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Didática e Educação a Distância na Unicesumar

Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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DIDÁTICA

PROFESSORAS
Dra. Suzi Maria Nunes Cordeiro
Me. Camila Tecla Mortean Mendonça

Acesse o seu livro também disponível na versão digital.

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DIDÁTICA

NEAD - Núcleo de Educação a Distância


Av. Guedner, 1610, Bloco 4 - Jd. Aclimação
Cep 87050-900 - Maringá - Paraná - Brasil
[Link] | 0800 600 6360

C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância;


CORDEIRO, Suzi Maria Nunes; MENDONÇA, Camila Tecla Mortean.
Didática. Camila Tecla Mortean Mendonça; Suzi Maria Nunes Cordeiro.
Maringá - PR.:Unicesumar, 2019. Reimpresso em 2024.
192 p.
“Graduação em Educação Física - EaD”.
1. Didática. 2. Tendências Pedagógicas. 3. Avaliação. 4. EaD. I. Título.

ISBN 978-85-459-1840-0 CDD - 22ª Ed. 371.3


Impresso por: CIP - NBR 12899 - AACR/2
Ficha Catalográfica Elaborada pelo Bibliotecário
João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828

DIREÇÃO UNICESUMAR
Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor Executivo de EAD
William Victor Kendrick de Matos Silva, Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin, Presidente
da Mantenedora Cláudio Ferdinandi.

NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA


Diretoria Executiva Chrystiano Mincoff, James Prestes, Tiago Stachon, Diretoria de Graduação e
Pós-graduação Kátia Coelho, Diretoria de Permanência Leonardo Spaine, Diretoria de Design
Educacional Débora Leite, Head de Produção de Conteúdos Celso Luiz Braga de Souza Filho, Head de
Curadoria e Inovação Tania Cristiane Yoshie Fukushima, Gerência de Produção de Conteúdo Diogo
Ribeiro Garcia, Gerência de Projetos Especiais Daniel Fuverki Hey, Gerência de Processos Acadêmicos
Taessa Penha Shiraishi Vieira, Supervisão de Produção de Conteúdo Nádila Toledo.
Coordenador(a) de Conteúdo Mara Cecilia Rafael Lopes, Projeto Gráfico José Jhonny Coelho, Editoração
Humberto Garcia da Silva, Designer Educacional Patrícia Ramos Peteck, Revisão Textual Lorena Martins,
Ilustração Ilustrador, Fotos Shutterstock.

2
Wilson Matos da Silva
Reitor da Unicesumar

Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10
com princípios éticos e profissionalismo, não maiores grupos educacionais do Brasil.
somente para oferecer uma educação de qualidade, A rapidez do mundo moderno exige dos educadores
mas, acima de tudo, para gerar uma conversão soluções inteligentes para as necessidades de todos.
integral das pessoas ao conhecimento. Baseamo- Para continuar relevante, a instituição de educação
nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional precisa ter pelo menos três virtudes: inovação,
e espiritual. coragem e compromisso com a qualidade. Por
Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia,
graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor
estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro do ensino presencial e a distância.
campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é
e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, promover a educação de qualidade nas diferentes áreas
com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. do conhecimento, formando profissionais cidadãos
Produzimos e revisamos 500 livros e distribuímos mais que contribuam para o desenvolvimento de uma
de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos sociedade justa e solidária.
pelo MEC como uma instituição de excelência, com Vamos juntos!
boas-vindas

Willian V. K. de Matos Silva


Pró-Reitor da Unicesumar EaD

Prezado(a) Acadêmico(a), bem-vindo(a) à A apropriação dessa nova forma de conhecer


Comunidade do Conhecimento. transformou-se hoje em um dos principais fatores de
Essa é a característica principal pela qual a Unicesumar agregação de valor, de superação das desigualdades,
tem sido conhecida pelos nossos alunos, professores propagação de trabalho qualificado e de bem-estar.
e pela nossa sociedade. Porém, é importante Logo, como agente social, convido você a saber cada
destacar aqui que não estamos falando mais daquele vez mais, a conhecer, entender, selecionar e usar a
conhecimento estático, repetitivo, local e elitizado, mas tecnologia que temos e que está disponível.
de um conhecimento dinâmico, renovável em minutos, Da mesma forma que a imprensa de Gutenberg
atemporal, global, democratizado, transformado pelas modificou toda uma cultura e forma de conhecer,
tecnologias digitais e virtuais. as tecnologias atuais e suas novas ferramentas,
De fato, as tecnologias de informação e comunicação equipamentos e aplicações estão mudando a nossa
têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, lugares, cultura e transformando a todos nós. Então, priorizar o
informações, da educação por meio da conectividade conhecimento hoje, por meio da Educação a Distância
via internet, do acesso wireless em diferentes lugares (EAD), significa possibilitar o contato com ambientes
e da mobilidade dos celulares. cativantes, ricos em informações e interatividade. É
As redes sociais, os sites, blogs e os tablets aceleraram um processo desafiador, que ao mesmo tempo abrirá
a informação e a produção do conhecimento, que não as portas para melhores oportunidades. Como já disse
reconhece mais fuso horário e atravessa oceanos em Sócrates, “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida”.
segundos. É isso que a EAD da Unicesumar se propõe a fazer.
boas-vindas

Kátia Solange Coelho


Janes Fidélis Tomelin Diretoria de Graduação
Pró-Reitor de Ensino de EAD
e Pós-graduação

Débora do Nascimento Leite Leonardo Spaine


Diretoria de Design Educacional Diretoria de Permanência

Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja,
iniciando um processo de transformação, pois quando estes materiais têm como principal objetivo “provocar
investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta
profissional, nos transformamos e, consequentemente, forma possibilita o desenvolvimento da autonomia
transformamos também a sociedade na qual estamos em busca dos conhecimentos necessários para a sua
inseridos. De que forma o fazemos? Criando formação pessoal e profissional.
oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capazes Portanto, nossa distância nesse processo de crescimento
de alcançar um nível de desenvolvimento compatível e construção do conhecimento deve ser apenas
com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos
O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita.
Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu
este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos
se educam juntos, na transformação do mundo”. fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe
Os materiais produzidos oferecem linguagem das discussões. Além disso, lembre-se que existe
dialógica e encontram-se integrados à proposta uma equipe de professores e tutores que se encontra
pedagógica, contribuindo no processo educacional, disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em
complementando sua formação profissional, seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe
desenvolvendo competências e habilidades, e trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória
aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, acadêmica.
autoras

Me. Camila Tecla Mortean Mendonça


Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá -
UEM, linha de Políticas e Gestão da Educação. Mestre em Educação no Programa de Pós-Graduação
em Educação da Universidade Estadual de Maringá - UEM, linha de História e Historiografia da Edu-
cação (2016). Especialista em Docência no Ensino Superior (2011), Gestão Escolar - Administração,
Supervisão e Orientação (2012), Atendimento Educacional Especializado - AEE (2014) e Educação
a distância e as tecnologias educacionais (2014) pela Unicesumar - Centro Universitário Cesumar.
Graduada nos Cursos de Licenciatura e Bacharelado em Pedagogia (2008) e Licenciatura em Histó-
ria (2019) pela mesma instituição. É docente da Educação Básica da Rede Municipal de Ensino de
Maringá e da Unicesumar. Nesta última, trabalha na Educação a Distância – EAD e orienta projeto
de Iniciação Científica na área da educação. Participa do Grupo de Pesquisa EAD e as Tecnologias
Educacionais - GPEaDTEC/UEM, cadastrado no CNPq.
<[Link]

Dra. Suzi Maria Nunes Cordeiro


Possui Graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual de Maringá - UEM (2011) e Especiali-
zação em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela mesma Instituição de Ensino Superior (2014).
É Especialista em EAD e as Novas Tecnologias Educacionais pela Unicesumar (2016), Mestre em
Educação pela UEM (2016) e Doutora pela mesma IES (2019). Atua como professora da Pedagogia
na Unicesumar, coordena o projeto de pesquisa docente sobre Teoria e Prática na formação de
professores e o desenvolvimento global dos alunos, bem como orienta alunos de Iniciação Cientí-
fica. Tem experiência com disciplinas de Didática, Políticas Educacionais, Estágio Supervisionado,
dentre outras da Graduação e Pós-graduação, tanto com escrita de livros didáticos quanto com
aulas ministradas. É participante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Escola, Família e Sociedade
da UEM, cadastrado no CNPq. Possui pesquisas e livros científicos relacionados a Educação na linha
de Psicologia da Educação. Ministra palestras sobre a educação no século XXI, a exemplo, a edu-
cação da família e da escola, as políticas educacionais e outras temáticas que envolvem o ensino,
a aprendizagem e a formação de professores.
<[Link]
apresentação do material

DIDÁTICA

Caro(a) aluno(a), é com muita satisfação que apresentamos a leitura da presente


obra, intitulada “Didática”. O estudo da Didática se faz presente em todos os cursos
de licenciatura e alguns cursos de bacharelado, tendo em vista seu caráter formativo
para a prática pedagógica e a necessidade de se pensar e estudar os procedimentos
de ensino, que são inerentes à profissão docente.
Nesse contexto, lhe convidamos para uma leitura que propõe os objetivos de
conhecer e refletir sobre o processo de ensino e de aprendizagem historicamente
construído; compreender como o processo de ensino se dá desde o século XIX
até os dias atuais e como a escola, instituição sistematizada, organiza e gere os
processos de ensino e de aprendizagem.
Também são objetivos a reflexão e proposição de modelos ou sugestões de
métodos, metodologias e recursos que visam auxiliar o professor em sua prática
pedagógica diária e a reflexão sobre como a avaliação escolar deve seguir a meto-
dologia adotado pelo professor e levar o aluno a construção das suas competências
e habilidades.
Atendendo a essas finalidades, a Unidade I, intitulada “Fundamentos históri-
cos e filosóficos da Didática”, leva ao conhecimento da origem da Didática e sua
construção histórica a partir de seu criador João Amós Comênio, intelectual e
teólogo que, no final do século XVII, produziu uma das obras mais importantes
para a educação, a Didática Magna. Também se farão relevantes o conhecimento
do Ratio Studiorum e dos métodos de ensino aplicados no Brasil desde os meados
do século XVI.
A Unidade II, intitulada “Tendências pedagógicas”, aborda os estudos per-
tinentes às teorias educacionais que fundamentaram o processo de ensino e de
aprendizagem desde o final do século XIX no Brasil. Para isso, as tendências são
descritas levando em consideração o contexto histórico; o papel da escola, do
professor e dos alunos; os conteúdos; os métodos e a aprendizagem. A discussão se
encerra pela contextualização da didática na contemporaneidade e sua utilização
nos ambientes não formais de aprendizagem.
A Unidade III, intitulada “Planejamento de ensino”, mostra como se constituem
os planejamentos em ambiente escolar e ambientes não formais de aprendizagem,
desde as ações macro até as ações micro, a fim de proporcionar uma visão linear
dos encaminhamentos pedagógicos que começam a nível nacional, por meio de
documentos da Educação que embasam os currículos escolares de todo o país,
passando por documentos regionais até chegar ao nível institucional e, finalmente,
ao professor que colocará em prática seu plano de aula. Para isso, veremos que
todo planejamento envolve pesquisa e organização docente.
A Unidade IV, intitulada “Execução do planejamento”, fornece elementos que
proporcionam o conhecimento das práxis pedagógicas que norteiam os métodos
de ação das atividades estabelecidas no planejamento, a fim de compreender os
procedimentos de ensino que aliam estratégias e técnicas eficientes e eficazes para
um ensino de qualidade e uma aprendizagem significativa. Finaliza-se com a re-
flexão sobre as competências e as habilidades necessárias para o professor, bem
como a postura adequada ao profissional.
Por fim, a Unidade V, intitulada “Avaliação do processo de ensino e de apren-
dizagem”, apresenta o conceito de avaliação e como ela foi vista no decorrer de
todas as tendências pedagógicas até chegar à concepção de avaliação que pos-
suímos atualmente. Também realizaremos discussões em torno dos modelos de
avaliação que são utilizados e a importância que tem a utilização da avaliação
de forma consciente, com finalidade pedagógica, possibilitando que o professor
repense sua prática pedagógica e que os alunos concretizem os conhecimentos
que foram adquiridos.
Esperamos que você aprecie as reflexões propostas nesta obra e as aproveite
ao máximo, enriquecendo os seus conhecimentos e utilizando-os em suas práticas
pedagógicas, contribuindo, assim, para que a educação ganhe novos rumos com a
formação de sujeitos críticos e conscientes. Esperamos também que você amplie
os seus conhecimentos sobre a temática por meio da pesquisa, e não tome esta
obra como sua única fonte de saberes. Vamos lá?
sum ário

UNIDADE I UNIDADE IV
FUNDAMENTOS HISTÓRICOS E FILOSÓFICOS DA EXECUÇÃO DO PLANEJAMENTO
DIDÁTICA 132 Procedimentos de Ensino
14 João Amós Comênio 138 Estratégias e Técnicas para ação Docente
20 A Didática Magna 148 Competências, Habilidades e Postura Docente
26 A Construção Histórica da Didática no Brasil 154 Considerações finais
35 Considerações finais 160 Referências
41 Referências 162 Gabarito
43 Gabarito
UNIDADE V
UNIDADE II AVALIAÇÃO
TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS 168 Conceito de Avaliação
48 Tendências Pedagógicas Liberais 174 Modelos de Avaliação
58 Tendências Pedagógicas Progressistas 180 Aspectos Pedagógicos e Psicológicos da
72 Conceituando a Didática Avaliação
76 Considerações finais 184 Considerações finais
82 Referências 189 Referências
84 Gabarito 190 Gabarito
191 conclusão geral
UNIDADE III
PLANEJAMENTO DE ENSINO
90 Caminhos do Planejamento Escolar
100 Pesquisa Docente
108 Plano de Aula
115 Considerações finais
122 Referências
124 Gabarito
FUNDAMENTOS HISTÓRICOS E
FILOSÓFICOS DA DIDÁTICA

Professor Me. Camila Tecla Mortean Mendonça

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• João Amós Comênio
• A Didática Magna
• A construção histórica da Didática no Brasil

Objetivos de Aprendizagem
• Conhecer o surgimento da Didática e o seu precursor, João
Amós Comênio, a fim de compreender o contexto histórico.
• Refletir sobre a Didática Magna e suas propostas
pedagógicas, para identificar as ações na educação até os
dias atuais.
• Analisar a construção histórica da didática no Brasil, a fim
de compreender como a educação permeia as diferentes
sociedades.
unidade

I
INTRODUÇÃO

Olá, caro(a) aluno(a)! Dando início aos estudos sobre a Didática, discutiremos, nesta
unidade, seu nascimento. Para isso, percorreremos um caminho de conhecimento
sobre seu criador, o intelectual, filósofo e teólogo João Amós Comênio. Depois, co-
nheceremos sua maior obra para a educação institucional, intitulada Didática Magna.
Continuaremos nossos estudos pela construção histórica da Didática no Bra-
sil, iniciando com a educação Jesuíta e a sua obra didático-pedagógica, o Ratio
Studiorum. Destacaremos, também, mais três métodos utilizados no Brasil no
processo de ensino e de aprendizagem: o método individual, o método simultâ-
neo e o método Lancaster.
O surgimento da Didática está atrelado à gênese da educação institucional,
no decorrer da construção da sociedade, das ciências e da produção, como uma
atividade que possui intencionalidade, planejamento e é dedicada à instrução das
pessoas (LIBÂNEO, 1994).
Desde os primeiros tempos há indícios de formas rudimentares de aprendi-
zagem, no entanto ainda não havia didática como forma de organização e estru-
tura do ensino. Na Antiguidade Clássica e no Período Medieval também havia
presença de ações pedagógicas nos mosteiros, igrejas e universidades, porém só
podemos tratar de Didática após meados do século XVII, quando se concretizou
como uma teoria do processo de ensino, que sistematize o ensino e as formas de
ensinar (LIBÂNEO, 1994).
O termo Didática aparece quando há a intervenção de adultos no proces-
so de aprendizagem das crianças e jovens, por meio de uma ação intencional
e planejada. A escola, assim, se institucionaliza, e o processo de ensino se
torna sistematizado, levando em consideração o ritmo dos alunos e a assi-
milação dos conteúdos.
Nesse sentido, nosso objetivo nesta unidade, caro(a) aluno(a), é que você
compreenda a Didática como uma teoria que investiga o processo de ensino,
que faz parte do fazer diário do professor. Convidamos você a iniciar a leitu-
ra desta unidade e se deleitar com a compreensão destes conceitos, que são
fundamentais para a construção de uma prática pedagógica consistente.
DIDÁTICA

João Amós
Comênio

Fonte: Wikimedia

Em tcheco, Jan Amos Komensky; no latim, Iohannes existência, nos inúmeros lugares que habitou (OLI-
Amos Comenius; em língua portuguesa, João Amós VEIRA; COSTA, 2012).
Comênio. Ele foi um grande estudioso da História Teólogo, filósofo e educador, João Comênio pos-
da Educação, destacando-se principalmente nos es- sui uma história de vida muito singular que con-
tudos da Didática. Nasceu na cidade de Nivnice, na tribuiu para que se tornasse um grande estudioso
Moravia, região da Boêmia atualmente chamada de da Educação. Ficou órfão aos 12 anos e, no ano de
República Tcheca e Polônia, no dia 22 de março de 1608, aos 16, matriculou-se na escola secundária de
1592. Comênio faleceu em 15 de novembro de 1670 Prerov, onde se destacou como um bom aluno (LO-
na cidade de Amsterdã, na Holanda, em decorrência PES, 2008). Sua inquietação sobre a melhor forma
de intensas perseguições sofridas em seus 78 anos de de ensinar e aprender surgiu nos estudos de Latim,

14
EDUCAÇÃO FÍSICA

em que os alunos eram forçados a estudar de forma Holfgang Ratke (1571-1635), que elaboravam novos
desordenada e distante da realidade. métodos valorizando a experiência do aprendiz. Aos
Aos 20 anos, cursou filosofia na Academia de 22 anos, João Comênio transferiu-se para o curso de
Hebron. Seus estudos o aproximaram da vida espi- Teologia da Academia de Heildeberg (OLIVEIRA;
ritual e possibilitaram que ele refletisse sobre autores COSTA, 2012). Após a conclusão da sua formação,
que marcaram profundamente seus pensamentos. retornou para a Morávia, onde desempenhou a fun-
Por meio de seu mestre, Alsted, conheceu os pensa- ção de pastor e de educador.
mentos progressistas de Francis Bacon (1561-1626) e

A GUERRA DOS 30 ANOS

Figura 1: Celebração da Paz de Münster


Fonte: Wikimedia.

Após dois anos trabalhando como pastor e educador Devido à guerra dos 30 anos (1618-1648),
na Morávia, João Comênio transferiu-se para Ful- Comênio precisou abandonar a sua pátria e passou
nek, em 1616, onde casou-se com sua primeira es- por vários países divulgando as suas ideias. Destaca-
posa, Madalena Vizovska, com quem teve seus dois mos aqui as localidades de Lezno, Suécia, Londres,
primeiros filhos. No entanto, em 1621, o exército Transilvânia, Hungria e Amsterdã. Apesar das difi-
dos espanhóis invadiu a cidade de Fulnek em virtu- culdades que enfrentava, Comênio relacionava-se
de da guerra dos 30 anos, causando a Comênio duas com os grandes pensadores da sua época (OLIVEI-
grandes perdas: a primeira se refere aos seus livros RA; COSTA, 2012).
e manuscritos e a segunda à sua esposa e filhos, que Na sequência desses acontecimentos, iniciou-se a
morreram vítimas da peste. Comênio se viu obriga- perseguição contra os morávios, que fugiram para a
do a reiniciar a sua produção. Polônia e se estabeleceram na cidade de Leszno. Nes-

15
DIDÁTICA

se período, Comênio casou-se pela segunda vez com No ano de 1614, Comênio foi designado reitor
a filha de um bispo muito conhecido e importante da escola de Prerov, comunidade Morávia. Nesse pe-
na região, chamada de Dorotéia Cirilo. Em Fulnek, ríodo, se destacou e foi notadamente elogiado pela
outra tragédia destruiu a cidade e, junto com ela, a inclusão de atividades ao processo de ensino que
casa e a biblioteca de Comênio. anteriormente não eram utilizadas, como conver-
No ano de 1648, Dorotéia Cirilo faleceu, deixan- sas, músicas e jogos, tornando a escola um espaço
do Comênio e os cinco filhos na cidade de Leszno. agradável. Com isso, eliminou da escola os castigos
Nesse período, Comênio vivenciou uma situação corporais muito utilizados naquele período.
aguda e foi muito criticado e incompreendido pela Destacou-se pelo seu brilhantismo como educa-
comunidade da Morávia. Pobre e doente, seguiu dor, principalmente após a reforma educacional que
para Holanda, onde se casou pela terceira vez com culminou na implantação de métodos diferenciados
Johana Gasusová, no ano de 1649. Na cidade de para o ensino das disciplinas de Artes e de Ciências.
Amsterdã, onde viveu até a sua morte, cresceu no- Em 1616, estabeleceu-se em Fulnek, onde atuou
vamente como educador e reformador social a par- como pastor morávio. Em 1623, durante sua estadia
tir de suas ideias progressistas. Em 15 de novembro em Brandeis, escreveu Labyrint sueta a ráj srdce ou
de 1670, Comênio morre após adoecer gravemen- O labirinto do mundo e o paraíso do coração, para
te. Cercado pela família e por amigos, é enterrado consolar os que haviam sobrevivido à guerra, a fim
na igreja da pequena cidade de Naarden, onde está de que pudessem encontrar alento em Cristo e não
construído seu mausoléu. nos bens materiais; foi uma de suas obras de maior
valia (LOPES, 2008).
VIDA ACADÊMICA Posteriormente foi a Londres, onde foi convi-
dado a assumir a Reitoria da Universidade de Har-
Apesar de sua história, Comênio teve uma vida vard. Negando o convite, viajou para vários países,
muito produtiva. Começou sua vida acadêmica mas acabou se fixando em Leszno. Em uma ocasião
destacando-se em Hebron, por volta de 1611, onde durante passagem pela Suécia, Comênio deparou-
se preocupou em escrever um dicionário com ex- -se com René Descartes no castelo de Endegeest.
pressões elegantes de sua língua materna intitulado Apesar de se tratar de um breve encontro, acredita-
Bohemicae Thesaurus, ou Tesouro da Língua Boêmia, -se que Descartes tenha simpatizado por Comênio,
cujo conteúdo descreve a gramática completa da lín- tendo em vista a proximidade do pensamento de
gua tcheca. ambos com relação ao ensino realizado nas escolas
Neste mesmo período, destacou-se por defender da época. Tanto Comênio quanto Descartes foram
suas duas teses de doutorado, Problemata Miscela- intelectuais que desenvolveram métodos e defen-
nia e Syloge Quaestiorum Controversum, que foram diam a utilização destes para o processo de ensino.
grandemente elogiadas por seus mestres. Após um Idealizavam uma ciência universal a que todos pu-
período em Heidel-berg para estudos sobre a Ma- dessem ter acesso.
temática e a Astronomia, retornou para a Boêmia.

16
EDUCAÇÃO FÍSICA

No entanto, em um ponto as suas ideias di-


vergiam. Descartes acreditava que a ciên-
cia deveria ser utilizada com a finalidade
exclusivamente humana, desconsiderando
os aspectos religiosos. Em contrapartida,
Comênio acreditava que a ciência deveria
ser ensinada e utilizada como uma forma de
aproximar as pessoas de Deus, ou seja, com
a finalidade religiosa.
Suas obras pedagógicas apareceram so-
mente no período de 1630 e 1633: a Didática
tcheca, Informatorium Skóly Materké (que se
traduz por Guia da Escola Materna); Janua
Linguarum Reserata (traduzido por Porta
Aberta das Línguas) e a Didática Magna, a
obra mais importante para a educação. Esses
escritos foram desenvolvidos tanto para pro-
fessores quanto para alunos. Aos professores
era indicado o aprender a fazer e, a partir dis-
so, fundamentar a prática em uma sólida teo-
ria; aos alunos era preciso aprender a apren-
der (LOPES, 2008).
Já em 1642, a fim de ajudar a Suécia e me-
lhorar o seu estudo do latim, é encomendada
a Comênio, pelo Chanceler Oxenstiern, a es-
crita da obra Methodus Linguarum Novíssima
ou Novíssimo Método das Línguas, publicada
em 1947. Essa é a principal obra sobre os es-
tudos dos idiomas escrita por Comênio, que
possuía uma grande preocupação com os es-
tudos comparativos das línguas, chegando a
traçar regras para a tradução de textos (LO-
PES, 2008).
Figura 2: Retrato de René Descartes
Fonte: Wikimedia.

17
DIDÁTICA

A convite do príncipe Sigismundo Rákoczy, em Devido à grande influência da religião na vida e


1650, Comênio assume uma escola na Hungria e na formação de Comênio, utilizava a Bíblia como
nela permanece por quatro anos. Nesse período, es- fonte de sabedoria e como fundamentação para a
creve a obra Orbis pictus, (Mundo Ilustrado ou Sen- sua filosofia. Em 1670, antes de sua morte, escreveu
sível), que, segundo Lopes (2008, p. 52), consiste na ainda um resumo dos princípios pedagógicos: Spi-
síntese da sua vasta experiência pedagógica, discu- cilegium Didactium ou Didática Especial.
tindo, por meio de gravuras, três objetivos: Caro(a) aluno(a), após visualizarmos a vida e
a obra de João Amós Comênio, você deve estar se
perguntando: por que é importante saber a trajetó-
ria desse autor? Por que estudar a Didática Magna,
texto escrito no século XVII?
Conhecer a trajetória da vida e da obra desse au-
tor é importante para que possamos compreender
em que período histórico ele elaborou seu método.
reter a noção aprendida;
Comênio teve uma vida muito conturbada, como
pudemos observar, no entanto o momento histórico
em que ele viveu foi tão conturbado quanto. Foi no
decorrer dos séculos XVI e XVII que a história da
humanidade sofreu grandes transformações, princi-
palmente na Europa, tendo em vista o declínio do
sistema feudal e a ascensão do capitalismo, um perí-
odo marcado pelo abismo entre ricos e pobres.
A educação escolar era restrita, destinada à
burguesia e de caráter religioso. Mesmo assim, a
estimular a inteligência infantil;
metodologia utilizada era rígida, desordenada e
distante da realidade dos alunos. Comênio foi um
reformador e, apesar de ser um homem de seu tem-
po, pensou para além dele. O seu projeto era criar
condições para que o homem pudesse se adaptar
ao novo contexto produtivo do século XVI e XVII.
Para isso, escreveu obras que tinham como objetivo
a “construção de uma cidadania para todos, pobres,
ricos, homens e mulheres de todas as idades, para
que as pessoas todas experimentassem a liberta-
facilitar a aprendizagem da leitura.
ção da ignorância e do sofrimento [...]” (AHLERT,
2002, p. 450).

18
EDUCAÇÃO FÍSICA

Nesse período ocorreram intensas mudanças ca uma possibilidade de educação que considere a
na forma de produção e no desenvolvimento da ci- multiculturalidade, “expressa no seu esforço em ga-
ência e da cultura. O clero e a nobreza diminuíam rantir os conteúdos universais na língua e contexto
enquanto o poder da burguesia aumentava. Assim, cultural onde o ser humano está inserido. Comênio
na medida em que a burguesia se fortalecia como via a cultura, o seu símbolo maior, como uma força
classe social, disputava o poder econômico e polí- libertadora para as nações oprimidas” (AHLERT,
tico com a nobreza. No mesmo ritmo crescia a ne- 2002, p. 450).
cessidade de um ensino que fosse ligado às exigên-
cias do mundo da produção e dos negócios, ou seja,
um ensino que contemplasse o desenvolvimento da
capacidade e dos interesses dos indivíduos (LIBÂ-
NEO, 1994).
Para Ahlert (2002) a Didática Magna se apresen-
ta como uma proposta pedagógica para o processo
de ensino e de aprendizagem no período de transi-
ção entre a Idade Média e o início da Modernidade.
Comênio considerava a educação um instrumento
necessário às transformações sociais tão urgentes no
período turbulento e conflituoso no qual viveu. Nes-
se sentido, a educação era o caminho para se chegar
à libertação e salvação de todos.

Comenius foi o fundador da didática e, em par-


te, da pedagogia moderna. Mas foi, ainda, um
pensador, um místico, um reformador social,
personalidade extraordinária, em suma. Seu
nome figura ao nível dos de Rousseau, Pestalo-
zzi e Froebel, isto é, dos maiores da educação e
da pedagogia (COVELLO, 1991, p. 9).

A Didática Magna, ou O Tratado de Ensinar Tudo


a Todos, assunto do nosso próximo tópico, é uma
das obras mais importantes para a educação ins-
titucional, tendo em vista seu caráter pioneiro no
processo de democratização da escola. Retomar a
obra de Comênio significa resgatar a utopia de uma
educação para todos, em que as mulheres e os me-
nos favorecidos socialmente são incluídos. Signifi-

19
DIDÁTICA

A Didática Magna

A Didática Magna, ou O Tratado de Ensinar Tudo a A Didática Magna escrita por Comênio (2001) se
Todos, define didática como: destaca como uma das obras mais importantes da
história da educação, consagrando seu autor como
O processo seguro e excelente de instituir, criador da didática moderna e um dos intelectuais
em todas as comunidades de qualquer Rei-
mais importantes do século XVII. Comênio conce-
no cristão, cidades e aldeias, escolas tais que
toda a juventude de um e de outro sexo, sem bia o homem tanto pelo seu lado humano quanto
excetuar ninguém em siveiarte alguma, possa espiritual, tanto que faz uma proposta pedagógica
ser formada nos estudos, educada nos bons que envolve ambos e que é referência nos estudos do
costumes, impregnada de piedade, e, desta processo de ensino, ou seja, da Didática.
maneira, possa ser, nos anos da puberdade,
Por ter estudado em uma escola muito rígida,
instruída em tudo o que diz respeito a vida
presente e à futura, com economia de tempo e cheia de regras e com castigos violentos aplicados às
de fadiga, com agrado e com solidez (COMÊ- crianças, Comênio foi capaz de perceber os vários
NIO, 2001, p. 11). defeitos que caracterizavam o método aplicado em

20
EDUCAÇÃO FÍSICA

seu tempo. Nesse sentido, “seu ideal era ensinar a – de 7 a 12 anos; escola latina – de 13 a 18 anos; e
criança de maneira que sua chegada na fase adulta universidades e viagens a partir dos 19 anos. Trate-
atingisse na plenitude de suas capacidades todo o mos de tais níveis com mais atenção:
conhecimento e sociabilidade” (BIASSETI, 2017, p.
8). Seu objetivo era que os indivíduos aprendessem
para a vida, de forma que conseguissem se inserir
na sociedade e fossem capazes de cumprir os seus
deveres sociais.

Eles aprenderão, não para a escola, mas para a


vida, de forma que os jovens tornem-se enérgi-
cos, prontos para tudo, diligentes e merecedo-
res da atribuição de qualquer um dos deveres
da vida, e ainda mais, se tiverem acrescentado
à virtude uma conversação suave, e tudo tive-
rem coroado com o temor e o amor de Deus.
Tornar-se-ão capazes de expressão e eloquência
(COMÊNIO, 2001, p. 200).

A escola, nesse contexto, deveria ser um lugar tran-


quilo, de convivência e trabalho em equipe. Os
alunos teriam a oportunidade de se expressar, de
se relacionar socialmente, de aprender de forma
agradável, em um processo de transformação dos
alunos em seres humanos, iniciado no nascimento
e continuado dentro da escola. “Os livros de textos
deveriam ser padronizados e cada aluno deveria ter
o seu próprio livro. Também, cada classe deveria ter
um texto contendo todo o conteúdo de cada aula”
(BIASSETI, 2017, p. 9). Escola materna – de 0 a 6 anos. É o lar, conside-
A educação pansófica ou a sabedoria universal rada a primeira escola da criança. Nesse período as
defendida por Comênio se traduz no seu ideário de crianças deveriam ter o convívio familiar e aprender
se ensinar tudo a todos, necessidade atribuída a sua a partir de suas próprias observações. Além disso, as
crença em Deus, em sua infinita bondade. Assim, a funções específicas também deveriam ser ensinadas,
educação pansófica se constituiu em uma organiza- como a sociabilidade, a percepção e a religião, a par-
ção do saber, em um projeto educativo ou um ideal tir do interesse das crianças dessa idade. Comênio
de vida imaginado por Comênio. era a favor dos contos de fadas, dos jogos, das ativi-
O pensador organizou a didática em quatro ní- dades manuais, da música, do humor e das fábulas
veis: escola materna – de 0 a 6 anos; escola vernácula (BIASSETI, 2017).

21
DIDÁTICA

Escola latina – de 13 a 18 anos. Deveria ser desti-


nada a desenvolver, nos meninos, a formação para
Escola vernácula – de 7 a 12 anos. Comênio acredi- alcançar os graus mais elevados do saber, indepen-
tava que as crianças nesse período deveriam apren- dente da sua condição social. Esta escola iria treinar
der todas juntas, de forma que a educação deveria os alunos a compreender e julgar as informações
ser básica e completa, aquela necessária para a vida adquiridas pelos sentidos, que seriam desenvolvidos
de todos nós. A língua vernácula, ou seja, o idio- na escola vernácula.
ma puro, tanto na linguagem oral quanto na escri-
ta, sem utilização de palavras estrangeiras, deveria Para isso seriam ensinadas as seguintes disci-
plinas: Lógica, Gramática, Retórica, Ciências
ser ensinado antes do latim. As crianças deveriam
e Artes, para que as mais elevadas faculdades
treinar os sentidos, a memória e a imaginação, de- do espírito fossem exercitadas. Quatro línguas
senvolvendo-se cognitivamente. Biasseti (2017, p. deveriam ser aprendidas: o vernáculo, o latim,
10) destaca que as aulas deveriam incluir “Leitura, o grego e o hebraico. Nesses seis anos de escola
Escrita, Aritmética prática, Canto, Religião, Moral, latina as matérias seriam divididas: Gramática,
Filosofia natural, Matemática, Ética, Dialética e
Economia e Política, História geral, Cosmografia e
Retórica (BIASSETI, 2017, p. 10).
as Artes mecânicas”.

22
EDUCAÇÃO FÍSICA

REFLITA

Você acredita que a máxima de Comênio, “en-


sinar tudo a todos”, ainda se faz necessária
nos dias atuais?

Nesse sentido, caro(a) aluno(a), a educação de Comê-


nio tinha como objetivo formar bons cristãos, assim,
os homens seriam capazes de praticar boas ações a
todos, sem distinção. Sua teoria possuía consistência
Universidades e Viagens – a partir dos 19 anos. e apresentava uma boa articulação entre suas diversas
Indicaria o mais alto nível de educação, seria so- dimensões: religiosa, filosófica, educacional e social,
mente para os alunos mais dedicados e com alto mas isso não foi o suficiente para ser reconhecido, no
caráter moral. O ingresso nesse nível seria realiza- período em que viveu, pelos seus ideais inovadores.
do por meio de exame público para avaliação dos Acreditamos que seja por sua trajetória de vida e pelo
alunos (BIASSETI, 2017). Uma função da univer- momento histórico e social em que viveu.
sidade seria a pesquisa e as viagens seriam para Para Comênio (2001) a Didática é, ao mesmo tem-
coleta de informações sobre a natureza humana e po, um processo e um tratado; consiste tanto em um
suas instituições. ato de ensinar como na arte de ensinar. É uma ação su-
blime, pois forma seres humanos, envolve professor e
Comênio também baseou seus métodos em aluno, tornando ambos diferentes do que eram antes.
uma teoria da vida mental e do desenvolvimen-
Nesse contexto, ensinar supõe que há conteúdos
to infantil. Observou cuidadosamente o desen-
volvimento das plantas e animais, a execução a serem ensinados, sejam eles de natureza moral,
de artes manuais e artesanato e os interesses instrucional ou sobre a religião. Esses conhecimen-
espontâneos das crianças. Compreendia que a tos também dão base para a exploração e o conhe-
verdadeira base da ciência educacional deveria cimento de nós próprios, assim, essa natureza que
ser o crescimento natural da criança, e seguin-
deve ser explorada é a natureza social, ou seja, os
do este caminho, deveria se basear o método
de ensino neste princípio de sucessão natural conteúdos historicamente acumulados.
(BIASSETI, 2017, p. 11). Comênio também defendia a educação escolar
das crianças pequenas, pois, assim, elas poderiam
Comênio defendia que a escola era fundamental ter acesso, desde cedo, às noções das ciências básicas
para a educação dos homens, por isso a sua máxima que viriam a estudar mais tarde. Ele acreditava que a
“ensinar tudo e todos”. Para ele, dar acesso ao conhe- aprendizagem iniciava pelo treino dos sentidos, pois
cimento a todos permitiria que o homem pudesse as impressões das experiências vivenciadas com os
se colocar como agente do seu desenvolvimento, ou objetos seriam internalizadas e mais tarde interpre-
seja, como ator e não como mero espectador. tadas pela consciência racional.

23
DIDÁTICA

A base do método didático de Comênio se cons- O método didático deveria seguir a seguinte ordem:
titui por três elementos: compreensão, retenção de 1. Todo o conhecimento historicamente acu-
informações e prática. Por meio destes podemos mulado deve ser ensinado.
chegar a três qualidades fundamentais que devem 2. Tudo o que se ensina deve ser ensinado rela-
ser desenvolvidas pelos alunos: erudição, instrução e cionando com sua aplicação prática, com o
seu uso social.
religião, as quais nos levam às três competências que
3. O ensino deve ser direto e claro.
devem ser adquiridas: desenvolvimento intelectual,
4. Deve ser ensinado a partir da verdadeira na-
disposição em aprender e memória.
tureza das coisas, ou seja, a partir do conhe-
cimento científico.
5. Ensinar primeiramente de forma geral e
posteriormente adentrar para o estudo das
partes.
6. Ensinar os conteúdos no seu devido tempo.
7. Ensinar até a compreensão perfeita do con-
teúdo.
8. Dar a devida importância às diferenças que
existem entre as coisas. Assim, o ensino seria
universal.

Figura 3 - Método didático de Comênio


Fonte: as autoras (2018).

24
EDUCAÇÃO FÍSICA

Biasseti (2017, p. 13) destaca alguns dos princípios A Didática Magna de Comênio se constitui como um
do método de instrução de Comênio: modelo do saber sobre a educação do homem, desde
sua infância até sua juventude, por meio da interação
O método de Comênio tinha como propósi- social, que passaria a ser coletiva, ou seja, passaria a
to dar instrução de forma: segura e completa;
acontecer na escola. Ela apresenta características que
certa e clara; fácil e agradável. • A educação
dos homens deveria ser iniciada na primavera se fizeram necessárias para a instituição escolar mo-
da vida; • Ensinar coisas e linguagem juntas; derna, e que, em alguns aspectos, permanece nela até
• Primeiro a criança deveria compreender o os dias atuais. Podemos destacar: a valorização da
assunto, antes de memorizar a definição dele; infância e sua escolarização formal; a concepção da
• Começar pelo universal (elementos simples
família como primeiro núcleo social da criança; a re-
e gerais), e partir para o particular (porme-
nores); • Todo o estudo deve ser graduado lação entre família e escola; a escola como instituição
por passos minuciosos; • O ensino deveria educacional; e a construção da figura do professor,
ser dado conforme a idade e força mental da educador, do mestre como elemento fundamental no
criança (BIASSETI, 2017, p. 13).
processo de ensino. Esses são motivos pelos quais se
faz necessário conhecer e compreender Comênio.

25
DIDÁTICA

A Construção Histórica da
Didática no Brasil

O método didático elaborado por Comênio vai de A ordem surge em um momento em que as gran-
encontro com a situação em que a Europa vivia no des navegações estão em ascensão, sendo utilizadas
final do século XVI, em meio à Contra Reforma Ca- como uma arma da Igreja Católica na Contra Refor-
tólica. A igreja católica estava perdendo o seu espaço ma. É nesse contexto que a Companhia de Jesus che-
e o seu poder com o avanço do Protestantismo. Des- ga ao Brasil, pois os primeiros países colonizadores
sa forma, com o objetivo de deter o avanço protes- católicos eram Espanha e Portugal.
tante e conquistar novos fiéis, é fundada em 1539 a No Brasil, a educação escolar iniciou-se a partir
Companhia de Jesus, por Inácio de Loyola. da chegada da Companhia de Jesus, em março de

26
EDUCAÇÃO FÍSICA

1549. Trouxeram junto a eles um plano de estudos, Mais conhecido como Ratium Studiorum, o Plano
elaborado por Inácio de Loyola e vigorado em 1552. de Estudos da Companhia de Jesus desempenha
Esse documento padronizava a educação em todas um papel muito importante na educação moderna,
as instituições da Companhia de Jesus, apresentan- papel este que não pode ser diminuído ou menos-
do métodos de ensino e orientando o professor so- prezado. Franca (2017) destaca que, historicamente,
bre como organizar sua aula (FRANCA, 1952). esse manual de ensino era utilizado para toda a or-
Na Europa, o objetivo dessa educação, ainda vol- ganização das atividades desenvolvidas em todos os
tada aos filhos dos nobres, era proteger o poder da colégios que a Companhia de Jesus fundou e dirigiu
Igreja Católica do protestantismo que se instaurava no decorrer de aproximadamente dois séculos, em
na época, ameaçando dogmas, costumes e regras já todos os continentes.
estabelecidos na sociedade. No Brasil, com a cate- A Companhia de Jesus, uma ordem consagrada
quização dos índios, o objetivo era propagar e impor a ensinar pela constituição escrita por seus funda-
a cultura europeia, sobretudo a portuguesa, a fim de dores, tinha a missão de exercer os seus ministérios
que o poder da Igreja Católica também permeasse a em todo o território que entrasse. Logo depois de
nova terra. Mais uma vez, vemos a educação sendo instituída, rapidamente multiplicava os seus esta-
utilizada como forma de poder sobre o povo (SHI- belecimentos de ensino (FRANCA, 2017). O seu
GUNOV NETO; MACIEL, 2008). domínio era tamanho que “em 1750, poucos anos
antes de sua supressão (1773) por Clemente XIV, a
Ordem de Inácio dirigia 578 colégios e 150 semi-
nários, ao todo, 728 casas de ensino” (FRANCA,
2017, p. 3).
A ordem jesuíta possuía uma organização admi-
nistrativa dividida em Províncias e Circunscrições
territoriais, ou seja, composta por casas e colégios
da ordem, localizados em um território ou em parte
dele. Administrando cada província, encontrava-se
um Provincial, o qual possuía a função escolher o
Prefeito de estudos e das disciplinas, prezar pela
formação de bons professores, promover o estudo
na Província, vigiar o emprego das normas estabe-
lecidas pelo Ratium Studiorum, assim como sugerir
mudanças devido as circunstâncias de tempo e lugar
específicas da Província (FRANCA, 2017).
O reitor, de acordo com Franca (2017), era a fi-
gura central do colégio jesuíta. Dentre as suas fun-
Figura 4: Capa do livro Ratios Studiorum
ções, cabia convocar e presidir a reunião com os
Fonte: Wikimedia Commons. professores e as solenidades escolares. Dentro do co-

27
DIDÁTICA

légio jesuíta, o reitor é autoridade máxima; fora dela, conhecimentos. Por esse motivo os currículos eram
é subordinado ao Provincial. O prefeito de estudos concluídos, muitas vezes, somente 6 ou 7 anos após
era o braço direito do reitor, e possuía a função de o seu início. Franca (2017) apresenta como estava
acompanhar de perto toda a rotina escolar, visitar organizada a maior parte do currículo, ou seja, o III
as aulas e primar pela execução dos regulamentos – Currículo Humanista:
e dos programas. Se necessário, nomeava-se ainda
um prefeito de disciplinas, que possuía a função de Quadro 1 - Organização do currículo Humanista do
auxiliar o prefeito de estudos, principalmente com Ratium Studiorum
relação a manter o bom comportamento.
Grau Classe Ano
Os cursos superiores e secundários eram minu-
1 Retórica 7
ciosamente organizados no Ratium Studiorum, de
2 Humanidades 6
acordo com Franca (2017, p. 65):
3 Gramática Superior 5
4 Gramática Média A 4
I – Currículo Teológico. 4 anos. Teologia es-
colástica. 4 anos; dois professores, cada qual 4 Gramática Média B 3
com 4 horas por semana. Teologia moral. 2 5 Gramática Inferior A 2
anos. Dois professores com aulas diárias ou 5 Gramática Inferior B 1
um professor com duas horas por dia. Sagrada
Fonte: Franca (2017, p. 7).
Escritura. 2 anos com aulas diárias. Hebreu. 1
ano, com duas horas por semana. A revisão de
1832 ao currículo teológico acrescentou, com
Na prática, os colégios da Companhia de Jesus não
disciplinas autônomas, o Direito Canônico e a
História Eclesiástica, estudada no século XVI, eram instituições de ensino rígidas, sem vida. No
só ocasionalmente. II – Currículo filosófico. entanto, continham um ar conservador e suavemen-
1o. Ano – Lógica e introdução às ciências; um te progressista que acompanhava a cultura e as mu-
professor; 2 horas por dia. 2o. Ano – Cosmolo-
danças sociais.
gia, Psicologia, Física – 2 horas por dia. Mate-
mática – 1 hora por dia. 3o. Ano – psicologia, A metodologia do Ratium Studiorum compreen-
Metafísica, Filosofia Moral – dois professores. de processos didáticos com a finalidade do estímulo
Duas horas por dia. III – Currículo Huma- e a transmissão dos conteúdos. A metodologia apre-
nista. O currículo humanista, corresponde ao
sentava flexibilização quanto aos processos de traba-
moderno curso secundário, abrange, no Ratio,
cinco classes: 1 – Retórica. 2 – Humanidades. lho, uma vez que o plano de estudos possuía uma va-
3 – Gramática Superior. 4 – Gramática Média. riedade de métodos e permitia liberdade de escolha.
5 – Gramática Inferior. Um ponto chave da didática do Ratium Studiorum é
a preleção, ou seja, a indicação de lições antecipadas,
Essas classes possuíam a característica dos graus, que eram indicadas para os alunos estudarem, cujos
ou estágios de progresso. De acordo com Franca métodos aplicados variavam de acordo com o nível
(2017), só poderia ser promovido a um grau supe- intelectual dos alunos (TOSHIMA; MONTAGNO-
rior o aluno que havia adquirido integralmente os LI; COSTA, 2018, p. 5).

28
EDUCAÇÃO FÍSICA

MÉTODO INDIVIDUAL

Na pedagogia jesuíta, instrução e educação ca- Outros métodos pedagógicos foram utilizados no
minhavam juntas. Dessa forma, esse processo não Brasil para a educação escolar. Aqui, destacamos o
era estritamente religioso, tendo em vista que o ideal método individual.
da Companhia de Jesus era “proporcionar a realiza- O método individual consiste na relação entre
ção plena da natureza humana” (TOSHIMA; MON- professor e aluno: o professor atente cada aluno indi-
TAGNOLI; COSTA, 2018, p. 9). Assim, os jesuítas vidualmente, ou seja, o professor chama o aluno e em
tiveram êxito na formação de cristãos e de profissio- alguns minutos lhe passa a lição. Ao retornar ao seu
nais capacitados, e o Ratium Studiorum, mesmo se lugar, o aluno deveria realizar os exercícios a fim de
tratando de um texto escrito no século XVI, merece aprender o ensinamento do professor. Nessa época, os
atenção ainda hoje, tendo em vista que compreen- estudos realizados eram em torno do ensino da leitura.
dê-lo e pensá-lo de forma crítica enriquece nossa
postura enquanto docentes. O methodo individual é aquele que o professor
leciona cada menino em si. [...] As vantagens
Os jesuítas foram expulsos do Brasil em 1773
do método individual são o mestre tomar para
pelo Rei Clemente XIV. As causas prováveis de sua si, a cada menino, a sua lição respectiva; as suas
supressão versam em duas categorias: questões po- desvantagens são não se poder praticar n’uma
líticas e ideológicas e questões educacionais. Politi- escola, onde haja muitos meninos, porque isso
camente e ideologicamente, a Companhia de Jesus rouba grande parte de tempo (SILVA; ARAN-
TES, 2015, p. 17).
havia se tornado um empecilho para os interesses
do Estado Moderno; além disso, possuíam um gran-
de poder econômico que era cobiçado pela Coroa Esse método de ensino, que é considerado um dos
Portuguesa. No campo educacional, as transforma- mais antigos, apresenta mais algumas vantagens
ções sociais que decorriam do movimento Iluminis- para o processo de ensino, a saber: o professor co-
ta e dos princípios liberais solicitavam um sujeito nhecia o seu aluno de forma a compreender se ha-
novo, burguês, e não mais um homem cristão (SHI- via disposição para o conhecimento, conhecia o seu
GUNOV NETO; MACIEL, 2008). caráter, seu gênio, se poderia se tornar bom aluno.
Assim terminou a catequização da Compa- A partir deste conhecimento, o professor achava-se
nhia de Jesus no Brasil. No entanto, mesmo após habilitado para formar-lhe o coração e dirigir-lhe a
a expulsão, seus métodos e escolas se mantiveram. inteligência (SILVA; ARANTES, 2015).
Atualmente, no Brasil, temos várias escolas e uni- Algumas desvantagens também poderiam ser vis-
versidades que são mantidas pela Companhia de tas, como o número de alunos para o professor ensi-
Jesus e que estão espalhadas por todo o território nar precisava ser limitado, a disciplina era facilmente
brasileiro. dissipada, pois o professor chamava um aluno após
o outro para lhe tomar as lições (SILVA; ARANTES,
2015). Conforme exemplificamos na figura a seguir:

29
DIDÁTICA

SAIBA MAIS

Outro método utilizado no Brasil foi o méto-


do intuitivo. Este chegou ao Brasil por volta
de 1886, por meio da publicação da obra
Primeiras lições de coisas, traduzida por Rui
Barbosa.
O objetivo do método era resolver os pro-
blemas educacionais decorrentes da Re-
volução Industrial, que se tornaram inefi-
cientes diante das novas exigências sociais.
A Revolução Industrial havia viabilizado a
produção de novos materiais e mobiliário
escolar, mas a sua utilização dependia da
adoção de novos métodos pelos professo-
res. Dessa forma, o método intuitivo propi-
ciava orientação aos professores por meios
de manuais, neste caso a obra Primeiras
lições de coisas.
Para saber mais sobre este método acesse
o artigo: “Primeiras lições de coisas – ma-
nual de ensino elementar para uso dos pais
e professores”, de autoria de Gladys Mary
Teive Auras. Disponível em: <[Link]
[Link]/[Link]?script=sci_arttext&pi-
d=S0104-40602003000100021>.

Fonte: elaborado pelas autoras (2018).

MÉTODO LANCASTER

Figura 5 - Método Individual


O método Lancaster, difundido na Europa no final
Fonte: elaborada pelas autoras (2018). do século XVII, chegou ao Brasil somente por vol-
ta da década de 1820, momento no qual o gover-
Silva e Arantes (2015) ainda destacam que este era no tomou a decisão de implantar o método para o
o método utilizado na instrução doméstica, aquela processo de ensino das escolas do Império. Foi cria-
que ocorria em casa, em que as mães ou irmãos que do por Joseph Lancaster (1778-1838) em parceria
sabiam alguma coisa ensinavam para aqueles que com Andrew Bell (1753-1832). A primeira escola
não sabiam nada. Logo em seguida, surge o método brasileira de ensino mútuo foi criada oficialmente
Lancaster, que esteve presente na primeira lei sobre em 1º de março de 1823, e possuía como objetivo a
a educação no país, a Lei Geral relativa do Ensino formação de professores, especialmente os militares
Elementar, publicada em 15 de outubro de 1827. (MENDONÇA; COSTA, 2015).

30
EDUCAÇÃO FÍSICA

Outorgada, no ano de 1824, a primeira Cons- Jomard [...] fixou as normas desejáveis para o
tituição brasileira, a qual estabelecia a instrução número de alunos, variando de setenta a mil. Ele
indica, por exemplo, para 350 alunos, a necessi-
primária gratuita a todos os cidadãos, houve a ne-
dade de uma sala de 18m de comprimento por
cessidade de propagar a instrução a todos os cida- 9m de largura. Na Inglaterra e na zona rural fran-
dãos brasileiros. Estabelecida essa meta, no dia 22 cesa, utiliza-se frequentemente um celeiro para
de agosto de 1825 o governo enviou um aviso mi- a nova escola. Na França, os edifícios religiosos,
desocupados após o período revolucionário,
nisterial endereçado aos presidentes de províncias,
são numerosos e respondem perfeitamente às
“insistindo na necessidade de propagar escolas pelo normas desejadas. Esses edifícios acolhem as
método lancasteriano” (CASTANHA, 2012, p. 5). escolas mútuas (LESAGE, 1999, p. 12).

O método de ensino mútuo espalhou-se de tal Segue a exemplificação da organização de uma sala
forma pelo Brasil que até mesmo no início do
de aula do método Lancaster:
período republicano ainda era possível encon-
trá-lo aplicado em diversos estabelecimentos
de ensino – públicos e particulares – não só nas
aulas de primeiras letras como, igualmente, em
colégios onde funcionavam cursos secundários
(NISKIER, 1989, p. 105).

Por ser dividido em províncias, o Brasil acabou por


adotar formas diferenciadas do método Lancaster.
Nesse contexto, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas
Gerais e Rio Grande do Sul implantaram, cada um à
sua forma, o método Lancaster, tendo em vista que
os governos estavam preocupados em apenas criar
as escolas e nomear os professores. A fiscalização, o
treinamento e a eficiência educacional não estavam
nos planos dos governos provinciais (MENDON-
ÇA; COSTA, 2015).
Apesar disso, caro(a) aluno(a), as escolas que
adotaram o método Lancaster possuíam algumas
características em comum, como a sua estrutura pe-
dagógica, os agentes da ação educativa e o mobiliá-
rio. A estrutura pedagógica era sempre a mesma: a
sala em formato retangular e os alunos organizados
todos juntos, a sala não possuía divisão (MENDON- Figura 6 - Método Lancaster
ÇA; COSTA, 2015). Fonte: as autoras (2018).

31
DIDÁTICA

O plano escolar da escola mútua consistia na divi- Para trazer economia, o mobiliário e os materiais
são dos conteúdos dentro de cada disciplina. Dentro eram utilizados de forma reduzida: os bancos não
de cada grupo eram estabelecidas as atividades que possuíam encosto e eram produzidos de madeira
seriam realizadas. As atividades orais e de leitura simples, havia relógios para cronometrar as ativida-
eram realizadas em semicírculos espalhados na sala des realizadas, estrados elevavam a mesa dos pro-
e nos quadros negros. As atividades de matemática fessores, quadro negro e telégrafos eram utilizados
eram realizadas nos bancos (MENDONÇA; COS- para a comunicação entre os monitores gerais e os
TA, 2015). monitores particulares (ARAÚJO, 2010).
Os agentes da ação educativa eram os professo-
res e os alunos monitores, que, diferentemente dos
métodos individual e simultâneo, dividiam a res-
ponsabilidade. Ao professor cabia orientar os mo-
nitores, transmitindo os seus conhecimentos a fim
de que estes pudessem retransmitir o conhecimento
e aplicar o método. Os monitores, os alunos mais
fortes, eram as peças essenciais desse método, pois
ensinavam os conteúdos diretamente aos demais
alunos da sala (MENDONÇA; COSTA, 2015).

Figura 7 - Ensino mútuo, Lancaster


Fonte: aquarela “Aplicação do método de Lancaster”, de Giovanni Mi-
gliara Confalonieri e Pellico.

Figura 8 - Mesa de areia Figura 9 - Ensino monitoral - mútuo


Fonte: Revista do Centro de Educação/UFSM. Disponível em: <http:// Fonte: Revista do Centro de Educação/UFSM. Disponível em: <http://
[Link]/revce/>. [Link]/revce/>.

32
EDUCAÇÃO FÍSICA

O método Lancaster não obteve o desempenho O Método simultâneo é coletivo e apresentado a


que era esperado. Por esse motivo, novas discus- grupos de alunos reunidos em função da matéria
a ser estudada, [...] o ensino não se dirige mais a
sões foram travadas. Novos métodos, misturando
um único aluno, como no modo individual, mas
o método individual e o método Lancaster, foram pode atender a cinquenta ou sessenta alunos ao
surgindo ao longo dos séculos e estão intimamen- mesmo tempo. Esse ensino [...] comporta em
te relacionados à forma como organizamos nossa nível de estrutura, três classes sucessivas, a pri-
meira é consagrada unicamente a leitura, [...] a
sala de aula.
segunda destina-se a aprendizagem da escrita,
[...] na terceira classe, são abordadas as discipli-
MÉTODO SIMULTÂNEO nas mais complexas elaboradas: gramática, orto-
grafia e cálculo (LESAGE, 1999, p. 10-11).
O método simultâneo caracteriza uma evolução sig-
nificativa no modo de ensinar, pois seu foco está na O autor recomendava que dentre os alunos fossem
qualidade e na quantidade de alunos que se pode al- escolhidos os que se destacavam, os mais estudiosos.
cançar, ao mesmo tempo. O professor, ao invés de Estes seriam encarregados da vigilância dos demais
realizar o atendimento individual aos alunos, como alunos, ou seja, de “tomar” as lições dos alunos, por
proposto no método individual, pode atender de meio da repetição do que o mestre havia ensinado. A
trinta a quarenta alunos ao mesmo tempo. Ou seja, estes vigilantes também era permitido a repreensão
os alunos realizam a mesma lição ao mesmo tempo e dos alunos que não realizavam os seus deveres e de
o professor corrige todos ao mesmo tempo. ensinar, guiando as mãos dos alunos que não conse-
guissem escrever.
O método simultâneo consiste em dividir os O método simultâneo apresentava maior vanta-
discípulos em diversas classes ou termos, e
gem para o processo de ensino em relação aos méto-
fazer seguir em cada classe a mesma lição de
leitura, de escrita e de cálculo, passando suces- dos individual e Lancaster. Neste modelo, o professor
sivamente de uma a outra classe, e tendo todo o poderia ensinar uma quantidade proporcional de alu-
cuidado em que estão empregadas em alguma nos, dividindo-os em classes segundo o desenvolvi-
coisa, aquelas classes, que não assistem neste mento de cada um. Dessa forma, o professor poderia
intervalo (SILVA; ARANTES, 2015, p. 17).
aplicar a toda a classe a mesma lição de leitura, cálculo
e escrita. O professor poderia pedir para que um alu-
Criado por Jean-Baptiste de La Salle, no final do sé- no lesse em voz alta a lição, enquanto os outros acom-
culo XVII, o método simultâneo possuía como ca- panhavam em seus livros, assim o professor poderia
racterística a divisão da turma em classes, levando transitar de uma classe a outra, sem deixar os alunos
em consideração a matéria e o grau de desenvolvi- ociosos (SILVA; ARANTES, 2015). Exemplificamos
mento dos alunos. as classes do método simultâneo da seguinte forma:

33
DIDÁTICA

Figura 10 - Método Simultâneo


Fonte: elaborada pelas autoras (2018).

Esse método, porém, também possuía desvantagens.


O número de alunos era limitado; caso contrário, o
professor necessitaria de ajudantes e teria de recor-
rer ao método individual caso chegasse um aluno
para os primeiros ensinamentos.

34
considerações finais

P
rezado(a) aluno(a), chegamos ao final das discussões sobre os funda-
mentos históricos e filosóficos da Didática. É indispensável pensarmos
na forma como os conteúdos desta unidade foram expressos. Iniciamos
nossa discussão conhecendo e compreendendo a Didática Magna e o
seu criador João Amós Comênio, um intelectual e teólogo que viveu no século
XVII, em meio à transição do sistema feudal para o sistema capitalista. Ele se
configura como um dos mais importantes intelectuais do seu período.
Partindo de uma experiência pessoal e atenta às mudanças sociais, Comênio
propôs uma nova forma de se pensar o processo de aprendizagem nas escolas, a
partir da sua obra mais importante para a educação, a Didática Magna. Apesar
de ser um homem do seu tempo, Comênio pensou para além dele. Diante disso,
suas obras permanecem atuais, servindo de base para as teorias educacionais e
norteando o processo de ensino até hoje.
As nossas discussões seguiram em torno da compreensão da Didática no Bra-
sil, a partir da chegada da Companhia de Jesus para catequizar os índios. Essa é
uma importante parte da história do Brasil, tanto com relação ao processo educa-
cional quanto ao processo político, pois vemos a educação como uma ferramenta
para o processo de dominação. Mesmo após a expulsão dos jesuítas do Brasil,
seus métodos pedagógicos permaneceram, no entanto outros também surgiram,
como o método individual, método Lancaster e método simultâneo.
É importante perceber que, a partir do momento que o adulto passou a inter-
ferir no processo de aprendizagem das crianças e dos jovens, surgiu a necessidade
de se pensar em métodos para o processo de ensino. Dessa forma, a partir do
momento em que o saber é sistematizado, surge a preocupação com o processo
de ensino, fazendo emergir intelectuais que propõem, por meio de suas teorias,
novas formas de ensinar.
Convidamos você a continuar o estudo sobre o processo de ensino, conhe-
cendo, na próxima unidade, as tendências pedagógicas que fundamentam o pro-
cesso de ensino e de aprendizagem desde o final do século XIX. Vamos lá?

35
atividades de estudo

1. Estudar a obra Didática Magna de João Amós 2. A educação escolar no Brasil iniciou-se por meio
Comênio, escrita no século XVII, se faz neces- da Companhia de Jesus, os jesuítas, no ano de
sário ainda nos dias atuais, tendo em vista que 1549. A chegada ao país possuía como objetivo a
refletir sobre a educação e seus aspectos de catequização dos índios e a propagação da cultu-
valorização da infância e da escolarização for- ra europeia, além de se constituir como mais uma
mal, por exemplo, é uma tarefa do homem mo- terra onde o poder da Igreja Católica vigorava. Os
derno. Nesse contexto, partindo da teoria de jesuítas trouxeram consigo um documento que
Comênio, leia as afirmativas e assinale a cor- padronizava a educação em todas as instituições
reta: da Companhia de Jesus, o qual se intitula:
a) Comênio era um homem do seu tempo, a) Didática Magna.
mas que pensava além dele. Por esse mo-
b) Ratio Studiorum.
tivo, defendia que somente os homens de-
veriam ter acesso à escolarização formal. c) Mundo Ilustrado ou Sensível.

b) Quando era criança, Comênio teve a ex- d) Novíssimo Método das Línguas.
periência da sua escolarização em uma e) Didática Tcheca.
instituição que valorizava a criança. Foi
por esse motivo que ele criou um método, 3. A Didática Magna contempla a educação pansó-
para que todos tivessem acesso à escola. fica, que se constitui como uma organização do
c) Comênio defendia que deveria ser ensi- saber, um projeto educativo e um ideal de vida
nado tudo a todos, pois, na época em que imaginado por Comênio. Nesse contexto, ele
viveu, a educação era um privilégio de pou- organizou a educação em quatro níveis. Leia as
cos, além de estar sob a guarda da Igreja afirmativas e assinale V para verdadeiro e F para
Católica; falso, considerando os quatro níveis de educação.
d) Comênio defendia que as crianças peque- ( ) Escola Materna; Escola Vernácula.
nas também deveriam frequentar a escola, ( ) Escola Materna; Escola superior.
tendo em vista que a educação empreen-
dida pelos pais não era suficiente para a ( ) Escola Latina e Universidade e viagens.
formação do ser humano; ( ) Escola vernácula; Estudos posteriores.
e) Comênio defendia que a educação deve- ( ) Escola latina; Escola superior.
ria ser acessada por todos, tendo em vista
que seria por meio da educação que o ho- As afirmações I, II, III e IV são, respectivamente:
mem desenvolveria o seu lado racional e a) V, F, V, F, F
intelectual.
b) F, V, V, V, F
c) V, F, F, V, V
d) V, V, F, V, F
e) F, F, V, V, V

36
atividades de estudo

4. Foram utilizados no Brasil alguns métodos didá-


ticos para a escolarização após a expulsão dos
jesuítas, em 1773. A conhecer: o método indivi-
dual, o método mútuo e o método simultâneo.
No entanto, foi somente quase um século depois
que a instrução primária para todos os cidadãos
foi garantida por Lei. Leia as alternativas e assi-
nale a que representa o documento que garan-
tiu a gratuidade do ensino primário a todos os
cidadãos.
a) Constituição Federal de 1824.
b) Carta Régia.
c) Decisão Imperial.
d) Lei da Corte Geral.
e) Lei 13 de janeiro de 1822.

5. O método Lancaster ou método mútuo chegou


ao Brasil por volta de 1820, sendo implantado
pelo governo como método para o processo de
ensino e de aprendizagem nas escolas do Impé-
rio. Todas as províncias do Brasil acabaram por
adotar, cada um à sua forma, este método de
ensino. Apesar disso, as escolas que adotaram
o método apresentavam algumas características
em comum. Leia as afirmativas e assinale a corre-
ta quanto a essas características:
I - Estrutura pedagógica.
II - Mobiliário.
III - Atendimento individualizado.
IV -Agentes da ação educativa.

Está correto o que se afirma em:


a) I, II e III, apenas.
b) I, III e IV, apenas.
c) II, III e IV, apenas.
d) I, II e IV, apenas.
e) I, II, III e IV.

37
LEITURA
COMPLEMENTAR

O MATERIALISMO HISTÓRICO DE KARL MARX E


FRIEDRICH ENGELS
Karl Marx (1818-1883) destacou-se como um importante O primeiro ato histórico é, portanto, a produção dos
pensador do século XIX, tornando-se um dos principais meios que permitam a satisfação destas necessida-
nomes das ciências humanas. Em parceria com Frie- des, a produção da própria vida material, e de fato
drich Engels (1820-1895), escreveu obras que se torna- este é um ato histórico, uma condição fundamental
de toda a história, que ainda hoje, como há milhares
ram clássicas, tendo como principal objeto de estudo a
de anos, deve ser cumprido todos os dias e todas as
sociedade capitalista. Seus estudos inspiraram e ainda
horas, simplesmente para manter os homens vivos
inspiram formulações das vertentes teóricas e políticas.
(MARX; ENGELS, 1986, p. 39).
Ainda que não tenham escrito uma obra dedicada ao es-
tudo da metodologia, Karl Marx é considerado o precur- O processo da história é o processo de humanização do
sor do Materialismo Histórico-Dialético, que é utilizado ser social ou da produção da humanidade, ou seja, é o
como método de pesquisa em vários campos da ciência produto dos seres humanos ao produzir suas vidas. Ao
(MCLELLAN, 1988). produzir vidas se produz história.
Marx (1986) acreditava e expressou no conjunto de suas A sociedade é apresentada como uma totalidade social
obras o nascimento, a existência, o desenvolvimento, a para Marx (1986). O homem se constitui no corpo da so-
morte e a substituição da sociedade capitalista com base ciedade, sendo a sociedade capitalista uma das etapas
nas contradições entre as classes sociais, ou seja, no mo- do desenvolvimento histórico. Na teoria marxista, não
vimento dialético. Podemos ver tal movimento dialético há seres sociais isolados, fora da sociedade. O trabalho
na crença que Marx (1986) possuía no proletariado, pois se apresenta como ponto fundamental no processo de
acreditava que essa classe seria capaz de organizar a so- humanização, ou seja, de construção do ser social. É pelo
ciedade de forma mais séria e justa. trabalho que o homem se distingue do ser da natureza e
Segundo Marx (1986), a história se constitui revolucio- se produz como ser social.
nária, concebendo a história como produção social da Marx (1986) acreditava que o homem é uma forma espe-
existência do ser social, ontológico. Ou seja, a história se cífica de ser histórico. Só existe como ser social em uma
produziu dessa forma por conta dessa determinada so- determinada sociedade, ou seja, a concepção do ser so-
ciedade, a capitalista. cial aparece como uma síntese de determinações sociais

38
LEITURA
COMPLEMENTAR

e históricas. Temos dois tipos de relações sociais: entre


homem e homem, e entre homem e natureza. Esses con-
ceitos são estabelecidos em conformidade com os meios
de produção.
Podemos perceber, pelas as considerações apontadas
com relação ao Materialismo Histórico-Dialético de Marx
e Engels, que os estudos de Marx eram baseados nas
ciências humanas, no estudo da sociedade. Escreveu
obras de muita importância para entendermos a socie-
dade capitalista e suas crises.
Marx (1986) acreditava no movimento dialético, acredi-
tava que a luta de classes é que movimenta a história.
Por isso, sua análise parte sempre do plano material
para o plano das ideias. O seu estudo sobre a sociedade
capitalista rompe com o conceito do ser isolado e parte
para a concepção do ser social, que produz com as mãos,
trabalha com as mãos e com a cabeça, transformando
sua realidade. Para Marx (1986), a organização social, por
meio da história – ou das transformações sociais –, pos-
sui meios de superar o seu método.

Fonte: as autoras.

39
material complementar

Indicação para Ler

Didática
José Carlos Libâneo
Editora: Editora Cortez
Sinopse: nesse livro, a Didática é tratada como ramo de estudo da Pedagogia, par-
tindo dos vínculos entre finalidades sócio-políticas e pedagógicas e as bases teóri-
co-científicas e técnicas da direção do processo de ensino e aprendizagem. O au-
tor propõe o estudo sistemático da Didática como teoria do processo de ensino de
modo a unir a preparação teórica e prática na formação profissional do professor.
Constitui-se, assim, como disciplina integradora que, ao buscar os conhecimentos
teóricos e práticos da Teoria da Educação, Psicologia, Sociologia e Metodologias
específicas das matérias de ensino, generaliza princípios, condições e meios que
são muito comuns e básicos para a docência de todas as matérias escolares.
Comentário: A leitura desse livro é de fundamental importância para todos os
profissionais da educação que trabalharão com o processo de ensino e de apren-
dizagem em ambientes formais ou não formais. Compreender a Didática como
uma parte da sua formação é compreender que há ciência e teoria no ato de
ensinar.

Indicação para Assistir

Escritores da liberdade
Ano: 2007.
Sinopse: Hilary Swank, duas vezes premiada com o Oscar, atua nessa instigan-
te história envolvendo adolescentes criados no meio de tiroteios e agressivi-
dade e a professora que lhes oferece o que mais precisam: uma voz própria.
Quando vai parar numa escola corrompida pela violência e tensão racial, a
professora Erin Gruwell combate um sistema deficiente, lutando para que a
sala de aula faça a diferença na vida dos estudantes. Contando suas próprias
histórias e ouvindo as dos outros, uma turma de adolescentes supostamente
indomáveis vai descobrir o poder da tolerância, recuperar suas vidas desfeitas
e mudar seu mundo. Com eletrizantes performances de um elenco de astros,
incluindo Scott Glenn (Dia de Treinamento), Imelda Stauton (Harry Potter e a
Ordem da Fênix) e Patrick Dempsey (Grey’s Anatomy), ganhador do Globo de
Ouro. Escritores da Liberdade é baseado no aclamado best-seller O Diário dos
Escritores da Liberdade.

40
referências

AHLERT, A. O mundo de Comênius: entre conflitos FRANCA, L. O método pedagógico dos jesuítas:
e guerras, uma luz para a prática pedagógica. Revista O “Ratio Studiorum”. 2017. Disponível em: <http://
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451, out. 2002. du/[Link]>. Acesso em: 19 mar. 2019.
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tuo no Brasil do século XIX. Cadernos da Pedagogia, L. M. (Org.). A escola elementar no século XIX: o
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41
DIDÁTICA

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SHIGUNOV-NETO, A.; MACIEL, L. S. B. O ensi- em: 01 abr. 2019.
no jesuítico no período colonial brasileiro: algumas
discussões. Revista Educar, Curitiba, n. 36, p. 169-
189, 2008.

42
gabarito

1. Opção correta é a C.
2. Opção correta é a B.
3. Opção correta é a A.
4. Opção correta é a A.
5. Opção correta é a D.

43
TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS

Professor Me. Camila Tecla Mortean Mendonça

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• Tendências Pedagógicas Liberais
• Tendências Pedagógicas Progressistas
• A Didática na contemporaneidade
• A Didática nos ambientes não formais de aprendizagem

Objetivos de Aprendizagem
• Discutir as tendências pedagógicas nos diferentes tempos
históricos, a fim de compreender a aliança entre a
educação e sua sociedade.
• Contextualizar a didática a partir das teorias liberais e
progressistas para que possamos identificar o objetivo da
educação em cada sociedade.
• Conhecer como a Didática se constitui na
contemporaneidade e sua relação com o processo de
ensino, a fim compreender a função social da atual
educação.
• Relacionar a Didática com sua utilização nos ambientes não
formais para identificar a relevância de uma didática em
diferentes espaços.
unidade

II
INTRODUÇÃO

C
aro(a) aluno(a), dando continuidade as nossas discussões sobre
a construção histórica da Didática, avançaremos nos estudos do
tema e compreenderemos a Didática enquanto um campo de
estudo do processo de ensino que, aliando teoria a um conjunto
de métodos, recursos e procedimentos, possibilitam ao professor a reali-
zação do processo de ensino consistente.
O processo de ensino nas instituições educacionais se dá a partir da
mediação que o professor faz entre o conhecimento e o aluno, utilizan-
do as metodologias, os métodos, as estratégias e os recursos, para isso é
preciso que o professor tenha conhecimento destes. Diante disso, nos-
so objetivo nesta unidade é o de levá-los à reflexão sobre as principais
tendências pedagógicas que foram e ainda são utilizadas no processo de
ensino em nosso país.
É importante esclarecer, de antemão, que o processo teórico de cria-
ção e consolidação de uma teoria pedagógica se dá por meio de emba-
tes e discussões. As teorias apresentadas são aquelas que se destacaram e
foram adotadas nas escolas brasileiras, mas isso não quer dizer que não
surgiram outras teorias e propostas nos mesmos períodos.
Trouxemos os períodos em que cada teoria foi adotada no país, no
entanto sabemos que o processo de transição entre as teorias é moro-
so: não dormimos na tendência Tradicional e acordamos na tendência
Escola Nova, por exemplo. Mesmo assim, temos que ter ciência de que
algumas teorias foram vencidas por outras, mas ainda são adotadas por
muitas escolas de nosso país.
O estudo das tendências pedagógicas visa proporcionar a compreen-
são da dimensão política e da dimensão educacional que estão propostas
nas metodologias adotadas pelas instituições de ensino. Desta forma, é
essencial o conhecimento dessas tendências, pois elas são pré-requisitos
para que possamos refletir e transformar o processo educacional existen-
te. Vamos lá?
DIDÁTICA

Tendências Pedagógicas Liberais

48
EDUCAÇÃO FÍSICA

São quatro as tendências pedagógicas liberais. terísticas destas tendências pedagógicas quanto às
Suas teorias serviram como norteadores do pro- categorias papel da escola, conteúdos, métodos,
cesso de ensino e de aprendizagem no Brasil até professor X aluno e aprendizagem encontram-se
por volta da década de 1950. As principais carac- no Quadro 1.

Quadro 1 - Síntese das principais características das tendências pedagógicas liberais

TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS LIBERAIS


Tendência Renovada não diretiva:
Tradicional Renovada Progressista Tecnicista
Característica Escola Nova
Preparação dos alu- A escola deve se ade- A escola deve pro- Modela o com-
Papel da escola nos para assumir seu quar as necessidades mover a formação de portamento
papel na sociedade. individuais dos alunos. atitudes. humano.
Conhecimento histo-
Consiste em
ricamente acumulado Os conteúdos são es-
informações or-
pela humanidade, tabelecidos a partir dos Os alunos buscam o
Conteúdos denadas em uma
transmitidos aos alu- interesses e situações conhecimento.
sequência lógica e
nos como verdades vividas pelos alunos.
psicológica.
absolutas.
Técnicas de
Exposição oral dos
Pesquisas, experiências, Facilitação da aprendi- transmissão e
Métodos conteúdos, reprodu-
soluções de problemas. zagem pelo professor. recebimento de
ção dos modelos.
informações.
O professor propi-
O professor é um auxi-
Professor como au- cia condições para
liar no desenvolvimento O professor trans-
toridade, detentor de o aprendizado dos
Professor X do aluno. mite as informa-
todo o conhecimento. alunos.
Aluno O aluno é o centro do ções e os alunos
Aluno receptor pas- O aluno é o centro do
processo de ensino e devem fixa-las.
sivo. processo de ensino e
de aprendizagem.
aprendizagem.
Aprendizagem me-
Ao aprender os alunos
cânica, por meio de É baseada na estimu- A aprendizagem
modificam as suas
Aprendizagem repetição, lação, nos interesses e é baseada no
percepções sobre a
memorização e re- motivação dos alunos. desempenho.
realidade.
produção.

Fonte: Elaborado pela autora (2018).

49
DIDÁTICA

TENDÊNCIA PEDAGÓGICA TRADICIONAL

O termo “tendência tradicional” foi cunhado a partir Os conteúdos trabalhados nessa escola consti-
do estudo das tendências pedagógicas antigas. A te- tuíam-se dos conhecimentos historicamente acu-
oria ganhou corpo a partir da identificação dos pon- mulados pela sociedade; estes eram transmitidos
tos recorrentes nas práticas pedagógicas adotadas aos alunos como verdades absolutas, portanto não
ao longo da história da educação até final do século poderiam ser contestados. As disciplinas eram
XIX. Com a ascensão do movimento renovador, a tratadas isoladamente, desvinculadas dos interes-
identificação das práticas pedagógicas adotadas até ses dos alunos e da realidade concreta (LIBÂNEO,
então ganha essa denominação. Saviani (2018, p. 1) 1994). Os métodos adotados eram a exposição oral e
define que: a reprodução de modelos. Assim, o ensino acontecia
por meio da repetição, memorização e reprodução.
A denominação “concepção pedagógica tra- O papel do professor e do aluno era estanque. O
dicional” ou “pedagogia tradicional” foi intro-
professor era o centro do processo educativo: ele era
duzida no final do século XIX com o advento
do movimento renovador que, para marcar a o detentor de todo o conhecimento historicamente
novidade das propostas que começaram a ser acumulado, tendo a responsabilidade de transmitir
veiculadas, classificaram como “tradicional” a os conteúdos aos alunos e prepará-los para assumir
concepção até então dominante. Assim, a ex- seus papéis na sociedade. Ao aluno, cabia apenas
pressão “concepção tradicional” subsume cor-
aprender os conteúdos; após a compreensão dos
rentes pedagógicas que se formularam desde
a Antiguidade, tendo em comum uma visão mesmos, cabia ao discente reproduzi-los tal qual
filosófica essencialista de homem e uma visão lhes foram ensinados. “O professor tende a encaixar
pedagógica centrada no educador (professor), os alunos num modelo idealizado de homem que
no adulto, no intelecto, nos conteúdos cogniti-
nada tem a ver com a vida presente e futura” (LIBÂ-
vos transmitidos pelo professor aos alunos, na
disciplina, na memorização [...]. NEO, 1994, p. 64).
O compromisso social dessa escola era a repro-
No Brasil, a tendência pedagógica tradicional foi dução da cultura. Suas características eram marca-
adotada por volta do final do século XIX, possuindo das pela disciplina rígida e castigos físicos. Possuía
características bem peculiares quanto ao processo como finalidade ser uma instituição sistematizado-
de ensino e de aprendizagem. A escola era caracte- ra de uma cultura complexa que propicia, em seu
rizada como o único local onde os alunos poderiam seio, a apropriação do conhecimento por meio da
ter acesso aos conhecimentos científicos. Dessa for- transmissão dos saberes pelo professor e a confron-
ma, qualquer conhecimento obtido fora da escola tação de modelos de demonstração. A escola, nesse
não era considerado para o processo de ensino e de contexto, é uma reprodutora de modelos e coloca-se
aprendizagem formal, isso incluía as vivências dos como único local em que se tem acesso ao conheci-
alunos, seus conhecimentos cotidianos. mento (BEHRENS, 2009).

50
EDUCAÇÃO FÍSICA

[...] a tendência liberal tradicional é caracteri- e habilidades; tais aulas devem ser aliadas a outras
zada por dar ênfase ao ensino humanístico, de práticas e recursos para que sejam efetivas no pro-
cultura geral. Segundo essa escola tradicional, o
cesso de ensino.
estudante é preparado para atingir sua plenitu-
de através de seu próprio esforço. Dessa forma, A crítica que nos cabe fazer sobre a tendência
as diferenças de classe social não são considera- tradicional é que o que se tem adotado da tendên-
das e toda a prática escolar não tem nenhuma cia tradicional, nos dias atuais, são os aspectos que
relação com o cotidiano do aluno. Cabe ao pro- não levam os alunos a desenvolverem autonomia
fessor conduzir o processo e ao aluno receptivo,
para os estudos, independência de raciocínio,
apenas memorizar o que foi passado para ele
(MARQUES, 2012, p. 2). pensamento crítico e reflexivo. Absorveu-se a re-
produção, memorização, a repetição de modelos
Seria impensável uma educação nesses moldes nos prontos e estereotipados, sem valor educativo,
dias atuais, certo? Entretanto, a didática da tendência desprovidos de significado social, inúteis para a
tradicional tem resistido ao tempo e continua sendo formação de pessoas com capacidades intelectuais
aplicada nas práticas escolares ainda hoje. para uma compreensão crítica da realidade (LIBÂ-
NEO, 1994).
A tendência tradicional é criticada por todas as
REFLITA
tendências pedagógicas pelo fato de reproduzir a ló-
gica da exclusão, com um conhecimento dominante,
Apesar da tendência tradicional de ensino perpetuando, assim, a opressão, a divisão de classes
ter sido superada teoricamente há décadas,
seus resquícios ainda se mantêm enraizados
e a cultura do silêncio. Freire (1981, p. 67) define
nas nossas práticas pedagógicas. Que atitu- essa tendência como uma educação bancária, que
des podemos adotar para que essas práticas consiste no “ato de depositar, transferir, de transmi-
sejam modificadas?
tir valores e conhecimentos”. Esse modelo de educa-
ção nega a transformação e a criatividade.
Será que conseguiremos deixar para trás esta
Caro(a) aluno(a), não podemos dizer que tudo que tendência? Será que é necessário? Caro(a) aluno(a),
foi utilizado na tendência tradicional deve ser des- é evidente que algumas características da tendência
considerado e deixado para trás, pois algumas prá- tradicional devem ser descartadas, no entanto é pre-
ticas ainda são úteis ao processo de ensino e apren- ciso manter os aspectos que fizeram e fazem bem
dizagem; as aulas expositivas, por exemplo. As aulas à prática pedagógica vigente, que atendem às nos-
ainda carecem de explicação dos professores. No sas necessidades e as dos nossos alunos, pois temos
entanto, aulas expositivas, apenas, não permitem sempre que ter como objetivo o processo de ensino
que o aluno desenvolva todas as suas competências e de aprendizagem.

51
DIDÁTICA

TENDÊNCIA PEDAGÓGICA RENOVADA Em 1924, tivemos a fundação da Associação


Brasileira de Educação, com o objetivo de promover
os debates em torno das questões educacionais e a
influência da escola nova e seus defensores, em um
movimento para dar novos rumos para a educação,
os embates e disputas gerados em torno desse novo
método evidenciaram o jogo de interesses em que
estava inserida a educação escolarizada (ANDRE-
OTTI, 2018).
Assim, a década de 1930 foi proveitosa com re-
Figura 1: Sala de aula de uma escola de educação infantil Montessoriana. lação à nova educação. Em 1932, temos a publicação
do Manifesto dos Pioneiros, que foi defendido pelos
A tendência pedagógica renovada incluiu várias cor- educadores que ocupavam cargos públicos. Assim,
rentes provenientes das teorias de vários intelectuais, “contrastando com a educação tradicional, as novas
a exemplo: a ativista espiritualista (de orientação ca- tendências pedagógicas visavam proporcionar es-
tólica); a montessoriana; a piagetiana; a culturalista; paços mais descontraídos, opondo-se, como inves-
a progressista (baseadas nas ideias de John Dewey) e tigação livre, à educação ensinada” (ANDREOTTI,
a não diretiva ou escola nova (baseada nas ideias de 2018, p. 3). Os novos métodos propunham um en-
Carl Rogers). Todas estas teorias são baseadas na pe- sino que surgia do processo ativo dos alunos e de sua
dagogia ativa, que surge por volta de 1930 no Brasil, autoaprendizagem.
em contraposição à tendência pedagógica tradicio- Caro(a) aluno(a), podemos perceber a corre-
nal (LIBÂNEO, 1994). No quadro 2, há uma síntese lação de forças existentes nos embates para se fa-
das duas tendências que mais se destacaram: ten- zer educação. Não em benefício das pessoas, mas,
dência progressista e a não diretiva ou escola nova. sim, levando em consideração o jogo de interesses
No Brasil, as experiências didáticas se basearam no existentes na sociedade. Diante disso, é importante
movimento escola nova, por este motivo, aqui fica- compreender que sempre, na história da educação,
remos com as ideias provenientes desta tendência: a haverá os defensores de uma escola para todos e os
renovada diretiva ou escola nova. defensores de uma educação elitizada, para poucos.
Os novos métodos de ensino que chegavam ao Passemos agora à discussão das características dessa
Brasil eram, a priori, restritos às escolas privadas, tendência pedagógica.
uma vez que havia uma luta pela manutenção das A principal característica da tendência escola
escolas católicas, que na época constituíam espaços nova é a rejeição à tendência tradicional de ensino.
de educação tradicional. Nesse sentido, as primeiras A escola era caracterizada como um local onde seria
décadas do século XX, no Brasil, foram palco de dis- formada a atitude dos alunos. A didática é entendida
putas e embates entre a igreja e seus defensores e um como uma teoria que dará direção para o processo
movimento que se empenhou em dar novos rumos de aprendizagem. Nesse sentido, o centro do proces-
para a educação. (ANDREOTTI, 2018). so de ensino e de aprendizagem não é o professor

52
EDUCAÇÃO FÍSICA

nem o conteúdo, mas, sim, o aluno, ser ativo e inves- O professor incentiva, orienta, organiza as si-
tigador (LIBÂNEO, 1994). tuações de aprendizagem, adequando-as às
capacidades de características individuais dos
alunos. Por isso, a didática ativa dá grande im-
Aprender é modificar suas próprias percepções.
portância aos métodos e técnicas como o traba-
Apenas se aprende o que estiver significativa-
lho em grupo, atividades cooperativas, estudo
mente relacionado com essas percepções. A re-
individual, pesquisas, projetos, experimenta-
tenção se dá pela relevância do aprendido em
ções, etc., bem como aos métodos de reflexão e
relação ao “eu”, o que torna a avaliação escolar
método científico de descobrir conhecimentos.
sem sentido, privilegiando-se a autoavaliação.
Tanto na organização de experiência de apren-
Trata-se de um ensino centrado no aluno, sen-
dizagem como na seleção de métodos, importa
do o professor apenas um facilitador (SILVA,
o processo de aprendizagem e não diretamente
2018, p. 3).
o ensino (LIBÂNEO, 1994, p. 66).

O papel do professor era dar condições para que os


alunos, a partir das suas necessidades e interesses, Para alcançar os objetivos propostos por essa ten-
pudessem buscar os conhecimentos por si só. Assim, dência pedagógica, o aprendizado teria de ser es-
os conteúdos também se baseavam na busca de co- pontâneo, ou seja, partir do interesse do aluno. De
nhecimento pelos próprios alunos. A ideia emprega- acordo com Saviani (2009), esse modelo trouxe mais
da nessa tendência é que “o aluno aprende mais por pontos negativos do que positivos para a educação,
si próprio” (LIBÂNEO, 1994, p. 65). e ainda destaca que a escola nova provocou o afrou-
Se na tendência tradicional a atividade peda- xamento da disciplina e a despreocupação com a
gógica era centrada no professor, na escola nova é transmissão dos conhecimentos científicos, rebai-
voltada para o “aprender fazendo”. Nesse sentido, o xando a qualidade do ensino destinado às classes
centro passou a ser o aluno, valorizando a pesquisa, menos favorecidas da sociedade, que somente na es-
a descoberta, suas tentativas experimentais, levando cola podem acessar o conhecimento historicamente
em consideração os interesses dos alunos (MAR- acumulado. Em contrapartida, acabou por melhorar
QUES, 2012). a qualidade do ensino destinado às elites.
Não se tratava somente de colocar o aluno para A didática da escola nova possui muitos pontos
fazer trabalhos manuais ou manipular objetos, mas positivos, principalmente sua proposição de basear as
de propiciar aos alunos situações em que fosse pos- atividades escolares dos alunos em estudo e pesquisa,
sível manifestar sua intelectualidade, criatividade, atividade mental, visando a formação de pessoas autô-
expressão verbal e escrita, por exemplo. De acor- nomas. No entanto, por falta de conhecimento, condi-
do com Mizukami (2009, p. 45) “a prática educa- ções e material, muitos professores utilizaram somen-
tiva passou a ter como foco o aluno, desta forma, te alguns métodos e técnicas da teoria escolanovista,
a sua realização pessoal e o autodesenvolvimento, sem levar em consideração o objetivo principal, que
influência da psicologia, tomaram as discussões no é propiciar ao aluno a condição de raciocinar cientifi-
campo educacional”. Nesse sentido, Libâneo (1994) camente, de desenvolver sua independência, sua capa-
destaca que: cidade de reflexão e pensamento (LIBÂNEO, 1994).

53
DIDÁTICA

Na primeira metade do século XX a escola nova Para falarmos da tendência tecnicista é preciso, pri-
já começava a apresentar algumas das característi- meiramente, compreender o processo produtivo que
cas que a levariam ao fracasso. A preocupação com foi sistematizado no final do século XIX e início do
a qualidade do ensino, com a didática e com ins- século XX, por meio da Teoria da Administração,
trumentos eficientes para o processo de ensino e de empregada até os dias atuais na organização e con-
aprendizagem inaugurou um período de reflexão trole do trabalho, cujo principal precursor foi Frede-
que levaria a novas formas de ensinar, novas teorias. rick Winslow Taylor (1856 -1915).
A Teoria Geral da Administração possui como
TENDÊNCIA PEDAGÓGICA TECNICISTA principal objetivo o controle do processo produti-
vo. O desenvolvimento gerado pelo sistema capita-
lista introduziu novas relações entre os trabalhado-
res e o processo de produção – a compra e venda
da força do trabalho. Surge a figura do gerente,
que planeja e controla os processos de produção
(MARQUES, 2012).
Antes do desenvolvimento capitalista, os traba-
lhadores eram independentes. Não havia organiza-
ção da produção, o que ocasionava alguns problemas
como a falta de padrão dos produtos, o desperdício
de matéria prima, produção artesanal, horários de
trabalho de acordo com a necessidade de cada um
e produção desigual (MARQUES, 2012). Esses pro-
blemas não poderiam permanecer na nova socie-
dade que emergia; diante disso, o processo de pro-
dução precisava ser aprimorado, ser mais racional
e eficiente.
Esse modelo de produção que também foi inse-
rido na educação. A tendência pedagógica tecnicista
pode ser entendida a partir do momento da sua in-
serção no processo produtivo, ou seja, a escola adere
aos conceitos produtivistas e os insere no contexto
pedagógico pois é ela quem forma o sujeito necessá-
rio para atender as demandas da sociedade, sobretu-
do no mercado de trabalho.
A tendência pedagógica tecnicista surgiu no
Figura 2: Retrato de Frederick Winslow Taylor (1856 -1915)
Brasil por volta da década de 1950. De forma pro-
Fonte: Wikimedia. gressiva, ganhou espaço até ser implantada na déca-

54
EDUCAÇÃO FÍSICA

da de 1960, momento em que se iniciava, no Brasil, Aranha (1996, p. 176) destaca que a tendência tec-
a Ditadura Militar (1964-1985). nicista busca na psicologia behaviorista, também de
No país, a implantação dessa tendência peda- base positivista, “os procedimentos experimentais
gógica ocorreu a partir da consultoria de empresas necessários para a aplicação do condicionamento e
norte-americanas, que já desenvolviam pesquisas o controle do comportamento”.
sobre a educação brasileira e que também tinham A escola, portanto, passou a ter um caráter téc-
a necessidade de preparar mão de obra qualificada nico, operacional e objetivo. O foco da educação não
que pudesse atender ao mercado multinacional. Essa era mais o professor nem o aluno, mas a técnica, ou
influência internacional se manifestou na forma dos seja, a organização sistematizada dos meios e ins-
planejamentos escolares e na formulação da legisla- trumentos da aprendizagem. À escola cabia treinar
ção, especificamente da Lei nº 5.540/1968 (Ensino os alunos, modelando os seus comportamentos. “À
Universitário) e da Lei nº 5.692/1971 (Ensino de 1º escola compete a organização do processo de aqui-
e 2º grau). sição de habilidades, atitudes e conhecimentos es-
Inspiradas nas ideias de Augusto Comte (1798- pecíficos, úteis e necessários para que o indivíduo
1857) e sua teoria positivista, além da psicologia se integre na máquina do sistema social global”
americana behaviorista de Burrhus Frederic Skinner (MIZUKAMI, 1986, p. 28-29).
(1904-1990), a tendência buscava ensinar o aluno Essa tendência pedagógica emprega na escola
por meio do treinamento. Dentre os princípios do o papel fundamental da formação das pessoas que
positivismo, destacamos: “a sociedade humana é re- se integrem e sejam ativos na sociedade que está se
gulada por leis naturais, ou por leis que tem todas transformando. Assim, a escola deve desenvolver
as características das leis naturais, invariáveis, inde- nos alunos os comportamentos que são esperados
pendentes da vontade e da ação humana” (LÖWY, para a sociedade e organizar, de forma sistematiza-
2007, p. 36). da, o processo de desenvolvimento das habilidades e
Assim, os métodos empregados para conhecer a conhecimentos historicamente acumulados.
sociedade e a natureza deveriam ser os mesmos, ou O professor nesta tendência pedagógica ca-
seja, a metodologia das ciências sociais e das ciên- racteriza a sua prática por meio da transmissão e
cias naturais deveriam ser as mesmas, tendo em vis- reprodução do conhecimento. A partir da psicolo-
ta que o funcionamento da sociedade é subordinado gia Behaviorista e da teoria do reforço de Skinner,
à mesma lei que rege o funcionamento da natureza o professor programava o ensino, assim poderia
(LÖWY, 2007). Por fim, Löwy complementa que: prever o comportamento desejado e o resultado
final (BERHRENS, 2009). Neste contexto, o pro-
[...] da mesma maneira que as ciências da na- fessor aplicava a técnica pela técnica em busca do
tureza são ciências objetivas, neutras, livres de
objetivo final.
juízos de valor, de ideologia políticas, sociais ou
outras, as ciências sociais devem funcionar exa- O ensino tornou-se ainda mais burocrático, os
tamente segundo este modelo de objetividade professores tinham que preencher papéis onde o
científica (2007, p. 36). programa da aula deveria ser detalhado. A função
do professor foi inferiorizada, se tornando apenas

55
DIDÁTICA

um executor das ordens e do planejamento que era nômica e ideológica do regime militar em vigência.
desenvolvido por técnicos da educação, estes não ti- Necessitava-se de uma formação para o mercado de
nham conhecimento da sala de aula. trabalho, que iniciava suas atividades de maquinaria
O aluno era mero espectador frente a realidade. e outras revoluções industriais que antes não havia
A partir da teoria do reforço, de Skinner, os alu- em um país com uma economia voltada ao campo.
nos modificam os seus comportamentos, que são Infelizmente, ainda hoje há predominância de ma-
observáveis e mensuráveis. O aluno ficava privado nuais didáticos que seguem essa metodologia nos
da criticidade, pois deveria seguir à risca os manu- cursos de formação de professores.
ais de instruções que demonstravam a eficiência e
competências que eram exigidas por essa sociedade
(BERHRENS, 2009).

A transferência da aprendizagem depende do


treino; é indispensável a retenção, a fim de que
o aluno possa responder às situações novas de
forma semelhante às respostas dadas em situ-
ações anteriores. A ênfase na repetição leva o
professor a propor cópia, exercícios mecânicos
e premiações pela retenção do conhecimento
(BERHRENS, 2009, p. 50).

De acordo com Ferraz e Fusari (2009), essa tendên-


cia pedagógica provocou a descrença dos professo-
res no planejamento escolar, tendo em vista que, ao
invés de serem prazerosos, eram mecânicos e pro-
duziam aulas modeladas. Os conteúdos não dialo-
gavam entre si e reproduzia-se sempre um modelo
estanque.
A metodologia utilizada era reprodutivista,
enfatizando a resposta certa. As respostas formu-
ladas pelos alunos deveriam se referir somente ao
conteúdo exposto pelo professor. Assim, o aluno
se tornava passivo, obediente, acrítico e ingênuo
(BERHRENS, 2009).
No decorrer das duas décadas seguintes à sua
implantação, as orientações da tendência tecnicista
foram impostas às escolas pelos organismos oficiais,
pois eram compatíveis com a proposta política, eco-

56
EDUCAÇÃO FÍSICA

57
DIDÁTICA

Tendências Pedagógicas
Progressistas

58
EDUCAÇÃO FÍSICA

As tendências pedagógicas progressistas se consti- características destas tendências pedagógicas quanto


tuem em um conjunto de duas tendências pedagó- às categorias: papel da escola, conteúdos, métodos,
gicas. As suas teorias norteiam o processo de ensino professor X aluno e aprendizagem, encontram-se no
e de aprendizagem até os dias atuais. As principais Quadro 2.

Quadro 2 - Síntese das principais características das tendências pedagógicas progressistas

TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS PROGRESSISTAS


Tendência Característica Libertadora Histórico-crítica
Visa levar professores e alunos
a uma consciência da realida-
Papel da escola Propagação dos conteúdos.
de em que vivem, na busca de
transformação social.
Os conteúdos são culturais e
Temas que são retirados da vida universais, estes incorporados
Conteúdos
cotidiana dos alunos. pela humanidade, frente a
realidade social.
Parte da experiência do aluno,
Métodos Grupos de discussão. que é confrontada com os
conteúdos sistematizados.
O professor é o mediador en-
tre o aluno e o conhecimento.
Relação horizontal, de igual para
Professor X Aluno O aluno é participante ativo
igual.
na construção dos seus co-
nhecimentos.
Baseada nas estruturas cog-
Valorização da experiência vivida
Aprendizagem nitivas que já estão estrutura-
pelos alunos.
das nos alunos.

Fonte: Elaborado pelas autoras (2018).

A partir da década de 1970, com a modificação do realizar críticas ao papel ideológico e discriminador
quadro político frente às lutas sociais por maior de- que a escola estava reproduzindo na sociedade ca-
mocratização da sociedade, passou a ser possível pitalista. Outros, por sua vez, preocuparam-se em
discutir as questões educacionais e escolares a par- desenvolver outras teorias, articulando a escola aos
tir de uma perspectiva crítica das instituições sociais interesses do povo. Nesse contexto, destacamos as
do capitalismo (LIBÂNEO, 1994). Alguns grupos teorias das tendências libertadora e histórico-crítica
de pesquisadores e militantes políticos focaram em ou crítico social dos conteúdos.

59
DIDÁTICA

TENDÊNCIA PEDAGÓGICA PROGRESSISTA O método proposto por Paulo Freire expõe o an-
LIBERTADORA tagonismo existente entre a forma como a educação
era realizada – autoritária – e a forma como se pre-
tendia construir a educação – participativa. Assim,
ele defendia uma prática educativa que fosse demo-
crática e participativa pois, desta forma, a população
teria consciência da sua realidade.
A tendência pedagógica libertadora apontada
por Paulo Freire “partia de uma concepção de filoso-
fia da educação em que o homem é o ‘sujeito da his-
tória’ e não seu ‘objeto’” (FERRAZ; FUSARI, 2009, p.
53). Consideramos que nesta perspectiva o sujeito é
autor da sua própria história, o seu desenvolvimento
se dá por meio da troca de ideias, informações, deci-
sões e responsabilidades. Assim, é no ambiente edu-
cacional que o indivíduo se desenvolve nos aspectos
físico e intelectual.
O método de Paulo Freire, que é a base da ten-
dência pedagógica libertadora, tem como princípio
que a educação consiste em um ato político, pois
permite a construção de conhecimentos e a possi-
bilidade de criação de uma nova sociedade, mais
justa, solidária, humana e ética. Nesse contexto, a
Figura 3: Paulo Freire
Fonte: Escritas (on-line). educação deve ser permanentemente buscada pe-
las classes menos favorecidas, a fim de que tenham
A tendência pedagógica libertadora, muito conhecida condições de lutar pela liberdade e pela igualdade
como a pedagogia do Paulo Freire (1921-1997), des- de condições
pontou no Brasil entre os anos de 1961 e 1964, com Essa tendência pedagógica propõe, de acordo
as contribuições de Paulo Freire, educador que obte- com Berhrens (2009, p. 73), a:
ve destaque internacional pelo seu método que revo-
valorização da escola como agência difusora
lucionou a alfabetização dos adultos, voltado para a dos conteúdos vivos, concretos, indissociá-
luta e a organização da classe oprimida. No entanto, a veis das realidades sociais; enquanto espaço
tendência consolidou-se somente entre as décadas de específico em que se dará a apropriação/desa-
1970 e 1980. Era “voltada para o diálogo educador- propriação do saber; integrada no todo social,
econômica e politicamente; capaz, por um lado,
-educando e visando à consciência crítica, influencia
de trabalhar visando à transformação dos inte-
principalmente movimentos populares e a educação resses populares.
não formal” (FERRAZ; FUSARI, 2009, p. 53).

60
EDUCAÇÃO FÍSICA

A atividade escolar era centrada nas discussões de te- de classes é uma condição para a libertação da explo-
máticas políticas e sociais. O ensino era baseado na re- ração política e econômica. A tendência pedagógica li-
alidade social, ou seja, professores e alunos analisavam bertadora, portanto, transcende a pedagogia, atingin-
os problemas e a realidade da sociedade, economia e do também a política, as ciências sociais e a economia.
cultura da comunidade local, com seus recursos e suas A pedagogia libertadora tem sido aplicada em
necessidades, tendo em vista a ação coletiva frente a es- vários setores como sindicatos, movimentos sociais,
tes temas e problemas da realidade (LIBÂNEO, 1994). comunidades religiosas e associações de bairros.
Essa tendência alcançou êxito pelo fato de ser uti-
Desde logo, afastávamos qualquer hipótese lizada entre adultos que já possuem uma vivência
de uma alfabetização pura e mecânica. Desde
prática e política, assim é possível debater sobre po-
logo, pensávamos a alfabetização do homem
brasileiro, em posição de tomada de consciên- lítica, economia e sociedade, aprofundando as dis-
cia, na emersão que fizera no processo de nossa cussões com autores comprometidos com os interes-
realidade. Num trabalho em que tentássemos ses populares (LIBÂNEO, 1994).
a promoção da ingenuidade em criticidade, ao
mesmo tempo em que alfabetizássemos (FREI-
RE, 2011, p. 136). SAIBA MAIS

O professor, nesse processo, respeita o aluno e seus


Pedagogia Libertadora
limites. O aluno é atuante e responsável pelo seu de-
senvolvimento educacional. O método era baseado no Convencionou-se denominar de “pedagogia
libertadora” a concepção pedagógica cuja ma-
diálogo, pesquisa e na democracia. “O trabalho escolar triz remete às ideias de Paulo Freire. Sua inspi-
não se assenta, prioritariamente, nos conteúdos de en- ração filosófica se encontra no personalismo
sino já sistematizados, mas no processo de participação cristão e na fenomenologia existencial. Como
se trata de correntes que, como o pragmatis-
ativa nas discussões e ações práticas sobre as questões mo, se inserem na concepção humanista mo-
da realidade social imediata” (LIBÂNEO, 1994, p. 69). derna de filosofia de educação, a pedagogia
O método era desenvolvido por meio de discus- libertadora mantém vários pontos de contato
com a pedagogia renovadora. Também ela
sões, assembleias, relatos de experiências e trabalho valoriza o interesse e iniciativa os educan-
em grupo, por exemplo. Assim, surgiam temas ge- dos, dando prioridade aos temas e problemas
radores que poderiam ser sistematizados, consoli- mais próximos das vivências dos educandos
sobre os conhecimentos sistematizados. Di-
dando o conhecimento. A Didática, nesse contexto, ferentemente do movimento escolanovista,
busca desenvolver o processo educativo dentro dos porém, a pedagogia libertadora põe no centro
grupos sociais, o professor é o coordenador, o ani- do trabalho educativo temas e problemas
políticos e sociais, entendendo que o papel
mador das atividades e organiza tudo em uma ação da educação é, fundamentalmente, abrir ca-
conjunta com os alunos (LIBÂNEO, 1994). minho para a libertação dos oprimidos.
A teoria de Paulo Freire contribui no contexto da Fonte: Verbete de Dermeval Saviani. Disponível em:
luta de classes, uma vez que se acredita que o oprimido <[Link]
deve ter consciência da sua situação de opressão. A ela- glossario/verb_c_pedagogia_libertadora.htm>.

boração de uma consciência crítica e da organização

61
DIDÁTICA

TENDÊNCIA PEDAGÓGICA HISTÓRICO-CRÍTICA OU CRÍTICO-


-SOCIAL DOS CONTEÚDOS

A tendência pedagógica histórico-crítica surgiu na A pedagogia histórico-crítica surgiu no início


década de 1970, mas sua efetivação se deu na década dos anos 1980 como uma resposta à necessi-
de 1980, a partir das discussões realizadas por Der- dade amplamente sentida entre os educado-
res brasileiros de superação dos limites tanto
meval Saviani. No artigo “Escola e Democracia: para das pedagogias não críticas, representadas
além da teoria da curvatura da vara”, o autor reali- pelas concepções tradicional, escolanovista e
za uma crítica ao modelo pedagógico empregado tecnicista, como das visões crítico reprodu-
no processo de ensino e de aprendizagem, que não tivistas, expressas na teoria da escola como
aparelho ideológico do Estado, na teoria da
apresentava um caráter historicizante, mas sim re-
reprodução e na teoria da escola dualista (SA-
produtivista. Essa crítica era empreendida às teorias VIANI, 2008, p. XIV).
das tendências pedagógicas liberais.

62
EDUCAÇÃO FÍSICA

A proposta dessa tendência considera a questão entre os conhecimentos historicamente acumulados


histórica por acreditar que a educação também in- e as experiências socioculturais, bem como a vida
terfere na sociedade, podendo contribuir para sua concreta dos alunos, pois assim haverá melhor soli-
transformação. Ela também é crítica, pois tem cons- dez na assimilação dos conteúdos.
ciência da determinação que a sociedade exerce so- Do ponto de vista da Didática, o processo de
bre a educação (MASHIBA; SERCONEK; MENE- ensino consiste na mediação entre objetivos-conte-
ZES, 2012). údos-métodos, permitindo que o aluno se encontre
Pautado no materialismo histórico dialético de com as matérias escolares, que são o fator primor-
Karl Marx (1818-1889) e Friedrich Engels (1820- dial da aprendizagem (LIBÂNEO, 1994).
1895), com afinidades relacionadas a psicologia his- O método de ensino objetiva o estímulo do pro-
tórico-cultural, que possui como principal autor Lev fessor em propiciar e favorecer momentos de diálo-
Vygotsky (1896-1934), essa tendência pedagógica go entre os alunos e com os professores, sem deixar
possui como objetivo o resgate da “importância da de lado os conhecimentos historicamente acumu-
escola, a reorganização do processo educativo, res- lados. Também é preciso levar em consideração os
saltando o saber sistematizado, a partir do qual se interesses que os alunos possuem e o seu ritmo de
define a especificidade do saber escolar” (GASPA- aprendizagem. Dessa forma, de acordo com Masetto
RIN; PETENUCCI, 2018, p. 4). (2000, p. 144-145):
Por meio do processo de ensino e de aprendiza-
gem, a educação deve assumir o seu papel e sua res- [...] o professor se coloca como um facilitador
ou motivador da aprendizagem [...] ativamen-
ponsabilidade de oferecer aos educandos ferramen-
te colabora para que o aprendiz chegue a seus
tas para que se tornem sujeitos críticos, participantes objetivos. É a forma de apresentar e tratar um
e conscientes. Diante dessa perspectiva, buscou-se a conteúdo ou tema que ajuda o aprendiz a co-
elaboração de uma tendência pedagógica mais rea- letar informações, relacioná-las, organizá-las,
lista, chamada de “pedagogia histórico-crítica”, ou manipulá-las, discuti-las [...] com o professor e
com outras pessoas, até chegar a produzir um
seja, mais crítica com relação aos conteúdos, sem
conhecimento que seja significativo para ele,
deixar de lado a contribuição das outras tendências conhecimento que se incorpore ao seu mundo
pedagógicas. “Essa pedagogia escolar procura pro- intelectual, vivencial e social.
piciar a todos os estudantes o acesso e contato com os
conhecimentos culturais necessários para uma práti- Podemos afirmar, então, que para que a pedagogia
ca social viva e transformadora” (FERRAZ; FUSA- histórico-crítica seja de fato transformadora, é pre-
RI, 2009, p. 55, grifos do autor). ciso nos comprometer com o ensino que propicie
Para a pedagogia histórico-crítica, a escola pú- aos alunos a construção de conhecimentos verda-
blica cumpre função social e política de difundir os deiros. Não há uma fórmula para isso, também não
conhecimentos historicamente acumulados a todos, há caminhos absolutamente seguros. No entanto,
pois essa é uma condição para que o povo efetiva- conhecer a vivência dos nossos alunos nos leva à to-
mente participe das lutas sociais. Libâneo (1994) mada de consciência sobre a realidade social, o que
considera que o fator mais importante é o confronto culmina na busca de conhecimentos científicos.

63
DIDÁTICA

Para Libâneo (1994, p. 71) o trabalho do pro- A prática social inicial consiste na identificação
fessor, entendido como uma atividade pedagógica, de como um determinado conhecimento se apre-
possui os seguintes objetivos: senta na sociedade atual, pois é comum a professo-
res e alunos, porém, vivenciados de forma diferente
- Assegurar aos alunos o domínio mais seguro por ambos. Professores possuem uma visão sinté-
e duradouro possível dos conhecimentos cien-
tica, mais sucinta, mesmo que precária. Já o aluno
tíficos; - Criar as condições e os meios para que
os alunos desenvolvam capacidades e habilida- possui uma visão sincrética, ou seja, mais global e
des intelectuais de modo que dominem méto- abrangente. Desta forma, o professor deve, por meio
dos de estudo e de trabalho intelectual visando da mediação e da teoria, levar o aluno da visão sinc-
a sua autonomia no processo de aprendizagem rética, do conhecimento mais global e fragmentado
e independência de pensamento; - Orientar as
ao conhecimento sintético, um conhecimento cien-
tarefas de ensino para objetivos educativos de
formação de personalidade, isto é, ajudar os tífico, mais elaborado (LIBÂNEO, 1994).
alunos a escolherem um caminho de vida, a Realizado o levantamento dos problemas pela
terem atitudes e convicções que norteiem suas prática social inicial, é chegado o momento de iden-
ações diante dos problemas e das situações da
tificar as questões que a escola trabalhará e proble-
vida real.
matizará, levando os alunos a discuti-las. Para isso,
Esses objetivos devem se ligar a outros, tendo em é preciso buscar instrumentos que permitam essa
vista que o processo de ensino consiste, ao mesmo discussão e a construção de conhecimento. É aí que
tempo, em um processo educativo. Também é im- entra a instrumentalização (LIBÂNEO, 1994).
portante ressaltar que o professor deve realizar um A instrumentalização consiste no momento em
conjunto de ações, coordenadas entre si, para alcan- que, por meio da mediação do professor, os alunos
çar efetivamente os objetivos do ensino, os quais se apropriarão do conhecimento historicamente
são: planejamento, a direção do processo de ensino acumulado, a partir dos quais se pode responder aos
e aprendizagem e a avaliação. Cada um desses, des- problemas que foram levantados e problematizados.
dobrados em tarefas ou funções didáticas, conver- À medida que o professor leva os alunos à apro-
gem para a realização do ensino propriamente dito priação dos conhecimentos científicos, atinge-se o
(LIBÂNEO, 1994). ponto maior do processo educativo, que é a catarse
Para Saviani (2014), nessa teoria o método pe- (LIBÂNEO, 1994).
dagógico possui como ponto de referência a prática A catarse é o momento em que o aluno elabora
social. Dessa forma, entendemos a educação como a síntese final, passando da visão sincrética para a
um processo de mediação dentro dessa prática so- visão sintética. Por meio da mediação do professor,
cial, que se constitui como o ponto de partida e de o aluno tem um salto qualitativo na aprendizagem,
chegada da educação. Ao sistematizar o método da chegando a uma visão mais elaborada do que a que
pedagogia histórico-crítica, Saviani (2014) divide possuía antes. A catarse, portanto, é a expressão final
o processo de ensino em cinco momentos: prática da síntese que o aluno foi capaz de produzir depois
social inicial; problematização; instrumentalização; do processo de ensino e de aprendizagem (MASHI-
catarse e prática social final. BA; SERCONEK; MENEZES, 2012).

64
EDUCAÇÃO FÍSICA

Chegamos, então, ao último momento do pro-


cesso de ensino e de aprendizagem: a prática social
final, em que ao mesmo tempo que o aluno atinge
o ponto sintético, volta ao ponto sincrético, em um
movimento dialético. A prática social se constitui
como o processo de partida e de chegada (LIBÂ-
NEO, 1994). Assim, o ponto de chegada volta a ser o
ponto de partida para o processo de apropriação de
novos conhecimentos, constantemente.
É pela mediação do trabalho pedagógico do
professor que, tendo incorporado elementos teó-
ricos e práticos no processo de ensino, se leva os
alunos a desenvolverem a prática social a partir da
sua nova realidade. Dessa forma, ao mesmo tempo
em que a prática social é o ponto de chegada, volta
a ser o ponto de partida, mas já não é o mesmo
ponto de partida, pois foram incorporados novos
conhecimentos.
Caro (a) aluno (a), podemos afirmar, neste con-
texto, que a mediação do professor, juntamente com
a utilização de instrumentos para o processo de en-
sino e de aprendizagem, levam os alunos a constan-
temente realizarem o movimento dialético. Diante
disso, cabe dedicar uma parte da nossa discussão à
mediação.

REFLITA

A tendência histórico-crítica é a tendência de


ensino utilizada atualmente, que possui como
seu precursor Dermeval Saviani. Dela, temos
a didática para a pedagogia histórico-crítica,
desenvolvida por João Luiz Gasparin.

65
DIDÁTICA

TENDÊNCIAS
PEDAGÓGICAS. Tendência Tecnicista - 1950

Tendência Tradicional - até 1900

Chegava a televisão no Brasil,


essa época também é conside-
rada “idade de ouro”

O Brasil dominava o
mercado do café

Tendência Escola Nova - 1930

Revolução de 1930 - movimento armado liderado por


Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul que culminou
no Golpe de Estado que depôs o presidente da república
Washington Luís

66
EDUCAÇÃO FÍSICA

Tendência Libertadora - 1960

Ditadura Militar no Brasil e primeiro transplante


de coração realizado no país

Tendência Histórico-crítica - 1983

O Brasil estava há 19 anos sob a Ditadura Militar e início


do funcionamento da usina hidroelétrica de Itaipú

67
DIDÁTICA

A MEDIAÇÃO NO PROCESSO DE ENSINO

vez que funciona como um estímulo para o processo


de aprendizagem. Nesse sentido, a mediação é compre-
endida a partir da relação dialógica entre professores e
alunos, relação esta que se estabelece constantemente
pela da utilização de diferentes métodos (BARROSO;
MENDONÇA; LOZANO; COSTA, 2014).
Moraes (2003, p. 2010) afirma que a mediação:

[...] é um processo comunicacional, conversa-


cional, de co-construção de significados, cujo
objetivo é abrir e facilitar o diálogo e desenvol-
ver a negociação significativa de processos e
conteúdos a serem trabalhados nos ambientes
educacionais; bem como incentivar a constru-
ção de um saber relacional, contextualizado,
gerado na interação professor/aluno.

Caro(a) aluno(a), a mediação poderá ser realizada


em qualquer idade e está presente em qualquer eta-
pa, nível ou modalidade de ensino, basta que haja
alunos e professor. Para o professor, o processo de
O termo mediação deriva do latim mediator oris, mediação se torna um desafio pois, quando o aluno
que significa mediador, medianeiro. Segundo o nos- possui uma dúvida, o professor precisa dar significa-
so dicionário, significa “ato ou efeito de mediar, in- do ao objeto estudado.
termediação” (FERREIRA, 2010, p. 495). A mediação acontece com o auxílio de signos, os
A mediação caracteriza-se como a relação que responsáveis pela relação entre o real e o pensamen-
se estabelece entre o homem, o mundo e os outros to. Os pensamentos, por sua vez, estão em constante
homens, neste contexto temos: I: instrumentos, S: elaboração e reelaboração entre as ideias e os concei-
sujeitos e O: objeto (BERNI, 2018). A mediação é tos, desta forma, no momento da mediação alguns
vista como eixo central neste processo, pois articu- elementos podem ser facilmente compreendidos e
lam-se os instrumentos, sujeitos e objetos, a fim de ilustrados, de modo que a elaboração e a reelabora-
que as Funções Psicológicas Superiores (FPS), que ção sejam cada vez mais significativas, contribuindo
são tipicamente humanas, se desenvolvam. para a formação de indivíduos pensantes e ativos na
Devemos considerar que a mediação se constitui sociedade (BARROSO; MENDONÇA; LOZANO;
como elemento essencial ao processo de ensino, uma COSTA, 2014).

68
EDUCAÇÃO FÍSICA

Ao trabalhar com a ideia de mediação, Vy- Visualizamos o conceito de mediação nas falas
gotsky ressalta que, ao ensinar, devemos levar em de Freire (2002):
consideração as especificidades de cada aluno,
pois cada um aprende de forma diferente. Levan- [...] ensinar não é transferir conteúdo a nin-
guém, assim como aprender não é memorizar
do em consideração que não há um padrão que
o perfil do conteúdo transferido no discurso
atinja de maneira igualitária todos os alunos, o vertical do professor. Ensinar e aprender têm
professor necessita adequar suas práticas a partir que ser com o esforço metodicamente crítico
da necessidade de cada um e mediar o processo do professor de desvelar a compreensão de
de ensino para que possa acontecer a aprendi- algo e com o empenho igualmente crítico do
aluno de ir entrando, como sujeito de apren-
zagem (BARROSO; MENDONÇA; LOZANO;
dizagem, no processo de desvelamento que o
COSTA, 2014). professor ou professora deve deflagrar (FREI-
O conceito de mediação é atrelado ao pen- RE, 2002, p. 134).
samento de uma ação realizada com a ajuda do
outro. Na escola, há a figura do professor, sujeito Quando imaginamos uma instituição que trabalha a
capacitado e que possui condições de realizar um partir do processo de mediação e interação, não es-
elo entre aquilo que o aluno traz consigo, o co- tamos pensando em uma escola em que cada um faz
nhecimento de senso comum, e o conhecimento aquilo que bem entende, mas falamos de um espaço
científico, historicamente acumulado pela huma- de valorização do ser humano e de suas ideias, de
nidade. Machado e Teruya (2009) compreendem construção de conhecimentos e de interação entre
a mediação pedagógica como a ação de intervir na os indivíduos, para que se sintam motivados a pen-
aprendizagem do sujeito. Essa ação é concretizada sar e trabalhar em conjunto.
pelo professor, por meio dos métodos, recursos e Vygotsky (1991) possui, como eixo central
procedimentos que conduzirão professores e alu- da sua psicologia, a interação social e a mediação
nos na prática educativa. como centro do processo educativo, de forma que
Podemos perceber a responsabilidade que o esses dois elementos, interação e mediação, estão
professor possui no ambiente escolar, uma vez que intimamente ligados no processo de desenvolvi-
o desenvolvimento dos alunos se dará por meio do mento do ser humano. Na escola, o professor é o
processo de aprendizagem que passa pela media- sujeito que irá exercer o papel de mediador entre
ção. Assim, o professor, observando e investigan- o conhecimento e o aluno, portanto a qualida-
do os conhecimentos que os alunos já possuem ao de da mediação é de suma importância, uma vez
chegar à escola, tem condições de intervir e orga- que ela motiva os alunos, ou não, no processo de
nizar estes conhecimentos, agregando-os aos co- aprendizagem.
nhecimentos científicos, levando o aluno a outro
patamar (BERNI, 2018).

69
DIDÁTICA

Masseto (2000) ressalta que a mediação consiste


em um comportamento, uma atitude do professor,
que se coloca como motivador ou incentivador da
aprendizagem do aluno. Ele se coloca como um elo
entre o conteúdo e o aluno, valorizando, dessa for-
ma, o debate, a interação, a troca de experiências,
valorizando o diálogo.
A prática docente que é mediadora possui mo-
vimentos de coordenação e descentralização, ao
mesmo tempo. Veiga (2004) ressalta que, nesse
contexto, o professor é o responsável por produzir
e orientar as atividades didáticas, que são de fun-
damental importância para o desenvolvimento dos
alunos, auxiliando no processo de assimilação e co-
ordenação do conhecimento ou problematizando e
estabelecendo diálogo.
As conquistas e os avanços dos alunos depen-
dem da qualidade da mediação do professor. Nes-
se sentido, organizar uma prática pedagógica com
um pressuposto teórico que a conduza, recursos
pedagógicos adequados à realidade dos alunos e
procedimentos que levem em consideração o desen-
volvimento cognitivo dos mesmos é conceber que
o educando está em constante processo de transfor-
mação, e que será por meio das interações que ele
será capaz de intervir e agir na sociedade, dando no-
vos significados à história da humanidade.

70
EDUCAÇÃO FÍSICA

71
DIDÁTICA

Conceituando a Didática

A Didática é um dos campos teórico-metodológicos Caro(a) aluno(a), a definição do dicionário é um


mais específicos da docência. Ter o domínio dos co- tanto tradicional, pois utiliza os termos transmissão
nhecimentos de uma área nos faz profissionais nesta de conhecimento, mas basta substituí-los por me-
área, no entanto, para que nos tornemos professores, diação que damos um novo significado à Didática,
é preciso que sejam adicionados os saberes pedagó- mais contemporâneo, levando em consideração a te-
gicos, os quais possuem eixo articulador na Didática oria atual que utilizamos em nossa ação pedagógica.
(VASCONCELLOS, 2011). A Didática, conforme definição, consiste no
Didática – ou Didactique, no francês – consiste na: processo de ensino, ou seja, é o conjunto de teoria,
métodos e recursos que possibilitam ao professor a
Arte de ensinar, de transmitir conhecimentos realização do processo de ensino dos conhecimentos
por meio do ensino. Conjunto de teorias e téc-
científicos historicamente acumulados. Nesse senti-
nicas relativas à transmissão do conhecimento.
Procedimento pelo qual o mundo da experiên- do, a didática investiga os fundamentos e as condições
cia e da cultura é transmitido pelo educador ao necessárias para essa atividade (LIBÂNEO, 1994).
educando, nas escolas ou em obras especializa- Podemos ter a Didática sob duas perspectivas:
das (AURÉLIO, 2018, p. 1). uma como um ramo dos estudos da pedagogia,

72
EDUCAÇÃO FÍSICA

como uma ciência, e será por meio dela que se reali- ra, tecnicista e histórico-crítica, por exemplo. Temos
zará a investigação dos fundamentos, das condições que ter responsabilidade com a prática pedagógica e
e os modos de realização do ensino. A essa didática educativa, pois esta resulta no processo de aprendi-
cabe converter os objetivos pedagógicos e sócio-po- zagem de nossos alunos.
líticos em objetivos de aprendizagem, além de sele- Comênio (2001, p. 173) enfatiza a utilização de
cionar métodos e recursos para o processo de ensino um método didático que estimule a todos os alunos,
destes objetivos, tendo em vista o desenvolvimento afirmando que “a alguns não falta à aptidão para os
intelectual dos alunos (LIBÂNEO, 1994). estudos, mas a vontade; e obrigá-los a estudar contra
A segunda perspectiva é como uma disciplina a vontade é, ao mesmo tempo, enfadonho e inútil.
dos cursos de formação de professores, a qual faz [...] E se se demonstrar que a causa do desgosto pelo
uma integração entre a teoria e a prática, realizando estudo são os próprios professores?”.
uma estruturação destas em função do ensino. Para Dessa forma, ao professor cabe preparar os alu-
Libâneo (1994), a formação de professores abrange nos, saber atrair a sua atenção, pois da mesma forma
duas dimensões, sendo elas: a formação teórico- que o ferreiro aquece o ferro para depois moldá-lo, ou
-científica e a formação técnico-prática. como o sapateiro costura os sapatos, dá forma e poli-
A formação teórico-científica inclui a formação mento ao couro, o professor também precisa, antes de
específica das disciplinas em que o professor irá es- iniciar o processo de ensino dos conteúdos historica-
pecializar-se, assim como a formação pedagógica, mente acumulados, preparar os seus alunos, tornan-
que envolve os conhecimentos das disciplinas de So- do-os ávidos pelo conhecimento (COMÊNIO, 2001).
ciologia, História da Educação e Filosofia, que con- Os professores, por conta de suas formações, até
tribuem para entendimento dos fenômenos educati- possuem um discurso pedagógico próximo ao ideal,
vos no contexto histórico-social (LIBÂNEO, 1994). no entanto, em suas práticas, não conseguem se li-
A formação técnico-prática destina-se à prepa- vrar das diretrizes tradicionais que estão enraizadas,
ração para a docência, inclui-se, nas disciplinas es- devido à forma como fomos ensinados. A dificulda-
tudadas, a Didática e as disciplinas de metodologias de que enfrentamos enquanto professores é ensinar
específicas para cada curso de formação de professo- da forma que não fomos ensinados.
res, a Psicologia da Educação e a Pesquisa Educacio- A melhoria da qualidade do ensino se dará a partir
nal (LIBÂNEO, 1994). da prática pedagógica do professor. O professor deverá
Caro(a) aluno(a), temos certeza de que a me- conhecer a teoria que sustenta a sua prática, pois so-
todologia empregada nas escolas contribui de for- mente assim poderá transformar o processo de ensino
ma significativa para o fracasso ou o sucesso do e de aprendizagem em um momento significativo, pro-
processo de ensino e de aprendizagem. Assim, não movendo uma educação transformadora que supere as
podemos concordar com práticas pedagógicas que dificuldades educacionais e sociais dos alunos.
são fundamentadas no senso comum nem com pro- Nesse sentido, caro(a) aluno(a), um professor
fessores que, por desconhecer ou não valorizar as que deseja realizar um trabalho coerente e consis-
teorias para no processo didático, utilizam-nas de tente utilizará métodos e recursos necessários para
forma eclética, misturando as tendências libertado- realização desse processo, além do conhecimento

73
DIDÁTICA

teórico. Para além disso, é preciso ter conhecimento não formal, busca-se propiciar aprendizagens em
das tendências pedagógicas, ou seja, da teoria que espaços educativos fora do contexto escolar, nos
embasa o fazer pedagógico em sala de aula. quais existam processos interativos e intencionais
(NEVES, 2011).
A DIDÁTICA NOS AMBIENTES NÃO FOR- Em contrapartida, a educação formal é aquela
MAIS DE APRENDIZAGEM ofertada dentro dos ambientes escolares que são re-
gulamentados por lei, com intencionalidade, conte-
údo previamente selecionado pelo currículo escolar,
em que o professor é o mediador do processo de en-
sino e de aprendizagem. Esses ambientes possuem
regras e modelos comportamentais pré-definidos.

A Educação Formal acontece dentro da escola e


necessita de um currículo estruturado cronoló-
gica e hierarquicamente para organizar os con-
teúdos. A Educação Não Formal dispensa essas
características, no entanto possui o intuito de
proporcionar a aprendizagem de certos conteú-
Os estudos de Didática são geralmente aplicados à dos em espaços fora da escola. Por esse motivo,
possui potencialidades em auxiliar a Educação
formação de docentes, aqueles que serão licenciados
Formal, uma vez que através de atividades pre-
e atuarão em sala de aula. No entanto, o processo viamente organizadas apresenta intenção de
de ensino e de aprendizagem tem ultrapassado os li- educar (BATISTA, 2014, p. 25).
mites dos muros escolares, tornando-se necessário,
dessa forma, o estudo da Didática nos ambientes O papel da didática dentro dos ambientes formais
não formais de aprendizagem. está sendo construído no decorrer desse estudo, no
Entendemos por ambientes não formais de apren- entanto, cabe-nos também nos debruçarmos no es-
dizagem aqueles espaços em que há a intencionalida- tudo do papel da didática dentro dos ambientes não
de do ensino, mas que se localizam fora da escola. formais de aprendizagem.
Exemplos: museus, parques ecológicos, institutos de
pesquisa, aquários, zoológicos, presídio, empresas Figura 4 - Organização dos espaços formais e não
(educação empresarial), academia de ginástica, hos- formais de aprendizagem
pitais e Organizações Não Governamentais (ONG).
Todos esses espaços possuem profissionais ca-
pacitados em sua área específica e atuam no pro-
cesso de ensino, planejando, orientando equipes,
trabalhando em equipes, orientando pessoas, co-
ordenando ações, com objetivos pedagógicos ex-
plícitos e sistematizados. Por meio da educação Fonte: Elaborado pela autora (2018).

74
EDUCAÇÃO FÍSICA

Ao propor atividades em ambientes não formais, o zagem, possibilitando aos alunos múltiplas possibi-
profissional permite que os alunos construam senso lidades de atuação (MORIN, 2001).
crítico, relacionando ideias do senso comum com os Para que isso ocorra de forma satisfatória, o pro-
conhecimentos científicos. Será por meio de estraté- fissional deverá dispor de métodos, recursos e proce-
gias que o profissional levará seus alunos a ampliar dimentos que promovam os processos de aprendiza-
os conhecimentos de forma crítica e livre, criando gem dos alunos mesmo nos ambientes não formais
situações colaborativas que são favoráveis à aprendi- de aprendizagem, ou seja, deverá utilizar a Didática.

Quadro 3: Comparativo entre educação formal e educação não-formal

Educação formal Educação não-formal


Quem educa? Professores. Educadores.
Museus, Centros de ciência, Hospitais,
Onde se educa? Escolas, Universidades.
Academias, Parques ecológicos, Empresas.
Por meio de situações intencionalmente
Como se educa? Por meio de currículo.
educativas sem um currículo definido.
Quais são as principais Organização curricular, dividido por Auxilia na construção de conhecimento de
características? idade ou nível de conhecimento. forma individual ou coletiva.
Ensino de conteúdos, Desenvolvimen- Corresponde aos objetivos de um indiví-
Quais objetivos?
to de habilidades e competências. duo ou de um conteúdo em específico.
Fonte: Adaptado de Batista (2014).

As pesquisas no campo da Didática nos ambien- que os profissionais organizem os espaços não for-
tes não formais entendem que há algumas especi- mais a fim de que se maximize a exploração do alu-
ficidades que devem ser levadas em consideração no, pois apesar da intenção didática, os conteúdos
nos processos formativos, como a interação, o são abordados de formas pontuais, ou seja, não há
tempo e o espaço, que diferem de forma signifi- a intenção de contemplar todos os conhecimentos e
cativa dos ambientes formais (BATISTA, 2014). A conteúdos curriculares presentes no contexto edu-
questão do tempo é bastante ressaltada nos am- cacional (BATISTA, 2014).
bientes não formais, tendo em vista que é muito O estudo da Didática é muito importante para a
breve se compararmos ao dos ambientes formais formação dos profissionais que também atuarão nos
de aprendizagem. ambientes não formais, pois ele estará contribuin-
Além do tempo as relações entre os sujeitos do de forma intencional para o desenvolvimento de
também diferem, pois são pontuais e direcionadas à pessoas, necessitando se preparar pedagogicamente
necessidade do aluno. Nesse contexto, é importante para as atividades e planejamento das mesmas.

75
considerações finais

A
presentamos, nesta segunda unidade, os conteúdos que são pertinen-
tes às tendências pedagógicas desde o final do século XIX até os dias
atuais. Ousado, não? No entanto, não tivemos a intenção de esgotar
esse assunto, mas sim trazer a você, caro(a) aluno(a), as principais ca-
racterísticas de cada uma destas, a fim de que, com essa compreensão, você che-
gue à construção histórica da educação no Brasil, principalmente com relação à
Didática.
Compreender essas tendências é essencial, uma vez que elas fazem parte do
contexto histórico ainda na atualidade, nas legislações, nas práticas pedagógicas
e nos cadernos pedagógicos, por exemplo. Assim, compreender cada um destes
nos dá condições, enquanto professores, de tecer críticas e escolher qual a teoria
adequada para o trabalho pedagógico, levando em consideração a perspectiva
teórica de cada instituição de ensino na qual você vai trabalhar.
Nossas discussões também avançaram para o estudo do que é mediação e
da sua importância no processo de ensino e de aprendizagem, considerando o
conceito de Didática. Levando em consideração que você, aluno(a), irá pôr em
prática a sua atividade pedagógica em uma instituição de ensino contemporânea,
falar de mediação é essencial, pois o processo de mediação permeia todo o fazer
pedagógico na atualidade (como veremos nos métodos de ensino na Unidade
III), assim como é fundamental conhecer o conceito de Didática, nosso objeto de
estudo em toda a disciplina.
Tendo em vista que o processo de ensino e de aprendizagem extrapola os
limites da escola, encerramos o nosso estudo falando da docência nos ambientes
não formais. Tratar desse assunto em um estudo sobre Didática pode parecer um
tanto peculiar, no entanto é essencial, uma vez que a Didática deve ser utilizada
no processo de mediação, planejamento, organização e coordenação de ativida-
des intencionais mesmo fora das escolas, como é o caso de museus, academias,
empresas, hospitais e presídios, onde você pode trabalhar futuramente.

76
atividades de estudo

1. Algumas tendências pedagógicas, apesar de se- c) A Didática consiste nos materiais para o
rem vencidas por outras, podem permanecer ensino.
como teoria que sustenta a prática pedagógica d) A Didática é uma disciplina de estudo da
de muitos professores ou escolas, como é o caso Educação Básica.
das teorias de Montessori e Piaget. Partindo da
e) A Didática é uma técnica de ensino.
discussão que realizamos sobre as tendências
pedagógicas e sua importância para a Didática, 3. O estudo das tendências pedagógicas é indis-
leia as alternativas e assinale a correta: pensável, tendo em vista que é a partir da com-
a) O professor poderá optar por utilizar a preensão das dimensões políticas e educacionais
tendência pedagógica que desejar para o que o professor entenderá a proposta metodo-
processo de ensino de seus alunos, mes- lógica adotada pela instituição de ensino em que
mo não sendo a tendência adotada pela atua. Diante disso, com relação às características
escola. de cada tendência, analise as assertivas e assina-
b) É coerente e comum que uma escola adote le V para verdadeiras e F para falsas.
duas ou mais tendências pedagógicas para I - As tendências pedagógicas são classifica-
o processo de ensino, mesmo que estas se das em dois grupos de acordo com Libâ-
oponham. neo (1996), sendo: 1) tendência liberal; 2)
c) O professor deverá seguir a tendência pe- tendência progressista.
dagógica adotada pela escola em que tra- II - No grupo das tendências progressista são
balha, mesmo que essa tendência não seja descritas as tendências renovada progres-
sua opção pessoal. sista, tradicional e a tendência histórico-
d) As tendências pedagógicas tiveram prazo -crítica.
de vigência, ou seja, acabado o prazo, ou- III - No grupo das tendências liberais são des-
tra tendência imediatamente a substituiu. critas as tendências tradicional, renovada
e) A escolha das tendências pedagógicas em progressista, a escola nova e a pedagogia
cada período histórico aconteceu de forma tecnicista.
harmoniosa entre todos: professores, pes- IV -A tendência histórico-crítica possui o pro-
quisadores, escola e governo. fessor como mediador do conhecimento
e o aluno é participante do processo de
2. A Didática é a arte de ensinar, de transmitir co-
construção do conhecimento.
nhecimento por meio do processo de ensino. É o
conjunto das teorias e técnicas que são relativas As afirmações I, II, III e IV são, respectivamente:
à transmissão do conhecimento (AURÉLIO, 2018, a) V, F, V, F.
p. 1). Partindo desse conceito, leia as alternativas
b) F, V, V, V.
e assinale a correta:
a) A Didática pode ser vista como uma ciência. c) V, F, V, V.

b) A Didática se refere ao processo de d) V, V, F, V.


aprendizagem. e) F, F, V, V.

77
atividades de estudo

4. Ambientes não formais de educação são aqueles III - A tendência histórico-crítica possui como
espaços em que há ensino intencional fora do centro do processo educativo o professor,
ambiente escolar. Leia as afirmativas e assinale que é o detentor de todo o conhecimento
a que representa ambientes não formais em que historicamente acumulado. O aluno pos-
há a intencionalidade do ensino. sui, nesse processo, papel de compreen-
der o conteúdo e reproduzi-lo tal qual foi
a) Parquinhos.
ensinado.
b) Shoppings.
IV -A tendência libertadora foi desenvolvida
c) Casa dos avós. com as contribuições de Paulo Freire, com
a visão de que o homem é sujeito da histó-
d) Em casa.
ria e não o seu objeto. Nessa perspectiva,
e) Museus. o professor respeita o ritmo de aprendi-
zagem dos alunos, assim como os seus
5. De acordo com Libâneo (1996) as tendências pe-
limites.
dagógicas são classificadas em dois grupos, sen-
do estes: 1) tendências liberais e as 2) tendências Está correto o que se afirma em:
progressistas. No grupo das tendências liberais a) I, II e III, apenas.
destacamos a tendência tradicional, a tendência
b) I, III e IV, apenas.
renovada progressista, a escola nova e a tendên-
cia tecnicista. No grupo das tendências progres- c) I, II e IV, apenas.
sistas destacamos a tendência libertadora e a d) II, III e IV, apenas.
tendência histórico-crítica. Diante disso, conside-
e) l, ll, lll e lV.
rando as características dessas tendências peda-
gógicas, analise as afirmativas:
I - A nova escola trouxe mais pontos negati-
vos do que positivos para o ensino, tendo
em vista que nesse modelo pedagógico o
interesse do aprendizado deve partir do
aluno, ou seja, o aprendizado deve ser es-
pontâneo.
II - Na tendência pedagógica tecnicista o
foco da educação era a técnica, não mais
o professor nem o aluno. Dessa forma,
eram priorizados os métodos, os procedi-
mentos, o treino era indispensável, assim
como a retenção dos conteúdos, a ênfase
era na repetição.

78
LEITURA
COMPLEMENTAR

UMA DIDÁTICA PARA A PEDAGOGIA HISTÓRICO-


CRÍTICA: JOÃO LUIZ GASPARIN
Autora: Camila Tecla Mortean Mendonça

João Luiz Gasparin, pesquisador e professor da Universi-


1º. Na prática social inicial o professor irá verificar qual o
dade Estadual de Maringá – UEM, realizou seus estudos
desenvolvimento atual dos seus alunos. Esse passo pos-
sobre a Pedagogia Histórico-Crítica partindo das teorias
sui como ponto de partida o conhecimento prévio dos
de seu orientador, Saviani (2014). Gasparin (2018) desen-
educandos. Em suma, é o que os alunos já sabem sobre
volveu uma didática para a Pedagogia Histórico-Crítica.
um assunto ou conteúdo que será trabalhado cientifica-
Ao sistematizar o método da Pedagogia Histórico-Críti-
mente. Este, então, será o ponto de partida do professor
ca, Saviani (2014) divide o processo de ensino em cin-
para o trabalho pedagógico em sala de aula.
co momentos: prática social inicial; problematização;
2º. A problematização consiste no momento em que os
instrumentalização; catarse; e prática social final. Para
conhecimentos que foram levantados pelos alunos na
Gasparin (2014), esses cinco passos, que dão base para
prática social inicial serão explicados e relacionados aos
a Pedagogia Histórico-Crítica, exigem do professor uma
conteúdos que serão trabalhados pelo professor, explici-
nova postura diante dos conteúdos, pois estes devem
tando, assim, a necessidade de se aprender determinado
ser abordados de maneira contextualizada e levando em
conteúdo escolar. Neste momento, o professor também
consideração as diversas áreas do conhecimento, con-
deve problematizar os conhecimentos, levando em con-
sequência da história que é produzida pela humanidade
sideração as dimensões científica, conceitual, cultural,
nas suas relações sociais e de trabalho.
histórica, social, política, ética e econômica, por exemplo.
A didática pensada por Gasparin (2014) possui como
3º. A instrumentalização se traduz no trabalho que será
objetivo o equilíbrio entre a teoria e a prática, de forma
realizado pelo professor e pelos alunos no processo de
que envolva os alunos no seu processo de ensino e de
ensino e de aprendizagem. Nesse momento, professor e
aprendizagem e que este seja significativo tanto nos as-
alunos deverão dispor de recursos pedagógicos, meto-
pectos científicos quanto políticos, alcançando, por fim,
dologias e procedimentos que propiciarão um momento
a formação de pessoas participativas e críticas em uma
de aprendizagem, levando em consideração as dimen-
sociedade democrática.
sões que foram citadas na problematização.
Gasparin (2014) estruturou sua didática nos seguintes
4º. A catarse é a expressão que os alunos utilizarão para
passos: prática social inicial; problematização; instru-
dizer que entendem a teoria e a prática social de uma
mentalização; catarse; e prática social final, os quais ve-
nova forma. Nesse momento, o aluno é capaz de manifes-
remos mais detalhadamente a seguir:
tar, por meio de sua postura, a síntese mental do conteú-

79
LEITURA
COMPLEMENTAR

do que foi aprendido. A síntese poderá ser realizada por de pensar a educação, sendo necessário estudo, expe-
meio de uma avaliação oral ou escrita, formal ou informal. rimentação e coragem para arriscar e assumir novos
5º. Por fim, a prática social final é o novo nível em que desafios.
o aluno se encontra, que volta a ser o nível atual. Essa
prática social se manifesta por meio da adoção de
REFERÊNCIAS
uma nova postura prática frente às questões sociais,
ou seja, fora da sala de aula, dos conceitos científicos SAVIANI, D. A pedagogia histórico-crítica. Revista RBBA:
trabalhados. Vitória da Conquista. v. 3, n. 2, p. 11-36, dez. 2014.
Para Gasparin (2014), a aplicabilidade dessa didática e GASPARIN, J. L.; PETENUCCI, M. C. Pedagogia Histórico-
o seu êxito dependem da figura do professor, do seu -Crítica: da teoria à prática no contexto escolar. 2018. Dis-
compromisso e de seus conhecimentos teóricos, ten- ponível em: <[Link]
do em vista que se exige do professor uma nova forma tals/pde/arquivos/[Link]>. Acesso em: 21 mar. 2019.

80
material complementar

Indicação para Ler

Panorâmica das Tendências e Práticas Pedagógicas


Geraldo Francisco Filho.
Editora: Alínea.
Sinopse: a elaboração desse texto, inicialmente, prendeu-se à necessidade de se
utilizar, em sala de aula, um livro que versasse sobre as diversas tendências e
práticas da educação, que fizesse uso de uma linguagem fácil, descomplicada, que
englobasse ideias pedagógicas de diferentes épocas e de autores consagrados,
com uma visão holística, sem perder o senso crítico. O livro enfoca as principais
epistemologias (teorias do conhecimento), com suas tendências e práticas peda-
gógicas, desde a Idade Moderna da Europa Ocidental (séculos XV ao XVIII), com o
objetivo de fornecer bases iniciais, ajudando a levar o leitor à reflexão sobre as
diversas tendências pedagógicas e, em última instância, de contribuir para a po-
pularização do conhecimento, como pensava o filósofo Antonio Gramsci, no início
do século XX.

Indicação para Assistir

Escola da vida
Ano: 2005.
Sinopse: Sr. D. (Ryan Reynolds) é o novo professor da cidade. Ele é bonito, sim-
pático e adorado por todos os alunos da Escola Fallbrook Middle. Ele também
faz sucesso com os colegas mestres, com exceção de Matt Warner (David Pay-
mer), o professor de biologia do colégio. Werner está determinado a ganhar o
Prêmio de Professor do Ano, mas teme perder sua chance para o novo e admi-
rado educador.

81
referências

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82
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aprendizagem. Disponível em: <[Link]
br/lec/01_00/DelcioL&[Link]>. Acesso em: 20
mar. 2019.

83
gabarito

1. Opção correta é a C.
2. Opção correta é a A.
3. Opção correta é a C.
4. Opção correta é a E.
5. Opção correta é a C.

84
UNIDADE
III
PLANEJAMENTO DE ENSINO

Professor Dra. Suzi Maria Nunes Cordeiro

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• Caminhos do planejamento escolar
• Pesquisa docente
• Plano de aula

Objetivos de Aprendizagem
• Conhecer os documentos da Educação no âmbito nacional,
estadual e institucional que implicam no planejamento
escolar, a fim de compreender como é pensado o currículo
escolar que embasa o plano de aula.
• Refletir sobre a pesquisa docente, para conhecer a
relevância dessa ação no plano de aula.
• Analisar os elementos essenciais do plano de aula, bem
como compreender a relevância desse registro, a fim de
desenvolver as habilidades necessárias para realizá-lo.
unidade

III
INTRODUÇÃO

O
lá, seja bem-vindo(a)! Nesta unidade, apresentamos como se
constituem os planejamentos em ambientes formais (escola)
e não formais de aprendizagem. Para tanto, precisamos co-
nhecer os documentos da Educação de âmbito nacional, mu-
nicipal e institucional que implicam no planejamento escolar, a fim de
compreendermos como é pensado seu currículo e o que embasa o plano
de aula. Dessa forma, pretendemos proporcionar uma visão linear dos
encaminhamentos pedagógicos dentro da escola.
Também abordamos a pesquisa docente, bem como a dos profissio-
nais que atuam nos ambientes não formais, para que você, caro(a) alu-
no(a), possa refletir e compreender a relevância dessa dedicação para
um plano de aula e para diversas execuções de trabalho de forma satis-
fatória e eficaz. Sendo assim, é importante que vocês, enquanto futuros
profissionais, saibam o que é pesquisa, como pesquisar e porque ela se
faz necessária.
Por fim, veremos que todas essas ações são indispensáveis para o re-
gistro do plano de aula docente; ele norteará todas as ações pedagógicas,
sobretudo do professor em sala, para facilitar a mediação dos conheci-
mentos e promover o ensino e a aprendizagem de qualidade. Veremos
também que os planos de ação nos campos de atuação não formal depen-
dem de planejamentos que os antecedem. Para tanto, é preciso desenvol-
ver as habilidades requisitadas na elaboração do plano de aula, por isso
proporcionamos a análise dos elementos essenciais desse instrumento.
Com essa unidade, esperamos que você, caro(a) aluno(a), compreen-
da a importância das ações pedagógicas que se iniciam, em âmbito nacio-
nal, por meio do Estado, mas que somente se efetivam pela prática docen-
te. Por isso é tão importante que cada professor dê valor ao plano de aula,
à pesquisa e à organização, a fim de estabelecer boas metas e estratégias
para alcançar o ensino de excelência e a aprendizagem de qualidade para
todos os alunos.
DIDÁTICA

Caminhos do
Planejamento Escolar
Prezado(a) aluno(a), ao longo das unidades ante- O que gostaríamos de salientar, portanto, é que
riores, enfatizamos aspectos relacionados à Didáti- o planejamento faz parte de uma boa didática, que
ca, desde os períodos mais remotos da educação até por sua vez se expressa na elaboração de um plano
a contemporaneidade. Tudo que foi exposto sobre de aula, na execução do mesmo e na avaliação ho-
essa temática foi planejado por aqueles que hoje es- nesta que o docente faz de seu aluno e de sua aula; o
tudamos, como Comênio (2001), que para desen- mesmo ocorre com os demais profissionais e seu pú-
volver a Didática Magna planejou desde as ações blico, visto que o ensino ocorre em diversos espaços;
pedagógicas mais simples até as palavras certas para todo ensino, incluindo o que ocorre em ambientes
expressar e exemplificar de forma escrita o que pen- não formais, necessita de planejamento. Isso signi-
sava ser melhor para a educação de seu tempo. fica que não existe um bom profissional sem uma

90
EDUCAÇÃO FÍSICA

boa didática e não existe didática sem planejamento. cador no seu cotidiano pedagógico. Essa ação precisa
Por isso, o que veremos ao longo desse capítulo são de uma “atitude crítica por parte do educador diante
considerações teóricas pautadas em boas didáticas. de seu trabalho docente” e não é uma fórmula pronta
Nesse início de discussão, gostaria de lhe fazer e acabada, pelo contrário, precisa ser flexível a ponto
duas perguntas para que reflita com base em sua de permitir que o profissional repense constantemen-
vida cotidiana: a) o que você entende por planeja- te sua prática pedagógica (OSTETTO, 2000, p. 177).
mento? b) Você costuma planejar? Às vezes não nos Diante do exposto, podemos passar para a segun-
damos conta de todas as ações planejadas que reali- da questão: Você costuma planejar? Caso a respos-
zamos, desde atividades simples como nossa rotina ta seja não, permita-me fazer um convite. Comece
diária, até eventos grandes como viagens. O intuito hoje a planejar uma ação cotidiana, como exemplo,
dessa perguntas é te fazer notar a importância que o o estudo da nossa disciplina. Monte um plano que o
planejamento possui em nossas vidas. ajude a organizar os conteúdos, os materiais e o tem-
Para Ostetto (2000, p. 177) planejar é estabele- po necessário para seus estudos. Assim, poderá ini-
cer metas, “[...] se programar, elaborar um roteiro ciar a vivência dessa ação e, com a prática constante
para empreender uma viagem de conhecimento, de da mesma, desenvolverá as habilidades necessárias
interação, de experiências múltiplas e significativas”. para um bom planejamento. Quando for um profis-
Dessa forma, pessoas que planejam tendem a se de- sional da educação já terá o costume de planejar, o
parar menos com empecilhos. Vejamos: entre uma que é extremamente necessário na docência, como
pessoa que planeja seu dia e outra que prefere fazer veremos ao longo desta unidade.
suas atividades sem planejamento, quem aproveita Segundo Vasconcellos (2000), planejar é buscar
mais o tempo? Entre uma família que planeja suas uma organização. Contudo, para que haja planeja-
despesas mensais e outra que prefere gastar sem pre- mento, precisamos saber o que buscamos. Ninguém
ocupações, qual tende a chegar ao fim do mês com planeja uma viagem sem saber seu destino. Dessa for-
as finanças no vermelho? Entre um grupo que pla- ma, para saber o caminho a ser trilhado devemos sa-
neja sua viagem e outro que não o faz, qual possui ber o ponto de chegada. Em palavras simples, caro(a)
mais chances de conhecer mais lugares em tempo aluno(a), planejamento é o caminho que construímos
hábil e com menos gastos? Assim, o planejamento para chegar ao nosso objetivo, por isso, tanto o cami-
se faz necessário em todas as nossas atitudes, seja no nho quanto o objetivo devem ser bem definidos.
contexto pessoal, profissional e/ou acadêmico.
Voltemos à primeira pergunta. Planejamento é
uma antecipação mental sobre as práticas a serem re-
alizadas, não apenas por se tratar de uma tarefa que
se faz antes de agir, mas também por ser uma ativida-
de que norteia nossas condutas (VASCONCELLOS,
2000). Se tratando de planejamento escolar, conside-
ramos que é um processo de reflexão sobre as atitudes
docentes e envolve todas as ações e situações do edu-

91
DIDÁTICA

Em parágrafos anteriores mencionei que uma boa A educação para o povo, com ensinamentos cole-
didática só é possível com planejamento. Ambos se tivos, foi apenas uma das reivindicações de João
fazem presentes nas atitudes de filósofos, educadores Amós Comênio. Também é a partir de sua referi-
e outros que assumiram o papel de ensinar, seja em da obra que podemos falar em Didática, sendo um
ambientes formais ou não formais de educação. Isso marco no que se refere à educação institucionali-
mostra que planejamento escolar não é algo recen- zada, como ele sugeriu (COMÊNIO, 2001). Apesar
te, oriundo de uma tendência nova, porém, a pala- de já existirem Academias (hoje conhecidas como
vra que denomina essa organização nasceu apenas Universidades, ou seja, instituições que ofertam
no século XIX. Essa prática existe desde o início da ensino em nível superior) que pluralizavam a edu-
educação institucionalizada, ainda que não com a de- cação “superior” para jovens e adultos em grupos,
nominação de planejamento. Antes de explanarmos bem como as escolas catedrais do século XII que
sobre o planejamento que conhecemos atualmente, repassavam os conhecimentos das sete artes libe-
precisamos de uma retomada histórica para compre- rais (gramática, retórica, dialética, geometria, arit-
ender como foi a caminhada desde sua origem. mética, astronomia e música) para turmas de alu-
Na Idade Média, a educação era restrita a quem nos, não podemos afirmar que havia planejamento,
detinha o poder e ocorria apenas em mosteiros, rei- o que seria anacrônico. Contudo, sabemos que as
nos e lugares pertencentes ao clero e à nobreza. Des- artes supracitadas compunham um currículo, logo,
tinada apenas a homens ricos, sendo executada em os professores precisavam organizar-se para repas-
atendimentos individuais, a educação da Idade Média sar os conhecimentos para todos os alunos. Aqui
foi alvo de grandes críticas de Comênio (2001), que, nos deparamos com aspectos que hoje conhecemos
como observamos em capítulos anteriores, se propôs como planejamento.
a mudar a educação por meio da Didática Magna. Em sua obra, Comênio (2001) rebate o ensino
individualizado e restrito com o argumento de que
SAIBA MAIS se deveria objetivar o compartilhamento dos conhe-
cimentos, sobretudo de leitura e escrita, para grupos
Ficou curioso sobre a educação da Idade Mé- de alunos. Também enfatiza a necessidade de orga-
dia? Assista ao filme “O nome da rosa”, direção nizar esses conteúdos, uma vez que muitas matérias
de Jean-Jacques Annaud, lançado em 1986. Ele eram ensinadas ao mesmo tempo e de forma desor-
mostra como o saber era repassado e qual a
importância de ter domínio da leitura e da es- denada. Para tanto, sugeriu propostas que incluem a
crita, que eram consideradas armas poderosas organização de conteúdos e outros aspectos da edu-
em um tempo em que apenas clero e poucos cação escolar institucionalizada:
nobres detinham o poder das palavras.
Veja a ficha técnica completa do filme ao final
deste capítulo.
Fonte: a autoral.

92
EDUCAÇÃO FÍSICA

Na escola reina a confusão, pelo fato de se nificativos para os objetivos da nossa disciplina, mas
querer meter na cabeça dos alunos muitas você pode aprofundar seus conhecimentos por meio
coisas ao mesmo tempo. Por exemplo: gramá-
das leituras complementares. Algumas sugestões
tica latina e gramática grega, retórica e talvez
ainda poética [...] abstenhamo-nos de querer estão no final deste capítulo, bem como indicações
ensinar a dialética a quem estuda gramática; de filmes que ajudam a compreender o contexto em
e, enquanto a dialética afina a mente, que esta discussão.
não seja perturbada pela retórica [...] para não
cairmos, de uma maneira ou de outra, em em-
baraços, pois, quem pensa em muitas coisas ao
mesmo tempo arrisca-se a não compreender
seriamente nenhuma delas (COMÊNIO, 2001,
p. 217-218).

A partir da obra supracitada podemos discutir so-


bre planejamento, visto que, ainda sem mencionar
essa palavra, ela propõe uma nova organização do
ensino. Ao longo dos anos vemos outros modelos de
educação, agora institucionalizada, que avançaram
em termos de organização.
Aqui no Brasil, por exemplo, a educação insti-
tucional iniciou-se com a escola jesuíta, que tinha
como plano de estudo o Ratio Studiorum, que vi- Figura 1 - A Primeira Missa no Brasil, quadro de Victor Meirelles
mos em capítulos anteriores. Esse manual apresen- Fonte: Wikimedia.

tava em seu interior métodos de ensino, orientações


para organização do professor em sala de aula e o Adiante, salientamos a educação escolar no Brasil
currículo, a saber: Teológico (Teologia Escolástica, após as escolas jesuítas, a fim de traçar os caminhos
Teologia Moral, Sagrada Escritura e Hebreu), Filo- até a consolidação do planejamento na escola e em
sófico (Lógica e introdução às ciências, Cosmolo- ambientes não formais de aprendizagem. Confor-
gia, Psicologia, Física, Metafísica e Filosofia moral) me observado em parágrafos anteriores, a Com-
e Humanista (Retórica, Humanidades, Gramática panhia de Jesus já seguia um manual para educa-
Superior, Gramática Média e Gramática Inferior) ção escolar, que segundo Franca (1952) continha
(FRANCA, 1952). Mais tarde, essa estrutura curri- um currículo pré-estabelecido, as ações docentes
cular passou a ser utilizada, também, nas Universi- e discentes esperadas e orientadas, dentre outros
dades europeias. aspectos similares ao que conhecemos hoje, como
Caro(a) aluno(a), perceba que a história da os documentos referentes aos currículos, metas e
Didática e das formas de organização do ensino é projetos da educação escolar. Esse complexo de or-
extensa, mas precisa ser compreendida. Aqui prio- ganização pode ser entendido, atualmente, como
rizamos alguns recortes históricos que são mais sig- um planejamento.

93
DIDÁTICA

As escolas tradicionais que surgiram no Brasil


após as escolas jesuítas também seguiam um plane-
jamento, ainda que não se mencionasse essa palavra.
Era um modelo rígido, engessado, em que o profes-
sor selecionava os conteúdos e transmitia o conhe-
cimento pronto e acabado, como uma verdade abso-
luta, seguindo as exigências sociais da época, a fim
de formar o cidadão moral e cívico ideal para sua
sociedade. Essa educação permaneceu elitizada até
meados do século XIX, quando as escolas públicas
para atender classes populares foram inauguradas
(SOUZA, 2006).
Chegamos ao marco histórico em que a palavra
planejamento finalmente surgiu. Segundo Saviani
(2010, p. 382), o termo originou-se em meio a Re-
volução Industrial no século XIX. Começamos a ver
nitidamente a influência da sociedade, sobretudo do
mercado de trabalho, na educação escolar. Nesse ín-
terim, as escolas começaram a incorporar o termo.
Na época, ainda com tendências pedagógicas mais
tradicionais, os planejamentos escolares eram de in-
teira responsabilidade do docente, pois “[...] a ini-
ciativa cabia ao professor, que era, ao mesmo tempo,
o sujeito do processo, o elemento decisivo e decisó-
rio [...]”. A partir de então, iniciou-se o desenvolvi-
mento da ação de planejar dentro dos ambientes de
aprendizagem.
Figura 2 - Industrialização: Linha de montagem de Ford (1913)
Posteriormente, as tendências pedagógicas con- Fonte: Wikimedia.
tinuaram a utilizar o planejamento em suas ações.
Na escola nova, já no século XX, por exemplo, essa Na tendência tecnicista o planejamento do professor
ação ocorria em conjunto, ou seja, professor e alu- se embasava no estímulo/resposta necessários para
nos discutiam os conteúdos a serem estudados e, a atingir o desempenho esperado do aluno. De acordo
partir de então, eram estabelecidos os procedimen- com Arruda (2015, p. 243):
tos de ensino (BEHRENS, 2009).

94
EDUCAÇÃO FÍSICA

Na década de 1970, em São Paulo, a forma de SAIBA MAIS


desenvolver o planejamento sofreu influências
tecnicistas – produtividade, eficiência e eficácia
do ensino. Foi também nessa década que se deu As instituições de ensino estão inseridas em
a aprovação da Lei n. 5.692, que forneceu as pri- sociedades que, a cada tempo, possuem de-
meiras diretrizes e bases dos Ensinos Primário mandas diferenciadas. Tanto a sociedade
(Fundamental) e Médio. Além disso, ainda no influencia a escola quanto o inverso, logo,
esse condicionamento leva as instituições
contexto do regime militar, na segunda metade
a formarem cidadãos que atuem de forma
da década de 1960, foram firmados os acordos
eficaz em sua sociedade. A educação tecni-
MEC-USAID, entre o Ministério da Educação cista surgiu para atender a demanda social
(MEC) e a United States Agency for Internatio- do contexto capitalista, em que o mercado de
nal Development (USAID), para promover a trabalho precisava de pessoas mais qualifica-
reforma do ensino brasileiro. das, especialistas, que além de ler e escrever
soubesse manusear máquinas, dentre outras
habilidades mais complexas.
Diante do exposto, podemos afirmar que a partir da Considerando o exposto, o filme “Tempos
década de 1970 houve uma intensificação do plane- Modernos” (1936), de Charlie Chaplin, retrata
bem os meios de produção em que emergi-
jamento nas escolas e nos ambientes não formais de ram o tecnicismo e o trabalho profissional
aprendizagem. Podemos observar que, desde a es- que se pluralizava no mercado. A educação
colarização da classe popular, a educação teve como precisava atender essa demanda. Veja a fi-
cha técnica completa do filme no final deste
fim preparar o sujeito para sua participação na so- capítulo.
ciedade, sobretudo no mercado de trabalho. Como
Fonte: Elaborado pela autora (2018).
já exploramos em capítulos anteriores, no período
tecnicista, mais do que nunca, ficou nítida a influ-
ência do mercado sobre a educação, pois a demanda
social era de pessoas especializadas em determina- Em 1961, foi criada a primeira Lei de Diretrizes e
das atividades, logo a educação escolar para as mas- Bases da Educação do Brasil. Por meio dessa lei, o
sas deveria formar esses sujeitos. estado passa a delinear a educação escolar no que
Considerando o contexto social e suas neces- tange a investimentos, metas, dentre outros compro-
sidades, criaram-se os currículos e, desde então, o missos com a sociedade. A partir de então o pro-
professor realiza seus planejamentos para atingir o fessor precisou conhecer mais sobre as políticas e
objetivo estabelecido. Segundo Turra et al. (1995, exigências do Estado para a educação.
p. 19), a escola tecnicista teve um processo contur- Na sequência dos acontecimentos históricos
bado no que corresponde a “[...] racionalização das acerca do planejamento surgiram as escolas progres-
atividades do professor e do aluno, na situação de sistas, nas quais o professor precisava planejar suas
ensino e aprendizagem, possibilitando melhores re- aulas considerando o diálogo e a mediação entre o
sultados e, em consequência, maior produtividade”. objeto de ensino e o aluno (BEHRENS, 2009). Dessa
Nesse contexto, o planejamento foi de fundamental forma, percebemos que o planejamento não é algo
importância para nortear as atividades docentes e recente, apesar de a palavra ser moderna. Essa ação
chegar ao objetivo. vem se ampliando no contexto escolar, o que antes

95
DIDÁTICA

era apenas responsabilidade do professor tomou mínimos que devem ser ofertados nas escolas de
uma dimensão nacional. Além disso, o planejamen- todo o nosso país, por isso toda a equipe peda-
to é presente inclusive em ambientes não formais de gógica deve se familiarizar com ela. Porém, não
aprendizagem, sempre considerando a sociedade podemos chamá-la de currículo.
em que estamos inseridos. Por currículo podemos entender um instru-
mento social e cultural que, segundo Moreira e Silva
REFLITA (2002, p. 7-8),

[...] não é um elemento inocente e neutro de


Saindo do contexto escolar, você acredita
transmissão desinteressada do conhecimento
que outros profissionais também precisam
de planejamento? Por exemplo, um empre- social. O currículo está implicado em relação
sário ou um chefe de cozinha. Considerando de poder, o currículo transmite visões sociais
os ambientes não formais de aprendizagem, particulares e interessadas, o currículo produz
será que os profissionais desse meio também identidades individuais e sociais particulares. O
necessitam de planejamento? currículo não é um elemento transcendente e
atemporal – ele tem uma história, vinculada a
formas específicas e contingentes de organiza-
ção da sociedade e da educação.
Como vimos no início deste capítulo, planejar é an-
tecipar as ações mentais, a fim de organizá-las para Dessa forma, podemos compreender que o currí-
suas execuções diversas. Dessa forma, qualquer pro- culo está intimamente relacionado com a concep-
fissional que não planeja suas atividades corre o ris- ção de Homem que a sociedade produz para suprir
co de fracassar. suas necessidades, que geralmente estão ligadas aos
Ao contrário do que muitos pensam, atual- meios de produção capitalista. Diante do exposto,
mente o planejamento escolar não se limita ao não podemos afirmar que o currículo é um docu-
plano de aula que o professor precisa realizar mento neutro que trata apenas da formação huma-
para lecionar. Na verdade, esse é o produto final na. Ele possui um viés político, permeado de inten-
de todo o processo de planejamento que aconte- ções e visões de quem o produz e se modifica a cada
ce na educação escolar. Essa ação inicia-se com mudança social.
o Estado, por meio de políticas educacionais que Em cada tendência pedagógica o currículo foi
atendam as demandas da sociedade como um visto de uma forma. Assim, nas teorias tradicionais,
todo. São documentos que estabelecem as me- o currículo se limitava ao “o que ensinar”. Poste-
tas da educação institucional, a exemplo, o Plano riormente, as teorias críticas ampliaram as reflexões
Nacional de Educação (PNE). Na Educação Bá- para “por que ensinar”, ou seja, “por que ensinar esse
sica, temos a Base Nacional Comum Curricular conteúdo e não outro?” (SILVA, 2002). Atualmente
(BNCC), aprovada em 15 de dezembro de 2017 o currículo é pensado de forma ainda mais ampla (o
para as etapas de Educação Infantil e Ensino Fun- que ensinar? Para quem? Por quê? Como?) e passa
damental, e em 14 de dezembro de 2018 para o por diferentes discussões (nacional, regional e insti-
Ensino Médio. Essa Base estabelece os conteúdos tucional), como veremos adiante.

96
EDUCAÇÃO FÍSICA

O currículo em discussão nacional remete-nos competência para dar uma aula de ginástica? Para
à BNCC (2017), que foi construída com base nos responder essa pergunta precisa-se levar em consi-
pressupostos da nossa Constituição Federal de 1988 deração os conhecimentos necessários para dar essa
e em nossa atual Lei de Diretrizes e Bases da Educa- aula, como anatomia humana, técnicas e movimen-
ção Nacional (LDBEN), lei nº 9.394 de 1996, com o tos específicos da ginástica, didática para ensinar,
intuito de padronizar os conteúdos de todo o Brasil, entre outros. Então, você tem competência para isso?
para que alunos de norte a sul tenham acesso aos Diante dessa exigência citada pela BNCC
mesmos conteúdos, afirmando a igualdade de opor- (2017), sempre que o professor pensar em um con-
tunidades. teúdo de sua disciplina deverá pensar, também, nas
Foi com a ajuda da população e dos professores competências e habilidades que deverá trabalhar
da rede pública, sobretudo, que os governantes res- com seus alunos, pois além de conhecimentos teó-
ponsáveis puderam consolidar a Base que precisa ser ricos, as crianças e adolescentes da Educação Bási-
seguida em todo o país, inclusive pelas instituições ca precisam de conhecimento prático, veja a seguir
particulares. Na BNCC (2017) encontramos os con- uma das competências gerais que os alunos desse
teúdos mínimos que devem ser trabalhados pelas nível de ensino devem adquirir com os conteúdos
escolas que ofertam a Educação Básica, bem como da BNCC: “agir pessoal e coletivamente com auto-
as exigências para atender determinadas demandas nomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e
da sociedade, como o trabalho com as competên- determinação, tomando decisões com base em prin-
cias e as habilidades de cada aluno, em cada etapa cípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis
da Educação Básica e em cada disciplina. Vejamos a e solidários” (BRASIL, 2017, p. 10). Considerando
seguir o conceito de competência para a BNCC: essa exigência, os professores deverão pensar em es-
tratégias de ensino e de aprendizagem que propor-
Ao longo da Educação Básica, as aprendizagens cionem aos seus alunos o desenvolvimento dessas
essenciais definidas na BNCC devem concorrer
competências.
para assegurar aos estudantes o desenvolvimen-
to de dez competências gerais, que consubs- Além disso temos as habilidades, que segundo o
tanciam, no âmbito pedagógico, os direitos de documento são práticas cognitivas e sociais que per-
aprendizagem e desenvolvimento. Na BNCC, mitem ao sujeito ter competência para exercer suas
competência é definida como a mobilização de atividades (BRASIL, 2017). De um jeito mais sim-
conhecimentos (conceitos e procedimentos),
ples, habilidades são formas de se desenvolver bem
habilidades (práticas, cognitivas e socioemo-
cionais), atitudes e valores para resolver de- as atividades, por exemplo: imaginemos que você dê
mandas complexas da vida cotidiana, do pleno aulas para uma criança de 4 anos e tenha que expli-
exercício da cidadania e do mundo do trabalho car o que é um cavalo, pois ela nunca o viu; como
(BRASIL, 2017, p. 8 – grifos no original).
você explicaria? Eu tenho habilidades para desenhar
(motricidade fina aguçada, percepção visual bem
Em outras palavras, competência é a capacidade te- desenvolvida etc.), logo, pegaria um papel e lápis de
órica e prática que o sujeito possui para desempe- cor para desenhar um cavalo e explicar por meio de
nhar determinada atividade, por exemplo: você tem uma ilustração.

97
DIDÁTICA

Vemos que a Base (2017) estipula o currículo dessa instituição; qual é a tendência pedagógica que
mínimo e estabelece exigências que norteiam todo norteará as ações didáticas; dentre outras perspec-
o planejamento escolar, mas não determina a didá- tivas que apresentem a escola em seus aspectos físi-
tica do professor. As metodologias, os métodos e as cos, filosóficos, políticos e pedagógicos (VASCON-
estratégias utilizadas para realizar os processos de CELLOS, 2002).
ensino e de aprendizagem são de inteira responsabi-
lidade da equipe pedagógica.
Após a aprovação da BNCC pelo Estado quanto
aos conteúdos mínimos a serem ensinados nas es-
colas de Educação Básica, o Conselho Nacional de
Secretários de Educação (Consed) se reúne com a
União Nacional dos Dirigentes Municipais (Un-
dime), Conselho Nacional de Educação (CNE),
Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Edu-
cação (FNCE) e União Nacional dos Conselhos Mu-
nicipais de Educação (Uncme) para debater sobre o Esse documento deve ser construído pelos educado-
currículo ideal para cada estado e seus municípios. res em conjunto com a comunidade local, por isso o
Nessas discussões, além dos conteúdos mínimos já PPP é considerado democrático, pois leva em con-
estipulados na Base, são consideradas as questões sideração o ponto de vista da equipe diretiva, dos
particulares de cada estado e de seus municípios, a professores, dos pais, dos alunos e de toda a comu-
fim de elaborar o Referencial Curricular do estado, nidade escolar. Isso ocorre pois a educação ofertada
que será seguido por todas as suas cidades (BRASIL, é direito de todos, e toda a comunidade será impac-
2018a; PARANÁ, 2018). tada pela educação a ofertada por aquela instituição
A partir do Referencial Curricular do estado, (VEIGA, 1995).
cada escola construirá o seu planejamento institu- Nesse documento – PPP – também são pré-es-
cional. Sentam-se, nesse momento, diretores, su- tabelecidas as disposições dos conteúdos determi-
pervisores, coordenadores, professores, auxiliares, nados pela BNCC (2017) e discussões anteriores.
equipe de limpeza, associação de pais – que envolve Volta-se à reflexão sobre o currículo, agora dentro
a comunidade escolar –, a fim de construírem o do- da instituição. Segundo Saviani (1991, p. 23), currí-
cumento que apresentará o currículo e determinará culo “[...] é o conjunto das atividades nucleares de-
a identidade da escola: o Projeto Político Pedagó- senvolvidas pela escola”. Logo, tudo o que acontece
gico (PPP). Nesse documento é apresentada, com na instituição é currículo. Aqui vemos a identidade
base em preceitos democráticos, a visão de mundo da escola, pois esse currículo inclui as experiências
que a escola possui, revelando o que ela entende por vividas por todos os seus integrantes.
educação, conceito que deve ser bem definido por O planejamento realizado no PPP é sintetizado,
cada professor; qual é o cidadão necessário para a posteriormente, no Plano Anual, documento em que
comunidade local; qual é o objetivo da educação a escola separa os conteúdos e os distribui em se-

98
EDUCAÇÃO FÍSICA

mestres e/ou bimestres, a fim de organizar o que será Dessa forma, o professor não é o único envolvido no
trabalhado e quando. Assim, deve-se pensar em uma planejamento escolar. Quando falamos em currícu-
sequência lógica, para não propor um conteúdo que lo devemos lembrar que ele começa a ser planejado
não seja a sequência lógica do outro. Depois, cada pro- pelo Estado em acordo com a população acadêmica
fessor planeja suas ações pedagógicas considerando e civil, passando por uma ampla discussão até che-
os conteúdos a serem ensinados; a ordem destes; a gar na escola de fato. O professor, mesmo com esses
importância de cada um; os objetivos a serem alcan- planejamentos prévios, precisa organizar os conteú-
çados e como serão trabalhados. Tudo isso será re- dos de forma que fiquem didáticos para os alunos.
gistrado no plano de aula, que pode ser pensado por Em suma, o conteúdo que já está estabelecido para
conteúdos, por meses, por quinzena ou por semana, o o professor, nessa fase, precisa ser pensado por ele
que varia de acordo com a organização de cada escola, com base em sua relevância, os objetivos e a forma
considerando sua identidade, registrada no PPP. com que serão ensinados.
Vemos, portanto, que o planejamento do profes- Nos ambientes não formais de aprendizagem,
sor é o último de uma série de planejamentos que se que são assim caracterizados por não possuírem
iniciam em âmbito nacional e vão se afunilando a cada currículo definido, o profissional deverá elaborar o
processo. Na figura abaixo podem ser observados de seu planejamento com base nas diretrizes do local
modo sucinto os passos do planejamento escolar: em que trabalha, que pode ser uma empresa, um
museu, um hospital, dentre outros lugares onde a
aprendizagem ocorre de forma mais espontânea e
relacionada com aspectos específicos do local de
trabalho.
Na etapa de registro do plano, é necessária pes-
quisa em muitos quesitos. Ao falarmos no campo da
BNCC - estabelece os conteúdos docência precisamos ter claro que o plano de aula
mínimos que devem ser ensinados
em todo o Brasil em cada etapa da
não é um mero papel, mas sim um eficiente instru-
Educação Básica. mento de trabalho do professor. Não é uma tarefa
Plano de aula – organiza
os conteúdos estabeleci-
fácil realizá-lo, pois precisa de pesquisas: identidade
dos no currículo, a fim da turma, como aprendem, qual é o procedimento
de estruturar o que,
por que e como de ensino adequado para cada aluno, conhecimen-
ensinar.
tos científicos dos conteúdos, formas de desenvolver
competências e habilidades etc. Veremos, no próxi-
mo tópico, como o professor pode efetuar suas pes-
Figura 3 - Planejamento escolar: âmbito nacional, regional e institucional
quisas para construir seu plano de aula.
Fonte: Elaborado pela autora (2018).

99
DIDÁTICA

Pesquisa
Docente

100
EDUCAÇÃO FÍSICA

A formação profissional nunca se encerra. Come- Considerando o exposto, a formação de professo-


çamos a construir nossos conhecimentos científi- res deve promover instrução, produção, simulação,
cos próprios da profissão na graduação, mas não documentação, retroação e observação, tudo para
para por aí. O sujeito que se contenta apenas com a estimular e capacitar o profissional a fazer pesqui-
formação inicial dificilmente será um profissional sas sobre conteúdos, processos de ensino e de apren-
próspero e preparado para as demandas da socie- dizagem, modelo pedagógico, organização escolar
dade, visto que são aspectos dinâmicos e o merca- que, como afirma Astolfi e Develay (1991), resultam
do apresenta novos desafios a todo o instante. A em uma formação pela pesquisa.
graduação é uma base, um suporte teórico e prá-
tico inicial que pode amparar as necessidades de
um profissional que acaba de entrar no mercado SAIBA MAIS
de trabalho.
Nesse meio acadêmico, o futuro professor Discutir sobre a formação de professores é
aprende as teorias necessárias para desenvolver muito importante, pois sempre que é analisa-
suas aulas e efetivar a aprendizagem, bem como da a situação da educação pública em nosso
país vemos que os índices de desempenho
proporcionar o desenvolvimento de seus alunos; dos nossos alunos, sobretudo nas áreas de
por isso é tão importante o contato com as políti- português e matemática, são alarmantes. A
cas, as metodologias, as psicologias educacionais, culpa geralmente recai sobre os docentes,
visto que são os responsáveis pela educação
dentre outras matérias que você, caro(a) aluno(a), escolar.
terá contato ao longo do curso, assim como a Di- Precisamos fazer a nossa parte. Você, caro(a)
dática. Ao longo do curso você perceberá que todas aluno(a), enquanto professor em formação,
precisa ser “[...] ator/autor da sua trajetória
as disciplinas são essenciais para uma boa didática. de vida e emergente da teia econômica, so-
Saviani (2003) salienta que o professor, por meio cial e cultural em que está inserido e como
da didática, precisa saber transpor o saber cientí- profissional que busca a formação, reconhe-
cer suas necessidades e as do contexto em
fico em saber escolar, logo, em sua formação deve que atua [...]” (SOARES; CUNHA, 2010, p. 32).
aprender a trabalhar com os conteúdos em forma Não basta as universidades oferecerem a
de pesquisa, a fim de refletir sobre os mesmos e educação superior de qualidade, o acadêmico
também precisa buscar o que lhe falta,
considerar aspectos como: com autonomia em sua própria formação.
Somente assim podemos argumentar que
- A capacidade de ensinar ou ajudar o aluno a o bom sucesso da educação escolar está
se apropriar do saber; - o domínio dos conteú- para além da formação de professores,
dos a serem ensinados, o que exige uma visão exigindo investimentos na educação e
responsabilizando, também, o Estado.
geral da disciplina (princípios organizadores,
Fonte: Soares e Cunha (2010).
campos nacionais, tramas conceituais); - o do-
mínio de instrumentos e habilidades ligados a
situações de aprendizagem (previsão, observa-
ção, análise, gestão, regulação e avaliação), (SA-
VIANI, 2003, p. 154).

101
DIDÁTICA

Ao longo do curso o acadêmico também tem a


oportunidade de ter contato com a prática docen-
te por meio dos estágios, nos quais pode verificar
como a teoria se efetiva no contexto escolar, como
é a rotina de uma escola, dentre outros aspectos re-
lacionados à práxis escolar. Essa pesquisa de campo
proporciona ao acadêmico a superação da dicoto-
mia entre a teoria aprendida durante as disciplinas
e a prática vivenciada no campo de trabalho, pois
no estágio o aluno deve perceber, com as mediações
docentes, que toda a teoria aprendida nas aulas é
necessária para colocar em prática as ações pedagó-
gicas, desde o planejamento até o processo de ensi-
no e aprendizagem.

Esta correlação teoria e prática é um movi-


mento contínuo entre saber e fazer na busca
de significados na gestão, administração e re-
solução de situações próprias do ambiente da
educação escolar. A prática, como componen- Por fim, em meio a todo esse contexto, o acadêmico
te curricular, que terá necessariamente a mar- graduando deve aprender a realizar pesquisas cien-
ca dos projetos pedagógicos das instituições tíficas, o que se efetiva nas atividades de estudo, na
formadoras, ao transcender a sala de aula para
realização de fóruns, no desenvolvimento de proje-
o conjunto do ambiente escolar e da própria
educação escolar, pode envolver uma articula- tos de iniciação científica, dentre outras atividades
ção com os órgãos normativos e com os órgãos acadêmicas das quais o aluno pode participar, por
executivos dos sistemas (BRASIL, 2001, p. 9, iniciativa do professor, mas, principalmente, por sua
grifos do autor).
própria iniciativa. Silva e Compiani (2015) denun-
ciam que a pesquisa por parte dos professores está
Com essa preparação, o futuro professor deve consi- abaixo do que precisamos no país, pois apenas uma
derar que em seu campo de atuação a teoria sempre parcela ligada a cursos universitários como os Stric-
deve permear a prática para que a ação seja signifi- to Sensu faz essa tarefa.
cativa, sobretudo no que diz respeito ao processo de Diante desse fato, os autores supracitados sa-
mediação, também a teoria sempre leva em consi- lientam a importância de todos os professores rea-
deração as práticas já vivenciadas, mas com cienti- lizarem pesquisas dentro de suas salas e escolas de
ficidade. Essa dicotomia, superada nos estágios, não atuação, relacionadas a metodologias e outras in-
pode voltar a aparecer quando o professor se forma vestigações sistemáticas e intencionais no trabalho
e assume uma turma. educativo:

102
EDUCAÇÃO FÍSICA

A ideia de sistemático se refere às formas de cente. Depois que o discente se forma, se depara em
recolher e armazenar a informação, de docu- sala de aula com inúmeras adversidades que preci-
mentar as experiências de dentro e fora da aula
sam ser melhor estudadas, como exemplo: um aluno
e de realizar registros escritos das situações.
A intencionalidade vê a pesquisa do professor com transtorno, uma tecnologia da educação inova-
como uma atividade planejada e não espontâ- dora, uma nova tendência pedagógica, dentre outras
nea, mesmo considerando que nem todos os novidades para as quais a graduação, apenas, não dá
resultados são provenientes de atividades pla-
o suporte total.
nejadas. Por fim, a ideia de investigação traz a
noção de que a pesquisa gera questões e reflete Ainda que tenhamos disciplinas que nos deem
os desejos docentes de dar sentido às suas ex- a base para conhecer sobre transtornos, tecnolo-
periências, admitindo, com isso, que nem toda gias educacionais e tendências pedagógicas, sem-
pesquisa deve, necessariamente, trazer nova in- pre precisaremos de um conhecimento mais espe-
formação, mas deve trazer a possibilidade de se
interpretar a informação que já se possui (SIL-
cífico e aprofundado do assunto. Por isso temos a
VA; COMPIANI, 2015, p. 1106). pós-graduação, para nos especializarmos naquilo
que precisamos em determinado momento (SILVA;
Essa pesquisa docente a que se referem as autoras COMPIANI, 2015).
é diferente da pesquisa metodológica, como ocor- Novamente, partiremos para a pesquisa e isso
re em cursos Stricto Sensu (Mestrado e Doutorado, se repetirá sempre que o professor se deparar com
por exemplo), pois trata-se de pesquisas produzi- algo para qual ele acredita não estar preparado. Hoje
das no próprio local de trabalho, a fim de aperfei- ele tem um aluno autista sobre o qual pesquisou e já
çoar as metodologias de ensino e de aprendizagem sabe como ele aprende, como ensinar, quais meto-
de um público específico, sem o rigor das pesquisas dologias são melhores, entre outros aspectos. Ama-
acadêmicas. nhã ele terá um aluno surdo, sobre o qual precisa
pesquisar novamente, conhecer seu processo de en-
REFLITA
sino e de aprendizagem de formas mais específicas.
Assim é com tudo que se passa na escola e demais
Você já ouviu a expressão: “o professor não ambientes de aprendizagem.
está preparado para isso”? Diante de uma Vimos em capítulos anteriores que há diferentes
adversidade no âmbito pedagógico, qual
profissional você será? Estará disposto a en- tendências pedagógicas, você pode ser contratado
carar os desafios ou dirá “não sou preparado para trabalhar em uma escola que segue a pedago-
para isso”? gia histórico-crítica, por exemplo, que está ainda em
alta, mas amanhã você pode precisar trabalhar em
uma escola que utiliza uma teoria mais tradicional
Assim como em todas as profissões, temos aqueles ou ainda uma nova teoria revolucionária que chega
profissionais que, diante de desafios, se preparam ao Brasil. Assim, precisará pesquisar sobre essas ten-
para enfrentá-los. Outros preferem usar desculpas. dências: qual é o papel do professor? Qual é o foco
A pesquisa está presente em nossa vida acadêmica da teoria? Qual é o objetivo da educação para essa
e deve permanecer por todos os dias da carreira do- determinada tendência?

103
DIDÁTICA

A vida do professor é pesquisar e não há como cação e demais detalhes que já observamos no tópico
fugir disso. Ser um docente sem ser um pesquisador anterior. Imaginem que a escola tenha como ideal de
é estar fadado ao fracasso e ser responsável pela edu- educação formar alunos críticos, para tanto utiliza a
cação escolar sem qualidade, contribuindo para as teoria histórico-crítica, porém o professor é adepto de
dificuldades escolares de seus alunos, a não apren- uma teoria mais tradicional, que não permite a for-
dizagem, o baixo rendimento escolar e o não desen- mação de um sujeito crítico, mas sim passivo.
volvimento global do sujeito. Lüdke (2001) afirma Esse conflito acaba por formar alunos que não
que faz parte da boa formação docente as práticas de condizem nem com a visão de sujeito da escola nem
pesquisa, visto que é por meio delas que o docente com a da sociedade atual. Esse professor, portanto,
adquire as habilidades de reconhecer o seu contex- não está apto para atuar nessa escola nem na socie-
to, enxergar os desafios e superar os problemas, sem dade, tornando-se obsoleto e podendo implicar ne-
considerá-los imutáveis. gativamente na formação acadêmica de seus alunos,
Ainda que o professor tenha o mais alto grau de de forma a prejudicar seu desenvolvimento social e
instrução e título acadêmico, precisará continuar cognitivo. Por isso é tão importante que o professor
suas pesquisas para lecionar. Dessa forma, um pro- pesquise os documentos educacionais a nível nacio-
fessor que tenha doutorado deve continuar as pes- nal, regional e principalmente os de sua escola, para
quisas para ter uma aula de excelência. Na Educação então elaborar seu plano de aula.
Básica, por exemplo, as pesquisas docentes se ini- Essa pesquisa, como já salientamos, inicia-se an-
ciam antes mesmo do início das aulas. Como vimos tes mesmo das aulas, pois as reuniões com a equipe
no tópico anterior, há uma série de planejamentos pedagógica são realizadas um pouco antes do início
antes que os conteúdos cheguem ao professor para dos dias letivos, a fim de que as escolas já comecem
elaboração do seu plano de aula. Esse percurso do suas pesquisas e seus planejamentos anuais. Para
planejamento escolar deve ser conhecido pelo do- tanto, também é realizada a distribuição de turmas,
cente, visto que são embasados em documentos para que o professor saiba com qual série trabalha-
educacionais que, a todo momento, podem ser atua- rá, o que também precisa ser pesquisado, pois cada
lizados, modificados e/ou substituídos. etapa da educação possui um objetivo, cada série
Neste exato momento, caro(a) aluno(a), estamos possui uma necessidade e cada turma, suas especi-
passando por uma atualização dos profissionais da ficidades (GÓMEZ, 1998).
educação que perdurará por um bom tempo, vis-
to que a BNCC é nova e precisa ser conhecida por
todos os professores, antes mesmo da elaboração de
seus planos de aula. Isso significa pesquisa (BRASIL,
2017; 2018b). Os documentos educacionais devem
ser constantemente pesquisados pela equipe pedagó-
gica, bem como o PPP de sua escola, visto que o pla-
no de aula deve estar em consonância com a visão de
mundo que a instituição possui, o objetivo com a edu-

104
EDUCAÇÃO FÍSICA

Dessa forma, o professor habituado a trabalhar com turma para estratégias que promovam a interação,
a Educação Infantil não trabalhará da mesma forma como exemplo, trocar as atividades individuais por
com o Ensino Fundamental. O professor que traba- atividades em dupla.
lha com o 6º ano não pode trabalhar da mesma for- Ao iniciar as aulas, o professor começa de fato
ma com o Ensino Médio. A turma do 2° ano A tem sua pesquisa sobre os alunos: como cada um apren-
um perfil diferente do 2° ano B. Diante do exposto, de? Quais são as dificuldades de cada um? E as habi-
como o professor pode lidar com esses diferentes lidades? Quais as metodologias mais eficazes para a
perfis? Com pesquisa, antes de tudo. Pesquisar o turma? Tudo para saber como lidar em sala de aula,
objetivo de cada etapa da educação é fundamental de forma que consiga ensinar e os alunos consigam
para saber como trabalhar. Sempre que tiver a opor- aprender. Os conhecimentos dessa pesquisa se refle-
tunidade de conversar com os professores anteriores tirão em seu plano de aula, em que deverão constar
da turma, faça-o, pois isso também contribui para os métodos a serem utilizados. Isso nos leva a ou-
a pesquisa da identidade da turma: são alunos mais tro aspecto que precisa ser pesquisado. Precisamos,
participativos? Mais curiosos? Trabalham bem em o tempo todo, saber quais são os procedimentos de
grupo? São disciplinados? ensino que estão fazendo sucesso quanto a melhoria
Tudo isso contribui para, posteriormente, mon- do ensino e da aprendizagem (GASPARIN, 2007).
tar o plano de aula, visto que não há como pensar o
que ensinar sem pensar para quem e como. Depois
de estabelecidos os conteúdos pelo planejamento es-
colar e realizada a distribuição de turma, o professor
se empenha na pesquisa dos conteúdos e do perfil
prévio da turma para montar seu primeiro plano de
aula do ano. Esse é o mais difícil, pois o docente tra-
balha com base em informações coletadas em sua
pesquisa teórica, sem ter, ainda, o primeiro conta-
to com a turma; logo, atua sem pesquisa e conheci-
mento prático da identidade dos alunos. Dessa for-
ma, deve elaborar um plano de aula flexível, ou seja,
possível de ser modificado após o início das aulas, Passamos agora a refletir sobre a pesquisa dos con-
pois precisará mudar suas estratégias diante de uma teúdos. Essa pesquisa deve acontecer durante todo
adversidade (OSTETTO, 2000). o ano letivo. Vivemos em uma sociedade em que a
Suponhamos que, em suas pesquisas, tenha informação está por toda parte. Alunos e professo-
constatado previamente que a turma é mais agitada e res estão cercados de informação, porém, devemos
participativa. Com o início das aulas, porém, diante entender que informação é um conceito diferente de
de sua didática e sua postura, notou que a turma se conhecimento. Fora da escola posso acessar infor-
mostrou mais tranquila, menos participativa. Dessa mações, mas dentro da sala de aula o professor deve
forma, precisará trocar as estratégias de controle da proporcionar conhecimento.

105
DIDÁTICA

Informação, no campo da educação, pode ser Calleja (2008) nos alerta que o professor preci-
considerada algo superficial, que é repassado de um sa passar do processo informativo e/ou reprodutivo
emissor para um receptor, podendo ser transmitida para outro que proporcione a interpretação e análise
de forma oral ou, como estamos na era tecnológica, crítica dessas e outras informações. Para tanto, o au-
por meio de um instrumento digital (BOSI, 1995). O tor enfatiza que o docente precisa ser:
conhecimento, por outro lado, é aprofundado; parte
de algo já produzido pelo Homem, que é reconstru- • Preparado e atualizado em sua ciência, ou
seja, em sua especificidade do saber. - Ser um
ído pelo sujeito aprendiz a partir de suas categorias
investigador. Às vezes os professores acredi-
de pensamento (GADOTTI, 2005). tam que se sua docência é de pré-escola ou
O professor pode utilizar a informação como ensino fundamental, não tem de investigar,
instrumento de seu ensino, servindo, então, como quando realmente a investigação deve carac-
objeto de estudo ou ponto de partida para o alu- terizar um docente de qualquer nível de ensi-
no. - Deve possuir uma cultura geral, ou seja,
no, o que proporcionará, no processo de ensino e
integral. - Possuir uma formação razoável do
de aprendizagem, a produção de conhecimento. De ponto de vista da Pedagogia, da Didática e das
forma alguma, o professor deve apresentar apenas a outras Ciências da Educação. - Ser um edu-
informação e permanecer nessa superfície, conside- cador exemplar, em qualquer lugar, honrado,
honesto, consagrado, ético em sua profissão e
rando-a como conhecimento. Esse cuidado deve ser
com boas relações humanas (CALLEJA, 2008,
redobrado em nossa sociedade atual, porque esta- p. 116).
mos imersos na tecnologia que nos proporciona in-
formações a todo o instante, por isso muitos alunos A pesquisa docente precisa sair das informações,
chegam em sala achando que sabem de tudo. O pior dos livros didáticos, e passar para um nível mais
é quando o professor também acha que informação elevado de produção de conhecimento, que aconte-
é conhecimento. ce em meios científicos. Dessa forma, para pesqui-
Por isso a pesquisa docente nunca se fez tão ne- sa docente é necessário o currículo bem definido,
cessária quanto agora. O professor pode utilizar as livros e artigos científicos, filmes e documentários,
tecnologias para sua pesquisa, as informações como dentre outros meios de elaboração de conhecimento
ferramenta para suas aulas, mas não pode ficar preso e de cultura.
a elas. Suas aulas devem ir além da linha rasa dos as- No âmbito não formal a pesquisa também se faz
suntos discutidos, do que está posto nas mídias e nas necessária, pois trata-se de um campo em constan-
redes sociais. É necessário estudo aprofundado do te atualização. O profissional que atua em empresas,
conteúdo, para que compreenda as entrelinhas das academias, hospitais e outros locais onde a educação
informações, consiga transformá-la em saber siste- se efetiva de forma não curricular precisa se atentar
matizado e ajudar o aluno a passar do conhecimento às matrizes que norteiam seu trabalho, documen-
real para um mais elaborado. Apenas assim contri- tos, novas tendências do seu campo de atuação, por
buímos para o desenvolvimento e a aprendizagem exemplo, tecnologias e técnicas que potencializam o
(GADOTTI, 2005). desenvolvimento dos aprendizes etc.

106
EDUCAÇÃO FÍSICA

Ao final de todas essas pesquisas o professor


poderá montar seu plano de aula com base em
documentos que seguem a necessidade de sua so-
ciedade, com conteúdos fundamentais para a for-
mação do aluno, metodologias e métodos que fa-
cilitem o processo de ensino e de aprendizagem, o
que resultará em aulas de qualidade, aprendizagem
eficiente e eficaz, bem como no desenvolvimento
global dos alunos.

107
DIDÁTICA

Plano de Aula

108
EDUCAÇÃO FÍSICA

Após o planejamento institucional e a pesquisa do Suponhamos que nossa aula seja para uma tur-
profissional, chega a hora de registrar toda essa ca- ma de 5º ano do Ensino Fundamental, cuja identi-
minhada, de modo a organizar a ação que será re- dade sabemos que apresenta dificuldades em mate-
alizada com o aprendiz. O plano de aula é a última mática; é uma turma agitada e desinteressada nos
etapa do planejamento escolar, mas é a mais impor- conteúdos mais teóricos, mas que precisa aprender
tante, pois é por meio dele e de sua execução, bem sobre gráficos. Diante do exposto, por que trabalhar
como avaliação, que poderemos saber se a trajetória gráficos no 5º ano? Lembramos que o professor deve
anterior foi bem-sucedida. estar ciente do que os documentos educacionais tra-
Há várias formas de registrar o plano de aula, zem em seu bojo.
isso vai depender de cada escola, de cada teoria nor- Se observarmos, por exemplo, a BNCC, verifi-
teadora, dentre outros aspectos. Algumas escolas camos que traz para o 5º ano a seguinte proposta
optam por realizar o plano de aula bimestral, outras de trabalho com probabilidade e estatística: “leitura,
o mensal, quinzenal ou, ainda, o semanal. Essa dis- coleta, classificação, interpretação e representação
tribuição dos conteúdos, que pode variar de bimes- de dados em tabelas de dupla entrada, gráfico de
tre a semanas, acontece a partir do Plano Anual, que colunas agrupadas, gráficos pictóricos e gráfico de
já mencionamos no primeiro tópico deste capítulo. linhas” (BRASIL, 2017, p. 294). Dessa forma, não é
Com o currículo já estabelecido, os professores todo e qualquer gráfico que precisa ser trabalhado
organizam os conteúdos da melhor forma, pensan- nessa etapa, mas sim gráficos de colunas agrupadas,
do em por que ensinar, para que e como ensinar gráficos pictóricos e gráficos de linhas.
seus alunos, a fim de facilitar as ações de ensino e de Considerando ainda a Base, temos que nos aten-
aprendizagem, tudo para que se torne um proces- tar às habilidades exigidas: “realizar pesquisa envol-
so facilitado, eficaz e eficiente. Portanto, dentro do vendo variáveis categóricas e numéricas, organizar
plano de aula existem elementos essenciais a serem dados coletados por meio de tabelas, gráficos de
pensados, os quais veremos detalhadamente. colunas, pictóricos e de linhas, com e sem uso de
Quando falamos em currículo, devemos saber tecnologias digitais, e apresentar texto escrito sobre
que tais conteúdos foram selecionados não por aca- a finalidade da pesquisa e a síntese dos resultados”
so, mas sim porque cada um tem uma relevância (BRASIL, 2017, p. 295). Isso significa que além de
na formação do sujeito (SAVIANI, 2003). Sabendo ensinar sobre os referidos gráficos o professor pre-
disso, o professor deve refletir, em primeiro lugar: cisará fazer com que o aluno conclua o 5º ano com
por que ensinar determinado conteúdo? Para ficar a habilidade de realizar pesquisas com variáveis nu-
mais explícita a nossa discussão sobre esse plano, méricas (pesquisa quantitativa, com classificações
vamos juntos, caro(a) aluno(a), pensar no passo a discretas e/ou contínuas) e categóricas (classifica-
passo da elaboração de um plano de aula fictício. ções diversas como gênero, espécie etc.).
Para tanto, vamos considerar, como conteúdo a ser Partindo desses pressupostos, suponhamos que
trabalhado dentro de um bimestre, a probabilidade o PPP da escola do nosso 5º ano apresente que a
e a estatística, enfocando os gráficos, por um perí- Matemática se define como uma ciência que se de-
odo de 15 dias. senvolveu desde a necessidade do Homem de resol-

109
DIDÁTICA

ver situações problema e que hoje está enraizada em xivo, que ela veja a educação como uma forma de
nossa cultura. Com isso, espera-se que os conteúdos emancipação do sujeito, que sai da ignorância e che-
matemáticos ajudem seus alunos a participar da so- ga à concepção plena da sociedade em que vive, sen-
ciedade com conhecimentos científicos, de forma do essa, por sua vez, capitalista. Assim, o professor
que também possam contribuir para a ampliação pode concluir que o conteúdo gráfico será ensinado
dos mesmos. para que o aluno, por meio das pesquisas quantifica-
Diante do exposto, o professor já sabe por que das, compreenda sua realidade e amplie seus conhe-
trabalhar gráficos no 5º ano: porque essa escola pre- cimentos científicos. Essa resposta será necessária
cisa formar cidadãos letrados, que saibam, além de para justificar o objetivo da aula que será registrada
conceitos, fazer uso social dos conteúdos. Essa res- no plano de aula. Libâneo (2013, p. 43) salienta que
posta será necessária para construir o objetivo da os alunos devem adquirir conhecimento
aula que será registrada no plano. Esse conhecimen-
to, como vimos no tópico anterior e exemplificado [...] a fim de que se tornem preparados e aptos
para enfrentar as exigências objetivas da vida
aqui, o professor adquire por meio de pesquisas
social como a profissão, o exercício da cidada-
contínuas aos documentos educacionais, desde os nia, a criação e o usufruto da cultura e da arte,
nacionais até o institucional. a produção de novos conhecimentos de acordo
De acordo com Libâneo (2013) o “porquê” ensi- com interesses de classe, as lutas pela melhoria
nar está intrinsecamente relacionado à função social das condições de vida e de trabalho.

da escola. Em essência, a função de toda instituição


escolar é formar um cidadão que saiba ler, escrever e Por fim, o professor precisa refletir: como ensinar?
contar, de forma que saia de um conhecimento real Há inúmeras formas de ensinar gráficos, porém, os
e chegue ao seu máximo potencial por meio de lei- métodos devem estar de acordo com a teoria da es-
tura, escrita e contas. Deve saber interpretar, anali- cola, que consta no PPP, além de estar em consonân-
sar e emancipar seus conhecimentos de forma que cia com os objetivos da instituição, do professor e da
se desenvolva plenamente (cognitiva, social, afetiva disciplina. Suponhamos que, para tanto, utilizemos
e fisicamente). como método as aulas expositivas e práticas, pesqui-
Contudo, o professor precisa pensar na segun- sas e resolução de situações problema.
da questão que norteará seu plano de aula: para que Libâneo (2013) orienta que o professor precisa
ensinar esse conteúdo? Isso pode ser esclarecido a pensar em métodos e procedimentos didático-peda-
partir do PPP, que descreve a visão de Homem, de gógicos que ajudem a viabilizar o processo de ensi-
educação e de sociedade que a escola possui, o que no, de forma que, aliados à mediação, contribuam
influencia na educação escolar dos seus alunos. Su- para o desenvolvimento das capacidades mentais
ponhamos que a escola do nosso 5º ano tenha como dos alunos, para que eles pensem e adquiram seus
concepção de Homem um ser social, crítico e refle- próprios métodos de aprendizagem e ação.

110
EDUCAÇÃO FÍSICA

Até aqui, caro(a) aluno(a), refletimos questões es- considerando a BNCC (2017) e o PPP. Da mesma
senciais para a elaboração do plano de aula. A par- forma, fazemos com os métodos (tema da próxima
tir de agora precisamos pensar sobre o seu registro. unidade, sobre os procedimentos de ensino), previa-
Para tanto, devemos considerar os seguintes itens: mente elaborados a partir da reflexão sobre como
disciplina, conteúdo, objetivos, métodos e avaliação. ensinar, acrescentando no registro do plano de aula
Seguindo o nosso caso do 5º ano como exem- os instrumentos que serão utilizados, a fim de que
plificação, nosso plano de aula tem como vigência se faça uma organização prévia do professor e da
15 dias letivos e a nossa disciplina já está definida: escola. Por fim, a avaliação (tema da nossa última
matemática. O conteúdo também já foi estabelecido: unidade) precisa ser pensada, considerando o PPP
probabilidade e estatística. Dessa forma, consideran- da instituição. Nesse momento, vamos supor que
do todo o exposto, precisamos registrar nosso obje- nessa escola a avaliação seja diagnóstica e contínua.
tivo, retomando, então, a reflexão do professor sobre Assim, nosso plano de aula pode ser registrado da
o porquê ensinar determinado conteúdo e para que, seguinte forma:

111
DIDÁTICA

Quadro 1 - Plano de aula hipotético

Série: 5º ano
Duração: 15 dias
Disciplina: Matemática
Conteúdo: Probabilidade e estatística
Objetivo: formar cidadãos letrados, que saibam, além de conceitos, fazer uso social dos conteúdos, para que o
aluno, por meio das pesquisas quantificadas, compreenda sua realidade e amplie seus conhecimentos científicos.
Método: aulas expositivas e práticas, literatura, pesquisa em livros científicos na biblioteca da escola; pesquisa
em sites confiáveis no laboratório de informática da escola; resolução de situações problema em sala de aula,
na prática e por meio de softwares no laboratório de informática da instituição; elaboração de cartazes; elabo-
ração de gráficos utilizando materiais concretos como bola de isopor, garrafas pet de diferentes tamanhos etc.;
apresentação em grupo do resultado de uma pesquisa em malha quadriculada usando gravuras.
Instrumentos e recursos: livro de literatura infanto-juvenil; quadro; caderno; lápis, borracha; biblioteca; sala de
informática; papel cartolina; sucatas; tinta; pincel; malha quadriculada; revistas.
Avaliação: será realizada durante as aulas, por meio da observação da participação dos alunos e o desenvolvi-
mento de suas atividades teóricas e práticas.
Disposição das aulas:
1ª aula 2ª aula 3ª aula 4ª aula 5ª aula
• Apresentação e • Leitura da história • Levar os alunos • Retomada da • Solicitar que um re-
problematização do Onde Laura gosta à biblioteca e literatura; presentante de cada
conteúdo: (vocês de passear; separá-los em grupo de pesquisa da
sabem o que é um três grandes • Apresentação de biblioteca (realizado na
gráfico? Para que • Interpretação grupos, para que um cartaz elabo- 3ª aula) apresente à sala
serve?); coletiva da litera- pesquisem em rado pela profes- os resultados obtidos na
tura; livros científicos sora a partir dos pesquisa;
• Exposição teórica: o que é gráfico dados coletados
conceito de gráfico, • Levantamento de barras duplas, no levantamento • Apresentação de curio-
informações sobre quantitativo quantitativo dos sidades sobre parques
o que é gráfico
para que serve um relacionado aos lugares em que e bosques da cidade e
pictográfico e
gráfico, como pode lugares em que a cada aluno gosta região;
o que é gráfico
ser utilizado; personagem gos- de passear (reto-
de linhas. Todos
ta de passear; • Retomada do conceito
deverão registrar, mada da segunda
• Apresentação visual aula); e utilidade do gráfico de
cada um em seu
de diferentes gráfi- • Levantamento barras;
caderno.
cos e suas funciona- quantitativo do • Separar os alunos
lidades. lugar em que em duplas para • Sortear para cada aluno
• Tarefa para casa:
cada aluno gosta que confeccio- um lugar de passeio da
perguntar para
de passear; nem em um cidade e da região, para
sua família os
cartaz o gráfico que façam uma pesqui-
• Montagem coleti- lugares em que
de barras duplas sa quantitativa com a
va, no quadro, de gostam de pas-
com os resulta- ajuda da família. Devem
um gráfico de bar- sear. trazer: ano de inaugura-
dos quantitativos
ras com os dados ção, número de visitan-
da tarefa de casa.
dos alunos. tes por dia etc.
Fonte: Elaborado pela autora (2018).

112
EDUCAÇÃO FÍSICA

Aqui é possível ver apenas cinco dias, mas veja no Achou difícil? Como observamos, não é fácil de-
final desta unidade o plano de aula completo, em senvolver um plano de aula, pois envolve pesquisa,
anexo. Este foi elaborado por nós a partir de um tempo e conhecimento. Mas não é algo impossível
caso fictício, mas que considera aspectos reais como e descartável. Pelo contrário, é necessário e muito
documentos educacionais, planejamento escolar, útil, pois sem o planejamento o caos pode se ins-
conteúdos e habilidades exigidas no contexto es- taurar em sala de aula. Notamos com a prática do-
colar, elementos essenciais do plano de aula, entre cente que um professor desorganizado (sem pla-
outros aspectos. Tudo para que você possa compre- nejamento) transmite insegurança aos alunos, que
ender o passo a passo de um plano de aula. Há vários podem reagir de diferentes formas, como exemplo:
modelos de planejamento, mas todos apresentam os mostrando desinteresse, indisciplina, entre outros
mesmos encaminhamentos aqui explanados. Cada reflexos da ausência de orientação dos estudos por
escola adota o que melhor se adequa a sua realidade. parte do professor.
Perceba que, em nossa elaboração, atendemos a Em nosso plano hipotético consideramos uma
todos os requisitos mencionados nos itens anterio- turma de 5º ano e o conteúdo de matemática, mas
res deste capítulo: o mesmo se aplica a todas as séries e disciplinas. Se
a. Consideração dos documentos escolares: em fossemos exemplificar com uma atividade de iden-
nosso exemplo utilizamos a BNCC (2017) e o tidade e autonomia para a Educação Infantil, ou de
PPP da escola, mas há casos em que o profes-
Produção textual na Língua Portuguesa para uma
sor ainda precisa recorrer às diretrizes, plano
anual e outros documentos nacionais, regio- turma de 9º ano ou, ainda, o conteúdo de Território
nais e/ou institucionais, pois não podem ser e fronteira na disciplina de História para uma turma
esquecidos pela equipe pedagógica; do Ensino Médio, o processo de reflexão do profes-
b. Pesquisa da turma: consideramos, na elabo- sor seria o mesmo: por que, para que e como ensi-
ração do plano, o perfil da turma (apresenta nar? Os aspectos essenciais do plano de aula, tam-
dificuldade em matemática, é uma turma agi-
bém permanecem: objetivo, métodos e avaliação.
tada e desinteressada nos conteúdos mais te-
óricos), por isso primamos por breves expla- O objetivo da disciplina representa o elemento
nações teóricas que se fazem necessárias, mas central do plano de aula, pois por meio dele emer-
não de forma muito aprofundada e exclusiva, gem os demais aspectos. Os métodos, por sua vez,
por isso a necessidade de realizar pesquisas, a esclarecem os recursos e as técnicas que os docen-
fim de complementar os conhecimentos teó-
ricos de forma que o próprio aluno busque as tes utilizarão para facilitar os processos de ensino
respostas e construa o conhecimento com a e aprendizagem. Por fim, a avaliação é importante
mediação do professor. para que o professor verifique se todos os proces-
c. Pesquisa científica do professor: foi eviden- sos didático-metodológicos estão fluindo de acordo
ciada à medida que descrevemos os docu- com o esperado ou se é necessário modificar algo, a
mentos consultados. Subentendemos que,
fim de melhorar o ensino e/ou a aprendizagem (LU-
para as conceituações, explicações e apresen-
tação das curiosidades, o docente também CKESI, 1994).
tenha realizado uma pesquisa científica em O que se modifica entre um plano e outro, além
fontes confiáveis. dos aspectos óbvios (série, disciplina e conteúdo)

113
DIDÁTICA

são os aspectos particulares de cada turma, por Considerando todo o exposto sobre planeja-
exemplo: se em nossa turma houvesse um aluno mento, podemos entender que o plano de aula nos
cego, deveríamos pensar em estratégias para que os ajuda a organizar as ações docentes, evitando impro-
demais alunos não o excluíssem dos trabalhos em visações, falta de reflexão e significação da prática
grupo, a exemplo, a pesquisa na biblioteca. Uma das pedagógica. Vasconcellos (2000) sintetiza a ajuda do
estratégias poderia ser a utilização de recursos sono- planejamento em sete aspectos fundamentais para
ros ou livros em braile, caso o aluno saiba ler com uma aula de sucesso:
esse recurso e esteja disponível na escola. Isso seria
acrescentado no registro do plano de aula, nos ins-
trumentos mencionados.
Outro aspecto que se modifica é o tempo de vi-
gência do plano, em primeiro lugar porque isso va-
ria em cada instituição, como já mencionamos em
parágrafos anteriores. Em segundo lugar, porque o
tempo de aula de um professor da Educação Infan-
til, por exemplo, é diferente do professor dos anos
iniciais do Ensino Fundamental; que por sua vez
é diferente do professor dos anos finais do Ensino
Fundamental e do Ensino Médio.
Na Educação Infantil, o tempo considerado para
todo o período que o professor leciona é, geralmen-
te, de 4 horas, mas envolve aspectos bem específicos
dessa etapa: adaptação das crianças, habilidades a
serem trabalhadas com a turma, maior número de
intervalos e atividades lúdicas ou extraclasse, entre
outros. Nas séries iniciais do Ensino Fundamental,
aspectos como intervalo, atividades lúdicas e extra- Figura 4: Contribuições do planejamento segundo Vasconcellos (2000)
classe permanecem, mas o professor também pre- Fonte: Elaborado pela autora (2018).

cisa considerar que há mais de uma matéria a ser Dessa forma, podemos concluir que, a partir do pla-
trabalhada por dia. Por fim, os professores das séries nejamento, é possível realizar o que nos propomos a
finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio fazer na educação escolar de forma eficiente e eficaz.
possuem um tempo menor para lecionar, geral- Além disso, colocamos em prática todo o nosso co-
mente 50 minutos. Sejam 4 horas ou 50 minutos, o nhecimento teórico, sem dissociação entre teoria e
professor precisa planejar sua aula para que ela seja prática. Por fim, faz-se necessário planejar para que
proveitosa aos alunos, de forma que ele dê conta de possamos transformar nosso trabalho, a relação com
ensinar o que foi previsto para aquele ano, bimestre, o outro (professores, alunos, pais), a escola e a socie-
semana etc. dade como um todo (VASCONCELLOS, 2000).

114
considerações finais

P
rezado(a) aluno(a), como foi possível observar, a trajetória do planeja-
mento se inicia bem antes do registro do professor. Conhecer esse per-
curso é essencial para realizarmos um bom trabalho pedagógico, que
envolve desde a direção até a equipe pedagógica em sala de aula. Preci-
samos sempre ter em vista que o papel da escola é ensinar crianças e adolescentes
a serem alfabetizados e letrados em todas as ciências. Logo, nosso ponto de parti-
da é sempre o aluno e nosso ponto final é seu conhecimento e desenvolvimento.
Nosso objetivo inicial com essa unidade foi conhecer os documentos que
interferem no planejamento escolar, desde o âmbito nacional – como a BNCC
(2017) – passando pelos níveis regionais, até o institucional – como o PPP. A par-
tir deles é montado o currículo escolar, ao qual o professor recorre para registrar
seu plano de aula.
Após o conhecimento dos documentos educacionais, objetivamos refletir so-
bre a pesquisa docente, que se faz necessária para que cada ação pedagógica tenha
fundamentação teórica, suporte científico e, finalmente, dê o suporte necessário
para que o professor construa um plano de aula sólido.
Por fim, analisar os elementos do plano de aula se fez essencial para que
você compreenda a relevância desse registro e desenvolva as habilidades neces-
sárias para realizar um plano eficiente e eficaz, a saber: reflexão, organização e
sintetização.
Após planejarmos nossas ações pedagógicas, registrá-las e nos organizarmos,
é chegada a hora de colocarmos tudo em prática, para tanto, devemos ter claras
as diferentes formas de concretizar nosso planejamento. Portanto, no próximo
capítulo, enfatizamos outro aspecto essencial para uma boa didática: a execução
do plano de aula. Convido você, caro(a) aluno(a), a refletir sobre as possíveis
práticas pedagógicas.

115
atividades de estudo

1. Segundo Ostetto (2000), o planejamento é o mo- III - Atualmente o planejamento nas escolas
mento de organização das ideias, de estabelecer é essencial para uma aula eficiente e efi-
metas e criar estratégias para atingi-las. Dentro caz, considerando que o professor deve
do campo da educação, seja ela formal ou não conhecer os documentos que norteiam
formal, é correto considerar como planejamento: a educação, fazer diferentes pesquisas e
realizar um plano de aula crítico e flexível
a) Uma ação impulsiva que visa a improvisa-
para colocar em ação de forma que ensine
ção das ações docentes e discentes.
de modo fácil e os alunos aprendam com
b) A construção prévia de um registro diário qualidade.
de ações pedagógicas que poderão ou não
IV -O plano de aula muitas vezes é visto como
ser executadas.
o único elemento caracterizado como o
c) A elaboração de documentos voltados à planejamento escolar, contudo, apesar de
educação, cuja responsabilidade é do go- ser um dos elementos desse processo, há
verno e suas secretarias. uma gama de planejamentos que o ante-
cedem.
d) Uma reflexão de todas as ações docentes
que resultam em uma atitude crítica pre- Está correto o que se afirma em:
viamente delineada.
a) I e III, apenas.
e) Uma organização de ideias específicas
b) I, III e IV, apenas.
para o ensino dos conteúdos sistematica-
mente elaborados. c) II, III e IV, apenas.

2. A palavra planejamento é fruto da modernidade, d) I, II e III, apenas.


mais ligada à área administrativa, porém ganhou e) l, ll, lll, e lV..
proporções no campo da educação e sua ação
sempre esteve presente em todas as áreas de 3. Sabendo que competência é definida como a mo-
atuação. Considerando o exposto, analise as afir- bilização de conhecimentos (conceitos e procedi-
mativas abaixo: mentos) e que habilidades são práticas (cogniti-
vas e socioemocionais) de atitudes e valores para
I - Nos primórdios da escola tradicional não
resolver demandas complexas da vida cotidiana
havia planejamento, visto que o professor
era responsável pela transmissão de co- (BRASIL, 2017). Assinale a alternativa correta:
nhecimento e o período dessa tendência a) O professor que ensina os conceitos mais
antecede a modernidade. importantes de sua disciplina já está for-
mando as competências de seus alunos.
II - A tendência tecnicista foi a primeira a tra-
balhar com planejamento, denominan- b) O aluno que consegue reproduzir o que o
do-o assim, visto que anteriormente não professor faz; ainda que não de forma re-
havia uma sistematização dessa ação, flexiva, desenvolve habilidades cognitivas,
sobretudo considerando leis específicas tais como, imitação.
para a educação escolar.

116
atividades de estudo

c) Trabalhar de forma que o aluno aprenda b) O domínio de instrumentos somente é


os conceitos e a partir deles coloque-os em possível por meio de uma pesquisa do-
prática para resolver situações-problema e cente que possibilite o conhecimento de
proporcionar o desenvolvimento de, res- técnicas específicas para o ensino de de-
pectivamente, competências e habilidades. terminado conteúdo, sem considerar os
aspectos práticos.
d) Ao aluno que tem facilidade de se expressar
com o corpo, dizemos que ele tem a com- c) O domínio de conteúdos exige pesquisa
petência para ser um professor de dança. docente para não utilizar apenas livros
científicos, visto que hoje o ensino pode
e) Ao sujeito que tem domínio teórico e práti-
ser pautado em informações superficiais.
co de uma determinada disciplina mas não
possui didática, dizemos que ele tem com- d) Tanto a capacidade de ensino quando os
petências e habilidades para ser professor. domínios de instrumentos e conteúdos
visam uma pesquisa que preparara o pro-
4. Observe a figura a seguir, que ilustra a pesquisa fessor para atuar menos e fazer os alunos
docente segundo Saviani (2003), e assinale a al- trabalharem mais.
ternativa correta:
e) O domínio de conteúdo e a capacidade
de ensino não fazem parte da pesquisa
docente, visto que são habilidades que al-
guns professores possuem e outros não.

5. Os aspectos essenciais de um plano de aula são


os elementos que, independentemente de para
quem e do porquê ensinar, devem constar no
registro a partir de reflexão, pesquisa e planeja-
mento. Considerando esses aspectos discutidos
na Unidade III, assinale a alternativa correta:
a) Os elementos essenciais de qualquer pla-
no de aula são registro, exposição e apren-
dizagem.
b) São elementos essenciais de um plano de
aula o objetivo, os métodos e a avaliação.
c) Os elementos essenciais do plano de aula
Fonte: Elaborado pela professora (2018).
são aqueles registros que não podem fal-
a) A capacidade de ensinar está relacionada tar, logo: série, disciplina e turma.
à pesquisa docente pelo fato de exigir do d) Podem ser considerados elementos es-
professor uma pesquisa de métodos e me- senciais de um plano de aula apenas a re-
todologias que facilitem a aprendizagem flexão e os métodos de ensino.
de seus alunos.
e) Apenas a avaliação é considerada um ele-
mento essencial de um plano de aula.

117
LEITURA
COMPLEMENTAR

A partir da pesquisa, percebemos que, para o professor Logo, entendemos que, para que haja planejamento, são
desenvolver bem suas aulas, para que a aprendizagem necessárias ações organizadas entre si, as quais corres-
aconteça e que o processo de avaliação seja eficaz, é pondem ao desejo de alcançar resultados satisfatórios
necessário que haja um planejamento condizente com em relação aos objetivos traçados. Em relação a isso, Ho-
aquilo que ele deseja trabalhar. landa (apud LUCKESI, 2011, p. 19) afirma que:
Podemos afirmar que o planejamento é de extrema im-
Podemos definir o planejamento como a aplicação
portância para que o professor possa pensar na avalia-
sistemática do conhecimento humano para prever
ção e promover o desenvolvimento do aluno, haja vista
e avaliar cursos de ação alternativos, com vista a
que esse processo significa que todo trabalho deve ser
tomada de decisões adequadas e racionais, que sir-
planejado com qualidade, de forma que o planejamento vam de base para a ação futura. Planejar é decidir
e a avaliação estejam diretamente direcionados à cons- antecipadamente o que deve ser feito, ou seja, um
trução do conhecimento do educando. plano é uma linha de ação pré-estabelecida.
Entretanto, é necessário que o professor tenha conhe- Nesse caso, podemos afirmar que uma aprendizagem
cimento daquilo que vai ensinar, como vai ensinar, para significativa resulta de uma educação de qualidade, de
quem vai ensinar. Deve buscar ações para que as metas acordo com as necessidades do aluno. Afirmamos tam-
sejam desenvolvidas, no intuito de atingir os objetivos bém que a educação de qualidade só se faz com a cons-
estabelecidos, pois “[...]sempre que se buscam determi- trução do conhecimento, a partir de ações voltadas para
nados fins, relacionam-se alguns meios necessários para o desenvolvimento cultural do aluno.
atingi-los. Isso, de certa forma, é planejamento (DALMÁS, De acordo com a autora Santana (1986. p. 26), o plane-
1994, p. 23). jamento é dividido em três etapas: a primeira é a pre-
Dessa forma, planejar é o ato de organizar ações a fim paração ou estruturação do plano de Trabalho Docente,
de que estas sejam bem elaboradas e aplicadas com nela o professor prevê como será desenvolvido o seu
eficiência, se possível, nos momentos relacionados da trabalho durante certo período. O professor relaciona
ação ou com quem se age. Por isso, para planejar bem é os conteúdos que serão trabalhados e como serão tra-
necessário conhecer para quem se está planejando. No balhados, ou seja, busca uma metodologia adequada,
caso, o professor deve conhecer a turma e mais, o aluno recursos didáticos e tecnológicos que contribuam para
com quem trabalha. Quanto mais se conhece, melhor se melhor desenvolvimento dos conteúdos.
planeja e se obtêm melhores resultados. Para Luckesi, A segunda etapa é o desenvolvimento do plano de tra-
(2011, p. 125), “Planejar significa traçar objetivos, e bus- balho. Nesse momento, as ações que foram organizadas
car meios para atingi-los”. durante a elaboração do planejamento são colocadas em

118
LEITURA
COMPLEMENTAR

prática para que o processo ensino e aprendizagem seja


efetivado. O trabalho é direcionado e constantemente
por parte do professor, para que o aluno construa seu
conhecimento ou transforme o conhecimento existente,
passando de senso comum a conhecimento organizado
e sistematizado.
A terceira etapa é a do aperfeiçoamento. Essa etapa en-
volve a verificação para perceber até que ponto os ob-
jetivos traçados foram alcançados. Nesse momento de
avaliação é que se fazem os ajustes na aprendizagem,
de acordo com os acertos dos alunos e as necessidades
dos mesmos.
Por meio desse excerto escrito por Santos e Perin (2013),
verificamos que a ação pedagógica não se encerra com
o registro do plano de aula. É necessário, ainda, colocá-
-lo em prática (execução) e avaliar os pontos que deram
certo ou não para poder aperfeiçoar os próximos plane-
jamentos e demais aulas (avaliação).

Fonte: Santos e Perin (2013, p. 5-6).

119
material complementar

Indicação para Ler

A didática em questão
Vera Maria Candau (Org.)
Editora: Vozes.
Ano: 2014.
Sinopse: este livro foi organizado a partir de revisões críticas sobre o ensino e a
pesquisa em Didática. Aborda a formação de educadores, pressupostos teóricos
do ensino de Didática, abordagens alternativas para esse ensino, propostas e re-
alidades da pesquisa em Didática. Destaca-se o segundo capítulo, escrito por Ci-
priano Luckesi, que salienta a importância desse elemento fundamental para prá-
tica docente, mas que não é o único, visto que junto vem a execução e avaliação
desse planejamento, aliando de forma indissociável a teoria e a prática docente.
Comentário: Luckesi (2014) faz uma crítica aos cursos e, de forma implícita, aos
alunos, futuros professores, que não fazem uso da praxis (teoria aliada à prática e
vice-versa) nos momentos de planejamento, ou seja, não conciliam planejamento,
execução e avaliação. Esse livro está disponível na Biblioteca Pearson.

Indicação para Assistir

O nome da rosa
Ano: 1986.
Sinopse: o filme se passa em 1327, Idade Média, em um mosteiro italiano. O
monge franciscano William de Baskerville (Sean Connery) investiga uma série de
assassinatos com a ajuda do noviço Adso von Melk (Christian Slater). Isso provo-
ca uma guerra ideológica entre os franciscanos e os dominicanos, enquanto o
monge lentamente soluciona os misteriosos assassinatos.
Comentário: o filme nos permite ter uma ideia do quão restrita era a educação
na Idade Média, sendo uma arma poderosa para manipular a população, que
não sabia ler e escrever.

120
material complementar

Indicação para Assistir

Tempos modernos
Ano: 1936.
Sinopse: o personagem Vagabundo, de Charlie Chaplin, é um operário empre-
gado em uma fábrica com linha de montagem, onde as máquinas, inevitável e
completamente, o dominam. Ele enfrenta vários percalços que o levam para a
prisão. Entre suas passagens pela cadeia, ele conhece e faz amizade com uma
garota órfã. Juntos e separados, os dois tentam lidar com as dificuldades da
vida moderna, o Vagabundo trabalhando como garçom e, eventualmente, como
artista.
Comentário: por meio das críticas de Chaplin vemos a sociedade da década de
1930 e suas demandas para o mercado de trabalho. Essas características –um
trabalhador “fixo” e especialista em uma única função, como apertar parafusos
– perduraram por muitos anos e demandaram que as escolas formassem, por
meio da educação, os sujeitos que atendessem a essa necessidade.

121
referências

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do professor PDE. Curitiba: Cadernos PDE, 2013.
p. 2-24.

123
gabarito

1. Opção correta é a D.
2. Opção correta é a C.
3. Opção correta é a C.
4. Opção correta é a A.
5. Opção correta é a B.

124
Anexo

Quadro 6: Continuação do plano de aula hipotético

Série: 5º ano
Duração: 15 dias
Disciplina: Matemática
Conteúdo: Probabilidade e estatística
Objetivo: formar cidadãos letrados, que saibam, além de conceitos, fazer uso social dos conteúdos, para que o
aluno, por meio das pesquisas quantificadas, compreenda sua realidade e amplie seus conhecimentos científicos.
Método: aulas expositivas e práticas, literatura, pesquisa em livros científicos na biblioteca da escola; pesquisa
em sites confiáveis no laboratório de informática da escola; resolução de situações problema em sala de aula,
na prática e por meio de softwares no laboratório de informática da instituição; elaboração de cartazes; elabo-
ração de gráficos utilizando materiais concretos como bola de isopor, garrafas pet de diferentes tamanhos etc.;
apresentação em grupo do resultado de uma pesquisa em malha quadriculada usando gravuras.
Instrumento: livro de literatura infanto-juvenil; quadro; caderno; lápis, borracha; biblioteca; sala de informática;
papel cartolina; sucatas; tinta; pincel; malha quadriculada; revistas.
Avaliação: será realizada durante as aulas, por meio da observação da participação dos alunos e o desenvolvi-
mento de suas atividades teóricas e práticas.
Disposição das aulas:
6ª aula 7ª aula 8ª aula 9ª aula 10ª aula
• Retomada do con- • Retomada da • Pedir que os alunos leiam • Relembrar o
ceito de gráfico. aula anterior. a definição de gráfico filme;
• Relembrar as
pictográfico pesquisado na
• Perguntar aos • Mostrar alguns • Separar a sala situações pro-
biblioteca.
alunos para que gráficos picto- em duplas para blema da aula
podemos usar gráficos nos • Pedir que os alunos façam resolver as situ- passada e pedir
gráficos e lembrar slides e pedir uma pequena produção ações problema que cada dupla
das atividades feitas que escolham textual sobre como podem de forma que se junte com
com gráficos de um para resol- utilizar esse gráfico no dia utilizem bolas outras, forman-
barras duplas. ver as situa- a dia. de isopor para do um grupo de
ções problema construir os até 4 pessoas,
• Explanar sobre o passadas no • Ver um trecho do filme “O gráficos pictográ- para trocarem
gráfico pictográfico. quadro. fantástico mundo da mate- ficos. informações
mática”, para que os alunos (quais eram
• Ir à sala de informá- vejam como o personagem os problemas,
tica para ver alguns usa os gráficos no dia a dia. como resolve-
exemplos de gráfi-
ram, como ficou
cos pictográficos no • Tarefa para casa: Trazer na
o gráfico, como o
Excel. Pedir que eles próxima semana 3 garrafas
confecciona-
montem um gráfico pet de diferentes tama-
ram).
a partir de uma situ- nhos.
ação problema.

[Continuação...]

125
Anexo

Disposição das aulas:


11ª aula 12ª aula 13ª aula 14ª aula 15ª aula
• Retomada da • Relembrar so- • Pedir que os • Depois das aulas sobre
• Retomada do
aula anterior. bre a pesquisa alunos escolham probabilidade e estatística,
conceito de gráfi-
e o painel que um dos gráficos espero que os alunos tenham
co e das ativida- • Mostrar o painel ficou em expo- estudados du- entendido que, por meio
des já realizadas construído pela sição na sala. rante as aulas e destas, podemos resolver
com gráfico de professora com o construam em diversos problemas do cotidia-
barras e picto- os dados das • pedir que os 3D com sucatas no. Dessa forma, direi para a
gráfico. pesquisas dos grupos apre- (tampinhas de turma que poderemos visitar
alunos. sentem os garrafas, barban- um museu na semana seguin-
• Explanar sobre o
gráficos elabo- te, garrafas pet, te, e que, para isso, 80% da
gráfico de linhas. • Separar os
rados. isopor, jornal turma precisa se comportar
alunos em
• Pedir que cada etc.) consideran- nos 3 dias seguintes. Direi
grupos para
aluno leia sobre do os resultados que, para isso, precisamos
que construam
a pesquisa feita das pesquisas mostrar à Diretora o número
um gráfico de
em casa sobre os que realizaram de pessoas que se comporta-
linhas a partir
lugares de pas- e o exposto no ram e em quais dias. Espero
dos resultados
seio da cidade e painel. que eles cheguem à conclusão
sobre número
da região. de que a probabilidade pode
de visitantes por
ser usada para o cálculo, e a
• Explorar os da- ano, mostrados
estatística, pode ser o meio de
dos quantitativos no painel.
mostrarmos os resultados à
das pesquisas e
Diretora. Faremos, então, um
anotar no qua-
gráfico na folha quadriculada,
dro.
com figuras.

Fonte: Elaborado pela autora (2018).

126
UNIDADE
IV
EXECUÇÃO DO PLANEJAMENTO

Professor Dra. Suzi Maria Nunes Cordeiro

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• Procedimentos de ensino
• Estratégias e técnicas para ação docente
• Competências, habilidades e postura docente

Objetivos de Aprendizagem
• Conhecer a práxis e os métodos de execução das ações
estabelecidas por meio do planejamento, a fim de
compreender os procedimentos de ensino com qualidade
para a aprendizagem significativa.
• Explorar diferentes estratégias e técnicas da ação docente,
para colocar em prática o planejamento com eficiência e
eficácia.
• Refletir sobre as competências, habilidades e a postura
necessárias para um professor com didática, a fim de
aprender sobre o papel do docente e sua significância no
processo de ensino e de aprendizagem.
unidade

IV
INTRODUÇÃO

O
lá, seja bem-vindo(a)! Nesta unidade, apresentamos as for-
mas de realização das ações estabelecidas por meio do plane-
jamento. Após o registro previamente elaborado, planejado e
refletido pelo professor, chega a hora de colocá-lo em prática
por meio de teorias que norteiam o planejamento e, agora, a ação docen-
te. Devemos compreender que as ações planejadas precisam ultrapassar
o registro a fim de ter significância na vida do professor e dos alunos.
Por isso, a execução do planejamento se faz tão importante quanto sua
elaboração.
Também tratamos sobre diferentes formas de colocar em prática o
plano de aula. Dessa forma, esperamos que você, caro(a) aluno(a), inicie
aqui seu conhecimento acerca dos métodos de execução do planejamen-
to, mas continue aprofundando-o ao longo de toda a sua vida docente,
visto que esses métodos estão sempre sendo renovados para proporcio-
nar um ensino eficiente e eficaz, visando a promoção da aprendizagem e
do desenvolvimento pleno do aluno.
Por fim, discutiremos sobre a importância da organização da e na
sala de aula, bem como a postura do professor em diferentes momen-
tos. Enquanto futuros professores, devemos saber lidar de forma ética
com as situações propícias e adversas da sala de aula. A preparação do
professor, para todas as circunstâncias, se inicia com a teoria e depois
com a prática, tornando-se, posteriormente, um looping contínuo de
teoria-prática-teoria.
Com esta unidade, esperamos que você, caro(a) aluno(a), compre-
enda a importância da efetivação do plano de aula por meio de práticas
que facilitem o processo de ensino e também envolvam o aluno, de for-
ma que o cativem e potencializem seu processo de aprendizagem e de
desenvolvimento.
DIDÁTICA

Procedimentos de Ensino

132
EDUCAÇÃO FÍSICA

Prezado(a) aluno(a), esperamos que você tenha precisamos continuar embasados em teorias educa-
compreendido que todas as ações escolares são cionais bem como nas reflexões sobre sua realização,
norteadas por tendências pedagógicas, ou seja, o que une teoria e prática.
por teorias da educação, bem como por filosofias
que amparam a visão de mundo, de sociedade e de REFLITA
educação. Desde os documentos educacionais até o
plano de aula, há pressupostos teóricos-metodoló- A teoria e a prática são como os dois lados de
gicos implícitos que se configuram em currículos uma mesma moeda: apesar de diferentes, são
escolares, aqui explicitados pela visão que concei- indissociáveis. Juntas, caracterizam a práxis.

tua toda a ação desenvolvida nas escolas. Ou seja, a


seleção de conteúdos, passando por ações não pla-
nejadas – denominadas de currículo oculto – até Precisamos constantemente realizar o exercício
as ações docentes intencionais, todas formam um de ação-reflexão para ter a certeza de que o que
currículo escolar. planejamos pode ser colocado em prática de for-
A partir do planejamento realizado, que con- ma eficiente e eficaz ou se precisa ser modifica-
sidera todos os aspectos mencionados de forma do. Independentemente dos resultados ao longo
implícita ou explícita, precisamos efetivá-lo para do processo de implementação do planejamento,
que se torne significativo. No momento da execu- precisamos refletir sobre como as ações podem
ção do planejamento, precisamos ter em mente a melhorar.
práxis pedagógica, ou seja, a aliança indissociável
entre a teoria e a prática. Konder (1992, p. 115) O mecanismo ação-reflexão garantirá assim, ao
educador, uma forma metodológica, racional
explica que:
e dinâmica, para a criação de um corpo de co-
nhecimentos próprios e originais, independen-
A práxis é a atividade concreta pela qual os tes e inovadores, situados e não-restritivos. Co-
sujeitos humanos se afirmam no mundo, mo- nhecimentos que lhe possibilitarão, se o desejar,
dificando a realidade objetiva e, para pode- a condução mais adequada de uma ação politi-
rem alterá-la, transformando-se a si mesmos. camente definida (LUCKESI, 1994, p. 170).
É a ação que, para se aprofundar de maneira
mais consequente, precisa da reflexão, do au-
toquestionamento da teoria; e é a teoria que Esse conhecimento próprio permite que o docente
remete à ação, que enfrenta o desafio de ve-
construa sua própria didática, específica para seus
rificar seus acertos e desacertos, cotejando-os
com a prática. alunos, mas que é dependente de uma sequência
infinita de ação-reflexão para uma nova ação. Em
Podemos entender que a teoria aprendida durante a consonância, Freire (2001) afirma que a reflexão
graduação nos dá base para refletir sobre nosso con- deve ser um instrumento dinamizador entre teoria
texto, nossos alunos e nossos conteúdos, a partir dos e prática, ou seja, apenas a reflexão não basta, é ne-
quais elaboramos um planejamento e o colocamos cessário agir; da mesma forma, a ação sem a reflexão
em prática. Durante a execução do planejamento, se torna vazia.

133
DIDÁTICA

As formas de colocar o planejamento em ação se


REFLITA
efetivam pelos procedimentos de ensino em busca de
uma aprendizagem de qualidade. Para tanto, precisa-
mos conhecer sobre os procedimentos de ensino, que Qual método você utiliza para estudar? Ele
está pautado em quais procedimentos: leitura
por sua vez, estão atrelados às perspectivas teórico- dos textos, visualização das aulas, resumo e
-filosóficas da educação que embasam os métodos de síntese de materiais e/ou confecção de or-
ensino. Apenas para lembrarmos, caro(a) aluno(a), na ganogramas?

Unidade II vimos que cada tendência pedagógica utili-


zou determinados métodos de ensino. Aqui, nesta uni-
dade, veremos os que mais se destacam na atualidade. Os métodos de aprendizagem condizem com o obje-
tivo (aprender, decorar, relacionar, entre outros). Ge-
ralmente estão ligados a nossas habilidades mais de-
Os métodos são determinados pela relação ob-
senvolvidas (visão, audição, memória, atenção etc.),
jetivo-conteúdo, e referem-se aos meios para
alcançar objetivos gerais e específicos do ensi- por exemplo: existem pessoas que aprendem mais
no, ou seja, ao ‘como’ do processo de ensino, quando leem os materiais da disciplina e depois, sem
englobando as ações a serem realizadas pelo olhar, escrevem uma síntese do que entenderam.
professor e pelos alunos para atingir os objeti- Salientado o conceito de método, não podemos
vos e conteúdos. [...] métodos de ensino: estão
confundi-lo com metodologia, ou seja, as teorias
orientados para objetivos; implicam uma su-
cessão planejada e sistematizada de ações, tan- filosóficas que embasam as ações pedagógicas por
to do professor quanto dos alunos; requerem a meio da visão de mundo, de sociedade e de educação.
utilização de meios (LIBÂNEO, 2013, p. 149). O que vamos enfatizar neste capítulo é o método de
ensino, pois as metodologias já foram explanadas
nas entrelinhas de cada tendência pedagógica apre-
Dessa forma, podemos compreender que método, na sentada nos capítulos anteriores.
visão de Libâneo (2013), se iguala ao conceito de pro- Rangel (2005) salienta que existem métodos de
cedimento, ou seja, conjunto de ações, passos e con- ensino predominantemente individualizados e ou-
dições que o professor utiliza para viabilizar o proces- tros aplicados a grupos. No primeiro caso, o pro-
so de ensino em função da aprendizagem do aluno. fessor expõe os conteúdos de forma predominante.
O referido autor ainda exemplifica: “[...] à atividade Há participações dos alunos, ainda que poucas ou
de explicar a matéria corresponde o método de ex- indiretas, realizadas por meio de leituras, perguntas,
posição; à atividade de estabelecer uma conversação relatos de caso e outros fatos. Consideramos o termo
ou discussão com a classe corresponde o método de “predominante” (e não “exclusivo”) por entender-
elaboração conjunta”. Além desses há vários métodos mos que o aluno, ainda que diante de métodos expo-
utilizados pelo professor e pelo próprio aluno, por sitivos como ocorre nas escolas tradicionais, apren-
exemplo: “[...] à atividade de observação correspon- de e interage com textos, reflete sobre os conteúdos e
de o método de observação [...]”, assim segue outros forma um conhecimento, tendo, assim, participação
métodos de aprendizagem (LIBÂNEO, 2013, p. 149). em sua formação escolar.

134
EDUCAÇÃO FÍSICA

Em consonância, Libâneo (2013, p. 161) salienta Libâneo (2013) especifica que por exposição
que a utilização consciente desse método de exposição exemplificativa entende-se a leitura, a escrita ou a
da matéria é fala simples de exemplos relacionados ao conteúdo,
sobretudo quando se precisa que os alunos vejam e
[...] um procedimento necessário, desde que o sigam o exemplo para apreender o que está sendo
professor consiga mobilizar a atividade interna
ensinado. A exposição ilustrativa se caracteriza pela
do aluno de concentrar-se e de pensar, e a com-
bine com outros procedimentos, como o traba- utilização de imagens, gráficos, cartazes, dentre ou-
lho independente, a conversação e o trabalho tros recursos visuais que ajudam a ilustrar o que está
em grupo (LIBÂNEO 2013, p. 161). sendo explicado.
Rangel (2005) explana, ainda como método de
O autor ainda exemplifica algumas formas de exposi- ensino individualizado, o estudo dirigido, em que o
ção, tais como verbal, demonstrativa, exemplificativa professor conduz uma mediação entre o aluno e o
e ilustrativa. A exposição verbal é necessária quan- objeto de estudo, de forma com que o aprendiz de-
do o professor não tem possibilidade de promover o senvolva autonomia em seus estudos. Para tanto, é
contato do aluno diretamente com o material de es- necessário ofertar momentos de leitura, pesquisa e
tudo. Nesse contexto, Libâneo (2013) afirma que a ex- atividades de produção individual, tais como textos,
plicação sistematizada se faz necessária para desper- organogramas e outros meios para sintetizar o con-
tar a atenção do aluno. Dessa forma, proporciona-se teúdo, de forma com que o próprio aluno chegue à
estímulos e interesse pelo conteúdo, trazendo expli- conclusão do que de fato aprendeu.
cações por meio de acontecimentos, leituras expres- Como podemos observar, as aulas expositivas
sivas, entre outros instrumentos que ajudem o aluno são indispensáveis, visto que o professor precisa
a desenvolver suas habilidades cognitivas (atenção, apresentar o conteúdo científico para conhecimen-
memória, percepção auditiva, entre outras). to do aluno. Contudo, esse método não se resume
Vemos, portanto, que o método expositivo não a uma simples técnica de fala docente e escuta
se resume ao monólogo do professor durante horas discente. São necessárias técnicas que envolvam
à frente da turma. É necessário preparo por parte do o sujeito para que desperte seu interesse, efetiva
docente, que deve cativar, trazer informações impor- participação em sua formação e desenvolvimento
tantes, expor de forma interessante os conteúdos cien- de habilidades cognitivas necessárias para seu de-
tíficos e promover o conhecimento de todos os alunos senvolvimento. Estímulos auditivos, visuais, sen-
a fim de desenvolver competências e habilidades. soriais, dentre outros, são de extrema relevância
A exposição demonstrativa envolve experimen- para que as aulas expositivas sejam significativas,
tos, demonstração de situações problema, dentre demandam criatividade e saber pedagógico. Até
outros recursos com os quais o professor evidencia mesmo nos estudos dirigidos não basta que o
ou comprova o conteúdo a ser explicado (LIBÂNEO, professor solicite aos alunos uma pesquisa sem ao
2013). As demonstrações proporcionam o desenvol- menos explicar o que é pesquisa e como se reali-
vimento das percepções sensoriais, da imaginação, da za. Como o próprio nome já diz, o docente precisa
criatividade, da atenção, da memória, entre outras. conduzir os estudos do aluno.

135
DIDÁTICA

SAIBA MAIS teúdo a ser estudado, ainda que não seja sistemati-
zado, mas que por meio das mediações e conduções
O método expositivo, sem dúvida, nos re- do professor, tornam-se sistematizados pela partilha
mete ao ensino tradicional pelo qual ficou e construção conjunta de saberes (LIBÂNEO, 2013).
muito marcado. Apesar de exibir pontos
Isso proporciona o desenvolvimento de habilidades
negativos que devam ser superados, essa
tendência possui aspectos positivos que me- como análise, reflexão e comparação. Essas conver-
recem ser utilizados devido a sua eficiência sações devem suscitar atividades mentais que visam
e eficácia, tais como os métodos expositivos.
respostas sobre as causas dos fenômenos analisados
Com a diferença de que o professor pode e
deve envolver os alunos. Santos e Belmino pelo grupo, de forma que reconheçam a relação en-
(2013) salientam que esse método, muitas tre o objeto de análise, os acontecimentos, a avalia-
vezes, é o único utilizado pelos professores
ção crítica e a busca de novos caminhos para solu-
de escolas mais carentes, ou seja, de
instituições que não possuem recursos cionar o problema.
tecnológicos ou ao menos materiais como Os seminários são frequentes em muitas au-
mapas, painéis ilustrativos, dentre outros
las, mas precisamos tomar cuidado para que não
que possibilitem exposições e estimulem
o interesse do aluno. se tornem responsabilidade somente do aluno. A
Apesar de o método tradicional ser o mais partir de um conteúdo, o professor separa a turma
viável pela simplicidade, economia e prati-
em grupos e cada um apresenta seu material à clas-
cidade, não podemos retornar ao que já foi
superado e conquistado para nossa educa- se depois de estudos e pesquisas (LIBÂNEO, 2013).
ção. Quer relembrar as características mais Para que não seja algo cansativo, composto apenas
marcantes da tendência tradicional que já
de exposição verbal, o professor precisa ter domí-
foram superadas? Veja, no final deste capí-
tulo, uma sugestão de vídeo que aborda o nio do conhecimento científico desse método, para
tema em forma de música. conduzir uma discussão reflexiva que propicie a
Fonte: Santos e Belmino (2013). produção de novos saberes. Assim, os alunos podem
desenvolver habilidades de expressão oral, reflexão,
argumentação e persuasão.
O método de pesquisa é versátil, pois se adequa
Em relação aos métodos aplicados a grupos, pode- a qualquer estratégia e técnica de ensino. Kuenzer
mos afirmar que se baseiam em interações diretas (2005) explica que, para uma pesquisa de qualida-
entre alunos e objetos com a mediação do profes- de, o professor deve oferecer ao aluno materiais para
sor. Assim, o aluno se torna mais ativo na produção além de livros didáticos, ou seja, textos científicos
de conhecimento individual e coletivo (RANGEL, com fontes confiáveis (artigos de revistas científicas,
2005). Alguns exemplos de métodos aplicados aos periódicos, jornais); dicionários; documentários;
grupos são: elaboração conjunta, seminários, pes- entre outros que, inclusive, podem ser acessados
quisas e problematização. pelos alunos na própria biblioteca da escola. Essa
O método de elaboração conjunta envolve a pesquisa deve ser conduzida pelo professor, ou seja,
atividade da conversação, que acontece quando os não basta indicar um tema sobre o qual o aluno deve
alunos já possuem um conhecimento prévio do con- buscar informações como tarefa de casa, sem orien-

136
EDUCAÇÃO FÍSICA

tações. É necessário, em primeiro lugar, explicar o Vemos, portanto, que os métodos envolvendo gru-
que é pesquisa, onde pesquisar e porque pesquisar. pos precisam atingir toda a classe com orientações
Esses momentos devem ser realizados na própria es- e mediações do professor. Nesse meio, a produção
cola, com a mediação do professor, até que os alunos sistematizada do conhecimento se efetiva de forma
aprendam a fazer sozinhos, de forma que consigam participativa, considerando o que o aluno já sabe até
abstrair o conhecimento e não, simplesmente, escre- a (re)estruturação de novos conhecimentos, bem
ver sobre o assunto e entregar para obter nota. como desenvolvimento de competências e de habili-
Ao tratarmos do método de problematização dades cognitivas, sociais e físicas.
devemos considerar que este deve proporcionar a Os métodos de ensino são utilizados para ex-
construção do conhecimento, provocação da capa- ploração e aplicação dos conteúdos, a fim de que
cidade de pensar, de representar, de relacionar e de facilitem a apresentação dos conceitos e contextos
agir e, a partir de então, de transformar a realidade. fundamentais para compreensão da matéria e apre-
Isso porque tem sua gênese nos métodos de Freire ensão por parte do aluno. Todas essas ações pre-
(2001), que considerava a educação como um meio cisam estar em consonância com o plano de aula.
de emancipação do oprimido, a fim de que ele re- Contudo, segundo Veiga (2006), os métodos de en-
conheça sua atual condição e saia dela por meio da sino não são os únicos elementos a serem pensados
reflexão e ação. Por isso, ao utilizarmos a problema- como procedimentos. Temos, ainda, que levar em
tização, lidamos mais com a fala dos discentes do consideração as estratégias e as técnicas adequa-
que do professor, para que se possa ouvir relatos, das a serem utilizadas para que o aluno realmente
opiniões e, a partir destes, construir novos conheci- aprenda e se desenvolva de forma atuante em sua
mentos que suportarão e conduzirão o caminho do formação, com qualidade de ensino e aprendiza-
sujeito crítico e reflexivo. gem. Por isso, discutimos no item a seguir os di-
ferentes meios que o professor possui para efetivar
esses processos.

137
DIDÁTICA

Estratégias e Técnicas para


ação Docente

Para que os métodos de ensino e aprendizagem precisa atingir, por meio de técnicas, as metas es-
sejam eficientes, devemos pensar como procedi- tabelecidas com o conteúdo. Para tanto, deve con-
mentos de ensino os materiais, as técnicas e os lo- siderar os objetivos estipulados no plano de aula
cais que utilizaremos para potencializá-los. Se com e elaborar as estratégias. Para exemplificar, vamos
os métodos o docente apresenta, por exemplo, os retomar um excerto do plano de aula elaborado na
conceitos e os contextos de forma significativa, ele Unidade III:

138
EDUCAÇÃO FÍSICA

Quadro 1: Excerto do plano de aula hipotético

Disciplina: matemática

Conteúdo: probabilidade e estatística

Objetivo: formar cidadãos letrados, que saibam, além de conceitos,


fazer uso social dos conteúdos, para que o aluno, por meio das
pesquisas quantificadas, compreenda sua realidade e amplie seus
conhecimentos científicos.

Método: aulas [...] práticas, [...] apresentação em grupo do resultado


de uma pesquisa em malha quadriculada usando gravuras.

Instrumentos e recursos: [...] lápis, borracha; biblioteca; sala de


informática; [...] malha quadriculada; revistas.

Fonte: Elaborado pela autora (2018).

Na unidade anterior, vimos como elaborar um pla- apropriando teórica e praticamente do conteúdo,
no de aula, em essência; nesta unidade, veremos para que assim ele compreenda sua significância e
como colocá-lo em prática, por isso precisamos co- o veja como um possível meio de resolver proble-
nhecer diferentes procedimentos de ensino. Nesse mas cotidianos. Apenas depois de elaborar a estra-
plano de aula hipotético elencamos, como um dos tégia mais eficiente para atuação docente é que es-
objetivos, “formar cidadãos letrados”, ou seja, que colhemos o método para consecução dos objetivos
saibam fazer uso social do que aprenderam. Para da disciplina e elencamos as técnicas mais eficien-
atingi-lo, precisamos pensar em estratégias que fa- tes para o processo de ensino e de aprendizagem
çam o aluno explorar o conteúdo de forma ativa, se (VEIGA, 2006).

139
DIDÁTICA

Por isso, levando em consideração o plano de pensamos em métodos práticos para que o professor
aula apresentado, podemos adotar como estraté- envolva a turma, tais como aula prática e pesquisa,
gia o trabalho por meio de situações problema, que como vemos no plano de aula. Para tanto, usa-se a
proporciona aos alunos, a partir de conhecimentos técnica de resolução de problemas, conta-se com
sistematizados, construídos por meio de pesquisas, instrumentos que os alunos possam manusear (lá-
a resolução de problemas impostos pela professo- pis, malha quadriculada etc.) para concretizar o que
ra, de forma que a solução seja obtida com o uso do aprenderam e fazer o uso do conteúdo, neste caso, a
conteúdo apreendido. Com essa estratégia definida, probabilidade e a estatística.

Na figura a seguir vemos que esses elementos do procedimento de ensino pos-


suem diferentes opções que podem resultar em métodos distintos:

Figura 1: Procedimentos de ensino adaptado de Veiga (2006)


Fonte: Elaborado pela autora (2018).

140
EDUCAÇÃO FÍSICA

Diante do exposto, compreendemos que cada mé- podem ser pensadas para trabalhar estatística e pro-
todo de ensino pode derivar de uma estratégia e de babilidade com o fim de formar cidadãos letrados?
uma técnica diferente. Essa ilustração nos ajuda a Elencamos, no quadro a seguir, algumas possíveis
pensar em algumas possibilidades para o mesmo respostas a serem exploradas, que podem ser utili-
caso. Dessa forma, quais outras estratégias e técnicas zadas para diversos conteúdos e disciplinas:

Quadro 2: Exemplos de estratégias, técnicas, recursos e instrumentos para uso em sala de aula

ESTRATÉGIAS TÉCNICAS RECURSOS INSTRUMENTOS


• Sucatas;
• Artesanatos;
Projetos • Ateliê da escola. • Isopor;
• Confecção de maquetes.
• Cartolina.
Metodologias ativas • Utilização de tecnologias. • Sala de metodologias ativas. • Computadores.
Feira de ciência • Realização de experiências. • Laboratório. • Tubos de ensaio.
Fonte: Elaborado pela autora (2018).

Com relação aos projetos, trata-se de uma estratégia rar um projeto, precisamos pensar nos objetivos que
que pode ser utilizada desde a elaboração dos obje- se pretende atingir, que estão para além daqueles já
tivos de um conteúdo, de uma disciplina ou, até, da estabelecidos na BNCC (2017), por exemplo, e no
escola como um todo. Podemos criar um pequeno plano de aula, pois se volta às intenções da própria
projeto sobre estatística e probabilidade, por exem- escola com os alunos, como desenvolver habilidades
plo, ou maior, um projeto para a disciplina de mate- e competências voltadas à socialização, a funções
mática que durará um bimestre, ou ainda um grande cognitivas, dentre outras mais específicas que aten-
projeto envolvendo toda a escola, com duração de dam a uma necessidade dessa escola, série ou classe.
um semestre, sobre a aplicabilidade da matemática Além de objetivos, os projetos apresentam em
na contemporaneidade (HERNÁNDEZ; VENTU- sua estrutura uma justificativa que explica sua ne-
RA, 1998). cessidade, a seleção de conteúdos que irão compor
Algumas instituições da Educação Básica tra- os estudos, um cronograma com o tempo de dura-
balham apenas com projetos, ou seja, a partir dos ção e os prazos para execução das atividades previs-
conteúdos curriculares elabora-se um projeto para tas, além da avaliação, que deve ser específica. Para
ser desenvolvido com os alunos (de uma classe, de Hernández e Ventura (1998), essa avaliação deve ser
uma série ou da escola inteira). Para tanto, ao elabo- realizada ao longo do projeto.

141
DIDÁTICA

Figura 2: Projeto Bichos do Jardim


Fonte: Arquivo pessoal (2018).

Geralmente, essa estratégia resulta na apresentação com interdisciplinaridade, que, segundo Moraes
das atividades (cartazes, materiais confecciona- (2005), é “[...] uma abordagem epistemológica que
dos pelos alunos etc.) para a comunidade interna nos permite ultrapassar as fronteiras disciplinares e
e externa. Com isso, há inúmeras questões a serem nos possibilita tratar, de maneira integrada, os tópi-
trabalhadas com os alunos, e elas vão além dos as- cos comuns às diversas áreas”. Seguindo com nosso
pectos de conteúdo: abrangem responsabilidade, exemplo, podemos trabalhar a estatística e a proba-
cuidado e estética das atividades, desenvolvimento bilidade de forma que ultrapassem a barreira da ma-
da escrita de forma que o leitor a compreenda, refle- temática. Pode ser utilizada a interpretação textual, a
xão, síntese e persuasão para apresentações ao públi- análise de dados da economia do nosso país, dentre
co, oratória, entre outros. outras opções que envolvam as demais áreas cientí-
Além de ser possível criar projetos para qual- ficas que a escola precisa trabalhar (português, his-
quer disciplina, há a oportunidade de se trabalhar tória, geografia, ciências, educação física e artística).

142
EDUCAÇÃO FÍSICA

REFLITA nos e da intencionalidade de cada atividade. Esse


conjunto de procedimentos de ensino, que utiliza
Você já participou de algum projeto enquan- como estratégia os projetos e como técnica a con-
to aluno na Educação Básica? Se sim, como fecção pelas mãos dos alunos, se alia bem com o
foi? Essa estratégia de ensino costuma ser método de pesquisa, por exemplo, visto que pro-
significante, pois trabalha com experiências e
outras técnicas e recursos diferentes do que fessores e alunos precisam investigar constante-
vemos com frequência. mente sobre conteúdos, recursos materiais, entre
outros aspectos.
Dentro de ambientes não formais de aprendi-
Considerando o exposto, o projeto é uma ótima zagem os projetos são utilizados com maior fre-
estratégia de ensino. Além de organizar os saberes quência, sendo uma prática comum e eficaz para
escolares em direção à interdisciplinaridade, como atingir objetivos que as empresas e instituições
pontua Serafim e Maia (2014), faz com que o aluno possuem com os momentos de ensino e de apren-
seja sujeito ativo na construção do conhecimento e dizagem. Nesses espaços não formais, os projetos
faça uso dos conteúdos de forma prática. Além dis- ajudam a efetivar as atividades de ensino que o
so, o fato de apresentar suas criações a amigos e fa- profissional utilizará com seus alunos, para atingir
miliares contribui para a questão afetiva, visto que determinados objetivos e necessidades dos pró-
será mais um motivo para aprender, fazer as ativida- prios sujeitos aprendizes.
des de forma caprichada, proporcionando satisfação
e (auto) reconhecimento. SAIBA MAIS
No exemplo do quadro 2, apontamos como
possível técnica para projetos a confecção de arte- Como já vimos em capítulos anteriores, o que
sanatos e maquetes. Contudo, há muitas outras ati- caracteriza um ambiente não formal de apren-
vidades que permitem a exploração e o desenvolvi- dizagem é a realização de procedimentos de
ensino e de aprendizagem com objetivos
mento de habilidades como percepção, motricidade, voltados para a atuação do sujeito em sua
raciocínio lógico, entre outras. Quanto aos recur- sociedade, sem que haja um currículo formal,
sos, seguem o mesmo princípio, ou seja, apesar de como há nas escolas. Ficou curioso sobre os
projetos em ambientes não formais de apren-
poderem ser realizados em ateliês de arte, projetos dizagem? Verifique, no final deste capítulo,
também podem ser realizados em sala de aula, audi- em “Leitura complementar”, uma seleção de
tório, quadra esportiva e outros espaços escolares de alguns projetos desenvolvidos nesses locais
que podem ser seu futuro campo de trabalho.
que se disponha.
Os instrumentos são mais vastos ainda, depen- Fonte: Elaborado pela autora (2018).

dem apenas da criatividade do professor, dos alu-

143
DIDÁTICA

Passamos agora a conhecer as metodologias ativas, que também escreveu sobre a pedagogia de Dewey,
que apesar da nomenclatura não são propriamente foi um dos signatários. Vejamos um excerto que ex-
metodologias, visto que não se trata de teorias me- plica a importância de se trabalhar com a experiên-
todológico-filosóficas da educação, mas sim estra- cia dos alunos:
tégias que podem ser utilizadas pelo professor para
ensinar seus alunos com participações mais diligen- Quando os alunos estudam assuntos muito
distantes de sua experiência, assuntos que não
tes. Devemos destacar que não se trata de algo novo,
despertam curiosidade ativa alguma e que es-
apesar de ser muito utilizado na atualidade, como tão além do seu poder de compreensão, lançam
salienta Abreu (2009). mão, para as matérias escolares, de uma medida
Em consonância com o autor citado, vimos, na de valor e de realidade, diversa da que empre-
Unidade II, que a escola nova já visava uma peda- gam fora da escola, para as questões de interes-
se vital. Tendem a tornar-se intelectualmente
gogia ativa, com foco no aluno e sua aprendizagem.
irresponsáveis; não perguntam a significação
Dessa forma, as metodologias deveriam voltar- do que aprendem, isto é, não perguntam qual a
-se para a aprendizagem, como preconizava John diferença trazida pelo novo conhecimento para
Dewey (1859-1952), o nome mais citado na corrente as outras suas crenças e ações (WESTBROOK;
TEIXEIRA, 2010, p. 126).
escolanovista.
Para Dewey (1979), a educação era como um
processo de reconstrução e reorganização das experi- A partir de então, as tendências que seguiram à esco-
ências de cada um. Logo, não deveria ser uma impo- la nova, no Brasil, também adotaram estratégias que
sição vertical, como ofertava o esquema tradicional, envolviam mais o aluno na construção de seu pró-
mas deveria proporcionar o controle do indivíduo prio conhecimento, de forma ativa. Como exemplo
sobre suas próprias experiências e personalidade. podemos citar a tendência progressista, também já
Sua concepção de educação, portanto, estava inter- abordada em unidades anteriores, cujo maior repre-
ligada à concepção de experiência, que por sua vez sentante foi Paulo Freire (1921-1997), que afirmava:
é a multiplicidade de relações existentes pelas quais
os corpos agem sobre o outro (sujeito ou objeto), de As crianças precisam crescer no exercício desta
capacidade de pensar, de indagar-se e de inda-
forma que modifique tanto o aluno quanto o objeto.
gar, de duvidar, de experimentar hipóteses de
Essa é a essência das chamadas metodologias ação, de programar e de não apenas seguir os
ativas, pois proporcionam o contato direto do sujei- programas a elas, mais do que propostos, im-
to aprendiz com o objeto de estudo, em uma relação postos. As crianças precisam ter assegurado o
de experiências que modificam o sujeito, por apren- direito de aprender a decidir, o que se faz deci-
dindo (FREIRE, 2000, p. 25).
der, compreender e (re)significar o objeto; também
modificam o objeto que, para o aluno, passa a ter
novos significados. Os ideais de John Dewey para a A esse método, Freire (2000) chamava de problema-
educação foram disseminados, aqui no Brasil, na dé- tização, o qual já vimos no primeiro tópico desta uni-
cada de 1930, por meio do Manifesto dos Pioneiros dade. A valorização do diálogo é nítida na pedagogia
da Educação, do qual Anísio Teixeira (1900-1971), freireana, e objetiva fazer com que o sujeito desmis-

144
EDUCAÇÃO FÍSICA

tifique sua condição social e seja o responsável por lização de métodos, estratégias e técnicas de ensino
sua própria formação e emancipação humana. Dessa que consideram o sujeito, sua relação com o outro e
forma, a atual metodologia ativa possui semelhan- com o objeto de estudo. Esses princípios são utiliza-
ças também com a teoria de Freire (2000), que, as- dos até hoje em diversas escolas pelo país. Com base
sim como a problematização da realidade e a prática na teoria sociointeracionista, pluralizada por Vygot-
reflexiva, é uma estratégia que facilita o processo de sky (1991), foi possível compreender que o desen-
ensino, conduzindo o discente à autossuficiência ao volvimento humano se faz nas relações e nas trocas
mesmo tempo em que proporciona uma aprendiza- sociais, por meio de interação e mediação. Por isso,
gem participativa, consciente e libertadora. mais uma vez, a atual metodologia ativa é vista como
Por fim, a tendência histórico-crítica foi a gran- uma adequada estratégia de ensino para alcançar os
de responsável, no Brasil, pela massificação da uti- objetivos de aprendizagem.

Figura 3: Sala invertida da Unicesumar


Fonte: Unicesumar (2018).

Apesar de muitos considerarem que as metodologias essa estratégia com o uso de tecnologias como técni-
ativas só funcionam nos casos em que o professor cas de ensino, em que o docente pode proporcionar
utiliza instrumentos tecnológicos, vimos que isso momentos de aprendizagem por meio de softwares,
não ocorre necessariamente, sobretudo porque nos internet, entre outros aspectos computacionais. Po-
anos em que a tecnologia na educação ainda não era de-se, ainda, utilizar como recurso as salas de me-
realidade, como na década de 30, já existiam alunos todologias ativas, as chamadas salas invertidas, que
ativos. Hoje, contudo, com o recurso das salas infor- são diferenciadas por permitir que todos, professor
matizadas – que algumas escolas já possuem – o pro- e alunos, se comuniquem, se vejam e interajam de
cesso de ensino é facilitado com a estratégia da meto- diversas formas. Assim, os computadores podem ser
dologia ativa. Por isso, no quadro 2, exemplificamos apenas um dos muitos instrumentos utilizados.

145
DIDÁTICA

Passamos a analisar, caro(a) aluno(a), a última es- Muito similares aos projetos, as feiras resultam em
tratégia elencada no quadro 2. Utilizar como estra- apresentações públicas que promovem troca de ex-
tégia uma feira de ciências é considerar que o aluno periências, despertam a curiosidade entre os alunos,
é capaz de promover conhecimento a partir do que suscitam um compromisso com o saber e uma von-
foi ensinado e aprendido, sendo isso um mérito tade de aprender, além de proporcionarem satisfa-
seu, quanto professor, e dele, quanto aluno. Se- ção com os trabalhos bem apresentados.
gundo Ormastroni (1990, p. 7), a feira de ciências O termo “feira de ciências” é utilizado para
é “[...] uma exposição pública de trabalhos cientí- comportar todas as grandes ciências: Língua
ficos e culturais realizados por alunos. Estes efe- Portuguesa, Matemática, História, Geografia,
tuam demonstrações, oferecem explicações orais, Ciência, Educação Física, Artes, entre outras. Des-
contestam perguntas sobre os métodos utilizados sa forma, as escolas podem trabalhar com uma úni-
e suas condições”. ca área ou todas elas, conforme preferir. É muito
Por meio dessa definição, vemos com quantas comum, para essa estratégia de ensino, que se utili-
competências e habilidades o professor pode tra- ze como técnica as experiências, tanto aquelas rea-
balhar além das exigidas para o conteúdo em si. lizadas pelo professor, a fim de explicar e exemplifi-

146
EDUCAÇÃO FÍSICA

car, quanto as realizadas pelos alunos, para praticar Diante do exposto, caro(a) aluno(a), vemos que
o que aprenderam. Por isso, nas feiras de ciências, há muitas maneiras de colocar nosso plano de aula
vemos a interação dos alunos com o público por em ação, seja de forma mais expositiva ou mais par-
meio de experiências, o que coloca o discente como ticipativa. O interessante seria um equilíbrio entre
responsável por repassar o conhecimento. ambas, sempre visando a formação do conhecimen-
Como recurso para realização dessas experiên- to e o desenvolvimento pleno do sujeito aprendiz.
cias, sugerimos os laboratórios (de química, de fí- De todas as formas, o professor precisa dominar o
sica, de biologia, entre outros), que muitas escolas conhecimento ensinado e os procedimentos de ensi-
possuem. Contudo, a própria sala de aula, o pátio no que serão utilizados, para que se efetive o traba-
da escola ou as quadras esportivas podem ser lócus lho na prática.
de experiências, tudo depende do que será realizado, Pensando nesse domínio docente é que vere-
considerando, sobretudo, a segurança dos alunos, mos, no próximo tópico, quais são as competências
do professor e do espaço físico. e as habilidades de que um professor precisa para
O tubo de ensaio é apenas um dos vários ins- ter uma boa didática. Além disso, um aspecto fun-
trumentos que podem ser utilizados para experiên- damental na formação de qualquer profissional é a
cias, afinal, quando se fala em feira de ciências, ele ética, por isso passamos adiante para compreender
é a imagem mais projetada pela maioria. Contudo, tais elementos essenciais do ser professor.
se falamos em uma feira de História ou de Língua
Portuguesa, por exemplo, os materiais utilizados
serão bem diferentes dos tubos de química, corre-
to? Devemos lembrar que cada instrumento está
intimamente ligado aos objetivos estabelecidos no
plano de aula.
Novamente, a interdisciplinaridade pode ser fa-
cilmente utilizada na ação docente. Em uma feira
de Geografia, por exemplo, qual experiência mais
vemos nas escolas? Seria aquela que demonstra a
atividade de um vulcão? Dessa forma, para que o
aluno apresente conteúdos sobre o vulcão, precisará
saber o que é um vulcão, como é a atividade vulcâ-
nica, quais elementos químicos precisa utilizar para
reproduzir uma atividade vulcânica, o que acontece
com o solo após essa explosão, dentre outras curio-
sidades que façam o público se interessar pela apre-
sentação. O trabalho, portanto, deverá ser interdis-
ciplinar, conciliando conhecimentos de geografia,
química e física, por exemplo.

147
DIDÁTICA

Competências, Habilidades
e Postura Docente

Ao longo de nossa vida escolar temos muitos mode- mas posturas que são exigidas desse profissional
los de professores, alguns nos inspiram e, em alguns dentro e fora de sala de aula. É sobre esse perfil
casos, são a razão de seguirmos a carreira docente. profissional que refletiremos a partir de agora, a
Esse contato com a figura docente desde a tenra fim de aprender sobre o papel do professor e sua
idade reflete-se no (futuro) educador que seremos, importância no processo de ensino e de aprendi-
pois, com base nas experiências sensoriais, afetivas e zagem. Para tanto, nos basearemos na Resolução
sociais, podemos reproduzir determinadas didáticas nº 2 de 2015 do CNE e do Conselho Pleno (CP),
e/ou escolher um caminho totalmente contrário. que define as Diretrizes Curriculares Nacionais
Algumas competências e habilidades são in- para formação inicial em nível de Ensino Superior,
dispensáveis para o “ser docente”, bem como algu- apresentando os princípios e condições de ensino e

148
EDUCAÇÃO FÍSICA

de aprendizagem para os acadêmicos, futuros pro- I - atuar com ética e compromisso com vistas
fessores, a fim de identificar as principais compe- à construção de uma sociedade justa, equâni-
me, igualitária; [...] III - trabalhar na promoção
tências e habilidades exigidas pelo Ministérios da
da aprendizagem e do desenvolvimento de su-
Educação (MEC). Também contamos com a ajuda jeitos em diferentes fases do desenvolvimento
de Philippe Perrenoud, sociólogo suíço, cujas obras humano nas etapas e modalidades de educação
fundamentam as teorias aqui expostas. básica; [...] VI - promover e facilitar relações
Vimos em unidades passadas que o professor de cooperação entre a instituição educativa, a
família e a comunidade; [...] IX - atuar na ges-
precisa proporcionar atividades e momentos que
tão e organização das instituições de educação
privilegiem o desenvolvimento de competências e básica, planejando, executando, acompanhan-
habilidades de seus alunos, ou seja, por meio do do e avaliando políticas, projetos e programas
ensino planejado, o docente ajudará seus alunos a educacionais; XI - realizar pesquisas que pro-
porcionem conhecimento sobre os estudantes
aprender a teoria dos conteúdos, realizar atividades
e sua realidade sociocultural, sobre processos
que desenvolvam habilidades cognitivas, físicas, de ensinar e de aprender, em diferentes meios
sociais e psicológicas, para que, por fim, desenvol- ambiental-ecológicos, sobre propostas curricu-
vam competências por meio da teoria e da prática, lares e sobre organização do trabalho educativo
e práticas pedagógicas, entre outros[...] (BRA-
para resolver problemas do cotidiano com o co-
SIL, 2015, p. 7-8).
nhecimento científico. Para que isso seja possível,
porém, o próprio educador precisa desenvolver Essas chamadas aptidões que o MEC exige são seme-
competências e habilidades para lecionar e provo- lhantes às competências para ensinar que Perrenoud
car tudo isso. (2000) elenca como fundamentais. Ao longo de seu
As competências, segundo Perrenoud (1999, p. livro, o referido autor explica dez competências:
36), são “[...] importantes metas da formação. Elas
podem responder a uma demanda social dirigida
para a adaptação ao mercado e às mudanças e
também podem fornecer os meios para apreender a
realidade e não ficar indefeso nas relações sociais”.
Podemos compreendê-las como domínios práticos
das situações cotidianas que precisamos resolver.
A Resolução nº 2 de 2015 do CNE/CP exige que
os egressos dos cursos de graduação tenham algu-
mas competências, o que o documento chama de
aptidão. Dessa forma, espera-se que os acadêmicos
saiam aptos a realizarem determinadas atividades
que unem a teoria e a prática aprendidas durante o
curso, de forma que consigam desempenhar seu tra-
balho de forma satisfatória. Vejamos algumas:

149
DIDÁTICA

Com a análise das competências sugeridas por Per- competência para mediar o conteúdo entre o sujei-
renoud (2000), verificamos que elas se dividem em to e o objeto parece algo simples, mas demanda um
quatro grandes grupos de competências de um bom conjunto de habilidades complexas. A competência
professor contemporâneo, sendo: ensino, mediação, de conhecer é ampla, visto que envolve uma gama de
conhecimento e gestão. A competência para ensinar conhecimentos. Já a competência de gestão envolve
é indispensável, pois sem explicações claras e méto- controle de tempo, de turma, da administração da
dos de ensino eficazes, os alunos não aprendem. A escola como um todo, entre outros aspectos.

Figura 4: As grandes competências essenciais do professor e as dez com-


petências de Perrenoud (2000)
Fonte: Elaborado pela autora (2018).

Mas indissociáveis às competências são as habilida- Em outras palavras, caro(a) aluno(a), são as ações
des. Uma habilidade, segundo Perrenoud (1999, p. em si, os meios pelos quais colocaremos nossos do-
33), pode ser definida como uma mínios em prática para obtermos as competências
necessárias e resolver os problemas.
[...] ‘inteligência capitalizada’, uma sequência de Retomando a Resolução nº 2 de 2015, vista em
modos operatórios, de analogias, de intuições,
parágrafos anteriores, notamos que ela ainda exige
de induções, de deduções, de transposições
dominadas, de funcionamentos heurísticos ro- que os professores tenham três habilidades, que con-
tinizados que se tornaram esquemas mentais de sideramos importante destacar nesse momento:
alto nível.
II - compreender o seu papel na formação
dos estudantes da educação básica a partir de

150
EDUCAÇÃO FÍSICA

concepção ampla e contextualizada de ensino e Saber “trabalhar em equipe” também se faz ne-
processos de aprendizagem e desenvolvimento cessário, pois o professor não atua isoladamente.
destes, incluindo aqueles que não tiveram opor-
Seu ensino está intrinsecamente ligado ao trabalho
tunidade de escolarização na idade própria; [...]
V - relacionar a linguagem dos meios de co- pedagógico da coordenação, das equipes de apoio
municação à educação, nos processos didático- como psicólogos e outros atores que se fazem pre-
-pedagógicos, demonstrando domínio das tec- sentes sobretudo em casos especiais de alunos que
nologias de informação e comunicação para
demandam acompanhamento, professores de apoio
o desenvolvimento da aprendizagem; [...] XII
- utilizar instrumentos de pesquisa adequados e toda a equipe de educadores. Portanto, seu ensino
para a construção de conhecimentos pedagó- deve estar em consonância com todos esses perso-
gicos e científicos, objetivando a reflexão sobre nagens, o que demanda certas habilidades sociais,
a própria prática e a discussão e disseminação tais como saber ouvir, ser interdisciplinar, entre ou-
desses conhecimentos (BRASIL, 2015, p. 7-8,
grifos nossos).
tras (PERRENOUD, 2000).
A segunda grande competência é mediar, no
Ao pensarmos nas habilidades dos professores, algu- que se refere a “administrar a progressão das apren-
mas nos vem logo à mente, tais como criatividade, dizagens” (PERRENOUD, 2000). Precisamos ter
paciência, pesquisa e persuasão. Essas, de fato, são habilidades como a de pesquisar, “utilizar instru-
essenciais e algumas até já vimos ao longo das nossas mentos adequados para tanto” (BRASIL, 2015), a
unidades, mas, como cada pessoa possui sua singulari- fim de encontrarmos novos conhecimentos cientí-
dade, precisamos entender que cada professor possui ficos para apresentar aos alunos, de forma que eles
diferentes habilidades. As competências e habilidades passem de seu nível de conhecimento real para um
até aqui mencionadas, contudo, são indispensáveis mais elaborado.
para o ser professor e devemos lembrar que todas po- O professor, para mediar, também precisa ter a
dem ser desenvolvidas. Caro(a) aluno(a), pensando competência de “conceber e fazer evoluir dispositi-
nesse perfil, você possui as competências e habilida- vos de diferenciação”, ou seja, compreender que cada
des para ser professor? Caso a resposta seja não, tenha aluno aprende em um ritmo diferente e por métodos
calma, pois você ainda pode desenvolvê-las. diferentes. A compreensão de uma classe heterogê-
Começando pela explanação da figura sobre nea é a chave para o sucesso do ensino e da apren-
a grande competência de ensinar. Precisamos sa- dizagem, pois diferenciar um aluno – e sua apren-
ber “organizar e dirigir situações de aprendizagem” dizagem – do outro exige habilidade de percepção e
(PERRENOUD, 2000) ou, segundo a Resolução nº 2 criatividade para elaboração de métodos diversifica-
de 2015, “trabalhar na promoção da aprendizagem e dos a fim de promover a aprendizagem de todos os
do desenvolvimento de sujeitos em diferentes fases alunos (PERRENOUD, 2000).
do desenvolvimento humano” (BRASIL, 2015). Para A grande competência de conhecer é primordial
tal, o professor precisa ter habilidades para colocar para que o professor contemporâneo saiba “utilizar
em prática diferentes métodos de ensino e aprendi- novas tecnologias” (PERRENOUD, 2000); aquele
zagem, realizar boas mediações e ter bom vocabulá- que não possui essa habilidade pode se tornar ob-
rio para se fazer entender. soleto para o mercado de trabalho. Por isso, habi-

151
DIDÁTICA

lidades como o “domínio das tecnologias” e para A última grande competência que elencamos é a
“relacionar a linguagem dos meio de comunicação” de gestão. Para um professor do século XXI, a com-
para transformá-las em instrumentos de ensino e petência para gerir precisa ser bem desenvolvida, vis-
de aprendizagem são indispensáveis na atualidade to que ele, além de ensinar, administra seu tempo de
(BRASIL, 2015). aula, sua classe e pode até dirigir uma escola em car-
A competência de “enfrentar os deveres e os dile- gos como o de diretor, atuando na gestão e organiza-
mas éticos da profissão” também é importante. Per- ção das instituições, “planejando, executando, acom-
renoud (2000) explica que, com a atual sociedade, panhando e avaliando políticas, projetos e programas
fica difícil ensinar os valores cívicos e éticos, visto que educacionais” (BRASIL, 2015). Ainda que o educador
tanto fora quanto dentro da escola vemos violência, não assuma essa cadeira, faz-se necessário conhecer
discriminação, dentre outras injustiças que emanam a parte de gestão da escola onde leciona, para com-
da convivência social, tornando-se um ciclo em que preender os trabalhos burocráticos que amparam seu
a sociedade as reproduz porque a escola contribui, trabalho didático em sala de aula. Para tanto, habili-
ainda que de forma inconsciente, com a reprodução dades como investigação são fundamentais.
desse caos. Por sua vez, a escola reproduz porque Por fim, o professor precisa ter a competência de
está imersa em uma sociedade desvirtuada. “informar e envolver os pais” (PERRENOUD, 2000)
Contudo, o professor precisa “[...] atuar com éti- nas questões escolares, ou segundo exige a Resolu-
ca e compromisso com vistas à construção de uma ção nº 2 de 2015, precisa facilitar as “relações entre
sociedade justa, equânime, igualitária [...]” (BRA- a instituição educativa, a família e a comunidade”,
SIL, 2015, p. 1) para quebrar esse círculo vicioso e para isso, precisa ter a habilidade de “compreender
criar um novo círculo virtuoso. Para tanto, habili- seu papel” na formação humana (BRASIL, 2015).
dades como liderança e persuasão são necessárias Esse grupo de grandes competências, caro(a)
para ensinar e convencer desde crianças, jovens e até aluno(a), demandam habilidades que formam o per-
adultos que o respeito e a ética precisam prevalecer fil docente exigido na atualidade. O professor de hoje
para uma sociedade melhor. precisa ser ético para lidar com todas as situações de
Ainda como competência do conhecer, o pro- seu cotidiano, ter múltiplos conhecimentos (teóri-
fessor precisa “administrar seu próprio conheci- cos, práticos, metodológicos e técnicos), ser curio-
mento” (PERRENOUD, 2000), ou seja, continuar so, criativo e ter disposição para realizar pesquisas e
sua formação ao longo da vida acadêmica, para investigações de sua área de atuação, tudo para que
tanto, habilidades como pesquisa, autoconheci- resulte em um ensino eficiente e eficaz e promova
mento e automotivação são necessárias para um uma aprendizagem de qualidade. Esse resultado é a
profissional sempre atualizado e eficiente. Lem- didática. Um professor que tem didática é um pro-
brando que também é pesquisa docente o “conhe- fessor que tem bem desenvolvidas as competências e
cimento sobre os estudantes e sua realidade socio- as habilidades aqui descritas. Com esse resultado, as
cultural” (BRASIL, 2015). aulas são esclarecedoras, motivadoras e inspiradoras.

152
EDUCAÇÃO FÍSICA

Esse perfil docente exigido para o professor A postura docente influencia diretamente na
do século XXI preconiza que ele tenha domínio formação do aluno, por isso precisamos pensar
de métodos e técnicas que promovam a qualidade em cada detalhe dos processos de ensino, para que
do ensino, para tanto, até a forma de organização prevaleça a aprendizagem global de qualidade, por
da sala de aula deve ser planejada. Como vimos meio de aulas prazerosas e incentivadoras, que per-
em tópicos anteriores, os procedimentos de ensi- durarão para além do ano letivo, para a vida daquele
no são amplos e cada um demanda uma organiza- aluno cidadão.
ção, logo, ainda em seu planejamento, o docente Pensados todos os detalhes do ensino, pauta-
precisa pensar em como será organizada a sala de dos no planejamento, ao fim desse processo é cha-
aula para trabalhar com a turma, estipulando des- gada a hora de verificar se tudo o que colocamos
de a disposição das carteiras (em filas, em semi- no plano de aula e executamos com os alunos foi
círculos, em grupos etc.) até a limpeza da sala de bem-sucedido ou precisa de mudanças. Para tanto,
aula. Parecem detalhes insignificantes, mas toda precisamos de uma avaliação, tema da nossa próxi-
a ação dentro da escola é educativa. Logo, preci- ma unidade.
samos ser exemplos e repassar essa postura. Uma
sala limpa, bem iluminada e arejada, com orga-
nização adequada dos alunos e do professor sem
dúvida proporciona uma aprendizagem de maior
qualidade.
Precisamos, ainda, dentro da ética profissional,
mencionar a vestimenta adequada dos professores,
que deve sempre manter o respeito ao aluno. O que
deve chamar a atenção na sala de aula é o conteú-
do e não as roupas do professorado. O tom de voz
também promove respeito entre os integrantes da
classe; um ambiente de aprendizagem não pode
ser nem extremamente silencioso nem exorbitan-
temente barulhento: o equilíbrio está na fala pon-
derada do professor e dos alunos, bem como no
cuidado com as atividades mais práticas, por isso
o professor precisa pensar bem em quais serão de-
senvolvidas em sala, no pátio ou na biblioteca, para
que não se instaure a anarquia na turma nem atra-
palhe o restante da escola.

153
considerações finais

P
rezado(a) aluno(a), como foi possível observar, a trajetória do planeja-
mento se inicia bem antes do registro do professor. Conhecer esse per-
curso é essencial para realizarmos um bom trabalho pedagógico, que
envolve desde a direção até a equipe pedagógica em sala de aula. Preci-
samos sempre ter em vista que o papel da escola é ensinar crianças e adolescentes
a serem alfabetizados e letrados em todas as ciências. Logo, nosso ponto de parti-
da é sempre o aluno e nosso ponto final é seu conhecimento e desenvolvimento.
Nosso objetivo inicial com essa unidade foi conhecer os documentos que
interferem no planejamento escolar, desde o âmbito nacional – como a BNCC
(2017) –, passando níveis pelos regionais, até o institucional – como o PPP. A
partir deles é montado o currículo escolar, ao qual o professor recorre para regis-
trar seu plano de aula.
Após o conhecimento dos documentos educacionais, objetivamos refletir so-
bre a pesquisa docente, que se faz necessária para que cada ação pedagógica tenha
fundamentação teórica, suporte científico e, finalmente, dê o suporte necessário
para que o professor construa um plano de aula sólido.
Por fim, analisar os elementos do plano de aula se fez essencial para que
você compreenda a relevância desse registro e desenvolva as habilidades neces-
sárias para realizar um plano eficiente e eficaz, a saber: reflexão, organização e
sintetização.
Após planejarmos nossas ações pedagógicas, registrá-las e nos organizarmos,
é chegada a hora de colocarmos tudo em prática, para tanto, devemos ter claras
as diferentes formas de concretizar nosso planejamento. Portanto, no próximo
capítulo, enfatizamos outro aspecto essencial para uma boa didática: a execução
do plano de aula. Convido você, caro(a) aluno(a), a refletir sobre as possíveis
práticas pedagógicas.

154
atividades de estudo

1. Freire (2001) nos ensina que todas as ações pe- II - A exposição verbal é um método que, se
dagógicas devem estar pautadas em teorias, da bem dominado pelo docente, pode se tor-
mesma forma que as fundamentações teóricas nar interessante ao aluno. Podem ser fei-
emergem de práticas já estudadas e sistematiza- tas, por exemplo, apresentações de curio-
das. Sobre essas ações indissociáveis, é correto sidades sobre o objeto de estudo.
afirmarmos que: III - Os seminários também podem ser mais
a) O professor e o sujeito aprendiz devem dinâmicos na medida em que o professor
sempre partir de uma teoria antes de re- os relaciona com estudos de caso. Pode-
alizarem práticas dentro do ambiente de -se, então, discutir sobre o objeto de estu-
aprendizagem. do a partir de casos reais ou fictícios.

b) A práxis é o elemento que define como IV -O uso de computadores para realização


deve ser a ação pedagógica, ou seja, a de atividades também é um método atra-
aliança entre teoria e prática, sem dico- tivo para as gerações atuais, que vivem
tomias. em contato com a tecnologia e possuem
maior interesse por tais meios.
c) Os alunos precisam de professores que
saibam mais sobre teoria do que prática, Está correto o que se afirma em:
pois um professor sem teoria não conse- a) I, II e III, apenas.
gue dar aula, mas um professor sem práti-
ca pode usar somente a teoria. b) I, III e IV, apenas.

d) É na prática que surge a teoria. Dessa for- c) II, III e IV, apenas.
ma, o professor deve estar mais prepara- d) I e III, apenas.
do para atuar do que ter um repertório
teórico. e) l, ll, lll e lV.

e) Sendo a teoria e a prática indissociáveis, 3. Imagine que você possui um aluno com dificulda-
precisamos que a formação de professo- de de atenção e planejou realizar atividades ao ar
res forneça conhecimentos dessas duas livre. Ao verificar o local, porém, percebeu que há
formas, o que atualmente não acontece. vários detratores (movimentação intensa de pes-
soas, múltiplos estímulos sonoros, entre outros
2. Libâneo (2013) aborda diferentes métodos que
elementos). Dessa forma, você precisa alterar al-
o professor pode utilizar a fim de promover uma
guns elementos para potencializar o processo de
aula mais dinâmica e atrativa. Considerando que
aprendizagem, de forma que o aluno, que já pos-
métodos são conjuntos de ações utilizadas para
sui uma dificuldade de aprendizagem, não seja
viabilizar o processo de ensino, analise as afirma-
prejudicado por esses elementos. Sendo assim,
tivas abaixo:
o mais coerente seria:
I - A exposição demonstrativa pode ser atra-
tiva ao aluno pelo fato de poderem ter a) Mudar o método de ensino, de demonstra-
contato com o objeto de estudo por meio tivo a expositivo.
de experimentos.

155
atividades de estudo

b) Alterar o recurso, levando o sujeito para um 5. Em todos os campos de atuação há um perfil exi-
ambiente com menos estímulos externos. gido. No caso de atuações em ambientes formais
c) Trocar a metodologia de ensino, substituin- e não formais, podemos elencar como necessá-
do o ensino ao ar livre pelo local fechado. rio para o perfil do professor:
I - Ter domínio de métodos e técnicas que
d) Reformular os instrumentos de ensino,
promovam a qualidade do ensino.
pois se o aluno tem dificuldade de atenção,
precisa de instrumentos com os quais pos- II - Ter competências para lidar com a diver-
sa ver mais do que interagir. sidade.
e) Não utilizar tendências pedagógicas, pois III - Ser um profissional ético.
em casos de dificuldades cognitivas ne-
IV -Ser um pesquisador.
nhuma se aplica.
Está correto o que se afirma em:
4. Betina é uma adolescente muito inteligente e
a) I, II e III, apenas.
possui algumas habilidades invejáveis. Conside-
rando habilidades como recursos cognitivos que b) I, III e IV, apenas.
nos auxiliam no desenvolvimento de determina- c) I, II e IV, apenas.
das atividades, assinale a alternativa que corres-
d) II, III e IV, apenas.
ponde as possíveis habilidades de Betina:
a) Bem-estar e saúde. e) I, II, III e IV.

b) Personalidade forte.
c) Boa atenção e memória.
d) Disposição para realizar atividades.
e) Perseverança.

156
LEITURA
COMPLEMENTAR

Prezado(a) aluno(a), ao longo das unidades vimos que tivos que mais levam as pessoas, atualmente, a frequen-
saber fazer um bom planejamento bem como dominar tarem as academias são a busca por corpos saudáveis
diferentes procedimentos de ensino é necessário em e por um físico mais condicionado. Nessa perspectiva,
todas as profissões. Isso fica mais explícito quando tra- muitas dessas empresas elaboram o “projeto verão”, em
tamos de um profissional que ensina e um sujeito que que os alunos que desejam participar se inscrevem e in-
aprende, tanto nas escolas, que é o caso dos docentes, formam seus objetivos físicos. Cada aluno e seu respec-
quanto em ambientes não formais, caso de professo- tivo professor elaboram o planejamento de atividades
res, instrutores, entre outras denominações, aos quais que farão ao longo do período em que o projeto será
a didática é fundamental. A seguir, apresentamos alguns realizado, por exemplo, três meses. Dentro desse perí-
projetos que são utilizados como procedimentos para a odo, os professores e alunos se dedicam a alcançar os
execução de planejamentos em academias, hospitais e objetivos e quem consegue pode ganhar gratificações da
Organizações não Governamentais (ONGs). própria academia.
O primeiro ambiente que selecionamos em que há um Esses projetos das academias são elaborados pelos do-
profissional que ensina e um sujeito que aprende – logo, nos em parceria com seus instrutores e demais funcio-
há promoção da aprendizagem – é a academia. Muitos nários. A empolgação com as possíveis premiações e a
acham que, ao frequentar a academia, estão apenas fa- competitividade são apenas alguns dos aspectos que
zendo atividades físicas para emagrecer ou ganhar mas- impulsionam o aluno a alcançar seu objetivo, mas para
sa muscular. Na verdade, quando o personal trainer ou que esse e outros projetos das academias deem certo
instrutor da academia (na condição de professor) explica é necessário planejamento e professores com didática.
ao sujeito (na condição de aluno) como executar os exer- O segundo ambiente não formal de aprendizagem que
cícios de forma correta e para que serve determinada ati- abordaremos é o hospital. Como muitas crianças e
vidade, está ensinando-o a cuidar da saúde (BARBANTI, adolescentes em idade escolar precisam ficar internados
1994). Vemos, portanto, que esses profissionais também por longos períodos, ficam afastados da escola. Contu-
precisam ter didática para ensinar, bem como necessi- do, a LDBEN 9.394/96 prevê, em seu artigo 58, parágrafo
tam de um planejamento e procedimento de ensino para 2º, a garantia à educação mesmo quando o sujeito fica
cada aluno. hospitalizado. Por isso temos muitos professores que
Muitas academias utilizam projetos que estimulam os atuam dentro de classes hospitalares (BRASIL, 1996). De
alunos a atingirem seus objetivos; como exemplo, o pro- acordo com Faria (2013, p. 43), no ambiente hospitalar a
jeto verão. Segundo a pesquisa de Santos (2016), os mo- educação implica em:

157
LEITURA
COMPLEMENTAR

[...] utilizar práticas pedagógicas que desenvol- suntos por meio de projetos, a fim de cooperar na su-
vam ao mesmo tempo a razão, sensação, sen- peração das necessidades de determinadas comunida-
timento e intuição. Nesse cenário, educar vai des em que o Estado não investe em políticas públicas.
além de transmitir conhecimentos e construir
Dessa forma, cada ONG possui projetos que favorecem
o saber sistematizado. Na verdade, a educação
sua comunidade. Por exemplo, a ONG Comunidade Edu-
assume um sentido terapêutico, pois desperta
no educando uma nova consciência que o faz cacional para o Trabalho, da cidade de Lins-SP, possui
deixar de lado a posição de pessoa hospitalizada projetos voltados ao desenvolvimento profissional de
para assumir uma postura positiva de transfor- jovens, visto que, no início de suas atividades, a comu-
mação e aquisição de conhecimento. nidade apresentava um número muito alto de pessoas
Com esse objetivo diferenciado, nas classes hospitalares sem escolaridade, que não conseguiam trabalho (CASTA-
temos projetos voltados à “Humanização do Atendimen- RANELI; SANTOS; PACHECO, 2007).
to Hospitalar”, em que o perfil dos profissionais é bem Considerando o exposto, muitas ONGs existem com di-
delineado, visto que precisam ser pessoas pacientes, éti- ferentes objetivos e atuam por meio de vários projetos:
cas e emocionalmente preparadas para lidar com pesso- saúde, lazer, musicalização, entre outros, que devem con-
as acamadas, em alguns casos em estágio terminal, a fim tar com a atuação de profissionais que possuam didática,
de promover um atendimento humano. Os professores saibam planejar e tenham conhecimento de diferentes
dessa classe também precisam saber fazer planejamen- procedimentos de ensino, para contribuir com a forma-
tos de ensino flexíveis devido às fragilidades de cada ção dos cidadãos que frequentam essas instituições.
aluno/paciente. Os procedimentos de ensino devem ser Nesse contexto, caro(a) aluno(a), vemos que os ambien-
cautelosamente escolhidos, devidamente esterilizados e tes não formais de aprendizagem atuam muito mais com
apropriados para cada aprendiz. projetos do que as próprias escolas. Portanto é sempre
Por fim, temos as ONGs, ambientes não formais de bom saber como trabalhar com projetos, desde sua ela-
aprendizagem que promovem o ensino de muitos as- boração até a execução.

Fonte: Elaborado pela autora.

158
material complementar

Indicação para Ler

Pedagogia e pedagogos, para quê?


José Carlos Libâneo
Editora: Cortez
Sinopse: apesar de o título ser uma chamada para pedagogos, o conteúdo do livro
aborda as práticas educativas, a didática contemporânea e o papel do professor
na atualidade. Dessa forma, todos que atuam com as relações de ensino podem
ler esse livro e refletir sobre os meios de se fazer educação.

Indicação para Assistir

Além da sala de aula


Ano: 2011
Sinopse: baseado em fatos reais, a história se passa em uma escola de abrigo,
retratando o primeiro emprego da professora Stacey Bess. A escola é impro-
visada e a vaga de professor seria temporária, mas ao chegar no local, Stacey
vê a precariedade da instituição, que na verdade é um local improvisado, sem
recursos, que mal possui quadro, carteiras e merenda escolar. Isso dificulta o
trabalho docente, mas por meio da trama descobrimos que a professora conse-
gue ensinar adequadamente, superando as dificuldades e oferecendo educação
de qualidade e inspiração.
Comentário: Por meio desse filme, vemos que além de estarmos preparados
para dominar os procedimentos de ensino mais contemporâneos, como as tec-
nologias de comunicação voltadas para a educação, precisamos também domi-
nar os procedimentos mais rudimentares, de forma que a aprendizagem seja
sempre a prioridade.

159
referências

ABREU, J. R. P. Contexto Atual do Ensino Médico: CASTARANELI, E. R.; SANTOS, J. P. A.; PACHE-
Metodologias Tradicionais e Ativas - Necessidades CO, M. D. H. As atividades desenvolvidas na ONG
Pedagógicas dos Professores e da Estrutura das Es- Comunidade Educacional para o Trabalho e sua
colas. 2011. Dissertação (Programa de Pós-Gradua- contribuição para a formação integral do cidadão.
ção em Ciências da Saúde) - Universidade Federal do 2007. 60 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Gra-
Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2009. duação em Educação Física) - Centro Universitário
BARBANTI, V. J. Dicionário de educação física e do Católico Salesiano Auxilium, Lins, 2007. Disponí-
esporte. São Paulo: Manole, 1994. vel em: <[Link]
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Na- ca/monografias/[Link]>. Acesso em: 28 mar.
cional: Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que 2019.
estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. DEWEY, J. Experiência e educação. São Paulo: Na-
Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 1996. Dispo- cional, 1979.
nível em: <[Link] FARIA, M. B. A escuta pedagógica e a criança hospi-
[Link]>. Acesso em: 28 mar. 2019. talizada: discutindo o papel da educação no hospital.
______. Ministério da Educação. Conselho Nacional Interdisciplinar: Revista Eletrônica da Univar, v. 3,
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para graduados e cursos de segunda licenciatura) rios à prática educativa. 20. ed. São Paulo: Paz e Ter-
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so em: 28 mar. 2019.

160
referências

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MORAES, S. E. Interdisciplinaridade e transversa- balhos/Trabalho_Comunicacao_oral_idinscrito__
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leira de Estudos Pedagógicos, Brasília, DF, v. 86, n. em: 28 mar. 2019.
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PERRENOUD, P. Construir as competências desde 03956, 2014.
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RANGEL, M. Métodos de ensino para aprendiza- intelectual na Idade Escolar. In: Vygotsky, L. S; Luria,
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Santos%20-%[Link]?sequence=5&isAllowe-
d=y>. Acesso em: 29 mar. 2019.

161
gabarito

1. Opção correta é a B.
2. Opção correta é a A.
3. Opção correta é a B.
4. Opção correta é a C.
5. Opção correta é a E.

162
UNIDADE
V
AVALIAÇÃO

Professor Me. Camila Tecla Mortean Mendonça

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta
unidade:
• Conceito de avaliação
• Modelos de avaliação
• Aspectos pedagógicos e psicológico da avaliação

Objetivos de Aprendizagem
• Compreender a avaliação como parte do processo de
ensino e de aprendizagem, a fim de utilizá-la como
instrumento de reflexão da práxis docente.
• Conhecer a avaliação nas suas várias formas: somativa,
formativa e diagnóstica, para que possamos utilizar a mais
adequada mediante os objetivos do processo de ensino e
de aprendizagem.
• Entender que o processo de avaliação impacta de forma
positiva ou negativa a formação do aluno, a fim de a
utilizarmos com ética.
unidade

V
INTRODUÇÃO

Finalizando nossas discussões sobre Didática, nesta unidade trataremos


da avaliação do processo de ensino e de aprendizagem, desde a concei-
tuação do termo até os tipos de avaliação que são aplicados na prática
escolar e que fazem parte do planejamento, tema da unidade anterior.
Quando falamos em avaliação, qual é o sentimento que você tem?
Medo? Ansiedade? Estresse? Esses são alguns dos sintomas que, histori-
camente, a avaliação tem causado nos alunos que passam pelos bancos
escolares em todos os níveis, etapas ou modalidades de ensino. No entan-
to, depois dos estudos desta unidade, acredito que você não a enfrentará
mais sob essa perspectiva, pois compreenderá, de fato, qual é a função
que a avaliação deve ter no contexto escolar.
Quando tratamos da avaliação, temos que levar em consideração que
ela está intimamente relacionada com a teoria que escolhemos para em-
basar nossa prática escolar, uma vez que deve ser coerente com o proces-
so de ensino e aprendizagem. Desta forma, se tenho a teoria histórico-crí-
tica como base para minha prática pedagógica, não posso adotar, para o
processo avaliativo, as avaliações características da tendência tradicional,
por exemplo. Situações como essa são um dos fatores que fazem com que
a avaliação seja vista como vilã do processo educativo.
Nesse contexto, para que a nossa prática pedagógica seja coerente,
nos aprofundaremos nessa discussão, além de também conhecer os tipos
de avaliação que devem fazer parte do cotidiano escolar e, consequente-
mente, do processo de ensino e aprendizagem.
Nossas discussões se encerrarão com os efeitos positivos e negativos
que a avaliação poderá causar nos alunos, avaliando os aspectos peda-
gógicos e psicológicos que as avaliações tomam no contexto escolar. Te
convido, caro(a) aluno(a), a mergulhar em mais este estudo. Vamos lá?
DIDÁTICA

Conceito de Avaliação
Avaliar e ser avaliado são ações do nosso cotidiano. e quanto aprenderam. Luckesi (2005, p. 33) concei-
No trabalho, em casa, no contexto social, nos apli- tua a avaliação como “um julgamento de valor so-
cativos ou em qualquer outra ação que realizamos, bre manifestações relevantes da realidade, tendo em
a avaliação está presente, de forma direta ou indi- vista uma tomada de decisão, a partir de um critério
reta, quando julgamos ou comparamos. A avaliação estabelecido”. Em outras palavras, o professor esta-
consiste no ato de dar um parecer ou de apreciar belece os critérios de avaliação a fim de julgar uma
uma atitude. Também é vista como uma ação que manifestação da realidade e, a partir do resultado
afere ou confere a algo ou alguém um juízo de valor. obtido, toma uma decisão.
A avaliação, por meio dessa definição, é tida como Outros autores contribuem com as suas visões
uma ação em que o juízo de valor é atribuído sem sobre a avaliação. Tyler (1975 apud HAYDT, 2002)
levar em consideração o contexto, a trajetória ou a define o processo de avaliação como, essencialmen-
individualidade de cada um. te, ação de determinar se os objetivos educacionais
Na educação acontece da mesma forma. Os alu- estão realmente sendo alcançados pelos programas e
nos são avaliados a fim de verificar se aprenderam currículos educacionais. Tendo em vista que os ob-

168
EDUCAÇÃO FÍSICA

jetivos educacionais visam a mudança do ser huma- pois é dessa forma que nossos alunos são avalia-
no, a avaliação determina em que grau essas mudan- dos. Esses conceitos ficam ainda mais claros e reais
ças estão ocorrendo e se estão realmente ocorrendo. quando vistos na perspectiva de Perrenoud (1999,
Em outras palavras, ao avaliarmos queremos sa- p. 9), que afirma:
ber se o que foi ensinado aos alunos foi aprendido
pelos mesmos. Nesse sentido, a nota determinará Avaliar é – cedo ou tarde – criar hierarquias de
excelência, em função das quais se decidirão a
em que “grau” essa mudança aconteceu. Se os alu-
progressão no curso seguindo, a seleção no iní-
nos foram “bem” na avaliação, o grau de mudanças cio do secundário, a orientação para diversos
de comportamento foi elevado, se foram “mal” na tipos de estudos, a certificação antes da entrada
avaliação, não houve mudanças de comportamento. no mercado de trabalho e, frequentemente, a
Para Scriven (1978 apud HAYDT, 2002), a ava- contratação.

liação é uma atividade metodológica que consiste na


coleta e combinação dos dados do desempenho dos Perrenoud (1999) afirma em seus estudos que é a
alunos, para isso, utiliza escalas e critérios de ponde- avaliação que regula o trabalho, as atividades, a co-
ração para que seja possível classificar e comparar os operação e, de certa forma, a relação entre a família
números. Nesse sentido, o autor nos diz que ao ava- e a escola e/ou entre os profissionais que atuam na
liar, estamos comparando, classificando os alunos de educação. Dessa forma, os alunos são avaliados e a
acordo com seus desempenhos. Nos perguntamos, partir do seu desempenho, comparados e classifica-
portanto: como ficam os alunos classificados nas úl- dos em virtude de uma norma que visa à excelência.
timas posições? O que fazemos com os alunos que Esse autor nos traz um conceito de avaliação
não aprenderam? característico do método tradicional de ensino, em
Para Stuffebeam (1971 apud HAYDT, 2002, p. que a avaliação era utilizada como ferramenta de
12), “a avaliação é o processo de delinear, obter e for- punição, medida de conhecimento, classificação e
necer informações úteis para o julgamento de deci- seleção dos alunos para a aprovação e como pré-re-
sões alternativas [...]”. O autor nos traz um conceito quisito para entrada na faculdade ou no mercado de
de avaliação que nos dá flexibilidade ao dizer que trabalho, restando aos não classificados a reprova-
avaliação é traçar, obter e fornecer informações para ção, bem como os empregos menos remunerados.
que possamos decidir qual caminho tomar. Deixare- Para Gadotti (2003 apud RABELO, 1984, p. 90),
mos nossos alunos naufragar, ou jogaremos um bote o ato de avaliar não é dispensável para a atividade
salva vidas? Quando tomamos a avaliação como fer- humana ou para qualquer atividade educacional,
ramenta no processo de construção do conhecimen- dessa forma, para esse autor, a avaliação é impres-
to, jogamos um bote salva vidas aos nossos alunos, cindível durante todo o processo educacional em
pois oferecemos a eles a possibilidade de reconstruir que se realize um constante trabalho de ação-re-
o conhecimento que ficou perdido no caminho. flexão-ação, porque “educar é fazer ato de sujeito,
Os conceitos de avaliação definidos pelos é problematizar o mundo em que vivemos para su-
autores citados são claramente conhecidos por perar as contradições, comprometendo-se com esse
todos nós, educadores e estudiosos da educação, mundo para recriá-lo constantemente”.

169
DIDÁTICA

Rabelo (2003) nos traz uma concepção de ava-


liação inerente ao método construtivista de ensi-
no, quando nos diz que a avaliação é indispensável
durante o processo de ação-reflexão-ação, ou seja,
a avaliação deve acontecer durante o processo de
ensino e de aprendizagem, para que o aluno possa
participar da construção do seu conhecimento.
Barlow (2006, p. 16) tem uma visão um tanto di-
ferenciada do conceito de avaliação apresentado até
então. Para esse autor, como um retorno ao ato de
avaliar, a avaliação se revela em sua função, como
um estímulo a completar, como algo a modificar,
como aperfeiçoar uma tarefa em andamento. Nesse
contexto, para o autor, o que cabe agora é descobrir
a natureza da avaliação: o que a avaliação quer fazer? Os processos avaliativos dessa tendencia pedagógica
O que a avaliação quer dizer? são comuns para muitos de nos, tendo em vista que fi-
Cada autor que discute avaliação traz consigo as zeram parte da nossa educação escolar e que moldam
marcas do que entende por educação e por formação o pensamento e as ideias dos alunos. Como muito bem
humana, partindo das suas concepções teóricas. Pode- ilustrado pela imagem da professora, moldam o pen-
mos, portanto, afirmar que a avaliação é desenvolvida samento e as ideias dos alunos. Dessa forma, voltamos
levando em consideração a concepção teórica que se a afirmar: esse modelo de avaliação visa a reprodução
adota para o processo de ensino e aprendizagem. dos conteúdos que são trabalhados na escola.
Na tendência pedagógica tradicional de ensino, Outro aspecto importante a ser ressaltado é que
a avaliação era realizada de forma sistemática. Con- as avaliações visavam a quantificação. Dessa forma,
siderava-se somente a resposta que correspondia ao a avaliação era desenvolvida e realizada a fim de
padrão ensinado pelo professor, ou seja, as avaliações mensurar o aprendizado dos alunos sobre os con-
eram momentos de repetição dos padrões ensinados teúdos estudados. Depois, eram atribuídas notas às
pelos professores por meio da memorização e cópia. avaliações e os alunos eram classificados. Acredita-
Então, caro(a) aluno(a), quais habilidades eram co- va-se que a classificação dos alunos servia como in-
bradas dos alunos? A memorização e a reprodução, centivo para que os alunos com menor rendimento
pois essas eram a únicas habilidades necessárias para pudessem buscar melhores notas.
a repetição dos conteúdos, que eram dados pelos Os castigos físicos e as humilhações também
professores como verdades absolutas a ser reprodu- faziam parte do processo avaliativo. Os professores
zidas. A inteligência era medida pela capacidade de utilizavam esses recursos para disciplinar o compor-
memorizar e guardar informações. Assim, quanto tamento dos alunos diante dos padrões que eram
mais informações uma pessoa memoriza, mais inte- considerados corretos naquela sociedade. A avalia-
ligente ela é, segundo a tendência tradicional. ção tradicional era aplicada respeitando os perío-

170
EDUCAÇÃO FÍSICA

dos considerados avaliativos: término dos períodos Na tendência tecnicista, em contrapartida, a ava-
letivos ou de aplicação de um conteúdo, podendo liação voltou a ter o caráter que tinha na concepção
ser estes bimestrais, semestrais e/ou anuais, o que de ensino tradicional, como foco na mensuração
caracterizava a avaliação como parte final do pro- dos conhecimentos adquiridos pelos alunos. Era
cesso de ensino e de aprendizagem. aplicada somente no final do processo de ensino e de
Caro(a) aluno(a), como já dito na Unidade II, as aprendizagem, uma vez que a ênfase dessa tendência
características do ensino e da avaliação tradicionais pedagógica estava na aplicação dos instrumentos e
ainda persistem na prática pedagógica de muitos técnicas. Dos vários recursos ou instrumentos que
professores, com exceção, é claro, dos castigos físicos eram utilizados para o processo avaliativo, na ten-
e humilhações, que são proibidos por Lei – sendo dência tecnicista, podemos citar a coleta de infor-
uma delas o Estatuto da Criança e do Adolescente. mações por meio dos questionários, escalas de ati-
Isso não impede, porém, que a avaliação ainda seja tudes que deveriam ser incorporadas pelos alunos,
utilizada como um momento de coleta de informa- ficha de registros, por exemplo.
ções que foram meramente decoradas pelos alunos. Na tendência libertadora a avaliação possuía
características de uma prática emancipadora do in-
REFLITA divíduo, dessa forma, era desenvolvida a partir do
progresso que o grupo alcançava, a partir de um
Pensando na tendência tradicional de ensino, cronograma também definido pelo grupo. A avalia-
que ficou conhecida pela palmatória e seus di- ção também era realizada por meio da interação en-
ferentes métodos de agressão (verbal, física e tre professor e alunos, dentro do grupo, a partir da
psicológica), você considera, caro(a) aluno(a),
que a avaliação era vista como produto final compreensão e da reflexão crítica sobre os conteúdos
de um processo de ensino ou uma forma de discutidos e dos trabalhos escritos e autoavaliações,
agressão? sempre levando em consideração o compromisso
que o grupo assume com o seu desenvolvimento e
com a prática social.
Na tendência renovada não diretiva ou escola nova,
a avaliação era realizada por meio da autoavaliação
ou autocrítica, pois quem mais poderia avaliar o alu-
no se não ele mesmo? Esse processo avaliativo leva-
va em consideração que o sujeito se tornaria mais
criativo, autoconfiante e independente (FERREIRA,
2009). O aluno era o responsável por suas ações,
sendo estas corretas ou não, assim como também
era peça fundamental no processo de elaboração do
conhecimento. Nesse sentido, a avaliação perde seu
significado, pois é somente realizada por meio da
autocrítica.

171
DIDÁTICA

Por fim, a tendência histórico-crítica possui como Dessa forma, compreendemos que a avaliação per-
característica uma avaliação que se desenvolve no meia todo o processo de ensino e de aprendizagem,
decorrer de todo o processo de ensino e aprendiza- desde o momento do planejamento dos conteúdos
gem. Gasparin (2011) nos diz que há avaliação des- pelo professor e levantamento dos conhecimentos
de o momento em que o professor elabora o conte- prévios dos alunos, até o momento de encerramento
údo e o compreende, antes de ensinar seus alunos. dos conteúdos.

Quadro 1: Síntese das principais características das tendências pedagógicas quanto a avaliação

Tendências Pedagógicas
Características da avaliação
Tradicional Escola Nova Tecnicista Libertadora Histórico-Crítica
Memorização; Autoavaliação; Memorização; Autoavaliação;
Processual;
Repetição; Individual. Reprodução; Autocrítica;
Contínua.
Reprodução. Técnica. Grupo.

Fonte: Elaborado pela autora (2018).

Podemos, dessa forma, definir a avaliação como Portanto, afirmamos que vários tipos de avalia-
uma parte do processo de ensino e de aprendizagem. ção podem ser aplicados, a fim de que a totalidade
Por meio da verificação e qualificação dos resultados do processo educativo seja avaliada. São as avaliações
obtidos, podemos determinar a relação entre a ava- diagnósticas, somativas e formativas, tema que discu-
liação e os objetivos propostos para a aprendizagem, tiremos a seguir.
para então orientar a tomada de decisão sobre as ati-
vidades didáticas que darão continuidade ao proces-
so (LIBÂNEO, 1994).

172
EDUCAÇÃO FÍSICA

173
DIDÁTICA

Modelos de Avaliação
A partir dos conceitos de avaliação trabalhados até Diagnosticar significa fazer um diagnóstico por
aqui e do olhar que temos sobre o processo avalia- meio de sinais de indicação, para conhecer uma
tivo, quando o assunto é avaliar, temos basicamente moléstia, uma enfermidade ou avaliar (FERREI-
três funções, sendo elas: diagnosticar, controlar e RA, 2010). Essa definição, apesar de ser voltada
classificar. A avaliação diagnóstica “é aquela realiza- para a área da saúde, nos permite também enten-
da no início do curso, período letivo ou unidade de der a avaliação escolar. De acordo com a definição,
ensino” (HAYDT, 2002, p.16), ou seja, é um levanta- podemos entender que, na educação, diagnosticar
mento dos conhecimentos dos alunos, dos conheci- o aluno é fazer um levantamento por meio dos si-
mentos já adquiridos. nais indicativos, verificar se ele aprendeu o conteú-
do ou não. Ou seja, faz-se apenas um levantamen-
[...] com a intenção de constatar se os alunos
apresentam ou não o domínio dos pré-requi- to de dados para saber se o aluno sabe ou não um
sitos necessários, isto é, se possuem os conhe- determinado conteúdo.
cimentos e habilidades imprescindíveis para as A avaliação formativa “tem a função de contro-
novas aprendizagens. É também utilizada para
le” (HAYDT, 2002, p. 17). É utilizada no decorrer do
caracterizar eventuais problemas de aprendi-
zagens identificar suas possíveis causas, numa ano letivo para verificar se os objetivos estão sendo
tentativa de saná-los (HAYDT, 2002, p. 17). alcançados.

174
EDUCAÇÃO FÍSICA

[...] a avaliação formativa visa, fundamental- ajustar seu método, ou seja, indica que o professor
mente, “determinar se o aluno domina gradati- deve rever seu sistema de mediação quando este se
va e hierarquicamente cada etapa da instrução”,
torna ineficiente. A avaliação, segundo o autor, deve
porque “antes de prosseguir para uma etapa
subsequente do ensino-aprendizagem, os obje- servir como controle de qualidade.
tivos em questão, de uma ou de outra forma, A avaliação somativa “tem a função classifi-
devem ter seu alcance assegurado” (HAYDT, catória”, ou seja, é realizada no fim do período ou
2002, apud TURRAS, 1975, p. 185-186).
ano letivo, como o intuito de observar se os alunos
atingiram os objetivos propostos. Tem a função de
Nesse sentido, é por meio da avaliação formativa que promover – ou não – o aluno para a próxima etapa
o aluno percebe seus erros e acertos e aprende com escolar (HAYDT, 2002). Somar significa fazer uma
os mesmos. O autor caracteriza esse tipo de avalia- soma ou adicionar, ter uma soma ou apresentar,
ção como orientadora, pois orienta o trabalho do juntar quantidades, incluir e/ou fazer operações de
professor e o aprendizado do aluno, tirando o foco soma (FERREIRA, 2010).
das fontes e causas do estresse que permeia a avalia- No quadro a seguir, mostramos, de uma forma
ção. Haydt (2002) liga, ainda, a avaliação formativa simples e clara, as funções e os propósitos das três
ao sistema de feedback que possibilita ao professor modalidades de avaliação apresentadas.

Quadro 2: Características das avaliações diagnóstica, formativa e somativa

Modelos e funções da avaliação


PROPÓSITO ÉPOCA
MODELOS FUNÇÃO
(PARA QUE USAR) (QUANDO APLICAR)
Verificar a presença ou ausência de pré-
-requisitos para as novas aprendizagens. Início do ano ou semestre
Diagnóstica Diagnosticar Detectar dificuldades específicas de letivos, ou no início de uma
aprendizagem, tentando identificar suas unidade de ensino.
causas.
Constatar se os objetivos estabelecidos
foram alcançados pelos alunos. Durante o ano letivo, isto é, ao
Formativa Controlar longo do processo de ensino-
Fornecer dados para aperfeiçoar o pro- -aprendizagem.
cesso ensino-aprendizagem.
Classificar os resultados de aprendizagem Ao final de um ano ou semes-
Somativa Classificar alcançados pelos alunos, de acordo com tre letivos, ou ao final de uma
níveis de aproveitamento estabelecidos. unidade de ensino.

Fonte: Haydt (2002, p. 19).

175
DIDÁTICA

Diante desse quadro, podemos dizer que, se unidos, veem, perguntamos o que é a avaliação afinal, qual o
os três modelos de avaliação apresentados poderiam seu verdadeiro papel, será que as avaliações que apli-
dinamizar o sistema avaliativo das instituições de camos aos nossos alunos são realmente avaliações
ensino, afastando as funções e o uso errôneos que da aprendizagem escolar?
os professores empregam à avaliação, assim como o Libâneo (1994, p. 196-197) entende que o pro-
fantasma do medo nos alunos. cesso avaliativo se dá em diferentes momentos do
processo de ensino, sendo tarefas da avaliação a ve-
REFLITA rificação, a qualificação e a apreciação qualitativa.

A verificação é a coleta de dados sobre o apro-


Pensando nas funções das avaliações defi-
veitamento dos alunos, tendo em vista o conte-
nidas, será que estamos de fato avaliando
nossos alunos tendo em vista seu desenvol- údo sistemático, em provas, tarefas, exercícios,
vimento ou aprendizagem? entrevistas e observação do desempenho. A
qualificação consiste na comprovação de que os
objetivos foram alcançados, analisando os re-
sultados, se preciso e necessário atribui-se nota
ou conceito. A apreciação qualitativa é a avalia-
Segundo Luckesi (2005, p. 35)
ção como a conhecemos, com notas e padrões
esperados dos alunos.
Com a função classificatória, a avaliação cons-
titui-se num instrumento estático e frenador
A partir das tarefas que a avaliação possui, ainda se
do processo de crescimento; com a função
diagnóstica, ao contrário, ela constitui-se num atribui a ela três funções: pedagógico-didática, de
momento dialético do processo de avançar no diagnóstico e de controle (LIBÂNEO, 1994). Essas
desenvolvimento da ação, do crescimento para funções estão muito próximas da função da avalia-
a autonomia, do crescimento para a compe- ção estabelecida por Haydt (2002).
tência etc. Como diagnóstica, ela será um mo-
A função pedagógico-didática se refere ao pro-
mento dialético de “senso” do estágio em que
se está e de sua distância em relação à pers- cesso avaliativo que cumpre os objetivos gerais e es-
pectiva em que se está colocada como ponto pecíficos do processo de ensino e de aprendizagem.
a ser atingido à frente. A função classificatória Ao comprovar, por meio da avaliação, se o aluno
subtrai da prática da avaliação aquilo que lhe
aprendeu ou não, evidencia-se se a finalidade social
é constitutivo: a obrigatoriedade da tomada de
decisão quanto à ação, quanto ela está avalian- do ensino, a preparação para o enfrentamento das
do uma ação. exigências sociais, a inserção no processo global de
transformação social e o acesso à cultura como meio
Podemos perceber que a avaliação classificatória para participação ativa na sociedade foram alcança-
tem uma maior pretensão quanto a obtenção de mé- dos (LIBÂNEO, 1994).
dias ou notas, tanto para a aprovação quanto para a Ao mesmo tempo a função didático-pedagógica
reprovação. Diante da forma com que os autores a possibilita que o aluno seja mais responsável com re-

176
EDUCAÇÃO FÍSICA

lação aos seus estudos, assumindo-o como um dever a qualificação dos resultados escolares. Deve haver
social. Desta forma, com sua função didática a ava- um controle contínuo no processo de interação en-
liação contribui para a fixação e assimilação dos co- tre professores e alunos, no decorrer das aulas e da
nhecimentos, pois a correção dos erros possibilita o realização de atividades que possibilitarão ao profes-
aprimoramento, a ampliação e aprofundamento de sor observar se os alunos estão desenvolvendo suas
conhecimentos e habilidades e desenvolvendo suas habilidades e competências. O controle parcial e fi-
competências (LIBÂNEO, 1994). nal será realizado, desta forma, no final do bimestre,
A função diagnóstica, que possibilita que o pro- semestre ou do ano letivo, no caso das instituições
fessor acompanhe o progresso de seus alunos e sua que os possuem.
atuação pedagógica, tornando possível que se modi- Segundo Luckesi (2005, p.25)
fique o processo de ensino e aprendizagem, é a mais
importante, pois efetiva a função didático-pedagó- A função verdadeira da avaliação da aprendi-
zagem escolar seria auxiliar a construção da
gica (LIBÂNEO, 1994).
aprendizagem satisfatória; porém, como ela
A avaliação diagnóstica ocorre no início, no está centralizada nas provas e exames, secunda-
meio e no fim dos conteúdos ou aulas. Ao iniciar, riza o significado do ensino e da aprendizagem
verifica-se quais são as condições que os alunos pos- como atividades significativas em si mesmas e
suem para iniciar um novo conteúdo. Ou seja, é um superestima os exames. Ou seja, pedagogica-
mente, a avaliação da aprendizagem, na medi-
momento de sondagem dos conhecimentos e ex-
da em que estiver polarizada pelos exames, não
periências que os alunos já possuem e que servirão cumprirá a sua função de subsidiar a decisão da
como pré-requisitos para a sequência didática. melhoria da aprendizagem.
No meio do processo de ensino e de aprendi-
zagem, é realizado o acompanhamento dos alunos O autor discute um modelo de avaliação que priori-
para saber se houve evolução da aprendizagem. Esse za a aprendizagem dos alunos, não o atual modelo
momento também é propício para a correção de de avaliação, que está em vigência nas escolas. Antu-
algumas falhas, se houver. Para o professor, esse é nes (2003), em sua obra Avaliação da aprendizagem
o momento de verificação do seu trabalho, de an- escolar, discute em quais competências os alunos
damento da disciplina e adequação de métodos e deverão apresentar progresso depois de uma série
recursos. Por fim, é preciso verificar os resultados de atividades escolares. Ele toma como referência
finais da aprendizagem, o que ocorrerá ao final de de competência o conceito de Perrenoud (2009, p.
um conteúdo, bimestre ou semestre. Essa avaliação, 30), que a entende como “a faculdade de mobilizar
mesmo que final, também é importante para a ve- um conjunto de recursos cognitivos – como as inte-
rificação do processo de ensino e de aprendizagem ligências, saberes, habilidades e informações – para
(LIBÂNEO, 1994). solucionar com pertinência e eficácia um conjunto
A função de controle se refere aos meios e a de situações”.
frequência com que as avaliações são realizadas e

177
DIDÁTICA

Tomando o conceito como referência, segundo SAIBA MAIS


Antunes (2003, p. 24-26, grifos no original), cabe
aos alunos trabalhar para: Para saber mais sobre os processos de avalia-
ção escolar, sugiro a leitura das obras publi-
a) Dominar plenamente a leitura e a escrita; cadas por Celso Antunes, em especial a Ava-
b) Dominar a propriedade de fazer contas e, liação da aprendizagem escolar, que apresenta
progressivamente, ir superando desafios ló- de forma simples dicas, sugestões, soluções,
gico-matemáticos mais amplos e resolvendo estratégias de avaliação e modelos concretos
para que os professores possam se atualizar.
problemas mais complexos; c) Perceber e com-
preender seu entorno social, sendo capaz de Fonte: Elaborado pela autora (2018).
atuar sobre ele; d) Usar com propriedade, eficá-
cia e pertinência habilidades operatórias, como
analisar, comparar, classificar, deduzir, criticar,
sintetizar, interpretar dados, fatos e situações; Libâneo (1994) tece uma crítica à prática avaliativa
e) Compreender de maneira crítica os meios em nossas escolas, pois ela se resumiu à função de
de comunicação, não se deixando manipular controle, classificando os alunos de forma quantita-
como consumidor e como cidadão; f) Plane-
tiva por meio das notas que obtêm nas provas. Nesse
jar, trabalhar, selecionar metas e resolver pro-
blemas em grupo, definindo estratégias e mé- sentido, os professores não têm conseguido utilizar
todos; g) Localizar, acessar e usar a informação as avaliações como um procedimento que visa aten-
acumulada. der a função educativa e formativa de seus alunos.
Devemos, portanto, entender que a avaliação
Ao avaliar por meio desse referencial, podemos per- consiste em considerar os aspectos qualitativos e
ceber a diferença entre como se avalia nas escolas, quantitativos. A escola possui uma função social,
quantitativamente, e uma avaliação que visa o pro- que é a de introduzir crianças e jovens no mundo
gresso do aluno quanto às competências, habilida- da cultura e do trabalho. Isso será possível por meio
des, capacidades e inteligências. Ou seja, a avaliação das ações pedagógicas que o professor desenvolve
tem de ser aplicada com o objetivo de aferir o desen- em sala de aula, levando em consideração a orga-
volvimento dos educandos. nização do ensino e o desenvolvimento autônomo e
independente dos alunos.

178
EDUCAÇÃO FÍSICA

179
DIDÁTICA

Aspectos Pedagógicos e
Psicológicos da Avaliação
A avaliação consiste em uma tarefa necessária de professores quanto de alunos. A avaliação é uma
e permanente no trabalho do professor, o qual tarefa complexa, que não deve se resumir a provas e
acompanha e orienta passo a passo o processo atribuição de notas (LIBÂNEO, 1994).
de ensino e de aprendizagem. Por meio da ava- A dimensão pedagógica da avaliação é entendida
liação, os resultados que vão sendo obtidos por como aquela que implica diretamente no processo
meio do trabalho conjunto de professor e alunos de ensino e de aprendizagem, com suas caracterís-
são comparados com os objetivos propostos para ticas, intencionalidade consciente e sistematização.
a aprendizagem, a fim de constatar progressos ou Compreendemos que o trabalho do professor com
dificuldades e reorientar o trabalho pedagógico, se seus alunos passa necessariamente por uma organi-
necessário (LIBÂNEO, 1994). zação metodológica, com objetivos a serem atingi-
Nesse sentido, podemos dizer que a avaliação é dos, conteúdos a serem trabalhados e um processo
uma reflexão sobre o nível do trabalho escolar tanto de avaliação de resultados (BARLOW, 2006).

180
EDUCAÇÃO FÍSICA

Na discussão do que é real e o que é ideal à ganhando independência da relação professor e alu-
prática pedagógica em avaliação, ficamos com o no. Mais do que uma oportunidade de aprendiza-
conceito de Luckesi (2005, p. 33), que estipula que gem significativa, a avaliação é uma oportunidade
a “avaliação é um julgamento de valor sobre ma- de prova da resistência dos alunos aos ataques do
nifestações relevantes da realidade, tendo em vista professor. As avaliações são realizadas e as notas
uma tomada de decisão a partir de um critério”. atribuídas como se não tivessem relação com o pro-
Luckesi (2005), em sua obra intitulada Avaliação cesso de aprendizagem. As notas, dessa forma, reve-
sobre a aprendizagem escolar, discute avaliação lam por meio de números a aprendizagem bem ou
sob vários olhares, tomando como ponto de par- malsucedida dos alunos.
tida seu conceito sobre a mesma. Em seu primeiro Medo: é um fator de controle social, utilizado
capítulo, apresenta um conjunto de observações pelo Estado, pela Igreja e pela escola (LUCKESI,
sobre avaliação sob as visões da promoção, dos 2005). O medo não só produz uma personalida-
professores, dos pais, do fetiche e do medo, que de que é submissa em comportamentos e hábitos,
transformam a avaliação em um instrumento do- mas também conduz doenças respiratórias e gás-
tado de conotações negativas: tricas, por exemplo, resultado de diversos tipos de
Promoção: o educando tem sua atenção na pro- estresse.
moção, ou seja, em “passar para o próximo ano”, ser Partindo da visão de Luckesi (2005) sobre a
promovido para a próxima etapa escolar. Nesse con- avaliação, é preciso ter conhecimento de que não
texto, não são levados em consideração os objetivos podemos reproduzir em nossos alunos os mesmos
da aprendizagem, o desenvolvimento de habilidades medos e consequências que em nós foram um dia
e competências e a função social da escola. causados devido ao processo avaliativo. Dessa for-
Professores: utilizam a avaliação como instru- ma, compreender a avaliação e suas funções se faz
mento de ameaça, de controle sobre a turma, ou necessário para que tenhamos uma prática pedagó-
apenas sobre os indisciplinados. O professor tenta gica consistente com a teoria escolhida e praticada
promover a avaliação como motivadora da apren- nas escolas.
dizagem. A partir desse olhar – que muitos pro- As consequências pedagógicas da avaliação são,
fessores possuem – a avaliação torna-se um único segundo Luckesi (2005, p. 25):
momento no final de um conteúdo, bimestre ou
ano letivo, e visa apenas a função somativa e a pro- A função verdadeira da avaliação da aprendi-
zagem seria auxiliar a construção da aprendi-
moção ou não do aluno.
zagem satisfatória: porém, como ela está cen-
Pais: estão focados nas notas dos seus filhos e tralizada nas provas e exames, secundarizadas o
na promoção dos mesmos para a próxima etapa es- significado do ensino e da aprendizagem como
colar. Assim, desconsidera-se o processo educativo, atividades significativas a si mesmas e superes-
que é complexo e exige apoio da família. tima os exames. Ou seja, pedagogicamente, a
avaliação da aprendizagem, na medida em que
Fetiche: Segundo Luckesi (2005, p. 23), “as pro-
se estiver polarizada pelos exames, não cumpri-
vas e exames são realizados conforme o interesse dos rá a sua função de subsidiar a decisão da me-
professores ou do sistema de ensino”, ou seja, estão lhoria da aprendizagem.

181
DIDÁTICA

CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO

Para que este tipo de situação não seja recorrente no O planejamento da avaliação na educação deverá
processo de ensino e de aprendizagem, é preciso que ser guiado pelos aspectos que envolvem o processo
os objetivos e a avaliação estejam intrinsecamente de ensino e de aprendizagem dos alunos. O discente
ligados, uma vez que o processo avaliativo consiste deverá ser avaliado com relação ao seu crescimento,
em determinar em que medidas os objetivos pre- sua busca pelo fortalecimento do conhecimento. Em
vistos estão sendo alcançados (HAYDT, 2002). Os qualquer nível ou modalidade de ensino, o processo
objetivos constituem o norte do processo de ensino de avaliação deverá ser bem planejado, uma vez que
e de aprendizagem; diante disso, podemos afirmar todas as possíveis situações com relação aos alunos,
que é imprescindível a definição dos objetivos diante material didático, professores ou componentes am-
do processo de ensino e de aprendizagem, mas prin- bientais necessitam ser previstas e/ou antecipadas
cipalmente diante da avaliação. (SANTANA PINTO, 2009).

A avaliação, para ser considerada válida, deve A avaliação pode ser definida como a aplica-
ser realizada em função dos objetivos pre- ção sistemática de procedimentos metodoló-
vistos, pois, do contrário, o professor poderá gicos para determinar, a partir dos objetivos
obter muitos dados isolados, mas de pouco propostos e com base em critérios internos
valor para determinar o que cada aluno real- e/ou externos, a relevância, a efetividade e o
mente aprendeu. É a partir da formulação dos impacto de determinadas atividades com a
objetivos, que vão nortear o processo de ensi- finalidade de tomada de decisão (SANTANA
no-aprendizagem, que se define o que e como PINTO, 2009, p. 4).
julgar, ou seja, o que e como avaliar. É por isso
que normalmente se diz que o processo de ava-
liação começa com a definição dos objetivos Ao utilizarmos qualquer um dos instrumentos para
(HAYDT, 2002, p. 35). avaliar os alunos, é preciso especificar o objetivo da
avaliação, utilizando sempre linguagem clara. Dessa
Os objetivos precedem a avaliação, pois os mesmos forma, o aluno terá condições de responder exata-
norteiam a caminhada do professor, tornando a ava- mente o que está sendo pedido, evitando, assim, ru-
liação um processo natural, não um instrumento de ídos na comunicação.
medição, moeda de troca ou punição. Diante disso, Para que a avaliação possa ser contínua, media-
entendemos que os objetivos de aprendizagem são dora e processual, ela deve ser elaborada levando em
essenciais, tendo em vista que são eles que indicarão consideração os objetivos propostos na disciplina e
o que o aluno deverá ser capaz de fazer como con- no curso ofertado. Nesse sentido, o professor é quem
sequência da compreensão de um conteúdo e reali- avalia, mas os critérios devem estar claros para os
zação das atividades de fixação. Ou seja, os objetivos alunos, conforme mostra o esquema abaixo:
definirão as habilidades e competências que devem
ser desenvolvidas pelos alunos.

182
EDUCAÇÃO FÍSICA

Figura 1: Critérios de avaliação


Fonte: Elaborado pela autora (2018).

Cada sistema de ensino estabelece os seus critérios


de avaliação de acordo com a legislação vigente, ou
seja, de acordo com aquilo que se espera do aluno ao A partir desses critérios, cada professor tem auto-
final de um nível de ensino. No entanto, é possível nomia para estabelecer critérios mais específicos de
afirmar, que de forma geral, os critérios são estabe- acordo com cada disciplina e a necessidade de sua
lecidos de acordo com os seguintes itens: responsa- classe. É preciso lembrar que os critérios de avalia-
bilidade, cooperação, participação e autonomia. Eles ção devem estar de acordo com a legislação vigente,
envolvem processos menores como: o currículo da escola e o projeto político pedagógico.

183
considerações finais

C
aro(a) aluno(a), nesta unidade discutimos o processo de avaliação es-
colar. Se acreditamos em um processo pedagógico que tenha o aluno
como parte integrante e ativa da construção de seu conhecimento e o
professor como mediador do processo de ensino e de aprendizagem,
não podemos ter uma avaliação com caráter tradicional.
Assim, devemos adotar os três modelos de avaliação em nossas práticas, a fim
de que o processo avaliativo leve em consideração todas as etapas da educação
escolar, desde o momento de preparação das aulas e levantamento do conheci-
mento prévio dos alunos, passando pelo processo de ensino e de aprendizagem,
com a exploração dos conteúdos e atividades, até o momento de finalização das
mesmas, quando o aluno já terá compreendido e conseguirá aplicar o novo co-
nhecimento na prática.
É preciso destacar que a avaliação escolar avalia tanto o aluno quanto o pro-
fessor. O aluno deve ser avaliado em todos os momentos e aspectos, dessa forma,
entendemos a avaliação como um processo contínuo na prática pedagógica. O
professor também é avaliado pelo emprego de recursos, procedimentos e mé-
todos, e pela sensibilidade para ver que o caminho tomado não está levando os
alunos a compreender os conteúdos propostos. Deve, portanto, tomar a decisão
de romper com o curso e seguir por outro caminho.
A prática docente é cheia de construção e reconstrução. Isso deve se refletir
na avaliação, pois ela não deve ser empregada como parte final do processo. É,
pelo contrário, uma possibilidade de avaliação da prática para uma tomada de
decisão, sempre levando em consideração o processo de ensino e aprendizagem,
a função social da escola e o desenvolvimento das competências e habilidades de
nossos alunos. Esperamos que você, caro(a) aluno(a), ao final deste estudo, tenha
compreendido a importância da Didática para a sua formação profissional e que
possa usufruir desses conhecimentos em sua prática.

184
atividades de estudo

1. Segundo Ferreira (2010, p. 1) avaliação significa III) Os professores veem a avaliação como ins-
avaliar, estimar a qualidade ou competência de trumento de controle e ameaça.
alguém, valoração de bens por um avaliador. IV) O medo no processo avaliativo é tido como
Diante disso, leia e analise as assertivas abaixo parte do controle social, utilizado pela igre-
com relação ao conceito de avaliação. ja, pelo Estado e pela escola.
I - Para Luckesi (2005), a avaliação é um jul-
gamento de valor sobre as ações, partindo Está correto o que se afirma em:
de um critério estabelecido. a) I, II e III, apenas.

II - Scriven (1978), concorda com a avaliação b) I, III e IV, apenas.


que compara e classifica os alunos de c) I, II e IV, apenas
acordo com o seu desempenho.
d) II, III e IV, apenas.
III - Para Perrenoud (1999), os alunos são
avaliados e classificados de acordo com a e) l, ll, lll e lV.
norma de excelência.
3. Segundo Haydt (2002), quando o assunto é ava-
IV -Stuffebeam (1971), apresenta um tipo de liar temos três funções, sendo elas: diagnosticar;
avaliação que expressa flexibilização, pois controlar; e classificar. Diante disso, leia as asser-
possui como objetivo delinear, obter e for- tivas e considere V para as verdadeiras e F para
necer informações. as falsas com relação a avaliação diagnóstica, so-
Está correto o que se afirma em: mativa e formativa.

a) I, II e III, apenas. I - A avaliação diagnóstica possui como fun-


ção fornecer os dados para aperfeiçoar o
b) I, III e IV apenas. processo de ensino e de aprendizagem.
c) I, II e IV, apenas. II - A avaliação formativa possui como objetivo
d) II, III e IV, apenas. constatar se os objetivos que foram esta-
belecidos foram alcançados pelos alunos.
e) l, ll, lll e lV.
III - A avaliação somativa possui como função
2. Luckesi (2005), em sua obra intitulada Avaliação classificar os resultados de aprendizagem
sobre a aprendizagem escolar, discute a avalia- alcançados pelos alunos, de acordo com
ção sob vários olhares. Diante disso, leia e analise níveis de aproveitamento estabelecidos.
as afirmativas abaixo com relação aos aspectos IV -As três avaliações juntas podem dinamizar
pedagógicos e psicológicos das avaliações esco- o processo de avaliação escolar, que mui-
lares e seus objetivos: tas vezes cai no uso errôneo.
I) A avaliação no contexto escolar é vista
como uma etapa do processo de ensino e As afirmações I, II, III e IV são, respectivamente:
de aprendizagem, nunca como apenas um a) V, V, V, F.
processo de promoção. b) F, V, F, V.
II) Os pais veem a avaliação como uma etapa c) F, V, V, F.
a ser cumprida antes da progressão para a
próxima série. d) F, V, V, V.
e) V, V, V, V.

185
atividades de estudo

4. Luckesi (2005) define avaliação como o processo IV -As avaliações são empregadas na prática
de avaliação qualitativa sobre os dados relevan- escolar conforme a definição de Luckesi
tes oriundos do processo de ensino e de apren- (2005), ou seja, levando em consideração
dizagem, que auxilia o professor na tomada de o processo de ensino e de aprendizagem
decisão sobre o seu trabalho realizado. O resul- e as situações didáticas vivenciadas.
tado dessa prática deve ser a análise dos dados, Está correto o que se afirma em:
que permite ao professor decidir o que deverá
a) I, II e III, apenas.
ser feito em seguida: retomada dos conteúdos,
reorientação do processo de ensino e de apren- b) I, III e IV, apenas.
dizagem ou continuação e inserção de novos c) I, II e IV, apenas.
conteúdos. A partir disso, leia e analise as afirma-
d) II, III e IV, apenas
tivas que seguem:
I - A avaliação é vista por muitos como for- e) l, ll, lll e lV.
ma de controle e retenção dos conteúdos. 5. Na última unidade do nosso livro da disciplina de
Avalia-se o que o aluno foi capaz de me-
Didática, discutimos sobre a avaliação escolar, e
morizar e não o que de fato aprendeu e
apesar da mesma ser um processo de aprecia-
poderá aplicar nas situações práticas.
ção qualitativa sobre os dados relevantes do pro-
II - Os resultados das avaliações devem ser cesso de ensino e de aprendizagem, Gil (2009)
encarados como resultados de uma situ- nos revela que nem sempre as escolas a enca-
ação didática, na qual professor e alunos
ram dessa forma. Neste sentido, disserte:
estão empenhados em atingir o objetivo
a) Qual a função da avaliação diagnóstica?
do ensino, que é a aprendizagem.
b) Levando em consideração que se trata de
III - Muitas avaliações não possuem relação
um processo de apreciação qualitativa so-
com o que foi ensinado em sala de aula,
bre os dados relevantes do processo de
ou seja, o professor ensina de uma forma
ensino e de aprendizagem, por que é tão
e na prova propõe questões que não se
importante avaliar os alunos?
relacionam com a forma que os conteú-
dos foram ensinados.

186
LEITURA
COMPLEMENTAR

Avaliação escolar
O que fazemos com os alunos que não vão bem no pro- Horn (2004, p, 15) pontua que “o olhar de um educador
cesso de avaliação? Quais ações temos tomado frente atento é sensível a todos os elementos que estão pos-
aos resultados das avaliações? Estes são questionamen- tos em uma sala de aula. O modo como organizamos
tos que todos os professores deveriam fazer no decorrer materiais e móveis, e a forma como crianças e adultos
de todo o processo de ensino e aprendizagem, não so- ocupam esse espaço e como interagem com ele são re-
mente na hora da avaliação. veladores de uma concepção pedagógica”. A autora des-
Considerando que o dia a dia dos alunos na escola é re- taca que é frequentemente encontrada nas escolas uma
pleto de atividades organizadas pelos professores, ques- pobreza nos materiais, nas cores, nos aromas, em todo
tões como a gestão do tempo e do espaço tornam-se no ambiente escolar, espaço onde as crianças poderiam
desafios. Pode ser complexo organizar atividades como se desenvolver melhor se “fosse mais bem organizado e
brincar, se alimentar, ir ao parque, ao pátio, e também mais rico em desafios”. Essa percepção se aplica a todos
desenvolver atividades pedagógicas, resolver problemas os ambientes escolares, de qualquer nível ou modalida-
matemáticos e compreender os conteúdos das diversas de de ensino.
disciplinas levando em consideração o desenvolvimento Vale também ressaltar a importância da sequência didá-
dos educandos (NONO, 2011). tica no desenvolvimento das atividades, uma vez que ela
Barbosa e Horn (2001) destacam a importância de uma garantirá que os alunos possam entender o conteúdo
sequência nas atividades diárias dos alunos, de forma e desenvolvê-lo com máximo aproveitamento. Diante
que se priorize o desenvolvimento das atividades que disso, é possível concluir que o professor é peça chave
mais gostam, a fim de que os alunos se desenvolvam. nesse processo, pois cabe a ele planejar, garantindo que
Pontuam, também, que a rotina no ambiente escolar é o tempo, o espaço e a sequência sejam contemplados,
muito importante, uma vez que os alunos se habituam visando sempre o desenvolvimento do aluno. Seguindo
à organização e ao desenvolvimento das atividades de essa organização, o processo avaliativo será natural den-
acordo com a sequência estabelecida pelos professores. tro do contexto pedagógico.

Fonte: a autora (2018).

187
material complementar

Indicação para Ler

Avaliação da aprendizagem escolar – estudos e preposições


Cipriano Carlos Luckesi
Editora: Editora Cortez
Sinopse: este livro destina-se a educadores, assim como a alunos dos cursos de
Pedagogia e Licenciaturas. Nele são encontrados estudos críticos sobre avaliação
da aprendizagem escolar, bem como proposições para de torná-la mais viável e
construtiva.

Indicação para Assistir

Pro dia nascer feliz


Ano: 2006
Sinopse: trata-se de um diário de observação da vida de adolescentes no Brasil
em escolas públicas e particulares de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco.
O documentário flagra as angústias e inquietações dos alunos e como eles se
relacionam no ambiente fundamental para sua formação.

188
referências

ANTUNES, C. Avaliação da Aprendizagem Escolar. LUCKESI, C. C. Avaliação da aprendizagem escolar.


São Paulo: Cortez, 2003. São Paulo: Cortez, 2005.
BARLOW, M. Avaliação escolar: mitos e realidades. PERRENOUD, P. Avaliação da excelência à regu-
Porto Alegre: Artmed, 2006. lação das aprendizagens: entre duas lógicas. Porto
FERREIRA, A. B. H. Mini Aurélio: o dicionário da Alegre: Artmed, 1999.
língua portuguesa. 8 ed. Curitiba: Positivo, 2010. RABELO, E. H. Avaliação: novos tempos, novas prá-
FERREIRA, L. M. S. Retratos da avaliação: conflitos, ticas. Petrópolis: Vozes, 2003.
desvirtuamentos e caminhos para a superação. 3 ed. SANTANA PINTO, I. M. B. Avaliação da aprendiza-
Porto Alegre: Mediação, 2009. gem. Ceará: CIAED, 2009.
HAYDT, R. C. Avaliação do processo de ensino- SCRIVEN, M.; STUFFLEBEAM, D. Avaliação edu-
-aprendizagem. São Paulo: Ática, 2002. cacional II:
GASPARIN, J. L. Avaliação na perspectiva histó- perspectivas, procedimentos e alternativas. Petrópo-
rico-crítica. X Congresso Nacional de Educação – lis: Vozes, 1978.
EDUCERE. Pontifícia Universidade Católica do Pa- TYLER, R. W. Princípios básicos de currículo e en-
raná, Curitiba, 2011, p. 1973-1984. sino. Tradução de Leonel Vallandro. Porto Alegre:
LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 1994. Globo, 1975.

189
gabarito

1. Alternativa correta é a B.
2. Alternativa correta é a D.
3. Alternativa correta é a D.
4. Alternativa correta é a A.
5. Sugestão de resposta:
Outra função da avaliação destacada por nosso autor e a de identificar
progressos e dificuldades dos alunos e dos professores. Essa função é
conhecida como diagnóstica e, segundo Libâneo:
Na prática escolar cotidiana, a função diagnóstica da avaliação e a
mais importante porque é a que possibilita a avaliação do cumpri-
mento da função pedagógico-didática e a que dá novo sentido a fun-
ção de controle (2008, p. 197):.
A avaliação diagnóstica ocorre no início, durante e ao final do desenvol-
vimento das aulas e conteúdos. Como podemos perceber por meio das
palavras do autor, a avaliação diagnóstica ocorre em todo o processo de
ensino e em diversas etapas. Na etapa inicial, sua função e a de verifi-
car os conhecimentos e experiências já disponíveis. Esses dados serão
utilizados pelo professor como pré-requisitos para a sequência ideal dos
conteúdos. Durante o processo de ensino, os alunos são avaliados com
o objetivo de acompanhar seus progressos, corrigir as falhas, esclarecer
dúvidas e estimular a aprendizagem. Ao mesmo tempo, essa avaliação
fornece preciosas informações a respeito de como o professor está con-
duzindo seu trabalho. É possível verificar se o ritmo do conteúdo está
adequado ao ritmo de aprendizagem dos alunos, se os métodos e técni-
cas utilizados estão de acordo com os objetivos elencados, se os materiais
escolhidos estão de acordo com o nível de compreensão e linguagem dos
alunos etc. E, finalmente, a avaliação realizada ao final do conteúdo tem
como objetivo específico verificar a aprendizagem da matéria ou conteú-
do. Mediante as constantes avaliações, notamos que, aos poucos, temos
maior controle das situações que envolvem o processo de ensino. Esse
controle permite ao professor observar como os alunos estão se saindo
na assimilação de novos conhecimentos e de novas habilidades. Nesse
caso, a atribuição de notas não é necessária, pois a finalidade é a de for-
necer informações relevantes para o professor.

190
conclusão geral

Caro(a) aluno(a), chegamos ao final de mais uma Esperamos que você, caro(a) aluno(a), possa ver
disciplina! Esperamos que os conhecimentos aqui a escola como instituição que possui uma função
obtidos sejam significativos para sua práxis docen- social. Mais que ensinar as ciências de forma verti-
te, tornando seu processo de ensino mais facilitador, cal, deve levar o sujeito à emancipação humana, o
resultando na aprendizagem de qualidade a que to- que somente acontece quando o próprio aprendiz vê
dos têm direito, bem como no desenvolvimento ple- significado nos conteúdos, de forma que se aproprie
no de seu aluno, seja em ambientes formais ou não dos mesmos, transforme-os em novos conhecimen-
formais de aprendizagem. Lembramos que, em todo tos e os utilize para sua atuação na sociedade. Para
processo de ensino, há um professor e um aluno. tanto, devemos ter domínio dos processos de ensino,
Ao findar as discussões sobre a Didática, espe- das estratégias e a clareza dos objetivos que temos
ramos que você tenha compreendido a importância com a educação em diferentes âmbitos.
dessa ciência para sua formação. Tivemos como ob- Acreditamos que a formação Didática é essencial
jetivo, neste estudo, refletir sobre o processo de en- para professores, pois ela nos dá as bases pedagógi-
sino e de aprendizagem historicamente construídos, cas necessárias para compreendermos as metodo-
a fim de que você compreenda como as formas de logias e sabermos aplicá-las, tornando nossas aulas
ensino estão presentes na sociedade atual. Cada pe- dinâmicas, facilitadoras, eficientes e eficazes. Isto,
ríodo histórico exige da sociedade um Homem que caro(a) aluno(a), é o que nossa sociedade precisa:
supra as necessidades de seu contexto (econômico, professores bem formados, alunos que dominem o
político, entre outros aspectos). A educação, nesse saber e que ajudem a construir uma sociedade mais
ínterim, ajuda na formação desse sujeito. funcional para todos.
Glossário

COMPETÊNCIA PLANEJAMENTO
Capacidade teórica e/ou prática para fazer algo a partir Processo reflexivo de organização de uma ação, o que
de um conjunto de habilidades. Exemplo: competência implica na construção do caminho que será percorrido.
para compreender o contexto social, partindo da habili- Isso implica na elaboração de um plano e de um projeto.
dade de análise.
PLANO
CONTEÚDO Se o planejamento é a tomada de decisão da ação, o pla-
Unidade temática a ser trabalhada e que compõe uma no é o processo de efetivação dessa ação. É um registro
disciplina. Exemplos: gramática, trigonometria, arte barro- escrito, um documento ou outros elementos que ajudam
ca, dança e movimento, antiguidade, relevo, entre outras. a sistematizar a ação.

CURRÍCULO PLANO ANUAL


Consiste no documento que expressa os conteúdos a Documento que expressa a forma de organização da
serem ensinados. Dentro do currículo os conteúdos são escola quanto aos programas e as atividades que serão
organizados por etapas do ensino, disciplinas e grau de desenvolvidas ao longo do ano em âmbito institucional
aprofundamento.
por todos os seus agentes.

DIDÁTICA
PLANO DE AULA
Estudo dos processos de ensino e seus componentes.
Documento que estabelece as atividades que serão re-
DIRETRIZES alizadas em uma aula ou em um conjunto de aulas, a
fim de que o professor trabalhe os conteúdos em tempo
Orientações que definem e regulamentam as ações que
hábil, por meio de recursos que promovam a facilitação
devem ser tomadas.
do ensino e da aprendizagem de qualidade. Esse plano é

DISCIPLINA específico para cada professor.

O conjunto de conteúdos de determinada área científica.


PRÁXIS
Exemplos: português, matemática, história, geografia,
educação física, artes etc. União indissociável entre teoria e prática.

HABILIDADE PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO


Recurso cognitivo que auxilia no desenvolvimento de Documento que expressa a proposta pedagógica da
determinadas atividades. Exemplos: atenção, memória, escola. Ele é construído de forma democrática, ou seja,
criatividade, entre outras. com a participação da equipe pedagógica, da comunida-
de escolar, dos pais e dos alunos, quando possível. Nes-
MÉTODO se documento as responsabilidades são assumidas para
Conjunto de procedimentos. No caso dos procedimentos que o objetivo social da escola seja alcançado. Forma-se
escolares podem se referir ao ensino ou estudo. Exemplos: a identidade da instituição.
método de ensino - exposição visual do conteúdo. Método
de aprendizagem - leitura e reprodução escrita do conteúdo. TENDÊNCIA PEDAGÓGICA
Teoria que propõe caminhos que podem ser seguidos
METODOLOGIA pela escola com finalidades aos processos de ensino e
Estudo da aplicação dos métodos, ou seja, se são pos- de aprendizagem.
síveis, se há aplicabilidade dos métodos. A metodolo-
gia é o caminho teórico pelo qual o método se efetiva
na prática. Exemplo: metodologia histórico-cultural, na
qual o indivíduo aprende por meio da interação com os
objetos e com o meio.

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