— Não. O quê?
— Que um certo alguém está conversando com uma certa ruiva —
conto e acabo sorrindo quando vejo suas bochechas ganharem um tom
avermelhado.
— Q-quem te disse isso? — pergunta, engolindo em seco.
— A própria — digo.
— Ah! — responde.
— Nada de “Ah” pode me contando como isso aconteceu.
— Jura? Não posso contar depois? — pede.
— E ter a chance de você escapar de mim? Nem ferrando — nego. —
Pode contando tudo — peço.
Harry olha para os lados, retorce os dedos, me encara mais uma vez e
quando vê que não sairá ileso, suspira e conta de uma vez:
— Tudo bem. — Toma fôlego mais uma vez e começa a contar. — Foi
no Natal...
— Espera — interrompo-o. — Já tem isso tudo e você não me contou
ainda?
— Desculpa? — pede sem jeito.
— Olha, sinceramente — suspiro, balançando a cabeça em negação.
— Tá bom. Continua.
Com o meu aval, ele conta que tinha percebido que Maddy não estava
se sentindo bem com a chegada do Natal, já que ela iria passar sozinha, e
que depois de um surto de coragem, convidou-a para passar com ele e sua
família. Contou também que no começo ela relutou um pouco com medo de
incomodar, mas Harry assegurou que estava tudo bem. Então depois de um
tempo, a ruiva aceitou e foi passar o Natal com ele.
Fico o encarando, e só pela carinha que faz, sei que esse foi um dia
que ele nunca mais vai esquecer.
— Desde então passamos a conversar com mais frequência. —
Termina de contar, me acordando dos meus devaneios.
— E como foi para os seus pais?
— Primeiro, eles ficaram surpresos, já que nunca levei ninguém para a
nossa casa. — Volta a mexer em seus dedos. — Depois, perguntaram se ela
era minha namorada. — Desvia o olhar e acabo rindo de sua timidez.
Imagino a cara que ele deve ter feito naquele momento.
Quem te viu, quem te vê, hein, baby Yoda.
Estou prestes a perguntar o que ela achou de tudo, quando Maddy se
aproxima, acompanhada de Liam e Hanna.
— Não sabia o que você queria. — Coloca uma porção de batata frita
na minha frente e um copo de suco.
— Está ótimo — afirmo, me servindo de uma.
— Oi, gente! — Maddy nos cumprimenta, se sentando ao lado de
Harry e beija sua bochecha. — Cadê o resto do pessoal? — pergunta para
ninguém em especial.
— Daqui a pouco aparecem aí — Liam conta. — Ah, falando neles. —
Aponta com o queixo em direção a entrada onde estão Genna, Bennett e
Simon, que avisam que vão pegar algo para comer antes de se sentarem
com a gente.
Aproveitando que as pessoas da mesa estão conversando entre si, pego
meu celular, abro minhas notas e começo a ler a lista mais uma vez,
repassando tudo o que já quebramos ou não.
Quem diria que eu, a pessoa que acabou criando tudo isso, seria aquela
que começaria a quebrá-la também. Obrigada por isso, Diana e Jace
Saunders.
Ainda restam três regras para serem quebradas. Duas que já estão na
lista, uma que ainda não escolhi qual será. Mas deixarei para pensar nisso
depois. Mesmo que ele a quebre no primeiro segundo.
Volto minha atenção para o celular e passo a riscar tudo que já foi.
Não ficar de casalzinho
Não ficar mandando mensagens bobas
Não ir a encontros
Não transar sempre
Não dormir juntos
Não ir ao cinema/ver filmes juntos
Não comentar nas postagens em redes sociais
Nada de beijos em público
Não sermos exclusivos
Releio mais uma vez, e uma regra em questão me chama a atenção.
Não sermos exclusivos.
Será que Aaron a quebrou também? Ou ele está curtindo por aí?
Tá, tudo bem. Fui eu quem inventou essa porcaria. Mas antes era
diferente. E tenho direito de mudar de ideia depois de um tempo.
— Acha que o Aaron fica com outra pessoa além de mim? —
pergunto para Harry, que me olha em dúvida.
— O quê?
— Acha que o irmão da Hanna está ficando com mais alguém além de
mim? — volto a perguntar.
— Não, quer dizer. Pela maneira que ele está com você, acho que não
— toma um gole de sua bebida.
— Hum... — murmuro.
Estou pensando no que Harry disse, quando vejo Aaron chegar
acompanhado por uma menina de cabelo rosa. Um gosto amargo me sobe à
garganta, meu rosto se fecha na hora e minha perna começa a tremer sem
que eu tenha controle. Apoio meu queixo em cima das minhas mãos
fechadas e passo a estudá-los. Será que já ficaram alguma vez? Ou melhor.
Será que estão ficando agora?
Minha cabeça passa a dar voltas e mais voltas.
Ela sorri para ele, toca em seu ombro e ainda o faz rir.
Quem é essa?
Os dois passam bastante tempo conversando, até que ele se despede
dela, com um beijo no rosto e caminha em nossa direção.
É sério isso? Um beijo no rosto?
— Oi, gente linda! Sentiram minha falta? — pergunta, se sentando na
cadeira vaga à minha frente.
— Nem reparei que não estava aqui — digo, encarando-o.
— Assim você me magoa, linda. — Leva as mãos ao peito.
— Hum... — Meus olhos não passam de fendas ao encará-lo.
— Aconteceu alguma coisa? — pergunta e passa a me estudar.
— Não. Nada demais — respondo e desvio minha atenção dele,
passando a encarar Harry que me olha sem entender. Agora mais do que
nunca, preciso saber quem é essa menina que estava com ele. E
principalmente se eles têm alguma coisa. Pensando nisso, encontro a
maneira perfeita de descobrir isso de uma vez. — Hanna Mo, o que acha de
me ajudar a encontrar uma roupa para o encontro que terei hoje? —
Debruço na mesa para vê-la melhor.
— É o quê? — Aaron grita e acaba se engasgando com a água.
— Você está bem? — Uso um tom sereno. — Acho melhor bater nas
costas dele — sugiro, quando vejo seu rosto passando da coloração normal
para a avermelhada.
Rapidamente, Harry o acode dando tapinhas em suas costas para
desengasgá-lo de uma vez.
— E-eu estou bem — avisa. — Obrigado, cara — agradece. — Que
porra de encontro é esse? Com quem? — pergunta, me encarando.
— Encontro normal, ué. — Dou de ombros. — E pra que você quer
saber com quem? Você não o conhece mesmo — respondo e me viro para
Hanna mais uma vez. — Então, vai me ajudar ou não?
— Que encontro é esse que não estou sabendo? — a loira pergunta.
— Saberia se não estivesse com o pau do Liam em sua boca vinte
quatro horas por dia, sua vadia — acuso.
— Meu Deus, Holly. Eu não precisava saber disso — Aaron protesta,
tampando os ouvidos.
— Que foi? Sua irmã transa. Aceite isso.
— O que aconteceu com você hoje? Está atacada, sua vadia? —
Hanna pergunta, se debruçando sobre a mesa e tentando tampar minha
boca.
— Só quero saber se vai me ajudar ou não? — Me esquivo do seu
ataque.
— Vou, agora cala a porra dessa boca. — Consegue puxar uma mecha
do meu cabelo antes de se sentar.
— Então, ótimo — confirmo, me recostando na cadeira.
— Ótimo nada — Aaron volta a falar. — Que história é essa de
encontro? — pergunta.
Sua expressão está completamente fechada.
Nunca o vi tão sério como está agora.
— Com uma pessoa do meu curso — invento. — Ele me chamou para
sair e eu aceitei.
— Não acredito que vai a um encontro com alguém e esse alguém não
sou eu, Holly — Simon finge reclamar, sentado ao lado de Bennett que dá
uma cotovelada na região da sua costela.
— Não piora as coisas. — Escuto Liam dizer.
Para ele dizer isso, é porque estou conseguindo levar seu melhor
amigo ao limite.
Não era mais fácil perguntar para ele quem era a garota ou se eles
estão juntos de outra maneira?
Claro que sim. Mas qual seria a graça?
Se eu não o atacasse exatamente assim, não teria o meu momento de
diversão.
Aliás, Aaron é a coisa mais deliciosa do mundo quando está com
raiva.
— Está de sacanagem com a minha cara? — pergunta e consigo ver
sua perna mexendo freneticamente embaixo da mesa. — Você vai a
encontros com outros caras, mas não pode ir comigo.
Parece que alguém está ficando nervoso.
— Que foi? Você pode cumprir uma de nossas regras, mas eu não
posso? — faço a pergunta de uma vez.
— Que regra? — Escuto Maddy perguntar para Harry.
— Coisa deles — desconversa.
Queria muito olhar para eles nesse momento, mas meu embate com
Aaron é mais importante agora.
— Então? — volto a perguntar, depois que o vejo paralisado.
— Cumprindo regra? Que regra eu estou cumprindo, Holly? — Passa
as mãos em seus cabelos, um pouco agitado.
— De não sermos exclusivos — jogo de uma vez e espero sua
resposta.
Primeiro seu rosto fica branco para em questão de segundos assumir
uma coloração avermelhada.
— De onde você tirou isso? — pergunta.
— Não importa, esse não é o ponto.
Vejo-o fechar os olhos e consigo escutá-lo contar até dez bem baixinho
e quando chega ao zero, ele abre os olhos lentamente e passa a me encarar
fixamente.
Aaron passa a ler através do meu olhar como se estivesse procurando
algo, e quando finalmente encontra o que quer que seja, ele se recosta na
cadeira, com um sorriso enorme estampado em seu rosto e cruza os braços.
— Isso tudo era só uma maneira de saber se estou saindo com alguém,
linda?
— O quê? — Arregalo os olhos.
Mas como ele...
Ah, esquece. Acabei de me lembrar que ele é a pessoa que mais me
conhece nessa vida.
— Não era mais fácil perguntar? — Ainda sorrindo, morde o cantinho
do lábio inferior. — Quase me mata do coração. — Se vira para os nossos
amigos que nos encaram concentradíssimos. — Viram o porquê ela é o
Carma da minha vida? — Aponta pra mim.
— Vocês se merecem — Hanna é a primeira a falar. — De verdade.
— Feitos um para o outro — Maddy diz.
— Com certeza — Genna concorda.
Mando todos irem a merda e volto minha atenção para o homem à
minha frente.
— Então? — pergunto.
— Então o quê?
O sorriso sarcástico não sai do seu rosto
Eu vou matá-lo.
— Vai me contar ou não? — volto a perguntar puta da vida por conta
desse sorrisinho dele.
— Por conta desse seu showzinho. — Se estica para pegar uma batata
do meu prato. — Não vou te responder. — Se levanta da mesa e sai
andando.
É o quê?
Jura que ele vai fazer isso comigo?
Ah, mas nem ferrando.
Me levanto e sigo atrás dele.
— Aaron, eu não estou brincando — digo, batendo os pés com força
no chão. — Me responde. — Ele gargalha, jogando a cabeça para trás e sai
do refeitório. Parece que encontrou alguém que sabe jogar como você,
Holly — Volta aqui — peço.
Estou a poucos passos da saída, quando sou surpreendida por braços
fortes que me puxam pela cintura e sinto seu corpo forte me prensar na
parede.
— Quer saber se somos exclusivos, meu pequeno e lindo Carma? —
Passa seu nariz de leve no meu.
Não consigo dizer uma única palavra nesse momento. Meu coração
bate tão rápido em meu peito, que me pergunto se ele consegue escutá-lo e
minhas mãos tremem pelo nervoso.
— Sim. — Afirmo com a cabeça.
Aaron aproxima seus lábios da minha orelha, e fazendo meu corpo
todo se arrepiar, ele sussurra:
— Quantas vezes terei que dizer que eu sou seu, assim como você é
minha? — Aperta minha cintura e me puxa para mais perto de si. — Minha,
toda minha. Entendeu? — Morde o lóbulo da minha orelha e minhas pernas
se tornam gelatina. — Não aceitarei dividir você com ninguém.
— Muito menos eu — digo.
Ele se afasta e passamos a nos encarar.
— Ótimo — diz.
— Ótimo — respondo, seguro em sua nuca e reivindico seus lábios
para mim, com um beijo possessivo e selo mais um acordo silencioso entre
nós dois.
Se ao menos você visse o que eu posso ver
Você entenderia por que eu te quero tão desesperadamente
What Makes You Beutiful – One Direction
— Onde vai? — pergunto assim que vejo Liam passar por mim cheio
de coisas.
— Vou ao orfanato — responde, parando à minha frente.
— E onde está Hanna? — Olho para os lados à procura da minha irmã.
— Já foi com a Genna — conta. — Tive que vir em casa para pegar o
violão que acabei esquecendo. — Mostra a capa preta em sua mão.
— Posso ir com você? Prometi que iria ensinar as crianças a patinar —
conto.
— Claro. — Caminha em direção a saída e o sigo. — Já fechou tudo
com a Amanda?
— Na verdade, estou indo para isso — conto, seguindo até a garagem.
— Você vai gostar das crianças de lá. — Para em frente ao seu carro e
abre o porta-malas.
— Imagino que sim. — Ajudo-o a arrumar tudo. — Só o pouco tempo
que passei com alguns deles da última vez que fomos lá, já me mostra que
são incríveis. — Fecho a mala e sigo em direção ao banco do passageiro.
Liam destrava as portas e assim que entramos e colocamos os cintos,
ele liga o carro e dá partida.
— Está pronto para virar o tio Aaron? — pergunta enquanto deixamos
nossa casa para trás.
— Espero que você esteja pronto para perder o posto de preferido.
Liam gargalha.
— Nem ferrando, cara. — Olha rapidamente em minha direção e volta
sua atenção para a estrada. — Esse cargo sempre será meu.
— Eu sou muito mais encantador do que você — conto o óbvio para
ele.
— Não é isso que seus pais dizem. — Dá de ombros.
— O quê? — Me viro no banco para olhá-lo melhor.
— Ué — se faz de inocente. — Só contando o que eles me falaram da
última vez que conversamos.
— Como é!?
— Sua mãe me disse que sou o filho preferido dela. — Volta a olhar
para mim com um sorrisinho sarcástico estampado.
É errado eu querer socar a cara dele?
— Como ela teve coragem de fazer isso comigo? — pergunto
indignado.
— Quem mandou parar de ligar para ela nos finais de semana? — Vira
à esquerda e pega a estrada que nos leva para o orfanato.
— Eu ligo para a minha mãe, sim, seu cuzão — me defendo.
Liam dá de ombros mais uma vez e segue dirigindo.
Como dona Clarie pode fazer isso comigo?
Ciumento?
Com certeza.
O que posso fazer se tenho ciúmes de todos que amo?
— Vou tirar essa história a limpo agora mesmo. — Pego o meu celular
e ligo para a minha mãe.
— Jura que vai ligar para ela? — pergunta, achando graça.
— Mas é claro — digo, olhando para a tela do aparelho. — Mamãe,
como assim seu filho preferido é o Liam? — pergunto assim que atende.
— Oi, meu filhote lindo! Sua mãe está bem, se você quer saber — diz,
quase me fazendo rir, mas o prendo porque o assunto é sério aqui.
— Nada de “Oi, filhote”, Dona Clarie — me finjo de bravo. — Vai me
contar que história é essa que o Liam acabou de me dizer?
— Ele não se conforma que sou o melhor, Clarie. — Se aproxima para
que minha mãe consiga ouvi-lo.
— Sai pra lá, seu traidor. — Tiro-o de cima de mim. — Não bastava
roubar minha irmã agora quer roubar meus pais também?
Meu melhor amigo e minha mãe começam a rir de mim e tenho que
me segurar para não acompanhá-los.
— Isso nunca perde a graça — Liam diz depois de se recuperar do seu
ataque de riso.
— O quê? Tirar uma com a minha cara?
— Exatamente — afirma.
Por que eu sou amigo desse cara mesmo?
— Idiota. — Mostro o dedo do meio para ele e volto minha atenção
para a minha mãe que ainda está na linha. — A senhora assume, então? —
volto a perguntar. — Como pode fazer isso comigo? — Forço uma voz de
choro.
— Desculpa, filhote. A mamãe não faz mais — fala como se estivesse
conversando com um bebê.
— Estou magoado demais para perdoar tão fácil assim — resmungo.
Liam solta uma risada debochada.
— Bebê chorão — diz enquanto finge uma tosse.
— Cala a boca — mando. — Tem sorte de eu não fazer você comprar
um jogo novo pra mim.
— Eu não compraria de qualquer jeito.
— Ah, você compraria sim e sabe por quê? — Encaro o meu amigo.
— Por que namorei sua irmã escondido?
— Olha, mamãe, como ele é inteligente. — Aproximo o celular da
boca.
— Aaron, você está chantageando seu melhor amigo de novo? — sua
voz é brava agora.
— Ele quem começou — digo da maneira mais infantil possível.
Por que quando falamos com nossos pais voltamos a ser crianças em
determinado momento?
— Não me interessa quem começou — volta a dizer e se estivesse na
frente dela nesse momento, a veria com as mãos na cintura. — Pode parar
com isso agora mesmo.
— Sim, senhora — respondo e dou um soco no braço de Liam quando
ele ri de mim.
— Ótimo, querido. Agora preste atenção na mamãe — chama minha
atenção como se eu tivesse cinco anos de idade. — Você é e sempre será
meu filho preferido.
— Vou contar isso para Hanna — digo, me recostando no banco e
olhando para a paisagem que vai mudando de acordo com o nosso avanço.
— Ela já sabe disso — responde rindo e Liam e eu passamos a
acompanhá-la.
Eu sou completamente louco pela minha família. Faço tudo o que está
ao meu alcance e fora dele também para vê-los felizes. Me dói muito não
ter muito tempo para falar com meus pais com mais frequência, mas sei que
eles entendem.
Ficamos conversando por mais alguns minutos, até que ela avisa que
tem que desligar e se despede.
— Amo vocês, queridos.
— Também amamos você — digo, desligando o celular e guardando-o
em meu bolso. — Viu? Sou o preferido.
— Não se acomode muito, porque irei tomar o meu lugar de volta —
ameaça, me fazendo rir.
— Vai se foder — digo, enquanto ligo o rádio e coloco uma das
músicas do nosso cantor preferido.
— Quem deixou você mexer aí?
— Não preciso de permissão, gracinha. O que é seu é meu. Esqueceu?
— Aumento quando Shape of You do Ed Sheeran começa a tocar.
Liam revira os olhos e passa a cantarolar a música baixinho enquanto
dirige até o instituto.
Patino lentamente, enquanto observo o pequeno grupo de crianças que
riem e se divertem enquanto patinam por toda a extensão do rinque.
Assim que cheguei no orfanato, me separei de Liam e fui em direção a
sala de Amanda, que já estava me esperando com tudo pronto.
Iria cuidar de uma pequena turminha com meninos e meninos entre
sete e dez anos. Ela me contou que no instante que disse a eles que teriam
uma atividade nova, eles ficaram eufóricos e mal podiam esperar para
começar a aula.
Ela e a esposa são amigas do dono do rinque, quando pediram
permissão para que a aula acontecesse lá, ele concordou rapidamente. O
lugar fica a pouco mais de vinte minutos do instituto, o que foi perfeito
quando eu e mais dois voluntários, o trouxemos para cá. Tivemos uns bons
quarenta minutos de aula, onde ensinei a eles como manter o equilíbrio
sobre os patins, como acelerar e parar. O que achei mais incrível é que eles
pegaram o jeito bem rápido. Claro que caíram muitas vezes, e fiquei com
medo de que se machucassem, mas no geral, tudo ocorreu bem. Quando
faltava algum tempo para o fim do nosso dia, deixei que eles ficassem mais
livres, mas ainda atento para acudir algum deles caso precisasse.
Olho em volta e vejo que Michele e Denis, os voluntários que vieram
comigo, estão sentados nos banquinhos da pequena lanchonete que tem ali,
então volto meus olhos para as crianças e acabo sorrindo.
Vê-los assim, faz eu me lembrar da minha infância, quando meu pai
trazia Liam e eu para um lugar como esse e passávamos quase o dia todo
patinando. Hanna vinha algumas vezes com a gente.
Ter essas lembranças me traz um sentimento de saudades.
Estou patinando lentamente pelo rinque, quando sinto duas mãozinhas
segurarem minha calça e uma voz doce e infantil me chamar.
— Tio Aaron.
Olho em sua direção e lindos olhinhos verdes e brilhantes estão me
encarando, e a imagem de Hanna pequena aparece em minha mente.
Mesmo que a menina à minha frente tenha cabelos cor de chocolate, seu
olhar pidão lembra o de minha irmã quando ela tinha essa idade.
— Oi, pequena. — Me abaixo para ficar do seu tamanho.
— Vai voltar para nos ensinar a andar no gelo de novo? — pergunta
animada.
— Você quer que eu volte?
— Quero sim. — Afirma com a cabeça com tanta vontade que os
cachos grossos balançam.
Amanda não me disse nada sobre voltar, mas tenho que admitir que
gostei muito do dia de hoje. Ensinar essas crianças foi incrível.
Será que consigo convencê-la a tornar essas aulas um momento
frequente?
— Já que é assim. — Aperto o seu pequeno nariz de leve, fazendo-a
abrir um sorriso banguela. — Eu volto. — Dou uma certeza a ela que nem
mesmo tenho, mas conhecendo a Amanda e pelo que Liam fala, ela irá
aceitar sim.
— Eba! — comemora, levantando os bracinhos.
Acabo sorrindo da sua animação.
— Gostou mesmo de patinar no gelo, hein, mocinha — digo.
— Muito, muito. — Mais uma vez ela balança a cabeça com
animação. — Quando crescer quero andar no gelo com uma roupa bonita
igual a que vi na TV — me conta.
— Quer dizer que teremos uma futura patinadora?
— Isso.
— Saiba que serei um grande fã seu, garotinha. — Faço um carinho
em seus cabelos. — Agora, venha. Temos que ir embora — digo, assim que
vejo Davis apontar para o seu relógio.
— Mas já? — Pega minha mão um pouco desanimada.
— Infelizmente sim. — Conduzo-a pelo gelo. — Mas voltaremos aqui
logo, logo — asseguro.
Tomara que Amanda aceite minha proposta.
Se dando por satisfeita, ela me acompanha enquanto chamo as outras
crianças para irmos embora. Os protestos são inúmeros, o que acaba me
deixando feliz.
Parece que eles gostaram mesmo do dia de hoje.
Chupa essa, Liam. Sou um tio foda pra caralho.
Assim que juntamos todas as nossas coisas, saímos do rinque, vamos
em direção a saída e assim que paramos em frente a van que o dono do
lugar disponibilizou para as crianças, acomodamo-as e seguimos de volta
para o orfanato.
O caminho até lá é tranquilo, e quando chegamos, ajudo cada um a
descer e seguimos em direção a entrada.
— Pode deixá-los com a gente, Aaron — Michele me libera. —
Amanda disse que gostaria de falar com você assim que chegasse, então
pode ir.
— Obrigado, Michele — agradeço.
— Obrigada você. — Estende a mão em minha direção.
— Você fez o dia dessas crianças ser mágico — Davis toma a palavra.
— Tenho certeza de que vão falar disso por dias e dias — repete o gesto da
amiga e estende a mão em minha direção. — Obrigada por hoje.
— Eu que tenho que agradecer a vocês. — Pego suas mãos estendidas,
uma de cada vez.
— Bom trabalho, garoto. — A mulher à minha frente me elogia mais
uma vez. — Agora, vai lá que Amanda está te esperando — me lembra.
Assentindo com a cabeça, me despeço deles e sigo em direção ao
escritório de Amanda, e assim que paro em frente à sua porta, bato para
anunciar minha chegada e ela permite minha entrada.
— Oi, Aaron! Sente-se — me cumprimenta pela segunda vez hoje,
apontando para a cadeira à sua frente.
— Obrigado — agradeço e me sento.
— E então? Me conta como foi com as crianças hoje?
— Foi incrível. — Me ajeito na cadeira para ficar confortável e
começo a contar para ela. — Não imaginava que iria me divertir tanto assim
com eles.
— Que bom que gostou — sorri em minha direção.
— Muito — respondo animado e me preparo para fazer o pedido. —
Hã... Amanda? — Me sinto um pouco inseguro.
— Sim?
— Então, como já disse, eu gostei muito da aula que dei hoje para as
crianças. — Vejo-a balançar a cabeça em concordância. — Eu queria saber
se posso continuar fazendo isso. Dar aulas de patinação para elas.
Amanda se recosta na cadeira e continua a me encarar.
— Sabe o porquê pedi para que viesse aqui assim que voltasse?
— Não.
— Não sei se o Liam ou sua irmã te contaram que nossa instituição
não ia bem financeiramente, mesmo com a ajuda que muitos dos
voluntários nos dão — relata.
Liam e Hanna falaram sobre a situação do lugar, sim. Meu melhor
amigo até doa uma quantia que tira da sua mesada, mas como o seu pai
diminuiu o valor depois da briga que tiveram e minha irmã acabou se
metendo, o valor da doação acabou diminuindo também.
— Sim, eu sei. Minha irmã me contou — digo. — Mas, desculpe o
jeito, o que isso tem a ver comigo? — pergunto interessado.
— Conseguimos um patrocinador, Aaron — revela.
— Está brincando? Isso é sério? — pergunto superanimado depois
dessa notícia.
— É a mais pura verdade — seu sorriso toma conta de todo o rosto. —
O Senhor Saunders está nos ajudando a manter o lugar e aos poucos,
transformá-lo em um local melhor para as nossas crianças e idosos.
Espera aí.
Saunders?
Será que ela fez o que penso que fez?
Ah, linda. Você é a melhor
— Que bom, Amanda. Fico muito feliz por isso — digo.
— Obrigada por isso — agradece. — Mas, enfim. Não foi pra isso que
te chamei aqui. — Se recosta na mesa. — Te chamei aqui, Aaron.
Justamente para fazer uma proposta para você.
— Uma proposta? — pergunto confuso.
— Com esse novo patrocínio, conseguiremos pagar para os
voluntários daqui, uma pequena quantia ainda, mas mesmo assim,
conseguimos custear um salário — conta, me deixando ansioso. — Com
isso, queria saber se você aceita ser nosso professor de patinação? —
pergunta, me tirando de órbita.
É sério isso?
Irei continuar dando aulas para as crianças e de quebra ainda consegui
um emprego?
Isso é um sonho?
Amanda continua a falar sobre como será, que o salário não é muito e
entre outras coisas, até que a interrompo.
— Eu aceito! — respondo de maneira eufórica. — Quando começo?
Ela sorri do meu entusiasmo.
— Jura? Ah, que beleza — comemora, juntando as mãos uma na
outra. Passamos a cuidar de tudo, como horário e os dias em que virei aqui,
e acabamos escolhendo uma vez por semana, todos os sábados, que é
quando não tenho treino de hóquei na faculdade. — Então estamos
combinados? — pergunta, se levantando e estendendo a mão em minha
direção.
— Com certeza. — Aperto sua mão.
— Nos vemos no sábado que vem, então.
— Até lá — me despeço, saindo da sala.
Assim que a porta se fecha atrás de mim, sinto vontade de sair pulando
por aí. Consegui o tão procurado emprego e ainda ajudarei em uma ótima
causa.
Mesmo eu não querendo seguir carreira no hóquei, saber que estou
ensinando a esses pequenos alguma coisa, me faz lembrar da época em que
eu cuidava e ensinava coisas a minha irmãzinha.
Estou saindo do instituto, quando encontro Liam parado em frente ao
seu carro, com o celular na mão.
— Onde você estava? — pergunta assim que me vê. — Já estava te
ligando. — Balança o aparelho em frente ao meu rosto.
— Conversando com a Amanda — respondo.
— Vai trabalhar com a gente, então?
— Você já sabia? — pergunto, me aproximando dele.
— Ela me contou assim que cheguei — conta.
— Nem acredito que finalmente consegui.
— Eu disse que não precisava se desesperar que uma hora você
conseguiria. — Coloca a mão em meu ombro e o aperta em um sinal claro
de camaradagem.
— É — respondo.
Ainda nem acredito no que rolou.
Querendo ou não, Holly foi a grande responsável por tudo.
— Então, vamos? — Aponta para o carro com a cabeça.
— Vamos — aceito, indo em direção a porta do passageiro. — Onde
está Hanna? — pergunto assim que entro e ele dá partida.
— Foi ao shopping com a Genna — responde, saindo do
estacionamento. — Vai encontrar com a Holly e a Maddison.
— Vamos ser só nós dois em casa, então? — Faço um carinho em sua
cabeça.
— Infelizmente sim — suspira, fingindo estar desapontado.
— Vai se foder que sou uma ótima companhia. — Bato em sua cabeça.
Liam começa a rir de mim e tenta beliscar minha perna.
— Já que vamos ser só nós dois, o que acha de jogar uma partida de
videogame? — pergunta, me olhando rapidamente.
— Que tal vermos um filme? Já zeramos todos os jogos que temos. —
Me encosto no banco.
— Tá, pode ser. — Afirma com a cabeça. — Mas eu escolho dessa
vez.
— O quê? Por quê?
— Porque da última vez, você me fez passar o dia inteiro vendo
desenhos — relembra.
— Ah, vai me dizer que não gostou? Você cantou todas as músicas da
Mulan — digo, beliscando sua bochecha.
— Para com isso, porra. — Bate em minha mão. — Vamos escolher
no pedra, papel e tesoura.
— Nem fodendo, cara. Você sempre ganha essa merda — digo.
Não tem uma vez em que decidimos as coisas jogando pedra, papel e
tesoura, que ele perca pra mim.
— É pegar ou largar. — Levanta o seu punho fechado.
Suspiro, já sabendo que perderei mais essa.
— Tudo bem. — Repito o mesmo gesto que ele. — Pedra, papel e
tesoura. — Levamos nossas mãos ao centro e quando vejo o resultado,
começo a rir da sua cara e comemoro o resultado inesperado. — É, meu
amigo, parece que a sorte está comigo hoje.
Porque meu coração já foi quebrado antes
E eu prometi que nunca mais me machucaria
Mas eu demoli minhas paredes
E abri minhas portas
E fiz espaço pra mais um
Então, querido, eu sou sua
Im Yours – Alessia Cara
Quando recebi o convite para vir ao shopping com as meninas, jurava
que só iria fazer companhia para elas e que não gastaria nem um mísero
dólar, mas é claro que isso não aconteceu. Nesse exato momento, meus pés
estão latejando de tanto andar e meus braços estão quase gangrenando de
tantas bolsas de compras.
Tenho umas quatro bolsas lotadas em cada braço.
O conteúdo?
Livros, é claro.
O que mais uma pessoa como eu iria comprar?
— Seu pai vai matar você — Maddy aponta para os meus braços.
— Se ele não me mandou mensagem até agora perguntando o porquê
gastei uma fortuna em uma livraria, é porque ele está de bom humor e não
está ligando se eu estourar o cartão — digo, enquanto verifico o conteúdo
das sacolas. — Ou só não viu a mensagem chegando em seu celular. —
Termino de dividir as coisas e entrego algumas para Hanna.
— Que foi? — Olha das bolsas para mim.
— Me ajuda a carregar. — Balanço as sacolas em minha mão.
— Está escrito burro de carga na minha testa? — Passa os dedos
indicador e polegar em frente à testa.
Espremo tanto meus olhos que mal consigo vê-la à minha frente.
— Não. — Cruzo os braços abaixo dos seios. — Mas está escrito que
você vai me ajudar a levar isso tudo, antes que eu me irrite. — Empurro-as
em sua direção mais uma vez.
— Como você é fofa, Holly Mo — seu tom é completamente
sarcástico. — Um amor de pessoa. — Pega as compras de uma vez e enfia
os braços nas alças já retorcidas pelo peso.
Aperto a pontinha do seu queixo usando o polegar e o indicador.
— Eu sei disso — abro um sorriso em sua direção e acabo
gargalhando quando recebo um dedo do meio em troca.
— Meu Deus! Como vocês são fofas — Maddy comenta rindo,
enquanto olha de mim para Hanna, como se estivesse apreciando uma
partida de tênis.
Hanna suspira, se fingindo de desanimada.
— Ainda não sei por que aturo essa vadia. — Aponta em minha
direção com a cabeça. — Isso aqui está pesado demais. O que tem aqui? —
pergunta.
— Porque sou a melhor pessoa que você poderia ter — digo, enquanto
me aproximo e empurro sua perna de leve usando meu joelho. — E outra.
Você só está segurando as suas compras — relembro-a. — Ou se esqueceu
que comprou aquela coleção de livros ilustrados de Harry Potter.
— Mas são só quatro livros — diz indignada. — Não deveria pesar
tanto assim.
— Que são enormes e tem capa dura.
— Saco — suspira e seus ombros caem em desânimo. — Liam bem
que podia estar aqui para me ajudar.
— Onde está o seu namorado falando nisso, hein? — pergunto. — Ele
seria de ótima ajuda agora — digo, olhando em volta à procura de um lugar
para me sentar.
Só precisava me sentar um pouco ou ir para casa, mas pela cara de
Maddison e Genevieve, nossa vinda até aqui vai durar muito mais tempo.
— Com o namorado dele, esqueceu? — relembra, chamando minha
atenção.
Droga, tinha me esquecido que hoje era um dia só das garotas, e que
quando isso acontece, nenhum garoto é permitido, mesmo sendo seu
namorado.
— Namorado? — Genna pergunta confusa.
— Aaron — Hanna e eu respondemos em um coro.
— Esses dois não se desgrudam, não é? — Maddy pergunta, enquanto
mexe em seu celular.
— Acho que se eles pudessem dormiriam juntos — conto.
— Esqueceu que Aaron dormiu comigo e Liam no Natal porque bebeu
um pouco além da conta? — Hanna conta, passando as mãos no cabelo,
tirando a franja de seu olho.
— Parei aí. — Genna levanta a mão aberta como se pedisse para que
parássemos. — Seu irmão dormiu com vocês? — Faz um esforço tremendo
para não gargalhar.
— Lembra aquele meme? Eu, meu namorado e o namorado do meu
namorado? — pergunta e acaba rindo quando nos vê gargalhando.
— Eles são demais. — Genna limpa o cantinho dos olhos.
— Você não viu nada — digo.
Meu pé começa a latejar mais do que antes. Mexo meus dedos dentro
do tênis e mal sinto meu mindinho.
— O que houve? — Hanna pergunta assim que vê dor em minha
expressão.
— Cansada. Andamos quase o dia todo. — Alongo minhas costas,
jogando a cabeça para trás e a barriga para a frente — Vamos embora? —
peço.
— Agora? Mas eu queria dar uma olhadinha em uma loja antes de ir.
— Jura, Maddy? — pergunto, já querendo me sentar no chão.
— É rapidinho, eu prometo. — Junta as mãos como em uma oração.
Faço movimentos circulares com os ombros e afirmo com a cabeça.
— Vamos lá, então. — Faço um movimento com o queixo, incitando-a
a andar.
Maddison vai na frente junto de Genna, e Hanna e eu vamos um pouco
mais atrás.
Gostaria tanto de uma massagem nos pés nesse momento.
Será que Aaron faz em mim?
Querendo tirar a dúvida, decido mandar uma mensagem para ele.
Como já era de se esperar, sua resposta vem logo em seguida.
Um sorriso bobo nasce em meu rosto enquanto leio e releio a
mensagem.
Ah, Aaron. O que você está fazendo comigo?
Por que é tão fácil sorrir para você?
A cada dia que passa, ele vai se enraizando mais e mais dentro do meu
coração, e sem que eu perceba, passo a pensar nele com mais frequência do
que antes.
Por que não podia ter sido diferente?
Poderíamos ter nos conhecido em outra época. Uma em que Theodore
ainda não existisse em minha vida. Seria tudo tão mais fácil.
Ainda com o olhar voltado para a tela do celular, suspiro em
frustração.
— Tudo bem? — Hanna pergunta enquanto se aproxima de mim.
— Sim. Por quê? — pergunto, desviando meu olhar do celular em
minha mão.
— Ficou séria de repente — responde, desviando o olhar para o
aparelho. — Ah, entendi.
— Entendeu o quê? — me faço de desentendida.
— O que está acontecendo entre você e o Aaron? — responde minha
pergunta fazendo outra.
— Somos amigos que transam às vezes — digo uma meia verdade. —
Você sabe disso.
— Sei mesmo? — Arqueia uma das sobrancelhas.
— Claro que sabe — me esquivo. — Contei para você sobre nosso
trato. — Guardo o celular em meu bolso e passo a olhar para a frente.
Não posso encará-la nesse momento. Hanna vai descobrir a confusão
que está se passando dentro de mim, em questão de segundos.
Odeio que os irmãos Carson consigam me desvendar tão bem assim.
— Você acha que me engana, não é?
— Vai, pergunta logo o que você quer saber, Hanna? — Meu tom sai
um pouco mais áspero do que eu queria.
— Está apaixonada por ele, não está? — pergunta e passa a esperar
uma resposta minha que não vem. — Por que não conversa comigo?
— Porque não tem o que conversar, Hanna — me exalto um pouco e
olho para a frente para ver se Genna e Maddy escutaram, mas acabo
percebendo que elas não estão mais aqui. — Aaron e eu não temos nada
demais, eu já disse.
Sinto uma angústia ao dizer essas palavras.
Parece tão errado me referir ao que eu e o irmão dela temos, como
algo tão banal assim.
Mas, que merda!
Pra que fui mandar essa porcaria de mensagem?
— Não é o que parece — chama minha atenção e cruza os braços em
frente ao corpo. — Por que não assume o que sente por ele de uma vez?
— Porque não dá. — Olho para todos os lados, menos para ela. — E
você sabe o motivo. — Minha garganta aperta e sinto minha voz embargar.
— Ah, Holly — sua voz é de pesar. — Você sabe que nunca seria
igual. — Se aproxima de mim e segura em meus ombros.
Suspiro e sinto meus ombros caírem em cansaço, mas diferente de
antes, o que sinto é cansaço mental.
— Eu sei disso.
— Então por quê? — pergunta, levantando meu rosto para que possa
me olhar melhor.
— Porque não quero magoá-lo, Hanna — conto a ela.
— E como você faria isso?
— Eu não sei — minha voz não passa de um sussurro. — Theodore
me marcou para sempre, Hanna — conto depois de um tempo em silêncio.
— Essa Holly que muitos conhecem é só uma casca da que realmente mora
aqui dentro. — Aponto para o meu peito. — Ele me quebrou de uma
maneira que não tem conserto. — O bolo em minha garganta cresce a cada
palavra dita. — E quanto ao Aaron, eu sinto que não sou suficiente para ele.
Eu nunca vou ser capaz de amá-lo como ele merece. O medo de me
entregar ainda é vivo dentro de mim.
Abro meu coração para minha melhor amiga de uma maneira que
nunca pensei em fazer.
— Mas, Holly, é aí que está. — Une nossas mãos. — Meu irmão gosta
de você do jeitinho que você é. Ouso dizer que foi por conta desse seu jeito
de ser que ele acabou se apaixonando.
— Conta outra. — Desvio o olhar. — Ele é o cara mais incrível desse
mundo, Hanna. Já eu, sou só eu. Nada em especial.
E como se Theodore estivesse ao meu lado, escuto sua voz alta e clara
ecoar em minha mente.
Você nunca será suficiente, Holly. Por esse motivo fico com outras
garotas.
Você não serve para nada além do sexo, Holly.
Me admiraria muito se alguém te amasse um dia.
Meus olhos se enchem de lágrimas, meu peito se aperta em angústia e
tudo o que eu queria nesse momento era que alguém me desse um abraço.
Como se lesse meus pensamentos, Hanna me envolve em um abraço
acolhedor.
— Holly, olha pra mim. — Segura em minha bochecha e levanta o
meu rosto. — Você é a mulher mais incrível desse mundo e no tempo certo
conseguirá enxergar isso. — Enxuga algumas lágrimas que nem percebi
quando as deixei cair.
Concordo com a cabeça, envolvo o seu pescoço em um abraço forte e
me permito chorar pela primeira vez em muito tempo.
Chego em casa acompanhada de Hanna e tudo o que mais quero nesse
momento é ir para o meu quarto e me deitar.
— Você está bem? — pergunta assim que coloca suas compras no
chão.
— Estou sim — afirmo com a cabeça. — Está muito vermelho? —
pergunto, apontando para os meus olhos.
— Não, a água deu um jeitinho.
Depois que minha crise de choro passou, Hanna e eu fomos em
direção ao banheiro para que eu pudesse lavar o rosto, e quando estava
recomposta, mandei mensagem para Genna avisando que tínhamos ido
embora.
— Certo. — Jogo minhas chaves no pote que fica em cima de um
móvel ao lado da porta.
— Será que o Liam está em casa? — pergunta em uma clara mudança
de assunto.
Dando de ombros, começo a andar em direção a sala de estar.
Estamos seguindo em direção ao cômodo, quando escuto Aaron e
Liam cantando. Não consigo entender o que eles dizem, mas pela cara de
Hanna, ela deve conhecer a música.
— Eu não acredito nisso. — Larga suas bolsas ali mesmo e entra na
sala.
— O que foi? — pergunto, seguindo-a.
Eu poderia imaginar qualquer coisa, menos que os dois estivessem
cantando a trilha sonora de um filme da Barbie.
— Eu sou assim — Aaron canta animado e aponta para Liam que pela
cara que faz, deve estar se segurando para não estrangular o melhor amigo.
— Como você — Liam canta quando chega a sua vez.
— E todo mundo pode ver — Aaron volta a cantar com as mãos
fechadas em punho simulando um microfone.
Toda a tristeza que eu ainda sentia, some em um passe de mágica.
Tudo porque tem dois homens maravilhosos, lindos e gostosos, cantando
músicas dos filmes da Barbie.
— Mas o que é isso? — Hanna pergunta, se aproximando deles.
— Bonequinha, vem cantar com a gente. — Aaron segura nossas mãos
e nos puxa em direção ao meio da sala. — Lembra quando éramos crianças
e eu era obrigado a ver com você?
— Sim, eu lembro. — Hanna leva a mão à boca enquanto ri. — Mas
por que estão vendo isso?
— Perdi no pedra, papel e tesoura — Liam conta.
— Você apostou para ver desenho? — pergunto.
— Não — Aaron nega. — Liam queria jogar, mas só tem jogo antigo,
já eu queria assistir alguma coisa. Ia escolher um de ação, mas acabei vendo
que tinha esse no catálogo e a nostalgia bateu. — Aponta para o filme que
continua passando.
— Barbie? Jura? — pergunto, olhando da televisão para eles.
— É um clássico, linda. — Me envolve pela cintura. — Vem cantar
comigo.
— Mas eu não conheço essa música — digo, me afastando para
conseguir olhá-lo melhor.
— Como assim não conhece os filmes da Barbie? — Me olha com
indignação como se eu tivesse matado alguém. — Vamos mudar isso agora,
linda. — Pega o controle e coloca o filme desde o começo.
— É sério isso? — pergunto, olhando para Hanna e Liam que já estão
sentados no sofá esperando o filme recomeçar.
— Sempre falo sério. — Senta-se no sofá e me acomoda ao seu lado.
— Como foi o seu dia? — pergunta, enquanto vira o meu rosto em sua
direção.
— Foi bom — respondo. — Sempre é, quando saio com as meninas.
— Me acomodo mais ao seu lado. — E o seu?
— Boa parte dele foi bom. — Faz um carinho em minha sobrancelha.
— Mas quando comecei a sentir sua falta, se tornou insuportável —
sussurra, encostando nossas testas e nossas bocas em um selinho demorado.
E lá está o coração disparado, as borboletas no estômago, a vontade de
não sair dos seus braços nunca mais. E nesse momento, sei que não importa
o que aconteceu comigo, eu nunca magoaria esse garoto.
Você não vai me salvar?
Salvação é o que eu preciso
Eu apenas quero estar ao seu lado
Save Me – Hanson
Termino de arrumar meus equipamentos na pequena mala em cima da
minha cama, e começo a repassar tudo o que tenho que levar, vendo se não
esqueci nada.
Amanhã nosso jogo será fora de casa, e jogaremos contra Harvard.
Um time bem preparado, mas não como a gente. Estamos treinando com
afinco desde nossa última partida.
Saímos vencedores, mas até conseguirmos esse feito, tivemos que suar
muito.
Isso só mostra que mesmo estando preparados e sentindo que iremos
ganhar, não podemos vacilar.
Surpresas acontecem, e não quero que nossa derrota seja uma delas.
— Aaron, já está pronto? — Simon bate na porta do meu quarto para
avisar sua chegada e entra antes mesmo que eu o autorize.
— Já, só estava vendo se faltava algo. — Olho em volta mais uma vez
para me certificar de que realmente não esqueci nada, fecho o zíper da mala
e a coloco no chão. — Estou pronto. — Pego a alça da mesma e sigo em
direção a porta do meu quarto. — Os outros já estão prontos? — pergunto,
fechando a porta atrás de mim.
— Bennett já está esperando a gente junto com o Liam que está
terminando de arrumar nossas coisas no carro — responde, descendo na
minha frente.
— E as meninas?
— Nos esperando na garagem.
— Bom, já que é assim. Vamos logo, antes que o Bennett nos mate —
digo, assim que desço o último degrau.
— Achei que tinha mais medo do nosso treinador. — Seguimos em
direção à garagem.
— O treinador Foster não pode me sufocar durante a noite se eu
perturbá-lo — conto e Simon gargalha com vontade.
— Isso é verdade — responde.
— Estão rindo do quê? — Bennett pergunta assim que entramos na
garagem.
— Nada não — desconverso, me aproximando de Liam. — Já
terminou de arrumar tudo?
— Só falta suas coisas — responde.
Entrego minha mala para ele, que a coloca no espaço vago em seu
carro, para fechar o porta-malas logo em seguida.
— Podemos ir? — Simon pergunta, olhando para o relógio em seu
pulso. — Temos que estar no estádio em vinte minutos para pegarmos o
ônibus.
— Já estamos indo — digo, me aproximando de Holly. — Esperarei
você lá amanhã.
— Quem disse que irei? — Me lança um olhar atrevido.
— Eu estou dizendo. — Seguro em sua cintura e a puxo em minha
direção.
Seu cheiro de lírios me inebria.
Vamos passar só uma mísera noite afastados um do outro, mas a
saudade que sentirei dela e do seu cheiro, já está começando a apertar.
Meu Deus!
Eu estou completamente de quatro por essa mulher, e não tenho
vergonha nenhuma de dizer isso.
— Já que está dizendo. — Envolve o meu pescoço com as suas mãos
pequenas e macias. — Estarei lá torcendo para o Simon. — Fica na ponta
dos pés e morde meu queixo.
Seguro firmemente em sua nuca e puxo sua cabeça um pouco para
trás.
— Você gosta de me desafiar, não é? — Aproximo meus lábios dos
seus e consigo sentir o gosto doce do seu protetor labial.
— Sabe que sim. — Com os olhos presos nos meus, Holly suga meu
lábio inferior para dentro de sua boca e o morde exagerando um pouquinho
na força e o faz sangrar.
Seus olhos queimam ao me encarar, e a vontade que tenho é de levá-la
para o meu quarto e passar a tarde inteira com meu pau enterrado em sua
boceta.
— Você gosta de me marcar, linda? — pergunto, passando a língua no
lábio inferior.
— Assim você sabe a quem pertence. — Passa a fazer um carinho em
minha nuca.
Meu coração acelera e minha respiração se torna desregulada.
Holly é a única que consegue me desestruturar completamente em
questão de segundos.
— Mesmo gostando de ter suas marcas em mim, eu não preciso delas
para saber quem é a minha dona. — Desço minha mão em direção a sua
bunda e puxo o seu corpo mais para perto, fazendo-a sentir a ereção que
começa a despontar na calça.
Suas mãos adentram em minha blusa e sinto uma leva cosquinha pelo
toque leve de seus dedos em minha pele. Desço meu olhar para os seus
lábios, e estou prestes a beijá-la, quando a voz de Simon estoura a bolha
que estamos.
— Casais, temos que ir logo.
Escuto o resmungar de Liam atrás de mim e acabo rindo.
Sei bem o que ele está sentindo agora. Não queríamos nos separar de
nossas mulheres agora.
— Está na hora, bonitão. — Tira a mão de dentro da minha camisa e
me encara.
— Vejo você amanhã — digo e beijo seus lábios demoradamente,
aproveitando cada segundo para gravar seu gosto em minha memória.
Simon me chama mais uma vez e me dando por vencido, me afasto
dela e vou em direção ao carro.
Me despeço de Holly e Hanna enquanto entro no carro, e quando estou
bem acomodado no banco do passageiro, Liam liga e dá partida em direção
ao rinque.
A viagem de ônibus até Harvard foi completamente tranquila. Passei
quase todo o percurso escutando música ou trocando uma ideia com os
caras.
Agora estamos aqui, no hall do hotel onde ficaremos hospedados por
dois dias.
— Bom, vocês já sabem as regras — o treinador chama nossa atenção
para ele. — Nada de ficar aqui embaixo até tarde. Quero vocês em seus
quartos até a meia noite em ponto. — Vai receitando as mesmas regras de
sempre quando jogamos fora de casa. — Ah, e nada de bebidas alcoólicas.
Se algum de vocês aparecer de ressaca amanhã, vão preferir ter ficado em
casa. — Seu tom é ameaçador.
— Certo, treinador Foster. Todos iremos subir para nossos quartos
logo. — Nosso capitão, Thomas Creevey, garante.
Não sei por que ele ainda dita essas regras. Somos bem grandinhos
para sabermos o que é certo e o que é errado. Só um idiota encheria a cara
ou faria merda na véspera de um jogo.
Foster dá uma última olhada na gente e segue em direção aos
elevadores.
— Vocês ouviram o treinador — Thomas diz enquanto olha para cada
um de nós. — Não aprontem ou eu mesmo mato vocês. — Com esse último
aviso, ele vai em direção a sala de jogos sendo seguido por alguns colegas.
Pouco a pouco, vamos nos dispersando.
— Que tal comermos algo? — pergunto enquanto passo uma das mãos
em minha barriga que reclama da falta de comida. — Estou morrendo de
fome.
— Eu também — Liam afirma. — Só consegui tomar uma vitamina
rápida hoje de manhã.
— Quem mandou ficar até tarde no quarto com Hanna? — Simon
encara meu melhor amigo.
— Por que você tem que me lembrar que ele vive mais no quarto da
minha irmã do que no dele? — pergunto, tampando meus ouvidos.
— Porque é bom tirar uma com a sua cara — Simon ri de mim.
Reviro os olhos por conta do comentário.
Esses idiotas gostam de me irritar, não é?
— Por que não vão se foder? — digo e caminho em direção ao
restaurante do hotel.
— Olha, ele ficou bravinho — Simon afina a voz para falar.
Sem olhar para trás, mostro o dedo do meio para eles e continuo a
andar na frente enquanto eles passam a rir atrás de mim.
Entro na área de jantar e assim que o recepcionista vem em minha
direção, peço uma mesa para quatro e quando tudo está pronto, somos
encaminhados até ela.
— O que vão beber? — pergunto assim que me sento à mesa e abro o
cardápio.
— Acho que vou pedir uma cerveja — Bennett responde.
— Amanhã temos jogo — Simon relembra.
— Eu sei disso, mas beber uma garrafa não vai interferir muito —
responde e o encara.
— Você quem sabe. — Simon se dá por vencido. — Vou querer um
suco de laranja — pede.
— Liam? — pergunto, me virando em sua direção.
— Acho que vou acompanhar o Bennett.
— Beleza, então. — Faço um sinal com a mão para chamar o garçom
e quando ele chega em nossa mesa, faço os pedidos. — E para mim. —
Volto a olhar o cardápio. — Vou querer essa bebida aqui. — Aponto para o
nome de uma bebida feita com laranja.
— Vão querer algo para comer? — pergunta, olhando em nossa
direção.
— Eu estou de boa — digo.
— Também — Liam responde.
— Bennett? — Simon chama sua atenção e como resposta recebe um
balançar negativo de cabeça. — Só as bebidas por enquanto.
— Certo, já trago tudo. — Guarda o bloquinho em seu avental e vai
em direção ao bar fazer nossos pedidos.
Me acomodo na cadeira e passo a olhar tudo à minha volta.
Por conta do horário, o lugar não está tão cheio quanto o esperado.
Além de nós quatro, só há mais cinco mesas ocupadas. Olho para o lado e
vejo Liam digitar freneticamente em seu celular.
— Avisando a dona da coleira que já chegou? — pergunto.
— No instante em que coloquei meus pés aqui — responde, parando
de digitar. — E você?
— O que tem eu? — Arqueio uma das sobrancelhas.
— Já avisou a dona da sua coleira que você já chegou? — pergunta,
dando ênfase na palavra sua e acaba rindo de mim quando vê minha
expressão.
— Mas é claro que avisei a Holly.
Qual a chance de eu não dizer o exato momento em que cheguei no
hotel? Isso aí. Nenhuma.
— Vocês são rendidos demais — Simon ri de nós enquanto roda a taça
de água entre os dedos.
— Já você não avisou porque o dono da sua está sentado ao seu lado,
não é, Simon? — digo, arqueando uma das sobrancelhas, vendo-o rir
enquanto Bennett levanta o dedo do meio.
Com um sorriso nos lábios, me ajeito na cadeira quando vejo o garçom
se aproximando com as bebidas.
— Aqui estão. — Serve cada um de nós e se retira, mas não antes de
receber um obrigado de nós quatro. — À nossa vitória amanhã. — Pego
meu copo e o levanto em um brinde.
— À nossa vitória!
Os quatro saúdam, levantando seus copos e quase ao mesmo tempo,
tomamos um gole de nossa bebida.
— Nossa, isso aqui é muito bom — digo assim que o gosto doce e
fresco da laranja toca minha língua. — Acho que vou pedir mais uma. —
Viro quase o copo todo.
— Não se esqueça que temos jogo amanhã — Simon me relembra.
— Fique tranquilo. — Antes que acabe o que tenho na mão, chamo a
atenção do garçom e assim que ele me encara, peço mais um drink. — Isso
aqui não passa de um suco de laranja — tranquilizo-o.
— De qualquer maneira, acho melhor você pegar leve — pede.
— Fique tranquilo que não vou ficar bêbado com isso aqui. — Bebo o
último gole.
Eu estou bêbado.
É agora que o Simon me mata.
Meu corpo está mole, meus pensamentos estão lentos e minha visão se
torna turva em certos momentos.
Puta merda.
O que tinha naquele suco de laranja?
— Aaron? — a voz de Liam soa baixa. — Está tudo bem? — Toma
meu ombro, mas meu corpo está tão leve e dormente que parece que estou
recebendo um afago.
— Que bom que perguntou meu velho e bom amigo. — Tento segurar
sua mão em cima da mesa, mas meu braço está pesado demais, então acabo
desistindo.
— Você está bêbado, não é, seu filho da puta? — Simon pergunta.
Por que o rosto dele está tão distorcido assim?
Ele está fazendo careta pra mim?
— Já disse que não estou bêbado — nego, deitando minha cabeça no
ombro de Liam. — Nossa, agora entendo por que Hanna gosta de se deitar
em cima de você. — Aperto seu braço, o afofando. — Seu braço é gostoso.
— Ele está bêbado — Liam confirma enquanto tenta se soltar.
— Para de se mexer. — Belisco o seu braço, mas acho que não tem
muito efeito. — Está me deixando enjoado.
— O que te deixou enjoado foram esses seis drinks que você tomou.
— Bennett aponta para os copos vazios à minha frente.
— Eu não me lembro de ter tomado isso tudo. — Tento me deitar em
cima de Liam de novo, mas minha cabeça gira por conta dos movimentos.
— Por que essas luzes estão girando? — pergunto, olhando para o teto.
— Eu acho que por hoje já deu, amigão. — Liam se levanta e sinto
alguém segurar em meu braço. — Vamos para o quarto. — Me levanta de
uma vez, sinto meu estômago embrulhar e minhas pernas bambearem.
Gente, o que tinha naquele suco de laranja?
Como uma coisa tão doce assim pode me deixar desse jeito?
— Que história é essa de me levar para o quarto? — pergunto, o
encarando. — Escolheu o Carson errado, Liam. Meu nome é Aaron —
soletro meu nome bem devagar para que ele entenda.
— O que eu fiz pra merecer isso? — suspira, envolve minha cintura
com o seu braço e coloca o meu em seu ombro.
— Pegou minha irmãzinha escondido — acuso, apontando o dedo em
sua cara e mexendo em seu nariz.
— Supera essa porra. — Começa a andar comigo para a saída do
restaurante do hotel.
— Olha, ele ficou nervosinho — caio na gargalhada.
Por que quando estamos bêbados tudo fica mil vezes mais engraçado?
— Eu juro que vou matar esse filho da puta. — Simon dá um tapa em
minha cabeça assim que passa por mim.
— Não me bate. — Tento passar a mão onde fui atingido, mas acabo
errando. — Liam, ele me bateu. Por que não está brigando com ele?
— Porque a vontade do Liam é de te bater também — Bennett diz ao
passar por nós.
— Vocês estão me maltratando demais, sabiam? — digo quando
chegamos perto dos elevadores.
Escuto suspiros e o coro “Cala a boca, Aaron”.
O elevador chega, entro na grande caixa de metal e do mesmo jeito
rápido que a viagem começou, ela termina. Paramos em frente à porta do
meu quarto com Liam e espero até que ele ache a chave para podermos
entrar.
— Acho melhor fazer um café bem forte para ele. — Escuto a voz de
Bennett atrás de mim.
— Um de vocês pode pedir pra mim? Não quero deixar esse idiota
sozinho. — Liam me joga em cima da cama.
— Beleza — Simon diz.
Nossa, que colchão mais macio.
Me espreguiço e começo a esfregar meu corpo no lençol gelado.
— Posso saber por que você está gemendo? — meu melhor amigo
pergunta de pé em frente a minha cama.
— Isso aqui é muito bom, cara, você tem que experimentar. — Estico
os meus braços em sua direção. — Deita aqui comigo. — Bato no colchão.
— Não, valeu. Estou bem aqui — nega.
— Você não me ama mais? — Sento-me na cama para conseguir olhar
para ele melhor.
— É o quê?
— Você não me ama mais — acuso. — Não quer deitar aqui comigo.
Minha voz está embargada?
É sério que estou com vontade de chorar?
O que tinha na porra daquela bebida?
— Meu Deus do céu. — Vejo-o apoiar as mãos na cintura e olhar para
o teto. — Porque comigo?
— Está reclamando, seu cuzão? — Pego um dos meus travesseiros,
miro em seu rosto e jogo, mas meus sentidos estão tão perturbados que
acabo errando e acertando sua barriga. — Quer saber? Não preciso de você.
Eu tenho a Holly. — Será que se eu ligar agora, ela vem dormir comigo?
Me contorço todo para pegar meu celular no bolso traseiro da minha calça,
mas meus movimentos estão incertos demais para que eu consiga. — Me
empresta o seu telefone?
— O quê? Pra quê? — pergunta.
— Preciso ligar para a Holly, mas não consigo pegar o meu.
— Não vou deixar você ligar para ela desse jeito.
— Mas por quê? — pergunto.
— Da última vez, você quase a pediu em casamento — relembra. —
Imagina o que vai fazer hoje.
— Chamá-la pra dormir comigo, já que você — levanto da cama e
aponto o dedo em sua direção com raiva — não quer.
— Aaron sossega um pouco. — Tenta fazer com que eu me sente na
cama mais uma vez. — Bennett já está trazendo o seu café.
Café?
Quando ele saiu do quarto que eu nem notei?
— Eu só quero a Holly, cara, e você não deixa. — Me jogo na cama,
sentindo minha garganta secar e meus olhos lacrimejarem.
Sim, eu estou chorando.
— De novo não — lamenta. — Olha, quer saber? Liga de uma vez. —
Joga seu celular já desbloqueado em cima do meu peito.
Pego o aparelho e pulando da cama, vou pra cima dele, e o envolvo em
meus braços em um abraço bem apertado.
— Você é o melhor — agradeço, beijando sua bochecha.
— Tá, tá bom. Agora me larga e sente-se aí. — Tira meus braços de
volta do seu pescoço e me coloca na cama de novo.
Me ajeito na cama e presto atenção no celular na minha mão, e assim
que toco na tela, vejo a foto da minha irmã sorrindo e suja de chocolate e
acabo sorrindo também. Liam realmente é o homem perfeito para ela, assim
como ela é para ele. Como me disse um dia, sempre foi e sempre será ela.
Balanço minha cabeça de leve para voltar ao foco inicial.
Disco os números que sei de cor, mesmo bêbado e espero ser atendido.
— Por que está me ligando, Liam? Sua namorada é loira e tem olhos
azuis — É a primeira coisa que fala ao me atender.
— Mas eu amaria que tivesse cabelos e olhos negros — respondo.
— Aaron?
— Quem mais seria, linda?
— O Liam, já que esse é o celular dele — responde. — Aliás, por que
está me ligando do celular dele?
— Acho que perdi o meu na minha calça — conto para ela.
Com certeza ele está na minha calça. Consigo senti-lo, mas não o
encontro. Um mistério que resolverei depois.
— Você perdeu o seu celular na sua roupa? — Se pudesse vê-la nesse
momento, diria que seu rosto é uma grande interrogação. — Aaron você
está bêbado?
— Acho que sim, linda.
— Como isso aconteceu? — Escuto o barulho de algo caindo do outro
lado.
— Bom, primeiro eu pedi um suco de laranja…
— Drink — Liam relembra.
— Isso, drink. — Levanto meu polegar em agradecimento. — Era tão
docinho que bebi um pouco além da conta.
— E o Liam deixou?
— Liam não liga mais pra mim, linda. — Fungo, tentando desentupir
o nariz. — Nem dormir comigo ele quis.
— Meu Deus — Liam e Holly falam juntos.
— Agora, estou aqui sozinho e jogado. — Deito-me na cama. —
Queria você aqui comigo, sabia? Sentir seu cheiro e dormir abraçado.
— Amanhã estarei aí.
— Isso é um indicador de que vamos dormir juntos? — pergunto.
— Quem sabe?
Fecho meus olhos e mesmo tonto da bebida, consigo lembrar
exatamente como é a sensação do corpo dela colado ao meu. Da sua pele
macia, seu cheiro doce e gostoso, sua risada contagiante. Porra, como eu
amo essa garota.
— Quebraremos uma regra — lembro a ela.
— Às vezes é bom quebrá-las. — Sua voz é baixa.
— Tenho que concordar com isso. — Minha voz vai amolecendo aos
poucos. — Mal posso ver a hora de quebrar todas elas e finalmente poder te
perguntar uma coisa.
— E o que seria?
— Se você aceita ser minha namorada — digo e a linha fica muda por
alguns segundos.
Será que ela desligou?
Estava cedo demais para falar isso com todas as letras?
Será que a assustei?
São tantas perguntas sem respostas que já estão me deixando ansioso.
Estou prestes a pedir que esqueça isso, quando ela responde:
— Então, por favor, quebre a última regra logo — diz.
— É sério isso?
— Nunca falei tão sério em toda a minha vida — responde. — Você é
tudo o que eu mais quero.
— Meu Deus, linda. — Fecho meus olhos e um enorme sorriso nasce
em meu rosto.
Meu coração dispara como louco em meu peito.
Ela disse isso mesmo?
Fico em silêncio, absorvendo o que foi dito. Meu corpo está tão
relaxado nesse momento, que pareço estar flutuando em uma nuvem, não
por conta da bebida, mas sim pelas suas palavras. Estou tão sereno nesse
momento, que aos poucos meus olhos vão pesando e meus músculos
relaxando mais e mais.
Droga, não queria dormir agora. Não quero esquecer do que foi dito.
— Linda — chamo-a.
— Sim.
— Posso te pedir uma coisa? — minha voz sai com dificuldade.
— O que quiser.
Assente e espera o meu pedido, mas ela acaba não sabendo o que
seria, porque sou vencido pelo sono que acaba me tomando.
A vida estava me amarrando
Então você veio e me libertou
Estava cantando sozinha
Agora eu não consigo encontrar uma nota sem você
Symphony – Zara Larsson
Sou desperto por um barulho estridente e constante, que faz minha
cabeça latejar.
Meu Deus! Eu vou morrer.
Tento tapar meus ouvidos, mas um simples movimento faz com que
minha barriga embrulhe e a vontade de vomitar suba a garganta.
Que merda eu estava pensando quando bebi aquela porra?
Parece que um caminhão passou por cima do meu corpo incontáveis
vezes.
Puxo a coberta para tampar minha cabeça e afundo meu rosto no
travesseiro, tentando abafar essa porcaria de barulho.
— Liam, quer desligar essa porra? — Minha voz sai mais rouca do
que o normal e minha língua parece com uma lixa de tão grossa que está.
— Se você me soltar, vou poder levantar e desligar.
Levanto minha cabeça rapidamente, o que a faz gritar de dor, olho
para baixo, percebo que minha perna está em cima da sua e quando subo o
olhar, vejo que meu braço está envolvendo-o em uma conchinha.
— O que você está fazendo na minha cama, Liam? — pergunto.
— Você que veio para a minha de madrugada, Aaron — conta.
— O quê? — Desfaço nosso abraço e me sento ao seu lado. — Me
explica isso direito — peço, passando as mãos em meu rosto e em seguida
dou uns tapinhas em minhas bochechas para despertar.
— Depois que você pegou no sono enquanto falava com a Holly, você
acordou para vomitar e quando voltou para o quarto, se enfiou na minha
cama e nada que eu fiz, conseguiu te tirar daqui. Então quando me cansei de
te expulsar, acabei indo dormir.
— Eu vomitei ontem? — pergunto, já sentindo o gosto amargo em
minha língua.
— E muito. — Afirma com a cabeça. — A sorte é que tem uma boa
pontaria.
— Meu Deus.
— É, meu amigo. — Se senta na cama e apoia as costas na cabeceira.
— Você deu um belo show ontem.
Droga!
Passo as mãos em meu rosto e cabelos, e esse simples gesto faz minha
cabeça latejar.
— Simon está puto comigo?
Nega com a cabeça.
— Sabe como o Simon é. — Dá de ombros. — Ele xingou até sua
última geração, mas depois veio aqui e deixou esse remédio aí pra você. —
Aponta para a cartela em cima da pequena mesa ao lado da porta.
— Mesmo mal. — Fecho os olhos, mas acabo os abrindo de novo
quando lembro do que ele disse antes. Mas, espera. — Eu falei com a Holly
ontem? — pergunto.
— Sim. Por quê?
Como assim falei com ela ontem e não consigo me lembrar disso?
Acho que minha expressão diz tudo o que estou sentindo nesse
momento, porque Liam me encara e questiona:
— Você não se lembra, né?
— Nenhuma palavra. — Levanto-me e vou em direção ao frigobar
pegar uma água.
— Não é de se espantar ter esquecido de tudo. — Se levanta e vai em
direção ao banheiro. — O jeito que você estava ontem já era um indício
disso.
Liam me encara enquanto estou abaixado segurando a porta do
frigobar aberta.
Que merda eu fiz ontem, cara?
Ainda não consigo acreditar que dei um mole tão grande assim.
— Sabe o que eu falei para ela? — pergunto, aproveitando o ar gelado
em meu rosto.
— Você não falava coisa com coisa, cara. — Vai em direção a sua
mala ao pé da cama e começa a mexer em seus itens. — Só consegui
entender quando disse algo sobre uma tal lista.
Lista?
Por que estaria falando da nossa lista logo ontem? E o melhor. O que
Holly teria me respondido?
— Bom, espero não ter falado nenhuma besteira. — Vou em direção a
mesa pegar o remédio, volto a sentar na cama atrás de mim e bebo quase
toda a garrafa em questão de segundos.
— Pode ficar tranquilo que isso não aconteceu — responde, pegando
sua nécessaire e indo em direção ao banheiro.
— Como sabe disso se quase não entendeu o que eu disse na ligação?
— Simples. — Para no batente da porta e me encara. — Holly não
retornou à ligação para te xingar, depois que você pegou no sono.
— Você tem um bom ponto — digo, me deitando na cama.
— Sempre tenho. — Entra no banheiro e em poucos segundos, escuto
o barulho da água caindo.
Ainda deitado, fecho meus olhos e faço força para me lembrar do que
conversamos, mas é como se minha mente fosse uma tela em branco. O que
está sendo um saco também é essa dor insuportável que estou sentindo.
Quanto mais eu tento, mais ela lateja.
Por que sinto que não deveria ter esquecido dessa conversa?
Que grande merda essa amnésia alcoólica.
Só espero que eu esteja novinho em folha para o jogo de hoje, ou
nosso treinador irá me matar.
Desde muito novinha, sou apaixonada por hóquei. Assistia a todos os
jogos que passavam e tinha o sonho de me tornar uma jogadora
profissional. Mas depois que pisei no gelo e acabei quebrando o braço por
conta de um tombo, percebi que não era pra mim.
O sonho de ser uma jogadora acabou, mas a paixão pela torcida não.
— Animados? — pergunto, olhando para as minhas amigas e Harry.
— E como! — Maddy afirma e pula no mesmo lugar bem animada.
— Hoje eu saio daqui completamente rouca — Genna avisa.
— Acho que vou gostar — Harry responde de uma maneira mais
contida.
Olho para Hanna à espera de sua resposta.
— Meu namorado é um dos jogadores — morde o cantinho da boca,
demonstrando estar apreensiva. — É claro que estou animada.
— E nervosa — relembro.
— Muito nervosa — confirma.
— Eles vão se sair bem, Hanna. — Genna segura no ombro da amiga
como em um sinal de apoio.
— Eu sei — inspira e solta o ar devagar. — É que mesmo eles estando
acostumados com toda a violência que tem nesse jogo, tenho medo de que
algum deles se machuquem.
Um ponto negativo do hóquei é que o jogo em si é violento demais.
As brigas que acontecem na quadra sempre são por motivos bestas.
Espero que como nos últimos jogos, esse não tenha pancadaria
também.
— Vai ficar tudo bem — garanto. — Liam vai ficar bem.
— Não estou preocupada com o Liam — conta, me deixando surpresa.
— Não?! — pergunto, surpresa.
— Estou preocupada com o meu irmão — volta a morder o canto da
boca. — Ele estava bêbado ontem e deve estar com uma ressaca daquelas.
Como ele vai jogar bem nesse estado? — Se aproxima de mim e segura em
meus ombros. — Holly, faça algo.
— Vai dar tudo certo — respondo, me afastando dela.
Genna chama a atenção de Hanna, mas não escuto o que dizem,
porque minha mente me teletransporta para a noite de ontem.
Hanna e eu estávamos comendo pipoca e assistindo a um filme,
quando Aaron me ligou bêbado. No primeiro momento, achei que era uma
brincadeira dos meninos que o mandaram se fingir de bêbado, mas bastou
duas frases para saber que era verdade.
Estava prestes a matá-lo pela irresponsabilidade, quando nosso assunto
foi desviado para nossa lista.
Ainda não acredito que disse aquilo a ele.
O que me deixa mais confusa e até mesmo ansiosa é não saber se ele
se lembra do que conversamos. Realmente estou esperando que ele quebre a
última regra e dê um passo à frente?
Não saberia o que fazer assim que nossa lista fosse encerrada.
Droga! Isso tudo é tão confuso.
Eu gosto demais daquele garoto, gosto tanto que quando não está perto
de mim, sinto que falta algo. Mas ao mesmo tempo que sinto tudo isso,
também tenho medo de me entregar de vez.
Saco.
Eu só queria ser uma garota normal, sem a porra dos fantasmas do ex-
namorado pairando e assombrando a minha vida inteira.
— Holly? — a voz de Harry me tira dos meus devaneios.
— Oi?
— Você escutou o que eu disse?
— Me desculpa, baby Yoda, mas estava com a cabeça em outro lugar
— conto.
— Percebi — me analisa um pouco —, está tudo bem?
— Está — afirmo com convicção. — Só um pouco tensa com o jogo.
Não é nada demais.
Harry fica me encarando por alguns segundos, até se dar por vencido.
— Tudo bem. — Dá de ombros. — Se precisar de qualquer coisa é só
me falar, tá bom?
— Pode deixar. — Olho em volta e vejo que as pessoas já começam a
entrar. — Vamos? — Aponto para a entrada do estádio, chamando a atenção
de todos.
— Vamos. — Todos concordam em um coro e seguimos na mesma
direção que os torcedores.
Assim que liberam nossas entradas e achamos nossos lugares, o
nervosismo começa a tomar conta de mim.
Minha barriga dá voltas e mais voltas, minhas mãos estão supersuadas
– mesmo estando em um lugar onde o clima é abaixo de zero – e há um
bolo em minha garganta.
Já assisti a incontáveis jogos e nunca me senti tão nervosa como me
sinto quando venho assistir o Artic Fox.
— Faltam quantos jogos para a final? — Harry pergunta, sentando ao
meu lado.
— Não me lembro agora — Hanna responde, mordendo a ponta da
unha. — Será que vai demorar muito para começar? — Olha para a entrada
do vestiário.
Diferente da última vez, conseguimos lugares perto da entrada e saída
do vestiário. O que significa que conseguiremos ver nossos meninos
passando bem ao nosso lado.
— Faltam alguns minutinhos ainda — Maddy responde, olhando para
o celular.
— Será que dá tempo de você me ensinar algumas coisas sobre esse
jogo, Holly? Não sei nada sobre hóquei.
Antes que eu consiga responder, Maddison toma à frente.
— Eu explico, gatinho.
— Tá bem. — Com as bochechas coradas, ele se senta ao lado da
ruiva que passa a dar uma pequena aula para ele.
Fico alguns segundos os encarando, e me dou conta do quanto eles são
fofos e combinam um com o outro. Mal posso esperar para resolver minha
vida de uma vez para poder ajudar Harry a conquistar Maddison.
Os minutos vão se passando, e quando acho que vou acabar tendo um
ataque do coração, vejo o uniforme azul e branco do nosso time, passar ao
meu lado.
— São eles! — Hanna grita e como se comandasse a torcida, todos
gritam com ela assim que percebem que eles estão entrando.
— Cadê? — Genna levanta e começa a procurar nossos amigos entre
os jogadores.
— Eles ficam mais no final — Maddy responde e passamos a
procurar.
A comissão técnica toda já está posicionada no banco e metade dos
jogadores já entraram quando vejo o número quarenta e cinco da camisa de
Aaron.
— Olha o Aaron ali. — Aponto para onde ele está, sendo seguido
pelos meninos e começamos a gritar enlouquecidas. — Puta merda, como
ele fica gostoso de uniforme — digo, olhando para as suas costas que,
graças ao uniforme, está enorme.
— Tenho que concordar que homem de uniforme é uma coisa a se
apreciar — Genna comenta.
— Verdade — Maddy concorda.
Olho para Hanna, que está com as mãos entrelaçadas embaixo do
queixo, e assim que noto o que se passa com ela, me aproximo chamando
sua atenção.
— Fique tranquila que nenhum deles vai se machucar. — Seguro uma
de suas mãos e a entrelaço com a minha.
— Isso aí — concorda e passamos a prestar atenção ao jogo.
Os times já estão formados no rinque enquanto os capitães vão em
direção ao meio, para falar com o juiz.
Fixo meus olhos em Aaron e até que ele parece estar se sentindo bem.
Espero não estar enganada.
O árbitro coloca o disco no chão e assim que o sinal soa, a partida
começa.
Mal começamos o jogo, e o time adversário faz um ponto na gente. A
torcida atrás de mim, vaia o goleiro por ter deixado que marcassem tão
rápido assim. Olho em direção ao banco dos reservas e vejo o treinador
Foster com uma cara de poucos amigos. Parece que eles vão escutar e muito
se não reverterem esse jogo logo.
Me sinto apreensiva demais. O time de hoje tem ótimos jogadores que
não deixarão que marquem um ponto tão fácil assim. Mas mesmo os
melhores jogadores acabam cometendo erros e a preocupação que sinto é
substituída pela euforia. Um menino ruivo com o nome de Ryan, recepta o
disco e vai levando-o até conseguir uma abertura e lançar para o jogador
mais próximo dele.
Simon recebe o disco e assim que se estabiliza, dispara em direção ao
gol, com Aaron protegendo sua retaguarda e Bennett sua lateral, ele faz um
belíssimo ponto, e nos leva à loucura. Eu pulo e grito tanto, que com certeza
acabarei rouca.
— Isso aí, Simon! — grito orgulhosa dele.
Vê-lo jogando dessa maneira só me dá mais certeza de que ele será um
grande jogador no futuro.
O jogo recomeça e a adrenalina também.
Faltas são cometidas, jogadores são prensados na proteção do rinque,
o juiz para o jogo quando os jogadores começam a se estranhar demais, o
treinador Foster chama Aaron quando ele perde o disco por besteira e torço
para que ele não o tire do jogo, e para completar, Liam acaba se chocando
com um adversário.
— Será que ele está bem? — Hanna pergunta preocupada.
— Está sim — garanto. — Seu namorado está acostumado com isso.
— Vai que ele faz essas coisas de propósito — Genna diz rindo.
— O quê? — Hanna a encara confusa. — Mas por quê?
— Ué. — Dá de ombros. — Para ganhar massagem e uma chupada de
recompensa da namorada depois do jogo. — Movimenta as sobrancelhas de
uma maneira sugestiva.
— O filtro entre sua boca e seu cérebro não está funcionando hoje? —
pergunta, tentando se manter séria, mas acaba rindo depois de um tempo.
Dou de ombros e volto minha atenção para o rinque.
O jogo recomeça e quando me dou conta, estamos nos últimos
minutos do jogo e permanecemos empatados com o outro time.
— Que agonia! — Hanna reclama ao meu lado.
— Calma que ainda dá tempo de eles virarem — digo, olhando para
eles e vendo o exato momento em que dois caras fecham Simon de uma
maneira brusca demais, levando-os ao chão. — Que isso? — grito
indignada.
— Essa deve ter doido — Maddy comenta.
— Foi uma entrada sem razão — digo, olhando para a ruiva. — Ele
não estava com o disco.
— Bennett, Aaron, não façam isso! — Genna grita e rapidamente
volto meus olhos para o jogo.
— Puta merda. — Levo as mãos aos lábios quando vejo os dois
partirem pra cima dos jogadores que machucaram Simon.
— Que merda eles estão fazendo? Vão ser expulsos assim. — Hanna
passa as mãos nos cabelos, nervosa.
Seguros suas mãos a impedindo de puxar os cabelos, por conta do
nervosismo.
— Calma, Hanna. Liam está indo separá-los. — Maddy aponta na
direção dele.
— Tem certeza? — Harry pergunta e rapidamente volto a olhar em
direção a eles.
— Porra, Liam! — me exalto quando o vejo ir até os amigos e ao
invés de separar, ele empurra um jogador adversário.
— Eu vou matá-los — Hanna resmunga.
Os torcedores gritam e xingam por conta da briga, o árbitro para o
jogo, e quando olho em direção ao treinador Foster, ele está mais vermelho
que o uniforme de Harvard.
— Não estou acreditando nisso, cara. — Hanna se senta na cadeira e
imito seu ato. — Espero que eles não tenham se machucado.
— Vai ficar tudo bem — garanto.
Os minutos passam até que o jogo recomeça.
— Tomara que não tenhamos mais surpresas — Genna diz ao meu
lado.
— A única que quero é eles ganhando — Maddy passa a gritar o nome
dos meninos.
Mais uma vez, nosso time está em posse do disco.
Olho para o cronômetro e faltam exatos dezesseis segundos para o
final da partida.
— Vamos. É agora ou nunca! — Coloco as mãos em concha em frente
ao rosto para ampliar minha voz.
Acompanho o capitão do Artic Fox driblar o jogador adversário,
ajeitar sua postura, flexionar os joelhos e dar um tiro certeiro em direção ao
gol, levando todos à nossa volta à loucura.
É isso aí, nós vamos para a próxima fase.
Todos nós nos abraçamos contentes por mais essa vitória.
— Vamos esperá-los lá fora? — pergunta, vendo todos saírem aos
poucos e os jogadores seguirem em direção ao vestiário.
— Sim, preciso abraçar o meu grandão. — Hanna segura em minha
mão e vamos em direção às escadas.
Vamos até a saída e paramos em um lugar onde não tem muita
movimentação de pessoas passando.
A cada minuto que se passa, olho em direção a saída à espera dele e a
ansiedade de saber o que ele lembra sobre nossa conversa, só me deixa mais
aflita ainda. Minhas mãos voltam a suar e a sensação de que vou vomitar a
qualquer momento me sobe à garganta, mostrando que estou em surtos.
Olho mais uma vez para a entrada, e nada dele aparecer, então passo a
andar de um lado para o outro quase abrindo um buraco no chão para ver se
me acalmo, mas não adianta muito. Estou prestes a morder minhas unhas,
quando o vejo caminhar em minha direção, acompanhado por seus
parceiros e só basta um olhar seu para que todo o nervosismo vá embora.
Sem pensar no que estou fazendo, corro em sua direção, que assim que
me nota e percebe o que vou fazer, abre os braços e me segura no colo,
assim que nossos corpos se chocam.
— Isso tudo é saudade, linda? — Esconde seu rosto em meu pescoço.
— Parabéns, lindo. — Me afasto para olhá-lo melhor e sinto meu
coração disparar no peito quando nossos olhares se encontram. — Foi uma
ótima partida, mesmo que vocês quase tenham sido expulsos.
— Não ia deixar aquele babaca bater no meu melhor amigo — se
defende e me aperta mais em seus braços.
— Como você está? — Começo um carinho em sua nuca. —
Machucaram você — afirmo, olhando o pequeno corte em sua boca.
— Estou bem, não foi nada — garante, beijando meus dedos.
— Ah, que bom! — Me sentindo aliviada, volto a envolver seu
pescoço com os meus braços. — Agora, me fala. Como foi jogar de
ressaca?
Ele ri da minha pergunta antes de responder.
— Não estava mais sentindo os efeitos da bebida de ontem — me dá
um selinho rápido. — Simon me curou na marra.
— Imagino que sim — digo e o encaro, esperando que diga algo sobre
o que conversamos ontem. — Sua noite deve ter sido péssima.
— Felizmente ou infelizmente não me lembro de nada.
Sinto meu coração se apertar com sua resposta.
Ele não lembra o que conversamos ontem?
Jura?
— Por que disse, infelizmente? — pergunto, tentando esquecer o que
sinto nesse momento.
— Liam me contou que nos falamos ontem — responde e afirmo com
a cabeça. — Queria me lembrar sobre o que conversamos.
Penso se devo ou não contar para ele, mas acabo decidindo que não.
Se ele não se lembra é porque esse assunto deve ser esquecido, mas assumo
que gostaria e muito que ele tivesse se lembrado.
— Você me disse que queria dormir comigo — minto.
— Nenhuma novidade, linda. — Junta nossos narizes. — Sinto muito
a sua falta quando estamos longe um do outro.
Depois de escutar suas palavras, não consigo me sentir desapontada
pela sua perda de memória. Se não for para ele lembrar, que assim seja.
Quem sabe a gente não volte a ter essa conversa em breve?
— Digo o mesmo — junto nossos lábios em um selinho.
— Ei, casal — Simon grita, nos interrompendo. — Vamos fazer uma
festinha só nossa no meu quarto e do Bennett para comemorar. O que
acham?
— Estou dentro — confirmo.
— Vamos logo. — Aaron me coloca no chão, pega em minha mão e
caminhamos em direção ao ônibus que irá levá-los até o hotel.
— Nos encontramos lá, então — Hanna diz a Liam assim que ele a
solta.
— Vão com cuidado — pede.
— Pode deixar. — Fica nas pontas dos pés e beija o namorado.
— Isso serve pra você também, linda. — Aaron me vira em sua
direção e enlaça minha cintura. — Preciso de você inteira para mais tarde.
— Planos?
— Com você? Sempre. — Aproxima nossos rostos e rouba meus
lábios mais uma vez.
— Espera aí! — Simon grita atrás de mim. — Isso é o que estou
pensando?
— Isso o quê? — Aaron pergunta.
— Minha garota está usando minha blusa?
Olho para trás, vendo-o se aproximar e já começo a rir.
Tinha até esquecido do que tinha feito.
— Que garota? — Aaron pergunta sem entender nada.
— Essa garota. — Me tira dos braços do amigo, me pega no colo e me
gira duas vezes.
— Me solta ou vou ficar enjoada — peço, batendo em seu peito.
Rindo, ele me coloca no chão.
— Você me fez um cara feliz ao usar minha blusa, gata. — Faz um
carinho em meu queixo.
Dou um tapa em sua mão e começo a rir com ele.
— Que história é essa, Holly? — Aaron pergunta confuso. — Você
veio com a blusa do Simon. — Se aproxima de mim, me vira de costas e
acaba lendo o número sete e o nome Kipling.
— A dele você usa, mas a minha não, Carma? — Bate na minha
bunda.
— Agora sou o seu Carma de novo? — pergunto.
Aaron tem passado a me chamar mais de linda do que de Carma.
— Quando você me tira do sério, sim — confirma, me fazendo
gargalhar.
Estou prestes a rebatê-lo, quando escuto uma buzina atrás de mim, e
ao olhar na direção do som, vejo o treinador deles parado em frente ao
ônibus do time, esperando-os.
— Vai lá antes que ele brigue com você — me despeço, lhe dando um
selinho e me afastando.
Vejo-os entrar no ônibus e assim que partem, nos aprontamos para
segui-los também.
Estamos correndo ao luar
Nós estamos dançando nas ondas
Você está aqui para se divertir
Algo que vai fazer você ficar
Moonlight – Chase Atlantic
Assim que nosso ônibus chega ao hotel, tudo o que mais quero nesse
momento é me deitar em uma cama na companhia de Holly. As pancadas
que recebi hoje na partida já estavam começando a latejar, e pelo jeito que
os hematomas estavam aparentes quando tomei banho, em breve terei uma
grande mancha roxa em minha costela e abdômen.
O jogo de hoje foi um dos mais difíceis de todos os tempos.
Harvard jogou muito bem, bem até demais. Nos fazendo suar, e muito,
até o apito final.
Cheguei a pensar que não conseguiríamos levar essa e que voltaríamos
para casa com o peso da derrota. Ainda mais depois dos lances bobos que
perdi. Por um momento, pensei que não iria participar do jogo de hoje,
ainda mais depois que o treinador me viu no café da manhã, mas Simon
conseguiu contornar, dizendo para o senhor Foster que eu tinha comido algo
que não me fez bem de noite e que estaria novo em folha para mais tarde.
Felizmente, joguei a partida e nosso time estava superfocado em não
sair na pior e conseguimos reverter o placar a nosso favor.
— Vamos esperar as meninas aqui? — pergunto, assim que entramos
no hall do hotel.
— Acho melhor. — Bennett assente, pegando seu maço de cigarro.
— Jura que você já vai fumar? — Simon pergunta um pouco chateado.
— Deixe-o — Liam pede, antes que comece uma discussão.
Simon odeia que Bennett fume quando estamos em época de
campeonato.
Diferente de Liam, que fuma só de vez em quando, Bennett não
consegue largar o cigarro, então sempre temos discussões sobre isso.
— Enfim — faz um gesto com a mão —, acha que devemos fazer
mais reservas de quartos? — Simon pergunta.
— Eu acho uma boa — concordo.
— Acha que precisamos de quantos? — Simon volta a perguntar.
— Hanna irá dormir comigo — Liam relembra. — Mas vamos
precisar de mais um para Aaron.
— Tá bom, então espera aí. — Pego meu celular e abro o bloco de
notas para não me perder. — Um quarto para Holly e eu, Genna e Maddy.
— E Harry? — Simon é quem pergunta.
— Achei que ele poderia ficar com vocês dois, já que é só uma noite
— sugiro.
— Por mim, tudo bem. — Simon concorda e olha para Bennett.
— Por mim também. — Assente, levando o cigarro à boca.
— Certo. Vou lá fazer os pedidos — Liam se adianta e segue em
direção ao balcão da recepção.
Estamos esperando-o voltar quando sinto mãos pequenas e macias
cobrirem os meus olhos.
— Adivinhe quem é — pede e começo a rir.