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Economia Política: História e Teorias

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Economia Política - Prof.

Carolina Miranda Cavalcante


Universidade Federal do Rio de Janeiro
Faculdade Nacional de Direito

O presente texto é um material de apoio para a disciplina obrigatória de “Economia


Política”, do curso de Bacharelado em Direito da FND/UFRJ. Este material não substitui
a leitura do artigo e/ou capítulo de livro indicado para cada aula. Este material possui
objetivos exclusivamente didáticos, favor não divulgar este PDF sem a autorização
expressa da autora.

AULA 2: A ECONOMIA POLÍTICA EM PERSPECTIVA HISTÓRICA

O conceito de Economia Política. Principais autores e escolas de pensamento no âmbito


da Economia Política. A crítica de Marx. A Revolução Marginalista.

GANEM, Angela. O mercado como ordem social em Adam Smith, Walras e Hayek.
Economia e Sociedade, v.21, n.1(44), Abril, p.143-164, 2012. Disponível no site:
[Link] (acesso:
22/03/2023)

TEIXEIRA, Aloisio. Marx e a Economia Política: a crítica como conceito. Econômica, v.2,
n.4, dez., p.85-109, 2000. Disponível no site:
[Link]
teixeira-marx-e-a-economia-politica/view (acesso: 31/08/2022)

Economia Política

O termo “Economia Política” aparece nos títulos de livros que tratam de economia a partir
do século XIX, tanto em alguns autores da escola clássica quanto em autores da escola
marginalista. No entanto, os autores marginalistas inauguraram um movimento que
redefiniu o objeto da Economia, a afastando cada vez mais de temas relacionados às
relações sociais num sentido mais amplo. Alfred Marshall, no final do século XIX, passa
a falar simplesmente em Economics, ou Economia. A literatura especializada reconhece
como autores com contribuições à Economia Política (séculos XVIII e XIX): os
Fisiocratas, os Clássicos e Karl Marx. Apesar de suas diferenças teóricas, os economistas
políticos compartilham a interpretação teórica da economia aliada a prescrições de
política econômica, ou formas de gerir a economia.

Karl Marx foi um pensador alemão formado em Direito e Filosofia, com conhecimentos
profundos em diversos campos do pensamento social. Dentre suas contribuições está “O
Capital”, cujo subtítulo é “uma crítica à economia política”. Embora Marx compartilhe um
espaço na Economia Política ao lado de Smith e Ricardo, existem diferenças importantes
entre a teoria de Marx e a dos Clássicos. No link indicado abaixo, você encontrará um
vídeo que dramatiza um hipotético debate entre Adam Smith (1723-1790) e Karl Marx
(1818-1883) em uma taberna. Naturalmente, essa conversa jamais poderia ter acontecido
na realidade, uma vez que os autores viveram em épocas distintas, mas a dramatização
desse encontro é uma forma lúdica de apresentar algumas ideias dos autores.
Link para o vídeo: [Link] (acesso:
22/03/2023)

1
Economics

A revolução marginalista inicia um processo de redefinição do objeto da Economia e de


seus instrumentos teóricos. Enquanto os economistas políticos entendiam a economia
enquanto um sistema de produção-distribuição-acumulação, partindo de uma perspectiva
que atualmente podemos chamar de macroeconômica, os marginalistas viam o problema
econômico a partir de uma perspectiva microeconômica. A questão passa a ser a
psicologia dos agentes individuais – como fazem escolhas (sob escassez) e tomam
decisões econômicas. Outra modificação importante concerne à teoria do valor. Enquanto
os economistas políticos entretinham uma teoria objetiva do valor (valor-trabalho em
Smith, Ricardo e Marx), os marginalistas desenvolveram uma teoria subjetiva do valor
(valor-utilidade), baseada no par escassez-utilidade. Os marginalistas fornecem os
elementos fundamentais da moderna Microeconomia, mais tarde também se estendendo
à Macroeconomia através da ideia dos microfundamentos dos resultados
macroeconômicos.

Sobre a teoria do valor, veja a TED Talk de Mariana Mazzucato (1968-), uma
economista italiana que tem ganhado proeminência nos debates em Economia:
[Link]
reates_it#t-1123358 (acesso: 22/03/2023)

Evolução histórica das principais escolas de pensamento econômico

Veja abaixo um breve quadro sintético da evolução do pensamento econômico.


Naturalmente, esta linha do tempo apresenta apenas alguns autores e escolas de
pensamento que se destacaram ao longo da História do Pensamento Econômico (HPE).

2
Os autores e suas obras

➢ Antonie de Montchrérien (1575-1621), Traité d’Économie Politique (1615)


➢ François Quesnay (1694-1774), Tableau Économique (1752)
➢ Adam Smith (1723-1790), An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth
of Nations (1776)
➢ Jean-Baptiste Say (1767-1832), Traité d’Économie Politique (1803)
➢ David Ricardo (1772-1823), Principles of Political Economy and Taxation
(1817)
➢ Thomas Malthus (1766-1834), Principles of Political Economy (1820)
➢ John Stuart Mill (1806-1873), Principles of Political Economy (1848)
➢ Karl Marx (1818-1883), Das Kapital: Kritik der Politischen Ökonomie (1967)
➢ William Stanley Jevons (1835-1882), The Theory of Political Economy (1870)
➢ Carl Menger (1840-1921), Grundsätze der Volkswirtschaftslehre (1870)
➢ Léon Walras (1834-1910), Eléments d’Economie Politique Pure (1874)
➢ Alfred Marshall (1842-1924), Principle of Economics (1890)
➢ John Neville Keynes (1852-1949), The Scope and Method of Political Economy
(1891)
➢ Lionel Robbins (1898-1984), An Essay on the Nature and Significance of
Economic Science (1932)
➢ John Maynard Keynes (1883-1946), General Theory of Employment, Interest and
Money (1936)
➢ John Hicks (1904-1989), Mr Keynes and the Classics (artigo, 1937), Nobel de
Economia em 1972
➢ Paul Samuelson (1915-2009), Foundations of Economic Analyisis (1947), Nobel
de Economia em 1970
➢ CEPAL é criada em 1948, com sede em Santiago do Chile. Pensamento
estruturalista.

O movimento pós-autista foi uma iniciativa de alguns estudantes de Economia da França e


dos EUA que, nos anos 2000, demandaram uma visão mais pluralista no âmbito da ciência
econômica, excessivamente dominada pela teoria neoclássica. Para saber um pouco mais
sobre o movimento, acesse o site: [Link]

O uso do termo “autista” para designar a falta de realismo dos modelos econômicos
neoclássicos foi considerado uma denominação desrespeitosa com as pessoas autistas. Deste
modo, o movimento foi rebatizado como Real World Economics. Atualmente, a World
Economic Association reúne os economistas que buscam uma compreensão mais plural e
mais realista da economia. Confira o site: [Link]

Os manuais de economia possuem um papel fundamental na formação de novos pensadores


em Economia. Deste modo, busca-se também construir manuais de economia com uma nova
abordagem do objeto econômico. O livro que adotamos nesse curso é uma iniciativa nesse
sentido. Outra tentativa de elaboração de um material de ensino de economia com uma
abordagem alternativa é a da plataforma CoreEcon. Veja o site: [Link]

3
As primeiras escolas de pensamento econômico identificáveis foram a Fisiocracia e a
Escola Clássica. Entre os séculos XV e XVIII alguns pensadores sugeriram algumas
práticas econômicas, propondo políticas protecionistas de comércio internacional por
parte do Estado. Esses pensadores ficaram conhecidos como mercantilistas, mas não
formaram uma escola de pensamento econômico, apenas desenvolveram algumas ideias
econômicas.

No século XVIII, Adam Smith e os Fisiocratas dão os primeiros passos para o


desenvolvimento de um corpo teórico que seria denominado Economia Política. Smith
ensejou ainda o surgimento da Escola Clássica, que se desenvolveu ao longo do século
XIX, tendo como um dos seus mais diligentes componentes David Ricardo. Também são
identificados com a Escola Clássica, autores como Thomas Malthus, Jean-Baptiste Say e
John Stuart Mill.

Embora Marx tenha sido identificado com a abordagem da Economia Política, sua
perspectiva teórica ofereceu efetivamente uma crítica à Economia Política, redefinindo
seu método, seus problemas teóricos e o próprio objeto de estudo.

Ainda no século XIX, os denominados marginalistas também buscaram uma redefinição


da teoria e do objeto econômico. Dentre seus autores seminais estão Stanley Jevons, Carl
Menger, Leon Walras e Alfred Marshall. Os marginalistas foram mais tarde qualificados
como neoclássicos por Thorstein Veblen, um economista norte-americano. Dos clássicos,
os neoclássicos herdaram algumas teorias, mas principalmente a ideia liberal da
autorregulação dos mercados, embora guardem distinções importantes quanto ao
mecanismo de funcionamento desses mercados, como veremos adiante.

John Maynard Keynes foi aluno de Alfred Marshall em Cambridge, mas não representou
um herdeiro fiel do marginalismo. Keynes inaugura o campo de estudos da
Macroeconomia, criticando a ideia de autorregulação do mercado, por ele atribuída à Lei
de Say (toda oferta gera sua própria demanda). A Teoria Geral, de Keynes, foi publicada
em 1936 e recebeu uma resposta no ano seguinte sob a forma de um artigo de John Hicks.
Nesse artigo, Hicks afirma que a teoria de Keynes é uma teoria parcial, assim como a
teoria Clássica, sugerindo ainda uma Teoria Geral Generalizada, que abarcaria os casos
clássico e keynesiano. Surge assim o modelo IS-LM, presente na maioria dos manuais de
macroeconomia. O pensamento keynesiano dominou o debate econômico do pós segunda
guerra até a crise da década de 1970, quando o pensamento liberal, agora numa roupagem
neoliberal. Neste momento que as ideias da escola austríaca, da qual Menger foi um autor
seminal, voltam a ganhar proeminência no debate econômico, tendo Friedrich Hayek
como seu mais destacado representante.

Note que as bases do pensamento econômico, que deram origem aos manuais de economia,
foram elaboradas por pensadores europeus entre os séculos XVIII e XX. A CEPAL
(Comissão Econômica para América Latina e Caribe), criada em 1948, pode ser
considerada a primeira escola de pensamento originalmente latino-americana. Nos EUA, a
primeira escola de pensamento originalmente norte-americana surge no final do século XIX
com Thorstein Veblen e os Institucionalismo Americano. Mesmo o Institucionalismo
Americano e a CEPAL partem desse pensamento econômico europeu para construir suas
contribuições originais sobre a sociedade norte-americana e latino-americana,
respectivamente.

4
Definições do objeto econômico

A Economia é uma ciência social que estuda as relações de produção estabelecidas entre
os agentes econômicos. Naturalmente, dependendo da escola de pensamento e da
orientação teórica do autor, essa definição do objeto de estudo da Economia será
diferente. Façamos uma breve incursão em algumas definições do objeto econômico.

Oikosnomos. Essa palavra de origem grega significa literalmente “regras da casa”; uma
vez que oikos significa casa e nomos significa regras ou leis. De forma mais ampla,
podemos entender o oikosnomos como a organização da sociedade, ou as regras e leis que
definem e delimitam a forma como as pessoas de determinado grupo social organizarão
as tarefas necessárias à manutenção e à reprodução da vida social.

Circuito produção-distribuição-acumulação. A compreensão da economia enquanto


um circuito econômico é próprio dos Fisiocratas e da Escola Clássica. Aqui temos uma
primeira descrição da economia como a esfera da vida social na qual os sujeitos cuidam
da produção dos seus meios de vida material, da distribuição dos produtos elaborados e
da acumulação de riquezas. Em termos modernos, podemos dizer que se trata de uma
abordagem macroeconômica do objeto econômico.

Relação social de produção. Karl Marx possui uma concepção similar ao circuito
econômico. A diferença fundamental é que Marx enfatizou o caráter social da produção.
Na teoria de Marx, as classes sociais não desempenham funções harmônicas no circuito
econômico, uma vez que existiria uma luta de classes inerente ao modo como a produção
se organiza na sociedade capitalista.

Alocação de recursos escassos. No final do século XIX, os chamados marginalistas


redefiniram o objeto econômico, inspirando o surgimento de uma abordagem que
modernamente podemos chamar de microeconômica. Mais tarde, já no século XX, Lionel
Robbins forneceria uma definição de Economia que aparece na maioria dos Manuais de
Economia: “A economia é a ciência que estuda o comportamento humano como uma
relação entre fins e meios escassos que possuem usos alternativos.” (Robbins, 1932)

De certa forma, todas essas escolas de pensamento e autores buscam entender e responder
a três questões econômicas fundamentais: o que e quanto produzir, como produzir e para
quem produzir.

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Essas três questões econômicas sempre estiveram postas para a humanidade, uma vez que
os sujeitos precisam produzir e reproduzir sua vida em sociedade. Contudo, no âmbito da
economia de mercado (ou economia monetária de produção), essas questões são
respondidas com referência às relações de produção consolidadas principalmente a partir
do século XVIII na Europa. Na próxima aula, veremos como essa economia de mercado
se consolidou historicamente.

Mercado e liberalismo

Como vimos anteriormente, os mercantilistas elaboraram as primeiras ideias econômicas,


defendendo o protecionismo comercial como fundamental para a acumulação de riquezas
(representada por ouro e prata) de uma nação. Nesse sentido, o soberano deveria estimular
as exportações (X) e restringir as importações (M), de modo a gerar um saldo positivo no
balanço comercial (BC = X – M). Ao vender (exportação) mais produtos do que compra
(importação) do exterior, a nação estaria recebendo e acumulando uma maior quantidade
de metais preciosos, tornando-se mais rica.

A teoria das vantagens absolutas de Adam Smith (reelaborada por David Ricardo no
âmbito da teoria das vantagens comparativas) sugeria uma especialização produtiva das
nações, cujos benefícios do aumento de produtividade advindos da divisão internacional
do trabalho somente poderiam ser alcançados caso os estados nacionais não restringissem
o comércio internacional. Nesse sentido, o liberalismo clássico é uma reação aos regimes
absolutistas da época, bem como à ideia de que o estado deveria interferir ou erigir
barreias às trocas internacionais, como sugeriam os mercantilistas. Smith via o mercado
como um espaço no qual as ações dos indivíduos autointeressados resultariam no bem-
estar da sociedade como um todo. Deste modo, a ordem social surge como o resultado
das ações individuais fundadas numa natureza humana autointeressada. Smith e os
economistas políticos entendem a economia como um sistema, cujas ações e classes
sociais encontram-se relacionados e unidos pelo autointeresse.

Os marginalistas realizam uma releitura dos autores clássicos que acaba por redefinir os
instrumentos teóricos e o próprio objeto econômico. O mercado passa a ser visto como o

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equilíbrio entre as forças de oferta e demanda, ganhando, com Walras, uma roupagem
matemática. O uso do cálculo diferencial, que permite avaliar modificações em variáveis
econômicas na margem, acabou por ensejar a denominação desses autores como
marginalistas. Ademais, esses autores abandonaram a perspectiva sistêmica dos clássicos
e passaram a estudar o comportamento individual, ou como os agentes econômicos fazem
escolhas ótimas observando os preços relativos. O que seria uma escolha ótima? Seria
aquela que produz o máximo de satisfação ou ganho, com o mínimo desprazer ou custo.
A Economia se converte em uma teoria da escolha racional. A partir dessas ideias, a teoria
econômica passa a assumir a pretensão de uma construção teórica axiologicamente
neutra, ou livre de valores, uma ciência tão exata quando a física mecânica. No final do
século XIX, John Neville Keynes (pai do Keynes da Teoria Geral), sugere uma distinção
entre economia positiva e economia normativa. Ao analisar as escolhas individuais
guiadas pelo sistema de preços e ao utilizar instrumentos matemáticos para seu teste e
análise, a Economics se coloca como uma economia positiva, deixando os juízos
normativos para outros campos das ciências sociais. Alguns anos mais tarde, Lionel
Robbins fornece a definição de Economia que consta em praticamente todos os Manuais
de Economia: “A economia é a ciência que estuda o comportamento humano como uma
relação entre fins e meios escassos que possuem usos alternativos.” (Robbins, 1932)

As ideias neoclássicas, ou marginalistas, levaram ao paroxismo a ideia de autorregulação


dos mercados. Desde que não houvesse interferência estatal nos preços, as forças de oferta
e demanda equilibrariam automaticamente os mercados. Se adicionamos a leitura de
Keynes da Lei de Say, temos que todo produto ofertado em um mercado no qual os preços
pudessem se ajustar livremente encontraria uma demanda correspondente. Contudo, a
crise que se alastrou pelas economias capitalistas na década de 1930, que teve como
estopim a quebra da bolsa de Nova Iorque em 1929, mostrou que o mecanismo de
autorregulação das forças de oferta e demanda não foi capaz de equilibrar os mercados.
O New Deal foi um programa do governo norte-americano, implementado na década de
1930, que objetivou mitigar os efeitos da crise. Alguns anos mais tarde, em 1936, John
Maynard Keynes publica sua obra mais conhecida, a “Teoria Geral”, fornecendo um
fundamento teórico para as políticas de demanda efetiva já postas em curso pelos
governos das economias mais desenvolvidas. Na “Teoria Geral”, Keynes refuta a Lei de
Say, afirmando que em momentos de crise o mercado não é capaz de se equilibrar
sozinho. Keynes identificou que o problema residia na falta de demanda efetiva, ou seja,
as pessoas não possuíam renda suficiente para demandar bens e serviços, mesmo que
precisassem ou desejassem comprar esses produtos. Por outro lado, as empresas
acumulavam estoques e não tinham interesse em contratar novos trabalhadores, mesmo
que estes aceitassem os menores salários possíveis. A solução proposta por Keynes foi a
ação do estatal no sentido de garantir uma renda suficiente para que os trabalhadores
pudessem voltar a consumir, reativando o lado da demanda por bens e serviços. Ao
verificar o aumento sustentado da demanda, tendo como garantidor um agente estatal,
com grande poder de mobilização de recursos, os empresários voltariam a se sentir
otimistas quanto às vendas futuras. A demanda induziria a oferta, um aumento na oferta

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significa maior contratação de recursos produtivos, dentre eles o trabalho. Assim o
mercado voltaria a funcionar.

As ideias keynesianas influenciaram as políticas econômicas ao longo de cerca de três


décadas, se vendo desafiadas na década de 1970 e nos anos posteriores. Com as crises do
petróleo e a desaceleração das economias mais desenvolvidas, muitos países que se
endividaram externamente ao longo dos anos anteriores, para colocar em curso seus
planos de desenvolvimento econômico, começaram a ter problemas para rolar suas
dívidas. As ideias liberais, adormecidas durante os anos anteriores, retornaram e
atribuíram ao excesso de gastos governamentais a crise enfrentada a partir dos anos 1970.
Inicia-se então um novo período de defesa do liberalismo econômico, agora sob a
roupagem neoliberal, consolidada no Consenso de Washington de 1990.

Hayek, um dos principais divulgadores das ideias liberais da sociedade de Mont Pèlerin,
sociedade criada no pós segunda guerra para manter acesa a chama liberal, fundamentou
filosoficamente sua defesa do livre mercado. Ao contrário de Smith, Hayek não entendia
o mercado como uma ordem natural fundada no autointeresse individual, mas sim como
uma ordem espontânea que emergiria das ações individuais baseadas em escolhas
orientadas por uma razão limitada. Deste modo, ao contrário dos neoclássicos, Hayek não
atribuía à razão o elemento constituidor dos mercados, uma vez que a razão seria falha,
limitada, e o mercado seria um sistema complexo que somente poderia emergir
espontaneamente, não teleologicamente, das ações individuais. Daí surge a crítica
hayekiana à intervenção do Estado na economia. Se a razão é limitada e não é capaz de
forjar um sistema tão complexo como o mercado, a ordem social não pode ser decidida e
construída por um agente específico, seja ele um indivíduo ou um Estado.

Deste modo, a alternância dos argumentos pró mercado ou pró Estado assumiu roupagens
teóricas distintas ao longo do tempo, respondendo a questões historicamente situadas e
diversas. Em última análise, a prática da política econômica e o debate teórico não se
reduzem à polarização simplista que coloca de um lado um mundo ideal no qual os
mercados existem sem Estado ou um mundo, igualmente ideal, no qual o Estado controla
todas as forças de mercado. Nas economias concretas, mesmo o sistema econômico mais
centralizado deixa um espaço para os mercados, assim como a economia capitalista mais
liberal admite intervenções, ainda que pontuais, do Estado na economia.

BACKHOUSE, Roger. A History of Modern Economic Analysis. Oxford: Basil Blackwell,


1985.
BIELSCHOWSKY, Ricardo. Cinquenta anos de pensamento da CEPAL. Vol. I e II. Rio
de Janeiro: Record, 2000.
DELFAUD, Pierre. As Teorias Econômicas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987.
FORSTATER, Mathew. O pequeno livro das grandes ideias: Economia. São Paulo:
Ciranda Cultural Editora e Distribuidora Ltda., 2009.
HUNT, E. K.; SHERMAN, H. J. História do Pensamento Econômico. Petrópolis: Editora
Vozes, 2000.
PINHO, Diva Benevides; SANDOVAL, Marco Antonio; TONETO JR., Rudinei.
Introdução à Economia. São Paulo: Saraiva, 2011. (capítulo 1)

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TAREFAS DA SEMANA

Siga os passos seguintes para consolidar os conhecimentos apreendidos nesta aula.

1º passo: Tente refletir sobre a diferença entre a Economia Política e a Economics. Faça
um breve resumo sobre cada uma das principais escolas de pensamento econômico:
Fisiocracia, Escola Clássica, Karl Marx (e o marxismo), Revolução Marginalista e Teoria
Neoclássica.

• Qual a influência dos Clássicos e dos Marginalistas no molde da Teoria


Neoclássica?
• Como responder às três questões econômicas a partir das quatro definições
de economia sugeridas acima?

2º passo: Inicie a leitura para a aula 3.

CANO, Wilson. Introdução à Economia: uma abordagem crítica. São Paulo: Unesp,
2012. Capítulo 1, p.17-47.

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