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Extrativismo Vegetal na Amazônia: Viabilidade e Desafios

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Extrativismo Vegetal na Amazônia: Viabilidade e Desafios

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Extrativismo

história, ecologia,
economia e domesticação

Vegetal na Amazônia
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
Embrapa Amazônia Oriental
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Embrapa
Brasília, DF
2014
Introdução1
Depois do assassinato, em 22 de dezembro de 1988, do líder sindical
Chico Mendes (nascido em 1944), o extrativismo vegetal passou a
ser considerado como a grande ideia ambiental brasileira para conter
os desmatamentos e queimadas na Amazônia e em outras partes
do mundo tropical. A grande pergunta que ica é se realmente o
extrativismo vegetal, defendido pelos seguidores de Chico Mendes,
seria a forma ideal de desenvolvimento para a Amazônia. Qual
seria a viabilidade econômica da extração de produtos lorestais não
madeireiros? (HOMMA, 2010a, 2010b).

A importância econômica de produtos extrativos tem apresentado


modiicações ao longo da história. Assim é o caso de vários produtos
extrativos que tiveram grande importância na formação econômica,
social e política da Amazônia. Entre esses produtos podem ser
mencionados as “drogas do sertão” e o cacau (heobroma cacao
L.) no período colonial, a borracha (Hevea brasiliensis M. Arg.), a
castanha-do-pará (Bertholletia excelsa H.B.K), o palmito e o fruto
do açaí (Euterpe oleracea Mart.) e a extração da madeira, entre os
principais. A sustentabilidade da extração dos recursos extrativos
apresenta modiicações com o progresso tecnológico, o surgimento
de alternativas econômicas, o crescimento populacional, a redução
dos estoques, os níveis salariais da economia, as mudanças nos preços
relativos e outros fatores. De uma forma geral, as atividades extrativas
se iniciam, passam por uma fase de expansão, de estagnação e depois
declinam, no sentido do tempo e da área espacial.

A opção extrativa como uma solução viável para o desenvolvimento da


Amazônia deve ser considerada com cautela. Para produtos extrativos
que apresentam um grande estoque natural, como é o caso do fruto e
do palmito de açaí, da madeira, da castanha-do-pará e até mesmo da
seringueira, medidas devem ser tomadas para permitir uma extração
1
Versão ampliada da publicação: Homma (2012).
18 Extrativismo Vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação

mais balanceada. A manutenção do extrativismo não deve ser feita em


detrimento das alternativas tecnológicas decorrentes da domesticação.

Para muitos produtos, a oferta extrativa não consegue atender o


crescimento do mercado, como acontece com o pau-rosa (Aniba
rosaeodora Ducke), o bacuri (Platonia insignis Mart.), a madeira, o uxi
[Endopleura uchi (Huber) Cuatrecasas], a seringueira, entre outros.
São possibilidades econômicas que estão sendo negligenciadas para a
geração de renda e emprego. Nem sempre a sustentabilidade biológica
garante a sustentabilidade econômica e vice-versa e o crescimento
do mercado tende a provocar o colapso da economia extrativa pela
incapacidade de atender a demanda. É falsa a concepção que considera
todo produto não madeireiro como sustentável.

A redução dos desmatamentos e queimadas na Amazônia vai


depender de ações concretas visando à utilização parcial da fronteira
interna já conquistada em vez da opção extrativa que apresenta
grandes limitações e do contingente populacional envolvido. Nesse
sentido, a implementação de políticas agrícolas é mais importante do
que a própria política ambiental para resolver as questões ambientais.
A ênfase na biodiversidade abstrata tem prejudicado a deinição de
rumos concretos de políticas públicas na Amazônia, esquecendo a
biodiversidade do presente e do passado. Os produtos extrativos que
apresentam alta elasticidade de demanda, ou quando todo o excedente
do produtor é captado pelos produtores, apresentam maiores chances
de sua domesticação imediata. Nem todos os produtos extrativos
vão ser domesticados, aqueles que apresentam grandes estoques na
natureza, baixa importância econômica, existência de substitutos,
diiculdades técnicas para o plantio e longo tempo para a obtenção
do produto econômico terão maiores diiculdades para que se
transformem em plantas cultivadas.

O extrativismo como ciclo econômico


O extrativismo constitui um ciclo econômico de três fases distintas
(Figura 1). Na primeira fase, veriica-se um crescimento na extração,
quando os recursos naturais são transformados em recursos
econômicos com o crescimento da demanda. Na segunda fase, atinge-
se o limite da capacidade de oferta, em face dos estoques disponíveis
e do aumento no custo da extração, uma vez que as melhores áreas
tornam-se cada vez mais difíceis. Na terceira fase, inicia-se o declínio
na extração, com o esgotamento das reservas e o aumento na
demanda, induzindo ao início dos plantios, desde que a tecnologia
de domesticação esteja disponível e seja viável economicamente.
Muitos plantios foram iniciados pelos indígenas e pelas populações
tradicionais, identiicando as plantas com as melhores características
de interesse e, posteriormente, nas instituições de pesquisa. A expansão
da fronteira agrícola, a criação de alternativas econômicas, o aumento
CAPÍTULO 1 - Extrativismo vegetal ou plantio: qual a opção para a Amazônia? 19

da densidade demográica, o processo de degradação e o aparecimento


de produtos substitutos são também fatores indutores desse declínio.
Figura 1. Ciclo do
extrativismo vegetal na
Amazônia.

Fonte: Homma (1980).

A sustentabilidade do extrativismo vegetal também depende do


mercado de trabalho rural, no qual, com a tendência da urbanização,
a população rural está perdendo seu contingente não só em termos
relativos mas também em termos absolutos. Com isso, aumenta o
custo de oportunidade de trabalho no meio rural, o que tende a tornar
inviável a manutenção do extrativismo e da agricultura familiar, dada
a baixa produtividade da terra e da mão de obra. Em longo prazo, a
redução do desmatamento na Amazônia seria afetada pelo processo
de urbanização e da redução da população rural em termos absolutos,
promovendo a intensiicação da agricultura e, com isso, os recursos
lorestais sofreriam menor pressão.

A dispersão dos recursos extrativos na loresta faz com que a


produtividade da mão de obra e da terra seja muito baixa, tornando essa
atividade viável pela inexistência de opções econômicas, de plantios
domesticados ou de substitutos sintéticos. Conforme alternativas
são criadas e as conquistas sociais elevam o valor do salário mínimo,
torna-se inviável a sua permanência, por ser uma atividade com baixa
produtividade da terra e da mão de obra. Um dos erros dos defensores
da opção extrativa para a Amazônia é considerar esse setor como
sendo isolado dos demais segmentos da economia.

A economia extrativa está embutida dentro de um contexto muito


mais amplo do que é tradicionalmente analisado. Em geral, a sequência
consiste em: descoberta do recurso natural, extrativismo, manejo,
domesticação e, para muitos, descoberta do sintético (Figura 2). No
caso do extrativismo do pau-rosa, por exemplo, passou diretamente do
extrativismo para a descoberta do sintético (HOMMA, 1992).
20 Extrativismo Vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação

Figura 2. Possíveis
formas de utilização do
recurso natural depois
da transformação em
recurso econômico.

Fonte: Homma (2008, 2012).

Logo após a descoberta do Brasil, o extrativismo do pau-brasil


(Caesalpinia echinata Lam.) foi o primeiro ciclo econômico do país,
tendo perdurado por mais de três séculos, e o início do esgotamento
dessas reservas coincidiu com a descoberta da anilina, em 1876, pelos
químicos da Bayer, na Alemanha. Outros produtos extrativos têm sido
afetados com a substituição por produtos sintéticos, como a cera de
carnaúba (Copernicia cerifera), o linalol sintético (essência de pau-rosa),
o DDT [timbó (Derris urucu Killip & Smith, Derris nicou Benth)], os
chicles sintéticos, a borracha sintética (três quartos do consumo mundial
de borrachas), entre outros exemplos (HOMMA, 1996).

Com o progresso da biotecnologia e da engenharia genética, é possível


que os recursos naturais possam ser domesticados ou sintetizados
diretamente da natureza sem passar pela fase extrativa. Esse
aspecto coloca poucas chances quanto à revitalização da economia
extrativa, com a descoberta de novos recursos extrativos potenciais,
principalmente fármacos e aromáticos. É possível que essa situação
ocorra no início ou quando o estoque de recursos extrativos disponíveis
for muito grande (HOMMA, 2008). A partir da década de 1990,
surgiram diversos cosméticos utilizando plantas da biodiversidade
amazônica. A grande questão é se esses novos produtos vão ser tão
populares como o Leite de Rosas desenvolvido pelo seringalista
amazonense Francisco Olympio de Oliveira, em 1929, e o Leite de
Colônia desenvolvido pelo médico, farmacêutico e advogado Arthur
Studart, em 1960, no Rio de Janeiro.

A fabricação de itoterápicos e cosméticos, que constitui a utopia de


muitas propostas do aproveitamento da biodiversidade na Amazônia,
além de demandar grandes custos de pesquisa e de testes, esbarra na
Medida Provisória 2.186-16, de 23 de agosto de 2001. Essa Medida
Provisória dispõe sobre o patrimônio genético, a proteção e o acesso
ao conhecimento tradicional associado à repartição de benefícios e
à transferência de tecnologia para a sua conservação e utilização. A
repartição de benefícios econômicos com comunidades nativas não
estimula grandes empresas a efetuar investimentos de alto risco.

É de se questionar se realmente existem essas megaoportunidades de


se apoiar apenas no procedimento tradicional de coleta extrativa, que
com certeza icará restrito ao mercado da angústia (PRADAL, 1979),
com a venda de chás, infusões e garrafadas das vendedoras da Feira
CAPÍTULO 1 - Extrativismo vegetal ou plantio: qual a opção para a Amazônia? 21

do Ver-o-Peso e de outros locais similares, com apelo folclórico e


turístico. O apelo mercadológico constitui no tratamento de doenças
totalmente impossíveis de serem identiicadas no passado (colesterol,
próstata, triglicerídeos, etc.).

O fenômeno da domesticação
A humanidade iniciou o processo de domesticação de plantas e
animais nos últimos 10 mil anos, tendo obtido sucesso com mais de
3 mil plantas e centenas de animais que fazem parte da agricultura
mundial. Desde quando Adão e a Eva provaram a primeira maçã
(Malus domestica) extrativa no Paraíso, o Homem veriicou que não
poderia depender exclusivamente da caça, da pesca e da coleta de
produtos lorestais.

A domesticação começa na seleção efetuada pelos próprios coletores,


observando as características úteis e, dependendo do crescimento do
mercado, tende a avançar para plantios, até mesmo em uma situação
de completa ausência de pesquisa (LEAKEY; NEWTON, 1994;
MAZOYER; ROUDART, 2010). Por outro lado, existem plantas para
as quais a domesticação tende a ser bastante difícil, como o uxizeiro,
com baixa e lenta taxa de germinação, diiculdade no processo de
enxertia e no longo tempo para a entrada do processo produtivo. Em
outras situações, a intervenção da pesquisa se torna necessária, como
foi o caso da domesticação da pimenta-longa (Piper hispidinervium),
planta nativa existente no Acre, de cujas folhas descobriu-se o safrol.
Sem o plantio seria totalmente impossível a sua exploração.

É paradoxal airmar que as tentativas de domesticação apresentam


chances de sucesso fora da área de ocorrência do extrativismo vegetal,
como aconteceu com o cacaueiro, a seringueira e o guaranazeiro.
Várias plantas amazônicas estão sendo cultivadas nos estados da Bahia,
Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, como aconteceu e
está ocorrendo com cacaueiro, guaranazeiro (Paullinia cupana HBK),
seringueira, açaizeiro, pupunheira (Bactris gasipaes HBK) e jambu
(Spilanthes oleracea). O alcaloide spilanthol presente nas folhas, ramos
e lores do jambu é descrito em patentes como apropriado para uso
anestésico, antisséptico, antirrugas, ginecológico, anti-inlamatório
e como creme dental, com diversos produtos no mercado vendidos
como remédio e cosmético. Essa é a razão da existência de 5 patentes
que utilizam o jambu, registradas no United States Patent and
Trademark Oice (USPTO), no período de 2000 a 2006 (1 americana, 1
francesa e 3 japonesas), 7 na World Intellectual Property Organization
(WIPO) (japonesa, americana, inglesa, dinamarquesa, suíça, brasileira
e australiana), no período de 2006 a 2010, e 1 no Instituto Nacional
de Propriedade Intelectual, em 2005. O jambu é utilizado pela
Natura na composição do creme antirrugas Chronos e era adquirido
de plantios na Região Metropolitana de Belém. A partir de 2004, o
22 Extrativismo Vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação

jambu passou a ser fornecido pelo Grupo Centrolora, fundado em


1957, por produtores selecionados, que cultivam de forma orgânica
nos municípios de Pratânia, Botucatu, Ribeirão Preto e Jaboticabal e
efetuam a secagem em Botucatu.

Quando os ingleses procederam à domesticação da seringueira no


Sudeste Asiático, efetuando-se a segunda experiência bem-sucedida
da biopirataria na Amazônia, foi como se tivessem desligado um
eletrodoméstico da corrente elétrica. Esse caminho foi seguido
com o tomateiro (Lycopersicon esculentum Mill.) e a batata-inglesa
(Solanum tuberosum) – ambas da Cordilheira dos Andes –, o fumo
(Nicotiana tabacum), o milho (Zea mays, L) e a cinchona (Chinchona
calisaya Wedd, C. ludgeriana R. et P.), transformados em cultivos
universais pelos primeiros colonizadores europeus. De forma inversa,
muitas plantas de origem africana, como cafeeiro (Cofea arabica
L.), dendezeiro (Elaeis guineensis), quiabeiro (Hibiscus esculentus),
melancieira (Citrullos vulgaris Schrad) e tamarineiro (Tamarindus
indica), foram domesticadas no País.

No caso de produtos extrativos com grande importância econômica,


o caminho inevitável é a domesticação, o manejo ou a descoberta
de substitutos sintéticos. A domesticação do jaborandi (Pilocarpus
microphyllus Statf.) e o início da domesticação da fava-d’anta
(Dimorphandra gardeniana e D. mollis Benth), realizada pela Merck,
podem ser considerados exemplos desse caso.

Existem plantas e animais que nunca serão domesticados por não


terem importância econômica, em razão do longo tempo necessário
para obtenção do produto, da existência em grandes estoques ou da
diiculdade de sua domesticação. Apesar da importância econômica,
como é o caso do babaçu (Orbignya phalerata Mart.) e do tucum
(Bactris setosa Mart.) ou de madeiras duras como o jacarandá-da-baia
(Dalbergia nigra), provavelmente serão utilizados substitutos ou serão
abandonados. Os produtos extrativos que ainda apresentam grandes
estoques, como castanheira-do-pará, babaçu e até mesmo seringueira,
entram nessa categoria, cuja viabilidade pode depender de subsídios
governamentais.

No caso de animais, o processo de domesticação tende a ser orientado


para as características que facilitam a coexistência com o homem,
o comportamento sexual promíscuo, a interação adulto-jovem e a
facilidade de alimentação. Mesmo animais de difícil domesticação,
como o cultivo de ostras para produção de pérolas (Pinctada sp.),
avestruz (Struthio camelus), codornas (Coturnix coturnix), peixes,
camarões de água salgada (Penaeus sp.) e camarões de água doce
(Macrobrachium rosenbergii), são obtidos em criações, ampliando a
oferta e oferecendo a preços mais reduzidos. É improvável que criações
de baleias ou de onças, bem como o plantio de árvores madeireiras de
lento crescimento sejam viáveis economicamente (HOMMA, 2008).
CAPÍTULO 1 - Extrativismo vegetal ou plantio: qual a opção para a Amazônia? 23

A coleta de cogumelos selvagens na Europa utilizando porcos e


cães treinados sempre irá existir, convivendo com aqueles obtidos
mediante o cultivo que atende à totalidade do mercado mundial.
Com o crescimento do mercado, são plantadas muitas drogas, como
a maconha (Cannabis sativa) e a coca (Erythroxylum coca Lam.), e a
sua destruição inteligente seria descobrir pragas e doenças que possam
prejudicar o seu desenvolvimento (HOMMA, 1980, 1992, 2012).

Na Amazônia, das centenas de frutas nativas existentes, várias são


produtos extrativos invisíveis, sem importância econômica deinida,
e somente algumas sofrerão o processo de domesticação. Enquanto
existirem estoques dessas plantas na natureza que compensem a
utilização da mão de obra para a sua coleta, a atividade extrativa
pode perpetuar, pelo menos até que alguma força externa afete
esse equilíbrio. Em outras situações pode prevalecer o dualismo
tecnológico, com o extrativismo vegetal ou animal convivendo com o
processo domesticado, de forma temporária ou permanente.

O extrativismo de diversas plantas ou insetos utilizados como corantes,


como pau-brasil, anil (Indigofera tinctoria L.), cochonilha (Dactylopius
coccus) e carageru (Arrabidaeae chica H.B.K.), desapareceu com a
descoberta da anilina e de outros corantes sintéticos (CARREIRA,
1988). O extrativismo do babaçu foi a base da economia do Maranhão
até a década de 1950 e perdeu a sua importância com a expansão do
cultivo de grãos como soja (Glycine max L. Merrill), milho, algodão
(Gossypium herbaceum), com a obtenção de óleo para cozinha e com
a expansão da fronteira agrícola. O atual aproveitamento do babaçu se
destina a nichos de mercados para cosméticos, no discurso da inclusão
social e da criação de babaçuais livres, permitindo o seu acesso nas
propriedades privadas.

O extrativismo de plantas medicinais como a salsaparrilha-do-pará


(Smilax papiracea), que era utilizada para o tratamento de síilis,
a cinchona para tratamento de malária, etc., foi substituído com o
progresso da indústria farmacêutica e da medicina. A descoberta
do Viagra para a cura da impotência masculina tem reduzido a
matança de animais e a utilização de plantas empregadas na medicina
tradicional e popular na Ásia (HIPPEL; HIPPEL, 2002). Algumas
plantas domesticadas podem ser encontradas em cultivos na forma
extrativa, como a seringueira, a baunilha (Vanilla spp.) e o cacaueiro,
ou a introdução de espécies domesticadas em ambientes extrativos
(erva-mate) e de animais, como búfalos (Bubalus bubalis), que se
tornam selvagens com a falta de manejo. Com o cumprimento do
Código Florestal, provocando a redução de área agrícola disponível,
a reversão do plantio domesticado para extrativismo pode ocorrer
visando ao aproveitamento de Áreas de Reserva Legal e Áreas de
Preservação Permanente.
24 Extrativismo Vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação

No futuro, novas plantas e animais da Amazônia serão domesticados.


Com o processo de domesticação, consegue-se ampliar a oferta e
obter um produto de melhor qualidade a preços mais reduzidos,
beneiciando consumidores e produtores.

Políticas de manutenção do
extrativismo
A economia amazônica tem se desenvolvido pelo aproveitamento dos
recursos disponíveis na natureza. Foi o que ocorreu com a extração da
borracha, da castanha-do-pará, do pau-rosa, do óleo-de-tartaruga, do
pirarucu e, em época mais contemporânea, da madeira, do palmito e
do fruto de açaizeiro, da mineração, do petróleo, da energia hidráulica,
entre dezenas de outros produtos. O aproveitamento de recursos
disponíveis na natureza, com negligência quanto ao seu esgotamento,
fundamenta-se na exportação de matéria-prima, desestimula a
industrialização, provoca realocação no mercado de mão de obra e,
perversamente, afeta a economia local. Isso sintetiza claramente o
modelo de Dutch Disease desenvolvido por Coorden e Neary (1982),
quanto ao efeito da descoberta de reservas de gás natural no Mar do
Norte na década de 1960, afetando a economia holandesa (BARHAM;
COOMES, 1994).

Mercados constituem a razão para a existência e o desaparecimento


de economias extrativas. A transformação de um recurso natural em
produto útil ou econômico é o primeiro passo da economia extrativa.
Contudo, à medida que o mercado começa a expandir, as forças que
provocam o seu declínio também aumentam. A limitada capacidade de
oferta de produtos extrativos leva à necessidade de se efetuar plantios
domesticados ou o seu manejo e à descoberta de substitutos sintéticos
ou de outro substituto natural.

As reservas extrativas estão sendo consideradas como solução para


se evitar o desmatamento na Amazônia, melhor opção de renda e
emprego, proteção da biodiversidade e, mais recentemente, como
mecanismo de aplicação do Reduce Emissions for Deforestation
and Degradation ou Redução de Emissões para o Desmatamento
e Degradação (REDD). A antítese dessa proposta que tem grande
simpatia dos países desenvolvidos é o desconhecimento do mecanismo
da economia extrativa e da importância de se modiicar o peril
tecnológico da agricultura amazônica.

A dinâmica do extrativismo vegetal que conduz a forma trapezoidal


(Figura 3) pode apresentar sucessivos deslocamentos desse ciclo ao
longo do tempo e para determinada área geográica. Foi o que ocorreu
na Amazônia em épocas sucessivas com a fase das “drogas do sertão”,
do extrativismo de cacau, seringueira, castanha-do-pará, pau-rosa,
CAPÍTULO 1 - Extrativismo vegetal ou plantio: qual a opção para a Amazônia? 25

entre outros. No caso do extrativismo da madeira, que sempre tem sido


considerado em termos agregados, na verdade, constitui-se de dezenas
de espécies madeireiras. Em geral, o início da extração madeireira
se caracteriza pela extração da espécie mais nobre, como mogno
(Swietenia macrophylla King), passando, com o seu esgotamento, para
madeiras de segunda e terceira categorias.
Figura 3. Possibilidades
de mudanças no ciclo
do extrativismo vegetal
por estímulo de políticas
governamentais.

Fonte: Homma (1996).

Nas atuais áreas de extração de palmito e de fruto do açaí no estuário


amazônico, veriica-se que a viabilidade econômica dessa atividade e
da existência dos estoques de açaizais é decorrente das transformações
da economia extrativa ao longo do tempo. A extração comercial do
palmito de açaí iniciou-se em 1968, no Município de Barcarena,
Pará, em razão da exaustão de estoques de juçara (Euterpe edulis
Mart.) nos remanescentes da Mata Atlântica. Essa palmeira tem
como característica não apresentar rebrotamento após o corte. Deve
ser ressaltado que a paisagem no estuário amazônico onde ocorrem
os açaizais vem apresentando contínua mudança desde o século 17.
No passado, a extração de ucuúba (Virola surinamensis, Myristica
sebifera), andiroba (Carapa guianensis Aublet), resinas, breu, patauá
(Jessenia bataua), cacau, murumuru (Astrocaryum murumuru),
pracaxi (Pentaclethra ilamentosa), jutaicica e látex de maçaranduba
[Manilkara huberi (Ducke) Stand.] teve grande importância relativa
em comparação com a extração atual de palmito e fruto de açaí
(NOGUEIRA, 1997). A extração de madeira teve forte impacto ao longo
dos séculos, favorecendo a formação de estoques mais homogêneos de
açaizeiros. A extração de borracha também provocou modiicações na
paisagem desde o início do boom e durante a II Guerra Mundial.

Nesse contexto, a importância das reservas extrativas seria a de tentar


prolongar a vida do extrativismo (Figura 3, B e C), em alguma das
três fases mencionadas anteriormente (Figura 1). Mas pode ocorrer o
inverso (Figura 3, D), induzindo à redução da vida útil da economia
extrativa se forem introduzidas novas opções econômicas. Muitas das
26 Extrativismo Vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação

propostas do recente neoextrativismo não passam de introdução de


atividades agrícolas entre os extrativistas, que, se tiverem sucesso,
podem levar ao abandono das atividades extrativas tradicionais
(HOMMA, 2000; REGO, 1999).

A manutenção do extrativismo na Amazônia exige conservar a


loresta, impedir o surgimento de atividades competitivas, melhorar
ou abrir estradas, manter baixa densidade populacional e, sobretudo,
evitar o inanciamento de pesquisa de domesticação, uma vez que
esses aspectos se tornam indutores do seu desaparecimento. No caso
da Amazônia, a evidente simpatia de cientistas e ambientalistas de
países desenvolvidos para a manutenção do extrativismo vegetal pode
criar vetores de força impedindo a domesticação, apesar dos evidentes
benefícios sociais para os produtores e consumidores. Nesse sentido,
as políticas visando a apoiar o extrativismo vegetal em detrimento da
domesticação podem prejudicar os interesses sociais da população.

Manejo de recursos extrativos


A importância das técnicas de manejo seria a possibilidade de
aumentar a capacidade de suporte, como está ocorrendo no manejo de
açaizais nativos no estuário do Rio Amazonas. Os extratores procuram
aumentar o estoque de açaizeiros, promovendo o desbaste de espécies
vegetais concorrentes, transformando em uma loresta oligárquica,
como se fosse um plantio domesticado, aumentando a produtividade
dos frutos e de palmito (Figura 4). Esse mesmo fenômeno está
ocorrendo com o manejo de rebrotamento de bacurizeiros no Nordeste
Paraense e no Estado do Maranhão, induzido pelo crescimento do
mercado urbano dessa fruta.

Figura 4. Modiicação
da capacidade de
suporte decorrente
do manejo de açaizais
nativos.

Fonte: Homma (2008).


CAPÍTULO 1 - Extrativismo vegetal ou plantio: qual a opção para a Amazônia? 27

O crescimento do mercado induziu a expansão nos últimos anos para


mais de 80 mil hectares de açaizeiros manejados para a produção de
frutos, atendendo mais de 15 mil produtores no Estado do Pará. O
crescimento do mercado de fruto de açaizeiro tem sido o indutor dessa
expansão, com a ampliação do consumo, antes restrito ao período da
safra, para o ano inteiro decorrente dos processos de beneiciamento,
congelamento e exportação para outras partes do país e do exterior.
A lucratividade e o reduzido investimento para o manejo dos açaizais
descartam o interesse dos ribeirinhos em criarem áreas de domínio
comum, como um socialismo lorestal.

Novas oportunidades e desaios da


domesticação na Amazônia
Várias plantas amazônicas foram domesticadas nestes últimos três
séculos, destacando-se cacaueiro (1746), cinchona (1859), seringueira
(1876), jambu, guaranazeiro, castanheira-do-pará, cupuaçuzeiro
[heobroma grandilorum (Spreng.) Schum], pupunheira, açaízeiro,
jaborandi e pimenta-longa, sobretudo a partir da década de 1970.
Outras plantas que passam por um processo de domesticação
são mogno, paricá (Schizolobium amazonicum Huber ex. Ducke),
bacurizeiro, andirobeira, uxizeiro, pau-rosa, entre os principais.
Outras plantas que serão incorporadas ao processo de domesticação
decorrente do crescimento do mercado são copaibeira [Copaifera
langsdorii (Desf.) Kuntze], tucumanzeiro (Astrocarium aculeatum
G.F.W. Meyer, fruta muito apreciada em Manaus, e Astrocaryum vulgare
Mart., com potencial para biodiesel), fava-d’anta, piquiá [Caryocar
villosum (Aubl.) Perz.], cumaruzeiro (Coumarouna odorata), puxuri
(Licaria puchury-major), etc.

A seguir serão comentadas algumas plantas nas quais se veriica um


conlito entre a oferta extrativa e a demanda desses produtos, em que os
consumidores e os produtores estão perdendo grandes oportunidades
com a ênfase extrativa.

Plantas medicinais, aromáticas e


inseticidas naturais
Discute-se muito sobre o potencial da biodiversidade amazônica, na
crença da obtenção de extratos de plantas, animais ou microrganismos
que curariam diversos males contemporâneos (CROSBY, 1993;
SCHEUENSTUHL; CARICATTI, 2008). Na outra vertente,
enquadram-se a obtenção de corantes, inseticidas naturais e essências
aromáticas para substituir produtos sintéticos, entre outros. Trata-se
da versão moderna da lenda do El Dorado narrada pelos habitantes do
Novo Mundo e da Fonte de Juventude, tenazmente procurada por Juan
Ponce de León (1460–1521), que veio em 1493, na segunda viagem de
Cristovão Colombo (1451–1506), até a sua morte em Cuba.
28 Extrativismo Vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação

A partir da década de 1990, surgiram diversos cosméticos utilizando


plantas da biodiversidade amazônica. A grande questão é se esses novos
produtos vão ser tão populares como o Leite de Rosas desenvolvido
pelo seringalista amazonense Francisco Olympio de Oliveira, em
1929, e o Leite de Colônia, desenvolvido pelo médico, farmacêutico
e advogado Arthur Studart, em 1960, no Rio de Janeiro. A criação de
novos mercados dos produtos da biodiversidade amazônica consiste
em sair da abstração e aproveitar as plantas e animais da biodiversidade
do passado e do presente e investir em novas descobertas. Esse erro
é evidenciado em muitas megapropostas de Parques Tecnológicos
em curso na Amazônia e na criação do Centro de Biotecnologia da
Amazônia, em 2002, em Manaus (HOMMA, 2003b).

A fabricação de itoterápicos e cosméticos, que constitui a utopia de


muitas propostas do aproveitamento da biodiversidade na Amazônia,
além de demandar grandes custos de pesquisa e de testes, esbarra na
Medida Provisória 2.186-16, de 23 de agosto de 2001. Essa Medida
Provisória dispõe sobre o patrimônio genético, a proteção e o acesso
ao conhecimento tradicional associado à repartição de benefícios e
à transferência de tecnologia para a sua conservação e utilização. A
repartição de benefícios econômicos com comunidades nativas não
estimula grandes empresas a efetuar investimentos de alto risco.
Estão ocorrendo na Amazônia pesados investimentos na criação
de Parques Tecnológicos, dentre eles o Centro de Biotecnologia da
Amazônia (CBA), instituído em 2002, pelo Decreto 4.284, no âmbito
do Programa Brasileiro de Ecologia Molecular para o Uso Sustentável
da Biodiversidade (Probem), inscrito no Primeiro Plano Plurianual
(PPA) do governo federal, que revelam equívocos na condução dessa
política com relação à biodiversidade abstrata.

Cinchona – a casca que salvou milhões de vidas


É atribuída a Clements Markham (1830-1916) com a ajuda do botânico
Richard Spruce (1817–1893) a transferência com sucesso das sementes
de cinchona, em 1860, desenvolvendo plantios iniciais na Índia e no
Sri Lanka. Os espanhóis descobriram que os índios da parte baixa dos
Andes utilizavam a casca da cinchona para o tratamento da malária,
cujo primeiro relato escrito data de 1636. A malária representava
um terrível lagelo para muitas colônias do Império Britânico e essa
descoberta salvou milhões de pessoas durante séculos (SMITH, 1990).
Com a invasão das tropas japonesas no Sudeste Asiático, bloqueou-
se o controle da produção de quinino da Ilha de Java, em 1942, que
constituía monopólio dos holandeses. Antes, em 1940, quando as
tropas alemãs ocuparam Amsterdã, coniscaram todo o estoque de
quinino disponível na Europa. Dessa forma, além da borracha vegetal,
a produção de quinino tornou-se estratégica para as tropas americanas
que combatiam no Pacíico, fazendo com que os botânicos do New
York Botanical Garden e da Smithsonian Institution procedessem a
CAPÍTULO 1 - Extrativismo vegetal ou plantio: qual a opção para a Amazônia? 29

uma ampla coleta de quinino na Colômbia, tendo conseguido 6 mil


toneladas, constituindo a salvação dos Aliados. Nesse meio tempo,
procurou-se também envidar esforços no desenvolvimento do quinino
sintético, tendo dois cientistas, William von Eggers Doering (1917–
2010) e Robert Burns Woodward (1917–1979), conseguido em 1944,
já demasiado tarde para atender a terrível escassez de quinino, a cura
da malária pelos meios sintéticos (CAUFIELD, 1984). Foram também
efetuadas grandes plantações de cinchona na África, no Peru e no
México. Robert Burns Woodward, por suas pesquisas com quinino
(1944), colesterol, cortisona (1951) e vitamina B12 (1971), recebeu o
Prêmio Nobel de Química, em 1965.

Pau-rosa
Trata-se de outra riqueza do Amazonas e do Pará, que chegaram a
exportar o máximo de 444 t de óleo essencial, em 1951. A média do
triênio 2009–2011 foi pouco mais de 8 t e o custo do óleo essencial por
volta de US$ 129,00/kg. Para exportar a quantidade máxima já deveriam
ter iniciado plantios há cerca de 20 a 30 anos, permitindo o corte de
30 mil árvores/ano, gerando divisas da ordem de US$ 74 milhões/ano.
A sua verticalização na região constitui alternativa na formação de
um polo loro-xilo-químico para a produção de óleos essenciais para
perfumaria, cosméticos e fármacos na Amazônia (HOMMA, 2003d).

Timbó
O timbó foi muito utilizado como inseticida natural antes do advento
dos inseticidas sintéticos, desapareceu e está retornando para utilização
na agricultura orgânica, mas em bases racionais (HOMMA, 2004d).
Antes da Segunda Guerra Mundial, os estados do Amazonas e do Pará
eram grandes exportadores de raiz de timbó, utilizada como inseticida.
A descoberta da utilização do DDT pelo químico suíço Paul Hermann
Müller (1899–1965), em 1939, para controle de insetos transmissores
de doenças, acabou com o mercado de inseticidas naturais. O sucesso
no combate às doenças fez com que, em 1948, recebesse o Prêmio
Nobel de Medicina. O lançamento do livro A Primavera Silenciosa
de Rachel Louise Carson (1907–1964), em 1962, tornou evidentes
os riscos ecológicos do uso indiscriminado de inseticidas sintéticos
na agricultura. Com isso, começou a crescer a importância do uso
de inseticidas orgânicos, sobretudo a partir da década de 1990,
aumentando o interesse do cultivo de plantas inseticidas, como
timbó, neen, fumo, etc. Atualmente, o país importa timbó do Peru,
para utilização na agricultura orgânica e para a recuperação de áreas
degradadas como leguminosa. O timbó é exemplo de uma planta
domesticada, amplamente cultivada no Sudeste Asiático, Japão, Porto
Rico e Peru e depois abandonada. Houve a seleção de variedades
efetuada pelos ingleses, americanos, japoneses, peruanos e brasileiros,
que foram perdidas, necessitando novo começo.
30 Extrativismo Vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação

Jaborandi
O yaborã-di (planta que faz babar) era utilizado há vários séculos pelos
índios tupi-guarani, que mascavam as folhas desse arbusto. O uso dessa
planta para ins medicinais foi introduzido em Paris pelo engenheiro
militar pernambucano João Martins da Silva Coutinho, em 1874. A
descoberta do princípio ativo pilocarpina das folhas do jaborandi
foi efetuada simultaneamente, em 1876, na França por E. Hardy e na
Inglaterra por A.W. Gerrard (COSTA, 2012; HOMMA, 2003c).

A empresa alemã Merck foi a pioneira na domesticação do jaborandi,


efetuando um plantio de 500 ha na Fazenda Chapada, adquirida em
1989, em Barra do Corda, Maranhão, levando à autossuiciência a
partir de 2002.

Para o beneiciamento das folhas de jaborandi, a Merck criou a


Vegetex, em 1972, em Parnaíba, Piauí, fechada em 2000, com estoque
de pilocarpina suiciente para abastecer o mercado mundial por 5
anos. Ocorre que 1 ano após o fechamento da Vegetex, 80% do estoque
estava vendido, fazendo com que a Merck retomasse suas atividades de
forma terceirizada. Em julho de 2002, o Grupo Centrolora (criado em
1957) assumiu o controle dos ativos da Vegetex, criando a Vegelora,
beneiciando o jaborandi procedente de Barra do Corda.

Em 2009, a Divisão de Produtos Naturais da Merck foi adquirida


pela Quercegen Agronegócios 1 Ltda., braço da Quercegen Pharma,
sediada em Massachusetts, Estados Unidos, que passou a enfatizar o
plantio de fava-d’anta e uncária [Uncaria tomentosa (Willd. ex Roem.
& Schult.) DC.], além do jaborandi. A fava-d’anta e a uncária são
utilizadas para a produção de quercentina, um poderoso antioxidante
e anti-inlamatório, com capacidade imunológica.

Com a venda da Merck ocorreu o rompimento com a Vegelora,


cancelando o fornecimento de folhas de jaborandi, procedentes da
Fazenda Chapada, no Maranhão. Isso levou a Vegelora a efetuar
seu próprio plantio de jaborandi no Território dos Cocais, Piauí,
distribuído mundialmente pela indústria farmacêutica Boehringer
Ingelheim.

Andiroba
O óleo de andiroba, além dos aspectos medicinais, foi muito utilizado
no passado e por ocasião da Segunda Guerra Mundial na iluminação no
interior da Amazônia, pela escassez de querosene. Até antes da Segunda
Guerra Mundial existiam indústrias gerenciadas por descendentes
de italianos que beneiciavam óleo de andiroba em Belém e Cametá
a serem utilizados para movelaria. Já existem diversos plantios de
andiroba combinados com cultivos de cacaueiros integrando sistemas
agrolorestais nos municípios de Tomé-Açu e Acará. Como o período
CAPÍTULO 1 - Extrativismo vegetal ou plantio: qual a opção para a Amazônia? 31

de colheita é coincidente, o aproveitamento tem sido efetuado em favor


do cacau, que é mais lucrativo (HOMMA, 2003e). Há necessidade de
desenvolvimento de técnicas mais produtivas para o beneiciamento,
cuja retirada das cascas, após o cozimento, é bastante trabalhosa.
Medidas para inibir as fraudes precisam ser aperfeiçoadas. O potencial
extrativo é grande, necessitando da organização de comunidades,
beneiciamento e comercialização. As opções do plantio da andiroba
para produção madeireira e de frutos como subproduto nas áreas já
desmatadas precisam ser consideradas, mesmo que isto ocorra em
detrimento do extrativismo das áreas tradicionais, com o crescimento
do mercado.

Copaíba
Veiga Júnior e Pinto (2002) efetuaram um profundo levantamento
histórico da copaíba. No passado, o óleo de copaíba era utilizado
contra disenteria, bronquites rebeldes, afecções cutâneas, catarro
pulmonar, blenorragias e leucorreias, que eram exportadas para a
Europa (CARREIRA, 1988). A oferta de óleo de copaíba depende
integralmente do extrativismo, que precisa ser substituído por
plantios, por razões de crescimento de mercado e padronização do
óleo, procedente de meia dúzia de espécies, com cor, densidade e
composição diferenciadas. Há necessidade de investir na pesquisa
para identiicação de espécies mais promissoras, desenvolver técnicas
de domesticação e efetuar plantios. Por ser árvore perene, as decisões
atuais só terão impacto nas próximas décadas, daí a necessidade de
urgência com relação a esses investimentos.

Salsaparrilha
É um cipó da família das Liliaceas (Smilax papiracea Poir), com
ocorrência nas terras altas, no curso superior dos aluentes do Baixo
Amazonas. É um cipó quadrangular, com acúleos fortes e curtos, muito
cerrados, dispostos em forma de ponta ao longo de quatro cantos da
parte inferior do caule. As raízes com até 3 m de comprimento são
vermelhas e utilizadas no tratamento de síilis, moléstias cutâneas e
reumatismo. O sabor é forte e nauseoso, mas, na época pré-penicilina,
era importante no tratamento de doenças venéreas. A Companhia
Geral do Grão Pará e Maranhão chegou a exportar 3.482 arrobas no
período de 1759 a 1778 (CARREIRA, 1988).

Ipecacuanha
Muito utilizado como componente de xaropes antitussígenos até a
década de 1960, quando foi substituído por compostos químicos,
decorrente do esgotamento dessa planta com o avanço da fronteira
agrícola, sobretudo em Rondônia. O padre João Daniel tem a seguinte
descrição:
32 Extrativismo Vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação

[...] é uma raiz delgada, cheia de nós, e do feitio do genital dos patos, e
daqui vem o chamarem-lhe os naturais ipecacuanha, que quer dizer na sua
língua genital do pato. É purga já mui vulgar na Europa com efeitos e prés-
timos admiráveis para parar todos os cursos ou sejam soltos, ou do sangue,
porque lhes tira o mau humor e causas. Também os seus por dados a beber
às mulheres lhes limpam o útero e fazem conceber (DANIEL, 2004. V. 2,
p. 193).

Carageru
Trepadeira da família das Bignoniaceae, de cujas folhas secas, por
maceração, extrai-se uma tinta vermelha insolúvel na água, porém
solúvel no álcool e no azeite. A tinta e as folhas são empregadas contra
disenterias e impigens (CARREIRA, 1988). Há interesse recente das
pesquisas farmacológicas em virtude de seu efeito anti-inlamatório de
picadas de serpentes dos gêneros Brothrops e Crotalus (OLIVEIRA et
al., 2009).

Puxuri
Árvore da família das Lauraceas, possui frutos aromáticos, estimulantes
e tóxicos, usados com êxito no combate às diarreias, dispepsias e
leucorreias. No Município de Tomé-Açu, alguns produtores nipo-
-paraenses têm conseguido êxito no plantio de puxuri e efetuam a
venda das sementes para o exterior.

Pimenta-longa
Representa uma planta da biodiversidade amazônica que foi
identiicada como fonte de safrol pelo pesquisador José Guilherme
Soares Maia, do Museu Paraense Emilio Goeldi. Em dezembro de
1990, o Ibama proibiu a derrubada de sassafrás em Santa Catarina e
no Paraná, que eram utilizados para a extração do safrol (MAIA et al,
2002). Em 1997, foram realizados os primeiros plantios comerciais de
pimenta-longa em Rondônia (Vila Extrema) e no Pará (Igarapé-Açu)
(ROCHA NETO et al., 2001).

Plantas alimentícias
Para os produtos extrativos alimentícios que apresentem conlitos
entre a oferta e a demanda, é urgente promover a domesticação. A
despeito da exaltação da magnitude da biodiversidade futurística,
os grandes mercados e a sobrevivência da população regional ainda
dependerão dos atuais produtos tradicionais, representados pela
biodiversidade exótica, como o rebanho bovino e o bubalino, e pelos
cultivos, como cafeeiro, dendezeiro, soja, milho, algodão, pimenta-
do-reino, bananeira, juta, coqueiro, laranjeira, entre os principais.
A biodiversidade nativa ainda não ocupou parte relevante do seu
potencial, que pode aliar preservação ambiental, renda e qualidade de
vida para os agricultores da Amazônia.
CAPÍTULO 1 - Extrativismo vegetal ou plantio: qual a opção para a Amazônia? 33

Mandioca – uma planta universal


A farinha de mandioca representa o produto emblemático da
alimentação amazônica e brasileira como herança da civilização
indígena, envolvendo a descoberta e a domesticação dessa planta, além
do processo de beneiciamento, há cerca de 3,5 mil anos (ROOSEVELT
et al., 1995). Foram os colonizadores portugueses que efetuaram sua
difusão no continente africano, tornando-o alimento básico, tendo a
Nigéria tornado-se o maior produtor mundial. No continente asiático,
destaca-se a Tailândia como terceiro produtor mundial, na produção
de raspas de mandioca. Atualmente, 500 milhões de pessoas dependem
da mandioca como alimento, sendo cultivada em 80 países, dos quais o
Brasil participa com 15%.

O padre João Daniel tem o seguinte comentário com relação à


mandioca:
[...] são pois todos este danos, e toda a pobreza das suas povoações, e falo
do cultivo da maniva, e uso da farinha-de-pau; e nunca aqueles habitantes,
e suas povoações, serão ricos, nem fartos, enquanto o não desterrarem das
terras, e introduzirem em seu lugar as sementeiras da Europa, e mais mun-
do (DANIEL, 2004, v. 2, p. 193).

Um comentário interessante é do Joselito da Silva Motta, pesquisador


da Embrapa Mandioca e Fruticultura, sobre a farinha de mandioca:
“aumenta o que está pouco, esfria o que está quente, engrossa o que
está ralo, e, na pança, é o que dá sustança” (MANDIOCA..., 2005).

Cacau
O ciclo do extrativismo e do plantio semidomesticado do cacaueiro
foi a primeira atividade econômica na Amazônia, tendo perdurado
até a época da Independência do Brasil, quando foi suplantado pelos
plantios da Bahia. O cacaueiro foi levado em 1746, por Louis Frederic
Warneaux, para a fazenda de Antônio Dias Ribeiro, no Município
de Canavieiras, Bahia. É interessante frisar que da Bahia o cacaueiro
foi levado para os continentes africano e asiático, transformando-
-se em principal atividade econômica nesses locais. Com a entrada
da vassoura-de-bruxa nos cacauais da Bahia, em 1989, a produção
decresceu do máximo alcançado em 1986, de 460 mil toneladas
de amêndoas secas, para o nível mais baixo, em 2003, com 170 mil
toneladas e o início da recuperação com as técnicas de enxertia de copa
para 196 mil toneladas, em 2004.

A partir de 1976, o governo federal deu início, por intermédio da


Ceplac, ao Plano de Diretrizes para a Expansão da Cacauicultura
Nacional (Procacau), que previa a implantação de 300 mil hectares
de novos cacaueiros e a renovação de outros 150 mil hectares em
plantações decadentes e de baixa produtividade da Bahia e do Espírito
Santo. Com a aprovação do Procacau, a Amazônia foi contemplada
34 Extrativismo Vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação

com uma meta inicial de 170 mil hectares a serem implantados,


obedecendo à seguinte distribuição: Amazonas, 10 mil hectares;
Pará, 50 mil hectares; Rondônia, 100 mil hectares; além de outros 10
mil hectares a serem implantados nos estados do Acre, Maranhão,
Mato Grosso e Goiás. A despeito da existência de 108 mil hectares
de cacaueiros plantados nos estados do Pará e Rondônia, estes não
têm recebido a devida atenção por parte de planejadores agrícolas.
No triênio 2008–2010, quase 65 mil toneladas de amêndoa de
cacau foram importadas, somando mais de 159 milhões de dólares,
equivalente a um terço da produção brasileira de cacau. Isso indica a
necessidade de duplicar a área plantada, sobretudo nos estados do Pará
e Rondônia nos próximos 5 anos, gerando renda e emprego, sobretudo
para a agricultura familiar, mesmo com crises cíclicas de preços, e
promovendo a recuperação de áreas alteradas.

Castanha-do-pará
A Bolívia é o maior produtor mundial de castanha-do-pará e em
Cobija está localizada a Tahuamanu S.A., considerada a indústria de
beneiciamento mais moderna do mundo. A capacidade da oferta
extrativa do Brasil, da Bolívia e do Peru apresenta limitações, tendo
sua produção mundial sido constante há seis décadas. Há necessidade
de ampliar a oferta mediante plantios. Os estoques de castanheiras
no Sudeste Paraense foram substituídos por pastagens, projetos de
assentamento, extração madeireira, mineração, expansão urbana, etc.
Existem plantios pioneiros de castanha-do-pará: um de 3 mil hectares,
com 300 mil pés plantados na década de 1980, na estrada Manaus-
Itacoatiara, em plena produção; outro na região de Marabá, plantado na
mesma época, pertencente ao ex-Grupo Bamerindus, que foi destruído
pelos integrantes do MST e por posseiros. Plantios estão sendo
efetuados na região de Tomé-Açu, em sistemas agrolorestais, desde
o início da década de 1980, e apresentam-se similares às castanheiras
nativas. Seria possível expandir para 100 mil hectares, para recompor
Áreas de Reserva Legal e de Preservação Permanente, com mercado
assegurado. Toda a atual produção extrativa espalhada em mais de
1 milhão de hectares poderia ser obtida em apenas 20 mil hectares
cultivados. A diiculdade decorre do longo tempo para o retorno de
capital, estimado em 27 anos em plantio solteiro (PIMENTEL et al.,
2007).

Açaí
As áreas de ocorrência de açaizeiros no Estado do Pará, a partir da
década de 1970, sofreram grandes derrubadas para extração do
palmito, o que levou o presidente Ernesto Geisel (1974-79) a assinar a
Lei 6.576/1978, proibindo a sua derrubada, mas que não obteve êxito.
A valorização do fruto a partir da década de 1990 teve efeito positivo
sobre a conservação de açaizais. Os açaizeiros cuja localização permitia
CAPÍTULO 1 - Extrativismo vegetal ou plantio: qual a opção para a Amazônia? 35

o transporte de frutos por um dia para os locais de beneiciamento


deixaram de ser derrubados para a extração de palmito (NOGUEIRA;
HOMMA, 1998). Apesar da existência de 1 milhão de hectares
nos quais se veriica a presença de açaizeiros nativos na foz do Rio
Amazonas e nos quais, mediante manejo, poderia ser aumentada a
densidade, a sua transformação em loresta oligárquica, em grande
escala, esconde riscos ambientais reletidos para a lora e a fauna.

Estima-se que 80 mil hectares de ecossistemas das várzeas foram


transformados em bosques homogêneos de açaizeiros. Essas áreas
estão sujeitas a inundações diárias com o movimento das marés,
a construção de canais de escoamento de água, a movimentação
de embarcações e a contínua retirada de frutos sem reposição de
nutrientes, podendo conduzir a riscos de estagnação da produção no
longo prazo. É necessário que os plantios de açaizeiros sejam dirigidos
para as áreas desmatadas de terra irme e para áreas que não deveriam
ter sido desmatadas. O plantio em áreas de terra irme seria passível de
adubação e da colheita semimecanizada, bastante difícil para as áreas
de várzea, evitando o penoso trabalho dos trepadores de açaizeiros.
O plantio irrigado em áreas de terra irme e o zoneamento climático
poderiam ampliar a obtenção de fruto de açaí para diferentes épocas do
ano e reduzir o preço para o consumidor local, que chegou a R$ 24,00/
litro em 2008, provocando a exclusão social de um produto alimentício
das classes menos favorecidas. A migração rural-urbana transferiu
consumidores rurais para o meio urbano, aumentando a pressão sobre
esse produto. A estimativa é que seja possível expandir os plantios de
açaizeiros em áreas de terra irme para mais de 50 mil hectares com
mercado assegurado. Em 2004, a Embrapa Amazônia Oriental lançou
a cultivar BRS Pará com ampla aceitação no setor produtivo, sobretudo
nas áreas de terra irme.

Cupuaçu
A oferta de cupuaçu nativo está em declínio na região de Marabá,
decorrente da baixa densidade na loresta, da destruição dos
ecossistemas para o plantio de roças e pastagens e da obtenção de
frutos mediante cultivo em tempo relativamente curto, o que induziu
a expansão dos plantios. Os agricultores nipo-brasileiros de Tomé-Açu
foram os primeiros a acreditar na potencialidade do cupuaçuzeiro,
iniciando os plantios comerciais em 1980, pelo agricultor Katsutoshi
Watanabe. O maior perigo do desmatamento das áreas de ocorrência
de cupuaçuzeiros nativos é a destruição de material genético que pode
ser importante para programas de melhoramento. A produção atual
de cupuaçu provém, basicamente, de plantios comerciais, estimados
em mais de 20 mil hectares, distribuídos no Pará (13 mil hectares),
Amazonas, Rondônia e Acre, principalmente. As amêndoas de
cupuaçu apresentam grandes possibilidades para as indústrias de
fármacos, cosméticos e, principalmente, para a produção de chocolate
36 Extrativismo Vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação

de cupuaçu (cupulate, patenteado pela Embrapa Amazônia Oriental


em 1990), para as pessoas que são alérgicas à cafeína e à teobromina
que estão presentes no cacau. Há necessidade do desenvolvimento
de novas alternativas, como a implantação de indústria de bombons
e cosméticos para aumentar a produção. A oferta de amêndoas
dependerá do aumento de consumo da polpa de cupuaçu. Em 2002,
a Embrapa Amazônia Oriental procedeu ao lançamento das cultivares
Coari, Codajás, Manacapuru e Belém e, em março de 2012, lançou a
cultivar BRS Carimbó, com mais tolerância à vassoura-de-bruxa e de
alta produtividade.

Bacuri
O bacurizeiro é uma das poucas espécies arbóreas amazônicas de
grande porte que apresenta estratégias de reprodução por sementes
e por brotações oriundas de raízes. Nos locais de ocorrência natural,
que vão desde a Ilha de Marajó, seguindo a faixa costeira do Pará e
do Maranhão e adentrando no Piauí, a densidade de bacurizeiros
em início de regeneração chega a alcançar a expressiva marca de
40 mil indivíduos/hectare. Constitui-se em importante alternativa
para promover a recuperação de mais de 50 mil hectares de áreas
degradadas e para recompor Áreas de Reserva Legal e Preservação
Permanente, mediante seu manejo ou efetuando plantios racionais. O
manejo consiste em privilegiar as brotações mais vigorosas que nascem
nos roçados abandonados, colocando-as no espaçamento adequado. A
primeira produção de frutos ocorre entre 5 e 7 anos (HOMMA et al.,
2010b).

Com o crescimento do mercado de frutas amazônicas, que antes tinha


consumo local e restrito ao período da safra, decorrente da exposição
da mídia nacional e internacional sobre a região, a polpa de bacuri
tornou-se a mais cara, atingindo R$ 32,00/kg, sem condições de
atender nem o mercado local. Isso fez com que a pressão da demanda
fosse sentida nas áreas de ocorrência, induzindo o manejo desses
rebrotamentos e o estabelecimento de plantios por agricultores nipo-
-paraenses.

Os estoques de bacurizeiros foram derrubados no passado para a


obtenção de madeira e, no momento, ainda continua a destruição
das áreas de ocorrência no Maranhão e Piauí para o plantio da soja,
expansão do cultivo do abacaxi (Ananas comosus L. Merril) e roçados
na Ilha de Marajó, produção de carvão, lenha e feijão-caupi [Vigna
unguiculata (L.) Walp] no Nordeste Paraense (HOMMA et al., 2010b).

Considerando uma área mínima de 20 mil hectares, com produtividade


de apenas 200 frutos/planta/ano, é possível aumentar a produção
atual em 400 milhões de frutos, que corresponde aproximadamente
a 120 mil toneladas de frutos ou 12 a 15 mil toneladas de polpa. Isso
implica receita bruta de R$ 384 milhões anuais, para os próximos 10
CAPÍTULO 1 - Extrativismo vegetal ou plantio: qual a opção para a Amazônia? 37

a 15 anos, sem falar das possibilidades de agregação de valor pela


industrialização. O aproveitamento dos rebrotamentos de bacurizeiros
e o desenvolvimento de plantios constituem uma solução local para
recuperar áreas alteradas, além de gerar renda e emprego.

Uxi
O uxizeiro foi bastante derrubado para extração madeireira e para
a formação de roçados. Sendo assim, sua produção depende de
remanescentes que sobreviveram, tendo um amplo mercado local.
Ultimamente tem despertado atenção pelo alto conteúdo em itoesteróis
(CARVALHO et al., 2007). Ainda nos primórdios da domesticação,
tem como desaio a diiculdade para a germinação de suas sementes
e do processo de enxertia. A estratégia seria aproveitar as mudas que
nascem debaixo dos uxizeiros existentes na loresta, daí a importância
da conservação dessas áreas de ocorrência. Os colonos nipo-paraenses
de Tomé-Açu estão introduzindo essa planta, além do bacurizeiro e o
piquiazeiro, em sistemas agrolorestais, formando novas combinações
com açaizeiros, cacaueiros e cupuaçuzeiros (MENEZES; HOMMA,
2012).

Pupunha e tucumã
Estima-se 15 mil hectares de pupunheiras no País, dos quais 7,5 mil
hectares em São Paulo, no Vale da Ribeira, 2,5 mil hectares na Bahia,
destinados para produção de palmito, e 1,5 mil hectares na Amazônia.
Além da sua utilização para a indústria de palmito, apresenta
possibilidade para a produção de ração para animais e óleo vegetal. O
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia é a instituição que mais
avançou na domesticação dessa planta. É interessante o conhecimento
popular para veriicar a qualidade da pupunha: uns pressionam com
a unha, veriicam se tem bicadas de pássaros, coloração, etc. Alguns
supermercados de Belém começaram a vender frutos de pupunha
a retalho, em vez de cacho, que pode ser uma tendência futura de
comercialização dessa fruta por tamanho, coloração e peso.

Enquanto os paraenses gostam de pupunha cozida, comercializada


nas ruas, os amazonenses tem predileção pelo tucumã, tendo até
mesmo criado o “X-Caboquinho”, um sanduíche com essa fruta.
Há necessidade de promover a domesticação do tucumanzeiro para
atender ao grande consumo da cidade de Manaus. O abastecimento
de tucumã em Manaus é feito durante o ano inteiro, proveniente de
diversos municípios do Estado do Amazonas, alguns distantes até mil
quilômetros, e de Terra Santa (Pará) e Roraima, provenientes da coleta
extrativa (DIDONET, 2012).

Guaraná
Durante a gestão do presidente Emílio Garrastazu Médici (1905–1985)
e de Luís Fernando Cirne Lima como ministro da Agricultura (1933),
38 Extrativismo Vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação

foi assinada a Lei 5.823, de 14 de novembro de 1972, conhecida como


a Lei dos Sucos, regulamentada pelo Decreto-Lei 73.267, de 6 de
dezembro de 1973. Essa Lei estabeleceu quantitativos de 0,2 g a 2 g
de guaraná para cada litro de refrigerante e de 1 g a 10 g de guaraná
para cada litro de xarope. Apesar de o quantitativo entre o mínimo e
o máximo permitido ser de 10 vezes, provocou uma grande demanda
pelo produto, fazendo com que a produção semidomesticada do
Estado do Amazonas, que oscilava entre 200 t a 250 t anuais, atingisse
patamares de até 5,5 mil toneladas, em 1999, caindo no triênio 2008–
2010 para 3,8 mil toneladas, das quais a Bahia produziu 89%. Segundo
a Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas
Não Alcoólicas (Abir), em 2010, o consumo per capita de água de
guaraná no país foi de 1,81 L, sendo a mínima de 0,41 L no Nordeste,
0,95 L no Sul, 1,75 L no Centro-Oeste, 4,03 L no Sudeste, 0,62 L no
Norte, 6,63 L na Grande Rio de Janeiro e 2,22 L na Grande São Paulo,
o que enseja as possibilidades de crescimento com aumento de renda e
do crescimento populacional (HOMMA, 2012).

Urucum
Planta domesticada, destacando-se São Paulo como maior produtor
brasileiro de urucum, seguido de Rondônia, Pará, Minas Gerais,
Paraná, Bahia e Paraíba, entre os mais importantes. Utilizado
inicialmente pelos índios como tintura e proteção contra insetos, o seu
uso estendeu-se para culinária e para ins medicinais.

Cubiu
Planta da mesma família do tomateiro, destaca-se como o mais novo
recurso da biodiversidade amazônica, cultivado no Município de
Presidente Figueiredo, no Amazonas, e exportado para os Estados
Unidos como fonte de pectina. É usado pelas populações interioranas
e nos quartéis do Estado do Amazonas em sucos e em cozidos com
peixe, ocupando o lugar do tomate, bastante caro.

Jambu
A divulgação do uso do jambu em nível nacional e mundial muito se
deve à iniciativa do chef-de-cuisine Paulo Martins (1946–2010), do
conhecido restaurante Lá em Casa, criado em 1972, tendo servido
dezenas de personalidades nacionais e internacionais, como o Papa
João Paulo II (1980), o Imperador Akihito (1933) e a Imperatriz
Michiko (1934) nas duas visitas que izeram a Belém, em 1978 e 1997
(HOMMA et al., 2011b).

Em abril de 2012, foi realizado o 10º Festival Ver-o-Peso da Cozinha


Paraense, iniciado em 2000 e interrompido em alguns anos por causa
do estado de saúde do chef Paulo Martins. Esse festival foi uma das
alavancas da divulgação do jambu e de outras frutas amazônicas na
CAPÍTULO 1 - Extrativismo vegetal ou plantio: qual a opção para a Amazônia? 39

culinária nacional e internacional, ao convidar chefs nacionais e


internacionais para conhecerem os produtos utilizados na gastronomia
paraense. Em 2007, o famoso chef catalão Ferran Adriá (1962) icou
encantado com o poder “eletrizante” da folha de jambu, capaz de fazer
a língua e os lábios formigarem (BOTELHO, 2007).

Planta industrial
Seringueira
A borracha natural moldou a civilização do planeta de modo que seria
impossível descrever aqui. Os indígenas utilizavam-na para confecção
de moringas e até de bolas. A primeira descrição do uso da borracha
natural foi feita por Charles Marie de La Condamine (1701–1774), que
realizou uma expedição ao Peru e à Bacia Amazônica (1735–1744).

A partir de 1951, o Brasil iniciou a importação de borracha vegetal,


que atinge 70% do consumo nacional. Em 1990, a produção de
borracha obtida de plantios superou a borracha extrativa. No triênio
2007–2009, a participação da borracha extrativa representava apenas
1,81% do total da produção de borracha natural do País. A produção
de borracha vegetal, a despeito de planos como o Prohevea (1967),
Probor I (1972), Probor II (1977) e Probor III (1981), foi um fracasso
e mecanismo de corrupção (HOMMA, 2003b). O governo atualmente
subsidia o preço da borracha extrativa pagando um preço superior ao
da borracha obtida de plantios por meio da política de preços mínimos.

Em 2010, o Brasil bateu o recorde de importação de borracha natural,


atingindo a marca de US$ 790,4 milhões (260,8 mil toneladas) contra
US$ 283 milhões (161,3 mil toneladas) no ano anterior, aumento de
179,3%. Para suprimir as importações, já deviam estar em idade de
corte cerca de 300 mil hectares de seringueiras, que poderiam gerar
emprego e renda para 150 mil famílias de pequenos produtores.
A Índia, a China e o Vietnã conseguiram aumentar a produção de
borracha vegetal num curto período, enquanto o Brasil produz pouco
mais de 200 mil toneladas, destacando-se os estados de São Paulo,
Bahia e Mato Grosso.

A implementação de um Plano Nacional da Borracha é mais do que


urgente para o País, considerando o risco do aparecimento do mal-
-das-folhas (Microcyclus ulei) no Sudeste Asiático por razões acidentais
ou de bioterrorismo, do esgotamento das reservas petrolíferas e por
ser um produto estratégico da indústria mundial (DAVIS, 1997).
A proposta de criação da Embrapa Seringueira, apresentada em
fevereiro de 2012, com sede em São Paulo, numa modalidade de
parceria público-privada, pode ser importante apoio tecnológico para
a expansão dessa cultura.
40 Extrativismo Vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação

Figura 5. Produção de
borracha de plantios
e de origem extrativa,
1990–2010.

Plantas ibrosas
Curauá e a valorização da malva por meio da juta
A ibra de curauá (Ananas erectifolius) obtida de uma bromélia, mais
concentrada na região de Santarém, foi muito utilizada até o século 18
na cordoaria para embarcações, para uso agrícola e doméstico, antes do
advento das cordas de fabricação industrial. A ibra de curauá chegou a
ser exibida na Exposição Universal de Paris, realizada em 1889, quando
foi inaugurada a Torre Eifel (PINHEIRO, 1939). O interesse recente da
ibra do curauá renasce com a Mercedes Benz na década de 1990 para
a utilização em encostos de caminhões, com plantios concentrados no
Município de Santarém.

Em 2011, o Brasil importou mais de 21 milhões de dólares de ibra


bruta e sacaria de juta da Índia e de Bangladesh, totalizando 16 mil
toneladas. A lavoura de juta foi introduzida pelos imigrantes japoneses
em Parintins, após aclimatação efetuada pelo colono japonês Ryota
Oyama (1882–1972), em 1934, iniciando a produção comercial em
1937. Com a produção nos estados do Amazonas e Pará, o Brasil
atingiu a autossuiciência em 1953, sendo iniciada novamente em 1970.
Com a introdução da juta, ocorreu a valorização da malva, uma planta
daninha que ocorria em grande intensidade no Nordeste Paraense e
passou a ocupar o lugar da juta nas áreas de várzeas a partir de 1971,
passando a dominar a produção. Em 1978, a produção de ibra de malva
alcançou o dobro da juta, em 1983, o triplo e, em 2010, mais de 93%.
Para o País atingir a autossuiciência, é necessário produzir de 25 mil
a 30 mil toneladas de ibra, envolvendo 10 mil a 15 mil produtores,
sendo necessário duplicar a atual produção concentrada no Estado do
Amazonas (HOMMA et al, 2011a). Há um crescente interesse do uso
de juta e malva para a substituição de embalagens plásticas.
CAPÍTULO 1 - Extrativismo vegetal ou plantio: qual a opção para a Amazônia? 41

Símbolo cultural
Cuieira
A cuieira (Crescentia cujete) merece um destaque nesta breve descrição
por ser um utensílio utilizado pelos indígenas e símbolo da cultura
paraense associado ao tacacá. A etnotecnologia da fabricação da cuia
envolve o corte da fruta em dois hemisférios, a secagem e a pintura
de preto proveniente do extrato aquoso do caule de cumatê (árvore
da família das Melastomáceas cujas cascas são ricas em tanino).
Após a pintura, as cuias são colocadas sobre um recipiente contendo
urina humana em decomposição, a cujos vapores elas icam expostas,
não entrando em contato direto com a urina, apenas com as suas
emanações amoniacais. Hoje, a urina é substituída pelo amoníaco.
O corante endurecerá e escurecerá, adquirindo as propriedades de
uma laca negra e brilhante, que protegerá a cuia do apodrecimento e
facilitará seu manuseio e higiene (MACHADO, 2012?).

Outras plantas da biodiversidade


amazônica
A lista seria extensa, pois mencionaria outras plantas, tais como:
camu-camu [Myrciaria dubia (HBK) Mc Vough], piquiá, mangaba,
taperebá, baunilha, priprioca (Cyperus articulatus L), patauá [Jessenia
bataua (Mart.) Burret], bacaba, etc., na forma extrativa e em pequenos
plantios, e breu-branco (Protium pallidum), patchuli (Pogostemon
spp.), buriti (Mauritia lexuosa), tucumã (Pará), murumuru, unha-
-de-gato, cumaru, pequi, bromélias, orquídeas, marapuama, catuaba,
mangabeira, guariroba, amapá-amargo, cumatê, cipó-titica, guarumã,
piaçaba, espetos de bambu, etc., provenientes do extrativismo, nem
sempre efetuado de forma adequada (BORÉM et al., 2009; NICOLI
et al, 2006). O clássico livro de Paulo B. Cavalcante (1922–2006)
lista 163 frutas comestíveis na Amazônia, metade constituída de
fruteiras nativas, o que realça o potencial de plantas que poderão ser
incorporadas no futuro (CAVALCANTE, 2010).

Recursos faunísticos
Há quatro décadas, o consumo de aves estava restrito para doentes ou
mulheres em resguardo. A partir da década de 1960, o País iniciou
uma grande expansão da avicultura e a produção de carne de frango
suplantou a da carne bovina, com menos impactos ambientais. O
Brasil tornou-se o maior exportador de frangos e de carne bovina,
destinando 30% e 20%, respectivamente, da produção nacional. O
mesmo não ocorre com a pesca, em que 73% da produção nacional
é de origem extrativa e 27% proveniente de criatórios. Em nível
mundial, essa proporção é de 50% entre extrativa e aquicultura.
Deve-se ressaltar que, no País, a produção de pescado não atinge
42 Extrativismo Vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação

10% do que é produzido de carne bovina ou de frango. Com certeza


o desmatamento da Amazônia teria sido maior se a produção de
frango não tivesse alcançado os atuais patamares tecnológicos. Nesse
sentido, são grandes as oportunidades de se efetuar uma revolução na
Aquicultura Brasileira, viabilizando criatórios de peixes amazônicos
como tambaqui (Colossoma macropomum), pirarucu (Arapaima
gigas), tucunaré (Cichla ocellaris) e a criação de tartaruga-da-amazônia
(Podocnemis expansa), tracajá (Podocnemis uniilis), etc. Os sucessos
da piscicultura estão localizados em Mato Grosso do Sul, Amazonas
e, atualmente, no Estado do Acre, visando à saída para o Pacíico e à
obtenção de farinha de peixe do Peru como matéria-prima para ração.

Conclusões
O extrativismo vegetal na Amazônia foi muito importante no passado,
é importante no presente, mas há necessidade de pensar sobre o futuro
da região. Foi o extrativismo da seringueira que permitiu o processo
de povoamento da região e a construção de infraestrutura produtiva.
Ademais, sustentou a economia nacional por três décadas como
terceiro produto de exportação, vindo depois do café e do algodão,
e promoveu a anexação do Acre à soberania nacional. Como outros
exemplos, no caso da seringueira, o País não pode icar dependendo
da economia da borracha extrativa. Justiica-se a manutenção do
extrativismo como uma maneira de comprar tempo, enquanto não
surgirem alternativas para evitar o êxodo rural ou quando existirem
em grandes estoques. A formação de um parque produtivo forte com
a domesticação de plantas extrativas atualmente conhecidas e aquelas
potenciais é a melhor garantia para evitar a biopirataria na Amazônia
e nos países vizinhos, além de gerar renda e emprego.

Não se pode negar que a economia extrativa foi a razão e a causa


do atraso regional, apoiando-se na disponibilidade dos recursos
naturais e na crença da sua inesgotabilidade. Para a manutenção
da economia extrativa, é importante impedir as pesquisas com a
domesticação de plantas e animais passíveis de serem incorporados
ao processo produtivo. Dessa forma, o culto ao atraso de muitas
propostas ambientais, tanto nacionais como estrangeiras, em favor
do extrativismo na Amazônia, escondem resultados que podem ser
avessos aos interesses dos consumidores, das indústrias e dos próprios
extratores. De forma idêntica, para a manutenção do extrativismo é
importante que não se criem alternativas de renda e emprego, a melhoria
da infraestrutura, em face da baixa produtividade da terra e da mão de
obra da economia extrativa, daí o obscurantismo de muitas propostas
ambientais defendidas pelos países desenvolvidos para a Amazônia. A
extração pulverizada e a inexistência de economia de escala tornam
um grande desaio como um modelo adequado para a Amazônia. A
melhoria do nível de vida das populações extrativistas, estimuladas,
por exemplo, com a energia elétrica, induz ao desenvolvimento de
CAPÍTULO 1 - Extrativismo vegetal ou plantio: qual a opção para a Amazônia? 43

outras atividades, para aumentar a renda, não passível de ser obtida


apenas com a coleta de produtos da loresta.

Ao contrário do propalado, a criação de reservas extrativistas nem


sempre constitui em garantia da conservação e preservação dos
recursos naturais. Apesar da ênfase no manejo, a exploração de muitos
recursos extrativos tende a levar à sua exaustão e à destruição da
loresta, mudando para novos locais. A extração madeireira, a criação
bovina e as atividades de roça poderão levar a uma “reserva extrativista
sem extrativismo” no decorrer do tempo. Para evitar desmatamentos
e queimadas na Amazônia, será necessário o aproveitamento parcial
dos 75 milhões de hectares já desmatados (2013), com atividades
produtivas adequadas e promovendo a recuperação de áreas que não
deveriam ter sido desmatadas. Nesse elenco encaixa-se um conjunto
de produtos da biodiversidade, do passado, do presente e aqueles por
descobrir.

Para os produtos extrativos alimentícios que apresentem conlitos


entre a oferta e a demanda é urgente promover a sua domesticação. A
insistência no extrativismo leva a prejuízos sociais para os produtores
e consumidores. Para os produtos extrativos utilizados como plantas
medicinais, cosméticos, tóxicos, etc., pelas comunidades tradicionais,
a modiicação da Medida Provisória 2186-16 é necessária, sob risco de
impedir o desenvolvimento de novos produtos e como mecanismo de
geração de renda e emprego para as populações regionais.

A implementação do Código Florestal conduzindo à recuperação de


ecossistemas destruídos pode induzir ao desenvolvimento de sistemas
híbridos envolvendo plantios domesticados convertidos em extrativos
ou manejados para recompor Áreas de Reserva Legal e Áreas de
Preservação Permanente.

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