O Ensino e Aprendizagem Musical e o Uso de Aplicativos:
uma Análise Qualitativa
Abstract. Music is a relevant discipline for basic education, and it is possible
to find in the Brazilian National Common Core (BNCC) several skills related
to the realm of musical learning. The process of musical teaching and learning
can utilize various means to achieve its pedagogical objectives. Numerous
authors address the importance of using apps for enhancement in the process.
However, the opportunities and challenges in using apps for the development
of musical skills outlined in the BNCC are not systematized. The aim of this
work is to indicate the possibilities of using musical apps in a formal teaching
and learning context in light of the musical skills to be developed, as defined
by the BNCC.
Resumo. A música é uma disciplina relevante para a educação básica, sendo
possível encontrar na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) diversas
habilidades que se relacionam com o universo da aprendizagem musical. O
processo de ensino e aprendizagem musical pode utilizar diferentes meios
para a efetivação dos seus objetivos pedagógicos. Autoras e autores abordam
a importância do uso de aplicativos para o aperfeiçoamento no processo. No
entanto, as oportunidades e desafios na utilização de aplicativos para o
desenvolvimento das habilidades musicais contidas na BNCC não é
sistematizado. O objetivo deste trabalho é indicar as possibilidades de
utilização de aplicativos musicais em um contexto de ensino e aprendizagem
formal à luz das habilidades musicais a serem desenvolvidas, como definidas
pela BNCC.
1. Introdução
O processo de ensino e aprendizagem musical é multifacetado e pode utilizar diversos
meios para a efetivação dos seus objetivos pedagógicos. Desde elementos que remetem
à pedagogia tradicional, como o ensino tutorial praticado em aulas particulares de
instrumentos musicais até os métodos ativos de educação musical que estiveram em
voga durante os séculos XX e XXI, o professor de música dispõe de uma gama de
recursos pedagógicos que podem ser implementados em sua prática, com o objetivo de
favorecer a aprendizagem dos seus alunos.
Com a popularização dos aplicativos (ou apps) para smartphones surgiram
também aplicativos que podem ser utilizados, com maior ou menor grau de
profundidade e precisão, no ensino musical. Uma busca pela Play Store do Google, por
exemplo, permite encontrar diversas ferramentas que poderiam ser incorporadas às
atividades formais e não-formais de ensino de música. Alguns desses aplicativos
permitem o aprendizado da leitura de partituras (como, por exemplo, o DoReMi Notas e
o Claves), o refinamento de habilidades relacionadas à percepção musical, como o
reconhecimento de intervalos e acordes musicais, a simulação de um piano e até mesmo
a criação musical (Ouvido, Music Dication Lite e Solfeador).
A música é uma disciplina relevante para a educação básica, conforme pode-se
constatar na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Lei nº 9.394/96 [BRASIL 1996]. A
Lei nº 13.278, de 2016, incluiu a música como uma das quatro linguagens obrigatórias a
serem trabalhadas dentro da disciplina de Arte na escola básica. A Base Nacional
Comum Curricular (BNCC), enfatiza que a obtenção e expansão dos conhecimentos
musicais implica “percepção, experimentação, reprodução, manipulação e criação de
materiais sonoros diversos, dos mais próximos aos mais distantes da cultura musical dos
alunos”. Tais habilidades e competências são relevantes para a formação global do
sujeito.
Na BNCC podem-se encontrar diversas habilidades que se relacionam com o
universo da aprendizagem musical. Por exemplo, a habilidade EI03TS03 visa estimular
o reconhecimento das qualidades do som (intensidade, duração, altura e timbre), como
forma de enriquecer o processo de escuta musical e de produção sonora. Essa habilidade
tem natureza técnica e pode ser intensificada e aprimorada com a utilização consistente
de aplicativos [NOVA ESCOLA 2022]. No entanto, as oportunidades e desafios na
utilização de aplicativos para o desenvolvimento das habilidades musicais contidas na
BNCC não é sistematizado. Com base em ampla revisão nos artigos publicados nos
anais do Congresso Brasileiro de Informática na Educação (CBIE) desde 2012 e buscas
no Google Scholar utilizando strings de busca relacionadas ao tema, não foram
localizados trabalhos semelhantes. Sem uma sistematização, corre-se o risco de a
escolha dos aplicativos ser feita de maneira aleatória, podendo, até mesmo, prejudicar o
processo de ensino-aprendizagem musical. Neste sentido, o objetivo deste trabalho é
indicar as possibilidades de utilização de aplicativos musicais em um contexto de ensino
e aprendizagem formal à luz das habilidades musicais a serem desenvolvidas nos
educandos, como definidas pela BNCC.
2. Revisão da Literatura
Diversos autores abordam a importância do uso dos aparelhos digitais, dos dispositivos
tecnológicos e de aplicativos relevantes para o aperfeiçoamento do processo de ensino e
aprendizagem musical. Duarte (2014) investigou o tema, concluindo que o uso dos
aparelhos digitais e dos aplicativos podem ser úteis na educação musical, porém
apresentam caráter complementar, não podendo substituir as aulas regulares e tampouco
o professor de música. O autor destaca que alguns aplicativos nem são a princípio
pensados para propósitos educacionais, mas podem ser utilizados com tal finalidade. Já
na época da pesquisa do autor havia uma grande quantidade de aplicativos musicais, que
continuam sendo desenvolvidos atualmente.
Xydas (2014) afirma que os alunos podem aprender mais através da composição
do que com a execução do instrumento. Em suas aulas, os novos conteúdos ensinados se
tornam exercícios de composição sobre a nova proposta. As tecnologias democratizam
esse aspecto, já que qualquer aluno pode produzir sua música e divulgá-la na internet,
desde que disponha dos meios tecnológicos para tanto. Xydas afirma que o uso do iPad
facilita diversas tarefas e ainda permite estar em contato com o universo dos seus
alunos, o que é outra questão que os profissionais da educação precisam abraçar. O
autor afirma que alguns desses aplicativos são essencialmente pedagógicos, enquanto
outros não são pedagógicos, mas podem ser utilizados com tal finalidade.
Duarte e Marins (2015) pesquisam possibilidades de utilização de dispositivos
móveis na educação musical. Enfatizam a importância do uso de softwares livres devido
aos custos de implantação nas escolas. É importante frisar que isso amplia o acesso dos
alunos, já que os custos de compra ou assinatura do software costumam ser elevados.
Esse argumento corrobora a proposta do presente estudo de trabalhar apenas com
aplicativos de uso gratuito.
Carvalho e David (2021) pesquisaram as contribuições, limitações,
procedimentos e metodologia relacionadas ao uso do aplicativo Perfect Piano e outras
tecnologias digitais da informação e comunicação (TDIC) para o ensino remoto de
música. Os aplicativos foram considerados como instrumental capaz de incorporar
elementos favoráveis ao ensino. O aplicativo Perfect Piano é um dos mais buscados na
Play Store. Foi programado para o Android e pode ser usado para ensinar melodias. Os
usuários podem gravar suas performances em Musical Instrument Digital Interface
(MIDI), facilitando o compartilhamento dos arquivos de áudio.
Da leitura dos autores supracitados, podem ser extraídas algumas categorizações que
auxiliam na condução dessa pesquisa: (i) os autores enfatizam a importância do uso de
dispositivos tecnológicos como fator de enriquecimento da relação de ensino-
aprendizagem musical; (ii) a aprendizagem musical com natureza ativa, isto é, com a
interação direta do aluno com os sons, ritmos e com a produção sonora, tendem a ter um
impacto positivo em detrimento da pedagogia convencional. Nesse sentido, a utilização
dos aplicativos pode estimular o contato direto dos alunos com o fenômeno musical,
sem a necessidade de intervenção constante do professor explicando conceitos teóricos
que precedem a prática musical, e; (iii) o fator de acessibilidade ampla ao meio
tecnológico empregado é enfatizado. Portanto, as TDICs adotadas devem estar
acessíveis para celulares de custo módico e devem apresentar licença gratuita, como
forma de democratizar o acesso às ferramentas.
3. Metodologia
Neste estudo optou-se por selecionar, dentre os aplicativos disponíveis, 10 que
pudessem ser incorporados às aulas de música e contribuíssem para o processo de
ensino e aprendizagem. No processo de busca na Play Store foram digitadas expressões
como “Música”, “Educação Musical”, Solfejo, Music, “Ear Training” (treinamento
auditivo), “Music Education”, “Partituras”, “Leitura musical”, “Leitura de partituras”. O
uso de alguns termos em inglês teve por objetivo uma pesquisa mais abrangente, visto
que boa parte dos recursos bibliográficos e tecnológicos na área de música estão
disponíveis neste idioma. A busca, portanto, foi baseada em palavras-chave que
caracterizam o campo da educação musical. Embora haja muitos aplicativos
relacionados nas buscas, optou-se por aqueles com melhor avaliação, maior número de
downloads, disponibilidade para Android e com design atrativo, visto que o fator visual
também é relevante em estimular a opção por um aplicativo em detrimento de outro.
Observou-se também se a descrição e os comentários dos usuários permitiam inferir se
tratar de um aplicativo adequado para utilização em aulas de música.
A seguir (Tabela 1), pode-se conferir a lista de aplicativos selecionados
juntamente com sua principal característica. Para desenvolvimento do estudo, utilizou-
se uma abordagem (paradigma) qualitativa, considerando o objetivo de conhecer a
efetividade das ferramentas pedagógicas à luz da BNCC proporcionadas pelos 10
aplicativos selecionados, em detrimento de um levantamento estatístico dos recursos
que eles apresentam.
Tabela 1. Aplicativos analisados
App Característica
Voltado para o treinamento auditivo, cuja principal característica consiste em
Acerte a Nota identificar auditivamente quais são as notas tocadas durante um período
determinado
Estimula o treinamento visual e auditivo da notação musical, permitindo ao
Claves
usuário melhorar suas habilidades de leitura à primeira vista
Identificação o nome das notas que são mostradas na pauta e sua possível
DoReMi Notas
relação com as teclas do piano
Treinamento auditivo e de solfejo, que são habilidades necessárias para o
Meu Solfejo
desenvolvimento da percepção musical do estudante
Music Tutor Identificação do nome das notas que são mostradas na pauta
Identificação da sequência de notas ditadas (tocadas pelo aplicativo) e colocá-las
Music Dictation Lite
na pauta musical
Identificação o nome da nota que está sendo tocada e sua localização no
Ouvido
instrumento
Rithm Trainer Desenvolvimento da percepção rítmica
Solfeador Identificação do nome das notas que são mostradas na pauta
Consulta do significado de palavras e expressões musicais, funcionando como
Teoria da Música
uma espécie de dicionário musical
A primeira etapa da pesquisa consistiu na seleção de aplicativos disponíveis na
Play Store seguindo os critérios supracitados. A segunda etapa da pesquisa consistiu na
análise dos potenciais e limitações pedagógicos dos 10 aplicativos como ferramentas
para o ensino das seguintes habilidades musicais: leitura rítmica, leitura de partituras e
treinamento auditivo. Embora todas sejam habilidades e competências com natureza
técnica, entende-se que são ferramentas essenciais para determinar o grau de domínio de
um músico sobre esse campo do conhecimento. Sem o treinamento desses três aspectos,
qualquer avanço nos estudos musicais se torna limitado ou até mesmo impossível. Tais
competências são apontadas na BNCC como a capacidade de imaginar e relacionar os
sons, estimulando o raciocínio e a criatividade [BNCC 2017, p. 154].
Como forma de visualizar possibilidades de aplicação concreta dos aplicativos
pesquisados no contexto de educação musical formal, decidiu-se selecionar um grupo de
habilidades e competências musicais que devem ser construídas no ensino básico,
conforme previstas na BNCC. Neste estudo, foram selecionados 5 componentes
previstos para o ensino fundamental na disciplina de Artes, relacionados à Música, a fim
de relacionar os objetivos pedagógicos com as possibilidades educacionais oferecidas
pelos aplicativos.
Dentre os componentes selecionados, alguns apresentavam grande amplitude
pedagógica, por isso decidiu-se repartir os seus objetivos como se fossem códigos
distintos. Isso produziu um total de oito categorias de análise que foram desenvolvidas
durante a pesquisa. Os códigos selecionados foram EF15AR13, EF15AR14,
EF15AR15, EF15AR16 e EF15AR17. Percebe-se que todos estão voltados para o
ensino fundamental e para o ensino de artes. Os códigos com final 14, 15 e 16 são
aqueles cuja amplitude pedagógica foi dividida, permitindo a criação de outras três
categorias de análise. A Tabela 2 a seguir enumera os 5 códigos da BNCC selecionados,
subdivididos nas 8 categorias de análise propostas para o estudo e a descrição das suas
características, que descrevem as habilidades e competências a serem trabalhadas em
sala de aula pelos professores.
Tabela 2. Competências musicais da BNCC
# Código BNCC Característica
1 EF15AR13 Reconhecer e analisar os usos e as funções (apreciação, musicoterapia,
socialização) da música em diversos contextos (escolar, familiar, social,
religioso)
2 EF15AR14 Perceber e explorar os elementos constitutivos da música (altura, intensidade,
timbre, melodia, ritmo, harmonia)
3 EF15AR14 (2) Perceber e explorar os elementos constitutivos da música por meio de jogos
4 EF15AR15 Explorar fontes sonoras diversas, como as existentes no próprio corpo (palmas,
voz, percussão corporal), na natureza e em objetos cotidianos (colher, panela)
5 EF15AR15 (2) Reconhecer as características de instrumentos musicais variados (violão, piano,
violino, violoncelo)
6 EF15AR16 Explorar diferentes formas de registro musical não convencional (representação
gráfica de sons, partituras criativas)
7 EF15AR16 (2) Reconhecer a notação musical convencional
8 EF15AR17 Experimentar improvisações e composições (utilizando instrumentos
convencionais ou não-convencionais)
Após sistematizar esses códigos e as habilidades e competências que visam
desenvolver, foi feita uma correlação com as propostas pedagógicas dos aplicativos
analisados, na tentativa de encontrar até que ponto essas TDICs seriam recursos
pedagógicos úteis para aperfeiçoar a qualidade do ensino de música na educação básica,
bem como suas respectivas limitações.
4. Resultados
O estudo permitiu investigar com profundidade 10 aplicativos que podem ser utilizados
como ferramentas de ensino musical em salas de aula da educação básica e em
instituições de ensino vocacional, como conservatórios e cursos livres de música. Para
servir como parâmetro de análise do potencial pedagógico dos aplicativos, foram
selecionados componentes da BNCC que apresentam competências e habilidades que
devem ser trabalhadas no ensino básico por meio das aulas de música. Como alguns
desses componentes possuem uma ampla abrangência, para esse estudo decidiu-se
subdividi-los em 8 categorias de análise, para melhor correlação com as TDICs
estudadas.
A Tabela 3 apresenta a aplicabilidade de cada um dos aplicativos em relação aos
códigos selecionados da BNCC. Alguns dos principais dados extraídos dessa análise
serão apresentados a seguir.
Tabela 3. Habilidades da BNCC promovidas pelos aplicativos
App / Código
#1 #2 #3 #4 #5 #6 #7 #8
BNCC
- Identificação
de notas em um
período
- Premiação por
Altura,
Acerte a Nota Não acerto de nota Não Não Não Não Não
Timbre
- Mensagens de
incentivo/alerta
- Quantitativo de
acertos/erros
Altura, - Identificação Treinamento
Claves Não Não Não Não Não
Timbre de notas Visual e
- Premiação por auditivo de
acerto de nota notação
- Quantitativo de (Leitura à
acertos/erros primeira vista)
- Identificar o
nome das notas
que são
mostradas na
pauta
- Treinamento
Visual e
auditivo de
notação
Piano (opção (Leitura à
- Identificação
de mostrar primeira vista)
de notas
Altura, teclas do - Identificar o
DoReMiNotas Não - Cores Não Não Não
Timbre piano para nome das notas
indicando
escolha da que são
acertos/erros
nota) mostradas na
pauta e sua
possível
relação com as
teclas do piano
Meu Solfejo Não Timbre Não Voz Não Não Não Não
- Identificação
- Treinamento
de notas
Visual e
- Premiação por
auditivo de
acerto de nota
notação
- Cores
(Leitura à
Altura, indicando
Music Tutor Não Não Não Não primeira vista) Não
Timbre acertos/erros
- Identificar o
- Cronômetro
nome das notas
para realização
que são
das tarefas
mostradas na
- Quantitativo de
pauta
acertos/erros
- Treinamento
- Identificação
auditivo
de notas
(ditado
- Cores
melódico)
Altura, indicando
Musical - Identificar a
Não Timbre, acertos/erros Não Não Não Não
Dictation Lite sequência de
Ritmo - Mensagens de
notas ditadas
incentivo/alerta
(tocadas) e
- Quantitativo de
colocá-las na
acertos/erros
pauta
- Identificação
Piano,
de notas
Violão,
- Cores
Altura, Baixo,
Ouvido Não indicando Não Não Não Não
Timbre Violino,
acertos/erros
Violoncelo e
- Quantitativo de
Contrabaixo
acertos/erros
- Treinamento
percepção
- Identificação rítmica
de ritmo - reproduzir os
Rhythm Trainer Não Ritmo - Cores Não Não Não ritmos Não
indicando mostrados por
acertos/erros meio de toques
na tela no
telefone/tablet
- Identificação - Treinamento
de notas Visual e
- Cores auditivo de
indicando notação
Altura, acertos/erros (Leitura à
Solfeador Não Não Não Não Não
Timbre - Cronômetro primeira vista)
para realização - Identificar o
das tarefas nome das notas
- Quantitativo de que são
acertos/erros mostradas na
pauta
Apresenta
a música
de Perceber
diferentes conceitos
Teoria da
períodos básicos Não Não Não Não Não Não
Música
históricos; de teoria
Apresenta musical
a música
religiosa
A primeira categoria de análise, referente ao código EF15AR13, só foi
encontrada por um dos aplicativos analisados nesta pesquisa, o Teoria da Música. Os
professores até podem fomentar a socialização por meio da música estimulando os
alunos a trabalharem em grupos com as TDICs selecionadas, mas não se observou uma
ênfase específica desses recursos pedagógicos relacionada ao reconhecimento e análise
dos usos e funções da música em diferentes contextos sociais. No caso do aplicativo
Teoria da Música, são apresentados exemplos musicais de diferentes períodos
históricos, incluindo a música sacra.
A segunda categoria de análise lida com o código EF15AR14, tendo como
ênfase a percepção dos elementos constitutivos da música, que são a altura, a
intensidade, o timbre, a melodia, o ritmo e a harmonia. Neste aspecto, percebeu-se que
os 10 aplicativos selecionados podem ser ferramentas pedagógicas úteis na prática
docente. Oito deles abordam aspectos relacionados ao timbre. Sete deles lidam com o
elemento altura. Um deles lida com os aspectos altura, timbre e ritmo, sendo, portanto, o
mais completo para trabalhar esse código da BNCC. Trata-se do aplicativo Musical
Dictation Lite. O aplicativo Meu Solfejo é o único que lida apenas com o timbre, sendo
que todos os outros lidam com timbre e altura, enquanto o aplicativo Rhythm Trainer é
o único que lida apenas com o ritmo. O aplicativo Teoria da Música tem como enfoque
perceber conceitos básicos de teoria musical. Uma combinação adequada desses
aplicativos pode ser um recurso interessante para aulas de música no ensino
fundamental. Nenhum dos aplicativos selecionados lida com harmonia e melodia, o que
seria uma possibilidade para desenvolvimento futuro de aplicativos que contemplem
esses conteúdos da formação musical.
A terceira categoria de análise é um desdobramento da EF15AR14(2) e tem
como enfoque perceber e explorar os elementos constitutivos da música por meio de
jogos. O detalhamento sobre as possibilidades pedagógicas de cada um dos aplicativos
analisados pode ser observado na Tabela 3. Nessa lista, observou-se que o aplicativo
Meu Solfejo não ofereceu contribuição pedagógica evidente. Todos os outros
aplicativos analisados apresentaram aspectos de gamificação que estimulam o caráter
lúdico do uso da TDIC, sempre auxiliando o aluno no seu desenvolvimento de
competências e habilidades musicais. Alguns desses aspectos de gamificação incluem a
soma ou perda de pontos atrelada ao erro ou acerto do nome das notas, mensagens de
incentivo, pontuação ao final da partida, ranqueamento de notas, sons relacionados ao
ganho de tempo extra ou poder, limitação do número de erros possíveis, possibilidade
de modulação da dificuldade (fácil, médio ou difícil), feedback (comentário) imediato
de erros e acertos, limitação de tempo para terminar uma tarefa ou fase, porcentagem da
precisão de acertos, impossibilidade de avançar no jogo sem cumprir as etapas ou fases
anteriores. O aplicativo Rhythm Trainer utiliza a aprendizagem por imitação, visto que
o usuário repete os ritmos executados. O aplicativo Solfeador utiliza estrelas como
mecanismo de avaliação para determinar se é possível ou não passar para o próximo
estágio, além de apresentar o tempo restante para a execução da tarefa.
A quarta categoria de análise adotada está relacionada ao código EF15AR15 e
visa explorar fontes sonoras diversas. Percebe-se uma relação estreita com as
metodologias ativas do ensino de música, de modo que, para que possa utilizar uma
metodologia ativa, seria necessário aliar o uso do aplicativo com outras atividades que
estimulassem o protagonismo discente e permitissem o aperfeiçoamento de
competências e habilidades teóricas mediadas pelo uso da TDIC selecionada. Explorar
fontes sonoras diversas é uma atividade que pode ser mais bem desempenhada por meio
de vivências musicais que envolvam a movimentação do corpo, a escuta ativa e a
interação com fontes sonoras diversas. O uso de dispositivos móveis e aplicativos neste
contexto poderia ser limitante, do ponto de vista didático. Dentre os aplicativos
analisados, apenas o Meu Solfejo permitiu uma interação direta dessa natureza, visto
que utiliza a voz como ferramenta pedagógica. Em uma sala de aula regular, o professor
poderia explorar o próprio corpo dos alunos e objetos cotidianos como fontes sonoras.
Tais tarefas, entretanto, devem ser realizadas sem a mediação de um smartphone. Isso
não impede, entretanto, que os aplicativos com conteúdos teóricos sejam incorporados a
outras atividades que utilizem metodologias ativas.
A quinta categoria de análise é também um desdobramento do código
EF15AR15(2) e visa ao reconhecimento das características de instrumentos musicais
variados, tais como o violão, o piano, o violino e o violoncelo. Neste ponto, 2 dos
aplicativos selecionados se mostraram bastante úteis, o DoReMi Notas, que permite a
identificação do timbre do piano e o Ouvido, que é o mais completo neste quesito,
porque permite a identificação dos timbres do piano, violão, baixo, violino, violoncelo e
contrabaixo. Além disso, a interface permite escolher o reconhecimento das notas por
meio de teclas ou cordas, ampliando a familiaridade do aluno com as duas superfícies
de execução das notas.
A sexta categoria de análise se baseia no código EF15AR16 e tem como
objetivo explorar diferentes formas de registro musical não convencional. Nenhum dos
aplicativos analisados favorece a aplicação deste código, porque ele também se
relaciona intimamente com atividades musicais que deveriam ocorrer com vivências
corporais e sonoras, ou seja, necessitam de ações pedagógicas não mediadas por um
dispositivo tecnológico de baixo custo. A escrita musical depende de símbolos que
representem a altura (sons agudos, médios e graves), duração (sons curtos, médios e
longos), intensidade dos sons (sons fortes e fracos), além de representarem o silêncio
(pausas), articulações (a maneira como os diferentes sons se interconectam).Tais
mecanismos de notação musical são complexos, porque, além de o aplicativo permitir
todos esses registros escritos, deveria permitir a manipulação dos mesmos,
possibilitando as atividades de criação musical. Seria necessário o desenvolvimento de
um aplicativo ou software mais sofisticado, provavelmente pago, dedicado a essas
atividades de criação musical, o que diminuiria o acesso à ferramenta, tornando-a
inviável para a realidade de muitas instituições de ensino brasileiras.
A sétima categoria de análise também se baseia no código EF15AR16(2), tendo
por finalidade o reconhecimento da notação musical convencional. Essa habilidade é um
dos principais paradigmas da pedagogia musical tradicional, que associa o
conhecimento musical à capacidade de leitura e compreensão da notação musical. Seis
dos aplicativos analisados auxiliam nesse aspecto, sendo eles: Claves, DoReMiNotas,
Music Tutor, Musical Dictation Life, Rhythm Trainer e Solfeador. Percebeu-se que a
abordagem pedagógica dos seis é complementar e muito similar em termos de
conteúdos. Favorecem o treinamento visual e auditivo da notação musical,
desenvolvendo habilidades de leitura à primeira vista e exigem a identificação do nome
das notas mostradas na pauta musical. No caso do DoReMiNotas, deve-se fazer uma
associação das notas identificadas com as teclas do piano e, no caso do Musical
Dictation Life, deve-se identificar a sequência de notas ditadas (tocadas) e colocá-las na
pauta. O Rhythm Trainer tem um enfoque específico no treinamento da percepção
rítmica e leva o usuário a reproduzir os ritmos mostrados por meio de toques na tela do
dispositivo. Apesar dessas nuances, percebe-se que a proposta pedagógica dos seis
aplicativos é similar no que concerne ao código da BNCC destacado.
A oitava categoria de análise destacada também apresentou uma dificuldade.
Trata-se do código EF15AR17, que estimula a prática de improvisações e composições,
com instrumentos convencionais ou não-convencionais. Tais práticas poderiam ser
desenvolvidas com mediação tecnológica, mas dependeria de aplicativos ou softwares
mais sofisticados, possivelmente pagos, o que inviabilizaria um uso amplo nas escolas
básicas brasileiras. Nenhum dos aplicativos selecionados mostrou-se útil para
desenvolver a capacidade de criação musical nos alunos.
5. Conclusão
Após considerar os resultados obtidos no estudo, percebeu-se que os aplicativos
pesquisados podem oferecer importantes recursos para aulas de música no ensino
básico. Todos os 10 aplicativos selecionados estão disponíveis tanto no Android quanto
no IOS, podem ser utilizados sem conexão com a Internet e são gratuitos. Embora dois
dos aplicativos tenham opções pagas, os acréscimos recebidos na versão premium não
alteram significativamente a experiência do usuário a ponto de justificar a aquisição.
Percebeu-se uma ênfase no ensino da notação musical e alguns fundamentos
musicais, como padrões rítmicos, identificação de timbres, reconhecimento de notas,
leitura em diferentes claves e diferenciação da altura das notas. Todos esses são
conceitos importantes e muito associados à pedagogia musical tradicional. Embora as
metodologias ativas do ensino musical, muito difundidas nos séculos XX e XXI, tentem
ampliar o alcance da educação musical, não restringindo a disciplina aos aspectos
associados à leitura e interpretação de partituras, fato é que não se pode negligenciar o
desenvolvimento dessas competências e habilidades, que ainda estão distantes da
realidade de muitos alunos brasileiros.
Percebeu-se também que a amostragem de aplicativos selecionadas permitiu
reunir uma quantidade considerável de recursos pedagógicos para auxiliar no ensino de
música, especialmente no que concerne a leitura de notas, identificação de alturas, de
timbres, identificação de padrões rítmicos, associação das notas musicais às teclas no
piano e até algumas informações de caráter histórico e estilístico, sobre os diferentes
períodos da História da Música. Tudo isso feito gratuitamente, de forma democrática e
acessível e ainda explorando o elemento da ludicidade, já que os aplicativos são
organizados como jogos, combinando as atividades educacionais com momentos de
lazer.
Os códigos da BNCC que não foram abordados por esses aplicativos exigem um
ambiente de realização que não pode ser facilmente reproduzido em um aplicativo ou na
tela de um dispositivo móvel. Para explorar sonoridades de instrumentos não-
convencionais ou realizar atividades de criação musical (composição e improvisação),
são necessários outros meios que não estão previstos pelos aplicativos ou exigem
aplicativos e softwares mais complexos, que normalmente cobram pelos serviços. Isso
seria um dificultador para a utilização dessas TDICs em salas de aula do ensino
fundamental de muitas instituições de ensino brasileiras.
Percebeu-se que o uso de aplicativos voltados para o ensino de música podem
ser recursos eficientes para o uso em sala de aula, auxiliando os professores de música
na transmissão dos conteúdos da disciplina e servindo como importante fator de
motivação para envolver os alunos com a prática durante as aulas e em casa, já que os
aplicativos se apresentam como jogos e podem ser utilizados como fonte de lazer no
contraturno.
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