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Estudo da Flambagem em Estruturas

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105

6. Flambagem

Nos capítulos anteriores duas foram as preocupações


principais:
a) resistência da estrutura, ou seja, a sua capacidade
para suportar um certo carregamento, sem ocorrer tensões
excessivas no material;
b) a capacidade da estrutura para suportar um
determinado carregamento, se sofrer deformações inaceitáveis.
Deste modo, neste capitulo será destinado ao estudo da
estabilidade da estrutura isto é, sua capacidade para suportar,
uma dada carga, sem sofrer uma brusca mudança em sua
configuração. O principal objetivo deste capitulo será a análise
de colunas quando submetidas a cargas axiais e um breve
comentário sobre cargas excêntricas.

6.1 Definição

Flambagem é o fenômeno que ocorre quando uma carga


axial de compressão atuando em uma barra ocasiona uma flexão
lateral na direção do raio de giração mínimo de sua seção
transversal, rompendo a peça com uma carga menor que a carga
de ruptura à compressão simples, figura 6.1.

P P

Figura 6.1 Flambagem

6.2 Estudos da Flambagem

Supondo que as colunas em estudo sejam perfeitamente


retilíneas, elásticas, com carregamento centrado, isto é, colunas
106

ideais, pode-se dizer que Pcr representa a capacidade de carga


critica (última) desta coluna para que a mesma não sofra ação de
flambagem. Em outras palavras, está se tratando de uma
situação de equilíbrio, isto é:

• equilíbrio estável ⇒ P < Pcr ;


• equilíbrio indiferente ⇒ P = Pcr ;
• equilíbrio instável ⇒ P > Pcr .

Deste modo, quer se determinar o valor crítico da carga


P, isto é, o valor Pcr , para o qual a situação indicada na figura
6.2a, deixa de ser estável. Se P>Pcr, o menor desalinhamento ou
perturbação provoca a flambagem da coluna, que assume a
configuração deformada da figura 6.2b. Estas figuras
representam colunas com extremidades articuladas[Beer and
Johnston, 1989].

P P

A A

B B

b
a
Figura 6.2 Colunas com extremidades
articuladas

O valor da carga crítica Pcr foi definida pelo estudo de


Euler e depende do tipo de material, da seção transversal e do
comprimento da coluna, e é dada por:
107

π 2 .E.I
Pcr = , (6.1)
L2

e esta expressão é conhecida como fórmula de Euler.


No caso de colunas com seção transversal quadrada ou
circular, o momento de inércia I desta seção em relação a
qualquer eixo centroidal é o mesmo, de modo que a coluna pode
flambar em qualquer plano, dependendo apenas de restrições
que possam ser colocadas pelas ligações das extremidades. Para
seções transversais de outras formas, a carga crítica deve ser
calculada para I=Imin a ser adotado na equação 6.1. Se a
flambagem ocorrer, ela acontecerá em um plano perpendicular
ao eixo principal de inércia correspondente.
O valor da tensão corresponderá à carga crítica e
chamada tensão crítica, representada por σ cr .
Fazendo I=A.r2, onde A é a área da seção transversal e r
o raio de giração, tem-se que:

Pcr π 2 .E.I
σ cr = = ,
A 2 I
L. 2
r
π .E
2

σ cr = , (6.2)
(L / r ) 2

e a relação L/r é chamada índice de esbeltez da coluna. Deve-se


usar o valor mínimo do raio de giração r na determinação do
índice de esbeltez e da tensão crítica de uma coluna. Este índice
é uma característica da viga considerada, pois depende
basicamente do tipo de seção e do seu momento de inércia; é
também representado por λ, isto é, λ = L/r.

6.3 Limitação da Fórmula de Euler

O módulo de elasticidade E foi utilizado na dedução da


fórmula de Euler de modo que todo o raciocínio apresentado
anteriormente é aplicável enquanto o comportamento do material
108

se conserva linearmente elástico (Lei de Hooke), figura 6.3. Para


sair desta limitação, a equação de Euler será escrita de uma
forma diferente.

σ
σp

ε
Figura 6.3 σ x ε
Então:

π 2 .E E
σ cr = ≤ σ p ⇒ λ ≥ π. , (6.3)
λ 2
σp

na igualdade: σ cr = σ p ⇒ λ = λ lim

E
λ lim = π. , (6.4)
σP

logo, a fórmula de Euler é válida para, figura 6.4.

L
λ= ≥ λ lim , (6.5)
rmin

sendo rmin raio de giração mínimo. O raio de giração é sempre


perpendicular ao eixo em relação ao qual o momento de inércia I
é calculado.
109
σ

σp
σ cr
hipérbole de Euler

0 λ lim λ

Figura 6.4 σ x λ

Da figura 6.4 vem que:


• quando λ < λlim ⇒ peças curtas,
• quando λ ≥ λlim ⇒ peças longas.
No estudo de Euler, foi suposto uma peça em condições
ideais, com carga perfeitamente centrada, eixo longitudinal
retilíneo e feita de material homogêneo, sendo portanto, um
estudo teórico.

6.4 Estudo Empírico

O fato dos materiais usuais não serem perfeitamente


homogêneos em todos os sentidos, aceita-se esta imperfeição,
procurando removê-la por meio de coeficientes (fatores) de
segurança, fornecidos por ensaios. No Laboratório da Politécnica
de Zürich, Tetmajer estabeleceu para os limites aquém dos de
Euler, a fórmula empírica, conhecida como fórmula de Tetmajer
[Lacerda, 1964].

Então:

σ cr = K − Hλ , (6.6)

onde K, H são constantes do material, por exemplo, mostrados


na tabela 6.1
110

Tabela 6.1 Constantes de alguns materiais

Material E (kgf/cm2) σp(kgf/cm2) K(kgf/cm2) H(kgf/cm2)


Aço de construção 1,96x106 1600 3030 12,6
Aço doce 2,1 x106 1900 3100 11,4
Madeira (pinho) 0,8 x105 80 293 1,94
Ferro fundido 1,05 x106 1000 7700 6,2

A figura 6.5 mostra os limites para o emprego da


fórmula de Tetmajer.

Tetmajer
σ

σe
σp
Euler

0 λ
peças λ lim

peças
curtas λ lim longas

Figura 6.5 Limites para o emprego da fórmula


de Tetmajer

Então, quando:

π 2 .E
λ ≥ λlim ⇒ Euler : σ cr = 2 ,
λ

λ < λlim ⇒ Tetmajer : σ cr = K − H.λ

Quando as peças são muito curtas, não há flambagem.


111

6.5 Roteiro das Condições de Segurança

L
a) Calcula-se o índice de esbeltez da peça: λ = ;
rmin

E
b) Calcula-se o índice de esbeltez limite: λ lim = π ;
σp
c) Calcula-se a carga crítica:
se λ ≥ λlim ⇒ Euler : equação 6.2,
se λ < λlim ⇒ Tatmajer : equação 6.6;
σ cr
d) Tensão admissível a flambagem: σ fl = ;
FS
P
e) Verificação das tensões de serviço: σ = ≤ σ fl .
A

6.6 Comprimentos de Flambagem. Fórmula de Euler

A equação 6.1 foi deduzida para o caso de uma coluna


com as duas extremidades articuladas. No caso de uma coluna
com uma extremidade livre A, onde se aplica uma carga P, e
outra extremidade B engastada, figura 6.6a, observa-se que a
coluna se comporta como a parte de uma coluna com
extremidades articuladas, a figura 6.6b e carga crítica tanto para
a coluna da figura 6.6a como para a coluna 6.6b é a mesma e é
obtida pela equação 6.1, usando um comprimento para a coluna
igual ao dobro do comprimento L real, isto é, Le=2.L, onde Le é o
comprimento efetivo de flambagem.
112

P P

A A

L Le= 2L

B B

a b

Figura 6.6 Colunas com extremidades livre e engastada

Então a carga crítica é dada por:

π 2 .E.I
Pcr = , (6.7)
L2e
e a tensão crítica,

π 2E
σ cr = , (6.8)
(L e / rmin )2
e a relação L e / rmin é o índice efetivo de esbeltez da coluna, e no
caso considerado, é igual a 2L / rmin .
A figura 6.7 mostra vários casos de condição das
extremidades e os correspondentes comprimentos equivalentes.
113

Uma extremidade engastada Biarticulada Articulada- Biengastada


e outra livre engastada
P P
P
P
A
A A A

L
Le = 0,7L
B Le= 2L Le = L Le = 0,5L

A' B B B
P

Figura 6.7 Comprimentos efetivos de flambagem

6.7 Carga Excêntrica. Fórmula da Secante

Será analisado nesta seção o problema da flambagem de


colunas de um outro modo, levando em consideração que a força
P aplicada sobre ela não é perfeitamente centrada. Representado
por "e" a excentricidade da carga, isto é, a distância entre a linha
de ação de P e o eixo da coluna, figura 6.8a. Substituindo a
carga excêntrica por uma carga centrada P e um conjugado MA
de momento igual a MA=P.e, figura 6.8b.
P e P MA=P.e
A A

L =
B B MB=P.e
a ' b P'
P
Figura 6.8 Carga excêntrica
114

Por menor que sejam a carga P e a excentricidade "e", o


conjugado MA sempre irá provocar uma deflexão na coluna,
figura 6.9. Se a carga excêntrica aumentar, também aumentarão
a carga centrada P e o conjugado MA, o que provoca uma
majoração da flexão da coluna. Analisando desta maneira, o
problema da flambagem não é mais uma questão de se
determinar até que ponto uma coluna se mantém reta e estável
sob ação de uma carga crescente, mais sim uma questão de se
determinar até que ponto se pode permitir a majoração da flexão
pelo aumento da carga, sem exceder a tensão admissível ou a
deflexão ymax permitida.
P
MA=P.e
A

ymax

B
P' MB=P.e
Figura 6.9 Deflexão da Coluna
É possível mostrar que a deflexão máxima é dada por:

⎡ π P ⎤
y max = e ⎢sec − 1⎥, (6.9)
⎣ 2 Pcr ⎦

onde Pcr é dado pela equação 6.1


A tensão máxima σ max ocorre na seção da coluna em
que atua o maior momento fletor, isto é, na transversal que
passa pelo ponto C, figura 6.10.
115

y
A

L/2
C
ymax

L/2

x
Figura 6.10 Deflexão máxima

Essa tensão é obtida pela soma da tensão normal


devida à força axial e da tensão devido ao momento fletor que
agem naquela seção (ver Seção 4.2, equação 4.11). Então:

P M max .c
σ max = + , (6.10)
A I
e após sucessivas manipulações algébricas, vem que:

P ⎡ e.c ⎛ P L ⎞⎤
σ max = ⎢1 + 2 . sec⎜⎜ . ⎟⎟⎥ . (6.11)
A ⎢⎣ r ⎝ E.I 2 ⎠⎥⎦

Um outro modo de calcular σ max é dado por:

P ⎡ e.c π P ⎤
σ max = ⎢1 + 2 . sec . ⎥. (6.12)
A⎣ r 2 Pcr ⎦

A equação 6.12 pode ser usada em qualquer caso de


condição de apoio, desde que se aplique a expressão apropriada
para a carga crítica.
116

Na equação 6.11, fazendo I=A.r2 e resolvendo a equação


em relação a P/A, tem-se que:

P σ max
= , (6.13)
A e.c ⎡1 P Le ⎤
1 + 2 . sec ⎢ . . ⎥
r ⎣ 2 E.A r ⎦

onde o comprimento efetivo de flambagem é usado para a


equação aplicável para quaisquer condições de extremidades.
Esta fórmula é conhecida como fórmula da secante e é uma
equação transcendente em P/A, pois aparece nos dois termos e é
resolvida por métodos iterativos.
Para valores pequenos de Le/r, a secante é
aproximadamente igual a 1 e a equação 6.13 pode ser escrita na
forma:

P σ
= max . (6.14)
A e.c
1+ 2
r

6.8 Considerações

Uma coluna que flamba sob o carregamento


especificado no cálculo não está dimensionada corretamente.
Barras submetidas à compressão axial, ao mesmo
tempo que suportam cargas laterais, são chamadas vigas-
colunas.
Q
P P

Figura 6.11 Viga- coluna


117

Devido a carga Q a barra sempre flexiona lateralmente,


independente do valor de P.
O índice de esbeltez é usado como medida de fraqueza
de uma coluna. Então, quanto maior for o raio de giração mais
resistente será a coluna.

Exercícios Propostos

1) Determinar o índice de esbeltez de uma barra de madeira de


8 m de comprimento e seção retangular de 20x25 cm.
Considerar engastada em ambas as extremidades.

2) Uma barra quadrada de 25 cm de lado e 800 cm de


comprimento, apresenta módulo de elasticidade 2x104
N/mm2. Calcular a carga crítica de Euler para a barra
engastada em uma extremidade e livre na outra.

3) Calcular com coeficiente de segurança igual a 3, a carga


admissível de uma coluna oca de aço doce, sendo o raio
externo R = 5 cm e o interno r = 3 cm, admitindo os quatro
casos fundamentais.
Dados : E = 2,15 x 1010 kgf/m2; σp = 1900 x 104 kgf/m2;
L = 4 m; K = 3100 x 104 kgf/m2; H = 11,4 x 104 kgf/m2.

4) Uma coluna oca de ferro fundido tem como raio externo R = 6


cm e altura L = 6,0 m. Qual o raio interno r para que seja
aplicável a fórmula de Euler, sendo a coluna articulada nos
extremos.
Dados: E = 2,1 x 106 kgf/cm2; σp = 1000 kgf/cm2.

5) Uma barra prismática de aço, com seção transversal


retangular, de 4 cm x 5 cm é articulada nas extremidades e
está submetida a uma carga axial de compressão. Sendo de
2.300 N/cm2 o limite de proporcionalidade do aço e E = 2,1 x
106 N/cm2, determinar o comprimento mínimo, L, para a
aplicação da fórmula de Euler.

6) Admitindo que a barra do problema 5 tenha o comprimento


de 180 cm, qual a carga de flambagem.
118

7) Uma barra de aço de seção transversal retangular de 2,5 cm


x 5,0 cm e tendo articulação nas duas extremidades, é
comprimida axialmente. Determinar:
a) o comprimento mínimo para que a tensão crítica, segundo
a equação de Euler, possa ser aplicada, sabendo que E = 21
x 105N/cm2 e σp = 2100 N/cm2.
b) a tensão crítica quando o comprimento da barra for 1,5
m.

8) Uma coluna de extremidades articuladas tem seção


transversal quadrada e 2 m de comprimento. Ela é
constituída de uma qualidade de pinho para a qual E = 13
GPa, σ =12MPa para compressão. Usando um coeficiente de
segurança 2,5 no cálculo da carga crítica de Euler para a
flambagem, determinar a dimensão da seção transversal, de
modo que a coluna possa resistir com segurança a:
a) uma força de 100 kN;
b) uma força de 200 kN.

9) Uma coluna vazada de ferro fundido, com 5 m de altura,


engastada rigidamente na base, suporta na extremidade
livre uma carga admissível de 5000 kgf. A relação entre os
diâmetros externo e interno é 2. Determinar estes diâmetros e
verificar se os resultados são válidos para utilizar a equação
de Euler. Dados: E = 2 x 106 kgf/cm2; σp = 2000 kgf/cm2; FS
= 8.

Respostas dos Exercícios Propostos

1- 69,2.
2- 2,51x105 N.
3- 4,67x103 kgf; 1,87x104 kgf; 3,36x104 kgf; 3,88x104 kgf.
4- 5,8 cm.
5- 110,12 cm.
6- 17080 N.
7- 71,5 cm; 4,78x106 N/m2.
8- 98,3 mm (dimensão aceitável); 116,9 mm (dimensão não
aceitável).
9- 7,24 cm; 14,49 cm.

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