Rev Saude Publica.
2020;54:44 Artigo Original
[Link]
Avaliação de um programa de triagem
auditiva neonatal
Ana Carolina Alves MarinhoI , Edirlene Cordeiro de Souza PereiraI , Kleyse Kerlyne Costa
TorresI , Andreza Monforte MirandaII , Alleluia Lima Losno LedesmaI
I
Centro Universitário Planalto do Distrito Federal (UNIPLAN). Faculdade de Fonoaudiologia. Brasília, Distrito
Federal (DF), Brasil
II
Secretaria de Estado do Distrito Federal (SES-DF). Hospital Regional de Sobradinho. Brasília, Distrito Federal
(DF). Brasil
RESUMO
OBJETIVO: Avaliar o Programa de Triagem Auditiva Neonatal do Hospital Regional de
Sobradinho, no período de janeiro de 2016 a dezembro de 2017, segundo os parâmetros do
Comitê Multiprofissional em Saúde Auditiva e as recomendações do Joint Committee on Infant
Hearing (JCIH), bem como descrever a prevalência dos indicadores de risco para deficiência
auditiva na população estudada e seu impacto no respectivo programa.
MÉTODO: Trata-se de um estudo quantitativo, transversal e retrospectivo no qual foram
analisados criteriosamente livros de registros dos neonatos triados. Foi estabelecida a
prevalência de “passa” e “falha” no teste e reteste, o percentual de comparecimento para reteste
e de encaminhamento para diagnóstico audiológico. Foram descritos os indicadores de risco
para deficiência auditiva, bem como sua influência nos índices de “passa” e “falha”. Foi realizada
análise estatística inferencial utilizando o teste do qui-quadrado e o teste de Anderson-Darling,
com índice de confiabilidade de 5%.
RESULTADOS: Foram triados 3.981 neonatos, 2.963 (74,4%) dos quais sem indicadores de
risco e 1.018 (25,6%) com, sendo a prematuridade o mais frequente (51,6%). No teste, 166 (4,2%)
falharam e 118 (71,1%) compareceram para o reteste. O índice de encaminhamento para
Correspondência:
Alleluia Lima Losno Ledesma diagnóstico foi de 0,3%.
Hospital Regional de Sobradinho, Q.
12 – Área Especial –Sobradinho- DF, CONCLUSÃO: O programa atingiu os índices recomendados pelo Joint Committee on
CEP: 70297-400 Infant Hearing e pelo Comitê Multiprofissional em Saúde Auditiva quanto à porcentagem
E-mail: luafono@[Link]
de encaminhamento para diagnóstico. O indicador de risco mais prevalente na população
Recebido: 11 abr 2019
foi a prematuridade.
Aprovado: 01 ago 2019 DESCRITORES: Triagem Neonatal. Perda Auditiva, congênito. Fatores de Risco. Avaliação de
Como citar: Marinho ACA, Pereira
Programas e Projetos de Saúde.
ECS, Torres KKC, Miranda AM,
Ledesma ALL. Avaliação de um
programa de triagem auditiva
neonatal. Rev Saude Publica.
2020;54:44.
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Programa de triagem auditiva neonatal: avaliação Marinho ACA et al.
INTRODUÇÃO
A triagem auditiva neonatal universal (TANU) faz parte de um conjunto de ações preconizadas
pelo Ministério da Saúde para a atenção integral à saúde auditiva na infância, sendo
responsável pela detecção precoce de perda auditiva em neonatos por meio dos exames de
emissões otoacústicas (EOA) e potencial evocado auditivo de tronco encefálico automático
(PEATE-A), conhecido também como brainstem evoked response audiometry (BERA)1.
De acordo com o Joint Committee on Infant Hearing2 , é indicada a realização do exame
de EOA para identificação precoce de alterações auditivas em recém-nascidos (RN).
O PEATE-A deve ser realizado quando, independentemente do resultado do exame de
EOA, o recém-nascido possuir algum indicador de risco para deficiência auditiva (IRDA):
infecção por citomegalovírus (CMV), síndromes associadas à perda auditiva progressiva,
prematuridade, permanência na unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN), distúrbios
neurodegenerativos, trauma ou infecções pós-natais com cultura positiva associadas à perda
auditiva sensorioneural, quando pequeno para a idade gestacional (PIG), para crianças que
receberam oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO) ou quimioterapia e quando
há preocupação do cuidador ou história familiar de perda auditiva2.
Em 2010, foi sancionada a lei n° 12.3033, que dispõe sobre a obrigatoriedade de realização
gratuita do exame denominado emissões otoacústicas evocadas – conhecido também como
“teste da orelhinha” – em todos os hospitais e maternidades, nas crianças nascidas em suas
dependências. Visto que a lei não estabeleceu prazos para cumprimento nem definiu as
fontes de financiamento, em 2012 o Ministério da Saúde instaurou as Diretrizes de Atenção
da TANU no Brasil1. A literatura entra em consenso de que os índices de realização da TANU
devem ser superiores a 95% dos nascidos vivos2,4. Entretanto, de acordo com levantamentos
realizados, a realidade do Brasil está distante desse número, fato preocupante, uma vez que,
caso a perda auditiva não seja identificada precocemente, essa criança poderá ter grandes
dificuldades no desenvolvimento da fala e da linguagem5.
A partir da afirmativa acima e da realidade do Sistema Único de Saúde, reforça-se a
necessidade de discussões acerca da efetividade da TANU. Este estudo tem como objetivo
avaliar o Programa de Triagem Auditiva Neonatal do Hospital Regional de Sobradinho
(HRS), no período de janeiro de 2016 a dezembro de 2017, segundo os parâmetros do Comitê
Multiprofissional em Saúde Auditiva (Comusa) e as recomendações do Joint Committee on
Infant Hearing (JCIH), bem como descrever a prevalência dos indicadores de risco para
deficiência auditiva na população investigada e seu impacto no respectivo programa. Como
hipótese de pesquisa, supõe-se que o serviço consegue alcançar os valores preconizados
pelo Comusa e JCIH, apesar de a população atendida possuir elevada prevalência de IRDA,
e que o percentual de recém-nascidos com IRDA impacta os resultados alcançados pelo
programa. Assim, este estudo adquire importância por fornecer contribuição para os
demais programas de triagem auditiva neonatais nacionais sobre a epidemiologia, o fluxo
e principais dificuldades encontradas na triagem desta população.
MÉTODOS
Trata-se de um estudo quantitativo, transversal e retrospectivo, no qual foram analisados
criteriosamente livros de registros dos neonatos que foram triados entre janeiro de 2016 e
dezembro de 2017. Foi realizado em um hospital público situado em uma das quatro regiões
administrativas que compõem a Região de Saúde Norte do Distrito Federal. O Hospital Regional
de Sobradinho conta com ambulatório com 31 especialidades, unidades de emergência
e clínicas de internação, dentre elas as seguintes unidades de atenção materno-infantil:
ginecologia e obstetrícia, centro obstétrico, maternidade, unidade de terapia intensiva
neonatal, unidade de cuidados intermediários convencional e canguru. Nessa área, ele
é referência para as gestações e partos de alto risco, sendo o acesso para as unidades de
internação via regulação e para a emergência, porta aberta6.
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Programa de triagem auditiva neonatal: avaliação Marinho ACA et al.
O programa tem como protocolo de triagem (Figura 1):
Os exames de emissões otoacústicas transientes (EOAT) são realizados com o equipamento
Otoread. É considerado “passa”, ou seja, indicativo de audição com normalidade, quando
o nível mínimo de sinal apresentar resposta superior a -12 dB e a relação sinal-ruído for
de no mínimo 6 dB em pelo menos 3 frequências. O exame de PEATE-A é realizado com o
equipamento Acuscreen da Otometrics a 35 dB, seguindo os critérios de “passa” e “falha”
estabelecidos pelo equipamento.
Foram avaliados os seguintes indicadores de risco, conforme proposto pela Secretaria de
Saúde do Distrito Federal: hereditariedade, consanguinidade, permanência na unidade
de terapia intensiva (UTI), ventilação mecânica, ototóxico, hiperbilirrubinemia a nível de
exsanguineotransfusão, anóxia perinatal, Apgar 0 a 4 (no primeiro minuto) e 0 a 6 (no quinto
minuto), peso ao nascer (PN) menor ou igual a 1.500g, recém-nascido pré-termo (RNPT), PIG,
infecção congênita, anomalias craniofaciais, síndromes, infecções pós-natais e síndrome
de Down. A amostra da quantidade de nascidos vivos foi coletada em registro interno da
unidade e comparada com a amostra da quantidade de neonatos triados segundo os livros
de registro de EOAT e PEATE-A.
Foram coletados nos livros de registro do Programa de Triagem Auditiva Neonatal os
seguintes dados: nome da mãe, sexo, data do exame, data de nascimento, IRDA e resultado
do exame realizado. Os dados foram organizados em planilhas de Microsoft Excel, sendo uma
planilha para teste com EOA, uma para teste com PEATE-A, e uma para reteste (PEATE-A).
Na ausência dos dados supracitados, foi realizada busca no prontuário eletrônico pelas
informações inexistentes no livro de registro, sendo excluídos da pesquisa os registros com
qualquer uma das informações inexistentes. A coleta dos dados deu-se no livro físico do
programa pois a pesquisa no prontuário eletrônico é mais laboriosa, por ser um registro geral
RN sem IRDA
RN com IRDA
Teste com
EOA Teste com
PEATE-A
PASSOU FALHOU
PASSOU FALHOU
Alta com PEATE-A
orientações (no mesmo dia) Monitoramento Reteste em 15 dias
auditivo com PEATE-A
PASSOU FALHOU
PASSOU FALHOU
Alta com Reteste em 15 dias
orientações com PEATE-A Monitoramento Diagnóstico
auditivo audiológico
PASSOU FALHOU
Alta com Diagnóstico
orientações audiológico
RN: recém-nascido; IRDA: indicador de risco para deficiência auditiva; EOA: emissões otoacústicas; PEATE-A:
potencial evocado auditivo de tronco encefálico automático
Figura 1. Protocolo de triagem auditiva neonatal adotado.
[Link] 3
Programa de triagem auditiva neonatal: avaliação Marinho ACA et al.
com toda a evolução do paciente no serviço, sendo reservado esse recurso apenas para os
casos onde houvesse alguma incongruência no registro físico. Todos os registros entraram
na análise dos dados, sendo excluídos aqueles nos quais faltasse alguma das informações
após a análise do prontuário eletrônico.
Foi estabelecida a prevalência de “passa” e “falha” em cada um dos testes com base nesses dados
coletados. A quantidade de comparecimentos para reteste bem como de encaminhamentos
para diagnóstico foi coletada nos livros de registro do PEATE-A. A partir dos dados brutos
coletados, foram estabelecidos os percentuais de cada etapa.
Após o levantamento de dados, foi realizada análise estatística inferencial para calcular
se os resultados da pesquisa podem ser extrapolados para populações com os mesmos
parâmetros desta, utilizando o teste do qui-quadrado com índice de confiabilidade de 5%.
Para a validação desse teste, foi feito o teste de Anderson-Darling para verificar se as amostras
seguem uma distribuição normal. Os resultados foram apresentados em tabelas e gráficos.
A pesquisa seguiu as recomendações sobre ética em estudos com seres humanos, sendo
aprovado pelo Comitê de Ética sob o CAEE 00620818.0.0000.5512.
RESULTADOS
Foram triados no Hospital Regional de Sobradinho, nos anos de 2016 e 2017, 3.981
recém-nascidos, sendo 1.992 em 2016 e 1.989 em 2017. Desses, 2.963 (74,4%) não tinham
IRDA e 1.018 (25,6%) tinham. Nos registros do referido serviço, observaram-se 1.948 nascidos
vivos em 2016 e 1.932 nascidos vivos em 2017, perfazendo 102,3% de recém-nascidos triados
em 2016 e 103,0% em 2017. Dos 3.981 neonatos triados nos anos de 2016 e 2017, 166 (4,2%)
falharam no teste, sendo que 118 (71,1%) compareceram para o reteste. Desses, 12 (0,3%)
falharam no reteste e foram encaminhados para diagnóstico audiológico.
No ano de 2016, foram triados 1.519 RN sem IRDA, dos quais 1.454 (95,7%) passaram
e 65 (4,3%) falharam. Dentre os que falharam, 23 (35,4%) falharam na orelha direita
(OD), 25 (38,5%) na orelha esquerda (OE) e 17 (26,1%) em ambas as orelhas. No ano de
2017, foram triados 1.444 RN sem IRDA, dos quais 1.415 (98,0%) passaram e 29 (2,0%)
falharam. Dentre os que falharam, 9 (31,0%) falharam na OD, 15 (51,7%) na OE e 5 (17,2%)
em ambas as orelhas.
No ano de 2016, dos neonatos sem IRDA que falharam, 56 (86%) compareceram para reteste,
dos quais 55 (98,2%) passaram e 1 (1,8%) falhou. No ano de 2017, 23 (79,3%) compareceram,
dos quais 22 (95,7%) passaram e 1 (4,3%) falhou (Figura 2).
2016 2017
Passou
Passou
75,0%
73,3%
44,1% 63,2%
55,9% 36,8%
Falhou
Falhou
26,7%
25,0%
Não compareceram Compareceram Não compareceram Compareceram
IRDA: indicador de risco para deficiência auditiva
Figura 2. Prevalência de comparecimento, passa e falha no reteste de recém-nascidos sem IRDA nos anos de 2016 e 2017.
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Programa de triagem auditiva neonatal: avaliação Marinho ACA et al.
No ano de 2016 foram triados 473 RN com IRDA, dos quais 439 (92,8%) passaram e 34 (7,2%)
falharam. Dentre os que falharam, 7 (20,6%) falharam na OD, 6 (17,6%) na OE e 21 (61,8%) em
ambas as orelhas. No ano de 2017 foram triados 545 RN com IRDA, dos quais 507 (93,0%)
passaram e 38 (7,0%) falharam. Dentre os que falharam, 4 (10,5%) falharam na OD, 20 (52,6%)
na OE e 14 (36,8%) em ambas as orelhas. Não houve significância estatística entre o percentual
de falhas por orelha nessa população, com p-valor de 0,8 e 0,1, respectivamente em 2016 e 2017.
No ano de 2016, dos neonatos com IRDA que falharam, 15 (44,1%) compareceram para
reteste, dos quais 11 (73,3%) passaram e 4 (26,7%) falharam. No ano de 2017, 24 (63,2%)
compareceram, dos quais 18 (75,0%) passaram e 6 (25,0%) falharam (Figura 3).
2016 2017
Passou
Passou
75%
86% 85% 79,3%
14% 20,7%
Falhou Falhou
1% 4,3%
Não compareceram Compareceram Não compareceram Compareceram
IRDA: indicador de risco para deficiência auditiva
Figura 3. Prevalência de comparecimento, passa e falha no reteste de recém-nascidos com IRDA nos anos de 2016 e 2017.
Tabela 1. Análise do número de falhas e da presença de indicadores de risco para deficiência auditiva.
2016 Sim Não Total 2017 Sim Não Total
Passaram 439 1.454 1.893 Passaram 507 1.415 1.922
Teste Falharam 34 65 99 Teste Falharam 38 29 67
Total 473 1.519 1.992 Total 545 1.444 1.989
Esperada Esperada
2016 Sim Não Total 2017 Sim Não Total
Teste Passaram 449,4925 1.443,508 1.893 Teste Passaram 457,0669 1.467,832 1.893
Falharam 23,50753 75,49247 99 Falharam 15,93313 51,16792 99
Total 473 1.519 1.992 Total 473 1.519 1.992
p = 0,0110 p≅0
2016 Sim Não Total 2017 Sim Não Total
Reteste Passaram 11 55 66 Reteste Passaram 11 55 66
Falharam 4 1 5 Falharam 4 1 5
Total 15 56 71 Total 15 56 71
Esperada Esperada
2016 Sim Não Total 2017 Sim Não Total
Reteste Passaram 13,94366 52,05634 66 Reteste Passaram 13,94366 52,05634 66
Falharam 1,056338 3,943662 5 Falharam 1,056338 3,943662 5
Total 15 56 71 Total 15 56 71
p = 0,0008 p = 0,0008 Qui-quadrado
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Programa de triagem auditiva neonatal: avaliação Marinho ACA et al.
Tabela 2. Prevalência de IRDA em neonatos vivos triados no Hospital Regional de Sobradinho em
2016 e 2017.
Total 2016 2017
IRDA
n (%) n (%) n (%)
Hereditariedade 123 (12,08%) 56 (11,8%) 67 (12,3%)
Consanguinidade 44 (4,3%) 28 (5,9%) 16 (2,9%)
Permanência na UTI 242 (23,8%) 110 (23,3%) 132 (24,2%)
Ventilação mecânica 119 (11,7%) 59 (12,5%) 60 (11,0%)
Ototóxico 283 (27,8%) 136 (28,8%) 147 (27,0%)
Hiperbilirrubinemia 12 (1,2%) 7 (1,5%) 5 (0,9%)
Anóxia perinatal 8 (0,8%) 4 (0,8%) 4 (0,7%)
Apgar 0–4 / 0–6 112 (11,0%) 58 (12,3%) 54 (9,9%)
PN ≤ 1.500 g 93 (9,1%) 61 (12,9%) 32 (5,9%)
RNPT 526 (51,6%) 256 (54,1%) 270 (49,5%)
PIG 171 (16,7%) 78 (16,5%) 93 (17,1%)
Infecção congênita 49 (4,8%) 19 (4,0%) 30 (5,5%)
Anomalias craniofaciais 28 (2,7%) 7 (1,5%) 21 (3,9%)
Síndromes 5 (0,5%) 1 (0,2%) 4 (0,7%)
Infecções pós-natais 6 (0,6%) 3 (0,6%) 3 (0,6%)
Síndrome de Down 1 (0,1%) 1 (0,2%) 0 (0%)
IRDA: indicador de risco para deficiência auditiva; UTI: unidade de terapia intensiva; PN: peso ao nascer; RNPT:
recém-nascido pré-termo; PIG: pequeno para a idade gestacional
Nota: os IRDA em negrito foram os mais prevalentes
Foi observada relação estatística entre a presença de IRDA e o percentual de falha na triagem
auditiva neonatal tanto no teste quanto no reteste nos anos de 2016 e de 2017 (Tabela 1).
A Tabela 2 apresenta a prevalência dos IRDA na população estudada, sendo a prematuridade
(RNPT) o mais prevalente, seguido do uso de ototóxico e da permanência na UTI, tanto no
ano de 2016 quanto em 2017.
DISCUSSÃO
O JCIH recomenda o monitoramento regular do desempenho dos programas de triagem
auditiva neonatal em relação à cobertura e percentuais de “falha”. Tomando como base
a cobertura do referido programa, pode-se inferir que ele obedece às recomendações
do Comusa e do JCHI de que pelo menos 95% dos neonatos vivos sejam triados2,4. Esses
resultados também foram alcançados por outro programa de triagem auditiva neonatal
no Brasil7, enquanto a literatura descreve programas que não alcançaram esse índice8,9.
O número de neonatos triados superou o número de nascidos vivos. Isso pode ser
justificado pois, conforme a portaria n°1.459 de 24 de junho de 2011, que institui a
Rede Cegonha, o programa realiza a triagem de recém-nascidos provenientes de outros
hospitais e que residam na mesma regional, bem como dos recém-nascidos que, apesar
de nascidos em outras regionais, foram internados na UTIN desse hospital, recebendo
alta na instituição 6 .
O índice de falha no teste foi comparável ao relatado em outro estudo que o pesquisou
em quatro maternidades no Paraná, encontrando 5%, 3% e 2% em três das instituições
(não foram apresentados esses dados na última)10. Foi inferior ao de estudos realizados em
maternidades de nível secundário, que encontraram 11,7% e 25,3%9,11.
Em relação à lateralidade das falhas, foi observada uma maior prevalência na orelha
esquerda; no entanto, não houve relevância estatística para esse achado. Estudo anterior
[Link] 6
Programa de triagem auditiva neonatal: avaliação Marinho ACA et al.
demonstrou maior prevalência de falha na orelha direita também com ausência de
significância estatística12 , outro ainda demonstrou percentual de falha semelhante em
ambas as orelhas13. Como não há consenso na literatura, sugere-se não haver predominância
de orelhas no percentual de falhas na triagem auditiva em neonatos.
O comparecimento para reteste foi de 71,1%, índice semelhante ao obtido em outro estudo,
de aproximadamente 75,7%14. A porcentagem de encaminhados para diagnóstico audiológico
foi de 0,3%, o que está de acordo com a porcentagem indicada pelo JCHI e pelo Comusa,
que determinam que esse índice não deve ultrapassar 4% dos neonatos triados2,4. Em um
estudo nacional realizado em 2017, 6,02% dos neonatos triados foram encaminhados para
diagnóstico audiológico15, enquanto em outro estudo essa taxa foi de 1,7%9.
Visto que no ano de 2016 o índice de não comparecimento para o reteste entre os RN com
IRDA (55,9%) superou o do ano de 2017 (20,7%), pode-se sugerir que o programa da TANU
do hospital estudado reforçou as orientações sobre a importância do comparecimento para
o reteste. Essa orientação é de suma importância, considerando que o não comparecimento
para o reteste atrasa o diagnóstico de prováveis perdas auditivas, não sendo possível
minimizar prejuízos ao desenvolvimento da linguagem. Pode-se destacar que a falta de
conhecimento ou até mesmo de compreensão em relação à importância do exame auditivo
pode interferir diretamente na identificação precoce da surdez16.
Em relação aos riscos para deficiência auditiva, foi observado que a prematuridade foi o de
maior prevalência, corroborando um estudo realizado no Hospital Universitário de Santa
Maria17 e diferindo de um estudo em que a permanência na UTI por mais de cinco dias
foi o IRDA mais observado, porém no qual a prematuridade foi o segundo indicador mais
prevalente18. Os dados divergiram também de um estudo realizado em Maceió, o qual obteve
a hiperbilirrubinemia como indicador de risco mais frequente; no entanto, a prematuridade
não foi incluída entre os IRDA19. Cabe destacar que o JHIC não faz referência à prematuridade
como um fator de risco para deficiência auditiva se comparado isoladamente2. A inclusão
desse indicador pode ser justificada pelo fato de os RNPT possuírem um maior risco de
alteração biológica no desenvolvimento global, podendo interferir na maturação da via
auditiva de maneira nociva20.
Na população estudada, dos 3.981 neonatos triados, 1.018 (25,6%) apresentaram um ou mais
indicadores de risco para deficiência auditiva. Em uma pesquisa realizada com 1.570 RN,
221 (14,1%) apresentaram um ou mais IRDA9. Em outro estudo, a população estudada foi de
1.626 neonatos, dos quais 163 (10,0%) apresentaram um ou mais IRDA19. O presente estudo
apresenta prevalência superior de RN com IRDA quando comparado aos estudos referidos.
De acordo com a portaria n° 47 de 13 de março de 2014, o HRS é considerado referência
para partos de alto risco em um grande número de municípios vizinhos, justificando o
elevado índice de neonatos com IRDA nesta população, elevando assim a prevalência de
IRDA nos neonatos21.
Como limitações, este estudo não investigou a influência de fatores demográficos e do tipo
de parto nos resultados da triagem auditiva; além disso, foi impossível definir a porcentagem
da cobertura de recém-nascidos triados, devido à inexistência da informação do local de
nascimento do neonato.
O programa atingiu os índices recomendados pelo JCIH e pelo Comusa quanto à porcentagem
de encaminhamento para diagnóstico, apesar do elevado índice de IRDA na população
estudada. Não foi possível afirmar que o programa obedece às recomendações desses
comitês quanto à cobertura. O IRDA mais prevalente na população foi a prematuridade,
seguido de uso de ototóxico e permanência na UTIN.
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gestantes no âmbito da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal. Diario Oficial Distrito
Federal. 13 mar 2014; Seção 1:16-8.
Contribuição dos autores: ACAM: concepção, planejamento, coleta, análise e interpretação de dados, elaboração
do manuscrito. ECSP: concepção, planejamento, coleta, análise e interpretação de dados, elaboração do manuscrito.
KKCT: concepção, planejamento, coleta, análise e interpretação de dados, elaboração do manuscrito. AMM:
concepção, planejamento, interpretação dos dados e revisão do manuscrito. ALLL: concepção, planejamento,
interpretação dos dados e revisão do manuscrito, aprovação da versão final a ser publicada e responsabilidae
pública pelo conteúdo do artigo
Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses
[Link] 9