0% acharam este documento útil (0 voto)
6 visualizações32 páginas

Fatores da Desistência Escolar de Meninas

Enviado por

Alai Arte
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
6 visualizações32 páginas

Fatores da Desistência Escolar de Meninas

Enviado por

Alai Arte
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Dedicatória

Este trabalho é especialmente dedicado as minhas filhas (Henriqueta Elias Aly Muacula; Daiurane
Elias Aly Muacula; Cledwilson Elias Aly Muacula; Dalson Elias Aly Muacula; Eliana Elias Aly
Muacula; Lúcia Elias Aly Muacula) e a minha esposa (Natália José Miquissene) por toda força e
energias positivas que transmitiram ao longo da minha profissão.
Agradecimentos

Agradeço primeiramente a Deus pela vida e por tudo o quanto tem feito por mim.

Em seguida, agradeço ao Departamento de Organização e Gestão da Educação o meu muito


obrigado pelos ensinamentos.

Em paralelo, agradeço aos colegas de outras escolas, pelas experiências compartilhadas ao longo
dos anos de trabalho.

Um especial agradecimento vai para toda família, particularmente ao minha esposa, Natália José
Miquissene, e minhas filhas, Henriqueta Elias Aly Muacula; Daiurane Elias Aly Muacula;
Cledwilson Elias Aly Muacula; Dalson Elias Aly Muacula; Eliana Elias Aly Muacula; Lúcia Elias
Aly Muacula, que foram as minhas principais fontes de inspiração para o alcance deste objectivo.
Um muito obrigado, aos meus pais, Aly Muacula, pelo apoio e amor, carinho e incentivo que me
transmitiram. Aos professores, encarregados de educação, a Direcção e as alunas da EPC de o meu
muito obrigado pela disponibilidade no processo de recolha de dados. E a todos que não foram
mencionados, mas que, de forma directa ou indirecta contribuíram para o meu relatório, endereço
o meu muito obrigado.
Lista de siglas e abreviaturas

EP-Ensino Primário

EP1- Ensino Primário do 1º grau

EP2- Ensino Primário do 2º grau

MINED- Ministério da Educação

MINEDH-Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano

PEA-Processo de Ensino e Aprendizagem

PEE- Plano Estratégico da Educação

PNUD- Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

SNE- Sistema Nacional da Educação


Lista de tabela
Resumo

O presente estudo analisa os principais factores que influenciam na desistência escolar da rapariga,
nas escolas primárias das zonas rurais. Pela necessidade de limitar o seu campo de estudo, a
pesquisa foi realizada na Província da Zambézia, distrito de Molumbo, na Localidade de
Corromana, concretamente na Escola Primária Completa de Muhapela A pesquisa enquadra-se na
abordagem qualitativa, sendo o estudo de caso o método de procedimento aplicado. Uma amostra
de quarenta (40) elementos de entre eles, professores, alunos, membros da Direcção e encarregados
de educação, foi seleccionada de um universo de duzentos e dez (210) elementos, através do
critério de amostragem não probabilística. O questionário e a entrevista semi-estruturada, foram
as técnicas de recolha de dados aplicadas, enquanto a análise do conteúdo, com base no Microsoft
Excel foi a técnica de análise de dados aplicada. Os dados recolhidos, discutidos e analisados,
revelam que as desistências escolares da rapariga são motivadas por vários factores, que podem
ser associados a escola, a família, a sociedade, as condições financeiras e culturais, assim como ao
próprio currículo de ensino em vigor e ao abuso e assédio sexual. Como consequência das
desistências as raparigas são vulneráveis a violência simbólica, vão ao lar cedo, não conseguem
controlar a natalidade, perdem oportunidades de emprego, assumem um estilo de vida abaixo das
expectativas e pouco contribuem para o desenvolvimento das comunidades. Como forma de
mitigar as desistências da rapariga as escolas devem adoptar estratégias atractivas que despertem
a importância da escola para a rapariga. Face aos dados observados recomenda-se o reforço da
ligação entre a escola e a comunidade, assim como a exploração dos 20% concedidos ao currículo
local para a abordagem de conteúdos de interesse das raparigas.

Palavras-chave: desistência, factores da desistência escolar, rapariga


CAPÍTULO I-INTRODUÇÃO

1. Introducao

Discussoes em torno da desistencia escolar das raparigas no pais, ocupam cada vez mais espaço
no programa de ensino, na tentativa de perceber as razoes que concorrem para este acontecimento,
pois, as suas consequências são catostroficas para o desenvolvimento integral da rapariga na
sociedade.

Desitencia escolar, pode ser considerado quando os alunos por algum motivo deixam de frequentar
a escola, ou quando os alunos que frequentam a escola num determinado período do ano lectivo,
abandonam os estudos para se dedicarem em outras atividades de natureza caseira como por
exemplo o comercio, agricultura, casamento prematuro, entre outras actividades.

De acordo com Figia (2005), a mulher socialmente é menos privilegiada do que o homem, factor
que influencia também, no acesso à educação. Magude (2016, p.11) refere que “as desistências
têm comprometido o processo de ensino e aprendizagem e o rendimento escolar da rapariga o que
acaba atingindo o seu futuro. Portanto, as desistências são uma realidade em escolas primárias das
zonas rurais, pois nestas zonas, o ensino não é visto como sendo fundamental para o
desenvolvimento das localidades.

Percebe-se, claramente que a desistência escolar da rapariga é influenciada por vários factores, os
quais motivam a realização desta pesquisa, que apresenta a seguinte estrutura:

Capítulo I: Introdução, que inclui a contextualização, o problema de pesquisa, os objectivos, as


perguntas de pesquisa e a justificativa;

Capítulo II: Revisão de literatura, que faz referência aos estudos em relação a temática em
pesquisa; Capítulo III: Metodologia, que inclui o tipo de pesquisa, as técnicas de recolha e análise
de dados e a amostragem; Capítulo IV: Apresentação, análise e discussão dos resultados; e
Capítulo V: Conclusão e recomendações

1.1. Problema de pesquisa

De acordo com a Lei 18/2018 que estabelece o regime jurídico do Sistema Nacional da Educação
(SNE), no seu artigo 3 “a educação, cultura, formação e desenvolvimento humano equilibrado e
inclusivo é direito de todos os moçambicanos”. Portanto, todo o cidadão moçambicano tem direito
ao acesso a educação, independentemente da sua situação física, financeira, cultural ou social,
porém, nas zonas rurais o gozo deste direito não tem-se efectivado por completo, principalmente
nas zonas rurais onde a percepção da importância da educação é reduzida.

Este facto, não foge à regra quando se trata da Escola Primária Completa de (EPC de), local
identificado para a realização desta pesquisa. Esta instituição de ensino, está localizada numa
comunidade com níveis altos de pobreza, onde a principal fonte de sobrevivência é a agricultura,
a pesca e a pastorícia.

Com isso, pouca relevância é dada a escola, factor que pode propiciar o aumento do índice de
desistência na escola. Conforme o Director da Escola (DE), nesta instituição, poucas são as
raparigas que conseguem concluir o ensino primário, isto é, frequentar e concluir com sucesso a
7ª classe, que representa o último estágio do 3º ciclo do ensino primário.

Embora, o nível de acesso da rapariga no ensino primário é muito alto, as taxas de conclusão e
reprovação não apresentam o mesmo grau de sucesso (PNUD, 2006). A proporção das raparigas
que concluem o ciclo completo do ensino primário (1ª a 7ª classe) permanecem baixas. No ano
lectivo 2018 o total de raparigas era de oitenta e dois (82) alunas, sendo que destas, 12% foram
reprovadas. No entanto, no ano lectivo 2019 registouse um incremento de mais sete (7) raparigas,
passando de oitenta e dois (82) em 2018 para oitenta e nove (89) em 2019. Destas raparigas, 20%
foram reprovadas, e outras abandonaram a escola conforme os dados do relatório anual da escola.

Como funcionário desta instituição, tenho verificado o desenrolar desta situação, e também é
possível verificar através dos relatórios anuais, pautas de frequência, livros de turma, entre outros
instrumentos de registo existentes na escola. Diante deste cenário, formulou-se a seguinte pergunta
de partida: Quais são os factores que influenciam na desistência escolar da rapariga na Escola
Primária Completa de Muhapela?

Objectivos

Segundo Teixeira no ano de 2005. Diz que o objectivo deve ser visto como sendo a razão, o motivo
para a execução de um trabalho. É o ponto de referência de um planeamento, é o que se busca
atingir a término de um processo ou atividade. Assim, a elaboração deste trabalho, visa o alcance
dos seguintes objectivos:
Objectivo Geral

 Analisar os factores que influenciam na desistência escolar da rapariga na EPC de


Muhapela

Objectivos específicos

 Identificar os factores que influenciam na desistência escolar da rapariga na EPC de


Muhapela;
 Analisar as consequências da desistência escolar da rapariga;
 Descrever as estratégias implementadas pela EPC de Muhapela na retenção da rapariga na
escola.

1.4. Perguntas de pesquisa

De forma a responder os objectivos específicos acima mencionados, são definidas as seguintes


perguntas de pesquisa:

 Quais são os factores que influenciam na desistência escolar da rapariga na EPC de


Muhapela?
 Quais as particularidades que incidem sobre as desistências escolares da rapariga?
 Como a EPC de Muhapela garante a retenção das rapariga no Processo de Ensino e
Aprendizagem?

1.5. Justificativa

Em Moçambique, a educação é um direito que deve ser assegurado pelo Estado aos cidadãos na
sua responsabilidade de combate ao analfabetismo. Por esta razão, o Sistema Nacional de
Educação (SNE) concebe o ensino primário como gratuito e obrigatório para todos os cidadãos.

A retenção dos alunos no sistema educativo é um desafio que deve ser levado a cabo com muita
responsabilidade pois, ano após ano, as taxas de desistência escolar, em particular da rapariga tem
vindo a aumentar, principalmente nas zonas rurais. Dependendo da realidade de cada região, tendo
em conta que a sociedade moçambicana é heterogénea, as causas que explicam a desistência da
rapariga no PEA são múltiplas e variáveis.
Sendo assim, pesquisar sobre "Os factores que influenciam na desistência escolar da rapariga
nas escolas primárias das zonas rurais, estudo de caso, Escola Primaria Completa de
Muhapela", se julga ser importante pois vai permitir fazer uma análise deste fenómeno, em
particular para as escolas localizadas no meio rural.

Este tema é relevante do ponto de vista académico na medida em que procura enriquecer o debate
e compreender as razões da desistência escolar, sendo uma questão que preocupa todos os actores
envolvidos no processo educativo. Do ponto de vista prático, este tema é também relevante pois,
a partir do estudo de caso seleccionado, poderão ser sugeridas medidas com vista a redução das
taxas de desistências, em particular da rapariga na EPC de Muhapela.

E do ponto de vista pessoal, pesquisar sobre este tema é relevante, não apenas por ser estudante do
Curso de Licenciatura em Organização e Gestão da Educação, mas também como profissional do
sector da educação é fundamental ter a visão sobre as motivações por detrás do crescente índice
de desistências escolar da rapariga.
CAPÍTULO II - REVISÃO DE LITERATURA

Neste capítulo, pretende-se apresentar o conceptual teórico que é resultado da revisão bibliográfica
consultada em torno da temática sobre desistência escolar. De referir que, o termo desistência
escolar, por vezes será apresentado como abandono escolar, por se tratar de termos com
significados similares.

2.1. Definição dos conceitos básicos

De acordo com Rocha (2014) etimologicamente, o termo desistência, vem do latim, que significa
“malogro, mau êxito, falta de sucesso, desastre ou fracasso.

Para Caetano (2013), desistência escolar diz respeito a saída precoce da escola, geralmente, sem
acabar o ensino obrigatório. Por outro lado, para Machado (2007), desistência escolar é definido
como um fenómeno complexo, dinâmico e multifacetado, que resulta de uma combinação de
factores sociais, económicos, educativos e familiares, muitas vezes associados a desvantagens
socioeconómicas.

Os conceitos de Caetano (2013) e Machado (2007) convergem na medida em que para eles as
desistências escolares referem-se há vários impedimentos que condicionam a continuidade de
frequência de ensino por parte dos alunos.

Portanto, pelo que são os objectivos do nosso estudo o conceito de desistência escolar que mais se
adequa ao estudo é: “desistência escolar refere-se ao abandono da escola pelos alunos sem
atingirem a meta desejada” Magude (2016, p.17). Isto porque neste termo, associa-se as
desistências as reprovações, repetições, baixo rendimento e insucesso escolar.

De acordo com Camacho e Tavares (2012), rapariga é um termo utilizado para descrever uma
mulher mais nova. Assim, nesta pesquisa o termo rapariga é utilizado para se referir aos alunos do
sexo feminino entre a fase de adolescência e a infância.

2.2. Factores que influenciam na desistência da rapariga no PEA

Os factores que influenciam na desistência escolar da rapariga nas escolas primárias variam de
acordo com as regiões onde se efectiva o ensino, no entanto, de forma resumida, pode-se apresentar
os seguintes factores:
2.2.1. Factores associados a família

Machado (2011) apud Caetano (2013) considera que "o ambiente familiar influencia o
desenvolvimento do jovem, e pode contribuir para a afirmação e permanência ou desistência da
escola". Assim, para este autor cabe à família garantir os cuidados, afectos e valores adequados,
assim como as normas de conduta que em conjunto permitirão ao aluno atingir prestações mais
elevadas.

Para este autor, os alunos oriundos de famílias de nível socioeconómico e cultural baixo

apresentam valores mais notórios do abandono escolar precoce, fundamentado através dos

alunos pela necessidade de ingressar no mercado de trabalho e/ou pelas dificuldades

económicas da família.

Segundo o encarregado da educação Rainde Orlando Alai (2024) refere que a maioria das famílias,
sobretudo, nas zonas rurais são pobres, sendo assim, não possuem condições para pagar despesas
que vão surgindo ao longo do ano, o que faz com que as meninas desistam de ir à escola porque
os pais não podem pagar o valor solicitado.

Para o entrevistado Zimba e Andrade, referem que os pais privilegiam as actividades domésticas
para raparigas. Assim, os pais preferem ver as filhas ocupadas nas actividades domésticas em
detrimento de frequentar a escola, pois, por não ter níveis de escolaridade consideráveis, não vêm
a importância da escola.

Por seu turno, Silva refere que, sendo a língua de ensino o português, enquanto a maioria das
crianças, particularmente, das zonas rurais não a fala quando entra para a escola, constitui à partida
um grande constrangimento e limitação, podendo afectar negativamente a motivação dos alunos
para continuar na escola, porque a aprendizagem torna-se mais difícil e dolorosa.

O Relatório da Educação sobre o Plano Estratégico da Educação, 1997-2001, refere a falta de


professoras no EP1 e EP2, como sendo uma das razões das desistências. Isto porque, não existindo
funcionários do sexo feminino na escola, há pouca motivação das raparigas em continuar na escola,
pois assim, não se vê nenhum futuro para elas através da escola.

2.2.3. Factores associados ao abuso e assédio sexual


Na escola ou na comunidade, as raparigas são vítimas de abuso e assédio sexual,

perpetuado por professores, alunos, e pelos diferentes membros da comunidade.

Para este contexto, Costa e Menezes (1995) referem que, o assédio e abuso sexual

protagonizados por professores e alunos contra as raparigas, são factores que influenciam

de forma particular para a ocorrência da desistência da rapariga.

PNUD (2001) diz que os casamentos prematuros e mão-de-obra infantil como

sendo factores que influenciam a desistência da rapariga. Também, menciona a questão da

desigualdade de género na sociedade e na família e a gravidez precoce.

2.2.4. Factores associados a distância entre a residência e a escola

Outro factor não menos importante na discussão em relação a desistência da rapariga

refere-se a distância entre a residência e a escola. Geralmente as pessoas vivem muito afastadas
umas das outras, fazendo com que as crianças tenham que percorrer longas distâncias para chegar
à escola. Esta situação é ainda mais grave em relação às escolas do EP2, por serem escassas e as
distâncias a serem percorridas serem muito longas. Com a escola distante, as crianças têm de sair
de casa muito cedo e voltar muito tarde.

Nisso, Machado (2007), chama atenção que, as raparigas correm o risco de ser assediadas ou
abusadas sexualmente ao longo do trajecto. Devido a estes factos, muitos pais preferem proteger
as suas filhas, impedindo-as de ir à escolar.

2.3. Consequências da desistência escolar da rapariga

A escola é um lugar criado com o objectivo de desenvolver e capitalizar as comunidades.

Nisso, as crianças são formadas e preparadas para garantirem o desenvolvimento pessoal, familiar,
da comunidade e do país no geral. Porém, em instituições onde são registados casos de desistência
escolar, em particular da rapariga, são registadas várias consequências que vão desde a própria
aluna, a escola, a sociedade e ao país.
Conforme Mendes (2006), existe uma relação inequívoca entre educação e desenvolvimento, pois,
a falta de escolarização afecta negativamente a empregabilidade e, por consequência, a inserção
na vida activa da rapariga.

Por sua vez, Viegas (2018) refere que uma rapariga não escolarizada representa um perigo para a
sociedade na medida em que está vulnerável a casamentos prematuros e a gravidez indesejada.
Segundo Caetano (2013), afirma que a desistência escolar da rapariga, traz consigo várias
consequências sociais e económicas para o aluno, tais como: dificuldade de empregabilidade ou
inexistência de saídas profissionais; dificuldade em arranjar emprego; precariedade de emprego e
desemprego de longa duração.

Na mesma linha que Caetano (2013), Machado (2007) destaca as seguintes consequências para a
rapariga: dificuldades de reciclagem e reconversão profissional; progressões profissionais lentas;
propensão a acidentes profissionais; salários baixos e desclassificação social.

A desistência escolar da rapariga tem um grande impacto no capital humano, pois afecta
negativamente os processos sociais, económicos e políticos em termos de projecção do
desenvolvimento de um país. Isto porque, todos que não frequentam o ensino fazem parte de
grupos de desempregados e socialmente excluídos. Além disso, essas pessoas podem fazer parte
de grupos criminosos e violentos.

2.4. Estratégias para a retenção da rapariga na escola

Face aos problemas arrolados em relação aos factores que influenciam as desistências da rapariga
nas EP, a escola desempenha um papel preponderante para garantir a retenção destes alunos,
podendo adoptar uma serie de acções com vista a garantir a sua retenção, tais como refere Viegas
(2018), uma boa prática para manter a rapariga matriculada na escola é investir na sua educação.
É importante que a rapariga sinta que tem um papel fundamental no processo de ensino
aprendizagem.

Para este autor, é necessário ouvir a sua opinião e promover seus pontos fortes, assim como auxiliar
nas suas dificuldades, a fim de aumentar a motivação e o interesse nas aulas.

Para melhorar a retenção da rapariga, a escola também pode mostrar que se preocupa em combater
atitudes e comportamentos negativos. Isso mostra que a instituição vai além do trabalho da
dimensão cognitiva dos alunos, valorizando também a dimensão sócio emocional e o bem-estar
dos estudantes. Dessa forma, a escola se mostra como um lugar seguro e motivador para a
construção da trajectória académica.

Ao manter a família engajada, motivando a sua participação nos eventos da escola e nas reuniões
de pais e responsáveis, a instituição acaba criando uma relação de confiança com os familiares
(Sil, 2004).

Dessa forma, o bom relacionamento com os pais e responsáveis pode acabar influenciando a
decisão pela permanência na escola. Além disso, é por meio de uma boa relação que a instituição
consegue aumentar a sua credibilidade e fortalecer a sua imagem.

Uma consequência disso, segundo Viegas (2018) é a propaganda ‘’boca a boca’’, que gera uma
divulgação espontânea da escola pela própria comunidade. Para tal, a escola apoiar-se ao Conselho
de Escola, que é um órgão consultivo que garante a ligação entre a escola e a comunidade.

De acordo o meu turno, olhando para a preocupação do Plano Estratégico da Educação (2012 –
2016) de assegurar o acesso, a retenção e a conclusão com sucesso em todos os níveis de ensino,
diminuindo o fosso de género. Sugere-se a implementação de projectos específicos que podem
contribuir para a retenção da rapariga no sistema educativo, tais como: desporto escolar; produção
escolar; projectos culturais; alimentação escolar e nutrição.

Dada a sua relevância, a mesma preocupação é apresentada pelo actual Plano Estratégico da
Educação (PEE 2020 – 2029), que vê a retenção da rapariga como um dos desafios do sector. Para
tal, também propõe a implementação de projectos e programas alternativos, com vista a garantir a
permanência da rapariga na escola.

Conforme o PEE (2020-2029) para garantir o acesso, a inclusão, a equidade e retenção será
necessárias soluções concretas como: a expansão gradual do acesso e participação na Educação
Pré-Escolar; o aumento dos índices equitativos de conclusão e retenção no Ensino Primário, com
atenção para a diminuição do absentismo estudantil e do rácio alunos-professor; a diversificação
das modalidades de ensino; a melhoria dos ambientes escolares e o exercício da liderança na
implementação da Estratégia de Género do sector da Educação, assegurando a sua apropriação,
financiamento e monitoria pelos diferentes subsectores.
CAPÍTULO III – METODOLOGIA da pesquisa

Neste capítulo faz-se menção as opções metodológicas seleccionadas para a elaboração desta
pesquisa. De acordo com Marconi e Lakatos (2003), metodologia é um conjunto de actividades
sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar o objectivo.

3.1. Tipo de Pesquisa

Nesta pesquisa adoptou-se a abordagem qualitativa. Segundo Teixeira (2005), “na pesquisa
qualitativa, o investigador procura reduzir a distância entre a teoria e os dados, entre o texto e a
acção, usando a lógica da análise fenomenológica, isto é, a compreensão dos fenómenos pela sua
descrição e interpretação”. Assim a escolha por esta abordagem, surge pela necessidade de analisar
os factores associados as desistências das raparigas na EPC de Mahau, sendo que para tal, será
necessário recolher opiniões, ideias, relatos dos diferentes intervenientes que convivem com a
problemática em estudo.

Segundo Triviãos (1987) citado Oliveira (2001), a abordagem de cunho qualitativo trabalha os
dados buscando seu significado, tendo como base a percepção do fenómeno dentro do seu
contexto. Portanto, o uso da descrição qualitativa procura captar não só a aparência do fenómeno
como também suas essências, procurando explicar sua origem, relações e mudanças.

Por sua vez, para Gil (1999) citado por Oliveira (2001), o uso dessa abordagem propicia o
aprofundamento da investigação das questões relacionadas ao fenómeno em estudo e das suas
relações, mediante a máxima valorização do contacto directo com a situação estudada, buscando-
se o que era comum, mas permanecendo, entretanto, aberta para perceber a individualidade e os
significados múltiplos.

Sob ponto de vista da natureza, as pesquisas podem ser: básicas ou aplicadas. Assim, atendendo
aos objectivos deste estudo, esta pesquisa classifica-se como pesquisa básica. A escolha desta
pesquisa, justifica-se pelo facto de ser um tipo de estudo que permite aprofundar conhecimentos
sobre uma determinada área, e não prevê a aplicação dos resultados em situação concreta, tal como
refere Gil (2010), a pesquisa básica consiste em responder perguntas para ampliar conhecimento.

Em relação aos objectivos, as pesquisas podem ser: exploratórias, explicativas ou descritivas.


Assim, atendendo a problemática em causa, esta pesquisa classifica-se como pesquisa exploratória.
Esta opção, surge pelo facto de pretender-se neste estudo aprofundar e gerar novas informações
sobre as desistências escolares das raparigas, tal como refere Nascimento (2016), a pesquisa
exploratória consiste na realização de uma pesquisa com o objectivo de familiarizar o investigador
e o objecto de estudo.

Como método de procedimento, recorre-se ao estudo de caso. De acordo com Yin (2001) apud
Oliveira (2001), o estudo de caso é caracterizado pelo estudo profundo e exaustivo dos factos
objectos de investigação, permitindo um amplo e pormenorizado conhecimento da realidade e dos
fenómenos pesquisados.

Nesta ordem de ideias, esta pesquisa é um estudo de caso uma vez que procura perceber os factores
que influenciam nas desistências das raparigas nas EP, tendo como o local de pesquisa a Escola
Primária Completa de Muhapela no Distrito de Molumbo.

A escolha desta técnica de procedimento, justifica-se com base em Hartley (1994) citado em
Oliveira (2001), onde ele salientou que o ponto forte do estudo de caso, reside na capacidade de
explorar processos sociais à medida que eles se desenrolam nas organizações, permitindo uma
análise profunda das várias acções e significados que se manifestam e são construídas dentro delas.

3.2. Técnicas de Recolha de dados

Segundo Vergara (2000), as técnicas de recolha de dados correspondem a parte prática da recolha
de dados para a realização deste trabalho recorre-se as seguintes técnicas: pesquisa bibliográfica,
entrevista semi-estruturada e inquérito por questionário.

3.2.1. Pesquisa bibliográfica

No ponto de vista de Marconi & Lakatos (2003), a pesquisa bibliográfica é o estudo sistematizado
desenvolvido com base em material publicado em livros, revistas, jornais, redes electrónicas, isto
é, material acessível para o público em geral.

Para a elaboração deste trabalho, o ponto inicial foi exactamente a pesquisa bibliográfica, que
consistiu na recolha e selecção de livros e artigos sobre o assunto pesquisado. Alguns desses livros
foram consultados nas bibliotecas e os outros artigos na internet.

3.2.2. Entrevista semi-estruturada e inquérito por questionário


De acordo com Vergara (2000), a entrevista é um procedimento no qual o investigador faz
perguntas a alguém que, oralmente, lhe responde, onde a presença física de ambos é geralmente
necessária.

Por seu turno Gil (2010) refere que a entrevista pode ser estruturada, quando o pesquisador prepara
as questões com antecedência, ou semi-estruturada, quando para além das questões estruturadas,
ao longo da entrevista podem surgir outras questões de interesse para a pesquisa.

Assim, nesta pesquisa aplicou-se a entrevista semi-estruturada, por ser uma técnica que permite
recolher não só os dados preparados, mas também, permite recolher outros dados, que podem
surgir ao longo da sua materialização.

Esta será realizada na EPC de Muhapela envolvendo o pessoal da Direcção da Escola e os


Encarregados de Educação, como forma de situar a pesquisadora sobre os factores que influenciam
as desistências escolares.

Por outro lado, o inquérito será dirigido aos professores e aos alunos do sexo feminino com vista
a captar a sua percepção em torno das razões das desistências escolares da rapariga na EPC de
Muhapela.

3.3. Técnica de análise de dados

Feita a recolha dos dados, procedeu-se com a análise que foi feita através da técnica de análise de
conteúdo para os dados recolhidos pelo técnico de entrevista semi-estruturada, e para os dados
recolhidos pelo inquérito pelo questionário, utilizou-se o Microsoft Office Excel 2019, que é um
programa que permite a tabulação dos dados, permitindo maior facilidade na sua interpretação.

3.4. População e Amostra

Segundo Gil (2008), entende-se por amostra, o sub-conjunto do universo ou da população, por
meio do qual se estabelecem ou se estimam as características desse universo ou população.
Marconi & Lakatos (2003), entendem por amostra como uma parcela convenientemente
seleccionada do universo (população).

Com base nas condições de pesquisa, atendendo as características do estudo, optou-se pela
amostragem não probabilística. De acordo com Malhotra (2001) citado em Oliveira (2001), a
amostragem não-probabilística confia no julgamento pessoal do pesquisador e não na chance de
seleccionar os elementos amostrais. Portanto, nesta amostragem, o pesquisador pode, arbitrária ou
conscientemente, decidir quais serão os elementos a serem incluídos na amostra.

A opção por este técnico reforça-se pela necessidade de se envolver no estudo, inquiridos que
directa ou indirectamente tenham conhecimentos sobre as desistências da rapariga na escola.
Assim, a pesquisadora, com o auxílio da Direcção da Escola vai identificar os principais inquiridos
que tem trabalhado de forma directa ou não, com as desistências.

Assim, embora não possa ser representativa ao universo escolar de duzentos e dez (210) elementos,
a amostra será de quarenta (40) elementos, sendo, seis (6) professores, doze (12) encarregados de
educação, dois (2) membros da Direcção e vinte (20) alunas, da 6ª e 7ª classe, das quais seis (6)
abandonaram a escola.

A escolha de alunas da 6ª e 7ª classe, se justifica por serem as classes onde, se tem registado maior
número de desistência escolar, principalmente da rapariga, o que pode facilitar na obtenção dos
dados para a pesquisa. Por seu turno, os outros inquiridos foram seleccionados porque directa ou
indirectamente trabalharam com casos de desistência escolar da rapariga.

Gráfico 1: Amostra

AMOSTRA

15% Professores
Encarregados
50% 30% Direccao da Escola
Alunas

5%

Fonte: elaborado pelo autor.

3.4.1. Classificação da amostra

A amostra do estudo foi composta por quarenta (40) elementos, dentre eles professores (15%),
alunas (50%), Membros da Direcção (5%) e Encarregados de Educação (30%). Em termos
específicos, a amostra classifica-se da seguinte forma:
[Link]. Dados das alunas

Para o total da amostra seleccionada, as alunas representam 50%, o que demonstra que foram as
mais representadas na pesquisa.

O gráfico 2, apresenta os dados das alunas seleccionadas relativamente as suas idades.

Gráfico 2: Idade das alunas (amostra).

Faixa Etaria
0%

35% 0 a 10 Anos
65%
11 a 15 Anos

16 Anos em diante

Fonte: elaborado pelo autor.

Conforme o gráfico 2, das vinte (20) alunas participantes no estudo, 65% são da faixa etária entre
os 11 e 15 anos, enquanto 35% representam a faixa etária de 16 anos em diante e não tivemos
nenhum participante da faixa etária entre os 0 a 10 anos.

No estudo foram seleccionadas participantes da 6ª e 7ª classe, por serem as classes onde há maior
registo dos casos de desistência escolar da rapariga. Assim, o gráfico 3, apresenta as informações
das alunas relativamente a classe que frequentam.

Gráfico 3: Classe que frequentam (alunas).


Classe que frequentam
5%

6 Classe
35%

60 7 Classe

Desistentes

Fonte: elaborado pelo autor

De acordo com o gráfico 3, das alunas participantes na sua maioria foram as que frequentam a 7ª
classe, com uma representatividade de 60%, contra os 35% que representam as alunas desistentes
e os 5% das alunas que frequentam a 6ª classe.

O gráfico 4, apresenta as informações das alunas em relação a sua situação actual (se são ou não
repetentes.

Gráfico 4: É repetente?

É repetente
SIM
25%

75%
NAO

Fonte: elaborado pelo autor

Conforme ilustra o gráfico 4, das vinte (20) alunas participantes, na sua maioria não são repetentes,
representando 75% contra os 25% que se refere as alunas que são repetentes, por terem reprovado
na 7ª classe, no anterior ano lectivo.

[Link]. Dados dos Professores


Os professores juntamente com os alunos, são actores do PEA que mais tempo passam juntos em
busca da concretização dos objectivos educacionais. Assim, considera-se a participação dos
professores no estudo fundamental, por serem individualidades que lidam directamente com os
casos de desistências nas escolas.

No total dos participantes do estudo os professores representam 15%.

O gráfico 5, apresenta os dados dos professores em relação ao sexo.

Gráfico 5: Professores em relação ao género

Professores em relação ao género

33% Feminino

Masculino
67%

Fonte: elaborado pelo autor

CAPÍTULO IV: APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Neste capítulo pretende-se apresentar e analisar os dados obtidos na pesquisa de campo, através
dos instrumentos de recolha de dados. Os dados são apresentados através duma sequência lógica,
começando-se pelos dados obtidos através da entrevista semi-estruturada e a posterior os obtidos
através do guião de questionário. A sua apresentação obedece os objectivos específicos definidos,
e, faz-se o cruzamento das respostas dos inquiridos, sustentada pelos autores identificados
consoante os três objectivos específicos da pesquisa.

4.1. Descrição do local da pesquisa

A EPC de Muhapela, localiza-se na Província da Zambézia, Distrito de Molumbo, no Posto


Administrativo de Corromana, distando a mais de 50 km da Vila distrital.

A instituição possui uma infra-estrutura construída de raiz, composta por cinco (5) salas de aulas,
um bloco administrativo que comporta o gabinete do Director, do Director Adjunto Pedagógico e
a sala dos professores; uma casa de banho para os alunos e outra para os professores; um campo
para a prática de desporto, no recinto escolar existem várias árvores de sombra e outras tantas de
frutos, além de uma machamba pertencente a escola, de onde são produzidas várias culturas que
beneficiam os alunos e toda a comunidade escolar.

De acordo com o organigrama da instituição, a escola é dirigida pelo Director da Escola,


coadjuvado pelo Director Adjunto Pedagógico (DAE) e pelo Técnico Administrativo. Possui um
total de oito (8) professores, dos quais cinco (5) homens e três (3) mulheres desde N4 a N1.

Lecciona-se, todas as classes do Ensino Primário, de acordo com o currículo nacional, sendo que
o rácio professor-aluno está na média de vinte (20) alunos para um (1) professor.

4.2. Factores que influenciam na desistência escolar da rapariga

Em busca dos dados para responder o primeiro objectivo específico (identificar os factores que
influenciam na desistência escolar da rapariga na EPC de Muhapela) trabalhou-se com os quarenta
(40) inquiridos através da entrevista semi-estruturada e do inquérito por questionário, de onde
obteve-se os seguintes dados:

As causas ou factores das desistências escolares da rapariga são vários, sendo que, em cada região
há factores mais frequentes que são diferentes em outras localidades. Portanto, buscou-se através
do guião de entrevista aplicado aos gestores e aos encarregados de educação, perceber os factores
que influenciam na desistência da rapariga na escola em referência.

A tabela 1, apresenta as respostas aleatórias dos entrevistados em relação a existência de casos de


desistência escolar da rapariga na escola em causa.

Tabela 1: Há registo de casos de desistência escolar da rapariga nesta escolar?

Entrevistados Opinião
Encarregado1 “Sim, em todos anos temos meninas que não terminam de estudar”.
Encarregado 3 “São muitos casos na escola”.
Encarregado 6 “Todos anos temos casos de desistência da rapariga nesta escola”.
Encarregado 9 “Temos muitos casos”.
Encarregado 10 “Os casos são muitos”.
Encarregado 12 “Acho que sim, não tenho certeza”.
Gestor 1 “Infelizmente sim, (…) Temos muitos casos envolvendo raparigas”.
Gestor 2 “Sim, é uma triste realidade que vivemos com ela todos os anos”.
Fonte: adaptado pelo autor.

Conforme a tabela 1, a maioria dos entrevistados revela que há registo de casos de desistência
escolar da rapariga na escola. Esta situação é sustentada por Vasconcelos (2013), quando refere
que, relativamente aos rapazes, as raparigas são as que mais abandonam a escola, em resultado de
vários factores. Por sua vez, segundo Rocha (2004) a desistência escolar é um fenómeno que tira
da escola milhares de raparigas que poderão vir a se tornar os futuros excluídos da sociedade e do
mercado de trabalho” (Rocha, 2004, p.2).

As desistências da rapariga resultantes de vários factores, no entanto, existe uma tendência dos
mesmos ocorrerem na mesma época. Nisso, procurou-se através da tabela 2, saber dos
entrevistados em qual dos períodos registam se mais casos de desistência escolar da rapariga na
escola.

Tabela 2: Em que época do ano, registam-se muitos casos de desistências das raparigas na escola?

Entrevistados Opinião
Encarregado 2 “Não sei ao certo, mas depois das férias longas”
Encarregado 4 “As desistências surgem mais no final do ano lectivo
Encarregado 5 “Há alguns casos no início do ano, mas muitos são no final do ano”.
Encarregado 7 “Depois das férias de duas semanas, muitas raparigas não voltam a escola”.
Encarregado 8 “Talvez no meio do ano ou no fim…”.
Encarregado “Acho que no final do ano, ou no início”.
Gestor 1 “Temos alguns casos antes de 3 de 3, mas o maior registo é depois do segundo trimestre”
Gestor 2 “Infelizmente o registo é notado no terceiro trimestre, bem depois das férias de duas
semanas”
Fonte: adaptado pelo autor.

As informações dos entrevistados, resumidas através da tabela 2, compactuam com a opinião de


Mendes (2006) quando refere que o abandono escolar é registado em grande parte no final do ano
lectivo, quando influenciado pelas condições financeiras dos pais ou pelo desempenho negativo
das raparigas. Por sua vez, Rocha (2004) chama atenção ao facto das desistências ocorrerem em
qualquer período, no entanto, no último período são mais frequentes.

Buscando as causas das desistências escolares das raparigas, procurou-se saber dos entrevistados,
através da tabela 3, as razões das desistências escolares das raparigas.

Tabela 3: Que factores são associados as desistências escolares das raparigas?

Entrevistados Opinião
Encarregado 1 “Depende, temos aquelas que deixam de estudar porque os seus pais não têm condições
para comprar cadernos e uniforme. E tem aquelas que deixam para ir ao lar …
Encarregado 2 “Temos aquelas que deixam de estudar por causa da distância até a escola, e outras que
por reprovarem várias vezes, acabam perdendo interesse em estudar…”
Encarregado 5 “Há raparigas que sofrem na escola, alguns professores ou mesmo alunos apreciam a elas
e por elas não se sentirem seguras na escola, acabam preferindo deixar de estudar…”
Encarregado 7 “Quando os pais não têm dinheiro, eles obrigam as filhas a ficarem em casa e lhes ajudarem
nas machambas, isso acontece muito quando os pais também não estudaram…
Encarregado “As raparigas vão ao lar muito cedo. Não se respeitam as idades nestas zonas, basta a
10 criança ser um pouco crescida a tendência é de ir ao lar, outras engravidam cedo…”.
Encarregado “Algumas são obrigadas pelos pais a deixarem de estudar devido as condições das famílias,
12 e por vezes são obrigadas a irem ao lar de modo a reduzir despesas das famílias…”.
Gestor 1 “Os factores são vários, em muitos casos a distância entre a escola e residência influência,
também, o facto de terem um aproveitamento negativo reduz a sua auto estima e acabam
preferindo abandonar a escola. Temos outros casos de casamentos prematuros que as vezes
resultam de gravidez precoce…”
Gestor 2 “Os factores são de vária ordem, alguns tem a ver com a escola, outros com a família e
outros com a própria rapariga. Quando as raparigas reprovam várias vezes acabam
deixando de estudar. As suas famílias por falta de condições e por desvalorizarem a escola
também as obrigam a deixar de estudar. (…)”.
Fonte: adaptado pelo autor.

4.3. Estratégias implementadas pela escola na retenção da rapariga


Considerando as consequências das desistências escolares como factores responsáveis pela
redução do crescimento e desenvolvimento do país, cabe as escolas desenvolverem estratégias para
garantir a retenção das raparigas no PEA. Assim, em busca de respostas para o terceiro objectivo
específico trabalhou-se com os inquiridos através do questionário e da entrevista, de onde obteve-
se os seguintes dados:

A escola como espaço criado para a concretização do PEA desempenha um papel preponderante
para a retenção da rapariga.
CAPÍTULO V: CONCLUSÃO E SUGESTÕES

Este capítulo apresenta as principais conclusões do estudo assim como as sugestões referentes aos
factos observados ao longo do estudo.

5.1. Conclusão

A realização deste trabalho tinha como objectivo principal: analisar os factores que influenciam
na desistência escolar da rapariga na EPC de Muhapela. Para tal, este objectivo foi
operacionalizado em três objectivos específicos: identificar os factores que influenciam na
desistência escolar da rapariga na EPC de Muhapela; analisar as consequências da desistência
escolar da rapariga; e apresentar as estratégias implementadas pela EPC de Muhapela na retenção
da rapariga na escola.

Em relação ao primeiro objectivo específico, identificar os factores que influenciam na desistência


escolar da rapariga na EPC de Muhapela, com base nos dados recolhidos através do inquérito por
questionário aplicado aos professores e alunas da escola em referência e do guião de entrevista
semi-estruturada pode-se concluir que as desistências da rapariga na EPC de Muhapela são
influenciados por vários factores, que estão directamente ligados a família, a escola e a própria
rapariga.

A família é um dos principais factores para a desistência da rapariga. Quando os pais não são
escolarizados pouca importância dão a escola, preferindo que as filhas ajudem nas actividades de
casa ou da machamba em detrimento de ir à escola. A falta de condições para custear a educação
das filhas é outra razão das desistências, fazendo com que os pais prefiram manter os rapazes na
escola e as meninas em casa.

A escola por sua vez, é um espaço aberto onde vários cenários são compartilhados dia após dia.
As dificuldades de aprendizagem são vistas como as principais razões das desistências escolares
que são aliadas ao problema da língua de ensino, pois, o português é pouco praticado pelas
comunidades, e quando estão na escola as raparigas enfrentam várias dificuldades para
compreender os conteúdos orientados neste idioma. Por outro lado, as raparigas são vítimas dos
professores e colegas, onde há marcas de casos de abuso e assédio sexual perpetuado por
professores e colegas de forma directa ou indirecta.
A gravidez precoce e os casamentos prematuros são outros factores que propiciam as desistências
das raparigas. Nas zonas recônditas as raparigas tornam-se sexualmente activas muito cedo, o que
as torna vulneráveis, e nisso, os seus parentes permitem com que estas vão ao lar também muito
cedo.

Relativamente ao segundo objectivo específico, analisar as consequências da desistência escolar


da rapariga, pode-se concluir que as desistências escolares da rapariga trazem consigo
consequências devastadoras para as próprias raparigas, a escola, e a comunidade no geral.
Relativamente as raparigas, estas são excluídas na maioria das actividades de relevo, tem poucas
oportunidades de emprego, são vulneráveis a violência, consumo de álcool e drogas, são vítimas
de abuso e assédio sexual, e também, por falta de conhecimentos sobre o planeamento familiar,
não conseguem controlar as taxas de natalidade.

Quanto ao terceiro objectivo específico, apresentar as estratégias implementadas pela EPC de


Muhapela na retenção da rapariga na escola, pode-se concluir que cabe a escola desenvolver
estratégias atractivas de modo que as raparigas tenham motivos e razões para continuar a
frequentar a escola mesmo passando por dificuldades. Para tal, a escola deve reforçar a sua ligação
com a comunidade, através da realização de palestras, reuniões, participação nas actividades das
comunidades entre outras, de forma a disseminar informações relativas a importância da
frequência da escola por parte das raparigas. Também, a implementação de actividades
extracurriculares de interesse como: desporto escolar, produção escolar e cultura, pode estimular
mais a participação da rapariga no PEA.
5.2. Sugestões

Face as diferentes situações constatadas na EPC de Muhapela sugere-se:

 O reforço da ligação entre a escola e a comunidade com vista a mitigação das desistências
escolares. Este reforço pode ser feito através da participação da escola nas actividades
realizadas pela comunidade e vice-versa.
 A exploração dos 20% concedidos ao currículo local para a desenvolvimento de conteúdos
de interesse local, como produção escolar, que constitui a principal fonte de sobrevivência
das famílias da comunidade, assim como a produção de artigos artesanais entre outros; e
 A solicitação junto dos SDEJT de professoras, como forma de estimular a continuação dos
estudos por parte das raparigas. Isto é, ao colocar cada vez mais professoras nas escolas
das zonas rurais, poder-se-á estimular os encarregados de educação e as próprias raparigas
sobre a importância da escola, para a melhoria das suas vidas e das suas famílias, assim
como desenvolverem a sua comunidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Caetano, I. (2013). Abandono Escolar em Moçambique. Maputo;

Camacho, A. & Tavares, A. (2012). O nosso dicionário, língua portuguesa. Alcance editores, 2ª
edição: Maputo, Moçambique;

Costa, M. & Menezes, Z. (1995). Evasão escolar causas e repercussão social. Monografia do curso
de especialização em planeamento educacional. Fortaleza;

Figia, N. (2005). “A educação da rapariga e a erradicação da pobreza absoluta em Moçambique”,


in: Benigna Zimba e José Catiano eds. As Ciências Sociais na luta contra a pobreza em
Moçambique (Maputo: FILSON Entertainment), pp.229;

Gil, A. C. (2008). Como elaborar projectos de pesquisa. 3. ed. São Paulo: Atlas;

Guerreiro, S. (1998). Insucesso e abandono escolar. Porto: centro social e paroquial nossa senhora
da vitória;

Machado, M. (2007). Família e Insucesso escolar. Tese de Doutoramento, Faculdade de Psicologia


e Ciências da Educação da Universidade do Porto: Porto;

Magude, J. (2016). Causas da desistência escolar da rapariga: estudo de caso Escola Primária
Completa Acordos de Roma. UEM;

Marconi, M. A. & Lakatos, E. M. (2003). Técnicas de Pesquisa. 5ªEdição. São Paulo, Atlas;

MINED. (2012). Plano Estratégico da Educação (2012 -2016). MINED. Moçambique;

MINEDH. (2020). Plano Estratégico da Educação 2020-2029. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E


DESENVOLVIMENTO HUMANO; Maputo, Moçambique.

Sil, V. (2004). Alunos em situação de insucesso escolar: percepções, estratégias e opiniões dos
professores: estudo exploratório. Lisboa. Instituto Piaget;

Silva, G. (2007). Educação e género em Moçambique. Centro de estudos africanos da


Universidade do porto.
Apêndice I

GUIÃO DE ENTREVISTA PARA OS GESTORES DA ESCOLA

SECÇÃO 1: DADOS PESSOAIS


1.1. Quantos anos têm? _________;

1.2. Quantos anos de experiência possui? ___________:

1.3. Em que carreira está enquadrado? ____________

SECCÇÃO 2: factores que influenciam a desistência escolar da rapariga

2.1. Há registo de casos de desistência escolar da rapariga nesta escola? 2.2. Se sim. Esse registo
é elevado?

2.3. Em que período, são frequentes os casos de desistências das raparigas?

2.4. Que factores são associados as desistências escolares da rapariga?

SECÇÃO 3: consequências da desistência escolar da rapariga

3.1. Como é que vivem as meninas que deixam de frequentar a escola?

3.2. Quais são as ocupações que assumem as meninas que deixam de frequentar a escola?

3.3. Quais tem sido as principais consequências da desistência escolar da rapariga para ela, para a
escola e para a comunidade?

SECÇÃO 4: ESTRATÉGIAS IMPLEMENTADAS PELA ESCOLA NA RETENÇÃO DA


RAPARIGA

4.1. O que têm feito a Direcção da escola para eliminar as taxas de desistência da rapariga?

4.2. De que forma a comunidade tem ajudado a escola no combate as desistências escolares?
Apêndice II

GUIÃO DE ENTREVISTA PARA OS ENCARREGADOS DE EDUCAÇÃO

SECÇÃO 1: DADOS PESSOAIS

1.1. Quantos anos têm?

1.2. Qual é o seu nível de escolaridade?

1.3. Qual é sua profissão/ocupação?

SECÇÃO 2: factores que influenciam a desistência escolar da rapariga

2.1. Alguma vez ouviu falar de casos de desistência na escola?

2.2. Se sim. Esse registo é elevado?

2.3. Em que época do ano, registam-se muitos casos de desistências das raparigas na escola?

2.4. Porque as raparigas deixam de estudar?

SECÇÃO 3: consequências da desistência escolar da rapariga

3.1. Como vivem as meninas que deixam de frequentar a escola?

3.2. Que actividades fazem as meninas quando deixam de ir à escola?

3.3. O que costuma acontecer as meninas que deixam de ir à escola na comunidade?

SECÇÃO 4: estratégias implementadas pela escola na retenção da rapariga

4.1. O que é que a escola tem feito para evitar as desistências das raparigas?

4.2. O que a escola deve fazer para garantir que as raparigas concluem a 7ª classe?

4.3. De que forma a comunidade tem ajudado a escola no combate as desistências escolares da
rapariga?
Anexo

Você também pode gostar