Análise do Primeiro Governo Lula (2003-2006)
Análise do Primeiro Governo Lula (2003-2006)
internacional1
Resumo:
Este artigo analisa o primeiro governo Lula (2003-2006). Nossa hipótese é que, apesar de
reconhecer a importância dos fatores internos que proporcionaram a retomada do
crescimento econômico (tais como o mercado de trabalho, a expansão do crédito e as
políticas de transferência de renda), os fatores externos têm sido subestimados no debate.
As exportações cresceram durante todo o seu governo a taxas superiores à média do PIB;
o investimento privado no setor industrial esteve concentrado em setores intensivos em
recursos naturais; a taxa de juros doméstica somente pôde ser reduzida em razão da
redução das taxas de juros internacionais. O trabalho conclui que, a despeito de não ter
enfrentado os problemas da estrutura produtiva, o cenário internacional, articulado com
as condições internas, ainda permitira fôlego adicional para sustentar o crescimento para
além deste primeiro mandato.
Abstract:
This article analyzes the first Lula’s government (2003-2006). Despite recognizing the
importance of the internal factors that have brought about the resumption of economic
growth (such as the labor market, credit expansion, and income transfer policies), external
factors have been importante but underestimated in this debate. Exports grew throughout
at rates above the GDP average; private investment in the industrial sector has been
concentrated in resource-intensive sectors; the domestic interest rate could only be
reduced due to the reduction of international interest rates. The paper concludes that,
despite not having faced the problems of the productive structure, the international
scenario, coupled with internal conditions, still allowed additional breathing to sustain
growth beyond this first mandate.
1
O autor agradece os comentários feitos pelo professor Fernando Mattos, e obviamente assume as eventuais
falhas que persistem no artigo.
1
1. Introdução
2
trabalho, com redução da taxa de desemprego e aumento da formalidade. A retomada
econômica ainda provocou a expansão das receitas tributárias, permitindo conciliar as
metas de superávit primário com o aumento do gasto público, especialmente o gasto
social na forma de transferência de renda, aposentadorias, pensões, e também o
investimento público.
Tais elementos se espalham pelos dois governos Lula. Neste capítulo, nosso objeto
consistirá no seu primeiro governo (2003-2006). Nossa hipótese é que neste momento, os
efeitos externos parecem ter se sobressaído na determinação do desempenho econômico.
Este capítulo está organizado em três grandes seções, além desta introdução. Na segunda,
apresentaremos um panorama do período; na terceira abordaremos as circunstâncias
internacionais e seus efeitos na economia brasileira; e na quarta abordaremos as políticas
de impulsionamento do mercado interno. As considerações finais serão feitas na seção
cinco.
2. O panorama do período
“(José) Dirceu, José Fritsch, Celso Amorim, José Alencar, Dilma Rousseff, o ministro da Saúde
(Humberto Costa) e o ministro da Educação (Tarso Genro). ‘Agora, onde é que está o poder? O
poder está nos donos do não! O poder está na Fazenda, porque a Fazenda pode dizer não.”
Mas por que o governo Lula não reverteria as reformas neoliberais realizadas na
década anterior e preservaria o tripé macroeconômico? Para Carcanholo (2010), a ideia
2
Na forma da extinção das CC-5. Ver, a este respeito, Carcanholo (2010).
3
Carlos Lessa seria demitido da presidência do BNDES em novembro de 2004. Para maiores detalhes sobre
a gestão de Lessa à frente do BNDES, ver Costa et al. (2016).
4
de continuidade como uma estratégia para assegurar a credibilidade dos mercados
financeiros para depois implementar um projeto alternativo não era consistente, porque a
confiança, uma vez quebrada, não volta, e sob a hipótese desta confiança ser considerada
crucial, um projeto alternativo jamais seria implementado. Outra hipótese seria a falta de
alternativas mediante a crise econômica e as contradições legadas pelo governo Cardoso,
a assim chamada “herança maldita”. Entretanto, se esta “herança maldita” é resultado das
opções de política econômica feitas pelo governo Cardoso, a sua continuidade e
aprofundamento somente poderiam intensificar tais contradições. Costa et al. (2016: 206)
ainda apontam para outra interpretação possível, a de que o novo governo, em razão do
acordo feito com o FMI em 2002, “entregava” a política macroeconômica de curto prazo,
mas preservava outros projetos.
As análises das contradições existentes no governo Lula da Silva são distintas, quase
sempre isentas de racionalidade, à esquerda e à direita, assim como sua política econômica é
avaliada numa gama muito ampla de interpretações. Sem a pretensão de esgotá-las, é possível
destacar as mais conservadoras, que certamente rejeitam o fato de pela primeira vez ocupar a
Presidência da República um político egresso não das oligarquias rurais, nem dos salões paulistas,
fluminenses ou mineiros, muito menos da caserna, mas do operariado. Outras identificam seu
governo como populista, enquanto alguns segmentos o identificam como um governo popular,
enquanto terceiros, por sua vez, enfatizam os elementos de continuidade com o governo Cardoso.
Todos esses argumentos podem ser refutados, por várias interpretações mais à direita ou à
esquerda, no campo político. No campo econômico, suas políticas e projetos de governo são
também avaliados sem consenso, por mais heterodoxos ou mais ortodoxos, por
desenvolvimentistas, neodesenvolvimentistas, liberais ou neoliberais. Certo é que todas são
tangidas pelo clamor dos acontecimentos, pela força da ideologia e pela feroz batalha política que
o governo Lula da Silva desencadeou. (COSTA et al., 2016: 206-7)
Quaisquer que fossem os motivos que levaram o governo Lula à opção de
continuidade, fato é que pelos caminhos estreitos que restaram da rigidez do modelo
econômico adotado, o governo conseguiu espaços para articular três elementos que
dinamizariam o mercado interno durante seus dois governos: as políticas de transferência
de renda; os reajustes do salário mínimo acima da inflação e a taxas superiores às que
vinham sendo praticadas desde o Plano Real; e a expansão do crédito bancário,
especialmente para as pessoas físicas. Parte deste espaço que o governo encontrou para
movimentar-se à margem do tripé da política macroeconômica foi oferecido pelo cenário
internacional, marcado pela expansão da demanda e dos preços das commodities
agrominerais, que afastou, ao menos ao longo desses próximos anos, o fantasma da
restrição externa em outras épocas interrompiam as trajetórias de crescimento econômico,
ou impediam a sua retomada.
Além disso, o jogo político também foi importante para determinar algumas
inflexões que seriam sentidas na economia. A CPI dos Bingos, que investigava um
5
esquema de propinas envolvendo o assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz, atingiu o
ministro da Fazenda Antônio Palocci, que foi substituído por Guido Mantega, em março
de 2006. A ascensão de Mantega ao Ministério da Fazenda significaria um economista de
perfil desenvolvimentista no comando da economia. E o escândalo do mensalão, que
consistia no suposto pagamento de propinas para deputados que aderissem à base aliada,
levou à substituição de José Dirceu na Casa Civil por Dilma Rousseff, que ocupava a
pasta das Minas e Energia. As mudanças mais profundas seriam sentidas na política fiscal,
mas sobretudo a partir do segundo governo Lula, e, portanto, não constituem objeto deste
capítulo.
3. A política macroeconômica
6
lado da oferta, o conjunto de indicadores reforça a hipótese de um mercado interno mais
vigoroso apenas na segunda metade do primeiro governo Lula, quando os setores de
comércio e serviços crescem a taxas mais pujantes. Já a indústria registra, no período
considerado, um comportamento mais volátil, e aparentemente mais sensível aos ciclos
de ascensão e queda da taxa básica de juros. De fato, a taxa de crescimento do PIB
industrial guarda forte correlação com o ciclo da taxa Selic, que cai a partir de meados de
2003, volta a aumentar no final de 2004, e passa a cair um ano depois. Em média, o PIB
industrial cresce à taxa anual de 3,8%, ligeiramente superior ao PIB (3,5% a.a.), mas esta
trajetória não é linear. Talvez por este motivo alguns autores limitam a importância da
demanda externa para o desempenho da economia brasileira durante o primeiro governo
Lula apenas nesta fase de retomada. Ipea (2010) considera que a maior contribuição do
setor externo para o desempenho econômico durante esses anos foi quanto ao relaxamento
dos constrangimentos externos, e não à demanda. Serrano e Summa (2011: 16)
consideram que a partir de 2006 “o crescimento das exportações perde a influência”. De
fato, as exportações crescem a taxas decrescentes durante o primeiro governo Lula.
Contudo, crescem sistematicamente acima da média do PIB.
A retomada econômica mais forte, ensaiada no ano de 2004, foi interrompida pelo
Banco Central, na lógica da condução do regime de metas de inflação. A passagem do
ano de 2004 para 2005 é marcada por uma desaceleração da taxa de crescimento do PIB,
7
que retorna “para o padrão histórico de expansão” (Amitrano, 2006: 242) e ali permanece
até 2006. Neste sentido, é possível identificar, durante os anos em tela, três momentos da
política monetária. Nos primeiros meses do primeiro governo Lula o Banco Central
elevou a taxa básica de juros, ainda sob o impacto da aceleração inflacionária decorrente
da crise cambial de 2002. A meta de inflação para o ano de 2003 estabelecida pelo
Conselho Monetário Nacional (CMN), ainda no governo Cardoso, situava-se em um
intervalo entre 1,25 e 5,25%.4 Como a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao
Consumidor Amplo (IPCA) em 2002 havia superado os 12%, desinflacionar a economia
sob a lógica do regime de metas inflacionárias implicaria uma forte elevação da taxa
básica de juros e uma desnecessária crise de estabilização. A opção foi redimensionar a
meta, prevendo uma desinflação gradual. À medida em que os índices de inflação
passaram a convergir para este objetivo, o Banco Central passou a promover, a partir do
segundo semestre de 2003, a redução gradual da taxa Selic, mas a retomada do
crescimento do PIB em 2004 foi interpretada pelo Banco Central como uma ameaça à
meta de inflação, e no final deste ano a autoridade monetária iniciou um novo ciclo de
aperto da política monetária.
Como mencionado acima, o governo Lula se inicia sob uma crise cambial: o
aumento do prêmio de risco ao longo da campanha presidencial não foi compensado pelo
Banco Central com o aumento da taxa básica de juros, o que desencadeou uma
maxidesvalorização cambial naquele ano. O anúncio de uma política econômica market
friendly pelo novo presidente provocou a redução do prêmio de risco no início de 2003,
abrindo espaço para que a taxa de juros fosse reduzida sem comprometer o ingresso de
capitais externos e o equilíbrio do balanço de pagamentos. A redução da taxa Selic,
contudo, ocorreu a uma velocidade inferior à queda do prêmio de risco, aumentando o
4
[Link]
5
Ver, a este respeito, Serrano (2010) e Braga e Bastos (2010).
8
diferencial entre a taxa de juros doméstica e a taxa internacional de paridade. O resultado
foi a reversão da trajetória de desvalorização cambial. Do ponto de vista da política
cambial, é possível caracterizar o primeiro governo Lula a partir de uma tendência de
apreciação cambial nominal e real, ainda que de forma não linear (gráfico 1). Em razão
da importância da participação relativa dos bens comercializáveis na composição dos
índices de preços, em particular do IPCA, a apreciação cambial tem entre os seus
resultados a desaceleração da inflação. Mas isto significa que ao longo dos anos em tela
ocorreu também uma mudança nos preços relativos: o conjunto de preços mais sensíveis
à taxa de câmbio registra inflação bastante inferior ao conjunto de preços menos sensíveis,
como os assim chamados preços monitorados, cujos reajustes dependem de autorização
de agências reguladoras, como energia, telecomunicações, medicamentos, etc (gráfico
2).6
Taxa de câmbio nominal e índice da taxa de câmbio Taxa Selilc, nominal e real (% em 12 meses)
real (jan/2002 = 100) 30,0000
4,0000 230 25,0000
3,5000
20,0000
3,0000 180
15,0000
2,5000
130
2,0000 10,0000
1,5000 80 5,0000
2002.07
2003.07
2004.07
2005.04
2005.07
2006.04
2002.01
2002.04
2002.10
2003.01
2003.04
2003.10
2004.01
2004.04
2004.10
2005.01
2005.10
2006.01
2006.07
2006.10
-
2002.12
2003.03
2003.06
2003.09
2003.12
2004.03
2004.06
2004.09
2004.12
2005.03
2005.06
2005.09
2005.12
2006.03
2006.06
2006.09
taxa de câmbio nominal
taxa de câmbio real (índice), eixo direito Selic nominal selic real
Fonte: Ipeadata
6
Diversos trabalhos têm apontado que, na gestão do regime de metas de inflação no Brasil, o canal mais
importante entre o aumento da taxa básica de juros e a redução da inflação reside na taxa de câmbio. Ver,
por exemplo, Braga (2013), Braga & Bastos (2010), Braga & Summa (2016) e Serrano (2010).
7
Para um debate mais amplo a respeito do aumento da carga tributária, ver Ribeiro (2010) e Orair (2014).
9
gasto público do governo central cai em termos reais no primeiro ano do governo Lula,
mas é retomado nos anos seguintes, perfazendo uma média anual de crescimento de
ordem de quase 6% anuais. O crescimento do gasto foi praticamente compensado pelo
crescimento das receitas, a uma taxa semelhante, o que explica a ocorrência de superávit
primário em contexto de crescimento do gasto entre 2004 e 2006. Este dado é importante
porque desautoriza qualquer interpretação de que a retomada do crescimento do PIB
durante os anos Lula decorreu do ajuste fiscal. Na verdade, a retomada do gasto público
a partir de 2004 constituiu um importante fator de retomada do crescimento econômico a
partir daquele ano.
20,00
15,00
10,00
5,00
-
2002.01
2002.03
2002.05
2002.07
2002.09
2002.11
2003.01
2003.03
2003.05
2003.07
2003.09
2003.11
2004.01
2004.03
2004.05
2004.07
2004.09
2004.11
2005.01
2005.03
2005.05
2005.07
2005.09
2005.11
2006.01
2006.03
2006.05
2006.07
2006.09
2006.11
10
decrescente, já que a política de acúmulo de reservas internacionais 8 reduziu a dívida
externa líquida do setor público, que se tornou negativa no final de 2006.9
4. O cenário internacional
8
O estoque de reservas internacionais passou de US$ 37,8 bilhões em dezembro de 2002 para US$ 85,8
bilhões em dezembro de 2006 (fonte: Ipeadata).
9
A posição de credor líquido em moeda estrangeira, assumida pelo setor público ao término de 2006,
imporia uma nova dinâmica à dívida líquida do setor público a partir do segundo governo Lula, e reduziria
a exposição das finanças públicas às vicissitudes do mercado cambial. (GENTIL e ARAUJO, 2011). Agora,
desvalorizações cambiais reduziriam, em vez de elevar, a DLSP.
10
Os dados são de Acioly, Pinto e Cintra (2011).
11
e da taxa de urbanização de sua população. Os principais impactos foram o aumento do
consumo de proteína animal, e de minério de ferro11 e de seus derivados usados na
construção das grandes cidades. Com efeito, a economia chinesa atingiu um patamar
capaz de pressionar os preços das commodities agrominerais negociadas nos mercados
financeiros internacionais. Neste sentido, a economia latino-americana foi fortemente
afetada: segundo Mattos & Carcanholo (2012), na primeira década do século XXI a taxa
de crescimento das exportações chinesas para a América Latina e Caribe foi o dobro da
taxa de crescimento das exportações chinesas totais. Com efeito, a economia brasileira
foi beneficiada diretamente, pois era o segundo maior exportador mundial de minério de
ferro, e indiretamente, pois era um dos maiores exportadores mundiais de soja e milho,
produtos utilizados na fabricação da ração animal. Com efeito, a economia brasileira
registrou superávits comerciais crescentes ao longo dos anos em tela, atingindo a cifra
recorde de US$ 46,5 bilhões em 2006, suficientes para reverter os déficits em transações
correntes. De fato, o primeiro governo Lula obteve um resultado jamais obtido por
nenhum dos seus antecessores: superávit em transações correntes em todos os anos.
(tabela 3)
Os efeitos da ascensão da China podem ser sentidos por meio de outros dois
indicadores. O primeiro deles é o aumento em 3 pontos percentuais da China, Hong Kong
e Macau como destino das exportações brasileiras. Este aumento mais do que compensou
a redução da participação dos Estados Unidos e da União Europeia, o que demonstra
também uma maior diversificação do comércio exterior brasileiro durante o primeiro
governo Lula, sob os auspícios de uma política externa independente. Por outro lado,
nesses anos em tela a China gradativamente se consolida na condição de um dos mais
importantes fornecedores de bens para a economia brasileira, ao passo que EUA e União
Europeia também perderam participação relativa.
11
Segundo Carvalho et al. (2014), o Brasil foi, entre 2007 e 2013, o segundo maior produtor mundial de
minério de ferro e seus produtos, e a China representava cerca de 55% da demanda mundial.
12
Tabela 3 – Brasil: indicadores externos diversos
13
Tabela 4 – Brasil: composição das exportações e importações por fator agregado,
em %
Exportações Importações
1999-2002 2003-2006 1999-2002 2003-2006
US$ bi % US$ % US$ bi % US$ %
bi bi
China, Hong 6,9 12,48 16,5 15,51 1,5 2,89 5,2 7,55
Kong e
Macau
União 15,2 27,49 25,4 23,87 14,6 28,13 16,8 24,38
Européia
EUA 13,6 24,59 20,9 19,64 11,9 22,93 12,0 17,42
América do 9,5 17,18 18,4 17,29 9,2 17,73 10,6 15,38
Sul
Outros 10,1 18,26 25,2 23,68 14,7 28,32 24,3 35,27
Total 55,3 100,00 106,4 100,00 51,9 100,00 68,9 100,00
Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, elaboração própria
14
Contudo, este ciclo foi relativamente curto, e já em 2005 o FED voltou a elevar as taxas.
O aperto da política monetária dos EUA foi mais que compensado pela redução do risco-
país. A redução do prêmio de risco foi crucial para que o Banco Central iniciasse a
redução da taxa Selic a partir do segundo semestre de 2003. O primeiro governo Lula,
contudo, se caracterizou pela manutenção de um elevado diferencial de taxas de juros
(gráfico 3). Com efeito, o primeiro governo Lula se inicia sob cenário de expansão da
liquidez internacional, ligeiramente revertida ao longo deste mandato presidencial. O
afrouxamento e posterior aperto da política monetária norte-americana se refletiu
principalmente no saldo da conta financeira do balanço de pagamentos (tabela 3), que
encerrou o ano de 2004 deficitário em US$ 4,7 bilhões depois do superávit de US$ 5,3
bilhões do ano anterior. A partir daí, o ingresso líquido de capitais nesta rubrica foi
crescente.
30,00
25,00
20,00
15,00
10,00
5,00
-
02/01/2002
11/03/2002
14/05/2002
18/07/2002
07/04/2003
12/06/2003
15/08/2003
20/10/2003
09/07/2004
13/09/2004
19/11/2004
25/01/2005
17/10/2005
22/12/2005
02/03/2006
08/05/2006
19/09/2002
25/11/2002
30/01/2003
23/12/2003
02/03/2004
05/05/2004
01/04/2005
07/06/2005
09/08/2005
12/07/2006
14/09/2006
21/11/2006
Cabe aqui retomar o debate, que pontuamos na seção dois, a respeito da relação
entre a demanda externa e dinâmica do crescimento econômico do período. Neste sentido,
os dados da tabela 1 parecem apontar que a demanda externa exerceu papel limitado
enquanto elemento dinamizador da economia brasileira, muito restrito aos dois primeiros
anos, já que cresce a taxas decrescentes. De todo modo, as exportações crescem
sistematicamente acima da média do PIB, ainda que de fato o crescimento mais pujante
estivesse localizado nos anos de 2003 e 2004. Segundo Serrano (2008: 84),
15
a análise correta do papel do setor externo na determinação do crescimento do PIB deve ser
feita levando em conta que o produto vai ser dado pela proporção da demanda agregada
(tamanho da demanda interna mais exportações) que é atendida pela produção interna. Assim,
independentemente do que ocorre com o saldo comercial, qualquer coisa que aumente a
demanda interna ou as exportações expande a economia. Qualquer coisa que aumente a
parcela desta demanda agregada que se transforma em importações diminui o produto.
Estes dados, contudo, não são suficientes para concluir que o mercado interno teve
primazia na retomada do crescimento do produto durante este quadriênio. Isto porque o
aumento do coeficiente de importações pode ter ocorrido em qualquer setor e ramo de
atividade econômica. A demanda externa por produção doméstica pode ter isoladamente
estimulado a produção, o investimento e a geração de empregos em atividades
exportadoras, com um efeito multiplicador positivo para outras atividades, como
comércio e serviços, e parte deste estímulo à expansão da demanda doméstica pode ter
“vazado” para o exterior na forma de importações.
16
Gráfico 4 – Importações/PIB
0,11
0,10 0,11
0,11
0,10
0,10
0,09
0,10
0,09 0,09
0,09 0,09 0,09 0,09
0,09 0,09
0,09 0,08
0,09 0,08 0,08 0,08
0,08
0,08 0,08
0,08 0,08
0,08
0,07
30,00
25,00
20,00
15,00
10,00
5,00
0,00
-5,00
-10,00
-15,00
M/Y exportações
Neste sentido, uma luz sobre essa questão foi lançada por Pinto (2010). O autor
utilizou os dados do ativo imobilizado das empresas industriais, fornecidos pela Pesquisa
Industrial Anual (PIA) do IBGE, como proxy do investimento setorial. Em seguida,
agrupou os setores em quatro tipos – indústria intensiva em recursos naturais, indústria
tradicional (intensiva em mão-de-obra), indústria de commodities intensiva em capital, e
indústria difusora de tecnologia. O autor mostrou que a expansão do investimento
industrial esteve concentrada no setor de commodities intensivo em capital e na indústria
intensiva em recursos naturais. Já a indústria intensiva em tecnologia manteve seus
investimentos em patamar estável. Os dados, lidos em conjunto nos gráficos 6 e 7, são
17
reveladores da importância do boom de commodities no estímulo à atividade econômica
doméstica e dão à demanda externa uma importância relativa maior na determinação da
retomada do crescimento econômico durante o primeiro governo Lula.
40,00
35,00
30,00
25,00
20,00
15,00
10,00
5,00
-
1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006
60,00
50,12
50,00 48,16 51,37 49,67 43,19
40,00 44,95 42,49
42,23
30,00
20,00
24,22 24,83 27,44
10,00 19,27 23,11 22,90
18,15 18,49
-
1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006
5. A demanda interna
18
A taxa de desocupação mostrou-se resistentemente elevada durante quase todo o
primeiro ano do governo Lula, iniciando a queda somente a partir do final de 2003. Em
tais condições, o rendimento médio real recebido também caiu no primeiro ano. O
mercado de trabalho somente começou a dar os primeiros sinais de reação a partir de
2004, quando a taxa de desocupação começou a cair e o rendimento real a subir. Neste
ano, o saldo entre novos empregados e demitidos no âmbito da Consolidação das Leis do
Trabalho (CLT), foi o dobro do ano anterior. Ao todo, entre 2003 e 2006 o saldo de novos
empregos foi de 4,6 milhões, uma média de 1,1 milhão de novos empregos anuais, contra
a média de 670 mil empregos anuais entre 2000 e 2002 (gráfico 8). A reação do mercado
de trabalho ocorreu com uma ligeira redução da participação percentual dos empregos
sem carteira assinada e do assim chamado “conta própria”, e simultaneamente ao aumento
dos rendimentos reais, que também passaram a crescer sistematicamente acima da
inflação a partir de 2004 (gráfico 9). Segundo Mattos (2015), o mercado de trabalho
brasileiro se caracterizou não só pelas novas ocupações, como também pela
formalização,12 de modo que a taxa de formalidade passou de 39,9% em 2002 para 41,4%
em 2005 e 43,6% em 2007.
2003.03
2003.09
2004.11
2005.05
2005.11
2002.03
2002.05
2002.07
2002.11
2003.01
2003.05
2003.07
2003.11
2004.01
2004.03
2004.05
2004.07
2004.09
2005.01
2005.03
2005.07
2005.09
2006.01
2006.03
2006.05
2006.07
2006.09
2006.11
0
2002 2003 2004 2005 2006
12
Mattos (2015) utiliza o conceito de formalização calculado pela soma dos empregados com carteira
assinada (e, portanto, regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho), os trabalhadores do serviço público
e os empregadores. A taxa de formalização é calculada com a população empregada total no denominador.
19
Gráfico 9 – Rendimentos reais e taxa de informalidade
Rendimentos reais recebidos em todas as fontes, Empregos sem carteira e conta própria, %
R$ de outubro de 2015 e taxa de crescimento 42 41
1.200 8,28 10,00
41
1.144 8,00 41 41
1.150 4,91
6,00 41
1.100 3,33
4,00
1.058 1.056 40 40
1.050 2,00
1.007 0,00
-0,78 40 39
1.000 974 -2,00
-4,00 39
950
-6,00
900 39
-7,96 -8,00
850 -10,00 38
2002 2003 2004 2005 2006 2002 2003 2004 2005 2006
Salário mínimo a preços constantes de novembro Taxa de crescimento real desde o último reajuste
de 2018, R$ 16,00
750,00 13,69
14,00
686,13
700,00
12,00
650,00
10,00
600,00 7,91
8,00
550,00
496,08
6,00
500,00
450,00 4,00
2,18
400,00 2,00
0,53
2003.12
2004.02
2004.04
2005.12
2006.02
2006.04
2002.12
2003.02
2003.04
2003.06
2003.08
2003.10
2004.06
2004.08
2004.10
2004.12
2005.02
2005.04
2005.06
2005.08
2005.10
2006.06
2006.08
2006.10
2006.12
-
2003.04 2004.05 2005.05 2006.04
20
superiores ao SM tendem a ser majorados sempre que o SM é reajustado, de modo a
manter alguma diferença do piso salarial. Além disso, segundo Braga (2013) os
rendimentos dos trabalhadores do setor informal e dos “conta-própria” também são
influenciados pelo SM, que funciona como sinalizador daquelas remunerações.
13
A extrema pobreza é definida em termos do valor de uma cesta de alimentos com o mínimo de calorias
necessárias para suprir um indivíduo, segundo os critérios da FAO, organização das Nações Unidas. A
pobreza é definida como o dobro do valor correspondente à extrema pobreza.
21
elemento dinamizador do mercado interno foi a expansão do crédito bancário.
Especificamente nas modalidades voltadas para o consumo, o crédito constituiu
importante elemento dinamizador do consumo de bens duráveis, especialmente
eletroeletrônicos e automóveis.
A expansão do crédito bancário teve seu impulso inicial no final de 2003, com a
regulamentação do crédito consignado, modalidade em que as prestações são diretamente
descontadas da folha de pagamento, reduzindo o risco e, portanto, compatível com taxas
de juros menores às tradicionais modalidades de crédito pessoal. Ao mesmo tempo, a
redução continuada da taxa Selic estimularia os bancos a substituir as aplicações em
títulos públicos por operações de crédito. Por um lado, a retomada econômica elevaria a
demanda pelas modalidades de crédito corporativo, enquanto o maior dinamismo do
mercado de trabalho impulsionaria a demanda pelas modalidades de crédito ao consumo.
Durante o primeiro governo Lula, o estoque de crédito bancário medido como proporção
do PIB passaria de 26% em 2002 para 31% em 2006. Os bancos privados nacionais
lideraram este processo, mas foram acompanhados de perto pelos bancos estrangeiros e
pelos bancos públicos. Estes últimos foram mais cautelosos à expansão do crédito,
especialmente em razão do recente processo de reestruturação a que foram submetidos,
também passaram a expandir suas operações e contribuíram para o ciclo de expansão de
crédito.14 Segundo Araujo (2013), entre 2003 e 2006 o crédito às pessoas físicas
acumulava um crescimento de 62%, acima da média de 45%.
14
Somente depois da eclosão da crise financeira internacional, no final de 2008, é que os bancos públicos
assumiriam a dianteira no ciclo de expansão de crédito.
22
Gráfico 11 – produção industrial, número índice (2002 = 100)
160,00
150,00 147,84
140,00
133,94
130,00
120,00 114,44
110,00 112,87
107,35
100,00
90,00
80,00
2002 2003 2004 2005 2006
23
Por outro lado, tais circunstâncias também agravariam as contradições existentes
na estrutura produtiva brasileira, especialmente no tocante à indústria, certamente afetada
pela apreciação cambial e incapaz de, por si, superar os gargalos impostos pela abertura
comercial da década anterior.
Referências
24
BRAGA, J. (2013) A inflação brasileira na década de 2000 e a importância das políticas
não monetárias de controle. Economia e Sociedade, Campinas, v. 22, n. 3 (49), p. 697-
727, dez. 2013
25
MATTOS, F.; CARCANHOLO, M. (2012) Amenazas y oportunidades del comercio
brasileño com China: lecciones para Brasil. Revista Problemas del Desarrollo, 168 (43),
pp. 117-145.
PAIVA, L. H.; FALCÃO, T.; BARTHOLO, L. (2013) Do Bolsa Família ao Brasil Sem
Miséria: um resumo do percurso brasileiro recente na busca da superação da pobreza
extrema. In: CAMPELLO, T.; NÉRI, M. C. (Orgs) Programa Bolsa Família: uma década
de inclusão e cidadania. Brasília: Ipea.
26