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Cinema e Abuso Sexual Infantil: Análise e Formação

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Revista Psicologia: Teoria e Prática, 15(3), 83-94. São Paulo, SP, set.-dez. 2013.

ISSN 1516-3687 (impresso), ISSN 1980-6906 (on-line).


Sistema de avaliação: às cegas por pares (double blind review). Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Cinema e abuso sexual na infância e


adolescência: contribuições à formação
do psicólogo clínico*
Tales Vilela Santeiro1
Lucas Rossato
Universidade Federal de Goiás – Jataí – GO – Brasil

Resumo: O abuso sexual infantil/adolescente (ASI) tem integrado práticas clínicas


atuais, e o cinema o torna visível e o expõe em suas implicações subjetivas e sociais,
favorecendo sua discussão. O objetivo deste trabalho foi analisar filmes comerciais/
ficcionais sobre ASI, produzidos entre 2001 e 2010 (N = 21), para caracterizar como
são filmados, ambientes/contextos onde ocorrem, vítimas e abusadores, desfechos de
casos e para discutir contribuições à formação clínica. Os títulos foram buscados em
bases de dados especializadas em cinema e junto a psicólogos que utilizam filmes no
processo formativo. Critérios de análise foram preestabelecidos, e as obras, analisadas
sistematicamente. O gênero dramático e a nacionalidade norte-americana predomina-
ram. O ASI foi retratado por meio de encenações explícitas; no geral, ocorreram em
ambientes públicos com crianças e perpetrados por conhecidos. Os filmes analisados
aproximam-se de tópicos da literatura especializada sobre ASI e demandam do espec-
tador condição emocional para elaborar situações de conteúdo psíquico intenso.

Palavras-chave: criança; adolescente; psicologia clínica; filme; agressões sexuais.

CINEMA AND SEXUAL ABUSE IN CHILDHOOD AND ADOLESCENCE:


CONTRIBUTIONS TO TRAINING OF THE CLINICAL PSYCHOLOGIST

Abstract: Sexual abuse of children/adolescents (SAC) has integrated current clinical


practices and the cinema, which makes it visible and exposes in its subjective and social
implications, favors their discussion. The objectives were to analyze commercial films/
fictional about SAC, produced between 2001/2010 (N = 21), to characterize how they
are filmed, environments/contexts where they occur, victims, offenders, repercussion
of cases and to discuss contributions to clinical training. The titles were searched in
databases specialized in film and along with psychologists who use film in the educa-
tional process. Analysis criteria were predetermined and movies were systematically
analyzed. Dramatic gender and U.S. citizenship prevailed. The SAC has been portrayed
by means of explicit performances, in general, occurred in public places, with children,
offender was close to the victim. The films analyzed are similar to the specialized litera-
ture on SAC’s topics and requires the viewer’s emotional condition to elaborate situa-
tions of intense psychic content.

Keywords: infant; teenager; clinical psychology; cinema; sex offenses.

* Apoio: CNPq.
1
Endereço para correspondência: Tales Vilela Santeiro, Universidade Federal de Goiás, Departamento de Psi-
cologia, Campus de Jataí, Rua Riachuelo, 1.530, Setor Samuel Graham, Jataí – GO – Brasil. CEP: 75801-020. E-mail:
talessanteiro@[Link].

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Tales Vilela Santeiro, Lucas Rossato

CINE Y ABUSO SEXUAL EN LA INFANCIA Y LA ADOLESCENCIA: CONTRIBUCIONES


A LA FORMACIÓN DEL PSICÓLOGO CLÍNICO

Resumen: El abuso sexual infantil/adolescente (ASI) tiene integrado prácticas clínicas


actuales i el cine lo vuelve visible y lo expone en sus implicaciones subjetivas y sociales,
favoreciendo su discusión. Los objetivos fueron analizar las películas comerciales/ficcio-
nales sobre ASI, producidas entre 2001/2010 (N = 21), para caracterizar como son
gravados, ambientes/contextos donde ocurren víctimas, abusadores, deshechos de ca-
sos y para contribuir con discusiones la formación clínica. Los títulos fueron buscados
en bases de datos especializadas en cine y junto a psicólogos que utilizan películas en el
proceso formativo. Criterios de análisis fueron prestablecidos y fueron analizadas obras
sistematicamente. Prevalecieron el género dramático y la ciudadanía de los [Link]. El
ASI ha sido retratado por medio de escenas explícitas; en general, ocurren en ambien-
tes públicos, con niños y perpetrados por conocidos. Las películas analizadas se aproxi-
man de tópicos de la literatura especializada sobre ASI y demandan del espectador
condición emocional para elaborar situaciones de contenido psíquico intenso.

Palabras clave: niñez; juventud; psicología clínica; película; delitos sexuales.

Durante a formação em psicologia, inúmeras ferramentas são úteis para auxiliar na


obtenção de conhecimentos científicos acerca dos fenômenos humanos. Em psicologia
clínica, a formação considera, no geral, o tripé constituído por atendimento clínico
supervisionado, estudos teóricos e psicoterapia pessoal. Essas atividades são necessá-
rias para desenvolver habilidades e competências relacionadas à atitude clínica e para
consolidar a identidade do profissional (Enéas & Yoshida, 2012; Heidemann, Montag-
ner, Brunstein, & Eizirik, 2012), esteja ele integrado aos consultórios particulares ou a
outros âmbitos institucionais (Conselho Federal de Psicologia, 1992).
Dentre os possíveis recursos utilizados nos estudos teóricos e nas atividades de
supervisão de casos, alguns ganham destaque porque se aproximam da realidade que
o estudante vivenciará no ambiente clínico. O cinema é um deles, pois expõe conteúdos
relativos a inúmeros contextos socioculturais e históricos, possibilidades de discussão
relevantes ao trabalho do psicólogo clínico, tais como saúde mental (Landeira-Fer-
nandez & Cheniaux, 2010), bioética (Dantas, Martins, & Militão, 2011) e diversidade
sexual (Santos, Costa, Carpenedo, & Nardi, 2011). Essa constatação, acrescida ao fato
de os filmes propiciarem atmosfera lúdica em sala de aula (Santeiro, 2011), consolida
a linguagem da sétima arte como mediadora de processos de ensino e aprendizagem,
também no âmbito psicanalítico, no qual o cinema vem sendo utilizado há tempos
e permanece nos dias atuais como linguagem instigadora de discussões (Gabbard,
2001; Gabbard & Crisp-Han, 2010; Greenberg, 2000; Heidemann et al., 2012; Swift &
Wonderlich, 1993).
Por essa via, o abuso sexual infantil/adolescente (ASI) é, dentre os apontados, um
tema caro à formação do psicólogo clínico, haja vista sua relevância social e sua ocor-
rência nas práticas clínicas atuais. Ele se insere no terreno geral da sexualidade huma-
na e de seus transtornos (Holmes, 2007) e tem sido investigado academicamente, in-
clusive por meio de filmes (Godoi & Neves, 2012; Silva, 2011).
O ASI integra-se à temática da violência sexual infantil, que consiste no ato de vio-
lar direitos sexuais da criança em dois sentidos: no de abuso, indicador de ocorrência

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Cinema e abuso sexual na infância e adolescência: contribuições à formação do psicólogo clínico

de práticas sexuais, e no da exploração, que implica a obtenção de lucro por meio de


pornografia ou utilizando a vítima como elemento de troca (Brasil, s.d.). O ASI tem
acometido crianças/adolescentes em diversos países e culturas, não ocorrendo apenas
nas camadas menos favorecidas do ponto de vista socioeconômico (Capitão & Romaro,
2008; Kiem, 2008; Lee & Kim, 2011; Ramirez, Pinzon-Rondon, & Botero, 2011), o que
remete a observá-lo como um fenômeno universal e, portanto, valioso de ser enfo-
cado na formação do psicólogo clínico.
De acordo Habigzang e Caminha (2008), o ASI é definido como todo ato ou jogo
sexual, relação hetero ou homossexual, cujo agressor esteja em estágio de desenvol-
vimento psicossexual mais adiantado do que a criança ou o adolescente. Ele é mani-
festado em formas variadas, que vão desde uma carícia íntima, manipulação de geni-
tália, mama ou ânus, até a exploração sexual, voyeurismo, exibicionismo, penetração
vaginal, anal ou oral (Padilha & Gomide, 2004). Pode ser perpetrado por estranhos ou
familiares; e, neste último caso, é entendido como de natureza intrafamiliar e inces-
tuosa (Roudinesco & Plon, 1998).
Tendo em vista a proeminência do ASI e as contribuições que o cinema pode pres-
tar para mediar o processo de ensino e aprendizagem no cenário de formação de
psicólogos clínicos, definiu-se o objetivo deste estudo: analisar filmes comerciais e fic-
cionais sobre o ASI, enfocando cenas ou relatos de personagens, para caracterizar:
como é filmado (tema principal ou secundário), vítimas, ambientes/contextos onde
ocorrem, características dos abusadores e repercussões de casos. De modo paralelo,
outro objetivo foi correlacionar os achados com tópicos encontrados em produções
científicas quanto ao ASI, para discutir as contribuições que esses filmes podem prestar
ao processo de formação do psicólogo clínico.

Metodologia
A busca de informações ocorreu por meio de dois eixos fundamentais:

• Para fundamentação teórica, realizou-se pesquisa bibliográfica em bases de dados


eletrônicas on-line (SciElo, BVS-Psi e ProQuest), por meio dos verbetes “abuso sexual
infantil”, “pedofilia”, “violência sexual infantil”, “incesto” e variações correlatas.
• Pesquisa documental realizada em sites especializados em filmes, os quais apresen-
tam críticas de filmes, são ranqueados nas primeiras colocações quando se utiliza
o Google como ferramenta de busca (Adoro Cinema, Cine Pop) e não têm o com-
promisso de organizar dados quantitativamente. Nessa situação, vocábulos análo-
gos aos descritos no item anterior foram empregados, complementada por busca
informal, voluntária e realizada após explicitação dos objetivos da pesquisa, junto
a três psicólogos que utilizam filmes no processo formativo de estudantes de psi-
cologia, sendo dois deles professores de universidade pública e um de instituição
privada (amostra de conveniência).

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A partir das buscas iniciais, assistiu-se a alguns títulos encontrados à guisa de estu-
do piloto, e os seguintes critérios de análise foram adotados para inclusão das obras
cinematográficas: 1. o ano das produções, englobando dez anos compreendidos entre
2001 e 2010; 2. a encenação ou os relatos verbais sobre o ASI; 3. a acessibilidade de
títulos para assistência (filmes editados em formato DVD, disponíveis em videoloca-
doras e para compra); e 4. obras com idioma ou legendagem em português.
A busca inicial resultou em 24 títulos, dos quais, a partir da assistência, três não aten-
diam aos critérios adotados e foram excluídos da amostra: Dogville, 4 meses, 3 semanas
e 2 dias e Joshua: filho do mal. Aparentemente os mecanismos de busca utilizados in-
cluíram esses filmes porque os dois primeiros focalizam cenas de abuso e violência se-
xual, entretanto com adultos, e o terceiro focaliza diversas violências, mas não ASI.
Os dados das películas que atendiam aos critérios preestabelecidos eram lançados
em planilhas individuais, a partir das quais as seguintes variáveis estiveram sob obser-
vação sistemática:

a) Localidade do ASI como temática explorada: central (o argumento/roteiro gira-


va em torno do ASI durante a maior parte do filme e com grande impacto no
seu contexto geral) ou secundária (o argumento/roteiro tratava do ASI em pe-
quenas circunstâncias e sem grande impacto no seu contexto geral).
b) Forma de representação do ASI: explícita (encenações) ou implícita (relatos
orais de personagens).
c) Perfil das vítimas: faixa-etária (crianças, adolescentes ou ambos) e sexo (mascu-
lino, feminino ou ambos).
d) Perfil dos abusadores: grau de proximidade em relação à vítima (familiares, pro-
fessores, padres, desconhecidos etc.) e sexo (masculino, feminino ou ambos).
e) Contexto em que o abuso ocorreu: escolar, religioso, familiar, público (play-
grounds, praças, ruas).
f) Natureza do ASI: coito consumado (anal, oral, vaginal), carícias íntimas, voyeu-
rismo, exibicionismo, natureza não especificada (nos casos de ASI encenado de
modo implícito, cf. item “b”).
g) Repercussão pública do caso ou permanência em sigilo.

Para determinação do item “a”, o qual implicava julgamento subjetivo, houve dis-
cussões estabelecidas entre os autores até que consensos fossem obtidos. Essas concor-
dâncias estabeleceram-se após treinamento inicial, obtido via três estudos piloto. Após
esse momento, a especificação da localidade do ASI ocorreu sem divergências.

Resultados e discussões
A partir da assistência dos títulos e do atendimento aos critérios metodológicos
preestabelecidos, foram encontrados 21 filmes que tratavam o ASI em cenas ou re-
latos de personagens, todos de longa-metragem (Quadro 1). Quanto ao gênero dos

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Cinema e abuso sexual na infância e adolescência: contribuições à formação do psicólogo clínico

filmes, eles foram estabelecidos a partir das informações constantes das capas origi-
nais, a partir das quais se observaram 16 (76%) dramas, seguidos por dois (9%) suspen-
ses, um terror, um documentário e um ficção científica (5% cada).
A frequência de gênero dramático parece relacionar-se, de modo congruente, com
temática abordada pelas películas, considerando que os aspectos emocionais, psicoló-
gicos e físicos, tanto das vítimas como de outras pessoas indiretamente envolvidas, são
entendidos como “trágicos”. Além do mais, do ponto de vista do espectador, os filmes
analisados requereram condições emocionais para “processar” a violência que a lin-
guagem deles imprimia. Em muitos deles, o ASI era abordado de forma tão enfática e
contundente que gerava sentimentos de repulsa, tristeza e compaixão.
A propósito da nacionalidade das produções, 12 eram estadunidenses (57%), quatro
coproduções de diversos países (19%), duas brasileiras e duas espanholas (9% cada), e
uma britânica (5%) (Quadro 1). Quando esses dados são ponderados, há indícios que
confirmam o ASI como uma temática universal e impactante em diversas culturas, mais
ou menos desenvolvidas. Nesse momento, não se pode excluir a óbvia relação existente
entre a tradição e a condição econômica que países como os Estados Unidos têm para
produzir e distribuir filmes, daí nessa análise produções desse país receberem destaque.

Quadro 1. Relação por ordem alfabética de títulos em português brasileiro,


direção, ano, gênero e nacionalidade da produção e classificação indicativa

Classificação
Título Diretor, ano Gênero Nacionalidade indicativa
A hora do pesadelo Samuel Bayer, 2010 Terror Estados Unidos 16 anos
Anjos do sol Rudi Lagemann, 2006 Drama Brasil 14 anos
Dúvida John Patrick Shanley, 2008 Drama Estados Unidos 12 anos
Efeito borboleta Eric Bress, J. Mackye Ficção Estados Unidos 14 anos
Gruber, 2004
Má educação Pedro Almodóvar, 2004 Drama Espanha 18 anos
Medo da verdade Ben Affleck, 2007 Drama/policial Estados Unidos 16 anos
Mistérios da carne Gregg Araki, 2004 Drama Estados Unidos/Holanda 18 anos
Na captura dos Andrew Jarecky, 2003 Documentário Estados Unidos 14 anos
Friedmans
Notas sobre um Richard Eyre, 2006 Drama Reino Unido 16 anos
escândalo
O caçador de pipas Marc Forster, 2007 Drama Estados Unidos 12 anos
O inferno de São Judas Aisling Walsh, 2003 Drama Espanha/Reino Unido/ 16 anos
Irlanda/Dinamarca
O leitor Stephen Daldry, 2008 Drama Alemanha/Estados Unidos 16 anos
O lenhador Nicole Kassell, 2004 Drama Estados Unidos 16 anos
(continua)

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ISSN 1516-3687 (impresso), ISSN 1980-6906 (on-line).
Tales Vilela Santeiro, Lucas Rossato

Quadro 1. Relação por ordem alfabética de títulos em português brasileiro,


direção, ano, gênero e nacionalidade da produção e classificação indicativa (conclusão)

Classificação
Título Diretor, ano Gênero Nacionalidade indicativa
Pecados íntimos Todd Field, 2006 Drama/policial/ Estados Unidos 18 anos
romance
Por trás da fé Dan Curtis, 2005 Drama Estados Unidos 16 anos
Preciosa: uma história Lee Daniels, 2009 Drama Estados Unidos 16 anos
de esperança
Quem quer ser um Danny Boyle, 2008 Drama Estados Unidos 16 anos
milionário?
Sobre meninos e lobos Clint Eastwood, 2003 Suspense Estados Unidos 16 anos
Sonhos roubados Sandra Werneck, 2010 Drama Brasil 16 anos
Tráfico humano Christian Duguay, 2005 Suspense Canadá/Estados Unidos 16 anos
Volver Pedro Almodóvar, 2006 Drama Espanha 14 anos

Fonte: Brasil (2012).

O ASI foi expresso como tema principal em 14 longas-metragens (67%) e como se-
cundário em sete (33%). Por exemplo, em Sobre meninos e lobos, ele é entendido
como o tema central, embora outros igualmente relevantes sejam expostos, como as
questões referentes a confiança, fidelidade, amizade, isolamento, ética das relações
humanas, entre outros. O caçador de pipas seria um protótipo que enfoca o ASI de
modo secundário, em meio ao tema da amizade existente entre os protagonistas.
No que tange à forma como o ASI foi encenado, 11 produções o fizeram de forma
explícita, por meio de encenações (52%), e dez, de forma implícita, por meio de relatos
orais de personagens (48%). A forma explícita dava-se por meio de cenas de voyeuris-
mos, carícias, ou tomadas em que o personagem adulto aparecia praticando atos se-
xuais, dando a entender que estava em situações abusivas. Tráfico humano é um filme
no qual uma menina é acariciada por um senhor que pergunta se ela é virgem. A
forma implícita ocorreu por meio de relatos verbais, como no caso de Dúvida, película
na qual a madre denuncia para uma mãe de estudante que o padre assediou seu filho.
Nos títulos em que o ASI era encenado implicitamente, essa peculiaridade pode ser
explicada pelos limites éticos e legais envolvendo o âmbito de filmagem (set), porque
naturalmente um ator mirim não poderia ser focalizado em ato nesses momentos. Daí
a relevância de considerar a centralidade, ou não, do ASI como tema dos filmes anali-
sados: mesmo que eles o tenham explorado implicitamente, ainda assim situações
abusivas podem ter sido centrais na construção do argumento/roteiro. Além dessa
característica relacionada à ética, se as obras explicitassem as situações, deixariam de
ser comerciais e extravasariam por completo os escopos deste trabalho. Novos estudos
permitirão verificar se há mudanças nesse modo de retratar o ASI, considerando novas
produções e novos períodos temporais aqui não enfocados.

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Cinema e abuso sexual na infância e adolescência: contribuições à formação do psicólogo clínico

No que diz respeito ao momento do ciclo vital das vítimas, elas eram crianças em 15
filmes (71%), como em Mistérios da carne e A hora do pesadelo. Eram adolescentes em
quatro (19%), como em Volver e Notas sobre um escândalo. Em dois títulos, as pessoas
abusadas eram de ambas as faixas etárias (9%): Tráfico humano e Anjos do sol. Essa
característica de maior incidência de ASI na infância, quando comparada ao relatado
na adolescência, foi demonstrada nos estudos de Capitão e Romaro (2008), Habigzang,
Borges, Dell’Aglio e Koller (2010), Padilha e Gomide (2004) e Santos e Dell’Aglio (2008).
Com relação ao sexo dos abusados, em nove produções eram do masculino (43%),
como ilustrado em Má educação e Por trás da fé. Em cinco eram do sexo feminino
(24%), como enfocado em Volver e Quem quer ser um milionário?. Em sete obras, os
abusados eram de ambos os sexos (33%); Medo da verdade e O lenhador representam
esse aspecto observado.
Os ofensores eram do sexo masculino em 18 filmes (85%), como encenado em Na
captura dos Friedmans, O lenhador e O inferno de São Judas; do sexo feminino em
dois (9%): O leitor e Notas sobre um escândalo. Eram de ambos os sexos em um título
(6%): Preciosa: uma história de esperança exemplifica o pai e a mãe como violentado-
res. Esses dados foram correlacionados com a bibliografia pesquisada, nas quais havia
indicativos de os abusadores serem, na maioria dos casos de ASI, do sexo masculino
(Aded, Dalcin, Moraes, & Cavalcanti, 2006; Araújo, 2002; Capitão & Romaro, 2008).
Os abusadores eram próximos às vítimas em 13 casos (62%); em cinco, estranhos
(24%); e, em três, são os próprios familiares (14%). Por pessoas próximas às vítimas, con-
sideram-se professores, padres, amigos, conhecidos que estabelecem relações sociais,
como nos casos de Mistérios da carne e Por trás da fé, que tinham, respectivamente, o
treinador e o padre da paróquia como ofensores. Estranhos são considerados aqueles
que não possuíam qualquer tipo de interação social com a vítima, como nos casos de
Tráfico humano, em que menores eram comercializados, e Medo da verdade, que ilus-
tra um sequestrador de vítimas. O estudo de Aded et al. (2006) descreve um fenômeno
semelhante, observado na literatura internacional, e corrobora esses dados: os ofenso-
res são, na maioria dos casos, familiares, amigos e outras pessoas ligadas às vítimas.
Os ASI ocorreram em ambientes públicos em dez filmes (48%). Em O lenhador, as
vítimas eram abordadas nas ruas ou em parques. Recintos familiares foram encenados
em quatro (19%) títulos, como em Preciosa: uma história de esperança. O espaço
escolar laico foi retratado em três obras (14%); em A hora do pesadelo, por exemplo,
o jardineiro da escola é o transgressor. Ambientes escolares confessionais foram enfo-
cados em outros três filmes (14%), sendo Má educação exemplar no qual o padre/
professor abusa de estudante; e um (5%) filme em âmbito religioso, que demonstra
ser o padre da paróquia o abusador dos filhos dos fiéis (Por trás da fé).
Os locais/contextos onde os ASI ocorrem estão vinculados ao perfil do abusador
que no caso são professores, padres, pais, tios, padrastos, pessoas ligadas à família ou
à vítima. Capitão e Romaro (2008) constataram que professores, negociantes e homens
tidos como “de bem” aliciam crianças e as expõem em fotos, e até mesmo parentes
próximos, como pais e avós, praticam pedofilia e, quando o fazem, subjugando um

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menor, utilizam técnicas que remetem àquelas de tortura. Serafim, Saffi, Rigonatti,
Casoy e Barros (2009) descrevem os perfis dos abusadores, o modo como abordam as
vítimas e seus comportamentos sexuais, o que pode ser útil ao estudante e ao forma-
dor para enfoque em trabalhos preventivos. Embora esses autores não tenham obser-
vado consenso na literatura pertinente, uma das questões que verificaram é que um
agressor, mesmo sob risco de ser identificado, dificilmente modifica “seus aspectos
psicológicos, culturais ou sexuais” (Serafim et al., 2009, p. 109), o que confere ao seu
comportamento caráter repetitivo, dinâmico e maleável. Por sua vez, essas idiossin-
crasias asseguram, por meio de experiência e confiança acumuladas a cada infração,
o “sucesso do crime, protege a identidade do criminoso e garante sua fuga” (Serafim
et al., 2009, p. 109).
Quanto à natureza dos ASI, foram observadas as seguintes: voyeurismo em Efeito
borboleta; exibicionismo em O leitor; carícia íntima em Tráfico humano; penetração
anal em O inferno de São Judas, oral em Mistérios da carne e vaginal em Sonhos rou-
bados. Houve, ainda, cenas que não foram relatadas nem expostas de forma clara, tal
como relatado no item “modo como o ASI foi encenado”, por exemplo, no filme Vol-
ver. Nesses casos, é necessário salientar que alguns desses comportamentos sexuais são
pertinentes aos comportamentos parafílicos, caracterizados por desvios da norma de
obtenção de excitação sexual (Holmes, 2007).
Em alusão à repercussão dos casos em meios de comunicação e socialmente, em 13
obras foram revelados (62%); Na captura dos Friedmans e O lenhador são dois mode-
los. E em oito, os ASI permaneceram em sigilo (38%), sendo alguns exemplares Volver,
cujo sigilo permaneceu no meio intrafamiliar, e O caçador de pipas, cuja situação de
abuso permaneceu silenciada entre dois amigos.
Vale observar que a repercussão social do ASI varia, dependendo das formas como
ele ocorreu. O que se percebe é que, quando os ASI são intrafamiliares, a probabili-
dade de permanecerem em sigilo é maior; tal como afirma Araújo (2002), o abuso se-
xual é um fenômeno complexo e difícil de enfrentar por parte de todos os envolvidos.
Nessa direção, o ASI intrafamiliar é uma das maiores violências conhecidas. Para Rou-
dinesco e Plon (1998, p. 372), o incesto apresenta o caráter de um tabu universal, na
quase totalidade das sociedades existentes, daí o motivo de tantas vezes ser “ocultado
e sentido como uma tragédia por quem se entrega a ele”.
Todos os títulos apresentavam a idade mínima necessária para sua assistência (Qua-
dro 1). Embora a classificação indicativa estabelecida para os filmes respeite critérios
estabelecidos pelo Ministério da Justiça (Brasil, 2012), foi observado que em alguns
deles ela poderia ser definida com maior rigor. São casos de encenações, não neces-
sariamente de natureza sexual, que possuem teor elevado de violências que se so-
brepõem umas às outras, ao passo que a pedofilia, isoladamente, teria sido suficiente
para classificar um determinado filme na faixa dos 18 anos. Tráfico humano (16 anos)
é protótipo que possui cenas de violência física, sexual e utilização de palavras chulas,
além de cenas com sangue e com crianças expostas às mais diversas situações. Em

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Cinema e abuso sexual na infância e adolescência: contribuições à formação do psicólogo clínico

Sonhos roubados (16 anos), há cenas de nudez, consumo de álcool, drogas e violência
física. Particularidades como essas proporcionaram discussão e questionamento dos
critérios de classificação indicativa dos títulos e levaram a procurar explicações para
essas ocorrências, não compreensíveis quando os próprios critérios foram estabele-
cidos por instância governamental.
A partir de filmes que visam ao público consumidor comum, retratações de ASI
foram semelhantes ao que tem sido observado em atendimentos clínicos reais, inte-
resse especial deste estudo, como também se assemelham ao notado cotidianamente
em noticiários de canais abertos de rede televisiva. O tipo de filme considerado exige
do espectador, de modo aproximado ao exigido do psicólogo quando lida com ques-
tões contratransferenciais, condição emocional para elaborar informações de conteúdo
psíquico intenso. Naturalmente, essa aproximação é uma proposta lúdica, por meio da
qual não se busca realizar transposição exata de uma teoria desenvolvida em âmbito
clínico ao contexto de assistência de filmes. Contudo, o desenvolvimento do trabalho
de pesquisa indicou que esse tipo de “ponte” pudesse ser apropriado a um leitor que
desconhecesse os movimentos dinâmicos que o outro provoca no terapeuta.
Por essa via, procura-se ressaltar o cinema como um outro, provocador de conheci-
mentos que extrapolam aqueles racionais, obtidos academicamente pelo estudante,
quando se depara com certas construções teóricas em seu processo de formação clíni-
ca. A esse respeito, Swift e Wonderlich (1993) relataram estudo no qual o tema da
contratransferência foi abordado em seminários destinados a psicoterapeutas neó-
fitos e a experientes. Eles utilizaram o filme House of games, traduzido no Brasil co-
mo O jogo de emoções, para elucidar várias perspectivas cruciais para entendimento
do fenômeno contratransferencial, e aqui esse trabalho é indicado aos interessados
em aprofundamentos teóricos. O que aqui se propõe, de modo semelhante, é que o
impacto emocional provocado pelos filmes acerca de ASI possa ser utilizado como
“ampliador de campo emocional” para estudantes e formadores se lançarem à com-
preensão e ao estudo da contratransferência envolvida em situações como as encenadas.
Essas peculiaridades emocionais alavancadas pelos filmes a respeito de ASI são re-
levantes no contexto formativo em psicologia clínica, em especial no de orientação
psicanalítica, porque representam um dos maiores desafios profissionais existentes.
Lidar com respostas emocionais disparadas por diferentes pacientes, em especial por
aqueles tidos como graves, é algo que exige do terapeuta trabalho intenso e cotidia-
no, rumo ao desenvolvimento de estratégias para enfrentamento de experiências de
impotência pessoal e profissional que se seguem a relatos de ASI. Nessa vertente, as
películas analisadas são revestidas de alto valor pedagógico para o estudante de gra-
duação refletir sobre e se aproximar, apesar de limitado pela linguagem fílmica, de
temas frequentes nos contextos clínicos reais.
Naturalmente, esse tipo de consideração não torna prescindível a prática clínica, o
que também é ressaltado por Heidemann et al. (2012, p. 80), no contexto de formação
em psicoterapia psicanalítica:

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A vivência pessoal [...] das intervenções psicoterápicas seguidas de confirmação ou refutação por parte
do paciente, entre outras, são imprescindíveis para a aprendizagem da PP [psicoterapia psicodinâmica],
e o cinema não proporciona essa experiência.

Além disso, complementam esses autores, com frequência o cinema representa a


psiquiatria de maneira estigmatizada, bem como Greenberg (2000) diz ocorrer em
relação à psicanálise e aos psicanalistas.
O tamanho da amostra considerada foi definido sem ser possível executar uma
seleção completa, no sentido de ser sabido existirem filmes que retratam ASI para
além dos anos 2001 e 2010. Essa peculiaridade ilustra limites metodológicos do es-
tudo; porém, apesar de a amostra ser circunscrita, as obras analisadas subsidiaram o
entendimento de vários aspectos referentes às vítimas, aos locais onde ASI geralmente
ocorrem, quem são os ofensores, quais são as repercussões dos casos, além de terem
proporcionado reflexões a propósito de uma problemática socialmente relevante. Uti-
lidade semelhante pode ser alcançada por outros estudantes e formadores de psicólo-
gos interessados em se achegar do tema do ASI, mediados pela linguagem da sétima
arte, em especial se a exibição de filmes for antecedida ou sucedida por subsídios teó-
ricos como os aqui enfocados.
Postas essas limitações relativamente ao uso de filmes como ferramenta mediadora
de processos de ensino e aprendizagem em psicologia clínica, outros estudos são ne-
cessários para desenvolver e consolidar as percepções relatadas. Algumas alternativas
podem ser viáveis quando se ampliam o período temporal investigado, a nacionali-
dade das produções e as temáticas (diferentes do ASI).
Em síntese, os títulos encontrados podem contribuir para o espectador visualizar e
se aproximar ao tema do ASI de forma profícua, por duas razões essenciais: 1. pelos
aspectos cognitivos fomentados por meio do estudo teórico e 2. pelas experiências
emocionais que instigam. Neste último caso, diálogos pertinentes aos desconfortos
que causam podem abrir trilhas que levem à compreensão da psicodinâmica dos envolvi-
dos em situações abusivas. O aspecto lúdico desses filmes residiria no momento no qual
parte da diversidade de manifestações humanas pudesse, assim, ser compartilhada.

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Submissão: 23.07.2012
Aceitação: 25.06.2013

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