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A Primavera e a Memória da Sorte

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Sorte

Havia uma clareza maior de sentidos quando chegava a primavera. As densas copas

das árvores do meu quintal se enchiam de flores e frutos, e as nuvens de chuva não

vinham para trazer vendavais, mas sim garoas suaves ou tempestades controladas

que traziam a promessa de infestar a grama de minhocas, besouros, formigas saúvas,

e da joaninha que invadira a janela do meu quarto naquela manhã.

— Esse bicho traz sorte — disse meu avô, quando a viu na minha mão assim que

atravessei o corredor perfumado; cheiro de café e pão de queijo são cotidianos para

mim — uma maneira de fazer da memória rotina —, mas, assim como a primavera,

mais vibrante nas memórias da infância.

Eu não sabia ao certo o que a sorte era, mas a sentia a todo instante naquelas tardes

douradas. Correr até a escola, dançar na chuva com meus primos como se a vida

fosse fácil, esperar o almoço perfumado de azeite que vovó fazia para mim todos os

dias. É, a vida era mais fácil, e mais brilhante, à sua maneira, ainda que meu coração

de criança sentisse falta e solidão quando a noite chegava, e joaninha alguma podia

espantar a má sorte que se apoderava do meu peito naqueles momentos à sombra.

Olhando pela janela, eu gostava de observar o passar das horas. Toda manhã o

leiteiro passava; era ordenha fresca, tão fresca quanto o pão francês que meu avô

buscava na padaria. Ao longo da tarde, ainda havia o movimento do céu, tão claro ao

meio dia, com nuvens branquinhas se esticando até se perderem de vista — formas

que eu guardava na cabeça feito um álbum de fotografias; tantas manhãs passadas

colecionando imagens do céu, numa infância ainda mais distante, ao lado de minha

mãe, que inventava formas nas nuvens passageiras: as alfaces da horta da vovó, o
nosso cachorrinho Juca, o Pietro da padaria, um cavalinho que um dia vimos na

estrada.

Anos depois, eu pararia de encontrar plantas e animais no céu, e aqueles desenhos

seriam todos minha mãe: minha mãe na varanda de casa, minha mãe cantando uma

cantiga enquanto preparava o almoço, minha mãe costurando um novo vestido florido,

minha mãe me contando histórias na hora de ir para a cama. Minha mãe por cada

canto do céu, um sorriso eterno que vibrava em violeta quando a noite vinha caindo,

e pintava o entardecer com tons róseos e alaranjados.

Se chovia, o quintal de casa se enchia do melhor tipo de lama: o que suja a barra dos

vestidos velhos e carrega consigo um riso típico das brincadeiras das crianças do

bairro, um cheiro típico de suor infantil inebriando os nossos sentidos, já tão aflorados

para o perceber do mundo. Meu pai, também na infância mais remota, me olhava da

janela com um jornal na mão e uma xícara de café esfriando no parapeito. Às vezes,

os olhos dele se perdiam num ponto além de mim; do meu pai, eu herdei essa

curiosidade tão intensa que extrapola os limites do tangível. A cabeça do meu pai vivia

em outra dimensão, uma que eu sonhava, um dia, quem sabe, em habitar também.

O tempo é traiçoeiro, como dizia mamãe, o que fazia meu pai se torcer de rir numa

valsa lenta de memórias que empilho dentro de mim, tentando reorganizá-las sem me

esquecer dos detalhes — ah, os detalhes. Tão pequenos que numa ventania à toa

podem voar para além das minhas mãos. Ah, a memória. Tento resgatar dela o que

consigo. A idade arrancou de mim essas pequenas preciosidades.

Mamãe e papai, longe demais, rápido demais. A mudança para a casa dos meus avós

foi confusa, muito agitada, numa tarde que não era de primavera, e trazia consigo uma

névoa perene, tão densa que embaçava a minha visão.


Eu era pequena demais para entender o que sentia, mas isso não me impedia de

sentir — e eu sentia com todo o peito aquela falta repentina, sem explicações que me

dessem uma resposta verdadeira. Eu sentia a lágrima fina que escorria sem pedir

licença, o acelerar do coração que não vinha de lugar algum, a lembrança dolorida de

qualquer momento banal que me invadia quando eu não prestava atenção.

O tempo é traiçoeiro; mamãe tinha razão. Mas o tempo passa, e eu atribuo a ele certa

natureza misericordiosa.

A cama do hospital é fria como eu penso ser o inferno, mas há uma árvore que

desponta para dentro do quarto através da janela meio aberta, e logo surge um calor

de alma que me abraça. Setembro indica que a primavera está aqui, me fazendo

lembrar de tudo que deixei para trás, como os ipês do quintal largavam suas flores

para que o vento as transportassem para onde eu pudesse recolhê-las.

E é sorte, eu sei. Guardei as flores dentro de diários, revistas velhas, livros

empoeirados; o perfume foi embora — magnólia, ipê-rosa, flor-do-campo —, mas

persiste em algum canto da minha mente, para onde corri nos meus piores dias, e

para onde aqui caminho, sem pressa.

Há uma foto da minha mãe que escondi num relicário da vovó, um que ela deixou para

que o tempo o enferrujasse. Mamãe não enferruja; o relicário de prata envelhecido

permanece o mesmo há mais de cinquenta anos. Meu pai a espera do lado de fora,

numa foto da sua infância, da época em que ele e vovô colhiam de tudo na hortinha

da vovó a cada nova estação. Mamãe e papai, juntos, formam a esperança que eu

nutri a vida inteira — para onde a gente vai quando morre? —, e que agora dou aos

meus filhos e aos meus netos como uma herança.

A primavera é sorte, eu sei. Flores, frutos, bichos, todos num mesmo acorde. Mamãe

e papai do lado de dentro do mundo, prestes a desabrocharem em lembrança. Eu sigo


avançando para onde o chão não mais me toca — é primavera e eu sou livre.

Joaninhas voam, e eu também.

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