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Apelação em Direito de Vizinhança: Servidão

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Razões de recurso de apelação (Direito de Vizinhança)

RAZÕES DE RECURSO DE APELAÇÃO

PROCESSO: N. ...
APELANTE: ...
APELADO: ...

EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA


COLENDA CÂMARA
ÍNCLITOS DESEMBARGADORES
DOUTO PROCURADOR DE JUSTIÇA

DOS FATOS E DOS DIREITOS

O recorrente interpõe o presente recurso com o objetivo de


combater a sentença de fls. ...-..., proferida pelo juiz monocrático que
julgou improcedente ação de nunciação de obra nova, fls. ... .

Nota-se que , o apelante é vizinho do apelado, este reside na Rua


..., n. ..., Bairro ..., nesta cidade. Ao passo que, aquele reside no
mesmo endereço, diferenciando apenas o número da residência n. ...,
(doc. anexado).

Ora, Excelência, por volta de 28 (vinte e oito) anos o apelante


construiu duas janelas do lado esquerdo da sua residência, pois a
mesma encontrava-se muito escura, consequentemente, tinha que
ficar com as luzes ligadas o dia todo. Lembre-se que, do lado
esquerdo da residência tinha um terreno (doc. anexado).

Nota-se que, o objetivo da construção das janelas foi uma melhor


iluminação e ventilação. Além disso, o apelado nunca contestou a
construção das mesmas (doc. anexado).

Porém, o apelado construiu um muro rente à parede que


sustentam as janelas. Dessa forma, a casa do recorrente ficou escura
e com ausência de ventilação (doc. anexado).

Diante disso, o apelante ajuizou o presente recurso com a


finalidade de que seja determinado à imediata paralização e o
desfazimento da obra em tela, pois caso não seja deferida tal ação, o
apelante sofrerá danos irreparáveis.
No presente caso ficou evidente que a obra em questão deverá ser
paralisada e desfeita, conservando a servidão ventilada.

Em relação ao instituto da prescrição no caso em tela, verifica-se


que a abertura das janelas que deve ser tida como servidão aparente
e, portanto, suscetível de ser adquirida pela prescrição aquisitiva.

O Desembargador José Aquino Flôres de Camargo, do TJRS, no


julgamento do processo número: 70027582212, decide que:

“Relatório
Des. José Aquino Flôres de Camargo (Presidente e Relator)
... apelou da sentença que julgou improcedente a ação de
nunciação de obra nova cumulada com demolitória e cominatória
que move contra ... (fls. 64/72).
Em suas razões, disse que o réu construiu um muro que atingiu a
servidão de vista, iluminação e ventilação. Mencionou ter
construído, há quase 30 anos, duas janelas na divisa do terreno
do recorrido, as quais sempre tiveram como objetivo a
iluminação, ventilação e vista, constituindo-se, assim, uma
servidão de utilidade. Alegou que, com a construção do muro pelo
demandado, ficou prejudicada a referida servidão. Ponderou que
a servidão é um direito real sobre a coisa imóvel, a qual lhe impõe
um ônus em proveito do outro. Aduziu que as aberturas feitas pela
apelante devem ser respaldadas pelo decurso do tempo, pois já
estão consolidadas como servidão de vista, iluminação e ventilação
em favor da recorrente. Pugnou pelo provimento do apelo (fls.
75/76).
Após as contrarrazões ao recurso (fls. 79/80), subiram os autos a
esta Corte e, por distribuição, vieram-me conclusos para
julgamento.
É o relatório.
Voto
Des. José Aquino Flôres de Camargo (Presidente e Relator)
Antes de adentrar no exame da questão de fundo, realizo um
breve exame temporal dos fatos, a fim de melhor situar a
controvérsia remanescente.
As partes do processo são vizinhas. A autora construiu casa no
terreno há mais de 26 anos, com duas janelas rentes à divisa
dos terrenos. As fotografias da fl. 15 bem demonstram a
localização das aberturas. Segundo alegou na inicial, a construção
da casa com as janelas rentes à divisa teve como objetivo a
iluminação, a ventilação e a vista, traduzindo servidão de
utilidade. E as referidas janelas jamais foram contestadas pelo
vizinho.
Ocorre que o lindeiro da autora – réu do processo sub judice –
levantou um muro rente à parede em que se encontram as
janelas, edificação essa que é o objeto da presente nunciação de
obra nova.
É verdade que as janelas abertas pela autora não respeitaram o
limite de 1 metro e meio do terreno vizinho. O Código Civil de
1916, diploma legal vigente à época da construção, era claro ao
mencionar que “O proprietário pode embargar a construção do
prédio que invada a área do seu, ou sobre este deite goteiras,
bem como a daquele, em que, a menos de metro e meio do seu,
se abra janelas, ou se faça eirado, terraço ou varanda”.
O art. 576 do CC de 1916 era inequívoco ao estabelecer que “O
proprietário que anuir em janela, sacada, terraço, ou goteira
sobre o seu prédio, só até o lapso de ano e dia após a conclusão
da obra poderá exigir que se desfaça”.
Ainda que a demandante, à época, não tenha observado a
legislação vigente, já que abriu janelas a menos de metro e meio do
terreno lindeiro, forçoso reconhecer que o proprietário do
terreno ao lado, ora demandado, nunca se opôs àquela
construção.
Vale dizer, não ingressou, no tempo adequado, com a ação
necessária para impedir a abertura das janelas, permitindo,
ante a sua inércia, que a situação fática se consolidasse, já que a
abertura das janelas ocorreu há mais de duas décadas.
Nesse contexto, inegável que a situação consolidada gerou, à
autora, a aquisição, pelo decurso do tempo, da servidão de luz e
ar. Aliás, no ponto, concluo diferente do que fez o nobre julgador,
ao considerar a abertura das janelas como servidão não
aparente e, portanto, insuscetível de ser adquirida pela
prescrição aquisitiva.
Ora, a servidão aparente, como consta na sentença, é aquela
perceptível ao olhar, que se manifesta por sinais exteriores. E é
justamente isso que ocorre no caso em exame, já que a abertura
das janelas, irrefutavelmente, constitui-se em fato externo,
perceptível ao público.
Nesse sentido, eloquente as fotografias das fls. 14/15.
Sendo assim, incide, ao caso, o disposto no art. 1.379 do Código
Civil de 2002, que estabelece que “O exercício incontestado e
contínuo de uma servidão aparente, por 10 (dez) anos, nos
termos do art. 1.242, autoriza o interessado a registrá-la em seu
nome no Registro de Imóveis, valendo-lhe como título a sentença
que julgar consumado a usucapião”.
Essa conclusão é lógica, em perfeita consonância com o fato de a
lei ter previsto um prazo ao proprietário do imóvel lindeiro para
reclamar da construção erguida a menos de metro e meio.
A servidão tem natureza jurídica de direito real sobre a coisa
alheia imóvel, impondo um ônus a um bem em proveito de outro.
E, por ser um direito real, pode vir a ser adquirido pela usucapião,
como no caso em tela, em que a autora – titular do prédio
dominante –, utilizou a iluminação e a ventilação decorrente da
janela durante longo espaço de tempo, de forma ostensiva,
autorizando-a a adquirir a servidão pela usucapião. Ainda que não
se reconhecesse a usucapião – que não é o caso –, haveria de se
conceder a proteção possessória, o bastante à procedência da
ação.
Por derradeiro, não se ignoram os julgados que ilustram a
sentença, a sugerir que a abertura de janela a menos de metro e
meio do limite do terreno vizinho não geraria servidão de luz, mas
há que se considerar que sãs precedentes anteriores ao Código
Civil de 2002.
Vale, aqui, a regra geral de que o dono do prédio serviente não
poderá embaraçar de modo algum o exercício legítimo da
servidão. E não ultrapassam a constatação de que, em não
deferindo a proteção, irreparável será o dano ao autor. Ainda,
inegável que o tempo é valor importante na vida das pessoas,
sendo capaz de consolidar fatos e gerar direitos, o que, ultima
ratio, aqui se reconhece.
De sorte que merece provimento o apelo, aos efeitos de
determinar a imediata paralisação e o desfazimento da obra
embargada, a fim de que não prejudique a servidão ostentada
pela autora.
Voto, pois, pelo provimento do apelo.”

O entendimento jurisprudencial do TJRS, é favorável ao caso em


tela.

“Ementa: Ação de nunciação de obra nova. Servidão aparente de


luz e ventilação. Direito de vizinhança. Autora que construiu, há
mais de vinte anos, janelas edificadas na linha divisória entre os
terrenos. Hipótese que configura a chamada servidão aparente.
Situação que se manteve consolidada durante décadas, pois o
réu/lindeiro não se opôs à construção no prazo de ano e dia,
gerando à autora a aquisição, pelo decurso do tempo, da servidão
de luz e ar não titulada. Art. 1379, do Código Civil.
Abertura das janelas que deve ser tida como servidão aparente e,
portanto, suscetível de ser adquirida pela prescrição aquisitiva.
Impossibilidade de construção de parede tapando as janelas. O
dono do prédio serviente não poderá embaraçar de modo algum o
exercício legítimo da servidão. Aplicação da regra dos artigos 576,
do Código Civil de 1916 e 1302, do NCC, ao caso concreto. Ação
de nunciação de obra nova procedente. Apelo provido.”
(TJRS – Número do processo: 70027582212. Comarca: Rosário do
Sul. Relator: José Aquino Flôres de Camargo. Data de Julgamento:
01/04/2009).

DOS PEDIDOS

Diante do exposto, requer que o recurso seja conhecido e


provido para determinar a imediata paralisação, o desfazimento da
obra em tela e, que o apelante seja ressarcido dos seus prejuízos
sofridos.

Nestes termos,
Pede deferimento.

..., ... de ... de ...

Nome e assinatura do advogado


OAB/... n...

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