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Relacionamento Tóxico na Quarentena

Conto por Isabel de Oliveira
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Quarentena

Quarentena, isolamento social, pandemia, 2020. Algumas pessoas


disseram que ficaram “loucas” com a solidão forçada. Houveram também
aqueles descobriram os novos hobbies e prazeres. Existem aqueles que
entenderam o quanto eram felizes em família, e aproveitaram aquele
momento para se reaproximar dos seus, ainda que de maneira tão
diferente. Outros, ainda, decidiram que não mais se entregariam aos
males da mente e aderiram à psicoterapia à distância. Carlos era uma
dessas pessoas. Para Antônia, as pessoas deveriam estar fazendo o
que? Ficando quietas em suas casas, cuidando das suas vidas, lendo
livros e pensando na importância do senso de coletividade. Carlos não.
Ele escolheu o pior momento do século para mexer no vespeiro daquela
mente torta dele. Palavras de Antônia.

Meses depois do ocorrido, Antônia viria a dizer que foi tudo culpa
dessa pandemia louca. Já Carlos… este tinha a mais completa certeza de
que toda a tristeza que sentia era culpa do seu Sol em Câncer, com o
Ascendente em Peixes e a Lua transitando em Escorpião, no momento de
seu nascimento. Para ele, esta conjunção astral causou tudo de ruim que
aconteceu em sua vida até ali. Afinal, tanto drama, com tanta intensidade,
não poderiam fazem bem para ninguém. Antônia reviraria os olhos com
desdém ao ouvir isso. Mas quem ouvia era a psicóloga de Carlos.

Há quatro longas sessões, recheadas de lágrimas e propostas de


fazer o mapa astral da terapeuta, Carlos desfiava seu rosário de como ele
estragou todos os relacionamentos que teve, cada um por culpa de uma
casa astrológica diferente. Maria, uma capricorniana super pragmática,
não suportou mais o jeito pegajoso de canceriano dele. Ana Julia, como
boa sagitariana, queria que ele fosse mais leve, curtisse mais o momento,
mas sua Lua em Escorpião não permitia e ela foi voar noutra freguesia. E
Antônia? Ah, aquela aquariana tinha os pés no chão e era cética demais
para compreender seu lado pisciano sonhador. Também foi quem mais o
magoou, com seu jeito frio, pois nunca levou a sério os sentimentos dele.
O que ele omitiu, até ali, é que Antônia foi quem o aguentou por mais
tempo. Mais do que era saudável para ela mesma.

Antônia e Carlos se conheceram em um encontro muito popular dos


anos 90: os chamados IRContros. Pertencentes à geração que
“desbravou” o mundo pré redes sociais, no começo da popularização da
Internet, eles conversavam com muitas pessoas desconhecidas através
de um programa chamado mIRC. Protegidas pelo anonimato, as pessoas
conversavam sobre absolutamente tudo. Abriam-se para estranhos de
qualquer lugar do mundo, de maneira bastante perigosa. No mIRC havia
as salas de bate-papo coletivo temáticas, onde todos falavam sobre o
interesse em comum, que era tema daquela sala. Os grupos que sentiam
afinidade marcavam os chamados “IRContros”, para se conhecerem
pessoalmente. Nestes encontros, os jovens e adolescentes daquela
geração usavam a proteção dos lugares públicos e grupos grandes para
conhecer os estranhos com quem conversavam. Geralmente, o encontro
acontecia em lugares como shows, cinema, festas, bares, restaurantes,
praças de alimentação, etc.

O encontro da sala principal da cidade estava marcado há pelo


menos duas semanas. Todas as amigas do cursinho iriam, mas Antônia
não queria conhecer gente nova. Tinha acabado um namoro muito intenso
há menos de um mês e, como qualquer garota de 15 anos, achava que
nunca mais amaria outra vez. Acabou por ir assim mesmo. Carlos era
uma pessoa absolutamente encantadora, se observado na superfície.
Todos riam ao seu redor. Era animado, divertido e com um gosto musical
ótimo. Amigo de todos, era o crush das meninas solteiras da turma. Com
Antônia não foi diferente. Exceto pelo fato de que também Carlos se
apaixonou à primeira vista. Ao som de uma balada da banda de rock
nacional mais popular da época, o primeiro beijo deles foi apenas mais
um dos muitos clichês que cercariam seu relacionamento.

A partir daquele dia, Carlos e Antônia não se desgrudaram por


longos dois anos. Longos? Para Antônia, pelo menos, sim. Um pormenor
curioso sobre ela, é que seus pais davam-lhe muita liberdade. E ela fazia
por merecer tal confiança, comportando-se como uma adolescente
sempre cumpridora das regras que eram estabelecidas por eles. Assim,
Antônia estava habituada a ir e vir na casa de amigas e amigos, e a uma
vida social muito intensa. Um choque para Carlos, acostumado a
namoricos curtos com meninas muito controladas pela família. Um
choque e um deleite. Tudo parecia festa!

Em princípio, Carlos sentiu-se muito adulto, no alto de seus 18 anos.


Com sua recém obtida CNH, ele podia pegar sua namorada de carro e ir
ao cinema, shows, restaurantes… Até pequenas viagens juntos faziam.
Tudo parecia perfeito e eram o casal preferido de todos. Um “casal
modelo”, diriam seus amigos. Mas o diabo mora nos detalhes. A
insegurança veio com a mesma força e intensidade daquela paixão
juvenil. Conforme o tempo passava, Antônia ia completando sua
transformação juvenil, e uma mulher exuberante ia surgindo. Com ela,
veio a vontade de experimentar coisas novas. Como a sua primeira mini
saia, que chegou no dia em que iriam comemorar os dois anos de
namoro. Mas a noite acabou antes de começar, com uma briga longa e
cansativa sobre a necessidade de Antônia de exibir as pernas daquele
jeito. Expressões como “abajur de buceta” foram usadas. Naquele dia,
prestes a completar 17 anos, Antônia decretou o primeiro fim (de muitos)
daquele namoro. Reataram em três dias.

Carlos queria atenção total. Demandava. Exigia. O primeiro celular


de Antônia chegou com uma maldição: o namorado querendo saber onde
ela estava a cada hora. Atrapalhando as aulas do cursinho, os estudos,
os papos com as amigas, o sono. Da insegurança, veio a primeira traição
de Carlos. E mais um término. Reataram em uma semana. O padrão
repetia-se o tempo inteiro. Uma discussão, uma traição, um novo término.
E foram dezenas. As brigas escalaram de tal maneira, que aqueles
términos viraram algo que ninguém dava mais a menor atenção. Nem os
pais deles, nem os amigos. Antônia murchou. Não queria mais se
arrumar, nem sair, nem passear. Era exaustivo. Enquanto isso, Carlos
estava a cada dia mais maníaco e controlador, e ameaçava se matar se
ela o deixasse. Um drama rodrigueano típico.
Neste pé, veio a pior briga dos dois. Antônia devolveu um perfume
que ele comprou, pelo Dia dos Namorados. Carlos quebrou o perfume,
alegando que aquilo é que estava dando azar. Como alguém poderia
acreditar em azar ou sorte? Era o que Antônia, incrédula, pensava,
enquanto Carlos encenava um verdadeiro teatro grego no jardim da casa
dos pais dela. Segundo ato: ambos foram parar na urgência, porque
Carlos precisou tomar cinco pontos na mão, após a sua “façanha” o
inocente perfume. Voltando do hospital, outro escândalo. Em meio a uma
acalorada discussão, Carlos falava novamente em morrer, enquanto
dirigia e Antônia, em pânico, ameaçou se jogar para fora do carro. Acabou
por voltar de táxi para casa. Daquela vez, eles passaram mais de três
meses sem se verem.

Neste meio tempo, Antônia decidiu usar e abusar da sua liberdade e


de seus 18 anos para ter novas experiências, como muito sexo casual e
muitos shows de rock. Mudou de estilo, de amizades, quebrou o vínculo
com o círculo social de Carlos. Este, por sua vez, chorava suas mágoas e
escondia-se do mundo e da vergonha, depois que a história do corte
espalhou-se entre todos os seus conhecidos. Até aqui, compreendo que
tudo isto pode parecer muito novelesco e exagerado, ainda mais se
tratando de um casal que descobriu um amor tão intenso ainda na
adolescência, e que estava ainda adentrando na vida adulta. Mas nada
acabou por ali… Carlos e Antônia reataram mais uma vez, em um show
de sua banda preferida. Titãs embalou, mais uma vez, aquele que já era
um relacionamento com a data de validade vencida.

E foi numa tarde preguiçosa de domingo, sem brigas e sem qualquer


razão aparente, depois de terem feito sexo de forma muita intensa, que
Antônia se vestiu e se despediu pela última vez de Carlos. Após dois dias
sem dar notícias, no terceiro dia mandou-lhe um e-mail dizendo “Cansei.
Seja feliz.” e sumiu. Quatro anos depois daquele primeiro encontro, ela
mudou de telefone, de e-mail e de endereço. Carlos relatou para a
terapeuta o absurdo daquele fim. Afinal, depois de tudo o que tinham
passado, quando tudo parecia bem, ela foi embora sem dizer nada.
Durante a quarentena, Carlos questionava sua solidão. Tentou
encontrar alguma atividade artística, mas sua total inabilidade para tarefas
manuais tornaram sua busca infrutífera. Comprou duas dezenas de livros,
mas só leu dois. Perdia-se, quando não fazia seu trabalho à distância,
entre as muitas horas de televisão, e outras tantas chorando suas tristeza.
Antônia voltou com força em seu pensamento. Aquele término mal
resolvido havia acontecido há uma década e meia, mas ainda doía.

Veio, então, a descoberta da terapia à distância. Durante quatro


sessões, Carlos falava apenas sobre Antônia. As outras namoradas, que
vieram depois dela, foram mencionadas apenas para reforçar a teoria
astrológica que justificava todos os problemas de relacionamento dele. A
psicóloga se perguntava por quanto tempo ele conseguiria se enganar
daquela forma. Quando Carlos escutaria suas próprias palavras e
perceberiam a parte que lhe cabia naqueles fracassos? Enquanto isto não
acontecia, Antônia (a louca que sumiu de repente) era a grande vilã que
quebrou seu coração para sempre e que o transformou no homem
desconfiado de hoje, incapaz de ter um relacionamento saudável.

Talvez você também esteja curioso, tentando entender o porquê de


Antônia ter feito o que fez. A terapeuta de Carlos estava. Já contei para
vocês que o diabo mora nos detalhes? Naquela noite, depois da quarta
sessão cansativa com Carlos, a médica resolveu assistir um filme
aleatório. A protagonista havia embarcado em uma jornada espiritual e,
em seu processo de se reconciliar com o passado, procurou todo mundo
que ela magoou para pedir desculpas. Depois de duas garrafas de vinho
e meio filme decorrido, toca o número de emergência. Era Carlos. Estava
em crise depressiva e dizia que sua vida não tinha sentido. Embalada
pelo filme, pelo vinho e pela curiosidade, ela sugeriu que ele voltasse a
procurar Antônia para resolver aquele episódio. Talvez, se ele soubesse
dos motivos dela, ele conseguisse superar e começar uma nova história.
Sua terapeuta entendeu o erro assim que desligou o telefone. Mas o
vinho em sua mente não permitiram que ela tentasse remediar a situação,
não naquele momento.
Em tempos de redes sociais, encontrar pessoas ficou um pouco
mais fácil. Mas a verdade, é que Carlos seguia Antônia há mais de cinco
anos, com uma conta falsa. Sabia que estavam morando na mesma
cidade de novo e que tinham novamente amigos em comum. E foi assim,
através de um destes amigos, que ele conseguiu o número dela.

A quarentena corria leve para Antônia. Sempre apreciou estar


sozinha, e sabia como poucos aproveitar aqueles momentos a sós. Entre
livros, yoga, trabalho e pintura, ela ocupava seus momentos livres com
mini cursos à distância, estudava assuntos diversos, e até conversava
mais do que o costumeiro com a família. Quando o telefone tocou, com
um número desconhecido, cogitou não atender. Normalmente não teria
atendido. Mas sentia-se tocada pelo momento. Atendeu.

– Antônia?
– Sim, sou eu. Quem fala?
– É o Carlos.
– De onde?
– Ééé… Daqui mesmo.
– Desculpa, não estou mesmo percebendo quem é.
– Nossa… Eu sabia que você tinha seguido com a sua vida, mas
não pensei que você tinha apagado a minha existência desse jeito.

Antônia congelou por um momento. Depois de se recuperar,


finalmente entendeu o que estava acontecendo.

– Carlos?
– Pois é. Quanto tempo, não? Tudo bem contigo?
– Caraca… É… Puxa! Desculpa. Mas como foi que você conseguiu
meu número?
– Estou bem também. Obrigada por perguntar.
– Putz, que grosseria a minha. Perdão! É que fiquei muito surpresa.
– Sua prima Alice é minha amiga no Facebook.
– Aaaaah… (Alice, sua Filha da puta!) E então. Como você tem
passado? A que devo a honra?
– À terapia.
– Hã?
– (risos) Loucura não é? Mas estou comecei a fazer terapia na
quarentena. E ela sugeriu que eu deveria fazer as pazes com
minhas questões mal resolvidas, para seguir em frente.
– Oh! Entendo…
– É que você sumiu, né?
– Ééé…
– E sempre fiquei ali com aquele pensamento, lá no fundo da
cabeça, querendo entender o que tinha acontecido.
– Sério?
– Claro, pô! A gente tava benzaço…
– Carlos…
– O que? Vai dizer que não?
– Tu me tinha me traído de novo, cara…
– Eeeeeeuuu?
– Tu dormiu e eu fui comer alguma coisa. Seu telefone tocou e eu
atendi. Antes de eu falar “alô”, uma mulher já foi falando “E aí meu
gostoso?”.
– OXE! OXE!! OXE!!! Tá doida é? Como tu sabe que não era
engano?
– Claro que eu conversei com ela, né? Eu disse que você estava
dormindo. Quando ela viu que era uma mulher falando, ficou brava
e quis me interrogar. Eu disse que era sua prima, e tinha ido
buscar uns livros emprestados, mas que poderia anotar o recado
se ela quisesse. E ela disse que estava tudo certo pra de noite,
que ela te esperava às sete. Eu cansei, né?
– Porra, Antônia… Tu é dissimulada.
– Porra o que, Carlos? O que eu ia fazer? Xingar uma pessoa
desconhecida? Que culpa ela tinha de tu ser escroto?
– Escroto?? Eu?? A gente podia ter conversado…
– O que, Carlos? Sobre como você era um santo injustiçado, e que
sua Lua em Escorpião fazia você querer sexo o tempo todo, mas
que você ia se segurar daquela vez e que nunca mais ia
acontecer? Passei recibo de trouxa por quatro anos. Uma hora
cansa, né? Eu fui pra faculdade, viver minha vida.
– Tá vendo? Tu tinha passado no vestibular em outra cidade e nem
me contou. Sumiu, nem deu chance da gente se entender…
– A gente teve quatro anos pra isso, né Carlos?
– Mas eu tava mudado. Aquela lá era uma mulher que eu estava
pegando antes da gente reatar, e eu esqueci de desmarcar.
– Carlos, a gente tinha reatado há quase dois meses. Quem marca
trepada com dois meses de antecedência? Só bandido na cadeia.
– Não ofende também, né?
– Ué… Em que eu te ofendi.
– Não sou nenhum bandido.
– Foi só um exemplo.
– O negócio foi que tu sumiu da existência. Passei esses anos todos
achando que tu tinha feito de propósito, sabe?
– Acho que você viu filmes demais… Isso aqui não é série da
Shonda, não. Eu achei que você ia se tocar, quando encontrasse
sua peguete e descobrisse que eu atendi o telefone.
– Então, pô, eu nem fui lá. Eu nunca fiquei sabendo que você tinha
descoberto ela.
– Descoberto… Então você admite.
– Não foi isso que eu quis dizer.
– Veja, a gente não tem nada a ver um com o outro. Eu tenho minha
vida e você a sua. Então não precisa ficar tentando se justificar e
dissimular…
– Agora EU que ou o dissimulado? Meu Deus! Eu passo 15 anos
sem saber o que aconteceu e…
– A gente sabe que não é verdade, né Carlos?
– Como assim?
– Márcio Almeida.

Desta vez, foi Carlos quem congelou por um momento.

– Como você sabia?


– Desconfiei no mesmo dia.
– E porque tu me aceitou?
– Queria ver o que você pretendia. Mas você ficou lá quieto, nunca
disse nada, não postava nada. Achei que você tinha perdido a
senha da conta e esqueci o assunto.
– Tá vendo? Você é muito dissimulada…
– Eu não tenho conta falsa no Facebook para perseguir ex-
namorados.
– E venenosa…
– Sincera.
– Eu sabia que você não tinha coração, mas isso é demais.
– Olha só… Você não tinha ligado para pedir desculpas pelas
merdas do passado?
– Não! Para me reconciliar com o passado e…
– Ué! Mas o que significa isso pra você?
– Achei que você ia relevar a verdade sobre o que aconteceu e pedir
desculpas, e ai…
– Aí você descobriu que o errado era você, e ficou perdido.
– Talvez.
– E começou a me ofender, em vez de se desculpar…
– Não é bem assim…
– Como você sempre fez. Você deveria contar para a sua psicóloga
que está repetindo padrões tóxicos há 15 anos. Finalmente
alguém que pode te ajudar está na sua vida.
– Verdade… Poxa… Desculpa, Antônia. Eu fui um bosta, né?
– Se você acha…
– Você merece um cara que te respeite, que não te traia…
– Ou de um relacionamento aberto.
– Hã?
– Pois é. Há 10 anos decidi só ter relacionamentos abertos.
– Como é que é?
– Funciona pra mim. Tenho uma namorada há 10 anos. Ela vive na
casa dela e eu na minha. Eventualmente, se sentimos vontade,
nos relacionamos com outras pessoas. E tudo bem.
– Você me largou porque eu estava de traindo, pra me contar que…
– Calma lá! É diferente!
– Diferente como?
– Depois de dois anos de terapia, eu percebi que seria mais feliz se
não houvesse esse tipo de cobrança em um relacionamento.
Porém, tudo às claras. Nada às escondidas. Sem mentiras.
– Tu disse namoraDA?
– Sim. Por que?
– Tu virou sapatão, Antônia?
– Porra, Carlos! Não fode… Você sempre soube que eu era
bissexual.
– Mas tu tinha 15 anos. Achei que tu tinha dado uns beijos numa
menina lá, por curiosidade.
– Eu nunca disse isso. Antes de você, namorei por três meses uma
garota. Tava super triste quando te conheci, porque tinha
terminado com ela.
– Ah é…
– Dããã!
– Sou burro pra caralho, né?
– Às vezes sim…
– Relacionamento aberto é?
– Sim.
– A gente podia jantar num dia desses, quando acabar quarentena…
– PORRA, CARLOS!
– O que foi??
– Tu me ligou pra resolver tuas nóias e não pra mexer nas minhas.
– Mas o que eu fiz errado? Só te chamei pra jantar, colocar o papo
em dia. Totalmente inocente…
– NEM FODENDO, CARLOS!
– Mas…A gente podia se ver logo essa semana, então, e conversar
cara-a-cara pra resolver essa história de vez, né?
– Tá maluco? Com essa pandemia matando geral?
– A gente toma cloroquina e invermectina preventiva antes e...

* Click *
Após desligar, Antônia bloqueou o número de Carlos, seu fake no
Facebook, encomendou um novo chip e mandou um áudio de cinco
minutos para sua prima Alice. De basculho a pequi roído, nenhum adjetivo
foi esquecido naquele dia.

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