Impacto das Redes Sociais no Consumismo
Impacto das Redes Sociais no Consumismo
2020
RESUMO: O trabalho versa sobre o impacto que as redes sociais exercem nas relações de
consumo. Estabelece que o consumidor se encontra imerso em um paradoxo de benefícios e
malefícios causados pelas mídias digitais. Busca realizar uma reflexão crítica desse impacto,
demonstrando que ao mesmo tempo em que o consumidor é induzido a práticas consumistas
em decorrência da lógica capitalista e mercadológica de influência nas redes sociais, encontra
exatamente nela, um local de fala para produzir um discurso de poder. Vai além,
1 Doutor em Direito do Consumidor pela Universidade de Salamanca (ES). Mestre em Direito do Consumidor
pela Universidade Federal do Pará. Professor de carreira da Universidade Federal do Pará (UFPA) e do Centro
Universitário do Pará (CESUPA). Procurador do Estado do Pará e advogado militante. Email: dennis@[Link]
2 Professora de graduação e de pós-graduação (Mestrado e Doutorado) da Universidade Federal do Pará e da
Universidade da Amazônia (PA); Desembargadora do Trabalho do Tribunal Regional do Trabalho da 8a Região
(PA/AP); Bacharela e Mestra em Direito pela Universidade Federal do Pará; Doutora em Direito pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, com Pós-Doutorado pela Universidade Carlos III de Madri (Espanha). E-
mail: pastoraleal@[Link]
demonstrando o impacto que o branding das marcas tem no mercado de consumo, pelo método
dedutivo e através de pesquisa teórico-bibliográfica.
ABSTRACT: The paper deals with the impact that social networks exert on consumer
relations. Establish that the consumer is immersed in a paradox of benefits and harms caused
by digital media. It seeks to make a critical reflection of this impact, demonstrating that at the
same time that the consumer is induced to consumerist practices due to the capitalist and market
logic of influence in social networks, he finds exactly in it, a place of speech to produce a
discourse of power. It goes further, demonstrating the impact that brand branding has on the
consumer market.
INTRODUÇÃO
O presente trabalho buscará abordar uma visão do consumidor influenciado pelas redes
sociais. Essa influência pode proporcionar benefícios ou malefícios, colocando o consumidor
vulnerável diante de um paradoxo.
Diante disso, será abordada a evolução do consumismo e como este foi influenciado por
meio das redes sociais. Além disso, se verificará que apesar dessa vertente negativa do mundo
digital, esse espaço acabou por vir a ser público e um novo local de fala ao consumidor, onde
este possui poder no seu discurso. Dentro de uma visão foucaultiana, analisar-se-á a ordem do
discurso do consumidor lesado.
Ante a magnitude e impacto que as redes sociais causam no mercado de consumo, será
utilizado no presente trabalho o método hipotético-dedutivo, baseado na construção de
conjecturas das hipóteses e uma pesquisa quantitativa e qualitativa. A metodologia empregada
inclui pesquisas bibliográficas.
Sob a falsa ideia de que consumo é inclusão social, consumir evoluiu para o
consumismo. A pessoa não mais compra para satisfazer suas necessidades básicas, mas sim,
vai além do necessário, tornando a compra uma válvula de escape, algo que alivia ansiedades,
satisfaz desejos e a torna uma pessoa aceitável dentro da sociedade.
Para Martins5:
3 GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. 6ª ed. Trad. de Maria
Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Record, 2007.
4 SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 6ª ed. Rio de
Janeiro: Record, 2001.
5 MARTINS, 2006 apud MARQUES, Claudia Lima. A vulnerabilidade dos analfabetos e dos idosos na sociedade
de consumo brasileira: primeiros estudos sobre a figura do assédio de consumo, p. 87. In: MARQUES, Claudia
Lima; GSELL, Beate (org.). Novas tendências do Direito do Consumidor: Rede Alemanha-Brasil de pesquisas em
Direito do Consumidor. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006.
A pessoa humana está à mercê da hipercomplexibilidade informacional, da
agressividade do mercado, de redutos e monopólios tecnológicos, sobretudo
constantemente seduzida pelo consumo, insaciável e excludente.
Sen6 (2010) considerava o dinheiro não o fim, mas o meio pelo qual se busca a
felicidade. Ocorre que, na sociedade atual, consumir tornou-se um fim em si mesmo, e não um
meio de o ser humano alcançar uma satisfação pessoal mediante o usufruto da coisa
conquistada.
Dessa maneira, é uma lógica paradoxal, ao mesmo tempo em que o consumidor, dentro
das redes sociais, é ser vulnerável atingido pela lógica do consumismo, também encontra nesse
mesmo ambiente público e de alto impacto, um local de fala para suas queixas e reivindicações,
onde seu discurso é escutado com poder.
6: SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Trad. Laura Teixeira Mota. São Paulo: Companhia De Letras,
2010.
7 BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Trad. Carlos Alberto
Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 31.
8 MARTINS, 2006 apud MARQUES, op. cit.
9 MARQUES, Claudia Lima. Confiança no comércio eletrônico e a proteção do consumidor: um estudo dos
negócios jurídicos de consumo no comércio eletrônico. São Paulo: RT, 2004, p. 72.
1.1 Breve introdução histórica do consumismo
Com o passar do tempo, o que era consumir para garantir conforto e segurança passou
a ser o ato de adquirir bens ou serviços e logo trocá-los por outros mais avançados. Hoje, a
lógica do consumo engloba a utilidade instantânea e substituição por outros mais novos.
10 BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Trad. Carlos Alberto
Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 37.
O século XX pode ser considerado um marco para a mudança mercadológica e
consumerista. Canclini11 considerava que até esse período, a informação era um privilégio, onde
a circulação era feita mediante panfletos e livros, com uma população pouco letrada e com
difícil acesso. E também como aduz Porto12, “os produtos eram avaliados por sua durabilidade
e eficiência, assim, a regra era: quanto mais duráveis e eficientes, mais valorizados pelo
consumidor”.
Após o fim das duas Grandes Guerras Mundiais, o mundo necessitava restabelecer sua
economia, bem como os países mais atingidos pelos efeitos nocivos desses eventos precisavam
voltar a crescer e desenvolver seus mercados. Ocorre que, para esse desenvolvimento acontecer,
era imprescindível que o consumo acompanhasse o mesmo ritmo da produção. Assim, comprar
um produto que durasse anos não mais comportava a urgência de rotatividade de mercadoria
que a economia precisava.
É dentro desse contexto histórico que a mídia se torna protagonista do consumo e passou
a alimentar o consumismo. À época, o marketing e a propaganda eram realizados por meio de
rádios, revistas e jornais (ambos eram impressos). Para Porto14, incitado pelo crescente design
industrial e marketing publicitário, o consumo de produtos mais modernos, bonitos e com
11 CANCLINI, Néstor Garcia. Consumidores e cidadãos conflitos multiculturais da globalização. 8ª ed. Trad. de
Mauricio Santana Dias. Rio de janeiro: Editora UFRJ, 2010.
12 PORTO, Elisabete Araújo. Evolução do crédito pessoal no Brasil e o superendividamento do consumidor
aposentado e pensionista em razão do empréstimo consignado. 2014. Dissertação de Mestrado - Curso de Direito,
Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2014, p. 47.
13 COLOMBO, L. O. R.; FAVOTO, T. B.; CARMO, S. N. A evolução da sociedade de consumo. Akrópólis,
Umuarama, v. 16, n. 3, p. 143-149, jul./set. 2008, p. 146. Disponível em: [Link]
evoluo-da-sociedade-de-consumo. Acesso em: 06 ago. 2018.
14 PORTO, 2014.
tecnologia evoluída, consolidou a compra como satisfação do desejo de possuir e não mais em
razão da utilidade do produto.
A partir dos anos 80 e 90, os produtos já eram fabricados para se tornarem obsoletos, de
maneira programada e planejada. A fabricação de determinado bem já acontecia com data de
validade preestabelecida. Ocorrendo o incentivo à diminuição do ciclo de vida útil dos produtos.
À medida que o efêmero invade o cotidiano, as novidades são cada vez mais
rapidamente e cada vez mais bem aceitadas; em seu apogeu, a economia-moda
engendrou um agente social à sua imagem: o próprio indivíduo-moda, sem
apego profundo, móvel, de personalidade e de gostos flutuantes.16
15 LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: Ensaios sobre a sociedade de hiperconsumo. Trad. Marcia Lucia
Machado. Rio de janeiro: Companhia das Letras, 2007.
16 Ibid., p. 123.
17 BAUMAN, 2008, p. 37.
Com o final dos anos 90, veio a internet. Sendo um marco para o inicio de uma
nova era, onde as distâncias são encurtadas, as barreiras territoriais rompidas, a cultura local dá
lugar a uma cultura global. Gostos e peculiaridades mercadológicas de determinada região do
planeta passam a sofrer influência de países e povos totalmente distantes, em quilômetros e em
mentalidade. Com mais troca informacional, a comunicação mundial passa por grandes
transformações.
Em princípio, a internet era uma tecnologia utilizada apenas por empresas e de forma
bem contida. Um endereço digital era como um outdoor, onde expunham seus produtos, de
maneira estática e aguardavam o acesso do cliente. O alcance ao consumidor era pequeno, uma
vez que apenas países bem desenvolvidos encontravam um mercado com acesso maior a esse
espaço virtual. De forma exata, Teixeira18 define Internet como:
A Internet foi se desenvolvendo e ao passo que mais pessoas começaram a ter acesso a
ela, sua exploração comercial em âmbito mundial também se desenvolveu. Um excelente meio
de negócios, que minimizava custos e maximizava resultados. Como bem coloca Brandão e
Vasconcelos19:
18 TEIXEIRA, Tarcísio. Curso de direito e processo eletrônico: doutrina, jurisprudência e prática. 3ª ed. atual. e
ampl. São Paulo: Saraiva, 2015, p. 25.
19 BRANDÃO, Fernanda Holanda V.; VASCONCELOS, Fernando A. As redes sociais e a evolução da
informação no século XXI. Revista Direito e Desenvolvimento, João Pessoa, v. 4, n. 7, p.125-144, jan./jun. 2013,
p. 133.
Após a popularização do mundo virtual, em meados dos anos 2000, um desdobramento
surgiu, ocasionando vários impactos e mudanças importantes. As redes sociais formam o que
Canclini20 chama de boom tecnológico, e o alcance de massa do consumidor, que tanto almejava
o capitalismo, finalmente ocorreu.
A maioria dos bens valiosos perde seu brilho, a sua atração com rapidez, e se
houver atraso eles podem se tornar adequados apenas para o depósito de lixo,
antes mesmo de terem sido desfrutados.
Pode-se dizer que redes sociais são as relações estabelecidas entre indivíduos dentro de
um sistema social, seja ele presencial ou virtual. A distinção entre as redes sociais presenciais
e virtuais é, apenas, o meio de conexão. Enquanto que na primeira existe a presença física, na
segunda ocorre a interação por meio digital.
A interação social por meio da web abre as portas para um novo mundo de
possibilidades, tanto boas quanto ruins. É possível observar como as redes sociais alcançaram
o consumidor, influenciando-o ao consumismo, bem como o surgimento de movimentos sociais
e políticos, que são organizados através de eventos, textos e imagens, e mobilizam milhares de
pessoas dentro do espaço digital.
20 CANCLINI, 2010.
21 BAUMAN, 2008, p. 45.
A exposição das redes sociais influencia comportamentos de compra, altera os conceitos
de necessidade e de desejo de possuir. Mostrar o que se tem ou o que se quer e o que se tinha;
dizer ao mundo onde mora, para onde viaja, quais os seus sonhos e desejos, classifica o
consumidor, como diz Silva22, em uma tabela de bom consumidor, ótimo consumidor e péssimo
consumidor.
Foi a partir dos anos 2000 que surgiram as primeiras redes sociais, como o
Fotolog (postagem de fotos) e o Friendster (possibilidades de relações de amizades no mundo
virtual). Logo após, em 2003, surgiu o Linkedin (contatos profissionais) e o Myspace (contatos
de amizades)24.
Entretanto, a popularização das redes sociais ocorreu em 2004, com o Flickr, Orkut e
Facebook. Em 2005, foi o Youtube, seguido em 2006 pelo Twitter. Em 2010, surgiu o
Instagram, com o objetivo de edição de fotos e compartilhamento com outras pessoas. No ano
de 2011, foi a vez do Google.
Após uma queda do Orkut e a migração para o Facebook, surge o Snapchat, aplicativo
de foto mensagem, onde os usuários podem tirar fotos, gravar vídeos, adicionar textos e
desenhos na imagem. São diversos e inúmeros os meios de comunicação pessoal atualmente,
de modo que foram citados apenas alguns. A alta interação nas redes sociais ocasionou uma
aproximação fictícia entre os sujeitos (dono da rede social e o seu seguidor); o consumidor do
produto ou serviço (publicidade e propaganda nos aplicativos e os influenciadores digitais); o
consumidor da fornecedora de produto ou serviço (a empresa escuta as queixas diretamente e
visualiza o impacto desta com outros consumidores).
22 SILVA, Ana Beatriz B. Mentes Consumistas: do Consumismo à Compulsão por Compras. 1ª ed. São Paulo:
Lobo, 2014.
23 Ibid., p. 39.
24 ESTULANO, Maíra Regis. Redes sociais: do surgimento à evolução, 2017. [Internet]. Disponível em:
<[Link]
ma%C3%ADra-regis-estulano>. Acesso em: 06 jul. 2018.
se dirigir até uma banca e comprar o jornal ou revista ou dispor de tempo para ligar sua
televisão e ser atingido pela propaganda.
Estar presente nas redes sociais digitais como Facebook, Instagram e Twitter
permite que as empresas estabeleçam uma relação de confiança que acaba por
criar influência entre seus usuários. Para uma marca, desenvolver e cultivar
um perfil nas redes sociais, pode ser a oportunidade de conquistar a confiança
do consumidor e, posteriormente, resultar numa melhora nos seus resultados
de marketing.25
Para Torres27, as mídias sociais são sites na internet que permitem a criação e o
compartilhamento de informações e conteúdos pelas pessoas e para as pessoas, ou seja, os
usuários dessas mídias são ao mesmo tempo produtores e consumidores da informação.
25 BRAKE, 2010 apud SILVA, Cristiane; TESSAROLO, Felipe. Influenciadores Digitais e as Redes Sociais
Enquanto Plataformas de Mídia. Intercom - Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação.
Faculdades Integradas Espírito Santense – FAESA. In: XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação,
São Paulo/SP, 2016, p. 3.
26 DINO. Consumo: 74% das pessoas compram de acordo com as influências das mídias sociais. Exame. 2018
[Internet]. Disponível em: <[Link]
acordo-com-as-influencias-das-midias-sociais/>. Acesso em: 07 ago. 2018.
27 TORRES, Cláudio. A Bíblia do Marketing Digital. São Paulo: Editora Novatec, 2009.
As pesquisas realizadas pelo IBGE, quanto à utilização da internet via aparelhos
portáteis por brasileiros, demonstrou um crescimento exponencial. “De 2013 para 2014, a
conexão exclusivamente por equipamentos portáteis aumentou 6,2 pontos percentuais, saindo
de 5,6% para 12,8%”28.
Entende-se como local de fala, o lugar físico ou virtual em que o consumidor pode
manifestar sua opinião. Já o discurso, como um encadeamento de enunciados, de conversação,
de colóquio é, assim, situado no tempo e no espaço virtual e tem um responsável, que é o seu
locutor.
Rodrigues29 assim define o conceito de lugar de fala: “o lugar que o locutor ocupa numa
cena, sob o fundo da qual locutor e locutório estabelecem uma espécie de contrato implícito de
troca simbólica de enunciados”.
28 SANTOS, Bárbara Ferreira. Apesar de expansão, acesso à internet no Brasil ainda é baixo. Dez. 2016.
Disponível em: <[Link]
Acesso em: 11 jun. 2017.
29 RODRIGUES, Adriano Duarte. O discurso mediático. Texto provisório fotocopiado, 1996, p. 32.
O presente artigo busca reconhecer como um novo local de fala do consumidor a rede
social, a partir de um contrato implícito de troca de opiniões com os destinatários/seguidores.
É a posição conquistada ou espontaneamente aceita de proferir determinado discurso.
Diante desse pensamento, Foucault30 vê o discurso como algo material, aquilo que pode
ser construído e que traz em si perigos e poderes:
O autor acrescenta que o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os
sistemas de dominação, mas aquilo pelo qual se luta. E enfatiza que “o discurso nada mais é do
que a verberação de uma verdade nascendo diante de seus próprios olhos”31.
Ribeiro33 coloca:
Ocorre que a lógica do poder não é estática, pois vai se reciclando, se renovando, possui
uma rapidez que acompanha o mundo virtual, pois, de tempos em tempos, os poderes vão
mudando, configurando novos regimes de fazer, de falar, de agir, etc. O poder do discurso não
se localiza nos indivíduos, ele atravessa-os, fazendo com que o indivíduo se torne sujeito
enquanto inscrito, sendo interlocutor e ouvinte constantemente.
Para Foucault34, toda relação é uma relação de poder, onde há duas dinâmicas: o poder
jurídico (que opera pela repressão e pela censura) e o poder estratégico (que opera pela
incitação, pelo prazer e pela intensificação). O discurso em redes sociais produz os dois
poderes, jurídico e estratégico.
33 RIBEIRO, Djamila. O que é: lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017, p. 64.
34 FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
As mídias sociais proporcionam um espaço para debate público que rompe a lógica de
que somente os poderosos têm voz. Possibilita um lugar de fala dentro de uma postura ética,
onde se pode repensar a hierarquia de poder clássica e dar poder aos vulneráveis, rompendo
questões de desigualdade, pobreza, racismo e etc.
Foucault também pensou o poder pelo viés disciplinador, pois percebeu que o poder
passou a operar segundo a lógica da vigilância, e não mais segundo o modelo soberano e
hierárquico. Sendo assim, as redes sociais produzem e instigam discursos de poder. Sobre o
discurso de poder, Foucault35 esclarece:
O tipo de análise que pratico não trata do problema do sujeito falante, mas
examina as diferentes maneiras pelas quais o discurso desempenha um papel
no interior de um sistema estratégico em que o poder está implicado, e para o
qual o poder funciona. Portanto, o poder não é nem fonte e nem origem do
discurso. O poder é alguma coisa que opera através do discurso, já que o
próprio discurso é um elemento em um dispositivo estratégico de relações de
poder.
O consumidor, ao falar nas redes sociais, consegue alcançar toda uma gama de pessoas
que possam estar vivenciando a mesma experiência com um produto ou serviço, atinge assim,
uma sociedade, alertando-a e compartilhando sentimentos.
O modo de ação do consumidor que fala na rede social é dúbio. Atinge ao próximo como
forma de alerta, mas também chama a atenção das empresas fornecedoras, pois diante da
visibilidade que o local de fala proporciona, sua reclamação pode vir a ser atendida mais
rapidamente.
Os discursos produzidos por consumidores nas redes sociais circulam segundo meios e
estratégias de poder, fazendo funcionar uma engrenagem: alertam outros possíveis usuários;
dividem sentimentos, dúvidas e opiniões; atingem a empresa fornecedora para que esta
solucione um problema. O poder do discurso do consumidor é encarado, então, como uma
tecnologia, utilizado para alcançar alguma melhora no que adquiriu, sem um ajuizamento de
ação judicial.
Dessa maneira, o consumidor, diante de um novo local de fala que é a rede social, opera
o seu poder de discurso de maneira estratégica, pois instiga, intensifica suas opiniões, diante do
35 Ibid., p. 53.
ouvinte também consumidor, bem como dos fornecedores de bens e serviços, impondo um
discurso de poder.
Outro dado relevante é a opinião das pessoas, ou seja, as impressões passadas via redes
sociais por usuários e compradores desses itens. Em 2017, 40% dos brasileiros tinham as redes
sociais como uma das principais referências de compra.
Entre os ouvistes da pesquisa citada, 43% descobriram marcas desconhecidas nas redes
sociais, bem como pesquisaram o retorno dessa marca no ambiente virtual. Do total de
entrevistados, 39% seguem as marcas nas redes sociais e 35% assistem vídeos sobre o bem que
pensam em adquirir. As redes sociais mais usadas, são 79% o Facebook, seguidos do Google
Plus com 47%, YouTube com 39%, Twitter em 17% e Instagram com 14%37.
Esses números demonstram a magnitude que uma postagem pode causar à determinada
marca ou empresa. Os dados da pesquisa sugerem que as opiniões e sugestões em sites de mídia
social – postadas por amigos e desconhecidos – têm mais influência nas decisões de compra do
que fatores específicos que os fornecedores podem controlar, como publicidade, promoções e
preços.
Por conta disso, empresas e fornecedores de bens e serviços têm cada vez mais se
atentado para os impactos de postagens em redes sociais, tanto de maneiras positivas quanto
negativas.
36 NEVES. Ricardo. Global Consumer Insights Survery. Confira As Conclusões Da Nossa Pesquisa Anual Sobre
O Comportamento De Mais De 22 Mil Consumidores On-Line No Planeta. 2018 [internet]. Disponível em:
<[Link] > . Acesso em 20 de mar. 2019.
37 BOUÇAS, Cibelle. Redes sociais influenciam decisão de compra de 77% dos brasileiros. Valor econômico.
2015 [Internet]. Disponível em: <[Link]
decisao-de-compra-de-77-dos-brasileiros>. Acesso em: 07 ago. 2018.
Segundo levantamento da BR Media Group38, em 2018, as empresas estão investindo
30% a mais em influenciadores digitais. A influência digital já é uma realidade para os
consumidores e para as empresas. Assim, pode-se observar um novo estilo de marketing que
acaba desempenhando um papel mais influente e estratégico.
3 O CONCEITO DE BRANDING
A marca é extremamente importante para o sucesso de uma empresa, eis que surge com
o objetivo de diferenciar a origem do produto e se torna base do trabalho do profissional
de marketing, onde todas as ações sejam elas de introdução, crescimento ou maturação de um
produto ou serviço giram em torno da marca, com determinados métodos desenvolvidos junto
aos consumidores, elevam o valor de uma empresa, diferenciando-as das demais concorrentes.
As redes sociais exercem função fundamental diante do branding, pois, por meio delas,
das influenciadoras digitais, é difundido em larga escala. Assim, o consumidor se vê diante do
paradoxo aprimorado, as redes sociais que antes eram vistas como novo local de fala (ponto
positivo), acabaram por favorecer o consumismo (ponto negativo), este último agora ganha a
nova roupagem com a abordagem por meio do branding.
38
DINO, 2018.
De meros nomes e símbolos distintivos no mercado, as marcas já passaram há tempos,
posto que compõem engrenagem chave na relação fornecedor-consumidor. A marca representa,
de maneira estética, as percepções e os sentimentos que os consumidores possuem em relação
ao bem ou serviço ofertado.
Os bens e serviços agora agregam valor, não são apenas os bens tangíveis, mas sim a
combinação da sensação e sentimento de apreciação, da aquisição, do uso, da posse, da
satisfação de um desejo. Produtos incluem um misto de eventos, pessoas, lugares, organizações
e ideias.
É essa união entre valor agregado do produto, marca e relacionamento com os clientes
que irá gerar destaque para as marcas que pretendem atuar por muitos anos no mercado e tornar
seus clientes leais, através do branding.
O Brasil é o 4º país do mundo com o maior número de usuários ativos na Internet, com
aproximadamente 120 milhões de pessoas conectadas39. Em termos de redes sociais, o país
brasileiro ocupa o 3º lugar no ranking entre os cadastrados no Facebook. Diante desses
números, pode-se entender a dimensão da influência que a percepção de uma opinião divulgada
nessa rede social pode afetar a relação de outros consumidores de forma significativa.
No ambiente virtual, a forma como uma empresa se posiciona diz muito sobre ela. Da
maneira como se comunica com os clientes à forma como reage a assuntos polêmicos, tudo
pode influenciar a imagem da sua marca no ambiente on-line, positivamente ou não. Dessa
maneira, foi possível traduzir em números os impactos que o poder do discurso, no novo local
de fala do consumidor, pode alcançar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
39
VALENTE, Jonas. Relatório aponta Brasil como quarto país em número de usuários de internet. Agência Brasil.
2017 [Internet]. Disponível em: <[Link]
como-quarto-pais-em-numero-de-usuarios-de-internet>. Acesso em: 07 ago. 2018.
Todo esse aparato culmina por criar de forma explícita ou subliminar necessidades de
consumo crescentes, através de um aprimorado processo de racionalização dos meios de
produção, padronização, difusão e divulgação de bens de consumo como produtos culturais. A
cada dia são criadas novas necessidades, que atendem e agradam aos indivíduos, submetendo-
os a seu monopólio e tornando-os acríticos.
Por outro lado, como foi mostrado, as redes sociais também vieram a produzir um novo
local de fala para o consumidor insatisfeito, o que garantiria seu maior empoderamento no
mercado numa espécie de força contramajoritária em relação aos fornecedores, na medida em
que suas manifestações e opiniões têm o condão de influir na liberdade de escolha de outros
consumidores. E é justamente essa habilidade solidária que deverá ser melhor desenvolvida
pelo consumidor, pois é diretamente responsável pela mudança de comportamento ético do
empresário.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOUÇAS, Cibelle. Redes sociais influenciam decisão de compra de 77% dos brasileiros.
Valor econômico. 2015 [Internet]. Disponível em:
<[Link]
de-77-dos-brasileiros>. Acesso em: 07 ago. 2018.
DINO. Consumo: 74% das pessoas compram de acordo com as influências das mídias sociais.
Exame. 2018 [Internet]. Disponível em: <[Link]
74-das-pessoas-compram-de-acordo-com-as-influencias-das-midias-sociais/>. Acesso em 07
ago. 2018.
________. As palavras e as coisas. Trad. de Salma Tannus. 8ª ed. São Paulo: Martins Fontes,
2000.
SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Trad. Laura Teixeira Mota. São Paulo:
Companhia De Letras, 2010.
TORRES, Cláudio. A Bíblia do Marketing Digital. São Paulo: Editora Novatec, 2009.
VALENTE, Jonas. Relatório aponta Brasil como quarto país em número de usuários de
internet. Agência Brasil. 2017 [Internet]. Disponível em:
<[Link]
pais-em-numero-de-usuarios-de-internet>. Acesso em: 07ago. 2018.