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Introdução à Antropologia: Conceitos e Temas

Enviado por

Deize Soares
Direitos autorais
© All Rights Reserved
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Introdução à Antropologia: Conceitos e Temas

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Antropologia

Clique na imagem para visualizar o vídeo.

Olá, estudante!

Esse é o material didático da disciplina Antropologia. Ele servirá como um guia, onde
você encontrará sínteses dos assuntos discutidos em todas as mídias utilizadas nesta
disciplina.

Através destes conteúdos, você terá uma visão geral sobre os assuntos discutidos,
não obstante as leituras sejam imprescindíveis ao aprendizado. Dessa forma,
acompanhar o Roteiro de Estudos será necessário para um melhor aproveitamento do
conteúdo da disciplina.

A disciplina tratará fundamentalmente de assuntos pertinentes ao saber antropológico


que estarão divididos em quatro unidades para melhor sistematização do conteúdo e
melhores resultados no aprendizado.

Inicialmente você será apresentado à Antropologia através do seu conceito


fundamental, conhecendo seus campos de pesquisa e suas ramificações. Será
também apresentado aos métodos de investigação aplicados pela disciplina nos
diversos contextos de atuação da antropologia.

Durante a disciplina, iremos discutir a trajetória da antropologia enquanto campo


científico, estudando seus desdobramentos através de correntes teóricas que
orientaram grandes pensadores da disciplina, do evolucionismo ao interpretativismo.
Com o avanço dos estudos, iremos adentrar no campo primordial de discussão da
antropologia, o campo da cultura. Nessa parte do curso serão apresentados conceitos
como os de cultura, relativismo cultural e etnocentrismo, necessários para ampliar o
entendimento acerca do objeto primordial da antropologia.

Por fim, a disciplina será guiada por temáticas bastante discutidas pela antropologia,
quando trabalharemos com temas como etnicidade, etnodesenvolvimento, gênero e
religiosidade.

Você poderá perceber que as temáticas discutidas durante as unidades se tangenciam


e se cruzam em alguns momentos.

Não tenha dúvidas, a Antropologia se mostrará como um campo do conhecimento


fascinante e instigante, que deve, portanto, lhe auxiliar em sua futura trajetória pessoal
e profissional.

Objetivos

Ao final desta disciplina, você deverá ser capaz de:

• Compreender o que é Antropologia e seus mecanismos de


ação.

Conteúdo Programático

Esta disciplina está organizada de acordo com as seguintes


unidades:

• Unidade 1 – Conhecendo a Antropologia


• Unidade 2 – Correntes do Pensamento Antropológico
• Unidade 3 – A evolução do conceito de cultura
• Unidade 4 – Temas de Interesse da Antropologia
Autoria

Professor Bruno Luedy Silva

Bacharel em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia, pela Universidade


Federal da Bahia. Mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia. Atua
nas áreas de Antropologia Rural e Etnologia Indígena. Membro do Núcleo de
Etnodesenvolvimento no contexto do Projeto "Desenvolvimento Territorial Sustentável
e Multifuncionalidade da Agricultura Familiar nos Territórios da Cidadania da Bahia".
Atuou como consultor em projetos da Companhia de Desenvolvimento e Ação
Regional, nos Territórios de Identidade Litoral Sul e Extremo Sul da Bahia

Revisão e atualização

Professora Márcia Simões Mattos

Mestre em Educação – Universidade Católica de Petrópolis – UCP. Licenciatura em


Pedagogia (UERJ), História (UNISUAM)- Pós-graduações em Tecnologia Educacional
(UERJ); Processos de Aprendizagem (UFRJ – Pesquisadora com Bolsa do CNPQ);
MBE em Gestão Educacional (FJG – Fundação João Goulart e UCAM – Universidade
Candido Mendes); Tecnologias e Mídias em Educação (UVA – Universidade Veiga de
Almeida). Professora da Graduação da Universidade Veiga de Almeida, disciplinas
presenciais e on line e EAD, exercendo também atividades acadêmicas de Líder de
Área das Licenciaturas e Focal do ENADE. Professora concursada da Prefeitura da
Cidade do Rio de Janeiro, onde por 30 anos exerceu atividades de regência e cargos
como Coordenadora Regional de Educação – CRE entre outros. Foi membro do
Conselho Municipal de Educacional de Educação da Cidade do Rio de Janeiro. Área
de estudo: História da Educação, sociedade, cultura e currículo.
Conhecendo a Antropologia

Você sabe o que é Antropologia?

A Antropologia é ciência do homem e, por extensão – como veremos ao longo do


curso –, da cultura. Bom, um questionamento inicial que pode ser feito, e que nos
ajuda a entender o que é Antropologia é o seguinte: O que diferencia o homem dos
demais animais? Essa não é uma questão tão simples de responder.

Pensemos então, quem é o homem? O homem, para antropologia, não surgiu de


acordo com qualquer teoria criacionista, ou seja, para a antropologia o homem não foi
criado por nenhum deus, ele é animal primata, bípede, pertencente ao gênero
biológico homo. Sapiens é um termo em latim que significa “sábio”, daí a denominação
Homo Sapeins para designar o grupo em que nós – humanos – fomos classificados
pela ciência.

Objetivo
Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de:

• Compreender o papel da Antropologia no mundo


contemporâneo;
• Identificar métodos e técnicas de investigação na área.

Conteúdo Programático
Esta unidade está organizada de acordo com os seguintes temas:

• Tema 1 - Conhecendo a Antropologia


• Tema 2 - Antropologia Física e Cultural
• Tema 3 - Objeto, métodos e técnicas
Agora reflita...

Será, realmente, que esse Homem – entendido aqui como o homem e mulher – é tão
sábio assim? Pensemos sobre isso: ao mesmo tempo em que o homem é capaz de
construir aviões e produzir computadores ultra-modernos, ele cria bombas atômicas e
destrói a natureza. Será que estamos, de fato, evoluindo?
Tema 1
Conhecendo a Antropologia

O que é Antropologia?
É comum ouvirmos dizer que nós, seres humanos, nos adaptamos a qualquer
situação, por mais adversa que possa parecer, não é mesmo?! Pois bem, se agora eu
afirmasse que o homem não se adapta ao meio, o que poderíamos pensar sobre isso?
De fato, quem se adapta ao meio em que vive são os outros animais, os não
humanos. O homem, para viver, transforma o meio em que vive e ao fazer isso,
produz cultura, ou seja, o homem é único animal capaz de produzir cultura. Essa
capacidade intrínseca aos seres humanos faz com que, em última análise, os homens,
como seres culturais, se diferenciem dos demais animais.

Saiba Mais

“O homem nunca parou de se interrogar sobre si mesmo. Em todas as


sociedades existiram homens que observavam homens. [...] A reflexão do
homem sobre o homem em sua sociedade, e a elaboração de um saber
são, portanto, tão antigos quanto a humanidade, e se deram tanto na Ásia
como na África, na América, na Oceania ou na Europa” (Laplantine, F.
2001).

A história do homem sobre o planeta Terra é repleta de cultura e se estende desde as


chamadas culturas pré-históricas até os dias atuais, com registros dos mais diversos
tipos nas mais diversas sociedades. É papel da Antropologia investigar a história do
homem nesses contextos culturais.
Vídeo

Para saber mais sobre o que é Antropologia, assista agora ao


vídeo: Conhecendo a Antropologia.

Clique na imagem para visualizar o vídeo.

A consolidação da Antropologia enquanto disciplina científica

Duas perguntas podem nos ajudar na busca deste entendimento. São elas:

• Como entender os estudos do ser humano e de toda sua produção cultural


dentro de um contexto científico, uma vez que as culturas se apresentam de
forma bastante distintas em diferentes sociedades?
• Seria possível atingir uma objetividade necessária para a ciência num campo
tão subjetivo como aqueles quem envolvem o meio cultural?

Podemos considerar a Antropologia uma ciência jovem, pois é somente no século XIX
que ela adquire o status de disciplina científica. Entre as ciências humanas, foi a que
mais demorou a ser considerada um campo científico. Embora possa ser considerada
uma ciência nova, quando pensada em relação aos demais campos cietíficos já
estabelecidos, a antropologia apresenta uma longa trajetória que podemos começar a
contar a partir dos relatos de cronistas e viajantes, ainda no século XVI.

São estes cronistas e viajantes que irão descrever pela primeira vez o contato com o
“outro”. Além de descreverem fauna e flora de terras distantes da Europa, até então
centro do mundo, esses viajantes fizeram também relatos sobre os povos nativos das
terras em que aportavam. Podemos citar, como exemplo, os relatos presentes na
Carta de Pero Vaz de Caminha e as narrativas realizadas por Hans Staden (1525 –
1579) em suas viagens ao Brasil. Ali se ensaiavam os primeiros passos para se
pensar o homem a partir de uma perspectiva cultural diferenciada, muito embora
naquela época, para os europeus, os nativos fossem considerados seres sem alma,
chegando a serem tratados como outra espécie.
Houve ainda, subsequente aos períodos de descobertas, um período em que as
contribuições de religiosos Jesuítas e Capuchinhos, através de relatos contínuos,
apresentaram um panorama no qual podia se perceber diversos aspectos da vida dos
povos indígenas no Brasil. Não eram relatos antropológicos, evidentemente.
Entretanto, o material produzido auxiliou a antropologia a galgar seus passos iniciais.

É com o pensamento evolucionista, ancorado das idéias de Charles Darwin (1809-


1882), que a antropologia encontra terreno fértil para sua consolidação. Nesse
instante, muitos cientistas começam a manifestar certo grau de descrença nas
explicações bíblicas sobre a criação do homem, pesquisadores de diversas partes do
mundo começam a levantar questionamentos sobre a história do homem na terra.
Como conseqüência, passava-se a acreditar que o homem teria sido fruto de uma
evolução e, portanto, muitos cientistas voltaram-se para a busca de um “elo perdido”,
ou seja, um ser antropóide que em um passado remoto pudesse ter ligação com o
homem moderno.

Foi através de contribuições advindas das ciências físicas e exatas que os primeiros
estudiosos do homem formularam teorias que distanciavam o surgimento do homem
de algo sobrenatural e passavam a seguir as trilhas sugeridas pela natureza, até
então, pautadas nas idéias evolucionistas.

A busca incansável pelo “elo perdido” vai cedendo espaço a outros estudos – por parte
dos antropologistas – que buscavam entender os comportamentos de sociedades
pensadas como “primitivas” e “atrasadas”. Sempre observados e analisados sob a
ótica burguesa ocidental, tais povos, até poucas décadas atrás, eram considerados
bárbaros em estágios de evolução. A partir de tal perspectiva deu-se então início aos
estudos sobre organização social de tribos e clãs, do seu sistema de parentesco,
rituais, mitologias, entre outras coisas.

Não somente a antropologia tem uma preocupação com o estudo da espécie humana,
outros campos, como os da história, psicologia, sociologia, entre outros, também
debruçaram esforços para compreender a ação humana em contextos coletivos. O
que vai contribuir para diferenciação entre a antropologia e os demais campos do
conhecimento científico são as questões de ordem física, anatômicas e estruturais do
homem, campos de estudo da Antropologia Física. Não demorou até que novas
vertentes do pensamento antropológico surgissem, como no caso da Antropologia
Cultural, consolidando assim, de uma vez por todas, a antropologia enquanto campo
científico. A partir daí, os diversos contextos culturais seriam objetos de preocupação
antropológica, e os antropólogos, principais responsáveis por tentar explicar e
compreender contextos culturais distintos daqueles estabelecidos.

Desse modo, para alcançar a objetividade necessária ao saber científico, a


antropologia se utilizou de técnicas e métodos específicos – os quais serão discutidos
mais à frente – que lhe permitiram extrair conclusões até o momento aceitas pela
comunidade científica.

Uma vez colocada tal questão é hora de descobrirmos o que diferencia, de fato, a
Antropologia Física da Cultural.
Tema 2
Antropologia Física e Cultural

Para que serve a Antropologia?


Antropologia Física e Cultural são as duas formas clássicas de divisões da
antropologia, muito embora algumas bibliografias esbocem algumas outras
subdivisões da disciplina, a divisão clássica entre física e cultural representa bem
todas as possibilidades teóricas e práticas da antropologia enquanto ciência do
homem.

Vamos entender cada uma delas, por partes, iniciando pelo Antropologia
Física, ok?

Ora, a própria definição já nos dá uma pista acerca do que trata essa parte da
disciplina, não é mesmo? A antropologia física, também conhecida como antropologia
biológica, trata das “variações dos caracteres biológicos do homem no tempo e no
espaço”, tal como exposto por François Laplantine.

Mas o que será que o autor supracitado quis dizer com tal afirmação?

Certamente o entendimento que os antropólogos


modernos têm sobre a Antropologia Física difere
bastante das concepções do passado.
Anteriormente essa parte da Antropologia se
pautava na craniometria, técnica que tinha como
proposta o estudo e medição do crânio humano
para, a partir de então, traçar o perfil dos
indivíduos. Durante um período da história da
antropologia, técnicas como essa foram usadas
para legitimar posicionamentos racistas. Dessa
maneira, muitos mestiços e negros foram julgados
e esteriotipados no Brasil do século XIX.
Pelo formato do seu crânio e dimensões do esqueleto era possível indicar quais tipos
de crime aqueles sujeitos poderiam cometer. Parece insano pensarmos isso, mas
parte da história do Brasil durante o século XIX foi marcada por esse tipo de conduta,
acredite, científica.

Voltando à questão posta anteriormente, e tentando respondê-la, o que Laplantine


quis dizer quando afirmou que a Antropologia Física estudava as variações dos
caracteres biológicos, podemos inferir que a problemática posta pela Antropologia
Física pretente tratar das relações entre o patrimônio genético e o meio cultural (e
também geográfico). Em outras palavras, ela estuda as relações entre o inato e o
adquirido, que estão em constante interação.
Vale lembrar que a Antropologia Física também está subdividida em tantas outras
partes da antropologia e, mesmo com suas especificidades, todas partem da relação
entre o patrimônio genético do indivíduo associados ao patrimônio cultural.

Bem, e o que caracterizaria, então, a Antropologia Cultural?

A Antropologia Cultural pode também ser chamada de Antropologia Social. É o ramo


da antropologia que parece abarcar, em essência, todas as demais subdivisões da
disciplina. A forma como foi denominada – Antropologia Cultural – já nos dá um pista
do que ela busca investigar. Ela diz respeito aos diversos aspectos culturais que
constituem o ordenamento e funcionamento de uma sociedade, ou seja, ela analisa os
“modos de produção econômica, suas técnicas, sua organização política e jurídica,
seus sistemas de parentesco, seus sistemas de conhecimento, suas crenças
religiosas, sua língua, sua psicologia, suas criações artísticas”, tal como tentou definir
Laplantine.
Outros autores podem apresentar formas distintas para definir o que seja Antropologia
Cultural, entretanto, em todas as definições encontradas em outras bibliografias irão
perpassar pelas questões supracitadas.
De modo geral, podemos aprender que a Antropologia Cultural acaba por desfazer a
dualidade presente entre as noções anteriormente definidas de “cultura” e “natureza”.
Ela coloca por água abaixo a noção de pureza presente em uma suposta “natureza
humana”, re-significando o universo humano enquanto um universo cultural, no qual
nós – seres humanos – somos capazes de representar, nos comunicar através da
linguagem, criar símbolos, códigos e comportamentos distintos que estão relacionados
com os grupos com os quais (con)vivemos e o lugar habitado por nós.
A partir dos estudos realizados por esse ramo da Antropologia, novas técnicas e
métodos de investigação passaram a vigorar. Com isso, todo o arsenal carregado de
preconceitos herdados de técnicas e métodos obsoletos, como no caso da
craniometria, que legitimavam teorias racialistas, foi sendo diluído. O novo caminho
que essa Antropologia buscava perpassava por uma neutralidade investigativa e o
antropólogo passava, então, a imergir nas diferentes realidades culturais, para dessa
forma, buscar maior aproximação com a realidade investigada entre os grupos ou
povos estudados. Isso o levou a realizar trabalhos de campo, nos quais destacou a
observação participante como um de seus principais métodos. No item a seguir,
discutiremos um pouco mais sobre essa temática dos métodos e técnicas.
Tema 3
Objeto, métodos e técnicas

Como opera a Antropologia?


De modo geral, é possível afirmar que o objeto da Antropologia, por excelência, é o
homem e sua relação com o meio cultural. Alguns antropólogos, entretanto, não
gostam de se referir a outros seres humanos como sendo “objetos” e preferem chamá-
los de “sujeitos” da pesquisa. Tal deslocamento entre as categorias sujeito/objeto
retrata uma visão tida hoje como politicamente correta entre alguns antropólogos. Mas,
de fato, tal modo de classificação não desloca a importância central dos estudos
empreendidos pela disciplina.
Bom, definido brevemente o objeto da antropologia, vamos tentar entender como esse
objeto se relaciona com os métodos e técnicas de pesquisa.
Vamos tratar, inicialmente, dos métodos.
Podemos inferir primordialmente que nas ciências sociais, em especial na
antropologia, os métodos de pesquisa podem ser divididos de duas maneiras:
métodos quantitativos e qualitativos.
O uso do método quantitativo foi bastante comum nos estudos antropológicos até a
década de 1960 aproximadamente, tendo na antropologia norte-americana seu
principal expoente. Já o método qualitativo é o mais usual entre os antropólogos de
hoje, o que não significa, contudo, que não se possa realizar uma pesquisa em
antropologia utilizando o método quantitativo, ou mesmo combinando ambos.
Para tornar essa breve explicação mais detalhada, vamos caracterizar os métodos
quantitativos e qualitativos a partir das diferenças apresentadas entre eles, ok?!
Então, vamos lá. No método quantitativo, os pesquisadores trabalham com dados
ordinais (números) através da aplicação de "entrevistas fechadas" onde a partir daí
são geradas estatísticas sobre o objeto pesquisado. É importante ressaltar que nesse
tipo de investigação não é necessário a participação direta do pesquisador durante a
coleta de dados, que pode ser realizada por um entrevistador externo, desde que
tenha sido treinado pelo pesquisador responsável pela investigação.
Já no método qualitativo, as interações entre o pesquisador e o pesquisado – ou,
como a ciência costuma se referir, na relação sujeito/objeto – apresentam uma
tipologia distinta. Há necessidade de o pesquisador estabelecer uma relação direta
com os sujeitos da pesquisa. Como não há preocupação em se gerar estatísticas,
como no método quantitativo, durante a pesquisa qualitativa o pesquisador irá –
durante processos de interação com os sujeitos – absorver e interpretar dados
subjetivos, baseados na observação, participante ou não, e nas entrevistas semi-
estruturadas ou abertas.
Método Qualitativo Métodos Quantitativo

• Relação direta entre pesquisador e


sujeito da pesquisa; • Não exige participação direta do
pesquisador
• Envolve interpretação de dados
subjetivos; • Tratabalha com dados ordinais
(números)
• Requer observação;
• Gera estatísticas
• Utiliza entrevistas semi-estruturadas ou
abertas. • Utiliza entrevistas fechadas

Assim, fica claro que, durante a realização das pesquisas baseadas em métodos
qualitativos, há maior envolvimento entre pesquisador e pesquisado, pois a produção
do dado não seguirá uma lógica numérica. Atualmente, apesar de maior parte das
pesquisas realizadas por antropólogos seguirem metodologias qualitativas, o uso de
uma metodologia quantitativa ainda pode ser observado em muitas pesquisas,
principalmente após maior difusão de um software desenvovido no final da década de
1960 chamado SPSS, que aplica o uso da estatística às ciências sociais.

Este artigo do Portal Educação, distingue os dois métodos de pesquisa


tratados aqui, apresentando suas principais características

Agora que já foram apresentados os métodos quantitativo e qualitativo, refinaremos


um pouco mais o estudo e entraremos, mais especificamente, no que pode ser
considerado o método primordial da antropologia: a etnografia.

Você já ouviu este termo antes?

Etnografia é um palavra de origem grega que une dois termos; ‘etno’ palavra que se
refere a um povo/etnia ou nação e ‘grafia’, que significa ‘escrita’. Daí a designação do
termo para se referir ao estudo, normalmente realizado por antropólogos, dos diversos
aspectos culturais de um povo.
Para se fazer etnografia o pesquisador deve,
através do trabalho de campo, imergir no mundo
do “outro”, conviver com eles por um período de
tempo relativamente longo para somente assim
buscar possíveis compreensões acerca do seu
modo de vida. A etnografia está ancorada na
metodologia qualitativa, pois as respostas
buscadas pelos antropólogos não podem ser
respondidas com aplicação do método quantitativo somente, pois perpassam por
aspectos cognitivos dos sujeitos envolvidos na pesquisa.

Assim, o trabalho do antropólogo em campo pode ser resumido da seguinte


maneira:

Mas você pode estar se perguntando nesse momento; ‘como será que isso
acontece’?

Pois bem, não se trata de um simples olhar, ouvir e escrever. Para se chegar aos
resultados esperados usando o método etnográfico é preciso que sejam empregadas
algumas técnicas de pesquisa. E quais são essas técincas?
As técnicas utilizadas são diversas. Podemos citar como mais usuais em contextos de
trabalho de campo a ‘observação participante’ e as ‘entrevistas semi-estruturadas’ ou
‘abertas’. A observação participante só é possível de ser realizada com o convívio
continuado entre pesquisador e pesquisados. Durante esse processo, outros
intrumentos como o ‘caderno de campo’ e ‘registros fotográficos’ auxiliam o trabalho
do antropólogo.
As entrevistas realizadas seguem roteiros semi-estruturados ou abertos, pois através
de tal técnica é possivel obter respostas nas quais as subjetividades presentes nos
discursos dos pesquisados fiquem mais evidentes. Para fins de análise, sempre que
possível – com a devida autorização – os áudios das entrevistas são captados.
Genealogias dos grupos estudados também são comuns nos trabalhos etnográficos,
pois as relações de parentesco fazem parte do interesse dos estudos antropológicos.
A finalidade do estudo etnográfico consiste em ajudar o antropólogo a compreender
um povo a partir da lógica da cultura do nativo. A etapa final desse trabalho é a escrita,
quando o antropólogo/etnógrafo irá analisar os dados coletados e analisá-los a partir
da visão de mundo dos nativos. Nesse sentido, o registro etnográfico se afasta de
registros do folclore, pois não apenas tenta retratar a cultura ou prática cultural
observada, mas tenta explicá-la. Assim, podemos afirmar que o antropólogo é uma
espécie de tradutor do mundo do “outro”.
A importância da antropologia

Estamos chegando ao fim da primeira unidade e já aprendemos o que é a


Antropologia, como ela surgiu no contexto científico, como pode ser subdividida, seus
métodos e técnicas de pesquisa, mas ainda não respondemos a uma questão
fundamental: Qual a importância da Antropologia?
Pois bem, vamos agora responder a essa última questão.
Vamos estabelecer uma comparação para melhor compreendermos a questão.
Imagine que você ficou doente e os sintomas manifestados começam a incomodar.
Provavelmente se você comentar sobre seus sintomas com parentes e amigos, logo
irão surgir inúmeras receitas e simpatias para curar sua enfermidade, muito embora
quem tenha o respaldo técnico e científico para lhe ajudar da forma mais adequada é
um profissional da área médica.
Com a cultura não é diferente, sempre alguém terá algum palpite sobre questões que
deveriam ser tratadas por especialistas, no caso, pelos antropólogos. É comum os
antropólogos ouvirem dizer, por exemplo, que determinado grupo indígena “não é mais
índio porque já perdeu a cultura e usa calça jeans” ou ouvir expressões como “onde já
se viu índio de bigode”? Bom, para refutar tais afirmações e para tratar o assunto com
mais propriedade é necessário que seja ouvido um especialista no assunto, no caso,
um antropólogo.

Para obter mais fontes sobre os métodos e as técnicas utilizadas pela


antropologia, você pode pesquisar também nas demais ciências sociais,
como na sociologia, que utilizam métodos e técnicas de pesquisa similares,
dessa forma você terá mais fontes disponíveis para direcionar seus estudos,
considerando a antropologia parte das ciências sociais.
É a antropologia quem melhor problematiza as relações sociais nos contextos
culturais, porque pretende, na maioria das vezes, interpretá-las em seus contextos. É
preciso, entretanto, estar atento para a forma como o trabalho antropológico é
realizado. Como já foi discutido aqui, um longo tempo de trabalho de campo, junto ao
grupo que se deseja conhecer, é parte importante do método etnográfico e deve ser
respeitado para que o trabalho seja realizado da melhor forma possível pelo
antropólogo. Mais uma vez utilizando uma analogia com a profissão do médico, não
dar tempo ao antropólogo para que se conheça a fundo o grupo com que trabalha é o
mesmo que esperar que um cirurgião realize um bom trabalho com os olhos
vendados.

O caso da Usina de Belo Monte: A construção da Usina Hidrelétrica de Belo


Monte é uma obra que vem causando polêmica há mais de 20 anos e divide
opinões. De um lado, políticos brasileiros e empreeiteiras, do outro,
moradores ribeirinhos do rio Xingu, diversas etnias indígenas e movimentos
sociais. Por um lado, especialistas afirmam que a usina produzirá menos
energia, proporcionalmente à capacidade de produção quando comparada a
outras hidrelétricas, além de ter um alto custo em contrapartidas, por conta
da grande quantidade de impactos sociais e ambientais na região. Por outro
lado, o governo afirma ser uma obra de extrema importância para o
desenvolvimento do país.

As pesquisas antropológicas no Brasil perpassam por diversos campos, dada a vasta


abrangência que a Antropologia Cultural, e sua pluralidade de perspectivas de
atuação, proporciona. Exemplos de como a Antropologia pode ser diversa são
expressas em diversos estudos publicados sobre identidades, crenças, mitos, rituais,
trabalho, gênero, religiosidade, meio ambiente e muitas outras. Alguns campos
chegam a ser muito específicos e acabam por criar “antropologias específicas”, como
a Urbana, Política, Econômica, Visual, do Negro, Indígena, dentre outras.
Pois bem, e toda essa pesquisa serve para quê? Como os antropólogos trabalham
aqui no Brasil? Vamos responder a essa questão.
Hoje, o trabalho dos antropólogos no Brasil é bastante útil à sociedade. Todas as
obras de grande escala, sejam elas implementadas pelo estado ou realizadas a partir
de investimentos do capital privado, causam impactos positivos e negativos. Os
impactos negativos são de ordem ambiental e/ou social, e é aqui que entra o trabalho
do antropólogo. Poderia citar aqui alguns desses grandes projetos, como a abertura de
estradas, a construção de redes de transmissão de energia elétrica, qualquer grande
monocultura – como é possível observar no caso do plantio de eucalipto na região sul
da Bahia –, a rodovia Transamazônica e a construção da usina hidrelétrica de Belo
Monte são alguns exemplos de projetos de interesse do Estado que acabam por
impactar populações e meio ambiente.

Apesar de haver uma legislação específica assegurando direito dos


indígenas às terras e classificando-as como "inalienáveis e indisponíveis e os
direitos sobre elas imprescritíveis", muitos grupos buscam tirar proveito das
riquezas presentes nos territórios indígenas. Alguns exemplos desses grupos
são os garimpeiros, madeireiros, posseiros. Tais ações normalmente tendem
a gerar conflitos resultando em poluição de rios e nascentes, desmatamentos
e até morte em ambas as partes.

Neste vídeo o antropólogo e professor do Museu Nacional da Universidade


federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eduardo Viveiros de Castro, fala ao
Movimento Gota d'Água sobre as riquezas naturais e culturais do rio Xingú e
sobre o tipo de desenvolvimento que deveríamos buscar para o Brasil.
"Defender o Xingú é defender o Brasil."

Nesse contexto, é comum surgir, dentro do projeto, a necessidade de relocação


populacional. O problema é que normalmente tais grupos se opõem à mudança de
habitat, uma vez que o contexto em que vivem está repleto de significados e histórias
de vida. Em outros casos, como na construção de hidrelétricas, em que uma grande
área precisa ser alagada, as populações que ali residem tem se mostrado contrária
aos empreendimentos, uma vez que tais obras terão impacto direto no modo de vida
daquela comunidade.
Assim, é necessário que sejam realizados, pelo antropólogo, estudos e relatórios de
impacto ambiental, indicando medidas mitigatórias a serem tomadas pelos
responsáveis pelos empreendimentos. Há também a real possibilidade de se instalar
um conflito, ficando a mediação de tais conflitos – dependendo da população afetada –
a cargo do antropólogo.
Além de estudos de impacto social e ambiental das grandes obras, quando há
necessidade de identificar e delimitar territórios indígenas e quilombolas é necessário
a apresentação de um laudo antropológico, sendo isso mais um exemplo de atuação
prática da Antropologia.

Você conhece Darcy Ribeiro?

Este vídeo apresenta este importante antropólogo e político brasileiro, com


forte atuação na área educacional brasileira e junto aos índios.
Encerramento

O que é Antropologia?

Essa é uma pergunta que pode ser respondida de forma simples: a antropologia é
uma ciência que tem como objeto de estudo o ser humano e todas as suas
dimensões. Isso quer dizer que esta ciência se dedica a estudar as diversas
particularidades da vida social, as diferentes culturas e também as formas de construir
uma sociedade.

Para que serve a Antropologia?

Essa ciência se dedica a compreender o homem e seu processo de evolução, ou seja,


sua origem, formação e desenvolvimento, até se tornar aquilo que é hoje. Por isso, o
antropólogo atua também como um historiador, pois ele precisa estudar o passado
para identificar as raízes do ser humano e determinar onde tudo começou e como as
coisas se desenvolveram.

Como opera a Antropologia?

A antropologia é uma ciência que estuda o ser humano de modo amplo, investigando
sua origem e vivência em determinado contexto. Seus objetos de estudo são: cultura,
língua, objetos, parentesco, dentre outros.

Resumo da Unidade

Pois bem, como foi observado, a importância da antropologia no contexto mundial


é bastante abrangente. O antropólogo é uma espécie de tradutor do mundo
cultural. É através da sua ciência que podemos compreender melhor outras visões
de mundo e outros modos de estar no mundo. É com a antropologia que o homem
aprende a relativizar sua realidade e enxergar o “outro” através da lógica cultural
desse “outro”. Na unidade seguinte, iremos aprender um pouco mais sobre as
escolas antropológicas e a trajetória dessa ciência do homem e da cultura.
Antropologia

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Olá, estudante!

Esse é o material didático da disciplina Antropologia. Ele servirá como um guia, onde
você encontrará sínteses dos assuntos discutidos em todas as mídias utilizadas nesta
disciplina.

Através destes conteúdos, você terá uma visão geral sobre os assuntos discutidos,
não obstante as leituras sejam imprescindíveis ao aprendizado. Dessa forma,
acompanhar o Roteiro de Estudos será necessário para um melhor aproveitamento do
conteúdo da disciplina.

A disciplina tratará fundamentalmente de assuntos pertinentes ao saber antropológico


que estarão divididos em quatro unidades para melhor sistematização do conteúdo e
melhores resultados no aprendizado.

Inicialmente você será apresentado à Antropologia através do seu conceito


fundamental, conhecendo seus campos de pesquisa e suas ramificações. Será
também apresentado aos métodos de investigação aplicados pela disciplina nos
diversos contextos de atuação da antropologia.

Durante a disciplina, iremos discutir a trajetória da antropologia enquanto campo


científico, estudando seus desdobramentos através de correntes teóricas que
orientaram grandes pensadores da disciplina, do evolucionismo ao interpretativismo.
Com o avanço dos estudos, iremos adentrar no campo primordial de discussão da
antropologia, o campo da cultura. Nessa parte do curso serão apresentados conceitos
como os de cultura, relativismo cultural e etnocentrismo, necessários para ampliar o
entendimento acerca do objeto primordial da antropologia.

Por fim, a disciplina será guiada por temáticas bastante discutidas pela antropologia,
quando trabalharemos com temas como etnicidade, etnodesenvolvimento, gênero e
religiosidade.

Você poderá perceber que as temáticas discutidas durante as unidades se tangenciam


e se cruzam em alguns momentos.

Não tenha dúvidas, a Antropologia se mostrará como um campo do conhecimento


fascinante e instigante, que deve, portanto, lhe auxiliar em sua futura trajetória pessoal
e profissional.

Objetivos

Ao final desta disciplina, você deverá ser capaz de:

• Compreender o que é Antropologia e seus mecanismos de


ação.

Conteúdo Programático

Esta disciplina está organizada de acordo com as seguintes


unidades:

• Unidade 1 – Conhecendo a Antropologia


• Unidade 2 – Correntes do Pensamento Antropológico
• Unidade 3 – A evolução do conceito de cultura
• Unidade 4 – Temas de Interesse da Antropologia
Autoria

Professor Bruno Luedy Silva

Bacharel em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia, pela Universidade


Federal da Bahia. Mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia. Atua
nas áreas de Antropologia Rural e Etnologia Indígena. Membro do Núcleo de
Etnodesenvolvimento no contexto do Projeto "Desenvolvimento Territorial Sustentável
e Multifuncionalidade da Agricultura Familiar nos Territórios da Cidadania da Bahia".
Atuou como consultor em projetos da Companhia de Desenvolvimento e Ação
Regional, nos Territórios de Identidade Litoral Sul e Extremo Sul da Bahia

Revisão e atualização

Professora Márcia Simões Mattos

Mestre em Educação – Universidade Católica de Petrópolis – UCP. Licenciatura em


Pedagogia (UERJ), História (UNISUAM)- Pós-graduações em Tecnologia Educacional
(UERJ); Processos de Aprendizagem (UFRJ – Pesquisadora com Bolsa do CNPQ);
MBE em Gestão Educacional (FJG – Fundação João Goulart e UCAM – Universidade
Candido Mendes); Tecnologias e Mídias em Educação (UVA – Universidade Veiga de
Almeida). Professora da Graduação da Universidade Veiga de Almeida, disciplinas
presenciais e on line e EAD, exercendo também atividades acadêmicas de Líder de
Área das Licenciaturas e Focal do ENADE. Professora concursada da Prefeitura da
Cidade do Rio de Janeiro, onde por 30 anos exerceu atividades de regência e cargos
como Coordenadora Regional de Educação – CRE entre outros. Foi membro do
Conselho Municipal de Educacional de Educação da Cidade do Rio de Janeiro. Área
de estudo: História da Educação, sociedade, cultura e currículo.
Conhecendo a Antropologia

Você sabe o que é Antropologia?

A Antropologia é ciência do homem e, por extensão – como veremos ao longo do


curso –, da cultura. Bom, um questionamento inicial que pode ser feito, e que nos
ajuda a entender o que é Antropologia é o seguinte: O que diferencia o homem dos
demais animais? Essa não é uma questão tão simples de responder.

Pensemos então, quem é o homem? O homem, para antropologia, não surgiu de


acordo com qualquer teoria criacionista, ou seja, para a antropologia o homem não foi
criado por nenhum deus, ele é animal primata, bípede, pertencente ao gênero
biológico homo. Sapiens é um termo em latim que significa “sábio”, daí a denominação
Homo Sapeins para designar o grupo em que nós – humanos – fomos classificados
pela ciência.

Objetivo
Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de:

• Compreender o papel da Antropologia no mundo


contemporâneo;
• Identificar métodos e técnicas de investigação na área.

Conteúdo Programático
Esta unidade está organizada de acordo com os seguintes temas:

• Tema 1 - Conhecendo a Antropologia


• Tema 2 - Antropologia Física e Cultural
• Tema 3 - Objeto, métodos e técnicas
Agora reflita...

Será, realmente, que esse Homem – entendido aqui como o homem e mulher – é tão
sábio assim? Pensemos sobre isso: ao mesmo tempo em que o homem é capaz de
construir aviões e produzir computadores ultra-modernos, ele cria bombas atômicas e
destrói a natureza. Será que estamos, de fato, evoluindo?
Tema 1
Conhecendo a Antropologia

O que é Antropologia?
É comum ouvirmos dizer que nós, seres humanos, nos adaptamos a qualquer
situação, por mais adversa que possa parecer, não é mesmo?! Pois bem, se agora eu
afirmasse que o homem não se adapta ao meio, o que poderíamos pensar sobre isso?
De fato, quem se adapta ao meio em que vive são os outros animais, os não
humanos. O homem, para viver, transforma o meio em que vive e ao fazer isso,
produz cultura, ou seja, o homem é único animal capaz de produzir cultura. Essa
capacidade intrínseca aos seres humanos faz com que, em última análise, os homens,
como seres culturais, se diferenciem dos demais animais.

Saiba Mais

“O homem nunca parou de se interrogar sobre si mesmo. Em todas as


sociedades existiram homens que observavam homens. [...] A reflexão do
homem sobre o homem em sua sociedade, e a elaboração de um saber
são, portanto, tão antigos quanto a humanidade, e se deram tanto na Ásia
como na África, na América, na Oceania ou na Europa” (Laplantine, F.
2001).

A história do homem sobre o planeta Terra é repleta de cultura e se estende desde as


chamadas culturas pré-históricas até os dias atuais, com registros dos mais diversos
tipos nas mais diversas sociedades. É papel da Antropologia investigar a história do
homem nesses contextos culturais.
Vídeo

Para saber mais sobre o que é Antropologia, assista agora ao


vídeo: Conhecendo a Antropologia.

Clique na imagem para visualizar o vídeo.

A consolidação da Antropologia enquanto disciplina científica

Duas perguntas podem nos ajudar na busca deste entendimento. São elas:

• Como entender os estudos do ser humano e de toda sua produção cultural


dentro de um contexto científico, uma vez que as culturas se apresentam de
forma bastante distintas em diferentes sociedades?
• Seria possível atingir uma objetividade necessária para a ciência num campo
tão subjetivo como aqueles quem envolvem o meio cultural?

Podemos considerar a Antropologia uma ciência jovem, pois é somente no século XIX
que ela adquire o status de disciplina científica. Entre as ciências humanas, foi a que
mais demorou a ser considerada um campo científico. Embora possa ser considerada
uma ciência nova, quando pensada em relação aos demais campos cietíficos já
estabelecidos, a antropologia apresenta uma longa trajetória que podemos começar a
contar a partir dos relatos de cronistas e viajantes, ainda no século XVI.

São estes cronistas e viajantes que irão descrever pela primeira vez o contato com o
“outro”. Além de descreverem fauna e flora de terras distantes da Europa, até então
centro do mundo, esses viajantes fizeram também relatos sobre os povos nativos das
terras em que aportavam. Podemos citar, como exemplo, os relatos presentes na
Carta de Pero Vaz de Caminha e as narrativas realizadas por Hans Staden (1525 –
1579) em suas viagens ao Brasil. Ali se ensaiavam os primeiros passos para se
pensar o homem a partir de uma perspectiva cultural diferenciada, muito embora
naquela época, para os europeus, os nativos fossem considerados seres sem alma,
chegando a serem tratados como outra espécie.
Houve ainda, subsequente aos períodos de descobertas, um período em que as
contribuições de religiosos Jesuítas e Capuchinhos, através de relatos contínuos,
apresentaram um panorama no qual podia se perceber diversos aspectos da vida dos
povos indígenas no Brasil. Não eram relatos antropológicos, evidentemente.
Entretanto, o material produzido auxiliou a antropologia a galgar seus passos iniciais.

É com o pensamento evolucionista, ancorado das idéias de Charles Darwin (1809-


1882), que a antropologia encontra terreno fértil para sua consolidação. Nesse
instante, muitos cientistas começam a manifestar certo grau de descrença nas
explicações bíblicas sobre a criação do homem, pesquisadores de diversas partes do
mundo começam a levantar questionamentos sobre a história do homem na terra.
Como conseqüência, passava-se a acreditar que o homem teria sido fruto de uma
evolução e, portanto, muitos cientistas voltaram-se para a busca de um “elo perdido”,
ou seja, um ser antropóide que em um passado remoto pudesse ter ligação com o
homem moderno.

Foi através de contribuições advindas das ciências físicas e exatas que os primeiros
estudiosos do homem formularam teorias que distanciavam o surgimento do homem
de algo sobrenatural e passavam a seguir as trilhas sugeridas pela natureza, até
então, pautadas nas idéias evolucionistas.

A busca incansável pelo “elo perdido” vai cedendo espaço a outros estudos – por parte
dos antropologistas – que buscavam entender os comportamentos de sociedades
pensadas como “primitivas” e “atrasadas”. Sempre observados e analisados sob a
ótica burguesa ocidental, tais povos, até poucas décadas atrás, eram considerados
bárbaros em estágios de evolução. A partir de tal perspectiva deu-se então início aos
estudos sobre organização social de tribos e clãs, do seu sistema de parentesco,
rituais, mitologias, entre outras coisas.

Não somente a antropologia tem uma preocupação com o estudo da espécie humana,
outros campos, como os da história, psicologia, sociologia, entre outros, também
debruçaram esforços para compreender a ação humana em contextos coletivos. O
que vai contribuir para diferenciação entre a antropologia e os demais campos do
conhecimento científico são as questões de ordem física, anatômicas e estruturais do
homem, campos de estudo da Antropologia Física. Não demorou até que novas
vertentes do pensamento antropológico surgissem, como no caso da Antropologia
Cultural, consolidando assim, de uma vez por todas, a antropologia enquanto campo
científico. A partir daí, os diversos contextos culturais seriam objetos de preocupação
antropológica, e os antropólogos, principais responsáveis por tentar explicar e
compreender contextos culturais distintos daqueles estabelecidos.

Desse modo, para alcançar a objetividade necessária ao saber científico, a


antropologia se utilizou de técnicas e métodos específicos – os quais serão discutidos
mais à frente – que lhe permitiram extrair conclusões até o momento aceitas pela
comunidade científica.

Uma vez colocada tal questão é hora de descobrirmos o que diferencia, de fato, a
Antropologia Física da Cultural.
Tema 2
Antropologia Física e Cultural

Para que serve a Antropologia?


Antropologia Física e Cultural são as duas formas clássicas de divisões da
antropologia, muito embora algumas bibliografias esbocem algumas outras
subdivisões da disciplina, a divisão clássica entre física e cultural representa bem
todas as possibilidades teóricas e práticas da antropologia enquanto ciência do
homem.

Vamos entender cada uma delas, por partes, iniciando pelo Antropologia
Física, ok?

Ora, a própria definição já nos dá uma pista acerca do que trata essa parte da
disciplina, não é mesmo? A antropologia física, também conhecida como antropologia
biológica, trata das “variações dos caracteres biológicos do homem no tempo e no
espaço”, tal como exposto por François Laplantine.

Mas o que será que o autor supracitado quis dizer com tal afirmação?

Certamente o entendimento que os antropólogos


modernos têm sobre a Antropologia Física difere
bastante das concepções do passado.
Anteriormente essa parte da Antropologia se
pautava na craniometria, técnica que tinha como
proposta o estudo e medição do crânio humano
para, a partir de então, traçar o perfil dos
indivíduos. Durante um período da história da
antropologia, técnicas como essa foram usadas
para legitimar posicionamentos racistas. Dessa
maneira, muitos mestiços e negros foram julgados
e esteriotipados no Brasil do século XIX.
Pelo formato do seu crânio e dimensões do esqueleto era possível indicar quais tipos
de crime aqueles sujeitos poderiam cometer. Parece insano pensarmos isso, mas
parte da história do Brasil durante o século XIX foi marcada por esse tipo de conduta,
acredite, científica.

Voltando à questão posta anteriormente, e tentando respondê-la, o que Laplantine


quis dizer quando afirmou que a Antropologia Física estudava as variações dos
caracteres biológicos, podemos inferir que a problemática posta pela Antropologia
Física pretente tratar das relações entre o patrimônio genético e o meio cultural (e
também geográfico). Em outras palavras, ela estuda as relações entre o inato e o
adquirido, que estão em constante interação.
Vale lembrar que a Antropologia Física também está subdividida em tantas outras
partes da antropologia e, mesmo com suas especificidades, todas partem da relação
entre o patrimônio genético do indivíduo associados ao patrimônio cultural.

Bem, e o que caracterizaria, então, a Antropologia Cultural?

A Antropologia Cultural pode também ser chamada de Antropologia Social. É o ramo


da antropologia que parece abarcar, em essência, todas as demais subdivisões da
disciplina. A forma como foi denominada – Antropologia Cultural – já nos dá um pista
do que ela busca investigar. Ela diz respeito aos diversos aspectos culturais que
constituem o ordenamento e funcionamento de uma sociedade, ou seja, ela analisa os
“modos de produção econômica, suas técnicas, sua organização política e jurídica,
seus sistemas de parentesco, seus sistemas de conhecimento, suas crenças
religiosas, sua língua, sua psicologia, suas criações artísticas”, tal como tentou definir
Laplantine.
Outros autores podem apresentar formas distintas para definir o que seja Antropologia
Cultural, entretanto, em todas as definições encontradas em outras bibliografias irão
perpassar pelas questões supracitadas.
De modo geral, podemos aprender que a Antropologia Cultural acaba por desfazer a
dualidade presente entre as noções anteriormente definidas de “cultura” e “natureza”.
Ela coloca por água abaixo a noção de pureza presente em uma suposta “natureza
humana”, re-significando o universo humano enquanto um universo cultural, no qual
nós – seres humanos – somos capazes de representar, nos comunicar através da
linguagem, criar símbolos, códigos e comportamentos distintos que estão relacionados
com os grupos com os quais (con)vivemos e o lugar habitado por nós.
A partir dos estudos realizados por esse ramo da Antropologia, novas técnicas e
métodos de investigação passaram a vigorar. Com isso, todo o arsenal carregado de
preconceitos herdados de técnicas e métodos obsoletos, como no caso da
craniometria, que legitimavam teorias racialistas, foi sendo diluído. O novo caminho
que essa Antropologia buscava perpassava por uma neutralidade investigativa e o
antropólogo passava, então, a imergir nas diferentes realidades culturais, para dessa
forma, buscar maior aproximação com a realidade investigada entre os grupos ou
povos estudados. Isso o levou a realizar trabalhos de campo, nos quais destacou a
observação participante como um de seus principais métodos. No item a seguir,
discutiremos um pouco mais sobre essa temática dos métodos e técnicas.
Tema 3
Objeto, métodos e técnicas

Como opera a Antropologia?


De modo geral, é possível afirmar que o objeto da Antropologia, por excelência, é o
homem e sua relação com o meio cultural. Alguns antropólogos, entretanto, não
gostam de se referir a outros seres humanos como sendo “objetos” e preferem chamá-
los de “sujeitos” da pesquisa. Tal deslocamento entre as categorias sujeito/objeto
retrata uma visão tida hoje como politicamente correta entre alguns antropólogos. Mas,
de fato, tal modo de classificação não desloca a importância central dos estudos
empreendidos pela disciplina.
Bom, definido brevemente o objeto da antropologia, vamos tentar entender como esse
objeto se relaciona com os métodos e técnicas de pesquisa.
Vamos tratar, inicialmente, dos métodos.
Podemos inferir primordialmente que nas ciências sociais, em especial na
antropologia, os métodos de pesquisa podem ser divididos de duas maneiras:
métodos quantitativos e qualitativos.
O uso do método quantitativo foi bastante comum nos estudos antropológicos até a
década de 1960 aproximadamente, tendo na antropologia norte-americana seu
principal expoente. Já o método qualitativo é o mais usual entre os antropólogos de
hoje, o que não significa, contudo, que não se possa realizar uma pesquisa em
antropologia utilizando o método quantitativo, ou mesmo combinando ambos.
Para tornar essa breve explicação mais detalhada, vamos caracterizar os métodos
quantitativos e qualitativos a partir das diferenças apresentadas entre eles, ok?!
Então, vamos lá. No método quantitativo, os pesquisadores trabalham com dados
ordinais (números) através da aplicação de "entrevistas fechadas" onde a partir daí
são geradas estatísticas sobre o objeto pesquisado. É importante ressaltar que nesse
tipo de investigação não é necessário a participação direta do pesquisador durante a
coleta de dados, que pode ser realizada por um entrevistador externo, desde que
tenha sido treinado pelo pesquisador responsável pela investigação.
Já no método qualitativo, as interações entre o pesquisador e o pesquisado – ou,
como a ciência costuma se referir, na relação sujeito/objeto – apresentam uma
tipologia distinta. Há necessidade de o pesquisador estabelecer uma relação direta
com os sujeitos da pesquisa. Como não há preocupação em se gerar estatísticas,
como no método quantitativo, durante a pesquisa qualitativa o pesquisador irá –
durante processos de interação com os sujeitos – absorver e interpretar dados
subjetivos, baseados na observação, participante ou não, e nas entrevistas semi-
estruturadas ou abertas.
Método Qualitativo Métodos Quantitativo

• Relação direta entre pesquisador e


sujeito da pesquisa; • Não exige participação direta do
pesquisador
• Envolve interpretação de dados
subjetivos; • Tratabalha com dados ordinais
(números)
• Requer observação;
• Gera estatísticas
• Utiliza entrevistas semi-estruturadas ou
abertas. • Utiliza entrevistas fechadas

Assim, fica claro que, durante a realização das pesquisas baseadas em métodos
qualitativos, há maior envolvimento entre pesquisador e pesquisado, pois a produção
do dado não seguirá uma lógica numérica. Atualmente, apesar de maior parte das
pesquisas realizadas por antropólogos seguirem metodologias qualitativas, o uso de
uma metodologia quantitativa ainda pode ser observado em muitas pesquisas,
principalmente após maior difusão de um software desenvovido no final da década de
1960 chamado SPSS, que aplica o uso da estatística às ciências sociais.

Este artigo do Portal Educação, distingue os dois métodos de pesquisa


tratados aqui, apresentando suas principais características

Agora que já foram apresentados os métodos quantitativo e qualitativo, refinaremos


um pouco mais o estudo e entraremos, mais especificamente, no que pode ser
considerado o método primordial da antropologia: a etnografia.

Você já ouviu este termo antes?

Etnografia é um palavra de origem grega que une dois termos; ‘etno’ palavra que se
refere a um povo/etnia ou nação e ‘grafia’, que significa ‘escrita’. Daí a designação do
termo para se referir ao estudo, normalmente realizado por antropólogos, dos diversos
aspectos culturais de um povo.
Para se fazer etnografia o pesquisador deve,
através do trabalho de campo, imergir no mundo
do “outro”, conviver com eles por um período de
tempo relativamente longo para somente assim
buscar possíveis compreensões acerca do seu
modo de vida. A etnografia está ancorada na
metodologia qualitativa, pois as respostas
buscadas pelos antropólogos não podem ser
respondidas com aplicação do método quantitativo somente, pois perpassam por
aspectos cognitivos dos sujeitos envolvidos na pesquisa.

Assim, o trabalho do antropólogo em campo pode ser resumido da seguinte


maneira:

Mas você pode estar se perguntando nesse momento; ‘como será que isso
acontece’?

Pois bem, não se trata de um simples olhar, ouvir e escrever. Para se chegar aos
resultados esperados usando o método etnográfico é preciso que sejam empregadas
algumas técnicas de pesquisa. E quais são essas técincas?
As técnicas utilizadas são diversas. Podemos citar como mais usuais em contextos de
trabalho de campo a ‘observação participante’ e as ‘entrevistas semi-estruturadas’ ou
‘abertas’. A observação participante só é possível de ser realizada com o convívio
continuado entre pesquisador e pesquisados. Durante esse processo, outros
intrumentos como o ‘caderno de campo’ e ‘registros fotográficos’ auxiliam o trabalho
do antropólogo.
As entrevistas realizadas seguem roteiros semi-estruturados ou abertos, pois através
de tal técnica é possivel obter respostas nas quais as subjetividades presentes nos
discursos dos pesquisados fiquem mais evidentes. Para fins de análise, sempre que
possível – com a devida autorização – os áudios das entrevistas são captados.
Genealogias dos grupos estudados também são comuns nos trabalhos etnográficos,
pois as relações de parentesco fazem parte do interesse dos estudos antropológicos.
A finalidade do estudo etnográfico consiste em ajudar o antropólogo a compreender
um povo a partir da lógica da cultura do nativo. A etapa final desse trabalho é a escrita,
quando o antropólogo/etnógrafo irá analisar os dados coletados e analisá-los a partir
da visão de mundo dos nativos. Nesse sentido, o registro etnográfico se afasta de
registros do folclore, pois não apenas tenta retratar a cultura ou prática cultural
observada, mas tenta explicá-la. Assim, podemos afirmar que o antropólogo é uma
espécie de tradutor do mundo do “outro”.
A importância da antropologia

Estamos chegando ao fim da primeira unidade e já aprendemos o que é a


Antropologia, como ela surgiu no contexto científico, como pode ser subdividida, seus
métodos e técnicas de pesquisa, mas ainda não respondemos a uma questão
fundamental: Qual a importância da Antropologia?
Pois bem, vamos agora responder a essa última questão.
Vamos estabelecer uma comparação para melhor compreendermos a questão.
Imagine que você ficou doente e os sintomas manifestados começam a incomodar.
Provavelmente se você comentar sobre seus sintomas com parentes e amigos, logo
irão surgir inúmeras receitas e simpatias para curar sua enfermidade, muito embora
quem tenha o respaldo técnico e científico para lhe ajudar da forma mais adequada é
um profissional da área médica.
Com a cultura não é diferente, sempre alguém terá algum palpite sobre questões que
deveriam ser tratadas por especialistas, no caso, pelos antropólogos. É comum os
antropólogos ouvirem dizer, por exemplo, que determinado grupo indígena “não é mais
índio porque já perdeu a cultura e usa calça jeans” ou ouvir expressões como “onde já
se viu índio de bigode”? Bom, para refutar tais afirmações e para tratar o assunto com
mais propriedade é necessário que seja ouvido um especialista no assunto, no caso,
um antropólogo.

Para obter mais fontes sobre os métodos e as técnicas utilizadas pela


antropologia, você pode pesquisar também nas demais ciências sociais,
como na sociologia, que utilizam métodos e técnicas de pesquisa similares,
dessa forma você terá mais fontes disponíveis para direcionar seus estudos,
considerando a antropologia parte das ciências sociais.
É a antropologia quem melhor problematiza as relações sociais nos contextos
culturais, porque pretende, na maioria das vezes, interpretá-las em seus contextos. É
preciso, entretanto, estar atento para a forma como o trabalho antropológico é
realizado. Como já foi discutido aqui, um longo tempo de trabalho de campo, junto ao
grupo que se deseja conhecer, é parte importante do método etnográfico e deve ser
respeitado para que o trabalho seja realizado da melhor forma possível pelo
antropólogo. Mais uma vez utilizando uma analogia com a profissão do médico, não
dar tempo ao antropólogo para que se conheça a fundo o grupo com que trabalha é o
mesmo que esperar que um cirurgião realize um bom trabalho com os olhos
vendados.

O caso da Usina de Belo Monte: A construção da Usina Hidrelétrica de Belo


Monte é uma obra que vem causando polêmica há mais de 20 anos e divide
opinões. De um lado, políticos brasileiros e empreeiteiras, do outro,
moradores ribeirinhos do rio Xingu, diversas etnias indígenas e movimentos
sociais. Por um lado, especialistas afirmam que a usina produzirá menos
energia, proporcionalmente à capacidade de produção quando comparada a
outras hidrelétricas, além de ter um alto custo em contrapartidas, por conta
da grande quantidade de impactos sociais e ambientais na região. Por outro
lado, o governo afirma ser uma obra de extrema importância para o
desenvolvimento do país.

As pesquisas antropológicas no Brasil perpassam por diversos campos, dada a vasta


abrangência que a Antropologia Cultural, e sua pluralidade de perspectivas de
atuação, proporciona. Exemplos de como a Antropologia pode ser diversa são
expressas em diversos estudos publicados sobre identidades, crenças, mitos, rituais,
trabalho, gênero, religiosidade, meio ambiente e muitas outras. Alguns campos
chegam a ser muito específicos e acabam por criar “antropologias específicas”, como
a Urbana, Política, Econômica, Visual, do Negro, Indígena, dentre outras.
Pois bem, e toda essa pesquisa serve para quê? Como os antropólogos trabalham
aqui no Brasil? Vamos responder a essa questão.
Hoje, o trabalho dos antropólogos no Brasil é bastante útil à sociedade. Todas as
obras de grande escala, sejam elas implementadas pelo estado ou realizadas a partir
de investimentos do capital privado, causam impactos positivos e negativos. Os
impactos negativos são de ordem ambiental e/ou social, e é aqui que entra o trabalho
do antropólogo. Poderia citar aqui alguns desses grandes projetos, como a abertura de
estradas, a construção de redes de transmissão de energia elétrica, qualquer grande
monocultura – como é possível observar no caso do plantio de eucalipto na região sul
da Bahia –, a rodovia Transamazônica e a construção da usina hidrelétrica de Belo
Monte são alguns exemplos de projetos de interesse do Estado que acabam por
impactar populações e meio ambiente.

Apesar de haver uma legislação específica assegurando direito dos


indígenas às terras e classificando-as como "inalienáveis e indisponíveis e os
direitos sobre elas imprescritíveis", muitos grupos buscam tirar proveito das
riquezas presentes nos territórios indígenas. Alguns exemplos desses grupos
são os garimpeiros, madeireiros, posseiros. Tais ações normalmente tendem
a gerar conflitos resultando em poluição de rios e nascentes, desmatamentos
e até morte em ambas as partes.

Neste vídeo o antropólogo e professor do Museu Nacional da Universidade


federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eduardo Viveiros de Castro, fala ao
Movimento Gota d'Água sobre as riquezas naturais e culturais do rio Xingú e
sobre o tipo de desenvolvimento que deveríamos buscar para o Brasil.
"Defender o Xingú é defender o Brasil."

Nesse contexto, é comum surgir, dentro do projeto, a necessidade de relocação


populacional. O problema é que normalmente tais grupos se opõem à mudança de
habitat, uma vez que o contexto em que vivem está repleto de significados e histórias
de vida. Em outros casos, como na construção de hidrelétricas, em que uma grande
área precisa ser alagada, as populações que ali residem tem se mostrado contrária
aos empreendimentos, uma vez que tais obras terão impacto direto no modo de vida
daquela comunidade.
Assim, é necessário que sejam realizados, pelo antropólogo, estudos e relatórios de
impacto ambiental, indicando medidas mitigatórias a serem tomadas pelos
responsáveis pelos empreendimentos. Há também a real possibilidade de se instalar
um conflito, ficando a mediação de tais conflitos – dependendo da população afetada –
a cargo do antropólogo.
Além de estudos de impacto social e ambiental das grandes obras, quando há
necessidade de identificar e delimitar territórios indígenas e quilombolas é necessário
a apresentação de um laudo antropológico, sendo isso mais um exemplo de atuação
prática da Antropologia.

Você conhece Darcy Ribeiro?

Este vídeo apresenta este importante antropólogo e político brasileiro, com


forte atuação na área educacional brasileira e junto aos índios.
Encerramento

O que é Antropologia?

Essa é uma pergunta que pode ser respondida de forma simples: a antropologia é
uma ciência que tem como objeto de estudo o ser humano e todas as suas
dimensões. Isso quer dizer que esta ciência se dedica a estudar as diversas
particularidades da vida social, as diferentes culturas e também as formas de construir
uma sociedade.

Para que serve a Antropologia?

Essa ciência se dedica a compreender o homem e seu processo de evolução, ou seja,


sua origem, formação e desenvolvimento, até se tornar aquilo que é hoje. Por isso, o
antropólogo atua também como um historiador, pois ele precisa estudar o passado
para identificar as raízes do ser humano e determinar onde tudo começou e como as
coisas se desenvolveram.

Como opera a Antropologia?

A antropologia é uma ciência que estuda o ser humano de modo amplo, investigando
sua origem e vivência em determinado contexto. Seus objetos de estudo são: cultura,
língua, objetos, parentesco, dentre outros.

Resumo da Unidade

Pois bem, como foi observado, a importância da antropologia no contexto mundial


é bastante abrangente. O antropólogo é uma espécie de tradutor do mundo
cultural. É através da sua ciência que podemos compreender melhor outras visões
de mundo e outros modos de estar no mundo. É com a antropologia que o homem
aprende a relativizar sua realidade e enxergar o “outro” através da lógica cultural
desse “outro”. Na unidade seguinte, iremos aprender um pouco mais sobre as
escolas antropológicas e a trajetória dessa ciência do homem e da cultura.
Antropologia

Clique na imagem para visualizar o vídeo.

Olá, estudante!

Esse é o material didático da disciplina Antropologia. Ele servirá como um guia, onde
você encontrará sínteses dos assuntos discutidos em todas as mídias utilizadas nesta
disciplina.

Através destes conteúdos, você terá uma visão geral sobre os assuntos discutidos,
não obstante as leituras sejam imprescindíveis ao aprendizado. Dessa forma,
acompanhar o Roteiro de Estudos será necessário para um melhor aproveitamento do
conteúdo da disciplina.

A disciplina tratará fundamentalmente de assuntos pertinentes ao saber antropológico


que estarão divididos em quatro unidades para melhor sistematização do conteúdo e
melhores resultados no aprendizado.

Inicialmente você será apresentado à Antropologia através do seu conceito


fundamental, conhecendo seus campos de pesquisa e suas ramificações. Será
também apresentado aos métodos de investigação aplicados pela disciplina nos
diversos contextos de atuação da antropologia.

Durante a disciplina, iremos discutir a trajetória da antropologia enquanto campo


científico, estudando seus desdobramentos através de correntes teóricas que
orientaram grandes pensadores da disciplina, do evolucionismo ao interpretativismo.
Com o avanço dos estudos, iremos adentrar no campo primordial de discussão da
antropologia, o campo da cultura. Nessa parte do curso serão apresentados conceitos
como os de cultura, relativismo cultural e etnocentrismo, necessários para ampliar o
entendimento acerca do objeto primordial da antropologia.

Por fim, a disciplina será guiada por temáticas bastante discutidas pela antropologia,
quando trabalharemos com temas como etnicidade, etnodesenvolvimento, gênero e
religiosidade.

Você poderá perceber que as temáticas discutidas durante as unidades se tangenciam


e se cruzam em alguns momentos.

Não tenha dúvidas, a Antropologia se mostrará como um campo do conhecimento


fascinante e instigante, que deve, portanto, lhe auxiliar em sua futura trajetória pessoal
e profissional.

Objetivos

Ao final desta disciplina, você deverá ser capaz de:

• Compreender o que é Antropologia e seus mecanismos de


ação.

Conteúdo Programático

Esta disciplina está organizada de acordo com as seguintes


unidades:

• Unidade 1 – Conhecendo a Antropologia


• Unidade 2 – Correntes do Pensamento Antropológico
• Unidade 3 – A evolução do conceito de cultura
• Unidade 4 – Temas de Interesse da Antropologia
Autoria

Professor Bruno Luedy Silva

Bacharel em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia, pela Universidade


Federal da Bahia. Mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia. Atua
nas áreas de Antropologia Rural e Etnologia Indígena. Membro do Núcleo de
Etnodesenvolvimento no contexto do Projeto "Desenvolvimento Territorial Sustentável
e Multifuncionalidade da Agricultura Familiar nos Territórios da Cidadania da Bahia".
Atuou como consultor em projetos da Companhia de Desenvolvimento e Ação
Regional, nos Territórios de Identidade Litoral Sul e Extremo Sul da Bahia

Revisão e atualização

Professora Márcia Simões Mattos

Mestre em Educação – Universidade Católica de Petrópolis – UCP. Licenciatura em


Pedagogia (UERJ), História (UNISUAM)- Pós-graduações em Tecnologia Educacional
(UERJ); Processos de Aprendizagem (UFRJ – Pesquisadora com Bolsa do CNPQ);
MBE em Gestão Educacional (FJG – Fundação João Goulart e UCAM – Universidade
Candido Mendes); Tecnologias e Mídias em Educação (UVA – Universidade Veiga de
Almeida). Professora da Graduação da Universidade Veiga de Almeida, disciplinas
presenciais e on line e EAD, exercendo também atividades acadêmicas de Líder de
Área das Licenciaturas e Focal do ENADE. Professora concursada da Prefeitura da
Cidade do Rio de Janeiro, onde por 30 anos exerceu atividades de regência e cargos
como Coordenadora Regional de Educação – CRE entre outros. Foi membro do
Conselho Municipal de Educacional de Educação da Cidade do Rio de Janeiro. Área
de estudo: História da Educação, sociedade, cultura e currículo.
Conhecendo a Antropologia

Você sabe o que é Antropologia?

A Antropologia é ciência do homem e, por extensão – como veremos ao longo do


curso –, da cultura. Bom, um questionamento inicial que pode ser feito, e que nos
ajuda a entender o que é Antropologia é o seguinte: O que diferencia o homem dos
demais animais? Essa não é uma questão tão simples de responder.

Pensemos então, quem é o homem? O homem, para antropologia, não surgiu de


acordo com qualquer teoria criacionista, ou seja, para a antropologia o homem não foi
criado por nenhum deus, ele é animal primata, bípede, pertencente ao gênero
biológico homo. Sapiens é um termo em latim que significa “sábio”, daí a denominação
Homo Sapeins para designar o grupo em que nós – humanos – fomos classificados
pela ciência.

Objetivo
Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de:

• Compreender o papel da Antropologia no mundo


contemporâneo;
• Identificar métodos e técnicas de investigação na área.

Conteúdo Programático
Esta unidade está organizada de acordo com os seguintes temas:

• Tema 1 - Conhecendo a Antropologia


• Tema 2 - Antropologia Física e Cultural
• Tema 3 - Objeto, métodos e técnicas
Agora reflita...

Será, realmente, que esse Homem – entendido aqui como o homem e mulher – é tão
sábio assim? Pensemos sobre isso: ao mesmo tempo em que o homem é capaz de
construir aviões e produzir computadores ultra-modernos, ele cria bombas atômicas e
destrói a natureza. Será que estamos, de fato, evoluindo?
Tema 1
Conhecendo a Antropologia

O que é Antropologia?
É comum ouvirmos dizer que nós, seres humanos, nos adaptamos a qualquer
situação, por mais adversa que possa parecer, não é mesmo?! Pois bem, se agora eu
afirmasse que o homem não se adapta ao meio, o que poderíamos pensar sobre isso?
De fato, quem se adapta ao meio em que vive são os outros animais, os não
humanos. O homem, para viver, transforma o meio em que vive e ao fazer isso,
produz cultura, ou seja, o homem é único animal capaz de produzir cultura. Essa
capacidade intrínseca aos seres humanos faz com que, em última análise, os homens,
como seres culturais, se diferenciem dos demais animais.

Saiba Mais

“O homem nunca parou de se interrogar sobre si mesmo. Em todas as


sociedades existiram homens que observavam homens. [...] A reflexão do
homem sobre o homem em sua sociedade, e a elaboração de um saber
são, portanto, tão antigos quanto a humanidade, e se deram tanto na Ásia
como na África, na América, na Oceania ou na Europa” (Laplantine, F.
2001).

A história do homem sobre o planeta Terra é repleta de cultura e se estende desde as


chamadas culturas pré-históricas até os dias atuais, com registros dos mais diversos
tipos nas mais diversas sociedades. É papel da Antropologia investigar a história do
homem nesses contextos culturais.
Vídeo

Para saber mais sobre o que é Antropologia, assista agora ao


vídeo: Conhecendo a Antropologia.

Clique na imagem para visualizar o vídeo.

A consolidação da Antropologia enquanto disciplina científica

Duas perguntas podem nos ajudar na busca deste entendimento. São elas:

• Como entender os estudos do ser humano e de toda sua produção cultural


dentro de um contexto científico, uma vez que as culturas se apresentam de
forma bastante distintas em diferentes sociedades?
• Seria possível atingir uma objetividade necessária para a ciência num campo
tão subjetivo como aqueles quem envolvem o meio cultural?

Podemos considerar a Antropologia uma ciência jovem, pois é somente no século XIX
que ela adquire o status de disciplina científica. Entre as ciências humanas, foi a que
mais demorou a ser considerada um campo científico. Embora possa ser considerada
uma ciência nova, quando pensada em relação aos demais campos cietíficos já
estabelecidos, a antropologia apresenta uma longa trajetória que podemos começar a
contar a partir dos relatos de cronistas e viajantes, ainda no século XVI.

São estes cronistas e viajantes que irão descrever pela primeira vez o contato com o
“outro”. Além de descreverem fauna e flora de terras distantes da Europa, até então
centro do mundo, esses viajantes fizeram também relatos sobre os povos nativos das
terras em que aportavam. Podemos citar, como exemplo, os relatos presentes na
Carta de Pero Vaz de Caminha e as narrativas realizadas por Hans Staden (1525 –
1579) em suas viagens ao Brasil. Ali se ensaiavam os primeiros passos para se
pensar o homem a partir de uma perspectiva cultural diferenciada, muito embora
naquela época, para os europeus, os nativos fossem considerados seres sem alma,
chegando a serem tratados como outra espécie.
Houve ainda, subsequente aos períodos de descobertas, um período em que as
contribuições de religiosos Jesuítas e Capuchinhos, através de relatos contínuos,
apresentaram um panorama no qual podia se perceber diversos aspectos da vida dos
povos indígenas no Brasil. Não eram relatos antropológicos, evidentemente.
Entretanto, o material produzido auxiliou a antropologia a galgar seus passos iniciais.

É com o pensamento evolucionista, ancorado das idéias de Charles Darwin (1809-


1882), que a antropologia encontra terreno fértil para sua consolidação. Nesse
instante, muitos cientistas começam a manifestar certo grau de descrença nas
explicações bíblicas sobre a criação do homem, pesquisadores de diversas partes do
mundo começam a levantar questionamentos sobre a história do homem na terra.
Como conseqüência, passava-se a acreditar que o homem teria sido fruto de uma
evolução e, portanto, muitos cientistas voltaram-se para a busca de um “elo perdido”,
ou seja, um ser antropóide que em um passado remoto pudesse ter ligação com o
homem moderno.

Foi através de contribuições advindas das ciências físicas e exatas que os primeiros
estudiosos do homem formularam teorias que distanciavam o surgimento do homem
de algo sobrenatural e passavam a seguir as trilhas sugeridas pela natureza, até
então, pautadas nas idéias evolucionistas.

A busca incansável pelo “elo perdido” vai cedendo espaço a outros estudos – por parte
dos antropologistas – que buscavam entender os comportamentos de sociedades
pensadas como “primitivas” e “atrasadas”. Sempre observados e analisados sob a
ótica burguesa ocidental, tais povos, até poucas décadas atrás, eram considerados
bárbaros em estágios de evolução. A partir de tal perspectiva deu-se então início aos
estudos sobre organização social de tribos e clãs, do seu sistema de parentesco,
rituais, mitologias, entre outras coisas.

Não somente a antropologia tem uma preocupação com o estudo da espécie humana,
outros campos, como os da história, psicologia, sociologia, entre outros, também
debruçaram esforços para compreender a ação humana em contextos coletivos. O
que vai contribuir para diferenciação entre a antropologia e os demais campos do
conhecimento científico são as questões de ordem física, anatômicas e estruturais do
homem, campos de estudo da Antropologia Física. Não demorou até que novas
vertentes do pensamento antropológico surgissem, como no caso da Antropologia
Cultural, consolidando assim, de uma vez por todas, a antropologia enquanto campo
científico. A partir daí, os diversos contextos culturais seriam objetos de preocupação
antropológica, e os antropólogos, principais responsáveis por tentar explicar e
compreender contextos culturais distintos daqueles estabelecidos.

Desse modo, para alcançar a objetividade necessária ao saber científico, a


antropologia se utilizou de técnicas e métodos específicos – os quais serão discutidos
mais à frente – que lhe permitiram extrair conclusões até o momento aceitas pela
comunidade científica.

Uma vez colocada tal questão é hora de descobrirmos o que diferencia, de fato, a
Antropologia Física da Cultural.
Tema 2
Antropologia Física e Cultural

Para que serve a Antropologia?


Antropologia Física e Cultural são as duas formas clássicas de divisões da
antropologia, muito embora algumas bibliografias esbocem algumas outras
subdivisões da disciplina, a divisão clássica entre física e cultural representa bem
todas as possibilidades teóricas e práticas da antropologia enquanto ciência do
homem.

Vamos entender cada uma delas, por partes, iniciando pelo Antropologia
Física, ok?

Ora, a própria definição já nos dá uma pista acerca do que trata essa parte da
disciplina, não é mesmo? A antropologia física, também conhecida como antropologia
biológica, trata das “variações dos caracteres biológicos do homem no tempo e no
espaço”, tal como exposto por François Laplantine.

Mas o que será que o autor supracitado quis dizer com tal afirmação?

Certamente o entendimento que os antropólogos


modernos têm sobre a Antropologia Física difere
bastante das concepções do passado.
Anteriormente essa parte da Antropologia se
pautava na craniometria, técnica que tinha como
proposta o estudo e medição do crânio humano
para, a partir de então, traçar o perfil dos
indivíduos. Durante um período da história da
antropologia, técnicas como essa foram usadas
para legitimar posicionamentos racistas. Dessa
maneira, muitos mestiços e negros foram julgados
e esteriotipados no Brasil do século XIX.
Pelo formato do seu crânio e dimensões do esqueleto era possível indicar quais tipos
de crime aqueles sujeitos poderiam cometer. Parece insano pensarmos isso, mas
parte da história do Brasil durante o século XIX foi marcada por esse tipo de conduta,
acredite, científica.

Voltando à questão posta anteriormente, e tentando respondê-la, o que Laplantine


quis dizer quando afirmou que a Antropologia Física estudava as variações dos
caracteres biológicos, podemos inferir que a problemática posta pela Antropologia
Física pretente tratar das relações entre o patrimônio genético e o meio cultural (e
também geográfico). Em outras palavras, ela estuda as relações entre o inato e o
adquirido, que estão em constante interação.
Vale lembrar que a Antropologia Física também está subdividida em tantas outras
partes da antropologia e, mesmo com suas especificidades, todas partem da relação
entre o patrimônio genético do indivíduo associados ao patrimônio cultural.

Bem, e o que caracterizaria, então, a Antropologia Cultural?

A Antropologia Cultural pode também ser chamada de Antropologia Social. É o ramo


da antropologia que parece abarcar, em essência, todas as demais subdivisões da
disciplina. A forma como foi denominada – Antropologia Cultural – já nos dá um pista
do que ela busca investigar. Ela diz respeito aos diversos aspectos culturais que
constituem o ordenamento e funcionamento de uma sociedade, ou seja, ela analisa os
“modos de produção econômica, suas técnicas, sua organização política e jurídica,
seus sistemas de parentesco, seus sistemas de conhecimento, suas crenças
religiosas, sua língua, sua psicologia, suas criações artísticas”, tal como tentou definir
Laplantine.
Outros autores podem apresentar formas distintas para definir o que seja Antropologia
Cultural, entretanto, em todas as definições encontradas em outras bibliografias irão
perpassar pelas questões supracitadas.
De modo geral, podemos aprender que a Antropologia Cultural acaba por desfazer a
dualidade presente entre as noções anteriormente definidas de “cultura” e “natureza”.
Ela coloca por água abaixo a noção de pureza presente em uma suposta “natureza
humana”, re-significando o universo humano enquanto um universo cultural, no qual
nós – seres humanos – somos capazes de representar, nos comunicar através da
linguagem, criar símbolos, códigos e comportamentos distintos que estão relacionados
com os grupos com os quais (con)vivemos e o lugar habitado por nós.
A partir dos estudos realizados por esse ramo da Antropologia, novas técnicas e
métodos de investigação passaram a vigorar. Com isso, todo o arsenal carregado de
preconceitos herdados de técnicas e métodos obsoletos, como no caso da
craniometria, que legitimavam teorias racialistas, foi sendo diluído. O novo caminho
que essa Antropologia buscava perpassava por uma neutralidade investigativa e o
antropólogo passava, então, a imergir nas diferentes realidades culturais, para dessa
forma, buscar maior aproximação com a realidade investigada entre os grupos ou
povos estudados. Isso o levou a realizar trabalhos de campo, nos quais destacou a
observação participante como um de seus principais métodos. No item a seguir,
discutiremos um pouco mais sobre essa temática dos métodos e técnicas.
Tema 3
Objeto, métodos e técnicas

Como opera a Antropologia?


De modo geral, é possível afirmar que o objeto da Antropologia, por excelência, é o
homem e sua relação com o meio cultural. Alguns antropólogos, entretanto, não
gostam de se referir a outros seres humanos como sendo “objetos” e preferem chamá-
los de “sujeitos” da pesquisa. Tal deslocamento entre as categorias sujeito/objeto
retrata uma visão tida hoje como politicamente correta entre alguns antropólogos. Mas,
de fato, tal modo de classificação não desloca a importância central dos estudos
empreendidos pela disciplina.
Bom, definido brevemente o objeto da antropologia, vamos tentar entender como esse
objeto se relaciona com os métodos e técnicas de pesquisa.
Vamos tratar, inicialmente, dos métodos.
Podemos inferir primordialmente que nas ciências sociais, em especial na
antropologia, os métodos de pesquisa podem ser divididos de duas maneiras:
métodos quantitativos e qualitativos.
O uso do método quantitativo foi bastante comum nos estudos antropológicos até a
década de 1960 aproximadamente, tendo na antropologia norte-americana seu
principal expoente. Já o método qualitativo é o mais usual entre os antropólogos de
hoje, o que não significa, contudo, que não se possa realizar uma pesquisa em
antropologia utilizando o método quantitativo, ou mesmo combinando ambos.
Para tornar essa breve explicação mais detalhada, vamos caracterizar os métodos
quantitativos e qualitativos a partir das diferenças apresentadas entre eles, ok?!
Então, vamos lá. No método quantitativo, os pesquisadores trabalham com dados
ordinais (números) através da aplicação de "entrevistas fechadas" onde a partir daí
são geradas estatísticas sobre o objeto pesquisado. É importante ressaltar que nesse
tipo de investigação não é necessário a participação direta do pesquisador durante a
coleta de dados, que pode ser realizada por um entrevistador externo, desde que
tenha sido treinado pelo pesquisador responsável pela investigação.
Já no método qualitativo, as interações entre o pesquisador e o pesquisado – ou,
como a ciência costuma se referir, na relação sujeito/objeto – apresentam uma
tipologia distinta. Há necessidade de o pesquisador estabelecer uma relação direta
com os sujeitos da pesquisa. Como não há preocupação em se gerar estatísticas,
como no método quantitativo, durante a pesquisa qualitativa o pesquisador irá –
durante processos de interação com os sujeitos – absorver e interpretar dados
subjetivos, baseados na observação, participante ou não, e nas entrevistas semi-
estruturadas ou abertas.
Método Qualitativo Métodos Quantitativo

• Relação direta entre pesquisador e


sujeito da pesquisa; • Não exige participação direta do
pesquisador
• Envolve interpretação de dados
subjetivos; • Tratabalha com dados ordinais
(números)
• Requer observação;
• Gera estatísticas
• Utiliza entrevistas semi-estruturadas ou
abertas. • Utiliza entrevistas fechadas

Assim, fica claro que, durante a realização das pesquisas baseadas em métodos
qualitativos, há maior envolvimento entre pesquisador e pesquisado, pois a produção
do dado não seguirá uma lógica numérica. Atualmente, apesar de maior parte das
pesquisas realizadas por antropólogos seguirem metodologias qualitativas, o uso de
uma metodologia quantitativa ainda pode ser observado em muitas pesquisas,
principalmente após maior difusão de um software desenvovido no final da década de
1960 chamado SPSS, que aplica o uso da estatística às ciências sociais.

Este artigo do Portal Educação, distingue os dois métodos de pesquisa


tratados aqui, apresentando suas principais características

Agora que já foram apresentados os métodos quantitativo e qualitativo, refinaremos


um pouco mais o estudo e entraremos, mais especificamente, no que pode ser
considerado o método primordial da antropologia: a etnografia.

Você já ouviu este termo antes?

Etnografia é um palavra de origem grega que une dois termos; ‘etno’ palavra que se
refere a um povo/etnia ou nação e ‘grafia’, que significa ‘escrita’. Daí a designação do
termo para se referir ao estudo, normalmente realizado por antropólogos, dos diversos
aspectos culturais de um povo.
Para se fazer etnografia o pesquisador deve,
através do trabalho de campo, imergir no mundo
do “outro”, conviver com eles por um período de
tempo relativamente longo para somente assim
buscar possíveis compreensões acerca do seu
modo de vida. A etnografia está ancorada na
metodologia qualitativa, pois as respostas
buscadas pelos antropólogos não podem ser
respondidas com aplicação do método quantitativo somente, pois perpassam por
aspectos cognitivos dos sujeitos envolvidos na pesquisa.

Assim, o trabalho do antropólogo em campo pode ser resumido da seguinte


maneira:

Mas você pode estar se perguntando nesse momento; ‘como será que isso
acontece’?

Pois bem, não se trata de um simples olhar, ouvir e escrever. Para se chegar aos
resultados esperados usando o método etnográfico é preciso que sejam empregadas
algumas técnicas de pesquisa. E quais são essas técincas?
As técnicas utilizadas são diversas. Podemos citar como mais usuais em contextos de
trabalho de campo a ‘observação participante’ e as ‘entrevistas semi-estruturadas’ ou
‘abertas’. A observação participante só é possível de ser realizada com o convívio
continuado entre pesquisador e pesquisados. Durante esse processo, outros
intrumentos como o ‘caderno de campo’ e ‘registros fotográficos’ auxiliam o trabalho
do antropólogo.
As entrevistas realizadas seguem roteiros semi-estruturados ou abertos, pois através
de tal técnica é possivel obter respostas nas quais as subjetividades presentes nos
discursos dos pesquisados fiquem mais evidentes. Para fins de análise, sempre que
possível – com a devida autorização – os áudios das entrevistas são captados.
Genealogias dos grupos estudados também são comuns nos trabalhos etnográficos,
pois as relações de parentesco fazem parte do interesse dos estudos antropológicos.
A finalidade do estudo etnográfico consiste em ajudar o antropólogo a compreender
um povo a partir da lógica da cultura do nativo. A etapa final desse trabalho é a escrita,
quando o antropólogo/etnógrafo irá analisar os dados coletados e analisá-los a partir
da visão de mundo dos nativos. Nesse sentido, o registro etnográfico se afasta de
registros do folclore, pois não apenas tenta retratar a cultura ou prática cultural
observada, mas tenta explicá-la. Assim, podemos afirmar que o antropólogo é uma
espécie de tradutor do mundo do “outro”.
A importância da antropologia

Estamos chegando ao fim da primeira unidade e já aprendemos o que é a


Antropologia, como ela surgiu no contexto científico, como pode ser subdividida, seus
métodos e técnicas de pesquisa, mas ainda não respondemos a uma questão
fundamental: Qual a importância da Antropologia?
Pois bem, vamos agora responder a essa última questão.
Vamos estabelecer uma comparação para melhor compreendermos a questão.
Imagine que você ficou doente e os sintomas manifestados começam a incomodar.
Provavelmente se você comentar sobre seus sintomas com parentes e amigos, logo
irão surgir inúmeras receitas e simpatias para curar sua enfermidade, muito embora
quem tenha o respaldo técnico e científico para lhe ajudar da forma mais adequada é
um profissional da área médica.
Com a cultura não é diferente, sempre alguém terá algum palpite sobre questões que
deveriam ser tratadas por especialistas, no caso, pelos antropólogos. É comum os
antropólogos ouvirem dizer, por exemplo, que determinado grupo indígena “não é mais
índio porque já perdeu a cultura e usa calça jeans” ou ouvir expressões como “onde já
se viu índio de bigode”? Bom, para refutar tais afirmações e para tratar o assunto com
mais propriedade é necessário que seja ouvido um especialista no assunto, no caso,
um antropólogo.

Para obter mais fontes sobre os métodos e as técnicas utilizadas pela


antropologia, você pode pesquisar também nas demais ciências sociais,
como na sociologia, que utilizam métodos e técnicas de pesquisa similares,
dessa forma você terá mais fontes disponíveis para direcionar seus estudos,
considerando a antropologia parte das ciências sociais.
É a antropologia quem melhor problematiza as relações sociais nos contextos
culturais, porque pretende, na maioria das vezes, interpretá-las em seus contextos. É
preciso, entretanto, estar atento para a forma como o trabalho antropológico é
realizado. Como já foi discutido aqui, um longo tempo de trabalho de campo, junto ao
grupo que se deseja conhecer, é parte importante do método etnográfico e deve ser
respeitado para que o trabalho seja realizado da melhor forma possível pelo
antropólogo. Mais uma vez utilizando uma analogia com a profissão do médico, não
dar tempo ao antropólogo para que se conheça a fundo o grupo com que trabalha é o
mesmo que esperar que um cirurgião realize um bom trabalho com os olhos
vendados.

O caso da Usina de Belo Monte: A construção da Usina Hidrelétrica de Belo


Monte é uma obra que vem causando polêmica há mais de 20 anos e divide
opinões. De um lado, políticos brasileiros e empreeiteiras, do outro,
moradores ribeirinhos do rio Xingu, diversas etnias indígenas e movimentos
sociais. Por um lado, especialistas afirmam que a usina produzirá menos
energia, proporcionalmente à capacidade de produção quando comparada a
outras hidrelétricas, além de ter um alto custo em contrapartidas, por conta
da grande quantidade de impactos sociais e ambientais na região. Por outro
lado, o governo afirma ser uma obra de extrema importância para o
desenvolvimento do país.

As pesquisas antropológicas no Brasil perpassam por diversos campos, dada a vasta


abrangência que a Antropologia Cultural, e sua pluralidade de perspectivas de
atuação, proporciona. Exemplos de como a Antropologia pode ser diversa são
expressas em diversos estudos publicados sobre identidades, crenças, mitos, rituais,
trabalho, gênero, religiosidade, meio ambiente e muitas outras. Alguns campos
chegam a ser muito específicos e acabam por criar “antropologias específicas”, como
a Urbana, Política, Econômica, Visual, do Negro, Indígena, dentre outras.
Pois bem, e toda essa pesquisa serve para quê? Como os antropólogos trabalham
aqui no Brasil? Vamos responder a essa questão.
Hoje, o trabalho dos antropólogos no Brasil é bastante útil à sociedade. Todas as
obras de grande escala, sejam elas implementadas pelo estado ou realizadas a partir
de investimentos do capital privado, causam impactos positivos e negativos. Os
impactos negativos são de ordem ambiental e/ou social, e é aqui que entra o trabalho
do antropólogo. Poderia citar aqui alguns desses grandes projetos, como a abertura de
estradas, a construção de redes de transmissão de energia elétrica, qualquer grande
monocultura – como é possível observar no caso do plantio de eucalipto na região sul
da Bahia –, a rodovia Transamazônica e a construção da usina hidrelétrica de Belo
Monte são alguns exemplos de projetos de interesse do Estado que acabam por
impactar populações e meio ambiente.

Apesar de haver uma legislação específica assegurando direito dos


indígenas às terras e classificando-as como "inalienáveis e indisponíveis e os
direitos sobre elas imprescritíveis", muitos grupos buscam tirar proveito das
riquezas presentes nos territórios indígenas. Alguns exemplos desses grupos
são os garimpeiros, madeireiros, posseiros. Tais ações normalmente tendem
a gerar conflitos resultando em poluição de rios e nascentes, desmatamentos
e até morte em ambas as partes.

Neste vídeo o antropólogo e professor do Museu Nacional da Universidade


federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eduardo Viveiros de Castro, fala ao
Movimento Gota d'Água sobre as riquezas naturais e culturais do rio Xingú e
sobre o tipo de desenvolvimento que deveríamos buscar para o Brasil.
"Defender o Xingú é defender o Brasil."

Nesse contexto, é comum surgir, dentro do projeto, a necessidade de relocação


populacional. O problema é que normalmente tais grupos se opõem à mudança de
habitat, uma vez que o contexto em que vivem está repleto de significados e histórias
de vida. Em outros casos, como na construção de hidrelétricas, em que uma grande
área precisa ser alagada, as populações que ali residem tem se mostrado contrária
aos empreendimentos, uma vez que tais obras terão impacto direto no modo de vida
daquela comunidade.
Assim, é necessário que sejam realizados, pelo antropólogo, estudos e relatórios de
impacto ambiental, indicando medidas mitigatórias a serem tomadas pelos
responsáveis pelos empreendimentos. Há também a real possibilidade de se instalar
um conflito, ficando a mediação de tais conflitos – dependendo da população afetada –
a cargo do antropólogo.
Além de estudos de impacto social e ambiental das grandes obras, quando há
necessidade de identificar e delimitar territórios indígenas e quilombolas é necessário
a apresentação de um laudo antropológico, sendo isso mais um exemplo de atuação
prática da Antropologia.

Você conhece Darcy Ribeiro?

Este vídeo apresenta este importante antropólogo e político brasileiro, com


forte atuação na área educacional brasileira e junto aos índios.
Encerramento

O que é Antropologia?

Essa é uma pergunta que pode ser respondida de forma simples: a antropologia é
uma ciência que tem como objeto de estudo o ser humano e todas as suas
dimensões. Isso quer dizer que esta ciência se dedica a estudar as diversas
particularidades da vida social, as diferentes culturas e também as formas de construir
uma sociedade.

Para que serve a Antropologia?

Essa ciência se dedica a compreender o homem e seu processo de evolução, ou seja,


sua origem, formação e desenvolvimento, até se tornar aquilo que é hoje. Por isso, o
antropólogo atua também como um historiador, pois ele precisa estudar o passado
para identificar as raízes do ser humano e determinar onde tudo começou e como as
coisas se desenvolveram.

Como opera a Antropologia?

A antropologia é uma ciência que estuda o ser humano de modo amplo, investigando
sua origem e vivência em determinado contexto. Seus objetos de estudo são: cultura,
língua, objetos, parentesco, dentre outros.

Resumo da Unidade

Pois bem, como foi observado, a importância da antropologia no contexto mundial


é bastante abrangente. O antropólogo é uma espécie de tradutor do mundo
cultural. É através da sua ciência que podemos compreender melhor outras visões
de mundo e outros modos de estar no mundo. É com a antropologia que o homem
aprende a relativizar sua realidade e enxergar o “outro” através da lógica cultural
desse “outro”. Na unidade seguinte, iremos aprender um pouco mais sobre as
escolas antropológicas e a trajetória dessa ciência do homem e da cultura.
Antropologia

Clique na imagem para visualizar o vídeo.

Olá, estudante!

Esse é o material didático da disciplina Antropologia. Ele servirá como um guia, onde
você encontrará sínteses dos assuntos discutidos em todas as mídias utilizadas nesta
disciplina.

Através destes conteúdos, você terá uma visão geral sobre os assuntos discutidos,
não obstante as leituras sejam imprescindíveis ao aprendizado. Dessa forma,
acompanhar o Roteiro de Estudos será necessário para um melhor aproveitamento do
conteúdo da disciplina.

A disciplina tratará fundamentalmente de assuntos pertinentes ao saber antropológico


que estarão divididos em quatro unidades para melhor sistematização do conteúdo e
melhores resultados no aprendizado.

Inicialmente você será apresentado à Antropologia através do seu conceito


fundamental, conhecendo seus campos de pesquisa e suas ramificações. Será
também apresentado aos métodos de investigação aplicados pela disciplina nos
diversos contextos de atuação da antropologia.

Durante a disciplina, iremos discutir a trajetória da antropologia enquanto campo


científico, estudando seus desdobramentos através de correntes teóricas que
orientaram grandes pensadores da disciplina, do evolucionismo ao interpretativismo.
Com o avanço dos estudos, iremos adentrar no campo primordial de discussão da
antropologia, o campo da cultura. Nessa parte do curso serão apresentados conceitos
como os de cultura, relativismo cultural e etnocentrismo, necessários para ampliar o
entendimento acerca do objeto primordial da antropologia.

Por fim, a disciplina será guiada por temáticas bastante discutidas pela antropologia,
quando trabalharemos com temas como etnicidade, etnodesenvolvimento, gênero e
religiosidade.

Você poderá perceber que as temáticas discutidas durante as unidades se tangenciam


e se cruzam em alguns momentos.

Não tenha dúvidas, a Antropologia se mostrará como um campo do conhecimento


fascinante e instigante, que deve, portanto, lhe auxiliar em sua futura trajetória pessoal
e profissional.

Objetivos

Ao final desta disciplina, você deverá ser capaz de:

• Compreender o que é Antropologia e seus mecanismos de


ação.

Conteúdo Programático

Esta disciplina está organizada de acordo com as seguintes


unidades:

• Unidade 1 – Conhecendo a Antropologia


• Unidade 2 – Correntes do Pensamento Antropológico
• Unidade 3 – A evolução do conceito de cultura
• Unidade 4 – Temas de Interesse da Antropologia
Autoria

Professor Bruno Luedy Silva

Bacharel em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia, pela Universidade


Federal da Bahia. Mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia. Atua
nas áreas de Antropologia Rural e Etnologia Indígena. Membro do Núcleo de
Etnodesenvolvimento no contexto do Projeto "Desenvolvimento Territorial Sustentável
e Multifuncionalidade da Agricultura Familiar nos Territórios da Cidadania da Bahia".
Atuou como consultor em projetos da Companhia de Desenvolvimento e Ação
Regional, nos Territórios de Identidade Litoral Sul e Extremo Sul da Bahia

Revisão e atualização

Professora Márcia Simões Mattos

Mestre em Educação – Universidade Católica de Petrópolis – UCP. Licenciatura em


Pedagogia (UERJ), História (UNISUAM)- Pós-graduações em Tecnologia Educacional
(UERJ); Processos de Aprendizagem (UFRJ – Pesquisadora com Bolsa do CNPQ);
MBE em Gestão Educacional (FJG – Fundação João Goulart e UCAM – Universidade
Candido Mendes); Tecnologias e Mídias em Educação (UVA – Universidade Veiga de
Almeida). Professora da Graduação da Universidade Veiga de Almeida, disciplinas
presenciais e on line e EAD, exercendo também atividades acadêmicas de Líder de
Área das Licenciaturas e Focal do ENADE. Professora concursada da Prefeitura da
Cidade do Rio de Janeiro, onde por 30 anos exerceu atividades de regência e cargos
como Coordenadora Regional de Educação – CRE entre outros. Foi membro do
Conselho Municipal de Educacional de Educação da Cidade do Rio de Janeiro. Área
de estudo: História da Educação, sociedade, cultura e currículo.
Conhecendo a Antropologia

Você sabe o que é Antropologia?

A Antropologia é ciência do homem e, por extensão – como veremos ao longo do


curso –, da cultura. Bom, um questionamento inicial que pode ser feito, e que nos
ajuda a entender o que é Antropologia é o seguinte: O que diferencia o homem dos
demais animais? Essa não é uma questão tão simples de responder.

Pensemos então, quem é o homem? O homem, para antropologia, não surgiu de


acordo com qualquer teoria criacionista, ou seja, para a antropologia o homem não foi
criado por nenhum deus, ele é animal primata, bípede, pertencente ao gênero
biológico homo. Sapiens é um termo em latim que significa “sábio”, daí a denominação
Homo Sapeins para designar o grupo em que nós – humanos – fomos classificados
pela ciência.

Objetivo
Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de:

• Compreender o papel da Antropologia no mundo


contemporâneo;
• Identificar métodos e técnicas de investigação na área.

Conteúdo Programático
Esta unidade está organizada de acordo com os seguintes temas:

• Tema 1 - Conhecendo a Antropologia


• Tema 2 - Antropologia Física e Cultural
• Tema 3 - Objeto, métodos e técnicas
Agora reflita...

Será, realmente, que esse Homem – entendido aqui como o homem e mulher – é tão
sábio assim? Pensemos sobre isso: ao mesmo tempo em que o homem é capaz de
construir aviões e produzir computadores ultra-modernos, ele cria bombas atômicas e
destrói a natureza. Será que estamos, de fato, evoluindo?
Tema 1
Conhecendo a Antropologia

O que é Antropologia?
É comum ouvirmos dizer que nós, seres humanos, nos adaptamos a qualquer
situação, por mais adversa que possa parecer, não é mesmo?! Pois bem, se agora eu
afirmasse que o homem não se adapta ao meio, o que poderíamos pensar sobre isso?
De fato, quem se adapta ao meio em que vive são os outros animais, os não
humanos. O homem, para viver, transforma o meio em que vive e ao fazer isso,
produz cultura, ou seja, o homem é único animal capaz de produzir cultura. Essa
capacidade intrínseca aos seres humanos faz com que, em última análise, os homens,
como seres culturais, se diferenciem dos demais animais.

Saiba Mais

“O homem nunca parou de se interrogar sobre si mesmo. Em todas as


sociedades existiram homens que observavam homens. [...] A reflexão do
homem sobre o homem em sua sociedade, e a elaboração de um saber
são, portanto, tão antigos quanto a humanidade, e se deram tanto na Ásia
como na África, na América, na Oceania ou na Europa” (Laplantine, F.
2001).

A história do homem sobre o planeta Terra é repleta de cultura e se estende desde as


chamadas culturas pré-históricas até os dias atuais, com registros dos mais diversos
tipos nas mais diversas sociedades. É papel da Antropologia investigar a história do
homem nesses contextos culturais.
Vídeo

Para saber mais sobre o que é Antropologia, assista agora ao


vídeo: Conhecendo a Antropologia.

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A consolidação da Antropologia enquanto disciplina científica

Duas perguntas podem nos ajudar na busca deste entendimento. São elas:

• Como entender os estudos do ser humano e de toda sua produção cultural


dentro de um contexto científico, uma vez que as culturas se apresentam de
forma bastante distintas em diferentes sociedades?
• Seria possível atingir uma objetividade necessária para a ciência num campo
tão subjetivo como aqueles quem envolvem o meio cultural?

Podemos considerar a Antropologia uma ciência jovem, pois é somente no século XIX
que ela adquire o status de disciplina científica. Entre as ciências humanas, foi a que
mais demorou a ser considerada um campo científico. Embora possa ser considerada
uma ciência nova, quando pensada em relação aos demais campos cietíficos já
estabelecidos, a antropologia apresenta uma longa trajetória que podemos começar a
contar a partir dos relatos de cronistas e viajantes, ainda no século XVI.

São estes cronistas e viajantes que irão descrever pela primeira vez o contato com o
“outro”. Além de descreverem fauna e flora de terras distantes da Europa, até então
centro do mundo, esses viajantes fizeram também relatos sobre os povos nativos das
terras em que aportavam. Podemos citar, como exemplo, os relatos presentes na
Carta de Pero Vaz de Caminha e as narrativas realizadas por Hans Staden (1525 –
1579) em suas viagens ao Brasil. Ali se ensaiavam os primeiros passos para se
pensar o homem a partir de uma perspectiva cultural diferenciada, muito embora
naquela época, para os europeus, os nativos fossem considerados seres sem alma,
chegando a serem tratados como outra espécie.
Houve ainda, subsequente aos períodos de descobertas, um período em que as
contribuições de religiosos Jesuítas e Capuchinhos, através de relatos contínuos,
apresentaram um panorama no qual podia se perceber diversos aspectos da vida dos
povos indígenas no Brasil. Não eram relatos antropológicos, evidentemente.
Entretanto, o material produzido auxiliou a antropologia a galgar seus passos iniciais.

É com o pensamento evolucionista, ancorado das idéias de Charles Darwin (1809-


1882), que a antropologia encontra terreno fértil para sua consolidação. Nesse
instante, muitos cientistas começam a manifestar certo grau de descrença nas
explicações bíblicas sobre a criação do homem, pesquisadores de diversas partes do
mundo começam a levantar questionamentos sobre a história do homem na terra.
Como conseqüência, passava-se a acreditar que o homem teria sido fruto de uma
evolução e, portanto, muitos cientistas voltaram-se para a busca de um “elo perdido”,
ou seja, um ser antropóide que em um passado remoto pudesse ter ligação com o
homem moderno.

Foi através de contribuições advindas das ciências físicas e exatas que os primeiros
estudiosos do homem formularam teorias que distanciavam o surgimento do homem
de algo sobrenatural e passavam a seguir as trilhas sugeridas pela natureza, até
então, pautadas nas idéias evolucionistas.

A busca incansável pelo “elo perdido” vai cedendo espaço a outros estudos – por parte
dos antropologistas – que buscavam entender os comportamentos de sociedades
pensadas como “primitivas” e “atrasadas”. Sempre observados e analisados sob a
ótica burguesa ocidental, tais povos, até poucas décadas atrás, eram considerados
bárbaros em estágios de evolução. A partir de tal perspectiva deu-se então início aos
estudos sobre organização social de tribos e clãs, do seu sistema de parentesco,
rituais, mitologias, entre outras coisas.

Não somente a antropologia tem uma preocupação com o estudo da espécie humana,
outros campos, como os da história, psicologia, sociologia, entre outros, também
debruçaram esforços para compreender a ação humana em contextos coletivos. O
que vai contribuir para diferenciação entre a antropologia e os demais campos do
conhecimento científico são as questões de ordem física, anatômicas e estruturais do
homem, campos de estudo da Antropologia Física. Não demorou até que novas
vertentes do pensamento antropológico surgissem, como no caso da Antropologia
Cultural, consolidando assim, de uma vez por todas, a antropologia enquanto campo
científico. A partir daí, os diversos contextos culturais seriam objetos de preocupação
antropológica, e os antropólogos, principais responsáveis por tentar explicar e
compreender contextos culturais distintos daqueles estabelecidos.

Desse modo, para alcançar a objetividade necessária ao saber científico, a


antropologia se utilizou de técnicas e métodos específicos – os quais serão discutidos
mais à frente – que lhe permitiram extrair conclusões até o momento aceitas pela
comunidade científica.

Uma vez colocada tal questão é hora de descobrirmos o que diferencia, de fato, a
Antropologia Física da Cultural.
Tema 2
Antropologia Física e Cultural

Para que serve a Antropologia?


Antropologia Física e Cultural são as duas formas clássicas de divisões da
antropologia, muito embora algumas bibliografias esbocem algumas outras
subdivisões da disciplina, a divisão clássica entre física e cultural representa bem
todas as possibilidades teóricas e práticas da antropologia enquanto ciência do
homem.

Vamos entender cada uma delas, por partes, iniciando pelo Antropologia
Física, ok?

Ora, a própria definição já nos dá uma pista acerca do que trata essa parte da
disciplina, não é mesmo? A antropologia física, também conhecida como antropologia
biológica, trata das “variações dos caracteres biológicos do homem no tempo e no
espaço”, tal como exposto por François Laplantine.

Mas o que será que o autor supracitado quis dizer com tal afirmação?

Certamente o entendimento que os antropólogos


modernos têm sobre a Antropologia Física difere
bastante das concepções do passado.
Anteriormente essa parte da Antropologia se
pautava na craniometria, técnica que tinha como
proposta o estudo e medição do crânio humano
para, a partir de então, traçar o perfil dos
indivíduos. Durante um período da história da
antropologia, técnicas como essa foram usadas
para legitimar posicionamentos racistas. Dessa
maneira, muitos mestiços e negros foram julgados
e esteriotipados no Brasil do século XIX.
Pelo formato do seu crânio e dimensões do esqueleto era possível indicar quais tipos
de crime aqueles sujeitos poderiam cometer. Parece insano pensarmos isso, mas
parte da história do Brasil durante o século XIX foi marcada por esse tipo de conduta,
acredite, científica.

Voltando à questão posta anteriormente, e tentando respondê-la, o que Laplantine


quis dizer quando afirmou que a Antropologia Física estudava as variações dos
caracteres biológicos, podemos inferir que a problemática posta pela Antropologia
Física pretente tratar das relações entre o patrimônio genético e o meio cultural (e
também geográfico). Em outras palavras, ela estuda as relações entre o inato e o
adquirido, que estão em constante interação.
Vale lembrar que a Antropologia Física também está subdividida em tantas outras
partes da antropologia e, mesmo com suas especificidades, todas partem da relação
entre o patrimônio genético do indivíduo associados ao patrimônio cultural.

Bem, e o que caracterizaria, então, a Antropologia Cultural?

A Antropologia Cultural pode também ser chamada de Antropologia Social. É o ramo


da antropologia que parece abarcar, em essência, todas as demais subdivisões da
disciplina. A forma como foi denominada – Antropologia Cultural – já nos dá um pista
do que ela busca investigar. Ela diz respeito aos diversos aspectos culturais que
constituem o ordenamento e funcionamento de uma sociedade, ou seja, ela analisa os
“modos de produção econômica, suas técnicas, sua organização política e jurídica,
seus sistemas de parentesco, seus sistemas de conhecimento, suas crenças
religiosas, sua língua, sua psicologia, suas criações artísticas”, tal como tentou definir
Laplantine.
Outros autores podem apresentar formas distintas para definir o que seja Antropologia
Cultural, entretanto, em todas as definições encontradas em outras bibliografias irão
perpassar pelas questões supracitadas.
De modo geral, podemos aprender que a Antropologia Cultural acaba por desfazer a
dualidade presente entre as noções anteriormente definidas de “cultura” e “natureza”.
Ela coloca por água abaixo a noção de pureza presente em uma suposta “natureza
humana”, re-significando o universo humano enquanto um universo cultural, no qual
nós – seres humanos – somos capazes de representar, nos comunicar através da
linguagem, criar símbolos, códigos e comportamentos distintos que estão relacionados
com os grupos com os quais (con)vivemos e o lugar habitado por nós.
A partir dos estudos realizados por esse ramo da Antropologia, novas técnicas e
métodos de investigação passaram a vigorar. Com isso, todo o arsenal carregado de
preconceitos herdados de técnicas e métodos obsoletos, como no caso da
craniometria, que legitimavam teorias racialistas, foi sendo diluído. O novo caminho
que essa Antropologia buscava perpassava por uma neutralidade investigativa e o
antropólogo passava, então, a imergir nas diferentes realidades culturais, para dessa
forma, buscar maior aproximação com a realidade investigada entre os grupos ou
povos estudados. Isso o levou a realizar trabalhos de campo, nos quais destacou a
observação participante como um de seus principais métodos. No item a seguir,
discutiremos um pouco mais sobre essa temática dos métodos e técnicas.
Tema 3
Objeto, métodos e técnicas

Como opera a Antropologia?


De modo geral, é possível afirmar que o objeto da Antropologia, por excelência, é o
homem e sua relação com o meio cultural. Alguns antropólogos, entretanto, não
gostam de se referir a outros seres humanos como sendo “objetos” e preferem chamá-
los de “sujeitos” da pesquisa. Tal deslocamento entre as categorias sujeito/objeto
retrata uma visão tida hoje como politicamente correta entre alguns antropólogos. Mas,
de fato, tal modo de classificação não desloca a importância central dos estudos
empreendidos pela disciplina.
Bom, definido brevemente o objeto da antropologia, vamos tentar entender como esse
objeto se relaciona com os métodos e técnicas de pesquisa.
Vamos tratar, inicialmente, dos métodos.
Podemos inferir primordialmente que nas ciências sociais, em especial na
antropologia, os métodos de pesquisa podem ser divididos de duas maneiras:
métodos quantitativos e qualitativos.
O uso do método quantitativo foi bastante comum nos estudos antropológicos até a
década de 1960 aproximadamente, tendo na antropologia norte-americana seu
principal expoente. Já o método qualitativo é o mais usual entre os antropólogos de
hoje, o que não significa, contudo, que não se possa realizar uma pesquisa em
antropologia utilizando o método quantitativo, ou mesmo combinando ambos.
Para tornar essa breve explicação mais detalhada, vamos caracterizar os métodos
quantitativos e qualitativos a partir das diferenças apresentadas entre eles, ok?!
Então, vamos lá. No método quantitativo, os pesquisadores trabalham com dados
ordinais (números) através da aplicação de "entrevistas fechadas" onde a partir daí
são geradas estatísticas sobre o objeto pesquisado. É importante ressaltar que nesse
tipo de investigação não é necessário a participação direta do pesquisador durante a
coleta de dados, que pode ser realizada por um entrevistador externo, desde que
tenha sido treinado pelo pesquisador responsável pela investigação.
Já no método qualitativo, as interações entre o pesquisador e o pesquisado – ou,
como a ciência costuma se referir, na relação sujeito/objeto – apresentam uma
tipologia distinta. Há necessidade de o pesquisador estabelecer uma relação direta
com os sujeitos da pesquisa. Como não há preocupação em se gerar estatísticas,
como no método quantitativo, durante a pesquisa qualitativa o pesquisador irá –
durante processos de interação com os sujeitos – absorver e interpretar dados
subjetivos, baseados na observação, participante ou não, e nas entrevistas semi-
estruturadas ou abertas.
Método Qualitativo Métodos Quantitativo

• Relação direta entre pesquisador e


sujeito da pesquisa; • Não exige participação direta do
pesquisador
• Envolve interpretação de dados
subjetivos; • Tratabalha com dados ordinais
(números)
• Requer observação;
• Gera estatísticas
• Utiliza entrevistas semi-estruturadas ou
abertas. • Utiliza entrevistas fechadas

Assim, fica claro que, durante a realização das pesquisas baseadas em métodos
qualitativos, há maior envolvimento entre pesquisador e pesquisado, pois a produção
do dado não seguirá uma lógica numérica. Atualmente, apesar de maior parte das
pesquisas realizadas por antropólogos seguirem metodologias qualitativas, o uso de
uma metodologia quantitativa ainda pode ser observado em muitas pesquisas,
principalmente após maior difusão de um software desenvovido no final da década de
1960 chamado SPSS, que aplica o uso da estatística às ciências sociais.

Este artigo do Portal Educação, distingue os dois métodos de pesquisa


tratados aqui, apresentando suas principais características

Agora que já foram apresentados os métodos quantitativo e qualitativo, refinaremos


um pouco mais o estudo e entraremos, mais especificamente, no que pode ser
considerado o método primordial da antropologia: a etnografia.

Você já ouviu este termo antes?

Etnografia é um palavra de origem grega que une dois termos; ‘etno’ palavra que se
refere a um povo/etnia ou nação e ‘grafia’, que significa ‘escrita’. Daí a designação do
termo para se referir ao estudo, normalmente realizado por antropólogos, dos diversos
aspectos culturais de um povo.
Para se fazer etnografia o pesquisador deve,
através do trabalho de campo, imergir no mundo
do “outro”, conviver com eles por um período de
tempo relativamente longo para somente assim
buscar possíveis compreensões acerca do seu
modo de vida. A etnografia está ancorada na
metodologia qualitativa, pois as respostas
buscadas pelos antropólogos não podem ser
respondidas com aplicação do método quantitativo somente, pois perpassam por
aspectos cognitivos dos sujeitos envolvidos na pesquisa.

Assim, o trabalho do antropólogo em campo pode ser resumido da seguinte


maneira:

Mas você pode estar se perguntando nesse momento; ‘como será que isso
acontece’?

Pois bem, não se trata de um simples olhar, ouvir e escrever. Para se chegar aos
resultados esperados usando o método etnográfico é preciso que sejam empregadas
algumas técnicas de pesquisa. E quais são essas técincas?
As técnicas utilizadas são diversas. Podemos citar como mais usuais em contextos de
trabalho de campo a ‘observação participante’ e as ‘entrevistas semi-estruturadas’ ou
‘abertas’. A observação participante só é possível de ser realizada com o convívio
continuado entre pesquisador e pesquisados. Durante esse processo, outros
intrumentos como o ‘caderno de campo’ e ‘registros fotográficos’ auxiliam o trabalho
do antropólogo.
As entrevistas realizadas seguem roteiros semi-estruturados ou abertos, pois através
de tal técnica é possivel obter respostas nas quais as subjetividades presentes nos
discursos dos pesquisados fiquem mais evidentes. Para fins de análise, sempre que
possível – com a devida autorização – os áudios das entrevistas são captados.
Genealogias dos grupos estudados também são comuns nos trabalhos etnográficos,
pois as relações de parentesco fazem parte do interesse dos estudos antropológicos.
A finalidade do estudo etnográfico consiste em ajudar o antropólogo a compreender
um povo a partir da lógica da cultura do nativo. A etapa final desse trabalho é a escrita,
quando o antropólogo/etnógrafo irá analisar os dados coletados e analisá-los a partir
da visão de mundo dos nativos. Nesse sentido, o registro etnográfico se afasta de
registros do folclore, pois não apenas tenta retratar a cultura ou prática cultural
observada, mas tenta explicá-la. Assim, podemos afirmar que o antropólogo é uma
espécie de tradutor do mundo do “outro”.
A importância da antropologia

Estamos chegando ao fim da primeira unidade e já aprendemos o que é a


Antropologia, como ela surgiu no contexto científico, como pode ser subdividida, seus
métodos e técnicas de pesquisa, mas ainda não respondemos a uma questão
fundamental: Qual a importância da Antropologia?
Pois bem, vamos agora responder a essa última questão.
Vamos estabelecer uma comparação para melhor compreendermos a questão.
Imagine que você ficou doente e os sintomas manifestados começam a incomodar.
Provavelmente se você comentar sobre seus sintomas com parentes e amigos, logo
irão surgir inúmeras receitas e simpatias para curar sua enfermidade, muito embora
quem tenha o respaldo técnico e científico para lhe ajudar da forma mais adequada é
um profissional da área médica.
Com a cultura não é diferente, sempre alguém terá algum palpite sobre questões que
deveriam ser tratadas por especialistas, no caso, pelos antropólogos. É comum os
antropólogos ouvirem dizer, por exemplo, que determinado grupo indígena “não é mais
índio porque já perdeu a cultura e usa calça jeans” ou ouvir expressões como “onde já
se viu índio de bigode”? Bom, para refutar tais afirmações e para tratar o assunto com
mais propriedade é necessário que seja ouvido um especialista no assunto, no caso,
um antropólogo.

Para obter mais fontes sobre os métodos e as técnicas utilizadas pela


antropologia, você pode pesquisar também nas demais ciências sociais,
como na sociologia, que utilizam métodos e técnicas de pesquisa similares,
dessa forma você terá mais fontes disponíveis para direcionar seus estudos,
considerando a antropologia parte das ciências sociais.
É a antropologia quem melhor problematiza as relações sociais nos contextos
culturais, porque pretende, na maioria das vezes, interpretá-las em seus contextos. É
preciso, entretanto, estar atento para a forma como o trabalho antropológico é
realizado. Como já foi discutido aqui, um longo tempo de trabalho de campo, junto ao
grupo que se deseja conhecer, é parte importante do método etnográfico e deve ser
respeitado para que o trabalho seja realizado da melhor forma possível pelo
antropólogo. Mais uma vez utilizando uma analogia com a profissão do médico, não
dar tempo ao antropólogo para que se conheça a fundo o grupo com que trabalha é o
mesmo que esperar que um cirurgião realize um bom trabalho com os olhos
vendados.

O caso da Usina de Belo Monte: A construção da Usina Hidrelétrica de Belo


Monte é uma obra que vem causando polêmica há mais de 20 anos e divide
opinões. De um lado, políticos brasileiros e empreeiteiras, do outro,
moradores ribeirinhos do rio Xingu, diversas etnias indígenas e movimentos
sociais. Por um lado, especialistas afirmam que a usina produzirá menos
energia, proporcionalmente à capacidade de produção quando comparada a
outras hidrelétricas, além de ter um alto custo em contrapartidas, por conta
da grande quantidade de impactos sociais e ambientais na região. Por outro
lado, o governo afirma ser uma obra de extrema importância para o
desenvolvimento do país.

As pesquisas antropológicas no Brasil perpassam por diversos campos, dada a vasta


abrangência que a Antropologia Cultural, e sua pluralidade de perspectivas de
atuação, proporciona. Exemplos de como a Antropologia pode ser diversa são
expressas em diversos estudos publicados sobre identidades, crenças, mitos, rituais,
trabalho, gênero, religiosidade, meio ambiente e muitas outras. Alguns campos
chegam a ser muito específicos e acabam por criar “antropologias específicas”, como
a Urbana, Política, Econômica, Visual, do Negro, Indígena, dentre outras.
Pois bem, e toda essa pesquisa serve para quê? Como os antropólogos trabalham
aqui no Brasil? Vamos responder a essa questão.
Hoje, o trabalho dos antropólogos no Brasil é bastante útil à sociedade. Todas as
obras de grande escala, sejam elas implementadas pelo estado ou realizadas a partir
de investimentos do capital privado, causam impactos positivos e negativos. Os
impactos negativos são de ordem ambiental e/ou social, e é aqui que entra o trabalho
do antropólogo. Poderia citar aqui alguns desses grandes projetos, como a abertura de
estradas, a construção de redes de transmissão de energia elétrica, qualquer grande
monocultura – como é possível observar no caso do plantio de eucalipto na região sul
da Bahia –, a rodovia Transamazônica e a construção da usina hidrelétrica de Belo
Monte são alguns exemplos de projetos de interesse do Estado que acabam por
impactar populações e meio ambiente.

Apesar de haver uma legislação específica assegurando direito dos


indígenas às terras e classificando-as como "inalienáveis e indisponíveis e os
direitos sobre elas imprescritíveis", muitos grupos buscam tirar proveito das
riquezas presentes nos territórios indígenas. Alguns exemplos desses grupos
são os garimpeiros, madeireiros, posseiros. Tais ações normalmente tendem
a gerar conflitos resultando em poluição de rios e nascentes, desmatamentos
e até morte em ambas as partes.

Neste vídeo o antropólogo e professor do Museu Nacional da Universidade


federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eduardo Viveiros de Castro, fala ao
Movimento Gota d'Água sobre as riquezas naturais e culturais do rio Xingú e
sobre o tipo de desenvolvimento que deveríamos buscar para o Brasil.
"Defender o Xingú é defender o Brasil."

Nesse contexto, é comum surgir, dentro do projeto, a necessidade de relocação


populacional. O problema é que normalmente tais grupos se opõem à mudança de
habitat, uma vez que o contexto em que vivem está repleto de significados e histórias
de vida. Em outros casos, como na construção de hidrelétricas, em que uma grande
área precisa ser alagada, as populações que ali residem tem se mostrado contrária
aos empreendimentos, uma vez que tais obras terão impacto direto no modo de vida
daquela comunidade.
Assim, é necessário que sejam realizados, pelo antropólogo, estudos e relatórios de
impacto ambiental, indicando medidas mitigatórias a serem tomadas pelos
responsáveis pelos empreendimentos. Há também a real possibilidade de se instalar
um conflito, ficando a mediação de tais conflitos – dependendo da população afetada –
a cargo do antropólogo.
Além de estudos de impacto social e ambiental das grandes obras, quando há
necessidade de identificar e delimitar territórios indígenas e quilombolas é necessário
a apresentação de um laudo antropológico, sendo isso mais um exemplo de atuação
prática da Antropologia.

Você conhece Darcy Ribeiro?

Este vídeo apresenta este importante antropólogo e político brasileiro, com


forte atuação na área educacional brasileira e junto aos índios.
Encerramento

O que é Antropologia?

Essa é uma pergunta que pode ser respondida de forma simples: a antropologia é
uma ciência que tem como objeto de estudo o ser humano e todas as suas
dimensões. Isso quer dizer que esta ciência se dedica a estudar as diversas
particularidades da vida social, as diferentes culturas e também as formas de construir
uma sociedade.

Para que serve a Antropologia?

Essa ciência se dedica a compreender o homem e seu processo de evolução, ou seja,


sua origem, formação e desenvolvimento, até se tornar aquilo que é hoje. Por isso, o
antropólogo atua também como um historiador, pois ele precisa estudar o passado
para identificar as raízes do ser humano e determinar onde tudo começou e como as
coisas se desenvolveram.

Como opera a Antropologia?

A antropologia é uma ciência que estuda o ser humano de modo amplo, investigando
sua origem e vivência em determinado contexto. Seus objetos de estudo são: cultura,
língua, objetos, parentesco, dentre outros.

Resumo da Unidade

Pois bem, como foi observado, a importância da antropologia no contexto mundial


é bastante abrangente. O antropólogo é uma espécie de tradutor do mundo
cultural. É através da sua ciência que podemos compreender melhor outras visões
de mundo e outros modos de estar no mundo. É com a antropologia que o homem
aprende a relativizar sua realidade e enxergar o “outro” através da lógica cultural
desse “outro”. Na unidade seguinte, iremos aprender um pouco mais sobre as
escolas antropológicas e a trajetória dessa ciência do homem e da cultura.

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