Estudo de caso Rafael
Rafael tem 41 anos e mora com seu marido (Bruno) e seus dois filhos (Lucas e
Matheus) em uma cidade de médio porte no estado de São Paulo. Ele se identifica como
homem cis e homossexual. Procurou a terapia em meados de janeiro deste ano, pois
estava se percebendo mais estressado e com raiva com bastante frequência.
Em relação a história de vida, Rafael nasceu e cresceu na zona rural de uma
cidadezinha pequena no interior de São Paulo, contando com apenas 5 mil habitantes.
Seus pais foram lavradores de colheita de café e de corte de cana de açúcar e estudaram
até a 3ª série do ensino fundamental. Rafael é o filho caçula e tem dois irmãos mais
velhos. Relata que a infância foi muito difícil, seus pais eram muito rígidos, não
deixavam os filhos sair de casa e que primeiro era a obrigação e depois a diversão.
No entanto, Rafael conta que os pais não tinham muita paciência para ensinar as
tarefas da escola e que sempre acabava ficando de castigo quando não sabia resolver a
lição de casa: “Meus pais sempre prezaram muito pelos estudos, que os filhos
venceriam na vida por esse caminho, mas não conseguiam ajudar muito a gente,
porque só estudaram até a 3ª série, mas como eles eram muito rígidos, se caso eu não
soubesse fazer uma tarefa de casa, meus pais falavam que eu deveria saber fazer a
tarefa, pois eu tirava o tempo só para estudar, então, eu sempre pensei que eu tinha que
saber de tudo mesmo, caso não soubesse, eu seria um fracasso... aí eu parei de mostrar
as notas para os meus pais”.
Rafael conta de um episódio da época de escola: “Teve uma vez que eu cheguei
da escola todo feliz com a minha prova de matemática na mão, porque eu tinha tirado
um 9,5 na matéria e fui mostrar para os meus pais e eles disseram que eu não tinha
feito mais que a minha obrigação e que na verdade, eu tinha que ter tirado um 10. Eu
fiquei tão frustrado que eu até pensei em fugir de casa, porque naquela casa
ninguém me valorizava. Na adolescência foi quando eu comecei a entender que ali
não era o meu lugar. Por volta dos meus 15 para 16 anos, percebi que eu era
diferente, porque embora eu já desconfiasse e estivesse confuso, eu já estava tendo
mais certeza que eu era homossexual... Eu tentei esconder ao máximo dos meus pais,
porque eu sabia que eu seria muito julgado, mas como a cidade era pequena, não
demorou muito para começarem a falar de mim, do meu jeito e aí caiu nos ouvidos
dos meus pais e eu fui bastante humilhado. Falavam que eu era a vergonha da
família, que eles não ralaram tanto na vida para ter um filho desvirtuado. Por
mais que eu tentava ser discreto, sempre acabavam me chamando de nomes feios,
nada que eu fazia amenizava a minha situação”. Na escola e mais especificamente no
ensino médio, também foi uma situação complicada para Rafael: “Quando eu estava no
ensino médio e todo mundo soube que eu era homossexual foi bem complicado, porque
eu não encontrava muito acolhimento ali, pois como a cidade era pequena todo
mundo julgava muito, não tinha muitos amigos homens, porque aconselhavam os
meninos a não serem meus amigos... eu tinha apenas algumas amigas e eu sentia que
eu era a chacota da cidade. Por um tempo, eu guardei todo meu sentimento de
frustração, de estranhamento, de injustiça, mas depois comecei a sentir raiva e cada
vez que alguém da minha família ou da escola me insultavam o sangue subia, meu
coração acelerava, minha visão ficava turva e eu ia ficando com tontura e quando
eu menos percebia, eu já estava tendo um crise de raiva, gritando com todo mundo,
apontando o dedo na cara... mas tinha vezes que eu só guardava para mim e ficava
ruminando a situação, pensando em mil cenários e cosias que eu poderia ter feito e
dito... Esses dias até perdi o sono revivendo situações, o que tem acontecido com
bastante frequência, pois fico pensando sobre o meu chefe me chamando de caipira,
sobre ficar duvidando da minha inteligência...”
Rafael conta que durante muito tempo pegava o ônibus para ir à escola na cidade
e que gostava muito de estudar. Foi devido aos estudos que encontrou resiliência para
enfrentar o preconceito dos pais, pois sonhava em sair de casa e fazer faculdade. Relata
que durante a graduação em Publicidade e Propaganda encontrou muitos amigos e
acolhimento, tudo que não tinha durante a adolescência.
No entanto, as coisas voltaram a ficar difíceis quando decidiu trabalhar no atual
emprego em que seu chefe emite comportamentos desrespeitosos com Rafael. Em uma
reunião de trabalho, por exemplo, Rafael conta que sentiu seu sangue ferver, o coração
ficou acelerado e com vontade de gritar: “Eu queria simplesmente esganar o meu chefe,
porque eu estava apresentando um projeto sobre estratégias de captação de clientes
para toda a equipe e do nada ele começou a corrigir o modo como eu falava, por
exemplo, que eu estava puxando muito o “r” quando eu falava “porque”, e isso foi
me deixando irritado e depois falou que para um caipira até que eu apresentava bem.
Eu quase morri de vergonha, porque todo mundo começou a rir e o sangue foi subindo
e minha vontade era de voar no pescoço dele, mas como preciso ter o emprego, sai
da sala e fiquei remoendo toda aquela situação... meus colegas até me falaram que
eu parecia mais agitado e que eu estava vermelho. Maldito o dia que ele descobriu que
eu era da roça!”. Rafael ainda complementa dizendo sobre outra situação: “Esses
dias, tive que escrever um e-mail para ele a respeito de trabalho e ele retornou
perguntando se era eu mesmo que tinha escrito, pois estava muito bem escrito dando
um sentido que quem vem da roça não sabe escrever. Eu fiquei com tanta raiva,
porque não era possível que ele poderia estar escrevendo algo tão velado. Agora toda
vez que vou escrever um e-mail para o meu chefe começo a ficar agitado, ansioso e
fico adiando mandar o e-mail, porque eu sei que ele vai em insultar. Parece que esse
tipo de perseguição só acontece comigo... Além disso, teve outra situação que me
deixou com raiva foi quando ele pediu para ficar até mais tarde no trabalho, porque um
colega faltou e que a demanda de trabalho estava alta e que precisávamos estar em
um ritmo mais acelerado... na hora eu pensei: ah pronto, tinha que pedir somente
para mim, isso só pode ser perseguição... e já fiquei irritado e nem consegui mais
me concentrar direito no trabalho, aí aquele dia acabou
pra mim, tive umas crises de raiva e até dei má resposta para um colega de trabalho”.
O psicólogo também questionou Rafael se ele estava se percebendo mais irritado
somente nas situações de trabalho ou se isso se estendia para outras situações da vida
dele e Rafael comenta: “Então, acho que tem me afetado de maneira geral, porque
esses dias meu carro quebrou do nada. Resolvi ligar para o meu mecânico de confiança
e ele não pôde me socorrer naquele momento, porque tinha uma outra emergência...”
Rafael suspirou e continuou: “Olha, naquele momento, pensei que ele não queria me
socorrer e aí já respondi de maneira meio grossa pra ele, dizendo que não precisava
mais e que eu iria procurar outro mecânico... que tinha perdido um cliente, que eu
nunca podia contar com ele mesmo...mas depois que passou eu fiquei com vergonha de
mim... e agora não sei nem mais como ligar pra ele caso eu precise... esses dias vi ele
na rua e ele até disfarçou... acho que ele deve estar com raiva de mim.”
Outra situação que Rafael traz sobre os momentos de raiva é em relação aos
filhos: “Uma coisa que eu percebi também é a dificuldade de lidar com meus filhos...
Lá em casa está uma briga por causa de celular... Eu dei um celular para o Matheus
que tem 11 anos, mas o Lucas, de 4 anos, monopolizou o celular do Matheus... aí
quando o Matheus pega o celular para assistir algo ou para jogar, o Lucas não deixa,
apronta uma birra. Aí começa a briga e eu acabei pegando o celular da mão do
Matheus e entrei para o Lucas, porque eu não estava mais com paciência para essa
situação. Meu marido, o Bruno, até tentou interferir e mediar a situação, mas como eu
já estava sem paciência só falei: quem manda aqui sou eu, então, eu que vou decidir
quem brinca e quem não brinca com o celular. Depois que eu me acalmei, meu marido
até tentou conversar comigo dizendo que eu sempre tomo o partido do Lucas e que o
Matheus fica chateado quando isso acontece... eu fiquei estressado na hora e acabamos
discutindo... foi chato a situação”.
Aproveitando o gancho que o Rafael mencionou sobre o relacionamento com o
marido, o psicólogo perguntou com essas situações interferiam na relação do casal: “Ah,
bastante, porque já tivemos várias discussões devido a esse meu jeito... Teve uma vez
que eu dei de presente um carro pra ele, pois não queria que ele dependesse tanto de
mim para leva-lo nos lugares, mas aí teve um dia que ele me ligou dizendo que ia em
um happy hour com os amigos depois do trabalho... na hora subiu o sangue, coração
disparou, porque eu ia ter que cuidar das crianças sozinho... o que eu fiz? Vendi o
carro dele... e depois me arrependi, porque em um momento de impulso fiz a coisa
errada, pois depois que passa a raiva eu fico pensando que eu só faço a cosia errada
sempre”.
O psicólogo percebeu que Rafael ficou mais agitado nesse momento, com os
olhos e a face avermelhada e respiração mais ofegante e pesada. O psicólogo pontuou
essa questão com Rafael e ele desabafou dizendo: “Lembrar de algumas coisas
relacionado ao meu marido me fez lembrar da minha sogra. Desde quando conheci o
Bruno, eu sinto que ela não gosta de mim”. O psicólogo: “O que te faz pensar que ela
não gosta de você?” Ah, o Bruno sempre foi mimado pela mãe e é como se eu tivesse
roubando o reizinho da casa. Ela só sabe me criticar, fala que minhas roupas não são
estilosas iguais a do Bruno... eu fico irritado quando ela fala isso, me sinto
desvalorizado, como se eu ainda fosse aquele menino da roça e quando me sinto assim,
eu costumo evitar de ir à casa dela ou fico quieto no meu canto pensando em mil coisas
ao mesmo tempo, que eu devo mesmo ser brega. Além disso, o Bruno não fala nada
quando eu converso com ele para falar que a não gosto que a mãe dele fica falando
das minhas roupas, mas aí ele fala que é coisa
da minha cabeça... que a mãe dele fala brincando... eu fico com raiva e quando fico
assim, eu quero sumir, sair correndo. Tem vezes que desconto na bebida, fico bebendo
vinho só para não ter que ficar lembrado que as pessoas são críticas e maldosas. Eu
fico me sentindo inadequado em diversas reuniões de família... Parece que sou julgado
o tempo todo, sabe? Eu não consigo agradar as pessoas nunca...”
Rafael conta que sua vida amorosa não foi fácil: “Ah, antes de namorar e casar
com o Bruno, eu tive um outro relacionamento que me fez muito bem, mas também me
fez muito mal. Ele me largou um dia do nada, ele não falou o motivo... só disse que não
estava bem com ele mesmo. Ele deve ter me deixado porque na época eu estava
começando a ficar calvo e não estava me cuidando tanto na academia... acho que ele
quis encontrar alguém mais bonito do que eu... eu fiquei arrasado, corri atrás dele, mas
ele nem quis saber de mim... mas teve um dia que fiquei com muita raiva, com ego
ferido e resolvi ligar pra ele e xinguei tudo ele (risos), mas é que eu estava me sentindo
sufocado, precisava extravasar essa raiva... e depois de xingar ele no telefone, fui para
o bar beber, porque eu precisava me distrair e esquecer tudo isso. Aí depois de um
tempo, comecei ir em festa com os meus amigos para ver se eu me sentia mais desejado
pelos caras, mas toda vez que eu voltava da balada e não ficava com ninguém, eu me
sentia triste, com dor no peito pensando que ninguém mais ia me querer, que eu não ia
mais namorar ou que eu ia morrer sozinho... aí eu descontava minha solidão na bebida.
Demorei 6 anos para conhecer meu marido e quando me vejo com raiva e brigando
com ele, quando a raiva passa, eu fico com a minha cabeça fervilhando achando que
ele vai terminar comigo e quando isso acontece eu fico inseguro... acabo tentando
agrada-lo, mas quando eu vejo que ele não está dando muita atenção pra mim, eu fico
irritado e com raiva, aí eu fico emburrado e às vezes paro de falar com ele e acaba se
tornando um ciclo, sabe?
Para finalizar, o psicólogo fez uma última pergunta: “hoje nós falamos bastante
sobre as dificuldades que você vem enfrentando, mas gostaria que nós pudéssemos
falar um pouquinho suas qualidades e/ou as habilidades”. Rafael relata que: “Ah, eu
sou uma pessoa muito esforçada, sabe? Gosto de ser o melhor no que eu faço tanto no
trabalho quanto na minha vida pessoal. Também gosto de estar entre meus amigos e
aproveitar um tempo com meus filhos e marido... também gosto de praticar esportes,
como jogar vôlei com os meus amigos, mas atualmente não tenho saído muito com
meus amigos, porque eu não tenho tido paciência para ficar conversando... quando eu
explico a minha situação em relação ao meu chefe para os meus amigos, parece que
eles não acreditam
em mim... ficam falando que eu levo as coisas muito a sério e que eu deveria ser mais
leve... eu acho que eles estão cansados de mim, aí nem procuro sair e acabo dando uma
desculpa... eu fico triste, mas não quero me sentir invalidado”.
Por fim, Rafael contou que esperava que a terapia o ajudasse a ficar menos
irritado e conseguir lidar com as situações desagradáveis com o chefe. Relatou também
que gostaria de ter mais tempo de qualidade com os filhos e com o marido e que
pudesse sair mais com os amigos.