Microeconomia II - Teoria do Consumidor
Dualidade do problema do consumidor
1º Semestre de 2020
Suponha um consumidor cujas preferências são representadas pela seguinte função utilidade: u(x, y) =
x1/2 + y 1/2 . Vamos encontrar as demandas marshallianas e hicksianas por x e por y desse consumidor
resolvendo os problemas “primal” e “dual”. Vamos também mostrar que os mesmos resultados podem
ser obtidos usando a Identidade de Roy e o Lema de Shephard. Começando pelo problema primal desse
consumidor, temos que:
max u(x, y) = x1/2 + y 1/2 s.a. px x + py y = I
x,y
O lagrangeano correspondente é:
L = x1/2 + y 1/2 + λ[I − px x − py y]
Derivando as condições de primeira ordem, temos que:
1
[x] : − λpx = 0
2x1/2
1
[y] : 1/2 − λpy = 0
2y
[λ] :I − px x − py y = 0
y 1/2 px p2 x
No ótimo, T M S = 1/2
= . Logo, substituindo y = x2 na restrição orçamentária obtemos a seguinte
x py py
expressão para a demanda marshalliana de x:
py I py I
x∗ = =
p2x + px py px (px + py )
E, portanto, a demanda marshalliana por y é igual a:
px I px I
y∗ = =
p2y + px py py (px + py )
Para encontrar a função utilidade indireta desse consumidor, basta substituir as demandas marshallianas na
função utilidade (função objetivo do problema de maximização). Assim, temos:
1/2 1/2
(px + py )1/2 I 1/2
py I px I
V (px , py , I) = + = 1/2 1/2
px (px + py ) py (px + py ) px py
Note que podemos obter as demandas marshallianas a partir da função utilidade indireta usando a Identidade
de Roy. Assim, temos que:
∂V /∂px
x∗ = −
∂V /∂I
∂V /∂py
y∗ = −
∂V /∂I
1
Para não nos perdermos nas contas, vamos dividir o problema em partes. Primeiramente, vamos calcular
∂V
. Assim,
∂px
∂V I 1/2 I 1/2 (px + py )1/2 I 1/2 py
= 1/2 1/2
− 3/2 1/2
=− 3/2 1/2
∂px 2(px + py )1/2 px py 2px py 2(px + py )1/2 px py
Do mesmo modo,
∂V (px + py )1/2
= 1/2 1/2
∂I 2I 1/2 px py
Finalmente, encontramos a demanda marshalliana por x:
∂V /∂px py I
x∗ = − =
∂V /∂I px (px + py )
Analogamente, podemos encontrar a demanda marshalliana por y seguindo os mesmos passos de antes.
Assim, vamos encontrar que:
∂V I 1/2 I 1/2 (px + py )1/2 I 1/2 px
= 1/2 1/2
− 3/2 1/2
=− 1/2 3/2
∂px 2(px + py )1/2 px py 2py px 2(px + py )1/2 px py
E, portanto,
∂V /∂py px I
y∗ = − =
∂V /∂I py (px + py )
Vamos agora resolver o problema de minimização de gastos do consumidor. Note que o problema dual é
dado por:
min px x + py y s.a. x1/2 + y 1/2 = ū
x,y
O lagrangeano correspondente é:
L = px x + py y + λ[ū − x1/2 − y 1/2 ]
Derivando as condições de primeira ordem, temos que:
1
[x] :px − λ =0
2x1/2
1
[y] :py − λ 1/2 = 0
2y
[λ] :ū − x1/2 − y 1/2 = 0
y 1/2 px p2x x
No ótimo, T M S = = . Logo, substituindo y = na função utilidade (terceira equação das
x1/2 py p2y
condições de primeira ordem), temos que a demanda hicksiana por x é dada por:
p2y ū2
xh =
(px + py )2
E, portanto, a demanda hicksiana por y é igual a:
p2x ū2
yh =
(px + py )2
Para encontrar a função dispêndio desse consumidor, basta substituir as demandas hicksianas na restrição
orçamentária (função objetivo do problema de minimização). Assim, temos:
p2y ū2 p2x ū2 px py ū2
E(px , py , ū) = px 2
+ py 2
=
(px + py ) (px + py ) px + py
2
Note que podemos obter as demandas hicksianas a partir da função dispêndio usando o Lema de Shephard.
Assim, temos que:
∂E
xh =
∂px
∂E
yh =
∂py
E, portanto, a demanda hicksiana por x é dada por:
py ū2 (px + py ) − px py ū2 p2y ū2
xh = =
(px + py )2 (px + py )2
Analogamente, podemos encontrar a demanda hicksiana por y seguindo os mesmos passos de antes. Assim,
vamos encontrar que:
p2x ū2
yh =
(px + py )2
Obs: Note que a função dispêndio é a inversa da função utilidade indireta. Em termos práticos, para
encontrar a função dispêndio a partir da utilidade indireta basta “isolar” a renda I e trocar as letras! O
mesmo raciocı́nio vale para encontrarmos a função utilidade indireta a partir da função dispêndio.
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Microeconomia II - Resolução Lista 01 Professor: Darcio Genicolo Martins 1º Semestre de 2023
Questão 1.
A inclinação da restrição orçamentária, que antes era −px /py , tornou-se −4px /2py = 2px /py, ou seja, a
inclinação da restrição orçamentária dobrou. Isso significa que o bem x passou a custar o dobro em termos
do bem y. Portanto, podemos afirmar que o bem x se tornou relativamente mais caro do que o bem y.
Questão 2.
a. A mudança na restrição orçamentária dada por um aumento no preço da cerveja pode ser representada
da seguinte maneira:
b. O aumento no preço da cerveja diminui o bem-estar do consumidor caso ele compre esse bem. Note
que se o consumidor não consomir cerveja, então o aumento no preço desse bem não terá consequência
no seu bem-estar.
Questão 3.
a. Falso
A função demanda marshalliana é homogênea de grau 0 nos preços e na renda. Note que o preço do
livro não mudou.
b. Falso
Uma redução na renda nominal do consumidor em 50% é equivalente a um aumento de 100% em todos
os preços, pois
I
p1 x1 + p2 x2 + · · · + pn xn = ⇔ (2p1 )x1 + (2p2 )x2 + · · · + (2pn )xn = I
2
c. Verdadeiro
Todas as cestas pelas quais o consumidor podia pagar antes continuam a poder ser adquiridas aos
novos preços e renda.
3
Questão 4.
a. Note que se o consumidor decidir comprar 6 unidades de um dos bens, ele pagará $1 pelas cinco
primeiras unidades e $2 pela sexta unidade adquirida. Como a renda total é igual $10, o consumo do
bem 2 deverá ser necessariamente menor que 5 unidades. Logo, se ele consumir ao todo x1 unidades do
bem 1 e x2 unidades do bem 2, então o gasto total desse consumidor será dado por 5+2(x1 −5)+x2 = 10.
Analogamente, se o consumidor decidir comprar mais de cinco unidades do bem 2, então a restrição
orçamentária será dada por x1 +5+2(x2 −5) = 10. Portanto, podemos escrever a restrição orçamentária
da seguinte forma: (
5 + 2(x1 − 5) + x2 = 10, se x1 > 5, 0 ≤ x2 ≤ 5
x1 + 5 + 2(x2 − 5) = 10, se x2 > 5, 0 ≤ x1 ≤ 5
Tais equações podem ser reescritas da seguinte maneira:
(
2x1 + x2 = 15, se x1 > 5, 0 ≤ x2 ≤ 5
x1 + 2x2 = 15, se x2 > 5, 0 ≤ x1 ≤ 5
b. A restrição orçamentária pode ser representada graficamente da seguinte maneira:
Questão 5.
Para que as preferências sejam racionais devem valer os axiomas de completude e transitividade. Note
que as preferências são completas, mas não são transitivas. Portanto, o indivı́duo não tem preferências
racionais.
Questão 6.
a. A relação é transitiva e completa.
b. A relação é transitiva, mas não é completa.
c. A relação é transitiva, mas não é completa.
Questão 7.
a. Verdadeiro
Se duas curvas de indiferença se cruzassem, o axioma da transitividade seria violado.
b. Verdadeiro
Racionalidade (completude e transitividade) e continuidade são condições necessárias e suficientes para
que uma preferência seja representada por uma função utilidade. Note que a representação não é única.
c. Falso
Se as preferências forem do tipo substitutos perfeitos, por exemplo, Paulo estará indiferente entre as
três cestas.
d. Verdadeiro
A hipótese de convexidade estrita implica preferência por consumo de cestas balanceadas.
Questão 8.
Alternativa D
De acordo com o enunciado, temos que T M S = U M g(pizza) 10
U M g(ref ri) = 5 = 2, ou seja, o consumidor está disposto
a trocar 2 refrigerantes por 1 pizza de modo a manter a sua utilidade constante. Analisando as alternativas
temos que a única correta é a D, pois ao consumir a cesta (4, 8) o consumidor trocou 1 pizza por 1 refrigerante,
taxa insuficiente para mantê-lo na mesma curva de indiferença.
4
Questão 9.
a. Para (x, y) = (2, 8), temos que U (2, 8) = 20,5 80,5 = 4. Assim, para que o ponto (16, y) esteja sobre a
mesma curva de indiferença, precisamos que a utilidade da cesta (16, y) seja a mesma da cesta (2, 8).
Logo, U (16, y) = 4 ⇒ 160,5 y 0,5 = 4 ⇒ y = 1.
U M gX y 8 4
b. Note que T M S = = . Assim, T M S(2, 8) = = 4; T M S(4, 4) = = 1; e, finalmente,
U M gY x 4 4
1
T M S(16, 1) = .
16
Obs: Note que a T M S é decrescente (isso acontece quando as preferências são estritamente convexas,
como é o caso das preferências do tipo Cobb-Douglas).
Questão 10.
a. A utilidade marginal de um bem é a utilidade que o consumo de um pouco a mais do bem traria para
o indivı́duo. No caso da Cobb-Douglas:
∂U (x, y) y 0,5
U M g(x) = = 0, 5
∂x x
0,5
∂U (x, y) x
U M g(y) = = 0, 5
∂y y
Note que as utilidades marginais de x e de y são decrescentes em x e em y, respectivamente. A T M S,
por sua vez, será dada por:
U M g(x) y
TMS = =
U M g(y) x
Note que a T M S é decrescente em x. Portanto as curvas de indiferença da Cobb-Douglas são estrita-
mente convexas.
b. Como a função de utilidade é derivável, temos que
∂U (x, y)
U M g(x) = =3
∂x
∂U (x, y)
U M g(y) = =1
∂y
Note que as utilidades marginais são constantes. Portanto, a T M S é igual a:
U M g(x)
TMS = =3
U M g(y)
Isso quer dizer que o indivı́duo sempre está disposto a trocar três unidades de y por uma unidade
a mais de x (independentemente da quantidade de x e y que ele esteja consumindo) para se manter
com o mesmo nı́vel de utilidade. Note que a T M S não é decrescente em x. Portanto, as curvas de
indiferença dos substitutos perfeitos não são estritamente convexas. Tais preferências serão apenas
convexas. Tente explicar esse fato desenhando as curvas de indiferença.
c. A curva de indiferença dessa função de utilidade não é derivável em todos os pontos. Podemos reescrever
essa função da seguinte forma:
4x,
se 4x < y
U (x, y) = 4x ou y, se 4x = y
y, se 4x > y
5
Logo, temos que
4, se 4x < y
U M g(x) = 0, se 4x = y
0, se 4x > y
e
0, se 4x < y
U M g(y) = 0, se 4x = y
1, se 4x > y
A partir das utilidades marginais, podemos determinar a T M S, como função das relações entre x e y:
∞,
se 4x < y
T M S = indefinida, se 4x = y
0, se 4x > y
Analisando o gráfico das preferências do tipo complementares perfeitos é possı́vel notar que as curvas
de indiferença dessa função utilidade são convexas, mas não estritamente convexas.
Questão 11.
a. Falso
De acordo com o enunciado, a T M S de Lúcio é igual a 2, enquanto a T M S de Camila é igual a 5.
Note que ao mudar suas escolhas de (livros, jogos) = (3, 6) para (livros, jogos) = (4, 5), Lúcio trocou
1 jogo de videogame por 1 livro. Portanto, como a taxa de troca foi mais vantajosa se comparada
àquela taxa que o deixaria indiferente, podemos afirmar que o bem-estar de Lúcio aumentará com a
troca, i.e., sua utilidade ficará maior. Por outro lado, ao trocar a cesta (livros, jogos) = (3, 6) pela
cesta (livros, jogos) = (4, 1), Camila abriu mão de 5 jogos para receber 1 livro em troca. Note que
essa é exatamente a taxa de troca que a deixa indiferente entre as duas cestas (T M S). Portanto, o
bem-estar de Camila permaneceu igual à situação anterior.
b. Falso
Não podemos afirmar que as preferências são transitivas. De acordo com o enunciado, as preferências
desse consumidor são completas (ele sempre é capaz de comparar quaisquer duas cestas) e monótonas
(consumir uma quantidade maior de bens é sempre melhor), de modo que nenhuma dessas hipóteses
nos permite afirmar que a transitividade é válida. Note que se o enunciado tivesse afirmado que as
preferências são racionais, então o axioma da transitividade se verificaria.
Questão 12.
a. Verdadeiro
Note que T M S(5, 6) = 3 e T M S(3, 12) = 3. Como o consumidor é indiferente entre as duas cestas e a
T M S é constante, então as preferências são do tipo substitutos perfeitos.
b. Verdadeiro
Note que u(x, y) = 25(3x + 2y)2 − 30 é uma transformação monotônica da função utilidade u(x, y) =
3x + 2y, que é do tipo substitutos perfeitos. Note ainda que a T M S é igual para ambas as funções.
c. Falso
Note que u(1, 1/4) = 1/2 e u(1/2, 2) = 1/2. Portanto, Rafaela é indiferente entre as duas cestas.
6
Questão 13.
a. Falso
Sabemos que as preferências são completas. Porém, as preferências não são transitivas, pois se fossem
transitivas deverı́amos ter A ⪰ S e S ⪰ C ⇒ A ⪰ C, mas C ⪰ A.
b. Falso
Note que a função de utilidade de Leo (Ul ) não é uma transformação monotônica da função de utilidade
de João (Uj ) (calcule a T M S para verificar!). Assim, sabemos que João e Leo não possuem as mesmas
relações de preferência. Portanto, suas cestas de consumo não necessariamente serão idênticas.
c. Falso
∂U/∂x y
Calculando a T M S, temos que T M S = ∂U/∂y = 2x .
d. Verdadeiro
Se Marlene é indiferente entre as cestas A e B, então sabemos que elas estão sob a mesma curva de
indiferença. Como as preferências de Marlene são convexas, podemos ter dois casos:
i. elas são estritamente convexas: nesse caso teremos: C ≻ A e C ≻ B.
ii. elas são apenas convexas: nesse caso teremos: C ∽ A e C ∽ B
Como o enunciado afirma que Marlene considera a cesta (2, 2) ao menos tão boa quanto as outras duas,
então C ⪰ A e C ⪰ B e, portanto, a afirmação é verdadeira.
e. Verdadeiro
De acordo com o enunciado, sabemos que A ⪰ B e B ⪰ C. Se as preferências fossem transitivas, então
terı́amos que A ⪰ C. Como C ⪰ A, então o indivı́duo necessariamente está violando o princı́pio da
transitividade.
Obs.: Note que o item também poderia ser considerado Falso sob as seguintes hipóteses:
– Consumidor indiferente entre as três cestas: Embora pouco provável poderı́amos assumir que o
consumidor é indiferente entre todas as cestas. Nesse caso escolher a cesta C ao invés da cesta A
na quarta-feira não necessariamente violaria a transitividade;
– Mudança de preços relativos: Se assumirmos que os preços relativos mudaram de tal forma que na
quarta-feira a cesta A não é factı́vel, ou seja, está indisponı́vel dada a renda do consumidor, então
escolher a cesta C é a melhor opção tendo em vista que o consumidor não é capaz de consumir a
cesta preferida A (argumento de preferência revelada).
f. Falso
A hipótese de convexidade (estrita) implica no consumo de cestas de bens diversificadas ao invés da
especialização do consumo de um dos bens.
g. Verdadeiro
Note que u(x, y) = x2 + 6xy + 9y 2 = (x + 3y)2 . Trata-se, portanto, de uma transformação monotônica
da função utilidade (x, y) = x + 3y. Como as propriedades ordinais da função utilidade são preservadas
por transformações monotônicas, temos que essa função utilidade representa preferências onde os bens
são substitutos perfeitos.
7
Questão 14.
a. O cenário descrito no enunciado pode ser representado pelo seguinte gráfico:
b. A nova situação pode ser descrita pelo seguinte gráfico:
8
[Link]
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