setores da sociedade e espaços específicos
da cidade, sobretudo as favelas e seus moradores, no período abordado, reverberando nos dias de hoje. Como
fontes, foram privilegiados a memória de policiais que atuaram nesa época, bem como boletins internos da
instituição. Assim, pretendeu-se refletir sobre os significados acerca dos moradores de favelas que podem ser
construídos a partir da atuação policial, bem como possíveis consequências relativas a limitações de
circulação e alcance de direitos para esse grupo social.
O trabalho propõe a descriminalização da maconha como uma estratégia para enfrentar a crise de segurança
pública no Rio de Janeiro, agravada por conflitos ideológicos e desigualdades sociais profundas, que remontam
ao período colonial e à escravidão. Argumenta-se que a atual abordagem de guerra às drogas é ineficaz e
favorece interesses corruptos, perpetuando a violência e marginalizando ainda mais as comunidades mais
vulneráveis. Em contrapartida, sugere-se a criação de uma economia verde nas periferias, por meio do plantio,
Apoio:
processamento e venda legalizada de maconha tendo programas sociais e de incentivo como motor
impulsionador. A descriminalização da maconha não pode ser um movimento elitista, que ignore toda a luta,
conhecimento e estrutura econômica que são desenvolvidos nas comunidades, muito em parte por conta da
própria proibição na qual o Brasil se torna pioneiro. Uma proibição feita com bases escusas que se debruçam
em ideias higienistas dos anos 1930, mesmo que a maconha tivesse sido estimulada pela coroa, pela
comunidade médica e até o início dos anos 1900 fossem vendidos produtos, como os cigarros parisienses
“Índio”, indicado para asma, insônia, apetite e outras mazelas. Essa abordagem visa não apenas reduzir a
violência, mas também promover o desenvolvimento econômico e social dessas áreas marginalizadas. Ao
desviar os lucros do tráfico e os bilionários gastos estatais na guerra às drogas, para investimentos sociais,
busca-se reparar as injustiças históricas e oferecer oportunidades reais de crescimento e inclusão para os
residentes locais. Além disso, o trabalho destaca os benefícios adicionais da maconha, incluindo seu potencial
medicinal, suas propriedades industriais e seu impacto positivo no meio ambiente. Ao reconhecer o legado de
opressão e exploração do colonialismo e da escravidão se busca promover uma abordagem progressista e
inclusiva para enfrentar os desafios contemporâneos, construindo um futuro mais justo e equitativo para a
sociedade.
IBI MI: Pensando o lugar das religiões afro-brasileiras no ensino de História na escola pública e no Estado
Laico
Apoio:
Ocupar e resistir: memória a construir
Este trabalho é uma pesquisa em andamento no âmbito do Mestrado Profissional em Ensino de História na UFF,
e que pretende articular a história local à ocupação do Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, ocorrida
em 2016. A pretensão da pesquisa é sua construção a partir das narrativas dos envolvidos naquele processo –
discentes, docentes e outros, apoiada na perspectiva da história local e do tempo presente. A reflexão proposta
parte do cenário complexo daqueles dias de ocupação para atingir o cotidiano presente daquela comunidade
escolar que, crê-se, ainda é muito impactada pela ocupação, especialmente na prática pedagógica dos
docentes. Cabe ressaltar que é uma pesquisa em seus estágios iniciais de andamento e, portanto, ainda
carente do arcabouço testemunhal previsto.
Rolé na Penha: Ensino de História, memória, favelas e subúrbio em um projeto em uma escola pública do
Rio de Janeiro
O projeto “Rolé na Penha”, desenvolvido entre 2017 e 2019 na escola municipal Bernardo de Vasconcelos.
Trata-se de uma escola da rede pública do município do Rio de Janeiro, localizada no bairro da Penha,
tradicional bairro suburbano. A escola atende alunas e alunos das favelas do bairro, principalmente a Vila 96
Cruzeiro, favela conhecida por ser o local de nascimento de um célebre jogador de futebol bem como palco do
assassinato de um famoso jornalista. O objetivo do projeto foi construir um roteiro histórico que valorize o
espaço escolar, pontos do bairro e da própria Vila Cruzeiro, como forme de valorização da memória e
fortalecimento da identidade local vista de forma positiva, principalmente por parte dos adolescentes
participantes. A iniciativa buscou incentivar o protagonismo dos alunos, entendido como um vetor fundamental
para o debate dos significados das favelas e do subúrbio no espaço urbano carioca.
Apoio:
classes populares periféricas e do pensamento contra-hegemônico progressista para que possamos cada vez
mais levar as margens para o centro do debate político-pedagógico.
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Nós Marginais
O presente artigo abordará o conceito de periferia, mencionando a cultura periférica como o Hip-Hop e a
importância dessas expressões culturais para a apropriação do termo pela própria periferia, em seguida
discutir os diferentes tipos de populações às margens (periferias) e pensando a partir da memória, do território
e da arte, a valorização das identidades periféricas, que a todo tempo foram e são (des)construídas. Para isso,
no primeiro momento o termo periferia será contextualizado, levando em consideração a cultura periférica,
como um importante instrumento identitário, e de artivismo, no segundo momento será abordado o conceito
de marginalidade, e como a identidade marginal foi construída, enquanto estigma e também resistência. O
objetivo é trazer reflexões acerca do tema marginal e como esses nós históricos foram se desenrolando,
chegando no presente, (levando em conta todasas interseccionalidades das populações periféricas), e como
pensar o passado através do tempo-presente pode contribuir para uma cultura mais inclusiva, potente e 97
transgressora, decolonial.
Ao longo das últimas duas décadas, o campo disciplinar da História tem se debruçado sobre aspectos e
momentos variados da história das favelas cariocas, aí incluída a trajetória do movimento social composto por
seus moradores. Não obstante esse acúmulo de estudos (que se somam aos desenvolvidos por outros campos
disciplinares desde meados do século XX, com destaque para a Sociologia e a Antropologia), ainda são
escassos os esforços de elaboração de sínteses mais abrangentes acerca da história do movimento de favelas
da cidade, capazes de abarcar temporalidades mais longas. Diante dessa lacuna, o presente trabalho se
propõe a apresentar uma proposta de periodização da história do movimento de favelas do Rio de Janeiro,
abarcando sua trajetória da última década do século XIX, até o atual primeiro quartel do XXI. Para a elaboração
da referida periodização, serão considerados os elementos "internos" à dinâmica do próprio movimento de
favelas (como suas formas de organização, as questões priorizadas nas mobilizações e o processo de
construção de sua própria identidade, dentre outros), mas também aqueles "externos" ao movimento (como
as dinâmicas políticas gerais da cidade e do país, a evolução das intervenções do poder público nas favelas,
etc). Com base na articulação de tais critérios, propõe-se uma periodização centrada em três grandes
momentos: as primeiras lutas e organizações (1888-1930); o longo ciclo das associações (1930-1995); e o
momento da fragmentação/diversidade (1995-?). Espera-se, com isso, contribuir para uma compreensão da
história do movimento de favelas marcada pela articulação entre suas permanências e rupturas, bem como
pelo constante tensionamento do lugar socialmente atribuído aos moradores de favelas.
Apoio:
Do morro para a cidade: Souza Soares- Um território de samba, criatividade, trocas e aprendizados na
zona sul de Niterói. (1963-1985)
O presente trabalho buscará discutir as experiências em torno dos laços de sociabilidade e solidariedade
desenvolvidos pelos componentes do Grêmio Recreativo Souza Soares, escola de samba criada por moradores
atuantes de um dos morros da zona sul de Niterói, o morro do Souza Soares. O GRES Souza Soares foi criado
como bloco de arrastão em 03 de outubro de 1963, formado no pé do Morro do Souza Soares por moradores
sambistas que queriam fundar um bloco para animar e arrastar o povo por Santa Rosa, a agremiação fez seu
primeiro desfile ainda sem registro oficial e entre seus fundadores estavam: Zé Bico, Tininho, Iti, Olício Pereira,
Mario Grande, Macalé, Guillin, Macalé, João Marroca, além de Paulo Roberto Campos, o Paulinho Russo. A
agremiação era presidida por Wilson Faquir. Antes das cores verde e branco, o bloco desfilou com o verde e
amarelo e em 1964 chegou a desfilar de preto e branco, forma de homenagear Dona Odete, a primeira
costureira da escola que falecera antes daquele desfile. Em 1965, adotaram em definitivo o verde e branco e
tiveram uma primeira conquista, o pessoal do Souza conseguiu elevar seu bloco à categoria de academias no
desfile de Niterói. Ao longo do período 1963-1985, os sambistas ligados à agremiação reuniram esforços para
realizar seus desfiles e através de deles fazer com que as identidades sociorrecreativas dos morros e da própria
escola pudessem exercer o direito à cidade através dos desfiles no carnaval e para além deles, através de suas
atividades cotidianas realizadas em sua quadra na Rua Lyons no bairro de Santa Rosa e em outros pontos da
cidade de Niterói.
98
Projeto Promoção da Saúde, Cultura, Cidadania e Populações Vulnerabilizadas
O projeto “Promoção da Saúde, Cultura, Cidadania e Populações Vulnerabilizadas” é fruto da parceria entre o
Grupo 100% Suburbano e a Fiocruz, através da Coordenação de Cooperação Social da Presidência e da Casa
de Oswaldo Cruz, através do Museu da Vida e do Depes. O projeto “Promoção da Saúde, Cultura, Cidadania e
Populações Vulnerabilizadas” buscará construir ações de Promoção da Saúde por meio da cultura, da arte e da
cidadania, de modo intersetorial, e estratégico, amplificando as dimensões de mobilização, formação crítica e
conscientização, tópicos caros aos exercício da cidadania, à melhoria do bem viver e à superação das
iniquidades presentes nos determinantes sociais da saúde para as populações vulnerabilizadas. O principal
objetivo norteador do projeto é o fortalecimento da cultura da favela e dos subúrbios, de seus territórios e
personagens, considerando os signos constituintes da identidade e da memória da região metropolitana do Rio
de Janeiro, como importante patrimônio material e imaterial, e que, portanto, deve ser - em sua organização,
sistematização, pesquisa e divulgação - de acesso universal. No projeto “Promoção da Saúde, Cultura,
Cidadania e Populações Vulnerabilizadas”, a prática e a fruição da arte, por meio do ponto de vista dos
oprimidos e o exercício de criticidade sobre a coisa pública, serão aplicadas estrategicamente para a Promoção
da Saúde, pois reforçarão aspectos fundamentais da cidadania, em especial quando, através da
intersetorialidade, provoquem experiências gregárias (ocupação de praças públicas e formação de público dos
arredores) para uma região com baixos investimentos de políticas públicas. Nesse sentido, será importante
para o projeto o monitoramento constante das suas atividades com base em "novos" indicadores – que serão
construídos e reconstruídos ao longo das ações do projeto – que produzam evidências mensuráveis dessas
estratégias advindas da cultura, da arte e da formação, interferindo diretamente no campo da Promoção da
Saúde. Neste projeto a função da arte se insere no campo da Promoção das Saúde, desde que a arte seja capaz
de promover, de modo intersetorial, uma abordagem crítica às iniquidades em saúde. Para tanto,
reconhecendo o aspecto inovador dessa proposição, será imprescindível a construção de parâmetros que nem
sejam típicos da “arte pela arte”, ou da “arteterapia” e tampouco da “arte pela indústria cultural”, outrossim,
que possam ter identificação direta com a Promoção da Saúde e com o Bem-Viver. Para tanto, a grande
Apoio:
inovação proposta pelo projeto, interseccionando suas diversas áreas de atuação e de produtos, é a elaboração
de indicadores sobre cultura, arte e formação agindo estrategicamente e diretamente no campo da Promoção
da Saúde, em seu conceito ampliado.
Este texto tem por objetivo tecer uma reflexão dialógica entre os autores Henry Lefebvre e Roberto DaMatta
como uma forma de reconhecimento do espaço urbano como um espaço de direito e de resistência, sobretudo
aos grupos classificados como minorias sociais. O presente estudo se justifica pela relevância da contribuição
dos referidos autores e pela necessidade de fundamentar teoricamente o debate acerca das desigualdades
sociais no espaço urbano, refletindo-o como objeto de direito e combatendo a exclusão social por meio da
ocupação simbólica deste espaço. Para realização do estudo, debruçou-se sobre o método da pesquisa
teórico-bibliográfica, a partir de referenciação dos conceitos de espaço urbano, direito sociais e resistências,
associando conceitos teóricos para consubstanciar o referido estudo e a sua relevância. Os resultados e
discussões apresentados contribuem para o entendimento sobre a igualdade dos direitos sociais aos sujeitos,
sobretudo a ocupação do espaço urbano como forma de fortalecimento das minorias sociais e
empoderamento dos sujeitos para que possam ter participação nas decisões e transformações deste espaço.
99
Lutas populares pelo direito à propriedade (1988-2016)
O advento da Constituição de 1988 reforçou os princípios da função social da propriedade. Entretanto, mesmo
com esse avanço legal, a propriedade privada continua sendo central na política de habitação. O fundiário
continua sendo o nó da questão urbana no Brasil e, mesmo no seio de movimentos sociais, persiste certa
confusão entre direito à propriedade e direito à moradia. O debate sobre a natureza dos direitos de propriedade
norteia o momento atual das lutas urbanas. É importante compreender a contribuição que os movimentos
sociais têm para o debate da propriedade, especialmente após a Constituição de 1988, como fonte de
reivindicação e contribuição para as reformas na legislação e formação de novos referenciais normativos.
A questão principal do presente trabalho é compreender como o conceito de propriedade vem sendo evocado
pelos movimentos da reforma urbana desde a formulação da emenda popular do capítulo da política urbana
pelo Movimento Nacional da Reforma Urbana até a preparação da última conferência das cidades em 2016,
que não chegou a se realizar. As hipóteses do presente artigo se basearam na perspectiva que as propostas se
voltaram na melhor distribuição da propriedade urbana, assim como no maior controle sobre práticas
especulativas e concentradoras de propriedade, sem trazer uma crítica mais substancial ao direito de
propriedade. Objetiva-se, assim, identificar os usos e as apropriações do conceito de propriedade presentes
nos debates da assembleia constituinte e nos documentos oficiais das Conferências nacionais da Cidade.
Na segunda década do início deste milênio o mundo fora acometido pela pandemia da covid-19, episódio que
gerou milhões de mortes. Uma série de medidas sanitárias foram adotadas visando o combate à pandemia,
Apoio:
porém em diversos territórios, principalmente os que contam com uma série de elementos que constituem
variadas vulnerabilidades sociais, como alto adensamento demográfico, saneamento básico precário e baixa
distribuição de renda, o desafio foi maior para fazer valer os protocolos e medidas impostas pela Organização
Mundial da Saúde (OMS). Este projeto de pesquisa traz, como seu objeto de análise, a produção social da
memória (MENESES, 1992), no trabalho desenvolvido pelo Museu Sankofa Memória e História da Rocinha, ao
rememorar as mobilizações históricas de luta pela saúde na Rocinha no final do século XX relacionando com a
problemática vivida no tempo presente na articulação de uma rede de apoio orientada para o enfrentamento
da pandemia do início do século XXI. Possuindo como objetivo entender o estabelecimento da ação
comunitária para o combate à Covid-19 na favela da Rocinha, situada na cidade do Rio de Janeiro, entre os anos
de 2020 e 2022, que contou com uma rede de apoio formada por agentes de saúde, coletivos locais,
lideranças/ativistas/moradores de outras favelas e, até mesmo, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), quais
foram as estratégias usadas para a preservação das vidas que residiam naquele território e a memória
decorrente desse processo de ação. O processo contou com ações voltadas para a arrecadação de recursos
financeiros, alimentos, equipamentos de proteção como máscara descartável e álcool, além da disseminação
da informação a respeito da importância de se cumprir medidas sanitárias vigentes, avanço da pandemia,
necessidade de vacinação e combate às fake news. Para isso a metodologia utilizada é a da história oral
aplicada (MEIHY; SEAWRIGHT, 2020), onde as entrevistas trabalham com as memórias de expressão oral, sem
excluir uma análise paralela dos documentos escritos e imagéticos que foram produzidos nesse período.
Apresentando o intuito de fomentar um debate empiricamente embasado, decidiu-se por uma ampliação
epistemológica que se desenvolverá com o diálogo interdisciplinar envolvendo as disciplinas História,
Geografia e Museologia, além de outras abordagens e domínios caros à História do Tempo Presente, História
Oral, História da Saúde e História Social.
100
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
O presente artigo propõe analisar as representações da chamada Belle Époque desenvolvidas no subúrbio do
Rio de Janeiro. Serão utilizadas como fontes principais as revistas ilustradas produzidas durante o período de
1902 e 1922, em especial as revistas suburbanas. Não nos furtaremos do diálogo entre as outras produções
periódicas, caso haja necessidade de análise mais detalhada de caso. Será abordado, também, a construção
de uma perspectiva que nos permita construir a ideia de "cidade fragmentada", sob a ótica do processo
hegemônico desenvolvido em torno da ideia de “Cidade Maravilhosa”, sendo esta a liga subjetiva de identidade
carioca que nos subúrbios da cidade encontrou terreno específico que desenvolveu a sua percepção de cidade,
partindo das necessidades e mobilização locais. Mesmo diante do anseio de replicar nos distantes bairros
suburbanos o que se via e ouvia sobre a modernização da então cidade, com seus passeios e a grande Avenida
Central - mais tarde, Rio Branco -; suas lojas de novas modas; sua pedagogia dos costumes e tudo mais, nos
importa nesta proposta mostrar que houve uma belle époque suburbana, uma busca pelo ideal do período no
que diz respeito a ser moderno. Dentro desses fragmentos de cidade espalhados sobre espaços que
transitavam entre o rural e o urbano, ligados pela ideia hegemônica de “Cidade Maravilhosa”, caminharemos
entre incessantes reclames por necessidades de melhorias, melhoramentos e críticas políticas, assim como
afagos às instituições públicas que olhem pelo subúrbios e suas expressões sociais e culturais, com suas
diferentes particularidades e seu modo de vida que buscava despertar sob o progresso transformador das
realidades materiais.
Apoio:
Lazer e Esporte nos subúrbios cariocas: O caso da Praia de Ramos
Está a apresentação, tem como esforço um breve levantamento histórico sobre a urbanização da Praia de
Ramos faixa litorânea da Guanabara na parte norte da cidade, através de lotes e balnearização da praia (1920-
1940) (Chrisóstomo, 2022) que viabilizassem moradias, banho de mar, o lazer e o esporte. Tendo como
exemplo, o Iate Clube de Ramos fundado em 1941 e a barraca de praia dos trabalhadores do Serviço de
Recreação Operária (1943), importante aparelho de lazer, cultura operária e da classe média ascendente no
bairro de Ramos e adjacências da zona da Leopoldina. Conseguinte serão utilizadas bibliografias e fotografias,
para a partir dessas fontes, se desenvolver uma discussão sobre dois conceitos chaves para pensar a formação
espacial (territorial) da Praia de Ramos, são eles, os conceitos de Lazer e Balneabilidade. Serão utilizadas como
fontes as atas de reuniões do Iate Clube de Ramos desde de sua fundação (1941) e que pode nos fornecer
vestígios para se pensar sua inserção em um lugar que antes era majoritariamente indígena, por pescadores e
em seguida como fonte de lazer operaria, e que depois vem a se favelizar e a ser conhecida como uma praia
poluída em um território violento, além das fontes em atas.
Por uma história dos subúrbios cariocas: o caso do bairro de Padre Miguel e da favela Vila Vintém
Jânio Quadros, Vila Maria e São Miguel Paulista: o papel central dos bairros periféricos na ascensão do
político
Na 1ª metade do século XX, São Paulo passou por um intenso processo de industrialização e urbanização.
A cidade presenciou 2 padrões de urbanização: de um lado, os bairros de classe média e os bairros-jardins, do
Apoio:
outro, o "padrão periférico de crescimento urbano", caracterizado pela ocupação, pelas classes populares, de
regiões de várzea de rios e próximas das linhas de trens, e por uma infraestrutura que, quando existia, era
precária, e a classe popular passa a lidar não só com problemas relativos ao ambiente de trabalho, como as
condições precárias das fábricas, mas também relativos a estes espaços urbanos. Os bairros periféricos,
então, se tornam uma importante chave para a dinâmica política que se desenvolveu a partir de 1945, com seus
moradores e suas reivindicações tornando-se relevantes neste cenário. É aí que surge nosso 2º personagem:
Jânio Quadros. O político, que havia iniciado sua carreira política em 1948, como vereador de São Paulo,
precisou lidar com esse novo cenário sócio-político e eleitoral. Para tal, se estabeleceu uma rede de diálogo
que permitiu trocas diretas entre ambos os atores, de forma que político e os moradores-operários se
apropriaram das propostas políticas uns dos outros e as ressignificaram. De um lado, o político fazia uso das
reivindicações populares relativas a suas condições de trabalho e de moradia, como plataforma política de
angariação de votos, mas, por outro, ele também reconhecia a dignidade dessa população e o direito dela de
poder dizer o que pensava e o que sentia, reconhecendo estas pessoas, que eram tão operárias como
moradoras da periferia. Além disso, essa população também ressignificou o ato de Jânio de "apropriar-se" de
suas reivindicações, pois essa apropriação pelo político era uma forma de dar luz aos seus problemas, e, em
última instância, uma forma de garantir a execução destas reivindicações. O ápice dessa dinâmica se deu em
1953, quando Jânio foi eleito prefeito de São Paulo com 65,8% dos votos, sendo que, nos bairros periféricos,
sua porcentagem ultrapassou a média municipal. Nesse sentido, este trabalho abordará o processo de
formação dos bairros de São Miguel Paulista e Vila Maria (os bairros com mais destaque na relação entre Jânio
e a periferia), a construção do ator "morador-operário" e sua aproximação com o político Jânio Quadros (que se
deu desde sua 1ª campanha eleitoral, em 1947, para vereador) e como que, até em um momento de aparente
vitória "individual" de Jânio, em 1953, ainda sim temos o protagonismo dessa população. A hipótese é que o
processo de formação dos bairros periféricos se deu de forma que se efetivou uma identidade coletiva que 102
permitiu que essa parcela da população participasse efetivamente da esfera político-eleitoral.
Ao longo dos anos, os dilemas com relação ao controle do espaço urbano no Rio de Janeiro têm permanecido
em evidência nos conflitos urbanos. Bangu, passou a ser caracterizado por seus moradores, a partir do final da
década de 1910, como mais um bairro suburbano, que compartilhava das carências e lutas que marcavam
toda a região situada nas margens da Estrada de Ferro Central do Brasil. Com o intuito de analisar em que
medida as reivindicações e cobranças dos moradores de Bangu à municipalidade ajudavam a definir certas
marcas para o bairro, o respectivo trabalho tem como objetivo trazer algumas considerações referentes às
reivindicações e cobranças dos moradores de Bangu. Neste sentido, busca-se compreender como as
negociações dos moradores da região com o poder público ajudaram a construir um tipo de experiência
compartilhada entre os moradores do bairro que já não estava mais atrelado somente ao desenvolvimento
industrial e as práticas fabris da Companhia Progresso Industrial do Brasil.
Brás de Pina é um bairro da Zona da Leopoldina carioca que hoje se vê esquecido e com destaque nas páginas
policiais, porém as suas origens remontam à Freguesia de Irajá e a atuação do Comendador Antonio de Braz de
Pina que no século XVIII foi uma pessoa fortemente influente e bem sucedida em seus negócios. Na virada do
Apoio:
século XX com a expansão da malha ferroviária da Leopoldina Railway e as políticas de expulsão das camadas
populares do Centro da Capital Federal para os subúrbios a localidade passa à ampliar a sua habitação que é
marcada por fortes questões de disparidade socioeconômica e habitacional, uma característica recorrente na
história do bairro frente às políticas habitacionais e influência de empreendimentos imobiliários tendo na
Ditadura o seu ápice situacional.
A partir da divulgação de pesquisas autorais e aulas ministradas sobre a formação territorial do Rio de Janeiro
pela visão dos subúrbios, foi possível perceber a lacuna ainda existente entre o conhecimento histórico
produzido na academia e aplicabilidade deste conteúdo em sala de aula por professores, especialmente
aqueles nos primeiros ciclos da educação básica. Tanto a BNCC, quanto o PCN de História sugerem que, nesta
fase da educação, a disciplina seja trabalhada a partir do eixo temático da História Local e do Cotidiano,
realizando um estudo comparativo, analisando costumes, modalidades de trabalho e organizações do grupo
familiar e natureza. Devem iniciar as análises no presente para fazerem comparações com tempo passado ou
de outras localidades. Mas como trabalharmos essas pequenas noções se há uma falta de conhecimento das
crianças, das suas famílias e até mesmo dos professores sobre a história do lugar que vivenciam ou da
percepção de que a sociabilidade e a vivência deles ao longo do tempo naquele lugar também produz história?
Como podem se perceber como agentes históricos que constroem e lutam por seu direito à cidade? Destaca- 103
se que, o construtivismo considera a experiência vivida dos alunos e dos professores (que são mediadores) na
construção do conhecimento, mas como realizar este processo com a ausência de um conhecimento prévio?
A apresentação terá como objetivo mostrar resultados a partir de aulas de extensão em uma escola municipal
do Rio de Janeiro, utilizando informações e fontes de pesquisas de mestrado e doutorado sobre a formação dos
subúrbios, assim como o método da História do Lugar, unindo o lugar social do pesquisador às suas práticas
científicas no ato da “operação histórica” (CERTEAU, 1975).
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 11
História da Baixada Fluminense e as periferias:
Pesquisa e Ensino
Coordenação:
Linderval Augusto Monteiro (UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS), Nielson Rosa
Bezerra (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Eliana Santos da Silva Laurentino (Estado RJ)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Ensino de História e Educação nosdos Terreiros em Duque de Caxias: dialogias a partir do letramento
racial
Este ensaio tem por objetivo refletir sobre a aplicabilidade da legislação relacionada a história e cultura africana
e afro-brasileira, com destaque para seus efeitos no ensino de história, vinculando aos saberes elaborados e
ressignificados nas comunidades tradicionais de terreiros por anos a fio e silenciados pelo epistemicídio. Como
esses saberes oralmente passados contribuem para os fazeres históricos pedagógicos, ou são deixados de
lado ou relegados a pequenos projetos pontuais. Essa análise utilizará por base documentos oficiais
elaborados, principalmente a partir da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
Apoio:
9.394/199 e da Lei 10.639/2003, resoluções e publicações oficiais que partindo dessas legislações apontam
caminhos para se minimizar a lacuna sobre questões raciais e consequentemente os saberes das
comunidades tradicionais de terreiro. Além das legislações e seus desdobramentos materiais, partiremos das
experiências do Ile Aşé Omi Lare Ìyá Sagbá, comunidade tradicional de terreiro de Duque de Caxias, Baixada
Fluminense do Rio de Janeiro para pensar os saberes propagados e como influencia (ou não) para além dos
seus muros, principalmente nos espaços escolares, com destaque para a disciplina de História e como o
Letramento Racial pode contribuir para um ensino que leve em conta as questões afrodiaspóricas de nossa
formação enquanto sociedade.
Com esta investigação, eu me envolvi em compreender a presença e a importância da herança africana das
religiões negras no Brasil, a fim de buscar a manutenção da memória e o reconhecimento da cultura afro-
religiosa na Baixada Fluminense. Conhecidas como mães de santo, as Yalorixás do Candomblé são
consideradas eruditas senhoras guardiãs dos saberes tradicionais de matrizes africanas, baseados nos valores
civilizatórios da cultura afro-brasileira. O terreiro é um espaço educativo e Babalorixás e Yalorixás são
educadores, tutores desse processo de ensino aprendizagem. É pelas mãos e palavras desses homens e
mulheres, suas visões de mundo e ações educativas, que se compõe um forte legado na luta antirracista: a
reconstrução da história negra aludindo à diáspora, à escravidão e à luta histórica para sobrevivência, bem 105
como a reconstituição do culto aos orixás no Brasil. Esta pesquisa busca resgatar, de forma analítica, indivíduos
importantes para todo esse cenário social, cultural e religioso que, por diversos motivos, estão sendo
esquecidos ou deixados para traz, trazendo-os a emergir, demonstrando toda sua importância para a sociedade
brasileira. Nessa perspectiva, a educação assume um sentido mais amplo do sentido convencional que seria
educar para ler, escrever, interpretar textos, “ser alguém na vida”. Ela também influencia no processo de
construção identitária dos indivíduos. Desse modo os terreiros de candomblé são espaços onde a educação
acontece de maneira muito abrangente na vida dos sujeitos que por ali circulam. São acionados uma série de
conhecimentos e práticas acerca da relação com o outro, respeito a hierarquia e aos mais velhos, relação com
o meio ambiente, respeito e culto as divindades e uma série de outras experiências importantes que são
abordadas e vivenciadas no cotidiano dos terreiros. O objetivo é que os questionamentos possibilitem a
ampliação de práticas que repensem e reelaborem as práticas da educação formal e obter alguns subsídios
sobre a possibilidade de construção de epistemologias "outras" na perspectiva da educação intercultural. O
grupo selecionado – Povo de terreiro – é um entre os diversos grupos sociais e culturais brasileiros que podemos
buscar ferramentas para auxiliar na construção de uma educação mais atenta a nossa diversidade.
Os resultados desta pesquisa proporcionaram uma compreensão mais aprofundada sobre as práticas, crenças
e o papel cultural de Mãe de santo, professora e feiticeira de Mãe Regina do Bamboxê, contribuindo para os
estudos acadêmicos nas áreas de religião, espiritualidade, antropologia e sociologia. Além disso, destacou-se
a importância de abordar essas práticas com respeito e sensibilidade, considerando a diversidade cultural e
promovendo o diálogo intercultural.
Apoio:
do pensamento sobre as crianças das classes populares que têm um lugar histórico de recorrência nas escolas
públicas brasileiras. Essa pesquisa busca situar-se nas periferias do Rio de Janeiro- Brasil, mais precisamente na
Escola Municipal Pedro Antônio, na Vila Pauline, Belford Roxo. Uma das inquietações que marcam os trabalhos sobre
decolonialidade é a produção de saber. Portanto, a pesquisa se propõe discutir os discursos e as narrativas infantis
que exigem uma reflexão das concepções que atravessam o coletivo de educação e o contexto histórico cultural de
uma sociedade. A escola pode promover o entrecruzamento de diferentes narrativas para compreender a sociedade
contemporânea e as práticas de colonidade. Assim, observações das diferentes relações que tenham as crianças
como protagonistas, podem colaborar com uma problematização voltada para uma reflexão construída nos
significados sociais da infância e de suas potências que encontram lugar no âmbito da escola pública. Tendo a
infância na periferia de Belford Roxo e seus processos de ensino como o principal objeto de pesquisa para elaborar
novas estratégias para pensar a infância das classes populares e seus modos de aprender, respeitando e
considerando suas experiências, singularidades e narrativas.
Confluências entre o Preparatório Comunitário Paulo Freire e o Museu Vivo do São Bento
O presente texto visa ser uma aproximação de universos que se complementam, se imbricam e se tornam
utopias congruentes. Existe uma simbiose que acontece ali neste espaço. Uma territorialidade banhada de
sangue, mas também de luz e esperançar. Esse lugar de encontro é o Museu Vivo do São Bento (MVSB), berço
da Hydra, para onde várias outras fontes de luta\educação\cidadania transitam, respingam, transcorrem. E 106
nesse lugar encontro é possivelmente onde vai acontecer uma confluência arrebatadora na dinâmica dessa
nossa diáspora africana na Baixada, o encontro das águas do Preparatório Comunitário Paulo Freire (PCPF) com
as águas do MVSB. Que ethos é esse em tempos de deseperançar? Tem um piso, uma plataforma, um andar de
esperança. Onde patrimônio-educação-arte se fazem dança. Claro, é um ensinamento a cada passo. E o MVSB
por definição e conceito, ou seja sua essência já é um convite para outra Museologia. A museologia social. Os
corpos pintados de patrimônio. Os patrimônios feitos de gente, de fala, de memórias, de luta do povo que nunca
aparece nas telas. E muitas telas são pintadas aqui e ali. Onde horizontes se possibilitam, onde
ancestralidades tornam-se perfomance de novos possíveis.
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
História local do município de Duque de Caxias -R.J: Limites, Possibilidades e Potência Pedagógica
Esta apresentação tem como objetivo a história local do município de Duque de Caxias, enquanto possibilidade de
inserção nas salas de aula do ensino de história. É fruto da Dissertação do Programa de Mestrado Profissional do
ProfHistória PUC-Rio, concluído em 2022. A pesquisa se debruçou sobre a potencialidade da História Local do
município de Duque de Caxias, território pertencente a Baixada Fluminense, servir como aporte para a ampliação da
consciência histórica, alteridade e fortalecimento da identidade dos estudantes nas aulas de História da Rede
Pública Estadual da cidade. A pesquisa tem base em autores e reflexões do campo do ensino de história,
historiografia e educação. Foi realizado um levantamento sobre Produções e Instituições que promovem formação
aos docentes e criado um catálogo pedagógico para avizinhar os professores da história local.
Apoio:
Ensino de História e memória coletiva - movimento de mulheres da Baixada Fluminense – RJ (1986-1994)
Somos o resultado de histórias que vêm sendo tecidas há várias gerações, que se cruzam com várias outras. É
relevante como as memórias individuais se entrelaçam a todo momento com as memórias de outras pessoas:
na família, no bairro, no grupo de amigos, na escola, no trabalho, nos movimentos sociais, formando um tecido,
que o Halbwachs (2013) chama de memórias coletivas. Quando estas vivências são compartilhadas e
refletidas, elas nos ajudam a conhecer a nós mesmo e a tudo que nos rodeia. Nesse sentido, minha pesquisa
terá como reflexão o trabalho com a memória do movimento de mulheres de da Baixada Fluminense, entre os
anos de 1986 e 1994, como um movimento social a ser contextualizado nos processos históricos da abertura
democrática, e na efervescência da participação popular nas emendas para o texto constitucional de 1988.
Nesta pesquisa, enfatizo a importância da Carta das mulheres aos Constituintes, articulação que ficou
conhecido como o Lobby do Batom, importante instrumento mobilizador para os grandes encontros de
mulheres da Baixada Fluminense no final da década de 1980. O objetivo principal consiste em realizar uma
pesquisa com participantes do movimento de mulheres de Nova Iguaçu, visibilizando suas lutas e as suas
organizações na luta por direitos. Também enfatizamos a sala de aula como um espaço dinâmico, onde o
aprendizado se manifesta não apenas através do conteúdo curricular, mas também das experiências
compartilhadas de diferentes sujeitos históricos. No campo teórico, trabalharei dois conceitos na minha
pesquisa: memória coletiva e feminismos. A história das organizações de mulheres da Baixada Fluminense não
conta com fontes públicas. Portanto, o projeto a ser desenvolvido irá trabalhar com um recurso fundamental
em pesquisa de grupos sociais historicamente excluídos, a história oral.
107
Memórias de um Momento Novo: Juventude metodista no protagonismo da educação popular na década
de 1980
Ensino de História no Ciep 398 Mario Lima: possibilidades e potencialidades da história local em São João
de Meriti/RJ
O projeto de pesquisa é Intitulado provisoriamente “O ensino de história local no Ciep 398 Mário Lima:
possibilidades e potencialidades da história local em São João de Meriti/RJ" tem como objetivo principal trazer
uma abordagem sobre a história local no ensino de história da cidade de São João de Meriti, na Baixada
Apoio:
Fluminense. Ao longo de 5 anos lecionando na rede estadual no Ciep 398 Mário Lima, percebi que não se
aborda a história da cidade na escola, tampouco há um sentido de identidade e pertencimento à localidade.
Tais inquietudes como docente e pesquisador me direcionaram para esta escolha da pesquisa. O projeto está
no início e pude constatar através de um levantamento bibliográfico que a identidade e a história da cidade é
lembrada em grande parte através de João Cândido, líder da Revolta da Chibata, que residiu até a sua morte na
cidade. Há um objetivo no decorrer da pesquisa que é a abordagem do espaço escolar como um lugar de
experimentação de pesquisa da História da cidade, adequando-se a proposta ao público-alvo. Quanto ao
quadro teórico metodológico, vai ao encontro da história local, a micro-história e variação de escala. Autores
como Revel (A história ao rés do chão. LEVI, Giovanni. A herança imaterial: trajetória de um exorcista no
Piemonte do século XVII.) e Rojas (Micro-história italiana: modo de uso) darão fundamentos às minhas
problemáticas em relação ao objeto estudado. Estudos que referenciam o debate sobre a variação de escala,
conceito que vem sendo utilizado no âmbito da História Local, bem como estudos relativos à História da escola
e de propostas de ensino de História . Livros didáticos, memorialísticos e produções acadêmicas sobre a
cidade deverão ser analisadas. Há algumas dissertações de mestrado que abordam identidades na escola,
como por exemplo, e explorando outras áreas de conhecimento, observa-se um estudo sobre precarização da
cidade e a falta de ambientes verdes. Desta forma, pretendo fazer uma investigação sobre a cidade e trazendo
a mesma para a escola e possibilitar uma construção coletiva da História do Lugar.
Urbanização e mobilização social em São João de Meriti entre os anos de 1945 e 1964: articulações entre
história local e ensino de história
108
Vinícius dos Santos Fernandes (UFRRJ)
Essa comunicação tem o objetivo de apresentar alguns elementos e fatos ocorridos na cidade de São João de
Meriti, Baixada Fluminense, no período compreendido entre os anos de 1945 e 1964, com o duplo sentido de,
por um lado, contribuir para a elucidação de aspectos desconhecidos da história local e, por outro, fornecer
elementos que possam ser utilizados nas aulas de História por professores e professoras que atuam na
educação básica na região. Isso se faz importante primeiro, porque através das pesquisas realizadas, pudemos
perceber eventos que contribuem para compreensão da dinâmica política e social de um período
historiograficamente marcado pelo conceito de populismo e sua faceta de manipulação das massas e que,
mais recentemente, vem dando destaque às ações e estratégias estabelecidas por trabalhadores e
movimentos sociais em busca de direitos. Marcado por um processo de intensa e acelerada urbanização,
desde o início do século XX, São João de Meriti foi cenário, por exemplo, da articulação de mulheres que
engrossaram as constantes reivindicações por melhorias de infraestrutura urbana – água, esgoto, arruamento,
transporte, construção de escolas, mas também pelo aumento da participação feminina na política
institucional, como podemos perceber através da presença de vereadoras eleitas já na primeira legislatura
municipal, em 1947. Em segundo lugar, ressalta-se a importância dos estudos de história local para o ensino
da disciplina histórica, tanto no que diz respeito à formação das identidades dos sujeitos quanto para a
compreensão dos fenômenos históricos mais amplos e, muitas das vezes, de difícil entendimento por parte
dos estudantes. Os resultados parciais dessa pesquisa são parte do projeto “Formação de professores e
elaboração de material didático para o ensino de história da Baixada Fluminense a partir do acervo do Centro
de Documentação e Imagem (CEDIM) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)”, coordenado
pelo Prof. Dr. Jean Rodrigues Sales e que contou com fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
do Rio de Janeiro (FAPERJ), por meio do edital “Melhoria das escolas da rede pública sediadas no RJ-2022”.
Apoio:
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Esta comunicação tem por objetivo analisar as nuances da condição jurídica que passou a existir no século XIX
após a proibição do tráfico transatlântico de escravos, os africanos livres. Nossa abordagem terá ênfase na
maternidade e na infância por meio das fugas de africanas livres na província do Rio de Janeiro. Partiremos de
dois pontos: a vivência dos meninos e meninas que vieram a bordo dos negreiros e a experiência das mulheres
que fugiam junto de sua prole. Já existe uma historiografia consolidada sobre as fugas escravas, no entanto,
ainda é recente os africanos livres como objeto histórico, embora tais pesquisas mostrem-se em crescimento
nos últimos anos. Além disso, a questão da infância dos africanos livres tem sido tangenciada nos trabalhos
existentes. Dessa maneira, pretendemos utilizar uma combinação de fontes para a materialização desse
estudo, como os anúncios de jornais, listagens das embarcações apresadas, processos de emancipação,
debates parlamentares, relatórios, legislação brasileira, listas nominativas produzidas por britânicos, fichas de
matrícula da casa de detenção entre outros documentos avulsos. Essa análise será conduzida pelas
abordagens da micro-história, que nos permitirão realizar o cruzamento de dados, a partir do método
onomástico e observar as trajetórias individuais pautados concepção do excepcional normal.
109
A última geração de pretos novos aquirida pelo Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e o compadrio
(1829-1835)
Nesta exposição tenho por objetivo analisar as relações de apadrinhamento construídas pela última geração
de africanos adquiridos pelo Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, entre os anos 1829 e 1835. Para isso
utilizarei fontes varias como: arquivos paroquiais, inventários, balanços econômicos da Ordem de São Bento,
jornais, etc. A partir disso, irei defender que os africanos escravizados pelos beneditinos não escolhiam
padrinhos apenas por sua aptidão em serem “fiadores” da perseverança do novo cristão na fé, mas levavam
em consideração sua capacidade de fornecer auxílio material e psicológico para suportar, ou inclusive superar,
a vida no cativeiro. Tais escolhas poderiam reforçar laços já existentes, solidificar relações entre companheiros
de escravidão, ou até mesmo ultrapassar os limites entre as classes sociais e abarcar libertos. Assim, o papel
socializador do batismo extrapolava as diretrizes e vontades da Ordem de São Bento e representava a
capacidade dos Escravos da Religião agenciarem o próprio destino, mesmo no instável e violento mundo do
cativeiro. Assim, examinarei como os africanos recém-desembarcados agiram diante desta instituição forte
nas comunidades escravas onde eles estavam sendo inseridos. Para isso, analisaremos a possível influência
senhorial nas escolhas de seus padrinhos, bem como o perfil dos padrinhos e madrinhas (ex.: condição
jurídica, vida familiar, ocupação) e a importância das culturas africanas, principalmente a centro-africana, na
condução dessa seleção.
O presente trabalho debruçou-se sobre o processo de funcionarização pelo qual passou um grupo de
professoras e professores primários públicos do estado fluminense, que regiam escolas em Iguaçu nos anos
Apoio:
de 1895 e 1898. Este processo foi averiguado por meio das experiências vivenciadas em suas trajetórias
profissionais, em cruzamento com o aparato normativo que, nesse período, regulava a instrução pública. O
acervo documental foi constituído de legislações de instrução pública, mensagens dos presidentes de estado
lidas anualmente à Assembleia, relatórios dos diretores de instrução pública e dos periódicos da época.
Através dessa operação teórico-metodológica, procuramos vislumbrar como o Estado forjava-se, através das
regulamentações em torno da instrução pública, ao mesmo tempo em que forjava a profissionalização e
funcionarização do magistério. Por outro lado, através de suas agências e experiências, igualmente este
professorado se encontrava em um processo de “fazer-se”, através do qual também “fazia” o Estado. Nesse
sentido, o referencial teórico adotado dialogou com Nóvoa (1991), Thompson (1981; 1987), Gramsci (2001;
2007). Este estudo demonstrou as constantes tentativas de intervenção e controle estatais, na busca pelo
estabelecimento de uma instrução que atendesse às demandas materiais e ideológicas que se pretendiam
hegemônicas neste período. Em contrapartida, identificamos nesse grupo de docentes experiências de
agências e resistências que demonstram como estes sujeitos históricos apropriavam-se da condição de
funcionários públicos, e exerciam direitos garantidos por esta condição. Suas vivências externas ao ofício da
docência também foram consideradas durante a pesquisa como parte de seu “fazer-se” magistério. Partindo
de um constante dimensionar e redimensionar o objeto de estudo, o foco ora posicionava-se sobre o estado
fluminense, ora voltava-se para Iguaçu, na tentativa de apontar como nessa região específica estavam se
processando os projetos estatais de instrução pública e as experiências docentes. Para isso, consideramos a
história local como constituinte das possibilidades de fazer-se Estado e fazer-se magistério.
110
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
A presente comunicação deriva de uma pesquisa em andamento que tem como objetivos básicos investigar de
forma intensiva o processo de loteamento ocorrido na região da Baixada Fluminense entre os anos 1930 e 1980
e construir um retrato inacabado do que chamo de colonização proletária dessa região, o que é uma
consequência direta do próprio processo de loteamento. Entendo como fundamental tratar a ocupação
humana da região da Baixada Fluminense como algo possibilitador do surgimento de identidades várias que
terminaram por distinguir esse local das demais periferias que compõem a atual Região Metropolitana do Rio
de Janeiro. Perceber como se deu a ação da máquina loteadora nessa região não fará surgir as especificidades
locais, porém a investigação das maneiras escolhidas pela população local para se apropriar do território e
tornar a vida ali suportável, pode ser o caminho para se entender as maneiras próprias das mulheres e homens
que entre os anos 1930 e 1980 transformaram essa "periferia intermediária" da metrópole carioca em uma
região com identidades próprias e maneiras específicas de resolver os diversos problemas nascidos da
marginalidade imposta pela própria forma de ocupação desse local.
Tenório Cavalcanti, Baixada Fluminense e a Terceira República: novas questões para uma investigação
histórica
Os personagens, os locais e os sistemas políticos são temas recorrentes e tradicionais da análise histórica.
Nota-se, nesse sentido, um avanço significativo dos estudos que, valendo-se da multiplicidade destes objetos,
Apoio:
constroem investigações e narrativas instigantes articulando a problemática dos sujeitos, das escalas e da
representação política. No caso da Baixada Fluminense, a região conta com múltiplos estudos que elucidam
as possibilidades destas abordagens. Neste cenário o político Tenório Cavalcanti aparece em destaque
ocupando lugar especial nas reflexões, sendo, por vezes, representado como figura síntese de uma região
marcada pela violência, as mazelas sociais, o clientelismo político e o populismo. Não apenas presente na
historiografia, o personagem ocupa também no meio artístico uma posição de destaque como pode-se
reconhecer a partir das referências presentes, por exemplo, no filme de Sérgio Rezende, na canção de Ney
Lopes e Wilson Moreira, ou no desfile do GRES Grande Rio de 2007. Considerando este quadro, a apresentação
busca tencionar determinadas interpretações sobre o personagem e a região à luz das novas interpretações
sobre o período democrático inaugurado após o Estado Novo. Assim, questões como a intensificação da
urbanização da região e da transformação do perfil demográfico se articulam à análise da atuação de Tenório
Cavalcanti em meio a uma conjuntura política que incentivava a competição veemente pela representação dos
eleitores com a intenção de avaliar novas possibilidades de compreensão para o período democrático na
região. Para tal esforço, a apresentação fundamenta-se, em especial, na documentação censitária sobre a
região, em pronunciamentos realizados no âmbito da Assembleia Fluminense e em determinados periódicos
do período, além de estabelecer diálogo com a historiografia pertinente ao tema.
Memórias, histórias e rumores: uma história social da presença chinesa nos municípios de Japeri e
Queimados
Apoio:
Políticas Públicas em Educação e o Combate à Fome: O Pensamento Social de Dom Mauro Morelli no
Município de Duque de Caxias (1981 a 2005)
O objetivo da pesquisa será a análise da trajetória de vida em sociedade de Dom Mauro Morelli e seu
compromisso ético-político com a educação, observando o seu compromisso com as camadas populares do
Município de Duque de Caxias. Discutir a sua formação em filosofia aliada à reflexão teológica, ao engajamento
à inclusão social e resgate das periferias da Baixada Fluminense, percebendo o seu protagonismo nas ações
relativas à educação, em especial, nas iniciativas que culminaram com a implementação do Projeto CCAIC
(Creche e Centro de Atendimento à Infância Caxiense), um espaço educacional com fundamentação ao
combate às deficiências sociais relativas à falta de alimentação e atendimento às crianças em situação
nutricional desfavorável, condição existente nas periferias da região. Refletir sobre a sua participação no
combate à fome, entre os anos de 1981 e 2005, num período de transição da ditadura civil-militar para a
democracia, identificando as desigualdades sociais que o motivaram, considerando a história de construção
da cidade em suas características e a relação de reciprocidade do Bispo com os movimentos sociais na cidade
em seu episcopado.
112
Apoio:
ST 12
História e Memória das Ditaduras e Redemocratizações na
América Latina
Coordenação:
Izabel Priscila Pimentel da Silva (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Andrea Cristina de
Barros Queiroz (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
1964: golpe civil-militar, reforma agrária e anticomunismo no jornal O Estado de Mato Grosso
Dentro das discussões que tratam da ditadura militar no Brasil, entre os anos de 1964-1985, as pesquisas
acadêmicas que tratam do papel da imprensa diante desse contexto histórico, evidenciam, sobretudo, a
caracterizada “grande imprensa” (periódicos de ressonância nacional e de grande circulação, compostos
por um aparato técnico e financeiro significativo). Nesse sentido, compreende-se a necessidade em
abranger as posições políticas e atuação da imprensa nacional transportando o olhar da historiografia
para outras regiões do país, neste caso, para a imprensa do Estado de Mato Grosso. E, para essa tratativa,
113
almeja-se trazer as análises acerca dos discursos empreendidos no jornal O Estado de Mato Grosso
acerca do governo João Goulart e do golpe civil-militar no ano de 1964. O referido periódico apresentou
nos meses que antecederam o golpe de março/abril de 1964 um intenso debate sobre a Reforma Agrária
e discursos anticomunistas. Este estudo objetiva, descentralizar o panorama da historiografia brasileira e
diversificar seu olhar, destacando os aspectos que envolvem as alianças políticas e interesses dos
agentes da imprensa mato-grossense durante a ditadura militar. Assim, esta apresentação, com auxílio
teórico e metodológico da Nova História Política e da Análise de Discurso, sob a ótica de Michel Foucault,
traz uma avaliação acerca dos discursos e dos apoios estabelecidos em torno do golpe civil-militar de
1964 no periódico O Estado de Mato Grosso.
O presente trabalho busca compreender os movimentos de resistência contra a Ditadura Civil -Militar no
Brasil, que se encontravam articulados ao movimento feminista nas décadas de 1970 e 1980, assim como,
analisar a memória construída pelas mulheres em suas atuações no cenário político e cultural brasileiro
do período. A participação das mulheres nos movimentos de oposição à ditadura é fundamental para
compreensão das relações de poder e gênero, tendo em vista que o movimento feminista também foi uma
luta por mudanças culturais e sociais e contra hierarquias socialmente estabelecidas. Dessa forma, por
meio da análise dos periódicos Brasil Mulher (1975) e Nós Mulheres (1976), importantes instrumentos de
resistência, buscamos entender como se deu a construção do pensamento feminista durante as décadas
de 1970 e 1980 e de que forma o espaço da imprensa alternativa deu voz as mulheres para que
debatessem suas necessidades e causas especificas, construindo discursos contra hegemônicos e
reivindicando seus direitos político-sociais.
Apoio:
O Partido dos Trabalhadores na mira da ditadura: Luta de massas e repressão política na transição à
democracia (1979-1988)
Nosso trabalho pretende compreender como o regime político ditatorial lidou – em uma fase já avançada do
processo de “distensão política”, iniciado em 1974 – com o ressurgimento do movimento de massas. Fazemos
isso a partir do estudo da relação estabelecida entre a ditadura empresarial-militar brasileira (1964-1988) e o
Partido dos Trabalhadores (PT), cuja atuação inicial data de, no mínimo, 1979. Para realizar tal empreitada,
investigaremos a maneira como o partido aparece na documentação proveniente dos órgãos de segurança e
repressão do regime ditatorial – como, por exemplo, o Serviço Nacional de Informações. Desde uma
perspectiva metodológica, consideramos que o olhar do regime sobre o PT esteve, desde o princípio,
sobredeterminado pelas principais preocupações estratégicas do núcleo dirigente da ditadura que, à época,
conduzia um processo de transição política. Buscaremos, portanto, a todo momento, vincular a documentação
analisada – as preocupações que expressa, as afirmações nela contidas – com a conjuntura nacional mais
ampla, e, em especial, com a chamada “transição democrática”. Desta forma, o objetivo desta investigação
torna-se relevante quando, ao debruçarmo-nos sobre os documentos do sistema de repressão e segurança,
conseguimos compreender como a ditadura buscou, a um só passo, desvendar a natureza do PT e neutralizar
a sua ação política e enraizamento social, já que sua estratégia sempre foi blindar o processo de transição
política da efetiva participação popular, sob o risco de realizar uma transição para uma democracia com base
social ampla, e não a uma democracia restrita. Do ponto de vista da análise histórica – e, neste caso, post
festum –, do processo de transição política da ditadura à democracia, analisar a maneira como os próprios
estrategistas da regime empresarial-militar enxergavam o surgimento do PT significa aprofundar as 114
investigações acerca dos limites da participação das classes dominadas na redemocratização.
Mais ainda, segundo uma das hipóteses principais da pesquisa que realizamos, uma das metas estratégicas
estabelecidas pelo projeto de transição estabelecido pelo núcleo do regime ditatorial envolvia a criação de um
novo bloco de poder, formado por um centro político conservador. Desta maneira, toda uma sorte de táticas
foram mobilizadas para dividir o campo oposicionista, isolando os setores considerados “radicais” — do qual
o petismo seria um dos representantes — dos setores “moderados”, formado pelo MDB e associações políticas
liberais-democráticas, como a OAB e a ABI. Importa-nos perceber, também, como os estrategistas da transição
estabeleceram relações distintas com diferentes setores oposicionistas.
O presente trabalho pretende apresentar os primeiros passos de minha pesquisa a ser desenvolvida no curso
de mestrado do Programa de Pós-Graduação em História Social (PPGHIS) da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ). Essa pesquisa é um desdobramento do trabalho de conclusão de curso desenvolvido na
graduação em História pela mesma Universidade. Na ocasião, investiguei os atos de vigilância e criminalização
das políticas indigenistas empreendidas pelo Grupo Magüta (MAGÜTA) através da criação e atuação do Centro
de Documentação e Pesquisa do Alto Solimões (CDPAS) compostos por antropólogos do Museu Nacional e
indígenas da etnia Tikuna do Alto Solimões. Partindo do pressuposto de que esse grupo constituiu, no Alto
Solimões amazônico, práticas e culturas políticas de tipo indigenista emancipatória, comprometidas com a
preservação da história, cultura e memória dos tikunas; bem como a constituição de um lugar de memória
subterrânea das práticas autoritárias, coloniais e colonialistas do Estado brasileiro em relação aos povos
indígenas; busco, atualmente, aprofundar a análise acerca da agência histórica, através da criação do Museu
Magüta, deste grupo nesta região do norte do Brasil no período da Redemocratização e da Nova República e
seus desdobramentos. A partir da promulgação da Constituição de 1988 e da volta do estado democrático de
Apoio:
direito, o Grupo Magüta funda, em 1991, o Museu Magüta, cuja importância histórica reside em ser o primeiro
museu indígena do Brasil. Entretanto, sua criação e manutenção encontraram, no período pós-ditatorial,
dificuldades não apenas em relação ao histórico autoritário, colonial e colonialista do Estado brasileiro, como
também os embates travados na fronteira étnica entre os indígenas Tikuna e a sociedade envolvente local cujas
tensões históricas se inflamaram após o Massacre do Capacete ocorrido em março de 1988. Nesse sentido, ao
entender os museus, em especial o Museu Magüta, enquanto lugares de memória cujo caráter de política de
afirmação identitária se fazem constantemente presentes, intenciona-se tomá-lo como instrumento e ponto
de partida para compreender as disputas na fronteira étnica deste período e local. Dessa maneira, verifica-se
que os patrimônios são lugares que abrigam uma certa identidade que contrasta com outras identidades
coletivas, cuja negligência do Estado em relação à primeira provoca a dilatação das feridas abertas da história
dos povos indígenas no Brasil.
Conexão Brasil-Espanha: Uma análise da retórica desmobilizadora do "pacto social" entre classes nos
processos de redemocratização das ditaduras brasileira e espanhola
Esta proposta de apresentação de trabalho está baseada nos resultados de uma pesquisa realizada no âmbito
do curso de Mestrado em História Social do PPGH-UFF. A proposta está inserida dentro da temática mais ampla
dos debates historiográficos que tratam da caracterização dos processos de transição de regime político em
experiências ditatoriais. No caso aqui apresentado, mais especificamente, com o recorte comparativo entre os 115
exemplos dos regimes ditatoriais brasileiro (inaugurado com o golpe empresarial-militar de 1964) e espanhol
(franquismo), refletindo sobre suas conexões e intercâmbios de experiências e práticas políticas. A proposta
de apresentação tem como objeto de análise as formulações e movimentações políticas em torno de
propostas de “Pacto Social” que buscaram conciliar interesses de classe, de setores do empresariado e dos
trabalhadores, em meio aos processos de redemocratização no Brasil e na Espanha. Observando a influência
da dinâmica da luta de classes nos rumos desses processos de transição, não desconsiderando as
especificidades da realidade estrutural e conjuntural de cada país, este estudo buscou analisar as propostas
de “Pacto Social” enquanto um recurso tático desmobilizador, empregado por frações das classes dominantes
junto ao Estado espanhol e brasileiro, com o intuito de promover o arrefecimento das mobilizações grevistas
do período, atuando como forma de absorção de conflitos sociais em um contexto de aguda crise econômica
e social, objetivando guiar os rumos de suas respectivas transições de regime político numa direção
conservadora. O intercâmbio de experiências e práticas políticas de diferentes contextos internacionais, como
no caso do Brasil e Espanha, é analisado através de fontes históricas pesquisadas no âmbito do Mestrado, onde
foram estudadas documentações produzidas pelos governos dos Estados nacionais, como também as
produzidas por veículos de imprensa e entidades de organização de classe. Sendo a principal referência os
chamados “Pactos de La Moncloa” da redemocratização espanhola, observando sua repercussão no contexto
político brasileiro. Por fim, a proposta de apresentação aqui exposta, baseada nas pesquisas realizadas no
âmbito do curso de Mestrado, está fundamentada em uma matriz teórica de orientação materialista histórica.
Utilizando os referenciais conceituais de Antônio Gramsci de “Estado ampliado” e “aparelhos privados de
hegemonia”, assim como as discussões de Nicos Poulantzas sobre o caráter relacional do Estado enquanto
condensação dos conflitos e relações de força entre projetos de classes e frações de classes sociais em
disputa. Tendo sido utilizado também metodologias de pesquisa referenciadas em trabalhos feitos por autores
como René Dreifuss, Virgínia Fontes e Sônia Regina de Mendonça.
Apoio:
Voto e clientelismo na disputa interna do Partido Democrático Social (PDS) pela sucessão presidencial
de João Batista Figueiredo
A sucessão presidencial, em 1985, foi disputada no Colégio Eleitoral por Tancredo Neves (PMDB – Partido da
Mobilização Democrática Brasileira) e Paulo Maluf (PDS – Partido Democrático Social). Porém, até a indicação
de Maluf pelo PDS, ocorreram diversas disputas internas em busca da sucessão do então presidente João
Batista Figueiredo – o último presidente militar do país. Essa pesquisa buscou entender em mais detalhes a
contenda entre Mário Andreazza (PDS e Ministro do Interior do governo Figueiredo) e Maluf (no período ex-
governador de São Paulo e deputado federal). Os dois candidatos foram os principais nomes do PDS e travaram
intensas disputas dentro da sigla. Foi possível observar as estratégias de cada candidato, que carregavam
traços clientelistas – como a utilização deliberada da máquina pública e recursos privados de diversas origens–
, no intuito de conseguir construir laços com aliados políticos em todo o país. Para essa pesquisa, os acervos
documentais consultados foram: os relatórios produzidos pelo Serviço Nacional de Informações (SNI). Os
conceitos de clientelismo (BAHIA, 2003; KAUFMAN, 1974; WEINGROD, 1968; BLAU, 1967; WOLF, 1966;
SIMMEL, 1964; HOMANS, 1961) e redes partidárias (SAWICKI, 2013) foram essenciais para essa pesquisa. O
tratamento das fontes contou com os cuidados metodológicos sugeridos por: Garcia, 2013; Baffa, 1989. O
conceito de clientelismo explorou como a relação “dar-receber-retribuir” é essencial em um processo de
disputa política. Além das redes serem de grande valor para a compreensão das divisões internas existentes
em um partido, onde as disputas pelo controle regional são de importância extremada aos grupos políticos que
desejam uma consolidação para os seus projetos.
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A Herança Política da Ditadura na Reconstitucionalização Brasileira: Pós-arenismo e realinhamento
político conservador da crise do PDS à atuação do Centrão
As metas e desafios que a ditadura de 1964-85 trouxe para si com a “abertura” exigiram um novo quadro de
responsabilidades e precipitaram uma redimensionada esfera de atuação a seus componentes. Neste
processo, o papel e o funcionamento—e, com o tempo, a coesão—da Arena mudaram sensivelmente. Por um
lado, a Lei 6.767 de 79, ao mesmo tempo que extinguiu os dois partidos de então, instaurou um
pluripartidarismo no qual o PDS se constituiu como um legítimo sucedâneo da Arena. Por outro, a importância
da base partidária da ditadura aumentou com o fim do AI-5, da facilidade institucional para fechar o Legislativo,
cassar direitos e mandatos, intervir nos estados e municípios, com a restauração de eleições diretas para
governador, e com um horizonte de maior protagonismo político dos civis na política. Concomitantemente, a
ida de pós-arenistas para o PP, o PMDB e o PTB prenunciavam uma capacidade migratória e “abriguista” dos
herdeiros da ditadura, acentuada com a(s) crise(s) do Governo Figueiredo. Destas referidas crises, a que mais
contribuiu para a irradiação do pós-arenismo foi a da sucessão, com uma nova configuração “pós-governista”
em torno da chapa Tancredo Neves/José Sarney. Em deferência às propostas de redemocratização, a
convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte foi reiterada por Tancredo e realizada por Sarney. A
reorganização das forças dominantes exigiu um realinhamento partidário, verificável já nas bancadas
congressistas e nas entidades federativas, e consagrada nas convergências suprapartidárias na ANC. As
vicissitudes da transição, sob intensa pressão da sociedade civil, trouxeram alguns percalços, mas a formação
do “Centrão” conseguiu contornar boa parte destes, garantindo que a “transição” operasse de forma
condizente aos interesses da “elite orgânica”, quando não sob sua tutela. Em consonância com a ideia de
“realinhamento político conservador” induzido por e conduzido para uma “elite orgânica” (R. Dreifuss),
argumentaremos que o “Centrão” fora naquela conjuntura a mais aproximada equivalência a um “Partido da
Ordem” (Marx). Mais do que isto, mostraremos que o Centrão, com sua decisiva de intervenção contra as
proposições progressistas, populares, e de esquerda, foi o instrumento determinante para manutenção da
Apoio:
ordem social cultivada pela ditadura. Sob este aspecto, atestaremos nosso conceito de pós-arenismo como
chave à análise da atuação da elite política. Por fim, destacaremos os momentos cruciais desta atuação—
emblemáticos de sua nova relação com a Sociedade Política Econômica e a Armada — para identificar um
marco específico no processo de redemocratização “orquestrada”: a recomposição do sistema de poder para
conservar suas conquistas do pós-64.
A Convergência Socialista (CS) foi um grupo político de vertente trotskista que se originou na Liga Operária.
Dentro do campo trotskista a Convergência socialista tem como base o pensamento do argentino Nahuel
Moreno. A CS foi fundada em 1978, como um movimento que buscava agrupar socialistas para a construção
de um novo partido. Posteriormente se tornou uma tendência interna do Partido dos Trabalhadores, atuando
neste até o momento de sua expulsão, em 1992. O presente trabalho pretende discorrer sobre a atuação deste
grupo durante o período histórico brasileiro da transição democrática. Ao apresentar esse agrupamento político
(Convergência Socialista), transitarei também pela história da construção e formação de uma outra
organização política: o Partido dos Trabalhadores. Buscarei abordar como a CS colaborou com a construção
do Partido dos Trabalhadores, assim como os principais embates e divergências entre a Convergência
Socialista e outros grupos dentro do PT. Em relação a construção do PT cabe destacar que a CS teve um papel
importante no Congresso de Lins, em 1979 (IX Congresso dos Trabalhadores Metalúrgicos, Mecânicos e de 117
Material Elétrico do Estado de São Paulo, onde foi aprovada a tese "chamando todos os trabalhadores
brasileiros a se unificarem na construção de seu partido, o Partido dos Trabalhadores"). Além de participar da
discussão da “Carta de Princípios”. Também buscarei mostrar quais as contribuições da CS no processo de
transição democrática, como esta corrente política pensava e lutava pelo fim da ditadura, assim como qual sua
visão política, propostas e projetos para nossa sociedade.
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Ditadura e luta armada a partir dos pressupostos de duas (ou três) gerações
Em seu trabalho sobre o MR-8, Nascimento (2018) conta como o grupo revolucionário, após alcançar grandes
feitos com o sequestro de políticos estrangeiros, acabou por se encontrar em uma situação no mínimo
ambígua. A orientação era de não recuar mesmo depois do recrudescimento da repressão após a fama
nacional alcançada com o sequestro de Charles Elbrick, ou mesmo depois de ter lideranças capturadas aos
montes pela polícia militar. Aumentaram as ações de sequestro como forma de recuperar os companheiros
capturados e da ação conjunta de diferentes agrupamentos armados, como no rapto do embaixador da
Alemanha Ocidental, Enhenfried Von Holeben, por iniciativa da ALN e VPR, o que lhes rendeu a liberação de
quarenta presos políticos. Na área de ação restrita do MR-8 (pelo menos a que se dedica a pesquisa, ou seja, o
Rio de Janeiro), os recuos eram motivos para avanços inusitados. Da ação social e a vivência nas favelas, foram
interiorizando sua presença até atingir a Baixada Fluminense. O objetivo sempre buscado era a formação de
focos guerrilheiros no campo atuando em conjunto com os da cidade. Apesar de seu planejamento, o grupo
encontrou inúmeras dificuldades para concretizá-lo e acabou desfeito com o aumento da repressão.
Nelson Weneck Sodré, ao escrever seu A fúria de Calibã (suas memórias do golpe de 1964) já em 1972,
Apoio:
transparece durante todo o livro sua falta de fé na permanência do regime enquanto questiona a luta armada.
Para ele, Guevara merecia estar ao lado de nomes como Bolívar, Sucre, Tiradentes, Frei Caneca e Bonifácio,
mas lamenta que sua morte em um recanto boliviano, sem maiores glórias, tenha servido em benefício das
forças que impulsionavam as ditaduras na América do Sul. O general enxerga a guerrilha, naquele momento,
como um imenso aparelho de propaganda imperialista. Quando ela surgiu teria servido para pegar o inimigo
desprevenido e obteve sucessos na África e na América. Logo depois, com seus líderes incensados pelas
páginas dos jornais, mostrou uma nova face do imperialismo: um Che pop. O objetivo desta comunicação é
menos analisar se a crença na guerrilha foi ou não verdadeira, ou avaliar seu grau de efetividade na América
Latina. Pretendo fazer o contraste entre duas gerações diferentes, uma que esteve presente com Vargas na
Revolução de 1930 e outra que era jovem quando uma ditadura à americana tomou o poder. Esta comparação
permite ver de forma mais ampla a história do Brasil durante o regime militar e analisar com mais pormenores
os pressupostos de quem lutou contra a ditadura.
Em consonância com a efeméride dos 60 anos do golpe de 1964 e as suas rememorações, apresento, neste
evento, as pesquisas desenvolvidas sob a minha direção na Divisão de Memória Institucional (DMI) do Sistema
de Bibliotecas e Informação da UFRJ, como também os resultados do meu trabalho de Pós-Doutorado no
PPGHIS/UFRJ, sob a perspectiva de analisar os impactos da ditadura civil-militar na UFRJ. Lembramos que a 118
Universidade Federal do Rio de Janeiro, assim como outras instituições de ensino e pesquisa, sofreu com a
perseguição e os expurgos de membros de seu corpo social promovidos pelas forças de repressão com o apoio
direto de gestores da Universidade, as invasões violentas em diversos campi pelas forças armadas, como no
Massacre da Praia Vermelha em 1966, além de outros mecanismos institucionalizados de cerceamento e
controle, como: a censura às obras bibliográficas, às bibliotecas e à pesquisa; a derrubada e/ou remoção de
edificações e pessoas, a criação de Agências Especiais de Informação (AESI) para vigiar a comunidade
universitária. Enfim, todo esse aparato repressivo promoveu um grande esvaziamento científico, cultural e
político na UFRJ. A fim de rememorar a efeméride dos 60 anos do golpe militar na UFRJ e também ressaltar a
História Pública da instituição, de seus lugares de memória e de seus sujeitos, durante este contexto
autoritário, realizamos a disseminação de nossas pesquisas em uma exposição virtual permanente na página
da DMI, com o mesmo título dessa apresentação, com a intenção de promover um debate público sobre a
repressão na Universidade, como também a possibilidade da exposição pode ser utilizada como uma
ferramenta pedagógica no ensino básico. Disponível em: [Link]
A trajetória de Jessie Jane Vieira de Souza durante a ditadura civil-militar brasileira: resistências,
repressão política e violência de gênero
Este trabalho tem por objetivo principal analisar a trajetória de Jessie Jane e, através desta, discutir também
importantes temas relacionados à ditadura civil-militar brasileira, como resistências, participação de mulheres
nas esquerdas revolucionárias, repressão e prisão políticas, violência de gênero, maternidade em situações-
limite, infância atingida pela repressão e a construção de memórias acerca do passado autoritário brasileiro.
Jessie Jane Vieira de Souza é uma das muitas mulheres brasileiras cujas vidas foram atravessadas pela ditadura
civil-militar, iniciada com o golpe de 1964. Jessie foi militante de uma das dezenas de organizações
revolucionárias que atuaram no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Vivenciou a clandestinidade, a repressão,
a morte de companheiros, a prisão. Foi a militante política que ficou mais tempo presa durante a ditadura.
Apoio:
Enfrentou distintas formas de tortura e violência física, psicológica e de gênero. Foi a primeira presa no Rio de
Janeiro a receber visitas íntimas. Ainda na prisão, casou, engravidou e deu à luz sua filha única. Em liberdade,
participou da luta pela anistia e pelas liberdades democráticas durante o processo de redemocratização no
país. Continua ligada às lutas por memória, verdade e justiça no Brasil. Esta pesquisa está inserida nas
renovações da historiografia contemporânea que vem privilegiando as relações entre indivíduos e a História, a
partir de pesquisas que valorizam as trajetórias e as histórias de vida e como estas expressam as possibilidades
de uma época, de uma sociedade, de uma geração.
Esta apresentação pretende problematizar a análise dos personagens da Igreja Católica que são definidos
genericamente entre “progressistas” e “conservadores”. Como pretenderei demonstrar na minha fala, estas
definições omitem a diversidade de posições dentro da Igreja Católica e são frutos de uma análise militante e
maniqueísta construída durante a Ditadura Militar e que acabou ofuscando o entendimento dos personagens
da Igreja daquele período. A partir da década de 1950, a Igreja Católica passou por um processo de
transformação intensa, o seu aggiornamento, que culminaria no Concílio Ecumênico do Vaticano II (1962-
1965). A Igreja brasileira seguiu este caminho e procurou se atualizar e ter uma nova forma de lidar com o mundo
moderno. A instituição se viu envolvida nos conflitos políticos e sociais da época e como resultado emergiu
vários setores dentro dela que defendiam novas formas de atuação política e religiosa. Mas, também existiam 119
setores que viam essas mudanças como algo negativo e lutaram contra elas. Essas mudanças ocorridas na
Igreja Católica tiveram muito interesse na produção acadêmica e jornalística. Entretanto, uma análise
maniqueísta preponderou nesses estudos. Dividia-se o clero fundamentalmente entre “progressista” e
“conservador”. Os termos eram muito utilizados na imprensa, entre os intelectuais e acadêmicos e pelos
próprios membros da Igreja. Mas, como o uso dos termos foi banalizado e reproduzidos levando em conta a
militância política da época, acabou obscurecendo o entendimento daqueles personagens históricos,
perdendo assim muito do seu valor analítico. Geralmente, eram taxados como “conservadores” aqueles
prelados que não fizeram uma oposição pública à Ditadura Militar e/ou que durante a década de 1970 fizeram
uma oposição à Teologia da Libertação e a Esquerda Católica. Como o termo é aceito sem muita crítica, os
estudos costumam colocar religiosos com forma de agir muito diferentes enquadrados no mesmo conceito.
Dividir os vários grupos que surgiram, a partir da década de 1950, em apenas “conservadores” e “progressistas”
é fruto de um pensamento militante que percebe a Igreja e a sociedade por uma linha dicotômica e que foi
apropriado por alguns trabalhos acadêmicos sem muita problematização e acabam escondendo a diversidade
de grupos existentes.
A apresentação, sob orientação da professora doutora Maria Paula Nascimento Araujo, visa expor os primeiros
resultados da pesquisa de mestrado que desenvolvo referente à trajetória de vida do escritor, cineasta e ativista
pelo movimento homossexual João Silvério Trevisan. Centro-me, nestas primeiras conclusões do estudo, na
estruturação da formação política de Trevisan e na sua trajetória anterior ao início de sua atuação no chamado
Movimento Homossexual Brasileiro. Para isto, ancoro-me no aparato teórico-metodológico referente a relação
entre História e biografias, autobiografias e trajetórias de vida expostos pelos estudos de Angela de Castro
Gomes, Giovanni Levi, Benito Bisso Schmidt e Leonor Arfuch. Como fontes, mobilizo os filmes “Contestação”
(1969) e “Orgia ou o homem que deu cria” (1970), dirigidos por Trevisan, o testemunho fornecido por ele ao
Apoio:
Memorial da Resistência de São Paulo em 2016 e, principalmente, seus dois livros autobiográficos: “Pai, Pai”
(2017) e “Meu Irmão, Eu Mesmo” (2023). Para melhor analisá-los, a apresentação será estruturada em ordem
cronológica, destacando os fatos e experiências formativas que contribuíram para a construção de João Silvério
Trevisan como um dos pioneiros ativistas do que se constituiu como o Movimento Homossexual Brasileiro,
além de representante, entre semelhanças e particularidades, de uma geração e de um importante setor do
que pode ser identificado, de modo geral, como o campo progressista brasileiro. Percorrendo um período que
vai da sua infância, na década de 1940, à década de 1970, anos que antecederam seu ativismo, a apresentação
trará enfoque à turbulenta relação de Trevisan com seu pai, a descoberta e florescimento de sua sexualidade,
seu contato com a arte e seu exercício artístico, sua relação com a Igreja Católica, sua relação com as
esquerdas e sua experiência no exílio.
Como fazer a revolução? Radicalidade e democracia no pensamento político de Herbert Daniel (1965-
1986)
Uma geração inteira de jovens brasileiros(as) tiveram suas vidas impactadas pelo início da ditadura militar em
1964. Dentre aqueles que estavam nas universidades públicas, muitos seguiram o sacrificante e arriscado
caminho da mobilização política como forma de resistência ao autoritarismo. Herbert Eustáquio de Carvalho,
que assumiria mais tarde o nome Herbert Daniel, foi um deles. Fruto das reflexões realizadas em minha
monografia, sob a orientação do professor Vinícius Liebel, este trabalho apresenta as transformações no 120
pensamento político desse importante – e ainda pouco discutido – revolucionário brasileiro entre as décadas
de 1960 e 1980. Um período que compreende o ingresso de Daniel na luta armada e os dilemas políticos e
morais por ele enfrentados frente ao marxismo; o seu exílio, marcado pela autocrítica e adoção de novas balizas
teóricas para a pensar o político (ROSANVALLON, 2010); e, finalmente, seu retorno ao Brasil em tempos de
redemocratização, onde seguiu, agora norteado por um socialismo libertário, seu compromisso revolucionário.
A partir da análise de obras autobiográficas, como o livro Passagem para o próximo sonho (1982), e da
plataforma política concebida quando de sua candidatura à deputado estadual pela coligação Partido Verde-
Partido dos Trabalhadores (PT-PV) em 1986, o presente trabalho enfoca na discussão sobre as mutações
sofridas pela radicalidade política de Herbert Daniel, que sempre teve em seu horizonte a construção de um
regime democrático efetivo, relacionando-as ao quadro mais amplo dos contextos históricos pelos quais ele
navegou nessas duas décadas.
As representações do Golpe de 1964 e da ditadura no Brasil nas narrativas didáticas escolares: ênfases e
omissões nos livros didáticos de História
Nesta comunicação trataremos das questões sensíveis no conhecimento histórico escolar, por meio da análise
das narrativas didáticas, em livros escolares de história, aprovados pelo Programa Nacional do Livro Didático,
no Edital de 2018. Seleciona-se, para isso, as narrativas didáticas sobre Golpe Militar de 1964 e seus
desdobramentos políticos e sociais, no Brasil, a partir da análise de três coleções didáticas: História, História
Global e Oficina de História, direcionadas ao Ensino Médio, com o foco na problematização da historicidade
de tal tema em materiais de uso escolar. Mobiliza-se, conceitos do campo da historiografia como Narrativa,
Memória, Esquecimento e História no entendimento da construção da narrativa didática e do campo da
educação, dialoga-se, com a perspectiva da histórica do currículos e das disciplinas escolares para a
compreensão das finalidades educativas, das disputas sociais, em torno da conformação da história escolar.
Apoio:
Almeja-se compreender os pressupostos teórico-metodológicos norteadores da produção de livros didáticos
e suas conexões com a metodologia da História, do seu ensino e aprendizagem.
Um vídeo, uma música, uma imagem, um mapa: ferramentas pedagógicas nas atividades da Comissão da
Memória e Verdade da UFRJ
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
121
História, ficção e memória nas narrativas de Ruben e Patricio Pron
Esta comunicação apresenta os desdobramentos de uma investigação acerca das noções de documento e
ficção na obra de um conjunto de autores argentinos nascidos nos anos 1960 e 1970 e que são filhos de
militantes políticos. A partir disso, abordaremos as relações entre textos do ficcionista Patricio Pron e de seu
pai, o jornalista Ruben Pron. Patricio Pron é autor de O espírito dos meus pais continua a subir na chuva,
publicado no Brasil pela editora Todavia, em 2018. Na obra, um escritor retorna a seu país de origem para
acompanhar o pai adoecido e mergulha em uma investigação sobre o passado familiar e a militância dos pais
nos anos 1960 e 1970. Depois da publicação de O espírito..., Ruben Pron, pai do escritor, publicou uma coleção
chamada Crónicas contra el olvido. Nela, apresenta a biografia de pessoas vitimadas pela mais recente
ditadura cívico-militar argentina (1976/83). O filho escreveu um romance atravessado pela biografia do pai; o
pai escreveu biografias de personagens de seu passado após o romance do filho. Ainda que nenhum dos dois
busque ocupar o espaço do historiador ou afirmar seu trabalho como tal, há nessa observação elementos de
interesse para refletir sobre as relações entre história e literatura para pensar o passado. São fronteiras nem
sempre claras que se movem entre as narrativas ficcionais contemporâneas e a historia com o uso dos
documentos e arquivos pela literatura e a representação literária de personagens históricos. Por outro lado, a
emergência de interrogações sobre as relações entre a historiografia e a ficção literária na segunda metade do
século XX e início do XXI e os impactos produzidos por isso levaram a novas miradas, revisões de bases
epistemológicas e preocupações com a forma do discurso historiográfico como intersecção entre o real e
tentativas de incorporá-lo em uma narrativa. Assim, considerando esses textos como ponto de partida,
caracterizaremos as relações entre história e ficção, documento e memória, passado e presente na construção
dessas narrativas contemporâneas pensando em um duplo movimento: a apropriação do biográfico como
material da ficção e o papel da ficção na construção do passado recente na Argentina.
Apoio:
Poesia Negra e Ditadura (1978)
A presente comunicação tem como objetivo discutir a importância do ano de 1978 para as autorias negras
brasileiras aliando literatura e militância negra. A partir das obras poéticas “Poemas da Carapinha”, de Cuti;
“Memória da noite”, de Abelardo Rodrigues; “O Arco-íris negro”, de Éle Semog e José Carlos Limeira; e
“Cadernos Negros 1”, volume de estreia da série homônima, e da rearticulação do movimento negro durante a
década de 1970, culminando com a criação do Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978, temos um contexto
no qual a poesia negra – e o seu investimento no imaginário, no questionamento do cânone literário, na quebra
de estereótipos referentes às pessoas negras e na quase inexistente inserção de negras e negros no mercado
editorial – e a militância negra estão alinhadas em objetivos comuns como a construção de uma contranarrativa
da história oficial brasileira, na denúncia da democracia racial e no engajamento na luta antirracista,
interseccionando gênero, raça e classe. A metodologia investe na pesquisa bibliográfica para análise de
poemas e dos prefácios dessas obras, tendo como referenciais teóricos os/as críticos/as literários/as Cuti,
Conceição Evaristo, Edimilson de Almeida Pereira e Eduardo de Assis Duarte para investigar as características
estético-formais desses poemas, considerando-os inovadores em relação à poesia de autorias negras
produzida em décadas anteriores; já para tratar de questões sobre memória, racismo e subjetividade negra,
tanto na poesia quanto no movimento negro, investe-se nas teorias de Lélia Gonzalez, Frantz Fanon, Aimé
Césaire, Grada Kilomba e Achille Mbembe. Espera-se, por fim, oferecer um panorama das autorias negras
brasileiras, seus embates com o mercado editorial e as alternativas criadas para publicação de livros; expor e
analisar obras poéticas de difícil acesso dessas autorias para o público leitor; mostrar a relação de
engajamento envolvendo literatura e militância; e a relevância de recortes específicos para investigar a história 122
da literatura brasileira sob pontos de vista de literatos/as e críticos/as literários/as negros/as em uma época de
exceção e repressão, que também atingia a população negra brasileira.
Ao mundo levaram a destruição não os livros, mas os homens: Julio Cortázar sobre as ditaduras latino-
americanas
Durante a década de 1960 e 1970 a América Latina foi cenário de testes e experimentos da implementação de
políticas econômicas neoliberais sob a roupagem de governos autoritários, sendo o Chile, por exemplo, o
primeiro país a implantar esse projeto político-econômico. As ditaduras instauradas também se estabeleceram
sobre a ordem combatente à influência revolucionária cubana crescente na região, como o boom intelectual
de esquerda. A implementação de uma cultura de austeridade, nesse sentido, podia ser vista como um suporte
para a instauração do projeto econômico em curso. Uma vez que a lógica desses governos era de caráter
contrarrevolucionário, o período foi fortemente marcado pelo que chamamos de “apagamento cultural”,
advindo de uma perseguição a intelectuais e produções de esquerda, mas não tão somente desses, dado as
práticas de silenciamento a qualquer elemento de oposição. Em Fantomas contra los vampiros
multinacionales, texto de autoria do autor argentino Julio Cortázar (1914-1984), é possível observar a escolha
do autor em acentuar a relação entre o contexto histórico e a arte literária. O texto aborda alguns elementos
importantes quais pretendemos explanar nesta apresentação, como (a) a censura; (b) a importância que pode
assumir uma obra literária frente a períodos de perseguição e de negação da ciência; (c) bem como as
alternativas presentes no ofício intelectual em construir discursos sobre as querelas de seu tempo e comunica-
las com a sociedade. Dito isto, nosso trabalho se propõe a conversar sobre como a literatura enquanto
ferramenta de comunicação histórica utilizada por Julio Cortázar para retratar cenários de censura e
perseguição no que tange os processos de governos autoritários na América Latina.
Apoio:
Um breve debate sobre o impacto das políticas neoliberais na América Latina e o caminho da ascensão
da Esquerda no século XXI: uma comparação entre Bolívia e Venezuela
Maria Cllara Barbieri Farinha Marrafa (UERJ), Bruno Rodrigues Andrade (UERJ)
O presente trabalho visa debater como foi o processo de inserção do pacote de medidas neoliberais na América
Latina e suas consequências para a região, com foco para Bolívia e Venezuela. Objetiva-se apresentar os
impactos das medidas neoliberais nesses países, abordando uma síntese de como impactou na população; a
saber: na Venezuela, em fevereiro de 1989, após a inserção das medidas neoliberais pelo governo de Andrés
Pérez, a população que se opôs ao pacote de medidas neoliberais, foi as ruas e protagonizou um dos episódios
de maior agitação popular da história recente do país, o chamado Caracazo. Na Bolívia, as privatizações das
empresas estatais em nome da boa administração foram realizadas sob pressão do Banco Mundial, que exigiu
reformas estruturais no país como condição para empréstimos. Com as medidas econômicas do Consenso de
Washington de 1989, tinham como finalidade de colocar os países da América Latina na trilha do crescimento
econômico. No entanto, tais medidas empostas gerou uma grande desigualdade social e econômica na Bolívia.
Consequências desse modelo econômico, levou a dois eventos no século XXI que é a Guerra da Água e a Guerra
do Gás referente a uma série de protestos e conflitos que ocorreram nos anos 2000. Neste sentido, pretende-
se, utilizar a análise do discurso político de Hugo Chávez para pensar como as medidas neoliberais
impulsionaram os governos de esquerda, e como o presidente ao chegar ao poder lidou com as medidas
implementadas dando início ao período da chamada Revolução Bolivariana. Em conjunto, as análises de dois
jornais bolivianos: El Deber e Opinion, realizar uma breve análise acerca dos impactos dos pacotes de medidas
neoliberais na Bolívia. Assim, objetivo deste trabalho é traçar uma síntese do impacto da agenda neoliberal na
Venezuela e na Bolívia, traçando um caminho para a ascensão dos governos de esquerda nos dois países no 123
século XXI.
O programa Aliança para o Progresso foi uma forma de intervenção estadunidense na América Latina em
contexto de Guerra-fria para afastar o imaginário comunista do continente via aplicação da teoria
desenvolvimentista. A proposta é articular a aplicação de projetos pensados e elaborados dentro das diretrizes
da Aliança para o Progresso, apresentado na carta de Punta del Este em 1961, juntamente com análise dos
projetos propostos pelos gestores e a aplicação nas principais cidades latinas. Busco compreender a
responsabilidade estadunidente, por meio da Aliança para o Progresso, na construção da desigualdade sócio-
ecônomico partindo de análises de documentação americana.
Em 1989, durante o processo de redemocratização do Chile, o então candidato à presidência Patricio Aylwin
encontrou-se com algumas das principais organizações indígenas, incluindo os mapuches, com o propósito de
estabelecer um pacto de confiança entre eles. O Acuerdo de Nueva Imperial, realizado na comuna em que lhe
deu o nome, apesar de ter sido elaborado para conferir credibilidade ao candidato da Concertación de Partidos
por la Democracia entre as comunidades mapuche, também representou significativas mudanças no horizonte
Apoio:
de expectativas das mesmas. Para elas, tal feito concretizou a possibilidade de um diálogo mais próximo com
o Estado democrático, que, diferente daquele de Pinochet, estava supostamente disposto em escutar suas
reivindicações. Porém, hoje sabemos que algumas das exigências mapuche não se concretizaram como o
desejado: a Convenção 169 da OIT, que conferia direitos internacionais aos povos originários, só foi ratificada
em 2008, do mesmo modo que reconhecimento constitucional dos mesmos está pendente desde então. Nesse
contexto, o propósito da apresentação será examinar o Acuerdo de Nueva Imperial como um espaço
primordialmente de conflito de interesses entre o Estado e a nação mapuche, onde ambos os lados se
encontram em posição tanto de exigir quanto de ceder. Dessa forma, pretendemos refletir sobre a percepção
que o movimento mapuche teve acerca da abertura democrática como um período de possíveis maiores
mudanças estruturais, principalmente no que diz respeito ao direito fundamental de autonomia política e
territorial. Isso abre a possibilidade de pensarmos nos primeiros anos pós-ditatoriais como um momento de
extrema articulação política, no qual diferentes atores tentam se fazer ouvir em uma nova conjuntura mais
promissora do que a anterior.
A geração de 1985 e a construção da Nova História Social chilena no contexto da transição política
O ano de 1985 é considerado o grande marco para o nascimento da Nova História Social no Chile. Isso porque
esse é o ano do encontro entre as duas gerações que lideraram esse movimento de renovação historiográfica e
que, a partir de 1985 com o retorno dos exilados, começaram a pensar juntos o projeto de construção de uma 124
nova história para o Chile baseada no estudo do movimento popular. Essas duas gerações são conhecidas
como "los de adentro" e "los de afuera". Do ponto de vista político, o ano de 1985 marcou também uma
mudança de perspectiva com relação à forma como se daria a saída da Ditadura Militar no Chile. Depois de
dois anos de intensos protestos e manifestações ocorridos durante as Jornadas de Protestos Nacionais, no
final de 1984 foi decretado novamente Estado de Sítio para controlar as mobilizações que aconteciam no país.
Neste trabalho iremos discutir a relação entre o projeto da Nova História Social chilena e o contexto da
transição política que marcou o fim da Ditadura Militar no Chile, mencionando como a geração de 1985 teve
um papel importante na formulação de uma proposta historiográfica combativa à Ditadura Militar. Serão
destacados os trabalhos dos historiadores dessa geração, bem como seu papel na luta contra a Ditadura e na
preservação da memória sobre o período autoritário do país.
A dupla dimensão da ausência: presença simbólica dos desaparecidos políticos na fotografia de Gustavo
Germano (2006 – 2017)
Durante a ditadura civil-militar argentina, o fotógrafo Gustavo Germano perdeu o irmão mais velho, Eduardo,
uma das cerca de 30 mil pessoas desaparecidas no período. Anos mais tarde, ao se reconhecer na condição
de fotógrafo e familiar, percebeu na fotografia uma maneira de representar o que significa o vazio deixado pelo
desaparecimento forçado de pessoas. Assim, idealizou o ensaio fotográfico “Ausênc’as”, em que reproduziu
fotos antigas de famílias que perderam pessoas para as ditaduras, demarcando o espaço vazio deixado por
elas. A pesquisa parte de “Ausênc’as” para analisar o papel da fotografia como reconfiguradora da memória
pública (Frank, 2004), no caso específico, da memória das vítimas das ditaduras latino-americanas. O
desaparecimento, prática de repressão amplamente utilizada no período, é o aspecto em comum dos regimes
denunciado por Germano. A partir do cruzamento das fotografias com entrevistas e relatos de familiares,
procuro compreender o efeito psíquico dessa prática naqueles que ficaram, os familiares e cônjuges dos
mortos e desaparecidos. Além disso, busco examinar a possível transmissibilidade da memória por meio de
Apoio:
laços afetivos, que encontra na fotografia o suporte ideal. Para os objetivos propostos, são mobilizados os
conceitos de memória cultural (Assman, 1995), pós-memória (Hirsch, 1997), trauma (Caruth, 2016) e
espectralidade (Colmeiro, 2011). O recorte estabelecido compreende os anos de realização do primeiro e do
último ensaio do projeto.
O presente trabalho pretende analisar a prática do desaparecimento forçado através de dois livros: “O Corpo
Interminável” (2019), de Claudia Lage e “K.: Relato de uma busca” (2014), de Bernardo Kucinsky.
A prática do desaparecimento forçado foi um projeto político de Estado engendrado pela ditadura militar. Em
termos da Comissão Nacional da Verdade, alinhada ao Direito Internacional dos Direitos Humanos, o crime em
questão se caracteriza por sua natureza múltipla, pluriofensiva ou complexa; autônoma e permanente.
Mobilizando as contribuições teóricas de Ludmila Catela, entendemos que a referida prática repressora
constitui-se como um trauma fundante para as famílias, alterando a dinâmica e o fluxo de suas vidas. O
desaparecimento gera nos familiares a sensação de uma morte inconclusa, ou seja, uma morte que não passa
nunca, cujo luto não se torna passível de elaboração. Neste trabalho temos como ponto elementar a discussão
acerca dos embates de memória e representações sociais da ditadura, sendo essas marcadas por processos
de disputas pela consolidação de uma memória social. Para o sociólogo Michael Pollak, as disputas de 125
memória são marcadas pelo constante conflito e oposição entre a memória oficial, dominante, e as memórias
subterrâneas, silenciadas, porém guardadas por grupos sociais e políticos (Pollak, 1989). Nesse conflito, existe
a ação de pessoas ou grupos, compreendidos como “agentes de memória”, que cumprem o papel de demarcar
e manter vivas as memórias de um passado. Eles são determinantes para o impedimento de que algumas
memórias caiam no esquecimento público e sejam apagadas pela memória oficial exercendo um papel
fundamental na construção de narrativas históricas sobre o passado. Compreendendo os grupos sociais e
políticos representados pelos autores dos livros trabalhados enquanto agentes de memória, mobilizaremos as
referidas obras analisando esse luto perene. Ademais, um dos elementos importantes nesse processo é a
imaginação e como ela é utilizada pela literatura em seus mais diversos aspectos, inclusive na literatura de
testemunho, pois através desse aspecto imaginativo se torna possível “dar conta daquilo que escapa ao
conceito”, (SELIGMANN-SILVA, 2003). Aqui, a literatura testemunhal se configura enquanto uma “face da
literatura” especialmente após as grandes catástrofes e provoca novos questionamentos da relação entre
literatura e o “real” que aqui precisa ser compreendido na chave do trauma, ou seja, um evento que resiste à
sua representação (SELIGMANN- SILVA, 2003).
Entre o exílio e o refúgio: as possibilidades para os perseguidos políticos do Cone Sul no Brasil
Durante a década de 1970, no Cone Sul, milhares de pessoas decidiram deixar seus países, motivadas pela
perseguição política, pela violência e pelo clima de insegurança e medo promovido pelas ditaduras militares
na região. Nesse contexto, o Brasil surge como um destino possível. Embora também estivesse sob um regime
ditatorial, o país vizinho tornou-se um importante ponto de chegada para aqueles que decidiram abandonar a
terra origem. Contudo, a política brasileira para refugiados não os beneficiou e aqueles que a ele se deslocavam
precisavam decidir entre o exílio clandestino no Brasil ou a saída para um terceiro Estado que lhes concedesse
o status de refugiado, por meio do ACNUR, que atuava no país em parceria com a Caritas Arquidiocesana do
Rio de Janeiro. Através da metodologia da história oral, este trabalho visa recuperar a memória daqueles que
Apoio:
chegaram ao Brasil e reconstruir suas trajetórias a partir das duas “opções” nele encontradas. Pretende-se
compreender as motivações de cada uma destas opções e desvendar as subjetividades presentes nos
processos de deslocamento.
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
126
Apoio:
ST 13
História e Teatro
Coordenação:
Thiago Herzog (Escola Ort), Luciana Penna-Franca (estado do Rio de Janeiro e prefeitura de
Teresópolis)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00) 127
Teatro amador no Rio de Janeiro: a escolha dos repertórios e a forte presença dos textos teatrais
portugueses (1871-1920)
Esta comunicação propõe uma reflexão sobre as escolhas dos repertórios pelas sociedades dramáticas
amadoras procurando compreender critérios e motivações envolvidas na montagem dos espetáculos teatrais
encenados e apresentados pelos amadores. Segundo o manual do português Augusto Garraio, essa etapa era
importantíssima e deveria expressar as condições do corpo cênico para desempenhar os papéis e dar forma
aos personagens, os recursos do grupo para a criação de cenários, figurinos e mobiliário, além de orientar a
distribuição dos grandes papéis com base na experiência teatral dos atores. Além dessas questões técnicas, o
conteúdo e a temática abordada no texto também mereciam apreciações cuidadosas. Os textos teatrais
escritos dentro de determinados contextos históricos, mesmo que representados anos ou séculos depois,
expressam e disseminam ideologias, valores morais e sociais, que, de alguma forma, podem gerar
identificações (ou não) entre palco e plateia, entre texto e contexto. Por isso a escolha do repertório, ao definir
tanto o formato do espetáculo quanto as ideias que eram apresentadas em cena, era objeto de avaliação
criteriosa pelas sociedades amadoras e, também, submetida à aprovação da polícia, conforme a legislação em
vigor. Analisando os repertórios escolhidos pelos clubes dramáticos amadores foi possível constatar a
significativa presença de autores portugueses, encenados, inclusive, décadas após a publicação original dos
textos teatrais. Entre as possíveis explicações para essa predominância, podemos elencar a facilidade da
língua, dispensando traduções, e ainda o fácil acesso a esses textos teatrais nas livrarias existentes na cidade
e, talvez, nas próprias bibliotecas nas sedes das sociedades particulares. Alguns desses textos eram
representados também no teatro comercial e visavam a pura diversão do público. Esse trânsito de
determinados textos cênicos entre os palcos profissionais e amadores indicam o caráter polissêmico dessas
peças, possibilitando diferentes interpretações tanto estéticas quanto morais, ideológicas e/ou políticas.
Apoio:
A opereta “A Princesa dos cajueiros” de Artur Azevedo e as críticas à monarquia do Brasil
O ano de 1880 marcou a trajetória do dramaturgo maranhense Artur Azevedo. A sua significativa atuação levou
ao palco do "Teatro Phênix Dramática" três operetas produzidas em parceria com o compositor português
Francisco de Sá Noronha – A princesa dos cajueiros; Os Noivos; O califa da rua do sabão. A essa altura Azevedo
contava com 25 anos de idade, e há dez residia no Rio de Janeiro. No correr da década de 1870, o autor dedicou
grande parte de seus esforços ao oficio de jornalista, atuando paralelamente como: versionista e tradutor de
peças de gênero ligeiro para os teatros da corte. Contudo, foi somente em 1879 que Azevedo produziu a sua
primeira opereta original, a partir daí sua atuação enquanto dramaturgo se fortaleceria, e daria origem na
década seguinte as afamadas "Revistas de Ano". “A princesa dos cajueiros” estreou no início do mês de
fevereiro de 1880, e a partir dos relatos da imprensa percebemos que a obra foi ensaiada às pressas com o
intuito de substituir a opereta “Antonica da Silva” de Joaquim Manoel de Macedo. Com enredo leve e fantástico,
a obra de Azevedo trazia a figura de “El Rei Caju”, nobre que governava sem muitos limites a ilha dos Cajueiros,
e constantemente exigia que os servos cumprissem ordens absurdas para satisfazer vontades alinhadas a uma
moral duvidosa. Na presente comunicação objetivamos “historicizar” o texto da opereta com o intuito de
entender se o enredo faz uma crítica mordaz à imagem de Dom Pedro II, e ao sistema político da época. Afinal,
Artur Azevedo já estava engajado na causa abolicionista e flertava com os ideais do partido republicano. Vamos
recorrer aos escritos de Carlo Ginzburg e Sidney Chalhoub a fim de cruzar os rastros deixados pelos articulistas
nas seções “Theatros” da “Revista Illustrada” e “A Estação”, e entender em que medida essa produção teatral
impactou o meio social e político no início dessa que seria a última década da monarquia no Brasil.
128
Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT): um projeto político-cultural brasileiro (1917-1945)
A proposta desta apresentação é analisar a trajetória institucional da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais
(SBAT) com foco em sua contribuição para a profissionalização de autores nas primeiras décadas do século XX.
Para tanto, entende-se que o período que vai desde a sua criação, em 1917, até o final do primeiro Governo
Getulio Vargas, foi essencial na constituição de seu projeto político-cultural: a defesa dos direitos de autores
nos campos teatral e musical brasileiros. No entanto, tal projeto foi sendo sedimentado e colocado em prática
paulatinamente. Francisca Gonzaga, Viriato Corrêa, Bastos Tigre, Oduvaldo Vianna, Armando Gonzaga, Raul
Pederneiras foram alguns de seus fundadores, que ficaram conhecidos como Geração Trianon. Posteriormente,
juntaram-se a eles outros importantes nomes do teatro e da música - Iveta C. Ribeiro dos Santos, Ary Barroso,
Heitor Villa-Lobos, Abadie Faria Rosa, Joracy Camargo, dentre outros - tornando a sociedade civil não somente
um lugar de sociabilidade cultural da época, mas também um espaço de deliberação e decisão acerca da
profissionalização e reconhecimento no meio intelectual. Desta forma, este trabalho buscou investigar como
se deu a construção de políticas públicas e práticas institucionais a partir da atuação da SBAT e de sua
dinâmica diante do meio político e cultural da época. Assim, interessa-me, por um lado, a aproximação desta
associação civil de caráter voluntário com os diferentes níveis do poder público nos anos finais da Primeira
República e no governo varguista, dinâmica essencial para seu estabelecimento e continuidade de sua atuação
ao longo do período estudado. As negociações com o poder federal para a promulgação de leis ligadas à
regulamentação do teatro no Brasil; o diálogo com as instâncias estaduais e municipais para a implementação
de leis e práticas de fiscalização e arrecadação; o diálogo com os departamentos de censura. Por outro lado,
também são igualmente relevantes, as disputas e negociações com os diversos atores do campo cultural da
época - empresários de teatro, cinema e rádio; compositores e editores musicais e artistas -, dinâmica esta
decorrente da expansão da SBAT desde o final da década de 1920 com a instituição daquela que ficou
conhecida como “Lei Getulio Vargas”. Neste sentido, analisar como a instituição lidou com diferentes agentes
do Estado e do campo cultural, auxiliou na construção de alguns apontamentos de como a sociedade civil
Apoio:
atuou na consolidação de políticas públicas e práticas institucionais que objetivavam maior reconhecimento e
profissionalização de escritores e músicos no Brasil.
Uma apresentação do processo de montagem de uma exposição virtual dos trabalhos teatrais do Círculo
Dramático da Biblioteca Israelita-Brasileira Scholem Aleichem, a BIBSA, no Rio de Janeiro, durante os anos
1940, enquanto foi dirigido pelo encenador polonês Zygmunt Turkow. A exposição conta com fotos de
montagens, programas e vídeos, bem como um panorama dos trabalhos e análise de algumas montagens.
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 14
História Marítima: portos, mares, rios e o poder naval.
Sujeitos e instituições em perspectiva histórica
Coordenação:
Robert Wagner Porto da Silva Castro (Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha),
Wagner Luiz Bueno dos Santos (Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 3
130
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Robert Wagner Porto da Silva Castro (Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha)
Em um mundo onde as maiores distâncias eram transpostas por meio da navegação, durante séculos os contatos entre
sociedades diferentes encontraram nos homens do mar os seus principais elos. No exercício de uma atividade da qual
eram depositários de suas tradições e costumes, esses homens não faziam somente comércio, mas também
diplomacia e a guerra. Nesse sentido, desde que o domínio dos mares se tornou essencial ao desenvolvimento
econômico dos países, as Esquadras e suas tripulações figuraram como sínteses de suas sociedades e da posição, real
ou aspirada, de cada país no conjunto das nações. Em um quadro de disputas por novas terras e rotas de comércio
marítimo, inovações tecnológicas eram constantemente aplicadas em favor do desenvolvimento da navegação e da
capacidade bélica dos navios. Situação que se viu significativamente potencializada a partir da Revolução Industrial e
do consequente acirramento de disputas por territórios, fontes de matérias-primas e mercados consumidores,
notadamente em finais do século XIX e início do século XX. Assim, a partir da análise do impacto da incorporação de
inúmeros avanços tecnológicos às Esquadras ao longo do período supramencionado e das decorrentes transformações
observadas nas relações sociais a bordo dos navios de algumas das principais Armadas do mundo, buscaremos
perceber as contradições imanentes à condição social do marinheiro do século XX nessas instituições. Procurando
compreender o processo, e alguns de seus desdobramentos, por meio do qual marinheiros-militares passaram a se
perceber também enquanto técnicos, com capacitações e saberes que os conferiam expectativas e aspirações de
melhores colocações profissionais e, consequentemente, sociais. Tendo por base uma perspectiva teórica que
considere o caráter “totalizante” das instituições navais, especialmente em seus navios, e a construção de uma
identidade enquanto “marinheiro-trabalhador” a partir das relações sociais estabelecidas por esses marinheiros, dentro
e fora dos limites das Armadas. Concepção que está diretamente relacionada às experiências que esses segmentos de
militares passaram a vivenciar, especialmente a partir dos anos iniciais do século XX, com o acentuado desenvolvimento
tecnológico e as consequentes transformações afetas à distribuição do trabalho a bordo dos navios de guerra.
Apoio:
“Aos pés do trono”: subalternidade, recrutamento de menores e família na sociedade imperial
Wagner Luiz Bueno dos Santos (Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha)
A extensa pesquisa e investigações sobre o recrutamento, instrumento que se tornou uma instituição de controle
das classes mais baixas das relações de subalternidade na sociedade imperial na segunda metade do século XIX,
vem contribuindo de forma significativa para a compreensão não só de como as instituições militares formavam suas
fileiras, mas também revelando nuances importantes nas relações entre instituições e sociedade, sobretudo entre
os indivíduos que compõe a estrutura da sociedade no Brasil do século XIX. Esta comunicação tem por objetivo
central apontar para uma investigação verticalizada sobre as relações entre as instituições, que compunham a rede
de recrutamento para Armada Imperial, cujos objetivos balizadores são verificar em que medida essas instituições
se relacionaram com a sociedade, com as famílias e com os indivíduos em processos que ampliaram o recrutamento
da infância. Foi a partir de meados do século XIX que a Marinha Imperial, durante a ampliação de sua estrutura
burocrática como parte do processo mais amplo de burocratização do Estado Nacional brasileiro, expandiu seu
projeto pelo território imperial para execução do recrutamento de menores para formação de marinheiros. Essa
intensificação resultou na criação de 18 instituições de formação de marinheiros. As Companhias de Aprendizes-
Marinheiros foram responsáveis pelo recrutamento e formação jovens marujos a partir de 1840, alcançando o final
do XIX a principal porta de entrada para as fileiras da Armada Imperial. Nessa perspectiva, compreendemos que a
expansão do recrutamento para Marinha Imperial por grande parte do território do Império e cobrindo todo litoral
brasileiro, recaindo sobre os níveis mais baixos das relações de subalternidade da sociedade imperial, invadiu os
lares, a vida privada, modificando e alterando o cotidiano de cidades e vilas com auxílio de agentes recrutadores que
ocupavam cargos públicos e que ainda contou com a participação de pessoas comuns em nome das autoridades
navais. Essa rede de recrutamento da infância constituiu um instrumento poderoso de subalternização de indivíduos, 131
de suas vidas e em suas relações com o público e o privado.
A presente comunicação visa apresentar o projeto de tese “Imagens de um homem do mar e das marinhas. A
trajetória de Edoardo de Martino" que está em desenvolvimento no Programa de Pós-graduação em História da
Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Em seu escopo mais amplo, a referida pesquisa estuda as
obras e a trajetória do referido artista com intuito de compreender como o pintor e sua arte influenciaram, e,
foram influenciados, pelo contexto de formação dos Estados nacionais italiano e brasileiro.
Assim, as imagens produzidas por De Martino são interpretadas como uma fonte bastante peculiar ao mesmo
tempo em que são analisadas à luz de diferentes testemunhos históricos. Sendo assim, o estudo extravasa os
aspectos formais da obra de arte para investigar seus entornos, sobretudo o que diz respeito ao indivíduo que
as criou. Originário de Nápoles, ele se destacou durante a unificação italiana ao se tornar um oficial da Real
Marinha , atuando em uma Divisão Naval do Reino da Itália na região do Rio da Prata durante a Guerra do
Paraguai (1864-1870). Um incidente nas proximidades do Estreito de Magalhães o levou a renunciar à carreira
naval em favor da pintura. Mudou-se da Europa para o Brasil, onde alcançou renome pelas suas pinturas que
celebravam os feitos da Marinha Brasileira. Posteriormente, em 1875, ele se estabeleceu na Inglaterra, onde
permaneceu até o seu falecimento em 1912. À vista da forte presença dos âmbitos artísticos e militares na vida
de Eduardo De Martino elegemos estes aspectos como fios condutores da pesquisa. Concluímos, portanto,
que a relevância de nosso estudo reside na capacidade de explorar a dinâmica entre o indivíduo e a sociedade
através da análise de trajetórias pessoais. As imagens, com seu poder de evocar e transformar percepções do
passado, são inestimáveis e estão em constante transformação. Além disso, as Forças Armadas e seus
membros são elementos fundamentais da estrutura social, o que justifica a investigação dessas entidades.
Apoio:
A Instrumentalização da Marinha Imperial Brasileira a Serviço da Ciência: a narrativa da expedição
científica à região da Patagônia entre 1882-1883
Em “Notas de Viagem ao Correr Tomadas ao Correr da Pena Durante a Comissão da Corveta Parnahyba ao Estreito
de Magalhães e Costa da Patagônia por Ocasião da Passagem de Vênus pelo Disco Solar em 06 de Dezembro de
1882”, o oficial da Marinha Imperial e comandante da referida embarcação, Luiz Philippe Saldanha da Gama, munido
de uma escrita científica oitocentista, descreve a região geográfica da costa da Patagônia chilena e argentina,
investigando a capacidade de seus portos, as extensões hidrográficas, a altitude das montanhas e observações
meteorológicas, intercalando com prospecções da fauna, flora e geografia física em geral, além de um estudo
etnológico das populações nativas e seu grau de civilização e cultura material. Aproveitando-se dos materiais
investidos para o registro do fenômeno da Passagem de Vênus pelo Disco Solar, principalmente o meio naval e seus
utensílios náuticos para medir latitude e longitude, a narrativa de viagem se insere na tradição das expedições
marítimas e científicas à região do Estreito de Magalhães, relacionando a “luta pela vida”, a interiorização civilizatória
e os aspectos geoestratégicos na região das “paragens solitárias” patagônicas. Por meio de excursões pelos canais,
baías, lagos e vias terrestres da região “magalhâmica”, vai tecendo-se pela pena do então Capitão de Fragata
Saldanha da Gama não penas uma cartografia de novas rotas, passagens e ancoradouros, mas também uma
representação do espaço e as populações indígenas. Desse modo, é possível identificar projetos políticos
colonialistas em torno das navegações pelos canais austrais da Patagônia, projetos estes patrocinados pelo Império
Brasileiro, com o objetivo de localizar novas rotas comerciais em torno da porção marítima austral da América do Sul.
Assim, o propósito da comunicação é trazer a luz a destacada comissão científica capitaneada pela Marinha
Imperial, que nos legou, além do registro do fenômeno astronômico, evento importante para a comunidade científica 132
mundial da época, uma escrita antropogeográfica a serviço dos objetivos civilizatórios, econômicos e a
aplicabilidade estratégica em abrir novas rotas de navegação na região da Patagônia.
Capitães, colonos e artífices: por uma história marítima da imigração portuguesa no Brasil oitocentista
Na historiografia das migrações no Brasil, pouca atenção tem sido dada à história marítima. Os navios são
entendidos como meros meios de transporte que carregavam imigrantes europeus aos portos brasileiros. A
atuação dos capitães e armadores dos navios no engajamento dos imigrantes e na sobrelotação das
embarcações não recebeu a devida atenção. O papel dos capitães, que viram na busca por trabalhadores no
Império uma oportunidade de negócio, emergiu na pesquisa sobre a migração contratada de portugueses para
os portos do Brasil entre as décadas de 1830 e 1860. Os capitães e mestres das embarcações buscavam por
passageiros, recrutando e engajando trabalhadores despossuídos, impossibilitados de pagar pelos fretes, na
certeza de que, nos portos de destino, encontrariam empregadores interessados em contratar o trabalho dos
imigrantes e dispostos a arcar com os custos da viagem. Esses engajadores de mão de obra atuavam tanto por
iniciativa própria, quanto a serviço de contratadores no Brasil, que buscavam atrair colonos para suas
propriedades. Não raro, eram procurados pelos agentes consulares do Brasil em Portugal, responsabilizados
pela contratação, nas cidades portuguesas, de artífices qualificados para trabalhar nos Arsenais da Marinha do
Império. As passagens de colonos e artífices eram antecipadas pelos contratadores e deduzidas dos salários
auferidos pelos imigrantes em períodos que variavam de três a cinco anos. Para que o transporte desses
imigrantes fosse lucrativo, era necessário lotar os navios com indivíduos despossuídos que, em busca de uma
vida melhor, arriscavam-se a embarcar na esperança de serem contratados no destino. Realizar uma história
marítima da imigração portuguesa no Brasil permite ampliar o conhecimento sobre esse fluxo migratório, pois:
(i) evidencia que o valor das passagens não barrava a emigração de indivíduos empobrecidos; (ii) diversifica as
fontes, possibilitando uma aproximação do volume da imigração para períodos de que não dispomos de
estatísticas oficiais; (iii) permite descortinar o trânsito atlântico que viabilizou as experiências pioneiras de
Apoio:
atração de mão de obra europeia ao Brasil. Esta apresentação procura avançar na reflexão sobre as conexões
entre história marítima e a história da imigração portuguesa no Brasil a partir de: correspondências consulares
recolhidas no Arquivo do Itamaraty, contratos assinados entre imigrantes e capitães de navios ou
contratadores, como o Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro, e registros da movimentação dos portos
publicados nos jornais brasileiros oitocentistas.
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
133
Apoio:
ST 15
História Pública Digital: Multiletramento do passado e
produção de conteúdo autoral
Coordenação:
Flávia Beatriz Ferreira de Nazareth (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Josué Valandro Junior: a relação religião e politica a partir da história digital de um pastor batista
A partir da História Política do Tempo Presente e da História Digital, a comunicação busca destacar a atuação
do pastor Josué Valandro Junior, na construção de pautas político-religiosas que ajudaram na mobilização do
projeto de extrema direita de Jair Bolsonaro até o poder. Busca-se com o trabalho relacionar parte de sua
trajetória mais recente com uma “teologia do poder autoritário”, a partir das cenas digitais do pastor quando
muniu o bolsonarismo com prédicas, hermenêuticas, exegeses para fortalecer publicamente a figura do ex-
presidente. Nesse sentido, a produção digital das redes sociais do pastor, alimentou uma forma autoritária de
governo movido pela guerra dos deuses junto ao pelo Estado cujos efeitos são o desprezo à ciência e
134
contrariedade à pluralidade democrática.
No Brasil o conceito de praça pública é comumente associado à imagem de um espaço livre, verde, ajardinado,
como lugar do lazer dos indivíduos tais associações enfraquecendo entre nós o sentido histórico atribuído ao
conceito que também define a praça pública como espaço de sociabilidade e, por excelência, como espaço do
debate de ideias entre os cidadãos de uma determinada urbe. Seja como for, as distintas acepções de praça
pública acima guardam um elemento em comum: a praça pública também é um lugar de referência geográfica
(no sentido da localização) no labirinto das várias ruas. Com base nesses pressupostos a presente
comunicação tem por objetivo apresentar os resultados parciais dos trabalhos do nosso grupo de pesquisa
sobre as particularidades da espacialidade da praça da República (localizada na cidade Niterói) que
singularmente escapa ao quadro das definições elencadas acima (principalmente quando consideradas
objetivamente do ponto de vista dos indivíduos), mas que, simultaneamente se faz presente e se represente
nos meios digitais.
Múltiplos letramentos no ensino de História: Entre o analógico e o digital nos processos de aprendizagem
em História da Educação Básica
O presente texto discute o uso do digital nas aulas de História na educação básica. Nas maneiras de fazer, de pesquisar,
de produzir materiais autorais em processos de aprendizagem significativos. Tecemos reflexões acerca de táticas que
Apoio:
ressignifiquem pelo uso os produtos da investida de colonização digital de grandes oligopólios e contribuam na
formação de sujeitos que se movimentam em uma sociedade atravessada por redes sociais e múltiplas narrativas do
passado. Considerando a práxis, enquanto o encontro entre a teoria e a prática, nossas discussões ocorrem junto ao
relato de uma prática docente que desenvolvemos entre os anos de 2022 e 2023 em classes do oitavo ano da educação
básica no Colégio Municipal Elza Ibrahim, na cidade de Macaé, RJ. Em nossa metodologia de ensino utilizamos múltiplas
estratégias, que incluíam aula expositiva dialogada, roda de conversa, aprendizagem baseada em investigação no
ciberespaço, exploração de recursos digitais como aplicativos de podcasts e de animações, exposições virtuais,
ideação e criação de narrativas em ambiente digital e analógico. As fontes operadas pelos alunos incluíram o livro
didático, notícias de jornais digitais locais e nacionais, os sambas enredo “Liberdade, Liberdade abre as asas sobre nós”
e “História para ninar gente grande”, o site da Olimpíada Nacional de História do Brasil (ONHB) na seção “Excluídos da
História: uma exposição virtual” e a Wikipedia.
São muitos os debates em torno das mudanças educacionais. Um dos mais relevantes é, sem dúvida, o que
considera os usos e os abusos do emprego de tecnologias. Na atualidade, esse debate ganhou urgência em
razão da pandemia de Covid-19 e, igualmente, do uso descontrolado que cada vez mais crianças, adolescentes
e jovens fazem de dispositivos eletrônicos. No caso da pandemia mencionada, é inegável reconhecer que
houve, em muitas regiões do país, em redes particulares e públicas, certos atropelos, muito em razão da 135
necessidade de oferecer resposta ao abandono intelectual que se desenhava para a população em idade
escolar. Reconhecer açodamento é uma forma de olhar para o que passou de modo responsável,
reconhecendo a conjuntura, avaliando com razoabilidade os acertos e os equívocos. A relação entre tecnologia
e educação deve ser pensada, planejada, executada e avaliada de maneira que ultrapasse a visão mais comum
em que a primeira serviria para tornar as aulas mais interativas, dinâmicas e consequentemente mais atrativas.
É nesse sentido que a comunicação problematiza: faz sentido investir em videoaulas como recurso de
aprendizagem? É recomendável utilizar esse expediente para apoiar a assimilação de saberes históricos?
Obviamente, as respostas para as perguntas apresentadas acima devem considerar alguns fatores. Quando
videoaulas passaram a ser adotadas como ferramenta de ensino e de aprendizagem, a pandemia de Covid-19
foi um elemento contextual de peso. Naquele período, forçados a se afastarem das unidades escolares,
docentes e discentes viram-se diante de um problema que pareceu insolúvel em muitos momentos.
No Brasil, a transmissão de videoaulas é um expediente antigo. Embora o modelo proposto pela Secretaria
Municipal de Educação da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro em parceria com a Multirio possua diferenças
em relação a maior parte do que já foi proposto anteriormente, é possível identificar linhas de continuidade.
Isso significa que aquilo que foi posto em prática na urgência sanitária teve um ineditismo relativo.
Este texto explora, então, as maneiras pelas quais a tecnologia – em especial, videoaulas – foi utilizada entre
os anos de 2020 e 2022 na rede educacional pública carioca para fins de ensino de história. Nesse movimento,
examinará os benefícios, os desafios e, igualmente, fará considerações técnicas sobre as experiências dos
programas [Link] e Rioeduca na TV. Outro objetivo é expor a noção de história pública e ideias correlatas,
avaliando suas conexões com o ensino de história, especialmente nas experiências acima mencionadas.
Virgínia Albuquerque de Castro Buarque (UFOP), Maycon Gabriel Sant'Ana Gomes (UFOP)
A comunicação visa apresentar o projeto, de cunho extensionista com interface à pesquisa, que se dedica à
produção, no biênio 2023-2024, referente à produção da audiossérie intitulada “Sonoridades Históricas Afro-
Apoio:
indígenas em Barra Longa-MG”. Ele é realizado em parceria com a Rádio UFOP, com a Secretaria de Cultura e
Turismo e a Câmara de Vereadores de Barra Longa. Simultaneamente, conta com a crucial participação de
moradores desse município situado na região das primeiras extrações auríferas em Minas, que atualmente
possui cerca de 5.000 habitantes, a maioria dos quais afrodescendente. Os podcasts integrantes da
audiossérie têm como temáticas sonoridades ambientais (como vocalizações de aves da região consideradas
de “mau-agouro”) e cultural-religiosas (como a Guarda de Marujo e o Congado de um dos povoados). Os temas
dos podcasts foram escolhidos em diálogo entre a equipe do projeto e moradores de Barra Longa. A
metodologia utilizada para produção dos podcasts embasa-se na história oral, em diálogo com as concepções
de história pública e de mediação cultural exercida pelos professores de História. Postula-se, como hipótese
norteadora da audiossérie, que as sonoridades históricas afro-indígenas comentadas ou testemunhadas pelos
moradores de Barra Longa possam ser entendidas como “fabulações” (isto é, uma maneira de
dizer/ressignificar o vivido nas brechas das narrativas oficiais, conforme o sentido conferido ao termo pelo
historiador e teórico interdisciplinar Michel de Certeau). Assim, através da promoção/escuta dessas
sonoridades históricas, os habitantes de Barra Longa articulam suas práticas cotidianas com suas identidades
sociais e suas reivindicações políticas.
Desafios do ensino de história na era digital: pensando alternativas com jogos pedagógicos
Claudia Monteiro (UNIOESTE), Yago Hettwer (UNIOESTE), Ian Lucas Gomes (UNIOESTE)
A reflexão sobre história pública e ensino de história nos leva inevitavelmente a pensar na presença crescente 136
do uso das tecnologias digitais em todas as suas formas (smartphones, tablets, computadores, videogames,
televisões etc.) na sociedade contemporânea. Ao promoverem novas formas de comunicação, as tecnologias
têm um impacto significativo no desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes e consequentemente
nas salas de aula. Esse cenário nos impõe o desafio de explorar alternativas criativas para o ensino de História
tal como o desenvolvimento de jogos educativos voltados para o ensino de História. Nessa comunicação
apresentaremos os resultados de elaboração e aplicação de jogos educativos de História desenvolvidos pela
equipe do Laboratório de Ensino de História da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná).
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 17
História, Memória, Patrimônio e Comemorações
Coordenação:
Renata de Almeida Oliveira (UNIGRANRIO)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
O uso do fenômeno do Holocausto como símbolo religioso pela extrema-direita evangélica no Brasil
137
(2005-2024)
O objetivo da comunicação é trazer para o debate de que maneira o Holocausto é mobilizado por grupos religiosos
brasileiros contemporâneos, vinculados à Assembleia de Deus - a segunda maior denominação evangélica do Brasil.
Em outras palavras, pretendemos identificar a gramática política envolvida na abordagem e no suporte material das
fontes da pesquisa, portanto, caracterizar qual a perspectiva esse grupo focal tem sobre o Holocausto e manifestam
isso culturalmente. Para essa pesquisa as fontes coletadas foram mobilizadas durante a dissertação de mestrado. As
fontes são provenientes de uma instituição de venda de cursos pastorais atrelada à denominação da Assembleia de
Deus, chamada Faculdade Gospel, que tem sua sede em Ituiutaba-MG, embora conte principalmente com uma
presença virtual que aumenta consideravelmente a circulação de seus produtos. As fontes se tratam de livros e DVDs
de cursos pastorais e entrevistas com membros da igreja desse grupo. É parte da pesquisa tentar localizar mais fontes e
redes ideológicas envolvidas no processo de produção dessa obra ou vínculos com outras denominações religiosas. Por
ser uma pesquisa que lida com o tempo presente imediato, há uma metodologia e uma base teórica adequadas para
tratar desse recorte, tanto no que diz respeito à análise do discurso quanto à historiografia do tema. O léxico da pesquisa
é delicado, pois estão em jogo disputas políticas acerca dos significados de palavras como “Israel”, “judeus” e
“Holocausto” e estes termos se tornaram lugares de memória que estão em concorrência na contemporaneidade. Nas
fontes selecionadas aprofunda-se o debate sobre seus sentidos por estarem acionadas dentro do campo religioso.
Essas disputas dos sentidos dessas palavras têm relação direta com uma gramática do antissemitismo consolidada nas
perspectivas da extrema-direita contemporânea. O tema é relevante para trazer à tona novas formulações sobre as
maneiras de se lidar com a memória do Holocausto (ou Shoá) e seus produtos na cultura dentro dos espaços religiosos
mencionados. Ao mesmo tempo que essas perspectivas confessionais criam visões de mundo e caminhos políticos
que interferem no debate público. Afetam os debates sobre o tema do Holocausto e da judeidade, dado que a visão de
mundo apresentada por estes materiais se baseia em uma narrativa filossemita, de proximidade com símbolos do
judaísmo e com o Estado de Israel, e ao mesmo tempo antissemita, pois acreditam na ideia de uma conspiração judaica
mundial poderosa que deve ser vista como aliada.
Apoio:
Memórias traumáticas dos Sobreviventes do Holocausto
O Holocausto é uma temática discutida por elevado número de pesquisadores. Entretanto, dado a sua
importância e na condição de um dos eventos mais traumáticos do século XX, é fundamental trazer as
narrativas dos poucos sobreviventes e, nesta tese, destacamos os que vivem no Brasil. Neste estudo, pretende-
se analisar situações traumáticas vivenciadas por sobreviventes do Holocausto, residentes no Brasil, com base
em narrativas de 5 (cinco) sobreviventes, realizadas através de entrevistas gravadas em 2017. Como ponto
essencial, trabalhamos com fotografias realizadas nos locais onde os referidos sobreviventes estiveram
aprisionados. A visualização das fotografias produziu narrativas emocionantes e singulares por parte dos
entrevistados, demostrando uma possibilidade de discutir lembrança e memória. diários tardios foram
escritos, quando todos os entrevistados já tinham mais de 50 anos, e as entrevistas foram realizadas, quando
todos entrevistados tinham mais de 70 anos. A criação destes diários se deu depois que estes sobreviventes
decidiram contar sua história de sobrevivência ao regime nazista, primeiro entre pequenos grupos em
associações, sinagogas, e depois em escolas, geralmente onde os netos estudavam. O referencial teórico se
deu em 5 grandes dimensões para abordar a questão de relatar o trauma vivido há mais de 60 anos por pessoas
que na época eram crianças os adolescentes. A primeira, no nível da historiografia, identidade, a memória,
lugares e não lugares e das imagens.
O Radical no ideário da Revolução Francesa: Uma análise das noções basilares da democracia do século 138
XVIII
A presente pesquisa discute a trajetória dos agentes políticos que serviram de arcabouço para a Revolução na
França setecentista e seus desdobramentos para a democracia modernista considerada radical. Algumas
problemáticas secundárias atravessam a análise proposta acima: a nova situação política da França a partir do
governo dos Jacobinos; a relação entre a monarquia de Luís XVI e o povo francês; os textos constitucionais
promulgados de 1791 a 1799; as várias manifestações populares que ambientaram um dos maiores momentos
de terror da história francesa. Todas estas temáticas se relacionam de forma simbiótica e dialoga com os
aspectos multifacetados do período. Os interesses destes para a investigação varia conforme contribuição
analítica que cada um pode fornecer à consecução dos objetivos precípuos da pesquisa aqui proposta.
Esta proposta pretende levantar questões em torno das narrativas da História a partir da análise da escultura
Monumento ao Descobrimento. A escultura está localizada na cidade do Rio de Janeiro, no bairro da Glória, e
foi inaugurada em 1900 em virtude das Comemorações do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil,
sendo idealizada por Ernesto Cibrão e com autoria de Rodolfo Bernadelli, ambos membros da Comissão do
Quarto Centenário. A escultura recebeu uma intervenção em agosto de 2021, em razão da votação do Projeto
de Lei 490, conhecido como Marco Temporal. Esculturas urbanas com temática histórica compõem um acervo
público e a produção e usos desse acervo dizem sobre a elaboração de narrativas do passado e as
possibilidades em torno do ensino da História. A discussão sobre esculturas urbanas tem crescido na
atualidade devido a diversas intervenções que ocorreram globalmente nos últimos anos. Os estopins para as
Apoio:
ações se apresentam variáveis dependendo da localidade, no entanto um fator se faz presente sem exceção: o
questionamento em torno da representatividade das imagens erguidas. Para a análise se propõe realizar uma
historicização da escultura permeando o tempo histórico que ela representa, o tempo histórico em que foi
construída e o tempo histórico de recepção contemporâneo. A metodologia empregada partirá de revisão
bibliográfica sobre a escultura, análise de fontes relativas à Comissão do Quarto Centenário e da materialidade
da escultura em si. Também se propõe uma análise da ficha catalográfica da Maquete para a escultura
Monumento ao Descobrimento, parte do acervo do Museu Nacional de Belas Artes (RJ), e sua relação com a
escultura erigida em praça pública. Pretende-se compreender os interesses políticos em torno da escultura e
identificar os valores atribuídos ao bem cultural que, por vezes, são entendidos como intrínsecos a este. A
pesquisa está em andamento e é possível observar uma relação entre os produtores da escultura e a tentativa
de construção de um imaginário para a Primeira República. Também se nota a intencionalidade de construção
da história nacional a partir da perspectiva de intelectuais com atuação no Rio de Janeiro.
O presente trabalho procurou apresentar uma análise crítica a respeito da construção do patrimônio cultural
religioso brasileiro, de maneira interdisciplinar, associando áreas de conhecimento diversificado.
Considerando que em diversas localidades brasileiras existem monumentos que adquiriram importância para
o espaço urbano, onde algumas obras passam a ser consideradas testemunhas do desenvolvimento local em 139
que estão inseridas, e a elas são atribuídos valores especiais, onde passam a ser denominadas patrimônio
cultural. E para tal a presente pesquisa de revisão bibliográfica utilizou-se das informações encontradas no
IPHAN – ACI e o Noronha Santos. E como resultado verificou-se que o momento fundador das práticas oficiais
preservacionistas do patrimônio cultural foi iniciado em 1937, com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico
Artístico Nacional (SPHAN), através do Decreto-lei nº 25, elaborado a partir do anteprojeto de Mário de
Andrade, viabilizado dentro do contexto autoritário da ideologia do Estado Novo. Cujo projeto nacionalista e
centralizador e tinha como objetivo a unidade e identidade nacional. Que previa a incorporação de “capitais
simbólicos”, potencialmente capazes de sintetizar a nação num sentido de “brasilidade”. E de acordo com essa
perspectiva, ressalta-se que a posição privilegiada da Igreja dentro do Estado foi marcante, no que tange a
temática patrimonial, considerando o âmbito da gestão estatizada de bens simbólicos, uma vez que os
arquivos pesquisados revelaram informações de que a Igreja foi à entidade civil mais atingida pelos
tombamentos, além de ser beneficiada pelo poder público, de várias obras de restauração dos bens religiosos
sob a sua guarda, no período, sobretudo do ano de 1938. Observou-se que ao abrir essa porta, a igreja emitia
discursos, a partir de vários suportes, associando à fé a unidade nacional, retomando um elo que a Primeira
República buscou romper constitucionalmente. E finalizando-se as análises considerou-se que essa proposta
de ideal brasileiro não contemplou a herança indígena e afro-brasileira, uma vez que os tombamentos
privilegiaram as propriedades da elite intelectual da sociedade. A classe popular não se viu representada nos
bens "patrimonializados", determinados pelo governo.
A FESTA QUE O ESTADO NOVO ESCOLHEU CELEBRAR: a criação do Dia do Índio no Brasil e sua celebração
na Semana do Índio e no Posto Indígena de Nacionalização Guido Marliére no ano de 1944
O respectivo trabalho pretende abordar os resultados obtidos na minha pesquisa para a realização do trabalho
de conclusão de curso na graduação em História na Universidade Federal do Rio de Janeiro. O Dia dos Povos
Indígenas no Brasil foi criado em 1943 pelo presidente vigente da época, Getúlio Vargas, a partir do Decreto Lei
Apoio:
Nº 5.540/1943. Na ocasião, a data recebeu a nomenclatura de Dia do Índio, porém, em 2022, foi aprovado o
Projeto Lei 5.466/2022, proposto pela deputada indígena Joenia Wapichana (REDE/RR), que renomeou a data
para Dia dos Povos Indígenas. A adesão do Brasil ao Dia do Índio em seu calendário aconteceu três anos após
a realização do Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, em 1940, em Pátzcuaro, México, onde, a partir
de longos debates entre diferentes países do continente americano, ficou definido que o dia 19 de abril de cada
ano seria reservado para a celebração das sociedades indígenas. Durante o Estado Novo, Vargas tinha como
proposta de governo “organizar” o Brasil diante do forjamento de uma nova identidade nacional. Um dos pontos
principais dessa política era a integração das sociedades indígenas à nação. Em vista disso, políticas
indigenistas foram desenvolvidas a fim de integrar os indígenas à nação e homogeneizá-los. A criação do Dia
do Índio foi um dos artifícios utilizados pelo governo que serviu como método de controle das sociedades
indígenas. Portanto, esse trabalho busca explorar o processo de criação do Dia do Índio no Brasil em 1943,
durante o período do Estado Novo. Na tentativa de entender a metodologia adotada pelo governo de Getúlio
Vargas na prática das políticas indigenistas, buscamos compreender os interesses por trás da criação do Dia
do Índio e a forma como a data foi inserida e comemorada na sociedade brasileira. Para tal propósito,
analisamos dois documentos produzidos pelo governo estadonovista, que relatam como foram as celebrações
do Dia do Índio, em 1944, na capital do Brasil, Rio de Janeiro, e no Posto Indígena de Nacionalização Guido
Marliére, em Minas Gerais. Nesse sentido, defendemos que a criação do Dia do Índio esteve inserida dentro de
um complexo projeto político que visava a homogeneização das sociedades indígenas a partir de sua
nacionalização. A ritualização do Dia do Índio tinha como objetivo o resgate simbólico das memórias das
sociedades indígenas a fim de criar um "novo" indígena que fosse eleito, pelo governo, o verdadeiro símbolo da
brasilidade. Portanto, adotamos o conceito de Pierre Nora (1993) acerca dos lugares de memória e entendemos
o Dia do Índio como um lugar de memória capaz de estabelecer uma relação com o passado, ao resgatar
narrativas submersas e ocultas, mas também contestar narrativas ditas como verdades absolutas. 140
Entre Tradições e Celebrações: A Festa de São João Batista e o Patrimônio Cultural na Baixada
Fluminense, com Foco em São João de Meriti
Este estudo explora a interseção entre tradições culturais, celebrações festivas e o patrimônio histórico na
Baixada Fluminense, com um foco específico na Festa de São João Batista em São João de Meriti. Investigando
a importância cultural e histórica dessa festa religiosa, o trabalho analisa como ela contribui para a preservação
da memória coletiva e do patrimônio cultural da região. Além disso, examina o papel da festa na promoção da
identidade local, coesão social e turismo cultural em São João de Meriti e nas áreas circunvizinhas da Baixada
Fluminense. Ao destacar as tradições seculares e as comemorações contemporâneas relacionadas à Festa de
São João Batista, este estudo visa enriquecer a compreensão do papel das celebrações festivas na preservação
e promoção do patrimônio cultural em contextos regionais específicos.
A estruturação do campo futebolístico e a massificação do futebol nos anos de 1920: São Januário como
estudo de caso
Com o trabalho, refletimos sobre o alargamento do futebol carioca culminando nos anos de 1920, com
dedicação especial à construção do Estádio de São Januário - trabalhada como estudo de caso - e ao Club de
Regatas Vasco da Gama. Em vias de se atingir uma inteligibilidade sobre a instituição em sua coletividade e os
parâmetros da edificação de seu estádio propomos, anteriormente, algumas considerações acerca da
estruturação do campo futebolístico do Rio de Janeiro e a popularização do jogo em contexto anterior, de
Apoio:
transição secular e anos de 1910. Além disso, refletimos sobre a que historicidade essas formações
respondiam no eixo progresso-civilização. A partir de então, abordamos de que modo um processo de
massificação do esporte se encaminhou tendo no Vasco, em medida a ser analisada, um propulsor de agências
sociais antes não consideradas no universo simbólico senão como grupos a serem dominados. Finalmente,
consideramos como os clubes associativos dedicados ao futebol liam indicados processos no contexto
definido em função dos seus interesses de competir, tomar ou manter as posições dominantes nesse espaço
estruturado/estruturante. Através da percepção sobre como o campo futebolístico se ajustou mais
proximamente ao que é hoje no recorte que vai de 1919 a 1927, indagamos sobre os capitais que
balizaram/balizam a estrutura esportiva no Rio, como o estádio foi erigido em função desses capitais e como,
nas discussões que viabilizaram sua construção, ele foi evocador de um esporte que se conduzia em função
de se tornar marca da cultura carioca e patrimônio dos cidadãos fluminenses, definições que não eram
associáveis a ele quando de sua chegada e estruturação e, tampouco, se ajustava ao tipo ideal de clube
associativo na virada do século XIX para o XX
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Território Quilombola: Local de memórias, fortalecimento identitário e afeto - Analise a partir do (re)
significar do PPP da EMEBQ “Pedra Branca”
141
Janete Vilela da Paschoa (UNIGRANRIO), Tamara de Souza Campos (UNIGRANRIO)
O presente estudo tem como proposta analisar a reestruturação do Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola
de Educação infantil e Básica, localizada na comunidade quilombola de Pedra Branca – Vargem Alta – ES,
território composto por 115 famílias e 404 moradores no total. Antes considerada escola do campo, a partir de
consulta realizada pelo espaço escolar, apoiada pela Secretaria Municipal de Educação, identificou-se o
desejo dos pais, mães ou responsáveis, que seus filhos/filhas recebessem ensinamentos voltados para a
valorização do território e de suas raízes ancestrais. Dessa forma, pretendemos analisar o processo de
construção de um novo PPP cuja proposta era atender ao desejo dos moradores da comunidade quilombola,
bem como atender disposto na Lei nº 10.639/03, juntamente com a resolução de nº 8 de 20 de novembro de
2012. Partimos do princípio de que podemos considerar tanto a legislação para o ensino de história da cultura
afro-brasileira quanto o próprio PPP como lugares de memória, nos termos de Pierre Nora. Portanto, vamos
procurar localizar no PPP como e onde a cultura e história afro-brasileira aparecem no referido documento,
dedicando especial atenção ao ritmo e dança do Caxambu. Assim, a metodologia a ser adotada é a análise
documental e vamos procurar observar até que ponto foi feito um diagnóstico da comunidade escolar,
considerando também o perfil da comunidade do entorno, se a história e identidade da instituição revelam a
vocação quilombola, se missão, visão e valores da escola expressam elementos fulcrais de um ensino pautado
na cultura afro-brasileira e que metas, objetivos, estratégias e metodologias são apontadas para a construção
de um ensino não apenas antirracista, mas que evoque e empodere a cultura africana ancestral e suas
reatualizações no espaço em questão, assim como o espaço dedicado ao Caxambu no PPP, dado sua
importância na cultura da comunidade como elemento de coesão social e quilombola. Destacamos que em
2023 a escola possuía 51 alunos/alunas devidamente matriculados/matriculadas e que esta instituição, até o
ano de 2021, recebia políticas públicas direcionadas às escolas do campo.
Apoio:
Processos atuais de memorialização e narrativas sobre a escravidão em dois portos do Atlântico: Cais do
Valongo (Rio de Janeiro, Brasil) e Gadsden's Wharf (Charleston, EUA)
A comunicação busca apresentar e discutir registros e insights da pesquisa sobre as narrativas presentes e os
processos de memorialização de dois lugares de memória da escravidão atlântica em perspectiva comparada:
o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, e o Gadsden's Wharf, em Charleston, Carolina do Sul.
No contexto da segunda escravidão, no início do século XIX, ambos os portos representaram os principais
pontos de chegada e venda de africanos escravizados no Brasil e nos EUA. No Valongo, estima-se o
desembarque de 600 a 800 mil africanos, no cais de Charleston, de 152 mil. No presente, após mais de um
século de apagamento, a memória pública da escravidão nesses lugares está sendo recuperada e
reinterpretada, no contexto das políticas de reparação e memória de afro-americanos e afrobrasileiros. A
pesquisa - em desenvolvimento junto ao Programa de Pós-Graduação em História Comparada do Instituto de
HIstória da UFRJ - pretende identificar as narrativas presentes sobre o passado, os temas abordados e as
estratégias museais utilizadas para apresentar o tema. Por serem lugares diretamente associados ao tráfico e
à violência contra os escravizados, os portos de chegada - como lugares de memória difícil - constituem um
interessante objeto de estudo sobre a relação entre as memórias e identidades negras, em confronto (e
negociação) com a memórias e identidades nacionais de ambos os países.
Escrevivências de Conceição Evaristo: Um diálogo entre Lélia Gonçales e Sueli Carneiro 142
Leandro da Conceição Avelar (PREFEITURA)
Este artigo propõe uma análise crítica das obras literárias de Conceição Evaristo, uma escritora negra brasileira,
a partir de um diálogo entre duas importantes referências do movimento negro brasileiro: Lélia Gonzáles e Sueli
Carneiro. Através desse diálogo, o artigo busca explorar a forma como Evaristo utiliza a escrita como ferramenta
de resistência e empoderamento, além de examinar as temáticas presentes em sua obra, como a identidade
negra, o racismo estrutural e as questões de gênero. O texto discute as principais contribuições teóricas de
Gonzáles e Carneiro para a compreensão das experiências das mulheres negras no Brasil, relacionando-as
com as narrativas e poesias de Evaristo. O artigo destaca como a escrita de Evaristo cria espaços de
representação e visibilidade para as vozes negras, desafiando estereótipos e expondo as opressões vivenciadas
pelas mulheres negras na sociedade brasileira. Além disso, o artigo analisa as estratégias literárias utilizadas
por Evaristo, como o uso de uma linguagem poética e simbólica, a incorporação de elementos da tradição oral
afro-brasileira e a valorização da ancestralidade negra. Essas estratégias são examinadas à luz das teorias de
Gonzáles e Carneiro, que enfatizam a importância da memória coletiva e da valorização das culturas
afrodescendentes para a construção de identidades negras positivas.
O presente trabalho tem por objetivo propor uma reflexão inicial sobre memória, ancestralidade e resistência a
partir das narrativas ancestrais contidas nas práticas africanas dos bantus e versa sobre a pessoa e a
comunidade dentro desse contexto – na identidade muntu dos povos bantus, o saber está relacionado a própria
origem da vida; assim, cada pessoa desenvolve-se de acordo com saberes específicos e vincula-se à memória
a transmissão de seus hábitos-. O conhecimento reside na memória, ela é viva e essencial para manter a
sociedade. Dessa forma, a educação é um lugar de pertencimento e significado de ser e agir do próprio
Apoio:
indivíduo e esse, por sua vez, é ao mesmo tempo, parte da comunidade, tal situação desvela a relevância do
todo sobre o que o compõe, não existe vida sem a comunidade. Portanto, a palavra assume aqui um fator de
real desempenho na continuação da sociedade, sendo ela a responsável por vida e, ou, morte social nets e no
outro mundo, qualquer vestígio de inverdade explicita uma negação ao passado e a memória ancestral,
devendo ser reportado imediatamente. Toda estrutura profissional segue bem dividida a partir das funções
memorialistas de cada componente do grupo, onde cada saber é efetuado de modo ritualístico.
A pesquisa foi desenvolvida partir da observação do seminário: Memória, reconhecimento e reparação.
Apresentamos as narrativas de Conceição Evaristo, Nego Bispo, Salloman Salomão e outros pensadores
negros. A pesquisa foi dividida na seguinte forma: introdução, referencial teórico, oralidade e pertencimento, a
importância da pessoa– significância muntu, a supressão da memória facilita a dominação e possíveis
conclusões. O estudo é uma discussão inicial sobre o tema.
Coordenadoria de Leitura Literária da Rede Municipal de Ensino de Duque de Caxias: estudo sobre as
ações de fomento à literatura no município
O estudo a ser apresentado compreende a análise das ações de fomento à literatura no âmbito do município
de Duque de Caxias, planejadas e executadas pela Coordenadoria de Leitura Literária da Secretaria Municipal
de Educação DC. O trabalho com a literatura, em especial o realizado na Rede Municipal de Ensino de Duque
de Caxias, prima pela oferta da experiência literária baseada no conceito de Candido (2012) - objeto 143
indispensável à condição humana. A pesquisa prevê, portanto, a análise dos avanços e dos entraves para a
execução das ações literárias pela Coordenadoria ao longo de vinte anos de existência.
O presente trabalho visa mostrar como a arquitetura do edifício do Ministério da Educação e Saúde Pública
(MESP) buscou refletir as ideias de modernidade que condiziam com os interesses do então contexto social e
político. Antes mesmo do golpe de 10 de novembro de 1937, o plano de uma nova sede para o MESP já estava
sendo elaborado, com direito a um concurso em que o arquiteto Archimedes Memória havia sido o vencedor.
No entanto, seu projeto foi descartado pelo ministro da pasta, Gustavo Capanema, que decidiu encarregar uma
equipe de arquitetos modernistas liderados por Lucio Costa da missão de projetar um novo edifício. Através de
Apoio:
documentos presentes no acervo Capanema (no CPDOC), especialmente as correspondências e relatórios,
buscamos mostrar e entender os objetivos que atuaram na construção da sede, como as influências ao longo
do projeto do arquiteto franco-suíço Le Corbusier (um dos principais nomes no uso arquitetura do concreto
armado no mundo). Desta forma, é possível observar as ligações existentes entre políticos e arquitetos para
edificar uma obra capaz de refletir uma imagem “nova” para um governo que se alinhava a ideias modernas.
Durante o projeto “Das guerras de conquista à independência do Brasil: um Rio de revoltas (séculos XVI-XIX)”,
coordenado pelo Prof. Luciano Figueiredo e vinculado com o site “Impressões Rebeldes”, surge a necessidade
de pesquisas voltadas para o grande público, ensino básico e historiadores. Nesse sentido, as pesquisas
tinham como objetivo mapear as revoltas nos territórios que a legislação entendia como Rio de Janeiro e
construir uma base de dados que pudesse interligar os conflitos com os atuantes e os locais georreferenciados.
Diante da complexidade da Independência, se limita à Revolta da Praça do Comércio. Tal tema desdobrou-se
como tema principal da minha pesquisa de monografia orientada pela Professora Doutora Gladys Ribeiro. No
dia 21 de abril de 1821, indignados com o retorno do Rei D. João VI para Portugal, um grupo de eleitores
paroquiais da cidade do Rio de Janeiro se amotinou na Praça do Comércio, onde estavam sendo escolhidos os
deputados que iriam representar o Brasil nas Cortes lisboetas. O retorno do Rei D. João VI já era de
conhecimento público desde a publicação do Decreto do dia 7 de março, porém, tanto os eleitores quanto a 144
população ficaram perplexos que o corpo do governo provisório já havia sido nomeado pelo rei. Luís Duprat foi
quem iniciou e liderou o motim, como esse protesto viria a ser conhecido. Ali, podiam ser ouvidas as queixas e
gritos de “Aqui só governa o povo!” (SOUSA, 2015, p. 228-229). O movimento ganhou força com o apoio dos
eleitores locais, magistrados, negociantes e de parte das camadas populares. Com os ânimos exaltados, os
amotinados tomaram o prédio da alfândega e impuseram medidas ao rei, que logo reagiu com uma severa
repressão por meio do Batalhão da Companhia de Caçadores durante a madrugada do dia 22 de abril. Na
semana seguinte, no dia 26 de abril, mesmo contra a vontade do povo, o Rei D. João VI retornou a Portugal,
deixando o príncipe D. Pedro como Regente no Brasil. Sendo assim, o intuito da apresentação se enquadra na
manifestação dos processos da pesquisa e na divulgação científica que não se restringe a comunidade de
historiadores.
Apoio:
ST 18
Histórias e Memórias Negras: possibilidades e limites do uso
da biografia e da autobiografia para uma Educação
Antirracista, sec. XIX-XX
Coordenação:
Paulo Roberto de Jesus Menezes (UFRJ), Iamara da Silva Viana (PPGH/UFRJ)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
A trajetória de Israel Soares e o ensino de História: o processo de abolição da escravatura no Brasil (1843-
1916)
145
Raphael Felix Ribeiro (Unirio)
Com base na Lei n. 10.639/03, alterada pela Lei n. 11.645/08, que tornou obrigatório nas escolas públicas e
particulares do Brasil o ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Indígena, e nas Diretrizes Curriculares
Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e
Africana, aprovadas pelo Ministério da Educação em 2004, o presente trabalho, inserido nos estudos mais
recentes nos campos da História da Educação e da Historiografia do Ensino de História (SILVA, 2022), que
identificaram as múltiplas possibilidades oferecidas pelas autobiografias de escravizados para o ensino da
história da escravidão na Educação Básica, procura analisar os usos pedagógicos da autobiografia de Israel
Soares, um homem negro, nascido no Brasil do século XIX, filho de africanos escravizados, e que lutou pela
conquista da própria liberdade e pela Abolição da Escravatura no Brasil. Em diálogo com a historiografia da
Abolição (ALONSO, 2015; SANTOS, 2023), interessa-nos, sobretudo, analisar o que a autobiografia de Israel nos
ensina sobre a história do movimento abolicionista. Inserido no âmbito de uma educação para as relações
étnico-raciais, o estudo baseia-se nas reflexões sobre: a) os usos das biografias e autobiografias no ensino de
História (SILVA, 2018); b) as contribuições teórico-metodológicas do pensamento decolonial para um ensino
de História que, ao rejeitar a lógica da colonialidade, estruturada em hierarquizações, silenciamentos e
exclusões, auxilie no combate às desigualdades raciais e na promoção de uma educação antirracista
(BALLESTRIN, 2013; PAIM, 2018); e c) as novas epistemologias, subjetividades e direitos em torno da história
da África e do negro no Brasil, ao apostar em uma educação multicultural que inclua a história e a cultura de
outras raízes formadoras do Brasil, entre as quais a dos negros e seus descendentes (MUNANGA, 2015).
"Contra os males que afligem a sociedade brasileira", um professor "preto”: Pretextato e a luta contra a
subalternidade
O tema da apresentação se debruçará sobre os resultados de minhas pesquisas no campo da História da Educação
no tocante a reflexão sobre o papel de intelectuais negros brasileiros na segunda metade do século XIX. Para isso,
Apoio:
trabalhei o caso do professor Pretextato dos Passos Silva e sua “escola para meninos pretos e pardos” como uma
forma identificar suas as experiências na oferta de ensino a crianças afrodescendentes em uma sociedade como a
da cidade do Rio de Janeiro em que a educação oferecida era marcada por clivagens de preconceitos de classe, raça
e de gênero, em um contexto histórico escravista. Partindo do conceito de intelectual que começou a se desenhar a
partir do século XIX (SINIRELI, 1986; 2003; GASPARELLO, VILLELA, 2009) e buscando uma elasticidade que englobe
também agentes sociais como professores que se dedicavam a transgredir determinados padrões sociais e políticos
para implementar projetos educacionais mais amplos (SCHUELLER; PINTO, 2013), observou-se na figura do
professor Pretextato a possibilidade de se observar uma luta contra o preconceito e a escravidão, bem como
fenômenos de organização política entorno da comunidade “de cor” acerca de objetivos em comum. Outro tema que
foi caro a abordagem foi a ideia de luta entre a “civilização” e a “barbárie” num contexto de ressignificação das
relações sociais dentro do sistema escravista e de expansão imperialista sobre os continentes e sociedades
africanas e asiáticas. Demonstrou-se que a associação de ideias de “cultura” (ou a pretensa “falta de”) a uma
hierarquização socio-racial e geográfica marcou determinadas leituras produzidas sobre as sociedades que deram
origem aos escravizados e seus descendentes no Brasil. Uma espécie de negação de traços culturais (ou
subalternização cultural) dos povos afro-asiáticos, mobilizado por determinados setores sociais comprometidos
como um processo político que se espraiou pelas ideias sobre a educação do povo e foi com ela que pessoas como
Pretextato e as pessoas com as quais contou em sua jornada tiveram que lidar. O trabalho se inseriu em um contexto
em que crescia o discurso pró-civilização (branca, eurocentrista e patriarcal) e, em seu interior, da necessidade de se
educar o povo em um projeto de civilizacional capitaneada por setores da elite que controlavam o aparato estatal. A
pergunta que surgiu e foi parcialmente respondida diz respeito a maneira com a qual as pessoas subalternizadas
durante o processo de ampliação excludente da atuação educacional criaram frestas para fazerem valer seus
interesses diante de circunstâncias pouco ou nada favoráveis.
146
Letramentos de liberdade: escravos letrados nos anúncios de jornais do século XIX
Ao mobilizarmos anúncios do século XIX, nos jornais Diário do Rio e Jornal do Commercio, buscamos refletir
sobre as pesquisas que incidem sobre os letramentos de sujeitos de cor escravizados neste contexto. Nossa
tentativa aqui, é a de compreender como se deu o processo de inserção desses sujeitos no mundo letrado,
ainda em vigência de proibições. Assim como, as utilizações dos múltiplos conhecimentos mobilizados por
esses corpos africanos e seus descendentes. Isso, porque, levando em consideração a Carta Constitucional
de 1824, acerca do ser brasileiro, estariam excluídos por definição: os escravos, os libertos nascidos em África,
assim como os “africanos livres”. Ademais, no caso do Rio de Janeiro, enfatiza-se a Lei n.1 de 1837. Posto, a
mesma ser clara no tocante à proibição de escravos – ladinos e boçais –, e pretos africanos – livres ou libertos
– nas escolas mantidas pelo governo. Todavia, há uma recorrente reiteração dessa proibição localizada na
legislação, podendo ser compreendida como um indicativo da insubordinação desses sujeitos, que ao burlar a
lei tentam ir além das limitações impostas pela estratificação da sociedade escravista, evidenciando ainda as
múltiplas experiências de liberdade encontradas nesse contexto. À vista disto, o fato de a educação dessa
população estar em pauta e sendo discutida por essa elite, demonstra não apenas a exclusão em si, mas
também um possível receio por parte dessa classe, de que os corpos escravizados tivessem acesso ao mundo
letrado. Todavia, os anúncios também trazem uma outra face dessa relação complexa: os senhores que
pagavam pela educação de seus escravos. Nos mais, os anúncios ainda demonstram a junção do letramento
com outra forma de resistência: as fugas. Essas que eram por si só uma ameaça à ordem senhorial, ao ser
associadas ao domínio dos códigos de leitura e escrita, demostram a tentativa – entre outras – desses sujeitos
de integrarem-se à sociedade. Nesses casos, não buscava se apartar, mas “desaparecer” em meio à multidão.
E pensar que o fazem, sabendo ler e escrever, numa sociedade majoritariamente analfabeta, nos possibilita a
criação de inúmeras hipóteses dos usos que os mesmos poderiam fazer desse conhecimento nesta
conjuntura. Afinal, o domínio dos códigos também se transfigura em poder. É com base nessas reflexões aqui
mobilizadas, que apresentamos a própria educação como uma possibilidade de resistência, tendo em vista
Apoio:
que sempre fora um campo em disputa. Sendo assim, essas fontes trabalhadas numa perspectiva educacional
antirracista podem suscitar, não apenas um debate decolonial dos currículos, mas exemplificar que a questão
educacional desse contingente populacional se dera de modo peculiar desde os primórdios desses Brasis.
Anúncios de fugas: Os sujeitos escravizados nas publicações de fugas no O Diário do Maranhão e O Paiz (MA)
Nos jornais brasileiros do século XIX, encontramos publicações de anúncios de fugas dos escravizados. A partir das
descrições contidas nessa documentação temos muitas formas de pensar a escravidão, seja por quem anuncia, por
quem foi anunciado, os discursos, entre outras perspectivas. Nosso interesse é destacar como os sujeitos
escravizados eram descritos e o que isso poderia dizer sobre eles. Buscamos pensar as estratégias de resistência
feitas por homens e mulheres que tinham suas fugas publicadas nos jornais O Diário do Maranhão e O Paiz (MA),
entre os anos de 1874 a 1878. Nos anúncios são descritos traços físicos, trejeitos, vestimenta, marcas corporais e
possíveis lugares e pessoas que o fugitivo/fugitiva teria visitado. Vemos nas publicações de anúncios importantes
documentações para analisar as relações dentro da escravidão. Na segunda metade do século XIX, no Brasil, crescia
as discussões e leis abolicionistas, desde a primeira lei criada no país, a de 1831 que determinava o fim do tráfico
transatlântico de escravizados, seguida pela lei de 1850 a qual reafirmava a primeira lei. A de 1869 decretava a
proibição da venda separada de famílias e a de 1871, uma das mais conhecidas, Lei do Ventre Livre. Mesmo com os
debates sobre o fim da escravidão, na década de 1870 era comum publicar anúncios de escravizados fugitivos. O que
encontramos neles mostra como os sujeitos escravizados eram percebidos, principalmente pela classe senhorial. 147
As fugas faziam parte do cotidiano escravista, sendo corriqueiro escravizados fugirem, alguns mesmo capturados
continuavam a tentar a fuga com qualquer chance que tivesse. Isto nos mostra as aspirações, projetos de vida e
busca por liberdade e que as pessoas escravizadas estavam dispostas a lutar por seus desejos, em especial o de
fugir. Em meio as possibilidades de analise, aqui entendemos como resistência toda ação feita pelos escravizados
com o intuito de alcançar seus objetivos. Há nos anúncios o olhar do anunciante sob o escravizado, a necessidade
de informar o máximo que pudesse para assim conseguir reaver a sua propriedade, podemos perceber nas
entrelinhas a riqueza de detalhes.
Por uma memória insurgente, no feminino: a interseccionalidade como ferramenta de análise no espaço
escolar
Este trabalho tem como objetivo uma breve análise da mobilização de sentidos interseccionais da História, no
chão da escola (MORENO, 2016), para a constituição de um saber plural e não ocidentocêntrico (OYÈRONKÉ,
2021). Serão trabalhadas as biografias das autoras Suzanne Roussi-Césaire (1915-1966) e Paulette Nardal
(1986-1985) como parte essencial de compreensão à diversidade em gênero e raça na História Intelectual, indo
ao encontro, também, das ausências que se formam nos espaços da História das Ciências. Pensando a
interseção destas autoras às discussões propostas em sala de aula, são mobilizadas duas vertentes de análise:
a primeira com a percepção de um pensamento contra hegemônico acerca da figura do intelectual e cientista,
comumente rememorado numa figura caricata de um homem, branco, de jaleco e dentro do laboratório, e a
segunda em como a ciência pode ser um espaço que permeia as memórias de uma estrutura colonial de
pensamento (KILOMBA, 2019), mas também uma ampla possibilidade de estudos. Tais conexões são pensadas
no sétimo ano do Ensino Fundamental, quando discutidos os sentidos de Modernidade e concepções
ocidentocêntricas, conforme à competência EF07HI0 da Base Nacional Comum Curricular. Ao trabalhar em
conjunto aos estudantes o imaginário da África antes dos europeus, bem como os povos nativos da Américas,
são discutidos os sentidos de uma dita inferioridade cultural, científica e de ‘civilidade’, analisando a origem de
Apoio:
tais discursos e percepções engendradas na concepção relacionada a esses povos. O debate é somado ao
conteúdo de colonialismo e chegada dos europeus às Américas e África, pensando como os sentidos de
modernidade também podem se conectar com certas exclusões e relações desiguais, algo que reflete na
produção e validação de conhecimentos a partir de quem os produz, indo ao encontro da competência
EF07HI16. Embora com uma abordagem diferenciada, a proposta de uma dinâmica interseccional em sala é
crucial para uma história transgressora. A provocação de tais discussões, com o uso de biografias de autoras
negras é um elemento de inflexão acerca dos sentidos anteriormente postos de ciência e intelectualidade num
sentido hegemônico, estimulando-os à reflexão de seus lugares de identidade e agência em tais campos de
conhecimento, no espaço escolar também enquanto produtor de conhecimento científico e intelectual, e
principalmente os incentivando a (re)conhecer mulheres negras num espaço para além do subalterno. Tal
didática vai ao encontro da imprescindibilidade de aplicação da lei 10.639/2003 e a 11.645/2008, no que tange
a uma educação antirracista e contra hegemônica, a partir de uma percepção de gênero, raça e classe e suas
implicações às construções dos saberes históricos e científicos (HILL COLLINS; BILGE, 2021).
Apresentamos neste trabalho, reflexões acerca de pesquisa em desenvolvimento sobre corpos negros
femininos na escravidão e a mobilização de saberes ancestrais e adquiridos na construção de personagens que
se pretendiam provar libertos. A partir de diferentes fontes - anúncios de jornais, registros de óbitos, 148
testamentos, manuais, teses médicas - e o cruzamento das mesmas, analisaremos o período entre os anos de
1830 e 1850 quantitativa e qualitativamente. Anúncios de fuga, venda e aluguel, são fontes ricas e apresentam
múltiplas possibilidades de análise, (ALGRANTI, 1988; ALKMIM, 2006; AMANTINO, 2007; ARAUJO, SOARES,
FARIAS, GOMES, 2006; BARBOSA, GOMES, 2016; BEZERRA NETO, 2002; FERREIRA, 2010; FLORENTINO, 2003;
SCHWARCZ, 1987), principalmente quando cruzadas com outras, como, por exemplo, as narrativas médicas
sobre escravizadas e escravizados. Muito além de questões econômicas – destacadas em algumas abordagens
– as fugas poderiam significar projetos distintos ao levar dias, semanas, meses ou anos para se concretizarem.
Principalmente porque o escravizado/a tendo a marca da escravidão na pele – afinal, o modelo desenvolvido a
partir do século XVI, teve no Continente africano o local privilegiado de comércio daquela mão de obra –
precisaria criar personagens libertos convincentes em seus projetos de liberdade. Projetos que demandavam
observação, saberes específicos na escolha de horários para fuga, vestimentas (tecidos, cores), indumentárias
(chapéus, luvas) e calçados, isto porque, estavam inseridos naquela sociedade. Deste modo, os anúncios
publicados nos jornais, ao revelarem muito mais do que o ato de fuga, nos permite identificar esferas de
construções e ressignificações sociais: sociabilidades entre escravizados e libertos, controle sobre o corpo
escravizado, relações de trabalho, violências, capacidades cognitivas e intelectuais.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Este trabalho é fruto da tese de doutorado Escravidão e liberdade em Fortaleza, Ceará (Século XIX), defendida em 2009
que, através de ampla e diversificada documentação, discute aspectos da vida de senhores, como gênero, ocupação e
residência, demografia, relações de domínio de agentes com a propriedade escrava, e, em especial, emancipação dos
Apoio:
escravos, através das alforrias, porta de entrada da liberdade, em Fortaleza, Ceará, durante o século XIX. O projeto ora
em desenvolvimento Escravidão e liberdade em Fortaleza, Ceará: Trajetórias de negociantes, proprietários, jangadeiros
negros e outros agentes na escravidão e no pós-Abolição evidencia trajetórias de negociantes de pessoas e de gêneros
no mercado Atlântico, através de estudos biográficos sobre o período da escravidão e do pós-Abolição no Brasil: Luís
Ribeiro da Cunha, cônsul, rico negociante, comendador português, produtor de café, que possuía negócios no porto
com sócios, e casou no Ceará; Joaquim da Cunha Freire, Barão de Ibiapaba, coronel, vice-presidente da província muitas
vezes que agenciava navios no porto para a Europa e ilhas atlânticas em sociedade com o irmão Severiano Ribeiro da
Cunha, o Visconde de Cauípe, rico senhor, vice-cônsul e militar, casado e com três filhos; bem como as redes pessoais
e de trabalho que teceram com senhores, escravos e libertos, e com os jangadeiros Francisco José do Nascimento e
José Luís Napoleão, trabalhadores do porto, protagonistas da greve de 1881 contra o embarque e desembarque de
escravos no tráfico interprovincial, que ocorria em especial para o Rio de Janeiro, e da extinção prematura da escravidão
na província, em 25 de Março de 1884; jangadeiros que também biografo. Um artigo de José do Patrocínio insere a
militância abolicionista cearense no abolicionismo transatlântico e nos debates em torno da Abolição.
L'affranchissement des esclaves de la province de Ceara au Brésil, A libertação dos escravos da província do Ceará, no
Brasil foi escrito em francês, impresso, e publicado no Rio de Janeiro, no jornal Gazeta da Tarde: uma homenagem ao
pioneirismo do Ceará e dos cearenses em baquete realizado em Paris, França, que reuniu personalidades sob a
organização e convite do abolicionista carioca. Proponho, nesta comunicação, a partir do discurso de José do Patrocínio
discutir a importância histórica dos jangadeiros para a Abolição prematura do Ceará; avaliar o desempenho da imprensa
abolicionista na produção de memórias em torno da Abolição prematura e do 25 de Março; sem deixar de mencionar
uma breve trajetória do abolicionista carioca, da visita que fez ao Ceará e da relação dele com o movimento
abolicionista, em especial, com Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar.
149
“Foi célebre esta mulher”: a Xica da Silva das Memórias do Distrito Diamantino, de Joaquim Felício dos
Santos (1868)
Dos meandros das palavras do Outro, seria possível retirarmos dos destroços do discurso da/de violência as
pessoas/os corpos que ali estão soterrados/as? Restaria alguma possibilidade de hoje, no presente-passado,
no passado-presente, reavermos aqueles e aquelas que jazem sob as camadas do silenciamento ou sob o
desaparecimento? Dos arquivos, vozes emudecidas nos sussurram as suas vidas. Basta afinarmos os nossos
ouvidos e problematizarmos criticamente a história, ou melhor, os rastros (e os não-rastros) deixados quase
sempre pelos agentes da violência/do poder. Francisca da Silva, a Xica da Silva, foi narrada pela primeira vez
em meados do século XIX, por Joaquim Felício dos Santos, nas Memórias do Distrito Diamantino (1868), em
pouco menos de duas páginas. Dessas poucas linhas, sua história se desenrolou como em um novelo, onde
cada um enredava o fio de uma maneira diferente. Durante séculos Francisca da Silva passou por fases, sua
história foi (re)construída, destruída e soerguida. Tratada ora como curiosidade, ora como elemento ratificador
da “democracia racial”, as narrações da vida de Xica da Silva nos revela muito mais do mundo e de quem as
ensejou do que sobre a própria mulher negra. Ela, Francisca da Silva, filha de uma africana escravizada, nasceu,
igualmente, cativa. Um dia, algo “inusitado” aconteceu: o encontro com João Fernandes de Oliveira, o influente
contratador de diamantes da Coroa Portuguesa. A sua vida muda completamente. Na curta narrativa de Felício
dos Santos, ela passa a ter um poder desmesurado, de escravizada se torna a “dominadora do Tijuco”. O corpo
de Francisca da Silva é escrutinado, sua existência, “hiperbolizada”, tratada como uma excepcionalidade
“exótica” com uma vida considerada incomum. O homem branco define o passado da mulher negra
escravizada em um processo de outremização absoluta (MORRISON, 2019). Tentarei, nas linhas de Joaquim
Felício dos Santos, rastrear o poder do discurso (DIJK, 2008), nos contornos das palavras que (de)formaram
Francisca da Silva. Anseio, no meu exercício de imaginar, nos (des)limites do arquivo (HARTMAN, 2021) uma
possibilidade de escuta de uma voz sussurrada: a de Francisca da Silva de Oliveira.
Apoio:
Escravidão, Trabalho e Liberdade: a trajetória de Jorge Hipólito Fernandes. (Porto Feliz, SP, Séc. XIX)
No ano de 1854, durante a abertura do inventário post-mortem de João Fernandes Leite, entre seus 68 escravos,
havia um chamado Jorge, cujo ofício era carpinteiro e foi avaliado à época do inventário em um conto de réis.
Além disso, havia uma escrava chamada Justina, avaliada em oitocentos mil réis. Embora não houvesse
informação explícita no inventário, esses escravos formavam ou formariam um casal. Após a morte de João,
eles foram vinculados à escravaria de José Hipólito Fernandes, filho de João, como indicado pelo fato de ambos
estarem arrolados no inventário de José Hipólito Fernandes no ano de 1870. Assim, Jorge foi descrito como um
crioulo de 34 anos, casado com a mulata Justina, de 30 anos. A avaliação de ambos sofreu valorização; Jorge,
agora classificado como mestre carpinteiro, foi avaliado em três contos de réis, enquanto Justina foi avaliada
em um conto e quinhentos mil réis. Essas histórias nos fornecem insights sobre as relações sociais e
econômicas da época, bem como sobre as dinâmicas entre senhores e escravos. Em fins do ano de 1876, mais
precisamente em 11 de dezembro, João Hipólito Fernandes viu ser impetrada por seus escravos Simão e
Constantina uma ação de liberdade. João era filho de José Hipólito Fernandes. Na época, João Hipólito era um
médio senhor de escravos, com uma estimativa de 14 escravos entre 1860 e 1887. Descendente de senhores
de engenho, ele procurou manter a ordem escravista e o governo senhorial que aprendera com seu pai, José
Hipólito Fernandes, e seu avô, João Fernandes Leite. José Hipólito Fernandes, casado com Luísa Leite de
Carvalho, possuía 38 cativos em 1870, ano da abertura de seu inventário, sendo 16 casais entre si. Seu avô,
João Fernandes Leite, esposo de Delfina Miquelina de Moraes, era senhor de um plantel de 68 cativos, como
vimos. Simão e Constantina, o casal impetrante do libelo, eram escravos da família desde os tempos de João
Fernandes Leite, pois estão listados em seu inventário. A ação de liberdade foi possível em decorrência de uma 150
doação feita por Jorge e Justina, genro e filha de Constantina, respectivamente. Ambos foram escravos de João
Fernandes Leite e agora, como forros, buscavam a liberdade de toda a estrutura familiar. Para o africano Simão,
sua esposa crioula Constantina e os forros Jorge e Justina, tudo visava, em suma, uma construção de memória
de liberdade em plena escravidão. Em resumo, estava em disputa a construção de uma memória senhorial e
as memórias da liberdade.
O tema proposto para a abordagem desse trabalho revisita o legado literário de Afonso Henriques de Lima
Barreto. Entendemos a pesquisa como uma contribuição aos estudos histórico-literários, destacando o papel
do autor enquanto intelectual mediador, na medida em que escreveu diversas crônicas, artigos e textos,
tornando-se bastante conhecido do público em geral e demais intelectuais com os quais conviveu e produziu.
Uma proposta para compreender como o escritor foi personagem da conjuntura político-social do início do
século XX, na cidade do Rio de Janeiro; e como ele viveu e representou os eventos sociais que escreveram a
história daquele período. Além de autor de romances clássicos da literatura brasileira, Lima Barreto foi escritor
crítico das desigualdades sociais (e seus reflexos) na sociedade carioca. O autor expressava suas ideias em
publicações de jornais e periódicos da cidade, e se mostrava conhecedor das mais diversas questões sociais.
Nosso trabalho consistirá numa leitura de sua obra contextualizando a expressão não-ficcional do autor em um
período de constantes transformações da cidade. Sendo assim, o trabalho será desenvolvido a partir da
observação e análise documental desse determinado contexto social. Nesse sentido, o corpus da pesquisa será
composto pela obra de Lima Barreto e os estudos provenientes dela que, com o passar dos anos, são revisitados e
renovados por pesquisadores de diversas áreas das ciências humanas, bem como por novas contribuições ao campo
de pesquisa. Entendemos tratar-se de um objeto capital para a compreensão do contexto social do Rio de Janeiro do
início do século XX em seu sentido histórico. A pesquisa e análise desse objeto pretende trazer uma resposta aos
Apoio:
interesses delimitados nesse trabalho. O problema proposto será como o conceito de cultura histórica pode ser
observado na obra produzida por um literato negro (não-historiador), bem como suas possibilidades e limites para uma
Educação Antirracista. Dessa forma, devemos compreender o caráter da obra não-ficcional de Lima Barreto como uma
denúncia legítima das injustiças sociais, crítica à imprensa e seus “literatos de fachada” e as formas políticas da época
republicana. O autor viveu uma experiência asilar sem um diagnóstico comprovado de loucura e, durante o período de
internação, registrou e denunciou o horror vivido pelos pacientes nas dependências do hospício. O cotidiano real de um
espaço asilar terapêutico que não atendia as necessidades dos internos. Tais denúncias se confirmaram décadas
depois, resultando na Lei da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Assim, podemos entender um exemplo do sentido histórico
da expressão literária do autor, no atual contexto em que sociedades propõem um retorno ao passado.
C.L.R. James acreditava que o Caribe havia produzido homens que contribuíram fortemente para a história da
Civilização Ocidental. Ao destacar o papel de Toussaint L'Ouverture no processo revolucionário de Santo Domingo em
sua obra clássica da década de 1930, isto fica claro (JAMES, 1938). Segundo ele, a resposta estava na experiência
particular destes homens oriundos das classes médias migrantes do Caribe. A educação colonial britânica e seu
primado da preservação de sua condição de “de cor” – coloured – das classes médias do Caribe anglófono instituiu uma
forma particular de pensamento nestes jovens que, através dos postulados do pensamento "europeu", os incluiu, de
alguma forma precária, numa sociedade extremamente excludente. O radicalismo compartilhado por estes jovens foi 151
forjado diante de uma experiência particular de emigração: “ao deixar o Caribe [e chegar na Grã Bretanha] descobrimos
que nem a vida que vivíamos nem as coisas que víamos estavam em harmonia com as coisas que líamos, e
automaticamente nos tornamos contra” (JAMES, 1976, 205). Neste sentido, a análise de biografias de intelectuais negros
da diáspora no século XX, diante de uma perspectiva transnacional, torna-se uma ferramenta teórica e metodológica
pelo impactos que estas biografias possibilitam. Tais indivíduos buscaram atuar nas margens, reinventando-se e
reinventando movimentos e identidades como forma de dar conta das demandas do “liberacionismo negro” e da luta
antiimperial e anticolonial, a partir de uma moldura, muitas vezes, transnacional. George Padmore, cujo nome de
batismo era Malcom Nurse, nasceu no Caribe, transitou por EUA, URSS, Alemanha, França, Grã-Bretanha, continente
africano, conviveu com intelectuais de diversos continentes e identidades, forjou movimentos e organizações Pan-
Africanas a partir do referencial marxista e transnacional. Sua biografia e trajetória singular (ainda que compartilhada por
tantos outros intelectuais negros) aponta para o alto potencial analítico disponível em sua rede múltipla de vinculações
verticais e horizontais no contexto de construção das lutas por independência dos países africanos e propostas
particulares de modernidades negras alternativas da primeira metade do século 20.
Apoio:
membros de instituições consagradas como o IHGB e a ABL. O objetivo da dissertação se inseriu em
problematizar as abordagens tradicionais e investigar Joel Rufino dos Santos. O intelectual negro, foi escritor
de livro didático de História do Brasil durante a década de 1970 e 1990, trazendo grandes contribuições para o
ensino de História e situando o que chamo de lugar de autoria negra (SEVERINO, 2024). Partindo dos resultados
sobre autoria negra em sala de aula propus aos alunos/as também assumirem lugar de autoria. Os discentes
produziram no contexto de uma atividade antirracista biografias sobre personalidades negras da comunidade.
A proposta didática além de atender os dispositivos da lei 10639/2003 foi ao encontro de meus objetivos como
educador, que sempre foi de luta por uma educação cada vez mais democrática e plural. Essa atividade
também rompeu com o currículo tradicional, uma vez que ele foi encarado durante a proposta não como uma
lista de conteúdo. Mas, a partir de significados que lhe são atribuídos a partir da relação professor/a e alunos/as
(LOPES, MACEDO, 2011). Os alunos/as produzindo as biografias, vozes negras, estavam produzindo narrativas
de (re) existência (EVARISTO, 2021), trazendo a comunidade para dentro de sala de aula. A proposta didática
trouxe resultados bastante potentes pois todos os envolvidos na atividade foram afetados, tanto os alunos e
homenageados, quanto o professor. Entrar em contato com essas biografias me fez fazer uma imersão na
comunidade. As “Vozes Negras” produzidas pelos alunos/as são uma escrita que me identifica, me explica, me
move, fala comigo diretamente e quando leio me vejo. Posso dizer com toda certeza, que me tornei outro
professor após essa proposta didática, um professor que se fortaleceu na busca cada vez mais de uma
educação democrática, portanto, antirracista.
Sessão 4 152
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Do Vale à Capital: um esboço sobre a mobilidade social do pastor e educador negro José de Souza
Marques no pós-abolição
José de Souza Marques é um nome importante quando analisamos a relação entre evangélicos e o espaço
público brasileiro. Homem negro, neto de escravizados, filho de lavadeira e oriundo da antiga região
fluminense do vale do paraíba, Souza Marques se mudou para o Rio de Janeiro aos dezessete anos. Cidade
em que conheceu a fé batista ao ingressar na Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro. Como não possuía
escolaridade, Souza Marques foi alfabetizado por membros dessa igreja a fim de iniciar seus estudos no
Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. Formando-se na turma de 1922 e logo em seguida, entrando
para a maçonaria, esse pastor exerceu seu ministério eclesiástico nas periferias da capital federal. Em
outras palavras foi pastor, por mais de 50 anos, na Igreja Batista de Engenho Novo e implantou igrejas em
Campo Grande, Realengo e Cascadura, lugar onde construiu um colégio batista voltado para as camadas
populares. Além de ministro religioso, José de Souza Marques também circulou na esfera política
institucional. Sendo fundador e presidente do Partido Republicano Democrático em 1945, foi eleito como
vereador do Distrito Federal e, posteriormente, Deputado Estadual no Estado da Guanabara na década de
1960 pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Desde o seu primeiro mandato, José de Souza Marques
lutou pela aprovação de projetos de lei que assegurassem o financiamento a estudantes carentes em
todos os níveis, em particular, a alfabetização e o ensino médio. Em 1974, enquanto era Deputado
Estadual pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), Souza Marques veio a falecer. Partindo deste
ponto, pretende-se neste trabalho analisar as mobilidades sociais deste pastor negro (bem como da sua
família) no pós-abolição através dos seus registros vitais de nascimento, batismo e óbito.
Apoio:
“O papa negro da umbanda omolocô”: Tancredo da Silva Pinto e o campo umbandista no Rio de Janeiro
(1950-1979)
O presente trabalho tem como objetivo analisar parte da trajetória de Tancredo da Silva Pinto, entre os anos de
1950 e 1979, no Rio de Janeiro. Ele foi um líder da umbanda omolocô e figura central na formulação de uma
concepção de umbanda com uma identidade cultural negra, com sua origem em Angola na África. Tancredo
nasceu em Cantagalo em 1905 e faleceu em 1979, no Rio de Janeiro. Circulou ao longo de sua vida entre a
umbanda e o samba, representando um “elo” entre esses dois mundos(LOPES, 2005). Sua família, ainda em
Cantagalo, possuía relação com a música afro brasileira e com a religião, tanto que seu avô teria sido fundador
de blocos carnavalescos em Cantagalo, dentre os quais estariam o “Bloco Avança” e o “Treme terra”, bem como
o cordão místico, no qual sua tia Olga da Mata saia vestida de Rainha Ginja (SILVA, 1983, p.18). Olga da Mata
possuía um terreiro em Caxias, junto a Paulino da Mata, local onde o líder umbandista teria recebido uma ordem
de Xangô para fundar uma federação de umbanda para proteger os umbandistas da perseguição movida pelo
Estado e das batidas policiais, fundado assim a Confederação Espírita Umbandista, em 1950 e passando a
disputar o campo religioso umbandista. Contudo, Tancredo foi pouco estudado pelo campo acadêmico, visto
que por muito tempo as pesquisas se centraram na figura de Zélio de Moraes. Com isso, no presente trabalho
analisamos sua trajetória com foco sobre sua visão em torno de uma umbanda “africanizada”, isto é, a
“umbanda omolocô”. Ele escreveu mais de 20 livros doutrinários e redigiu por 25 anos uma coluna sobre
umbanda no jornal O Dia. Além disso, Tancredo organizou uma série de festejos públicos voltados para a
umbanda, como a festa “Você Sabe o que é Macumba”, que ocorreu no Maracanã, em 1965. Na década de
1960, o líder recebeu a alcunha de “papa negro da umbanda”. Para analisarmos sua trajetória, foram utilizadas 153
colunas de jornais e obras escritas pelo líder umbandista, em que eram abordadas suas concepções religiosas.
Utilizamos a noção de trajetória baseada em Bourdieu (2006), pois este afirma que para analisarmos a trajetória
de uma vida é importante percebemos os estados sucessivos do campo no qual ela se desenvolveu, além
disso, deve-se buscar compreender o conjunto das relações objetivas que uniram o agente considerado ao
demais agentes envolvidos no mesmo campo e que foram confrontados com o mesmo espaço social possível
(BOURDIEU, 2006, p. 190). Trabalhamos em nossa perspectiva teórica metodológica com autores que que
promovem discussões em torno dos conceitos de campo religioso, controvérsias públicas e identidade
cultural. Ao final, pretendemos demonstrar que Tancredo exerceu certo protagonismo negro ao construir e
defender uma identidade cultural negra para a umbanda
Tayná Louise Matos Moreira Souza de Maria (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Uma boa biografia não visa uma análise exaustiva de todas as ações realizadas por alguém ao longo de sua
vida. Ela é por excelência uma seleção de fatos estabelecidos pelo biógrafo, os quais ajudam a determinar as
virtudes e os vícios do biografado. Na medida em que a biografia lida com modelo, será ele que propiciará ao
leitor os meios para formar a sua própria opinião acerca do biografado. Diante de um modelo, pretende-se
recuperar a vida do pastor Batista João Moreira. Nascido em 1916, filho de escravizada e alfabetizado aos 25
anos, tornou-se maçom e fundador de igrejas, cuja cúpula trazia traços racistas.
Apoio:
A cidade e o guerreiro: a luta pela liberdade religiosa do Babalawo Ivanir dos Santos – 1950 – 2018
A rua sempre teve um papel importante para o povo negro. O espaço público é vivido como uma arena, onde o
cotidiano é um jogo difícil. A prostituta Sônia d’Mauriti sabia bem desta dificuldade e nos idos de 1950, na
Favela do Esqueleto, numa conversa na comunidade com D’Bahia, falava à sua amiga a premissa que se faria
realidade no futuro: “Olha o meu bebê D’Bahia”, dizia, “ele é muito esperto. Ele vai ser doutor!”. Em maio de
2018, Carlos Alberto Ivanir dos Santos defendia no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais – IFCS/UFRJ - a sua
tese de doutoramento. A sua central liderança da “Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa” marcou a
cidade do Rio de Janeiro como um lugar de debates sobre liberdade religiosa, intolerância religiosa e
reterritorialização negra. Desta forma, se constitui o tripé que será a base de atuação da nossa personagem
principal – a rua, a religião e a academia – e assim ao militante, religioso e político acrescenta-se o que foi
anunciado por dona Sônia d’Mauriti, o título de doutor.
154
Apoio:
ST 19
Igreja, Inquisição e religiosidades no Império Português
(séculos XVI-XVIII)
Coordenação:
Yllan de Mattos (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ), Regina de Carvalho
Ribeiro da Costa (UERJ-FFP), Angelo Adriano Faria de Assis (Universidade Federal de Viçosa)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
O Santo Ofício e a defesa do celibato clerical e do casamento. Processos de homens casados que se
ordenaram no Brasil setecentista
Lana Lage da Gama Lima (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro)
Segundo o apóstolo Paulo, dois critérios deveriam orientar a escolha dos primeiros presbíteros: a ortodoxia da fé e a
conduta moralmente irrepreensível. Além do conhecimento doutrinário, a condição de padre esteve, pois, desde sua
origem, vinculada a um estilo de vida próprio. E, entre as qualidades requeridas para o exercício da função sacerdotal,
uma delas teria, no futuro, papel fundamental na caracterização do clero enquanto grupo destacado da comunidade
laica: a abstinência sexual. O Santo Ofício de Inquisição, instalado em Portugal na primeira metade do XVI, constituiu
155
um importante instrumento de vigilância sobre o clero e de punição dos desviantes do modelo estabelecido para o seu
comportamento. Se cabia à Justiça Eclesiástica punir os padres amancebados, caberá ao Santo Ofício a punição dos
que se casavam e também dos homens casados que se ordenavam, na medida em comprometiam dois sacramentos
da Igreja, o Matrimônio e a Ordem. Por isso, eram suspeitos de “sentir mal” desses sacramentos e, portanto, de haver
intenções heréticas subjacentes a esses delitos, como se depreende do fato do Regimento de 1640 determinar que
esses réus abjurem de leves suspeitos na fé. Como guardião da ortodoxia católica, a Inquisição atuou também na
punição dos cristãos que afirmavam que o estado de casado era melhor do que o estado sacerdotal, o que implicava
em dizer que era melhor ter uma vida sexual do que se manter casto. A Igreja reiterava assim o valor maior da castidade
e a ideia paulina de que o casamento era uma forma de garantir que aqueles que não conseguissem manter a
continência tivessem uma vida sexual regrada. Desse modo, fora da cópula conjugal voltada para a procriação, todas as
práticas sexuais são pecaminosas. O casamento, alternativa permitida para a castidade, é também alvo da proteção do
Santo Ofício, na medida em que se proíbe que homens casados tomem o estado clerical sem o consentimento de suas
esposas. Em meados do século XVIII, dois padres oriundos do Brasil foram processados no Tribunal de Lisboa por
haverem se ordenado sendo casados, o primeiro morador em Olinda e o segundo no Recife, na Capitania de
Pernambuco. Seus processos esclarecem, além da ação do tribunal nesses casos, a trama social que levou esses
homens a tomarem essa decisão, enfrentando uma possível punição do Santo Ofício.
O retorno da Inquisição à Bahia: novas fontes e possibilidades de análise sobre a visitação seiscentista
Passadas mais de duas décadas da primeira visitação inquisitorial à América portuguesa ocorrida em fins do
Quinhentos, entre 1618 e 1620 o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição de Lisboa enviaria novamente um visitador às
partes do Brasil. Desta vez, limitada à Salvador e seu recôncavo. Eram tempos outros, com a perspectiva de uma
possível apoio de parcela dos moradores à uma invasão holandesa, em especial dos cristãos-novos - o que acabou de
fato ocorrendo poucos anos depois, tempo dos flamengos. O séquito inquisitorial, comandado por Marcos Teixeira,
ouviu depoimentos de moradores ou indivíduos de passagem pela luso-América - confissões, denúncias, testemunhos
Apoio:
e ratificações. As fontes conhecidas sobre esta visitação foram publicadas primeiramente por Rodolfo Garcia nos Anais
da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em 1927, contendo cerca de cinquenta depoimentos. Recentemente, os
Professores Angelo Assis e Ronaldo Vainfas encontraram documentos complementares que apresentam novos
depoimentos à mesa da visitação, alargando o número conhecido de casos e personagens que compõem o material
referente a esta visitação. Temáticas as mais variadas: práticas mágico-religiosas e/ou "feitiçarias", comportamentos
sexuais desviantes de toda sorte, desrespeito e ofensas aos símbolos cristãos, manutenção crenças e comportamentos
de religiões proibidas, solicitações, entre outras suspeitas de culpas que atiçavam o interesse inquisitorial e eram vistos
como ameaça à sociedade... A comunicação aqui proposta pretende apresentar estas novas fontes, já no prelo em
processo de preparação para publicação em breve, focando, para além de um balanço geral da visita, alguns casos
emblemáticos que demonstram o impacto que esta representou para a sociedade colonial à época.
Inquisição nos sertões do Ceará: Agenciamento Social e Controle Religioso no Século XVIII
Este trabalho analisa a atuação da Inquisição no Ceará durante o século XVIII, período em que a região era uma capitania
anexa de Pernambuco. Apesar da falta expressiva de familiares do Santo Ofício e de comissários habilitados, os
moradores do Ceará foram alvo do tribunal Inquisitorial lisboeta. Isso se deveu ao fortalecimento da rede episcopal e
das vigarias da vara local, que contaram com agentes episcopais atuando como comissários delegados, facilitando o
encaminhamento das denúncias. Além disso, a comunidade local, envolta por conflitos internos e pessoais, colaborou
com a formulação das denúncias. A Inquisição funcionava mesmo sem seu aparato formal, impactando na organização 156
social e servindo como instrumento regulador do "ser cristão" para resolver problemas cotidianos da dinâmica local. O
estudo se baseia nos cadernos do promotor, processos inquisitoriais e documentos legislativos do Santo Ofício. Assim,
este estudo demonstra que a eficácia da Inquisição no Ceará ia além de seu aparato formal, sendo fortalecida pelo
agenciamento dos problemas cotidianos da dinâmica local.
Nesta apresentação, buscaremos partir de alguns pressupostos metodológicos da micro-história italiana (em
especial, os esforços recentes de Francesca Trivellato e da assim definida micro-global history) e da busca
pelas mediações entre agência de indivíduos e/ou grupos e estruturas (econômica, cultural, social) tal como
ambicionada por Jean-Paul Sartre e Emília Viotti da Costa para, a partir de alguns casos de cristãos-novos
processados pela Inquisição, estabelecer os vínculos culturais e econômicos entre o Atlântico e o
Mediterrâneo nos século XVI e XVII. Se nos arquivos portugueses, italianos e ingleses muitos dados
quantitativos (carregamentos de açúcar, pau-brasil e tabaco, bem como fluxo de capitais por meio de
empréstimos e letras de câmbio) foram encontrados no que é atinente à sua importância mercantil, a análise
de alguns indivíduos que transitaram entre o Grão-Ducado da Toscana, a República de Veneza, Portugal e o
Atlântico Ibérico nos dá elementos para compreender a vida cotidiana destes homens e mulheres, sobretudo
acerca de suas identidades e vínculos religiosos e linguísticos, seus respectivos comportamentos diante dos
Tribunais do Santo Ofício, permitindo-nos, assim, partir da micro-escala para a macro e buscar compreender
como estas trajetórias nos ajudam a revelar aspectos de diferenciação e ao mesmo tempo de sincronia entre
o Mundo Atlântico e Mediterrâneo no início da Modernidade.
Apoio:
Familiares de boa vida e bons costumes? A trajetória de negociantes contrabandistas na instituição do
Santo Ofício (Século XVIII)
Esta pesquisa busca construir uma relação entre as decisões tomadas pela justiça civil portuguesa, do Antigo
Regime e os procedimentos adotados pela instituição do Santo Ofício da Inquisição, a qual concedia status social e
privilégios para os súditos do Império Português. A familiatura do Santo Ofício pertencia aos oficias leigos e, apesar
de não ser considerada uma forma de nobilitação, representava um símbolo de poder, honra e conduta irreprovável.
Essas instituições tinham o papel de legitimar o Antigo Regime e por isso necessitavam estar alinhadas umas com as
outras nas suas condutas. Sendo o Santo Ofício conhecido por ser muito rigoroso no processo de aceitação dos
habilitandos, não poderia permitir a entrada de indivíduos envolvidos em condutas desviantes dos bons costumes.
Por isso, serão analisadas, no século XVIII, no qual ocorreu um aumento significativo da concessão de habilitações
pelas instituições honoríficas portuguesas na América Portuguesa, a aplicação da justiça em relação aos crimes de
contrabando cometidos por homens de negócios atuantes no Rio de Janeiro, já que esses compuseram o grupo mais
privilegiado no cargo da familiatura. Cabia à justiça julgá-los, pautando-se no uso de uma justiça distributiva, que
buscava legitimar o poder do rei e levava em conta a posição social dos réus: no caso, homens de negócio atuantes
na principal praça mercantil do Império Português. É visto que assim como a justiça tendia a perdoar tais homens, o
Santo Ofício não os questionavam como agentes da instituição e representantes de sua imagem. Assim, a pesquisa
desdobra-se nas atuações da justiça civil e do Santo Ofício. Essas buscavam credibilizar a ordem vigente e
moldavam-se aos novos tempos, no qual o grupo mercantil ganha notório protagonismo e o qual faz com que o Santo
Ofício reveja seus critérios de aceite reconhecidos como inflexíveis na época.
157
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
O presente trabalho investiga a participação de padres em cerimônias religiosas afro-brasílicas na Bahia durante o
século XVIII. Apesar da responsabilidade que possuíam perante a ortodoxia católica, os padres estavam inseridos em
uma sociedade patriarcal, escravista e mestiça. Nessa perspectiva, compartilhavam com seus contemporâneos
elementos socioculturais que fugiam do que era aprovado pela Igreja. A principal documentação empregada nesta
pesquia refere-se a dois processos inquisitoriais: Frei Luiz de Nazaré, acusado de promover cerimônias de calundu e
utilizar os exorcismos da Igreja como um disfarce para induzir mulheres a atos sexuais; e Frei Alberto de Santo Tomás,
também exorcista, investigado por adotar características afro-brasílicas em suas celebrações. No entanto, a análise não
se limitará a essa documentação. À vista disso, outros relatos - padres como donos de calunduzeiros e clientes de rituais
afro-brasílicos - serão utilizados para complementar a narrativa. A apresentação demonstrará que as crenças negras
possibilitaram o estabelecimento de relacionamentos entre diferentes grupos e influenciaram como a fé seria
experimentada na América Portuguesa. O trabalho demonstrará o impacto social que a participação, proximidade e
defesa de uma cerimônia afro-brasílica possuía quando realizada por um sacerdote. Os religiosos eram o exemplo
religioso que os fiéis deveriam seguir. Mas, se possuíam escravos calunduzeiros, se curavam com rituais,
recomendavam práticas e adotavam referências em suas cerimônias, por que outros membros do rebanho não
poderiam fazer o mesmo? As questões levantadas se inserem em um contexto de banalização dos calundus, e em geral,
das práticas religiosas afro-brasílicas.
Apoio:
Anchieta e a De Renovatio Spiritus na Companhia de Jesus. A Importância da Palavra e da Imagem no
projeto missionário catequético Jesuítico
A morte de Anchieta, em 9 junho de 1597, coincide com o momento em que a Companhia de Jesus atravessava,
justamente, um período extremamente delicado, marcado por profundas inquietações sobre sua identidade e seu
projeto missionário. A Missão era vista por alguns de modo sombrio. E segundo Roma, o trabalho missionário seria
responsável na Província pela “perda ou queda do espírito” , ou seja, na prática, a sua administração levaria à
perdição a alma dos religiosos e não obteria sucesso em salvar os indígenas. A resistência ao projeto catequético
encontrava apoio dentro da própria Companhia. Jacome Monteiro, proporia, inclusive o abandono das aldeias .
Segundo ele, a “defesa das aldeias se fazia por laxismo e concupiscência”. A essas questões de ordem espiritual,
acrescentavam-se outras: os inimigos da Companhia, que representavam os interesses dos portugueses e que
denunciavam os crimes dos padres (a incontinência sexual, sobretudo, dos “línguas”, padres intérpretes),
contribuíam para reforçar o pessimismo relativo ao projeto missionário, dificuldades com a Cora espanhola advinda
da junção das duas Coroas, solapava a autonomia dos jesuítas subordinando-os a um bispo. E ainda as
controvérsias e proibições em Roma sobre a administração temporal e a aplicação da justiça determinada, inclusive,
pela própria Companhia. As dúvidas surgidas colocavam em causa a manutenção das aldeias, cuja perda
representava uma perspectiva desastrosa para Companhia. Era necessário um sopro renovador (De Renovatio
Spiritus) como insistia o Geral da Companhia, Cláudio Acquaviva. Era indispensável resistir, “travar uma luta por amor
a Cristo”. A morte de Anchieta propiciaria um dos meios de estimular esse “sopro renovador” que seria difundido
através de sua emblemática figura como um novo Adão. Anchieta, como Adão antes do pecado que sem perder o
dom que lhe fora concedido por Deus, significava, para a Companhia, a imagem do pastor que se mantivera puro, 158
casto, aquele que seria capaz de reativar o “fogo santo” aceso em tempos imemoriais por São Tomé. Nosso objetivo
é analisar a partir, não só de representações iconográficas mas, também, de textos de seus contemporâneos como
Quirício Caxa, Fernão Cardim, Pero Rodrigues, além de Simão de Vasconcelos (século XVII), a construção e
implementação pela Companhia da figura icônica de Anchieta como símbolo da resistência da ação missionária.
A Invisibilidade Revelada: As mulheres indígenas nas Missões Jesuíticas da América Portuguesa (c. 1551-1594)
Este trabalho propõe analisar as representações e a atuação das mulheres indígenas nas missões jesuíticas da América
Portuguesa na segunda metade do século XVI. O estudo baseia-se em uma análise crítica de fontes primárias que
registram a presença dessas mulheres, e secundárias, da historiografia missionária. Além disso, examina as razões para
a ausência das mulheres indígenas na historiografia das missões e discute a representação dessas mulheres nas fontes
jesuíticas da época. A análise pretende evidenciar como as interpretações sobre essas mulheres nativas se
transformavam à medida que a Companhia de Jesus avançava em sua tarefa de evangelização, destacando a
importância de compreender a presença e a contribuição das nativas para a sociedade colonial e para o rumo de suas
próprias trajetórias como agentes ativas de sua própria história.
Um frade na mira do Santo Ofício de Lisboa: Manoel Calado no contexto do Brasil holandês
Atuação singular no contexto da dominação neerlandesa nas capitanias açucareiras da América Portuguesa
foi a de Frei Manoel Calado, popularmente conhecido como Frei Manoel dos Óculos. Religioso natural da Vila
Viçosa, região portuguesa, eclesiástico da Ordem de São Paulo desde 1607, momento no qual tornou-se o Frei
Apoio:
Manoel Calado do Salvador. Conhecido por sua crônica sobre o período, intitulada O Valeroso Lucideno e o
triunfo da Liberdade e datada de 1648, Frei Calado chegou a ser citado nas fontes inquisitoriais da época.
Perseguido pelo bispo do Brasil à época, D. Pedro da Silva e Sampaio, foram os contatos do religioso com os
holandeses que dominavam o território das capitanias açucareiras do Norte do Brasil holandês, e, sobretudo,
sua amizade com o governador Conde de Nassau, que levantou as suspeitas do bispo da Bahia, ex-Inquisidor
português. Por um lado, o cronista das guerras pernambucanas foi denunciado por suspeita de heresia; por
outro, Calado também esteve na posição de delator, pois, em sua crônica, não deixou de revelar vários nomes
de desertores e de moradores que colaboraram com o estabelecimento dos neerlandeses no território.
Investigar as tramas deste frade que é mais conhecido pelo seu papel de cronista no contexto do Brasil
holandês e conseguiu escapar das malhas inquisitoriais, por meio da análise das acusações registradas nos
Cadernos do Promotor da Inquisição de Lisboa é o objetivo central da presente comunicação que acaba por
elucidar, também, o confuso modus operandi próprio do tribunal, em terreno colonial, articulado pela ação do
bispo da diocese.
A Inquisição portuguesa enviou à principal cidade da região amazônica, Belém do Grão-Pará, uma visitação em
1763, quando este procedimento não era mais utilizado. Desde a descoberta e publicação desta visitação pelo
historiador José Roberto do Amaral Lapa (1978), muitas hipóteses foram aventadas para entender tanto a sua 159
motivação quanto o envio do inquisidor Giraldo José de Abranches para estas terras – incumbido, igualmente,
dos assuntos da inquisição e da administração do bispado na ausência do bispo. Este capítulo procura
responder estas questões, além de realizar uma visão de conjunto dos resultados da visitação e do seu
funcionamento, mesmo após 1769.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 20
Imagens técnicas e saber histórico: estudos sobre fotografia,
vídeo e cinema
Coordenação:
Carlos Eduardo Pinto de Pinto (UERJ), Maria Isabela Mendonça dos Santos (CPII), Silvana
Louzada (Instituto Federal do Rio de Janeiro)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
O trabalho aborda as diferentes fases da trajetória profissional de Marc Ferrez, tomando como ponto de partida a sua
produção de vistas estereoscópicas. Ao relacionar a estereoscopia com os variados processos fotomecânicos,
procedimentos e fórmulas químicas utilizados pelo fotógrafo, bem como as diversas técnicas de difusão de imagens
do século XIX, busca-se compreender a formação de Ferrez como um típico observador da modernidade.
160
Leon Trotsky: Fotografias em uma vida de exílios
A apresentação visa acompanhar a trajetória do líder revolucionário russo Leon Trotsky em seus exílios desde
a juventude até seu destino final no México, onde foi assassinado. Buscamos analisar as fotografias do líder
revolucionário russo sob a trágica perspectiva das mortes de familiares e correligionários e dos exílios e
negativas de asilo a que foi submetido, em contraposição às fotografias públicas que retratam o líder russo,
assim como suas fotos íntimas e familiares. Trotsky foi central na Revolução Russa, criador e comandante do
Exército Vermelho. Aos 17 anos foi preso, casando-se no cárcere. Exilado na Sibéria, fugiu em 1902 para a
Europa, onde conheceu Natália, a segunda esposa. Voltou à Rússia em 1905, foi preso, condenado à privação
dos direitos civis e ao exílio perpétuo. Escapou em 1907, passando sete anos na Europa. Em 1916 foi expulso
da França. Na Espanha tentou, em vão, asilo na Suíça e Itália. Foi para Nova Iorque, retornando à Rússia em
1917, encerrando a primeira fase dos exílios. A segunda fase iniciou-se com a perseguição de Stalin. Foi expulso
do Politburo em 1927 e exilado no Casaquistão. Posteriormente exilado na Turquia, teve asilo negado por
Alemanha, Inglaterra, França, Tchecoslováquia, Holanda, Áustria e Noruega. Em 1933 teve entrada autorizada
na França, de onde foi expulso em 1934. Em 1935 recebeu visto para a Noruega e em 1936 o governo mexicano
de Lázaro Cárdenas aceitou recebê-lo, desembarcando no Mexem 1937. No México sofreria dois atentados a
mando de Stalin. O de maio de 1940, comandado pelo muraliata David Alfaro Isqueiros, falhou. O segy, fatal,
foi praticado por Ramon Mercader em 20 de agosto de 1940. Sua família foi inteiramente dizimada, filhos e
filhas, genros, noras, netas, restando apenas o neto que vivia com ele, Esteban Volkov, que faleceu em 2023,
aos 97 anos, no México onde sempre viveu. Esteban criou, em 1990, o Museo Casa de León Trotsky, na casa em
que seu avô foi assassinado e onde também funciona o Instituto del Derecho al Asilo. O Museo tornou-se
também repositório de diversos documentos enviados por pessoas de todo mundo, especialmente fotografias,
que viriam a se somar às fotografias particulares da família que lá permaneceram. Essa apresentação procura
traçar comparações preliminares entre as fotos família que ali se encontram e as que retratam o grande homem
público, muitas delas muito conhecidas e outras recolhidas em arquivos e museus mexicanos. A partir dessas
imagens e da trajetória de exílios, asilos negados, tragédias políticas e pessoais, identificar nas fotografias,
Apoio:
especialmente do período mexicano, as distinções e proximidades, o drama pessoais e histórico, assim como
momentos em que Trotsky e família buscavam imprimir à vida alguma normalidade.
Revista da Semana: a decana das revistas nacionais e o processo de alinhamento entre Brasil e Estados
Unidos em suas páginas (1939-1945)
A discussão que aqui proponho se coloca como uma forma de expor os novos caminhos e descobertas que degringolou
da pesquisa que realizo que possui como recorte o período de 1939-1945, que abrange a Segunda Guerra Mundial, o
Estado Novo e a Política da Boa-Vizinhança. A partir da análise da revista ilustrada carioca, Revista da Semana, proponho
investigar como foi expressa nas fotografias que circulavam em suas páginas a política de estreitamento da amizade
hemisférica entre Estados Unidos e Brasil, portanto essa pesquisa se inscreve nos estudos sobre cultura visual
propondo uma reflexão reconhecendo o papel da imagem técnica como importante meio de produção de sentido
social, por meio da análise da prática fotográfica como construtora de uma narrativa histórica e no uso da fotografia
pública no cumprimento de função política. Sendo assim, os objetivos gerais desta apresentação são: discutir o plano
de fundo que é a Política da Boa-Vizinhança, discutir a relação do Estado Novo com a imprensa, expor o histórico da
Revista assim como sua organização nos anos aqui estudados, exibir os dados levantados na pesquisa empírica, e por
fim, discutir as possíveis conclusões resultantes dessa investigação.
161
Evento modernista, imagens técnicas e estéticas investigativas: os arquivos do solo do Caso Braskem,
em Maceió, e de Brumadinho
No final da década de 1990, quando Hayden White cunhou o conceito de “evento modernista”, uma de suas dimensões
era a relação com a tecnologia - afinal, eram acontecimentos para os quais o avanço técnico tornou possível alcançaram
dimensões até então pouco usuais para acontecimentos históricos -, mas outra dimensão dizia respeito à visualidade.
Como no exemplo do ônibus espacial Challenger, fora a circulação incessante das imagens que, mais do que apaziguar
quaisquer tensões ou dúvidas em torno ao ocorrido, acabara, pelo contrário, por multiplicá-las. Ausente da reflexão do
historiador norte-americano, no entanto, está a noção de “imagem técnica”, cunhada originalmente por Vilém Flusser e
que poderia perfazer a relação entre as duas dimensões fundamentais dos eventos modernistas: sua dimensão
tecnológica e sua relação problemática com a visualidade. O conceito de “imagem técnica” foi criado por Flusser para
lidar com uma transformação na natureza da imagem origina da na fotografia, no século XIX, e que viria a se transformar
em aspecto cotidiano na atualidade. Em vez de representarem o mundo, mantendo com ele uma relação de
referencialidade, as imagens técnicas estabelecem direções com relação ao mundo, formulando projeções a partir de
conceitos e instruções - como os prompts dos geradores de imagens de inteligência artificial. Nesse sentido, as imagens
técnicas têm uma relação problemática com a realidade e, se interpretadas junto aos indícios históricos, terminam por
invertê-lo. Se os indícios são o que restou do passado, numa relação de substração a uma realidade prévia, as imagens
técnicas acrescentadas ao mundo na tentativa de direcioná-lo. Este trabalho pretende aprofundar a relação entre as
categorias de evento modernista e imagem técnica através da adição de um terceiro termo, a chamada “estética
investigativa”, formulada por Matthew Fuller e Eyal Weizman a partir de seus trabalhos no âmbito dos direitos humanos.
Tomando como objeto a prática das investigações visuais recentes e, em especial, a atuação de jornalistas e ativistas
em torno do afundamento dos bairros Mutange, Bebedouro e Pinheiro, em Maceió, e de Brumadinho, em Minas Gerais,
procura-se compreender como tais iniciativas, parte do giro forense, utilizam técnicas de visualização e produção de
imagens para construir evidências que permitam compreender o que ocorreu, como ocorreu e quem foram os
responsáveis. Mobilizadas dessa maneira, percebe-se que as imagens técnicas permitem reconstituir os laços de
referencialidade enquanto produto de uma operação tecnológica e discursiva, ao mesmo tempo que a temporalidade
Apoio:
do acontecimento é alargada por uma série de relações de profundidade e superficialidade que somente as tecnologias
de imagem, através do exame do solo, consegue constituir.
A Questão Palestina é marcada por uma incontornável disputa entre narrativas históricas e discursos públicos
distintos, frequentemente opostos. Expulsão ou transferência? Guerra ou genocídio? Terrorismo ou
resistência? Estudar sobre essa temática, ou mesmo acompanhar notícias a seu respeito, implica em eventuais
escolhas – ainda que de algo tão aparentemente simples quanto palavras para se referir a determinada
situação. Este trabalho parte de uma escolha principal: dialogar com a obra do jornalista Joe Saco, que, a partir
de viagens para os territórios palestinos ocupados, reuniu testemunhos de seus habitantes e experiências
cotidianas ali vivenciadas e os publicou não na forma de reportagens convencionais, mas sim como histórias
em quadrinhos. Apesar de utilizar como base diversas criações do autor, a principal delas será Notas Sobre
Gaza, publicada originalmente em 2009 e fruto de viagens para a Faixa de Gaza realizadas entre 2002 e 2003.
Durante esse período, Sacco investigou massacres realizados nas cidades de Khan Younis e Rafah, ambas no
sul de Gaza, em 1956. Tal opção relaciona-se com as discussões dos historiadores indianos Ranajit Guha e
Dipesh Chakrabarty, expoentes dos Estudos Subalternos, e sua busca por uma História em que os sujeitos
subalternos são vistos como agentes. Nesse sentido, pressupõe a ideia de que há uma associação entre
conhecimento e poder pela qual as narrativas históricas são atravessadas e propõe o uso de fontes históricas 162
distintas, já que grupos subalternos costumam ser excluídos dos arquivos oficiais e das narrativas
hegemônicas (CHAKRABARTY, 2012). Em consonância a isso, destaca-se a contribuição de Michel Polak (1989)
ao abordar o conceito de disputa de memórias mesmo autor e destacar que as memórias de grupos dominados
podem sobreviver por meio da transmissão geracional ou por redes de sociabilidade, processo que tem ligação
direta com o trabalho de Joe Sacco ao difundir os testemunhos de palestinos para os leitores de suas obras.
Diante do exposto, procura-se entender, em primeiro lugar, as relações entre o jornalismo em quadrinhos de
Sacco e a História. Para isso, serão definidos os elementos centrais da categoria utilizada pelo próprio autor
para definir seu trabalho, partindo de afirmações feitas sobretudo em sua obra Reportagens. Ademais, será
analisado como certas categorias caras à História aparecem na obra do jornalista, como tempo, memória e
narrativa. Depois, será questionado como a narrativa (re)construída por Sacco a partir de testemunhos,
memórias e fontes de 1956 se situa em relação à(s) narrativa(s) oficiais propagadas sobre os massacres
investigados por autoridades israelenses e internacionais.
A irrupção de novos aparatos tecnológicos e os debates que se seguem a eles parecem atravessar a história das formas
de comunicação. Do livro moderno aos smartphones, um debate público acompanha tais suportes de informação.
Grosso modo, os posicionamentos variam entre um ceticismo temoroso em relação aos seus malefícios e a tudo aquilo
que elas aparentemente irão suplantar, e uma adesão irrestrita às novas formas de comunicação. Tal divisão remete à
expressão “apocalípticos e integrados”, sintetizada por Umberto Eco em um ensaio publicado em 1964. Retomaremos
os termos gerais deste debate, atentando para uma das mídias que influenciaram diretamente o pensador italiano a
elaborar seu ensaio: as histórias em quadrinhos. Para tanto, vale aqui discutir a sua presença em uma realidade como a
latino-americana. Na década de 1960, os quadrinhos contavam com ampla circulação na região, com mercados
relativamente bem consolidados em países como Argentina, Brasil e México. Porém, neste período também se faziam
Apoio:
escutar os ecos da Revolução Cubana, a presença estadunidense na região e as novas perspectivas críticas nos campos
da arte e do pensamento crítico. É neste cenário turbulento que, sob espectros políticos e projetos artísticos os mais
variados, os quadrinhos se tornam uma tecnologia da imagem voltada para intervir na sociedade. Discutiremos alguns
casos, como as discussões envolvendo a repercussão de uma revista em quadrinhos de propaganda anticomunista em
diversos países da América Latina; a publicação de Para leer al Pato Donald no Chile e na Argentina; a revista cubana C-
Línea, voltada para a crítica de quadrinhos etc.
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Considerando os processos de aprendizado, Vigotsky (2015) defende que o mundo dos significados não é outro senão
o da linguagem. Nesse sentido, a imagem nos transmite subjetividades e objetividades, tendo na semiótica um campo
apropriado para esta análise, trazendo à luz uma fonte poderosa de disseminação de conhecimento. Pensando nisso, o
pensar e fazer história deve ir além de páginas de livros, uma vez que, para um aprendizado integrado, é importante fazer
o uso de métodos alternativos como o audiovisual. No longa metragem nacional animado Uma História de Amor e Fúria 163
(2013) há a ilustração de três famosos períodos da história do Brasil: A invasão ao estado da Guanabara (1566), A
Revolução da Balaiada no Maranhão (1825) e a Ditadura Militar (1964-1985). No filme é mostrada a trajetória de um
homem que está “vivo” há aproximadamente seiscentos anos, cujo objetivo principal é reencontrar o seu grande amor
em todos as suas vidas reencarnadas. No entanto, ao longo da narrativa o local desse homem num ponto de vista do
oprimido acaba roubando o protagonismo e trazendo a tona a “fúria” dele e do espectador. Em “O perigo de uma história
única” (ADICHIE, 2009), a autora enfatiza as consequências de reproduzir uma narrativa unilateral da história, expondo
como isso coisifica o povo, roubando sua dignidade e os tornando apenas mais uma informação nos livros didáticos. No
longa supracitado é evidenciado que quem possui o poder é o opressor e que são eles que detêm o privilégio de
personagem principal desses livros. É destacado na animação, sobre a Revolução da Balaiada, como “essa guerra é
apenas uma data nos livros de história”, negligenciando a história dos camponeses após esse conflito. O filme adquire,
portanto, um papel de fio condutor, mediando fatos acadêmicos e do cotidiano. O cinema, seriados, e até mesmo
programas televisivos possuem um poder de alcance muito elevado na sociedade atual. De acordo com dados
divulgados pela Kantar Ibope Media, o alcance da TV linear (que inclui a TV aberta e os canais pagos) chegou a 93% da
população brasileira em 2021. Fora os serviços de streaming que cada vez mais se popularizam, tornando o conteúdo
principal em diversas casas brasileiras. Assim, buscamos analisar, através dessa pesquisa, a importância do audiovisual
para a compreensão de momentos históricos, utilizando a animação brasileira como intermédio para a construção de
um conhecimento a partir de novas perspectivas.
O objetivo desse artigo é apresentar a visão de Lemos Britto sobre o assunto e no Primeiro Congresso
Americano da Criança, realizado em Buenos Aires no ano de 1916, e como essa visão conservadora influenciou
a elaboração do Código de Menores de 1927.
Apoio:
Cinema e espaço de memória e socialização
O presente trabalho por parte de uma pesquisa do Programa de Mestrado em História Pública da Universidade
Estadual do Paraná (UNESPAR), Campus de Campo Mourão, estabelecendo breves relações com a memória,
História Pública e os indivíduos, a maneira com que os públicos compartilham suas histórias, tendo como base
também estudos de fontes escritas e entrevistas. O projeto apresentado para o programa tem o objetivo de
levantar aspectos importantes sobre a memória e o espaço do cinema na cidade de Campo Mourão e de
relacionar as vivencias das pessoas em relação as salas de cinema existentes na cidade. Levantando assim
fontes escritas relacionadas ao período em que havia salas de cinemas na cidade, assim como informações
sobre essas salas através de documentos, utilizando fontes orais como complemento às informações
levantadas. Foi possível estabelecer aqui algumas relações com o período em que as salas estavam
funcionando, assim como pessoas que frequentavam o cinema para levantar mais algumas informações que
as fontes escritas não forneciam. Essas situações contribuem com a relação entre o público e a memória desse
período, uma vez que há uma ausência do cinema em livros da história da cidade de Campo Mourão, estado do
Paraná. Os jornais auxiliam na pesquisa, principalmente em relação ao imaginário da cidade, assim como é
possível identificar, por muitas vezes, que há muitas informações no jornal Tribuna do Interior sobre o cinema
nos anos 1970, mesmo que, a partir do início dos anos 1980, havia poucas informações sobre a programação
e eventos que ocorriam nas salas. É importante notar que, para se chegar aos entrevistados, foi necessário um
caminho de envolvimento com outros personagens e lugares, por meio do contato com instituições e pessoas
responsáveis nestas instituições, como a Biblioteca Municipal Egydio Martello. Sabemos, por meio dos estudos
de Poliseli e Lima (2016), que o cinema em Campo Mourão, enquanto um local social, com salas de projeção e 164
com grande frequência de espectadores, ocorreu principalmente entre as décadas de 1950 e 1980. Estes
mesmos autores indicam a existência de três cinemas, de modo simultâneo, no município, sendo eles: o Cine
Mourão, Cine Império e Cine Plaza. As pesquisas em jornais demonstraram a maneira com que a Tribuna do
Interior tratava o desenvolvimento da cidade, demonstrando diretamente reportagens que traziam a
modernização como destaque. Sobre o cinema em específico, as reportagens tratavam de, principalmente,
eventos que havia nas salas, principalmente o Cine Plaza, e em alguns períodos que estava presente a
programação. Nesta programação, existiam tanto filmes do Cine Plaza, quanto do Cine Império.
Chanchadas e neorrealismo: o impacto de Rio, 40 graus (Nelson P. dos Santos, 1955) sobre a obra de
Watson Macedo
Produzido e dirigido por Nelson Pereira dos Santos em 1955, Rio, 40 graus é uma experiência neorrealista,
configurada por uma produção independente sustentada em um sistema de cotas, realizada com
equipamentos emprestados, atores amadores e profissionais iniciantes, que narra a história de cinco meninos
moradores de uma favela. O filme interpreta a cidade por meio da experiência da exclusão social e demarca
uma nova forma de filmar, sendo quase integralmente realizado em locações, sobretudo externas. Por conta
dessas inovações, foi proibido pelo chefe do Departamento Federal de Segurança Pública por, supostamente,
ser comunista e apresentar aspectos negativos da capital do Brasil. Como resposta, foi deflagrada uma
campanha internacional em prol de sua liberação, que ocorreria apenas no ano seguinte, 1956. Com esse
panorama em vista, a proposta desta apresentação é demonstrar o impacto de Rio, 40 graus sobre a obra de
Watson Macedo, um dos principais produtores e diretores de chanchadas, gênero cinematográfico cômico –
que também poderia ser musical e carnavalesco –, que marcou a história do cinema brasileiro, sobretudo entre
1930 e 1950. Ainda que existam chanchadas produzidas fora do Rio de Janeiro, o gênero é majoritariamente
carioca, se apresentando como material adequado à apreensão audiovisual da cidade, capital da República
até 1960. Em especial na obra de Macedo, há um reiterado esforço de representação do Rio e do “ser carioca”.
Apoio:
As marcas de Rio, 40 graus no cinema brasileiro já foram examinadas pela historiografia, sobretudo em relação
ao Cinema Novo, movimento com a proposta de realizar filmes modernos e politizados surgido no limiar dos
anos 1960; contudo, são raros os estudos que mensuram o seu agenciamento sobre produções comerciais,
como é o caso das chanchadas. Vale informar que, a partir de 1952, Macedo se tornou um produtor
independente, se localizando no mesmo grupo que Nelson Pereira no espectro político que então organizava a
atividade cinematográfica brasileira. Não apenas por esse motivo – mas também porque Rio, 40 graus causou
forte impacto no campo da visualidade, com uma nova forma de filmar a cidade –, é plausível conjecturar que
Macedo tenha inflexionado a relação com o Rio a partir de Depois eu conto (José Carlos Burle, 1956), de que
era produtor, inserindo mais sequências externas, inclusive em favelas, e temas sociais em Rio fantasia (1957),
Alegria de viver (1958), Virou bagunça (1960) e Samba em Brasília (1961). Ainda que essa operação se configure
apenas como um diálogo, longe de uma imersão completa na proposta neorrealista, o seu mapeamento pode
trazer mais complexidade para os estudos sobre as chanchadas e a representação audiovisual do Rio de
Janeiro.
Ecos da Subalternidade: A Representação do Negro na Chanchada Carioca Como Fonte Histórica (1940 -
1950)
Partindo da pesquisa (QUASE) sem perder a majestade: a produção de uma história pública sobre o Rio de
Janeiro em filmusicais e chanchadas entre o Estado Novo e a Inauguração de Brasília, coordenada pelo 165
Professor Doutor Carlos Eduardo Pinto de Pinto que tem como uma de suas propostas pensar uma história
pública do Rio de Janeiro construída através do cinema, por meio da análise de filmes comerciais que tinham
a cidade como lugar privilegiado de abrigo das histórias narradas. O projeto permite refletir sobre a dinâmica
da representação urbana (em consonância ou oposição a políticas culturais e culturas políticas em jogo no
contexto) e seus desdobramentos, sobretudo a produção de subjetividades” (PINTO, 2016). Para futuros
projetos de pesquisa tenho me empenhado a compreender através da imagem fílmico, como o corpo negro foi
articulado em filmusicais e chanchadas na produção cinematográfica produzidas pela Atlântida com a direção
de Watson Macedo, que compreende o período de (1940-1950) sendo atualmente o recorde de meus estudos.
Busco perceber como era a relação do negro com a cidade do Rio do Janeiro e sua representação nas cenas
das Chanchadas Carioca. E se essa relação estaria atravessada por permanências ligadas à escravização
desses corpos, mesmo depois de mais de cinquenta anos do Pós-Abolição no Brasil. Tendo em vista a
perspectiva da longa duração das mentalidades (BRAUDEL, 2007), suponho que seja possível perceber traços
da falta de cidadania e do racismo experenciados no Pós-Abolição nas imagens fílmicas, que pode nos servir
como caminho para pensar como homens e mulheres de cor vivienciavam na longa duração das mentalidades
no Brasil Republicano, e também certas permanências ligadas a escravidão, com a valorização da
miscigenação rácico-cultural, ancorada na ideia de uma “democracia racial” (GOMES, 1996), durante o Estado
Novo. E se há uma possível reverberação do que a historiografia nos confirma acerca da luta de corpos de pele
preta como sujeitos desejosos de serem protagonistas e agenciadores de sua própria história. Lembrando que
o pós abolição significou para a população negra o legado de permanecer “à margem” do acesso às
necessidades básicas para sobrevivência humana, e isso se deu pela falta de cidadania que o Pós- Abolição
promoveu no Brasil. Suponho que seja possível através das Chanchadas Carioca evidenciar subjetividades do
cotidiano político, social e cultural do homem e da mulher de pele preta da época, como se fosse um eco da
realidade vivenciada pela população negra na cidade, e assim possibilitar o escrita histórica por meio das
produções cinematográficas Carioca.
Apoio:
Mulheres Negras nas Chanchadas Brasileiras: Estereótipos e Marginalização na Tela
Nas chanchadas brasileiras, as mulheres negras eram frequentemente representadas de forma estereotipada
e marginalizada, ocupando papéis secundários que refletiam as desigualdades sociais e raciais da época. De
acordo com pesquisa de Oliveira (2018), essas representações careciam de complexidade e profundidade,
muitas vezes servindo apenas como alívio cômico ou para reforçar estereótipos raciais. Seus personagens
eram frequentemente relegados a papéis de empregadas domésticas ou figuras periféricas, contribuindo para
a reprodução das hierarquias raciais presentes na sociedade brasileira. Embora houvesse algumas tentativas
de subverter essas representações estereotipadas, como observado por Silva (2017), a maioria dos filmes
reproduzia as desigualdades sociais e raciais da época, refletindo as dinâmicas de poder e exclusão presentes
na sociedade brasileira. Essa marginalização das mulheres negras nas chanchadas é um reflexo das estruturas
racistas que permeavam a cultura e a indústria cinematográfica brasileira do período. É importante
contextualizar essas representações dentro do cenário histórico em que foram produzidas. Na década de 1960,
o movimento negro no Brasil estava ganhando força, lutando por direitos civis e por uma representação mais
digna e autêntica das pessoas negras na sociedade e na cultura popular. Nesse sentido, as representações das
mulheres negras nas chanchadas refletem não apenas as realidades sociais e raciais da época, mas também
as lutas por igualdade e justiça que estavam sendo travadas. Em suma, as chanchadas brasileiras oferecem
um olhar revelador sobre a representação das mulheres negras no cinema nacional, destacando a necessidade
de análise crítica e contextualização histórica para compreender as complexidades dessas representações. Ao
reconhecer e problematizar esses estereótipos, podemos avançar em direção a uma representação mais
autêntica e inclusiva das mulheres negras na cultura e na sociedade brasileira. 166
Mocinhas, megeras e vilãs: As mulheres nas Chanchadas brasileiras dos anos 1950
Em minha comunicação pretendo analisar a trajetória das personagens femininas nas telas do cinema
brasileiro, no gênero Chanchada, durante a década de 1950, com relação a comportamentos, relações sociais
e familiares, para isso observando como era realizada a exposição de seus corpos, e em que medida a
sensualização e/ou sexualização dessas personagens, representava os anseios das mulheres brasileiras e suas
reivindicações, na época em que essas obras foram produzidas e exibidas. Para isso, utilizo como exemplo uma
análise do filme Depois eu Conto, (José Carlos Burle, 1956). Uma obra cinematográfica é uma forma de
representação de determinada visão de mundo. No Brasil dos anos 1950, o país passava por grandes
transformações sociais e econômicas, que, de certa forma, impactaram os costumes e as relações familiares.
Pretendo discutir as formas de representação das mulheres brasileiras nessas películas e como elas podem
ter contribuído (ou não) para a consolidação de estereótipos e/ou para os movimentos de emancipação
feminina, que já despontavam no período.
Este trabalho se debruçará sobre uma série de textos denominada Cinematographo e Suggestão, escrita por
Brito Alves, em 1914, veiculada pelo Jornal do Recife entre maio e junho do mesmo ano, no Recife. Influenciado
pelos estudos da criminologia da Nova Escola Penal à época e pela leitura do texto Cinematographo e
Criminalidade (1914), de Elysio de Carvalho, então diretor do Gabinete de Identificação da polícia do Rio de
Apoio:
Janeiro, Alves escreveu sobre a relação “sugestiva” que o cinema teria com a criminalidade e com a
imoralidade, e como isso afetaria o progresso da sociedade brasileira; e como determinados filmes poderiam
incentivar ações que fossem imorais ou perigosas para um país que buscava ser civilizado. As fitas
denominadas “alegres” ou “livres” teriam apelo erótico ou sexual; as “sensacionais” seriam películas com
cenas de roubo, tiroteio, sequestro, morte etc. Ao ampliarmos nossa escala de observação e de análise por
meio da metodologia da micro-história, verificaremos indícios, através dos argumentos desse autor, de um
projeto civilizador conservador em curso e de como frações das elites e das camadas médias urbanas
pretendiam utilizar o cinema como um espaço de educação moral para as “massas”. Nesse sentido, foram
criados vários mecanismos de controle, seja por convencimento ou coerção, para que se mantive-se o status
quo desejado por eles. Além disso, perceberemos que esse projeto, identificado nos escritos de Carvalho e de
Alves, baseavam-se, no que tange ao cinema, com o que acontecia em países da Europa Ocidental, sobretudo
na França. Foi neste país que, em 1908, foi promovido o Congresso Internacional Contra a Pornografia, em cujo
relatório se verificam aproximações na forma como pensavam coibir, censurar ou controlar a venda, produção
e distribuição de produtos considerados imorais para as suas nações numa perspectiva, inclusive,
transnacional. No Brasil, moralistas como Brito Alves, com evidente inspiração ideológica francesa, atrelavam
os filmes “alegres” e “sensacionais” como um dos fatores para o atraso social e para o retardamento do país no
caminho do progresso. Seguir esses rastros nos ajudará a compreender melhor as disputas e contradições em
torno da inserção do cinema na Primeira República.
Sessão 3 167
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
A apresentação pretende estudar o cinema de Serguei Eisenstein à luz de seu contexto histórico: a criação da
União Soviética e, posteriormente, a ascensão de Stalin ao poder. Para tanto, o trabalho se dedica a um estudo
de dois de seus filmes: A Greve (1925) e O Velho e o Novo (1929). Com um aporte metodológico voltado para a
interpretação das imagens e o método documentário, de Ralf Bohnsack, a pesquisa objetiva demonstrar a
relação entre a estética do cinema eisensteiniano - por meio de um olhar pré-iconográfico, iconográfico e
iconológico - e o contexto soviético mencionado anteriormente. Ao refletir sobre o aparato teórico, o trabalho
reconhece a necessidade de mobilizar os conceitos de Jacques Rancière, sobre a partilha do sensível, ao
mesmo tempo em que lança um olhar sobre o duplo conceito de monumentalização/desmonumentalização
utilizado por Marcos Napolitano. A pesquisa, portanto, promove um debate em torno das dinâmicas entre
cinema, política e história suscitado por um movimento de congruência e separação entre estética e política.
Além da Tela: explorando “Pra Frente, Brasil” como fonte histórica na educação sobre a Ditadura Militar
Felipe Lima Pires de Mello (UERJ), Giovana Mylena Silva Soares (UERJ)
Indubitavelmente, o cinema de cunho histórico-social é uma marca registrada nas produções fílmicas brasileiras. O
cinema nacional explora, sob vários pontos de vista, temas relevantes para a História e para a construção da memória
do nosso país como, por exemplo, os filmes relacionados à Ditadura Militar (1964–1985). Embora haja discussões acerca
do que pode ser considerado um filme histórico, pode-se afirmar que esse gênero se caracteriza por estar localizado
temporalmente no passado, buscando rememorar um episódio anterior ou, em outros casos, a biografia de um
personagem histórico. Todavia, independentemente das temáticas abordadas, vale ressaltar que tais produções não
Apoio:
têm qualquer compromisso com a exatidão ou com a precisão da análise histórica e historiográfica. Ademais, para Marc
Ferro, um dos principais intelectuais a pensar nos estudos envolvendo cinema e história, os filmes não são apenas
fontes históricas, mas também, instrumentos para contribuir na prática do ensino. Partindo desse pressuposto, nota-se
que a produção fílmica figura como mais um território a ser explorado pelo historiador, desde que seja atrelado à uma
pesquisa histórica minimamente aprofundada e coerente. Neste sentido, tendo em vista a efeméride de 60 anos do
golpe empresarial militar, bem como a importância dos filmes enquanto fontes históricas, esta pesquisa pretende
analisar a obra ‘’Pra Frente, Brasil’’ (1982), dirigida por Roberto Farias. Partindo de três pressupostos fundamentais: a
violência institucionalizada, o financiamento à repressão por grupos de empresários e, por fim, a propaganda ufanista
relacionada à vitória na Copa do Mundo de 1970, a proposta é relacionar determinadas cenas do filme e apresentar
possibilidades de abordagem e debates em sala de aula acerca da Ditadura Militar. Por fim, à luz do trinômio cinema,
ditadura e ensino de História discutiremos as possibilidades de utilização de tal fonte histórica no contexto da educação
básica, tendo como enfoque o Ensino Médio. Por fim, este trabalho adota uma perspectiva didática ao se utilizar do
cinema para abordar a Ditadura Militar, buscando, ao mesmo tempo, discutir o papel do historiador enquanto professor
e pesquisador.
Esta comunicação tem como objetivo central analisar as representações sobre a esfera privada e o trabalho 168
doméstico em vídeos feministas produzidos na década de 1970. Historicamente, as mulheres foram associadas e
restritas à esfera privada por meio da naturalização e essencialização do trabalho reprodutivo. Por isso, o trabalho
doméstico, por muito tempo, não foi compreendido como trabalho não-pago, mas como dom, obrigação ou ato de
amor por parte das mulheres. Foi a partir da década de 1960 que as discussões acerca da esfera privada tornaram-
se fundamentalmente questões feministas, sobretudo a partir da compreensão de que o privado era político, ideia
perpetuada no manifesto da feminista radical estadunidense Carol Hanisch, de 1969, intitulado “O pessoal é
político”. Essas reflexões influenciaram na teoria e na prática de uma geração de mulheres, o que incluiu as obras de
artistas, fotógrafas e cineastas. A partir da ideia de que o pessoal era político, as mulheres passaram a politizar o
cotidiano e a vida doméstica, expondo como a ideologia do patriarcado não era restrita ao espaço público, mas,
muito pelo contrário, extremamente arraigada ao espaço privado. Assim, este trabalho tem como fontes as obras de
vídeodocumentaristas e vídeoartistas tais como as brasileiras Letícia Parente e Sônia Andrade, a estadunidense
Martha Rosler, a argentina Graciela Taquini e o coletivo francês Les Insoumuses, constituído por Carole
Roussoupoulos, Delphine Seyrig e Ioana Wieder. Busca-se sublinhar de que forma essas artistas desenvolvem as
aproximações entre feminismo, trabalho doméstico e esfera privada em suas obras. Através de aportes teórico-
metodológicos da história das mulheres e da história do cinema, especialmente as contribuições da teoria do
cinema feminista, será investigada a relação entre o vídeo e o debate feminista acerca da esfera privada e do papel
da mulher na vida doméstica. O trabalho também investigará os contextos que motivaram mulheres a utilizar o vídeo
como ferramenta de disseminação de debates, explorando diálogos entre as representações audiovisuais e
discussões teóricas dos movimentos feministas, discutindo também a utilização da tecnologia do vídeo por
movimentos sociais, neste caso, o movimento feminista.
Nesta apresentação proponho uma análise comparativa entre os filmes Central do Brasil (2008) e Linha de
passe (2008), dirigidos por Walter Salles – com codireção de Daniela Thomas na segunda trama –, a partir do
Apoio:
contexto da Retomada do Cinema Brasileiro, iniciada nos anos 1990. A pesquisa tem como objetivo
compreender as visões que o diretor Walter Salles tem do Brasil em ambos os filmes, buscando o entendimento
das suas motivações para as distinções percebidas em cada trama, pensando, dessa forma, a ideia de nação
no cinema do diretor e de que forma a passagem de dez anos entre os filmes teria ocasionado mudanças em
sua perspectiva a respeito da nacionalidade. A escolha dos filmes se dá por ambas as tramas retratarem as
agonias do povo brasileiro em meio às dificuldades impostas pela vida e a luta diária pela sobrevivência. Se em
1998, vemos essa retratação focada na região Nordeste, tal como caracterizada no filme Central do Brasil, em
2008 o retrato se dá na metrópole de São Paulo. A região Nordeste, bastante filmada pelo Cinema Novo, e a
cidade de São Paulo, locus de atenção do Cinema Marginal e de documentaristas, como a Caravana Farkas,
são tomadas como representações distintas da nacionalidade brasileira, ancoradas em regimes de visualidade
singulares, mas com pontos em comum. Em ambos os casos, o diretor parte de um diálogo com uma parte da
história do cinema brasileiro, responsável por tentar cunhar grandes interpretações sobre o Brasil O interesse
recai, no entanto, não nas mimeses desses períodos, mas naquilo que os filmes contemporâneos trazem de
novidade – o que significa tentar fazer retratos do Brasil nos anos 1990 e 2000? Partirei de conceitos e definições
de nação e nacionalismo de autores como Eric Hobsbawm, Ernest Gellner, Benedict Anderson e Gopal
Balakrishnan para pensar a importância da nacionalidade para o cinema de Walter Salles, compreendendo as
transformações no contexto que permitem explicar as diferentes visões de Brasil expostas nos filmes e a
influência do Cinema Novo, do Cinema Marginal e da Caravana Farkas em ambas as produções.
Uma das obras mais icônicas de Stanley Kubrick, de 1971, Laranja Mecânica segue, até hoje, sendo um marco
na história do cinema e da cultura pop. Seja pela sua iconografia, com ar futurista retrô, pelo linguajar incomum
de seus personagens ou pelo carisma sinistro do protagonista, Alex DeLarge, um delinquente que sai às ruas
de madrugada, "a abrir caminho pelo mundo à viva força, vencendo tudo e todos", como diz seu criador,
Anthony Burguess, em um texto de 1973 que dá título a este trabalho. No entanto, em certo momento, o anti-
herói se torna vítima da própria violência com a qual se impôs sobre os outros, servindo de cobaia para os testes
do Método Ludovico, que pretende extirpar seus ímpetos agressivos através de uma terapia com drogas e cenas
de estupros, assassinatos e guerras, gerando uma aversão física incontrolável. Assim, o jovem é tratado como
o exemplo de cidadão regenerado e reintegrado à sociedade. Kubrick opta por adaptar a edição americana do
livro, que desconsidera o epílogo original da edição britânica, onde Alex escolhe, após algumas reviravoltas, o
caminho oposto ao da violência. Essa adaptação traz um caráter niilista de expor o pior do ser humano, fruto
de um Estado em ruínas que acredita ser capaz de controlar e moldar comportamento de seus indivíduos. Este
trabalho pretende analisar a película do diretor norte-americano em contraste com os debates propostos pelo
autor britânico, traçando paralelos e apontando distintas percepções em torno do condicionamento
respondente, da liberdade e da dignidade humana ao contexto da época.
Marta de Almeida (Museu de Astronomia e Ciências Afins), Agda Lima Brito (MAST), Joao Carlos Martins (Museu
de Astronomia)
Em 2023 foram comemorados os 110 anos do Serviço da Hora Legal prestado pelo Observatório Nacional (ON),
atualmente situado no bairro de São Cristóvão. Para a ocasião, foi realizado um levantamento de fontes e
bibliografia a respeito do tema, uma vez estar prevista a exibição de um filme produzido sobre a medição do
tempo pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE). Pudemos localizar não somente aquele filme
Apoio:
anunciado, mas também outro, bem do início dos trabalhos idealizados por seu diretor, Roquette Pinto para
produção de material de divulgação das ciências através do cinema, pois o INCE foi criado em 1936, com
objetivo de filmar demonstrações culturais, científicas e cívicas do país. Intitulado A Medida do Tempo e dirigido
por Humberto Mauro naquele ano, contou com a consultoria do engenheiro Allyrio de Mattos, contratado como
astrônomo no ON desde 1917, com duração de 4 minutos. Já o segundo, A Medida do Tempo II, dirigido por
Jurandyr Passos Noronha, foi acompanhado por Luiz Muniz Barreto e, embora haja a datação de 1964, consta
em sua ficha catalográfica 1958 como o ano de produção, com duração de 10 minutos. Pudemos exibir os dois
filmes que registram momentos diferenciados do funcionamento do Observatório Nacional, seus
instrumentos, algumas de suas atribuições e também alguns de seus funcionários. Entre as rápidas tomadas
de enfoque nos instrumentos de regulação e medição do tempo como pêndulas e cronômetros, identificamos
a imagem do Sr. Cláudio Imbuzeiro, funcionário do Observatório desde 1916 onde iniciou seus serviços como
ajudante de estação meteorológica do Observatório no extinto Morro do Castelo, Observatório Magnético de
Vassouras e também nas dependências em São Cristóvão, atuando como assistente de operações, inclusive
dos osciladores eletrônicos. Por sua longa trajetória no Observatório, foi entrevistado pelo Grupo de Memória
da Astronomia (GMA) em 1983, narrando um pouco sobre suas vivências nesses espaços de trabalho. Essa
entrevista gravada originalmente em fita rolo e copiada em fita cassete, foi recentemente higienizada e
digitalizada pelo Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), no âmbito do Projeto Vozes da Ciência no Brasil
do qual fazemos parte. Para essa comunicação, propomos discutir os processos históricos que deram sentido
tanto à produção fílmica do INCE quanto à realização de entrevistas nos anos 1980 no ON, ampliando as
perspectivas de compreensão sobre essas produções e o papel de agentes históricos nem sempre citados ou
reconhecidos nas narrativas institucionais e historiográficas sobre o fazer científico. Ao mesmo tempo, será
destacado o potencial das ferramentas digitais para a preservação de fontes sonoras e audiovisuais e para
novas abordagens no campo da história das ciências. 170
Este estudo tem como objetivo apresentar a construção do termo herói representado por meio da imagem de
Espártaco, que lutou pela liberdade dos escravizados na Roma Antiga. Também analisamos os usos e as
apropriações de Espártaco, que a partir do século XVIII, fez-se símbolo de revoluções. Assim, ao longo do
tempo, Espártaco tornou-se parte da cultura popular, revivendo o herói épico na obra cinematográfica
Spartarcus de Stanley Kubrick (1960). E, ao ser retomado no século XXI, por meio do seriado Spartacus (2010-
2013), passou de herói épico a herói das massas. O retorno do herói mítico é visto como saudosismo, um
modelo de herói que não existe mais. Dessa forma, estudamos também como a Indústria Cultural reforçou os
padrões de beleza ocidental baseado em um modelo de corpo. O corpo do herói é musculoso, considerado
sinônimo de virilidade e símbolo sexual. E com o avanço tecnológico e científico, ocorreu um desencantamento
dos mitos e do sobrenatural, desfazendo o misticismo em torno do herói. Construiu-se novos modelos de
heróis, encomendados e integrados a uma mídia globalizada. Neste sentido, as fontes analisadas foram o
seriado Spartacus, obras clássicas e de referências. A metodologia utilizada consistiu na análise icnográfica de
Espártaco como representante cultural e produto das massas. Por último, o fato do seriado Spartacus ter sido
escolhido como fonte audiovisual, justifica-se pela forma simbólica em que o corpo e o herói foram abordados,
como simulacros do homem contemporâneo. Com isto, Espártaco pode ser encaixado no entre lugar das
narrativas entre o passado e o presente, como integrante de um patrimônio audiovisual.
Apoio:
“Gamegrafia": Uma análise sobre a capacidade educacional dos games no ensino de história
O trabalho em questão teve como objetivo observar os games como fonte histórica. Para isso, o trabalho
realizado buscou analisar num primeiro momento essa mídia digital em diversos aspectos, sendo
primeiramente tratada como fonte de pesquisa, numa observação dos potenciais dos games na atividade
docente. No capítulo seguinte, observei qual é a relação destes produtos com a narrativa histórica,
apresentando as diferentes versões de games sobre um mesmo tema. Esse capítulo foi importante para
entendermos que os games são frutos de uma lógica discursiva, pois são resultado da visão que seus
produtores tem sobre uma temática abordada. Além nesta parte teórica, foi necessário a elaboração de um
produto final para atender as demandas que pudesse aproximar a realidade dos games aos docentes. Por isso,
com o objetivo de construir uma ponte entre docentes e games - para que os primeiros tenham mais
ferramentas para se aproximar do seu alunado -, o seguinte trabalho consistiu na elaboração de um compêndio
de games comentado que pudesse apresentar possibilidades de produção de conhecimento histórico para a
sala de aula a partir dos elementos históricos presentes nesse games, visando explorar suas capacidades
pedagógicas, o que vai familiarizar os docentes com estas tecnologias enquanto ferramenta para o ensino de
história. Este produto para o professor recebeu o nome de Gamegrafia. Olhar para essas tecnologias traz luz
para as novas demandas que estão se colocando ao trabalho dos docentes. O uso destas mídias pode facilitar
a construção de cenários na visão do aluno, favorecendo o aprendizado de certas temáticas históricas. Como
qualquer campo científico, o visual permite mostrar o funcionamento de certas estruturas, e isso vale
perfeitamente para a área de História. Não é de hoje que o aparato visual é utilizado em sala, com os docentes
recorrendo a quadros de época e filmes sobre o tema. Mesmo ciente de que os games tem como proposta o 171
entretenimento e o lucro das suas produtoras, estes produtos não deixam de ter uma relevância na divulgação
da história e na produção daquilo que autores como Christine Dupont, Michael Frish entre outros nomeiam de
“história pública”. O caso da série de games Age of Empires, que conquistou fãs pelo mundo todo e se tornou
uma febre mundial, um blockbuster dos games. Essa série traz diversos elementos históricos, que sendo
analisadas de maneira prévia, permitirá ao professor apresentar visões sobre uma civilização e um tempo,
eventos difíceis de reproduzir, utilizando a mídia digital para retratar ao aluno os eventos de uma época. Mesmo
sabendo que tais games apresentam visões com graus de anacronismo, tais mídias servem como base para a
construção de conceitos e conteúdos históricos na sala de aula.
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 21
Impérios Ibéricos no Antigo Regime: política, sociedade,
economia e cultura
Coordenação:
Fabiano Vilaça dos Santos (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Marcello José Gomes
Loureiro (Universidade Federal Fluminense)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Estima para os assuntos de guerra, deleite e ornamento para os tempos de paz: Desenho e império em
Francisco de Holanda
Em 1571, o artista luso Francisco de Holanda escrevia o códice Da Fábrica de Lixboa como uma “lembrança ao
muito sereníssimo e cristianíssimo rei Dom Sebastião”, obra comumente tomada como fonte para amealhar
informações sobre a arquitetura e plano urbanístico da cidade de Lisboa naquela época. Contudo, ao
reivindicar uma valorização da arte ou, nomeadamente, o que chamou de “ciência do desenho”, sugere a
possibilidade de seu uso para o bom governo do rei. Assim, esta comunicação versa sobre o conjunto do
172
códice, em que o pintor formaliza advertências e propostas de largo espectro que visavam, por um lado, ao
bem comum da cidade de Lisboa e, por outro, a expansão e manutenção do império português. No limite, a
comunicação discute os elementos políticos mobilizados por Holanda para tessitura do seu discurso, que pode
ser interpretado como uma oferta ao rei em tempos de paz, propondo obrar para um período de guerra.
O processo de colonização do Vice-Reino do Peru, durou décadas. Desde a chegada de Pizarro (1532) até o fim
da última organização inca em Vilcabamba (1572) foram quarenta anos de tensões travadas entre
conquistadores e autóctones, com intensa negociação das práticas culturais, religiosas e sociais ancestrais.
Durante este período, uma relativa tolerância à ancestralidade local fez parte dos primeiros anos de
evangelização, o que acabou por levar as autoridades presentes no Vice-Reino a repensar o método de
conversão ao cristianismo a partir de 1610, quando se tornou sistemático o combate à idolatria nativa.
Extirpação de Idolatrias foi o nome dado à instituição voltada para a identificação da permanência das práticas
andinas entre os naturais, assim como a condução destes à palavra de Deus. Ela foi dividida em dois momentos
específicos: O primeiro ocorreu entre 1610 e 1622, chamado de Primeira onda de Extirpação de Idolatrias. Após
essa fase, o Vice-Reino do Peru seguiu por um intervalo de vinte e sete anos sem que a caça à religiosidade
nativa encontrasse uma confluência de forças oficiais (entre Vice-reis e Arcebispos) engajadas
em sua extinção. Entretanto, a partir de 1649, já sob o arcebispado de Pedro de Villagómez, foi conduzida uma
Segunda Onda de Extirpação de Idolatrias, na cidade de Lima. Villagómez acreditava que os nativos, mesmo
após anos de evangelização, ainda eram dotados de uma predisposição natural a idolatrar (CORDERO
FERNÁNDEZ, 2019, p. 361). Uma nova busca pelas práticas religiosas andinas ganhou fôlego em seu
arcebispado e os expedientes a serem analisados nesta proposta de trabalho datam justamente do período de
seu governo. Desta forma, buscarei elucidar, através das fontes eclesiásticas, a presença da moralidade
católica europeia no Vice-Reino do Peru, durante as chamadas Campanhas de Extirpação à Idolatria. Também
Apoio:
discorrerei como esta moralidade influenciou na evangelização das mulheres durante o século XVII. Nos
interessa compreender o cotidiano das nativas e a agencia destas frente à conversão e à denúncia de seus atos
mágicos, proveniente, muitas vezes, de pessoas vinculados a seus laços de parentesco. As diferentes
ontologias em contato produziu uma classe de nativas conhecidas como sacerdotisas e/ou bruxas andinas.
O trabalho aqui apresentado aborda o Rio de Janeiro como centro administrativo das capitanias do centro-sul
e o papel do Recôncavo da Guanabara na articulação do território a partir da abertura do caminho novo que se
principia no governo de Artur de Sá e Meneses (1697-1702). No âmbito político-administrativo seu governo,
aliado à política das mercês da monarquia portuguesa, favoreceu não só a abertura do dito caminho ao
contratar os serviços do paulista Garcia Rodrigues Paes, como também incentivou a passagem de pessoas
interessadas na exploração aurífera ou ainda no fornecimento de itens indispensáveis à subsistência e ao
trabalho nas minas, como a mão de obra escrava africana. Ao mesmo tempo, há também uma concordância
na historiografia de que a ampliação da jurisdição do governador Artur de Sá sobre as capitanias do Sul colocou
o Rio de Janeiro como cabeça de um vasto território, como se dizia na época. Trajetórias governativas,
recrutamento, prestação de serviços e mercês voltam à baila nesta comunicação.
173
A graça do perdão: O debate sobre a exclusividade régia na concessão dos perdões às revoltas do Estado
do Brasil
Em 1719 D. João V endereçou correspondência aos governadores de diferentes partes do Império Português.
Tratava-se de uma decisão que proibia terminantemente os oficiais régios em postos de governação no
ultramar de conceder perdões em casos de sublevação, uma vez que tratava-se o ato de uma prerrogativa régia.
E que se em casos de extrema necessidade os governantes ultramarinos entendessem ser a graça necessária
para reverter um cenário de rebelião, o mesmo perdão só teria validade definitiva após a confirmação régia. A
presente comunicação tem por objetivo abordar o contexto crítico das rebeliões no Estado do Brasil durante as
primeiras décadas do século XVIII e as atualizações normativas produzidas pela Coroa portuguesa no intuito
de promover alterações jurídicas que fossem capazes de conter a reincidência de revoltas naquele período,
uma grande preocupação para o monarca e os seus conselheiros no momento. Tendo por base ainda a troca
de correspondências sobre o tema, bem como algumas decisões em torno da controvérsia entre a concessão
de perdões ou o castigo, buscaremos perceber também como esta discussão se associa com outras variáveis
próprias daquele contexto. Dentre elas, o debate político e as reflexões sobre a cultura política que vinham
promovendo desde a segunda metade do século XVII sugestões de que o rigor e também que uma prática
política mais utilitária e menos controlada pela obediência integral às virtudes cristãs se manifestavam nos
círculos de discussões e nos conselhos reais, afetando também as decisões régias e as práticas de governação.
Neste sentido, a experiência da Revolta de Vila Rica de 1720 é exemplar de como tais preocupações e
mudanças construíram também novos arranjos, disputas e questões durante a negociação para o término de
uma rebelião de relevo, tal qual a que se manifestou no centro político das minas nesta conjuntura. Os dias de
negociação foram significativamente marcados pelo questionamento dos revoltosos ao teor condicional do
perdão emitido pelo Conde de Assumar e a frustração da expectativa dos sublevados de que a graça fosse, tal
qual era costume em tempos anteriores, emitida de forma sumária e definitiva pelo governador. Assim, tal
cenário assume nesta comunicação o papel de demonstrar como a polêmica em torno da graça do perdão,
marcada pela revisão régia da possibilidade de sua emissão incondicional por oficiais à serviço no ultramar, era
Apoio:
presente e relacionava-se com as tensões próprias de um período de dificuldades na gestão das conquistas do
Brasil. E em que a Coroa portuguesa compreende que atualizar suas normas podia ser o caminho para a
imposição da obediência em suas conquistas.
Diante das crescentes tensões na Europa, causadas pela Guerra dos Sete Anos (1756-1763), que levaram as
competições coloniais ao ápice, tornou-se imperativo fortalecer as defesas tanto no Reino de Portugal quanto
no Estado do Brasil, sua principal colônia. O primeiro-ministro de D. José, Marquês de Pombal, implementou
um ambicioso programa de reformas militares, incluindo a reparação de fortificações, aprimoramento do
exército regular e reforma das milícias. Neste contexto, é pertinente uma análise comparativa das regiões
fronteiriças no Norte e no Sul da América, onde a necessidade de prevenção é constante. Nestes locais, os
súditos devem permanecer vigilantes e preparados para evitar serem surpreendidos por agressores.
Idealmente, essas áreas fronteiriças deveriam contar com uma estrutura defensiva eficaz para assegurar a
posse do território.
Trato, destrato, crédito e reputação: indígenas e jesuítas na incorporação do Maranhão e Grão-Pará (1640- 174
1661)
Ainda que o Estado do Maranhão e Grão-Pará tenha sido estabelecido formalmente em 1621, o fato é que essas
extensas áreas não constituíam um território perfeitamente incorporado à monarquia portuguesa. O próprio
Conselho Ultramarino reconhecia que a região admitia muitas dúvidas, que incluíam controvérsias entre
diversas autoridades. O projeto de incorporação coube à Companhia de Jesus, em que pese o encarregado da
missão catequética - o padre Antônio Vieira - sublinhasse que se tratava de uma “conquista por conquistar”.
Em face desse contexto, a comunicação pretende discutir os percursos decisórios e discursivos que
entremearam o processo de incorporação do Maranhão e Grão-Pará, evidenciando a manipulação de
determinadas categorias jurídico-políticas, tanto por jesuítas como por moradores.
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
A companhia de Jesus teve papel importante no projeto de colonização da América portuguesa. Neste sentido,
a nova Ordem religiosa, que emergiu inserida no contexto histórico europeu de significativas transformações -
movimentos reformistas protestantes e também de mudança da própria Igreja Católica, assim como da
expansão marítima, tornou-se importante aliada da Coroa Portuguesa na missão de converter à fé católica os
gentios. O monarca D. João III concedeu-lhes importantes meios materiais e financiamentos econômico, assim
como a proteção política e recomendação diplomática, abrindo-lhes as ‘portas ao mundo’, através do vasto
Apoio:
império ultramarino português. Neste trabalho, apoiado pelas referências bibliográficas e análise de fontes
documentais, o propósito é fazer alguns apontamentos sobre o Colégio da Bahia, um dos mais importantes
núcleos de educação e centro administrativo da Companhia, colaborando, assim, para a compreensão de
como os inacianos tornaram-se, ao longo de dois séculos, donos e administradores de grandes e importantes
propriedades coloniais. O recorte temporal abrange o período da chegada dos primeiros inacianos em terras
brasis, a fundação do primeiro núcleo educacional jesuítico – O colégio dos Meninos de Jesus, posteriormente
o colégio canônico, denominado Colégio de Jesus.
Ao longo da primeira metade do século XVIII, os confins da bacia amazônica foram alvo de expedições de
apresamento indígena promovidas por régulos do sertão (práticos locais), missionários, colonos, militares,
comandantes de fortalezas, Principais (lideranças indígenas) e autoridades coloniais. No extremo oeste, essas
entradas favoreceram a prática do comércio de fronteira (contrabando) encabeçado por agentes lusos e
espanhóis, a partir da navegação dos rios Negro, Javari, Solimões, Napo e Putumayo. Diante disso, esta
comunicação aborda as dinâmicas que informaram o contrabando de mão de obra indígena na fronteira oeste
da bacia amazônica entre as décadas de 1720 e 1750. Este período corresponde, de um lado, às tensões
fronteiriças e o acirramento da redução ameríndia e, por outro lado, à ausência de regulação oficial da prática
do contrabando na bacia amazônica pela Coroa portuguesa. Assim, serão privilegiados os negócios 175
conduzidos por missionários carmelitas e jesuítas, régulos do sertão e os seus associados de ambos os lados
da fronteira na comercialização da força de trabalho nativa. Para dar conta do objetivo proposto, partimos da
análise qualitativa dos circuitos formais (interno e transoceânico) da comunicação política no Império
português (COMISSOLI, 2018; CURVELO, 2019). O circuito interno compreende a troca de informações entre
os clérigos jesuítas e carmelitas, os régulos do sertão, os militares, os comandantes de fortalezas e os
governadores e capitães-generais do Estado do Grão-Pará. Já o circuito transoceânico engloba aqueles agentes
coloniais, os governadores e capitães-generais do Grão-Pará e os secretários de Estado dos Negócios
Estrangeiros e da Guerra e dos Negócios do Reino e Mercês, no Reino. As fontes manuscritas e impressas são
compostas por correspondências oficiais, ordens, certidões e bandos. Essa documentação encontra-se
depositada no acervo de três instituições e em uma obra impressa: Arquivo Histórico Ultramarino (AHU),
Arquivo Público do Estado do Pará (APEP) e Biblioteca Nacional de Portugal (BNP); e a obra A Amazônia na era
pombalina, de Marcos Carneiro de Mendonça (2005).
Pelo menos desde meados do século XVII, a busca por metais preciosos no Estado do Maranhão e Grão-Pará fora
incentivada pelos administradores coloniais, com base nos relatos de particulares e de missionários e a difusão do mito
da lagoa dourada, o El Dorado. Os chamados “descobrimentos” se tornaram cada vez mais presentes na troca de
correspondências entre os governadores e capitães-generais com os conselhos régios. Assim, o objetivo dessa
comunicação é compreender como a Coroa portuguesa se portou diante desses relatos e quais políticas buscou
implementar na administração dos “descobrimentos” de metais preciosos, tendo como objeto de análise a
comunicação política das autoridades coloniais com a Coroa, intermediada pelo Conselho Ultramarino, órgão
consultivo que auxiliava o monarca na tomada de decisões sobre diversos assuntos relativos aos domínios
ultramarinos. As principais fontes utilizadas são os documentos manuscritos avulsos e alguns códices relativos às
Apoio:
capitanias do Pará e do Maranhão, do Arquivo Histórico Ultramarino, que foram digitalizados pelo Projeto Resgate Barão
do Rio Branco e estão disponíveis na BNDigital, no site da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. A metodologia de análise
empregada é qualitativa e quantitativa, e parte do preenchimento de uma ficha de coleta de dados, que tem como
objetivo identificar e resumir o conteúdo de cada documento levantado e identificar na correspondência oficial entre os
governadores e o Reino, na primeira metade do século XVIII, relatos sobre a busca de minas de ouro no Estado do
Maranhão e Grão-Pará, tema central da minha dissertação de mestrado.
A diversificação econômica da capitania do Maranhão colonial nos primeiros anos do governo de José
Teles da Silva (1784-1786)
Luíza Nascimento Ferreira Lopes (UERJ), Hugo Costa de Araújo Lobo (UERJ)
No final do século XVIII, o Maranhão colonial assume um papel relevante na economia do território colonial
português na América, figurando como uma das regiões com maiores números de exportações de produtos.
Fruto do trabalho desenvolvido no período pombalino pelo Marquês de Pombal e pelo governador da capitania,
Joaquim de Melo e Póvoas, os governos que se seguiram mantiveram os investimentos na economia
maranhense, especialmente buscando uma diversificação dos gêneros exportados. Entre esses esforços que
se seguiram, destacamos o início do governo José Teles da Silva, que no recorte de 1784 a 1786, se dedicou a
descobrir novos produtos que poderiam reverter em avanços econômicos à capitania. Com o estímulo à busca
de drogas do sertão e com a introdução de novos gêneros de plantio, Teles deu continuidade ao
desenvolvimento econômico do Maranhão no final do século XVIII iniciado por Póvoas. 176
A chegada da família real portuguesa para além do Rio de Janeiro: seus reflexos no Grão-Pará
O presente trabalho tem como objetivo analisar os reflexos da chegada da família real portuguesa ao Brasil (1808),
especialmente os seus impactos no Estado do Grão-Pará e do Rio Negro — a saber como um dos principais impactos
a invasão e tomada de Caiena pelos portugueses (1809). A metodologia deste trabalho consiste no levantamento e
leitura dos documentos manuscritos do Arquivo Histórico Ultramarino, referentes ao Estado do Grão-Pará e do Rio
Negro, em que fora analisada a comunicação política dos governadores com a Secretaria de Estado da Marinha e
Domínios Ultramarinos. Por meio do levantamento destes documentos são preenchidas fichas de coleta de dados
visando compreender sobre quais assuntos os governadores e o secretário de Estado da Marinha e Domínios
Ultramarinos tratavam em sua comunicação. Este trabalho objetiva, sobretudo, pensar os impactos causados pela
chegada e pela permanência da família real para além do Rio de Janeiro, onde se fixaram, se preocupando em
promover uma breve reflexão acerca não somente da materialidade da época mas também como se deram as
relações e processos políticos, econômicos e sociais, sempre buscando ressaltar as importantes minúcias e
detalhes sobre como a comunicação política foi crucial neste período.
A Expulsão dos Jesuítas da Companhia de Jesus e o Inventário da Fazenda do Engenho Novo, Rio de
Janeiro, 1760
O presente trabalho descreverá brevemente como foi orquestrado a expulsão dos jesuítas da Companhia de
Jesus após a assinatura, pelo rei D. José I, da Lei de expulsão em 03 de setembro de 1759. Em decorrência da
Apoio:
expulsão dos sobreditos regulares, foi executado o confisco dos bens jesuíticos da fazenda do engenho Novo
para o Fisco Real. Nesse sentido, foi elaborado o inventário desta fazenda em 1760 no Rio de Janeiro, que
permite observar a administração política e econômica nesta propriedade. Além disso, o inventário lança luz
sobre o aspecto social dos núcleos familiares de escravizados, que habitaram a fazenda do engenho Novo e
contribuíram para a produção de açúcar, aguardente, tijolos, entre outros produtos. Essa mão de obra escrava
desempenhou um papel fundamental na produção e abastecimento dos aldeamentos do Colégio do Rio de
Janeiro e da cidade em geral.
Azeredo Coutinho e a construção de civilização ideal para o contexto indígena no séc XVIII
O trabalho que se apresenta resulta das pesquisas realizadas pelo projeto Reformismo Ilustrado e Sesmarias:
o debate sobre a concessão de terras na América portuguesa no final do século XVIII, que busca entender os
efeitos das ações políticas oriundas de uma ação mais racional da coroa portuguesa para administrar seus
domínios no ultramar. O recorte inicial da pesquisa é o Alvará de 1795, norte principal da política de concessão
de terras para a América portuguesa, documento que pode ser compreendido como o culminar de
transformações iniciadas no período Pombalino (1750-1779). Embargada no ano seguinte pelo Decreto de
1796, com a justificativa de ter causado conflitos entre os colonos em meio a tensa conjuntura da Revolução
Francesa, a lei de sesmarias se entrecruza com a suspensão do chamado “Diretório dos Índios”, em 1798, sob
a justificativa de “insucesso” de suas propostas. Tal legislação fora criada em meados do século XVIII com o 177
intuito de “secularizar” o processo de civilização indígena. Essa “Política Ilustrada” aponta para uma realidade
colonial muito mais complexa do que se poderia crer. O presente trabalho tenta compreender como tais
embates sobre a ocupação territorial esbarravam com a questão indígena no Rio de Janeiro: de que forma essa
população tinha o seu direito sobre suas terras garantidos? Que relação podemos estabelecer entre as
concessões de terras e a noção de uso coletivo das terras? Qual o significado de “civilização” nesse período?
Como este debate contribuiu para o silenciamento das vivências indígenas nesse contexto? Para
respondermos a estas indagações, nos debruçaremos nos escritos do Bispo Azeredo Coutinho (1742-1821),
em especial em suas obras econômicas, nas quais ele destaca que a melhor forma de civilização da população
indígena seria através da pescaria e da marinha, pois de acordo com o mesmo as tentativas que foram feitas
para civilizarem foram “...até agora debalde”. Dessa maneira, ele descreve estratégias em que a Coroa poderia
se utilizar melhor desses povos associando a questão da civilização como parte do sucesso econômico em que
poderia ser obtido de acordo com sua visão.
Alguns autores defenderam que a transferência da cabeça do Estado do Maranhão e Grão-Pará, de São Luís
para Belém, se deu em 1737, enquanto outros afirmaram que tal ocorreu efetivamente em 1751, quando a
circunscrição administrativa passou a ser denominada Estado do Grão-Pará e Maranhão. Independentemente
da formalização dessa mudança, que, de fato, se desconhece, a transformação de Belém em cabeça do Estado
do Maranhão é um processo que remonta ao último quartel do século XVII, quando os governadores e capitães-
generais passaram a se deslocar sistematicamente para aquela cidade e nele permanecer cada vez mais
tempo do que em São Luís. Nessa dinâmica administrativa marcada pela itinerância dos mais altos
representantes do poder régio no Estado, outras hierarquias governativas se fizeram presentes, de modo mais
ou menos efetivo do ponto de vista do exercício da autoridade e da jurisdição que lhes foram delegadas pelos
Apoio:
monarcas portugueses: os capitães-mores do Maranhão e os capitães-mores do Pará. Estes eram diretamente
subordinados ao capitão-general, por ser a capitania subalterna à principal do Maranhão, ainda que os
capitães-mores em São Luís também estivessem sob as ordens dos governadores e capitães-generais. Essa
dinâmica administrativa, por sua vez, produziu um “apagamento” da atuação e da figura dos capitães-mores
do Pará, sobretudo, de 1737 até 1751, quando o posto (de capitão-mor de governo) foi extinto, inclusive, no
Maranhão. Uma lista dos capitães-mores do Pará encontrada na Biblioteca Pública de Évora, elaborada
possivelmente na segunda metade do século XVIII, fornece pistas sobre dois dos três indivíduos que exerceram
a capitania-mor em Belém: Custódio Antônio da Gama e João de Almeida da Mata, mas nada informa sobre
José Miguel Aires. Esses indivíduos foram nomeados segundo o rito de seleção vigente, ou seja, tiveram suas
candidaturas escrutinadas no Conselho Ultramarino, receberam uma carta patente de nomeação e ocuparam
o posto de capitão-mor, ainda que interinamente. Porém, há poucas referências de sua atuação na
documentação de caráter administrativo, assim como não há menção à ocupação do cargo por eles nas
cronologias e compêndios de História do Brasil e da administração colonial no Maranhão e Grão-Pará,
produzidos desde o século XIX. Esta comunicação tem, portanto, o objetivo de apresentar aqueles que foram
os últimos capitães-mores do Pará, suas trajetórias e analisar a sua inserção em uma dinâmica administrativa
própria – posto que não exclusiva – do Estado do Maranhão, que explica o silenciamento sobre esses agentes.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
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Contas poucas, mas feitas. A procissão de Corpus Christi no orçamento da câmara de Lisboa – 1ª metade
do século XVIII
Antonio Carlos Jucá de Sampaio (UFRJ), Beatriz Catão Cruz Santos (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Comumente, a história da religião, das religiosidades e a história econômica constituem áreas de pesquisa separadas.
Tendo em isso em consideração, pretendermos reunir nossas experiências de pesquisas situadas numa história das
festas e cerimônias, história social e história econômica para analisar documentos da câmara municipal de Lisboa
Ocidental e Lisboa Oriental, entre 1717 e 1764, período em que a instituição dava suporte à colocação de toldos e
colunatas da procissão de Corpus Christi. Neste período, selecionamos os parcos documentos que informam sobre o
orçamento das câmaras das respectivas cidades e da procissão na coletânea organizada pelo arquivista e historiador
Eduardo Freire de Oliveira (Elementos para a história do Município de Lisboa. Lisboa: Tipographia Universal, 1882-1911).
Propomos, analisar as contas. Além disso, discutir as diversas razões da insolvência da câmara, em que os custos da
procissão e as dívidas contraídas inclusive pelo não pagamento de artífices que trabalharam na procissão de 1719 tem
enorme peso no então centro do império português. Ao lançarmos mão de nossa trajetória de pesquisa, faremos uso da
análise das conjunturas políticas e econômicas referidas cruzando com a teoria antropológica dos rituais e discussões
recentes sobre religião material.
Nesta apresentação gostaria de apresentar a pesquisa que venho desenvolvendo sobre os registos de passagem onde
eram expedidos passaportes, como parte da infraestrutura de controle e fiscalização do Caminho Novo. Estes registos,
localizados à beira de rios, como o Paraibúna, registraram a passagem de dezenas de milhares de pessoas por ano, se
tornaram uma grande fonte de renda para personagens da elite carioca, compuseram o desenvolvimento da
institucionalidade de controle de deslocamento do Estado luso brasileiro, e são especialmente representativos deste
Apoio:
desenvolvimento no que toca aos movimentos de interiorização. Analisamos a importância da rota do Caminho Novo;
as regulações que regiam o deslocamento; as figuras em jogo, tanto no que toca aos passaportes expedidos quanto à
renda gerada; e algumas transformações e polêmicas transpassadas no século XVIII.
O final do século XVIII na Europa ficou marcado pelo desmantelamento das denominadas sociedades de Antigo
Regime. As consequências dessa crise- provocadas pela esfera crítica do pensamento ilustrado nos domínios
da moral, da religião, política, da sociedade e do pensamento econômico- foram absorvidas de modo pelo
Império Português. O estudo apresentado tem como perspectiva examinar as tensões e resistências que
surgem do choque entre duas visões de mundo opostas: as tradições em conjunto com, como aborda Manuel
Hespanha, os comportamentos particulares de uma sociedade estamental e corporativa de Antigo Regime em
oposição aos ideais do Reformismo Ilustrado. Nesse sentido, para responder a preocupação exposta, a
pesquisa joga luz aos impactos da crítica iluminista sobre a administração do vice-rei D. Luís de Castro, o conde
de Resende, concentrando atenção na comunicação política do referido vice-rei e seus contemporâneos com
a Secretaria de Estado da Marinha e Domínios Ultramarinos, entre os anos de seu governo 1790-1801.
179
Revisitando os bons serviços: alforrias no Rio de Janeiro (1771-1821)
A comunicação intenta revisitar um tema já tão explorado pela historiografia: as alforrias. Elege-se o Rio de
Janeiro entre os anos de 1771 a 1821 para este exercício em razão da conjuntura observada na cidade à época.
Como uma cidade em significativo crescimento demográfico, urbano e econômico, o Rio de Janeiro é um
espaço privilegiado para o estudo das manumissões. No mesmo período, a região consolida sua importância
para o Centro-Sul da América portuguesa e para o sistema atlântico escravista, permitindo assim que se
estabeleçam relações entre as alforrias, o tráfico de cativos e a economia colonial. Neste sentido, nos interessa
analisar as relações dessa conjuntura e visão de mundo observada na região à assinatura das liberdades na
época. Almejamos ainda, por meio desses documentos, identificar as possíveis continuidades de uma forma
de disciplina social de Antigo Regime já na chegada do século XIX. Para tanto, levantamos as escrituras de
liberdade de 1771 a 1821 do 1º Ofício de Notas do Rio de Janeiro, bem como os testamentos da Sé presentes
no Arquivo da Cúria Metropolitana da cidade no mesmo recorte temporal.
A construção de um arcabouço jurídico é o cerne da formação do estado imperial durante o século XIX, momento em
que há um esforço para realizar o desenho institucional do aparato burocrático que funcionará durante todo Império. No
Primeiro Reinado havia a pretensão de se constituir um projeto de unidade nacional e, por isso, emergia a necessidade
de conciliação de direitos civis e políticos, privilegiando os projetos das elites dirigentes. A formação do Estado nacional
pressupunha repensar sobre as antigas instituições do período colonial, reformulando-as sempre que necessário. No
caso brasileiro, nas primeiras décadas do século XIX , a grande dificuldade do legislador era conciliar o novo instrumental
concebido a partir da leitura de autores como Bentham, Sieyes e Howard e o esforço de manutenção da ordem
Apoio:
senhorial, legada do período colonial. No Brasil deste período, temos uma sociedade caracterizada pela
heterogeneidade do tecido social, polarizada entre senhores e escravizados, além dos elementos que ocupavam um
espaço intermediário, como pardos e brancos livres e pobres. No âmbito do equilíbrio de forças que sustentava o
dualismo da sociedade oitocentista brasileira, não apenas o escravizado, mas também o pardo passou a ser observado
como um elemento perigoso. A tentativa de permanência dessa ordem senhorial está presente na Constituição de 1824,
que eleva o proprietário de terras ao status de cidadão ativo, com o direito de votar e ser votado. Um exemplo que marca
a contradição entre a modernidade legislativa e as necessidades de estabelecimento da conformação social de uma
nação independente está na promulgação do Código Criminal de 1830. Este instrumento jurídico tinha por objetivo
abolir institutos do Antigo Regime considerados impróprios para uma nação que pretendia se civilizar. Neste sentido,
utilizavam formas menos violentas para punir os tipos elencados. No entanto, em 1835, quando o poder senhorial se viu
ameaçado por revoltas escravas foi aprovada, de modo célere, uma lei que abria mão de todo procedimento do Código
de Processo Criminal de 1832 para permitir a execução sumária dos escravos que tentassem contra seus senhores. A
construção de um ordenamento jurídico moderno fazia com que as antigas colônias aflorassem suas contradições. A
modernização do corpo jurídico foi uma discussão que perpassou todo Primeiro Reinado como sendo elemento
importante para dar legitimidade interna ao novo Estado. O objetivo neste simpósio será analisar a contribuição de
alguns autores que influenciaram a elaboração da primeira Constituição do Brasil e que serviram como base ao primeiro
Código Criminal, em 1830, identificados através dos discursos e anais do parlamento.
A Revolução Francesa a partir de diferentes vertentes da Ilustração: os casos inglês, espanhol e português
Este trabalho analisa a trajetória dos indígenas que foram transportados para a Espanha no século XVI,
explorando as interações entre os nativos da costa brasileira e os europeus, notadamente no âmbito do
comércio de escravizados indígenas. O período examinado é conhecido como das Grandes Navegações,
durante as quais Portugal e Espanha lideraram expedições marítimas com o intuito de explorar novos territórios
e rotas comerciais. Dessa forma, busca-se realizar uma análise aprofundada das dinâmicas entre os nativos e
Apoio:
os europeus ao longo da costa brasileira, investigando o comércio de escravizados na região, a rota atlântica
seguida pelos indígenas e o impacto da legislação ibérica nas expedições marítimas. O estudo destaca, ainda,
a relevância da interação entre europeus e indígenas na América, evidenciando as relações complexas
estabelecidas durante esse período e suas implicações nas trajetórias atlânticas. O foco principal recai sobre
a América do Sul, especialmente na costa da América portuguesa até o Rio da Prata, finalizando com uma
análise específica da expedição de Sebastião Caboto em 1526.
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
181
Apoio:
ST 22
Instrumentos e artefatos "científicos": agentes, práticas e
circulação das ciências nos séculos XVII ao XIX
Coordenação:
Luiza Nascimento de Oliveira da Silva (UFRJ), Laura Roberta Fontana (UFJF)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sem trabalhos alocados.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00) 182
O caso dos livros técnicos de engenharia: circulação de conhecimento no Brasil oitocentista através do
comércio livreiro e acervos bibliográficos
O texto aborda a relação entre engenharia, política e a importância dos livros técnicos no Brasil do século XIX,
com foco no Rio de Janeiro. Os engenheiros, representando cerca de 17% da população livre, exerciam
influência política e ocupavam cargos burocráticos. O comércio livreiro na cidade cresceu significativamente,
com importações de livros e periódicos franceses. Livrarias francesas impulsionaram o mercado editorial,
especialmente após a década de 1850, com o aumento do transporte ultramarino. Anúncios de livros de
engenharia no Jornal do Commercio evidenciaram a importância dessas obras no comércio de livros,
principalmente em francês. O texto também aborda os acervos bibliográficos do Rio de Janeiro na segunda
metade do século XIX. Além das livrarias, as bibliotecas e gabinetes de leitura ofereciam vasto material aos
intelectuais da época. O crescimento desses acervos é destacado, com números significativos de títulos
disponíveis. A influência da literatura francesa nessas bibliotecas é notável, refletindo a preferência por obras
francesas em relação a latinas e inglesas. A presença de leitores nessas instituições era composta
principalmente por grupos profissionais e burocratas do Império. Destaca-se também a importância da
Biblioteca da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, frequentada por leitores em busca de conhecimento técnico
e científico. A presença de leitores à noite evidencia a busca por informação e atualização profissional. A Escola
Politécnica, como centro de formação de engenheiros, contribuiu para a disseminação de conhecimento
técnico no Brasil. O cenário descrito revela um período de intensa atividade intelectual e cultural no Rio de
Janeiro, com a presença marcante dos livros técnicos franceses e o papel significativo das bibliotecas e
instituições de ensino na formação e atualização profissional dos brasileiros da época.
Apoio:
Entre tradições médicas e inovações terapêuticas: um olhar comparativo sobre a varíola nos séculos XVII e XVIII
A presente comunicação busca propor, de maneira preliminar, uma análise comparativa das obras Trattado
unico das bexigas, e sarampo de Simão Pinheiro Morão publicado em Portugal em 1683 e A Dissertation on the
method of inoculating the small-pox: with critical remarks on the several authors who have treated of this
disease de Jacob de Castro Sarmento publicado na Inglaterra em 1721. Ao estudar comparativamente a
produção desses homens tem se como objetivo compreender o processo de mudança de processo curativo
em relação à varíola. A primeira obra é publicada levando em consideração um surto da doença ocorrido na
América Portuguesa. Além disso, o período e local de publicação de Simão Pinheiro Morão (a América
Portuguesa), já foi meu objeto de pesquisa, onde observei que a cura contra à varíola foi marcado por métodos
de cura diferenciados e não sistêmicos e que mantinham pouca efetividade. Já a obra de Jacob de Castro
Sarmento, é publicada em ocasião da popularização do método da variolização na Inglaterra, e propõe sua
introdução como método curativo, evidenciando uma nova concepção sobre a cura antivariólica.
Ao unir estas publicações e analisá-las de maneira comparativa, busco compreender o processo de evolução
no tratamento contra à varíola. Ressalta-se ainda que a vida desses dois médicos possuiu muitos pontos de
similaridade, mas, mais do que isso, o período que separa esses dois indivíduos manteve uma grande
importância para a medicina e outras artes. Foi entre os séculos XVI e XVIII que se viveu um período de
transformações e possibilidades que culminaram na ascensão da ciência moderna. Essa construção foi
possível pela mudança progressiva de pensamento que teve início com o Renascimento e que possibilitou a
insurgência de um novo meio de pensar. Assim, essa apresentação pretende analisar as duas obras de cunho
médico aqui mencionadas, tendo em vista, que estas podem revelar novas perspectivas de um recorte 183
marcado por muitas transformações no que diz respeito a história da ciência moderna. Além de
potencialmente revelarem a transição de métodos curativos em relação à varíola.
Estudos microscópicos e a discussão do livro como instrumento e suporte do conhecimento (século XVII)
O presente trabalho busca analisar a dimensão discursiva e material dos livros impressos, particularmente durante o
final do século XVII, considerando-os não apenas como suporte, mas também como instrumento científico. Neste
contexto, explora-se os princípios subjacentes que governam a “ordem do discurso”, como proposto por Chartier (1994)
e os processos de produção, comunicação e recepção dos livros de filosofia natural da época. Destacarei o processo de
atualização dos livros e outros objetos que envolvem formas textuais, inserindo-os na dimensão histórica e
contextualizando-os como instrumentos científicos. Comparativamente a outros instrumentos, como os ópticos, os
livros sempre ocuparam um lugar central na produção de conhecimento, o que reforça sua importância no
desenvolvimento e disseminação do saber científico. Dentro deste escopo, busca-se aprofundar a análise a partir das
obras "Historia generalis insectorum" (1669) e "Bybel der natuure" (1693), ambas elaboradas pelo naturalista,
entomologista e microscopista Johannes Swammerdam (1637-1680). A discussão central versa sobre as complexas
funções epistemológicas e retóricas das representações imagéticas microscópicas contidas nesses impressos. É
crucial esclarecer também as condições que envolvem a publicação desses livros, examinando a atuação não só dos
autores, mas também de editores, gravadores e artistas (Eisenstein, 1998). Além disso, é fundamental explorar como as
observações microscópicas influenciaram a estética e a arte das representações visuais, além dos impactos na ordem
teológica e agência de Deus. Ao revelar a complexidade e a diversidade infinita da criação, o microscópio desafiou as
concepções antropocêntricas do mundo, sugerindo uma visão mais humilde do lugar da humanidade no universo.
(Jorink, 2010) Isso levantou questões sobre a natureza da divindade e o papel de Deus na criação e manutenção do
mundo, provocando reflexões filosóficas e teológicas sobre a relação entre o divino e o mundano. Considerando que o
“saber-fazer” científico é, em última instância, dependente de formas textuais, torna-se pertinente explorar os suportes
e as estratégias representacionais empregadas. A produção de discursos e imagens sempre esteve associada à
Apoio:
tentativa de produzir discursos verossímeis acerca da natureza ou em um esforço de mediação. A seleção, reunião e
descrição de fenômenos naturais ofereciam diversas maneiras de produção de conhecimento, embora não
necessariamente unânimes. Desse modo, o objetivo central é delimitar uma análise das dimensões materiais e
simbólicas presentes nos impressos filosóficos, no final do século XVII.
As polêmicas sobre os métodos mais acurados para determinar a longitude foram acompanhadas pelo
desenvolvimento de instrumentos capazes de auxiliar na coleta de dados, sobretudo no caso das observações
astronômicas. Embora a invenção do cronômetro de marinha desenvolvido por John Harrison (1693-1776)
ocorrida em meados do século XVIII tenha, aos poucos, causado uma inovação, seu uso só foi disseminado a
partir das primeiras décadas do século XIX. Neste momento, o debate sobre os melhores métodos e
instrumentos para determinação da longitude nas embarcações recrudesceu entre os hidrógrafos, astrônomos
e pilotos de várias nacionalidades. Neste debate o uso dos melhores instrumentos tinha centralidade.
Para esta comunicação iremos destacar de que forma as propostas do matemático e lente da Academia Real
dos Guarda Marinha, José Maria Dantas Pereira, veiculadas em sua memória intitulada Memória sobre os
instrumentos de reflexão, publicada no tomo II das Memórias de Matemática e Física da Academia Real de
Ciências de Lisboa, demonstram não apenas sua inserção nas polêmicas sobre os melhores métodos de
determinação da longitude, mas como suas propostas se materializam nas novidades que ele sugere para o
instrumento matemático que ficou conhecido como “círculo repetidor de Borda”, artefato que foi desenvolvido
pelo engenheiro naval francês Jean-Charles de Borda (1733-1799). Determinar a longitude de um lugar com
precisão foi um desafio para matemáticos, astrônomos, cosmógrafos e navegantes desde a antiguidade e se
intensificou com as viagens de descobrimentos e conquista de novos territórios pelos europeus. A diferença de
longitude entre dois pontos do globo traduz-se numa diferença horária. Havia muitas formas de se determinar
a longitude: por observações astronômicas, pela variação magnética, entre outros métodos. Todos eles, em
Apoio:
comum, sustentavam-se no uso de instrumentos matemáticos. Se, por um lado, as observações em terra eram
relativamente seguras para os cálculos e determinação da longitude, o mesmo não ocorria no mar, ainda que
com uso de sextantes, oitantes entre outros instrumentos de reflexão desenvolvidos para serem levados nas
embarcações.
O objetivo desta comunicação é analisar a construção do relógio de sol do Parque da Cidade Sarah Kubitschek,
em Brasília, enquanto instrumento e monumento. Inaugurado em 20 de abril de 1988, o artefato científico é
fruto de uma cadeia de intencionalidades de seus autores e do contexto na qual fora produzido. Partindo da
função representativa dos monumentos para as sociedades, e analisando documentos de época, como
fotografias, textos de jornais, publicações dos idealizadores do projeto e uma entrevista atual, investigamos o
objeto de estudo. Será feita uma apresentação do contexto de época na qual o relógio solar de Brasília se insere,
com foco nas ações de seus idealizadores e do prefeito, José Aparecido de Oliveira, articulando com uma
possível preocupação da capital federal com a contagem do tempo. Em seguida, refletimos sobre o
instrumento relógio de sol como um monumento, capaz de evocar significados, como fragmentos da história
do Observatório Nacional e a valorização do antigo naquela cidade considerada moderna.
185
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 23
Mapeamento, memórias e histórias do solo afro-indígena do
Rio de Janeiro entre os séculos XIX e XX
Coordenação:
Ana de Melo (Prefeitura da Cidade do Rio de janeiro), Lucimar Felisberto dos Santos
(Pesquisadora do Grupo de Estudos de História da Educação Local, FEBF-UERJ; Professora das
redes públicas municipais de educação de Duque de Caxias e Magé)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
O trabalho refletiu sobre as estratégias de controle da circulação e reunião dos corpos dos trabalhadores no
186
espaço público urbano, considerando no contexto da história social, o dispositivo do Toque de Recolher
(CHAZKEL, 2013) utilizado na cidade de Niterói, capital da Província do Rio de Janeiro, durante a segunda
metade do século XIX bem como os usos das bicas e chafarizes, locais permitidos pelos poderes locais pela
necessidade da coleta e consumo da água. As fontes de investigação foram os Jornais O Fluminense, Aurora
Fluminense, A Pátria, Folha da Província do Rio de Janeiro e O Mensageiro da Praia Grande por permitirem
através de suas tintas interpretarmos as ações policiais e os valores morais defendidos pelos periódicos,
condicionando os silenciamentos sobre a ancestralidade africana na memória da população niteroiense.
Concluiu-se que o Toque de Recolher foi um dos dispositivos legais disciplinador de segregação socioespacial
que, através de critérios raciais, criminalizou a presença dos corpos pretos no espaço público.
Proprietárias e inquilinas afrodescendentes nas Décimas Urbanas do Rio de Janeiro (1810 – 1820)
A conjuntura em que a Corte e a Coroa lusitana permaneceram na cidade do Rio de Janeiro, sabe-se bem, era
conturbada. Dentre as preocupações dos que arribaram em solo carioca, inoculados por algum pensamento
ilustrado, encontramos o consenso da necessidade de reformulação da urbanização da (nova) sede imperial.
Os membros da nova administração se esforçaram para modernizar a arquitetura urbana, social e institucional
da capital fluminense. Modernização que deveria adequar-se aos mais novos paradigmas que determinavam o
que seria uma cidade ilustrada. Nesse contexto a Coroa instituiu um novo tributo, a Décima Urbana.
Oficialmente denominada “décima dos prédios urbanos”, o Alvará da nova cobrança foi publicado em 27 de
junho de 1808, e determinava em seu primeiro artigo que os “proprietarios de todos os predios urbanos [...]
desta Corte e de todas as mais Cidades, Villas e Logares notaveis situados á beiramar neste Estado do Brazil”
pagassem dez por cento do seu rendimento anual. Ao todo são mais dezoito artigos que descrevem e regulam
a aplicação e a abrangência dessa tributação. A partir de então, entre 1808 e 1888, produziu-se uma coleção
com mais de 1700 livros de registro nos quais constam dados importantes sobre uma parcela da realidade
urbana da cidade capital. Nesses livros, organizados em forma de códices, encontramos, por exemplo,
informações sobre os valores das cobranças, os nomes dos proprietários e dos inquilinos, as características
das propriedades, divididos por ano, semestre, freguesias e logradouros. Logo, os objetivos deste trabalho
centram-se nas discussões sobre a aplicação das Décimas Urbanas no Rio de Janeiro, na identificação de
Apoio:
alguns dos aspectos da mobilidade e ascensão social das mulheres egressas da escravidão, proprietárias e
inquilinas, nas freguesias e ruas correspondentes aos hoje bairros da Gamboa, Santo Cristo e Saúde.
Nesse artigo discutirei de que maneiras o exercício da autonomia entre africanas, africanos e seus
descendentes escravizados ocorreu no antigo aldeamento de São Pedro da Cabo Frio. Proponho investigar as
condições de constituição de famílias entre cativas, em uma área ainda marginal nas pesquisas
historiográficas, voltada para a produção de mantimentos, na década das transformações emancipacionistas
advindas da "Lei do Ventre Livre", de 1871. A partir sobretudo da documentação paroquial advinda dos Registros
de Batismos feitos a partir de 1871 para crianças nascidas livres para as freguesias de São Pedro da Aldeia e
São Vicente de Paulo, analisarei a dimensão e formação de famílias escravas em pequenas e grandes
propriedades da região; a formações de parentesco e compadrio, que ligavam a famílias também indígenas,
através da comparação entre as duas freguesias vizinhas que antes compunham o grande Cabo Frio. Com isso
busco contribuir para pesquisas sobre a história local, escravidão e maternidade negra.
O longo silêncio: reflexões sobre comunidades tradicionais, memória e diáspora africana 187
Henrique Barahona (UFF)
A comunicação proposta tem como objetivo discutir a memória e o esquecimento como categorias históricas
aplicadas às comunidades tradicionais de pescadores fluminenses, relacionadas à diáspora africana.
Partimos da análise do “longo silêncio sobre o passado” de que fala Michael Pollack (1989, p. 5), em razão do
“excesso de discursos oficiais” que negam a existência de tais comunidades apagando a sua memória.
Notadamente, lembrança da ancestralidade africana, com destaque para aquela decorrente da migração
compulsória ocorrida durante o período do tráfico ilícito de escravizados no litoral do Rio de Janeiro após a
chamada “lei Feijó”, de 7 de novembro de 1831. Estima-se que 800 mil pessoas foram traficadas nessas
condições para o Brasil entre de 1830 até 1860 (MAMIGONIAN, 2017, p. 275), e as praias e enseadas o Rio de
Janeiro foram o destino de grande parte deste contingente. Aqueles que permaneceram nos locais de
desembarque ou próximos a ele foram integrados nas diversas atividades laborativas locais, dentre as quais
estava a pescaria marinha ou lacustre. O exemplo de “construção da amnésia social” (MOTTA, 2012, p. 28) a
ser trazido é o da Aldeia Imbuhy, uma comunidade tradicional de pescadores localizada em Niterói, no Rio de
Janeiro. Ela está situada no território da antiga fazenda da Barra de Piratininga e Imbuhy, local de desembarques
de africanos durante o período do comércio clandestino de escravizados. E mesmo sendo reconhecida como
uma comunidade tradicional pelo Parecer Técnico nº 032/2009, Referência PA 1.30.005.000137/2003-81, da 6ª
Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, a Aldeia Imbuhy foi extinta após a remoção
das 32 famílias de pescadores promovida pela União Federal iniciada em 2015. Prevaleceu o “discurso oficial”
de que a Aldeia estava inserida numa área de segurança nacional, dada a proximidade com uma unidade militar
do Exército Brasileiro, ocupada “imemorialmente” pela União. Com efeito, a sorte da Aldeia Imbuhy foi definida
na disputa pela memória do lugar. Trata-se de uma parte da pesquisa de pós-doutoramento em andamento
feito junto ao Programa de Pós-Graduação de História da Universidade Federal Fluminense (PPGH/UFF).
Apoio:
A participação negra no Entrudo do Rio de Janeiro (1831-1840)
Esse trabalho busca entender a presença de indivíduos negros no Entrudo do Rio de Janeiro, entre os anos de
1831 a 1840. Conhecido pela historiografia como Período Regencial, ao analisarmos essa periodicidade,
podemos observar que, mesmo com a Lei Feijó – que proibia o tráfico transatlântico -, houve um aumento
significativo, principalmente na segunda metade da década, do comércio de negros que seriam escravizados e
chegavam por cais secundários, já que neste momento o Cais do Valongo havia sido desativado. Esses
indivíduos, ao chegarem nesse novo território, tiveram que reconstruir, restabelecer e recriar suas teias de
sociabilidade, além de seus laços afetivos e símbolos identitários. Atrelados a isso, alguns grupos específicos,
principalmente os falantes de línguas do tronco linguístico bantu, a partir dos aspectos presentes nesse novo
espaço, ressignificaram, levando em conta seus fundamentos. Nesse sentido, vale pensar a maneira que
ocorria a participação destes indivíduos no Entrudo, uma festa religiosa cristã que ocorria nos três dias
precedentes a quaresma. Dessa forma, através da utilização de fontes primárias, além de uma análise
bibliográfica, pretende-se entender o negro dentro dessa manifestação, contribuindo para a historiografia que
busca apontar o papel ativo destes indivíduos na formação nacional brasileira.
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00) 188
O resgate da ancestralidade afro-indígena como estratégia de sobrevivência na periferia do Rio de Janeiro
Lucimar Felisberto dos Santos (Pesquisadora do Grupo de Estudos de História da Educação Local (Ehelo),
FEBF-UERJ; Professora das redes públicas municipais de educação de Duque de Caxias e Magé.)
Esta comunicação recupera a história da ocupação de um território periférico do estado do Rio de Janeiro fundado em
1565 por colonos portugueses. O foco da pesquisa está no movimento de seus moradores que buscam nas relações
socioeconômicas ancestrais a base de sua sobrevivência nos dias atuais. Com a pesquisa, primeiramente, procuramos
evidenciar como a luta pelo reconhecimento e legitimidade das histórias e das memórias locais, bem como a
possibilidade de aquisição de direito acionando a legislação antirracista, vem conformando a pauta de pequenos
núcleos de movimentos sociais. Assim, resgata-se evidências históricas de populações que utilizaram de diversas
estratégias de resistência para manterem-se isoladas e protegidas dos tipos de violência que as frentes colonizadoras
lhes impunham, inclusive a escravidão. Constitui um movimento dialógico o mapeamento das origens afro-indígenas
de específicos territórios. Neste sentido, o objetivo deste trabalho é identificar e dar a conhecer a origem afro-indígena
do município de Magé. Uma localidade cujos primeiros habitantes foram indígenas e que tem hoje três quilombos
titulados; aonde populares conservam regimes distintos de conhecimentos sobre o ambiente, as vidas e o
funcionamento do mundo legados daqueles povos originários e africanos.
No trabalho em tela, pretendemos ampliar a discussão para estimular o contato com a herança cultural dos
povos indígenas, conectando-a aos debates que permeiam o currículo escolar, especialmente em história. O
currículo de história é concebido como um campo discursivo onde se desenrolam as lutas pelo poder
Apoio:
hegemônico em torno do que deve ou não ser legitimado como conhecimento histórico, reiteradamente
resultando na subalternização dos povos indígenas. A obrigatoriedade do ensino sobre as histórias e culturas
indígenas, conforme estabelecido pela Lei n° 11.645/2008, representa um avanço significativo na promoção da
diversidade cultural e no reconhecimento dos povos indígenas. Esta legislação tem o potencial de ampliar os
debates e aumentar a visibilidade das contribuições históricas e culturais dos povos indígenas,
proporcionando uma educação mais inclusiva e abrangente. Circe Bittencourt (2013) enfatiza que,
contrariando a percepção comum, a produção didática sobre a temática indígena sempre esteve
intrinsecamente ligada à historiografia acadêmica. O desconhecimento acerca do tema e a disseminação da
ideia de seu desaparecimento foram aspectos que acompanharam historiadores ao longo do tempo. Essa
conexão entre a produção didática e a historiografia acadêmica evidencia a importância de revisitar e
recontextualizar as narrativas históricas, incorporando as perspectivas e experiencias dos povos indígenas.
Além disso, ressalta a necessidade de uma abordagem mais crítica e reflexiva no desenvolvimento de materiais
didáticos, que valorizem a diversidade cultural e contribuam para uma educação mais inclusiva e plural.
Assim sendo, propomos aqui um trabalho dialógico tendo como base a história e a filosofia indígena, não
apenas como abordagem pontual em efemérides, mas objetivando as relações que constituem o sujeito na
coletividade. Constituindo uma abordagem educacional – ou plano de ação – que abarque a produção de
conhecimento para além da episteme eurocêntrica colonizadora, a priori, abandonando a perspectiva de
domínio e enquadramento de utilidade dos espaços e das coisas. Defendendo uma perspectiva onde o meio
ambiente não integra um espaço de desejos de consumo, mas um encadeamento de responsabilidades
mútuas, respeitando a diversidade numa relação ecobiótica. Buscamos explorar o patrimônio cultural em suas
múltiplas manifestações e experiências ao longo do processo histórico, debater a invisibilidade nos currículos
escolares, especialmente no município de Duque de Caxias. Pretendemos problematizar as narrativas de
colonialidade que influenciam os programas educativos nas periferias, visando promover uma reflexão crítica 189
e uma abordagem mais inclusiva, diversificada e não genérica no ensino da história.
A importância de fontes que esclareçam, a participação dos povos indígenas na história, em diferentes temporalidades,
é de extrema relevância para entendermos a constituição da história brasileira hoje. Refazermos narrativas que ficaram
perdidas no caminho, de silenciamento e apagamento, pelo qual passaram os povos indígenas na escrita da história do
Brasil. A busca por fontes que elucidem as trajetórias dos povos indígenas tem sido uma crescente entre historiadores
que se debruçam sobre o tema. As barreiras são muitas, desde o silenciamento encontrado na catalogação das fontes,
que nem sempre indicam a presença dos personagens indígenas no documento, até a visão do não indígena presente
na documentação. Nesse sentido o Guia de Fontes elaborado por John Monteiro em diversos arquivos de estados
brasileiros, o projeto “Resgate” do Barão do Rio Branco foram algumas iniciativas que deram luz para fontes que
enriquecesse a história do Brasil com a participação dos povos indígenas. Durante a pesquisa financiada pela Faperj,
em comemoração do Bicentenário da Independência do Brasil que culminou na publicação de um livro, abre um debate
para a invisibilidade desses povos também nos arquivos.
Encontros nos Sertões: coexistências interétnicas da perspectiva dos “índios botocudos” do Norte
Fluminense (1750-1850)
O imaginário brasileiro é profundamente marcado por uma série de pré-concepções acerca do processo
histórico que veio a formar o país que hoje conhecemos. É possível afirmar que, dentre as muitas facetas desta
Apoio:
história, aquela da escravidão indígena é uma das mais desconhecidas e mal-interpretadas. A presente
pesquisa busca reverter alguns dos equívocos característicos deste discurso oficial. O estudo se debruça sobre
uma gama de etnias indígenas que constituíam, já no momento da invasão de Pedro Álvares Cabral, uma
minoria dentre as populações do litoral destas partes da América. Enquanto quase todas as sociedades aqui
viventes falavam idiomas derivados do tronco tupi-guarani, esse grupo restrito era composto por índios de
línguas do tronco macro-jê, desconhecidas dos primeiros. Concentrados principalmente onde hoje se
encontram o Norte Fluminense, Espírito Santo e o sul da Bahia, eram chamados genericamente de
“tapuias” pelos tupis, recebendo posteriormente dos portugueses a alcunha de “botocudos”, devido aos
adereços que utilizavam nos lábios e orelhas. O processo histórico da colonização se deu de forma distinta
para essas etnias em comparação aos indígenas tupis. Sua recusa à colaboração com os portugueses e à
catequização os deixou em posição especialmente vulnerável no mundo colonial. A partir da análise de
crônicas e relatos de viajantes, assim como de correspondências oficiais e das inúmeras leis emitidas a seu
respeito, a historiografia indígena mais recente constatou a diferenciação legal e social feita pelos
colonizadores entre os próprios indígenas, oferecendo certo respaldo oficial (frequentemente desrespeitado
na prática) aos tupis, em geral mais afeitos a alianças, enquanto aos “botocudos” coube a guerra e a
escravização. A seguinte pesquisa pretende ir além desta análise inicial. A partir das fontes supracitadas, novas
perguntas serão feitas: naquelas, é possível apontar algumas “frentes” de contato principais destes grupos
com outras populações. Utilizando principalmente as noções de “fronteira étnica” de Fredrik Barth, este estudo
buscará questionar de que maneira se davam as relações estabelecidas pelas etnias em questão com os
demais grupos que compunham o universo luso-brasílico colonial. Como eram pautadas as trocas sociais dos
jês não só com os brancos, mas também com os tupis? De que forma se articularam com os
negros? Formaram convívio pacífico, hostil ou indiferente? Como interagiam os próprios “botocudos” entre si?
A principal hipótese é de que a posição social imposta aos grupos classificados como 190
“botocudos” propiciou diferentes interações com pessoas de diversas origens e etnias, sendo aquelas
marcadas pela subjetividade, revertendo preconceitos clássicos acerca da história indígena e colonial.
O repensar da nossa história através da inserção dos povos indígenas é configurado como um movimento de
reconstrução de identidades e de questionamentos acerca das memórias reproduzidas com o viés
eurocêntrico de explicação da nossa formação e de nossa cultura. Esta reorientação se compromete em
superar a visão das populações indígenas como sociedades estáticas e hierarquicamente inferiores conforme
os espaços construídos por discursos que invisibilizam estes grupos ao longo da história sobre estes grupos.
A criação da lei 11.645/08 está inserida nestas perspectivas de reflexão e reorientação na Educação Básica
para o reconhecimento e a valorização das sociedades africanas e indígenas na construção da história e da
cultura brasileira. A lei em si, apresenta uma mudança necessária na construção dos currículos e na produção
dos recursos didáticos. Por um lado, podemos pensar que para as populações indígenas representa o
reconhecimento e a afirmação da luta pela inserção nas páginas da História, concebida como oficial. Por outro,
é fundamental o exercício da desconstrução de concepções que naturalizam desigualdades sociais a partir de
discursos históricos que enfatizam uma leitura única para a explicação dos fatos e da formação de nossa
história. Pensar na expansão e na aplicação da lei para a prática de sala de aula é refletir sobre realidades
escolares complexas, sobre formação de profissionais da educação, sobre a ausência de materiais que
auxiliem na desconstrução dos conceitos tradicionais de cunho etnocêntrico e sobre a necessidade de
mobilizar compromissos com a formação plural e crítica dos estudantes. O presente trabalho visa refletir
acerca desse "lugar do índio" no ensino de História, problematizando qualquer memória essencialista e
contribuindo para desmistificar conceituações simplistas que remetam aos grupos indígenas um lugar
específico de não reconhecimento de sua diversidade étnica e de suas experiências no tempo. A presença de
sítios arqueológicos no município de Araruama e a valorização da História dos povos indígenas da região se
Apoio:
tornam aspectos relevantes para o ensino de História no intuito de revisar seu caráter eurocentrista. A
existência dos sítios arqueológicos no município se apresenta como uma estratégia possível para ressaltar o
seu valor histórico-cultural e contribuir para a construção/reconstrução da identidade étnica local. No caso
específico, ao ensino de História, o trabalho com a Educação Patrimonial a partir do sítio arqueológico pode
representar a criação de um vínculo necessário entre os grupos “pré-históricos” tupinambá, evidenciados
pelas escavações, e a sociedade atual, permitindo questionamentos sobre a invisibilidade das sociedades
indígenas ao longo da História escrita e da História ensinada.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 24
Marxismo e História: Luta de Classes, Democracia,
Igualdade e Diversidade
Coordenação:
Gelsom Rozentino de Almeida (UERJ), André Pereira Guiot (SME/Duque de Caxias)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Essa pesquisa tem como objetivo principal analisar o papel do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Petrobrás na
ditadura militar-empresarial, mais especificamente no governo Geisel, levando em consideração a relação entre o
desenvolvimento econômico e tecnológico, assim como a intervenção do Estado militar na estrutura da estatal. A
importância que a Petrobrás tem para o cenário econômico brasileiro faz com que ela se torne uma empresa muito
Apoio:
visada pelos setores do Estado, mesmo pelos militares. O contexto histórico é de extrema importância para o
entendimento dessa relação, que atravessava um período econômico e político conturbado devido às crises mundiais
do petróleo e a necessidade de novas medidas de desenvolvimento industrial, econômico e tecnológico. No Brasil, a
Petrobrás aprimora seu aparato tecnológico e científico, expandindo a exploração para espaço offshore e desenvolvendo
sua área de refino. O II Plano Nacional de Desenvolvimento fez com que a indústria de base recebesse mais atenção do
Estado, na qual o setor petrolífero tem ligação direta. O consumo de derivados também aumentou, e com isso a
dependência em óleo bruto também cresceu. Podemos ver então a importância da Petrobrás, e junto dela, o CENPES,
que desenvolveu diversas tecnologias que promoveu um aspecto único a estatal. Nesse caminho, essa pesquisa busca
contribuir com o debate sobre as relações de poder entre Estado e empresas na ditadura militar-empresarial, assim
como as ações do capital multinacional no Brasil e os mecanismos de monitoramento. O CENPES, fazendo parte dessa
grande estrutura da Petrobrás, também foi atingido por ferramentas da repressão dos militares, onde se tornou um
espaço em que os militares exerceram controle, levantando questões de como pode ocorrer desenvolvimento sob uma
política repressiva.
A responsabilidade de empresas por violações de direitos humanos durante a ditadura: o caso das
empresas de segurança privada
A comunicação tem como objetivo apresentar os resultados iniciais de uma pesquisa em andamento sobre as
violações de diretos humanos cometidas por empresas do setor de segurança privada e sua cumplicidade com o 193
terrorismo de Estado durante a ditadura empresarial-militar. A inclusão do tema das violações de direitos humanos
durante das empresas na agenda da Comissão Nacional da Verdade e o caso Volkswagen marcaram o início do
enfrentamento da questão da responsabilidade empresarial no processo da justiça de transição brasileira. Em 2021,
o CAAF/Unifesp promoveu um edital para a investigação de dez empresas com indícios de violações de direitos e
cumplicidade com a ditadura. No início de 2023, outras três empresas passaram a ser pesquisadas. A atividade de
segurança privada no Brasil foi regulamentada durante a ditadura, no governo Costa e Silva, através do decreto-lei nº
1.034, de 1969, que obrigava os bancos privados a contratarem firmas de segurança para a proteção de seus
estabelecimentos. Desde então, o setor de segurança privada tornou-se um ramo próspero de negócios. Muitas
destas empresas, como Agents, do Rio de Janeiro, Sacopã, que atuava na Amazônia, e VIP, de Minas Gerais, eram de
propriedade de membros das Forças Armadas contavam com funcionários que atuavam também de órgãos de
repressão, denotando sua cumplicidade com o terrorismo de Estado.
Estado Integral: uma perspectiva de análise para os processos de precarização do trabalho na ditadura
civil-militar brasileira
A apresentação tem como foco central expor como a noção de estado ampliado pode orientar uma investigação que
tem como objetivo entender os processos de precarização do trabalho durante a ditadura civil-militar de 1964. O
conceito de Estado Integral, elaborado por Gramsci (2000) e objeto de reflexão de Nicos Poulantzas (1980) , nos ajuda a
perceber que, para compreender o Estado e suas políticas públicas é preciso investigar as classes sociais e suas
organizações no âmbito da sociedade civil. De modo dialético, o estado é o resultado dos distintos processos históricos
e formas de organização e conflitos da vida social, assim se constituiu ele mesmo uma relação social entre forças
desiguais. Foi investigando as singularidades brasileiras no processo de revolução burguesa e expansão do capitalismo
que Florestan Fernandes (1976) apontou o fim da década de 50 como fase inicial da irrupção do capitalismo
monopolista no Brasil. Para o autor, esse período se caracteriza pela reorganização do mercado e do sistema de
produção, através das operações financeiras das grandes companhias com predominância para as estrangeiras, mas
Apoio:
que também confluiu para as empresas estatais ou mistas. Nesse contexto, o golpe civil-militar de 1964 representou a
estruturação e sedimentação do capitalismo monopolista no país tendo como um de seus resultados a precarização
das relações de trabalho. Ancorados na perspectiva de Virginia Fontes (2017), entendemos o termo “precarização”
como mais um processo de expropriação dos trabalhadores, primeiro espoliados dos seus meios de produção e depois
alvo de expropriações secundárias, como é o caso da fragilização dos instrumentos de proteção ao trabalhador e dos
contratos de trabalho. Conforme discutiu Octavio Ianni (2019), a ditadura civil-militar criou condições jurídico-políticas
e econômicas para que a burguesia realizasse a mais-valia extraordinária, isso porque permitiu a escalada da
pauperização relativa e absoluta. O autor lembra que, seguramente antes do golpe civil-militar já ocorriam tanto a
pauperização relativa quanto a absoluta, principalmente nos momentos de crise. Porém, a ditadura acelerou esse
processo ao transformar a repressão política, o planejamento governamental, a política salarial, a política sindical e
outras atuações do poder estatal em projetos de controle, subordinação e superexploração das classes assalariadas
principalmente entre o proletariado e o campesinato.
A Operação Lava Jato nas páginas do jornal O Estado de S. Paulo: uma associação da corrupção a política petista
A pesquisa tem como objetivo analisar o posicionamento assumido pelo jornal O Estado de S. Paulo no contexto de
investigação da Operação Lava Jato, ocorrida nos governos Dilma Rousseff. Entendemos que a ampla e reiterada
midiatização da Operação Lava Jato foi uma estratégia fundamental para a conclusão do processo de impeachment de
Rousseff em 2016, já que, no contexto que o antecede, além de aprofundar a crise política e econômica do país, 194
assegura maioria parlamentar contra a presidenta. Como reitera André Singer, a Lava Jato fustiga sem parar Lula,
liderança petista, e transforma o sentimento antilulismo em um catalisador do impeachment. É importante para o
desenvolvimento da pesquisa entendermos que o apoio à Operação Lava Jato e a popularização do impeachment
ocorre em um contexto no qual o projeto neodesenvolvimentista dos governos petistas de Lula e Dilma Rousseff entra
em crise. A bibliografia levantada aponta que a este projeto havia o antagonismo do campo neoliberal ortodoxo, que
tinha sua agenda representada pela grande imprensa brasileira, da qual faz parte o periódico estudado. Partindo destas
reflexões, a pesquisa levanta a hipótese de que o jornal O Estado de S. Paulo desempenhou o papel de aparelho privado
de hegemonia na conjuntura estudada ao construir um consenso em torno do apoio ao projeto político-econômico
neoliberal, utilizando a estratégia de associação da corrupção, denunciada na Lava Jato, ao neodesenvolvimentismo do
“lulopetismo”. Entende-se a partir disto que: o jornal não só fazia frente a prática neodesenvolvimentista, mas assume
um alinhamento antipetista – sempre associado a escândalos de corrupção, ao caos; além disso, o escândalo
deflagrado pela operação serviu para neutralizar o “lulismo” e pedir a deposição da presidenta Dilma, provocando
descrença em relação ao Partido dos Trabalhadores e ao seu projeto econômico em prol de um projeto político-
econômico neoliberal. A relevância da pesquisa se justifica pela proposta de debater e identificar a imprensa como um
ator fundamental no processo político brasileiro e que possui seus próprios mecanismos de disputa, mantendo uma
intensa articulação econômica e social para a manutenção dos interesses daqueles que a produzem.
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Este trabalho aborda a atuação política e ideológica do Grupo Gerdau, especialmente por meio do Instituto
Gerdau, focando na relação entre modelagem comportamental e neoliberalismo. Analisa-se o contexto político
Apoio:
brasileiro, marcado por medidas como a "PEC da Morte" e desmontes de direitos trabalhistas e previdenciários. O
estudo fundamenta-se em conceitos de sociedade política e civil de Antonio Gramsci, utilizando a análise de
conteúdo de documentos do Instituto Gerdau e levantamento bibliográfico. A relação entre neoliberalismo e
modelagem comportamental é explorada, destacando-se as origens históricas do neoliberalismo e da psicologia
behaviorista. A atuação do Instituto Gerdau é situada dentro do contexto do social liberalismo brasileiro,
evidenciando-se sua adesão à "qualidade total" e ao padrão flexível de acumulação do capital. O debate no campo
educacional envolve conceitos como "teoria do capital humano" e "competências socioemocionais", influenciando
políticas públicas como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. A análise gramsciana é aplicada para compreender
a natureza do Estado brasileiro, destacando-se o fenômeno do transformismo na história do país. Alterações na
infraestrutura do Estado, como a contrarreforma trabalhista de 2017, são discutidas, assim como a reestruturação
produtiva e a contrarreforma do Estado de 1995. A ascensão do neoliberalismo é contextualizada no contexto da crise
do padrão fordista de acumulação dos anos 1970, impulsionando ideologias como a escolha racional e a economia
comportamental. Este estudo contribui para uma compreensão mais ampla das dinâmicas políticas e econômicas
contemporâneas, especialmente no que diz respeito à atuação de grupos empresariais como o Grupo Gerdau e seus
reflexos na educação e na sociedade como um todo.
As contrarreformas previdenciárias no Brasil e suas relações com o Banco Mundial e com o Fundo
Monetário Internacional
Nas primeiras décadas do século XX, em um contexto social de reinvindicações de diversas categorias profissionais por
melhores condições laborais (realizadas, por exemplo, através das greves de 1917 e 1919), foi aprovado, pelo Congresso
Nacional, e sancionado pelo então presidente da República, Arthur Bernardes, o Decreto nº 4.682, de 24 de janeiro de
1923. Conhecido como Lei Elói Chaves, o mencionado decreto é entendido, por uma série de autores que serão
trabalhados no decorrer do artigo, como o início da previdência social brasileira. À altura, foram criadas as Caixas de
Aposentadorias e Pensões (CAPs). Pontua-se, ainda, que a previdência ampliou o seu leque de segurados nos decênios
seguintes, mais precisamente durante a presidência de Getúlio Vargas (1930 – 1945), quando foram criados os Institutos
de Aposentadorias e Pensões (IAPs). Também é fundamental lembrar-se que, de acordo com a historiografia sobre o
tema, a expansão do número de segurados na primeira metade do século em questão esteve fortemente atrelada à
atuação política de segmentos empresarias, que, levando os seus interesses privados para dentro do Estado, buscavam
mitigar os conflitos com os trabalhadores. Deste modo, o artigo irá analisar as medidas da administração pública para a
previdência social, os conflitos existentes entre trabalhadores e empresários no período em tela e, ainda, as
organizações previdenciárias criadas nas décadas de 1920 e 1930, ou seja, as CAPs e os IAPs.
Apoio:
Hegemonia dos interesses empresariais e o RenovaBR no debate público
Movimentos de renovação política tem ganhado cada vez mais espaço no debate público. Não só como um fenômeno
brasileiro, isso é observado também no quadro de diversos outros países, com grande semelhança na atuação entre
eles. A operação inclui entregar uma cartilha de problemas diagnosticados por esses institutos, para assim apresentar
os candidatos advindos deles que trazem as soluções ou suposta capacidade técnica para superar essas questões. O
grande expoente no caso do Brasil é o RenovaBR. O grupo conquistou alta capilaridade desde sua primeira eleição, no
ano de 2018, elegendo dezoito parlamentares, entre esses um senador, nove deputados federais e oito deputados
estaduais (RENOVABR, 2018). Já na eleição de 2020, o grupo obteve um retorno de 100 cadeiras conquistadas, elegendo
prefeitos, vice-prefeitos e vereadores em todo o país (RENOVABR, 2020). Esse sucesso precisa ser investigado,
principalmente, por duas óticas. A primeira são as conexões feitas, já que criado por Eduardo Mufarej em 2017, as
associações do RenovaBR são os altos empresários do país, como Abílio Diniz, Wolff Klabin, além de nomes conhecidos
no imaginário popular como Luciano Huck (MUFAREJ, 2021). Este último utilizou diversas vezes de suas redes sociais
como plataforma para divulgar o movimento de renovação. Numa outra perspectiva, também é necessário abordar o
que o instituto busca formar nas suas “lideranças”. Fazendo um mapeamento dos próprios relatórios institucionais e de
material feito pela imprensa, é possível constatar que muitas das aulas oferecidas versam sobre temas de reformas,
num viés neoliberal de aplicação destas. Desde o quadro de professores até os temas, é muito destacável o viés
ideológico da formação. Logo, é necessária a problematização e análise desse quadro, visto que partindo do aparato
teórico gramsciano, essa pesquisa considera o RenovaBR como um aparelho privado de hegemonia, que atua na busca
de um consenso no debate público nacional. As associações com os empresários, a formação dada e o discurso dos
candidatos advindos do grupo fornecem a base necessária para essa afirmação, que será amplamente discutida no 196
presente trabalho.
Não dúvida que o novíssimo Governo Lula representa uma reorganização dos interesses do capital imperialismo,
reorganizando um novo consenso e retomada da hegemonia burguesa no Brasil. Uma nova ordem mundial,
multipolar com blocos liderados por EUA e China, está se formando. A subalternização representada por Temer e
Bolsonaro quase tornaram o Brasil uma espécie de “pária” internacional. Contudo, essa posição não atenderia nem
aos interesses do bloco EUA/Europa, muito menos à China e o projeto dos BRICs, em ampliação. Sempre é
importante lembrar que o conceito gramsciano de hegemonia inclui consenso e coerção, mas não se pode esquecer
também que ele inclui também alguma concessão efetiva do capital para a classe trabalhadora. A sua reprodução
depende de novas formas de convencimento elaboradas e justificadas pelos APHs. A análise do Imperialismo Tardio
no Brasil não pode cometer o equívoco de defender que se trata de um projeto da “burguesia nacional” ou mesmo de
uma pseudo fração mais nacionalista: não existe burguesia nacional. Não obstante, é importante reconhecer a
existência de diferentes interesses organizados entre frações da classe dominante, que se expressam também em
diferentes projetos políticos, mais ou menos inclusivos ou dispostos a realizar algumas concessões aos
trabalhadores ao invés da expropriação bárbara e violenta, mais ou menos civilizatórios ou fascistas. Consideramos
que o imperialismo tardio deve ser compreendido em sua dimensão global ao mesmo tempo que nas suas
características gerais que podem assumir diferentes aparências mais específicas em cada formação nacional, pois
o real processo de expropriação dos trabalhadores, dos recursos, da vida para a produção da mais valia se dá no
território de cada formação nacional. Embora não se deva esquecer que nunca de forma restrita ou isolada.
A atuação internacional foi expandida através de uma nova política externa independente e a formação do BRICS
(grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Esse processo assinalaria o ingresso do Brasil no rol
das potências imperialistas, um imperialismo tardio, ainda que numa posição inferior ao que o governo gostaria, mas
com maior autonomia do que seus críticos admitem. O avanço do retrocesso, tanto nas políticas sociais de redução
Apoio:
das desigualdades e combate à miséria, de conciliação de interesses de classes, através do aumento da
expropriação da classe trabalhadora a partir do Golpe de 2016, o governo Temer e, principalmente, o governo
Bolsonaro, teriam gerado obstáculos intransponíveis para a retomada desse projeto? Discutir e problematizar a
noção do “imperialismo tardio” como conceito, em suas determinações internas e relações internacionais, é a
proposta do presente trabalho.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Este trabalho tem por objetivo refletir sobre o impacto do marxismo e sua crise na interpretação da história do Brasil
Império, tendo como referência as obras de José Murilo de Carvalho e de Ilmar Rohloff de Mattos. O percurso do
marxismo no Brasil ao longo do século XX pode oferecer algumas indicações de reflexão para que a partir da década
de 1970, no contexto da ditadura civil-militar, tenha ocorrido na historiografia certo esforço por um afastamento de
uma perspectiva estruturalista a respeito do Império brasileiro. Ronaldo P. de Jesus analisa esse percurso
constatando sua predominância do pensamento marxista na escrita da História brasileira, pelo menos da década de
1930 até a década de 1990, passadas então três décadas de crise “o predomínio evidente da influência do marxismo 197
na historiografia brasileira ao longo do século XX, parece completa e irreversivelmente superado e aponta
simplesmente e aponta simplesmente para o fim de uma tradição historiográfica” (Jesus, 366-395). Já Elías José Palti
(2020), situa essa “crise” em anos anteriores aos colocados por Jesus, e entende que esse processo de crise emerge
da constante autocrítica própria do pensamento marxista, fazendo com que a noção de crítica seja uma condição
permanente e da qual emergem seguidas “crises”, crises que vem sendo sempre refutadas. Sobretudo porque a
manifestação de uma crise conceitual do marxismo se revela constantemente atrelada a uma crise política dada
diante um dado contexto histórico e intelectual. De modo que para Palti a crise do marxismo se relaciona a uma crise
na própria noção de verdade como resultado mesmo do horizonte histórico-conceitual pós estruturalista. De todo
modo, de acordo com Ronaldo Jesus, sob a influência do marxismo os historiadores brasileiros foram levados a
refletirem sobre as heranças do passado colonial, num primeiro momento. Seguidos por um movimento de
questionamento à “primazia das variáveis exógenas no processo de estruturação da economia e sociedade no Brasil
colonial”, preocupados com o problema da “revolução burguesa” no país, pois esta poderia dar um prognóstico do
advento da revolução socialista. Nesse sentido, os textos de Carvalho e de Mattos, respectivamente, A Construção
da Ordem. Teatro de Sombras e O Tempo Saquarema, se inserem num momento de crise dos postulados
estruturalistas, dentre os quais o marxismo. Isso pode explicar o tipo de abordagem feita pelos autores, uma tentativa
de romper com determinações econômicas para explicar os fenômenos políticos. De todo modo, em ambos os
autores a questão da revolução burguesa surge como questão, como elemento cuja interpretação a respeito permeia
suas percepções sobre a formação do Estado imperial.
Fundada na Coreia do Sul em 1964, a Igreja da Unificação é uma organização religiosa e ideológica
agressivamente anticomunista. Durante a década de 1980, inicia um processo de penetração no Brasil,
desenvolvendo atividades tanto religiosas como de doutrinação política e econômica. Partindo-se da ideia de
Apoio:
hegemonia, delineada por Antonio Gramsci, e usando como base documental papéis do Poder Executivo
brasileiro, a apresentação irá analisar suas relações com o Estado ditatorial brasileiro, a classe empresarial,
parceladas da nossa intelectualidade e líderes religiosos de diversas procedências, chamados a participar de
um amplo projeto político e ideológico de promoção dos princípios capitalistas no país.
A trabalho tem como objetivo analisar o movimento neointegralista brasileiro, mais especificamente, a atuação
do grupo denominado como Frente Integralista Brasileira (FIB), fundado em 22 de janeiro de 2005, pouco depois
da realização do “Primeiro Congresso Integralista para o Século XXI”. Para tanto, utilizaremos, como base para
a nossa pesquisa, livros publicados e as redes sociais da FIB e de suas principais lideranças e colaboradores.
Esse ambiente virtual neointegralista mostra-se como a mais importante ferramenta de socialização e
principalmente disseminação das ideais deste grupo e, por conseguinte, de sua ideologia na
contemporaneidade. Através do estudo dessas redes sociais, será possível investigar as principais
características e especificidades da FIB, sua a posição em relação a posições que já se apresentavam no
integralismo “clássico”, sua relação com grupos da extrema direita e o papel das redes sociais para a
sobrevivência e expansão do neointegralismo brasileiro.
198
Florestan Fernandes e a luta pela democratização da educação escolar no Brasil
Com base na pesquisa bibliográfica, este trabalho tem como objetivo apresentar uma breve reflexão sobre os
dilemas educacionais e sobre a luta pela democratização da escola pública no Brasil à luz das contribuições
de Florestan Fernandes como sociólogo, político e militante, tendo em vista o caráter radical e inovador da sua
teoria em seu tempo. O estudo integra a pesquisa de doutorado em andamento desde 2020, intitulada “Os
dilemas da educação da classe trabalhadora no Brasil: uma análise das disputas político-ideológicas no
processo de elaboração da Base Nacional Comum Curricular (BNCC)”. Para compreender a sociologia crítica
e militante de Florestan Fernandes e sua forma de interpretar o mundo é necessário conhecer um pouco das
suas histórias e da sua trajetória acadêmica e profissional. Nessa direção, busca-se resgatar alguns aspectos
da vida do autor, a partir das biografias de Antonio Candido (2001) e Laurez Cerqueira (2013), de entrevistas e
textos autobiográficos. Em seguida, retoma-se o contexto da discussão das reformas de base, no qual Florestan
Fernandes participou dos movimentos pela educação escolarizada, situando-a em meio ao debate sobre as
classes sociais, a revolução burguesa, a dependência e a democracia. Como socialista, engajou-se na
Campanha em Defesa da Escola Pública em 1960, no movimento pela reforma universitária, após o Golpe de
1964 e, no período da abertura política, na luta pela elaboração da constituição e da nova Lei de Diretrizes e
Bases da Educação. Nas obras dedicadas à educação – “Educação e sociedade no Brasil” (1966),
“Universidade brasileira: reforma ou revolução?” (1968) e o “O Desafio Educacional” –, estão reunidos ensaios
que articulam as reflexões sobre a organização do ensino ao problema do desenvolvimento do capitalismo e
da sociedade de classes no Brasil, tendo como núcleo o conceito de capitalismo dependente. Ainda que a cena
histórica tenha se alterado, a democratização da educação, em suas dimensões quantitativa e qualitativa,
permanece sendo um dos mais graves dilemas sociais da sociedade brasileira, o que ressalta a importância e
a atualidade das teorizações e análises do autor.
Apoio:
História do Ensino Superior e (des)igualdade na diversidade: graduandos com deficiência e
neurodivergentes sempre postos à prova
Ao relacionarmos o marxismo aos fatos históricos sociais que atravessam a pesquisa sobre a acessibilidade,
inclusão e permanência com êxito de pessoas com deficiência (PcD) e/ou neurodivergentes em instituições de
ensino superior públicas (IESP), indagamos se, a partir da perspectiva materialista histórica, o papel das
estruturas econômicas e de classe, dos últimos vinte ano, vêm contribuindo com as mudanças na formação
dos eventos históricos e do desenvolvimento social do grupo que investigamos. A análise dos fatos pelas lentes
das lutas dos movimentos sociais e dos coletivos de estudantes das IESP, orientam a análise das relações
econômicas e os modos de produção que influenciam a organização social, políticas e culturais das
comunidades de PcD e/ou neurodivergentes. Ao triangular dados legais, sociopolítico-culturais e institucionais
de duas IESP da região sudeste brasileira, buscamos compreender as contradições inerentes ao sistema
capitalista que, ainda assim, motivam propostas de transformações sociais direcionadas à diversidade. Mas,
na prática, ainda não identificamos se as IESP conseguem sustentar a perspectiva de diminuição das
desigualdades nos meios de produção e de trabalho que tenham como objetivo manter a presença de PcD e/ou
neurodivergentes. A teoria sociopolítica desenvolvida por Karl Marx, Friedrich Engels e Antônio Gramsci,
contribui para nossa análise à medida que trazemos à baila as intenções de quem luta por direitos legalmente
adquiridos que correspondem a mudanças em suas estruturas sociais. Assim como os diversos fatos históricos
sociais, especialmente aqueles relacionados à industrialização, à Revolução Industrial e aos movimentos
operários do século XIX, a interconectividade de dispositivos e ambientes virtuais, pode oferecer soluções
inovadoras para acessibilidade e adequação de ambientes acadêmicos a partir da internet das coisas, ou 199
internet 3.0. O que pomos em xeque são as estruturas que demonstram falta de conhecimento quando não
aceitam e não entendem que a academia é um lugar para todos. Assim como muitos acadêmicos não
reconhecem como pertencentes ao seu território outros grupos sociais identitários com histórias
socioculturais e experiências diversas, tais como as minorias étnicas e raciais, comunidade LGBTQ+, mulheres,
pessoas idosas, minorias religiosas, imigrantes e refugiados, e pessoas em situação de vulnerabilidade
socioeconômica, estudantes com deficiência e/ou neurodivergentes não são reconhecidos, nem valorizados
em suas potencialidades. O fato de suas práticas envolverem o uso do Desenho Universal de Aprendizagem
(DUA) e Tecnologias Assistivas (TA), quase sempre são vistas de forma negativa, quando, na realidade, são
suportes e continuidade de corpos em plena condição de produção.
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 25
Militares na História: Complexidades Históricas,
Acontecimentos, Pesquisas e Ensino sobre os
Militares na História
Coordenação:
Luiz Claudio Duarte (Universidade Federal Fluminense), Fernando da Silva Rodrigues (Universidade
Salgado de Oliveira), Jéssica de Freitas e Gonzaga da Silva (Escola de Guerra Naval)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Os militares e as linguagens políticas brasileiras em meio ao recrudescimento das tensões da Guerra Fria
(1947-1948): nação, democracia e revolução 200
Mario Angelo Brandão de Oliveira Miranda (UERJ)
A apresentação tem como foco as linguagens e idiomas políticos específicos produzidos por militares entre os
anos de 1947 e 1948, momento em que ganha corpo a presença das tensões da Guerra Fria, mas também o
debate nacionalista no Brasil. Em meio à gradual ampliação da participação popular na política eleitoral, à
constituição de um vocabulário político inerente ao ambiente da guerra fria e à crescente circulação de ideias
e pessoas, a análise se fundamentará nos usos e significados atribuídos por distintos setores militares aos
conceitos de nação, democracia e revolução ao longo desse período, sinalizando para imbricada relação
desses atores com o modo de pensar, fazer política e aglutinar forças em meio aos limites impostos à expansão
da primeira experiência democrática de massas brasileira (1945-1964).
Em 1995, foi criado o Grupo de Trabalho para o Estudo da Modernização do Ensino (GTEME), o qual, contando
com a determinante colaboração de educadores da Universidade de Campinas (UNICAMP), produziu a mais
completa avaliação do ensino do Exército, até os dias de hoje. O processo ali iniciado marcou todo o fenômeno
educacional da Força Terrestre, até agora. Com suas ambiguidades e contradições, contundências e silêncios,
o PME nos permite investigar os interesses pedagogicamente organizados e em conflito sobre a formação de
oficiais e praças e, em decorrência, as disputas sobre o ethos militar e o destino do próprio Exército. Como
“Tradição”, buscamos sintetizar, não apenas aquelas concepções conservadoras devotadas à manutenção de
um modelo formativo heroico, mas a reunião daqueles que, estabelecidos sobre um modelo apregoado como
exitoso, defendiam seus valores de ordem, uniformidade e hierarquia absoluta; e como “Mudança”, não
somente a alternativa pelas pedagogias não-diretivas alardeadas como em sintonia com o século seguinte,
mas como todo o conjunto dos que tinham algo a questionar sobre o status quo. Entre essas polarizações
Apoio:
complexas, o PME atravessou três décadas de avanços e recuos, nem sempre compreensíveis pelo que se
mostrou às claras (portarias, manuais, determinações exaradas seguindo a cadeia de comando), mas,
principalmente, pelo que se urdiu nas resistências veladas, nos assentimentos “para não dar certo”, naquilo
que, enfim, a burocracia ofereceu de melhor para opor-se sob a chancela da concordância. Ao mesmo tempo,
a investigação dos entreveros que constituíram os trinta anos da Modernização, permite perceber o quanto a
proposta do PME, por detrás de seu potencial disruptor, carregava uma determinação de continuidade, como
se a “grande mudança” intencionasse servir à conservação de um Exército idílico, atemporal, agora sob uma
nova embalagem (“há que se mudar tudo, para que nada mude”, nas palavras de Guiseppe Tomasi de
Lampedusa, em seu romance “O Leopardo”). O presente trabalho propõe-se a apresentar um recorte de
investigação maior em curso, a qual, partindo de pesquisa qualitativa sobre ampla base documental e de
entrevistas com atores partícipes do PME, mapeia as tensões do período, buscando estabelecer conexões com
o pensamento militar, nos dias de hoje.
Este trabalho pretende tratar de um dos legados mais críticos da Ditadura Militar (1964-85), a Doutrina de
Segurança Nacional, que segue orientando a percepção dos militares sobre o seu papel na vida pública
brasileira. Incompatível com o Estado Democrático de Direito, a DSN foi gestada a partir de variáveis da cultura
política autoritária brasileira em torno de um consenso institucional das Forças Armadas, que se arvoram a 201
reedição do “poder moderador” como guardiãs da nação, com impactos sensíveis na realidade política
contemporânea. A discussão está dividida em três recortes: o que é: suas definições, premissas e qualidades;
de onde vem: suas raízes em perspectiva histórica, e; como se reproduz: seus legados e como eles
sobreviveram à (e na) República instaurada pela Constituição de 1988, com manifestações visíveis sob o
bolsonarismo.
Militares na Política: distintas formas como a historiografia percebe a participação militar no golpe de
1964
Atualmente, o termo civil-militar tem sido bastante usado como definidor do golpe de 1964 e da ditadura que o
seguiu. Em crescimento desde o início do século XXI, essa perspectiva tem entre seus objetivos afirmar uma
colaboração/consentimento da "sociedade" na construção do regime. Tais estudos, em grande medida, vêm
acompanhados da questão da construção da memória coletiva sobre a ditadura. Hoje, é possível afirmar que
o sucesso dessa perspectiva, especialmente entre os pesquisadores mais jovens, tornaram-na hegemônica.
Todavia, entendo que, nessa perspectiva, a “sociedade” aparece como homogênea, o que é uma visão
mistificadora, que apaga o sentido de classe do processo. Além disso, a ideia de civil-militar também incorpora
uma percepção corporativa dos próprios militares: separação do mundo entre eles (militares) e os "civis",
entendidos como todos os que não são militares, e faz com que não se percebam os militares como membros
de classes sociais. Cremos, pois, ser um termo muito genérico que não compreende bem o papel dos militares
no processo e nem define quem foi que ganhou, e a quem a ditadura serviu. Não tenho o objetivo de refletir de
forma aprofundada sobre tais opções, se válidas ou não, suas virtudes e suas carências. O objetivo é mais
específico: os militares. Minha percepção é a de que, ao focar no elemento civil, e ao assumir a visão
corporativa da divisão da sociedade, tais análises diluíram, em muito, a atuação dos militares. Interpretações
equivocadas levaram no meu entender a uma redução do papel e, em alguns casos, à quase absolvição dos
militares. Pior, perdeu-se a acurada identificação da relação entre os militares e a política, de seu papel na
Apoio:
estrutura do Estado e do caráter de classe do golpe de 1964. Tal incompreensão pode ter gerado reflexos
nefastos, inclusive, para a realidade política atual. A intenção é pois, de modo breve, sintetizar o percurso
analítico que levou à relativização/incompreensão do papel dos militares no golpe e na ditadura e dialogando
com análises clássicas, resgatar uma melhor compreensão do papel dos militares na política, especialmente
no contexto da ditadura, mas cujas advertências, almeja-se, sirvam para todos os tempos.
A Volta dos Militares à Política: A Contribuição das Operações de Garantia da Lei e da Ordem (2006-2015)
O presente trabalho é um estudo das operações de Garantia da Lei e da Ordem (op. GLO) realizadas pelas Forças
Armadas, sobretudo a força terrestre, o Exército Brasileiro, em diferentes pontos do território nacional entre 1988 e
2019. A ênfase do texto recai sobre a fundamentação jurídica do emprego das FA nas GLOS e a um breve histórico
dessas operações entre 1988 e 2019. A frequência com que o Estado tem autorizado operações de GLO – e toda GLO
implica o emprego das FA, mormente o EB – tem permitido o seu entendimento como autênticas intervenções
federais nos entes federados sem a observância dos preceitos constitucionais devidos, instaurando práticas típicas
do Estado de exceção em um processo em que a exceção tem se tornado a norma, produzindo-se assim uma
normalização do que deveria ser excepcional. Tal procedimento tem sido possível pela produção, difusão e absorção
de um discurso sobre a segurança pública no qual tanto se superdimensiona os riscos da criminalidade, em alguns
casos elevada à categoria de ameaça à segurança nacional, quanto se desqualifica os Aparelhos Repressivos do
Estado (ARE) constitucionalmente definidos no artigo 144 da Constituição Federal de 1988 (CF/88) como aqueles 202
destinados à manutenção regular da Lei e da Ordem, da segurança pública e da incolumidade das pessoas e dos
bens. Contudo, os questionamentos mais graves dizem respeito aos potenciais riscos para a democracia do
recorrente uso das Forças Armadas como instrumentos de garantia da segurança pública, em uma perigosa mescla
entre segurança pública e defesa, com o risco da recriação da figura do inimigo interno. Por fim, o texto levanta a
hipótese de que o emprego frequente das FA em operações de GLO contribuiu – bem como a participação brasileira
na ocupação do Haiti – para a revalorização social dos militares como sujeitos políticos, como atores necessários na
preservação da segurança pública, da ordem interna, favorecendo o mito da suposta superioridade técnica,
profissional e moral dos militares para garantir a ordem pública. Ainda que este não tenha sido o objetivo das
lideranças políticas que demandaram ou autorizaram as operações de GLO, temos por hipótese que o seu uso
recorrente contribuiu para dar visibilidade e prestígio político à cúpula militar, ou a parcelas dos militares,
favorecendo novas intervenções – de diversos tipos – dos militares na política nacional, inclusive projetando-os
eleitoralmente. Inclusive porque o debate sobre as falhas, erros, crimes e o fracasso das operações de Garantia da
Lei e da Ordem em termos de combate à criminalidade ficou restrito a círculos reduzidos do mundo acadêmico, não
tendo alcançado repercussão na opinião pública e nos meios políticos.
A Questão Indígena sob a perspectiva do Pensamento Militar Brasileiro: uma análise do imaginário do
Exército (1988 - 2023)
Qual o significado da "questão indígena" para os militares brasileiros? Buscamos elucidar esta questão
examinando os periódicos “A Defesa Nacional” e “Revista da Escola Superior de Guerra”, e os Trabalhos de
Conclusão de Curso da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, no período de 1988 até 2023. A análise
norteia-se pela perspectiva dos imaginários sociais, durante um período em que a “questão indígena” ganhou
destaque no âmbito do Exército Brasileiro. Para isso, realizamos uma revisão de estudos recentes sobre o
pensamento militar e a temática indígena, a fim de fundamentar as noções centrais da pesquisa. Em relação
ao tratamento teórico das fontes, utilizamos as noções de Imaginário e Representações de Bronislaw Baczko
Apoio:
(1985), bem como seus principais marcos referenciais, juntamente com as reflexões de Samuel Huntington
(2016) acerca das relações entre civis e militares. A metodologia empregada incluirá as ferramentas da análise
de conteúdo, seguindo os passos descritos por Laurence Bardin, e a análise categorial dos temas emergentes
nos textos. O software de Análise de Dados Qualitativos MAXQDA serve de apoio à análise qualitativa das
informações coletadas. Frente à opção teórica e metodológica, são objetivos da análise : identificar a
quantidade de artigos publicados nos periódicos já mencionados e nos Trabalhos de Conclusão de Curso da
Escola de Comando e Estado-Maior, que abordam a questão indígena; identificar e apresentar os respectivos
autores, para analisar a sua representatividade no âmbito institucional, sobretudo do Exército; identificar,
descrever e analisar o significado da “questão indígena” para o pensamento militar, com base nas fontes
estudadas, perpassando seu diálogo com as políticas nacionais voltadas para a defesa da Amazônia;
identificar, descrever e analisar diferenças e semelhanças entre o discurso caracterizado nos argumentos do
pensamento militar e aqueles do pensamento militar institucional, em respeito à questão indígena. A
relevância da pesquisa reside na longa relação entre os povos indígenas e as instituições militares nacionais,
acompanhada por uma escassa abordagem da temática indígena nas ciências militares. Assim, esta análise
busca esclarecer uma perspectiva, expressa pelos militares brasileiros, sobre a complexa “questão indígena”.
Este trabalho explorará a interseção entre a simulação da história e a história simulada nos videogames. 203
Abordaremos como os jogos utilizam narrativas históricas, personagens e ambientes para criar experiências
imersivas e educativas. Discutiremos também como a simulação da história nos games influencia nossa
compreensão do passado e o potencial impacto cultural e educacional dessas representações virtuais. Os
palestrantes apresentarão estudos de caso, análises críticas e perspectivas sobre o uso de simulações
históricas nos videogames e seu papel na preservação e disseminação do conhecimento histórico.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Pensar a guerra na América do Sul: dos conflitos interestatais aos grandes conflitos extrarregionais do
século XX
Esta comunicação tem como proposta analisar a importância histórica de alguns conflitos contemporâneos para a
América do Sul, ocorridos, principalmente, no século XX. Nesse caso será dada atenção especial alguns conflitos
intrarregionais, considerados de grande importância para entender a história da região, tais como: a Guerra da Tríplice
Aliança contra o Paraguai de 1864-1870, a Guerra Boliviano-Paraguaia de 1932-1935 (Guerra do Chaco): e a Guerra
Colombo-Peruana de 1932-1934 (Questão Letícia). Por outro lado, pensaremos, também, alguns conflitos que tiveram
a participação de países da América do Sul contra outras nações extracontinentais, como foi o caso: da 1ª Guerra
Mundial, e da 2ª Guerra Mundial. Os estudos foram embasados pela teoria da Guerra, por aprofundados debates
historiográficos, pela análise do papel histórico das Forças Armadas como instituições de estado destinadas ao
exercício da violência, ou seja, como instrumentos de guerra; pela atuação da diplomacia sul-americana; e pelas
tensões envolvendo a disputa de poder regional.
Apoio:
O pensamento político civilista sobre a Marinha de Guerra Brasileira a partir do discurso de Visconde de
Ouro Preto, Joaquim Nabuco e Rui Barbosa no alvorecer da República
Na transição do Império para a República, no Brasil, as forças armadas obtiveram protagonismo político na
organização do Estado. Por consequências as relações civis-militares obtiveram novos contornos. No âmbito
da historiografia brasileira, há análises sobre as relações civis e militares, em especial, a avaliação sobre o
protagonismo do Exército Brasileiro na história política do país. Não obstante a existência desses estudos, o
papel da Marinha de Guerra ainda é pouco explorado. Principalmente, através da perspectiva da sociedade civil
sobre o papel político dos marinheiros. Por essa razão, proposta deste trabalho é analisar o pensamento
político sobre as relações civis e militares, destacando o papel da Marinha de Guerra nesse relacionamento,
por meio da interpretação crítica do discurso sobre as seguintes obras: Marinha d’Outrora (1893), de Afonso
Celso de Figueiredo; Balmaceda (1895), de Joaquim Nabuco (1849-1910); e Cartas da Inglaterra (1896), de Rui
Barbosa (1849-1923). Sob o aporte teórico e metodológico, essas obras históricas representam pistas,
fragmentos e sinais (GINZBURG, 1989). Portanto, são passíveis de um paradigma investigativo amparado pela
análise crítica. Nessa empreitada, os discursos apresentados são tratados como uma linguagem como prática
social (FAIRCLOUGH, 2001, p. 90), exigindo o conhecimento sobre a conjuntura histórica, o perfil e o local de
fala desses personagens. O artigo foi dividido em duas partes. Inicialmente, mostramos como a historiografia
brasileira analisou esse fenômeno marcante no processo de formação do Estado Nacional, apontando como a
força naval foi trabalhada nessas pesquisas. Em seguida, buscou-se, por meio da investigação do pensamento
político construído à época, compreender sob qual modelo um grupo de atores políticos civis da época pensou
a Marinha de Guerra e sua relação com o governo central. 204
A pesquisa que aqui se apresenta tem como objeto a “opinião pública” no contexto da Guerra do Paraguai
(1864-1870), guerra esta que teve grande impacto no Brasil, sobretudo a partir de uma forte mobilização do
Estado para garantir a sua manutenção. Buscaremos apreender as repercussões sobre a guerra na esfera
pública, observando os seus efeitos políticos, tais como as representações construídas, na Corte do Rio de
Janeiro. A historiografia sobre o conflito evidencia uma mudança em sua popularidade ao longo de sua duração,
com o deslocamento de uma opinião pública incialmente favorável, especialmente no primeiro ano do conflito,
para uma quase unanimidade em torno de sua reprovação com o passar dos anos. Trata-se, ao nosso ver, de
uma opinião pública que se tentava construir, sendo resultado das disputas retóricas presentes nos espaços
públicos, disputas estas que acabavam por produzir representações sociais e, em consequência, impactavam
nas decisões políticas na Corte. Nesse sentido, não se trata de uma noção contemporânea de opinião pública,
mas uma opinião construída pelos homens ilustrados e que se buscava tornar hegemônica, evidenciando os
notáveis resquícios de Antigo Regime que permeavam esta sociedade possuidora de uma cultura política
essencialmente desigual. Por meio da análise dos jornais e dos discursos parlamentares no referido contexto,
nota-se uma imprensa que em muito investiu numa positivação da imagem do soldado, outrora relegado a um
lugar de inferioridade e desprezo largamente atribuído ao Exército, e na fabricação de um sentimento nacional-
patriótico, até então pouco explorado na sociedade brasileira oitocentista, como uma estratégia que visava
construir a coesão social e, por conseguinte, a adesão da população à causa da guerra. A pertinência desta
pesquisa, ainda em estágio de desenvolvimento e que faz parte de um campo de interlocução entre as novas
histórias políticas e culturais articuladas à História da Guerra, pode ser percebida ao evidenciar uma noção –
de opinião pública – tão invocada numa sociedade que, após a Constituição de 1824, passou a integrar o rol
dos países possuidores de um sistema político representativo, embora numa dinâmica cuja desigualdade, e
Apoio:
não a igualdade, fazia parte do imaginário social e pautava as relações, separando e hierarquizando os sujeitos.
Além disso, a sua relevância pode ser aferida ao buscar explicar como a construção da imagem do Exército,
frente a uma guerra de proporções ainda não vistas na região, serviu aos propósitos de uma elite que objetivava
criar um ideal de nação. Tais compreensões, portanto, são capazes de nos convidar a refletir sobre as
reminiscências de um passado bastante presente no Brasil do século XXI.
O poder naval brasileiro e as relações entre Brasil e Argentina (1904-1912): notas preliminares de pesquisa
O presente trabalho trata do resumo do primeiro capítulo do esboço da dissertação de Mestrado a ser defendida junto
ao Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e que será
submetido à banca de qualificação no segundo semestre do ano vigente. A dissertação, cujo recorte temporal se dá
entre os anos de 1904 e 1912, estudará o processo de modernização da Marinha do Brasil a partir de seus programas
navais (ocorridos em 1904 e 1906 respectivamente), e buscará compreender como o mesmo exerceu influência na
política externa brasileira conduzida pelo Barão do Rio Branco e as relações deste com o chanceler argentino
Estanislao Zeballos. O trabalho a ser apresentado, portanto, possui como objetivo compreender a gênese do poder
naval brasileiro, que fora constituído sobretudo após a Guerra do Paraguai (1864-1870), e como essa questão se
desenvolveu a partir da Revolta da Armada (1891-1894), bem como a necessidade de modernização e
reaparelhamento da Marinha percebida pelas classes dirigentes – que neste período buscam firmar o país como
Estado-nação republicano, "moderno" e hegemônico na América do Sul. A concepção de “poder marítimo”, 205
desenvolvida por Alfred Mahan, militar e historiador norte-americano, será o referencial para a análise e comparação
dos dois programas navais e a chave de compreensão das razões que impulsionaram as reformas do primeiro -
levando à aquisição dos dois encouraçados dreadnought “Minas Geraes” e “São Paulo”, formando a “Esquadra de
1910”. O pensamento naval argentino e a condição da Marinha argentina neste período serão, brevemente, objeto de
análise a fins de comparação com o Brasil. Assim como esta parte da dissertação se empenhará no estudo da
evolução do pensamento naval brasileiro sobretudo a partir da obra do almirante Armando Vidigal, também serão
abordados alguns dos fundamentos da geopolítica argentina desenvolvidos pelo oficial Segundo Storni, que em
1916, tem suas conferências editadas e publicadas na obra “Intereses argentinos en el mar”. As fontes primárias que
serão utilizadas neste primeiro capítulo da dissertação encontram-se no repositório do Arquivo da Marinha/DPHDM,
e correspondem aos relatórios ministeriais dirigidos pelos almirantes Júlio César de Noronha e Alexandrino Faria de
Alencar – respectivamente os Ministros da Marinha responsáveis pelos programas de 1904 e 1906. As semelhanças
e diferenças entre estes documentos também serão parte do trabalho, que visa compreender o espaço e as relações
de poder que envolveram o processo de modernização da Marinha do Brasil e como isso influenciara no equilíbrio de
poder na região.
A presente comunicação é apresentar analisar as informações obtidas pelos adidos militares brasileiros sobre o grau
de desenvolvimento das Forças Armadas Argentinas. Esta apresentação é parte integrante da reflexão do atual que
integra pesquisa de pós-doutorado no Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense, que
trata do estudo sobre aspectos da Política Brasileira de Defesa, refletindo sobre a implementação de unidades aéreas
nas porções meridionais do território brasileira na década de 1920. Este tema se insere no processo de modernização
da força terrestre brasileira com apoio da Missão Militar Francesa, liderada, nesta fase, pelo General Maurice
Gamelin. Avaliaremos, neste momento, um pouco do cenário precedente ao acordo de cooperação militar Brasil-
França, considerando-o como elemento condicionante do planejamento para a modernização do Exército Brasileiro
Apoio:
neste princípios do século XX. Para tanto, faremos uso do parecer apresentado ao Estado-Maior do Exército Brasileiro
o capitão de artilharia Genserico de Vasconcellos que integrou a Legação Brasileira em Buenos Aires entre os anos
de 1914 e 1915, período no qual o oficial tornou-se testemunha ocular da organização militar do país platino, do nível
de adestramento da tropa, da formação de oficiais e praças, do estado do armamento e das influências estrangeiras.
Estamos diante de uma tipologia de fonte que não foi devidamente empregada em estudos dedicados a História
Militar e que merece a devida atenção pois correspondem a um esforço de coleta de dados remetidos ao Estado-
Maior visando o incremento do planejamento estratégico do referido órgão do antigo Ministério da Guerra.
Destacamos aqui nossa preocupação com as possíveis comparações registradas entre as forças terrestres
brasileiras e argentinas, especialmente quando os elementos identificados impactaram de maneira significativa na
configuração do sistema defensivo brasileiro no Rio Grande do Sul.
Esta apresentação busca discutir a construção do conceito histórico “tenentismo” a partir da análise da Revolta de 1924
em São Paulo sob a perspectiva da História Social. Tal Revolta costuma ser entendida enquanto expressão do
tenentismo, junto a diversos levantes militares que ocorreram em múltiplos estados brasileiros de 1922 a 1924 e a
marcha da Coluna Prestes (1924-1927), que contribuíram para o movimento armado que possibilitou a ascensão de
Getúlio Vargas à presidência em 1930. Em pesquisa à base de dados da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional foi
possível verificar que o termo em referência aos “tenentes” teve em sua origem um sentido negativo, cunhado no
contexto da Campanha Civilista, que se opôs a candidatura do marechal Hermes da Fonseca nas eleições presidenciais 206
de 1910, e que procurava afastar o envolvimento militar do centro político. Amplamente difundido e inserido nas
disputas pela construção da memória da chamada “Revolução de 1930”, o termo tenentismo foi ressignificado e
utilizado enquanto conceito sociológico em referência aos movimentos políticos com envolvimento da oficialidade
intermediária do Exército, entendida enquanto representantes das classes médias, que se contrapunham ao regime
oligárquico característico da Primeira República. Contudo, como já apontou Edgar de Decca, esta perspectiva integra a
“invenção do tenentismo”, que toma “a memória histórica dos vencedores como um fato histórico e não como uma das
versões possíveis do processo”. Tal concepção focada nos tenentes partia da observação de apenas um dos grupos que
compuseram a Revolta de 1924 em São Paulo e que mobilizavam a ideia do “soldado-cidadão”. Neste sentido, o Exército
enquanto promotor da República possuía deveres patrióticos e morais de tutela para com a Constituição, tinha a
obrigação de intervir quando necessário, como foi justificado no referido contexto, visto como corrompido pelo domínio
dos bacharéis. Tal discurso recebia influência dos debates autoritários, muito em voga no período entreguerras. Ao
sistematizarmos e analisarmos os dados sociais dos envolvidos na Revolta de 1924 para além das lideranças oriundas
do Exército de altas e médias patentes, nos deparamos com uma interessante diversidade de pessoas, de origens
sociais e perspectivas políticas plurais, que extrapolam o referido marcador, sejam membros da Força Pública de São
Paulo, sargentos, soldados, civis, estrangeiros e nacionais, brancos e negros, homens e mulheres, que também tiveram
seus lugares nas trincheiras nos dias de revolta. O discurso “do soldado-cidadão” não atingia a totalidade dos revoltosos
e outras motivações para o envolvimento na Revolta foram reveladas, nos propondo uma ampliação para os sentidos do
tenentismo.
Essa comunicação propõe a introdução da noção de "dispositivo pacificação" como uma ferramenta analítica
para compreender a intervenção recorrente das Forças Armadas brasileiras em assuntos internos. Utilizando a
política indigenista de Marechal Rondon como estudo de caso, o texto examina a sua trajetória como militar,
destacando sua atuação nas missões telegráficas no início do século XX. Destaca-se como suas estratégias de
Apoio:
"assimilação" e abordagem "harmoniosa" da população indígena podem ser interpretadas como práticas de
tutela fundamentais para a realização de uma "missão civilizatória" que visava à integração socioeconômica
da Nação (Oliveira, 2014; Souza Lima, 2015). Ademais, é demonstrado como a imagem do militar brasileiro
como "agente conciliador", baseada em Rondon, é propagada nas operações de pacificação contemporâneas.
Na hipótese proposta no texto o conceito de "pacificação" atua como um dispositivo que, ao longo da história
nacional, tem sido empregado para reiterar o compromisso autodeclarado das Forças Armadas com a busca
por um país orientado pelo lema positivista da "ordem” e do “progresso", tendo Rondon como figura central
nesse processo. Por dispositivo, recupera-se à concepção introduzida por Foucault, na qual esse componente
representa um conjunto diversificado e interconectado envolvendo discursos, instituições, estruturas
arquitetônicas, regulamentações, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições
filosóficas, morais e filantrópicas (Foucault, 1994). Argumenta-se que a noção de pacificação é um elemento
central que impulsiona a tradição intervencionista das Forças Armadas ao longo da história brasileira,
manifestando-se por meio de uma combinação contínua de guerra interna e assistencialismo direcionado a
segmentos específicos da população. Dessa forma, a análise das práticas e discursos das Forças Armadas em
relação à pacificação de populações consideradas arredias lança luz sobre suas formas tradicionais de
intervenção na vida institucional e social brasileira, abrangendo também manifestações recentes de ativismo
militar na segurança pública. Nesse sentido, resgatar algumas proveniências históricas de Rondon é
fundamental para evidenciar como os discursos e práticas de pacificação no Brasil estão ligados a um processo
de produção de alteridade, que não exclui a violência explícita como instrumento fundamental, mas que
também se vale de outros meios, de natureza assistencialista, para viabilizar a "assimilação" de determinadas
populações. Essa dinâmica revela um certo Brasil que concebe seu presente e futuro a partir de um legado de
violências cotidianas e frequentes "harmonizações" que moldaram essa sociedade.
207
A formação de uma nova elite militar no exército brasileiro: critérios de seleção do corpo estudantil no
colégio militar do rio de janeiro (1937-1945)
Regiane Aparecida Pontes Botelho Nogueira (Universidade Universo- Salgado de Oliveira- Campos Niterói)
Trabalho para apresentar parte da pesquisa que constitui minha tese sobre o Colégio Militar do Rio de Janeiro e
a formação de uma elite militar alinhada ao Estado Novo. O objetivo será reflexionar sobre o Estado Novo, e sua
relação com os militares como um importante articulador dos interesses do governo de Getúlio Vargas na
idealização de uma nova perspectiva de valores para a nação brasileira. O enfoque será o Exército como
instituição do poder e sua atuação, as transformações e anseios institucionais. Dito isto, como a tese busca
compreender como o Colégio Militar do Rio de Janeiro atuou no período delimitado e tornou-se um dos
responsáveis pela difusão dos novos preceitos para a formação de uma nação brasileira, este capítulo pensará
sobre o processo de formação deste novo Exército. Sendo assim, é importante a compreensão das Forças
armadas, em especial do Exército brasileiro, e no seu papel em atender as demandas de Getúlio Vargas na
construção de uma identidade do país como uma nova nação.
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 27
Mulheres em espaços associativos do
Brasil Republicano
Coordenação:
Juliana da Conceição Pereira (PUC-Rio), Mariana Barbosa Carvalho da Costa (UFRJ)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
208
Atuação das operárias junto à campanha por direitos das mulheres no Código Civil junto ao Centro das
Classes Operárias (Rio de Janeiro, 1901 – 1903)
Em 1902 o Centro das Classes Operárias iniciou uma série de conferências para a elaboração de uma carta que
seria enviada ao Congresso Nacional para tratar dos dispositivos que os operários desejavam que constassem
no Código Civil, cujo projeto que estava em discussão tinha passado por uma primeira discussão na Câmara
dos Deputados e estava em discussão no Senado. Em 1899, o presidente Campos Sales havia encomendado
ao jurista e professor de legislação comparada na Faculdade de Direito do Recife, Clóvis Beviláqua, a
elaboração de um Código Civil a ser apresentado ao Congresso Nacional. Naquele momento, a tentativa de
sistematização e codificação do direito civil brasileiro se arrastava sem sucesso desde que o país havia se
tornado independente. O texto entregue por Beviláqua contemplou, na parte relativa à locação de serviços,
dispositivos que asseguravam direitos mínimos aos trabalhadores em consonância com o que já vinha sendo
discutido e efetivado em outros países. Entre as normas por ele propostas figuravam o direito ao pagamento de
parte do salário no caso de impedimento transitório de trabalhar por moléstia e o dever de assistência médica
ao trabalho doméstico, a proibição do trabalho industrial ou das minas aos menores de 12 anos, a limitação a
seis horas do tempo de trabalho de menores de 16 anos e, ainda, o dever do empregador de eliminar as
condições de insalubridade sob pena de responder por suas consequências. Frente à expectativa de verem
seus direitos garantidos foi que os operários e operários reunidos em torno do Centro das Classes Operárias se
engajaram na promoção de uma série de conferências para a elaboração de uma carta que seria enviada ao
Congresso Nacional para tratar dos dispositivos que os operários desejavam que constassem no Código Civil.
Para isso foram formadas quatro comissões gerais: direitos e garantias dos operários na sociedade civil,
relações entre operários e patrões, direitos e garantias das operárias e, ainda, uma comissão sobre direitos e
garantias da mulher na sociedade civil. As duas primeiras eram compostas por homens e as duas últimas eram
compostas exclusivamente por mulheres. Ainda que não figurassem os dirigentes da entidade, cujos cargos
eram todos ocupados por homens, a participação nas comissões indica que elas tiveram uma atuação efetiva
Apoio:
no Centro. O objetivo desse trabalho é analisar as disputas e articulações em torno dessa campanha por
direitos com o olhar voltado para as demandas políticas de direitos das mulheres e das operárias.
A presente investigação tem como objetivo analisar a experiência de mulheres que atuaram no teatro de revista
do Rio de Janeiro entre os anos 1900 a 1920. Embora o teatro fosse dirigido e escrito por homens, a presença
das mulheres ali era ativa. Em suas atuações estavam as marcas de várias opressões que estruturavam a
sociedade brasileira. Estereótipos de classe, de gênero e de raça eram reproduzidos no palco não deixavam de
permear a estrutura onde vários sujeitos encontraram um meio de organização de estratégias de sobrevivência.
Em meio à construção desses estereótipos, mulheres negras, brancas e mestiças usaram o palco como
importante caminho de afirmação de respeitabilidade. Olhar para essas experiências deixa evidente que essas
artistas criaram uma rede de contatos e ajuda mútua que as permitia estarem inseridas em produções do
período. Pouco investigadas pela historiografia, essas redes associativistas de artistas mulheres nos permite
enxergar outros caminhos possíveis de luta no período republicano.
O presente trabalho tem como objetivo questionar a forma como o discurso sobre a loucura é construído ao
redor da prostituta Bárbara dos Prazeres. Bárbara foi acusada, no período oitocentista, de ter assassinado
crianças e, em seguida, ter se banhado com seu sangue, com o intuito de restaurar sua beleza, já então
corrompida pela varíola. Para tal estudo, mobilizamos a metodologia histórica da “micro história”, amplamente
difundida pelo historiador Carlo Ginzburg e, a análise de imagens, ou iconografia, presente na obra de Georges
Didi-Huberman. Por meio de uma análise de jornais do período, tais como o “Jornal do Commercio”,
mobilizando edições de 1857 e 1892, pretendemos constatar que a loucura era associada à condição corporal,
tecendo um paralelo entre a degradação mental e corpórea, visível nas representações imagéticas e reforçadas
pelo discurso do periódico. O acesso a tais periódicos foi apenas possível graças ao acervo do Arquivo
Nacional, mais especificamente, em sua hemeroteca, que possibilitou um estudo do veículo jornalístico e um
fragmento do que era disseminado nos veículos de informação do período. Além disto, pretendemos discutir o
crime de Bárbara como um crime feminino, associado, portanto a uma vertente historiográfica de História do
Gênero, visto que, o infanticídio é comumente ligado à maternidade e suas motivações que, no caso de
Bárbara, se associam à pressão estética sofrida pela mulher. Ressaltaremos ao longo do trabalho, que a
passagem de indivíduos como Bárbara, só ocorre na historiografia por meio da instituição penal, quando
cometem algum crime, sendo somente possível ter acesso à suas vivencias por meio do olhar investigativo e
discriminatório. O preconceito e desprezo de (ao menos) uma camada da sociedade em relação às
profissionais do sexo é palpável na descrição que os escritores do periódico efetuam e em sua categorização
no mesmo. Tal preconceito é acompanhado, pela nossa ótica, de uma fetichização da prostituição, onde as
profissionais são descritas como alvo de todo tipo de degeneração. Através deste trabalho, ainda em
andamento, pretendemos oferecer nova ótica e questionamentos a respeito do caso e gerar reflexões acerca
da loucura e prostituição no período.
Apoio:
Amélia de Freitas Bevilacqua e a revista O Lyrio: família, casamento e condição da mulher no início do
século XX no Brasil
Neste trabalho temos como objetivo refletir sobre família, casamento e condição da mulher no início do século
XX no Brasil, a partir do pensamento e da atuação de Amélia de Freitas Bevilacqua. Essas questões eram
recorrentes nas obras da escritora, especialmente a condição de submissão que era reservada às mulheres
naquele período. Nesse sentido, almejamos investigar mais profundamente a forma como Amélia as
compreendia e a maneira como se posicionava em seus escritos. Destacamos, principalmente, seu trabalho
como redatora-chefe da revista mensal O Lyrio, uma revista para mulheres e escrita por mulheres, que circulou
entre os anos de 1902 e 1904. O periódico não só confirma o interesse de Amélia pela temática, como também
evidencia suas críticas. Através de contos, crônicas, poesias e artigos, Amélia e as demais escritoras tocavam
em assuntos como o acesso à educação e à saúde femininas, a igualdade de direitos civis, o casamento e o
divórcio. Além disso, entendemos que O Lyrio foi um importante espaço associativo, ao permitir e facilitar o
diálogo entre as mulheres intelectuais brasileiras da época, principalmente entre as nordestinas. Buscamos
ainda analisar o contexto histórico em que Amélia vivia, produzia e que era foco de suas críticas, tendo em vista
que foi um período marcado pelas transformações da modernidade no Brasil. Também procuramos analisar
sua trajetória intelectual e familiar, em especial, a forma como sua trajetória intelectual se entrelaça com a de
seu marido, o jurista Clóvis Bevilacqua, redator do projeto de Código Civil aprovado em 1916 e que, como ela,
seguia encaminhamentos mais progressistas no que diz respeito ao direito de família e da mulher. Interessa-
nos, por fim, pensar a recepção e a repercussão das obras e do pensamento da escritora no interior da
sociedade literária e da imprensa. Além da revista O Lyrio, utilizamos como fontes os romances, os contos e os 210
artigos publicados por Amélia entre os anos de 1902 e 1940, seu período de maior produção; e artigos e críticas
literárias sobre suas obras.
A Posição da Intelectual Maria Lacerda de Moura diante da Formação da Identidade Social da Mulher na
Primeira República do Brasil
Maria Lacerda de Moura, reconhecida intelectual e escritora, emerge como uma das vozes mais vigorosas na
batalha pelos direitos das mulheres durante o período da Primeira República Brasileira (1889-1930). Num
contexto marcado por intensas transformações sociais e políticas, impulsionadas pelo processo de
industrialização e urbanização, sua obra desafia os estereótipos de gênero e advoga pela emancipação
feminina por meio da educação, do trabalho e do controle sobre o próprio corpo. A participação de Maria
Lacerda de Moura em espaços associativos se mostra essencial para a disseminação dos ideais anarquistas e
feministas. Na Liga para a Emancipação da Mulher, suas palestras, intervenções em congressos e a publicação
da revista "A Mulher" ecoam pautas como o direito ao voto, à educação, ao trabalho e ao controle da natalidade.
No Ateneu Libertário, suas conferências e contribuições para a revista "A Plebe" defendem a abolição do
Estado, a autogestão social e a igualdade entre os sexos. Ao filiar-se à Associação Brasileira de Imprensa em
1923, torna-se uma das pioneiras entre as mulheres a integrar essa associação, destacando-se por sua
oposição à censura e à repressão estatal, além de defender o papel crucial da imprensa na sociedade.
No âmbito do debate sobre a identidade feminina, Maria Lacerda de Moura se sobressai por sua postura
desafiadora e inovadora. Defende a mulher como ser livre e autônomo, com capacidade de tomar decisões
acerca de sua vida pessoal e profissional, rompendo de forma radical com os modelos tradicionais de
feminilidade. Sua visão propõe uma nova identidade para a mulher brasileira, abrindo caminho para o avanço
da causa feminista no país. A obra pioneira de Maria Lacerda de Moura dá voz às demandas das mulheres,
inspirando gerações a lutar por seus direitos. Através de seus escritos, é possível compreender as
complexidades da sociedade durante a Primeira República e a importância da luta pela emancipação feminina.
Apoio:
Indubitavelmente, Maria Lacerda de Moura figura como uma peça crucial na história das mulheres no Brasil.
Sua incansável atuação e suas ideias inovadoras legaram um legado duradouro que continua a inspirar a luta
por igualdade e justiça social.
União feminina nas favelas do Rio de Janeiro: redes de solidariedade e conflitos sociais no pós-guerra
No final do século XIX, surgiu um intenso movimento associativo protagonizado por diversas mulheres na
cidade do Rio de Janeiro, que se desenvolveu ao longo da década seguinte. Em meio ao contexto que se iniciou
com o fim do Estado Novo e o término da Segunda Guerra Mundial no qual emergiu um novo ambiente político
de relativa democracia no país, esse movimento começou a tomar força durante o período. Não por acaso,
foram criadas associações que conservavam suas sedes em favelas, e que tinham como uma de suas lógicas
de organização mais evidentes o seu espaço de moradia. A partir das páginas dos jornais dirigidos por
militantes de esquerda e da imprensa comercial, é possível identificar que as uniões femininas cridas por
mulheres faveladas naquele período promoviam reuniões com certa regularidade para debater ações voltadas
contra o despejo de favelas, problemas ligados ao transporte, questões relacionadas à habitação e
urbanização, entre outros temas do seu dia a dia. Trata-se, assim, de uma importante pista sobre o interesse
que essas associações e as diferentes atividades realizadas nesses espaços despertavam entre suas sócias
junto a relevância que assumiam no seu cotidiano. Apesar da atenção que aquelas mulheres dispensavam à
tais associações, poucos estudiosos elegeram esses espaços como objeto de análise para tentar entender as 211
suas formas próprias de atuação no movimento feminino durante o período. Mesmo aqueles que o fizeram se
mostraram pouco atentos à agência das mulheres faveladas que formavam as uniões femininas, deixando de
atentar para às suas dinâmicas de organização, formação de redes de solidariedade e diferenças construídas
entre elas, assim como em relação às associações formadas na cidade a partir de lógicas distintas.
Frente a essa lacuna na produção historiográfica, - tanto no que se refere aos movimentos associativos
protagonizados por mulheres como às experiências de tais mulheres em seus locais de moradia, - este trabalho
tem como finalidade investigar como se articulou o movimento através das perspectivas e interesses das
mulheres faveladas que se organizaram nesses espaços naquele momento. A intenção é demonstrar que esse
processo foi alimentado por concepções e experiências comuns às mulheres residentes em favelas, que
tiveram impacto nas formas de mobilização política em seus locais de moradia. Desse modo, disputavam os
sentidos e pautas do movimento feminino de forma ativa, afirmando certa identidade que não se definia pela
coesão e homogeneidade como imaginavam as militantes comunistas do período.
Letícia Pimentel da Silva Reis Fernandes (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)
O ano de 1966 foi o que, até então, teve mais mulheres eleitas para a Câmara Federal, sendo cinco eleitas pelo
MDB e uma pela ARENA. A primeira “bancada feminina” oposicionista do Congresso, no entanto, teve uma vida
útil muito curta, terminando quando entre 1968 e 1969 todas as suas integrantes foram cassadas. A presente
comunicação tem como objetivo analisar a trajetória política das cinco deputadas emedebistas removidas da
vida pública pelos órgãos de vigilância e segurança: Ivette Vargas, Julia Steinbruch, Lígia Doutel de Andrade,
Maria Lucia Araújo e Nísia Carone. Nesse grupo que contêm mulheres desde o Rio de Janeiro até o recém
acrescido Acre, encontramos personagens muito parecidas. Todas são brancas, jovens, e casadas,
pertencentes a importantes famílias de suas respectivas regiões e dotadas de diploma universitário. Com
exceção de Ivette Vargas, todas elas entram para a vida pública após a cassação dos mandatos de seus
maridos, todos políticos progressistas que perderam os direitos políticos durante as primeiras ondas de
Apoio:
cassação da ditadura militar. Mesmo sem experiência no campo político profissional, quatro dessas mulheres
cativam o suficiente o eleitorado para que os votos que seriam dados a seus maridos sejam confiados a elas.
As chamadas pela mídia de “mulheres de punido” se elegem prometendo continuar o trabalho de seus esposos
no Congresso, carregando o legado do seu nome. Nesse ponto, Ivette Vargas volta a se aproximar de suas
colegas, pois a sua primeira eleição também foi prometendo a continuidade do trabalho de um homem, nesse
caso seu tio-avô Getúlio Vargas. Mesmo com seu sucesso rápido na empreitada política, o trabalho dessas
mulheres é interrompido pouco tempo após o seu ingresso na Câmara. Ivette foi cassada na primeira leva que
sucedeu a promulgação do AI-5, ainda em 1968, enquanto suas colegas foram sendo removidas do Congresso
ao longo de 1969. Nesse curto período, as deputadas enfrentam comentários sobre a sua aparência, seu peso
e suas roupas tanto de colegas deputados quanto da mídia. Segundo a historiadora Ana Colling, essas
mulheres se colocam como duplamente pecadoras ao se colocarem como militantes políticas em um partido
de oposição a despeito da sua condição de mulher. Assim, seus processos de cassação são permeados por
essa visão da insurgência dupla, além da visão da mulher como continuidade do seu esposo, admitidamente
incentivada por elas. Considerando suas curtas carreiras políticas no caso de Júlia, Lígia, Nísia e Maria Lúcia,
somado ao fato das deputadas repetidamente afirmarem sua crença e escolha na oposição institucional, a
cassação baseada na subversão se torna dúbia, incitando a reflexão do que o regime militar ditatorial
considerava subversivo no momento de remover a presença feminina do Congresso.
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00) 212
Sem trabalhos alocados.
Apoio:
ST 28
Mundos do Trabalho e Movimentos Sociais – História Social e
experiências de classe, raça e gênero no século XIX, XX e XXI
Coordenação:
Samuel Silva Rodrigues de Oliveira (Centro de Educação Federal Tecnológica Celso Suckow),
Alejandra Luisa Magalhães Estevez (Departamento Multidisciplinar da Universidade Federal
Fluminense)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Este estudo é parte de uma pesquisa de mestrado em andamento, na qual analisamos a participação dos
membros do PCB no movimento operário de Nova Lima e Raposos, MG, de 1945 a 1964. Investigamos a
213
influência do PCB entre os trabalhadores da Companhia Morro Velho, renomada por suas operações
minerárias, principalmente de ouro. Originalmente administrada pela St. John Del Rey Mining Company, em
1958 foi adquirida pela Hanna Mining Company, dos EUA, e posteriormente, em 1960, por empresários
brasileiros, tornando-se a Mineração Morro Velho S.A. Na década de 1990, a Anglo American adquiriu a
empresa, que apesar de não explorar mais as antigas minas de ouro, ainda opera na região. A Companhia se
destacou pela extração de ouro, operando a segunda maior mina de ouro do mundo na época, a Mina Grande,
em Nova Lima, além de explorar outros minerais em várias minas na região. Seu impacto econômico e social
atraiu trabalhadores de diversas áreas, alimentando um movimento operário ativo e reconhecido
nacionalmente. Nova Lima e Raposos foram consideradas áreas de grande influência comunista, com a ação
do PCB desde os anos 1930, influenciando o movimento operário local. Essa ação foi impactada pelo Estado
Novo, que atuou na desarticulação do PCB em diferentes escalas. Apontamos que a atuação comunista se
dava em dois níveis: o político, através do PCB, e o de massa, inserindo-se em organizações não comunistas.
Durante o Estado Novo, o primeiro nível foi impactado, com a militância atuando de maneira dispersa, sem
orientação política definida. Após 1943, iniciou-se uma reorganização política nacional do PCB, que
reaglutinou os comunistas locais no primeiro nível, organizando novamente as estruturas partidárias. Essa
reorganização impactou a militância comunista no nível de massas, pois passaram a atuar com uma linha
política definida. Este estudo busca apresentar como se deu este processo e seu impacto no nível de massas.
Esta comunicação, fruto de pesquisa de doutorado em andamento, propõe uma análise acerca das formas de
organização das trabalhadoras em nome da luta por melhores condições de vida e por direitos no Distrito
Federal — que, em 1960, se tornou Estado da Guanabara — entre 1945 e 1964. Essas mulheres tinham suas
vidas diretamente impactadas pela carestia do custo de vida, baixos salários, precariedade nos serviços de
saúde e educação e no acesso ao direito à cidade. Desse modo, busca-se investigar em que medida as
trabalhadoras se organizaram e atuaram no organizadas enquanto movimento feminino para reivindicar essas
pautas, analisando sua atuação em algumas entidades de destaque político, como a Federação de Mulheres
Apoio:
do Brasil (FMB) e a Associação Feminina do Distrito Federal, instituições criadas por — ou para as — mulheres
trabalhadoras como “movimento de mulheres”.
Julho de 1962 foi marcado por uma significativa greve geral em diversos estados do país. Trabalhadores da construção
civil, de transportes, bancários, gráficos, têxteis, cruzaram os braços reivindicando as Reformas de Base e a luta pelo
13º Salário. Contudo, no estado do Rio de Janeiro, a greve geral presenciou ações de insatisfação da miséria vivida
pelos trabalhadores. No dia 5 de julho de 1962, cerca de vinte mil pessoas ficaram aglomeradas na Praça do
Pacificador, no município de Duque de Caxias, a espera dos transportes públicos para se deslocarem aos seus
trabalhos. Porém, estes estavam paralisados por conta da greve. Além disso, outra crise assolava esta região. A
Baixada Fluminense passava por uma crise de abastecimento de alimentos básicos e muitos comerciantes
supervalorizaram o preço das mercadorias. Na Praça, com milhares de pessoas reunidas, a esfera da insatisfação
reverberou com a informação de haver sacos de feijões escondidos nos comércios dos arredores. Logo teve início os
saques e depredações dos comércios na Baixada Fluminense. Foi presenciado uma expressiva revolta popular
conhecida como o “Motim da Fome”, nome dado pela imprensa do Fatos e Fotos (SOUZA, 2006). O presente trabalho
tem por objetivo analisar a greve geral de 1962 na Baixada Fluminense e o seu desdobramento em uma revolta
popular, tendo em vista a articulação entre o repertório de luta dos trabalhadores e o cotidiano da região. A pesquisa
brevemente apresentada aqui se detém, primeiramente, à análise de dados quantitativos fornecidos pelo Instituto 214
Brasileiro de Geografia e Estatística. A mobilização dessas fontes permite identificar o mercado de trabalho crescente
na região, juntamente com o processo de urbanização, além de traçar um quadro mais geral da identificação dos
perfis dos moradores. A outra fonte adotada no estudo são os periódicos Última Hora e Luta Democrática. Por meio
dos periódicos será analisado informações quantitativas e qualitativas sobre a greve geral na Baixada Fluminense —
número de mortes, prisões e repercussões dos atores sociais envolvidos.
A "crise dos movimentos de trabalhadores" em debate: o caso da greve dos mineiros de carvão britânicos
de 1984-85
A pesquisa que pretendemos apresentar neste Simpósio tem como tema a greve dos mineiros de carvão britânicos de
1984-85, também conhecida como Grande Greve dos Mineiros por Empregos, enquanto caso representativo da
chamada “crise dos movimentos de trabalhadores” iniciada na segunda metade do século passado. Optamos por nos
ocupar dos aspectos subjetivos deste tema, nominalmente a questão da consciência de classe, buscando desenvolver
a sugestão de Eric Hobsbawm, que em seu célebre trabalho “Era dos Extremos” argumenta que a crise vivida por
instituições da classe trabalhadora, como sindicatos e partidos, deveria ser caracterizada como "uma crise não de
classe, mas de sua consciência". Instigados por essa proposição, temos buscado em nossa pesquisa avaliar em que
medida essa “crise da consciência de classe” pode ser verificada, indagando como a dita crise foi vivenciada e entendida
pelos próprios trabalhadores, a partir da proposição de Edward Thompson segundo a qual as classes sociais são
fenômenos históricos, verificáveis quando os sujeitos se entendem e agem em termos classistas. A greve dos mineiros
de 1984-85 foi selecionada como caso de estudo por mostrar-se uma confrontação particularmente decisiva desse
contexto, e não apenas para o Reino Unido onde ocorreu. A greve, realizada em resposta ao um programa de desmonte
da indústria de mineração de carvão britânica implementado pelo governo de Margaret Thatcher, foi a mais longa da
história do país, tendo parado cerca de cem mil trabalhadores por mais de um ano. Ela mobilizou ainda o apoio de outros
segmentos do movimento sindical e de grupos não necessariamente ligados ao sindicalismo, como o coletivo “Gays e
Lésbicas Apoiam os Mineiros”. Mesmo assim, o governo manteve-se intransigente até o esgotamento das forças dos
Apoio:
grevistas, que não conquistaram nenhuma concessão. A indústria britânica de carvão foi efetivamente extinta em
poucos anos depois disso, levando consigo a “espinha dorsal” do movimento sindical do país. Assim, buscamos situar
a análise das expressões de consciência de classe em meio ao embate ideológico protagonizado pelo governo de
Margaret Thatcher, campeã do neoliberalismo, e os mineiros de carvão grevistas, levantando uma série de questões. Os
trabalhadores daquele país haviam então abandonado a noção de pertencimento a uma única classe trabalhadora?
Estavam em vias de fazê-lo? Ou, a despeito dos questionamentos a essa noção, a consciência de pertencimento a uma
mesma classe permanecia significativa para uma grande parte deles? Seria o grau de coesão da classe trabalhadora que
havia sido abalado? São essas perguntas que buscamos, se não responder, ao menos elucidar com esta pesquisa.
A luta dos anistiados políticos em Volta Redonda e os limites da justiça de transição brasileira
Este trabalho tem por objetivo analisar a luta dos anistiados políticos de Volta Redonda, de maneira a compartilhar os
resultados da pesquisa Companhia Siderúrgica Nacional: responsabilidades e violações de direitos, coordenada pelo
CAAF/UNIFESP. Nesse sentido, reconstruiremos o histórico de violações de direitos sofridos pela classe trabalhadora,
em especial os metalúrgicos da CSN, durante a ditadura empresarial-militar e a luta encampada pela Associação dos
Anistiados Políticos de Volta Redonda, criada em 2005. Para tal, iremos analisar 114 processos de trabalhadores que
entraram com pedidos de anistia política junto ao órgão, em sua maioria ligados aos casos dos demitidos e perseguidos
durante o ciclo de greves dos anos 1980. Além dos processos, analisamos os testemunhos da verdade colhidos no
âmbito da Comissão da Verdade, assim como um processo trabalhista em especial - Pedro Eloy e outros. A partir desta 215
análise, é possível avançar na reflexão em torno da justiça de transição, em especial no campo de lutas políticas
denominadas movimento de memória, verdade, justiça e reparação, através da reconstrução desse processo histórico,
atravessado por limites e algumas conquistas.
Genival Luiz da Silva (1931-2014): a construção da memória dos trabalhadores do sul fluminense na
ditadura empresarial-militar
Pretendemos analisar a trajetória de Genival Luiz da Silva (1931-2014), com destaque para sua atuação política e
seus usos da memória. Migrante nordestino, começa sua carreira na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) no final
da década de 1950. No sindicato da categoria sofre com o AI-5, sendo preso e torturado nas dependências do exército
em Barra Mansa. Genival, posteriormente, dedicou seu tempo e energia pela justiça e memória daqueles que
sofreram com os crimes da ditadura empresarial-militar. Assim, temos por objetivo também refletir sobre parte da
documentação que selecionou e guardou. Entendemos que Genival atuou como um "operário da memória", que ao
mesmo tempo que é testemunho das lutas que compartilhou com seus companheiros, se envolveu nas disputas
políticas que traz a construção das memórias coletivas e suas implicações para o tempo presente.
A análise da gestação e do estabelecimento da chamada Nova República cumpre um significado social e acadêmico de
suma importância para o entendimento da História do Tempo Presente brasileira, uma vez que tal processo se liga
diretamente tanto a fenômenos políticos da ordem do dia, quanto a permanências há muito sedimentadas e
Apoio:
deslindadas pela historiografia, o que não nos exime de trazer e propor reflexões outras para o esquadrinhamento do
paradigma político nacional de então. Nesta comunicação, objetiva-se trazer à luz a análise do processo de
redemocratização sob o prisma do mundo do trabalho, com vistas e sopesar os limites e avanços deste processo
histórico, que abrigou dentro de si, a um só tempo, uma abertura política e, na contramão dos avanços, uma
hiperinflação que corroeu salários e, em muitos casos, a própria possibilidade de estabelecimento da cidadania para a
maior parte da população. De modo sucinto e sem maiores complexificações, tentaremos refletir sobre esse processo
de mudanças a partir da análise dos discursos e debates situados em alguns órgãos de imprensa na virada dos anos
1980/1990, balizando-se no choque entre os imperativos do mercado e o Direito do Trabalho.
Ao apresentar de forma panorâmica como as disputas mobilizadas pelas intencionalidades narrativas em torno da
consolidação de vinte e três Memoriais da Justiça do Trabalho, lançaremos olhares sobre suas construções
expográficas, e ao redor dos sujeitos que as direcionaram. O objetivo dessa proposição é investigar quais as
intencionalidades em torno dos processos de musealização da Justiça do Trabalho, a partir do Memorial Arthur
Francisco Seixas dos Anjos (TRT8) e o Memorial Geraldo Montedônio Bezerra de Menezes (TST), no período entre os anos
de 1988 e 2021. Visando analisar os artefatos e seus entrecruzamentos interseccionais entre raça, gênero, classe,
(estruturas essas que sustentam o sistema político-econômico vigente, o capitalismo) na consolidação do Judiciário 216
trabalhista no Brasil, perspectivando pensar quem ocupa esses lugares e através de quais meios. Intentando
ressemantizar a posição flutuante a qual o Judiciário trabalhista se coloca em relação aos trabalhadores e trabalhadoras
que fazem uso desse ramo da justiça, mas também colocam-se acima dos empregadores, associações patronais,
sindicatos de trabalhadores, utilizando-se de símbolos e signos construídos através da visualidade para reiterar
discursos implícitos em sua prática cotidiana. Ao investigar as disputas pela memória do trabalho, esta proposição de
pesquisa encontra um fenômeno que envolve profundamente esses memoriais: que lugar os Tribunais intentaram
ocupar nas ressemantizações da memória sobre o trabalho, e acima de tudo, sobre a Justiça do Trabalho no Brasil?
Teriam as ameaças à manutenção da Justiça do Trabalho ao redor do país, mobilizado estas instituições a organizarem
exposições celebrativas? Ao trazer à tona as contradições de uma tentativa de sacralização da Justiça do Trabalho,
colocamos como proposta investigar o processo de musealização da memória da Justiça do Trabalho, realizado pela
mesma, ao redor do território brasileiro, entre o período denominado como “redemocratização” brasileira e a segunda
década do século XXI, a partir da hipótese central de que o processo de musealização da Justiça do Trabalho configura-
se enquanto uma aparente resposta a intensificação de perdas sofridas pelo Judiciário trabalhista em relação a sua
constituição primeira, tendo em vista que quando os primeiros Memoriais foram fundados o contexto em que o
Judiciário trabalhista encontrava-se era de profundas modificações, já advindas do período ditatorial, as quais os
magistrados não demonstraram-se dispostos a aceitar inteiramente.
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Do liberalismo constitucional à Lei de Terras de 1850: a manutenção das hierarquias sociais a partir do
direito de propriedade
Apoio:
primeira metade do século XIX, com destaque, inicialmente, para a limitação do liberalismo presente na
Constituição Imperial de 1824, manifestado pela legitimação da manutenção da escravidão através do direito
de propriedade. Para tanto, se vale dos estudos da historiadora catalã Rosa Congost, objetivando compreender
o direito de propriedade presente na constituição como fruto das dinâmicas sociais existentes, em que pese o
evidente conflito entre a importação das noções liberais de liberdade e igualdade e a existência da escravidão,
sendo, portanto, a propriedade real sobre o escravizado um produto do conflito entre proprietários de
escravizados (e de terras) e variados agentes sociais antiescravistas. Em seguida, compreendendo a Lei de
Terras de 1850 como uma reação ao fim do tráfico de escravizados, em que pese: 1) a compreensão (por parte
dos proprietários de escravizados e de terras) acerca da possibilidade do fim da escravidão; 2) a substituição
do escravizado pela terra como fonte de renda capitalizada; 3) a tentativa de manter as hierarquias sociais a
partir da exclusão do liberto de ter acesso à terra – ao passo em que prevê doação ao imigrante europeu; a
comunicação objetiva tratar de forma comparada o direito de propriedade sobre o escravizado evidenciado no
início do século XIX com o direito de propriedade sobre a terra presente na Lei de Terras de 1850, uma vez que
tais direitos envolvem os mesmos agentes sociais (escravizados e proprietários de escravizados e de terras) e
geram o mesmo produto (manutenção das hierarquias).
Os Ciclos de Vida: Trabalho e Liberdade na Imperial Fazenda de Santa Cruz (Século XIX)
Apresentaremos aqui os resultados da pesquisa intitulada: Entre escravidão e a liberdade: arranjos de trabalho 217
na Imperial Fazenda de Santa Cruz. (Rio de Janeiro, 1850-1890). A Imperial Fazenda de Santa Cruz, pertencia à
província do Rio de Janeiro, mas extrapolava os limites desta cidade, ocupando todo o atual bairro de Santa
Cruz no município do Rio de Janeiro e parte de dez municípios fluminenses. Na segunda metade do século XIX,
a Imperial Fazenda abrigava uma comunidade de mais 2.000 pessoas escravizadas. O objetivo desta
apresentação, é analisar as questões relacionadas ao ciclo de vida dessa população. A análise da estrutura
populacional pode revelar o movimento de organização das relações de trabalho dos escravizados e libertos
na Fazenda de Santa Cruz nas últimas décadas do período escravista. Dessa forma, os registros de batismo,
óbito e casamento no curato de Santa Cruz serão examinados, juntamente com os registros de aluguel e cartas
de liberdade que estão em diversos conjuntos documentais, divididos em seções, séries, subséries e dossiês,
pertencentes ao Fundo Nacional da Fazenda de Santa Cruz e ao Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. Para não
nos perdermos em números, concentramo-nos nos nomes dessas pessoas. Nos registros de aluguel na década
de 1860, encontramos o nome de 210 pessoas escravizadas. No ano de 1870, foram identificados 1.106
indivíduos libertados por meio da lei do ventre livre, que concedia liberdade aos escravizados da Nação,
aqueles pertencentes à Coroa Imperial, como a Fazenda de Santa Cruz. O nosso método será localizar os
indivíduos em diferentes fases do ciclo vital, tais como nascimento, batismo, casamento e morte, a partir dos
registros paroquias do Curato de Santa Cruz. Que conclusões podemos obter ao realizar uma análise
demográfica com base no método onomástico? Quais são os benefícios de acompanhar o ciclo de vida de
homens, mulheres, crianças e idosos no contexto dos mundos do trabalho? Essas são as perguntas às quais
procuramos responder.
Esse presente trabalho busca compreender as nuances do trabalho doméstico feminino em Itaguaí, na
segunda metade do século XIX. Não estando incluso no rol de munícipios exportadores de café em larga escala,
Apoio:
nem no centro urbano da Província, Itaguaí possuía características próprias nas experiências, relações e
dinâmicas das mulheres cativas de "portas adentro". Sendo assim, utilizando fontes múltiplas, como
inventários (sobretudo, lista de matrícula), testamentos, mas, principalmente os impostos de meia siza de
escravizados, que possuem diversas informações sobre os trânsitos dos escravizados, há o objetivo de serem
discutidos tais pontos da realidade do município no que se refere ao trabalho doméstico. Assim, será visto
como Itaguaí participava da dinâmica do trânsito de escravizados no período final da escravidão, como,
principalmente os locais em que essas mulheres eram enviadas. Além disso, há o ponto de análise da
localidade dessas mulheres que permaneciam na própria Itaguaí. Por fim, também será posto em observação
as relações de maternidade e família desses indivíduos, e como os percalços da escravidão, junto as mudanças
realizadas, principalmente após a década de 70 do século XIX, impactavam na manutenção desses laços.
Puritanismo em São Paulo: Como as reformas morais implementadas pelo Estado brasileiro delinearam
a identidade negra (1900-1940)
A presente comunicação objetiva analisar como as reformas morais realizadas pelo Estado brasileiro afetaram
diretamente a vida de negros e negros em São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Após a abolição e
com o crescimento urbano e industrial de São Paulo, o Estado voltou a sua atenção para a população mais
pobre, sobretudo negra, a fim de exercer o controle e enquadrá-la seguindo uma lógica moral pró-trabalho, aos
moldes e agrado do grande capital. Esse era o contexto em que seus hábitos e costumes passaram a ser 218
criminalizados e enquadrados pela Lei da vadiagem. Com isso, alguns jornais da Imprensa Negra paulista,
assim como trechos de algumas peças teatrais da Frente Negra Brasileira serão apresentados a fim de
evidenciar como o moralismo atuava. Ou seja, ao ponto de negros e negras negarem alguns elementos da
cultura africana, condenarem o uso de bebidas alcoólicas e certos divertimentos, definirem vestimentas, entre
tantos outros moldes burgueses adotados por membros do movimento negro com a finalidade de
conquistarem inserção social e respeitabilidade em meio a uma cidade racista e com abundante mão de obra
imigrante. Os conflitos raciais entre esses grupos era tão latente, que também nos revela que para dividir
espaço com imigrantes, por vezes a comunidade negra seguia a lógica burguesa. Ademais, também observo a
narrativa estatal em torno da construção familiar e o reforço do papel social da mulher dentro deste processo.
Alguns jornais da imprensa negra, como o “Clarim da Alvorada”, de certo modo reforçava a moralidade quando
homens negros ditavam as regras de vida das mulheres negras. Logo, será preciso analisar como essas
mulheres refletiam acerca do moralismo e como se davam as relações de gênero naqueles espaços.
O presente trabalho tem como objetivo discutir a intersecção entre raça, classe, industrialização,
trabalhadores rurais e urbanos em Barra Mansa entre 1909 e 1927. Neste sentido, buscar-se-á salientar o
cenário estrutural acerca do saneamento básico e distribuição de energia elétrica de Barra Mansa a partir de
1909, bem como o projeto de expansão do perímetro urbano ainda bastante tímido na cidade no mesmo
período. Em seguida são situadas as mudanças políticas realizadas pelos potentados locais, apoiados por Nilo
Peçanha e a ascensão das forças apoiadas por Arthur Bernardes. Pretende-se expor a relação dessas
mudanças políticas com os mundos do trabalho, relacionando-as com os conceitos de modernidade e
progresso. Ademais, são analisadas as modificações legislativas de Barra Mansa e como estas mudanças
afetaram os trabalhadores rurais. Buscamos salientar por meio dos regimentos municipais como esse
Apoio:
processo é marcado pela eugenia rural e branqueamento do território ao segregar a população do campo, tal
como a população pobre e periférica do perímetro urbano e fabril projetado a partir de um discurso higienista
e eugenista. Para embasar nossa argumentação em torno dessas questões, são feitas comparações e análises
com os discursos e ideias dos pensadores que influenciaram a eugenia e higienismo no período republicano,
principalmente nos anos 1920. Na mesma linha, são mobilizadas as interpretações e estigmas acerca do
personagem “Jeca” em Barra Mansa, para evidenciar como homens e mulheres do campo e o próprio trabalho
rural foi racializado no período. Desta forma, buscamos relacionar as imagens construídas sobre os
trabalhadores rurais no Sul Fluminense com o Jeca Tatu, personagem criado por Monteiro Lobato e todos os
significados e preconceitos raciais imbuídos nessas caracterizações, bem como os efeitos deste processo para
trabalhadores rurais, sobretudo negros/as, sem deixar de articular a racialização e segregação do campo com
as lutas por saneamento e greves ocorridas na cidade entre 1920 e 1927.
A proposta dessa apresentação é voltada para mostrar a presença e atuação dos migrantes do Vale do Paraíba
na cidade do Rio de Janeiro. Isso a partir da compreensão dos espaços ocupados e a conexão com as ações e
estratégias usadas por estes na cidade. Há diversos aspectos que contribuíram para melhor entendimento das
migrações entre as regiões, como quais eram os espaços geográfico ocupado dentro da cidade – entre trabalho,
moradia e lazer – que por seguinte se conectam com as interações e fronteiras estabelecidas, sejam elas de 219
conflito ou de identificação e/ou ajuda mútua. O que leva ao questionamento sobre quais seriam a relação
estabelecida dos migrantes entre si, assim como também com os imigrantes que também estavam circulando
pela cidade. Além disso, é preciso levantar inquietações baseadas nas delimitações estabelecidas, a partir de
questões raciais. Com isso, é também pertinente problematizar as diferenças de valores e estratégias
considerando as questões raciais e os processos de racialização no pós-abolição. Além disso, vale ressaltar
que há um esforço na pesquisa atual para trabalhar com a memória desses migrantes e seus familiares com as
fontes de correios Fono-postais da época.
“Por meios violentos”: crimes, negociação e conflitos entre padeiros e proprietários de padarias no Rio
de Janeiro (1929)
O trabalho tem por objetivo apresentar e analisar uma série de atos criminosos (desde agressões físicas até
assassinatos), em 1929, de membros da classe dos padeiros da cidade do Rio de Janeiro direcionados a proprietários
em padarias e seus respectivos estabelecimentos. Será defendida a hipótese de que os conflitos foram motivados por
retaliação dos trabalhadores, devido ao não cumprimento de acordos salariais por parte dos patrões. Outrossim, serão
avaliados os possíveis nexos étnico-raciais dessa disputa de classes como um dos elementos motivadores para a
disputa. A pesquisa é construída, fundamentalmente, a partir de dois conjuntos de fontes: arquivos judiciais extraídos
do Arquivo Nacional (AN) e do Fundo POL – Polícias Políticas do Rio de Janeiro, do Arquivo Público do Estado do Rio de
Janeiro (APERJ), e periódicos da cidade do Rio de Janeiro em 1929.
Apoio:
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
A era do branqueamento em Santa Fe. Trabalho, imigração e raça na Argentina da segunda metade do
século XIX
O problema principal insere-se numa fase de profundas transformações vividas pela Argentina na segunda
metade do século XIX, mais precisamente desde a gestação da colonização agrícola na década de 1850 até à
crise económica de 1890-1892, no quadro da construção do Estado em a nível nacional e provincial. Dois
processos principais são articulados neste período. De um lado, o fim do trabalho escravo previsto na
Constituição de 1853, apoiado pelos africanos e afrodescendentes da colônia espanhola. Esta importante
mudança no quadro jurídico fez parte do início de um projeto de modernização dos fatores de produção que
implicou o desenvolvimento de relações de trabalho livres. Por outro lado, a promoção da imigração europeia
e a construção de um mercado de trabalho capitalista aberto a novos padrões e formas de emprego de mão de
obra em que a imigração terá um papel central, promovida por sucessivos governos nacionais e provinciais.
A Província de Santa Fe foi um cenário chave para a construção do Estado e da modernização econômica
argentina, no âmbito das transições latino-americanas para o sistema capitalista internacional. Durante a
segunda metade do século XIX, o seu território e população aumentaram dez vezes, devido à imigração
europeia e à colonização agrícola. Estes processos, há muito estudados, devem enfrentar o branqueamento
demográfico e laboral. A partir de 1853, Santa Fe, juntamente com a abolição da escravatura sancionada na
Constituição, liderou uma política de importação de mão de obra europeia para abastecer trabalhadores locais, 220
representados como racialmente incapazes de produção industrial. Diferentes agentes branqueadores
atuaram política e discursivamente para inferiorizar os povos originários do espaço conquistado do Chaco e
invisibilizar os habitantes afrodescendentes que finalmente se libertaram legalmente da escravidão colonial,
instalando uma narrativa oficial, racista e negacionista sobre uma nacionalidade argentina branca e europeia.
Por outro lado, os censos populacionais provinciais e nacionais do período (1858, 1869 e 1887) ocultaram as
identidades étnico-raciais dos habitantes sob o rótulo “argentino” e foram meticulosos na contabilização dos
estrangeiros que chegavam como colonos para povoar o espaço rural em expansão. Tomando como estudo de
caso a cidade de Santa Fe, será analisada estatisticamente a distribuição dos habitantes segundo profissão,
nacionalidade e género, procurando interpretar a evolução do processo de branqueamento na segunda metade
do século XIX.
Entre caixeiros, primeiros caixeiros e guarda-livros: arranjos de trabalho e disputas salariais nos
estabelecimentos comerciais do Rio de Janeiro oitocentista
Este trabalho tem como objetivo analisar processos cíveis de demanda por pagamento por serviços prestados
da Corte de Apelação do Rio de Janeiro, ajuizados por trabalhadores livres que exerciam seus ofícios na cidade
entre as décadas de 1830 e 1860. Aqui, nosso foco será aqueles cujos autores eram empregados do comércio,
geralmente denominados “caxeiros”. No contexto de análise, a cidade do Rio de Janeiro, sede do poder central
do Império, passava por transformações econômicas e sociais, como o crescimento comercial e a chegada de
imigrantes de diferentes partes do mundo, principalmente de Portugal. Parte considerável desses portugueses
atuavam nos variados ramos de comércio da cidade. Pretende-se, portanto, investigar as estratégias
estabelecidas por esses trabalhadores para obter alguma quantia relativa ao trabalho realizado. É válido
ressaltar que a natureza do material de análise permite acesso à aspectos cruciais das relações laborais
vivenciadas por esses trabalhadores. Nesse sentido, paralelo as estratégias, será possível realizar uma análise
dos arranjos de trabalho em que esses sujeitos estavam envolvidos, levantando as atividades exercidas por
Apoio:
eles, as condições para sua realização, as hierarquias inerentes a categorias e os diferentes acordo salarial
entre as partes envolvidas.
A escravidão urbana a partir de um estudo de caso: os Africanos Ocidentais de Vicente Pereira da Silva
Porto na cidade do Rio de Janeiro, século XIX
As cidades escravistas – com destaque para o Rio de Janeiro, Salvador e Recife – se transformaram em espaços
originais da montagem econômica escravista africana. Houve prosperidade e enriquecimento de traficantes do
atlântico e negociantes urbanos que usavam mão-de-obra no setor de transporte e abastecimento.
Apresentamos nesta comunicação os primeiros resultados de uma investigação em andamento sobre o
inventário do negociante português Vicente Pereira da Silva Porto. Atacadista e grande comerciante, possuía
um plantel (quantidade de cativos) expressivo com uma escravaria africana, a maior parte da África Ocidental,
minoria da demografia escrava na urbe fluminense. Entre africanos centrais -- Angolas, Benguelas, Cassanges,
Congos, Cabindas e outros – e os africanos orientais, chamados Moçambiques, Inhanbanes e Quilimane, os
escravizados provenientes da África Ocidental, nomeados Nagôs, Minas, Jejês, Hausá, Calabar – embora em
menor quantidade (oscilaram entre 1,5 % e 13% na primeira metade Oitocentista) tiveram importante
participação no mercado de trabalho urbano carioca. Com uma escravaria que alcançou mais de 250 cativos
africanos ocidentais, no final da década de 1860, quando faleceu, o inventário de Vicente Porto permite uma
radiografia única das dimensões étnicas e laborais (ocupação, sexo, identidades, valor dos jornais, registros 221
com médicos, licenças a Câmara Municipal, assentos prisionais e processos de alforrias) dos africanos
ocidentais que dominavam o mercado de trabalho de ganhadores no Rio de Janeiro. Verificamos assim uma
face subterrânea da economia escrava, articulando produtos, mercadorias, lucros e despesas de um grande
proprietário (talvez o maior já encontrado em termos de escravidão urbana vinculada estritamente aos escravos
ao ganho) e também as lógicas de pecúlio, renda, expectativas e solidariedades dos próprios africanos
ocidentais, que eram minoria mas se projetavam na Corte Imperial. A partir deste inventário e o diálogo mais
próximo com a nova historiografia da escravidão propomos usar o método de ligação, localizando tais africanos
ocidentais nas cartas de alforrias, assentos eclesiásticos de óbitos, batizados e casamentos, licenças da
Câmara, lançamentos da Casa de Detenção etc. Assim, escapamos de abordagens indicativas mas
generalizantes sobre a economia política dos africanos ocidentais na urbe carioca.
O Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro como parte do projeto educacional de frações da elite carioca:
o progresso e a supressão da mão-de-obra escravizada na indústria
O crescimento industrial/manufatureiro no Rio de Janeiro nos Oitocentos possui como marca a participação
do trabalho escravizado em seu meio, sendo até a década de 1840 majoritário. Porém, na segunda metade do
século XIX, é possível perceber iniciativas da elite carioca que buscavam excluir tal mão de obra no setor
industrial. Uma vertente dessas iniciativas é o ensino de ofícios para libertos e livres. O presente trabalho
apresenta o caso do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro enquanto parte desse processo. O educandário
é proposto em 1856 (sendo fundado dois anos após) possuindo como norte o progresso da civilização e
melhoramento da indústria, a partir da formação de um operariado nos moldes que a França e Inglaterra
propunham. As questões aqui levantadas são: como está incutida nas noções de progresso industrial e
civilizacional do Brasil a ideia de superação não só da escravidão, mas da mão de obra escravizada e negra, a
qual é vista como atrasada e incivilizada; e como o Liceu de Artes e Ofícios é entendido, por frações dessa elite
econômica e intelectual, como ferramenta de superação desse “atraso” brasileiro. A pesquisa foi realizada a
Apoio:
partir da análise do discurso de Francisco Joaquim Bethencourt da Silva, de 1856 e transcrito em 1858 na revista
Brazil Artístico, a qual tinha como mantenedora a Sociedade Propagadora de Bellas Artes, instituição que
também mantinha o Liceu de Artes e Ofícios. Esse discurso é entendido enquanto primeira proposição pública
da criação do educandário. Busca-se com esse trabalho contribuir na continuada demolição do muro
historiográfico entre Mundos do Trabalho e Escravidão, entendendo a participação fundamental da escravidão
urbana no desenvolvimento industrial da capital imperial e os interesses e entendimentos que levaram a elite
carioca a apoiar iniciativas para suprimir o trabalho escravizado.
Samuel Silva Rodrigues de Oliveira (Centro de Educação Federal Tecnológica Celso Suckow)
As escolas e o ensino técnico-industrial foram objeto de disputa na industrialização brasileira e nos projetos
nacionais constituídos entre 1930 e 1970. Formar uma "juventude sadia e especializada" foi um projeto
tencionado no Estado Novo, nos planos desenvolvimentista entre 1945 e 1964 e na ditadura civil-militar
brasileira. A profusão de legislações específicas para o tema, o debate entre pedagogos-engenheiros, classe
empresarial, sindicatos de trabalhadores e associações estudantis, e as várias mudanças elaboradas na
definição do que seria o ensino industrial constitui um ponto de discussão pouco visitado na história social do
trabalho. A bibliografia clássica sobre o tema foi estruturada pelos debates da História da Educação, muitas
vezes sem observar os vínculos com os mundos do trabalho. Por outro lado, a história social da classe operária
tem priorizado a compreensão da instalação das fábricas e os sindicatos, sem perceber a maneira como o 222
espaço e a cultura escolar do período vinculava-se a formação da classe trabalhadora brasileira, em suas
intersecções de classe, raça, gênero e sexualidade. A pesquisa se inspira nas análises de Bárbara Weinstein,
em "(Re)formação da classe trabalhadora no Brasil", e participa dos debates recentes para ampliação da
percepção dos mundos do trabalho na contemporaneidade.
O sindicalista e o sindicato: A luta pela educação na Baixada Fluminense na trajetória do professor José
Floriano Oliveira
O projeto de pesquisa intitulado O Sindicalista e o Sindicato: A Luta pela Educação na Baixada Fluminense na
Trajetória do Professor José Floriano Oliveira tem como objeto a trajetória do Sindicato dos Professores da
Baixada Fluminense (SINPRO/Baixada) e de um dos integrantes dos quadros dirigentes, o professor José
Floriano Oliveira, inseridas na participação democrática por políticas públicas voltadas para a educação nos
municípios da região da Baixada Fluminense. O professor de História José Floriano Oliveira, que participou
ativamente dos quadros sindicais do SINPRO/Baixada, assim como das reuniões e congressos das entidades
filiadas, é estudado enquanto um intelectual orgânico (SANTOS, 2011, p. 23) defendendo modelos de gestão
democrática em ambiente escolar dos estabelecimentos de ensino privados da periferia. O foco desta
pesquisa será delimitada temporalmente à participação de José Floriano na entidade, que ocupou diversos
cargos e construiu até o fim de sua vida o Sindicado dos Professores da Baixada Fluminense, à partir do final da
década de 80, e sua trajetória de atuação na região – já atendendo todos os municípios da Baixada - até o
período de sua aposentadoria no ano de 2010. Nesse contexto de efervescência sindical, novos projetos de
modelos econômicos do Brasil e modelos educacionais surgem, enquanto o país enfrenta o processos ainda
recentes de redemocratização após o fim institucional da Ditadura Militar. Assim, se inserem em um processo
marcado por diversas disputas políticas-ideológicas de projetos de um novo Brasil a criação do Partido dos
Trabalhadores (PT), tentativas de criação de uma unidade sindical , e uma movimentação dos trabalhadores
para criar mais federações e confederações sindicais (TRAJANO, 2018). A partir desta baliza temporal, a
Apoio:
pesquisa investiga a construção política feita pela entidade SINPRO/Baixada, interpretada enquanto
movimento de trabalhadores da educação organizados para lutarem pela categoria numa região preterida
social e politicamente. Desse modo, a partir de fontes históricas do professor José Floriano Oliveira, um homem
negro, de origem igualmente periférica, morador da Baixada Fluminense, sua figura é interpretada enquanto
agente político do SINPRO/Baixada e um intelectual orgânico, que fez parte da movimentação das estruturas e
disputas com seus pares novos rumos de políticas de educação democrática, no debate de algumas categorias
de análises da história sindical da redemocratização do país.
O trabalho analisa a questão das crianças negras abandonadas no Brasil, durante a Primeira República, e sua
racialização dessa categoria social. Considera a formação do capitalismo brasileiro e suas relações com a
estrutura escravista e o projeto nacional racista, bem como as transformações das instituições que cuidaram
da infância abandonada no final do século XIX e pós-abolição. Um dos marcos mais importantes para esse
processo foi o Código de Menores e os debates que transcorreram em sua promulgação na
década de 1920. Esses debates serão analisados, através de notícias dos jornais A Noite e Correio da Manhã
no período de 1925 à 1927.
223
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 29
O estudo do Rural no Brasil: História, democracia, igualdade e
diversidade
Coordenação:
Marina Monteiro Machado (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Pedro Parga Rodrigues
(SME-RJ), Marcus Dezemone (Universidade Federal Fluminense)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Poder, sesmarias e conflitos em Tauá (fins do século XVIII e primeiras décadas do século XIX)
Localizada no norte do Ceará, a cidade de Tauá foi elevada à categoria de vila em 3 de maio de 1802, com o
nome com que é conhecida até os nossos dias. A região, no entanto, era denominada São João do Príncipe, em
homenagem ao regente. Ela foi ocupada ao longo do século XVIII por alguns potentados cearenses, com
destaque para a parentela dos “Feitosas”, grupo familiar que dominou grande parte do território daquela região.
Ao ocupar as terras às margens dos diversos rios e riachos da localidade, os Feitosas controlaram a região e se
tornaram um emblema da violência e da força política daqueles potentados ao longo de todo o século XVIII. A
224
presente proposta revisita a bibliografia produzida sobre a parentela dos Feitosas, as sesmarias concedidas
naquele lugar, entre os fins do século XVIII e nas primeiras décadas do oitocentos. Objetiva-se aqui apresentar
os primeiros resultados da presente pesquisa, a partir de quatro elementos centrais: as querelas e a marcante
violência que estão na base dos pedidos de solicitação de sesmarias, as distintas leituras sobre quais foram e
onde estão localizadas as concessões, o complexo contexto histórico e as estratégias por eles utilizadas para
se permanecerem como grandes senhores de terras em áreas ribeiras aos vários rios existentes na região.
Direitos de propriedades e ocupação territorial em disputa: sesmarias nos Campos dos Goytacazes
(1785-1802)
A proposta visa esquadrinhar o processo de ocupação territorial do interior do atual estado do Rio de Janeiro, a partir da
expansão de suas fronteiras internas ao longo do processo de colonização das terras. O foco recai sobre a região Norte
Fluminense, hoje conhecida como Campos dos Goytacazes, e tem como fio condutor a ocupação colonial das terras
destinadas ao aldeamento dos índios Guarulhos entre os anos 1785 e 1802. O recorte se dá sobre uma conjuntura
específica, quando três diferentes indivíduos solicitam concessões de terras na área do antigo Aldeamento de Santo
Antônio de Guarulhos: Jerônimo Pinto Neto, Antônio Joaquim Coelho Coutinho e João Manuel Pinto de Magalhães.
Separados não apenas pela distância física entre si, mas, também, por suas trajetórias, três pretensos sesmeiros
recebem Cartas de Sesmarias, porém, cada qual vivenciaria uma realidade no processo de confirmação das terras. O
recorte tem por objetivo contemplar a construção e a desconstrução do aldeamento de Santo Antônio de Guarulhos,
bem como as estratégias coloniais de apropriação dessas terras, baseando-se em discursos sobre a proteção dos
direitos indigenistas e os interesses diretos nas férteis terras circunscritas ao aldeamento. Ao direcionar a reflexão sobre
as terras presumivelmente pertencentes aos grupos indígenas a partir da política de aldeamentos, abordaremos
diferentes conjunturas, para demonstrar como mesclavam-se distintos direitos de propriedade territorial e múltiplos
interesses entre os grupos envolvidos. A pesquisa se propõe a dar conta da ocupação por indígenas e não indígenas,
sempre sob a legitimidade, ou mesmo ilegitimidade, da legislação lusa. Na prática, assistia-se à disputa pelo direito à
Apoio:
terra, marcada pela fertilidade dessas áreas e pelo poder dos grupos ali estabelecidos e com suas diferentes
concepções de propriedade. O recorte proposto permite atravessar uma conjuntura rica, na qual novos aldeamentos
foram fundados, ao mesmo tempo que o acesso às terras da antiga aldeia era questionado na justiça por diferentes
atores sociais. Em meio aos interesses impressos na expansão das fronteiras, assistiu-se a intensa disputa judicial pelo
direito aos vencimentos dos foros das terras antes ocupadas pelos Guarulhos, envolvendo moradores — sesmeiros ou
não — que disputavam os direitos de propriedade sobre as referidas terras.
O poder da viuvez feminina nos requerimentos de sesmarias no Rio de Janeiro colonial (1751-1805)
O presente trabalho se propõe a investigar o processo de ocupação de terras na capitania de São Sebastião do
Rio de Janeiro a partir da análise de petições sesmarias por mulheres frente ao falecimento de seus maridos. A
proposta apresentada desdobra-se da minha atuação no projeto Terras da Antiga Aldeia: expansão de fronteiras
e direitos de propriedade em Campos dos Goytacazes (1700–1830) da historiadora Marina Monteiro Machado.
A pesquisa se inspira ainda em minha participação junto a Plataforma SILB, Sesmaria do Império Luso-
Brasileiro, idealizado e coordenado pela historiadora Carmen Alveal. Circunscrevemos a pesquisa em meados
do setecentos por meio da análise da documentação de sesmarias disponíveis da base de dados do Projeto
Resgate no Arquivo Histórico Ultramarino tendo como perspectiva as inquietações no tocante à concessão de
terras a mulheres, buscando traçar a hipótese da transmissão de terras às viúvas. Verificamos que nos
documentos encontrados e analisados, a solicitação da concessão ou confirmação da terra veio acompanhada 225
da justificativa: eram viúvas, portanto, merecedoras da terra para sustento de sua família, supondo direitos
apenas na ausência da figura masculina. A constatação de vultosas posses na documentação analisada, bem
como o entendimento da demanda de consideráveis gastos para a manutenção, demarcação e solicitação das
mercês, colabora para a hipótese de que tratavam-se de mulheres abastadas. O instituto Sesmarial arquitetou
um mar de encontros e desencontros permeados por distintos e intrigantes sujeitos e seus interesses, não
apenas sesmeiros, mas todos aqueles que acionaram a legislação de Sesmarias, como os posseiros e os
arrendatários. Na documentação trabalhada foi possível perceber a sintonia entre o apossamento de terras e a
solicitação das concessões e confirmações sesmariais por aquelas mulheres, portanto, as requerentes das
sesmarias em questão já possuíam a posse das terras, almejando a oficialização por meio da confirmação do
título de sesmaria. Consideramos a possibilidade dessas solicitações exercerem uma ferramenta de proteção
àquelas viúvas frente a possíveis querelas territoriais. Almejando legitimar e consolidar seus interesses em
contraposição aos de seus adversários, as viúvas perpicazmente questionavam o próprio lugar de mulher na
época moderna. A pesquisa apresentada dedica-se não apenas à História das Mulheres, mas em seu íntimo
diálogo com a História Rural, da Família e das Propriedades. Propomos um encontro das sesmarias e a viuvez,
reconhecendo o protagonismo feminino, objetos ainda pouco estudados, tomados como norte para a análise.
A comunicação foi pensada a partir da minha participação no projeto “Direitos de propriedades e ocupação territorial:
as sesmarias do Rio de Janeiro entre os séculos XVI e XIX” orientado pela Prof. Dra. Marina Monteiro Machado na
Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Construído com base nas cartas de sesmarias que trabalhei no projeto, a
apresentação apoia-se na historiografia especializada, sobretudo nas pesquisas da Prof. Dra. Márcia Motta (UFF) e Prof.
Dra. Carmen Alveal (UFRN). Toda documentação trabalhada colabora na alimentação da Plataforma SILB, projeto criado
pela Prof. Dra. Carmen Alveal, cujo objetivo é levantar todas as cartas de concessões de terras no Brasil, transcrevê-las
com a gramática adequada ao século XXI, e disponibilizá-las de forma democrática e de fácil acesso. Assim, o trabalho
Apoio:
tem por objetivo apresentar o sistema de sesmarias nos processos de ocupação territorial na América Portuguesa e os
conflitos agrários nas áreas disputadas. Esse sistema de repartição fundiária passou a ser implementado em outros
domínios portugueses no processo de colonização, com objetivo voltado para a realidade da área conquistada, após
seu êxito em Portugal em suprimir a crise do século XIV. No entanto, segundo a historiadora Márcia Motta (2009), as
dificuldades encontradas em solo brasileiro se diferem das apresentadas no país ibérico e seria necessário, portanto,
analisá-las em suas particularidades. A partir disso, o presente trabalho busca refletir sobre a importância desse regime
jurídico para a estrutura da propriedade, no sistema de posse e uso da terra, a fim de evidenciar as consequências
sociais, políticas e econômicas desse período.
Dinâmica nos fogos guaratibanos: uma análise sobre a demografia das freguesias rurais do Rio de Janeiro
no final do século XVIII
A semântica da cor e a captura continuada da força de trabalho indígena no Brasil oitocentista: o caso de
José caboclo
A presente pesquisa tem como objetivo, por meio da documentação estudada, analisar a ruptura sistemática
com os registros de indígenas, principalmente a partir do Censo Geral do Império do Brasil, de 1872. Tendo isso
em vista, compreendemos o processo de deslegitimação étnica enquanto um dos elementos constitutivos da
captura continuada da força de trabalho indígena. Desta forma, abordaremos, sobretudo, a engenhosidade
vocabular forjada nos oitocentos para a viabilização dessa prática.
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
A deposição de João Goulart e a questão agrária: historiografia e memória nos 60 anos do golpe
A importância e o lugar da questão agrária nas explicações sobre a deposição de João Goulart em 1964 se alteraram
significativamente ao longo do tempo. De aspecto crucial e decisivo para os contemporâneos, a temática foi perdendo
Apoio:
espaço e destaque com o passar dos anos. Por ocasião das datas cheias - 40, 50 e 60 anos do golpe - a efeméride
estimulou a publicação de diversas obras e balanços que se constituíram nas principais fontes analisadas nesse
trabalho. Contata-se que nos anos 1960 e nas duas primeiras décadas posteriores ao golpe, a questão agrária envolvida
temas como a reforma agrária, a luta pela terra, o combate ao latifúndio, e ainda, na percepção da época, a contenção
do êxodo rural, a ampliação da produção de alimentos e a redução do ritmo de crescimento das cidades, com a
contenção da favelização, da periferização e do inchaço urbano. Essas questões perderam prestígio e até mesmo
chegaram a desaparecer nas considerações de autores de destaque na historiografia nacional nos últimos anos.
Entender as razões para tais mudanças e seus impactos na produção do conhecimento sobre esse episódio da história
recente do país se constituem nos objetivos principais desse trabalho, que revisita pesquisa anterior, produzida em 2016
por ocasião dos 50 anos do golpe. Entende-se que a análise da questão agrária é útil para melhor compreender diversos
aspetos relacionados à crise política, à campanha de desestabilização e à conspiração desenvolvidas contra o governo
Jango, e ainda, lança luz sobre diversas ações adotadas pelo regime instaurado no pós-1964. Tais aspectos têm sua
relevância aumentada quando no século XXI, há por um lado, uma renovação nos estudos sobre o mundo rural e, por
outro lado, a questão agrária dialoga de maneira direta com debates fundamentais para o Brasil contemporâneo, diante
dos extremos climáticos, da questão ambiental e da transição energética, bem como da soberania alimentar, do
tratamento conferido aos povos originários e dos graves problemas que acometem as grandes metrópoles brasileiras.
A "cubanização" do Brasil e o mundo rural: a crise do governo Goulart (1961-1964) na imprensa carioca
A pesquisa discutiu o papel de parte da imprensa carioca na campanha de desestabilização e na conspiração que
contribuíram com a deposição do governo João Goulart (1961-1964). Para isso, se concentra nas representações sobre
a noção de "cubanização" do Brasil e a sua relação com o mundo rural, a partir da análise de temas como as Ligas
Camponesas e as visões sobre a região Nordeste. Tal discurso serviu para desqualificar movimentos sociais no campo
e foi utilizado para legitimar o golpe de 1964. Essa narrativa foi construída intencionalmente. Em um primeiro momento,
a imagem do Nordeste na imprensa , muitas vezes, foi associado à fome e a miséria e, sendo assim, um campo fértil para
subversão. Em seguida, os periódicos elencavam os agentes da cubanização e as instituições que outrora haviam sido
corrompidas. Por fim, chegavam ao ponto principal: a demonização dos movimentos sociais como, por exemplo, as
Ligas Camponesas e a necessidade de evitar que o Brasil virasse uma “nova Cuba”.
Apoio:
A atuação de policiais e delegados na grilagem de terras do Sertão Carioca (1945-1985)
Na segunda metade do século XX, no conhecido Sertão Carioca, policiais prestavam apoio a grileiros locais, servindo
a estes como capangas. Esses policiais eram violentos e podiam matar posseiros que estivessem no caminho desses
grileiros. No entanto, é complexo analisar a mentalidade dos policiais e os interesses que cercavam os homens da
lei, fazendo-nos questionar por que eles aceitavam realizar esses serviços. O que esses policiais ganhavam com
isso? O monopólio da violência seria um fator preponderante na atuação na venda de seus serviços aos interesses
criminosos dos grileiros de terra? O que esses homens ganhavam em troca? Também devemos observar que nem
todos os policiais concordavam com esse tipo de atitude, e alguns até mesmo acabavam pagando com a vida pela
afronta. Pretendo analisar a atuação de tais policiais e compreender como se dava a dinâmica de trocas de favores e
atuações ilegais, assim como a resistência e o enfrentamento de alguns policiais contra os interesses dos grileiros na
região de Guaratiba e Campo Grande no Rio de Janeiro.
“Então se denegará mais tempo”: a postergação dos prazos de medição no Império como uma
mentalidade possessória
Trata-se de identificar na aplicação da Lei de Terras de 1850 pelos agentes da Diretoria da Agricultura algumas 228
continuidades com relação ao regime de sesmarias. Apontaremos como a prática oitocentista de adiar os
prazos dedicados para a medição e demarcação das terras devolutas compradas trazia em seu bojo
continuidades com relação à previsão de “denegar mais tempo” existentes em cartas de concessão de
sesmarias. Com isto, pretendemos inserir a aplicação da norma de 1850 em um processo mais amplo de
afirmação da propriedade individual, rompendo, de um lado, com a interpretação segundo a qual a legislação
agrária teria sido totalmente vetada pelos barões e, de outro, com a transformação deste dispositivo jurídico
em um ídolo das origens da propriedade privada. Neste sentido, concordando com Márcio Both, pretendemos
que a lei de1850 faça parte de um processo mais amplo de afirmação de propriedade, iniciado antes de sua
promulgação e não encerrado no Império.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 30
Paisagem, memória e diversidade nas cidades fluminenses:
entre o patrimônio de pedra e cal, material e o intangível,
imaterial de indígenas, quilombolas e imigrantes que
conformam nossa paisagem cultural
Coordenação:
Andréa Casa Nova Maia (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Luciene Pereira Carris
Cardoso (UERJ), Cesar de Miranda e Lemos (Instituto de História da Universidade Federal do Rio
de Janeiro)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
O território do Litoral Sul Fluminense no Rio de Janeiro foi descrito em documentos de época como um lugar 229
tranquilo, onde vivia uma população remanescente quilombola, os povos originários e pequenos agricultores.
Na década de 1970, o poder público intensifica de forma agressiva projetos de modernização e urbanização
idealizados para a região desde a década de 1950. A construção da Rio-Santos, teria cortado o território e a
“vida das pessoas”. Despertando na população local o impacto da diferença em relação ao poder constituído
e seus projetos modernizantes e aos diferentes sujeitos sociais que foram atraídos para a região com interesses
diversos. Os relatos orais, reunidos em um conjunto de entrevistas atribuiu à atuação da Igreja católica, através
da Diocese de Itaguaí, composta pelos municípios de Angra do Reis, Itaguaí, Mangaratiba, Parati e Seropédica,
a permanência de trabalhadores (lavradores, posseiros, pescadores, remanescentes quilombolas e indígenas)
na região. Os embates sociais e políticos possibilitaram tecer redes de significados conjugando tradição e
modernidade de uma experiência religiosa. Examinamos para a pesquisa a documentação arquivada na Cúria
Diocesana de Itaguaí produzida por agentes de pastorais (impressos, manuscritos, cartas, cartazes,
fotografias) associados à preservação da memória. O objetivo desse artigo é problematizar a rede de
significados através do registro da experiência desses sujeitos sociais nos documentos do Arquivo no Centro
de Memória da Diocese. O propósito é descortinar os referências simbólicos de movimentos e lutas sociais
pelo território fundamentados em uma vivencia religiosa que foram interpretados como patrimônio cultural
através de pesquisa realizada no âmbito de uma História vista de baixo, em especial, privilegiando negros,
índios e mulheres. A documentação compreende o período do regime civil-militar e o processo de
redemocratização do Brasil entre as décadas de 1970 e 1990.
Parnasianismo Urbano: A intervenção urbana na Praça Vieira Neto Parque Uruguaiana (Saracuruna)
Duque de Caxias - RJ e o papel político da comunidade
Para muitas pessoas, pensar em cidade evoca imaginar, em primeira instância, o conjunto arquitetônico que a
compõe. Os prédios, as casas, as ruas e as praças são exemplos de abstrações que surgem à mente quando
pensamos nas cidades. Apesar disso, constantemente somos tomados por disputas relacionadas à interação
que temos entre a sociedade e os elementos que compõem o meio urbano. A partir deste pensamento, surge
Apoio:
a presente pesquisa, que busca analisar o papel da sociedade perante os processos de intervenções na cidade.
Como rebatimento, foi selecionado o caso da destruição e reconstrução da praça Vieira Neto, localizada no
Bairro de Saracuruna, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Para a presente análise, foi realizada uma
relação entre o Parnasianismo, o pensamento positivista e as intervenções urbanas ocorridas no Rio de Janeiro
no início do século XX. A principal questão esboçada orbita na reflexão acerca do papel da população local
perante tais processos. As contribuições de Henri Lefebvre acerca do direito às cidades e o processo de
urbanização voltado à reprodução do capital foram essenciais para este trabalho, evidenciando a permanência
desta lógica ainda nos dias atuais. Dentro do pensamento geográfico, o conceito de paisagem se manifesta
como estratégia para encarar as intencionalidades presentes na intervenção no substrato material da cidade.
A partir do pensamento proposto por Souza, a paisagem poderia evidenciar ou ocultar a realidade de
determinadas localidades a fim de atender interesses que nem sempre vão ao encontro daqueles da
população. Como estratégia para compreender a opinião da população acerca da intervenção, foram
realizadas entrevistas com os frequentadores da Praça Vieira Neto. Ao longo das pesquisas, ficou evidenciado
que a intervenção na praça, apesar de ter trazido pontos positivos à localidade, intensificou outros pontos
negativos. Alguns exemplos foram a retirada dos quiosques que havia, a presença de vendedores informais nas
calçadas que orbitam a praça e, principalmente, a ausência da participação popular no planejamento da
intervenção na praça. Deste modo, o presente trabalho também surge como estratégia e ferramenta para
futuros pesquisadores que buscam se debruçar acerca dos dilemas da Baixada Fluminense, em especial de
Duque de Caxias. Até então, não existem trabalhos acadêmicos dedicados a abordar questões do Bairro de
Saracuruna. Ainda há poucos dados acerca dos bairros do município, um cenário que está em transformação,
tendo em vista o impacto empoderador das universidades públicas na Baixada Fluminense.
230
O primeiro prédio administrativo do Porto de Niterói em seus diferentes usos e apropriações
Essa pesquisa tem como objeto de estudo o primeiro prédio administrativo, erguido na cidade de Niterói (RJ) e construído
para abrigar repartições da administração estadual fluminense, na ocasião em que a cidade foi capital do estado do Rio
de Janeiro. Inicialmente funcionou no espaço do prédio o Instituto de Fomento à Economia Agrícola do Estado do Rio de
Janeiro (IFEA-RJ), que foi fundado em agosto de 1926, pelo chefe do executivo local Feliciano Pires de Abreu Sodré para
a política da defesa cafeicultura. Os governos estaduais ficaram responsáveis por esta instituição que funcionou até
1931 quando foi extinta. É, então, inaugurada a Secretaria de Fomento Agricultura e Trabalho. Até o ano de 2015, quando
o prédio foi completamente desocupado pelos órgãos públicos, outras secretarias administrativas do Estado fizeram
uso desse espaço, mas não há registros de alguns destes usos no processo de patrimonialização municipal. Desde que
deixou de ser ocupado por repartições públicas, o edifício histórico ficou exposto à deterioração, mesmo tendo sido
reconhecido como bem cultural pelo tombamento em nível municipal em 1994. Assim, o estudo da biografia do edifício
histórico, em suas três fases de vida – apogeu, uso e desuso – deixa em evidência o processo de afirmação do prédio
como bem cultural relevante no quadro geral do patrimônio cultural da cidade de Niterói. A análise a ser desenvolvida
nesta pesquisa se apóia no uso do conceito de patrimônio fantasma , proposto pela historiadora Márcia Motta para
definir e identificar bens de patrimônio cultural material, que se encontram esquecidos pelo poder público, que
deterioraram por destruição provocada pelo tempo, ou que foram demolidos, substituídos ou se encontram em ruínas.
Para reforçar essa perspectiva dialoga-se com o estudo de Arquitetura Evanescente proposto por Fernando Atique
(2019) , em sua obra que se volta para o estudo de importantes prédios que desapareceram na cidade do Rio de Janeiro
como o Solar Monjope, construído em 1920, no Jardim Botânico e, ainda, o Palácio Monroe, erguido na Cinelândia, em
1904, no Centro do Rio. Essa condição vincula-se aos vários bens culturais, na região do Centro da cidade de Niterói, e
é dentre estes que se encontra o primeiro prédio da cidade, localizado na principal avenida da época, a Jansen de Melo,
nº3, no bairro de São Lourenço A edificação em questão não desapareceu, ainda está de pé, mas se encontra em total
estado de abandono, desde o seu esvaziamento em dezembro de 2015.
Apoio:
Zonas de paisagens: o imaginário da prostituição no Rio de Janeiro
A abordagem do trabalho diz respeito sobre uma documentação fotográfica custodiada pelo Arquivo Público
do Estado do Rio de Janeiro (APERJ). Nele, especificamente, um conjunto de imagens da demolição na Zona do
Mangue, ocorrida em função da construção do Metrô e das reformas na região, entre os bairros do Estácio e
Cidade Nova no ano de 1976. A partir disto, o objetivo é trazer o debate sobre a representação visual em torno
da prostituição naquele período se baseando na percepção da paisagem da região, não apenas pela ação do
Estado, mas também pela manutenção e construção de espaços geográficos e culturais do sexo em uma
cidade. Sendo a “paisagem um constructo da imaginação”, nada mais interessante que tratar desses locais de
prostituição estabelecidos entre muros, prédios, becos ou mesmo nas ruas, mas que estão sempre lá, dentro
de uma lógica do comércio do sexo, fazendo parte do imaginário, e assim, na constituição de uma memória,
não apenas em uma perspectiva sexual, mas da formação de uma cultura na urbe, conectando outras fontes,
como poemas, crônicas e romances que reconstroem uma paisagem que é imagem.
Nesta apresentação, vamos analisar como a imagem dos chineses foi construída no Rio de Janeiro durante o 231
século XIX e início do século XX por meio das observações de viajantes estrangeiros e escritores brasileiros
como Johan Baptiste Von Spix, Karl Friedrich Philipp von Martius, Johann Rugendas, Maria Graham, John
Luccock, Ernest Ebel, Carlos Taunay, Machado de Assis e João do Rio. Discutimos como estes cronistas e
viajantes contribuíram para a formação de um imaginário que frequentemente retratava os chineses de maneira
estereotipada e pejorativa, oscilando entre imagens de exotismo e acusações de serem dependentes de ópio,
bárbaros e preguiçosos. Abordamos também o papel da Revista Illustrada na disseminação dessas visões
estigmatizadas. Em contraste com o ideal brasileiro de civilização e progresso, que se alinhava a valores
europeus, brancos, católicos e civilizados, estas representações representavam um conflito. A análise se
insere no contexto dos estudos pós-coloniais, destacando a dinâmica de poder que coloca o Oriente como
irracional frente a um Ocidente racional e virtuoso, conforme discutido por Edward Said em seu trabalho sobre
Orientalismo.
Paisagens fluminenses nas Revistas Ilustradas "Eu sei Tudo" (Brasil) e "Je sais Tout" (França): patrimônio,
imagens e imaginário na primeira metade do século XX
A proposta é discutir alguns dispositivos, sobretudo imagens, mas também textos, reportagens de uma revista
ilustrada brasileira, A Eu sei tudo, que circulou entre os anos de 1917 a 1958. Conhecida como “Magazine
mensal illustrado”, seu conteúdo era de cunho científico, literário, artístico e histórico. Vendida em todo país,
inclusive no exterior. Vamos passar as páginas do magazine procurando nos ater aos momentos em que há
divulgação do patrimônio fluminense, em especial quando se apresentam as paisagens do Rio de Janeiro, em
sintonia com o ideário do momento de construção de uma determinada proposta "civilizatória". Para esta
apresentação, vamos nos ater às imagens do Rio de Janeiro, capital e interior, que contam essa história e
constroem um imaginário de um Rio de Janeiro cujas cidades estão em sintonia com os processos de
modernização pós revolução cientifico-tecnológica mundial. Mas também procuraremos mostrar qual Brasil,
qual Rio de Janeiro era apresentado na revista francesa de mesmo nome que foi a inspiração para a criação da
Apoio:
revista brasileira. As reflexões terão como referência teorico-metodologica os trabalhos de Tânia de Luca, Roger
Chartier, Vera Casa Nova, Walter Benjamin e Georges Didi-Huberman ao pensar os impressos, a imagem e as
representações, bem como a montagem.
Luzimar Soares Bernardo (EACH - USP), Marcelo Vilela de Almeida (Escola de Artes, Ciências e Humanidades)
A comunicação discute as dinâmicas sociais e disputas pelo uso do espaço no Posto Seis, localizado na
extremidade da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Este local serve como ponto de trabalho e lazer para
uma variedade de usuários, incluindo pescadores, vendedores ambulantes, esportistas e turistas. Utilizando
uma abordagem interdisciplinar, inspirada por Antonio Carlos Robert Moraes, buscamos entender as
complexas relações de pertencimento, uso e conflito nesta área icônica. A pesquisa também reflete sobre os
processos históricos de silenciamento e exclusão no Brasil, desde a colonização, que negou e dizimou
populações nativas, até as práticas contemporâneas de gestão de espaços públicos como as praias urbanas.
A legislação, como a Lei Nº 7.661 de 1988, prescreve o acesso livre às praias, mas observamos que, na prática,
há uma regulamentação que muitas vezes restringe esse acesso, favorecendo determinados grupos sociais e
econômicos. No Posto Seis, especificamente, o estudo identifica uma forma de "privatização" do espaço
público, exemplificada por estruturas como redes de vôlei e quiosques comerciais que limitam o acesso geral.
Essa configuração não apenas reflete as desigualdades sociais, mas também levanta questões sobre a eficácia
das políticas públicas em garantir um uso equitativo do espaço urbano. Desse modo, a análise oferece uma 232
visão crítica sobre como os espaços públicos são negociados e ocupados, desafiando a noção de que as
praias, como espaços democráticos, são acessíveis a todos de maneira uniforme. O estudo sobre o Posto Seis
revela as camadas de exclusão e as lutas cotidianas dos trabalhadores que dependem desse espaço para sua
sobrevivência e cultura, proporcionando uma compreensão mais profunda das interações sociais em áreas
urbanas costeiras.
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 31
Patrimônio, Preservação, Ações Educativas e
Ensino de História
Coordenação:
Tania Maria da Silva Amaro de Almeida (Colégio Estadual Professor José de Souza Herdy)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Imaginária Colonial Duquecaxiense: Análises Físico-Químicas nas Esculturas de Rei Davi e Betsabá
A proposta desta apresentação é expor a origem, periodização, materiais construtivos, características sociais,
233
estilísticas e iconográficas, a partir de pesquisas científicas e laboratoriais realizadas nas esculturas do Rei
Davi e uma de suas rainhas consortes, Betsabá, pertencente ao acervo da Igreja de Nossa Senhora do Pilar,
localizada no bairro do Pilar, no hoje município de Duque de Caxias (RJ). As esculturas decoravam o
coroamento do retábulo-mor da Igreja, haviam sido furtadas em 1974 e seguiram destinos diferentes, ficando
desaparecidas por mais de quatro décadas, até serem localizadas em acervos de colecionadores em 2015 e
devolvidas à Diocese de Duque de Caxias entre 2020 e 2021. A pesquisa se propõe a descrever os bens
integrados e a imaginária por meio dos métodos ligados à historiografia, tendo como base a própria iconografia
e a análise científica realizada nas esculturas retabulares do Rei Davi e da Rainha Betsabá. Procuramos, com
isso, identificar as semelhanças e diferenças, a fim de compreender as informações nelas contidas, como a
época de produção da obra em questão, objetivando entender como se deu a presença da arte sacra colonial
no território que hoje compreende o município de Duque de Caxias (RJ). Por fim, ressaltaremos a importância
do resgate da memória e da preservação do patrimônio histórico e cultural do município de Duque de Caxias.
O Município de Magé, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, foi criado em 1789, mas a ocupação humana
de seu território remonta às comunidades sambaquieiras, há mais de cinco mil anos. A construção do
Patrimônio Cultural de Magé decorre do processo de patrimonialização de seus bens culturais pelo Poder
Público, nos últimos 70 anos. Com o presente artigo, objetivamos analisar o papel do Instituto Estadual do
Patrimônio Cultural - INEPAC na proteção e promoção dos bens culturais de Magé. Para a pesquisa, de caráter
exploratório e natureza qualitativa, recorremos a documentos oficiais, produzidos pelo INEPAC ou sob a sua
orientação, a exemplo do "Inventário dos Bens Culturais do Município de Magé" (1984) e do "Guia dos Bens
Tombados pelo Estado do Rio de Janeiro" (2012). Os resultados apontaram para a importância dos inventários
e dos tombamentos pelo órgão estadual de patrimônio, já que, até os anos 1980, o Município de Magé contava
Apoio:
com um único bem tombado, o Trecho Ferroviário Mauá-Fragoso, tombamento realizado, em 1954, pelo
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN. O uso da metodologia da Educação Patrimonial,
sob a orientação dos técnicos do INEPAC, tem potencial para estimular relações de afetividade e de
pertencimento, bem como para a elaboração de um Inventário Participativo, o que seria uma experiência nova
ao garantir o protagonismo da comunidade mageense na identificação de suas referências culturais. Mas, não
bastam novos inventários, é preciso que o INEPAC dê continuidade à política de preservação, com novos
tombamentos, já que o último ocorreu em 2005.
As disputas de narrativas fazem parte desde os tempos imemoriais da humanidade na busca pelo poder. Hoje,
mais do que nunca, seguem acirradas e ainda superdimensionadas, como efeito da globalização. Isso resulta,
em grande parte, na homogeneização da cultura e na colonização do conhecimento. O objetivo do presente
trabalho é trazer à luz a importância da educação para o patrimônio desde a infância, observando o princípio
de democratização do acesso à cultura e a preservação da multiculturalidade de nosso país. Sabemos que o
direito à saúde e à educação são percebidos pela população brasileira em geral, que se articula para lutar
quando estes serviços não são atendidos minimamente: o que não faltam são denúncias, manifestações e
mobilizações quando um posto de saúde ou uma escola são fechados, ou não funcionam a contento. No
entanto, o direito constitucional à cultura ainda não é compreendido da mesma forma, resultando muitas vezes 234
em uma aculturação desenfreada. Sob esse prima, as pesquisas efetuadas compõem a escrita que desejamos
dar a conhecer no presente simpósio sobre a atual dinâmica do Ministério da Cultura, recém recriado pelo
Governo Federal, e sua atuação para pautar um mecanismo perene de patrimonialização e não só sob o
aspecto material, mas abarcando o imaterial (saberes e fazeres; celebrações; formas de expressão cênicas,
plásticas, musicais ou lúdicas; e lugares como mercados, feiras e santuários que abrigam práticas culturais
coletivas) e o natural. Deste conhecimento decorre o que a educação patrimonial tem a oferecer na construção
das futuras gerações.
Vivemos um tempo em que nossos alunos têm uma quantidade enorme de estímulos promovidos pela
tecnologia, o que pode ser um problema para o professor que, em sala de aula, pode ter dificuldade para manter
a atenção de seu corpo discente, principalmente se o professor não dispuser de muitos recursos tecnológicos
que possam ser usados em sala de aula. Por essa razão, os conteúdos a serem ensinados precisam ser
apresentados de forma atraente, de modo que a atenção do aluno deva ser mantida durante a aula. Como
muitos alunos infelizmente não têm o hábito de ler, podemos experimentar alguma dificuldade em estimulá-
los a aprender, principalmente o conteúdo das disciplinas de Literatura e História, que costumam demandar
uma maior atenção, no que se refere à leitura. No entanto, é possível unir essas duas disciplinas, no sentido de
que uma possa vir a complementar a outra, uma vez que acreditamos que todo texto literário é sempre melhor
entendido se conhecermos o contexto histórico da época em que ele tenha sido elaborado, ou fazendo
referência à época que ele esteja retratando, e isso pode ser conseguido em sala de aula através de discussões
e reflexões feitas com base no que é lido na disciplina de Literatura e o que é estudado em História. Este
trabalho visa fazer uma breve reflexão sobre nossa prática docente interdisciplinar no ensino de Literatura, a
qual sempre mostra aos alunos como pode ser mais interessante ler obras literárias, levando em consideração
todas as implicações históricas que nela podem estar retratadas, através de situações e personagens, que
Apoio:
podem nos fazer imaginar a forma como fatos históricos aconteceram, tornando-os mais vivos e realistas em
nosso imaginário. Isso pode ser conseguido por meio de discussões, reflexões e a apresentação de vídeos que
podem explicar o assunto que esteja sendo estudado. Tomamos como exemplo a obra Romanceiro da
Inconfidência, de Cecília Meireles, uma joia de nossa literatura, a qual é riquíssima em relação à narração de
um contexto histórico brasileiro, repleto de fatos advindos do grande fluxo migratório ocorrido em Minas Gerais,
devido à atividade de mineração, o qual pode ser abordado conjuntamente, nas aulas dessas duas disciplinas,
fazendo com que os alunos compreendam como uma pode vir a complementar a outra, devido a seu caráter
interdisciplinar na forma de condução das aulas. O aluno tem, dessa forma, a oportunidade de fazer pontes
entre essas duas áreas distintas de conhecimento e constatarem que ambas podem ser estudadas em
conjunto para que haja um melhor e maior entendimento sobre seus conteúdos.
Patrimônio Cultural, Preservação e Memória: o caso do Instituto Histórico da Câmara Municipal de Duque
de Caxias
Tania Maria da Silva Amaro de Almeida (Colégio Estadual Professor José de Souza Herdy)
“Trabalhar com memória é tornar vivo o que já aconteceu.” Ao seguir o indicativo da Política de Segurança para
Arquivos, Bibliotecas e Museus, implementada na cartilha do Museu de Astronomia e Ciências Afins e Museu
Villa-Lobos, o Instituto Histórico da Câmara Municipal de Duque de Caxias vem realizando atividades de
preservação com seu acervo desde o início dos anos 2000. O objetivo maior de salvaguardar fotografias,
documentos e objetos que, atualmente, somam em torno de setenta mil itens documentais, é o de recuperar a 235
sua memória institucional e fomentar os estudos por meio das fontes documentais e orais, possibilitando à
comunidade científica a pesquisa sobre a história, memória e identidades da Baixada Fluminense. Fundado no
ano de 1973, o IHCMDC tem se destacado na guarda do acervo histórico de Duque de Caxias e da Baixada
Fluminense, constituído por fontes de estudo obrigatórias para muitos pesquisadores. As atividades de
preservação são realizadas por meio de ações integradas de conservação e processamento técnico do acervo,
visando os processos de higienização e a catalogação mais precisa das fontes, para atender as demandas das
pesquisas locais e regionais. Na proposta de revitalização do IHCMDC, foi criada a Associação dos Amigos no
ano de 2001, com o objetivo de incentivar uma maior participação dos setores organizados da sociedade e,
consequentemente, promover uma maior divulgação do órgão. Entidade sem fins lucrativos, a Associação dos
Amigos do Instituto Histórico (ASAMIH) reforça no seu estatuto, o estabelecimento de intercâmbio com outras
associações e entidades afins e o incentivo à integração cultural com a comunidade. Em parceria com a
ASAMIH, o Instituto Histórico da CMDC publica, desde 2002, a Revista Pilares da História, instrumento de
divulgação da história e cultura de Duque de Caxias e da região da Baixada Fluminense. Com ações
diversificadas, o IHCMDC busca dialogar com a educação e incentivar novas gerações a compreender que o
estudo do patrimônio vincula-se a construção de uma cidadania participativa.
Ana Paula Cavalcante Lira do Nascimento (Colégio Brigadeiro Newton Braga), Jacqueline de Cassia Pinheiro
Lima (UNESA)
Este trabalho apresenta o resultado de uma pesquisa qualiquantitava realizada na Baixada Fluminense cujo
foco é a análise das variáveis que produzem a categoria não-público em Duque de Caxias a partir da relação
entre os sujeitos e os patrimônios culturais dessa cidade. Em nosso recorte de pesquisa optamos por duas
instituições que demonstram uma atitude proativa de diálogo com a população da cidade de Duque de
Caxias/RJ: Biblioteca Municipal Leonel de Moura Brizola (BMLMB) e o Instituto Histórico Vereador Thomé
Siqueira (IHCMDC). O objetivo principal foi identificar o perfil socioeconômico e cultural desses sujeitos além
Apoio:
de realizar uma análise a partir dos motivos apresentados pelos participantes que provocam um
distanciamento entre eles e os patrimônios da cidade. Optamos por abordar o tema do patrimônio cultural na
Baixada Fluminense a partir da perspectiva da interdisciplinariedade visto que nenhum campo isolado
apresenta condições de assumir a totalidade das discussões sobre esse conceito (CHUVA, 2012). Portanto, ele
foi contextualizado a partir do viés histórico e da sua interrelação com outras áreas do conhecimento, tais
como: Museologia, Educação, Sociologia Urbana, entre outros. Além disso, adentramos nas relações sociais e
políticas que produzem um desencontro entre esses dois núcleos: patrimônio e público. A análise dos dados
obtidos nessa pesquisa contribui: no alargamento das discussões sobre ensino não formal no Brasil, na
demanda de estudos de público e, principalmente, no fornecimento de indicadores de acesso cultural da
população duquecaxiense necessárias e úteis no planejamento de políticas públicas municipais na área de
cultura dessa cidade.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
O presente trabalho pretende abordar a importância de utilizar o inventário participativo no ensino de História 236
a partir da curricularização da extensão. Tendo em vista um movimento de aproximação, democratização e
produção de (outros e novos) conhecimentos através da curricularização da extensão enquanto uma ação de
transformação social, da formação docente sob uma concepção humanizada, democrática, ética e
comprometida é que podemos pensar a articulação do campo patrimonial, a partir dos inventários
participativos, no ensino de História. Essa possibilidade de diálogo fomenta a importância de articular as
questões relativas a construção e consolidação do currículo de História por um viés da decolonialidade, que
favoreça o diálogo, a formação de pensamento crítico e a conscientização sociocultural. E, para tanto, tendo
em vista a relação profícua entre educação e cultura é que o patrimônio cultural pode ser compreendido
enquanto mecanismo formativo sendo um instrumento de cidadania e participação social. Utilizar-se do
inventário participativo como uma metodologia no ensino de História é uma prática de preservação, de ação
educativa e uma estratégia para estimular a pesquisa sobre a história local, de incitar o reconhecimento e a
valorização de elementos identitários, da memória coletiva e do exercício da alteridade, possibilitando colocar
em evidência a realidade e a vivência de grupos sociais e práticas culturais que por vezes foram invisibilizados
e/ou esquecidos nos processos de patrimonialização.
Entre a sala de aula e o arquivo: desafios no desenvolvimento de um espaço de aprendizagem lúdico para
visitas escolares
Apoio:
textuais, fotografias, registros audiovisuais e sonoros que são fontes históricas potenciais para pesquisas sobre
política nacional e internacional, sociedade e cultura brasileira, imprensa, vida privada e relações familiares dessas
personalidades, entre outras temáticas. Comprometido com a democratização do acesso ao acervo e ampliação de
seu público, disponibiliza gratuitamente esses documentos para consulta pública. Investe em ações sistemáticas de
preservação e difusão, resultando em projetos que disponibilizaram online mais de 1 milhão de páginas de
documentos textuais e cerca de 90 mil fotografias. Esse investimento em difusão nos motivou a desenvolver no ano
de 2013 a primeira Oficina de uso de fontes primárias em sala de aula. A iniciativa visava mais que a divulgação do
acervo, ela envolve ainda o entendimento de que os arquivos históricos possuem grande potencial na construção do
conhecimento histórico escolar, que deve ser mais explorado, tanto pelas instituições de guarda de acervos quanto
pelos professores de História. Heloisa Bellotto ao refletir sobre o papel social e educativo dos arquivos permanentes
reforça a importância dessas instituições construírem um caminho de estreitamento da ligação escola-arquivo. Além
dos profissionais de arquivos, como Bellotto, a área de ensino de História também aponta a relevância do uso
didáticos dos arquivos, propondo uma abordagem atualizada e crítica para o trabalho com fontes históricas. Nesse
contexto, desenvolvemos desde 2017 o projeto de pesquisa, Difusão e Educação Patrimonial com a finalidade de
democratizar o acesso ao acervo histórico criando, entre outras iniciativas, um espaço de aprendizagem e de troca
entre a escola e o arquivo, onde estudantes possam ser protagonistas. Entre 2022 e 2023 o espaço recebeu mais de
1600 estudantes do ensino básico da cidade do Rio de Janeiro e região metropolitana. Mais de 90% desse público foi
de escolas públicas, atendidas pelo transporte gratuito oferecido pelo próprio projeto.
A educação patrimonial se caracteriza como uma importante prática que envolve a população e o patrimônio cultural.
A prática constrói um papel sociocultural nessa relação, capaz de valorizar os bens utilizados, produzir diversas formas
de conhecimentos interdisciplinares e plurais, ao mesmo tempo em que promove a valorização, produzindo sentidos e
significados. Trabalhada de maneira crítica e reflexiva, a educação patrimonial promove novos olhares sobre o
patrimônio, trazendo outras abordagens e releituras sobre os processos de preservação, de construção de valores
simbólicos e de relações afetivas, produzindo outras perspectivas, enquanto aproxima o objeto trabalhado com
população que o detêm. Refletir sobre as práticas de educação patrimonial nos permite um olhar mais plural sobre o
patrimônio, sua relação com a sociedade e a própria proteção, com visões que apresentam mais diversidade,
perspectiva e pluralidade. O presente estudo analisa a preservação e a relação entre patrimônio e sociedade, por meio
da educação patrimonial desenvolvida para o Programa ICMS Patrimônio Cultural do Instituto Estadual do Patrimônio
Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG). O programa tem como objetivo incentivar os municípios mineiros a
preservar seus bens culturais e desenvolver estruturas de gestão do patrimônio local, através de repasses financeiros
vindos do ICMS. Anualmente os municípios desenvolvem ações, as documentam e enviam ao Iepha-MG que as
convertem em pontos e, posteriormente, em verba para os municípios. Dentre os critérios, há o de educação
patrimonial, fazendo com que os municípios mineiros desenvolvam todos os anos, atividades educativas com o
patrimônio, alcançando um grande número de trabalhos, com frequência e continuidade. Pensar esses trabalhos em
longo prazo traz a tona questões sobre o uso do patrimônio local nas atividades educativas, a produção de significado
através destes, o envolvimento popular e a valorização da comunidade detentora do bem, e o papel da educação para a
preservação. Foram utilizados como fontes os projetos de educação patrimonial de quatro municípios entre 2005, ano
em que o critério começou a ser considerado no programa, e 2019, último ano antes da pandemia de Covid-19. Os
quatro municípios, Caetanópolis, Canápolis, Ibiá e Santa Bárbara enviaram trabalhos educativos em todos os anos da
análise, e apresentam características distintas entre seus bens culturais protegidos e a avaliação de seus projetos de
educação patrimonial ao longo do tempo. Discutir tais questões enriquece o processo, a construção das práticas
educativas e apresentam possibilidades para o desenvolvimento de ações educativas com o patrimônio em todo o país.
Apoio:
A centralidade dos sujeitos e espaços negros para o reconhecimento e preservação das referências
culturais afro-brasileiras
O presente trabalho é fruto dos estudos sobre patrimônio e cultura afro-brasileira realizados em disciplina
cursada no mestrado junto aos estudos da pesquisa em andamento sobre a formação e a preservação de uma
memória sobre a história e a cultura de Nova Iguaçu. Utilizando um recorte étnico-racial na abordagem do
patrimônio, o trabalho tem como objetivo a reflexão sobre o processo de patrimonialização das expressões
culturais afro-brasileiras – os quilombos, os terreiros, o samba, os bailes blacks – a partir da centralidade dos
atores e grupos sociais pertencentes a população negra na produção de valores e no reconhecimento do
patrimônio. Como referencial teórico, opero com as produções que destacam a dimensão do patrimônio
enquanto bens e práticas sociais as quais os sujeitos atribuem valor e sentido, bem como os documentos legais
que apresentam o alargamento e ressemantização do termo a partir da categoria do patrimônio imaterial. Essas
mudanças no campo do patrimônio atentam para o papel dos sujeitos e grupos sociais no reconhecimento de
suas expressões e bens culturais como referência a sua história, memória e identidade e na reivindicação do
reconhecimento dessas expressões e bens como parte do patrimônio cultural nacional. Neste sentido, dada
as interfaces entre patrimônio, história e memória, a patrimonialização das referências culturais afro-
brasileiras se configurou como um importante instrumento de reparação na garantia do direito à memória e
valorização da história e cultura afro-brasileira, excluída das primeiras políticas de formação do patrimônio
nacional na década de 1930. Tendo como posição de análise a cidade de Nova Iguaçu, a produção do
patrimônio local por parte do poder público na preservação da história, da memória e identidade local é
analisada em relação a pouca representação da população e das referências culturais afro-brasileiras nessas 238
políticas. Portanto, considerando a permanência da marginalização cultural, econômica e intelectual da
população negra no âmbito da sociedade brasileira e compreendendo o papel da educação nos processos de
atribuição de valores para o reconhecimento e salvaguarda do patrimônio cultural, faz-se necessário que as
ações educativas voltadas para educação patrimonial, mais do que produzir conhecimento sobre a história e a
cultura afro-brasileira, construam também o antirracismo, empreendendo ações de desinvestimento das
estruturas racistas e da colonialidade – do ser, do saber e do poder – que constituem a sociedade brasileira.
Assim, é importante que a educação patrimonial sobre as referências afro-brasileiras seja promovida em
diálogo com os sujeitos e espaços negros, detentores dessa cultura e desse conhecimento, possibilitando uma
ruptura com as estruturas racistas e coloniais.
Um olhar sobre as representações dos povos originários nos materiais pedagógicos do Museu Histórico
Nacional e Museu Paulista
Carina Martins Costa (UERJ), Thaís Alves do Nascimento (UERJ), Joyce Rodrigues de Souza da Silva (UERJ)
O presente trabalho pretende analisar a representação iconográfica dos povos originários, destacando as
abordagens realizadas na construção da imagem destes para a narrativa histórica nacional e as possibilidades
de rompimento de concepções coloniais. Destarte, pretende-se com isso, realizar reflexões acerca das
seguintes problemáticas: Como é possível promover a desconstrução de narrativas problemáticas presentes
em materiais didáticos? Como debater colonialidade no ensino de história para além da sala de aula, sobretudo
nos Museus? De que forma o processo ativo da educação patrimonial reconhece e valoriza a herança cultural?
Quem tem direito à memória? Este trabalho é um recorte do projeto “Lições das Coisas: um estudo sobre os
guias e materiais pedagógicos de museus históricos (1980-2010)”, que consiste na análise de abordagens
teórico-metodológicas de memória, história e educação patrimonial/museal, desenvolvido pela Universidade
do Estado do Rio de Janeiro. As instituições museológicas promoveram a seleção de memórias a serem
preservadas, historicamente definidas com especificidades de classe, raça, gênero e ideologia. No entanto,
com a pluralidade e crescimento do campo museológico, é cada vez maior o destaque da importância de sua
Apoio:
função social. Os museus constituem um papel sociocultural fundamental para as comunidades que o
abrigam. Com o olhar na natureza educativa dos museus, é fundamental refletirmos sobre o que os museus
perpetuam nesse processo de enquadramento de memória, considerando a disputa narrativa presente tanto
nos espaços expositivos como também em seus materiais pedagógicos. Para este recorte, analisaremos os
materiais “Oreretama” (2008), do Museu Histórico Nacional e “Uma História do Brasil” (2022) do Museu
Paulista. Como ferramenta de análise, após a seleção e a leitura dos materiais, analisamos e produzimos fichas
analíticas. A primeira apresenta os dados da publicação e a segunda, os conteúdos arquitetônicos, históricos,
textuais e editoriais. E, por fim, uma terceira ficha é voltada à análise da iconografia. Torna-se de fundamental
importância a promoção de uma análise e desconstrução de representações históricas. A representação dos
povos originários está em constante construção. Entretanto, a imagem do indígena ainda permanece de forma
caricata, por vezes como o “bom selvagem” excluindo a participação ativa desses povos no processo histórico.
Algumas ações museais buscam desafiar noções preconcebidas sobre os povos originários, com foco na
diversidade de suas culturas, sistemas de conhecimento e formas de vida. Assim, o processo ativo da
educação patrimonial pode estimular abordagens mais éticas, inclusivas e transformadoras no que tange às
narrativas históricas das identidades subalternizadas.
O Parque Estadual da Terra Ronca em Goiás: patrimônio natural e espaço de ações educativas
A proposta deste trabalho é refletir acerca da importância de ações de Educação Patrimonial para a 239
preservação do patrimônio cultural, em espaços formais e informais, associadas com a realidade vivida pelos
alunos e/ou a comunidade local. Nessa perspectiva, considera-se os espaços afetivos de vivências e sentidos
para as pessoas em que memórias são construídas, reconstruídas ou ressignificadas, como no Parque
Estadual da Terra Ronca, criado em 07 de julho de 1989. O Parque está localizado no município de São
Domingos, nordeste do Estado de Goiás, na região das águas e das cavernas do cerrado. Esse espaço é
compreendido como um território educador. É uma referência para a comunidade escolar, moradores e
também para os turistas, pois, além de inúmeras cavernas, conta com todo o complexo turístico que engloba
rios, veredas, matas, sítios arqueológicos, dolinas e também a gruta onde acontece a Festa de Bom Jesus da
Lapa. Partindo da premissa de que as referências culturais estão ligadas aos espaços de vida das pessoas e
que os territórios são concebidos como espaços educativos, a proposta deste trabalho tem como eixo
norteador a discussão sobre a importância das ações de educação com o patrimônio que primem por
atividades que envolvam o entorno do público participante. Assim, propõe-se o estudo a partir de três eixos
temáticos de investigação: 1) Discutir a educação patrimonial e seu papel na preservação do Patrimônio
Cultural; 2) Refletir acerca da riqueza cultural que o patrimônio natural como o Parque Estadual da Terra Ronca
detém; 3) Abordar possibilidades de ações educativas associadas ao Parque Estadual da Terra Ronca como
uma relevante ferramenta no processo de ensino-aprendizagem que possibilita partir da realidade local e social
vivenciada pelo aluno.
O trabalho tem como objetivo discutir experiências de professores de História da Educação Básica e de
educadores museais em espaços educativos não-formais, especialmente, em museus, junto ao público
escolar. Os dados são uma parcela dos resultados da pesquisa de Doutorado - Aprendizagem histórica e
emancipação: educação museal no Brasil (BORGES, 2023), orientada pela Profa. Dra. Raquel Villardi, realizada
entre 2018 e 2023, no Programa de Políticas Públicas e Formação Humana, da Universidade do Estado do Rio
Apoio:
de Janeiro. A investigação presencial ocorreu em museus do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Os
sujeitos da pesquisa participaram de grupos focais e entrevistas, inclusive virtuais, que somadas às
observações de campo, formaram o bojo metodológico da tese. No que concerne a base teórica, o conceito de
aprendizagem histórica, desenvolvido por Jörn Rüsen (2015) e os desdobramentos da Política de Nacional de
Educação Museal (2017), foram articulados com a obra de Paulo Freire, na qual destacam-se na análise
Pedagogia do oprimido (2014), Por uma pedagogia da pergunta (2017), Pedagogia da autonomia (2013) e Política
e educação (2014). A hipótese do trabalho era que a educação museal poderia oportunizar a aprendizagem
histórica, como via para a autonomia crítica e narrativa do público escolar. Nas considerações finais,
concluímos que por meio de uma mediação crítica, empenhada em permitir-se ser ponte entre os objetos e os
visitantes, o museu torna-se lugar privilegiado para elaboração dos estágios da aprendizagem histórica, e que
diante de problemas de natureza histórica, os vestígios materiais musealizados carecem de uma metodologia
singular, que dê conta de esmiuçar a especificidade do campo da História.
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
240
Apoio:
ST 32
Por uma História insurgente: o lugar do negro, indígenas e das
mulheres no currículo escolar
Coordenação:
Warley da Costa (UFRJ), Maria Perpétua Baptista Domingues (SEEDUC)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
O lugar dos povos indígenas nos currículos de História: o que nos dizem avaliações produzidas em
diferentes contextos?
O presente trabalho tem por objetivo contribuir para os estudos relacionados ao debate da diferença nas escolas
241
brasileiras. A porta de entrada privilegiada nesse estudo é a das mudanças introduzidas nas propostas curriculares da
disciplina História no Brasil nas últimas décadas referentes às questões étnico-raciais, especialmente após a
implementação da Lei 11.645/2008, que ratifica a obrigatoriedade do ensino da história e cultura da África e afro-
brasileira conquistada com a Lei 10.639/2003, incluindo a história indígena nos currículos do ensino básico. Fruto das
demandas políticas que marcam a nossa contemporaneidade e que trazem à tona as configurações hegemônicas das
lutas identitárias em disputa nos currículos escolares. A temática desenvolvida neste estudo busca aprofundar
questões exploradas na atualidade entre ensino de História, diferença e produção de identidades. Nas últimas décadas
no Brasil, a questão identitária esteve presente nos debates do campo educacional e nas políticas curriculares dessa
área disciplinar. Este estudo está inserido no campo de pesquisa de currículo, especialmente no que se refere à
compreensão dos processos de significação e identificação no currículo de História, a partir de avaliações produzidas
em diferentes contextos. O sentido de avaliação a ser desenvolvido nesse estudo se afasta de uma visão essencializada
a respeito de um diagnóstico prévio, rígido e naturalizado dicotomicamente entre a resposta certa e a resposta errada.
Busco reafirmar o ato avaliativo como tomada de decisão, que não está livre de tensões políticas e culturais, e “que dela
decorre uma responsabilidade incalculável e da qual não se pode escapar” (MARTINS, 2023, p. 140). Portanto,
reconhecer a avaliação como ato político e política curricular, tensiona a essencialização do diagnóstico, permitindo
discutir em outras bases o papel da avaliação na legitimação e deslegitimação de aprendizagens históricas, como
indutora de formas de aprendizagens. Interessa a esse estudo, uma investigação das refigurações de narrativas
históricas sobre os povos indígenas no Brasil, a partir de avaliações e exercícios dos livros didáticos selecionados,
entendidos como espaços de subjetivação, identificação e objetivação de saberes na relação com o conhecimento
histórico escolar (MARTINS, 2020), a partir de uma abordagem discursiva inscrita na pauta pós-fundacional.
Revolução Haitiana e a Era das Revoluções: uma análise comparativa de suas abordagens
O presente trabalho tem como objetivo apresentar uma comparação da abordagem feita no livro didático
“Vontade de Saber História” do 8º ano do ensino fundamental sobre a Revolução Haitiana e a Era das
Apoio:
Revoluções e a abordagem proposta pelo projeto de Iniciação Científica “História Global e Educação Histórica:
novas possibilidades metodológicas para o ensino de história”, orientado pela professora Dr. Bárbara Machado.
O objetivo principal do trabalho é elucidar a seguinte questão: por que a Revolução Haitiana e a Era das
Revoluções são abordadas de forma tão discrepante? O trabalho se mostra extremamente necessário para se
compreender eventos históricos de grande escala como a Revolução Haitiana e a Era das Revoluções, tendo
em vista a falta da presença de conteúdos, principalmente sobre Revolução Haitiana e relacionados a ela, em
livros didáticos e em outras obras que permeiam a área do ensino de história. Tendo como base os conceitos
de “história global”, “Atlântico negro” e “educação histórica”, foi analisado o livro didático “Vontade de Saber
História”, utilizado no CAp-UERJ no ano letivo de 2023, assim como o planejamento anual da disciplina de
história de uma turma de 8º ano e também o relatório produzido a partir das observações de aulas para
investigar quais formas a Revolução Haitiana e a Era das Revoluções foram apresentadas no livro, no
planejamento e nas aulas. Por fim, após a análise e a comparação das fontes utilizadas, observamos que, no
livro didático, há ausência dos conteúdos sobre a Revolução Haitiana quase total, sendo abordada brevemente
em pequenos trechos. Por outro lado, a Era das Revoluções com foco na Europa está presente de forma maciça
no mesmo livro, apontando para a persistência de uma visão eurocêntrica da História no livro didático, visão
essa que o projeto citado acima busca superar a partir da História Global. Assim, concluímos que há uma
desigualdade na forma em que a obra aborda os conteúdos apresentados aqui. Em contrapartida, foi
observado uma abordagem ampla no planejamento de turma e nas aulas que foram objeto de observação dos
conteúdos sobre a Revolução Haitiana.
Literatura infantil e Ensino de História: memória e identidade a partir dos livros de bell hooks 242
Roberta Ferreira Gonçalves (SEDUC GO)
O dever de memória tem se tornado caminho referencial para a concretização de um ensino centrado em
aprendizagens éticas, na construção de alteridades e nas habilidades críticas. Ao trabalhar o protagonismo de
meninos e meninas negras, os livros Meu Crespo é de Rainha e Minha dança tem história, de bell hooks
oferecem grande potencial para a educação para as relações étnico-raciais no ensino de história. O objetivo
deste trabalho é discutir as obras infantis da autora, em diálogo com sua reflexão acerca da educação, para a
efetivação do que ela chama de uma comunidade de aprendizado. Além disso, busca-se, ainda que de forma
preliminar, refletir sobre o uso didático da literatura infantil no ensino de história para os anos iniciais como
uma forma de trabalhar noções de identidade, sensibilidades e memória, temáticas vivas que ligam
experiências do passado às demandas do presente e a possibilidade de construção de futuro. Parte-se do
pressuposto que essas noções são fundamentais para a construção do letramento histórico e racial dos
estudantes.
Existe um consenso entre os profissionais da área de História sobre a relevância do ensino da história indígena
para desconstruir estereótipos e preconceitos que afetam e prejudicam os povos originários há séculos. Além
disso, é amplamente reconhecido que a inclusão da temática indígena nas escolas pode promover uma
reflexão sobre a diversidade étnica do país, contribuindo para sua valorização e legitimação. Esses pontos são
também apoiados por líderes indígenas ligados aos movimentos sociais, que há muito tempo clamam pela
inclusão do ensino da história indígena a partir de suas próprias perspectivas, mesmo antes da aprovação da
Lei 11.645/08. No entanto, há uma questão crucial levantada por indígenas que vivem em contextos urbanos e
que muitas vezes é negligenciada nos documentos legais, na historiografia e no ensino de história: o combate
Apoio:
ao etnocídio. Este trabalho parte de uma reflexão sobre atividades educativas promovidas pelos movimentos
de ressurgência e retomada étnica indígenas no Rio de Janeiro, buscando, entre outros objetivos, reconstruir
identidades e combater a persistente política de assimilação dos indígenas. Mesmo após a promulgação da
Constituição de 1988, essa política ainda se reflete em algumas ações do Estado, na historiografia e no ensino
de história.
Essa pesquisa tem a proposição de provocar uma reflexão sobre identidade racial. Uma reflexão que é
perceber, saber e entender "onde eu me encaixo?" "Sou branca/o demais para ser preta/o e preto/o demais para
ser branca/o". Ao longo dos anos, minha percepção quanto pertencente à categoria racial e política negra foi se
desenvolvendo, sobretudo a partir da minha entrada no meio acadêmico, na graduação e do contato com a
literatura que partia do movimento Negro. Sendo assim, na minha experiência docente eu achei que era válido
levar esse conhecimento para as minhas aulas. Entretanto, ao iniciar meu trabalho profissional me deparei com
alunos com falas e comportamentos que demonstravam que eles não entendiam que pretos e pardos são cores
raciais e que unidos formam a categoria racial política Negra, e que reproduziam as mesmas expressões ao se
referirem a si mesmos e ao demais: "posso ser moreno, negro jamais!". Presenciei alunos que se
autodeclaravam como morenos, mulatos e uma infinidade de outras denominações para classificar uma
pessoa que é branca demais para ser preta e preta demais para ser branca, e apesar de se encaixarem na 243
classificação do IBGE de pardos não se sentem integrados à categoria racial política Negra. Pelo contrário, me
deparei com muitos alunos que aceitavam serem pardos, mas jamais inseridos na categoria Negro, viam essa
categorização até como ofensa, já que sua cor da pele era "mais clara". Já do meu lugar de entendimento do
pardo pertencente à categoria racial e política Negra, nos últimos anos eu me deparei o termo Colorismo. O
termo Colorismo foi cunhado pela primeira vez por Alice Walker em 1983. Segundo Juliana Góes (2022), Walker
definiu Colorismo como "o tratamento preconceituoso ou preferencial feito por pessoas do mesmo grupo racial
com base na cor das pessoas". Góes completa que Walker definiu o termo a partir das relações raciais nos
Estados Unidos e diz que essa diferenciação no tratamento das pessoas é uma opressão intrarracial.
E como o termo vai ser apropriado aqui no Brasil? Góes afirma que o termo Colorismo "se conecta com o Brasil
porque a hierarquização das pessoas segundo o fenótipo, especialmente a cor da pele, foi fundamental para a
construção da identidade nacional brasileira", sendo assim, quanto mais próximo da cor da pele do grupo
dominante, mais passível de ser aceito socialmente, contudo, essa "aceitação", não livra o pardo de sofrer
racismo, ele sofre de outras maneiras. Sendo assim, ao definir uma hierarquização social a partir dos tons de
pele e da diferenciação dos tratamentos recebidos por pessoas de diferentes tons de pele, o Colorismo se
coloca como o ponto de partida para o meu objetivo que é entender como eles percebem e se identificam
racialmente.
Esta apresentação tem como objetivo apresentar narrativas construídas a partir de experiências vividas em
aulas de História de turmas noturnas do Programa de Educação de Jovens e Adultos (PEJA) de uma escola
municipal da zona oeste carioca. Tendo como foco a atividade “A EJA é uma mulher negra”, desenvolvida junto
às turmas para ser apresentada no XVII Encontro de Alunos e Alunas da EJA RIO: “Identidade e
Representatividade: Potências Indígenas e Negras na EJA”, o presente trabalho traz um detalhamento de como
surgiu essa hipótese e como as narrativas de algumas alunas construiu um trabalho forte, crítico e biográfico,
Apoio:
dando voz e vez a um grupo que passou (e ainda passa) por silenciamentos diversos, desde aspectos
socioeconômicos até mesmo à falta de representatividade no currículo. Destaco ainda mais este último (o
currículo), onde há a possibilidade de dialogar e interagir em um lugar de fronteira, onde as diferenças dão
forma às identidades individuais e a projetos e vivências coletivas, como turmas, grupos familiares e coletivos.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
O objetivo do presente trabalho é analisar a formação social brasileira, considerando a complexidade das
relações étnico-raciais como componente básico dessa formação e tendo em vista dois aspectos importantes:
o racismo e a dinâmica das relações interculturais. O esforço dessa análise exige antes de tudo, reconhecer o
processo de colonização, associado à escravização dos povos da América e da África, como fundamento da
maneira como são construídas as relações sociais, políticas e econômicas. Parte-se do pressuposto, portanto,
que são as relações de colonialidade que estabelecem as características sociais, econômicas e culturais no
país. Outro aspecto da formação social brasileira que esta análise visa abordar é a questão das relações
interculturais oriundas do encontro, ainda que forçado, de diferentes povos, com diferentes modos de vida, 244
partindo do entendimento que foi a partir desse complexo entrecruzamento que se forjou o desenvolvimento
de elementos culturais como o samba, a umbanda e o candomblé brasileiro.
Narrativas quilombolas de Angra dos Reis - contribuições das memórias dos griôs do quilombo de Santa
Rita do Bracuí para o ensino de História em Angra dos Reis
A presente comunicação oral tem por objetivo expor os resultados parciais da pesquisa desenvolvida para
minha dissertação de mestrado em Ensino de História – Profhistória, que tem por objetivo investigar de que
maneira a oralidade dos griôs do quilombo de Santa Rita do Bracuí, localizado em Angra dos Reis/RJ, narra a
história dessa comunidade quilombola e como essas narrativas podem auxiliar o ensino de História, através
interculturalidade e de uma educação antirracista, fortalecendo a implementação da lei 10639/03.
Sou docente das redes municipal e estadual do município de Angra dos Reis, estado do Rio de Janeiro, onde
está localizado o território do quilombo. Através da participação de formações relacionadas às relações étnico-
raciais e dos movimentos sociais da cidade, tive contato com uma das lideranças quilombolas, D. Marilda,
educadora popular. É através das narrativas de D. Marilda e da sua participação em diversos eventos ligados à
educação que muitos professores e estudantes tem maior conhecimento sobre as histórias da população
quilombola de Angra dos Reis. Infelizmente, é difícil levar os estudantes até o quilombo por causa do
deslocamento. Então, como levar o quilombo aos estudantes, para além das comemorações do dia 20 de
novembro? Como inserir essas narrativas quilombolas de Angra dos Reis no cotidiano escolar, em especial das
aulas de História? Após o levantamento de trabalhos acadêmicos produzidos sobre o quilombo de Santa Rita
do Bracuí, é possível perceber que a maioria está direcionada para o campo da Educação e da História, com
poucas produções no âmbito do ensino de História. Além disso, registrar e divulgar as narrativas da
comunidade contribui para seu fortalecimento político e social. É importante destacar também que a oralidade
desempenha um papel fundamental na comunidade quilombola, mantendo tradições, conhecimentos,
memórias e identidades ao longo das gerações. Recentemente, teve início a busca do naufrágio do navio
Apoio:
escravagista “Camargo” e o local só foi localizado graças às histórias contadas no quilombo, que direcionaram
– e direcionam – o trabalho dos arqueólogos, historiadores, arquitetos e tantos outros pesquisadores
envolvidos no trabalho. Como o trabalho encontra-se em fase inicial, a metodologia que será aplicada para o
desenvolvimento dele será o de entrevistas dos mais velhos da comunidade, relacionando essas histórias com
o que já existe em termos de pesquisa para elaboração de um livro digital, que será distribuído gratuitamente.
Como aporte teórico serão utilizados os autores que dialogam com os conceitos interculturalidade, como
Catherine Walsh e oralidade, como Amadou Hampâtê Bâ, entre outros.
Das Leis Reparadoras ao Espaço de Pertencimento: uma prática pedagógica horizontal no subúrbio
carioca
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 33
Propriedades e Tecnologias: práticas científicas em debate
(séculos XIX ao XXI)
Coordenação:
Daiane Estevam Azeredo (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), Adauto Tavares Araujo
(Prefeitura Municipal de Magé), Antonio Hertes Gomes de Santana (Colégio Estadual Antonio
da Costa Brito)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
Esta pesquisa tem por objetivo analisar alguns aspectos referentes a atuação das mulheres inventoras no processo de
requisição de patentes no Brasil, durante o período entre 1873 e 1910, a partir da coleção de Privilégios Industriais (PI) do
Arquivo Nacional do Rio de Janeiro (ANRJ). Inicialmente, apresentamos um debate sobre a construção do sistema de
patentes no Brasil, com base na literatura sobre a temática, de modo a entender as principais nuances que estão
intrínsecas ao patenteamento do período. Ressaltamos as medidas e leis referentes a concessão de patentes e os
debates internacionais sobre propriedade industrial durante o referido período. Destacamos alguns aspectos referente
às solicitações de patentes do período, a partir de tentativas de categorizações gerais. Por fim, em relação ao trabalho
de fontes, realizamos previamente, uma análise da documentação de solicitações de cartas-patentes, na referida
coleção de PI do ANRJ e identificamos cerca de 98 pedidos que constam com a participação de mulheres autoras e
coautoras. A partir deste levantamento prévio, pontuamos alguns aspectos que investigamos sobre as mulheres
inventoras, como uma estimativa da quantidade de cartas, os tipos de produtos que buscavam ser patenteados e o perfil
de algumas mulheres encontradas na documentação. Enfatizamos algumas dificuldades de inserção de mulheres em
atividades econômicas e sociais, a partir de uma análise da literatura sobre o tema, que retratam uma sociedade
patriarcal no período. Verificamos, a partir de um cruzamento de fontes com os anúncios do “Almanak Laemmert:
Administrativo, Mercantil e Industrial (RJ) - 1891 a 1940” que algumas mulheres inventoras também possuíam negócios
na sociedade fluminense oitocentista e questionamos os obstáculos de atuação destas mulheres em um campo
majoritariamente ocupado por homens, como o patenteamento ou como proprietárias de negócios.
Apoio:
A propriedade como princípio: ciência, tecnologia e a propriedade industrial nas exposições universais
do século XIX
O artigo tem como objetivo apresentar aspectos que envolveram o debate sobre a propriedade industrial nas
exposições universais do século XIX, mais especificamente analisando as patentes, considerando normas
específicas utilizadas nas exposições para incentivar a participação de inventores e diminuir os riscos de
cópias das invenções apresentadas. Essa preocupação normativa também estimulou os debates acerca da
criação de acordos internacionais para a propriedade industrial, cujo mais importante foi o Acordo de Paris, em
1883.
A presente pesquisa tem por objetivo analisar comparativamente os requerimentos de patente solicitados
dentro do setor farmacêutico em Brasil e Portugal durante a virada do século XIX para o XX, mais
especificamente entre 1874 até 1910. O interesse de realizar tal pesquisa dentro deste recorte temático e
temporal parte do entendimento que, apesar de muitas similaridades no início do século XIX, houve algo além 247
do Atlântico que separou o processo de constituição da indústria farmacêutica nestes dois países com o
decorrer dos oitocentos. Desta forma, visamos, à partir de uma análise voltada aos requerimentos de patentes
solicitados neste período, compreender o que se entendia por produto farmacêutico nestes países durante o
final do século XIX e início do XX, problematizar como a descrição desses novos inventos se relacionava com
os debates existentes em ambos os países sobre a profissionalização e institucionalização do setor
farmacêutico e, ainda, aferir, por meio do volume anual de requerimentos de patentes identificados, como o
patenteamento destes países reagiu frente às novas legislaturas nacionais sobre o direito à propriedade
intelectual redigidas por ambos neste final de século. Para tal, uma análise quantitativa conjugada a uma
análise qualitativa será de grande ajuda para chegar a algumas respostas, a primeira identificando a quantidade
anual das patentes e possibilitando aferir se o setor foi ou não afetado pelos novos parâmetros legais que
regulavam o direito à propriedade intelectual promulgados no Brasil em 1882 e em Portugal em 1886; e a
segunda chamando a atenção para elementos textuais do documento que nos ajudam a mapear
características deste segmento, tanto referente a fórmula e composição dos produtos quanto referente a forma
que o texto da patente foi redigido. Por fim, não é a pretensão aqui tentar traçar um panorama de toda a indústria
farmacêutica de Brasil e Portugal, mas sim mapear uma parcela desse setor através dos registros de patentes,
debatendo como as diferenças e similaridades no processo de regulamentação do direito à propriedade e
institucionalização do setor impactaram nas suas produções farmacêuticas, utilizando, assim, os pedidos de
patentes enquanto uma janela de análise - ainda pouco explorada pela historiografia - para entender parte
deste segmento nesta virada de século.
O presente estudo aborda o tratamento conferido pela Administração Pública brasileira a obras protegidas por direitos
de autor produzidas por servidores públicos no desempenho de suas atividades e funções. Tomam-se como objetos
prioritários os materiais textuais, imagéticos e audiovisuais incluídos no rol de proteção estabelecido pela Lei n.º 9.610,
Apoio:
de 19 de fevereiro de 1998 (Lei de Direitos Autorais), e pelos tratados internacionais relacionados à matéria de que o
Brasil é signatário. Partindo-se de uma discussão sobre as relações entre a gestão do conhecimento e a propriedade
intelectual, propõe-se uma análise das práticas atualmente adotadas em grande parte das instituições públicas à luz do
ordenamento jurídico nacional, problematizando-se a conformidade legal de procedimentos e normativas usualmente
adotadas, bem como a necessidade de treinamento e orientação dos servidores em relação à matéria. Conclui-se existir
evidentes inconsistências e lacunas nas práticas institucionais que precisam ser urgentemente enfrentadas,
especialmente quando se considera os valores simbólico e econômico que os ativos de propriedade intelectual
representam para as organizações modernas ― inclusive as de natureza pública ― e os impactos sociais que os
mesmos podem exercer sobre outros direitos fundamentais garantidos pela Constituição Federal, como o direito de
acesso à informação.
O protagonismo dos engenheiros nas intervenções ordenadoras do espaço urbano, especialmente no Rio de
Janeiro a partir do último quartel do século XIX, é reconhecido, juntamente com o papel dos empresários dos
setores de portos, ferrovias, serviços urbanos e indústrias. As proposições dos engenheiros, visando os
melhoramentos projetados, foram divulgadas em periódicos especializados do segmento, nos quais
publicaram diversos textos sobre temas como salubridade, projetos viários e técnicas de construção. Neste
trabalho, examinamos as intervenções de engenheiros brasileiros sobre as grandes exposições internacionais 248
(universais) organizadas no período. Esses eventos constituíram espaços privilegiados para a divulgação e
promoção de conhecimentos técnicos e científicos e de processos e produtos de especial interesse para esses
profissionais. A análise baseia-se em levantamento de textos e imagens (ilustrações, fotografias) editadas na
Revista de Engenharia, publicada entre 1879 e 1891, sobre o tema das exposições internacionais.
A apresentação abordará pontos específicos da pesquisa desenvolvida no âmbito do projeto “História Social
dos Cientistas no Brasil – CNPq. 1951-1973”, sob a supervisão da pesquisadora Heloísa Bertol. Tendo por
objetivo analisar cientistas e suas práticas científico-institucionais, a abordagem gira em torno da cientista
Bartyra Arezzo, focando nas atividades de pesquisa enquanto bolsista entre os anos de 1957 a 1962. Essa
experiência se deu em diversas instituições e com diferentes temas, que levou ao aprimoramento de sua visão
sobre um setor específico da área nuclear. A investigação sobre a cientista iniciou com levantamento na base
de dados Prosopon ([Link]), tendo acesso ao primeiro processo de bolsa, com referência na
documentação do CNPq. A bolsa de pesquisadora assistente no Laboratório de Físico-Química da Escola
Nacional de Química da Universidade do Brasil, possibilitou estudos em Radioquímica, Química em Solução,
Radioelementos. Num segundo momento a pesquisa se concentrou nas fontes que compõem o acervo pessoal
da cientista, depositado no AHC/MAST. Neste foram encontradas, entre outras, referências sobre bolsas
adquiridas por Arezzo, como a do British Council para realizar pesquisas sobre a Química dos Radioelementos
em soluções e Isótopos. Há registros sobre o trabalho no grupo de pesquisa sobre Radioquímica do
Massachusetts Institute of technology, por fim, em 1962 ganha bolsa do CNEN para trabalhar no Laboratório
de Dosimetria sob a orientação de Edgard Meyer. A investigação dessa trajetória da cientista tem se mostrado
fundamental para entender como ocorreu o financiamento das pesquisas, como também, o percurso que levou
a especialização em uma área importante, possibilitando sua liderança no desenvolvimento de projetos
Apoio:
complexos no futuro. Não é possível dissociar essa experiência pessoal de outros contextos políticos e
econômicos que estão relacionados ao financiamento de pesquisas e capacitação científica. Nesse sentido,
questões ligadas à história das instituições envolvidas e sobre a internacionalização da ciência, surgem e se
tornam um fio condutor para abordar a experiência de Bartyra Arezzo entre os anos de 1957 a 1962.
Este trabalho está ligado à elaboração de uma monografia cujo objetivo é analisar a consolidação do
conhecimento farmacêutico como algo separado das práticas boticárias e medicinais no final do século XIX.
Dessa forma, o trabalho observa que desde a chegada dos jesuítas no Brasil, as artes e ofícios da cura estiveram
difusas entre os diversos grupos étnicos e sociais. No entanto, com a chegada da família real no início do século
XIX, uma nova hierarquia das artes da cura emergiu nos espaços práticos, a qual indicava que o conhecimento
das formulações medicamentosas estava intimamente ligado à medicina institucionalizada. Conforme
ocorriam avanços científicos em biologia e química ao longo do século, os praticantes farmacêuticos
buscavam legitimar seu saber, valorizando-o em relação aos saberes populares e médicos. Isso envolveu a
diferenciação do conhecimento farmacêutico, sua consideração como arte liberal em contraste às artes
manuais tradicionalmente menos valorizadas. Em um século onde o conhecimento científico se vinculava ao
capitalismo, valorizando-se moralmente, a classe farmacêutica buscou se consolidar como portadora de
conhecimentos científicos modernos e específicos. Para entendermos a separação pela perspectiva 249
farmacêutica, examinaremos serialmente os conteúdos discursivos da Sociedade Pharmaceutica Brasileira
em seus ambos periódicos: Revista Pharmaceutica (1851-1855) e A Abelha (1862-1864). Por meio de uma
abordagem historiográfica que engloba a História das Ciências e da Saúde, assim como a História das
Tecnologias, com foco nas contribuições de Jürgen Habermas em "História da Ciência e da Tecnologia" e Pierre
Bourdieu em "O Poder Simbólico", pretendemos verificar se há discursos utilizados para afirmar o papel do
farmacêutico como detentor da modernidade científica nos periódicos do final do século XIX.
A apresentação terá como base as colaborações e debates acerca dos melhoramentos urbanos e sanitários
sob a ótica dos engenheiros na Revista de Engenharia do Rio de Janeiro, datadas de 1879 a 1891.
Os textos com a temática dos melhoramentos urbanos e o sanitarismo encontrados na Revista de Engenharia
perpassam pelo diálogo entre os engenheiros e médicos do período numa busca de compreender as causas
da primeira epidemia de febre amarela na capital do Império fundamentando-se na teoria de miasmas.
A teoria de miasmas estava assentada na ideia de que a causa das enfermidades e epidemia estaria nas más
condições do meio ambiente, que podia se perceber através da exalação de pessoas e animais doentes, das
emanações dos pântanos e ou de objetos em decomposição. Tais elementos tornavam o ar impuro e podiam
ser percebidas a partir do mau cheiro. Dessa forma, médicos e engenheiros buscaram criar medidas visando
melhorar a qualidade do ar e assim impedindo a proliferação das doenças e de novos surtos epidêmicos. Os
famosos cortiços eram a principal preocupação expansão do problema sanitário no Rio de Janeiro. As
habitações aglomeradas e numerosas, com pouca ou nenhuma circulação de ar. Em 1874, cria-se a Comissão
de Melhoramentos do Rio de Janeiro, formada por três engenheiros que apresentaram propostas que iam desde
a derrubada do Morro do Castelo e a realização de obras públicas como o alargamento de ruas, arborização da
cidade e a distribuição de água. A comunicação vincula-se Projeto de Pesquisa que tem por objetivo geral
promover um estudo de periódicos de engenharia, a princípio da Revista de Engenharia, editados no Rio de
Apoio:
Janeiro desde a segunda metade do século XIX. Consiste no levantamento desses textos e visa a um debate
acerca das ideias e projetos de modernização brasileira, como nos melhoramentos urbanos.
A metodologia usada pela bolsista consistiu no levantamento de fontes primárias, em especial da Revista de
Engenharia, assim como na leitura bibliográfica, e na preparação de fichamentos, para catalogação em bancos
de dados.
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Este artigo trata da música do grupo ABADÁ-Capoeira situado no bairro de Santa Cruz, Rio de Janeiro – RJ.
Argumentar-se-á que o grupo realiza práticas musicais participativas, que priorizam a inclusão.
Introdutoriamente, será apresentado o referencial teórico, baseado no conceito de música participativa,
desenvolvido pelo etnomusicólogo norte-americano Thomas Turino (2008, p. 23-48). Em seguida, demonstrar-
se-ão algumas estratégias do grupo visando não excluir os participantes da roda de capoeira. Finalmente,
buscar-se-á compreender esse comportamento. As fontes utilizadas foram virtuais (vídeos); entrevistas;
experiências derivadas de observação participante e referências especializadas na temática música e
capoeira. 250
UM BRILHO QUE FOI APAGADO. São João Marcos, cultura, memória e destruição
A cidade de São João Marcos no Vale do Paraíba que foi destruída em 1941, como parte de um projeto político
de desenvolvimento e progresso do Governo Federal, a cidade representou no final do século XIX e início do XX,
um lugar de cultura efervescente, sediando festas tradicionais, bales de gala, clubes associativos, teatro e sua
grande riqueza arquitetônica religiosa e colonial. Todo esse aparato cultural e tradições que antes por vezes
ofuscavam a capital do País foram perdidos em meio a destruição/inundação da cidade e a falta de
preocupação do poder público com a história, memória e a cultura de toda uma região. O presente trabalho
tem como objeto de estudo a cultura e o aparato cultural existente em São João Marcos e sua importância para
vida cultural no Vale do Paraíba levando em consideração sua relação com a cidade, que abrange os aspectos
religioso, político, o vivido, a memória, e a cultura, até a destruição da cidade a partir do Decreto Lei 3.866 de
1941, que versa sobre o destombamento, e suas implicações na questão da imortalidade do patrimônio
nacional. Poderosa área de produção de café e tráfico de escravos do interior do atual estado do Rio de Janeiro,
São João Marcos surgiu quando João Machado Pereira instalou ali sua fazenda, em 1733, período em que os
bandeirantes exploravam os caminhos internos entre as capitanias. Contudo, diante da crise da cultura de café
na região fluminense no final do século XIX, dos avanços dos transportes e da abertura de outros caminhos
para a capital, São João Marcos vai gradativamente perdendo importância. Assim, a cidade, que no final do
século XIX abrigava cerca de 18 mil moradores, chega à década de 1920 com apenas 7.400 habitantes.
Demolida e devastada, a cidade foi desocupada de forma rápida e mesmo violenta, sem preocupação com a
população que ali vivia, que foi em parte indenizada, noutra simplesmente expulsa. Seus prédios públicos,
igrejas, seu teatro e seus clubes e casas foram demolidos, com a justificativa de se facilitar a invasão das águas,
mas a cidade nunca foi completamente submersa. Sua Igreja Matriz de São João Marcos, por exemplo, se não
tivesse sido demolida, ainda estaria intacta, pois as águas não chegaram a tomá-la. Durante anos a cidade de
São João Marcos tinha sido o centro da economia regional e provedora de entretenimento e atividades festivas
Apoio:
ligadas a religião ou acultura popular, em menos de meio século havia sido reduzida a escombros sob uma
represa – um golpe profundo na vida dessas pessoas que se refletiria em memórias carregadas de todo tipo de
sentimento. Sendo assim todas essas mudanças são o foco da reflexão aqui desenvolvida.
Propriedades urbanas e o discurso higienista: oficinas e fábricas na cidade do Rio de Janeiro entre 1830 e
1872
A proposta desta apresentação tem por objetivo discutir as vinculações entre o discurso higienista e de limpeza
urbana propagados no período imperial e o processo de tentativa de retirada de oficinas, fábricas e manufaturas
do centro da cidade do Rio de Janeiro entre 1830 e 1872. Questionamo-nos se a preocupação com a
salubridade da cidade estava relacionada com uma possível especulação imobiliária do período e se o motivo
para retirada dos estabelecimentos fabris da região central não se justificaria, na verdade, pelos interesses
financeiros por determinadas áreas dela. Para isso, tratamos primeiramente do conceito de propriedades e
suas múltiplas dimensões, para posteriormente apresentarmos as análises sobre compra e venda de oficinas
e fábricas a partir das escrituras públicas do Primeiro Ofício de Notas do Rio de Janeiro. Ao final, constatamos
que há uma estreita relação entre o processo de retirada dos estabelecimentos fabris da cidade com o
processo de valorização das propriedades urbanas cariocas.
251
História fundiária da Fazenda Nacional de Santa Cruz: do sistema de sesmarias à Regularização Fundiária
- 1567 a 2022
A Fazenda Nacional de Santa Cruz foi constituída por volta de 1590, tornando-se o mais opulento patrimônio
de toda a Companhia de Jesus no Brasil, por sua dimensão geográfica e importância econômica. Um passivo
com mais de quatro séculos, com origem na doação de Sesmarias ao militar Cristóvão Monteiro, em 1567. Sua
propriedade, desde a década de 1960, está com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA.
Em 2022, iniciou-se o processo de Regularização Fundiária, tanto das áreas rurais, quanto das urbanas, para o
total desmembramento da antiga Fazenda. Sendo assim, propomos neste trabalho, apresentar as leis e
decretos de sua história fundiária por entendermos que a ocupação do território da Fazenda Nacional de Santa
Cruz e as formas de apropriação de sua terra nos diferentes períodos históricos, nem sempre privilegiou a
visada posse agrária realizada nos ditames da função social da terra. O TED - Termo de Execução
Descentralizada celebrado entre a UFRRJ - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e o INCRA - Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária, em dezembro de 2021, tem por objetivo o georreferenciamento
dos lotes rurais no perímetro da Fazenda Nacional de Santa Cruz, no estado do Rio de Janeiro, para demarcar
e entregar os títulos de propriedade aos atuais ocupantes da área rural.
O interesse em estudar a Fazenda Nacional de Santa Cruz foi despertado na primeira metade da década de
1980 quando se tomou ciência da extensão de suas terras. As primeiras atividades relacionadas à
sistematização de uma pesquisa específica datam do início da segunda metade da década de 1980. Em 1987
Apoio:
foi apresentado o Projeto Levantamento do Patrimônio Arqueológico da Fazenda Nacional de Santa Cruz como
pré-requisito da disciplina Elaboração de Projeto de Pesquisa, inicialmente, pensado para a monografia de
conclusão do curso de graduação em Arqueologia. A partir daí foi devotado um cronograma de atividades
direcionadas em duas vertentes. A primeira caracterizada pelo levantamento bibliográfico no qual estava
inserido, de forma especial, o cervo do INCRA, localizado em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio de Janeiro. A
segunda vertente se caracterizou pelo trabalho de campo, marcado pelo reconhecimento dos lugares formados
dentro dos limites do polígono da Fazenda Nacional de Santa Cruz. As dificuldades de acesso
imposta pela mobilidade espacial desestimularam a continuidade do trabalho proposto, mas o interesse
continuou motivando o retorno, principalmente, a partir dos resultados alcançados no Projeto
Levantamento do Patrimônio Arqueológico de Nova Iguaçu e Municípios Dissidentes que forneceram dados
para repensar a história do Município de Japeri, cuja origem histórica era creditada à carta de
sesmaria concedida a Ignácio Dias Velho em 13 de agosto de 1743. Revendo e analisando, principalmente, a
cartografia histórica, percebeu o equívoco histórico e a necessidade de construção de um
passado compatível com a documentação dos fatos que nortearam seu curso até o presente. Reacender o
levantamento do patrimônio cultural arqueológico da Fazenda Nacional de Santa Cruz, mostrando a
importância dessa unidade fundiária para a solução de problemas no presente é o principal propósito desse
trabalho.
252
Apoio:
ST 34
Refúgio, migração e exílio em tempos de guerra e outras
crises humanitárias
Coordenação:
Diego Luiz dos Santos (Unioeste)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
O impacto da cultura psi nas políticas de reparação alemãs pós-II Guerra Mundial
Esta comunicação propõe uma reflexão sobre as leis estabelecidas na República Federal da Alemanha (RFA)
253
após o fim da II Guerra Mundial e a queda do III Reich com vistas a indenizar os sobreviventes da perseguição
nazista refugiados em todo o mundo. O foco do trabalho é analisar o impacto da cultura psi sobre a Lei Federal
de Reparação promulgada em 1956, lançando um olhar especificamente sobre às cláusulas que visavam
indenizar sobreviventes da Shoah que sofreram danos à saúde psíquica. Como a comunicação demonstra, a
construção destas leis dialoga com um contexto no qual os saberes sobre o psíquico – como a psicologia,
psicanálise e psiquiatria - gozavam de grande respaldo na sociedade ocidental. Para os pesquisadores do tema,
a grande demanda de especialistas em saúde mental para o cuidado e tratamento de soldados nas Guerras
Mundiais, a popularização dos movimentos de higiene mental que promoviam uma educação preventiva em
relação a doenças mentais, entre outros fatores teriam contribuído para uma grande popularização destas
formas de conhecimento para além de seus espaços de atuação. Dessa forma, ideias vindas dos saberes psi
passaram a permear as mais diversas esferas da vida e da sociedade, como a arte, a publicidade, os
conhecimentos acadêmicos, as relações domésticas, etc. A comunicação demonstra, portanto, a influência
desta cultura psi nas leis de reparação alemãs da década de 1950 e na constituição de uma weltanschauung
na qual o cuidado psíquico seria um dos elementos fundamentais na reconstrução do mundo ocidental pós-II
Guerra Mundial. O trabalho nos ajuda a refletir também sobre a experiência de sujeitos e refugiados em
situação-limite e o sofrimento psíquico, bem como o papel do Estado nesta dinâmica, além de promover uma
discussão sobre as necessidades de cuidado com a saúde mental e com o direito à dignidade daqueles que
sobrevivem.
Apoio:
funcionários da Fábrica Indústrias Técnicas Ltda (INTEC). Utiliza para a pesquisa fontes primárias, como os
processos jurídicos e notícias jornalísticas de época. A ideia de montar uma fábrica decorreu da
engenhosidade do professor alemão Hermann Mathias Görgen e de seu orientador, Prof. Wilhelm Förster, com
auxílio da Igreja Católica, como estratégia para a fuga de um grupo de apátridas em 1940. Com ajuda de
representantes do Vaticano, Görgen fez saber ao governo brasileiro que estava de posse de capital e que seu
interesse em montar uma fábrica no Brasil. Apesar da rígida política migratória fortalecida pelo nacionalismo
da ditadura Vargas, a proposta de Görgen se alinhou aos pressupostos de industrialização daquele governo.
Como resultado das negociações, no início do ano de 1941 chegaram ao Brasil cerca de 50 indivíduos
perseguidos pelo nazismo alemão. Nomeados como técnicos, se dirigiram para Juiz de Fora para montar as
instalações da fábrica de instrumentos médicos, equipamentos eletrônicos e produtos mecânicos. Apesar de
muitas dificuldades para a sua operação, a fábrica passou a funcionar precariamente a partir de 1942.
Nos anos que se seguiram, contudo, a fábrica foi palco de intrigas entre funcionários brasileiros e alemães,
sendo alvo de diversos processos jurídico-criminais e trabalhistas, o que, após a entrada do Brasil na Guerra,
se converteu em uma espiral de denúncias e acusações de espionagem e traição dos sócios da INTEC contra
o país. Seguindo uma historiografia sobre espionagem na II Guerra e outra sobre boatos contra falantes de
língua alemã, a comunicação explora a maneira como a atmosfera de suspeição de estrangeiros advindos do
Eixo, inflada pela entrada do Brasil na II Guerra Mundial ao lado dos aliados, impactou o cotidiano desses
imigrantes, com consequências importantes para o empreendimento e para o grupo, produzindo uma série de
conflitos interpessoais.
Deslocamento forçado na Guerra Civil Síria: como a pior crise de refugiados do nosso tempo desnuda o 254
racismo e a incipiência das instituições internacionais
A Primavera Árabe foi o estopim para uma violenta Guerra Civil na Síria, que desde 2011 transformou o país em
uma das piores crises de deslocamento forçado do século XXI. A crise Síria produziu a maior onda de
deslocamento forçado desde a Segunda Guerra Mundial e o início de registro de casos por órgãos
internacionais. O Alto-Comissariado da ONU para Refugiados estima que, até 2022, 13,5 milhões de sírios
foram obrigados a deixar suas casas em razão da crise e precisam de ajuda humanitária, o que representa dois
terços da população. A Unicef também emite alertas constantes para a situação de vulnerabilidade das
crianças sírias, a instituição estima que 90% delas precisem de apoio, relatando graves crises de desnutrição
infantil, fechamento de escolas, traumas psicológicos e fragilidade econômica. Por sua vez, os dados mais
recentes do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas apontam que cerca de 90% da população síria
esteja vivendo abaixo da linha da pobreza, situação que piorou com as sanções econômicas, a pandemia de
Covid-19, a falta d’água e as fortes secas, além dos terremotos em 2023 que afetaram enormemente a região.
Apesar desses fatos, a Síria não parece comover, assim como outros tantos trágicos e emblemáticos casos de
crise humanitária no “terceiro mundo”. Mesmo com todo envolvimento militar internacional — o que é, claro,
bastante oneroso — a situação humanitária na Síria é amplamente negligenciada, o sofrimento humano e as
necessidades da população síria foram colocados muito abaixo dos empreendimentos e agendas políticas.
Não obstante, a recente crise humanitária na Ucrânia revelou como o mundo pode ser sim generoso e proativo,
com metas de ajuda humanitária sendo alcançadas e os refugiados sendo bem recebidos, o problema é que
essa solidariedade parece ser, infelizmente, seletiva. O que a Síria, Palestina, Iêmen e outras crises
humanitárias que vem sendo negligenciadas possuem em comum que não despertam nas organizações
internacionais a mesma urgência que a crise ucraniana foi capaz de despertar? Porque a população síria
encontra tanta dificuldade em ser recebida por outros países? O objetivo desta comunicação é discutir como
essa população de refugiados se soma a outras crises humanitárias no Oriente Médio em uma situação caótica
que revela a pouca vontade das potências internacionais em solucionar ou amenizar tais crises.
Apoio:
Comparações ambulantes: cartografias da imigração contemporânea e o comércio de rua: imigrantes
africanos, latino-americanos e caribenhos no Rio de Janeiro, séculos XX e XXI
Manuela de Souza Mendes (PUC-RIO), Carolina Ferraz de Oliveira Alves Machado (PUC-RIO), Beatriz Ferraro
Oliveira Aguiar (PUC-RIO), Clara Rodrigues Batista Sanfins (PUC-RIO)
A proposta de pesquisa deste trabalho é apresentar algumas das possibilidades de análise das questões
envolvendo a imigração no Brasil nos primeiros anos da década de 1930 a partir de registros de chegada de
imigrantes na Ilha das Flores, no Rio de Janeiro. Buscaremos traçar trajetórias e entender o perfil de alguns
desses imigrantes e as circunstâncias de suas chegadas, pretendendo ressaltar a diversidade de estudos
possíveis a partir dos variados contextos políticos, sociais e históricos que envolviam estas pessoas. Nossos
critérios de análise incluem possíveis questões étnicas, de gênero, nacionalidade e econômicas, bem como os
acontecimentos que se desenvolviam tanto em território nacional como em dimensões internacionais naquele
período. Em paralelo pretendemos construir uma base teórica sólida através do estudo e análise de textos que
atravessam a questão da imigração através da historiografia e outras áreas, como: Reflexões sobre o exílio de
Edward Said, Política do Exílio de Giorgio Agamben e Estrangeiros Residentes de Donatella di Cesare. Nesse
sentido, pretendemos dar vida e voz a documentos estáticos através de um trabalho que una em seu corpo as
questões políticas, sociais e históricas da migração ao mesmo tempo que enxerga os indivíduos migrantes
como pessoas múltiplas com suas próprias histórias e trajetórias.
Apoio:
Prosopografia como método de pesquisa para o campo da história: um estudo do grupo Refugiados do
Vaticano
André Joaquim Gonçalves de Campos Junior (UFRJ), Marcus Vinícius Pereira-Silva (Fiocruz)
Discute a aplicação da prosopografia como método de pesquisa no campo da história a partir de uma
investigação cujo objetivo é analisar a rede social de apoio de um grupo de cerca de mil refugiados que
receberam visto permanente no Brasil durante o governo de Getúlio Vargas graças à diplomacia entre o Vaticano
e o Ministério do Exterior brasileiro, denominados neste trabalho como “Refugiados Vaticano”. Paralelamente,
aborda a gestão, compartilhamento e abertura de dados de pesquisa nas humanidades, em especial na
história. Entende a prosopografia como “pesquisa das características comuns de um grupo de atores na
história através do estudo coletivo de suas vidas” (Stone, 1971, p. 46). A partir de registros dos Refugiados do
Vaticano (certidão de nascimento, certidão de casamento, certidão de óbito, entre outros) recuperados em
bases de dados genealógicas (FamilySearch, Ancestry e MyHeritage), a prosopografia permitirá traçar o perfil
desse grupo, de modo a descrever sua dinâmica cultural e social, suas redes de relações e suas características
socioeconômicas, religiosas, entre outras. A prosopografia também será utilizada para determinar as posições
que os membros do grupo ocupavam no meio social ao longo do tempo (Monteiro, 2014), a fim de levantar
perguntas gerais que conduzam a respostas particulares sobre as condições de emigração, a seleção do grupo
e, eventualmente, sua ação política nos países origem. Para aplicação do método, foi desenvolvido um banco
de dados utilizando o RedCap, software para coleta, gerenciamento e disseminação de dados de pesquisas, e
está prevista a elaboração de um plano de gestão de dados para posterior compartilhamento em um repositório
de dados de pesquisa – o ArcaDados.
256
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio:
ST 35
Visões da Ásia: historiadores brasileiros e estudos asiáticos
Coordenação:
Célia Cristina da Silva Tavares (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
Sessão 1
08/07/2024 (13:30 - 18:00)
"No coração do mundo": O Colonialismo britânico no Oriente Médio Sob a Lente de Mark Sykes (1911-1916)
No contexto da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), é assinado de forma secreta o Acordo Sykes-Picot em
1916, tratado diplomático que dividiu a região do Oriente Médio em áreas de influência permanentes entre a
França e Inglaterra, cabendo à Inglaterra o que chamamos de Iraque e Palestina, e à França, o Líbano e a Síria.
Neste trabalho, apresento a trajetória de um dos artífices deste acordo que selou o destino da região, o
diplomata britânico Sir. Mark Sykes, tendo por marco cronológico o período que se estende de 1911 – ano em
que se torna membro do Parlamento inglês pelo Partido Conservador – até 1916, quando o acordo é
consumado. Considerando o papel central de Sykes na formulação e aplicação da política colonial britânica, a
presente investigação pretende trazer nova luz sobre um capítulo particularmente escamoteado da expansão
imperial europeia: as disputas inter-imperialistas no sudoeste asiático, através da lente de Mark Sykes.
257
O trabalho tem como enfoque o estudo e análise de obras literárias do século XIX e XX que foram produzidas
por autores britânicos e indianos, realizando uma correlação de como obras literárias estavam intimamente
relacionadas ao discurso de legitimação que o imperialismo produziu, além da formação de narrativas
anticoloniais. O estudo do imperialismo, por muitas vezes, tem a característica de dar ênfase às análises
políticas e econômicas desse período, descartando as concepções de outros campos do conhecimento. Dessa
maneira, o estudo da área cultural, que muito vem dos estudos pós-coloniais por dar espaço para esses outros
campos, se faz imprescindível para se entender a relação e influência que as práticas imperialistas têm sobre
a formação cultural. Pensando nisso, o objetivo é refletir o papel da literatura, focando nas obras de Rudyard
Kipling, Rabindranath Tagore e Amitav Gosh, para o entendimento de como seus trabalhos foram utilizadas para
fomentar o processo de dominação Imperial e de que maneira podemos identificar a produção literária em um
contexto anticolonial, apresentando a visão de autores indianos sobre sua própria identidade. Considero que
a utilização dos romances desses autores como fontes, podem ajudar a compreender conceitos que são
desenvolvidos por teóricos como Edward Said e Gayatri Spivak, sobre o papel que as populações ditas
“Subalternas”, ou julgadas como “outros”, tem dentro da construção colonial que foi realizada. Essas obras têm
como função social, além de seu papel consagrado na literatura e cultura, uma participação ativa no viés
político-econômico para a formação dos discursos de legitimação e na construção de identidades. Deste
modo, a demonstração de que esses autores também fizeram parte do processo imperial é fundamental para
se compreender a forma como essas obras foram utilizadas no discurso de legitimação desse processo, além
da demonstração de uma literatura anticolonial que representava a formação de uma autorrepresentação por
parte da colônia. Não no aspecto de realizar uma condenação de uma forma comparativa entre literaturas, que
são consagradas pelas suas narrativas de construção ficcionais e se utilizam da genialidade da escrita em sua
Apoio:
melhor forma, mas demonstrando que, estas obras, são objetos de um processo que foi fundamental para o
estabelecimento e construção social e cultural em diversas partes do mundo.
O Fascismo no espaço da colônia: Um estudo sobre o livro We or Our Natonhood Defined de Madhav
Sadashivrao Golwalkar e seus paralelos com o fascismo
A ideia do fascismo enquanto circunscrito a Europa ainda ronda o meio acadêmico. O presente estudo busca
entender como o fascismo se apresenta, no movimento anticolonial indiano de meados do século XX, através
da figura de Madhav Sadashivrao Golwalkar. Para tal fim, será analisado o manifesto “We or Our, Nationhood
Defined”, livro seminal para o Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) movimento que Golwalkar foi líder no
período de 1940 até sua morte em 1973. Através da análise conjunta, entre a trajetória do autor no movimento
anticolonial, e as absorções de comportamentos fascistas observados na Europa, o estudo busca apreender
como o fascismo supremacista hindu, pode se apresentar para além da Europa. Preservando a perseguição à
minorias e opositores internos, mas também enquanto crítica anticolonial. A partir disto, o estudo busca na
fonte a correlação entre o conteúdo do manifesto com a ideologia fascista, isto através de exaltações e elogios
aos países ou a ideologia. E também busca a crítica e entendimento da magnitude do imperialismo, através de
ataques à Inglaterra e as ações que a metrópole impõe a Índia como forma de dominação colonial.
A queda da última utopia: imaginações de futuro no romance Vagabonds (2020) de Hao Jingfang
258
Giovana do Nascimento Bruno (PUC-RIO)
Esta apresentação se dedicará a analisar o romance Vagabonds (2020) da escritora chinesa Hao Jingfang,
investigando a relação entre categorias de temporalidade e discursos tecnológicos figuradas na obra. Hao, grande
expoente do gênero da ficção científica, confecciona, em Vagabonds, um cenário de tensão entre as sociedades na
Terra e Marte, essa última um regime comunista autônomo após uma guerra de independência. A narrativa é guiada
pela protagonista Luoying Sloan — nativa de Marte que retorna ao seu planeta natal após cinco anos na Terra — e seu
desencantamento com a utopia marciana. O mote de seu arco fundamenta-se em sua dificuldade de conciliar as
distintas noções de temporalidade e individualidade que vivenciou em ambos os planetas. No decorrer da análise,
serão consideradas as dimensões estético-formais e de historicidade dos textos, no que tange à sua inserção nas
práticas literárias e no contexto histórico-sociológico da sociedade chinesa contemporânea; método nos informado
pelas abordagens Novo Historicistas. Norteando a proposta, está o conceito de ‘sinofuturismo’, termo que
corresponde a um subgênero de ficção científica relacionado à percepção do Ocidente de obras de ficção científica
chinesa, tornando-se, porém, espaço de disputa de narrativas entre público, críticos ocidentais e autores chineses.
Objetiva-se que tal diálogo, em seus procedimentos e questões abordadas, seja guiado pelas novas inflexões na
historiografia que questionam construtos teóricos como Modernidade e Literatura Mundial com objetivo de revisitá-
los, contemplando disjunções e relações de poder no plano de fundo de sua formação. Assim, a mobilização das
categorias de tempo — conjectura, utopia, distopia — serão feitas em dois níveis: a) como estratégias narrativas; b)
como engajamento em um debate político. À vista disso, as práticas tecnológicas figuradas no romance estão
diretamente ligadas a projetos de futuros possíveis; as sociedade por ela imaginadas estão subservientes, portanto,
ao modelo e à discursividade tecnológica. Selecionamos, desse modo, específicas passagens do romance que
centram-se no arco das distintas visões de mundo entre Marte e Terra, e seus embates acerca do domínio e possíveis
usos da tecnologia, a fim de debruçarmo-nos no debate sobre ética, sustentabilidade e igualdade proposto por Hao.
Finalmente, sublinhamos que a apresentação provém da agenda literária de Hao Jingfang, a qual explora diversas
formas de pensamento que se conectam de maneira crítica e propositiva com várias culturas contemporâneas ao
redor do mundo, sugerindo uma nova escrita ficcional sobre a construção da modernidade.
Apoio:
Brasil e Índia: diálogos, colaborações e trocas culturais, artísticas e teatrais
A presente comunicação visa ser um espaço de trocas, diálogos e reflexões sobre as expressões culturais, artísticas e
teatrais indianas e brasileiras e os contextos históricos, sociais e políticos de ambos países. Nesse sentido, serão abordadas
possibilidades de colaborações entre o Brasil e a Índia, tendo como base as pesquisas em andamento sobre o Teatro
Indiano na Contemporaneidade, que vêm sendo realizadas durante o Pós-doutorado Júnior (PDJ) junto ao Programa de Pós-
Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (PPGAC-UNIRIO), no âmbito do
“Programa de Apoio à Fixação de Jovens Doutores no Brasil”, com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico – CNPq e da FAPERJ - Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de
Janeiro. Em linhas gerais, as bases metodológicas da pesquisa contemplam a investigação de grupos teatrais indianos
localizados em diferentes regiões da Índia através da análise de fontes escritas, orais, fotográficas, audiovisuais,
documentais e bibliográficas, colaborações com artistas e pesquisadores da Índia e pesquisas de campo junto à grupos
teatrais e instituições acadêmicas, culturais e artísticas indianas. Nesse âmbito, diversa(o)s pesquisadora(e)s e artistas
indiana(o)s e brasileira(o)s integram o referencial teórico da pesquisa, como: Sharmistha Saha, Usham Rojio, Brahma
Prakash, Arjun Ghosh, Suchetana Banerjee, Leda Maria Martins, Zeca Ligiéro, Denise Zenicola, Juliana Manhães, dentre
outra(o)s. Serão abordadas também as atividades realizadas junto à instituições acadêmicas, culturais e artísticas e à
grupos teatrais durante as pesquisas de campo realizadas na Índia durante o doutorado entre 2018 e 2019, quando
desenvolvi pesquisas sobre o Teatro Político Indiano nos séculos XIX e XX através da experiência da Indian People’s Theatre
Association e as pesquisas sobre o Teatro Indiano na Contemporaneidade no século XXI, realizadas recentemente em 2024
durante o pós-doutorado em andamento, que contribuíram para o aprofundamento das pesquisas sobre a história, as
culturas e as artes indianas e sobre possibilidades de diálogos, colaborações e trocas entre artistas e pesquisadores 259
indianos e brasileiros. Assim, a presente pesquisa visa contribuir com as áreas das Artes Cênicas, da História do Teatro e
das Ciências Humanas e com o estabelecimento de diálogos entre o Brasil e a Índia, países com amplos e representativos
movimentos culturais, artísticos e teatrais.
Sessão 2
09/07/2024 (13:30 - 18:00)
O narcisismo Ibérico: A visão portuguesa e a transição da imagem idealizada do Reino Etíope na primeira
modernidade
Este trabalho tem como objetivo analisar a transição da visão portuguesa idealizada sobre o oriente, por meio da
expansão marítima durante a primeira modernidade. O caso específico em análise é a visão portuguesa sobre o reino
etíope, pensado como as Índias do Preste João no século XIV que foram introduzidas no contexto da expansão
portuguesa. Este processo de expansão, ao mesmo tempo que demarcou a transição da idealização para a postura do
colonialismo moderno fez com que os portugueses repensassem a imagem do “outro”/etíope. Deste modo, a partir da
expansão do horizonte conhecido houve um processo de assimilação deste “outro distante” ao trazer para o âmbito
prático no rompimento da idealização pelo atrito com alteridade. Para este fim foi utilizado como fonte o livro impresso,
no ano de 1540, “Oh Preste João das Índias” escrito pelo padre secular Francisco Álvares que foi capelão da embaixada
portuguesa na Etiópia, no ano de 1515, capitaneada por D. Duarte Galvão. Esta missão, durante o reinado de D. Manuel,
tinha como objetivo a aproximação do reino português com o suposto reino do Preste João das Índias, circunscrito na
região do reino da Etiópia, considerado como Índia Média, no século XVI. D. Manuel seguindo a tradição de D. João II
inseriu o reino Etíope como uma possível articulação no bojo de uma campanha cruzadística de oposição ao islamismo.
A missão buscou formalizar os laços entre “cristianismos” e asfixiar o comércio das especiarias dos mouros por meio
da interrupção do eixo Índia-Meca-Mediterrâneo consolidando o controle cristão no Mar Vermelho. Destarte, seguimos
Apoio:
a divisão deste trabalho da seguinte maneira: uma visão a priori a viagem, composta por uma idealização sobre o oriente
e sobre o “outro-distante”, difundida pela literatura do século XIII-XIV sobre o reino do Preste João. Esta visão enfatizou o
exótico e o maravilhoso combinado com a ânsia esperançosa lusitana em dialogar com os reinos cristãos orientais, o
que no período do século XVI incentivou a expansão “em busca de cristãos e especiarias”. Em contrapartida, na
materialização da missão, há possibilidade de considerar uma visão a posteriori com a desconstrução da imagem do
oriental/etíope em uma nova. Os portugueses neste processo de assimilação decompõem em “próximo” o “distante”,
por meio de suas noções preexistentes. Utilizam a sua bagagem cultural criando uma imagem objetiva do oriente que
conduziu a uma relação colonialista, resultando em um atrito identitário entre o “eu-europeu” e o “outro-oriental”.
Este projeto de pesquisa tem por objeto os conceitos (em especial, o de filipino) e a lógica que constituíram a luta
revolucionária das Filipinas ao final do século XIX e suas principais influências. O objetivo é buscar delinear as
continuidades da luta anticolonial filipina, para tanto, serão adotados procedimentos da chamada história conceitual,
entendida enquanto método de análise. Através dos postulados teóricos desta corrente historiográfica procura-se
descortinar a relação entre o movimento anticolonial filipino e a própria intelectualidade europeia. Intenta-se produzir
uma cartografia dos conceitos, mapeando as continuidades e descontinuidades que perpassam os movimentos
nacionalistas, na perspectiva sistemo-mundista, desaguando em uma história comparada dos movimentos anti-
coloniais, reforçada por uma abordagem de aprofundamento na compreensão do conceito “filipino”. Articulando e 260
utilizando fontes pouco presentes nos campos de pesquisa, como, por exemplo, um periódico anarquista brasileiro que
trata do caso filipino ("A Lanterna", 1911), mas que muito tem a agregar na história política dos conceitos e no quadro
mais amplo da constituição de uma base historiográfica tradicionalmente negligenciada, observar a história do
nacionalismo filipino como precursor na Ásia, ajuda a ratificar a frutífera hipótese das continuidades não somente do
colonialismo, mas das movimentações anticoloniais, e das conexões fruto do desenvolvimento do sistema-mundo.
Colocar o caso filipino em evidência é uma tentativa de utilização do escopo global na análise do colonialismo (e
anticolonialismo) e buscar compreender os "Latinos da Ásia" (OCAMPO, Anthony C., "The Latinos of Asia", 2016).
Sob o prisma da caridade. Notas sobre da Misericórdia de Goa e do Rio de Janeiro (c. 1640 – c. 1750)
A Irmandade de Nossa Senhora da Misericórdia emerge como um espaço onde o poder é definido, disputado e
negociado, reunindo membros da elite local e desempenhando um papel intermediário entre as autoridades
centrais e locais no contexto do Império Português durante a época Moderna. Em uma sociedade
fundamentada na economia das mercês, esta instituição serviu como um meio de negociação de privilégios,
com vistas à justiça distributiva. Ela oferecia, por exemplo, oportunidades para indivíduos estabelecidos nas
colônias ultramarinas, distantes do centro de decisões políticas da Coroa, onde o acesso a cargos de destaque
na burocracia monárquica era limitado. Ao considerarmos a Irmandade de Nossa Senhora da Misericórdia
como um ponto focal significativo nas redes institucionais do Império Português, é possível observar não
apenas sua função operacional dentro da sociedade, mas também as conexões sociais e políticas
estabelecidas pelos membros influentes da instituição. Ser parte desta irmandade era uma posição de prestígio, sujeita
a regras estritas, e não acessível a todos. Era uma distinção buscada por muitos, seja devido à associação com a Coroa
ou ao poder que exercia dentro das estruturas sociais locais. Esses indivíduos desempenharam um papel direto na
formação das comunidades locais e em suas hierarquias, influenciando a dinâmica colonial como um todo. Uma
abordagem analítica conectada desloca o foco do eurocentrismo, direcionando-o para os espaços não hegemônicos
dentro do Império Português. Nesta comunicação, nos concentraremos na análise de duas Misericórdias: uma em Goa,
Apoio:
centro administrativo do Estado da Índia portuguesa, e outra no Rio de Janeiro. A análise comparativa dessas duas
instituições, enraizadas em regiões distintas do vasto território sob domínio português, permitirá uma compreensão
mais profunda não apenas de seu funcionamento interno, mas também dos arranjos políticos e sociais que permeavam
a instituição e seus líderes. Ao pluralizarmos a reflexão, buscamos rastrear os impactos das Misericórdias nas estruturas
sociais da época, bem como seu papel como instituições lideradas por homens brancos que faziam parte de diversas
elites locais, o que nos permite uma aproximação entre as experiências que conectavam os territórios ao Sul do mundo.
A presente pesquisa tem como objetivo identificar e analisar a representação atribuída aos japoneses, na coletânea de
missivas jesuíticas publicada em 1598, comumente conhecidas como Cartas de Évora. Os missionários, ao relatarem
sobre o Japão, descrevem o arquipélago segundo sua visão católica, valorizando e condenando determinados aspectos
da vida cultural, política e religiosa dos japoneses. Para além disso, a edição eborense eleva estas questões, ao
considerar a narrativa dos padres e alterá-la para melhor servir aos interesses da Igreja Católica e da Companhia de
Jesus, resultando em uma interpretação enviesada das ações dos jesuítas e do Japão. Assim, a análise deste
documento busca demonstrar como esse texto fora construído e suas razões para existência, levando em conta seu
contexto histórico e seus criadores. Ademais, o exame da narrativa apresenta um enfoque em como o escritor considera
seu leitor, utilizando-se de recursos textuais de narrativas de viagem e ethos católico.
261
Antônio de Quadros e administração da Companhia de Jesus no Estado da Índia
Provincial da Companhia de Jesus na Índia de 1559 a 1572, período em que foi fundada e consolidada a
Inquisição de Goa. O estudo procura assinalar aspectos de aproximação e distanciamento entre as duas
instituições que projetavam planos para o esforço de conversão das populações locais. O padre Antônio
Quadros nasceu em 1544, estudou filosofia e teologia, destacando-se a ponto de ter sido secretário do
visitador Jerônimo Nadal, em 1553. Foi para a Índia em 1555 e logo ficou responsável pela administração da
Companhia de Jesus na região.
Um santo brâmane? A atuação performática de João de Brito no interior da Província jesuítica do Malabar
(1673-1693)
Este trabalho é fruto dos resultados obtidos no desenvolvimento de minha dissertação de Mestrado, defendida em 2024
no âmbito do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, sob orientação
das professoras Patrícia Souza de Faria e Célia Cristina da Silva Tavares. O trabalho tem como objeto de estudo João de
Brito, que nasceu em Lisboa e atuou como missionário na Província Jesuítica do Malabar, na Índia, entre 1673 e 1693,
especificamente na missão do Madurai. Buscando evitar as dificuldades originadas pela falta de controle português e
influência das dinâmicas políticas locais, Brito adotou um método conhecido accomodatio, que consistia na adaptação do
missionário aos costumes e práticas locais com o intuito de favorecer a conversão das populações da região. A pesquisa
analisa a segunda edição de sua biografia, escrita por seu irmão, intitulada “História do nascimento, vida e martírio do Beato
João de Brito”, publicada pela primeira vez em 1722 e republicada em 1852, que busca construir sua imagem como um
Apoio:
santo, um missionário que teria adotado os hábitos e vestimenta dos brâmanes, uma casta de alto prestígio. Ao decorrer da
análise da biografia foi possível constatar que apesar da narrativa afirmar constantemente que Brito teria missionado aos
moldes do método de Roberto de Nobili, ou seja, de ter se “transformado” em um brâmane europeu, na verdade, Brito teria
realizado o método de accomodatio a partir da subcasta dos pandares. Desta forma, o jesuíta pode exercer um caráter
intercambiável entre a sociedade de castas, podendo conviver ao mesmo tempo, com intocáveis e brâmanes. Para além
disso, foi possível identificar que João de Brito, apesar de ser um missionário português de origem nobre, ligado aos
empreendimentos coloniais lusos e que teve toda sua formação circunscrita a instituições portuguesas, demonstrou apoio
público ao método de Roberto de Nobili, com menções nominais ao jesuíta italiano. Tal constatação coloca em jogo uma
tradição historiográfica que buscou analisar o uso e apoio ao método de accomodatio na Índia a partir de perspectivas
nacionais, identificando uma disputa entre portugueses e italianos. A obtenção destes resultados só foi possível a partir de
uma perspectiva de análise que buscou conjugar Antropologia e História através do conceito de Performance. Deste modo,
foi possível observar a figura de João de Brito através de uma abordagem complexificada, identificando suas diferentes
performances a partir dos contextos perpassados por sua trajetória missionária.
Durante a Idade Moderna, a Companhia de Jesus desempenhou um papel crucial na evangelização das populações
orientais, particularmente em regiões consideradas periferia do Império Português, como o Japão. Isso envolveu a
complexa habilidade em mediar a ortodoxia tridentina e as diversas realidades asiáticas, e neste contexto, os 262
catecismos e doutrinas desempenharam um papel essencial como gênero retórico na evangelização dos japoneses e
na instrução dos convertidos. Nos séculos XVI e XVII, as principais doutrinas e catecismos utilizados pelos jesuítas no
Japão foram o Catecismo Breve, de Francisco Xavier; a Doutrina Cristã, de Marcos Jorge; e o Catecismo da Fé Cristã, de
Alessandro Valignano. No processo de tradução cultural, os catecismos e doutrinas incorporaram elementos
simbólicos da religiosidade japonesa a fim de facilitar a compreensão da mensagem cristã, assim como também foram
usados para confrontar e ressignificar as crenças nativas, se tornando um poderoso instrumento de combate aos velhos
hábitos morais e espirituais japoneses, ligados ao xintoísmo e ao budismo. No aspecto pedagógico ligado ao
treinamento do clero japonês, Alessandro Valignano, Pedro Gómez e D. Luís Cerqueira permitiram que os catecismos
assumissem o papel de instrumento teológico essencial à formação dos catequistas e dos seminaristas japoneses.
Nesse sentido, o estudo comparativo entre as doutrinas de Xavier, Jorge e Valignano tornam-se fundamentais para a
compreensão do caráter transformador do catolicismo no contexto social e religioso japonês, a partir da evangelização.
Sessão 3
10/07/2024 (13:30 - 18:00)
Sessão 4
12/07/2024 (13:30 - 18:00)
Apoio: