Na madrugada de hoje, dia 30 de Julho de 2024, meu avô
morreu devido à complicações de um ataque cardíaco.
Peço perdão por começar a carta desta forma, mas foi o
que me fez escrevê-la. Meu tio acabou morrendo alguns
anos atrás, e isso também me fez repensar muita coisa, a
vida é algo frágil e valioso, e como eu estou tratando a
minha? Eu não me sinto triste com o que ocorreu com ele,
ele tinha vivido uma boa vida, já estava com uma boa
idade, e pelo menos teve uma morte “gentil”.
Porém, eu não consigo parar de pensar na minha
vida, no jeito como eu vivo. Nine, eu penso frequentemente
no que você me disse na última vez que a gente se falou.
Eu posso mudar. Eu sei disso, todo mundo é capaz de
mudar de uma forma ou outra, eu decidi muitas vezes nos
últimos tempos que iria me esforçar para mudar, mas não
consegui. Ou era isso que eu achava, quando eu pensava
em “mudar”, eu pensava em alterar completamente a
minha personalidade e o meu modo de agir. Talvez fosse
realmente isso o que você quis dizer, mas eu agora vejo de
outra forma.
Eu não preciso me tornar outra pessoa, o que eu
realmente preciso fazer é ser eu mesma. Esse é o real
problema que eu identifiquei, eu não estava sendo eu
mesma, eu estava tentando ser uma versão ideal de mim
mesma. Eu tentava fazer tudo o que eu achava que eu
deveria fazer, mas você mesmo é uma prova da eficácia
disso.
Foi ainda esse mês, na faculdade. Professor passou
um trabalho em grupo, eu estava com medo de ter que
interagir com o pessoal da sala, acabei ficando em um dos
grupos que sobraram. Minha reação? Só ser o mais
“profissional” possível para fazer um bom trabalho, só falar
quando fosse o momento certo... Mas claro que eu não fiz
só isso, sempre que aparecia um assunto no meio do
trabalho eu dava minha opinião, argumentava sobre meus
pontos de vista, e sabe como foi isso? Simplesmente
espetacular, foi a primeira interação genuína que eu tive
com os meus colegas, eu agi como eu ajo comigo mesma,
e era justamente o que o pessoal esperava.
Há um constante conflito entre o corpo, a mente e o
espírito humano, Nine. O corpo tenta se manter em
equilíbrio a qualquer custo, a mente tenta seguir os
instintos e a racionalidade. E o espírito? O espírito busca
viver, ter os prazeres e as dores que apenas a vida real
traz. O corpo vai se opor a isso, o mínimo de esforço é um
desperdício de energia, pode acabar prejudicando o corpo
em múltiplas formas. A mente vai se opor, vai
racionalmente te indicar todas as formas como as coisas
podem dar errado, como apenas seguir o cotidiano é a
melhor forma de prosseguir. Mas o espírito? O espírito não
conhece medo, não conhece dor, só conhece o mundo e a
si próprio.
É isso que eu devo ser, Nine, não devo seguir o que
meu corpo diz, não devo escutar os medos do meu
cérebro, eu devo seguir o que meu espírito quer que eu
siga, e é isso que eu tento fazer desde a última vez que
nos falamos. Estou tentando ser eu mesma. Eu voltei a
escrever meu livro, estou de novo fazendo pixel art, estou
saindo para caminhar na neblina da manhã. Estou todo
santo dia acordando com um sorriso em meu rosto,
determinada a seguir em frente independente do que esteja
por vir.
Eu aceitei o sofrimento como uma parte natural da
vida, mas não sou estúpida, do tipo que acredita que a dor
fortalece, eu me esforço para evitar o sofrimento, apenas
acredito que sempre vai haver mesmo que um pouco de
dor, independente do momento, pois esta é a vida. E é isso
que faz eu ser eu mesma, eu não mais tento fazer o
máximo possível para ser perfeita, eu aceito minhas falhas,
aceito o inevitável sofrimento que a vida traz, e
independente disso, sigo em frente com a cabeça erguida.
Ainda há muito o que fazer, eu preciso tentar conhecer
gente nova, tentar me esforçar mais pra ser quem eu
realmente sou. Contar pro meu pai que eu sou trans,
começar a seguir meu sonho de me tornar escritora, esse
tipo de coisa. Mas eu sei que esse tipo de coisa não ocorre
de um dia para o outro, é algo gradual.
Eu queria acima de tudo te agradecer, por tudo que
você fez enquanto nós ainda nos falávamos, e em especial
pelas palavras que você me disse da última vez que nos
falamos. Sinto muito se você não conseguiu entender nada
da carta, ela provavelmente faz muito mais sentido na
minha mente, eu ainda estou confusa depois do ocorrido
com meu avô. Não acredito que eu esteja apta a começar a
falar novamente com você, mas mesmo assim aguardo o
dia em que possamos nos falar novamente.
Atenciosamente.
Anastácia Taxweiler Picur - ANTTW