Contos de fadas: a esperança
que ecoa do “Era uma vez...”
Fairy tales: the hope that echoes from
"Once Upon a Time..."
Uma entrevista com Jack Zipes
Paulo César Ribeiro Filho1
1 Doutorando em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, área de Literatura Infantil e
Juvenil — Universidade de São Paulo (USP). Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (CAPES). E-mail: [Link]@[Link]
Literartes, n. 11 | 2019 | Entrevista – ZIPES
Dedicada aos estudos multidisciplinares acerca do conto de fadas, a 11ª edição da Revista
Literartes foi laureada com a oportunidade de entrevistar o professor Jack Zipes, um dos maiores e
mais respeitados pesquisadores de contos de fadas e literatura comparada em todo o mundo. Nas-
cido em Nova Iorque em 7 de junho de 1937, Jack David Zipes graduou-se em Ciência Política na
Universidade de Dartmouth em 1959 e, no ano seguinte, obteve seu título de mestre em Língua
Inglesa e Literatura Comparada pela Universidade de Columbia, em Nova York. Em 1965, após
ter estudado língua e literatura germânica nas Universidades de Munique e de Tübingen, na Ale-
manha, completou seu doutorado em Literatura Comparada na Universidade de Columbia. Com
conhecimento em alemão, francês, italiano e espanhol, Jack Zipes pôde dedicar-se ao exame de um
variado corpus da tradição literária ocidental em uma perspectiva multicultural e, já nos anos 60,
passou a dispensar especial atenção aos contos de fadas, defendendo o exame crítico desse gênero
que, até então, permanecia às margens dos estudos literários de nível universitário. Como um dos
primeiros teóricos contemporâneos da área em questão, Jack Zipes lecionou em universidades na
Flórida, Nova York e Wisconsin até ser nomeado professor de alemão e literatura comparada na
Universidade de Minnesota, onde trabalhou por vinte anos até se aposentar em 2008.
Interessado na análise do conto de fadas sob diferentes ópticas (cultural, histórica, social
e política, por exemplo), o professor Jack Zipes notabilizou-se pela publicação de dezenas de
livros que figuram como bibliografia na grande maioria dos trabalhos acadêmicos dedicados aos
estudos literários dos maravilhoso feérico, entre eles: Breaking the Magic Spell: Radical Theories
of Folk and Fairy Tales (University Press of Kentucky, 1979), Fairy Tales and the Art of Subversion:
The Classical Genre for Children and the Process of Civilization (Routledge, 1982), Beauties, Beasts
and Enchantments: Classic French Fairy Tales (Crescent Moon Publishing, 1989), Fairy Tale As
Myth, Myth As Fairy Tale (University Press of Kentucky, 1994), Happily Ever After: Fairy Tales,
Children and the Culture Industry (Routledge, 1997), Sticks and Stones: The Troublesome Success of
Children’s Literature from Slovenly Peter to Harry Potter (Routledge, 2000), The Brothers Grimm:
From Enchanted Forests to the Modern World (Palgrave Macmillan, 2002—2003), Why Fairy Ta-
les Stick: The Evolution and Relevance of a Genre (Routledge, 2006), The Enchanted Screen: The
Unknown History of Fairy-Tale Films (Routledge, 2011), The Irresistible Fairy Tale: The Cultural
and Social History of a Genre (Princeton University Press, 2012) e Grimm Legacies: The Magic
Power of the Grimms’ Folk and Fairy Tales (Princeton University Press, 2014).
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Jack Zipes também traduziu os contos de fadas dos Irmãos Grimm (edições de 1812
e 1815) e desenvolveu uma série de estudos sobre Chapeuzinho Vermelho em perspectiva com-
paratista. Para além dos trabalhos em contexto universitário, Zipes atua como contador de
histórias nos Estados Unidos e na Europa, dirigindo e participando ativamente do proje-
to Neighbourhood Bridges, uma iniciativa desenvolvida no teatro infantil de sua cidade natal,
Minneapolis. Em honra à sua pesquisa em literatura infantil, foi premiado pelo International
Association for the Fantastic in the Arts em 1992, recebeu o International Brothers Grimm Award
em 1999, e receberá, neste ano, o Lifetime Achievement Awards no World Fantasy Awards, ao
lado de Hayao Miyazaki.
Com mais de meio século de carreira acadêmica e em plena atividade intelectual, o
professor Jack Zipes acaba de lançar o livro Ernst Bloch, The Pugnacious Philosopher of Hope (Pal-
grave Macmillan, 2019), obra em que apresenta uma das pedras angulares que fundamentaram
seu trabalho com os contos de fadas: os pressupostos teóricos do filósofo alemão Ernst Bloch.
Nesta entrevista concedida por e-mail no dia 11 de outubro de 2019, além de explorar
alguns aspectos de sua mais recente publicação, a Revista Literartes procurou contextualizar
as presenças efetiva e afetiva dos contos de fadas ao longo da vida do professor Jack Zipes,
dentro e fora da academia.
1. É essencial reforçar o sentimento de grande honra e satisfação que nós da
Revista Literartes temos em poder entrevistá-lo. Muito obrigado por aceitar
dividir algumas reflexões conosco em meio à sua intensa agenda de compro-
missos. Dito isso, a pergunta inicial não poderia ser outra: ao longo de mais de
seis décadas envolvido no estudo do conto de fadas, transitando por diversas
universidades e demais centros de estudo ao redor do mundo, é possível afir-
mar que o exame crítico desse gênero ainda enfrenta resistência nas cátedras
de estudos literários por conta de sua infeliz associação à ideia de uma “lite-
ratura de entrada”, de baixa qualidade, desprovida de valor artístico/estético
(em oposição à “alta literatura”)?
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Infelizmente, a situação nas universidades norte-americanas em relação aos
contos de fadas e ao folclore é muito pior do que você pode imaginar. O conto de
fadas não é apenas considerado um gênero menor ligado à literatura infantil — apesar
de alguns ótimos avanços empreendidos por estudiosos europeus e norte-america-
nos no fim do século XX e início do XXI —, mas ele realmente não tem espaço na
academia. Logo após a Segunda Guerra Mundial surgiram vários departamentos e
programas de folclore e uma forte associação americana de folclore. Hoje, existem
apenas três ou quatro departamentos de folclore em nosso país, e os contos de fadas
são trabalhados sobretudo nos departamentos de língua inglesa e nas faculdades de
educação. A razão do desaparecimento dos departamentos de folclore e da diminuição
do número de cursos sobre contos de fadas ministrados em inglês, espanhol, fran-
cês, alemão e russo se explica, em grande parte, pela transformação da Universidade
americana, que passou de um instituto educacional para uma corporação comercial
que cobra enormes somas de dinheiro dos estudantes, os quais advêm sobretudo de
famílias abastadas. Os alunos não são encorajados a se matricularem em cursos de
Letras, Ciências Sociais, Literatura ou Arte, pois, ao se formarem, não conseguem
arcar com as enormes dívidas que acumulam por conta das enormes taxas acadê-
micas. Imersos na lógica do mundo negócios, os alunos não são mais educados a
pensar criticamente, mas sim a se adaptar às crassas condições do sistema capitalista
norte-americano. Além disso, a prática de esportes é muito mais valorizada do que
aprender a pensar. Eu poderia continuar e lamentar essa situação por horas, mas
prefiro seguir trabalhando com colegas e amigos para resistir às tendências correntes
nos Estados Unidos.
2. “Hope, as we all know, is not a commodity or even a quality. For Bloch, it
was an inner force that we all have and that drives us to seek better working
and living conditions. We hope because we are discontent and because we lack
what is necessary to endow our lives with meaning. Since most of us cannot
control our lives, we must live in hope or use hope to discover what it is that
will benefit us and others.” (excerto da obra Ernst Bloch, The Pugnacious
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Philosopher of Hope, 2019, p. 186). Com base nesse excerto programático de
sua mais recente obra, e sabendo que a filosofia da esperança de Ernst Bloch,
ancorada em pressupostos político-teóricos marxistas, está na base de seu tra-
balho como estudioso do conto de fadas, gostaríamos de saber de que forma
seu ativismo político e sua formação em Ciência Política estariam relacionados
à aurora de seu interesse no estudo do conto de fadas em meados dos anos 60.
Essa é uma pergunta complexa, eu teria que escrever um longo livro de memó-
rias ou uma autobiografia para respondê-la. O que posso dizer é que frequentei uma
faculdade de elite da Ivy League2 de 1955 a 1959, e me formei em Ciência Política.
Quando concluí meus estudos em Dartmouth, eu ainda não havia aprendido muito
sobre política, pois Dartmouth era uma faculdade racista, antissemita e arquicon-
servadora. As únicas coisas que aprendi foram a escrever bem e jogar futebol. Minha
verdadeira formação começou em 1959 na Universidade Columbia, em Nova York,
minha cidade natal, e depois em Munique e Tübingen na década de 1960. Quando
parei de lecionar na Universidade de Munique em 1967 e voltei a lecionar na Uni-
versidade de Nova York, eu já havia sido introduzido à teoria crítica da Escola de
Frankfurt e estava fortemente envolvido no movimento anti-Vietnã. Os cinco anos
na Universidade de Nova York, de 1967-1972, foram uma alegria, pois os alunos
estavam ansiosos para aprender e relacionar a política à sua aprendizagem. Também
fui fortemente influenciado por movimentos radicais como The Weathermen3, SDS4
e outras organizações, e descobri por mim mesmo teóricos como Bloch, Georg Lu-
kács, Max Weber, Wilhelm Reich, Erich Fromm, Marx, Engels, etc. Nos anos 70,
estive na lista negra dos Estados Unidos por ter liderado uma greve em 1970 para
2 Ivy League School refere-se a um grupo de universidades de elite, academicamente excelentes e de rígidos
processos seletivos.
3 Organização da esquerda radical norte-americana atuante entre os anos 60 e 80.
4 Sigla para Students for a Democratic Society, movimento estudantil de esquerda que atuou ao longo dos anos 60.
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protestar contra o assassinato de estudantes da Universidade de Kent State e não
consegui encontrar um emprego quando meu contrato com a Universidade de Nova
York expirou. Graças a Hans Mayer, um grande crítico literário alemão, finalmente
me ofereceram um emprego como professor associado na Universidade de Wiscon-
sin, em Milwaukee, com uma proposta para iniciar uma revista marxista de teoria
e literatura. De fato, com meus amigos fundei uma revista chamada New German
Critique, e, ao mesmo tempo, por influência de uma namorada que trabalhava com
crianças, comecei a estudar como as crianças eram politicamente socializadas através
da indústria cultural e como a educação era desigual nos Estados Unidos. Como os
contos de fadas eram cruciais no processo de aprendizagem de todas as crianças na
América, comecei a estudar folclore e todos os tipos de contos de fadas a partir de
uma perspectiva crítica. Foi nessa época que escrevi dois ensaios primordiais: um
ensaio muito positivo sobre Bloch e Tolkien, e outro muito crítico sobre o hipócrita
Bruno Bettelheim. De 1974 em diante, fui um dos primeiros professores da Améri-
ca a estudar contos populares e contos de fadas a partir de uma perspectiva teórica
crítica, e a maioria dos folcloristas pensou que eu fosse comunista, pois ser marxista
significava que você tinha “algo de vermelho”! No entanto, as pessoas que me co-
nheciam confiavam em mim, e, em 1977, também comecei a trabalhar ativamente
com educadores e crianças em escolas de toda a América para testar minhas teorias
sobre contos de fadas.
3. O tema da esperança costuma causar a cisão entre pelo menos dois grupos:
o dos materialistas, que buscam sobretudo a garantia da justiça social, e o dos
metafísicos, que acreditam numa vida após a morte e nela depositam a espe-
rança da redenção (aspecto marcante nas obras de Andersen, por exemplo). Em
que medida os contos de fadas respondem às demandas dessas duas vertentes?
Lembre-se de que devemos sempre fazer uma distinção entre os contos
populares de natureza oral que emanavam e ainda emanam do povo, as pessoas co-
muns, e os contos de fadas literários que emanavam e emanam de escritores cultos
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de todas as classes sociais. Além disso, devemos ter em mente que não existe um
conto puramente popular ou puramente literário. O que costumamos chamar de
conto de fadas é uma narrativa híbrida curta, cheia de maravilhas e magia, que faz
empréstimos de muitos outros gêneros, como o mito, a lenda, a fábula, a história de
fantasmas, o conto religioso, o provérbio, etc. E todos esses gêneros, por sua vez,
emprestam e roubam do gênero conto de fadas. Uma característica que separa um
conto de fadas de um conto metafísico é que a religião raramente desempenha um
papel importante. Os contos de fadas tendem a ser seculares, sem promessa de que a
vida será melhor em algum tipo de mundo posterior. Os contos de fada emanam da
esperança, dos devaneios/sonhos diurnos (e não dos sonhos noturnos ou da Igreja),
de que a vida pode ser melhor aqui e agora. Apesar dos milagres e da magia nos con-
tos, eles tendem a ser materialistas, pois se originam de conflitos reais pelos quais as
pessoas passam, fazendo uso de metáforas e da concretização desses devaneios para
indicar como nós podemos resistir a autocratas e reis. De certo modo, os contos de
fadas sempre têm um toque revolucionário, o que Bloch chamou de Spuren (tra-
ços), que são índices de como podemos promover a justiça social e trazer à tona a
igualdade social. Lembre-se, somos todos indivíduos diminutos, formiguinhas, que
povoam o universo, e os contos de fadas revelam como as pequenas criaturas, solda-
dos, alfaiates, crianças abusadas, vítimas femininas e animais indefesos encontram,
de alguma forma, seu caminho para desfrutar de um pouco de felicidade, pois eles
têm integridade e nunca abandonam a esperança de que sua situação pode mudar.
4. Voltando a atenção para os dias atuais, ainda sob o viés da filosofia da es-
perança de Bloch, diante das incessantes críticas a respeito da falta de repre-
sentatividade de grupos minoritários e de setores socialmente marginalizados
na literatura infantil e juvenil, em que aspectos os best-sellers de autores como
J.R.R. Tolkien e J. K. Rowling reforçam ou ressignificam valores sociais cris-
talizados pelos contos de fadas tradicionais? Critica-se, por exemplo, a falta
de protagonismo feminino em Tolkien, ou a luta pela manutenção do status
quo como paradigma da literatura de fantasia em geral.
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Se há um problema nos contos de fadas e na literatura de fantasia em relação
ao sexismo, racismo, infantilismo e outros ismos, não é por falta de contos, filmes,
peças de teatro e até óperas que fazem valentes esforços para compensar as injustiças
do passado. Certamente, Tolkien e Rowling são antiquados e se curvam ao patriar-
cado. No entanto, ainda existem elementos de suas obras que falam aos oprimidos e
incompreendidos, independentemente de gênero e etnia. Dito isto, há uma tendência
atual e muito bem-vinda de centenas de jovens escritores e artistas de todos os países
do mundo que estão explorando o gênero conto de fadas para expressar para dar voz
às esperanças de minorias de todos os tipos. O perigo sempre é a indústria cultural
— os editores e produtores de filmes que simplesmente procuram fazer dinheiro
com as políticas da moda do momento. Uma das mais maravilhosas qualidades de
todos os seres humanos, no entanto, é o nosso desejo de trabalharmos juntos e de
ajudarmos uns aos outros a cultivar um mundo em que todos sejam tratados com
gentileza e compaixão. Nosso maior problema vem das elites de todas as sociedades
que iniciam criminosas guerras ideológicas.
5. Antes do ingresso na universidade, da infância aos últimos anos do ensino
básico, como você descreveria sua relação com os contos de fada em ambiente
familiar e escolar?
Minha mãe comprou um conjunto de dois volumes dos contos de Andersen
e dos Grimm quando eu estava no ensino fundamental, e ela lia os contos para seus
quatro filhos toda semana. Meu pai costumava contar histórias sobre o antigo país
(Rússia) e os ursos polares com os quais ele costumava lutar no caminho para a es-
cola. Eu escutava essas histórias com alegria e comecei a escrever as minhas quando
tinha oito anos de idade.
6. Tendo em vista sua competência leitora em espanhol, qual sua relação
com a literatura infantil e juvenil da América Latina? É grande a procura por
orientação/supervisão de projetos de pesquisadores oriundos dessa região?
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O espanhol foi a minha melhor língua estrangeira no ensino médio e na fa-
culdade. Mais tarde, quando me tornei fluente em alemão, francês e italiano, perdi
a prática de falar e ler espanhol. No entanto, ainda consigo ler graças a muitos anos
de estudo desse idioma e do italiano. Estou bem familiarizado com a maioria dos
famosos escritores de realismo mágico dos países latino-americanos. Como membro
de algumas organizações de fantasia, é impossível não ser influenciado por elas e não
outorgar-lhes o devido crédito pelas mudanças nas faces da fantasia norte-america-
na. Houve uma enorme quantidade de pesquisas feitas sobre o realismo mágico da
América Latina e, embora tenham diminuído um pouco, eu mesmo me beneficiei
dos romances e histórias de realismo mágico que li.
7. Sabe-se que o “cânone” do conto de fadas é composto majoritariamente
por obras de autoria masculina (Perrault, Grimm e Andersen). No caso de A
Bela e a Fera, uma exceção à regra, a questão da autoria desperta controvérsias,
já que a versão celebrizada não foi a original. Pensando especificamente no
grupo de autoras francesas dos séculos XVII e XVIII, notadamente em nomes
como o da própria Mme. de Villeneuve e o de Mme. d’Aulnoy, como você ex-
plicaria o fato de essa vasta e substancial produção feminina ter permanecido
à margem dos estudos literários em contos de fadas até os dias de hoje? Cabe
dizer que há pouquíssimos textos das chamadas “preciosas” disponíveis em
língua portuguesa e que a produção crítica nacional a respeito desse corpus
é praticamente inexistente.
Tudo isso é esperado de sociedades patriarcais que trataram as mulheres
indecentemente — no passado e até agora. Em 1989 traduzi e publiquei uma an-
tologia de contos com o título Beauty and the Beast and Other Classic French Fairy
Tales (A Bela e a Fera e outros contos de fadas clássicos franceses), que continha contos de
d’Aulnoy, Villeneuve, Bernard, L’Héritier, Beaumont e Perrault. Por muitos anos,
graças à predominância e à dominação de estudiosos do sexo masculino na França,
os quais exerceram uma grande influência sobre os estudiosos norte-americanos de
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literatura francesa, essas escritoras únicas e talentosas infelizmente foram negligen-
ciadas. De fato, elas exerceram uma grande influência sobre Charles Perrault, mas
não foram reconhecidas até a década de 1980; desde então, temos visto um ótimo
renascimento de seus contos e excelentes pesquisas acadêmicas. Tudo isso se deve
ao surgimento do movimento feminista nas décadas de 70 e 80. Eu discuti isso em
meu livro The Irresistible Fairy Tale (O Irresistível Conto de Fadas).
8. A literatura infantil e juvenil vem sofrendo uma série de ataques prove-
nientes dos setores mais conservadores da sociedade brasileira, os quais con-
seguiram eleger seus representantes em todas as instâncias de poder. Fadas,
bruxas e seres mágicos em geral vêm sendo perseguidos e gradualmente eli-
minados das escolas de ensino básico. Trabalhar com fantasia em sala de aula
tem sido um ato de resistência. Em sua opinião, quais os impactos diretos
que a interdição do contato com a literatura de fantasia pode causar a curto
e médio prazo na mundividência da atual geração de leitores em formação?
Eu não sabia disso, fico triste. Afinal de contas, onde estaria a Igreja Cató-
lica se os primeiros (e até mesmo os atuais) sacerdotes não tivessem reconhecido e
ainda reconhecessem a existência de bruxas, demônios, criaturas fantásticas e outros
seres estranhos? Obviamente, os conservadores e seus representantes no Brasil são
altamente ignorantes se agora procuram banir as mesmas criaturas que ajudaram a
criar! Por fim, os representantes da santa igreja é que causarão a queda dessa mesma
igreja, o que é um absurdo. Você não pode matar ou banir a fantasia. Como Bloch
aponta no início de The Principle of Hope (O Princípio da Esperança), cada um de nós
tem devaneios fantásticos todos os dias que não podem ser eliminados ou banidos
por forças conservadoras. Todos sentimos, desde o nascimento até a morte, que algo
está faltando em nossas vidas, e nossas vidas se voltam para a busca de significado
por meio de um desejo de escapar do corrupto e perverso mundo em que vivemos.
Certamente, seria maravilhoso se as escolas fossem lugares onde nossa imaginação
pudesse crescer e tornar nossos sonhos realidade. Esse não é o caso. Porém, na mi-
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nha opinião, como forma de resistência, a proibição à literatura de fantasia só pode
servir para promover ainda mais a literatura de fantasia e colaborar com a formação
de crianças talentosas que enxergarão através da idiotice dos políticos.
9. Por fim, queremos saber: qual seu conto de fadas predileto? Poderia com-
partilhar conosco a razão para essa escolha?
Atualmente estou trabalhando em um livro de contos que venho escrevendo
ao longo dos últimos dez anos, e uma das histórias trata da sua pergunta. Então, vou
lhe fornecer o início deste conto que responderá à sua pergunta.
“Tudo bem, então vamos começar. Primeiro, eu quero lhe contar uma história que
ouvi de um de meus amigos que se tornou um veterano do Vietnã contra a guerra.
Eu o encontrei pela primeira vez em Paris depois dele ter desertado, seguido para
Berlim e depois para Estocolmo em 1970. Mais tarde, estranhamente, ou talvez não
tão estranhamente, eu o encontrei na Flórida, para onde eu havia ido dar aulas em
1986. Ele e seus amigos me convidaram para ir ao seu forte de tijolos que ficava na
floresta nos arredores da cidade universitária de Gainesville...”5
Esse é um conto experimental pois vou falar com você e comigo mesmo ao
mesmo tempo em que narro. E vou lhe contar uma história que eu amo. Sempre
que as pessoas me perguntam — por escrever muito sobre contos de fadas — qual
é o meu conto favorito, elas esperam que eu diga “Chapeuzinho Vermelho”, pois
certa vez escrevi um livro chamado The Trials and Tribulations of Little Red Riding Hood
5 Tradução livre. “All right, so let’s begin. First I want to tell you a tale that I heard from one of my friends who
became a Vietnam Veteran against the war. I met him first in Paris after he had deserted and found his way to
Berlin and later to Stockholm in 1970. Later, strangely, or perhaps not so strangely, I met him in Florida, where
I had gone to teach in 1986. He and his friends invited me to their fortified brick stuck in the woods outside the
college town of Gainesville…”
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(As Provações e Tribulações de Chapeuzinho Vermelho). No entanto, isso não é verdade.
Meu conto ultrafavorito é uma história dos Grimm sobre um soldado que é traído
por um rei depois de servi-lo lealmente por muitos anos.
Não sei dizer por que me apaixonei por esse conto uma vez que o li há mui-
tos anos, mas aconteceu. Eu nunca fui soldado, e, de fato, nunca gostei de guerras
ou de soldados. Nunca gostei de pessoas que carregam armas — policiais, soldados,
terroristas, guardas, caçadores — sejam elas homens, mulheres, LGBT, e assim por
diante. Eu penso que as pessoas poderiam resolver as querelas do mundo sem o uso
da força. Tem de haver alguma maneira de vivermos pacificamente em um mundo
justo. Sou um idealista. Meu pai me chamava de sonhador. Ele sempre alegou que
eu vivia no meu próprio mundo. Talvez seja verdade. A questão é que eu vivo com
um pé no mundo real e um pé no mundo dos sonhos, onde estou lutando contra a
corrupção e contra todos os políticos imbecis e líderes corporativos que estão des-
truindo a Terra com sua ganância, mentiras e poder massivo.
Sendo assim, por que eu não gostaria dos contos de Jack, ou de Tiny Tim6,
as histórias sobre o rapazinho que consegue ter sucesso no mundo derrotando ogros,
gigantes, bruxas e reis malvados? Eu gosto. Mas a história que mais amo é Os seis
que venceram o mundo (Sechse kommen durch die ganze Welt)7, pois ele ressoa em mim
mais do que todos os contos de Jack e Tiny Tim.
Os motivos-chave em todos os tipos de contos relacionados ao ciclo d’Os seis
que venceram o mundo, os quais assumiram as mais diferentes formas na Europa e nos
Estados Unidos, são: um herói falho, vários homens com talentos extraordinários e
uma embarcação incomum. Não importa qual seja o tipo específico, o herói (campo-
6 “Jack tales, or Tiny Tim tales”, ou “contos de João/Joãozinho”, são contos que envolvem um personagem
arquetipicamente marcado pelo tamanho diminuto, ingenuidade, preguiça e parvoíce associados à astúcia que
garante a recompensa final. Fazem parte desse ciclo contos como João e o Pé de Feijão (Benjamin Tabart), João
Pateta e O Pequeno Claus e o Grande Claus (Hans Christian Andersen).
7 Às vezes traduzido como Seis atravessam o mundo inteiro ou Os seis que tudo conseguiam.
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nês, plebeu, caipira) não pode alcançar seu objetivo sem a ajuda de super-humanos
com poderes divinos e que geralmente são altruístas. Isso se deve ao fato de o herói
ser basicamente um homem de boa índole, sendo inadequado que um homem sel-
vagem, uma mulher sábia, um anão ou um santo o guie até indivíduos poderosos e
engenhosos para que ele desenvolva sua integridade. O jovem protagonista aprende
por meio da experiência como cozinheiro/jardineiro a mobilizar forças para que
possa limpar sua reputação, vingar-se e atrair uma jovem mulher/princesa que se
torna sua esposa. Alguns folcloristas rotularam esses tipos de histórias como contos
cômicos ou contos de cortejo. No entanto, o objetivo principal do jovem é provar
sua dignidade como filho/cavaleiro, mesmo que ele queira se casar com a filha de
um rei construindo um barco que navega em terra. É o desafio ou o desejo de ser
digno e reconhecido como possuidor de mais talento do que se suspeita que leva o
jovem a participar de competições.
Algumas das mais importantes versões literárias desse tipo de conto são
De Bono Facto, de Giovanni Sercambi (Novelle, 1384), Lo ‘gnorante e Lo Polece, de
Giambattista Basile (Lo cunto de le cunti, 1634) e Belle-Belle ou le Chevalier fortuné, de
Marie-Catherine d’Aulnoy (Les Contes de fées, 1697). Há também um incidente no
Mabinogion (c. 1100), no qual extraordinários cavaleiros arturianos ajudam o herói
em sua busca por uma noiva.
Nas notas finais dos Grimm para a edição de 1857 de Contos Maravilhosos
Infantis e Domésticos (Kinder- und Hausmärchen), eles indicam que Os seis que venceram
o mundo foi fornecido pela talentosa contadora de histórias Dorothea Viehmann,
e que Os seis criados (Die sechs Diener) pela Família von Haxthausen. Wilhelm deixa
claro que ele e Jacob conheciam várias variantes alemãs, bem como os contos literá-
rios escritos por Basile e d’Aulnoy. Não parece que eles estavam familiarizados com
o poema épico As Argonáuticas de Apolônio de Rodes. No entanto, é claro que esse
poema, juntamente com contos e lendas orais, teve um papel importante na formação
de contos populares e de fadas que deram origem a Os seis que venceram o mundo, Os
seis criados e centenas, senão milhares de histórias sobre a cooperação de super-heróis.
O poema épico de Apolônio, escrito em algum momento do século III a.C.,
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traz as marcas de lendas, contos orais e obras literárias como a Ilíada e a Odisséia de
Homero, e é estranho que os Grimm não tenham citado as origens greco-pagãs nas
notas para Os seis que venceram o mundo. Isso pode se dever ao fato de que eles esta-
vam sempre procurando pelas origens nórdicas dos contos que coletavam. Seja qual
for o caso, é claro que As Argonáuticas se tornaram uma história basilar para contos
de fadas sobre super-heróis e ações coletivas que florescem em todo o mundo, bem
como para chapbooks, dime novels, quadrinhos, desenhos animados e filmes.
Existem centenas, senão milhares de versões deste conto que podem ser
considerados uma variante propriamente dita, e esses contos chegaram até nós no
presente; alguns até pré-datam a versão de Apolônio. Essa versão também foi in-
terpretada de várias maneiras, como uma viagem de iniciação ou uma exploração
xamanística do outro mundo. Mas há uma temática constante de intencionalidade
compartilhada e colaboração que está na base de todas as histórias e responde por seu
apelo. Durante o século XX surgem figuras como o Super-Homem, Mulher Mara-
vilha, Capitã Marvel, Batman e outros super-heróis como os X-Men e os Vingado-
res, que claramente são legatários da criação dos deuses e titãs greco-romanos que
entraram nas tradições narrativas populares em toda a Europa no período medieval.
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