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Exclusão Escolar: Mecanismos e Dimensões

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DUBET, François. A escola da exclusão In Cadernos de Pesquisa, n. 119, p. 29 - 45, julho/2003.

Resumo por: Bruna Emerim Krob | E-mail: [Link]@[Link]

No presente texto, Fraçois Dubet busca problematizar a exclusão como uma das dimensões da experiência
escolar dos alunos, afirmando que quanto mais a escola amplia seu raio de ação, mais ela exclui, apesar dos
mecanismos que visam atenuar o fenômeno. Para o autor, a escola produz mecanismos próprios de exclusão, atuando
não apenas como REPRODUTORA, mas como PRODUTORA da mesma.
O autor rejeita a ideia de que a exclusão está relacionada a desigualdade de oportunidades escolares,
apontando outros problemas tais quais: a) qual seria o lugar da escola em uma estrutura social que é excludente? b) a
escola produz mecanismos próprios de exclusão e segmentação escolar; c) haveria consequências da mutação
estrutural sobre as experiências escolares tanto de alunos quanto de professores.
O texto está divido em três grandes tópicos, quais sejam:

Tópico 1: Da exclusão social à exclusão escolar (p. 30 - 35)


Dubet inicia afirmando que há duas retóricas em torno da questão da exclusão escolar, uma que afirma que a escola
não produziria uma formação de acordo com as necessidades da economia, e outra que afirma que os problemas da
exclusão são externos a escola, ou seja, relacionados ao capitalismo e ao mercado. Esta dupla retórica ora acusa o
serviço público, ora acusa o mercado. Porém, para o autor é preciso relacionar estes dois polos, compreendendo os
elos entre relações de PRODUÇÃO e relações de REPRODUÇÃO. Para destacar tais relações, remete à história de
escolarização da França:
A) O autor referencia a escola republicana, prevalente desde o final do XIX, em que havia uma distância entre a
escola e os problemas da “produção”, e uma oferta escolar arraigada ao sistema de classes sociais, isto é, os estudantes
eram alocados nas etapas escolares de acordo com sua classe. Em um primeiro momento, o modelo republicano de
escola estava ocupado em instaurar uma nova cidadania, bem como legitimar suas instituições, instaurando a
consciência racional, o sentimento nacional e a laicidade, com o objetivo de introduzir a França à “modernidade”.
Nesse modelo, ensinava-se conforme valores relativamente alheios ao modelo produtivo. A seleção de alunos
conforme escola primária (“povo”), liceu (burguesia) e ginásio (camadas médias) predominou até o início dos anos
1960, a ultrapassava os domínios da escola, pois eram as desigualdades sociais que distribuíam os alunos e
comandavam o acesso ao ensino. A consequência dessa lógica é que a escola tem uma aparência de “justa” e
“neutra”, sendo as injustiças sociais e desigualdades, diretamente a causa das desigualdades escolares. Ou seja, este
modelo estava baseado na REPRODUÇÃO das desigualdades sociais, não aparecendo como agente ativo e
produtor das desigualdades escolares. No contexto de uma França operária e camponesa, os jovens tinham empregos
independentemente da qualificação escolar, ou seja. Por fim, Dubet não afirma a ausência exclusão na sociedade
industrial francesa; pelo contrário, a escola republicana prevaleceu em uma sociedade com divisões de classe e
desigualdades mais bem demarcadas que as de atualmente. Mas a escola não era “culpabilizada” pela exclusão
social. B) O modelo republicano de escola foi abalado e novas relações se estabeleceram entre escola e sociedade,
sendo uma das mudanças a mobilização da escola a serviço do desenvolvimento econômico. O investimento escolar
é considerado investimento produtivo. O malthusianismo de antes (“produção” de diplomas na medida da existência
de vagas no mercado) foi substituído pela massificação do ensino (a oferta antecipa a demanda). A ideia de
massificação pressupõe que a oferta escolar é um fator de igualdade de oportunidades e justiça, já que acaba com o
modelo de ingresso por discriminação social. Dubet, porém, afirma que estudos e teorias da sociologia da educação
demonstram os limites dessa crença, afirmando que a massificação, ao invés de reduzir as desigualdades escolares,
reproduzem as desigualdades sociais. Nesse contexto, seria a própria escola que operaria as grandes divisões e
desigualdades, ou seja, os próprios processos escolares, comandados pelas desigualdades sociais, produzem as
desigualdades escolares que, por sua vez, reproduzem as desigualdades sociais. Assim, ao abrir-se (massificar-se) a
escola deixa de ser “inocente” ou “neutra”, estando a reprodução das desigualdades em sua natureza, gerando então
a PRODUÇÃO de desigualdades escolares. Há, assim, relação entre as transformações oriundas das relações
estruturais da escola e as da sociedade: por um lado, a escola massificada não é igualitária; por outro, a massificação
faz aumentar a prevalência dos diplomas para o ingresso no emprego, de modo que a exclusão escolar gera uma
exclusão social. Ao reproduzir as desigualdades sociais, a escola não copia a sociedade, e sim gera mecanismos
próprios, autonomamente, de exclusão. Dubet finaliza com a questão, então, de sobre qual seria o papel da escola.

Tópico 2: Os mecanismos da exclusão escolar (p. 35 - 40)


Nesse tópico, Dubet traz a tona os mecanismos que promovem a exclusão escolar, produzidos pelo próprio sistema
escolar, em sua dimensão mais ampla (política) e em sua dimensão particular (das práticas cotidianas da escola).
Propõe, para fins de análise, isolar de forma teórica e abstrata os mecanismos pelos quais a escola “acrescenta”
fatores, aliando-se a desigualdade e exclusão, que ultrapassam a simples reprodução de desigualdades sociais.
Assim, a escola aparece como PRODUTORA, e NÃO APENAS REPRODUTORA da desigualdade e da exclusão.
Tal papel, no contexto mais geral da sociedade, não pode ser negligenciado. O autor menciona, por exemplo, os efeitos
da massificação escolar, que traz consigo um conjunto de mecanismos de diferenciação interna que estrutura o
próprio sistema, sejam eles mecanismos formais ou não. Como efeito da massificação, pontua que a a oferta escolar
não é homogênea, não produz o mesmo desempenho e não tem sempre a mesma eficácia. Entre os mecanismos de
diferenciação existentes, o autor aponta os diferentes percursos atribuídos aos estudantes baseados em critérios de
desempenho, e não em escolhas ou “gostos”. Nessas trajetórias, por exemplo, estudantes com dificuldades tendem a
ingressar em carreiras de menor prestígio. A distância entre trajetórias escolares é reforçada por processos implícitos,
ou seja, além das desigualdades formais, há as decisões tomadas no cotidiano, como por exemplo, no contexto francês,
promover escolas ou classes segregadas para imigrantes. O resultado da operação desses mecanismos é que estudantes
mais favorecidos socialmente, que dispõem de mais recursos, são também privilegiados por um conjunto de
mecanismos sutis, próprios da escola, “que beneficia os mais beneficiados”. Assim, aprofunda-se as desigualdades e
acentua-se a exclusão escolar. Dubet aponta, também para as pesquisas na área da Sociologia da Educação, em que
emergiu o problema da exclusão. Tem-se deixado de lado pesquisas de cunho mais estatístico, para atentar-se aos
microcosmos da realidade escolar, dando ênfase a abordagens mais etnográficas, centradas na descrição e análise
das práticas e relações dos atores escolares. Aponta que essas pesquisas podem ser agrupadas em dois grandes grupos:
1) as que evidenciam a diversidade de respostas oferecidas pela escola a diferentes realidades, para além da
homogeneidade e dos ritos típicos da escola e 2) as que evidenciam o aprofundamento da distância cultural entre os
professores e sua clientela. Tais perguntas, dentre outras, ressaltam que a escola não é neutra em relação às
desigualdades sociais, o que a tem levado a ser questionada acerca de valores como justiça e equidade, tornando o
problema da exclusão em debate político, e não apenas a “polêmicas” estritamente escolares.

Tópico 3: A experiência da exclusão (p. 40 - 44)


Neste tópico, Dubet afirma que o problema da exclusão não se limita aos alunos com grandes dificuldades, tendo
efeito mais amplo sobre o conjunto das experiências escolares. Não se trata apenas de saber quem é excluído, mas
de conhecer os processos e efeitos da exclusão sobre seus atores. Há uma tensão normativa na escola democrática de
massa que se transforma em desafio pessoal para os indivíduos, que ao mesmo tempo que postula a igualdade, impõe
condições. A massificação escolar afirma a igualdade, princípio basilar da democracia, que, no entanto, baseia-
se na meritocracia, a qual ordena, classifica, hierarquiza os sujeitos em função dos seus méritos, postulando que esses
indivíduos são iguais. Os indivíduos devem perceber-se como autores e responsáveis por seus desempenhos. Se antes
o recrutamento escolar se dava com base nas classes sociais, o que explicava por si só as desigualdades pelas injustiças
sociais ou naturais; com a transformação da escola (massificada e democrática), a subjetividade dos alunos passa a
ser dominada pelas contradições do sistema. A exclusão deixa de ser um fenômeno somente objetivo para tornar-se,
também, subjetiva, vivida então como uma “destruição de si”, já que cada um é responsável por sua própria educação.
Impera então a lógica meritocrática que atribui estritamente ao sujeito os resultados de seus sucessos e fracassos,
perante os quais os mesmos elaboram diferentes estratégias: a) uma delas, segundo o autor, é o RETRAIMENTO
que ocorre quando, antecipando a exclusão, o aluno deixa de “jogar o jogo” escolar já que não tem chances de ganhar.
É uma estratégia que não deixa de ser racional, e tem como objetivo preservar a autoestima e a dignidade, já que
“ao não fazer nada/participar”, estaria contribuindo para sua própria exclusão (atitude que professores costumam ver
como uma crise de motivação). O aluno se exclui subjetivamente antes de ser excluído objetivamente. Ainda que
essa estratégia não questione o sistema escolar, ela questiona radicalmente a escola. b) outra estratégia é a do
CONFLITO, que responde às questões estruturais do sistema. Embora existam as violências decorrentes das
desordens e crises sociais, há especificamente as violências escolares (como agressões a professores ou roubo de
materiais) que se apresentam como reações às violências praticadas pela escola. Muitos alunos reagem dessa forma
por sentirem os fracassos como um atentado a sua dignidade e honra, às quais passam a construir em oposição à
escola. Tais violências procedem tanto da exclusão escolar quanto da social. A violência, segundo Dubet, antecipa
a exclusão, mas tal conduta advém das próprias tensões escolares. O autor entende que os processos mais finos de
exclusão devem ser interpretados nos quadros de processos mais amplos e regulares, referentes à natureza do sistema.
A escola é agente de uma exclusão específica que abre uma crise de sentido do estudo e inclusive de sua própria
legitimidade. Dubet convida-nos, então, a questionar sobre as finalidades da educação. Ao concluir o texto, aponta que
a exclusão escolar é resultado “normal” da escola democrática de massa que, ao mesmo tempo em que postula a
IGUALDADE dos indivíduos, estabelece a DESIGUALDADE de desempenhos, de modo que o atual modelo de
sistema escolar INTEGRA mais, mas também EXCLUI mais do que antes, apesar de seus princípios e ideologias,
funcionando com uma lógica que se aproxima ao MERCADO, cujo princípio é a integração e a exclusão.
CENSO ESCOLAR (BRASIL, 2022):
Link de acesso: 2022 — Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira | Inep ([Link])
→ Aumento de 1,5% no número de matrículas em relação a 2021, fruto da expansão da rede privada;
→ As escolas municipais são a maioria (60%) e as que menos possuem recursos tecnológicos (ex.: Internet em
apenas 32,6% das escolas); → Em torno de 6% das matrículas da Educação Especial são em escolas ou classes
segregadas; → As matrículas de alunos público-alvo da Educação Especial concentram-se no Ensino Fundamental
(65,5%), reduzindo drasticamente na etapa seguinte de ensino (Médio 13,6%).

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