Domênico de Masi -
Sociólogo
Com relação ao primeiro item, a declaração sobre os princípios do tempo livre, vou fazer
uma premissa.
É a décima vez que venho ao Brasil e, a cada vez, tenho surpresas quanto a aspectos de
vanguarda que vocês têm em relação a nós, italianos.
Lembro-me de ter participado, anos atrás, de uma palestra sobre organização urbana em
Porto Alegre. Fiquei muito impressionado. Levei alguns documentos daquela
organização, que foi um encontro de todos os responsáveis pelas grandes cidades do
mundo.
Houve uma série de consultas populares, e chegamos no final, a certos pontos seguros
sobre os quais a cidadania se comprometia a criar o progresso de Porto Alegre e do Rio
Grande do Sul. Depois, fiquei muito surpreso em outra ocasião, em Fortaleza., pela
organização da opinião pública, através do jornal local, O POVO, pelos fascículos que
este jornal distribui cada dia à população, para aumentar a formação, inclusive a
formação executiva da população, e para a organização da economia da região.
Desta vez, estive em Belo Horizonte e agora aqui. Duas coisas me surpreenderam: em
Belo Horizonte, fiquei impressionado com a instituição em que se formam garçons,
artesãos, técnicos e que reúne, no mesmo edifício, desde a escola primária até laboratório
e restaurante.
A outra coisa que me surpreendeu hoje foi a participação na palestra sobre o tempo livre.
Nós, na Europa, por exemplo, não acho que tenha... não sei, mas... não tenho
conhecimento de uma ocasião extraordinária, em que centenas de trabalhadores do
mundo todo...
Hoje, vi sul-americanos, norte-americanos, indianos, europeus de todos os lugares do
mundo, discutindo o futuro do tempo, livre.
Isso é importante, pois significa que aqui as pessoas entenderam que o futuro é feito
sobretudo de tempo sem trabalho. Nossos avós viviam 300 mil horas e trabalhavam 120
mil horas. Nós vivemos 700 mil horas e trabalhamos no máximo 70 mil horas. Enquanto
nossos avós trabalhavam metade da vida, nós trabalhamos um décimo. Mas escola e
família nos preparam para o trabalho. Ninguém nos prepara para o tempo livre. Muito
menos a empresa. Por isso, o executivo de quem falei, que fica 10 ou 12 horas por dia no
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escritório, quando sai, no fim de semana, leva trabalho para casa, pois não sabe fazer
mais nada. Muitas vezes, no verão, na praia, liga para o escritório para ter notícias do
trabalho. É obcecado pelo trabalho. E depois, aos 55 ou 60 anos, ele é mandado embora.
Por prevenção, nesta idade, se é mandado embora e, para ele, não há a morte imediata
como acontecia com o avô. Por 20 ou 30 anos de vida, ele não sabe o que fazer. Essa
distinção entre tempo de estudo quando jovem, tempo de trabalho, quando maduro, e
aposentadoria, quando velho, é uma loucura. A velhice não se calcula em relação ao
nascimento, mas em relação à morte. Somos velhos nos últimos dois anos de vida.
Quando o homem vivia 50 anos, ficava velho aos 48. Mas hoje, quando ele vive 80 anos,
fica velho aos 78 anos. Ou seja, ao se aposentar aos 60 anos, até os 80, há uma vida
fisicamente forte e psiquicamente desequilibrada, perdida. Perdemos inteligência por não
identificarmos talentos e, ao identificá-los, não os formamos como devíamos. E depois os
perdemos porque os usamos 20 ou 30 anos, quando podemos usar até uma criança, desde
que trabalhe bem e pouco, faça seu aprendizado e aprenda. Podemos usar as pessoas para
o resto da vida. Acho que o futuro reserva um tipo de atividade em que será impossível
distinguir estudo e trabalho de tempo livre. É o que estamos fazendo agora.. O que
estamos fazendo? Estudando? Em parte, pois aprendo algo com suas perguntas. Estou
trabalhando? Em parte, posso dizer que sim. Estou em tempo livre? Estou me divertindo?
Sim. As atividades do futuro serão sempre algo em que será difícil distinguir estudo,
trabalho e tempo livre. Não haverá mais a sirene, avisando ao operário que o trabalho
acabou. Por outro lado, o trabalho criativo não tem horário. Um publicitário que encontra
um slogan não é pago somente se isso ocorre no horário de trabalho. É mais provável que
ocorra quando estiver no banho, fazendo amor ou no cinema, do que no escritório.
Nossos escritórios são feitos para bloquear as idéias. Nossos escritórios são gaiolas de
vidro, terríveis, onde não nos sentimos bem. Somos obrigados a conviver com colegas
antipáticos, com chefes muitas vezes mal-educados, comendo em self service carne fria e
coisas péssimas. Ficamos o tempo todo lá. As empresas fazem de tudo a fim de trazer
para dentro o bar, o restaurante, a creche, a fim de evitar a saída dos colaboradores. É
preciso mudar tudo isso. E, sobretudo, educar as pessoas para o tempo livre. Se no século
XX vivemos principalmente de trabalho, no próximo viveremos sobretudo de tempo
livre. E a maioria dos países não está preparada para isso, pois a maioria dos países
desenvolvidos está tão imersa no frenesi do trabalho que já não sabe o que fazer com o
tempo livre. Estamos cada vez mais preparados para o que sabemos fazer cada vez
menos. É trágico. Estamos preparados para o que diminui, o trabalho, e despreparados
para o que aumenta o tempo livre.
Mesmo o tempo livre, a sociedade industrial tenta transformá-lo em indústria. Não
significa que ele não deva ser uma ocasião para ganhos econômicos. O problema é que o
tempo só é livre se estivermos prontos para usá-lo segundo nossa autonomia. Se for
assim, é um luxo. Não são os outros que devem organizá-lo. As grandes estruturas para o
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tempo livre na praia estão se tornando campos de concentração. Tudo já é pré-
determinado. O tempo livre deve ser, sobretudo, o momento do luxo.
Então, pergunto: o que é luxo hoje?
Houve um tempo... Luxo sempre foi o que é raro. Houve o tempo do dinheiro, depois o
dos carros de muitas cilindradas e depois foi a vez dos barcos. Hoje. as coisas raras são,
sobretudo, o tempo, o espaço, o silêncio, a autonomia, a segurança. Estes são os grandes
luxos para o século XXI. Devemos nos preparar.
2 de agosto de 1999.
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