ANA BEATRIZ CARVALHO, ANGY HORI, EMILLY CARVALHO, GUILHERME,
JAMES, MARIA EDUARDA MIRANDA E RAISSA VENZE
TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA)
Campo Grande, 2024
HISTÓRIA
Desde 1943 o Transtorno do Espectro Autista tem sido alvo de estudos. “O termo
“autismo” foi primeiramente usado por Eugene Bleuler, em 1911, para designar crianças que,
aparentemente, haviam perdido contato com a realidade e apresentavam dificuldade de
comunicação. De acordo com Baker (2013), o psicanalista Leo Kanner foi quem de fato
descreveu, em 1943, o autismo como “Distúrbio Autístico de Contato Afetivo”. O seu
trabalho foi realizado através da descrição de 11 crianças com características como “solidão
extremamente autística”, ecolalia, ansiedade obsessiva e busca de manutenção da rotina. O
autismo é, desde a descrição do primeiro caso, interesse de estudo da psiquiatria, sendo por
muitos anos visto como a apresentação inicial de uma doença mais severa, a esquizofrenia
infantil” ( Borges, 2018, p.230-231).
PREVALÊNCIA MUNDIAL E NACIONAL
De acordo com estudos realizados pelo Center for Disease Control and Prevention
(CDC), a prevalência do Transtorno do Espectro Autista (TEA) nos Estados Unidos é de
aproximadamente 1 caso para cada 110 pessoas. Já os dados da Organização Mundial da
Saúde (OMS) apontam que, em escala global, o transtorno afeta cerca de 1 em cada 160
crianças (OMS, 2017, apud Viana et al., 2020).
No Brasil, estima-se que aproximadamente 1% da população seja diagnosticada com
TEA, o que equivale a cerca de 2 milhões de pessoas. Só no estado de São Paulo, mais de 300
mil casos foram identificados até o ano de 2014 (Ministério da Saúde, 2015, apud Viana et al.,
2020).
Apesar do crescimento desses números, o Brasil ainda está longe de oferecer políticas
públicas e instituições educacionais e de saúde adequadas para atender essa demanda,
especialmente se compararmos com países como os Estados Unidos (Mello et al., 2013, apud
Viana et al., 2020).
FATORES ASSOCIADOS AO AUMENTO DE CASOS
O aumento da prevalência do TEA ao longo das últimas décadas não ocorre de forma
isolada. Esse crescimento pode ser explicado por uma série de fatores interligados, como o
aumento da conscientização da sociedade em relação ao transtorno, a evolução dos métodos
diagnósticos, que agora são mais precisos, e a ampliação dos critérios de diagnóstico, que
passaram a incluir casos mais leves do espectro. Além disso, melhorias nos sistemas de
registro e monitoramento em saúde têm contribuído para identificar casos que, no passado,
poderiam ter passado despercebidos (OPAS, 2017, apud Viana et al., 2020).
PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO TEA
A DSM-5 TR (2022) divide as categorias do TEA em 5, sendo A, B, C, D e E:
A. Dificuldade na comunicação social (sinais): não verbaliza, raramente responde quando
é chamado, não costuma compartilhar conquistas ou interesses, dificuldade em
compreender linguagem não verbal, não desenvolve expressões faciais para
comunicar, pouco interesse em interagir
B. Interesses restritos e repetitivos (sinais): manias repetitiva de brincar ou realizar
alguma atividade, movimentos motores e/ou verbalização de forma repetitiva,
interesses muito peculiares e/ou intenso em determinado assunto, metódicas,
problemas em aceitar alterações em sua programação habitual ou mudar de uma
atividade para outra e problemas sensoriais como sensibilidade ao sons, luz ou
determinado ambiente - nessa situação demonstra estresse, angústia ou inquietação.
C. Os sintomas devem estar presentes precocemente no período do desenvolvimento,
porém eles podem não estar totalmente aparentes até que exista uma demanda social
para que essas habilidades sejam exercidas, ou podem ficar mascarados por possíveis
estratégias de aprendizado ao longo da vida.
D. Esses sintomas causam prejuízos clínicos significativos no funcionamento social,
profissional e pessoal ou em outras áreas importantes da pessoa.
E. Esses distúrbios não são bem explicados por deficiência cognitiva e intelectual ou pelo
atraso global do desenvolvimento.
Esses sintomas podem variar nos níveis de intensidade do TEA.
ETIOLOGIA
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento
caracterizado por prejuízos significativos na interação social, na comunicação verbal e não
verbal, além de comportamentos restritos e repetitivos (APA, 2014, apud Cardoso et al.,
2020). Geralmente, os primeiros sinais aparecem na infância, sendo o transtorno influenciado
por uma interação complexa de fatores genéticos, ambientais e neurobiológicos que ainda não
são completamente compreendidos (Assumpção Júnior e Kuczynski, 2015, apud Cardoso et
al., 2020).
Estudos mostram que a hereditariedade é um fator determinante, com estimativas
apontando que entre 50% e 90% dos casos têm origem genética. Mutações em genes ligados à
plasticidade cerebral e à formação de conexões sinápticas foram associadas ao
desenvolvimento do transtorno (Grisie-Oliveira e Sertié, 2017, apud Viana et al., 2020;
Cardoso et al., 2020). Além disso, fatores ambientais, como infecções durante a gravidez,
exposição a poluentes e o uso de certos medicamentos pela mãe, podem interagir com
predisposições genéticas e aumentar o risco de TEA (Raz et al., 2015, apud Cardoso et al.,
2020).
No campo neurobiológico, pesquisas mostram alterações importantes no cérebro de
indivíduos com TEA, como aumento precoce do volume cerebral, disfunções no córtex
pré-frontal e alterações no cerebelo. Essas mudanças afetam funções essenciais, como
memória, atenção e regulação do comportamento (Courchesne, 2002, apud Cardoso et al.,
2020).
ÁREAS DO CÉREBRO QUE SOFREM MODIFICAÇÕES
No TEA, algumas áreas específicas do cérebro sofrem alterações estruturais e
funcionais. Uma dessas regiões é o córtex pré-frontal, que é responsável por funções
executivas como planejamento, tomada de decisão, regulação emocional e controle inibitório.
Alterações nessa área podem dificultar a adaptação a mudanças e o controle do
comportamento (Courchesne, 2002, apud Cardoso et al., 2020).
Outra área afetada é o cerebelo, tradicionalmente relacionado à coordenação motora,
mas que também desempenha papel em processos cognitivos e sociais. Reduções no volume
do cerebelo estão ligadas a dificuldades na comunicação, na interação social e no
processamento de informações sensoriais (Cardoso et al., 2020).
O sistema límbico, especialmente estruturas como a amígdala e o hipocampo, também
apresenta alterações no TEA. A amígdala, que regula emoções e respostas sociais, pode
apresentar hiperatividade ou mudanças de volume, dificultando a interpretação de expressões
faciais e a gestão de emoções. Já o hipocampo, essencial para a memória e aprendizagem,
mostra alterações que comprometem a capacidade de processar novas informações,
impactando diretamente o aprendizado e a interação social (Cardoso et al., 2020).
Além disso, a conectividade neural entre diferentes áreas do cérebro apresenta déficits,
o que prejudica a integração e execução de tarefas complexas, reforçando a importância de
compreender essas alterações para desenvolver intervenções mais eficazes.
ALTERAÇÕES NAS FUNÇÕES EXECUTIVAS
Pessoas com TEA frequentemente apresentam dificuldades significativas em funções
executivas, que incluem memória de trabalho, flexibilidade cognitiva, controle inibitório,
planejamento e atenção seletiva (Talero-Gutiérrez et al., 2015, apud Cardoso et al., 2020).
Essas funções, localizadas principalmente no córtex pré-frontal, são essenciais para se adaptar
a novas situações e regular comportamentos e emoções.
Dificuldades na flexibilidade cognitiva, por exemplo, tornam evidentes os desafios
para lidar com mudanças de rotina, o que pode aumentar comportamentos repetitivos e níveis
de ansiedade (Moore, 2005, apud Cardoso et al., 2020). Além disso, prejuízos na memória de
trabalho dificultam o processamento e a organização de informações necessárias para tarefas
do dia a dia (Czermainski et al., 2014, apud Cardoso et al., 2020).
Essas alterações nas funções executivas impactam profundamente a vida das pessoas
com TEA, afetando o desempenho acadêmico, as interações sociais e a autonomia funcional.
Por exemplo, dificuldades em planejamento e adaptação restringem a independência em
atividades do cotidiano e no ambiente de trabalho, enquanto o controle inibitório prejudicado
pode intensificar respostas impulsivas, dificultando a convivência social (Turner, 1997, apud
Cardoso et al., 2020).
Essas limitações não afetam apenas o indivíduo, mas também sua inclusão na
sociedade, tornando fundamental o desenvolvimento de intervenções que ajudem a minimizar
essas barreiras e melhorar a qualidade de vida dessas pessoas e suas famílias
(Talero-Gutiérrez et al., 2015, apud Cardoso et al., 2020).
ALTERAÇÕES ESTRUTURAIS DO CÉREBRO NO TEA
Estudos de neuroimagem têm mostrado que crianças com TEA frequentemente
apresentam variações no tamanho e na forma de diversas regiões cerebrais.
Representação de alterações cerebrais relacionadas ao autismo. Fonte: SciELO (2006).
De acordo com Kandel et al. (2014), uma das características mais comuns observadas
em indivíduos com TEA é o aumento do volume cerebral, especialmente nas áreas cerebrais
responsáveis por funções motoras e sensoriais, como o córtex motor primário e o córtex
somatossensorial. Além disso, alterações na estrutura do córtex pré-frontal, uma área
associada à tomada de decisão e controle executivo, também têm sido documentadas,
sugerindo que essas áreas podem ter um papel importante nas dificuldades de processamento
social e emocional observadas em indivíduos com TEA.
Outro achado relevante, conforme Bear et al. (2008), é a diferenciação na
conectividade entre os hemisférios cerebrais, o que pode prejudicar a integração de
informações necessárias para o processamento eficiente das interações sociais. Essa falta de
sincronização neural pode explicar, em parte, as dificuldades de comunicação e interação
social observadas em pessoas com TEA. O corpo caloso por sua vez, é responsável pela
comunicação entre os hemisférios cerebrais, também mostra-se alterado, o que pode interferir
na coordenação de respostas cognitivas e emocionais.
Além das alterações estruturais, o funcionamento cerebral também apresenta
diferenças importantes no TEA. Assim, o córtex temporal, uma área envolvida na percepção
social e no reconhecimento de faces, está disfuncional em indivíduos com TEA. Como
resultado, muitos indivíduos com esse transtorno têm dificuldades em reconhecer expressões
faciais e em processar informações sociais de maneira adequada, o que compromete a
capacidade de interagir e se comunicar efetivamente com os outros.
Fuentes et al. (2014) destaca que o TEA também está associado a uma hipoatividade
nas redes neurais responsáveis pelo processamento de informações sociais e emocionais,
particularmente nas regiões do córtex pré-frontal e da amígdala. A amígdala é uma estrutura
essencial para a percepção de emoções, e sua disfunção pode ser uma das principais razões
pelas quais os indivíduos com TEA apresentam dificuldades na identificação e resposta
emocional a estímulos sociais. Essa disfunção emocional pode ser acompanhada por uma
hiperatividade nas zonas sensoriais do cérebro, levando a uma hipersensibilidade a estímulos
sensoriais, como sons ou toques.
Por outro lado, a função executiva, que envolve habilidades como organização,
planejamento e controle de impulsos, é frequentemente afetada, o que pode contribuir para
comportamentos repetitivos e inflexibilidade no pensamento, comuns no transtorno. Kandel et
al. (2014) relatam que a disfunção nas redes de controle executivo pode dificultar a adaptação
a novas situações e a realização de mudanças no comportamento.
TRATAMENTO
O tratamento neuropsicológico para o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é
complexo e deve ser adaptado às necessidades individuais, devido à ampla variedade de
características associadas ao transtorno. Essas incluem dificuldades persistentes na
comunicação social e na interação, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento,
interesses ou atividades. Esses sintomas surgem na infância e podem comprometer o
funcionamento diário, embora a gravidade e o momento em que os prejuízos se tornam
aparentes variem de acordo com as particularidades do indivíduo e o ambiente em que ele
vive.
Embora as características principais do transtorno se manifestem no período de
desenvolvimento, intervenções e apoios podem ajudar a amenizar as dificuldades em certos
contextos. As manifestações do TEA também diferem bastante em função do grau de
severidade, do nível de desenvolvimento e da idade da pessoa. Por isso, o tratamento
geralmente combina estratégias comportamentais, abordagens educacionais e terapias
complementares, sempre considerando as necessidades específicas de cada paciente.
Dessa forma, a neuropsicologia baseia-se em intervenções comportamentais, tais
como: Análise Comportamental Aplicada (ABA) que, por sua vez, é uma das abordagens
mais estudadas e utilizadas no TEA e foca na modificação de comportamentos através de
reforços positivos e técnicas de ensino estruturadas; Terapia de Modificação de
Comportamento que, utiliza princípios de condicionamento operante para aumentar
comportamentos desejáveis e diminuir comportamentos indesejáveis. Além disso, há as
Terapias Cognitivo-Comportamentais (TCC), sendo um modelo da TCC Adaptada, que pode
ser utilizada para ajudar crianças e adolescentes com TEA a desenvolver habilidades sociais,
lidar com a ansiedade e melhorar a regulação emocional. Outrossim, intervenções
educacionais são fundamentais diante dessa condição, por meio de educação especializada em
programas educacionais adaptados que atendem às necessidades individuais dos alunos com
TEA, utilizando métodos como o ensino estruturado e o uso de tecnologias assistivas, bem
como, a integração multiprofissional em terapias complementares com o apoio de terapeutas
ocupacionais e fonoaudiólogos que, respectivamente, irão atentar-se em desenvolver
habilidades motoras e de vida diária, além de promover a integração sensorial e melhorar a
comunicação verbal e não verbal, essencial para muitos indivíduos com TEA.
Diante disso, percebe-se, também, que o suporte familiar é tão importante quanto
qualquer tratamento, já que a família é quem deve estar atenta e apoiar estrategicamente o
desenvolvimento da criança, o que ainda envolve fatores sociais. Ademais, deve-se considerar
abordagens baseadas em evidências, tal como o Modelo Denver de Intervenção Precoce, que é
um programa que combina ensino estruturado com brincadeiras, visando o desenvolvimento
social, cognitivo e comunicativo em crianças pequenas, além das Intervenções baseadas em
Mindfulness, que ajudam na regulação emocional e na redução da ansiedade.
As terapias apresentadas têm como objetivo estimular a interação social, desenvolver a
autonomia e a independência e ajudar a criança na melhora do comportamento e
comunicação, além do foco em suas habilidades. Sendo assim, o tratamento deve ser
conduzido por uma equipe multidisciplinar composta por profissionais como psicólogos,
psiquiatras, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e educadores especializados. É
importante realizar um acompanhamento contínuo, com avaliações regulares do progresso,
para adaptar as intervenções de acordo com as necessidades do paciente.
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