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Psicanálise e Estado: Uma Análise Política

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Psicanálise e política: Considerações sobre o Estado

Article · June 2011


DOI: 10.11606/rgpp.v1i1.97827

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1 author:

Domenico Hur
Universidade Federal de Goiás
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REVISTA GESTÃO & POLÍTICAS PÚBLICAS

Artigo Original

Psicanálise e política: Considerações sobre o Estado 112

Domenico Uhng Hur1

1
Faculdade de Educação – Universidade Federal de Goiás.
Correspondência: Domenico Uhng Hur – E-mail: dutchwild [Link]
Faculdade de Educação – Universidade Federal de Goiás
Rua 235, s/n – CEP: 74605-050 – Goiânia – GO – Brasil

Resumo A psicanálise tradicionalmente é conhecida pelos seus estudos clínicos e as obras


psicanalíticas que discutem a sociedade e a política têm menor visibilidade. Então o
objetivo desse artigo é discutir uma das facetas entre psicanálise e política: a concepção
que a psicanálise tem sobre o Estado. Buscamos a partir de revisão bibliográfica de
textos clássicos, como a “obra social” de Sigmund Freud, e de textos contemporâneos,
como de Enriquez e Kaës, discutir como tal instância é apreendida na obra
psicanalítica. Constatamos que se transfere a figura do “pai primevo” ao Estado, sendo
assim apreendido negativamente, como uma instituição coercitiva e repressora,
constituindo-se como um aparelho de violência no imaginário social.
Palavras-chave: Estado, psicanálise, política, psicologia política.

Abstract Psychoanalysis traditionally is known by his clinical studies and the amount of
psychoanalytic works that discuss society and politics has less visibility. So the aim of
this paper is to discuss one of the aspects between psychoanalysis and politics: the
psychoanalytical conception about the State. We did a bibliographic review of classical
texts, such as “social work” of Sigmund Freud, and contemporary texts, such as
Enriquez and Kaës, to discuss how this instance is apprehended in the psychoanalytic
work. We note that is transferred the figure of the “primitive father” to the State, thus
perceived negatively as a coercive and repressive institution, constituting itself as an
apparatus of violence in the social imaginary.
Keywords: State, psychoanalysis, politics, political psychology.

Hur. Rev Gestão & Pol Públicas 1(1):112-132, 2011


Resumen El psicoanálisis tradicionalmente es conocido por sus estudios clínicos y las obras
psicoanalíticas que discuten la sociedad y la política tienen menor visibilidad.
Entonces, el objetivo del artículo es discutir una de las facetas entre psicoanálisis y
política: la concepción que el psicoanálisis tiene sobre el Estado. Buscamos a partir de
revisión bibliográfica de textos clásicos, como la “obra social” de Sigmund Freud, y de
textos contemporáneos, como de Enriquez y Kaës, discutir cómo que tal instancia es 113
aprehendida en la obra psicoanalítica. Constatamos que es transferida la figura del
“padre primevo” al Estado, siendo así percibido negativamente, como una institución
coercitiva y represora, constituyendo así una aparato de violencia en el imaginario
social.
Palabras-clave: Estado, psicoanálisis, política, psicología política.

Introdução um campo poroso, cheio de lacunas e


caminhos a serem construídos, onde
Trabalhar a política com as contribuições
muitos dos atalhos podem nos levar a
da psicanálise nos exige um labor: articular
lugares equivocados e reducionistas.
os conhecimentos das ciências sociais com
os conhecimentos do campo psicanalítico Então neste artigo buscamos atravessar a
de uma forma em que não caiamos em um fronteira e trazer de um outro lado, não do
reducionismo psicológico do social e nem pensamento político, mas de um campo
em um sociologismo do psíquico. que se originou no enquadramento clínico,
algumas reflexões sobre o Estado a partir
Trata-se de sair dos lugares comuns e
da psicanálise.
habituais de investigação, de um lado, o
cientista político acostumado com sua Buscamos apreender, a partir de revisão
metodologia investigativa, e de outro, o bibliográfica sobre estudos entre
psicanalista acostumado com seu psicanálise e sociedade, qual é a concepção
consultório e seu divã. construída sobre essa instituição e algumas
decorrências dessa concepção para a
Então, desse duplo deslocamento somos
relação entre Estado e o domínio do poder
impelidos a pensar um espaço
do Estado.
intermediário de investigação, um espaço
entre dois, que faça uma articulação entre o Por mais que a psicanálise configure-se
social-político e o psíquico, que como um campo de saberes que surgiu e
poderíamos arriscar em chamar de uma foi desenvolvido num setting clínico
psicologia social psicanalítica, que ainda é psicoterapêutico, ela rompeu seus limites

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instituídos e se preocupou também com (1930), Moisés e o monoteísmo (1939), os
análises sociais e políticas, sendo que tais textos sobre a guerra, Reflexões para os
reflexões e investigações obtiveram menor tempos de guerra e morte (1915) e Por que
visibilidade que os estudos e técnicas guerra? (1932), texto-resposta às
ligados aos fenômenos intrapsíquicos e indagações do físico Albert Einstein, a
114
intersubjetivos na clínica. parceria duvidosa com o embaixador Bullit
na análise do presidente norte-americano
Dessa forma, para efetuar tal discussão,
Woodrow Wilson (Freud e Bullit 1984).
partiremos de alguns autores de referência,
que articularam o campo psicanalítico às Toda a produção estava baseada no projeto
discussões sociais e políticas. de uma “psicanálise aplicada”, em que os
conhecimentos produzidos na clínica
Depois discutiremos o mito fundador da
psicanalítica poderiam ser “aplicados” para
horda primeva como passagem da natureza
a análise do campo social.
à civilização e terminaremos com a
discussão do Estado enquanto um aparelho No círculo fundador da psicanálise também
de violência. temos estudos sobre psicanálise e
sociedade, como os de Alfred Adler
(1939), com seus aportes sobre a
Psicanálise, sociedade e política
inferioridade social, e os de Otto Rank
Faremos um sobrevôo em alguns autores (1981), sobre o mito do nascimento do
de referência no campo de produção entre herói.
psicanálise e sociedade para podermos
Outro pensador digno de referência é
mapear alguns dos aspectos que foram
Reich, que se debruçou sobre a relação
trabalhados abordando essa problemática.
psique-sociedade com estudos sobre a
Nosso propósito é mapear e apresentar
psicologia de massas do fascismo (Reich
alguns trabalhos de referência que foram
1988), a função do orgasmo (Reich 1978),
realizados.
entre outros.
Em toda sua obra, Sigmund Freud, o
Reich pode ser considerado o precursor de
criador da psicanálise, estabeleceu uma
estudos entre psicanálise e política,
série de reflexões sobre a sociedade, como
instaurando uma modalidade de psicologia
a Moral sexual civilizada (1908), Totem e
política, que chama de psicologia das
tabu (1912), Psicologia das massas e
massas, em que foi além das análises
análise do Eu (1921), O futuro de uma
marxistas e fez afirmações polêmicas,
ilusão (1927), O mal-estar na civilização

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como aquela de que as massas desejaram a edípica ou até a psicopatologizar alguns
dominação fascista, afirmação que lhe movimentos sociais, caindo assim em um
rendeu a expulsão do Partido Comunista. grande reducionismo psicológico e em uma
redução e negação dos determinantes
Outra cisão se configurou quando Reich
sociais e políticos.
criticou o tratamento, avaliado como
115
castrador, que Freud dava ao desejo – Acompanhamos tal crítica, pois
crítica que o levou a se desfiliar da entendemos que não se pode analisar um
sociedade psicanalítica e partir para suas agenciamento social transpondo
pesquisas sobre o orgone, considerada por diretamente o que surge de um
ele como a energia vital do desejo. agenciamento clínico individual do sofá-
divã.
Nos mais de cem anos que se passaram,
muitos estudos, pesquisas e reflexões Mas também entendemos que o mau uso
relacionadas à psicanálise e sociedade da psicanálise feito por alguns psicanalistas
foram realizadas. não pode ser referência para uma negação
generalizada das contribuições da
Variados autores adquiriram relevância e
psicanálise ao campo social e político.
que se propuseram a fazer tal articulação,
como Erich Fromm (1974, 1977), Erik Os pensadores da Escola de Frankfurt
Erikson (1975, 1993a, 1993b), Theodor tiveram um lugar importante no que se
Adorno (1965), Max Horkheimer e refere à articulação entre psicanálise e
Theodor Adorno (1986), Herbert Marcuse política.
(1968), René Lourau (Altoé 2004), Gilles Eles passaram a utilizar a psicanálise
Deleuze e Félix Guattari (1976), León quando notaram que a crítica marxista à
Rozitchner (2003), Maria Inês Fernandes ideologia não bastava para compreender
(2005), Nicole-Édith Thévenin (2008), fenômenos como alienação, servidão
entre muitos outros que fizeram leituras da voluntária e adesão a discursos irracionais
sociedade a partir da psicanálise. – deveria haver algum substrato
Mesmo com essa profícua produção, ainda inconsciente que pudesse elucidar tais
notamos resistências às contribuições da aspectos.
psicanálise ao campo social e político. Deveria ser apreendido também aquilo que
As resistências não são por acaso, pois estava nas “entrelinhas”, aquilo que estava
existem muitos psicanalistas que tendem a inconsciente no homem e nos coletivos.
reduzir o fenômeno social à problemática Para tanto, eles entrelaçaram o marxismo e

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a filosofia hegeliana com as reflexões articulação entre psicanálise e marxismo
psicanalíticas para o estudo crítico da com diversas obras publicadas.
sociedade e dessa forma, apropriaram-se Nos Estados Unidos, Fromm se aproximou
dos “estudos sociais” de Freud. da psicologia humanista e da chamada
Também cabe a Adorno (1965) o mérito de psicologia do ego, em que problemáticas
116
ter coordenado uma das investigações de como liberdade, amor e esperança
grande referência na psicologia social e povoaram seus escritos.
política; as pesquisas sobre a personalidade Tal aproximação à psicologia do ego
autoritária nos Estados Unidos. sustentou pesada querela (Fromm 1977)
No período pós-segunda guerra mundial o com Marcuse, o qual, em Eros e
governo norte-americano estava civilização (1968), criticou o revisionismo
preocupado com o surgimento de outras da obra freudiana exercido pelos
lideranças nacionais autoritárias e fascistas psicólogos do ego.
como Hitler, que poderiam abalar sua Um anglo-saxão importante que produziu
hegemonia mundial, então, enquanto uma série de biografias psicanalíticas é
política de Estado, patrocinou essa grande Erik Erikson. Este, anteriormente músico,
pesquisa. acedeu à psicanálise por via de Anna
Adorno organizou um grupo de Freud, com quem começou seus estudos.
investigadores e coordenou a pesquisa em Discutiu a relação entre psicanálise e
dois momentos: o primeiro momento, história (1975), produziu biografias de
clínico, no qual dispôs de um grupo de personagens políticos, como Gandhi
psicanalistas que fez uma série de (Erikson 1993a) e Martin Luther King
entrevistas psicanalíticas com muitos (Erikson 1993b) e elaborou, entre outros, o
participantes e o segundo, quando elaborou conceito de crise de identidade.
as escalas e uma tipologia, a partir das
Um dos principais pensadores franceses
entrevistas clínicas realizadas.
para os estudos entre psicanálise e
Para tal investigação a psicanálise foi sociedade foi Jacques Lacan, que realizou
instrumento indispensável e esta pesquisa suas análises a partir da matriz de
também se configura como um dos pensamento estruturalista, muito em voga
trabalhos fundadores da psicologia política. na França.
Outro (ex)frankfurtiano de referência é Na década de 1960, de acordo com Rosa
Erich Fromm (1974), que estudou a (2004), o marxista Althusser acolheu

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Lacan na Escola Normal Superior quando Na Inglaterra temos os grupoanalistas,
este cindiu com Lagache e saiu da conhecida groupanalysis, que são os
Sociedade de Psicanálise Francesa. herdeiros dos conhecimentos de Foulkes
(1967) e Bion (1975).
É nesse período que Lacan articulou o
conceito de mais de gozar com a mais valia Na França, temos a Escola Francesa,
117
marxiana e sugeriu que o conceito de instaurada por Anzieu (1993) e Kaës
sintoma foi criado por Karl Marx. (1997) e, na Argentina, a chamada
psicologia social, encabeçada pelos
Posteriormente, Lacan elaborou um quinto
psicanalistas Pichon-Rivière (1986) e
discurso: o discurso do capitalista. Tal
Bleger (1980).
articulação entre psicanálise,
estruturalismo e marxismo influenciou Recentemente, na Argentina, a partir
correntes da psicoterapia institucional e da dessas diferentes correntes, foi criada a
análise institucional, como a obra psicanálise das configurações vinculares,
Psicanálise e transversalidade de Guattari em que Janine Puget é importante
(2004). referência, e que abrange estudos sobre
psicanálise de grupos, de casal, família, de
Contudo, devido aos acontecimentos de
instituições e, inclusive, de fatos políticos,
maio de 1968 em Paris – em que Lacan
como a violência de Estado na ditadura
adotou uma postura reacionária – e a
argentina (Puget e Kaës 1991) e as relações
crítica de que o estruturalismo instaura a
da memória vincular com o trauma social
falta no desejo, autores franceses da análise
(Puget 2000).
institucional – como Guattari – e filósofos
– como Deleuze – afastaram-se do Também há uma série de pensadores não
lacanismo e elaboraram outro tratamento psicanalistas que utilizaram a psicanálise
para o freudo-marxismo, que resultou na para refletir sobre a sociedade, tais como:
chamada esquizoanálise, batizada na Castoriadis (1982, 1992), Rustin (2000),
polêmica obra O anti-Édipo (Deleuze e Girard (1990), Enriquez (1990), Enriquez e
Guattari 1976), considerada a maior Haroche (2002), Bauman (1999),
expressão intelectual dos movimentos de Agamben (2002) e os já citados
maio de 1968. Horkheimer e Adorno (1986) e Marcuse
(1968).
Outra corrente teórica importante nos
estudos de psicanálise e sociedade é a dos As obras destes pensadores são ricas para a
estudiosos de psicanálise de grupos. compreensão de diversas modalidades de

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fenômenos sociais, todavia, consideramos de Wundt, no que se refere à discussão
que, exceto pelo sociólogo clínico Eugene sobre o totemismo na infância.
Enriquez e pelos filósofos Cornelius O fundador da psicanálise, a partir da
Castoriadis e Giorgio Agamben, não fazem descrição de coletivos de primatas feita por
uma discussão mais detida acerca da Darwin, descreve um agrupamento de
118
forma-Estado. humanos inicial, a que chama de horda
Então nosso desafio nos próximos dois primeva.
tópicos é fazer a discussão sobre a Neste agrupamento, havia um líder, um
constituição e as implicações do Estado “pai” dominador, poderoso, que subjugava
para os sujeitos e coletivos, a partir destes seus filhos, os “irmãos” da horda e que
teóricos da psicanálise, em que tinha o domínio sobre todas as mulheres do
entendemos que se conforma enquanto um bando.
aparelho de violência no imaginário social.
Na horda, havia uma assimetria de poder
pressuposta pelo seu membro mais forte, o
Do mito da horda primeva à “pai primevo”, em que sua palavra e seus
organização coletiva desejos eram a lei e a ordem, havendo
assim uma heteronomia instituída.
Entre 1912 e 1913, Freud (1913) escreve o
que considerou um de seus melhores Os irmãos da horda sofriam interdições
trabalhos desde a interpretação dos sonhos sexuais e tinham um poder demasiado
(Enriquez 1990:28), em meio aos conflitos inferior em relação ao pai.
com Jung, no que se referia à sucessão do A eles havia apenas o “direito” de
movimento psicanalítico internacional. subordinação ao pai primevo violento e
Nele, após pesquisa minuciosa sobre uma onipotente, e os conflitos resultantes dessas
série de estudos antropológicos e debates interdições implicavam em suas expulsões
com pensadores proeminentes da época, da horda ou em assassinatos.
discute os fundamentos da sociedade, a O pai primevo, mesmo admirado e
passagem de um estado de natureza à portador de lugar invejado, tornava-se
civilização e a constituição das interdições temido e odiado.
sociais.
Conforme Agamben (2002), esse era o
O britânico Farr (1996) considera que momento da vida nua, da exceção
Totem e tabu foi uma resposta à originária, na qual todos eram matáveis e
Volkerpsychologie (Psicologia dos povos) ao pai cabia o poder sobre a vida e a morte,

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numa vitae necisque potestas. Freud constituição mútua de sentimentos pelo
(1913) conjectura que, depois de outro.
sucessivas expulsões, houve um retorno Nessa ocasião, perceberam que esse ato
dos irmãos expulsos à horda. violento não deveria ser repetido, porque
Estes formaram um laço, constituindo-se poderia implicar na reprodução da
119
como um grupo, combateram o pai violência originária, no assassinato de
primevo e como tinham superioridade qualquer um dos irmãos que quisesse
numérica, conseguiram derrotá-lo e matá- ocupar o lugar do pai e pretendesse
lo. subjugar os outros, podendo levar ao
extermínio do agrupamento.
O pai, temido e odiado, foi assassinado
pelos irmãos insurgentes da horda, feito Como “reparação” e rememoração desse
que só foi alcançado pela composição de ato, que jamais deveria ser repetido, erigiu-
forças entre eles. se um totem que representava o pai
assassinado, tornando-se seu substituto,
Após o assassinato, os irmãos se reuniram
muitas vezes na forma de um animal, que
e devoraram o pai primevo, no que Freud
acabou se tornando sagrado para o
chama de refeição totêmica. Nela, houve
coletivo. O pai se tornou a vítima
uma partilha da carne do pai, feita pelos
sacrificial (Girard 1990) que forneceu a
irmãos e que, ao devorá-lo, assumiram
ligação ao conjunto.
uma parte de sua força, assim se
identificando com ele. Outra ação que representou a não
reprodução do regime de poder anterior foi
Nesse processo de identificação com o pai
a renúncia às mulheres, na qual nenhum
primevo odiado, retornou a afeição
membro se arrogaria a deter todas elas
recalcada por muito tempo e houve um
como o antigo pai primevo, pois assim
sentimento de culpa pelo assassinato;
poderia fomentar novos conflitos e a
surgiu assim um sentimento de
dissolução do grupo.
ambivalência ao pai abominado, o que
levou a um desejo de reparação. Constituiu-se assim a interdição sobre as
mulheres do mesmo clã, o conhecido tabu
Enriquez (1990) afirma que é no momento
do incesto.
da refeição totêmica que os irmãos se
reconhecem como iguais e que, para a Dessa forma, os membros do clã deveriam
composição deste grupo, teve que haver procurar parceiras sexuais em outros clãs.

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Então, em uma só tacada, Freud (1913) também assassinados pelos irmãos da
concluiu que houve ao mesmo tempo a horda, ou seja, reproduzindo-se a matança
constituição do totemismo e da exogamia. inúmeras vezes.

Compreendemos, também, que houve uma Dessa forma, para evitar a repetição do
grande transformação na organização modelo do estado de natureza, foi preciso
120
política, pois na horda primeva havia um dois momentos de superação: o primeiro,
poder “centralizado”, calcado nos desejos que foi o assassinato do pai primevo, e
do pai e, com seu assassinato, houve uma trouxe emancipação ao conjunto; e o
repartição deste poder entre os irmãos e a segundo, que foi a constituição de um
criação de interditos e leis comuns, de um pacto denegativo (Kaës 2005) entre os
próprio nomos (conjunto de leis, regras) irmãos, que implicou numa renúncia mútua
criado coletivamente e que mantinha a ao poder, à agressividade e à sexualidade
coexistência do coletivo, o advento de desenfreada.
outra forma de gestão da vida em relação Cada membro teve que renunciar ao seu
ao modelo anterior. desejo de possuir a mãe e as irmãs (fêmeas
Ou seja, é a transição do estado de natureza do agrupamento) e do ideal de ocupar o
para a constituição do estado civilizatório, lugar do pai assassinado.
em que se constituiu uma gestão de Tal pacto foi consolidado no momento do
“irmãos, “horizontalizada”, se instaurou banquete totêmico, em que foram
práticas instituintes e criou-se o próprio simbolizadas a criação e a incorporação de
nomos em um exercício de autonomia um conjunto de leis.
coletiva.
Dessa forma todo esse ritual dramatizado
Hipotetizamos que não foi de imediato que constituiu um contrato narcísico para o
o grupo chegou a esse nível de elaboração, coletivo, no sentido de uma distribuição
pois especulamos que o assassinato do pai dos lugares sociais e na criação de
não foi condição suficiente para ocasionar mecanismos psicossociais que diminuiriam
essa mudança estrutural do estado de a incidência de conflitos e rupturas,
natureza para o início de uma civilização. atribuindo assim posições e papéis aos
Conjecturamos que muitos “irmãos mais elementos no grupo.
velhos” tomaram o lugar do pai Kaës (2005) afirma que, para a
assassinado e reproduziram o mesmo constituição do laço social, houve alianças
modelo anterior, sendo posteriormente inconscientes, que implicaram em

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recalques e denegações no espaço sobre esse primeiro alicerce (Enriquez
partilhado da intersubjetividade e que 1990:36).

asseguraram o viver em conjunto.

Então, para manter o conjunto e a violência Não encontramos na obra de Freud


“controlada” foram necessários reflexões sobre a “evolução”, ou
121
dispositivos de rememoração da violência involução, do grupo de irmãos primitivos e
fundadora: o ritual da refeição totêmica, a criação do totem e dos primeiros
para que ela não fosse esquecida e interditos para a constituição do Estado.
novamente reproduzida, e de instituições
Freud se contentou em criar esse mito
sociais que mantivessem os interditos
fundador da horda primeva e transferir tal
iniciais, tais como a proibição do incesto, a
funcionamento aos grupos humanos e
de matar o animal sagrado e o irmão. Em
instituições.
relação ao ritual, Freud (1913) afirma:
O pensamento sobre a política e o Estado
não são centrais em sua obra e em raros
A refeição totêmica, que é talvez o mais momentos a palavra Estado aparece em
antigo festival da humanidade, seria seus textos sociais.
assim uma repetição e uma
O texto de 1915, Reflexões para os tempos
comemoração desse ato memorável e
criminoso, que foi o começo de tantas de guerra e morte, é um dos que mais
coisas: da organização social, das discutiu a questão do Estado; entretanto, ao
restrições morais e da religião (Freud longo de sua obra, o fundador da
1913:170). psicanálise preferiu discutir as vicissitudes
da sociedade (1908, 1927, 1930) ao invés
dos efeitos do Estado nos sujeitos.
Devido a essas colocações de Freud,
Enriquez (1990) compreende que: Em 1921, em Psicologia das massas e
análise do Eu, Freud discute duas
instituições sociais importantes, a igreja e o
as primeiras instituições sociais foram exército, refletindo sobre a centralidade do
as que serviram para reprimir,
lugar do líder, embora, novamente, deixe
organizar e canalizar a sexualidade; as
de lado o Estado.
outras instituições (econômicas e
políticas) se construíram De qualquer forma, nesses trabalhos, nos
posteriormente; por não apresentarem o ensina processos importantes para
mesmo grau de urgência, se fundaram lançarmos luz sobre a relação sujeito,

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coletivos e Estado, mesmo que continue formação do Estado e das relações
“aplicando” como modelo prototípico o políticas no social está profundamente
funcionamento da horda primeva e a referenciada num modelo familiarista, em
constituição das interdições sociais. que se toma a série familiar como modelo
determinante às outras séries sociais.
A “evolução” da organização da horda à
122
posterior constituição do Estado e dos seus Então, na psicanálise, o modelo familiar
mecanismos também não é encontrada na sobrecodifica os outros processos sociais,
obra Da horda ao Estado de Enriquez em que se associa a figura de um chefe à
(1990). figura do pai, ou de um subordinado à
figura do filho; ou seja, há a formatação do
Ele faz a discussão sobre a horda primitiva,
funcionamento dos conjuntos sociais ao
mas, quando discute o Estado, discute o
funcionamento do conjunto familiar, há a
Estado moderno ocidental, já constituído,
redução do agenciamento social ao retrato
reproduzindo o mesmo modelo de Freud,
da família, conforme criticam Deleuze e
contentando-se em projetar o modelo da
Guattari (1995) ou mesmo a crítica do
horda nas instituições sociais.
sociopsicanalista Gérard Mendel (1971),
Entendemos que a “evolução” do
que enuncia que a sociedade não é uma
agrupamento primitivo ao Estado não seja
família.
algo automático, pois não só existem
A análise do presidente Wilson (Freud e
sociedades sem Estado, como existem
Bullit 1984) é um ótimo exemplo dessa
sociedades contra o Estado, tal como Pierre
redução de um agenciamento político para
Clastres (1988) discute.
o familiar, pois peca por essas insistentes
Consideramos, então, que há um hiato na
reduções de processos políticos a relações
obra psicanalítica, que faz um grande salto
familiares, em que se analisa a
do momento em que se constitui a fratria
subordinação política do presidente norte-
para o momento da civilização moderna
americano aos líderes inglês e francês da
ocidental com seus Estados constituídos,
mesma forma que este se subordinava
sem trabalhar os processos de
passivamente a seu pai dentro do espaço
institucionalização do Estado nos
familiar; nesta obra as relações políticas
diferentes momentos históricos e diferentes
são sobrecodificadas pelas relações
territorialidades.
familiares.
A partir da revisão bibliográfica realizada,
Dessa forma, entendemos que a psicanálise
constatamos que a visão psicanalítica da
utiliza o agenciamento familiar e,

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conseqüentemente, o agenciamento edípico “onde há id que haja ego”, o Estado
como o diagrama princeps das relações adquire função primordial.
sociais; o funcionamento da série familiar O Estado define os limites de seu território
opera como a máquina abstrata dos demais e a identidade da nação. Suas leis definem
agenciamentos sociais. o que é certo e o que é errado, o que é
123
moral e imoral, que condutas devem ser
aceitas e quais devem ser reprovadas.
Estado é o Estado da horda: O aparelho
de violência Nesse processo de dicotomização, há a
divisão de poderes, entre quem tem poder e
Bauman (1999), em sua obra Modernidade
quem não o tem, quem domina e quem é
e ambivalência, afirma que o grande
dominado, quem pode ou não se expressar.
projeto da Idade Moderna é dar ordem às
coisas, em uma tentativa de suprimir o Na consolidação das instituições sociais e
caos, a ambivalência e a indeterminação do Estado, há um outro processo que
numa existência supostamente ordenada, Castoriadis (1982) chama de
planejada e geométrica. autonomização das instituições na
sociedade, em que seus processos de
Na modernidade procura-se uma fundação
reprodução adquirem um caráter de
às coisas e ao conhecimento, em uma
naturalidade para os sujeitos, como se
tentativa de constituir base sólida, fixa e
essas divisões sociais sempre existissem e
enraizada.
sempre estivessem presentes.
Dessa forma, nesse processo de produção e
O Estado, as instituições e as divisões de
atribuição de sentidos às coisas, normatiza-
poder tornam-se naturais para os sujeitos e
se e se reduz a multiplicidade dos
coletivos, os quais se alienam de suas
fenômenos em dicotomias, muito
significações originárias, perpetuando-se.
freqüentemente na separação entre o
normal – que é o padrão, o ordenado, o Nesse processo de reprodução, Deleuze e
esperado e o identificado – e o patológico Guattari (1997) entendem que o aparelho
– que é o desvio, o caótico, o inesperado e de Estado codifica os fluxos sociais em
o ambivalente. estratos, freando o movimento, tendo a
função de captura do desejo e
Nesse projeto iluminista de ordenação, de
sobrecodificação das semióticas, criando
iluminar as trevas, de jogar luz sobre
identidades fixas e estáticas, reduzindo a
aquilo que está obscuro, que a psicanálise
multiplicidade a uma lógica binária: o
também compactua com a célebre frase

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Estado é o aparelho de captura. A questão moral, na qual lhe são impostos uma
do Estado se complexifica quando a ele grande dose de autodomínio e uma
não competem apenas atribuições de renúncia à satisfação instintual.
produção e delimitação de fronteiras, pois O Estado traz uma série de restrições ao
com a vida adentrando em sua esfera sujeito, totaliza suas condutas e
124
(Agamben 2002), o Estado passa a gerir
monopoliza para si todo o poder e a
diretamente a vida da população e a
violência:
política converte-se em biopolítica, em que
suas práticas têm como fim o próprio corpo
dos sujeitos e da população, a doutrinação o Estado proíbe ao indivíduo a prática

de seus costumes e a domesticação de seus do mal, não porque deseja aboli-la, mas
porque deseja monopolizá-la, tal como o
desejos.
sal e o fumo. Um estado beligerante
Nesse processo de domesticação dos permite-se todos os malefícios, todos os
corpos, é imposto ao sujeito, por uma série atos de violência que desgraçariam o
de interditos sociais, o que Freud chama de indivíduo. (...) O Estado exige o grau
renúncia instintual. máximo de obediência e de sacrifício de
seus cidadãos; ao mesmo tempo, porém,
Estes interditos são expressos pelas leis e
trata-os como crianças, mediante um
normas, mantidos pelas instituições sociais
excesso de sigilo e uma censura quanto
e reproduzidos pelos sujeitos:
a notícias e expressões de opinião, que
deixa os espíritos daqueles, cujos
intelectos ele assim suprime, sem defesa
El orden es una suerte de compulsión a
contra toda mudança desfavorável dos
la repetición que decide, mediante una
eventos e todo boato sinistro. Exime-se
norma establecida de una vez por todas,
das garantias e tratados que o
cuándo, donde y como debe hacerse una
vinculavam a outros Estados, e confessa
cosa, de modo de evitar indecisiones y
desavergonhadamente sua própria
dudas en todos los casos similares entre
rapacidade e sede de poder, que o
sí (Freud 1930:229).
cidadão tem então de sancionar em
nome do patriotismo (Freud 1915:289).

Devido aos interditos sociais, Freud (1915)


faz duras críticas ao Estado.
Nessa perspectiva, a violência é
Ele afirma que, na civilização, os sujeitos monopolizada pelo Estado e é
devem compartilhar de rigorosa conduta transformada em violência legal.

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Dessa forma, podemos entender que o de sua disposição instintual.
Estado não representa o povo tal como o Conseqüentemente, eles estão sujeitos a

discurso é propagado, domina-o. uma incessante supressão do instinto, e


a tensão resultante disso se trai nos
Ele não se preocupa com a satisfação dos
mais notáveis fenômenos de reação e
sujeitos que “representa”, mas sim com a compensação. No domínio da 125
obediência deles na tarefa de “ordenação sexualidade, onde é mais difícil realizar
social”. essa supressão, o resultado se manifesta
nos fenômenos reativos das desordens
Em O mal estar da civilização (1930),
neuróticas (Freud 1915:289).
Freud compactua com as teses hobbesianas
sobre o Leviatã em relação à necessidade
de um Estado para que se assegure uma A partir da visão psicanalítica, entende-se
ordenação social, contudo, afirma que os que o Estado se apresenta como grande
sujeitos não adquirem a contrapartida pelas aparelho interditor das satisfações
renúncias instintuais sofridas, recebendo pulsionais dos sujeitos, não dando vazão a
apenas uma pequena porção de segurança seus desejos e sim ao desejo de seus
para a sobrevivência, ou seja, o Estado não governantes, ou seja, podemos considerar
é uma instituição que se presta a trazer a um engano a idéia de que o Estado é a
segurança e tampouco a felicidade expressão de uma política democrática,
almejada para o coletivo. pois aproxima-se mais de um instrumento
Citamos outra passagem em que Freud que serve para a dominação de um
(1915) prossegue com sua crítica à pequeno grupo sobre outros.
civilização: Enriquez (1990) vai ainda mais longe,
quando afirma que o funcionamento do
Estado moderno remete ao funcionamento
A sociedade civilizada, que exige boa
conduta e não se preocupa com a base
anterior da horda primeva, na qual o pai

instintual dessa conduta, conquistou primevo tem sua encarnação mais poderosa
assim a obediência de muitas pessoas e violenta no Estado, em que monopoliza
que, para tanto, deixam de seguir suas tudo e é produtor de exclusões:
próprias naturezas. Estimulada por esse
êxito, a sociedade se permitiu o engano
de tornar maximamente rigoroso o O Estado (herdeiro da onipotência do

padrão moral, e assim forçou os seus pai primevo), como bem salientou

membros a um alheamento ainda maior Kaufmann, toma tudo a si sem nada dar;

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o Estado é a instituição que permite à O Estado atualiza todo o poder destrutivo
pulsão de morte se desenvolver do “pai primevo”, totaliza e gerencia a
completamente; finalmente, o Estado sociedade, tendo poderes sobre a vida e
(enquanto supressor da sociedade
morte. Enriquez (1990) afirma:
primitiva, sociedade guerreira) não
protege contra a guerra de todos contra 126
todos, como acreditava Hobbes, mas O Estado assume a violência do chefe
exatamente o contrário, apesar da da horda assim como a dos irmãos
aparência indulgente que ele assume em conjurados. Ele a confiscou para seu
tempos de paz. Ao se anunciar como o próprio benefício. Entretanto, na maior
sustentáculo da sociedade pacífica, o parte do tempo a violência tomará
Estado se institui como único corpo do corpo sob a máscara das instituições,
desejo e da expressão da verdade. A que servem à regulação social. Ela
conseqüência de tal afirmativa é bem assumirá o nome de lei, de norma ou de
conhecida: ser o único, colocando-se no regulamento. Sua sutileza e moderação
lugar da verdade, só pode conduzir a não impedirão de marcar os espíritos,
humanidade a seu fim. Como já de penetrar nas consciências, de guiar
havíamos dito em outro trabalho: ‘O as ações, na falta de castigos mais
crescimento do Estado, e sua severos (Enriquez 1990:359).
cristalização, é a generalização da
castração e da morte’ (Enriquez
1990:143). Por outro lado, por mais que a psicanálise
critique a faceta opressora do Estado, ela
entende que é esta instituição que provê
E, nessa generalização da castração e da
leis, o mínimo de segurança existente,
intensificação das energias de
sendo referência às ações dos sujeitos e
desligamento, da pulsão de morte, a
coletivos, cumprindo o papel do que Kaës
biopolítica de Estado converte-se no que
(1997) chama de apoio psíquico.
Agamben (2002) chama de tanatopolítica,
Podemos pensar que, para o sujeito na
na política da morte, da castração.
psicanálise, ao Estado é deslocada a figura
O Estado, então, se converteu no Estado da
do “pai”, dando continência ao desamparo
horda (Enriquez 1990). A fratria autônoma
vivido e provendo segurança para a
instituinte e horizontalizada se desfez e a
existência; havendo, assim, o
gestão política converteu-se novamente em
estabelecimento e as atribuições de lugares
heteronomia instituída.
na sociedade, que Kaës chama de contrato

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narcísico. E, sem dúvida, há uma ilusão superego, sendo esse estrangeiro
social estruturante de que o Estado tenta incorporado e dominador.
prover um melhor viver a todos. Portanto, tanto instâncias internas como
Podemos pensar, também, a partir dos externas contribuem para o sofrimento e
enunciados teóricos de Freud (1921), que para a reprodução do Estado e de seus
127
muitas vezes o gestor do Estado é colocado mecanismos que tendem para a
no lugar do ideal de Eu do sujeito. massificação, repetição, homogeneização e
dominação. Enriquez (1990) descreve:
Ao colocar um gestor externo, ou o pai, no
ideal de Eu, coloca-se um objeto externo
em uma instância psíquica, o que implica A partir deste momento, a luta é sem
na internalização da castração e da lei, na fronteira: a guerra total exprime seu
internalização das interdições externas poder e sua lei. O Estado não é mais o
sociais em uma instância interditora receptáculo de uma parte da vontade
interna, ou seja, implica na constituição de dos cidadãos, ele nada mais é que a

um superego que constantemente forma moderna e sofisticada da horda,

atualizaria o sujeito de sua castração e dos que ridiculariza suas próprias leis,
instituindo o arbitrário e a injustiça
limites vividos, corroborando com a
como modo normal de governo,
renúncia instintual e a conservação das
tomando tudo e nada dando,
instituições sociais. Dessa forma, aqui
embriagado de uma força
temos uma ligação com a idéia de
multiplicadora pelo desenvolvimento
Castoriadis (1982, 1992) de que a das ciências e da tecnologia. Não
heteronomia externa fortalece a devemos nos surpreender, o Estado
heteronomia do sujeito. encontrou seu fundamento na
metabolização da violência física em
Em convergência com essa idéia o
violência simbólica (Enriquez
psicanalista Endo (2005), a partir de
1990:360).
reflexões de Cardoso (2002), atribui à
formação do superego um maior caráter de
incorporação do que de identificação, E, nessa violência generalizada vivida
como se o objeto externo internalizado frente à soberania do Estado, para
fosse um incorporat e residisse na psique Agamben (2002) o Homo sacer torna-se
como um estrangeiro ao ego. O pai, as leis figura emblemática, pois este justamente é
e o Estado da horda poderiam ser, assim, o homem matável impunemente e
constituintes e correlatos externos do insacrificável, que se localiza fora das

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jurisdições legal e divina, sem amparo na simbólico, mas, sobretudo, físico, em que
justiça dos homens ou na justiça dos operou uma série de torturas e assassinatos
deuses, sendo depositário das violências (Gorender 1998).
sociais de quaisquer espécies, sujeito Entretanto, consideramos que vislumbrar o
“indefeso” frente ao aparelho de violência. Estado como um aparelho de violência
128
Dessa forma, com as colocações de que o temível no imaginário social também pode
Estado é o Estado da horda e portador de aumentar o desejo de conquistá-lo e
toda sua violência, é que compreendemos dominá-lo, tal como nos projetos
que o Estado ocupa o lugar de um aparelho revolucionários da esquerda política (Lenin
de violência no imaginário social, um 1983).
aparelho que deve ser temido, obedecido e, Então, quanto maior a percepção da
se possível, dominado, sob o risco da magnitude de sua potência violenta, que
expulsão e do assassinato, da mesma forma agencia a força do pai primevo e dos
que o mito do pai primevo na horda irmãos insurgentes (Enriquez 1990), maior
primeva. é o desejo de sua dominação, de sua
O Estado como Estado da horda simboliza tomada.
a repetição da violência e do(s) Imaginariamente, tomar o poder do Estado
assassinato(s), se tornando temido e sendo torna-se correlato à idéia de assumir a
visto pelo seu lado mais coercitivo, mais potência necessária para resolver as
negativo e destrutivo. vicissitudes sociais vividas, tomar o poder
Como diria Freud (1930), o Estado retira o do Estado é incorporar esse poder.
que é mais sagrado para os sujeitos – sua Deste modo, para tentar “neutralizar” tal
sexualidade e agressividade – para aparelho de violência, o Estado no
monopolizá-las e, como completa, imaginário social é algo que, para ser
Enriquez (1990), tal instituição tampouco destruído, tem que ser conquistado, pois é
segue a tese hobbesiana de proteção dos dramatizado como um terrível inimigo,
coletivos da guerra de todos contra todos: monstro a ser domado, então nos projetos
somente captura, escraviza e violenta a de revolução sempre há o projeto da
todos em seu imaginário. erradicação desse “mal”, do Estado, na
Por exemplo, no período da ditadura tentativa de tomar e incorporar esse poder.
militar no Brasil, o Estado não funcionava E, por ser imaginariamente concebido
apenas como um aparelho de violência como um aparelho da violência, quando as

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revoluções foram bem sucedidas – não só É como se esse imaginário do Estado
as revoluções de esquerda, mas também a enquanto aparelho de violência pudesse
tomada de poder de outros grupos políticos justificar o exercício da violência direta e
–, ao invés da tentativa de constituição da crua sobre os outros quando se toma seu
idílica sociedade comunal, ao invés de ser poder, ou, quando se luta para tomar tal
129
dominado e destroçado-abandonado, esse poder, em que o desejo está
aparelho de violência foi colocado para prioritariamente dirigido à incorporação do
funcionar intensamente pelos poder do aparelho de violência – e, quem
revolucionários, repetindo a violência e um sabe, em um desejo de incorporação do
montante de assassinatos dos inimigos aparelho de violência correlato à
políticos, seja na Revolução Francesa, “incorporação concreta” do corpo do pai
Revolução Russa, Revolução Chinesa, etc. primevo, despedaçado e devorado pelos
irmãos insurgentes.
Atribuímos tal acontecimento não pelo
suposto “caráter assassino” dos Para finalizar o ensaio, consideramos que a
revolucionários, mas por um agenciamento contribuição da psicanálise em relação à
entre aparelho de violência e máquina apreensão do Estado é criar um regime de
revolucionária, que, na efetivação do enunciados que vislumbra tal instituição
projeto de consolidação da nova ordem, as enquanto um aparelho de violência, física
relações de guerra atingem seu esplendor; ou simbólica, em que se atualiza a
a máquina de guerra agencia-se ao violência do pai primevo sobre o coletivo
aparelho de violência e dá vazão aos seus social: há a revivescência do pai primevo
traços mais abolicionistas (Deleuze e na figura do Estado, ou seja, a dominação
Guattari 1996). emanando de um pólo sobre o coletivo.

Tal imaginário do aparelho de violência Nessa perspectiva, entende-se o Estado


está tão encarnado ao Estado, que tal como um aparelho de interdição, de
maquinaria atinge seu cume de repressão e de dominação; mais
funcionamento direto, e não mais preocupado em satisfazer seus interesses,
simbólico, nos momentos de tomada de ao invés da satisfação dos indivíduos e da
poder e transição de uma ordem social à sociedade.
outra.

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