Ação Penal n.º 1021627-88.2022.8.11.0002.
Tipificação legal: art. 180, caput, do Código Penal.
Autor: Ministério Público do Estado de Mato Grosso.
Réu: Fabrício Augusto Almeida Metelo (Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso).
Assunto: Sentença condenatória – denúncia integralmente procedente.
O Ministério Público do Estado de Mato Grosso ofereceu denúncia em
desfavor de Fabrício Augusto Almeida Metelo, qualificado nos autos, pela prática do
crime tipificado no art. 180, caput, do Código Penal, pelos seguintes fatos, a seguir
narrados em síntese:
No dia 02 de junho de 2021, por volta das 11:00, em via pública, mais
precisamente no KM 518, BR 070, em Várzea Grrande – MT, o réu Fabrício Augusto
Almeida Metelo conduzia, em proveito próprio, coisa que sabia ser produto de crime,
consistente em uma motocicleta XRE 300, marca Honda, placa OBH-3274/MT, ano
2013/2013, pertencente à vítima Willian Jesus dos Santos. O Ministério Público requereu
conforme recomenda a praxe.
A denúncia de 01.08.2022 (id. 91384437) foi recebida em 02.08.2022 (id.
91517855). Citado, apresentou resposta à acusação via i. Defensoria Pública (id.
107591106). Na instrução foi inquirido o PRF Mário Nilson Gama Furrer (id. 110283455),
bem como o réu foi interrogado (id. 110283456).
O MP apresentou alegações finais orais (id. 110283458), requerendo a
condenação do réu nos exatos termos da denúncia.
A defesa via i. Defensoria Pública apresentou alegações finais escritas (id.
110876227), requerendo: a) absolvição do réu, nos termos do art. 386, V, c.c. art. 155,
caput, ambos do Código de Processo Penal; b) subsidiariamente, requereu a
desclassificação do crime para recceptação culposa (CP, art. 180, §3.º).
Relatei.
Decido.
A denúncia é procedente.
A materialidade quanto ao crime de receptação está comprovada pelo
Inquérito Policial, através do auto de prisão em flagrante; boletim de ocorrência; termo de
apreensão; termo de depósito; termo de depoimentos das testemunhas e Relatório da
Autoridade Policial. A existência do crime ficou suficientemente provada nos autos.
A autoria por parte do réu está fartamente demonstrada nas provas colhidas.
Em Juízo ele negou a prática delitiva, afirmando que comprou a motocicleta de terceira
pessoa chamada “Renatinho” no site OLX e que demorou aproximadamente um mês para
verificar os documentos e fazer a transferência; que depois disso não conseguiu mais
contato com a pessoa que lhe vendeu; que fez a checagem e não constatou ser produto de
furto ou roubo.
A testemunha PRF Mário afirmou em Juízo, em síntese, que o atendimento
iniciou com o núcleo de motociclistas e foi solicitado para encaminhar o réu e a
motocicleta até a Delegacia de roubos e furtos; que a equipe do núcleo já tinha constatado
que a motocicleta era produto de crime.
Quanto ao depoimento do PRF, merece toda credibilidade, conforme já está
assentada na jurisprudência. Veja:
“Os funcionários da polícia merecem, nos seus relatos, a normal
credibilidade dos testemunhos em geral a não ser quando se apresente
razão concreta de suspeição. E quanto isso não ocorra desde que não
defendem interesse próprio, mas agem na defesa da coletividade, sua
palavra serve a formar o convencimento do julgador”
(RTCC16/286-7).”
Desta forma, ficou comprovado que o réu praticou o crime de receptação, pois
comprou um veículo de uma pessoa que não conhece em um site duvidoso, onde é bem
conhecido por ter muitos golpes, bem como não perguntou a origem do mesmo e checando
seus documentos um tempo depois de ter adquirido, assumindo a responsabilidade pelo
crime de receptação. Assim, deixo de acolher a tese da ilustrada e esforçada defesa, pois a
mesma não encontra embasamento no conjunto de provas colhidas nos autos. Não há
dúvidas de que o réu é o autor do delito, pois foi preso em flagrante pilotando uma
motocicleta com denúncia de roubo. Ele alegou que negociou a moto com a pessoa
chamada Renatinho e que o dono da moto é seu primo; que quando checou os documentos
não foi constatado ter origem ilícita no entanto, pelo fato de comprar um veículo sem saber
a origem, de uma pessoa desconhecida, de um site não confiável para negócios desse tipo,
assume a resposabilidade do tipo penal. Desta forma não há que se falar em receptação
culposa.
A condenação do réu se impõe nas penas do art. 180, caput, do Código Penal.
Quanto às circunstâncias legais genéricas. Nada a ser considerado.
CONCLUSÃO
Ante ao exposto, julgo procedente o pedido contido na denúncia e, por
consequência, condeno Fabrício Augusto Almeida Metelo, qualificado nos autos, por
infringir o art. 180, caput, do Código Penal.
Atento às regras do artigo 59 e 68 do Código Penal, passo a dosar-lhe a pena.
DOSIMETRIA E FIXAÇÃO DA PENA
A culpabilidade está evidenciada. A culpabilidade normativa welzeliana do
“poder de agir de maneira diversa”, adotada pelo direito brasileiro, exsurge do
comportamento do réu, pois, poderia motivar pelo direito e agir de acordo as normas
jurídicas, no entanto agiu de forma deliberada contrariamente a norma jurídica. No caso
não se afasta a imputabilidade, por o agente ter consciência do agir ilícito e auto
determinar-se de acordo essa ilicitude; não havendo fatores biopsicológicos para a
exclusão de sua culpabilidade; agiu portando potencial consciência da ilicitude, pois, fator
externo algum influenciou no conhecimento de sua ação ser contrária ao direito; e laborou
em conduta que restou clara a exigibilidade de conduta diversa da qual incorrera, pois,
nenhum fator externo justifica sua ação.
É primário.
Não existem os elementos suficientes nos autos para se aquilatar quanto a sua
conduta social. Da mesma forma faltam elementos suficientes para análise de sua
personalidade.
Os motivos e circunstâncias da conduta delitiva do réu lhes são desfavoráveis.
Verifico a situação econômica do réu como não boa. É assistido por i.
Defensoria Pública.
Receptação. Tudo isso sopesado, fixo sua pena base no mínimo legal, ou seja,
em 01 (um) ano de reclusão; cuja pena torno em concreta e definitiva à míngua de
quaisquer outras circunstâncias ou causas capazes de diminuí-la ou aumentá-la.
Levados pelos mesmos critérios acima, com suporte na proporcionalidade
entre a pena corporal e a de multa, fixo sua pena pecuniária em 10 (dez) dias-multa, no
valor mínimo legal, ou seja, em 1/30 do salário mínimo vigente à época dos fatos, com a
correção monetária, quando do efetivo pagamento.
Consoante o art. 33, §2.o, alínea c, e §3.º, do Código Penal, o réu deverá
iniciar o cumprimento da pena a si imposta sob a égide do regime aberto.
Nos termos do art. 44, do Código Penal, substituo a pena privativa de
liberdade por uma restritiva de direito, ao encargo do Juízo da Execução Penal.
DISPOSITIVO FINAL
Neste feito o réu se encontra solto. Foi condenado em regime aberto. Fazendo
análise como determina o art. 387, §1.º, do CPP, Tenho que solto deve permanecer, não
vislumbro os requisitos e fundamentos do art. 312 do CPP.
Deixo de condená-lo ao pagamento das custas e despesas processuais por ter
se revelado pobre na forma da lei.
Determino ao Sr. Gestor que por qualquer meio dê conhecimento à vítima de
que o réu foi condenado e sua situação prisional nos termos da lei (CPP, art. 201, §2.º).
Transitada em julgado, proceda-se as anotações e expeça-se a Guia de
Execução Definitiva.
Proceda-se as comunicações, inclusive à Justiça Eleitoral.
Intime-se. Cumpra-se.
Várzea Grande – MT, em 1.º de março de 2023.
Doutor Abel Balbino Guimarães
Juiz de Direito
Assinado eletronicamente por: ABEL BALBINO GUIMARAES
[Link]
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