62
4. Flexão Simples
Diz que há flexão simples quando simultaneamente os
esforços externos (forças cortantes) e o momento fletor atuam
sobre uma viga e tanto estes esforços como o momento estão
contidos num mesmo plano, denominado plano das forças ou
plano de flexão. Quando só atua momento fletor, nas diversas
seções transversais, diz-se que a solicitação é de flexão pura
[Nash, 1982].
De um modo geral, pode-se definir o momento fletor
como a somatória dos momentos de todas as forças situadas em
um só lado da seção (a direita ou a esquerda) tomados em
relação ao centro de gravidade desta seção, figura 4.1.
P1 P2 P3
+ S +
A B
d1
d2 d3
dB
dA
R R
Figura 4.1 Momento fletor
O momento fletor em relação a S, será:
Μ S = R A d A − Ρ1d1 − Ρ 2 d 2 , cargas ou forças a
esquerda,
ΜS = R Bd B − Ρ 3d 3 , (4.1)
cargas ou forças a direita.
63
É de conveniência imaginar que a viga seja formada por
um número infinito de fibras. Deste modo, a viga da figura 4.1
vai fletir, encurvando-se para baixo; as fibras da parte inferior
serão alongadas (tensão de tração) e as da parte superior,
comprimidas (tensão de compressão), figura 4.2.
compressão
B
A
tração
Figura 4.2 Viga simplesmente apoiada
4.1 Considerações Básicas
As seções transversais inicialmente planas, permanecem
planas durante a flexão (hipótese de Bernuilli).
Entre a borda comprimida e a borda tracionada existe
uma camada cujas fibras não sofrem variação alguma de
comprimento, portanto não estão sob tensão; a linha
baricêntrica desta superfície (camada, plano) neutra é
denominada de linha neutra. A linha neutra é a interseção do
plano da seção transversal com o plano formado pelas camadas
neutras, figura 4.3.
superfície neutra
linha neutra
Figura 4.3 Superfície neutra
64
Na flexão simples a linha neutra passa pelo centro de
gravidade da seção transversal.
A linha elástica é o eixo longitudinal da viga deformado,
figura 4.4.
linha elástica
Figura 4.4 Linha elástica
4.2 Lei de Navier
A figura 4.5 mostra a barra AB flexionada. Adotando
como origem do sistema de coordenadas um ponto O na
superfície neutra e o arco JK localizado a uma distância y desta
superfície [Beer and Johnston, 1989].
ρ ρ–y
y
A B c
J y
D K
E
o x
A’ B’
Figura 4.5 Flexão
65
Da figura 4.5 tem-se que:
DE = superfície neutra,
ρ = raio do arco da circunferência DE,
θ = ângulo central correspondente ao arco DE.
O comprimento DE é igual ao comprimento L da barra
indeformada, então:
L = ρ.θ . (4.2)
Agora, considerando um arco JK localizado a uma
distância y da superfície neutra, e observa-se que seu
comprimento é L’, vem que:
L' = (ρ − y ).θ , (4.3)
e então pode-se escrever que a deformação entre L e L’ é:
δ = L ′ − L, (4.4)
e substituindo a equações 4.2 e 4.3 na equação 4.4 tem-se que:
δ = (ρ − y ).θ − ρ.θ = − y.θ . (4.5)
A deformação específica longitudinal εx nos elementos
que compõem a fibra JK é dado por:
δ − y.θ
εx = = ,
L ρ.θ
66
ou
y
εx = − . (4.6)
ρ
O sinal negativo indica que a deformação é de
compressão uma vez que adota-se o momento positivo, e a
concavidade da barra deformada é voltada para cima. Então o
valor da deformação específica dado pela equação 4.6 vale para
qualquer ponto situado à distância y da superfície neutra. A
deformação específica εx varia linearmente com a distância y à
superfície neutra, ao longo da barra.
A maior deformação específica εx ocorre para o máximo
valor de y e chamando de c (figura 4.5) esse valor máximo (que
pode ser em relação à face superior ou inferior da barra), e
expressando por εm o valor absoluto máximo da deformação
específica, vem:
c
εm = , (c = y) (4.7)
ρ
c
e fazendo ρ = , e substituindo na equação 4.6, resulta:
εm
y
εx = − .ε m (4.8)
c
Agora, impondo a condição que as tensões na barra
permaneçam abaixo dos limites de proporcionalidade e
elasticidade do material, e que não vão ocorrer deformações
permanentes, então a lei de Hooke pode ser aplicada para o
estado uniaxial de tensões. Considerando que o material é
homogêneo, vem que:
67
σ x = Ε.ε x (4.9)
e multiplicando a equação 4.8 por E, tem-se que:
−y
Ε.ε x = .E.ε m ,
c
e pela equação 4.9, vem:
−y
σx = .σ m , (4.10)
c
onde σm expressa o maior valor absoluto da tensão (tensão
máxima). A equação 4.10 mostra que, no regime elástico, a
tensão normal varia linearmente com a distância à superfície
neutra (Lei de Navier), figura 4.6
σm, c y
compressão
c
SN
X
tração
σm, t
Figura 4.6 σm, t x σm, c
É possível mostrar que:
Μ.c
σm = , (4.11)
I
onde I é o momento de inércia da área da seção transversal em
68
relação à linha neutra
Relacionando as equações 4.10 e 4.11 vem:
Μ.y
σx = − (4.12)
I
As equações 4.11 e 4.12 são conhecidas como fórmulas
da flexão em regime elástico e a tensão normal σx, provocada
quando a barra se flexiona, é chamada de tensão de flexão.
Pode-se verificar que a tensão é de compressão acima do
eixo neutro (σm<0 , y>0), quando M é positivo; sendo de tração
quando o momento M é negativo.
A relação I/c, equação 4.11, só depende da geometria da
seção transversal e é chamada de módulo ou momento resistente
e é representado pela letra W, então:
I
W= , (4.13)
c
que substituindo na equação 4.11, tem-se:
M
σm = . (4.14)
W
Essa relação mostra que a tensão máxima é
inversamente proporcional ao módulo resistente W, de modo que
uma viga deve ser projetada com o maior valor de W possível,
nas condições de cada problema.
A deformação da barra submetida à flexão é medida pela
curvatura da superfície neutra. A curvatura é definida como o
inverso do raio de curvatura ρ. Então da equação 4.7 vem:
69
1 εm
= (4.15)
ρ c
mas em regime elástico, εm = σm/E e a equação 4.15 torna-se:
1 σm 1 Μ.c
= = . ,
ρ Ε.c Ε.c I
1 Μ
= . (4.16)
ρ Ε.I
4.3 Casos de Flexão
Eixo de solicitação (ES)
É a interseção do plano do momento ou o plano das
cargas com o plano da seção transversal, figura 4.7
E
G N L N
G
L
S
S E L
Figura 4.7 Eixo de solicitação
Flexão simples normal
É quando o eixo de solicitação coincide com um dos
eixos centrais principais de inércia ( e.c.p.i.) da seção
transversal, figura 4.8.
70
E
y
L N
x
(x,y) ⇒ e.c.p.i.
S
Figura 4.8 Flexão simples normal
Flexão simples oblíqua:
É quando o ES não coincide com os eixos centrais
principais de inércia figura 4.9.
y
L S
x
E N
Figura 4.9 Flexão simples obliqua
4.4 Momento de Inércia de uma Área: Raio de Giração
Considera-se a área A, figura 4.10, situada no plano xy
e o elemento de área dA de coordenadas x e y. O momento de
inércia da área A em relação tanto a x como a y, são dados
respectivamente por:
71
y
x dA
y
ρ
A
0 x
Figura 4.10 Momento de inércia de uma área
I x = ∫ y 2 .dA , (4.17)
A
I y = ∫ x 2 .dA , (4.18)
A
e essas integrais são chamadas de momentos de inércia
retangulares, pois são calculadas em função de x e y e elas são,
na realidade, integrais duplas. No entanto, é possível reduzir o
problema ao cálculo de uma integral em uma variável,
escolhendo para dA elementos na forma de faixas horizontais ou
verticais.
Define-se momento de inércia polar da área A em
relação ao ponto O como:
J 0 = ∫ ρ 2 .dA , (4.19)
A
onde ρ é a distância do ponto 0 ao elemento dA.
Existe uma relação entre o momento de inércia polar J0
de uma certa área e os momentos de inércia Ix, Iy dessa área.
Então,
72
J 0 = ∫ ρ 2 .dA = ∫ (x 2 + y 2 ).dA = ∫ x 2 .dA + ∫ y 2 .dA
A A A A
J0 = Ix + Iy . (4.20)
O raio de giração de uma área A em relação ao eixo x é
dado por:
Ix
rx = ⇒ I x = rx2 .A , (4.21)
A
e de modo semelhante:
Iy
ry = ⇒ I y = ry2 .A , (4.22)
A
e
J0
r0 = ⇒ J 0 = r02 .A . (4.23)
A
Substituindo Ix, Iy, J0 em termos dos raios de giração na
equação 4.20, encontra-se:
r02 .A = rx2 .A + ry2 .A
r02 = rx2 + ry2 (4.24)
Exemplo 1
Determinar, para a área retangular o momento de inércia Ix em
relação ao eixo x e o raio de giração rx
73
y
h/2 dy
y
h
0 x
– h/2
Adota-se como elemento de área a faixa horizontal de
largura b e espessura dy. O momento de inércia da faixa em
relação a x é dado por:
I x = ∫ y 2 .dA = ∫ y 2 .([Link] ) = b ∫ y 2 .dy ,
A A A
h h
mas a integração é de: y = − e y=+ ,
2 2
[ ] b ⎡ h3 h3 ⎤
h/2
h/2 b 3
I x = b ∫−h / 2 y 2 .dy = y = ⎢ + ⎥,
3 −h / 2 3 ⎢⎣ 8 8 ⎥⎦
1
Ix = .b.h 3 .
12
O raio de giração é dado por:
Ix
rx = ,
A
e substituindo I x determinado acima nesta equação, encontra-
74
se:
h. 3
rx = .
6
Exemplo 2
Determinar para a área circular, figura abaixo, o momento de
inércia polar J0 e os momentos inerciais Ix e Iy .
y
dρ
0 x
∫
J 0 = ρ 2 .dA ⇒ dA = 2.π.ρ.dρ ,
A
[ ]
2.π 4 π.r 4
r r
J 0 = ∫ ρ 2 (2.π.ρ.dρ) = 2.π.∫ ρ 3 .dρ = ρ = .
A 0 4 0 2
Da equação 4.20, e devido a simetria da área circular
(Ix=Iy), vem que:
J0 π.r 4
J 0 = I x + I y = 2.I x ⇒ I x = ⇒ Ix = Iy = .
2 4
4.5 Momentos de Inércia das Figuras Planas
A figura 4.1 mostra o momento de inércia de algumas
75
figuras planas (Beer and Johnston, 1989).
Figura 4.1 Momento de inércia de figuras planas
76
4.6 Tipos de Vigas
De um modo geral, as vigas podem ser classificadas em,
figura 4.11 (Nash, 1982):
Viga em balanço ou engastada.
carga centrada
P
Figura 4.11.a Viga em balanço
Viga simples
Q carga distribuída
Figura 4.11.b Viga simples
77
Vigas simples com balanços
P1 P2 P3
P
Figura 4.11.c Vigas simples com balanços
Viga apoiada engastada
Figura 4.11.d Viga apoiada engastada
Viga engastada em ambas extremidades
Figura 4.11.e Viga engastada em ambas extremidades
78
Viga continua
P1 P2
Figura 4.11.f Viga continua
Exercícios Propostos
1) Uma barra de aço tem seção retangular de 20x60 mm e fica
submetida à ação de dois conjugados iguais e de sentido
contrário que agem em um plano vertical de simetria da
barra, figura abaixo. Determinar o momento M Dado: σm=
250 MPa.
M M’ 20 mm
60 mm
2) Uma viga está solicitada por um momento de 140 Nm como
mostra a figura a seguir. Sua seção transversal é retangular
de 25 x 50 mm. Determinar as tensões extremas devidas a
flexão e indicar a variação das tensões ao longo da altura da
viga.
79
140 Nm 140 Nm 25 mm
LN 50 mm
3) Uma viga de seção circular, de 20 cm de diâmetro, é
simplesmente apoiada e suporta sua cargas de 10 kN
dispostas como indica a figura abaixo. Determinar as tensões
máximas.
10kN 10kN
30 cm 30 cm
LN
1 2
10kN
10kN
4) A figura abaixo, mostra uma viga engastada em uma das
extremidades, com 5m de comprimento, construída de aço e
a seção transversal é retangular 5cmx8cm. Determinar a
seção onde a tensão é máxima e o seu valor .
150 N
5m 5 cm
M
LN 8 cm
A B
80
5) Um tubo retângular é fabricado por pressão, figura abaixo,
de uma liga de aluminio para a qual σe=150 MPa, σu=300
MPa, E= 70 GPa. O tubo é engastado em uma de suas
extremidades. Determinar : a) o momento fletor M para o
qual o fator de segurança FS=3,0; b) o raio de curvatura
correspondente no tubo.
80 mm M
120 mm
e = 8 mm
6) Determinar a razão entre os módulos de resistência a flexão
de uma seção transversal quadrada e de uma seção
transversal circular e ambas têm a mesma área.
7) Uma viga de seção retangular 20 cm x 30 cm suporta um
momento fletor positivo de 2 kNm. A peça é construída com
um material que apresenta σu = 180 N/cm2 σe= 320 N/cm2.
Determinar o FS.
8) A viga da figura abaixo tem seção transversal quadrada de 12
cm de lado. É construída de material dúctil com σu = 3,6
N/cm2. Calcular o fator de segurança.
3m
1N
81
9) Um viga engastada em uma extremidade, tem 2,7 m de
comprimento e seção transversal circular, está sob a ação de
uma carga de 4 kN em sua extremidade livre. O material é de
aço e a tensão admissível é 1440 N/cm2. Determinar o
diâmetro da barra.
10) Determinar, como é mais vantajoso dispor uma viga de seção
transversal quadrada para resistir a flexão:
a) de tal maneira que o plano de atuação do momento fletor
contenha um dos lados;
b) de tal maneira que o plano de atuação do momento fletor
contenha uma das diagonais.
11) Uma barra de alumínio tem seção transversal em forma de
um semicírculo, com r = 12 mm. A barra é flexionada até se
deformar em um arco de circunferência de raio médio ρ = 2,5
m. A face curva da barra fica voltada para o centro de
curvatura do arco, determinar a tensão máxima de tração e
de compressão da barra. Adotar E = 70 GPa.
82
12) Calcular o fator de segurança para seção transversal da
figura a seguir, submetida a um momento fletor de 10 kNm.
Dado: σu = 3200 N/cm2.
10 cm
5 cm 5 cm
l = 20 cm
13) Uma viga de madeira, está solicitada pelas cargas P = 50 N,
P1 = 80 N, P2 = 00N, que atuam às distâncias d = 3 m, d1 = 2
m e d2 = 1m, do engastamento. A tensão admissível é 43
N/cm2 e a seção transversal é retangular. Determinar as
dimensões da seção, sabendo-se que a relação da base para a
altura é 5/7.
P2 P1 P
d2
d1
d
14) Uma viga de madeira com 3 m de comprimento e seção
retangular de 20 cm x 28cm está engastada em uma de suas
extremidades e livre na outra. Determinar a carga P que pode
83
atuar no extremo livre da viga, com a devida segurança,
sendo a tensão admissível igual a 44 kgf/cm2, nas seguintes
condições:
a) com a altura h vertical;
b) com a altura h horizontal.
h
b
b
h
15) Calcular o fator de segurança para a seção transversal, da
figura abaixo, submetida a um momento fletor de 10 kNm,
sendo σu = 4,6 x 102 N/cm2.
r=15 cm
10 cm
84
16) A viga, conforme a figura a seguir, está submetida a um
momento fletor de 3 kNm, e a seção transversal é em forma
de T . Determinar: a) as máximas tensões de tração e
compressão; b) o raio de curvatura. Dado: E = 165 GPa
M
20mm
60mm
20mm 40mm 20mm
Respostas dos Exercícios Propostos
1- 3 kNm.
2- 1344x104 N/m2 (tração); -1344x104 N/m2 (compressão).
3- 3,82x106 N/m2 (tração); -3,82x106 N/m2 (compressão).
4- No engastamento; 1,406x107 N/m2 (tração);
-1,406x107 N/m2 (compressão).
5- 9,2 kNm; 42 m.
2
6- π.
3
7- 2,7.
8- 3,46.
9- 19,7 cm.
10- w =w 2 ; situação (a) é mais vantajosa.
a b
11- 193 MPa; 142 MPa.
85
12- 4,11.
13- 14,3 cm; 20 cm.
14- 383,3 kgf; 273,8 kgf.
15- 1,2.
16- 44,2x106 N/m2 (tração); -59,7x106 N/m2; 127,1 m.