Reflexões sobre Orixás e Identidade Negra
Reflexões sobre Orixás e Identidade Negra
A Oxalá ou Obatalá, meu primeiro Orixá, por me mostrar Lancei este livro há precisamente dez anos, em Berlim, onde
como usar sua serenidade, paz, clareza e sabedoria como vivo ainda hoje. Naquela altura, tive a sorte ou o destino de
orientação na minha vida e trabalho. ganhar uma das bolsas mais honrosas do governo alemão,
para um doutoramento. Isto pouco depois de concluir os meus
A Yemanjá, minha segunda Orixá, por me mostrar como usar
estudos em Lisboa, onde, ao longo de vários anos, em grande
seu amor e sua assertividade como ferramentas criativas.
isolamento, fui a única estudante negra em todo o departa-
A Oxóssi, meu Orixá Odú, por me mostrar como capturar mento de psicologia clínica e psicanálise. Nos hospitais onde
meus sonhos com determinação e crença, como uma caçadora. trabalhei, durante e após os meus estudos, era comum ser
confundida com a senhora da limpeza, e por vezes os pacien-
A Oya, minha Orixá de devoção, por me mostrar como usar
tes recusavam-se a ser vistos por mim ou a entrar na mesma
sua força para lutar pela igualdade e pelo respeito.
sala e ficar a sós comigo. Deixei Lisboa, a cidade onde nasci e
E a minha família: meu pai que, com muito amor, sempre me cresci, com um imenso alívio.
dizia para me tornar uma mulher negra independente e digna. Não havia nada mais urgente para mim do que sair, para
E minha mãe, que me mostrou o que significa ser essa mulher. poder aprender uma nova linguagem. Um novo vocabulário,
A minha avó, Vó, meus irmãos, Zé, Pedro e Gonçalo, e às mi- no qual eu pudesse finalmente encontrar-me. No qual eu pu-
nhas irmãs, Patrícia e Júlia. E, claro, ao pequeno André, ao desse ser eu.
pequeno Keziah e ao pequeno Noah. Cheguei a Berlim, onde a história colonial alemã e a dita-
dura imperial fascista também deixaram marcas inimaginá-
veis. E, no entanto, pareceu-me haver uma pequena diferença:
enquanto eu vinha de um lugar de negação, ou até mesmo de
glorifí_cação da história colonial, estava agora num outro lugar
onde a história provocava culpa, ou até mesmo vergonha. Este
percurso de consciencialização coletiva, que começa com ne-
gação - culpa - vergonha - reconhecimento - reparação, não é de
forma alguma um percurso moral, mas um percurso de res-
ponsabilização. A responsabilidade de criar novas configura-
ções de poder e de conhecimento.
Essa pequena mas grande diferença era com certeza a
razão pela qual fui encontrar em Berlim uma forte corrente
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de intelectuais negras que haviam transformado radicalmente colonial, não permite que novas linguagens sejam criadas.
o pensamento e o vocabulário contemporâneo global, durante Nem permite que seja a responsabilização, e não a moral, a
várias décadas. Esta era a cidade onde Audre Lorde vivera criar novas configurações de poder e de conhecimento. Só
durante os seus últimos anos; onde Angela Davis aparecia em quando se reconfiguram as estruturas de poder é que as mui-
público regularmente; e onde May Ayim escrevera seus livros tas identidades marginalizadas podem também, finalmente,
e poemas, sem esquecer W.E.B. du Bois, que estudou e ensinou reconfigurar a noção de conhecimento: Quem sabe? Quem
em Berlim, nos anos de 1890. E assim comecei o meu douto- pode saber? Saber o quê? E o saber de quem? Para mim, co-
ramento, rodeada de espíritos benévolos e transformadores, mo disse, não havia nada mais urgente do que sair, para
que deixaram uma riqueza linguística e uma marca intelectual poder aprender uma nova linguagem. Um novo vocabulá-
negra, que eu consumia entusiasticamente. rio, no qual eu pudesse finalmente encontrar-me. No qual eu
Escrevi este livro em inglês, dia e noite, enquanto vivia pudesse ser eu. E foi neste livro que encontrei a minha pri-
sozinha em Berlim, absorvida em livros que nunca tinha visto meira e nova linguagem.
ou lido antes, acompanhada por uma série de grupos orga- O livro foi lançado no Festival Internacional de Literatura,
nizados de mulheres negras, feministas e LGBTTQIA+ que re- em Berlim, no final de 2008, e a partir daí começou um itine-
velavam uma politização absolutamente admirável. Parece- rário de vários anos que eu nunca imaginaria: Londres, Oslo,
-me que nunca aprendi tanto em tão pouco tempo. Foi nessa Viena, Amsterdam, Bruxelas, Roma e Estocolmo, passando por
altura que passei a dar aulas em duas universidades simulta- Acra, Lagos, Joanesburgo, São Paulo e Salvador, entre muitas
neamente, na Universidade Humboldt e na Universidade Li- outras cidades. Foram precisos dez anos para chegar a Por-
vre, com os meus primeiros seminários dedicados às obras tugal e ao Brasil (onde é publicado simultaneamente) e à sua
de bell hooks e Frantz Fanon - uma trajetória que me parecia tradução na língua portuguesa. Foi um caminho longo. E, no
impensável, tanto em Lisboa como em São Paulo, Luanda ou entanto, eu sei que não poderia ter chegado antes - nem este
Salvador da Bahia, para uma jovem mulher negra, que sempre nem tantos outros livros-, pois os comuns gloriosos e român-
viveu no anonimato. ticos discursos do passado colonial, com os seus fortes acentos
Plantation Memories é precisamente o meu doutoramen- patriarcais, não o permitiram. Mas chega bem a tempo.
to. Terminei-o com a mais alta (e rara) distinção acadêmica, Este livro é muito pessoal; escrevi-o para entender quem
a summa cum laude. E escrevo isto não necessariamente por eu sou. E sinto-me profundamente feliz, grata, confesso até
vaidade, mas muito mais para lembrar da importância de um extasiada, quando penso nas tantas pessoas que finalmente o
percurso de consciencialização coletiva - pois uma sociedade podem ler, numa língua (e linguagem) na qual se podem tam-
que vive na negação, ou até mesmo na glorificação da história bém entender e encontrar.
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Escrevo esta Introdução, inexistente na versão original sujeito
inglesa, precisamente por causa da língua: por um lado, por-
que me parece obrigatório esclarecer o significado de urna No original inglês, o termo subject não tem gênero. No entan-
série de terminologias que, quando escritas em português, to, a sua tradução corrente em português é reduzida ao gêne-
revelam urna profunda falta de reflexão e teorização da his- ro masculino - o sujeito - , sem permitir variações no gênero
tória e herança coloniais e patriarcais, tão presentes na língua feminino - a sujeita - ou nos vários gêneros LGBTTQIA+ - xs
portuguesa; por outro lado, porque tenho de dizer que esta sujeitxs -, que seriam identificadas como erros ortográficos. É
tradução é maravilhosamente elaborada, pois traduz um livro importante compreender o que significa uma identidade não
inteiro apesar da ausência de termos que noutras línguas, existir na sua própria língua, escrita ou falada, ou ser identi-
corno a inglesa ou alemã, já foram criticamente desmontados ficada como um erro. Isto revela a problemática das relações
ou mesmo reinventados num novo vocabulário, mas que na de poder e violência na língua portuguesa, e a urgência de se
língua portuguesa continuam ancorados a um discurso colo- encontrarem novas terminologias. Por esta razão, opto pores-
nial e patriarcal, tornando-se extremamente problemáticos. crever este termo em itálico: sujeito.
Assim, as notas de rodapé que comecei por escrever para a
versão portuguesa, por revelarem o meu posicionamento
corno autora e por ajudarem à leitura e à reflexão da própria objeto
língua portuguesa, acabaram por ser introduzidas no próprio
texto - e explicadas no glossário que se segue, por ordem cro- Object, assim como subject, é um termo que não tem gênero na
nológica de ocorrência. língua inglesa. No entanto, a sua tradução corrente em portu-
Não posso deixar de escrever um último parágrafo, para guês é também reduzida ao gênero masculino - o objeto-, sem
lembrar que a língua, por mais poética que possa ser, tem permitir variações no gênero feminino - a objecta - ou nos
também uma dimensão política de criar, fixar e perpetuar vários gêneros LGBTTQIA+ - xs objetxs -, expondo, mais urna
relações de poder e de violência, pois cada palavra que usamos vez, a problemática das relações de poder e violência na língua
define o lugar de uma identidade. No fundo, através das suas portuguesa, e a urgência de se encontrarem novas terminolo-
terminologias, a língua informa-nos constantemente de quem gias. Além disso, parece-me importante lembrar que o termo
é normal e de quem é que pode representar a verdadeira condi- object vem do discurso pós-colonial, sendo também usado nos
ção humana. discursos feministas e queer para expor a objetificação dessas
identidades numa relação de poder. Isto é, identidades que são
retiradas da sua subjetividade e reduzidas a uma existência de
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objeto, que é descrito e representado pelo dominante. Reduzir em poder, mas um termo de autodefinição, com uma história de
o termo à sua forma masculina revela uma dupla dimensão de resistência e de luta pela igualdade, afastando-se assim dupla-
poder e violência. Por ambas as razões, opto por escrever este mente da nomenclatura colonial.
termo em itálico: objeto. Este trabalho de desconstrução linguística foi também fei-
to na língua alemã em inúmeras publicações desde os anos 1980,
em que N. é abreviado, a fim de não reproduzir uma lingua-
"Outra/o" gem colonial, e Schwarz (Black, em inglês) é escrito com letra
maiúscula para revelar o seu estatuto de autodefinição. Em
Other é um termo neutro em inglês, ausente de gênero. A sua português, no entanto, deparamos com um imenso dilema
tradução em português permite variar entre dois gêneros - teórico, pois o termo Black é traduzido para negra/o, e embora
a/o outra/o. Embora seja parcialmente satisfatório, pois inclui este seja usado como um termo político na língua portuguesa,
o gênero feminino e põe-no em primeiro lugar, não deixa de está invariavelmente ancorado na terminologia colonial e,
o reduzir à dicotomia feminino/masculino, menina/menino, por isso, intimamente ligado a uma história de violência e
não permitindo estendê-lo a vários gêneros LGBTTQIA+ desumanização.
- xs Outrxs -, expondo, mais uma vez, a problemática das Como poderão ler no Capítulo 9, este termo deriva da
relações de poder e a violência na língua portuguesa. Por palavra latina para a cor preta, niger. Mas, logo após o início da
estas razões, opto por escrever o termo em itálico e entre expansão marítima (na língua portuguesa ainda vulgarmente
aspas: "Outra/o". chamada de "Descobrimentos" - ora, não se descobre um con-
tinente onde vivem milhões de pessoas), a palavra passou a
ser um termo usado nas relações de poder entre a Europa e
negra/o a África e aplicada aos Africanos para definir o seu lugar de
subordinação e inferioridade. Em português, no entanto, essa
Black, em inglês, é um termo que deriva do movimento de cons- diferenciação parece não ter sido feita, pois, embora esteja
ciencialização, para se distanciar radicalmente das terminologias intimamente ligado à história colonial, negra/o tem sido usado
coloniais correntes até os anos 1960, como the Negro ou N-word. como o único termo "correto". Para problematizar esse termo
Comumente, este termo é escrito com um B maiúsculo, Black, de origem colonial, opto por escrevê-lo em itálico e em letra
para sublinhar o fato de que não se trata de uma cor, mas de uma minúscula: negra/o.
identidade política. A letra maiúscula também tem uma segunda
função, a de revelar que este não é um termo atribuído por outros
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p. nomenclatura animal. Quanto a esta, confrontamo-nos com
uma longa lista de termos, frequentemente usados ainda hoje
Por outro lado, em inglês e alemão usam-se as abreviaturas na língua portuguesa, que têm a função de afirmar a inferiori-
N-word e N., respectivamente, a fim de não se reproduzir a dade de uma identidade através da condição animal. São ter-
violência e o trauma que a palavra implica. Esse termo é tra- mos que foram criados durante os projetos europeus de escra-
duzido para a língua portuguesa por p. (preta/o), que é histo- vatura e colonização, intimamente ligados às suas políticas de
ricamente o mais comum e violento termo de insulto dirigido controle da reprodução e proibição do "cruzamento de raças",
a uma pessoa. Tragicamente, na língua portuguesa, o termo p. reduzindo as "novas identidades" a uma nomenclatura ani-
é usado arbitrariamente no dia a dia: ora como insulto direto, mal, isto é, à condição de animal irracional, impuro.
ora como forma indireta de inferiorização e objetificação - as/ Estes termos de nomenclatura animal foram altamente
os p. Mas o termo, mais do que isso, está intimamente ligado à romantizados durante o período de colonização, em particular
história das políticas de insulto e ao racismo diário na língua na língua portuguesa, onde são ainda usados com um certo
portuguesa. Por essas razões, para me afastar dessa termino- orgulho. Esta romantização é uma forma comum da narrativa
logia racista, assim como para não reproduzir a imensa vio- colonial, que transforma as relações de poder e abuso sexual,
lência e o trauma que o termo envolve, opto por escrevê-lo em muitas vezes praticadas contra a mulher negra, em gloriosas
itálico, abreviado e em letra minúscula: p. conquistas sexuais, que resultam num novo corpo exótico,
No texto a utilização das abreviaturas N. e M. em letra e ainda mais desejável. Além disso, esses termos criam uma
maiúscula é deliberada sempre que se trata de citar as mulhe- hierarquização dentro da negritude, que serve à construção
res entrevistadas e de analisar as entrevistas, pois trata-se de da branquitude como a condição humana ideal - acima dos
um trabalho de desmontagem da língua colonial, que ao mes- seres animalizados, impuras formas da humanidade. Os ter-
mo tempo representa resistência. A abreviatura p. é utilizada mos mais comuns são: m. (mestiça/o), palavra que tem sua
quando cito textos de outros autores. origem na reprodução canina, para definir o cruzamento de
duas raças diferentes, que dá origem a uma cadela ou um cão
rafeira/ o, isto é, um animal considerado impuro e inferior; m.
m. (mestiça/o), m. (mulata/o), e. (cabrita/o) (mulata/o), palavra originalmente usada para definir o cruza-
mento entre um cavalo e uma mula, isto é, entre duas espé-
Na língua portuguesa, nos deparamos quase com a ausência de cies animais diferentes, que dá origem a um terceiro animal,
um termo que não esteja nem ancorado à terminologia colo- considerado impuro e inferior; e. (cabrita/o), palavra comu-
nial (negra/o) nem à linguagem racista comum (p.) ou a uma mente usada para definir as pessoas de pele mais clara, quase
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próximas da branquitude, sublinhando porém a sua negritude, mais importante termo, Subaltern, ao gênero masculino na lín-
e definindo-as como animais. gua portuguesa é duplamente problemática. Por isso, opto por
O que é particular a toda essa terminologia é o fato de escrever o termo na sua forma feminina: subalterna.
estar ancorada num histórico colonial de atribuição de uma
identidade à condição animal. Por essas razões, opto por escre-
vê-la em itálico e abreviada: m., m., e.
Parece-me que não há nada mais urgente do que começarmos
a criar uma nova linguagem. Um vocabulário no qual nos pos-
escravizada/o samos todas/xs/os encontrar, na condição humana.
Com um abraço,
Na minha escrita, uso o termo "escravizada/o", e não escra-
va/o, porque "escravizada/o" descreve um processo político GRADA KILOMBA
subalterna
20 21
Para Kiluanji, Kianda e Moses.
Em memória de Nossas e Nossos Ancestrais.
l INTRODUÇÃO
TORNANDO-SE SUJEITO
Jacob Sam-La Rose, Poetry, Sable: the Literature Magazine for Writers,
1.
Winter 2002, p. 60.
1 27
Eu sou quem descreve minha própria história, e não quem é oposto e resistido, "ainda há a necessidade de tornar-se - de
descrita. Escrever, portanto, emerge como um ato político. O fazer-se (de) novo". (hooks, 1990, p. 15) Em outras palavras,
poema ilustra o ato da escrita como um ato de tornar-se2 e, ainda há a necessidade de tornar-mo-nos sujeitos.
enquanto escrevo, eu me torno a narradora e a escritora da Este livro pode ser entendido como uma forma de "tor-
minha própria realidade, a autora e a autoridade na minha nar-me sujeito" porque nesses escritos procuro exprimir a rea-
própria história. Nesse sentido, eu me torno a oposição abso- lidade psicológica do racismo cotidiano como me foi dito por
luta do que o projeto colonial predeterminou. mulheres negras, baseada em nossos relatos subjetivos, auto-
bell hooks usa estes dois conceitos de "sujeito" e "objeto" percepções e narrativas biográficas - na forma de episódios.
argumentando que sujeitos são aqueles que "têm o direito de Aqui, nós estamos falando "em nosso próprio nome" (Hall,
definir suas próprias realidades, estabelecer suas próprias iden- 1990, p. 222) e sobre nossa própria realidade, a partir de nossa
tidades, de nomear suas histórias" (hooks, 1989, p. 42). Como perspectiva que tem, como no último verso do poema, sido
objetos, no entanto, nossa realidade é definida por outros, calada por muito tempo. Esse verso descreve como o processo
nossas identidades são criadas por outros, e nossa "história de escrever é tanto uma questão relativa ao passado quanto
designada somente de maneiras que definem (nossa) relação ao presente, e é por isso que começo este livro lembrando do
com aqueles que são sujeitos." (hooks, 1989, p. 42). Essa pas- passado a fim de entender o presente, e crio um diálogo cons-
sagem de objeto a sujeito é o que marca a escrita como um ato tante entre ambos, já que o racismo cotidiano incorpora uma
político. Além disso, escrever é um ato de descolonização no cronologia que é atemporal.
qual quem escreve se opõe a posições coloniais tornando-se Memórias da Plantação 3 examina a atemporalidade do
a/o escritora/escritor "validada/o" e "legitimada/o e, ao rein- racismo cotidiano. A combinação dessas duas palavras, "plan-
ventar a si mesma/o, nomeia uma realidade que fora nomeada tação" e "memórias", descreve o racismo cotidiano não apenas
erroneamente ou sequer fora nomeada. Este livro representa como a reencenação de um passado colonial, mas também
esse desejo duplo: o de se opor àquele lugar de "Outridade" e como uma realidade traumática, que tem sido negligenciada.
o de inventar a nós mesmos de (modo) novo. Oposição e rein-
venção tornam-se então dois processos complementares, pois
3. N. da T. A Plantation, plantação em português, foi um sistema de
a oposição por si só não basta. Não se pode simplesmente se exploração colonial utilizado entre os séculos XV e XIX, principalmente
opor ao racismo, já que no espaço vazio, após alguém ter se nas colônias europeias nas Américas, que consistia em quatro caracte-
rísticas principais: grandes latifúndios, monocultura, trabalho escravi-
zado e exportação para a metrópole. Esse sistema criava ainda uma
2.O conceito de "tornar-se" tem sido usado pelos Estudos Culturais e estrutura social de dominação centrada na figura do proprietário do la-
Pós-Coloniais para elaborar a relação entre o eu e a/o "Outra/o". tifúndio, o senhor, que controlava tudo e todas/os ao seu redor.
28 29
r
É um choque violento que de repente coloca o sujeito negro em cismo cotidiano de acordo com relatos de duas mulheres da
uma cena colonial na qual, como no cenário de uma plantação, Diáspora Africana: Alicia, uma mulher afro-alemã, e Kathleen,
ele é aprisionado como a/o "Outra/o" subordinado e exótico. urna mulher afro-estadunidense que vive na Alemanha. Am-
De repente, o passado vem a coincidir com o presente, e o pre- bas narram suas experiências de racismo cotidiano a partir de
sente é vivenciado como se o sujeito negro estivesse naquele suas biografias pessoais.
passado agonizante, como o título do livro anuncia. O Capítulo 4, Racismo Genderizado: "(... ) Você Gostaria
O Capítulo 1, A Máscara: Colonialismo, Memória, Trauma de Limpar Nossa Casa?" - Conectando "Raça" e Gênero, é uma
e Descolonização, começa com a descrição de um instrumento abordagem genderizada do racismo. Aqui, examino a interse-
colonial, a máscara, como um símbolo das políticas coloniais e ção entre "raça" e gênero, bem como o fracasso do feminismo
de medidas brancas sádicas para silenciar a voz do sujeito negro ocidental de se aproximar da realidade de mulheres negras no
durante ·a escravização: Por que a boca do sujeito negro deve tocante ao racismo genderizado. Ademais, apresento os obje-
ser amarrada? E o que o sujeito branco teria de ouvir? Esse tivos do feminismo negro.
capítulo aborda não apenas questões relacionadas à memó- Os capítulos seguintes constituem o verdadeiro centro
ria, ao trauma e à fala, mas também à construção da negritude deste trabalho. Aqui, as entrevistas com Alicia e Kathleen são
como "Outra". analisadas em detalhe no forma de episódios e divididas nos
O Capítulo 2, Quem Pode Falar?: Falando no Centro, Desco- seguintes capítulos: Capítulo 5: Políticas Espaciais; Capítulo 6:
lonizando o Conhecimento, discute questões similares no con- Políticas do Cabelo; Capítulo 7: Políticas Sexuais; Capítulo 8: Polí-
texto acadêmico ou de erudição, em geral: Quem pode falar? ticas da Pele; Capítulo 9: A palavra N. e o Trauma; Capítulo 10:
Quem pode produzir conhecimento? E o conhecimento de Segregação e Contágio Racial; Capítulo 11: Performando Negri-
quem é reconhecido como tal? Neste capítulo, examino o colo- tude; capítulo 12: Suicídio; Capítulo 13: Cura e Transformação.
ni~smo na academia e a descolonização do conhecimento. Em - O livro conclui com o Capítulo 14, Descolonizando o Eu, no
outras palavras, estou preocupada aqui com a autoridade racial qual reviso e teorizo os tópicos mais importantes que vieram à
e com a produção de conhecimento: O que acontece quan- tona neste livro, e também corno possíveis estratégias de des-
do nós falamos no centro? colonização.
O Capítulo 3, Dizendo o Indizível: [Link] o Racismo. Co-
mo se deveria falar sobre o que tem sido silenciado? Aqui,
começo analisando o déficit teórico acerca do racismo e do
racismo cotidiano e examino o que para mim é a metodolo-
gia adequada para falar sobre a realidade experienciada do ra-
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[Link]ÁSCARA
COLONIALISMO, MEMÓRIA, TRAUMA E DESCOLONIZAÇÃO
A Boca
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os brancas/os querem - e precisam - controlar e, conse-
quentemente o órgão que, historicamente, tem sido severa-
mente censurado.
Nesse cenário específico, a boca também é uma metáfora
para a posse. Fantasia-se que o sujeito negro quer possuir algo
que pertence ao senhor branco: os frutos, a cana-de-açúcar e os
grãos de cacau. Ela ou ele querem comê-los, devorá-los, desa-
propriando assim o senhor de seus bens. Embora a plantação
e seus frutos, de fato, pertençam "moralmente" à/ao coloniza-
da/ o, o colonizador interpreta esse fato perversamente, inver-
tendo-o numa narrativa que lê tal fato como roubo. "Estamos
levando o que é Delas/es" torna-se "Elas/es estão tomando
o que é Nosso." Estamos lidando aqui com um processo de
negação, no qual o senhor nega seu projeto de colonização e
o impõe à/ao colonizada/o. É justamente esse momento - no
qual o sujeito afirma algo sobre a/o "Outra/o" que se recusa a
reconhecer em si próprio - que caracteriza o mecanismo de
defesa do ego.
Retrato da "Escrava Anastácia" 4
No racismo, a negação é usada para manter e legitimar
~struturas violentas de exclusão racial: "Elas/ es querem torriar
o que é Nosso, por isso Elas/es têm de ser controladas/os." A 4. Esta imagem penetrante vai de encontro à/ao espectadora/especta-
informação original e elementar - "Estamos tomando o que é dor transmitindo os horrores da escravidão sofridos pelas gerações de
Delas/es" - é negada e projetada sobre a/o "Outra/o" -"elas/ africanas/os escravizadas/os. Sem história oficial, alguns dizem que
Anastácia era filha de uma familia real Kimbundo, nascida em Angola,
eles estão tomando o que é Nosso"-, o sujeito negro torna-se
sequestrada e levada para a Bahia e escravizada por uma familia por-
então aquilo a que o sujeito branco não quer ser relacionado. tuguesa. Após o retorno dessa familia para Portugal, ela teria sido ven-
Enquanto o sujeito negro se transforma em inimigo intrusivo, dida a um dono de uma plantação de cana-de-açúcar. Outros alegam
o branco torna-se a vítima compassiva, ou seja, o opressor tor- que ela teria sido uma princesa Nagô/Yorubá antes de ter sido captu-
rada por europeus traficantes de pessoas e trazida ao Brasil na condi-
na-se oprimido e o oprimido, o tirano. Esse fato é baseado em ção de escravizada. Enquanto outros ainda contam que a Bahia foi seu
processos nos quais partes dndidas da psique são projetadas local de nascimento. Seu nome africano é desconhecido. Anastácia foi
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para fora, criando o chamado "Outro", sempre como anta- rejeitada e malévola - é projetada sobre a/o "Outra/o" como
gonista do "eu" (self). Essa cisão evoca o fato de que o sujeito algo externo. O sujeito negro toma-se então tela de projeção
branco de alguma forma está dividido dentro de si próprio, daquilo que o sujeito branco teme reconhecer sobre si mesmo,
pois desenvolve duas atitudes em relação à realidade externa: neste caso: a ladra ou o ladrão violenta/o, a/ o bandida/o indo-
somente uma parte do ego - a parte 'boa", acolhedora e bene- lente e maliciosa/o. Tais aspectos desonrosos, cuja intensidade
volente - é vista e vivenciada como "eu" e o resto - a parte "má", causa extrema ansiedade, culpa e vergonha, são projetados para
o exterior corno um meio de escapar dos mesmos.
o nome dado a ela durante a escravização. Segundo todos os relatos, Em termos psicanalíticos, isso permite que os sentimen-
ela foi forçada a usar um colar de ferro muito pesado, além da máscara tos positivos em relação a si mesma/o permaneçam intactos
facial que a impedia de falar. As razões dadas para esse castigo variam:
- branquitude como a parte "boa" do ego - enquanto as mani-
alguns relatam seu ativismo político no auxílio em fugas de "outras/
os" escravizadas/os; outros dizem_que ela havia resistido às investidas festações da parte "má" são projetadas para o exterior e vistas
sexuais do "senhor" branco. Outra versão ainda transfere a culpa para como objetos externos e "ruins". No mundo conceitual branco, o
o ciúme de uma sinhá que temia a beleza de Anastácia. Dizem também sujeito negro é identificado como o objeto "ruim", incorporando
que ela possuía poderes de cura imensos e que chegou a realizar mila-
gres. Anastácia era vista como santa entre escravizadas/os africanas/ os aspectos que a sociedade branca tem reprimido e trans-
os . Após um longo período de sofrimento, ela morre de tétano causado formando em tabu, isto é, agressividade e sexualidade. Por
pelo colar de ferro ao redor de seu pescoço. O retrato de Anastácia foi conseguinte, acabamos por coincidir com a ameaça, o perigo,
feito por um francês de 27 anos chamado Jacques Arago; que se jun-
o violento, o excitante e também o sujo, mas desejável - per-
tou a uma "expedição científica" pelo Brasil como desenhista, entre
dezembro de 1817 e janeiro de 1818. Há outros desenhos de máscaras mitindo à branquitude olhar para si como moralmente ideal,
cobrindo o rosto inteiro de escravizadas/os, somente com dois furos decente, civilizada e majestosamente generosa, em controle
para os olhos; estas eram usadas para prevenir o ato de comer terra, total e livre da inquietude que sua história causa.
uma prática entre escravizadas/os africanas/os para cometer suicídio.
Na segunda metade do século XX a figura de Anastácia começou a se
tornar símbolo da brutalidade da escravidão e seu contínuo legado do
racismo. Ela se tornou uma figura política e religiosa importante em AFerida5
torno do mundo africano e afrodiaspórico, representando a resistên-
cia histórica desses povos. A primeira veneração de larga escala foi em
1967, quando o curador do Museu do Negro do Rio de Janeiro erigiu Dentro dessa infeliz dinâmica, o sujeito negro torna-se não ape-
uma exposição para honrar o 80" aniversário da abolição da escraviza- nas a/o "Outra/o" - o diferente, em relação ao qual o "eu" da
ção no Brasil. Anastácia também é comumente vista como uma santa
dos Pretos Velhos, diretamente relacionada ao Orixá Oxalá ou Obatalá
- orixá da paz, da serenidade e da sabedoria - e é objeto de devoção no 5. O termo ferida é derivado do grego "trauma" (Laplanche e Pontalis,
Candomblé e na Umbanda (Handler e Hayes, 2009). 1988), e este é o sentido que eu uso aqui: "ferida como trauma".
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pessoa branca é medido -, mas também "Outridade" - a per-
mundo conceitual branco é como se o inconsciente coletivo das
sonificação de aspectos repressores do "eu" do sujeito branco.
pessoas negras fosse pré-programado para a alienação, decep-
Em outras palavras, nós nos tornamos a representação mental
ção e trauma psíquico, uma vez que as imagens da negritude
daquilo com o que o sujeito branco não quer se parecer. Toni
às quais somos confrontadas/os não são nada realistas, tam-
Morrison (1992) usa a expressão "dessemelhança", 6 para des-
pouco gratificantes. Que alienação, ser-se forçada/o a identi-
crever a "branquitude" como uma identidade dependente, que
ficar-se com os heróis, que aparecem como brancos, e rejeitar
existe através da exploração da/o "Outra/o", uma identidade
os inimigos, que aparecem como negros. Que decepção, ser-se
relacional construída por brancas/os, que define a elas/es mes-
forçada/ o a olhar para nós mesmas/os como se estivéssemos
mas/os como racialmente diferentes das/os "Outras/os". Isto
no lugar delas/ es. Que dor, estar presa/o nessa ordem colonial.
é, a negritude serve como forma primária de Outridade, pela
Essa deveria ser nossa preocupação. Não deveríamos nos preo-
qual a branquitude é construída. A/O "Outra/o" não é "outra/o"
cupar com o sujeito branco no colonialismo, mas sim com o fato
per se; ela/ele torna-se através de um processo de absoluta ne-
de o sujeito negro ser sempre forçado a desenvolver uma rela-
gação. Nesse sentido, Frantz Fanon (1967, p. 110) escreve: "O
ção consigo mesma/o através da presença alienante do "outro"
que é frequentemente chamado de alma negra é uma constru-
branco (Hall, 1996). Sempre colocado como "Outra/o", nunca
ção do homem branco."
como "Eu". "O que mais isso poderia ser para mim", pergunta
Essa frase nos relembra que não é com o sujeito negro que
Fanon (1967, p. 112), "senão uma amputação, uma excisão,
estamos lidando, mas com as fantasias brancas sobre o que a
uma hemorragia que respinga meu corpo inteiro com sangue
negritude deveria ser. Fantasias que não nos representam,
negro?" Fanon utiliza a linguagem do trauma, como a maioria
mas, sim, o imaginário branco. Tais fantasias são os aspec-
das pessoas negrns o faz quando fala sobre experiências coti-
tos negados do eu branco reprojetados em nós, como se fos-
dianas de racismo, indicando o doloroso impacto corporal e a
sem retratos autoritários e objetivos de nós mesmas/os. Elas
perda característica de um colapso traumático, pois no racismo
não são, portanto, de nosso interesse. "Eu não posso ir ao
o individuo é cirurgicamente retirado e violentamente sepa-
cinema", escreve Fanon, "Eu espero por mim" (1967, p. 140).
rado de qualquer identidade que ela/ele possa realmente ter.
Ele espera pela/o negra/ o selvagem, pela/o negra/ o bárbara/o,
Tal separação é definida como um trauma clássico, uma vez
por serviçais negras/os, por negras prostitutas, putas e corte-
que priva o indivíduo de sua própria conexão com a sociedade
sãs, por negras/os criminosas/os, assassinas/os e traficantes.
inconscientemente pensada como branca. "Eu sentia lâminas
Ele espera por aquilo que ele não é. Poderíamos dizer que no
de facas me abrindo de dentro para fora ... Eu não conseguia
mais rir", observa Fanon (1967, p. 112). De fato, não há nada
6. N. da T. A expressão usada pela escritora Toni Morrison é "unlikeness".
para se rir a respeito: enquanto alguém é sobredeterminada/ o
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por algo exterior, pelas fantasias violentas que aquela/e vê, Falando do Silêncio
mas que não reconhece sendo dela/e própria/o.
Esse é o trauma do sujeito negro; ele jaz exatamente nesse A máscara, portanto, levanta muitas questões: por que deve
estado de absoluta "Outridade" na relação com o sujeito branco. a boca do sujeito negro ser amarrada? Por que ela ou ele tem
Um círculo infernal: "Quando pessoas gostam de mim, dizem de ficar calada/o? O que poderia o sujeito negro dizer se ela ou
que é apesar da minha cor. Quando não gostam de mim, apon- ele não tivesse sua boca tapada? E o que o sujeito branco teria
tam que não é por causa da minha cor." Fanon (1967, p. 116) de ouvir? Existe um medo apreensivo de que, se o sujeito colo-
escreve: "Em ambas situações, não tenho saída." Preso no nial falar, a/ o colonizadora/or terá de ouvir. Seria forçada/ o a
absurdo. Parece, portanto, que o trauma de pessoas negras entrar em uma confrontação desconfortável com as verdades
provém não apenas de eventos de base familiar, como a psi- da/o "Outra/o". Verdades que têm sido negadas, reprimidas,
canálise argumenta, mas sim do traumatizante contato com mantidas e guardadas como segredos. Eu gosto muito deste
a violenta barbaridade do mundo branco, que é a irracionali- dito "mantido em silêncio como segredo". 7 Essa é uma expres-
são oriunda da diáspora africana e anuncia o momento em
dade do racismo que nos coloca sempre como a/o "Outra/o",
que alguém está prestes a revelar o que se presume ser um
como diferente, como incompatível, como conflitante, como
segredo. Segredos como a escravização. Segredos como o colo-
estranha/o e incomum. Essa realidade irracional do racismo é
nialismo. Segredos como o racismo.
descrita por Frantz Fanon (1967, p. 118) como traumática.
O medo branco de ouvir o que poderia ser revelado pelo
sujeito negro pode ser articulado com a noção de repressão
Eu fui odiado, desprezado, detestado, não pela vizinha do outro
de Sigmund Freud, uma vez que a "essência da repressão",
lado da rua ou pelo meu primo por parte de mãe, mas por uma
segundo o mesmo: "Encontra-se simplesmente em afastar-se
raça inteira. Eu competi contra algo irracional. Os psicanalis-
de algo e mantê-lo à distância do consciente" (Freud, 1923, p.
tas dizem que nada é mais traumatizante para a criança do que
17). Esse é o processo pelo qual ideias - e verdades - desagra-
esses encontros com o que é racional. Eu diria, pessoalmente,
dáveis se tornam inconscientes, vão para fora da consciência
que para um homem cuja arma é a razão, não há nada mais
devido à extrema ansiedade, culpa ou vergonha que causam.
neurótico do que o contato com o irracional.
Contudo, enquanto enterradas no inconsciente como segre-
dos, permanecem latentes e capazes de ser reveladas a qual-
E continua: "Eu racionalizei o mundo e o mundo me rejeitou
quer momento. A máscara vedando a boca do sujeito negro
sob a base do preconceito de cor (... ) Coube ao homem branco
ser mais irracional do que eu" (Fanon, 1967, p. 123). Aparente-
mente, a irracionalidade do racismo é o trauma. 7. N. da T. Em inglês: "quietas itis kept".
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impede-a/o de revelar tais verdades, das quais o senhor branco "pertencem". E aquelas/es que não são ouvidas/os se tornam
quer "se desviar", "manter à distância" nas margens, invisí- aquelas/ es que "não pertencem". A máscara recria esse projeto
veis e "quietas". Por assim dizer, esse método protege o sujeito de silenciamento e controla a possibilidade de que coloniza-
branco de reconhecer o conhecimento da/o "Outra/o". Uma das/ os possam um dia ser ouvidas/os e, consequentemente,
vez confrontado com verdades desconfortáveis dessa histó- possam pertencer. Durante um discurso público Paul Gilroy
ria muito suja, 8 o sujeito branco comumente argumenta "não descreve cinco mecanismos distintos de defesa do ego pelos
saber...", "não entender ...", "não se lembrar...", "não acredi- quais o sujeito branco passa a fim de ser capaz de "ouvir", isto
tar..." ou "não estar convencido ...". Essas são expressões desse é, para que possa se tornar consciente de sua própria bran-
processo de repressão, no qual o sujeito resiste tomando cons- quitude e de si própria/o como perpetradora/perpetrador
ciente a informação inconsciente, ou seja, alguém quer fazer do racismo: negação; culpa; vergonha; reconhecimento; repa-
(e manter) o conhecido desconhecido. A repressão é, nesse ração. Mesmo que Gilroy não tenha explicado a corrente de
sentido, a defesa pela qual o ego controla e exerce censura em mecanismos de defesa do ego, eu gostaria de fazê-lo a seguir,
relação ao que é instigado como uma verdade "desagradável". pois acredito que seja importante e elucidativo.
Falar toma-se, assim, virtualmente impossível, pois, quando Negação (denial em inglês, no sentido de recusa) é um
falamos, nosso discurso é frequentemente interpretado como mecanismo de defesa do ego que opera de forma inconsciente
uma versão dúbia da realidade, não imperativa o suficiente para resolver conflitos emocionais através da recusa em admi-
para ser dita nem tampouco ouvida. Tal impossibilidade ilus- tir os aspectos mais desagradáveis da realidade externa, bem
tra como o falar e o silenciar emergem como um projeto aná- como sentimentos e pensamentos internos. Essa é a recusa
logo. O ato de falar é como uma negociação entre quem fala em reconhecer a verdade. A Negação (denial) é seguida por
e quem escuta, isto é, entre falantes e suas/seus interlocuto- dois outros mecanismos de defesa do ego: cisão e projeção.
ras/es (Castro Varela e Dhawan, 2003). Ouvir é, nesse sentido, Como escrevi anteriormente, o sujeito nega que ela/ele tenha
o ato de autorização em direção à/ao falante. Alguém pode tais sentimentos, pensamentos ou experiências, mas continua
falar (somente) quando sua voz é ouvida. Nessa dialética, a afirmar que "outra" pessoa os tem. A informação original -
aquelas/ es que são ouvidas/os são também aquelas/ es que "Nós estamos tirando o que é delas/es" ou "Nós somos racis-
tas" - é refutada e projetada sobre as/os "Outras/os": "Elas/es
vêm aqui e retiram o que é Nosso", "elas/eles são racistas." Para
8. Em inglês: "dirty history", frase frequentemente usada pela escrito- diminuir o choque emocional e a tristeza, o sujeito negro diria:
ra Toni Morrison para descrever seu trabalho artístico quando argu-
"Nós estamos de fato tirando o que é delas/es" ou "eu nunca
menta que sua escrita traz à tona os assim chamados "negócios sujos do
racismo" (1992) . experienciei o racismo". A Negação (denial) é frequentemente
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confundida com negação (negation em inglês, no sentido de entendeu mal," "para mim não há negras/os ou brancas/os,
formulação na negativa). Esses são, porém, dois mecanismos somos todos humanos." De repente, o sujeito branco investe
diferentes de defesa do ego (não distinguidos na língua portu- tanto intelectual quanto emocionalmente na ideia de que a
guesa). Na última, um sentimento, um pensamento ou expe- "raça", na verdade, não importa como estratégia para redu-
riência são admitidos ao consciente em sua forma negativa zir os desejos inconscientes agressivos em relação às/aos
(Laplanche e Pontalis, 1988). Por exemplo: "Nós não estamos "Outras/os", bem como seu sentimento de culpa.
tirando o que é Delas/es" ou "Nós não somos racistas." Vergonha, por outro lado, é o medo do ridículo, a res-
Após a negação vem a culpa, a emoção que segue a infra- posta ao fracasso de viver de acordo com o ideal de seu pró-
ção de uma interdição moral . . Esse é um estado emocional prio ego. Enquanto a culpa ocorre se o indivíduo transgredir
no qual o indivíduo vívencia o conflito de ter feito algo que uma interdição derivada de seu exterior, a vergonha ocorre
acredita que não deveria ser feito ou, ao contrário, de não quando o indivíduo falha em atingir um ideal de comporta-
ter feito algo que acredita que deveria ter sido feito. Freud mento estabelecido por si mesma/ o. A vergonha está, por-
descreve tal estado como o resultado de um conflito entre o tanto, conectada intimamente ao sentido de percepção. Ela
ego e o superego, ou seja, um conflito entre os próprios dese- é provocada por experiências que colocam em questão nos-
jos agressivos do indivíduo em relação aos "outras/os" e seu sas preconcepções sobre nós mesmas/os e nos obriga a nos
superego (autoridade). O sujeito não tenta impor aos "outras/ vermos através dos olhos de "outras/os", nos ajudando a
os" o que ela/ele teme reconhecer em si mesma/o como acon- reconhecer a discrepância entre a percepção de outras pes-
tece na negação, mas está, em vez disso, preocupada/o com soas sobre nós e nossa própria percepção de nós mesmas/
as consequências de sua própria infração: "acusação", "cul- os: "Quem sou eu? Como as/os "outras/os" me percebem? E
l)abilização", "punição". Culpa se difere de ansiedade, pois a o que represento para elas/eles?" O sujeito branco se dá conta
ansiedade é experienciada em relação a acontecimentos fu- de que a percepção das pessoas negras sobre a branquitude
turos, tal como quando a ansiedade é criada pela ideia de que pode ser diferente de sua percepção de si mesmo, na medida
o racismo possa vir a ocorrer. Culpa é vivenciada em relação a em que a branquitude é vista como uma identidade privile-
um ato já cometido, ou seja, o racismo já aconteceu, criando giada - o que significa tanto poder quanto alerta - a vergo-
um estado emocional de culpabilidade. As respostas comuns nha é o resultado desse conflito.
à culpa são a intelectualização ou racionalização, isto é, a ten- Reconhecimento segue a vergonha; no momento em que o
tativa do sujeito branco de construir uma justificativa lógica sujeito branco reconhece sua própria branquitude e/ou racismo.
para o racismo; ou descrença, assim o sujeito branco pode Esse é, portanto, o processo de reconhecimento. O individuo
dizer: "Nós não queríamos dizer isso nesse sentido", "você finalmente reconhece a realidade de seu racismo ao aceitar
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2. QUEM PODE FALAR?
FALANDO DO CENTRO, DESCOLONIZANDO O CONHECIMENTO
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