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Análise de Tensões e Deformações em Materiais

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43

3. Estado Plano e Múltiplo de Tensões

3.1 Deformação de Cisalhamento em Planos Perpendiculares

As equações 1.17, relacionando as tensões normais e


deformações específicas, foram deduzidas supondo-se que não
havia tensões de cisalhamento envolvidas. A figura 3.1 mostra o
caso de estado de tensões mais geral agindo sobre um cubo
elementar. Esta figura apresenta as tensões normais σx, σy, σz
bem como as tensões de cisalhamento τxy, τxz, τyz ( as
correspondentes τyx, τzx, τzy ). Estas tensões não tem nenhum
efeito direto nas deformações específicas e enquanto elas
permanecerem pequenas, não vão influenciar a dedução nem a
validade das equações 1.17. [Beer and Johnston, 1989].

z
σz
τzy
τzx
τyz
τxz
σy
τyx y
τxy
σx

x σy

Figura 3.1 Tensões normais e cisalhamento

Por exemplo, as tensões de cisalhamento τxy e τyx tendem


a deformar o cubo elementar na forma de um rombóide segundo
um ângulo γ (γxy), chamado de deformação de cisalhamento,
figura 3.2; as faces se transformam em losangos,
44

y τyx
τxy 90 + γxy
γxy τxy
90 – γxy
τyx x

e Figura 3.2 Deformação de cisalhamento γ

γ ≅ tan γ xy , (3.1)

em radianos e é positivo e neste caso a deformação provoca uma


redução em γ xy . As tensões de cisalhamentos em planos
mutuamente perpendiculares de um elemento infinitesimal são
numericamente iguais ( Teorema de Cauchy), então:

τ xy = τ yx , (3.2)

Para os valores de tensão que não excedam o limite de


proporcionalidade no cisalhamento, pode-se escrever então ( nos
materiais homogêneos e isotrópicos):

τ xy = Gγ xy , (3.3)

e essa relação é a Lei de Hooke para tensões e deformações de


cisalhamento, onde G é o módulo de elasticidade transversal do
material e expresso nas mesmas unidades de τxy, pascal. Deste
modo, pode-se escrever as seguintes equações adicionais:

τ yz = Gγ yz ,
τ zx = Gγ zx . (3.4)

É possível relacionar o módulo de elasticidade transversal


45

G com o módulo de elasticidade E e o coeficiente de Poisson


através da seguinte equação:

Ε
G= . (3.5)
2(1 + υ)

Em resumo : só há variação de forma; o volume se


mantém.

Exemplo
Um prisma retangular é feito de material que tem módulo de
elasticidade transversal G= 600 MPa. Ao prisma é colado duas
chapas horizontais rígidas. A chapa inferior é fixa e a superior é
submetida a uma força Ρ provocando um movimento de 0,8
mm. Determinar :
a) A deformação de cisalhamento
b) a força Ρ .

y 160 mm y
50 mm
8 mm Ρ
Ρ
D
γ D1
40 mm
C C
A B x x

z
z

a)

γ xy ≅ tan γ xy

0,8
γ xy = = 0,020rad
40
46

b) Calculo de τxy

τ xy = G.γ xy = 600x 106 x 0,020 = 12MPa

Cálculo da força P

P = τ xy .A
A = 0,160 x 0,050 = 0,008 m 2
P = 12 x10 6 x 0,008 = 96 x10 3 N

3.2 Concentração de Tensões

Adotou-se até este ponto que as tensões normais são


uniformemente distribuídas em qualquer seção transversal
perpendicular ao eixo de uma barra, no caso a força axial. Se a
uniformidade for interrompida, ou se a força for aplicada sobre
uma área muito pequena existirão perturbações na tensão. Esse
é o enfoque encontrado em textos mais avançados onde a Teoria
da Elasticidade utiliza-se de métodos matemáticos, como por
exemplo de Elementos Finitos, para a determinação de tensões
em uma barra. [ Beer and Johnston,1989]. Se as forças são
aplicadas no centro das placas, estas deverão se mover de uma
direção a outra sem rotação, provocando um encurtamento da
barra e um aumento da largura e na espessura. Assume-se que
o eixo da barra se mantém retilíneo e que as seções planas se
mantém planas e que todos os elementos se deformam da
mesma maneira. A seguir será feita uma análise qualitativa do
problema.
A figura 3.3a mostra um bloco que encontra sob a
P
compressão Ρ , podendo-se determinar a σ = .
A
47

P P P P

b/2 b/4
b σmin
b
σmin σméd.
σméd. σmáx
σmin σmáx
σméd.
P' σmáx

c d
a b
Figura 3.3 Bloco em compressão

Através de um raciocínio lógico percebe-se que as


deformações são maiores nas proximidades do ponto onde a
força é aplicada. Logo, as tensões correspondentes devem ser
máximas. As figuras 3.3b, 3.3c, 3.3d mostram a distribuição de
tensão para as diversas seções. Nota-se que quanto mais
próximo da força aplicada, maior a tensão normal. Estes
resultados, que não se aplicam somente a carregamento axial,
mas a qualquer tipo de carregamento, é conhecido como
princípio de Saint-Venant da rápida dissipação de tensões
localizadas: “O efeito de forças ou tensões aplicadas sobre uma
área pequena pode ser tratada como um sistema estaticamente
equivalente, o qual, a uma distância aproximadamente igual a
largura ou espessura do corpo, provoca distribuição de tensões
que obedecem a uma lei simplificada”.
Deste modo, para a distância b a expressão σ = P A é
valida, e que para qualquer nível onde a tensão é investigada
com precisão, a tensão média é dada pela mesma expressão. A
tensão máxima σmax. Se relaciona com a tensão média através da
relação:

σ max
Κ= , (3.6)
σ med

onde K é o coeficiente de concentração de tensões.


A tabela 3.1, mostra a relação entre as σmax ,σmed, σmin em
função da distância b.
48

Tabela 3.1 Relação entre as tensões e b

Distância σmax σmin


b 1,027 σmed 0,973 σmed
b/2 1,387 σmed 0,668 σmed
b/4 2,575 σmed 0,198 σmed

3.3 Tensão Admissível

Para o projeto de novas peças e estruturas bem como


para análises daqueles já existentes é importante que se conheça
como o material que compõe irá atuar sob condições de
carregamento conhecidas, o que geralmente pode ser feito em
testes laboratoriais. Uma força necessária para provocar a
ruptura de uma peça é chamada de carregamento último Pu ( ver
seção 1.7.2). A tensão associada é a tensão última σu e se
relaciona através de.

Ρu
σu = . (3.7)
Α

Para o projeto destas novas peças, a chamada tensão


admissível σ é definida em patamares bastante inferiores a σ u .
O fator ou coeficiente de segurança FS é a razão entre o
carregamento último e o admissível, isto é,

Ρu
FS = , (3.8)
Ρ

mas

Ρu = σ u .Α e Ρ = σ.Α ,
49

o fator de segurança pode ser rescrito como:

σu
FS = . (3.9)
σ

Pode-se dizer que se deseja um σ que satisfaça a relação.


P
σ≥ . (3.10)
A

3.4 Análise de Tensões e Deformações. Círculo de Mohr

Conforme visto anteriormente, o estado mais geral de


tensões, em um ponto P, pode ser representado por seis
componentes: σx, σy e σz representando as tensões normais
exercidas nas faces de um cubo elementar, centrado no ponto, e,
τxy, τyz , τzx representando as tensões de cisalhamento, todas
agindo no mesmo cubo, dentro de um sistema de coordenadas.
O propósito desta seção é determinar como se
transformam as componentes das tensões quando ocorre uma
rotação dos eixos coordenados.
O caso se situa dentro do chamado “estado plano de
tensões”, nos quais duas das faces do cubo elementar se
encontram isentas de tensões. Este seria o caso de uma chapa
fina, submetida a forças que atuam no plano médio de tensões
(onde σz= τzx= τzy = 0) representado pelas respectivas
componentes de tensão σx, σy e τxy conforme a figura 3.4.

Y Y
σy σ
τxy τxy
τyz
σx
p p σx X
σz X

Z
τxz
Figura 3.4 Ponto sob estado de tensão
50

Deseja-se encontrar as componentes σx, σy e τxy relativas


as rotações deste cubo, em torno do eixo Z, em um ângulo θ,
figura 3.5.

Y
θ
Y’ τx’ y’
σy’
X’
σx’
θ
p X

Z=Z’

Figura 3.5 Rotações centradas no ponto

Após desenvolvimentos matemáticos apresentados, por exemplo,


por Beer & Jonhston (1989), tem-se que, para a componente
σ x' :

σx + σy σx − σy
σ ' = + .cos2θ + τ xy .sen2θ (3.11)
x 2 2

para a componente σ y ' :


51

σx + σy σx − σy
σ ' = − .cos2θ − τ xy .sen2θ (3.12)
y 2 2

e para componente τ x ' y ' :

σx − σy
τ x 'y ' = − . sen 2θ + τ xy . cos 2θ. (3.13)
2

Considerando as equações 3.11 e 3.12 , verifica-se que:

σ x' + σ y' = σ x + σ y . (3.14)

Como σ z = σ z ' = 0 , pode-se concluir que a soma das


tensões normais em um elemento submetido a um estado plano
de tensões impede da orientação do mesmo.

As equações 3.11 e 3.12 são equações paramétricas de


uma circunferência. Após manipulações algébricas (Beer &
Jonhston, 1989) encontram-se as expressões:

(σ x ' − σ med ) 2 + τ 2x ' y ' = R 2 , (3.15)


52

onde:

σx + σy
σ med = , (3.16)
2

2
⎛ σx − σy ⎞
R = ⎜⎜ ⎟ + τ 2xy .
⎟ (3.17)
⎝ 2 ⎠

A equação 3.15 é a expressão de uma circunferência de


raio R com centro em um ponto C, cujas coordenadas são (σmed,
0), conforme mostra a figura 3.6:

σ' D
M(σ x ' , τ x ' y ' )
tensão de
cisalhamento,τ σmin
R τx’y’
B θp 2θp A
O C
tensão de tração e
de compressão,δ

σmed
E
σmáx

Figura 3.6 Círculo de Mohr


53

A figura 3.6 é conhecida como circulo de Mohr, e será


motivo de estudo mais adiante. Desta figura destacam-se:

ponto A: máximo valor de tensão normal σmax;

ponto B: mínimo valor de tensão normal σmin;

pontos D e E: máximo valor da tensão de cisalhamento τmax;

pontos D e E: correspondem a tensão média σmed;

raio R: equivalente ao valor máximo da tensão de cisalhamento;

ponto C: corresponde a σmed.

Uma equação para o ângulo θ pode ser obtida a partir da


equação 3.13 considerando os pontos A e B, fazendo τx’y’ = 0;

2.τ xy
tan2θ P = . (3.18)
σx −σy

A equação 3.18 define dois valores 2θp com diferença de


180º ou dois valores θp com diferença de 90º. Qualquer um
desses valores pode ser usado na determinação da orientação do
cubo elementar correspondente

As tensões normais σmax e σmin são chamadas de tensões


principais no ponto considerado. As faces do cubo elementar são
os planos principais. A equação 3.18 permite afirmar que não
existem tensões de cisalhamento nos planos principais, pois τx’y’
é igual a zero.

Da figura 3.6, observa-se que:


54

σ max = σ med + R , (3.19)

e que:

σ min = σ med − R , (3.20)

Por analogia aos pontos A e B, o valor do ângulo θc com


respeito ao alinhamento D E, é dado por:

σx − σy
tan 2θ c = − , (3.21)
2 τ xy

Os ângulos θp e θc são inversos negativos, logo, separados


por 45º. Deste modo, os planos de máxima tensão de
cisalhamento formam ângulos de 45º com os planos principais.

A tensão normal que corresponde a condição de tensão


máxima de cisalhamento é σ’ e é equivalente a σmed.

Uma forma gráfica alternativa para problemas


relacionados ao estado plano de tensões é conhecida como
Circulo de Mohr. Esta solução gráfica foi sugerida por Otto Mohr
(1835 – 1918) cujo formato é similar ao círculo mostrado na
figura 3.6. Para a construção do círculo de Mohr, algumas
convenções podem ser definidas a priori:

a) Quando a tensão de cisalhamento provocar rotação


do elemento no sentido horário, o ponto
correspondente fica acima do eixo horizontal; caso
contrário, o ponto fica abaixo.
55

b) Quando a tensão normal for positiva (tração), o


ponto correspondente fica à direita do eixo vertical;
caso contrário, o ponto fica à esquerda.

Exemplo.

Considere um cubo elementar sujeito a um estado de tensões. a)


Construir o Círculo de Mohr; b) Determinar, graficamente: as
tensões principais, a média, a tensão máxima de cisalhamento,
as tensões normais correspondentes a de cisalhamento e
representá-las graficamente nos planos onde ocorrem. São
dados:

σy
τxy
σx = 35 MPa
σx
σy = –20 MPa

τxy= 15 MPa

a) Circulo de Mohr

Escala: 1cm – 10 MPa

X ( 35 MPa, 15 MPa)

Y ( 20 MPa,–15 MPa)
56
τ
D

2θp
θp
B O C
A σ

Tensões principais e média:

OA = σ max ≅ 39 MPa

OB= σ min ≅ 24 MPa

OC= σ med ≅ 7,5 MPa

Tensão máxima de cisalhamento e as tensões normais


correspondentes:

CD= τ max ≅ 32 MPa

OC= σ ' ≅ 7,5 MPa


57

b
14º σ min X

45º σ max

31º a

σ' e

τ max

σ'
d

Exercícios Propostos

1) Espera-se que uma barra de alumínio se alongue de 2mm.


Determinar o menor diâmetro e o menor comprimento que
devem ser adotados para a barra, quando a tração for 2200N.
Dados: σadm σ = 150ΜΡ a e E=70GPa.

2) Considere uma barra de alumínio sob a qual é aplicada uma


tração de 1000N. Determinar o diâmetro mínimo da barra de
modo que satisfaça as condições de segurança para que os
objetivos da estrutura sejam atendidos; sua deformação
longitudinal não poderá ultrapassar a 5mm. Dados:
σ = 25ΜΡ a , E = 70GPa

3) Uma esfera de aço de 2,5 m de diâmetro está sujeita a uma


pressão hidrostática de 700x103 kN. Determinar a variação
volumétrica. Dados: E = 200x106 kN/m2 , υ = 0,29

4) Um círculo de diâmetro d = 230mm é desenhado em uma


chapa de alumínio sem tensões, de espessura t = 20mm.
Aplicam-se tensões normais de σx = 84MPa e σz = 140MPa;
58

adotando-se υ = 1/3 e E =70GPa, determinar as deformações


que ocorrem: a) No comprimento do diâmetro AB; b) No
comprimento do diâmetro CD; c) Na espessura da chapa; d)
No volume da chapa.

380 mm

C
380 mm A B x
D σx
t = 20 mm
z
σz

5) Calcular o diâmetro mínimo do rebite de aço SAE-1015 que


deve suportar, com um coeficiente de segurança 4, uma força
de [Link] : σu = 29kgf/mm2.

6) Considere o pino de 12,5 mm de diâmetro, da junta da


figura abaixo. A força P é igual a 3750 kgf. Admitindo a
distribuição uniforme das tensões de cisalhamento, qual o
valor dessas tensões nas seções A1 e A2.
59

A1

P A2 P'

7) Dimensionar o pino de articulação esquemático na figura do


exercício 6, sendo ele composto de aço SAE-1040(σu =
43kgf/mm2). A carga atuante é de 1000kgf e o coeficiente de
segurança é igual a 4.

8) O dispositivo da figura seguinte é empregado para determinar


a resistência ao cisalhamento de uma junta soldada. Se a
carga P, no instante de ruptura, é de 1250kgf, qual a tensão
de cisalhamento, na junta, por ocasião da ruptura?

0,5”
1,5”

9) Considere um cubo elementar sujeito a um estado de tensões.


a) Construir o Círculo de Mohr;
b) Determinar graficamente: as tensões principais, a média, a
tensão máxima de cisalhamento, as tensões normais
correspondentes a de cisalhamento e representá-las
graficamente nos planos onde ocorrem. São dados:
60

σy
τ xy

a) σx = 50 MPa
σy = 10 MPa
τxy = 40 MPa

σy
τxy

b) σx = 50 MPa σx
σy = 20 MPa
τx’y’= 40 MPa

σy
τxy

σx
c) σx = 100 MPa
σy = 60 MPa
τx’y’= 48 MPa

σy
τxy

σx
d) σx = 1200 kgf/cm2
σy = 1500 kgf/cm2
τx’y’= 800 kgf/cm2
61

Respostas dos Exercícios Propostos

1- 4,4 mm; 0.95 m.


2- 7,2 mm.
3- -0,036 m3.
4- 0,1227 mm; 0,368 mm; -0,02134 mm; 3081 mm3.
5- 13,25 mm.
6- 15,28 kgf/mm2.
7- 7,7 mm.
8- 129,2 kgf/cm2.
9- a- 70 MPa; 30 MPa; 20 MPa; 50 MPa; 20 MPa.
b- 68 MPa; 38 MPa; 15 MPa; 53 MPa; 15 MPa.

c- 132 MPa; 28 MPa; 80 MPa; 52 MPa; 80 MPa.


d-1720 Kgf/cm2; 1440 Kgf/cm2; 160 Kgf/cm2; 1560 Kgf/cm2;
160 Kgf/cm2.

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