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Conflito no Jogo: Raiva e Rivalidade

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Mia Navisha
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Conflito no Jogo: Raiva e Rivalidade

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campo adversário. — Tenta não cair na pilha dele, tá bom?

— Pede me
encarando nos olhos.
Puxo o ar com o nariz, sentindo meu nariz arder por conta do ar gelado
e expiro bem devagar, formando uma neblina.
— Tudo bem — afirmo com a cabeça. — Vamos voltar para nossas
posições que o jogo vai recomeçar. — Digo quando vejo o técnico
adversário liberar um jogador.
Meu amigo segue para o lado contrário ao meu e em poucos segundos,
o jogo é retomado e Ryan consegue interceptar o disco rapidamente e a
briga por ele começa.
Coloco força em minhas pernas e sigo em frente até estar lado a lado
com Thomas, que acabou de pegar nosso disco de volta. Ele olha em volta a
procura de uma assistência assim que percebe que não conseguirá seguir em
frente por muito tempo sem perder o disco, quando grito por ele o avisando
que estou livre.
Sem pensar muito, ele lança o disco em minha direção com uma
pontaria incrível, e quando o recepto, não perco tempo e sigo em direção ao
gol. O goleiro adversário me encara pela grade protetora de seu capacete, e
mesmo que dificulte um pouco, consigo ver o olhar feroz com o qual ele me
encara.
Seguindo seu exemplo, o encaro com o máximo de arrogância possível
e quando me sinto preparado, dou uma tacada certeira no disco e comemoro
quando o vejo bater no canto superior esquerdo.
Com a visão periférica, vejo o número nove passar ao meu lado e
querendo provocá-lo um pouco como tem feito comigo desde que chegou
aqui, lanço um olhar superior a ele e recebo um olhar de ira em volta.
Levanto o dedo do meio bem alto e olho em direção aos torcedores, a
procura de Holly.
Com um sorriso tão gigante em meu rosto, que poderia rasgar minhas
bochechas, passo meus olhos pelo lugar, até achar minha irmã ao lado da
garota mais incrível desse mundo, e aponto o dedo indicador em direção a
ela, dedicando mais um gol, mas meu sorriso vai morrendo aos poucos
quando presto atenção em sua expressão.
Diferente das outras vezes que dediquei um gol a ela, Holly não pula
animada com um dos seus maravilhosos sorrisos estampados em seu rosto.
Sinto meu coração se apertar assim que reparo a expressão angustiada
que ela transmite. Seus olhos estão assustados por algum motivo. O que
será que aconteceu com ela?
A preocupação começa a tomar forma dentro de mim, mas nem tenho
tempo de pensar muito sobre o assunto, porque sinto um peso em minhas
costas e quase sou derrubado de novo no chão, mas diferente da última vez,
sinto o carinho e o cuidado que meus três melhores amigos têm em não me
machucar.
— É isso aí, Aaron! — Simon grita em meu ouvido e faz um carinho
em minha cabeça.
— Mandou muito bem, porra! — Liam dá tapinhas em minhas costas.
— É isso aí, cara — Bennett é mais cauteloso na comemoração, mas
não menos caloroso.
— Vamos levar esse time para a semi, porra — me viro para ele e o
abraço. — O sonho de um. — Estico minha mão para ele.
— É o desejo de todos — os três respondem em coro.
Mais uma vez, fazemos a promessa de seguirmos esse caminho até a
vitória juntos, e não será nem um babaca que me tirou para cristo hoje, que
irá me desestabilizar.
— Vamos terminar esse jogo — estico minha mão com o taco para a
frente.
Repetindo o mesmo movimento que eu, juntamos nossos tacos e o
batemos um contra o outro.
— Vamos — Bennett é o primeiro a se afastar seguindo por Simon e
Liam.
Seguindo em frente, vou até o meio do ringue para o início da partida
e assim que chego ao meu lugar de destino, vejo que lutarei pela posse do
disco com ele, o babaca número nove.
— Vocês estão prontos, Carson? — o árbitro pergunta olhando para
mim. — Taylor? — Olha para o cara à minha frente.
Quer dizer que seu nome é Taylor?
— Pronto — afirmo encarando o homem à minha frente.
— Mais do que pronto. — Responde com um sorrisinho besta
estampado em seu rosto.
O juiz joga o disco para cima e quando ele cai no chão, Taylor acaba
sendo mais rápido do que eu e o joga para longe em uma tacada certeira.
Estou prestes a me afastar, quando ele entra na frente me impedindo de
prosseguir.
— Então você é o novo cachorrinho dela? — me olha de cima a baixo
como se estivesse me estudando. — Aquela vagabunda não perde tempo.
— Do que você está falando? — pergunto confuso.
Esse cara está me confundindo com alguém?
Que porra ele está dizendo? É sobre quem?
— Eu vi vocês chegarem juntos — seu sorriso é sarcástico. — São um
belo casal, aliás. — Apoia um dos braços em cima do taco. — Não me
impressiona você está de quatro pela vadia. Holly sempre teve uma boceta
maravilhosa.
Sinto meu estômago embrulhar com suas palavras.
Que merda é essa que ele está falando?
Holly?
Eles se conhecem?
— Você a conhece? — pergunto tentando me controlar.
— Infelizmente sim — suspira se fingindo de cansado. — Pior decisão
da minha vida foi quando me aproximei daquela vagabunda, mas fazer o
que? — Dá de ombros. — Sou homem e a vagabunda era gostosa demais
para eu deixar passar. — Olha em direção às arquibancadas e sei que encara
o lugar onde ela está, mesmo sem seguir seu olhar. — Na verdade ela ainda
é uma grande gostosa. Pena que é problema demais.
Travo minha mandíbula e só percebo que estou apertando o taco em
minhas mãos, quando meus dedos ficam dormentes pela força que estou
usando.
— Qual é a porra do seu problema, caralho? — pergunto entre os
dentes.
Avanço um pouco em sua direção.
— Me diga uma coisa — ignora minha pergunta. — Ela ainda geme
como uma atriz pornô? — questiona com um sorrisinho sarcástico
estampado em seu rosto.
A ira toma conta do meu corpo de uma maneira tão forte, que trava
todos os meus músculos.
Quem esse filho da puta acha que é para chegar assim e falar essas
merdas da minha garota?
— Limpe essa boca para falar da minha mulher — aproximo nossos
rostos e tento ao máximo me segurar para não socar a cara dele nesse
momento.
— Que foi? não gosta de saber que não foi o único a comer aquela
vagabunda de todas as maneiras possíveis?
É a gota d’água.
Soco seu rosto com tanta força que acabo o derrubando no chão.
Taylor me encara atordoado enquanto segura o local atingido, e sem
dar chance de ele se recuperar, vou para cima do seu corpo.
O primeiro soco faz o nó dos meus dedos doerem.
O segundo quebrou seu nariz.
No terceiro, seus dentes cortam a pele já esfolada de minha mão.
O quarto e o quinto são dados em uma sequência rápida demais para
que ele possa se preparar e me atingir.
Não consigo me controlar.
Nesse momento, sou como um animal raivoso que quer exterminar
tudo que faça mal a mulher mais incrível que já conheci em minha vida.
Como ele tem coragem de dizer aquelas coisas absurdas sobre Holly?
Esse desgraçado.
Levanto minha mão para desferir mais um soco, mas sou impedido
pelo grito desesperado de minha irmã.
— Aaron, não!
Aos poucos, o transe em que eu estava vai se dissipando e passo a
escutar os gritos vindo das arquibancadas e sinto os braços de alguém
envolverem minhas costas e me puxa de cima do corpo estirado no chão.
— Que porra é essa, Aaron!? — Liam grita meu ouvido. — Está
maluco, caralho? — Seus braços me envolvem com tanta força que tiram o
meu ar.
— Eu... — minha voz é hesitante.
Me sinto confuso. Meu coração está acelerado de uma maneira tão
intensa que me tira o ar. Levo uma das mãos ao peito para tentar acalmar
meus batimentos, e sinto as articulações reclamarem.
O que foi que eu fiz.
Olho para o rosto de Taylor, e o sorrisinho sarcástico já não está mais
presente. O sangue escorre de seu supercílio aberto, um dos olhos está
inchado e seu nariz está um pouco torto e a blusa do seu uniforme está
ensopada de sangue que escorreu do seu nariz.
Eu fiz isso?
Olho em direção a que Hanna está, e a imagem que vejo faz meu
coração se apertar. Minha bonequinha está caída no chão de gelo, com o
rosto manchado de lágrimas negras por conta de sua maquiagem, mas o que
faz meu coração estilhaçar, é o olhar que Holly me lança parada ao lado da
melhor amiga.
— Holly — tento me levantar, mas Liam me prende no lugar. — Me
solta porra. — Me mexo bruscamente tentando me libertar, mas ele não
deixa.
— Você não vai a lugar nem um caralho. — Coloca mais força no
enlace.
Olho em direção a minha garota e meu coração se aperta ao vê-la tão
acuada assim, com as mãos em frente ao rosto e olhos arregalados, faz a
culpa pelos meus atos aumentarem.
Não tenho pena do que fiz com aquele babaca, ainda mais depois das
coisas horrendas que ele disse sobre ela, me sinto culpado pela minha perda
de controle. Principalmente agora que vejo Simon, Bennett e o nosso
técnico vindo em nossa direção.
— Carson, que porra aconteceu aqui!? — o Senhor Foster grita parado
à minha frente. — Você perdeu o juízo? Como você ataca uma pessoa
daquele jeito?
Sem conseguir manter o contato visual, olho para o lado contrário.
— Ele estava sendo provocado por aquele jogador desde o início do
jogo, treinador. — Liam tenta me defender, mas pela cara do homem à
nossa frente, ele não quer saber de desculpas nesse momento.
— Não me importa quem começou, Emerson, e sim que você acaba de
quebrar o nariz de um dos jogadores adversários. — Passa as mãos em seus
cabelos negros com alguns fios grisalhos.
— O que irá acontecer com ele, treinador? — Simon pergunta
preocupado.
Puta merda, Simon.
Se antes eu já estava me sentindo um merda brigão, agora estou me
sentindo um lixo.
Lógico que seria suspenso dos próximos jogos.
— Simon... — o chamo, mas Bennett me interrompe.
— Agora não é hora para isso. — Seu tom é mais sério do que o usual.
— O que acha senhor? — Pergunta encarando nosso técnico.
— Ele deve ganhar uma advertência — suspira. — Não se preocupem.
— Pede olhando para todos nós.
— Nós também? — Liam pergunta.
Nós?
Como assim nós?
— Vocês só afastaram aqueles que queriam revidar, então está tudo
certo.
Escuto suspiros de alívio.
— Melhor assim. — Vejo os ombros de Simon relaxarem.
Espera. Meus amigos me protegem de possíveis ataques? Como não
percebi isso?
Bom, pelo menos não sofrerei nem uma consequência drástica demais.
Me sinto mais aliviado de tomar só uma advertência, mesmo que minhas
ações tenham se excedido um pouco.
— Acho melhor você ir para o chuveiro, Carson. — O mais velho de
nós sugere. — Graças a você, o jogo ficou parado tempo demais. — Pede,
nos deixando para trás.
— Você está bem? — Simon é o primeiro a perguntar.
Afirmo com a cabeça com os olhos focados no gelo, já que a vergonha
de olhar para ele é grande. Sem dizer uma palavra e me mantendo de cabeça
baixa, me levando lentamente e no colo de Liam. Todo o meu corpo dói
pela tensão que o fiz passar.
— Melhor levá-lo, Liam — Bennett pede.
— Não sou uma criança — olho para ele. — Posso ir sozinho.
— Sei que não é criança, Aaron. — Olha em direção ao time
adversário.
Acompanho seu olhar e vejo três deles juntos olhando para nossa
direção.
— Entendi — digo sem me prolongar muito.
Sem esperar por Liam, dou impulso para frente. Estou encarando meus
patins rasparem o gelo aos poucos, quando escuto a voz dele ao meu lado.
— Fala para aquela vagabunda que fazer o namoradinho dela ser
suspenso não é nem um terço do que vou fazer com ela. — Levanto minhas
vistas em sua direção.
— Como é que é? — pergunto.
Será que ele já não apanhou o suficiente?
Abrindo um sorriso sarcástico, ele volta a dizer:
— Vou foder aquela vadiazinha do mesmo jeito que ela me fodeu. —
Prometo.
Cansado de suas ofensas para com Holly, sigo em sua direção, acho
que ele não apanhou o suficiente. Mas sou impedido por Liam, que segura
em meu braço me impedindo.
— Não cai na dele. — Pede.
— Ele está falando da Holly — respondo entre dentes.
— Eu sei — entra na minha frente quando faço menção de atacar. —
Sabe que ele está fazendo de propósito.
Fechando os olhos bem forte, passo a inspirar e expirar bem
lentamente até me acalmar de vez.
— Vamos nessa — peço, já me afastando e seguindo em direção a
saída.
Estou a poucos passos da saída do ringue, quando vejo Holly parada
ao lado de Harry e Hanna. Meu corpo paralisa no lugar e passo a encará-la
me perguntando o que aconteceu entre ela e Taylor, mas só de ver a tristeza
estampada em seu olhar, deixo todas as dúvidas de lado.
— Linda — balbucio indo em sua direção, mas acabo parando no
mesmo lugar quando a vejo balançar a cabeça e com lágrimas em seus
lindos olhos, sair correndo dali, me deixando completamente devastado.
Ela está com medo de mim? Logo de mim?
O que estaria passando em sua cabeça?
São tantas perguntas sem respostas, que me deixam louco.
Com os olhos presos em suas costas, a vejo se afastar até sumir de vez.
Sinto minha garganta se apertar, meus olhos marejarem e uma vontade
gritante de chorar.
Achei que meu coração estava partido antes, mas com o olhar que
Holly me lança, ele acaba de ser destruído.
Salve-me, eu sequer consigo me pegar, não consigo

Ouça os sons do meu coração

Está chamando por você, por si mesmo

Nessa preta escuridão

Você brilha esse tanto


Save Me – BTS

Corro o mais rápido que posso, tentando me afastar daquele estádio o


máximo possível. Sinto meu coração bater forte contra o peito, os ouvidos
zuniam me deixando tonta, e o revirar em meu estômago, acaba me
deixando com uma vontade enorme de vomitar.
O que Theodore está fazendo aqui?
Logo aqui?
As perguntas não param de surgir em minha mente.
Estava tudo ocorrendo bem essa noite. Coloquei a blusa com o nome
de Simon atrás para implicar mais um pouquinho com Aaron quando nos
encontrássemos e, até comprei umas cervejas e besteiras para nossa sagrada
festa em casa depois do jogo. Mas só foi árbitro dar início a partida, para
meu pesadelo começar.
O que ele estava fazendo aqui?
Acho que me farei essa pergunta pelo resto da noite.
Estou quase chegando no estacionamento, quando quase tropeço em
algo solto no chão e por pouco não vou ao chão porque recupero meu
equilíbrio antes.
Olho em volta e o local está completamente vazio, e com o silêncio
ensurdecedor, consigo reparar com mais atenção em mim.
Percebo minha respiração desregulada e ofegante demais para uma
simples corrida, estou tendo um ataque de ansiedade, então tento respirar
fundo, mas o ar não entra da maneira certa em meus pulmões, não importa
o que eu faça, e pensar no que ele possa ter dito a Aaron, acaba aumentando
meu nervosismo mais e mais.
Mesmo em um lugar aberto, me sinto presa e sufocando nesse
momento. Como se uma mão estivesse me enforcando.
Droga, o que eu faço agora?
Estou tão agitada nesse momento, que começo andar de um lado para
o outro, e só me dou conta disso quando a mão de Harry toca meu ombro.
— Holly...?
— O que está fazendo aqui, Harry? — me viro rapidamente sem dar
oportunidade de dizer algo. — Por que logo aqui? — Mesmo com a voz
afetada, é nítido o desespero presente nela.
— É ele, não é?
— Sim — desvio o olhar pela vergonha que sinto.
Sem conseguir me controlar, meus olhos ficam marejados.
Não acredito que estou prestes a chorar por conta desse desgraçado.
— Tenta se acalmar, Holly. Ele não irá fazer nada contra você. —
Hanna se aproxima de mim ao ver que estou prestes a me descontrolar de
vez.
— Eu não consigo — as lágrimas escorrem pelas minhas bochechas.
— Consegue sim — usando as duas mãos, ela segura minhas
bochechas. — Estamos aqui com você. — Aponta para Harry parado ao seu
lado.
Tentando me acalmar, puxo lentamente o ar pelo nariz e vou soltando
aos poucos pela boca. Faço essa repetição por três vezes seguidas, e me
sinto mais aliviada quando meus batimentos vão desacelerando.
— Está melhor? — Hanna pergunta.
Balanço a cabeça em negação.
— Mas tentarei ficar — respondo sentindo meu corpo pesado.
Estava tudo indo tão bem, estavam animados com o jogo de hoje,
nervosos é claro, ainda mais com uma partida tão importante como a de
hoje, mas estávamos confiantes de que levaríamos mais essa para casa e
poderíamos voltar e festejar loucamente como sempre fazemos depois de
um jogo. Mas tudo foi arruinado desde o momento em que vi o sobrenome
de Theodore estampado na camisa amarela e preta.
Bastou um olhar, um mísero olhar para eu saber que meu pior pesadelo
estava de volta. Meu corpo todo paralisou no lugar e me perguntei diversas
vezes se estava louca, mas infelizmente não, ele realmente estava ali, e para
piorar, dando investidas cada vez mais fortes em Aaron.
Meu Deus! O Aaron.
— Hanna, como está seu irmão?
— Não sei — seus olhos demonstram preocupação. — Não o vi
depois que você saiu correndo.
Merda.
Suas palavras são como um gatilho para minha mente perturbada, e
passo a reviver o exato momento em que ele atacou Theo com toda sua ira,
e o olhar devastado que ele me lançou assim que me afastei.
O que será que passa em sua cabeça nesse momento?
Seria medo da minha reação?
Me pergunto o que Theo disse a ele para ter recebido uma ação tão
agressiva de Aaron. Sei que não foram só por conta das provocações que
ele vinha sofrendo desde o início, do meu ex.
O que ele fez?
Por que ele simplesmente não some da minha vida?
Não já me ferrou o suficiente?
— Holly, se acalme. Você está hiperventilando de novo. — Sinto a
mão de Hanna fazer um carinho em minha costa.
Olho para ela é só agora percebo que o ar voltou a ter dificuldade de
encher meus pulmões.
— Eu preciso sair daqui — digo sem fôlego.
— Vamos, Holly Mo. Liam deixou a chave do carro comigo. —
Balança a mesma em frente ao meu rosto.
Concordando com a cabeça, dou um passo em direção ao
estacionamento, mas minhas pernas vacilam um pouco, deixando aparente
as sequelas do ataque de ansiedade que tive e ainda estou tendo, e só não
vou ao chão porque Harry é mais rápido e me segura.
— Você está bem? — pergunta preocupado.
— Minhas pernas estão um pouco fracas — respondo. — Se esperar
um pouco eu consigo andar até lá.
— Nada disso — nega com a cabeça. — Te carregarei até lá.
— Harry, não prec…
Sem deixar que eu conclua, ele se abaixa, enlaça minhas pernas, apoia
o outro braço em minhas costas e me levanta como se eu não pesasse nada.
— Olha, temos um cavalheiro aqui — Hanna faz um comentário
engraçado, tentando descontrair o clima tenso.
— Cavalheiro e forte — digo, tocando no braço do meu amigo. —
Olha esses bíceps, Hanna Mo. — Aperto o local e mesmo sem forças, sorrio
quando vejo suas bochechas corarem.
— Parem com isso. — Pede, virando o rosto para o outro lado.
— Ah, ele está com vergonha — Hanna tenta beliscar suas bochechas,
mas dou tapinhas leves em suas mãos.
— Se ele me deixar cair, eu mato você. — Ameaço.
— Parece que nossa diabinha voltou, Harry. — Hanna brinca enquanto
levanta as sobrancelhas de maneira sugestiva.
— Logo, logo ela manda a gente ir para aquele lugar — ri do seu
comentário.
— Se me irritarem mandarei vocês irem para um lugar muito mais
escuro — respondo apontando para os dois.
Harry e Hanna riem da minha resposta e mesmo que seja por um
mísero momento, me sinto mais leve graças a esse momento com eles.
Mesmo que a dor e a vergonha voltem com força totalmente quando eu
fechar a porta do meu quarto e me deitar na cama, me sinto grata por estar
com eles nesse momento.

Termino de pentear meus cabelos e com eles ainda molhados, sigo em


direção a minha cama e me sento apoiando as costas na cabeceira.
Meu corpo está completamente dormente. Tenho a sensação de que
passei o dia inteiro com peso amarrado em meus braços, pernas e cabeça.
Estou tão exausta nesse momento que poderia dormir por dias seguidos.
— Está melhor agora? — Hanna pergunta fazendo um carinho em
meu tornozelo.
— Um pouco — minha voz não passa de um sussurro.
— Tem certeza? — Harry pergunta me encarando parado em frente a
minha cama.
Assinto com a cabeça já que até as forças para falar eu estou perdendo.
Vejo meus amigos se entreolharam com pena e preocupação
estampada em seus olhos, e sinto meu estômago se contorcer.
Esse era um dos motivos de não querer que ninguém soubesse sobre
minha história com Theodore e o que ele fazia eu sentir. Nunca gostei de ser
alvo de pena de ninguém, mas parece que agora isso irá acontecer mesmo
sem meu querer.
— Não precisam se preocupar comigo — me ajeito na cama e puxo a
coberta até a altura do meu quadril.
— Sempre iremos nos preocupar com você, Holly. — Hanna caminha
em minha direção e se senta ao meu lado.
— Mesmo que você não queira. — Harry dá a volta na cama e se senta
perto do meu pé.
Abro um sorriso fraco e encaro cada um deles, mas não digo nada.
Percebendo meu silêncio, Hanna volta a dizer:
— O que acha de ver um filme para se distrair?
— Acho melhor não — nego, me aconchegando na cama e acabo me
deitando de uma vez. — Só quero ficar assim um pouco.
— Mas você não…
Hanna tenta contestar, mas Harry a impede com um balançar de
cabeça.
— Quer que a gente deixe você sozinha um pouco? — ele pergunta.
— Sim — respondo de uma vez e me sinto aliviada por ele estar
sugerindo isso.
Não queria me sentir uma vaca ingrata por não querer eles perto nesse
momento, mas como um animal ferido e acuado, prefiro lamber meus
machucados sozinha.
— Tudo bem então — Concorda se levantando da cama. — Ficaremos
lá embaixo caso precise de alguma coisa, tá bom? — Harry diz e chama
Hanna para descer com ele.
— Ok — respondo.
Vejo Hanna travar um conflito consigo mesma sobre ficar ou não
comigo nesse momento, mas ela acaba seguindo o conselho de Harry e
saindo do quarto, mas não sem antes beijar meus cabelos úmidos e deixar
claro que se precisasse, era só chamar por ela.
Assim que escuto a porta bater, seguro as pontas do edredom, cubro
minha boa parte do meu rosto, só deixando meus olhos de fora e fico
pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo.
Em poucos minutos, sinto meus olhos pesados e mesmo que eu lute
contra, eu acabo os fechando e permito que me compro relaxe de uma vez.
Estou quase me perdendo em sonhos, quando meu celular toca me
despertando.
Reluto e muito até pegar o celular para responder, mas assim que
percebo que as notificações de mensagem não param de chegar, decido ver
quem é.
Só de ver o novo nome que coloquei em seu contato brilhar, meu
coração dispara de saudades e nervosismo.
Me sento no colchão e continuo a ler as mensagens que ele vai
enviando.
Mesmo sem estar ao seu lado, sei que ele se sente hesitante com o
pavor que ele está sentindo. Aaron manda uma mensagem atrás da outra em
desespero. Também pudera, não é? Como queria que ele reagisse depois
que fugi dele? Muito provavelmente ele acha que estou com medo dele por
conta da sua explosão.
Estou me preparando para enviar uma resposta a ele, quando mais uma
mensagem chega.

Não é só ele que precisa contar algumas coisas hoje. Olho em direção
a minha janela, e encarando as estrelas peço coragem para trazer a pior
parte de mim à tona.

Respondo sua mensagem de um modo simples e passo a esperar que


ele venha até mim.
Porque já te machucaram antes

Posso ver nos seus olhos

Você tenta afugentar isso com um sorriso

Algumas coisas não se disfarçam

Não quero partir seu coração

Talvez eu possa aliviar a dor, a dor

Então, deixe-me dar um tempo ao seu coração, ao seu coração


Give Your Heart a Break – Demi Lovato

O nervosismo é tanto que faz minha mão tremerem com uma


intensidade absurda. Meu coração está tão acelerado que respirar se torna
uma tarefa quase impossível. Nunca me senti tão nervoso como estou agora,
e os pensamentos que rondam minha mente não ajudam em nada a me
acalmar.
Me sinto completamente ansioso só de imaginar o que me espera lá
dentro.
Fecho meus olhos, e respirando bem fundo, mando o medo que sinto ir
embora, bato em sua porta avisando sobre a minha chegada, e a abro logo
em seguida e assim que a vejo parada no meio do quarto e meus olhos
embaçados pelas lágrimas focam nos seus, sinto um bolo se formar em
minha garganta.
— Linda…
É o que consigo dizer tento um bolo enorme preso em minha garganta.
Dou um passo para a frente, como fiz antes, à espera de sua reação e,
quando vejo que ela não recua, me sinto mais aliviado.
Estou prestes a caminhar até ela, quando acaba me pegando de
surpresa ao vir em minha direção e se jogar em meus braços. Os
movimentos são tão repentinos, que só tenho reação para a segurar em meus
braços e dar alguns passos para trás evitando uma queda.
Envolvendo minha cintura com suas pernas, ela esconde seu rosto em
meu peito e intensifica o enlace de seus braços em meu pescoço. Nossos
corpos estão tão colados nesse momento, que o frio que sentia antes pelo
nervosismo, vai amenizando com o tempo, e os batimentos do meu coração
vão desacelerando até voltarem ao normal.
Esse é o efeito que Holly tem sobre mim.
Basta um abraço para que todo o caos dentro de mim se acalme.
— Você está bem? — sua voz sai abafada.
— Agora que a tenho em meus braços, sim. — Escondo meu rosto em
seu pescoço e sinto algumas lágrimas teimosas escorrerem pelo meu rosto e
desaparecerem em seu ombro.
— Aaron? — tenta se afastar um pouco, mas a seguro mais forte, não
deixando que se afaste.
Ela não pode se afastar neste momento. Não agora que estou tão
vulnerável.
Atendendo ao meu pedido, Holly me leva uma das mãos até meus
cabelos e deixa que eu chore como uma criança em seus braços.
Eu choro pelo medo de perdê-la, pelas coisas horríveis que aquele cara
disse sobre ela para mim e a certeza de que ela escutou a mesma coisa um
dia, choro pela raiva que sinto por ter deixado ela conhecer meu lado
violento, mas principalmente, choro pela garota completamente abalada que
encontrei ao entrar nesse quarto.
— Me desculpe — imploro se coragem de a encarar. — Eu não queria
ter assustado você.
— Você não me assuntou. — Responde ainda fazendo carinho nos
cabelos da minha nuca.
— Não minta pra mim, Linda — peço. — O olhar que você me lançou
lá no rinque ainda está vivo em meus pensamentos.
Me dá calafrios só de imaginá-la se afastando de mim.
Louco?
Sim, eu sou louco.
Louco pela mulher em meus braços.
Eu a amo demais, e só a sensação de a perder por conta de um
descontrole meu, me deixa assim.
— Não estou mentindo pra você, Aaron. — Interrompe o carinho e
finalmente consegue se afastar um pouco e me encarar. — Quando eu te
contar tudo o que aconteceu, entenderá que nunca foi por medo que eu fugi
de você. — Limpa os rastros que as lágrimas deixaram em meu rosto.
— Então por quê?
— Por vergonha — responde olhando para o outro lado.
O que?
Vergonha de quem?
De mim?
— O que quer dizer com isso? — pergunto chamando sua atenção para
mim.
Ainda sem me encarar, ela pergunta:
— Podemos nos sentar? — aponta para sua cama. — A conversa vai
ser longa. — Consigo sentir o cansaço em sua voz.
Algo me diz que não será nada fácil para ela me contar o que está
sentindo nesse momento.
Eu tenho uma leve ideia do que seja, e só de pensar nisso, sinto
vontade de ir atrás daquele babaca e socá-lo mais algumas vezes.
— Tudo bem — concordo.
Me sento em sua cama, e com ela ainda em meu colo, encosto a costa
na cabeceira e espero pacientemente até que esteja pronta para me contar o
que quer que seja.
Holly me encara por longos segundos.
A espera só aumenta minha ansiedade. Meu coração volta a bater
acelerado no peito, minhas mãos transpiram, o suor gelado desce pela
minha têmpora e se perde em minha camiseta branca.
Olho para Holly e consigo sentir seu nervosismo emanando. Tentando
acalmá-la um pouco e passar um pouco de coragem, seguro uma de suas
mãos, entrelaçando nossos dedos e percebo que assim como minha mão, a
dela também está completamente fria.
Com o polegar, começo a fazer um carinho em seu pulso bem
lentamente e acabo sentindo-o acelerado.
— Não precisa ficar nervosa — sussurro encantando nossas mãos
unidas. — Só me conte o que sentir vontade.
Olho em sua direção e a vejo confirmar com a cabeça e respirar fundo
diversas vezes.
Seja o que for que ela tem para me contar, está a deixando tão nervosa
quanto eu.
Não sei quantos minutos passamos encarando um ao outro sem dizer
uma única palavra.
Estou quase pedindo para deixarmos esse assunto para depois, quando
ela toma fôlego e começar a contar.
— Eu tinha dezessete anos quando conheci Theodore.
Ah! Então esse é o nome do babaca?
— No seu tempo, Linda. — Digo quando vejo a dificuldade que ela
está tendo em continuar.
Ela fecha os olhos, respira fundo mais uma vez e quando os abre, vejo
uma força enraizada dentro deles que nunca tinha visto.
Ela estava pronta para me contar tudo.
— Como eu disse antes, conheci Theo quando tinha dezessete —
começa a mexer em seus dedos em um claro sinal de desconforto. — Ele
era mais velho e não parou um segundo até que me convencer a ir em um
encontro com ele.
— Ele ficava te perseguindo? — pergunto me sentindo um pouco
agitado.
— Não, ele falava comigo no horário do almoço. — Responde.
Assinto com a cabeça e peço que continue a contar.
Engolindo em seco, Holly volta a relatar:
— Depois de muito pedir, acabei saindo com ele, e tenho que admitir
— me lança um sorriso fraco. — Foi o melhor encontro da minha vida.
Imagino que sim. O babaca tem cara de que faria de tudo para
impressionar para depois mostrar o grande idiota que ele é.
— E o que aconteceu depois? — pergunto.
— Começamos a namorar três semanas depois daquele dia. — Leva os
joelhos ao peito e os abraça. — Nossos primeiros meses juntos eram
mágicos demais. — Encosta o queixo no joelho e olho para um ponto na
parede atrás de mim. — Ele me comprava flores, escrevia cartas e colocava
na minha mesa, comprava meu almoço e sempre me esperava na hora da
saída.
Vejo seus olhos desfocarem aos poucos, e imagino que ela deva estar
voltando para aquele tempo.
Gostaria muito de fazer perguntas a ela, mas deixo que ela me conte à
sua maneira.
— Ele era o namorado perfeito, até mostrar quem era de verdade. —
Suas palavras e o tom de sua voz fazem meu coração se apertar.
— O que quer dizer com isso? — minha voz é hesitante como se eu
estivesse com medo do que está por vir.
— Depois que transamos a primeira vez, tudo mudo. — Foca seus
olhos em mim. — Theodore passou a querer me controlar em tudo, desde o
que eu comia até quem eu andava ou vestia.
Suas palavras abrem uma enorme ferida em meu coração.
Ela não vivenciou o que eu acho que vivenciou, não é?
— Holly — seu nome sai de maneira cautelosa.
— Claro que não percebi antes — dá de ombros dando uma risada de
escárnio. — Pra mim era só ciúmes. — Diz dando de ombros. — Quer
dizer, ele só não gostava de me ver perto de muitos garotos, isso é normal,
ele é meu namorado. Ele controlava o que eu vestia, isso também é normal,
ele só está me preservando. Esses eram os pensamentos que eu tinha que
me faziam aceitar suas atitudes.
A cada palavra que sai de sua boca, sinto um bolo crescer em minha
garganta e a raiva que tinha adormecido, queimar dentro de mim.
Filho da puta desgraçado!
— Holly, já chega. Não precisa me contar mais nada. — Peço,
enquanto tento engolir o bolo que se formou em minha garganta.
— Isso durou por dois anos inteiros — continua a contar como se não
tivesse escutado meu pedido. — Até que em um dia, em que iríamos sair
para uma festa, ele implicou com uma das minhas roupas. Segundo ele
estava justa demais para alguém que namorava. — Noto seus olhos
brilharem pelas lágrimas não derramadas e vê-la dessa maneira faz meu
coração ferido sangrar.
— Por favor, Linda. Já chega. — Peço, mas como da outra vez, ela
não me escuta.
— Discutimos feio naquele dia — vejo as lágrimas escorrerem pelo
seu rosto.
Sem consentimento, as minhas próprias acompanham as dela como se
compartilhasse da mesma dor, e na verdade eu acho que compartilham.
A dor de Holly é a minha dor.
— Naquele dia ele me deu um tapa no rosto pela primeira e única vez.
Escuto um choro sofrido e de dor e logo em seguida percebo que era o
meu choro de desespero.
Como ele pode fazer isso com ela?
Como?
Ele, o cara deveria cuidar e protegê-la da melhor maneira possível,
pode fazer uma atrocidade dessas.
Me estico um pouco, a seguro pelo quadril e a trago para mais perto de
mim, e encosto nossas testas uma à outra a faço um carinho em sua cabeça.
— Acho que já está bom, Linda. Não precisa me contar mais nada. —
Peço para que abandone essa história.
— Eu preciso de contar tudo, Aaron — olha bem fundo em meus
olhos. — Quero que saiba meus motivos para tê-lo evitado e pela minha
reação de hoje.
— Eu já entendi, Linda — limpo suas lágrimas. — Não precisa
reviver mais essas lembranças ruins.
Digo e a vejo balançar a cabeça em negação.
— Eu preciso contar de uma vez — segura minhas mãos que ainda
estão apoiadas em seu rosto. — Só assim deixarei tudo isso para trás.
Olho para ela mais uma vez e respirando fundo, e um pouco hesitante,
assinto com a cabeça.
— Tudo bem. — Digo.
Se afastando de mim, ela passa as mãos em seu rosto, limpando
qualquer vestígio de lágrimas.
— Bom, depois desse episódio — pigarreia para fazer sua voz sair
mais clara. — Eu terminei com ele e o expulsei de casa, e disse que nunca
mais queria vê-lo na minha frente. — Passa as mãos nos cabelos, os junta
no topo da cabeça e passa a torcê-lo até prender em um coque alto.
— O que ele fez depois?
— O que todos os abusadores fazem — olha em direção a janela do
seu quarto. — Pediu perdão, disse que não aconteceria mais, me xingou de
todas as maneiras possíveis. — Cruza os braços e volta a me encarar.
— Ele te ameaçou?! — minha pergunta é mais parecida com um grito
raivoso.
Me sinto puto da vida comigo mesmo por não ter socado o rosto dele
com mais força.
Aquele desgraçado.
Se ele estivesse na minha frente nesse exato momento, não iria sobrar
nada para contar história.
Nunca pensei que conseguiria sentir tanta raiva como estou sentindo
nesse momento.
— Por um tempo ele ficou me intimidando — faz um carinho em seus
braços, como se estivesse se acalentando. — Mas depois ele se afastou
quando disse a ele que contaria tudo ao meu pai e daria um jeito de ferrar
com a entrada dele para a faculdade.
— Ele parou depois disso? — pergunto a ela, que afirma com a
cabeça.
— Sim, ainda mais que ele iria entrar para o time da faculdade —
conta. — Acho que não queria uma mancha em seu currículo. Já eu só
queria esquecer de tudo e construir uma nova vida.
Termina de contar e o quarto cai em um silêncio profundo, enquanto
nós nos perdemos em nossos pensamentos.
Minha mente não para de girar depois de tudo o que ela me contou.
Nunca iria imaginar que essas coisas aconteceriam justo com ela.
Nesse momento eu não sei o que pensar, o que sentir, não sei de mais
nada.
Olho para a garota mais incrível e forte desse mundo, e vejo suas
bochechas coradas pela vergonha.
— Ei, olhe pra mim — peço, levantando seu rosto em minha direção.
— O que foi?
— É que agora que te contei tudo, sinto vergonha. — Conta,
desviando o olhar mais uma vez. — Sabia que você é a primeira pessoa que
eu conto a história verdadeira?
— Verdadeira?
— É — faz um jeito de afirmação. — Harry e Hanna sabem só a
metade e meus pais nem sonham que isso tenha acontecido comigo. —
Suspira cansada. — Só te contei tudo isso, Aaron, porque quero que saiba
que em nem um momento eu senti medo de você naquele rinque. — Sinto
urgência em sua voz. — E principalmente quero que saiba que o motivo de
eu não querer relacionamento era simplesmente pelo fato de tudo ser
recente ainda.
— Holly… — tento impedi-la de continuar, mas sou interrompido.
— Me deixe continuar — pede, tampando minha boca com suas mãos
pequenas e macias. — Nunca foi uma questão com você, Aaron. Era
comigo. — Suspira. — Eu precisava me curar naquele momento, e entrar
em um relacionamento não estava em meus planos. — Segura em minha
mão e passa a fazer carinho em meus dedos.
— Não precisa se explicar, Linda — entrelaço nossos dedos. — Eu
entendo seus motivos.
— Obrigada. — Desvia o olhar envergonhada.
Olho para ela e sinto que minhas entranhas se reviraram por conta do
olhar abalado que ela me lança.
Decidido a fazer com que ela não sinta mais vergonha de uma situação
que não tem culpa alguma, viro seu rosto em minha direção e a faço me
encarar.
— Holly — aproximo nossos rosto e beijo a pontinha do seu nariz. —
Você não tem que se sentir envergonhada de nada, e sabe o porquê? —
Pergunto e a vejo negar. — Porque você não tem culpa de nada. Ele que era
um canalha manipulador e que se aproveitou de você. — Beijo seus lábios
levemente. — Sua obrigação era proteger você, mas ele acabou sendo um
grande grande filho da puta. — Me aproximo e beijo suas pálpebras
fechadas. — Relacionamentos de verdade não são dessa maneira, e você irá
descobrir isso.
Ela me lança um sorriso franco, como se não acreditasse no que estou
dizendo a ela, e mais do que nunca, quero acabar com a vida de Theodore,
porque de uma maneira ou de outra, ele a marcou de um jeito que ela
lembrará desse momento por bastante tempo.
Cabe a minha fazer com que essas memórias ruins sejam substituídas
por novas, e é com esse pensamento que a puxo para se deitar comigo e a
aconchego em meus braços de uma maneira confortável, apoiando sua
cabeça em meu peito e fazendo escutar meus batimentos por ela.
— Posso dormir com você hoje? — pergunto fazendo carinho em seu
rosto.
— Agora você pede permissão, é? — se afasta para me olhar melhor.
— O que?!
— Ué, não é você mesmo quem finge pegar no sono para que eu não
te expulse do meu quarto? — Pergunta arqueando uma das sobrancelhas.
— Eu? — estendo um pouco a palavra me fazendo de inocente. —
Jamais fiz isso.
— Para de ser mentiroso, Aaron — estapeia meu ombro rindo e me
fazendo rir. — E admita que você faz isso todas as vezes.
Tento me defender de seu ataque de cócegas repentino.
— Por que está me torturando assim? — pergunto entra gargalhadas.
— Porque quero que assuma. — Responde enquanto continua com o
ataque.
Tento me segurar ao máximo, mas Holly pega pesado na hora de fazer
cosquinhas, e pega os pontos exatos onde sou mais sensível.
— Tá bom — eu me rendo. — Eu finjo que durmo para ficar com
você.
Como em um passe de mágica, o castigo cessa.
— Obrigada por assumir esse fato — volta a se aconchegar em meu
peito.
— Sua malvada — belisco o ossinho do seu quadril, então recupero
meu fôlego.
Rindo, ela dá tapinhas em minha mão, entrelaça sua perna na minha e
se aconchega para dormir. O quarto cai em um silêncio reconfortante e só
de escutar sua respiração tranquila em meu ouvido, eu finalmente consigo
me acalmar e relaxar de uma vez por todas até adormecer com a minha
garota.
Lance suas bombas e golpes

Mas você nunca destruirá a minha alma

Esta é a parte de mim

Que você nunca vai tirar de mim


Part Of Me – Katy Perry

Sou despertada por beijinhos em meu pescoço, bochecha e nariz.


— Acorda, Linda — me aperta em seus braços e tenta beijar mais
lábios, mas enterro o rosto no travesseiro.
— Não escovei os dentes ainda. — Digo com a voz rouca pelo sono.
— Como se eu me importasse com isso. — Morde a pontinha da
minha orelha.
— Mas eu ligo. — Viro meu rosto para o seu lado. — Vai sair?
— Sim — beija meus lábios de uma vez me pegando de surpresa. —
Hoje é dia de ir para o instituto.
Verdade.
Aaron combinou com Amanda de ir todos os sábados para lá.
— Como está sendo seu trabalho lá? — pergunto.
— Aquelas crianças são incríveis, Linda. — Conta e consigo ver o
olhar saudoso e feliz ao falar sobre eles. — Tem uma garotinha que me
lembra muito da Hanna quando pequena. — Volta a me encarar. — Ela é
tão esperta, e aprende rápido tudo o que eu ensino.
Cada vez que ele vai contando sobre a garotinha, sua animação vai
aumentando e sem perceber, acabo sorrindo.
— Fico feliz em saber que está gostando de lá — faço um carinho em
seu rosto.
— Eu também — morde meu queixo e se senta no colchão macio. —
Preciso ir, Linda. — Termina de calçar seu tênis e se levanta da cama.
— Jura que me acordou só pra me dar um beijo? — pergunto
arqueando uma das sobrancelhas.
— Eu precisava te ver antes de sair.
Suas palavras me desestabilizam em questão de segundos, e fazem
meu coração errar uma batida.
Aaron tem esse poder sobre mim.
Basta uma única palavra e já estou completamente derretida por ele.
— Certo — digo me sentindo um pouco envergonhada.
Outra coisa que só ele consegue.
Me deixar sem palavras.
Vejo um sorrisinho bobo em seu rosto e sei que ele percebeu como
conseguiu me afetar.
Penso que ele dirá alguma coisa sobre isso, mas ele muda de assunto
completamente.
— Quando eu chegar no final da tarde, a levarei em um lugar.
— Que lugar? — pergunto curiosa.
— É surpresa, então só saberá quando chegarmos lá. — Faz suspense.
— Sério que vai me deixar curiosa pelo resto do dia? — me levanto da
cama e apoio as mãos nos quadris.
— Mas é claro — cruza os braços em frente ao peito e sorri em minha
direção. — Qual seria a graça de não fazer isso?
Suspiro com tanta força que me pergunto se ainda tenho ar nos
pulmões.
— Posso saber que tipo de roupa devo usar? — pergunto.
— A que achar melhor, Linda. — Responde, e sei que suas palavras
significam muito mais do que ele disse agora.
— Quero saber se preciso levar algo mais quente ou mais fresquinho.
— Respondo.
— Ah! Então sugiro calças, casaco e luvas.
— Vai me levar para o gelo, Aaron? — junto os cabelos no topo da
cabeça e prendo os fios pesados em um coque.
Se me encara como se tivesse descoberto seu maior segredo.
— Jura que vamos ao gelo? — volto a perguntar.
— Não direi uma só palavra, pequeno Carma. — Se vira de costa e sai
do quarto em disparada me fazendo cair na gargalhada.
Esse garoto não existe.
Pequeno Carma.
Senti falta desse apelido.
Ainda rindo, balanço a cabeça e sigo em direção ao banheiro.

O cheiro de panquecas na cozinha faz meu estômago roncar.


— Espero que tenham deixado para mim — digo indo me sentando ao
lado de Bennett que toma um copo de suco, e apoio meu kindle em cima da
mesa.
— Eu guardei pra você. — Ele me entrega um prato contendo duas
panquecas e algumas frutas cortadas em cubinhos.
— Obrigada — lanço um beijo para ele depois de espetar um pedaço
de melão e comê-lo.
— Que isso? — Simon pergunta olhando de mim para o amigo. Está
querendo roubar meu homem, Holly? — Seu cenho está tão franzido que
mal posso ver seus olhos.
— Pode ficar tranquilo fofinho que já tenho meu tatuado preferido. —
Rindo, pisco um dos olhos para ele.
Hanna e Liam começam a rir da minha resposta para Simon e percebo
que tenta segurar uma forte gargalhada.
— Por que você é assim? — Bennett tomando mais um gole do seu
suco.
— Cuidando do que é meu, ué — dá de ombros.
— Ué, divide o Bennett com outra pessoa, mas não divide comigo?
Não entendi essa lógica.
— Divido ele só na cama bebê — se recosta na cadeira. — Como não
quis um ménage comigo, não terá ele também.
Quase engasgo com o suco que estava tomando.
— Acho melhor não falar sobre ménage comigo, fofinho. — Digo
esperando um pedaço de mamão.
— Aaron te castigou muito da última vez, não é? — Pergunta fazendo
um gesto sugestivo com as sobrancelhas.
— Você sabe que sim — sorrio.
— Meus Deus qual é o problema deles dois? — Hanna pergunta
olhando para o namorado.
— Eles dividem o mesmo neurônio, Moranguinho. Você queria o que?
— Responde a namorada enquanto adoça um pouco seu café.
— Não sei se aguento duas Holly’s na minha vida. — Hanna apoia a
cabeça no ombro de Liam, fingindo chorar.
— Que isso? Se fazendo na frente deles? — aponto para todos os
meninos. — A próxima vez que pedir pra ficar acordada com você
enquanto escrever vou mandar você ir a merda. — Pego um morango
inteiro e o mordo um pouco forte demais.
— Ai que horror — leva a mão ao peito. — Estava só brincando. —
Tenta me abraçar, mas me esquivo.
— Sem abraços, por favor.
— Ah! Quer dizer que os meus abraços você não aceita? — aponta
para o próprio peito. — Mas o do Aaron e do Harry tudo bem. — Faz
biquinho como se estivesse magoada.
Sem respondê-la verbalmente, com o garfo entre os dentes, dou um
sorrisinho e volto minha atenção ao meu café da manhã.
— Por falar em, Aaron. Onde ele está? — Simon pergunta.
— Foi dar aula no instituto — digo terminando de comer e tomando
um gole do meu suco em seguida.
— Ele está gostando mesmo de trabalhar lá, não é? — volta a
perguntar.
— E como — afirmo com a cabeça.
— Eu disse que lá era incrível. — Liam se pronuncia. — Quando você
está na companhia daquela crianças, não conseguimos pensar em mais nada
a não ser em como elas são mágicas.
— É verdade — Hanna concorda com o namorado.
Além dele finalmente está se ajeitando financeiramente, também é
uma maneira dele se distrair depois de ontem.
— Ainda bem que ele tem aquele lugar agora. — Bennett diz enquanto
se levanta da mesa. — Principalmente agora.
— O que quer dizer com isso? — Simon pergunta um pouco confuso.
— Ontem não foi um bom dia para ele — deixa seu prato dentro da
pia para depois encher sua caneca com um pouco mais de café.
— Ah, verdade. Ele não deve está nada satisfeito com o que aconteceu
ontem.
Simon comenta aumentando minha curiosidade e tenho vontade de me
estapear por não ter perguntado antes para ele tudo o que aconteceu.
Sei que a noite de nós dois foi um completo filme de terror, mas eu
poderia ter perguntado como estava se sentindo e o que foi decidido sobre
seu futuro no campeonato.
— O que aconteceu com ele depois do jogo? — pergunto olhando um
por um aí já volta.
— Aaron foi expulso da semifinal e se passarmos para a final... —
Liam é interrompido por Simon.
— O que irá acontecer.
— Isso aí — Liam concorda e volta sua atenção para mim. — Ele fica
fora também.
Droga, tudo por culpa do idiota do Theodore
Mesmo sabendo que a culpa não é minha, que meu ex quem foi o
grande causador disso tudo, ainda estou me sentindo culpada por tudo o que
aconteceu.
Até quando ele terá esse controle sobre mim?
Não aguento mais viver com essa nuvem pairando sobre mim.
— E o outro jogador? — pergunto sem encará-los.
— O que tem ele? — Bennett pergunta e mesmo sem olhar em sua
direção, sei que está se aproximando.
— Ele tomou punição também? — volto a perguntar receosa.
Mesmo que ele tenha implicado com Aaron o jogo todo, Theodore é a
vítima nesse caso, e não há nada que possamos fazer para tirar essa máscara
de vilão que Aaron acabou ganhando.
— Vai ficar no banco podendo entrar como reserva. — Liam conta e
se o seu tom de voz dá indicativo de alguma coisa, ele com certeza está
puto com essa situação.
Também, como não ficar?
Seu melhor amigo foi expulso dos dois últimos jogos e ainda ganhou
uma advertência depois de ser provocado e ninguém fez nada.
— Só isso!? — Hanna pergunta indignada.
— Infelizmente sim, Moranguinho. — Concorda a envolvendo em
seus braços.
— Isso não é justo, Liam — esbraveja encarando o namorado. —
Theodore estava provocando meu irmão o tempo inteiro. Ele tinha que
receber uma punição maior.
— Eu sei disso, Pequena — se vira em direção a ela. — Você sabe
disso, mas para o juiz quem fez toda a merda foi o Aaron não Theodore. —
Faz um carinho em seus dedos.
— Espero que esse cara não cumpra com a ameaça que fez ao Aaron.
— Simon comenta chamando minha atenção.
Ameaça? Que tipo de ameaça?
— Como assim? — pergunto me sentindo nervosa.
— Ele disse que iria processá-lo pela agressão sofrida.
— É o que!? — Hanna pergunta surpresa.
Fico paralisada com a descoberta e sinto uma sensação ruim crescer
dentro de mim, algo como uma angústia bem forte e sufocante.
Como assim aquele babaca vai processar o Aaron?
Porque ele quer atingir as pessoas que estão à minha volta?
Eu sei que ela estava fazendo de propósito tudo aquilo, acompanhei
cada passo dele no jogo de ontem. Ele tinha um objetivo e parece que
consegui concretizá-lo. Mais uma vez Theodore Taylor me faz sentir culpa
por situações que ele mesmo criou.
Como eu o odeio.
Me arrependo amargamente do dia quem que o conheci e o aceitei em
minha vida.
Como poderei ajudar Aaron nessa?
Do mesmo jeito que a dúvida se criou em minha mente, ela é
respondida. Papai. É claro, o senhor Jace Saunders irá nos ajudá-lo, eu sei
que vai.
Você não vai ferrar com mais nada meu, Theo. Não vou deixar.
Estou perdida em pensamento, quando a voz de Bennett me desperta.
— Holly? Está me ouvindo?
— Disse alguma coisa? — pergunto.
— Perguntei como você está? — repete o questionamento. — Está
tudo bem? — Consigo sentir a preocupação em seu tom. — Acabei vendo o
momento em que saiu correndo.
Droga.
Não queria que ninguém tivesse visto o momento da minha fuga.
Achei que pelo caos que tinha se formado a nossa volta, meus amigos
não teriam me percebido, mas parece que Bennett percebeu e quer saber o
motivo para aquela reação, mas infelizmente não poderei e nem quero
contar a ele o que aconteceu. Já revivi minha história com Theo às vezes
demais para minha sanidade mental.
Só quero deixar essa parte da minha vida para trás de uma vez por
todas.
— Estou bem — não me estendo muito.
Pela expressão com a qual Bennett me encara, dá para perceber que
não aceitou muito minha resposta, mas que irá deixar por isso mesmo.
— Bom já que é assim — diz e concordo com a cabeça. — Eu tenho
uma coisa para te dar. — Comenta, me pegando de surpresa.
— Um presente? — pergunto curiosa.
— Pode se dizer que sim. — Aponta para o envelope em cima da mesa
que nem tinha visto antes.
— Agora você está ganhando presentinhos dele também? — Simon
arqueia uma das sobrancelhas olhando de mim para o amigo.
— O que posso fazer se estou me tornando a preferida? — mesmo que
o assunto interior tenha mexido comigo, consigo sorrir sinceramente para
ele.
— Você é muito atrevida — seus olhos se transformam em pequenas
fendas.
— Eu sou irresistível, isso sim. — Pisco um dos olhos para ele.
Simon abre um sorriso tão lindo em minha direção que afasta toda a
angústia que restava em meu peito.
— Por que somos amigos deles mesmo? — Hanna pergunta olhando
para Bennett e Liam.
— Holly veio no pacote junto com você, Moranguinho — Liam me
encara rindo e gargalha quando mostro o dedo do meio para ele. — Já
Simon. — Olha em direção ao amigo. — Bom, na real não sei por que
adotamos ele.
— Que isso? — se faz de ofendido. — Tirou o dia para pisar nos meus
sentimentos?
Liam manda um beijinho em direção ao amigo que o pega no ar e o
finge esmagar entre os dedos.
— Quem está me magoando agora?
Rindo, Simon se levanta e vai em direção a geladeira.
— Vocês me cansam, sabiam? — Bennett suspira e volta a olhar em
minha direção. — Enfim, falei com um amigo do meu pai que trabalha com
essas coisas de eventos e consegui isso pra você. — Empurra o envelope
em minha direção.
Curiosa, o pego em minha mão e quando o abro tenho vontade de
gritar.
— Eu não acredito nisso — digo com os olhos focados no envelope.
— O que você deu pra ela ficar desse jeito? — Simon pergunta. — É
um nude frontal revelado?
Escuto um barulho de tapa e os resmungos de Simon logo em seguida.
— Para de falar besteira — Bennett resmunga indicando que fora ele
quem estapeou o amigo.
Estou em um choque tão grande que nem consigo responder Simon.
Não acredito que ele me deu isso.
Acho que acabo resmungando mais alto do que o imaginado, porque
Hanna me balança dizendo:
— O que você ganhou? Está me deixando curiosa.
Com os olhos arregalados, me viro para ela.
— Ingresso para o show do Imagine Dragons. — Minha voz sai
robotizada pelo choque.
Simon e Hanna levam a mão à boca, surpresos.
— Está de sacanagem? — minha melhor amiga pega o envelope da
minha mão. — Meu Deus! Não acredito que você vai vê-los de pertinho. —
Comemora olhando de mim para os ingressos. — Eu nem sei o que dizer —
olho para Bennett. — Obrigada por isso. — Me levanto, indo em sua
direção o abraço pelos ombros. — Não sei como agradecer.
— Não precisa — dá tapinhas em minhas mãos e o solto rapidamente.
Bennett não gosta muito de abraços, mas ele acaba aceitando em
momentos específicos, assim como eu.
— Por que fez isso? — pergunto, parando ao seu lado ainda surpresa.
— Você disse que queria ir, então... — dá de ombros.
Lanço um enorme sorriso de agradecimento em sua direção.
Depois da conversa que tivemos, Bennett e eu nos aproximamos
bastante. Acabou que me reconheci e muito nele. E para falar a verdade,
estou gostando dessa amizade que está nascendo entre nós.
— Olha tem dois convites — Hanna diz balançando o envelope em
uma das mãos. — Vai chamar quem para ir com você?
— O Aaron — digo pegando os ingressos de sua mão e saio correndo
da cozinha assim que vejo a cara indignada que Hanna lança pra mim, mas
não sem antes escutar seus protestos.
Rindo, sigo em direção às escadas, e entro em meu quarto ainda em
êxtase pela presente que ganhei. Nem acredito que Bennett conseguiu os
ingressos pra mim. Preciso contar isso para o Aaron.
Corro em direção a minha cama para pegar meu celular, e quando
destravo sua tela, procuro pelo contato de Aaron, e quando o acho, faço o
convite.

Sem esperar por uma resposta sua, saio de sua conversa, e passo a ver
se alguém me mandou algo. Algumas são de autoras a procura dos meus
serviços e outras não tão importantes assim. Estou prestes a bloquear o
aparelho, quando vejo uma mensagem do meu pai.

Termino de ler tudo e acabo me lembrando o favor que iria pedir a ele.
Sentando-me na cama, disco o número que sei de cor.
— Oi, Estrelinha — me cumprimenta ao atender. — Como você está?
Fiquei preocupado depois de ver quem estava jogando.
— Estou bem, papai — conto me ajeitando na cama.
— Tem certeza? Estou achando sua voz um pouco cabisbaixa. —
Pergunta mostrando que me conhece só pelo meu tom.
— Comigo está tudo bem, pai — asseguro. — Preciso da sua ajuda. —
Digo roendo a unha do dedão
— Tem algo a ver com o menino que bateu no Theo? — pergunta
curioso. —
— Como o senhor sabe? — pergunta surpresa.
— Intuição de pai — responde como se não houvesse nada. — Agora
me conta o que aconteceu. — Pede.
Respirando fundo, troco celular de lado, pego um travesseiro para
abraçar e soltando toda o ar dos meus pulmões, conto a ele:
— Theo ameaçou indiciar o Aaron por agressão, papai — passo a
contar todos os detalhes da briga de ontem desde o começo até o momento
em que soube sobre a ameaça de Theo.
— Então você quer que eu ajude seu namorado? — Pergunta me
pegando de surpresa.
Namorado? Eu poderia chamá-lo assim?
Parando para pensar, a palavra namorado não me assusta mais. Tudo o
que estávamos vivendo e o que já vivemos juntos, é, eu posso afirmar que
estamos juntos e de uma maneira bem diferente de antes.
— Sim, papai. Preciso que ajude meu namorado.
Eu achava que o amor seria vermelho ardente

Mas é dourado

Daylight – Taylor Swift

Holly tropeça em algo no chão, mas consigo segurá-la antes que caia.
— Não me deixe cair, Gibi — tenta aperar meu braço, mas por estar
com os olhos vendados, ela acaba não conseguindo.
— Confia em mim, Linda — volto a conduzi-la até nosso destino.
Como tinha planejado antes, assim que cheguei em casa, ela já me
esperava arrumada sentada no sofá da sala. Só tive tempo de subir para o
meu quarto, guardar as coisas, pegar uma máscara de dormir e ir ao seu
encontro mais uma vez, para agora estarmos aqui, indo em direção ao
rinque do Artic Fox.
— Cuidado com o degrau — aviso a segurando com mais firmeza.
Holly desce com cuidado.
— Por que estou vendada se já sei para onde estamos indo? —
pergunta virando o rosto em minha direção.
— Você não sabe onde estamos, Linda — respondo parando em frente
a porta do rinque. — Fique parada. — Peço pegando o cartão que autoriza a
entrada dos jogadores e técnicos ao local.
Acabamos conseguindo um desse depois que Simon passou a pedir o
do treinador todos os dias para fazer treinos extras.
Penso que nosso técnico estava de saco cheio de emprestar seu cartão
para meu amigo, que ele acabou conversando com o reitor do lugar e nos
entregou esses cartões chaves para podermos entrar a hora que quiséssemos.
Como o lugar é completamente rodeado por câmeras, seja dentro ou
fora, eles nunca imaginaram que um dos jogadores, um que estivesse
expulso ainda, pudesse trazer a namorada para um encontro.
Estou prestes a passar o cartão na fechadura, quando acabo
paralisando com o pensamento que me vem à cabeça.
Namorada?
Nunca pensei que uma palavra tão simples pudesse mexer tanto
comigo assim. Quer dizer, esse é o meio maior desejo, mas desde o Dia dos
Namorados, onde nós revelamos nossos sentimentos um para o outro, não
tocamos mais no assunto sobre como estava nossa relação, só estávamos
seguindo. E parando para pensar agora, agora que já está na hora de
decidirmos o que será de nós dois.
— O que você está fazendo? — sua voz me desperta.
— Estava vendo se tudo estava em ordem do jeito que pedi — guardo
o cartão depois de abrir a porta e vou até ela. — Pronta? — Pergunto
envolvendo sua cintura com meu braço e a conduzindo para dentro.
Assim que o ar do local entra em contato com a gente, sinto Holly se
encolher um pouco por conta do vento gelado.
Mesmo tendo passado o dia inteiro no gelo com as crianças mais
incríveis do mundo, entrar aqui me traz uma sensação de saudade. Por
ordem da liga, ficarei fora de dois jogos. Não me sinto nem um pouco
culpado pelo que fiz com aquele merda do ex da Holly, até porque, se eu
tivesse mais tempo e oportunidade, bateria nele com muito mais força e
vontade. Só me sinto incomodado que não poderia ajudar Simon em mais
essa vitória. Mas eu sei que ele entende.
— Posso tirar isso do meu rosto já? — leva a mão enluvada até o rosto
fazendo menção de descartar a máscara.
— Pode — autorizo parando em sua frente.
Lentamente, vejo seus olhos serem revelados para mim, e como na
primeira vez que os tive direcionados em minha direção, sinto meu coração
acelerar.
Sempre será assim?
Basta um olhar da mulher à minha frente para me desconfigurar
totalmente.
Desde que passei a dormir com Holly, percebi que meu dia só segue
sendo perfeito se a primeira coisa que eu ver forem seus lindos castanhos
escuros brilharem para mim.
— Não acredito que me trouxe aqui — passa a venda pela cabeça e
olha em volta.
— Por que a surpresa? — pergunto cruzando os braços em frente ao
corpo. — Já não tinha descoberto que a traria em um rinque de patinação?
— Sim, mas achei que iríamos a uma pista paga e não que
invadiríamos o rinque da faculdade. — comenta.
— Tecnicamente não estamos invadindo nada — pego a chave mais
uma vez e mostro a ela. — E acho melhor patinarmos juntos aqui do que
em outro lugar.
— Aqui não pagamos entrada?
Rindo, pego em sua mão e seguimos em direção a área onde os
jogadores e a comissão técnica fica em dia de jogos.
— Aqui temos privacidades, Carma. — Aperto seus dedos.
— Você não vai me comer nesse gelo, nem fodendo. — Avisa me
fazendo cair na gargalhada. — Por que está rindo? Estou falando a verdade.
— Linda, você é a melhor. — Digo secando o cantinho dos olhos. —
Eu adoraria te comer aqui, mas o lugar é cercado por câmeras. — Enlaço
sua cintura e a puxo em minha direção. — Mesmo que a ideia de ter um
filme estrelado por nós dois seja tentadora, acho que o treinador não precisa
ver minha bunda branca.
— Seria incrível ter sua bunda exposta para todas as pessoas — dá um
tapa em minha bunda, me pegando de surpresa, e a aperta depois.
— Não sentiria ciúmes? — questiono.
— Por que teria se tudo isso é meu? — responde apontando para mim
e me pegando de surpresa.
Sorrindo em sua direção, a puxo para mais perto de mim e junto
nossos lábios em um selinho rápido.
— Vamos logo, Linda — volto a pegar em sua mão e sigo com ela até
nosso destino.
— Aaron eu não tenho patins — comenta.
— Não se preocupe — aponto para o par de patins de cor azul bem
clarinho em cima do banco, do jeito que pedi para Simon deixar, assim que
os vejo. — Cuidei de tudo.
— Como é prevenido.
Lanço um sorriso para ela e soltando sua mão, sigo em direção ao
banco.
Assim que decidi trazer Holly para cá, pedi para meu amigo comprar e
deixar um par de patins me esperando aqui. Poderia ter pedido que Liam
trouxesse os de Hanna, já que as duas calçam o mesmo número, mas quis
que Holly usasse algo que eu mesmo tenha dado para ele.
— Sente aqui — aponto para o banco. — Irei te ajudar. — Holly
coloca o pé em cima da minha coxa e tirando seus tênis coloquei o calçado
azul em seguida.
Estou concentrado amarrando seu cadarço, quando sinto sua mão
enluvada fazer carinho em minha cabeça.
— Seu cabelo está com uma bela mistura.
— Não tive tempo de retocar — conto enquanto pego seu outro pé.
Desde que descolori os cabelos ano passado, venho mantendo os fios
loiros, mas aconteceu tanta coisa de uns tempos para cá, que acabei me
esquecendo de refazer a descoloração.
— Gosto dele assim — continua a acariciar minha cabeça. — Na
verdade, gosto de você de qualquer maneira.
Levanto minha cabeça em sua direção e sorrio para ela.
— Quer dizer que vai gostar se eu ficar moreno de volta?
— Você sabe a resposta. — Se aproxima de mim e beija meus lábios
de forma suave.
Fico a encarando como um bobo apaixonado por alguns segundos, até
voltar minha atenção para seu pé e terminar de colocar seus patins.
— Prontinho — digo ao terminar.
— Estão perfeitos nos meus pés — movimenta os mesmo para a frente
e para trás como uma criancinha. — Como sabe meu número?
— Pedi a Hanna — respondo sem me estender muito.
— Tinha que ser ela. — seus olhos não saem dos patins.
Parece que acertei no tom.
A cor preferida de Holly é preta, mas depois que ela descobriu que a
minha era azul, ela passou a apreciar bastante esse tom.
Termino de colocar meus patins pretos de treinos, e já sem a proteção
nas lâminas, me levanto e estendo minha mão em sua direção.
— Pronta? — pergunto e fico receoso quando vejo sua expressão.
— Aaron, eu preciso te contar algo...
Seu mistério me deixa um pouco apreensivo.
— Pode falar — finjo estar calmo, mas por dentro sou tomado pelo
nervosismo.
— Eu tenho trauma de patinar desde que quebrei meu braço. — Conta.
— Está de brincadeira comigo? — pergunto surpreso. — Por que não
me contou que tinha medo quando soube que te traria aqui?
— Ah, porque achei que seria legal fazermos algo depois do dia
terrível que tivemos ontem. — Se explica. — Queria esquecer tudo aquilo.
— Tenta se levantar mas acaba se desequilibrando e caindo sentada no
banco.
— Cuidado — peço segurando em seu braços e a ajudando a levantar.
— Se machucou?
Nega com a cabeça, me deixando mais tranquilo.
— Enfim, esse foi o motivo de eu não ter te contado antes. — Segura
com força em meus braços para se manter de pé. — Além disso, você está
aqui para me ajudar, não?
Sem acreditar na maluquice que a mulher a minha frente fez, assinto
com a cabeça e sigo com ela até a entrada do rique.
— Você só tem medo ou sabe o básico de como andar? — pergunto
segurando suas mãos enquanto entro no gelo primeiro.
— Sei a teoria — pisa no gelo com o pé direito e depois o esquerdo.
— Mas tem muito tempo desde a última vez então eu acho...
Sua fala é interrompida pelo quase tombo que ela acaba de levar.
— Parece que vou precisar ficar colado em você, Linda. — Rindo,
seguro em suas mãos e dou um impulso leve para traz.
— Eu sei que está adorando me ensinar a patinar — diz olhando para
os próprios pés.
— Até que estou gostando de ser um professor — comento. —
Principalmente agora que ganhei uma nova aluna.
— Espero que não deixe a nova aluna cair — olha rapidamente para
cima, mas volta a olhar para os pés. — Ou farei grave de sexo.
— Está me ameaçando, pequeno Carma? — franzo o cenho em sua
direção.
— Eu acho que estou sim — abre um sorriso travesso.
— Acho que não deveria fazer isso com alguém que está mantendo
seu equilíbrio. — Finjo ameaçá-la.
— Você não ousaria — solta nossas mãos e aponta o dedo em meu
rosto.
— Tem certeza? — abro um sorriso travesso.
— Não se atreva...
Rindo, solto suas mãos a deixando sem meu apoio, mas ainda continuo
próximo o suficiente para segurá-la.
Eu tento.
Juro que tento.
Mas não consigo segurar a risada com a vejo se desequilibrar e bufar
de raiva. Holly vem em minha direção, mas acaba se desequilibrando,
rapidamente a seguro em meus braços.
— Te peguei — envolvo sua cintura com meus braços.
— Idiota — estapeia meus braços — Não me solte mais.
— Prometo que não vou. — Prendo o riso ao vê-la toda
esquentadinha.
— Por que está rindo de mim? — pergunta indignada.
— Porque você fica linda nervosa.
Ela tenta me estapear mais uma vez, mas acaba não conseguindo, já
que estou segurando suas mãos, e por esse motivo, acaba se desequilibrando
e acaba nos levando ao chão. Para não a machucar, jogo meu corpo para o
lado, apoiando o meu peso no braço livre, já que com o outro apoiei sua
cabeça para que não batesse no chão.
— Aí — protesta e acaba rindo.
— Se machucou, Linda? — me levanto rapidamente e analiso seu
rosto.
— Não, só bati o bumbum — resmunga em uma mistura de riso e
choro.
— Ficará com ele dolorido por um dias. — Comento.
— Droga — resmungo deitando a cabeça no gelo. — Vou precisar me
sentar de ladinho.
— Ou pode se sentar no meu colo — tiro alguns fios de cabelo do seu
rosto. — Ele é bem macio.
Holly dá uma gargalhada tão gostosa que contagiante que acaba me
fazendo gargalhar também. Esse é o poder que ela tem sobre mim. Afastar
todas as sensações ruins e tristezas, e olhando para ela tão feliz nesse
momento, e por minha causa, percebo que quero viver isso para sempre.
Puta merda, como eu amo essa garota.
Aos poucos sua risada vai morrendo até restar o sorriso mais lindo e
contagiante em seus lábios vermelhos. Sinto uma vontade incontrolável de
beijá-la nesse momento, então sem dizer uma palavra, abaixo meu rosto em
sua direção e junto nossos lábios em um beijo gostoso.
Mesmo tendo nos beijado a pouco tempo, senti saudades dos seus
lábios colados ao meus, da sua língua curiosa buscando pela minha, seus
gemidos de satisfação, seus carinhos em minha nuca, mas principalmente
da entrega com a qual ela me beija.
Holly beija com o corpo todo, e me envolve em uma bolha só nossa, e
mesmo que a temperatura no lugar em que estamos esteja abaixo de zero,
sinto meu corpo queimar por ela. Sinto meu ventre formigar e quando meu
pau cria vida dentro das calças, decido parar com as investidas, mesmo que
eu queira é muito estar com ela nesse sentido, aqui não é lugar é muito
menos hora para isso.
— Acho melhor pararmos com isso antes que minha bunda seja
gravada — sussurro mordendo seu lábio inferior e sugando com gosto.
— Concordo — me dá um selinho e se afasta. — Não acho que meu
pai vai querer defender a filha desnaturada que transou com o namorado na
pista de gelo da faculdade.
Não sei se foi o frio ou suas palavras que me fizeram congelar.
Namorado? Ela realmente se referiu a minha como sendo seu
namorado? Quer dizer, eu quero isso a tanto tempo que nem sei mais, fora
que a poucos minutos atrás eu me referia a ele como namorada. Tudo bem
que foi só para mim mesmo, mas mesmo assim, era e ainda é um desejo que
tenho dentro de mim, só estava procurando o dia perfeito e a maneira
perfeita para pedir.
Será que hoje é esse dia?
Foco meus olhos em seu rosto, com o coração acelerado, pensando se
devo ou não arriscar de uma vez, e pedir sua mão em namoro.
— Holly... — seu nome não passa de um sopro que sai dos meus
lábios.
— Aaron? — percebo que engole em seco.
— Não sou bom com as palavras como o Liam ou até mesmo meu pai
— suspiro fundo deixando que meu coração fale por mim.
— O que...?
A interrompo.
— Me deixa falar, Linda — calo sua boca usando meu polegar. —
Como eu disse, eu não sou bom com as palavras como eles, mas quero que
saiba que tudo o que o que eu disser neste momento é a mais pura verdade.
— Digo, vendo a compreensão em seus olhos. — Acho que já te disse isso,
mas desde o momento em que coloquei meus olhos em você eu soube que
seria minha de uma maneira ou de outra. — Tomo fôlego. — Você, com
esse jeito atrevido de ser, seu sorriso fácil e provocações me conquistaram
de primeira. — Vejo seus olhos brilharem e sinto minha garganta se fechar
pela emoção. — O que quero dizer, Holly Julie Saunders...
— Odeio quando me chamam pelo nome todo — resmunga me
fazendo rir.
— Mais uma coisa que você odeia e amará quando eu fizer — digo e
me encolho quando rindo quando estapeia meu braço.
— Idiota — xinga tentando me bater mais uma vez, mas consigo me
esquivar e pegar sua mão no ar.
— O idiota que te ama. — Digo a pegando de surpresa.
— O que você disse?
— Que eu amo você. — Repito levando sua mão enluvada até os
lábios e beijo o tecido macio.
Seus olhos estão tão arregalados que dão a impressão de que irá sair de
órbita. Ela me encara por segundos intermináveis, até que toma fôlego e
dizer:
— No começo eu tentei fugir de você — apoia a mão livre em meu
peito. — E do que me fazia sentir. Mas aos poucos você foi adentrando em
meu coração e me fazendo perceber que eu não teria nem uma chance de
ser imune. — Abre um sorriso olhando para o nada como se estivesse se
lembrando de algo. — Criei aquelas regras com o intuito de ter você, mas
ao mesmo tempo me manter segura. — Sua risada parece um bufar. — Que
grande perda de tempo. — Olha em meus olhos. — Você já tinha roubado
meu coração para si muito antes de eu perceber.
— Holly — sussurro.
— Quero que entenda, Aaron — se senta no chão comigo ainda em
seu colo. — É que eu amo você mais do que eu poderia um dia sonhar em
amar alguém.
Seus dizeres fazem minha pulsação acelerar.
Ela me ama.
Holly me ama assim como eu a amo.
Sem perder tempo e com o coração batendo a mil por hora, seguro em
seu rosto e a beijo com todo o amor que há dentro de mim, e diferente do
anterior, esse beijo representa o começo de uma vida ao seu lado. Minha
língua busca a sua, a envolvendo de um jeito acolhedor e único.
Minha.
A mulher em meus braços finalmente é minha.
Quer dizer, ainda falta algo.
Aos poucos, vou diminuindo o ritmo do nosso beijo, passando a
distribuir vários selinhos em seus lábios, até encerrá-lo de vez
— Amor — encosto nossas testas. — Me lembrei de uma coisa.
— O que é?
— Nossas regras eram pra ser dez, mas só tinha nove — comento e a
vejo afirmar com a cabeça. — O que acha de criarmos a décima regra
agora? — Pergunto.
— Uma décima regra? — pergunta interessada com um sorriso
nascendo em seu rosto.
— Você tem alguma ideia? — volto a perguntar.
— Eu tinha — confirma. — Mas mesmo sem saber, você já a cumpriu
também.
— E qual era? — Pergunto curioso.
— Quebrar todas as regras que eu tinha feito. — Responde dando de
ombros e me pegando de surpresa.
Quer dizer então que ela tinha esse desejo?
Ah, Holly! Você continua a me surpreender a cada dia que passa.
— Qual era a sua ideia? — pergunta chamando minha atenção.
— Minha décima regra é a que você sempre usará minha camisa em
um jogo meu. — Digo juntando nossas testas. — O que me diz?
Um enorme sorriso nasce em seus lábios e pelo olhar que ela me lança,
sei que entendeu o que quis dizer.
— Que Simon e Bennett terão que arrumar uma namorada para usar a
camisa deles. — Envolvendo o braço envolta do meu pescoço ela morde
meu lábio inferior e abre um sorriso cúmplice.
Correspondendo ao seu ato, a puxo para um beijo mais uma vez,
fechando então mais um acordo entre nós, mas diferente dos outros, esse
não terá validade.
Eu estive esperando

Para todas as minhas feridas cicatrizarem

Eu não posso acreditar que isso é real, oh, não

Você está quebrando

As paredes que você veste com orgulho

Respirando um pouco de ar
This is What Falling in Love Feels Like – Marina Lin

— Quer dizer então que agora você é uma mulher comprometida? —


Hanna cotovela meu braço quase me fazendo derrubar o livro que seguro,
no chão.
— Sim eu sou — deixo meu livro em cima da mesa da cozinha. —
Acredita nisso?
— Já não era sem tempo — Harry me lança um sorrisinho.
— Eu também acho. — Hanna concorda. — Não aguentava mais ver
esses dois se gostando e não vivendo juntos de uma vez.
— Na verdade, eles só não tinham um nome para a relação deles. —
Harry me encara como se perguntasse: estou mentindo?
— Você tem razão. — Tenho que concordar com meu baby Yoda.
Minha relação com Aaron só precisava de um nome oficial mesmo,
porque desde o Dia dos Namorados onde decidimos deixar as regras para lá,
temos vivido juntos com ele dormindo mais em meu quarto do que no seu
próprio.
— Só quero que saiba que fico muito feliz por vocês dois — Hanna
me abraça pelo pescoço rapidamente. — Além de melhores amigas, agora
somos cunhadas. — Sua voz sai estridente pela comemoração.
— Tenho que aguentar você de qualquer jeito agora, não é? — finjo
estar desapontada com a novidade.
— Que horror — se afasta e estapeia meu braço.
Diferente de mim, Hanna é completamente amorosa e manhosa. No
começo da nossa amizade, me questionava muito como duas pessoas tão
diferentes como ela e eu pudemos nos aproximar tanto assim, e a resposta
foi que ela precisava de alguém que a acolhesse, já eu precisava de alguém
que me entendesse. Então quando percebemos, não conseguimos viver
separadas.
— Você deveria fazer teatro ao invés de literatura, Hanna Mo — digo
pegando meu livro e abrindo na página marcada — Seus dramas estão
melhorando bastante. — Volto a prestar atenção em minha leitura.
Parece que Pietra Rossi[8] não aprontou tudo o que tinha para aprontar.
— Ah, vai a merda — espeta um pedaço de ovo mexido usando um
pouco de força a mais, quase o transformando em farofa.
Ignorando seu xingamento, continuo minha leitura. Se não fizer isso,
eles com certeza tentarão puxar mais e mais assunto, coisa que nesse
momento sagrado, onde estou completamente envolvida com a história que
estou lendo, não quero.
Estou terminando um capítulo quando sinto o cheiro gostoso do
perfume do meu namorado, antes mesmo de seus braços me envolverem e
obrigando que eu deixe a leitura de lado um pouco.
— Sentiu minha falta, Linda? — sua voz soou baixa e rouca em meu
ouvido, arrepiando todo o meu corpo. — Porque eu senti e muita.
Suas palavras fazem meu coração bater descontrolado dentro do peito.
Eu estou completamente rendida e ferrada por esse homem.
— Nem um pouquinho — dou de ombros sem me virar em sua
direção.
— Como minha namorada é malvada — morde minha bochecha de
leve para depois beijá-la.
Estapeio seu braço envolta de mim por conta das cócegas que sua
barba por fazer, acaba me causando.
— Onde estava? — pergunto vendo-o se sentar na cadeira ao meu
lado.
— Biblioteca — responde pegando meu copo de suco e o tomando por
completo. — Terminando de fazer o último trabalho deste semestre antes
das provas.
— Nem acredito que o semestre está acabando — Liam chega por trás
de mim e se senta ao lado da namorada.
— Muito trabalho dessa vez? — pergunto olhando para os dois recém
chegados.
— Preciso fazer uma campanha completa — Aaron geme,
escorregando em sua cadeira.
— Uma nova composição — Liam levanta a mão cansado.
— Você não entregou uma a pouco tempo? — Aaron pergunta
levantando a cabeça rapidamente.
— E já tenho que fazer mais uma. — Responde olhando para o que
tem distribuído em cima da mesa.
— Mas você não tem várias músicas guardadas? — Hanna pergunta.
— Tenho, mas o professor já deixou claro que tenho que fazer uma do
zero.
— Que merda, hein — Aaron acaba rindo do amigo. — E você, linda?
— Passo o braço por minha cintura e me puxa para mais perto de si.
— Estou me fodendo e não é com você — respondo o fazendo rir.
— Posso resolver isso rapidamente se quiser. — Fala bem perto ao
meu ouvido me fazendo tremer e desejá-lo, só de me lembrar da sensação
que é tê-lo entre as minhas pernas.
— É sério isso? — Hanna nos julga com o olhar.
— O que foi? Não me olhe assim que sei que você gostaria de estar do
mesmo jeito com o seu namorado. — Respondo.
— Meus Deus — Liam se engasga com sua água e recebe tapinha de
Hanna em suas costas.
— Cala a boca sua vadia. — Tenta me bater, mas fujo do seu ataque
sorrindo.
— Vai negar que queria estar fodendo agora, Hanna Mo?
— Porra, Linda — Aaron resmunga. — Não fala da minha irmã
fodendo que eu brocho totalmente. — Se separa de mim e leva as mãos a
cabeça. — Nossa que cena péssima.
Sua cara de decepção é tão grande que não tenho como segurar e
acabo caindo na gargalhada.
— Você ainda ri de mim, né Carma?
— Não tem como não rir da sua cara de bobo — digo tentando
recuperar o fôlego.
— Olha o que você acabou trazendo pra mim vida, Bonequinha —
aponta para mim.
— Desculpa irmão — olha para ele se fingindo de culpada. — É que
ela estava largada sozinha, aí adotei, mas não sabia que me traria tantos
problemas assim.
— Vão a merda vocês — aponto para os dois que agora começam a rir
de mim. — Porque entrei pra família dele, hein? — Pergunto para Harry,
que está quietinho em seu canto olhando o caos acontecendo e dá de
ombros.
Mesmo estando acostumado com nosso jeito, meu baby Yoda ainda é
tímido demais para entrar nas nossas brincadeiras, mas logo logo isso irá
mudar.
— Quando eu digo que esses dois se merecem — Liam se levanta para
pegar um pano e secar a mesa.
Em uma ação bem infantil, mostro minha língua para Liam, que limpa
a mesa com toalhas de papel.
— Tem alguém tocando a campainha — digo sem encarar ninguém.
Odeio atender a porta, então se eu não encarar ninguém nesse
momento eu não serei a escolhida.
Ah qual é? Estou confortável nos braços do meu namorado pra querer
levantar agora.
— Vai atender então — Hanna chuta minha perna por debaixo da
mesa.
— Ah nem fodendo — balanço o dedo indicador de um lado para o
outro em frente eu seu rosto. — Estou confortável demais para querer
levantar daqui. — Me aconchego nos braços de Aaron.
— Vai deixar a pessoa na porta? — pergunta franzindo os olhos.
— Por que você não vai atender então?
— Estou comendo — dá de ombros, apontando para o prato de ovos
mexidos à sua frente.
— Você é uma cuzona. — A xingo.
— E você uma vagabunda preguiçosa, mas eu já sabia. — Retribui.
— Quanto amor entre vocês duas, hein — Liam se levanta da cadeira e
vai em direção a saída. — Eu abro a porta antes que quem quer que seja vá
embora pela demora. — Sua voz vai ficando cada vez mais longe.
Escuto a campainha tocar mais uma vez e me pergunto quem poderia
ser a esse horário, em uma sexta feira. Tomara que não sejam uma das
visitas do Bennett e do Simon. Gostaria de passar um dia dentro dessa casa
sem escutar gemidos de terceiros.
Liam demora para voltar e estou quase me levantando para saber quem
é, quando ele aparece no batente da porta.
— Holly, acho que seus pais estão aí.
— Meus pais!? — Levanto da cadeira em um pulo. — Está falando
sério?
— O tio e a tia estão aqui? — Hanna se levanta junto comigo.
— Foi o que disseram — responde.
Não acredito que eles estão aqui.
— Vamos Harry, vou te apresentar as melhores pessoas desse mundo.
— O pega pela mão e antes que eu possa ir em direção a eles, ela sai em
disparada com Harry até a sala.
Estou prestes a seguir o mesmo caminho que ela, quando paraliso no
lugar ao ver a expressão assustada de Aaron.
— O que foi? — pergunto me sentando na cadeira à sua frente.
— Seus pais estão aí?
— Parece que sim. Por quê?
O vejo engolir em seco.
— Eu vou ter que conhecê-los agora? — seus olhos são cautelosos em
minha direção.
Em um primeiro momento, o encaro com estranheza, por que ele está
se comportando dessa maneira? me questiono o analisando por um tempo e

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