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Resistência Camponesa na Ditadura Brasileira

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Ocupação de terra e resistência em tempos de ditadura: o caso da Fazenda São José da Boa Morte,

no Estado do Rio de Janeiro, Brasil.

Ricardo José Braga Amaral de Brito


[Link]@[Link]
CPDA/UFRRJ
Brasil

1
RESUMEN
O presente trabalho tem como intuito oferecer espaço para a reflexão sobre a memória dos atos de
repressão praticados tanto pelo Estado quanto por grandes fazendeiros e seus mandatários e sofrido
pelos trabalhadores do campo, reatualizando, assim, o passado de lutas que se perpetua no presente.
O mapeamento da violência política no campo contra a luta pela reforma agrária, pela terra e pelos
direitos dos trabalhadores revela ainda as formas que estes assumiram para resistir e conquistar na
lei e na prática os seus direitos. Observar estas práticas tem como intuito reativar a percepção da
vontade e potência do trabalhador rural que entrou em confronto direto com agentes públicos e
privados. O caso escolhido para análise neste trabalho é o da Fazenda São José da Boa Morte,
localizada no município de Cachoeiras de Macacu, no Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Este caso
oferece um exemplo do retorno e permanência de atores que tornam a se organizar em torno de uma
mesma questão: o fim dos despejos e a conquista efetiva da terra. No período anterior à Ditadura
Empresarial-Militar estabelecida em 1964, os camponeses desta fazenda se organizaram em duas
ocupações distintas no tempo e na configuração: a primeira em 1961 e a segunda em 1963. Em
1964 eles conquistam a desapropriação da terra, mas apenas por poucos meses, pois logo seria
deflagrado o golpe. Com a Ditadura a Associação de Lavradores local é fechada, militantes e
camponeses são presos e em alguns anos a fazenda retorna para seus antigos proprietários. Contudo,
mesmo após 15 anos com intensa repressão física e política, os mesmos moradores e trabalhadores
da fazenda se organizam em uma nova ocupação em 1979 e conquistam pela segunda vez a
desapropriação, realizando, assim, o sonho de conquistar a "terra livre", tal como desejado e escrito
na bandeira hasteada na porteira da fazenda durante a ocupação de 1963. Este trabalho pretende,
portanto, a partir do caso apresentado refletir sobre as formas de organização e de resistência
cotidiana encontradas pelos camponeses em períodos ditatoriais.

2
ABSTRACT
The purpose of this work is to provide a space for reflection on the memory of the acts of repression
practiced by the State as well as by landowners and their agents and suffered by the rural workers,
thus reanalyzing the past of struggles perpetuated in the present. Mapping the political violence in
the rural areas against the struggle for agrarian reform, land and workers' rights also reveals the
ways in which they have taken to resist and conquer their rights in law and in practice. Observing
these practices aims to reactivate the perception of the will and power of the rural workers who
came into direct confrontation with public and private agents. The case chosen for analysis in this
work is the Fazenda São José da Boa Morte, located in the municipality of Cachoeiras de Macacu,
in the State of Rio de Janeiro, Brazil. This case offers an example of the return and permanence of
actors who organize themselves around the same issue: the end of evictions and the effective
conquest of the land. In the period prior to the Business-Military Dictatorship established in 1964,
the peasants of this farm organized themselves into two distinct occupations in time and
configuration: the first in 1961 and the second in 1963. In 1964 they won the land expropriation, but
only for few months, because soon the coup d’Etat would be triggered. With the Dictatorship the
Local Farmers Association was closed, militants and peasants were arrested and in some years the
farm would return to its former owners. However, even after 15 years of intense physical and
political repression, the same villagers and farm workers organized themselves in a new occupation
in 1979 and for the second time conquered the expropriation, thus realizing the dream of conquering
the "free land" as desired and written on the flag hoisted on the farm gate during the occupation of
1963. This work therefore intends from the case presented reflect on the forms of organization and
daily resistance encountered by peasants in dictatorial periods.

3
Palabras clave
Ditadura Militar, Campesinato, Resistência cotidiana

Keywords
Military Dictatorship, Peasants, Daily resistance.

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I. Introducción
O presente trabalho é um resumo da dissertação de mestrado, ainda em andamento, e tem
como intuito oferecer espaço para a reflexão sobre a memória dos atos de repressão praticados tanto
pelo Estado quanto por grandes fazendeiros e seus mandatários e sofrido pelos trabalhadores do
campo, de modo a tornar presente o passado de lutas que se perpetua. O mapeamento da violência
política no campo contra a luta pela reforma agrária, pela terra e pelos direitos dos trabalhadores
revela ainda as formas que estes assumiram para resistir e conquistar na lei e na prática os seus di-
reitos.
O caso escolhido para análise neste trabalho é o da Fazenda São José da Boa Morte, locali-
zada no município de Cachoeiras de Macacu, no Estado do Rio de Janeiro, Brasil. O caso abarca os
anos de 1958 a 1980, e oferece um exemplo do retorno e permanência de atores que tornam a se
organizar em torno de uma mesma questão: o fim dos despejos e a conquista efetiva da terra. A
questão fundiária no Brasil é central para a compreensão das lutas sociais, da desigualdade, da vio-
lência e do ressentimento das classes dominantes frente aos projetos de democratização das classes
populares. Deste modo, analisar com profundidade este caso oferece uma compreensão sobre as
relações sociais presentes no momento do Golpe Empresarial-Militar e a resistência empreendida de
forma cotidiana e teimosa dos trabalhadores rurais que mantiveram as suas lutas.

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II. Marco teórico/marco conceptual
Como um dos objetivos deste trabalho pretende-se questionar o silêncio acadêmico sobre os
movimentos de luta pela terra na reflexão sobre o regime militar brasileiro. Apesar de inúmeras
análises sobre o Golpe Empresarial-Militar elencarem como fundamental o debate sobre a reforma
agraria e a pressão dos movimentos de luta pela terra no cenário público e no imaginário daqueles
que efetivamente tomariam o poder pelas vias da violência, após o golpe e a violenta intervenção,
tortura e assassinato de lideranças, trabalhadores e organizações se estabelece, na bibliografia mais
geral sobre o regime militar, um abismo no qual pareceria impossível qualquer organização política
até o final dos anos 1970, quando novos movimentos sociais retornam à cena pública brasileira.
Através da reflexão teórica e da análise dos documentos e entrevistas coletados durante o
período de mestrado e de participação da pesquisa Conflitos e Repressão no Campo no Estado do
Rio de Janeiro (1946-1988), coordenada por Leonilde Medeiros (2015; ver TELÓ e BRAGA, 2015),
é possível questionar esta compreensão e observar a presença de uma resistência cotidiana, capaz de
manter o enquadramento coletivo construído durante o período pré-ditatorial e que alocava os
despejos e as violências sofridas como não naturais e como propagadas a partir de um ator
específico: o grileiro, categoria social que questiona a legitimidade deste pretenso proprietário de
terra. Compreendemos, a partir dos trabalhos de David Snow (2004) e Snow e Benford (1992), que
o processo de formação de uma identidade social depende da habilidade deste grupo de definir
problemas, condições e inquietações existentes como “injustas”, modificando ou eliminando as
concepções que naturalizem as condições de miséria. Deste modo, o movimento social camponês
em Cachoeiras de Macacu e no Estado do Rio de Janeiro foi capaz de construir um novo collective
action frame, enquadramento de ação coletiva, e estabelecer no “posseiro”, categoria social e
política, o ator capaz de transformar, pela ação coletiva, sua própria situação de despossuído.
Analisar este conflito em sua perspectiva histórica nos oferece elementos para
compreender as motivações da resistência dos trabalhadores e trabalhadoras rurais que optaram por
continuar na fazenda, enfrentando os despejos, a violência e a repressão política. Compreendemos,
portanto, que mesmo após o silenciamento das experiências de participação política do campesinato

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no período após o golpe, realizado a partir de prisões, perseguições, torturas e uma política
sistemática de difusão do medo e da desmobilização, mesmo nestas condições os trabalhadores
rurais foram capazes de, anos antes da redemocratização de 1985, retomar a sua insurgência ao
ocupar as terras que reivindicavam públicas, griladas e improdutivas. O culminar desta nova
ocupação só poderia se dar com um longo processo de resistência teimosa e de construção de um
quadro interpretativo que alocasse a terra como de direito dos lavradores.
Entender a resistência teimosa e cotidiana (PALMEIRA, 1985; THOMPSON, 1998; SCOTT,
2002) do período analisado permite compor uma experiência de luta e organização vividas em um
momento marcado pela repressão política, pela violência e pelo despejo. Segundo Palmeira (1985;
2009), as áreas em que houvera intensa mobilização sindical e camponesa no período anterior ao
golpe experimentariam um processo de “internalização da luta de classes” no período ditatorial.
Para este autor, a resistência cotidiana esteve presente nas relações de trabalho e na sociabilidade
com os donos da terra e com o patronato, devido ao contexto autoritário e contrário às
manifestações públicas de descontentamento. A lenta organização de uma “resistência teimosa”
(THOMPSON, 1998, p. 13) contra os despejos, abusos, prisões e violências sofridas por aqueles
que decidiram continuar nas terras que eram alvos de conflito nos permite compreender a ação
organizada de ocupação da terra e sua efetiva desapropriação.

7
III. Metodología
A reflexão contida neste trabalho é fruto de uma ampla análise empírica em uma diversidade
de documentos. Uma parte significativa desta documentação foi previamente analisada em Teló e
Braga (2015). Deste modo, documentos sindicais da Federação dos Trabalhadores da Agricultura do
Rio de Janeiro (Fetag/RJ), da Confederação dos Trabalhadores da Agricultura (Contag) e do
Sindicato de Trabalhadores Rurais (STR) de Cachoeiras de Macacu e do de Itaboraí que faziam
referência aos conflitos existentes dentro do município de Cachoeiras de Macacu foram analisados a
partir do acervo do Núcleo de Pesquisa, Documentação e Referência sobre Movimentos Sociais e
Políticas Públicas no Campo (NMSPP) do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em
Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
(CPDA/UFRRJ). Neste mesmo acervo também pudemos pesquisar a documentação da Comissão
Pastoral da Terra (CPT), organização com importante participação no conflito analisado e com
intenso trabalho no mapeamento de conflitos agrários em todo o Brasil.
Documentos oficiais produzidos pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão que
centralizava a produção de informações do regime militar. Atualmente estes arquivos também se
encontram no NMSPP. Ainda no que diz respeito ao acervo do NMSPP analisamos entrevistas
produzidas por outros pesquisadores e em outros contextos de pesquisa, mas que, por conta do
período histórico e/ou do perfil do entrevistado trouxeram informações importantes para o nosso
objeto.
As fontes oficiais do Estado também foram coletadas a partir da pesquisa no Fundo de
Polícias Políticas do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj), onde puderam ser
coletados e analisados prontuários, ofícios e relatórios produzidos pelo Departamento de Ordem
Política e Social (DOPS). A partir do banco de dados do Projeto Brasil: Nunca Mais pudemos
analisar o Inquérito Policial Militar (IPM) de nº 7.477, instaurado logo após o golpe de 1º de abril
de 1964 e que se prestava a analisar a ocupação de fins de 1963, ocupação esta que já havia
resultado na desapropriação da fazenda São José da Boa Morte. Este IPM oferece, ainda, um rico
material para compreender a atuação dos órgãos de segurança no período anterior ao golpe e

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também no imediato pós-golpe, além de trazer consigo um conjunto de depoimentos que esclarecem
alguns dos motivos e desdobramentos do conflito.
A documentação oficial e a documentação produzida pelas entidades representativas dos
trabalhadores rurais serão tensionadas e sobrepostas de modo a se constituir um relato do conflito e
do período, sem deixar de levar em consideração que cada uma destas documentações é produzida
conforme a perspectiva de suas instituições e com diferentes fins. A fim de complementar e reforçar
a multiplicidade de perspectivas a serem analisadas de modo a compor um relato fiel do conflito
também foram analisadas notícias de jornal veiculadas nas décadas de 1960 e 1980. Estas notícias
têm a sua relevância por retratarem as ocupações no momento em que elas aconteciam, trazendo
consigo outras visões a serem postas em análise, bem como relatos e entrevistas com os atores das
diferentes ocupações. As notícias de jornal foram analisadas no acervo online da Hemeroteca
Digital da Biblioteca Nacional. A partir dos mecanismos de busca e das palavras-chave buscadas
foram coletadas notícias dos seguintes jornais: A Noite, O Globo, Jornal do Brasil, Última Hora, O
Fluminense, Diário Carioca, Folha de São Paulo e Correio da Manhã.
Além da pesquisa documental também foi analisada a bibliografia produzida sobre
Cachoeiras de Macacu e os conflitos agrários no Rio de Janeiro (GRYNSZPAN, 1987; O’DWYER,
1988; SILVA, 1994; CARDOSO, 2009; ROSA Jr., 2009, 2014; COSTA, 2015; TELÓ e BRAGA,
2015; MEDEIROS, 2015). Devido à proposta deste artigo e do espaço de publicação, essa discussão
bibliográfica não será retomada. A fim de complementar o histórico de conflitos ocorridos em
Cachoeiras de Macacu, envolvendo a Fazenda São José da Boa Morte e suas áreas limítrofes, tais
como o Núcleo Colonial de Papucaia, foram feitas entrevistas com trabalhadores e trabalhadoras
rurais que tenham se relacionado de alguma forma com o conflito.
Compreender de forma efetiva e ampla a complexidade da resistência teimosa torna
necessária a busca por relatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais que não ocupavam postos de
liderança nas entidades envolvidas nas ocupações e na luta pela terra. Esta opção busca dar
conhecimento a uma experiência singular durante o período ditatorial, de forma a observar os meios
pelos quais se deu a resistência, as relações envolvidas e as construções de problemas públicos.
Entrevistar moradores e assentados de São José da Boa Morte e seus entornos que tenham tido

9
alguma forma de relação com o conflito parte do entendimento de que as ocupações e
desapropriações que ocorreram no caso analisado não foram possíveis sem um processo longo de
construção da organização. As entrevistas qualitativas e semi-estruturadas podem dar indicações das
“formas cotidianas da resistência camponesa” (SCOTT, 2002), tais como as lutas por respeito, por
condições de trabalho, moradia e terra, deslocando a análise das rebeliões e ocupações para o
cotidiano das relações sociais no campo, buscando entender como estas questões são socializadas e
tornadas comuns.
A partir destas memórias tensionadas, construídas no incessante trabalho de reinterpretação
do passado buscaremos alcançar a vivência e o significado social dos conflitos por terra. Deste
modo, atingir a experiência dos trabalhadores e trabalhadoras rurais nos permite analisar as rupturas,
tensões e contradições presentes e equacionadas pela memória individual, capazes de nos oferecer
uma compreensão do período histórico analisado, capaz de alterar de forma profunda as relações
sociais e os grupos sociais constituídos no período anterior ao golpe de Estado de 1964 (POLLAK,
1989; BOURDIEU, 2008).

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IV. Análisis y discusión de datos
Antes de adentrarmos no período de repressão institucional à organização popular no Bra-
sil, é preciso remontar o histórico destes trabalhadores e trabalhadoras rurais que optaram por lutar
por uma “terra livre”. A expressão esteve presente nas duas ocupações realizadas em 1961 e em
1963 (Figura 1). No tratamento da organização social presente em ambas as ocupações é preciso
delimitar suas diferenças. Em 1961 a ocupação seria realizada sem uma organização partidária ou
local muito definida (GRYNZSPAN, 1987; SILVA, 1994). O peso que se abateu sobre esta repres-
são a envolve de mistérios, porém, a sua narrativa se dá a partir da presença de Mariano Beser, um
imigrante espanhol que, influenciado pelas lutas das Ligas Camponesas, pela experiência histórica
da revolução cubana e a aparente atuação inexpressiva do Partido Comunista na região, consegue
organizar os lavradores para uma ocupação na fazenda.

Figura 1. Fonte: ERNANDEZ, 2010, p. 141.

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O personalismo desta narrativa precisa ser questionado, a fim de que não se caia na redu-
ção dos lavradores a meros objetos nas mãos de intelectuais e políticos social e moralmente superio-
res, visão esta adotada pelos militares e grandes proprietários de terra. Esta opinião esteve expressa
no Inquérito Policial Militar (IPM) do Processo nº 7.477/69 aberto para averiguar a atuação de polí-
ticos, ferroviários e camponeses de Cachoeiras de Macacu e responsável pela prisão das lideranças
mais expressivas, em especial o então prefeito pelo Partido Trabalhista do Brasil, Ubirajara Muniz.
As fontes nos indicam que entre 1954 e 1958 já haveria alguma forma de organização polí-
tica dos trabalhadores do município de Cachoeiras de Macacu, movimento este que segue a atuação
do Partido Comunista no Estado do Rio de Janeiro através das Associações de Lavradores (COSTA,
2015; MEDEIROS, 2015). Este movimento, ainda que incipiente e pouco participativo nos anos
1950 já denunciava a atuação dos grileiros, sabendo articular em um movimento social as necessi-
dades materiais e as reivindicações por justiça, reconhecimento de direitos e contra um tratamento
excessivamente violento e desumanizador. Um lavrador, em uma reportagem de 1963, revelaria
bem a dimensão desta luta simbólica: “[éramos continuamente] jogados por aí como cachorros bi-
chentos” (“Estado do Rio em três dimensões”. O Cruzeiro, 18/08/1963, p. 109. Reportagem de Os-
valdo Peralva. Fotos de Hélio Passos). Um lavrador, em entrevista concedida em 2015, questionava
a quantidade de terras moralmente aceitáveis para um proprietário: “Eles já têm muita terra em Goi-
ás, por que ter mais aqui?”.
Este movimento camponês também atuava de modo a reivindicar as terras públicas indevi-
damente apropriadas por pretensos proprietários de terra. Esta reivindicação é sintomática: os cam-
poneses constituíram, no Estado do Rio de Janeiro e ao longo de todo o Brasil, uma identidade polí-
tica a partir da noção de “posseiro”, oposta à categoria, também política, de “grileiro”
(GRYNSZPAN, 1987). A carga negativa desta categoria já indica a força deste movimento que
soube cozinhar as diferentes raivas individuais, para usar as palavras de James Scott (1990), trans-
formando o despejo, considerado o principal problema vivido pelos lavradores do Rio de Janeiro
(GRYNZSPAN, 1987) em questão coletiva e os camponeses em atores políticos capazes de, através
da ação coletiva, conquistar a liberdade das terras.

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Se na ocupação de 1961 esta organização não aparece de forma clara, a realização de um
“paredón” simbólico (Figura 2) que sentenciou ao fuzilamento quatro grileiros e um oficial de justi-
ça, indica que a presença, bem capilarizada, de um enquadramento coletivo capaz de questionar
publicamente os proprietários de terra e reivindicar aquela terra que, como se evidenciaria, era de
fato pública. A sentença ao fuzilamento foi apenas simbólica e logo em seguida os grileiros seriam
postos em liberdade, contudo a presença desta forma de ação, inspirada na Revolução Cubana, in-
tensificaria a repressão policial em cima dos lavradores.

Figura 2. Fotos da ocupação de São José da Boa Morte em 1961. Nas fotos é possível observar os momentos
de sentenciamento dos grileiros ao fuzilamento. As imagens nos foram cedidas pelo pesquisador Alberto
Santos.

A repressão que se abateu sobre estes trabalhadores não os impediu de em 1963 (Figura 3)
retomar a ocupação do mesmo local: uma faixa de terra que se dizia pública e pertencente ao Nú-
cleo Colonial de Papucaia, mas que estavam sendo griladas por dois arquitetos, políticos e empresá-

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rios donos da fazenda São José da Boa Morte, os irmãos Abelardo e Jerônimo Coimbra Bueno.
Uma nova configuração política conquistaria a terra: a presença da Associação de Lavradores, mais
organizada e aliada ao prefeito, conseguiu a libertação daquelas terras dos grileiros. A proximidade
das localidades de conflito aponta para a confusão de terras e o desconhecimento que o Estado bra-
sileiro tinha de suas próprias terras públicas, de modo que a grilagem era ato recorrente em todo o
Estado (Mapa 1). Cachoeiras de Macacu teve, ainda, o agravante de, na década de 1930, ter sofrido
diversas intervenções públicas em obras de saneamento, assoreamento e retificação de rios, criando
na localidade um intenso aumento do capital especulativo e financeiro dentro da questão agrária do
município, fato este acompanhado em todas as localidades próximas aos Núcleos Coloniais do Es-
tado do Rio de Janeiro (GRYNSZPAN, 1987; MEDEIROS, 2015; TELÓ e BRAGA, 2015).

Figura 3. Fonte: "Igreja em ruínas é trincheira para a rebelião de camponeses". Última Hora. 11.12.1963, p.
12.

14
Mapa 1. Núcleo Colonial de Papucaia e Fazenda São José da Boa Morte. A proximidade dos terrenos
facilitou a grilagem e elevou a especulação fundiária. Fonte: TELÓ e BRAGA, 2015, p. 107.

Em 1964 a desapropriação seria alcançada, mas apenas por poucos meses, pois logo seria
deflagrado o golpe. Com a Ditadura Empresarial-Militar a Associação de Lavradores local é fecha-
da, militantes e camponeses são presos e torturados. De 1965 a 1974 as áreas desapropriadas seriam
devolvidas aos seus antigos proprietários, cada vez mais interessados em realizar obras de lotea-
mento para fins de turismo rural na região. Ao mesmo tempo o Estado manteve uma forte atuação
na região, evitando a organização popular através de medidas repressivas e assistencialistas.
O fortalecimento da organização política dos despossuídos seria o principal alvo do golpe de
1964. Para Arantes (2010, p. 218), a ditadura militar se empenhou em “extinguir ‘o poder formativo
da política enquanto dimensão primordial do encaminhamento das expectativas humanas’” por

15
“mais de três décadas de contrarrevolução”. As análises de Oliveira (2003), Lemos (2014) e Melo
(2014a e 2014b) nos permitem compreender o golpe como uma ação de classe a partir de sua
atuação política e ideológica de extinção da política enquanto dimensão de mudança produzida
pelas expectativas e necessidades coletivas. A compreensão de que o regime instalado em 1º de abril
de 1964 foi uma contrarrevolução não pretende sugerir que havia de fato uma revolução comunista
em curso no Brasil, mas sim que o que o golpe de Estado se realizou a fim de impedir a emergência
e mesmo a formulação de projetos populares de sociedade, divergentes do desejado pela ditadura e
pelas parcelas civis que a ela se associaram e a financiaram.
Dreifuss (1981, p. 417) propôs conceitualizar o golpe e a ditadura a partir da noção de
“ditadura civil-militar”, onde “civil” teria um sentido classista, e não de homogeneização da
sociedade na adesão ao golpe. Este autor também afirmou que seria correto utilizar o termo ditadura
empresarial-militar ou ainda tecno-empresarial-militar, especificando a classe social envolvida na
concepção, realização e continuação do golpe e do regime que se estabeleceu. Esta explicação visa
se afastar da mistificação com que o termo “civil” é utilizado em alguns casos e valorizar a
participação ativa – e não reativa – do empresariado brasileiro no acirramento político pré-1964, no
golpe e na formulação de políticas públicas.
Segundo Medeiros (2014), o imediato pós-golpe foi de repressão aos trabalhadores do
campo e suas organizações, iniciando uma nova experiência política de medo e violência. “Onde
havia mobilização, a resposta era mais repressão, fosse ela oficial, pelo Dops, fosse pela tolerância à
ação violenta dos proprietários de terra, por meio de seus jagunços” (MEDEIROS, 2014, p. 202).
Contudo, esta violência não diminuiu o número de conflitos que, em muitos casos, indicavam
resistências dos trabalhadores não ao golpe, mas à ação dos proprietários e grileiros. Esta resistência
se intensificou com o crescimento da expropriação e da exploração, impulsionadas por projetos de
modernização do campo e também pela expansão da colonização e atividade de empresas no campo
brasileiro, sob o pretexto de levar o desenvolvimento às áreas rurais (MARTINS, 1981).
Para Moacir Palmeira (1985; 2009), estes momentos de resistência cotidiana precisam ser
resgatados de modo a recuperar as experiências dos momentos de desmobilização que, pelo fato de
perdurarem, são indicativos de experiências de classe. Esta experiência passou da revolta

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organizada dentro dos partidos, sindicatos e movimentos sociais para uma “interiorização da luta
(política) de classes que teria perdido sua feição mais explicitamente política para inscrever-se no
interior mesmo do processo produtivo, a produção cotidiana” (PALMEIRA, 2009, p. 198). Neste
contexto de ditadura, o simples questionamento da autoridade do proprietário ou pelo cumprimento
da legislação invocava o questionamento da dominação tradicional.
Apesar da repressão e da política de medo, como afirma Leonilde Medeiros (2014): a resis-
tência se perpetuou de modo fragmentado. Uma resistência teimosa, como analisa Edward Thomp-
son (1998) em um contexto distinto, fez com que aqueles trabalhadores e trabalhadoras rurais se
mantivessem na terra, reivindicando como podiam seu direito àquelas terras em que viviam. Terra
esta que não é mercadoria, mas local em que as relações materiais, simbólicas, afetivas, religiosas,
culturais e familiares tomam forma. A luta pela terra se manteve de forma diluída nas relações pes-
soais e sociais, na teimosia dos lavradores que construíam suas casas de madrugada, a fim de não
serem descobertos pelo Estado, que se reuniam no meio das matas com o sindicato e com os padres
da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que questionavam os abusos dos empregadores, que questio-
navam a ausência de terra ou a entrega de terras alagadiças e ruins para o plantio.
Após 15 anos com intensa repressão física e política os mesmos moradores e trabalhadores
da fazenda se organizam em uma nova ocupação em 1979. Em 1980 88 lavradores, o padre da CPT
local e, como gostam de afirmar os trabalhadores, um cachorro seriam presos pela polícia por conta
desta ocupação (Figura 4). Sua luta, neste momento, evidencia as novas relações políticas estabele-
cidas e a nova configuração social do país durante a lenta reabertura democrática. Diversos sindica-
tos, políticos, associações, setores da Igreja Católica, artistas e intelectuais somariam suas forças,
em comícios, passeatas, shows e reuniões a estes camponeses que sintetizavam uma luta pela demo-
cratização do acesso a terra, pelo questionamento da violência, da arbitrariedade do Estado e pelo
favorecimento dos empresários e grandes proprietários de terra (Figura 5). Estes camponeses con-
seguiram conquistar pela segunda vez a desapropriação, realizando, assim, o sonho de libertar aque-
la terra, tal como desejado e escrito na bandeira hasteada na porteira da fazenda durante a ocupação
de 1963.

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Figura 4. Fotografia dos lavradores presos em 1980. Fonte: Arquivo da Comissão Pastoral da Terra, RJ-
0293-0034-00099.

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Figura 5. Cartaz chamando para concentração de trabalhadores em prol da luta pela terra e da desapropriação
da São José da Boa Morte. Fonte: Arquivo da Comissão Pastoral da Terra, RJ-0293-0034-00110.

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V. Conclusiones
Os momentos espetaculares das lutas de classes, momentos que aparecem nos noticiários
de jornal, são precedidos por movimentos subterrâneos de organização e consolidação de um
quadro interpretativo crítico às situações sociais vividas a partir da experiência de violência e
desintegração de seus laços sociais e expectativas. Observar a resistência cotidiana e teimosa nos
possibilita compreender o período de 1964 a 1979 como um período de reformulação do processo
de sociabilidade, capaz de realizar a troca de experiências, de indignações, de elaborações de
“raivas cruas” em “indignações cozidas” (SCOTT, 1990, p. 119), trabalhadas em frames (SNOW,
2004). A composição desta sociabilidade nos permite entender o retorno à arena pública dos que
continuaram na fazenda São José da Boa Morte, tornando mais complexa a história destes
indivíduos marcados pelos conflitos não resolvidos, pelas lembranças de exploração e repressão e
pelos desejos.
Esta resistência, conforme analisou Thompson (1998), constitui-se contra a entrada
paulatina do projeto social que valoriza a racionalização moderna e capitalista do uso da terra,
vivido pelos trabalhadores e trabalhadoras rurais como expropriação da terra e desestruturação de
suas relações sociais. Neste ponto é fundamental a atuação do movimento social, capaz de dar corpo
e significado à esta resistência aparentemente individual. O trabalho de enquadramento coletivo
protagonizado pelos movimentos sociais envolve, também, o sentimento de reconhecimento. As
experiências de desrespeito e privação de direitos fundamentais levam ao sentimento de “vergonha
social”, que “só o protesto ativo e a resistência poderiam libertar” (HONNETH, 2009, p. 198).
Deste modo, uma das tarefas fundamentais dos movimentos sociais é tornar público o desrespeito,
de modo que os movimentos sociais se voltam para o conflito simbólico alimentado pelos diferentes
afetos e sentimentos vividos, ampliando os enquadramentos coletivos de modo a que eles incluam o
reconhecimento dos dominados.
Uma compreensão sobre a história da luta pela terra deve se voltar para estes momentos de
resistência teimosa, de análise das necessidades materiais e dos afetos, tais como os sentimentos de
humilhação, injustiça e desumanização.

20
VI. Bibliografía
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