Comparativo entre os calibre .38 Special e .
357 Magnum
Dois calibres semelhantes, mas ao mesmo tempo muito diferentes.
O calibre .38 Special é muito conhecido no Brasil. Popularmente conhecido como “38”,
até os anos 1990 equipou as polícias de todos os Estados do país, e ainda hoje é a escolha de
muitos brasileiros que decidem comprar uma arma de fogo legalmente. Devido à sua
popularidade, também é o calibre mais apreendido pelas polícias brasileiras e
consequentemente o de maior demanda para os exames periciais.
Por outro lado, temos o calibre .357 Magnum, o qual carrega a fama de ser o primeiro
calibre a utilizar a expressão “magnum”. Ainda utilizado como arma de backup por alguns
policiais do Brasil e do mundo, costuma ser mais encontrado em acervos de colecionadores,
atiradores e caçadores. Desta forma, armas e munições deste calibre chegam com menor
frequência para a perícia.
Num primeiro momento as munições desses dois calibres guardam muita semelhança
visualmente. Entretanto, cada um possui características distintas e desempenho balístico
bastante diferente.
Um estojo .38 Special e um estojo .357 Magnum possuem as mesmas dimensões, exceto
o comprimento do estojo. Enquanto o .38 Special possui (29,34 ± 0,51) mm de comprimento do
estojo, o .357 Magnum possui (32,77 ± 0,51) mm1. Esta diferença de aproximadamente 3
milímetros, ao contrário do que muitos pensam, não foi desenvolvida para “caber mais pólvora”
no estojo, e sim para evitar que uma munição .357 Magnum seja utilizada acidentalmente em
uma arma de calibre .38 Special. Isto porque a pressão gerada pelo .357 Magnum é muito maior
do que a pressão para a qual uma arma .38 Special foi projetada para suportar.
Além de compartilharem o mesmo diâmetro da boca do estojo, ambos os calibres
utilizam projéteis com o mesmo diâmetro. Inclusive comercialmente, a CBC (Companhia
Brasileira de Cartuchos) disponibiliza opções de munição nestes dois calibres com o mesmo
projétil 2 (mesma geometria e mesma massa). Desta forma, no exame pericial de caracterização
do projétil, a distinção entre estes calibres via de regra não é possível, devendo o Perito
caracterizá-lo como pertencente à família .38 Special / .357 Magnum.
Para compararmos a energia entre os calibres, vamos escolher duas munições
fabricadas pela CBC, bem como os dados referentes a cada uma, disponibilizados no site da
empresa2 (Tabela 1).
1
SAAMI Z299.3 – 2015 – Voluntary Industry Performance Standards for Pressure and Velocity
of Centerfire Pistol and Revolver Ammunition for the Use of Commercial Manufacturers
2 Companhia Brasileira de Cartuchos – [Link]
Tabela 1 – Comparativo de munições CBC
Calibre .38 Special .357 Magnum
Tipo de projétil EXPO EXPO
Massa no projétil (grains) 158 158
Velocidade (m/s) 246 376
na boca do cano
Energia (Joules) 310 724
na boca do cano
Como podemos verificar, para o mesmo tipo de projétil, a energia na boca do cano no
calibre .357 Magnum é quase 2,5 vezes maior do que no calibre .38 Special. Devido a essa grande
diferença de energia, o uso de munições .357 Magnum em armas de calibre .38 Special pode
apresentar resultados catastróficos. Já o contrário, utilizar munição .38 Special de menor energia
em uma arma de fogo de calibre .357 Magnum projetada para suportar energias maiores, é
seguro.
Neste momento você, leitor, deve estar se perguntando como é possível utilizar
munição .357 Magnum em uma arma de fogo .38 Special, se o estojo da munição possui
comprimento maior exatamente para impedir a utilização em armamento deste calibre. Isto
pode acontecer em três casos.
1. Alguns revólveres antigos calibre .38 Special, produzidos antes da popularização do
.357 Magnum, não apresentavam limitador na câmara;
2. Alguns revólveres produzidos fora do Brasil possuem calibre nominal .38 Special,
porém são projetados para suportar altas energias, aceitando inclusive o uso de
munições .357 Magnum;
3. A arma de fogo de calibre nominal .38 Special teve o limitador da câmara removido
através de usinagem.
Nas situações 1 e 3 não se deve utilizar munição .357 Magnum, pois a arma não foi
projetada para trabalhar com a pressão elevada gerada por esse calibre. Na situação 2 o uso
deste tipo de munição é seguro.
Porém, apesar de ser seguro, o uso de munição .38 Special em armas .357 Magnum
estraga a arma? A resposta é: depende!
O uso esporádico de munição .38 Special seguido da manutenção adequada em nada
vai prejudicar uma arma .357 Magnum. No entanto, o uso frequente da munição .38 Special
(mais curta), somado à falta de manutenção do armamento, pode resultar na erosão da região
entre o final do estojo e o limitador câmara, resultando na dificuldade de extração do estojo
.357 Magnum ou em casos mais severos, até mesmo na impossibilidade da inserção de munição
.357 Magnum na câmara erodida.
Estas são apenas algumas características desses dois calibres tão populares no Brasil.
Dominar o conhecimento das suas semelhanças e diferenças, bem como ente nder o
comportamento balístico, são primordiais para subsidiar o Perito durante a realização dos
exames, seja no Setor de Balística, na interpretação dos vestígios no Local de Crime, ou mesmo
na análise das lesões da vítima.
Tiago de Camargo Barros Luchetta
Perito Criminal / Balística e Local de Crime
3º NMRP de Blumenau
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