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Tentativa no Delito de Lesão Corporal

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A IMPOSSIBILIDADE DA TENTATIVA NO DELITO DE LESÃO CORPORAL

GRAVE E GRAVÍSSIMA

Yanna dos Santos Borges1


Eliane Fernandes do Lago Corrêa²

1 INTRODUÇÃO

O crime de lesão corporal, previsto no art. 129 do Código Penal


Brasileiro, visa proteger um bem jurídico importantíssimo para a sociedade: a
integridade física e mental do ser humano.
As lesões corporais dolosas são de natureza leve, grave e gravíssima de
acordo com a proporção da lesão, punindo o agente quanto ao resultado da
ação. Este delito, portanto, pode conter o caráter preterdoloso, constituindo-se
em crime mais grave conforme o resultado.
Neste trabalho serão apontados o conceito, os tipos de lesão dentro da
modalidade dolosa, consumação e, principalmente a questão da
impossibilidade da tentativa na lesão corporal grave e gravíssima, que na
posição de muitos doutrinadores, ainda é admissível.

2 DAS LESÕES CORPORAIS

O Art. 129, Código Penal preceitua: Ofender a integridade corporal ou a


saúde de outrem.
A partir dessa definição, entende-se que o conceito não é apenas para
uma lesão que atinge a integridade física da pessoa, como também aquela que
causa transtornos psíquicos e mentais à saúde do ofendido, conforme
entendimento de Cláudia Fernandes dos Santos (2014):

¹Acadêmica do 9º Período do Curso de Direito da Universidade José do Rosário Vellano –


UNIFENAS, câmpus de Alfenas.
²Mestre em Ciências Criminológico-forenses e Docente na Universidade José do Rosário
Vellano – UNIFENAS, câmpus de Alfenas.
O conceito adotado pelo Código Penal de lesão corporal é lato
sensu: lesão corporal é todo e qualquer dano ocasionado à
normalidade funcional do corpo humano, quer do ponto de vista
anatômico, quer do ponto de vista fisiológico ou mental. (SILVA,
2015, APUD, SANTOS, 2014, p. 2).

Diante disso, considera-se ofensa à integridade física qualquer alteração


anatômica prejudicial ao corpo humano, e, por ofensa à saúde, aquela que
causa o desequilíbrio funcional do organismo, abrangendo a provocação de
perturbações fisiológicas.

3 LESÃO CORPORAL LEVE

A lesão corporal de natureza leve é aquela prevista no art. 129, caput,


Código Penal, no qual o resultado da ação praticada pelo sujeito ativo não
está elencado no rol taxativo dos §§ 1º, 2º e 3º do referido dispositivo legal,
que trata das lesões graves e gravíssimas.
A análise do fato criminoso – lesões corporais de natureza leve, é da
competência da Vara do Juizado Especial Criminal, nos termos da Lei
9.099/95, uma vez que tal delito é considerando de menor potencial ofensivo,
sendo necessária a representação do ofendido, conforme art. 88 da referida
Lei.

4 LESÃO CORPORAL GRAVE

As hipóteses de gravidade das lesões estão elencadas no § 1º, incisos


I a IV, art. 129, Código Penal: em decorrência da ação do agente, possuem
como resultado a incapacidade para as ocupações habituais por mais de
trinta dias, prejudicando a rotina diária da pessoa; o perigo de vida, de forma
concreta, sendo necessária a perícia para a constatação do real risco; a
debilidade permanente de membro, sentido ou função, que é a perda ou
redução da capacidade funcional dos braços e pernas, tato, visão, audição,
paladar e olfato e da atividade desempenhada pelos órgãos do corpo humano;
e aceleração de parto, que consiste em adiantar o nascimento do feto
decorrente de qualquer lesão praticada contra mulher grávida.
5 LESÃO CORPORAL GRAVÍSSIMA

Os incisos de I a V, do §2º, do art. 129, Código Penal, estabelecem as


hipóteses nas quais a lesão corporal será considerada gravíssima: em
decorrência da ação do agente, possuem como resultado a incapacidade
permanente para o trabalho, que consiste naquela que resulta permanência,
distinta daquela que é duradoura; enfermidade incurável, mediante laudo
pericial que apresente a incurabilidade da doença; perda ou inutilização do
membro, sentido ou função, é a retirada do membro e a degeneração dos
sentidos e do funcionamento dos órgãos do corpo humano; deformidade
permanente, é aquela que atinge a imagem do ofendido, sendo ela visível e
irreparável; e aborto, que neste caso entra a figura do preterdolo.

6 IMPOSSIBILIDADE DE TENTATIVA NA LESÃO CORPORAL GRAVE E


GRAVÍSSIMA

A consumação do delito se opera quando ocorre a efetiva lesão


à integridade física ou psíquica da vítima. No que diz respeito à tentativa,
alguns doutrinadores entendem ser perfeitamente possível pelas vias de fato,
que são alheias à sua vontade, conforme diz Mirabete (2012):

Já se entendeu que ‘é juridicamente impossível a tentativa de lesões


corporais porque tal figura, coincidindo inteiramente à definição de
vias de fato, não passa desse modesto ilícito’. Tal orientação,
contudo, é isolada, opinando a doutrina pela possibilidade da
tentativa, indiscutível quando o agente, pretendendo causar um
ferimento ou dano à saúde, não consegue por circunstâncias alheias
a sua vontade. (MIRABETE, 2012, P. 73).

Em contrapartida, Rogério Greco (2015) leciona:

No que diz respeito à tentativa, ela será perfeitamente admissível na


hipótese de lesão corporal leve. Sendo graves ou gravíssimas as
lesões, somente se admitirá a tentativa nos casos em que o delito
não for classificado como preterdoloso. Assim, portanto, não há que
se falar em tentativa nas hipóteses de lesão corporal qualificada pelo:
1) perigo de vida; 2) aceleração de parto; 3) aborto. Da mesma forma,
não se admitirá a tentativa no delito de lesão corporal seguida de
morte, em face da sua natureza preterdolosa. (SILVA, 2015, APUD,
GRECO, 2012, p. 279).

Em um primeiro momento, entende-se, portanto, que há tentativa do


delito de lesão corporal quando o resultado não for alcançado pelo agente em
decorrência de circunstâncias alheias à sua vontade, sendo que essa
possibilidade é admissível apenas na forma leve.
Por outro lado, a impossibilidade do instituto da tentativa surge quanto
ao resultado grave e gravíssimo, pois, nestas modalidades de lesões, o crime
já haveria atingido a consumação independentemente de situações alheias à
vontade do agente, descartando-se completamente a tentativa. De acordo com
Capez:

(...) crimes estritamente preterdolosos. Nesses, o dolo do agente não


abrange os resultados agravadores, logo não se pode tentar produzir
um evento que não era desejado. Não há, assim, a tentativa de lesão
corporal seguida de morte (§ 3º), lesão com perigo de vida (§ 1º, II)
ou lesão que produz o aborto (§ 2º, V). (CAPEZ, 2012, p. 115).

Como o elemento subjetivo do delito é o dolo, o agente pratica o ato com


a intenção de causar alguma lesão à vítima e para este delito, a cominação da
pena decorre do resultado, de forma que se descarta a tentativa quando o
resultado for de natureza grave ou gravíssima, pois já houve a consumação.

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

No decorrer deste trabalho foram abordadas as características do delito


de lesão corporal de natureza leve, grave e gravíssima, apontando quais os
resultados que serão enquadrados em cada tipo de lesão e a forma de
punição.

O delito de lesões corporais possui duplo alcance, haja vista que o tipo
penal estará concretizado tanto com a ofensa à integridade física quanto à
integridade psíquica e mental pelo funcionamento dos sistemas, sentidos e
funções.
Ademais, restou demonstrado que o dolo é o elemento subjetivo do
delito de lesões corporais nas modalidades leve, grave e gravíssima, que é a
intenção do agente em praticar o ato causando um dos tipos de lesão à vítima.

Ao final, demonstrou-se que o instituto da tentativa (art. 14, inciso II, do


CPB) é inadmissível no delito de que resulte lesão corporal grave ou
gravíssima, visto que, atuando dolosamente, o agente que causar resultado
mais gravoso já terá consumado o delito em questão, de natureza preterdolosa.

REFERÊNCIAS

CAPEZ, Fernando. Direito penal simplificado: parte especial. 16ª ed. São
Paulo: Saraiva, 2012.

MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de direito penal: parte especial. [Link]. v.


2. São Paulo: Atlas, 2012.

SANTOS, Cláudia Fernandes dos. O princípio da insignificância e lesões


corporais leves sob a ótica funcionalista. Revista Jus Navigandi, ISSN
1518-4862, Teresina, ano 9, n. 187, 9 jan. 2004. Disponível
em: [Link] Acesso em: 6 set. 2019.

SILVA, David de Abreu. Considerações sobre o crime de lesões corporais.


2015. Disponível em: [Link]
crime-de-lesoes-corporais. Acesso em 03 set. 2019.

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