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A Psicologia do Colecionismo e Objetos

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cesar araújo
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vale a uma prática sexual, não visa a uma satisfação Oono de um serralho secreto, o homem ê por cx­

pulsional ( como o fetichismo), contudo pode chegar a t�l!ncia senhor no seio de seus objetos. Nunca a rela­
uma satisfação reacional igualmente intensa. No c,u;o �•o humana, que é o campo do único e do conflituoso
o objeto toma inteiramente o sentido do objeto amado. f"'rmi1c esta fusão da singularidade absoluta e da séri�
"A paixão pelo objeto leva a considerá-lo como indo(inida: daí ser ela fonte contínua de angústia. O
algo criado por Deus: um colecionador de ovos de �11mpo dos obji:Los, ao contráào, que é o dos termos
porcelana acba que Deus jamais criou forma tão bela •ucessivos e homólogos, é tranqüilizador. A preço, bem
nem mais singular e que a imaginou unicamente para _
�ottnd1do, de uma astúcia irreal, de abstração e rc­
alegria dos colecionadores ... " (M. Rheims, p. 33.) ª'º'!ªº• m,u; que interessa. "O objeto, diz Maurice
"Sou louco por e-�te objeto", declaram e todos, sem Rhc1ms, é para o homem como uma espécie de cachor­
exceção, ainda que não intervenha a perversão fetichis­ íll Insensível que recebe as carícias e as restitui à sua
ta, conservam à volta de sua coleção um ambiente de 11111ncira, ou antes as devolve como espelho fiel não às
clandestinidade, de seqüestro, de segredo e de mentira lmogcns reais, mas às desejadas" (p. 50).
que apresenta todas as características de uma relação
culposa. E este jogo apaixonado que constitui o subli­
me desta conduta regressiva e justifica a opinião segun­ O mais belo animal doméstico
do a qual todo indivíduo que não coleciona alguma
coisa não passa de um cretino e um pobre destroço A imagem do cachorro é adequada: os animais
humano."l cu�eiros conslituem uma espécie intermediária entre os
O colecionador não é sublime portanto pela natu­ ,(rcs e os objetos. Cachorros, gatos, pássaros, tarta­
reza dos objetos que coleciona ( variando este com a ruga ou canário, sua presença patética é o indicio de
idade, a profissão, o meio social), mas pelo seu tana­ um fracasso da relação humana e do recurso a um uni­
tismo. Fanatismo idêntico tanto no rico amador de mi­ verso doméstico narcisista em que a subjetividade então
niaturas persas como no colecionador de caixas de fós­ MI reali_za n� m�or quie_!Ude. Observemos de p,u;sagem
foros. Nesta qualidade, a distinção que se faz entre o _
que ca1s a01ma1s nao sao sexuados (muitas vezes c,u;­
amador e o colecionador, o último amando os objetos trndos para o uso doméstico), são tão privados de sexo
em função de sua ordem em uma série, e o outro por npcsar de vivos, quanto os objetos; é a esse preç�
seu encanto diverso e singular, não é decisiva. O prazer, �uc eles podem ser afetivamente traoqüilizadores, é
1anto em um como no outro, vem do fato dt a posse AO preço de uma castração real 011 simbólica que po­
jogar, de um lado com a singularidade absoluta de dem desempenhar junto ao proprietário o papel de re­
cada elemento, que nela representa o equivalente de aulndor d a angústia de castração, - papel que de­
um ser e no fundo do próprio indivíduo - de outro, •cmpenbam eminentemente também todos os obietos
com a possibilidade da série, e portanto da substituição 11uc nos rodeiam, pois o objeto é o animal doméstico
indefinida e do jogo. Quimessencia qualitath·a, mani­ perfeito. E o único "ser" cuja$ qualidades exaltam mi­
pulação quantitativa. Se a posse é feita da confusão nha pessoa ao invés de a restringir. No piorai os obje­
dos sentidos (mão, olho), de intimidade com um obje­ tos são os únicos existentes cuja coexistêacia é verda­
to privilegiado, é igualmente toda feita de procura, de dcirnmeme possível, pois suas diferenças não os dirigem
ordem, de jogo e de agrupamento. Para se falar claro, uns contra os outros, como é o caso nos seres vivos
existe ai um perfume de harém em que lodo o encanto mas convergem docilmente para mim e se adiciona�
é o da série na intimidade ( todavia com um termo pri­ ,cm dificuldades à consciência. O objeto é aquilo que
vilegiado) e o da intimidade na série. melhor se deixa "personalizar" e contabilizar de uma
(1) M. Fa.ur011. presidente dos coledonadom de •nEb de duruto, 'IÓ vez. E para uma contabilidade subjetiva dessa natu­
(revista Lf,n1 do Ctube rrancfs do Ll.-ro, maio de 1964), reza não existe nada de exclusivo, qualquer um pode

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