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Gramsci e o Materialismo Histórico nas RI

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,

Gramsci materialismo
histórico e relações
internacionais
Stephen GUI
ORGANIZAÇÃO


IN T R O D U Ç Ã O

Gramsci e a política glohal:


uma proposta de pequisas pós-hegemônicas
Stephen Gill

Este livro recolhe estudos que se propõem a contribuir para


novos desenvolvimentos do materialismo histórico. Seu argumento
central é o de que precisamos desenvolver novas abordagens da eco­
nomia política internacional e das relações internacionais mediante
a elaboração de formas de explicação historicamente integradas e
dialéticas, apropriadas às condições do final do século XX. Nesta in­
trodução, resumo algumas das principais idéias, propostas e objetos
de pesquisa relacionados, em termos gerais, à reconstrução das teorias
histórico-materialistas sobre as relações internacionais. As contribui­
ções a este livro oferecem amplo leque de diferentes abordagens, mas
no quadro de uma perspectiva amplamente compartilhada. Um rese-
nhista anônimo chamou a perspectiva, presente na maioria das con­
tribuições, de “nova escola italiana” de relações internacionais. No
capítulo 1, uso o adjetivo “italiano” com certa ironia, hesitação e defe­
rência aos nossos dois colaboradores italianos (Giovanni Arrighi e
Enrico Augelli).
Ficará claro para o leitor que os ensaios deste volume foram
inspirados pelos problemas levantados não apenas nos escritos de
Antonio Gramsci, mas também nos de autores como Karl Marx,
Eernand Braudel, Karl Polanyi, Robert Cox e outros, como, por
exemplo, os que trabalham na Escola de Relações Internacionais de
Amsterdã (ver os capítulos de Otto Holman e Kees van der Pijl). Em
outras palavras, as notas de Gramsci sobre relações internacionais
precisam ser relacionadas à reconstrução do pensamento histórico-
inaterialista em sentido amplo, a fim de evitar um novo sectarismo
intelectual. É im portante transcender distinções acadêmicas de
utilidade limitada, tais como aquelas entre relações internacionais e
política comparada, entre teoria política e teoria empírica, entre so­
ciologia política e economia política. A reconstrução da teoria his-
íórico-materialista precisa considerar questões epistemológicas, on-
42 ♦ Stephen G ill

tológicas e metodológicas no contexto do passado, do presente e do


futuro. Nos escritos de Marx, a ênfase teórica residia na idéia de uma
sociedade histórica e integral, cuja análise implicava a recusa do redu-
cionismo inerente ao “materialismo objetivista, ao mecanicismo e ao
empirismo [...] para se poder chegar a uma atitude verdadeiramen­
te realista, assumida com a consciência de ser um produto do pensa­
m ento”.1
A problemática deste livro pode ser relacionada à idéia de que
o socialismo precisa ser redefinido para além de sua associação com
projetos totalitários, como aquele do stalinismo. Por outro lado, essa
redefinição e a política que ela implica podem ser conectadas em
parte à idéia de autodefesa da sociedade contra a investida desintegra-
dora e atomizante das forças de mercado globalizadoras, relativamen­
te pouco planejadas.

Uma escola gramsciana de relações internacionais?

Assim como não existe uma única escola de marxismo (o pró­


prio Marx negava ser marxista), também não existe uma única escola
gramsciana ou “italiana”. Também não existe uma interpretação
consensual das idéias fragmentadas e muitas vezes contraditórias de
Gramsci a respeito da teoria social. O que existe, ao contrário, são
grupos de intelectuais procurando discutir em seus trabalhos algu­
mas das questões levantadas e apresentadas em termos gramscianos
em diferentes disciplinas, num grande número de países. Esses inte­
lectuais começaram a se comunicar e a participar de seminários con­
juntos e, dessa forma, começaram também a formar o embrião de uma
comunidade global de pesquisa. Parte da pesquisa tem consequências
práticas na medida em que está ligada, de diferentes modos, ao apoio
dado à atividade de partidos políticos socialistas e progressistas, e
também de movimentos sociais.

1 Carta assinada por Alex Fernandez, Otto Holman, Hcnk Overbeek e Kees
van der Pijl e enviada ao organizador deste volume, em 10 de junho de 1991.
I ntrodução ♦ 43

Alguns dos primeiros trabalhos com base na perspectiva neo-


gramsciana implicaram um diálogo construtivo e uma crítica das di­
ferentes perspectivas, incluindo a teorização predominante - ou, em
termos gramscianos, hegemônica - nos campos da economia política
e das relações internacionais (como Gill e Law, 1988). A meu ver, isso
se tornou necessário por causa de, pelo menos, dois fatores impor­
tantes. Em primeiro lugar, embora o marxismo sempre tenha ofere­
cido uma abordagem integrada, o materialismo histórico - em grande
parte por causa da orientação da teoria norte-americana e de sua
predominância nesse campo - tendeu a se marginalizar em relação a
muitos dos principais debates sobre estudos internacionais. Essa
inarginalização foi ocasionada em boa parte pelas limitações de uma
aplicação mecânica e a-histórica de muitas idéias e teorias marxistas,
algumas das quais vinculadas a uma tendência fundamentalista de
gerar “expectativas cada vez maiores do colapso do capitalismo” (ao
passo que Gramsci dizia enfaticamente que não havia uma relação
necessária entre crise econômica e política, ou vice-versa).
Essa fraqueza teórica levou a que a argumentação se revelasse
implausível, bem como à perda do atrativo das idéias do materialismo
histórico para as novas gerações de estudantes das universidades oci­
dentais. Esse também parece ter sido o destino do marxismo ortodo­
xo no Japão durante os últimos vinte anos. Principalmente no con­
texto do desmoronamento dos sistemas de governo leninista e pós-
stalinista na Europa Oriental, bem como do colapso do marxismo-
leninismo dogmático como doutrina social, agora talvez possamos
esperar pelo momento em que haja condições de se atribuir a esse
marxismo mecânico e patológico seu lugar numa exposição macabra
de um museu de história do século XX.
Este último comentário reforça meu segundo ponto de vista a
favor do diálogo. As décadas de 1980 e 1990 testemunharam um de­
clínio secular e, em alguns casos, espetacular, na visibilidade e no
atrativo teórico das idéias de esquerda. Apesar do triunfalismo e dos
propagandistas do Ocidente que proclamam “o fim da história”, cer­
tos acontecimentos da Europa Oriental e da ex-União Soviética refor­
çaram as exigências de credibilidade, de poder posicionai e de vigor
tios discursos hegemônicos no Ocidente. Sobre a questão da Rússia e
44 ♦ Stephen G ill

da fragilidade das relações entre Estado e sociedade civil e, por conse­


guinte, da propensão do Estado a entrar subitamente em colapso,
Gramsci teve uma intuição importante. Essa intuição pode ser apli­
cada aos acontecimentos de 1991-1992, quando a União Soviética
desmoronou.
No Oriente, o Estado era tudo, a sociedade civil era
prim itiva e gelatinosa; no Ocidente, havia entre o Estado
e a sociedade civil um a relação apropriada e, ao oscilar o
Estado, podia-se im ediatam ente reconhecer um a robusta
estrutura da sociedade civil. (Gramsci, 2000, p. 262)

As idéias marxistas desenvolvidas num gueto teórico sofrem


de falta de relevância. Elá muito a ganhar com um diálogo construti­
vo, com argumentos e teorias com base em perspectivas diferentes.
Isso é de importância crucial para avaliar o status de novas idéias teó­
ricas: para serem convincentes, essas idéias têm de apresentar explica­
ções mais abrangentes, consistentes e refletidas do que as predomi­
nantes (Gill, 1990).
A maior parte da obra substantiva de Gramsci girou em torno
da análise de formações sociais nacionais, em determinados períodos
históricos, principalmente da Itália. Gramsci afirmava que esse era o
nível inicial em que o Estado e a sociedade civil (e sua anatomia, a
economia política) devem ser analisados e no qual se constroem os
alicerces das hegemonias sociais. Esse foco nacional predomina nos
estudos gramscianos não só no Japão e na América Latina, mas
também na Europa Ocidental, como mostra a obra do Birmingham
University Centre for Contemporary Cultural Studies (por exemplo,
Hall, 1982; Larrain, 1983) e os debates atuais naNewLeft Reviewe no
Socialist Register sobre a natureza da cultura, da ideologia, do Estado,
da sociedade civil e da hegemonia na sociedade capitalista. Têm havi­
do, também, muitas discussões em revistas de esquerda sobre a ques­
tão do imperialismo, embora elas em geral sejam expressas em ter­
mos das teorias do ultra-imperialismo e do superimperialismo, e não
em termos gramscianos.
O movimento que propõe estender as idéias de Gramsci ao es­
tudo das relações internacionais e da economia política internacional
é lento e recente e envolveu relativamente poucos estudos ambiciosos
I ntrodução ♦ 45

uo sentido de definir as origens, o desenvolvimento e a dinâmica da


economia política global que está surgindo. Apesar disso, começaram
.i aparecer obras de peso sobre a internacionalização do Estado e da
.sociedade civil, sobre os aspectos internacionais da hegemonia e da
supremacia social, sobre a classe transnacional, formações de blocos
e forças econômicas, sobre o papel de intelectuais orgânicos e sobre
organizações internacionais e outras questões que ajudam a definir a
natureza da política global do século XX (como, por exemplo, van der
Pijl, 1984; Cox, 1987; Augelli e Murphy, 1988; Gill, 1990; Overbeek,
1990). É importante aqui a obra pioneira de Robert Cox, que publi­
cou dois ensaios do maior interesse em Millennium no começo da dé­
cada de 1980 (Cox, 1981; 1983), o último dos quais pode ser lido co­
mo uma introdução à aplicação dos conceitos de Gramsci no plano
internacional e faz parte desta coletânea.
Portanto, embora muitos cientistas sociais tenham conheci­
mento da aplicação das idéias gramscianas à análise do papel da polí-
iica, da cultura popular e da hegemonia ideológica e cultural no plano
nacional, esse conhecimento é muito menos evidente nas relações
internacionais e na economia política internacional. O que talvez se
deva em parte ao fato de o pensamento de Gramsci se concentrar
pouco em questões de economia política per se, principalmente por­
que ele parece ter trabalhado de acordo com os pressupostos m ar­
xistas clássicos sobre a economia política do capitalismo e do feuda­
lismo.
Na ausência de um aparato satisfatório para analisar a dinâmi-
>.a da economia política global da década de 1980, estudiosos das
relações internacionais e da economia política internacional come­
çaram a desenvolver sua própria ontologia e aparatos conceituais (ver
( :ox, 1987; van der Pijl, 1984). É claro que ainda é preciso trabalhar
muito para desenvolver perspectivas gramscianas capazes de um
maior poder de atração. Há diferentes modos de fazer isso. Por exem­
plo, a Escola de Amsterdã criou o conceito não teleológico de sociali­
zação (Vergesellschaftung), essencial à sua atividade intelectual, con-
i eilo que tem como objetivo pôr uma história e uma teoria social in­
tegrais no âmago da análise:
46 ♦ S tephen G ill

A relação entre a sociedade e o Estado, bem com o as


relações entre os Estados, em conseqüência de sua interação
social, têm de ser situadas no contexto da socialização co­
m o processo generalizado. As formas pelas quais o capital
(no sentido de capital total, isto é, um universo auto-sus­
tentável e quase totalitário de acumulação competitiva de
mais-valia) atua com o agente de socialização, ao mesmo
tempo em que restringe seu potencial (tanto no sentido da
divisão do trabalho quanto no sentido de cultura universal/
estruturas norm ativas), têm de ser esclarecidas e relaciona­
das a outras estruturas de socialização de natureza com uni­
tária - família, nacionalidade, etnicidade bem com o ao
direito e ao Estado com o arranjos formais constitutivos
de agentes legais/legítimos.2

O tipo de contribuição aqui incluída precisa estar vinculado a


um trabalho teórico mais amplo, de forma que, por exemplo, os es­
tudos que tenham um foco mais “local” ou “nacional” estejam rela­
cionados com estudos “globais”. Isso permitiría, então, uma nova
síntese intelectual e prática. Tendo isso em mente, desenvolvo no res­
tante deste prefácio alguns dos outros temas principais encontrados
nesta coletânea.

A dialética de integração-desintegração
e a ordem mundial: a visão pelo alto

Um tema deste volume é o de uma crise da hegemonia do pós-


guerra. Parte da explicação dessa crise é atribuída a um leque de for­
ças globalizadoras que estão integrando a vida material, política, so­
cial e cultural de muitos povos do planeta, mas que, ao mesmo tempo,
estão desintegrando formas previamente articuladas da organização
socioeconômica e política (essa idéia corresponde em parte ao pro­
cesso histórico de Vergesellschaftung). Esse processo dialético tem sua
expressão mais evidente na Europa Oriental e Central e nos Estados
sucessores da União Soviética, mas também está acontecendo no as­
sim chamado Terceiro Mundo, bem como em países capitalistas cen­

Carta de Fernandez et al., citada.


I ntrodução ♦ 47

trais. Na verdade, isso pode ser analisado como parte de uma “crise
tríplice” orgânica da ordem mundial do pós-guerra, que exporemos
abaixo. Um indicador dessas mudanças é o aumento recente de m o­
vimentos migratórios e de refugiados, a “globalização” de povos im ­
pulsionada pela reestruturação da produção e das finanças globais e,
em termos mais gerais, pelo aumento das disparidades das condições
econômicas e ambientais, pela guerra e pelo conflito político.
Por outro lado, alguns neo-realistas como John Mearsheimer
(1990) afirmam uma continuidade básica nas relações internacio­
nais. Para eles, persiste a situação de anarquia na política mundial, e
a rivalidade entre os Estados e a insegurança que a acompanha vão se
reforçar agora que a Guerra Fria terminou na Europa. A previsão é
de instabilidade, uma vez que a superestrutura da Guerra Fria, que
gerava ordem, foi eliminada. Outros neo-realistas, preferindo usar
analogias históricas mais matizadas (como Lawrence Freedman e sir
Michael Howard), disseram que o fim da Guerra Fria significa o res­
surgimento do nacionalismo e um retorno a problemas que puseram
em xeque a segurança da Europa desde o fim da Paz dos Cem Anos.
Portanto, de acordo com essa visão, o que mudou foi a superestrutu­
ra de segurança Leste-Oeste. Com o desgaste e a erosão do poder so­
viético, a estrutura subjacente básica (anárquica) das relações inter­
nacionais é revelada mais uma vez; a difusão crescente do poder glo­
bal - na ausência de um equilíbrio estável de poder - está associada à
instabilidade e ao conflito. O aumento aparentemente recente da vio­
lência intercomunal, das tensões étnicas, das forças centrífugas em
alguns países (principalmente a antiga União Soviética e a Iugoslávia)
fornece evidências que corroboram essa posição.
Nesse sentido, os neo-realistas veem não apenas o Grupo dos
Sete (G7), mas também as Nações Unidas, a Comunidade Econômica
Européia (CEE) e o processo de união econômica e política da Euro­
pa Ocidental, bem como a possível ampliação da Comunidade Euro­
péia (CE) para incluir outros países, como mero reflexo de uma série
de barganhas interestatais e, por conseguinte, como resultado da es­
trutura de poder subjacente entre os Estados e não como uma série de
mudanças estruturais que geram condições inéditas e promovem no­
vas concepções de interesse e identidade como, por exemplo, no con­
texto pan-europeu.
48 ♦ Stephen G ill

No entanto, pode-se defender a hipótese de que o século XX


entrou numa nova era de política global, de modo que talvez seja
mais apropriado começar a falar em termos de um conjunto de estru­
turas mais integradas globalmente ou, de acordo com a expressão cu­
nhada por David Law e por mim, de uma “economia política global”.
Embora essas estruturas tenham sido configuradas, pelo menos até o
final da década de 1980, pelas lutas dialéticas entre sistemas socio-
econômicos pré-capitalistas, capitalistas e comunistas, a evidência
recente das mudanças na Europa Oriental e Central, na União Sovié­
tica e na China, bem como em países como o Vietnã, sugere que, mais
uma vez, o capitalismo está se disseminando como forma predomi­
nante de organização socioeconômica não apenas entre os Estados,
mas também no interior de cada um deles, à medida que a mercanti-
lização aprofunda seu domínio social e geográfico. Ao mesmo tempo,
uma consciência planetária cada vez maior das questões ecológicas e
ambientais reflete os encadeamentos complexos entre as forças cu­
mulativas do desenvolvimento e do subdesenvolvimento econômico,
a interação entre cidade e campo, entre ricos e pobres, e entre paz e
guerra na emergente ordem mundial.
Afirma-se algumas vezes que o atual nível de internaciona­
lização da atividade econômica é menor do que aquele predominante
antes de 1914. É possível encontrar alguns indicadores que corrobo­
ram essa afirmação. Mas agora vivemos num mundo caracterizado
pela integração global crescente das estruturas financeiras e de pro­
dução, por intrincadas redes de comunicação, pela rápida inovação e
difusão de tecnologia e pelo possível surgimento de formas associadas
de consciência, bem como por mudanças nas estruturas de segurança
e alianças estratégicas. Portanto, a economia global que está surgindo
hoje implica um sistema de alcance planetário, e não apenas um sis­
tema de economias nacionais independentes e coordenadas basica­
mente por mecanismos de troca, carteiras de ações e fluxos de capi­
tal especulativo, isto é, a economia política “internacional” do século
XIX, que provavelmente sobreviveu até a década de 1960, ou seja, o
período que coincidiu com o início do aumento maciço dos merca­
dos europeus e com o crescimento substancial das atividades de em­
presas transnacionais, tanto manufatureiras quanto ligadas a indús­
trias extrativistas.
I ntrodução ♦ 49

Apesar do surgimento do embrião de uma estrutura informal


de poder global, pelo menos no nível da elite, houve um desenvol­
vimento relativamente parcial da sociedade civil e política globais e,
em conseqüência, uma internacionalização subdesenvolvida da au­
toridade política. Na verdade, embora tenha havido uma boa dose de
institucionalização das relações econômicas e de segurança globais
por intermédio de organizações e alianças internacionais, o locus da
autoridade política ainda é, em ampla medida, situado territorial-
mente em Estados formalmente soberanos, embora essa situação es­
teja mudando, conforme se verá mais adiante.
Contudo, no contexto da turbulência de 1989-1991, o que
podemos observar é uma espécie de “desordem organizada”. Com
essa expressão, estou designando um movimento da elite que ambi­
ciona consolidar uma nova forma de hegemonia no coração mesmo
do sistema, ainda que com uma base social diferente da forma ante­
rior, que vai de 1945 até cerca de 1970. Por conseguinte, as discussões
realizadas entre 15 e 19 de julho de 1991, na reunião de cúpula do G7,
foram interessantes em parte por causa da pauta, que incluiu: a rees­
truturação da antiga União Soviética; a reconstituição da Organização
das Nações Unidas (ONU); uma iniciativa ecológica infrutífera, en­
volvendo uma barganha entre dívidas e natureza, para salvar as flores­
tas tropicais úmidas do Brasil; e questões relativas ao protecionismo
comercial e a relações macroeconômicas. Fóruns como o do G7 (e
seus congêneres privados, como o Fórum Econômico Mundial e a
Comissão Trilateral) são importantes também porque sua existência
dá destaque às forças de vanguarda e à maneira pela qual elas podem
servir para gerar um consenso estratégico a fim de configurar o que
poderiamos chamar de “pirâmides do privilégio” nas estruturas da
ordem mundial que os governantes do G7 procuram contornar.
Igualmente importante é o fato de que esses fóruns indicam as con­
dições de ingresso nas instituições centrais da economia política
global.
As tentativas do G7 para mobilizar um consenso dos aliados
em torno do conceito de “nova ordem mundial” do presidente Bush
reflete a interação complexa entre idéias, instituições e capacidade
material (produção e poder militar) e de que modo, de acordo com
certas condições, esses fatores podem convergir num conceito coe­
50 ♦ S tephen G ill

rente de ação. Apesar disso, as discussões pós-Guerra Fria também


sublinham divisões e conflitos nas fileiras do G7. Entre eles, podemos
mencionar, por exemplo, a maneira de reagir aos pedidos de ajuda de
Gorbachev e mais tarde de Yeltsin, com a França, a Alemanha e a Itá­
lia, mais a Comunidade Européia, posicionando-se contra o Canadá,
o Japão, os Estados Unidos e o Reino Unido sobre a natureza e a mag­
nitude da ajuda, bem como as discordâncias entre Estados Unidos e
CE a respeito de negociações do Acordo Geral sobre Tarifas e Comér­
cio (Gatt). Mas, embora se possa dizer que há um movimento no sen­
tido da reconsolidação e recomposição do “coração” do sistema, ve­
mos simultaneamente a fragmentação de formas anteriores de Esta­
do, crises econômicas e políticas, guerra, fome e desastre ecológico.
Recentemente, na esteira da Guerra do Golfo, a consciência de
alguns desses problemas inspirou iniciativas do G7 e da CE no sentido
de pressionar para um maior rigor no regime de exportação de armas
e de providenciar condições de ajuda intimamente ligadas à “demo­
cratização” e à redução dos gastos militares. Essas iniciativas ocor­
reram na mesma época em que a capacidade militar da Organização
do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estava sendo reorganizada para
permitir uma intervenção mais ágil dos membros europeus, de acor­
do com as linhas da US Rapid Deployment Force (Tropa Norte-Ame­
ricana de Intervenção Rápida) (criada logo depois da revolução ira­
niana de 1979 e que foi essencial para a vitória militar dos Estados
Unidos na Guerra do Golfo de 1991). Junto com as forças de merca­
do, relacionadas por exemplo ao acesso ao crédito, essas iniciativas
indicam uma dupla forma de disciplina do G7 com relação às possibi­
lidades de desenvolvimento do Terceiro Mundo. Novas possibilidades
de sustentar uma intervenção rápida estão vinculadas a certo controle
institucional sobre as condições de prover dinheiro e investimento,
por exemplo, por parte do Grupo dos Sete, do Fundo Monetário In­
ternacional (FMI), do Banco Mundial, do recentemente fundado
Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento e do banco cen­
tral dos banqueiros, o Bank for International Settlements (Banco de
Compensações Internacionais).
I ntrodução ♦ 57

A visão a partir de baixo e a ordem mundial emergente:


a política global depois de 2000

Uma determinada ordem mundial tem suas próprias condi­


ções específicas de existência e de dinâmica. Por causa disso, a ordem
mundial não pode ser explicada de forma adequada por meio do es-
truturalismo abstrato e, talvez ainda menos, por referências idealistas
ao espírito da história. A história está sempre se fazendo, numa inte­
ração complexa e dialética entre estrutura, consciência e ação, dentro
do que Fernand Braudel chamou de “os limites do possível”:
A coexistência de níveis superiores e inferiores [de civiliza­
ção] impõe ao historiador uma dialética esclarecedora. Co­
mo entender as cidades sem entender o campo, o dinheiro
sem o escambo, as variedades de pobreza sem as variedades
do luxo, o pão branco dos ricos sem o pão preto dos pobres?
(1981, p. 29)

Então, o que realmente mudou na ordem mundial? Há ques­


tões de epistemologia e de ontologia envolvidas nessa pergunta. Posi­
ções diferentes nos debates atuais sobre a ordem mundial emergente
refletem várias abordagens do processo de adquirir conhecimento,
bem como visões da maneira pela qual o mundo social é constituído.
Por conseguinte, os debates teóricos (e práticos) sobre a ordem m un­
dial tratam em parte de três questões interligadas: como entender a
natureza da realidade social, quais são seus componentes e relações
determinantes e de que forma se alteram com o passar do tempo.
Além disso, dado que ordem é um conceito político, é necessário
perguntar: “Ordem para quem e com que objetivo?”
Como sugeri acima, a ordem mundial emergente pode ser
pensada como decorrente de uma tríplice crise, isto é, de uma trans­
formação envolvendo três “níveis” inter-relacionados: 1) o “econô­
mico”, que inclui a reestruturação da produção, das finanças e do co­
mércio global, o qual põe em questão modos anteriores de negocia­
ção e formas de organização econômica; 2) o “político”, implicando
mudanças institucionais que incluem novas formas de Estado, a in­
ternacionalização, a transnacionalização e certamente a globalização
do Estado, bem como o que Robert Cox (ver capítulo 10) chama de
52 ♦ Stephen G ill

surgimento do sistema interestatal “pós-westfaliano”, indicando,


assim, a mudança onde os neo-realistas veem uma continuidade es­
sencial; e 3) o “sociocultural”, ou seja, o modo de reestruturação glo­
bal dos níveis político e econômico implica também, em parte, a con­
testação de conjuntos inter-relacionados de estruturas, idéias e prá­
ticas sociais, promovendo, dessa forma, possibilidades de mudança,
mas, ao mesmo tempo, restringindo-as.
Cada um desses “níveis” é abstraído das estruturas e das forças
sociais que existem, por definição, em e entre cada nível. Essa crise
tem características comuns em diferentes partes do mundo, embora
seu impacto seja desigual, em parte por causa das diferentes carac­
terísticas entre cidade e campo, entre ricos e pobres, em cada país e
entre grupos de países. Portanto, as categorias de “Primeiro”, “Se­
gundo” e “Terceiro” Mundos são abstrações primitivas ou tipos ideais,
cuja função é oferecer formas mediante as quais a natureza e a mag­
nitude das crises da ordem mundial podem ser conceituadas.
Sobre a questão das formas do Estado, as forças econômicas de
vanguarda, entre outras, principalmente a intensificação da inovação
e da competição globais numa era de comunicações em geral instan­
tâneas, estão servindo para tom ar daras as hegemonias sociais, os ar­
ranjos políticos e as formas do Estado que predominaram tanto nos
Estados capitalistas centrais da América do Norte e da Europa Oci­
dental (e possivelmente do Japão) quanto, e de maneira ainda mais
dramática, nas estruturas sociais e dos ordenamentos políticos do
“socialismo real”. Mudanças semelhantes estão ocorrendo em muitas
nações em desenvolvimento - como, por exemplo, na América La­
tina à medida que os ordenamentos estatistas e mercantilistas
tradicionais vão sendo substituídos por um padrão de desenvolvi­
mento mais voltado para o mercado. Apesar disso, a ordem mundial
emergente ainda é configurada pela divisão do planeta em soberanias
políticas, embora elas estejam em processo de reformulação. Isso en­
volve a reestruturação interna e externa do Estado e da sociedade civil
em resposta ao, e como resultado do impacto da globalização das for­
ças sociais.3Ao que parece, tais mudanças são essenciais à nossa com­

3 Sobre essa idéia, ver Cox, 1989 e 1990b.


I ntrodução ♦ 53

preensão da ordem mundial emergente e exigem muito mais pes­


quisa.
Ao estudar questões contemporâneas, por exemplo, pode ser
importante problematizar os conceitos de Estado e de soberania (ju­
rídica). Redefinições de soberania e mudanças constitucionais são,
agora, importantes questões políticas em muitos contextos, tais como
a Comunidade Européia, a Europa Oriental e Central, o Canadá, a
Austrália e muitas partes do Terceiro Mundo. Aqui a pergunta podería
muito bem ser: “Que tipo de soberania, para quem e com que pro­
pósitos?”
Em outra obra (Gill, 1992), escrevi sobre o discurso do “novo
constitucionalismo”, que é uma doutrina e um conjunto de forças
sociais que procuram impor restrições ao controle democrático de
organizações e instituições econômicas públicas e privadas. O dis­
curso pode ser ligado às tentativas de fundamentar a hegemonia do
neoliberalismo “disciplinador”, do tipo associado às tentativas de re­
estruturar os Estados pós-comunistas de acordo com as linhas pro­
postas pelo FMI e sob a tutela ocidental. Tentativas da elite européia,
por exemplo, procuraram criar uma forma de macrorregionalismo
baseado na racionalidade econômica liberal (como o programa de
1992, por exemplo). O desenvolvimento constitucional e político
associado à união econômica e monetária da Comunidade Européia
implicou a idéia de “restrições inegociáveis” da liberdade de manobra
dos (futuros) governos-membros no sentido de instituir livremente
uma política fiscal e monetária. Essas limitações complementariam
a disciplina das forças de mercado para restringir a autonomia polí­
tica dos governos (ver o capítulo 4, que trata do poder do capital em
resposta a certos tipos de políticas públicas).
Além disso, o papel do Parlamento Europeu como instituição
de governo representativo é restrito, isto é, sua voz como soberania do
povo europeu é severamente limitada (objeções a essa limitação são
expressas, por exemplo, na oposição do Partido Socialdemocrata
Alemão a aspectos dos acordos de Maastricht de dezembro de 1991 e
nos resultados do plebiscito dinamarquês de junho de 1992, que re­
jeitou a ratificação do Tratado de Maastricht). Os poderes do Parla­
mento Europeu são principalmente consultivos: pouco tem a dizer
na maioria das áreas cruciais da política européia (o que tem sido
54 ♦ S tephen G ill

chamado de “déficit democrático” da CE). Da mesma forma, a re­


construção de organizações capitalistas na Europa Oriental ocorreu
com o isolamento, por exemplo, dos bancos centrais, no que diz res­
peito à sua responsabilidade de prestarem contas à população. O novo
constitucionalismo pretende garantir a liberdade de entrada e saída
do capital móvel internacional em relação a diferentes espaços socio-
econômicos (o que se reflete no leque cada vez maior de regras for­
muladas nas negociações da Rodada Uruguai do Gatt e no Acordo de
Livre-Comércio entre Estados Unidos e Canadá). O alcance dessas
restrições, numa era de mobilidade substancial do capital, significa
que os líderes políticos talvez tenham de prestar contas às forças do
mercado internacional da mesma forma que prestam a seu eleito­
rado.
Portanto, ambos os significados de soberania (referentes à au­
tonomia política de governos eleitos e do povo) estão em questão.
Nesse sentido, a posição central e as prerrogativas exclusivas dos Es­
tados Unidos estão em contradição com o novo constitucionalismo
de base mundial. Os Estados Unidos têm tanto quanto qualquer ou­
tro país de se submeter às restrições inegociáveis dessa ordem (seus
políticos preferem estar “amarrados à liderança” a estarem “amarra­
dos ao mastro”, como Ulisses para resistir às tentações das sereias).
Apesar disso, mesmo a autonomia dos Estados Unidos em questões
de política macroeconômica está sendo cada vez mais limitada pela
globalização das finanças e da produção, embora os Estados maiores
e as associações políticas macrorregionais (como o Japão e a CE) em
geral tenham um espaço de manobra maior do que os pequenos. Por­
tanto, alguns são mais soberanos do que outros na ordem mundial
emergente.
O tema da soberania envolve não apenas direitos jurídicos e a
questão da cidadania e da responsabilidade, mas também a alocação
de recursos e as oportunidades de vida, uma vez que estas estão asso­
ciadas à capacidade de autonomia humana e de opção social. Por­
tanto, embora os sistemas mundiais e os teóricos da dependência
falem dos conceitos de organizações “centrais”, “semiperiféricas” e
“periféricas”, que refletem a hierarquia dos Estados e os estágios do
desenvolvimento socioeconômico (e das restrições e possibilidades
I ntrodução ♦ 55

que eles implicam), também podemos enfatizar que esses conceitos


podem se aplicar tanto ao interior de cada Estado quanto a vários
deles. Portanto, no caso da CE, não existe apenas um desenvolvimen­
to socioeconômico desigual entre as diferentes regiões, mas também
no interior de cada uma delas e até no interior de determinadas ci­
dades, o que pode ser visto claramente nos Estados Unidos de hoje
(não só no sentido de pobreza rural, que está aumentando), onde a
cidade de Nova York é um microcosmo desses padrões. Esse ponto de
vista é reforçado se levarmos em conta os padrões de migração interna
e de urbanização dos países do Terceiro Mundo, com cidades como
Lago, Rio de Janeiro e Xangai como bons exemplos. Por conseguinte,
mesmo que nosso foco esteja nas sociedades relativamente privilegia­
das e afluentes da Europa Ocidental, ainda podemos falar de “perife-
rização do centro” e ampliar nossa conceituação para incluir oportu­
nidades de vida, questões de segurança e insegurança pessoal e formas
de consciência.
A natureza desses processos indica contradições entre a lógica
das forças globalizadoras e as condições políticas de existência para a
operação dessas forças. O ajuste estrutural na América Latina está a-
tomizando muitas capacidades do Estado e gerando novos movimen­
tos sociais e partidos políticos que, com o tempo, podem chegar a
questionar o poder das ortodoxias neoliberais, como é o caso do fenô­
meno Lula no Brasil.4 Na Europa Oriental, a reintrodução das con­
dições neoliberais de mercado está gerando uma combinação de de­
sencanto e ressentimento generalizados que, em certa medida, refle­
tiram-se no ressurgimento do populismo, do racismo, do fascismo e
do gangsterismo. Na Rússia de hoje, por exemplo, o conceito de mer-
cantilização está cada vez mais associado ao desespero, a um rápido
aumento da criminalidade (a atividade que mais cresce no país) e da
violência (uma reportagem recente, citada no artigo mencionado

4 O “fenômeno Lula” refere-se à coalizão que se formou em apoio ao líder sin­


dicalista, desafiando e quase derrotando o neoliberal Collor de Mello nas
eleições presidenciais de 1989 no Brasil. Essa coalizão incluía sindicatos, tra­
balhadores do setor público, pobres urbanos e rurais e um grande número
de grupos e movimentos sociais,
56 ♦ S tephen G ill

abaixo, afirmava que, na Rússia, havia um assassinato a cada 22 m i­


nutos). O “mercado” está sendo reintroduzido no contexto de um
colapso geral da lei e da ordem. Um relato feito há pouco tempo por
um jornalista econômico do Ocidente dizia que as condições sociais
e econômicas durante o cerco de 900 dias a Leningrado, ocorrido em
1941, eram muito melhores do que aquelas da cidade rebatizada de
São Petersburgo em março de 1992. O jornalista contou suas expe­
riências num mercado próximo à estação da praça da Paz, no centro
de São Petersburgo, da seguinte maneira:
Seria preciso um Hogarth, um Goya ou um Hieronymous
Bosch para retratar esse “m ercado” desolado, onde cerca
de 5 mil pessoas com pravam e vendiam [...]. O term o
“m ercado” evoca visões de barracas em ordem e produtos
bem arrum ados. Havia poucas barracas e a Praça da Paz
tinha neve suja sem iderretida e lama negra até a altura dos
tornozelos. Q uem tinha pouca coisa a vender ficava de pé
em filas com centenas de m etros de com prim ento, com os
cartões de racionam ento nas mãos, latas de arenque e de
leite em pó ocidental enviadas para as crianças de São Pe­
tersburgo, um a torneira enferrujada ou um punhado de
pregos [...], lâmpadas usadas, decorações militares, gorros
de pele puídos ou eletrodomésticos quebrados |...J; os n e­
gociantes andavam de um lado para ou tro com placas que
diziam: “Troco, em moeda russa ou estrangeira”. Bêbados
tropeçavam nos muros. Tudo e todos estão à venda. O es-
cambo é um m odo de vida, principalm ente quando surge
nova escassez. É inacreditável, mas não há rublos. Os b an ­
cos estão fechando as portas, as pessoas não estão receben­
do seu salário, as empresas ocidentais estão enlouquecendo
com a tentativa de encontrar dinheiro para pagar seu qua­
dro de funcionários locais [...]. “Para onde” - pergunto a
um em presário, a um cambista, à polícia, aos bancos -
“foram todos os rublos?” Recebo inevitavelmente a mesma
resposta, um levantar de ombros: “Não sabemos. É mais
um dos grandes m istérios russos.” (Chisholm , 1982)
I ntrodução ♦ 57

Mudança histórica e opção social

Minha breve discussão dos conceitos de soberania, periferia e


mercado pretende mostrar o grau em que fazer história é um exer­
cício tanto intelectual quanto histórico, no sentido de que o teórico
dá significado a processos complexos. Fazer história envolve a intera­
ção entre passado, presente e futuro. A Guerra do Golfo de 1991 ofe­
rece mais um exemplo:
Na época contemporânea, festa guerra] é o capítulo mais
recente da luta histórica entre o m undo árabe e o Ocidente
pelo controle do petróleo. No entanto, o mais im portante
é que ela reflete em parte não apenas as lutas entre Estados,
cruciais para o trabalho teórico institucionalizante do neo-
realista e do liberal, mas tam bém as lutas pelos princípios
organizadores da sociedade. Estas lutas com eçaram pelo
menos desde a Idade Média e a era das Cruzadas, contra­
pondo o materialismo capitalista laico do Ocidente e a me­
tafísica e a doutrina social do islamismo, bem com o forças
pan-árabes mais seculares sob a form a do regime iraquiano.
Nesse sentido, a G uerra do Golfo tem raízes nas lutas e
transform ações sociais que ocorreram no m undo durante
m uitos séculos. (GUI, 1991b, p. 275)

As cruzadas não estavam associadas apenas a um choque de


valores religiosos, mas também à luta para ampliar a esfera de ação e-
conômica do capitalismo mercantil, vinculada ao crescimento e à
expansão de cidades-Estado, como Veneza, e ao embrião de forças
socioeconômicas do capitalismo que configuravam em parte o desen­
volvimento histórico das regiões em torno do Mediterrâneo nos sé­
culos XII e XIII.
Por isso, a pesquisa feita com base nessa perspectiva pode
referir-se ao uso (e abuso) político da história e do mito político: mi­
tos de origem e identidade nacional e mitos relativos ao potencial
humano, inclusive o potencial de desenvolvimento econômico e de
cooperação internacional. Essa questão envolve amplamente a rela­
ção entre discursos hegemônicos e os princípios de inclusão/exclusão
e supremacia/subordinação que tais discursos contêm ou implicam.
No contexto discutido na seção anterior desta introdução, são levan­
58 ♦ Stephen G ill

tados os problemas relativos não apenas aos conceitos de Estado, de


mercantiíização e de pluralismo político, mas também de educação e
comunicação de massas. Uma forma de entender esses problemas é a
maneira pela qual as estruturas existentes associadas a estes conceitos
(que costumam, até certo ponto, ser limitados e definidos “nacional­
mente”) estão sendo reforçadas e/ou transformadas pelos processos
de socialização. Esses problemas precisam ser tratados de forma críti­
ca, com base em extensa pesquisa histórica, para que seja superada a
simples justaposição, por exemplo, da equiparação entre progresso e
disseminação da racionalidade econômica liberal pós-iluminista (da
forma como aparece nos relatórios de desenvolvimento do Banco
Mundial) e os fundamentalismos de “atraso” e/ou o fracasso do “so­
cialismo real”.
Sob essa luz, é digno de nota que o discurso político em torno
da questão da imigração na CE no começo da década de 1990, no
contexto da ascensão de partidos racistas, fascistas e neonazistas (com
a Frente Nacional Francesa adquirindo um poder cada vez maior),
pretende implícita e explicitamente restringir a liberdade de movi­
mentação nos mercados de trabalho e institucionalizar hierarquias
de direitos jurídicos dentro deles. Isso está ligado a debates que pro­
curam determinar os princípios para inclusão na exclusão do cres­
cente espaço socioeconômico e político de uma CE mais integrada,
espaço esse que está se ampliando. Além do racismo evidente e da dis­
criminação de gênero muito difundida (e que se encontra em todos
os maiores partidos políticos franceses, por exemplo), há um discurso
mais difuso sobre a identidade européia. Tal discurso se baseia nas
origens mitológicas da Europa, tal como narradas pelos mitos e teo-
logias greco-romanos e judaico-cristãos, ancorados na idéia histórica
de cristandade. Ele pretende excluir os imigrantes do Norte da África,
do Oriente Médio e da Ásia, bem como os oriundos de países da Eu­
ropa Oriental e da ortodoxia russa, com base em sua “alteridade” ou
condição de “não-europeus”.3A aplicação prática desse discurso é a

5 Há algumas exceções a isso. Os que rezam pela cartilha da ortodoxia grega


são uma delas, uma vez que a Grécia já faz parte da CE. Além disso, as pes­
soas que podem provar uma ascendência alemã têm o direito, garantido
constitucionalmente, de emigrar para a Alemanha.
I ntrodução ♦ 59

construção de uma categoria de “migrantes econômicos” que não são


considerados dignos de “asilo político” e de ter residência permanen­
te na CE. E isso apesar da migração estar relacionada com a rees-
i ruturação da produção e com a natureza da desigualdade global. Essa
aplicação prática interage e encobre muitas formas de violência, como
aquelas vinculadas à reafirmação nacionalista intercomunal, à into­
lerância e à perseguição religiosas. Portanto, o que as mudanças e as
lutas políticas do Oriente Médio e da Europa têm em comum é esta­
rem ligadas à expansão constante de um sistema social modernista,
secular e materialista, o qual tem sido associado historicamente a de-
terminadas formas eurocêntricas de imperialismo religioso e cultu-
ral. O capitalismo modernista e globalizante talvez seja a principal
lot ça motora da história contemporânea, força que leva de modo
consistente ao surgimento de complexos contraditórios de forças
sociais.6
Alguns dos comentários acima podem sugerir uma pesquisa
para identificar a formação de discursos e de blocos históricos concre­
tos que existiram nacional e internacionalmente ao longo do tempo,
bem como as condições em qne foram contrabalançados por discur­
sos e blocos opostos; que grau de mutação sofreram; e em que medida
foram suplantados ou entraram em colapso. Temos necessidade de
uma pesquisa histórica de base ampla, que não gire apenas em torno
do “Primeiro Mundo”. Essa pesquisa deveria abranger, no mínimo,
desde o período em que se inicia a economia mundial moderna, tal
como esta foi definida por Braudel (1981), e mesmo antes (ver o capí­
tulo 7, de Barry Gills).

Esse termo é usado no sentido que lhe foi dado por Barraclough (1967).
Keferc-se às estruturas e forças sociais que configuraram o desenvolvimento
das ordens mundiais do século XX. Barraclough enfatiza duas séries de m u­
danças fundamentais: aquelas associadas às transformações tecnológicas e so-
cioeconômicas da Segunda Revolução Industrial, e um processo concomitan­
te de surgimento da política de massas. Ambas podem remontar ao início
do século XIX e talvez até mesmo ao Iluminismo. Entre outras coisas, esses
desenvolvimentos contribuíram para o eclipse da ordem eurocêntrica do sé­
culo XIX e para o aparecimento das superpotências e da “revolta do Terceiro
M undo” (contra a dominação européia).
60 ♦ Stephen G ill

Não sabemos se as hipóteses, argumentos e sugestões de pes­


quisa apresentados acima serão ou não aceitos; mas o simples fato de
levá-los a sério implica a necessidade de discutir a fundo questões
ontológicas e suas implicações para teorizar a mudança. Este livro
oferece modos - que estão longe de ser os únicos - de tentar explicar
algumas das mudanças que estão acontecendo na ordem mundial e-
mergente. Embora seja apenas uma entre muitas possibilidades, ela
reflete parcialmente a crise da ordem mundial, uma crise que se m a­
nifesta em mudanças no mundo intelectual e no desafio aos discur­
sos hegemônicos no estudo da economia política e das relações inter­
nacionais. Por fim, a dialética histórica entre economia e política está
mudando na ordem mundial do final do século XX, produzindo
novas condições políticas, entre as quais somente algumas são plena
ou claramente discerníveis.
Essas mudanças podem abrir o espaço político para movi­
mentos contra-hegemônicos. Para que os desafios sejam significati­
vos, é preciso haver sinergia entre partidos políticos e movimentos
sociais progressistas. Entre outras coisas, isso vai exigir tolerância e
respeito pelas diferenças e um esforço consciente para transpor o fos­
so (que alguns acham que é um abismo) entre o materialismo históri­
co e projetos feministas de emancipação (por exemplo, ver Tickner,
1991). Sob essa luz, os progressos nas comunicações de massa e na
educação serão cruciais, bem como, evidentemente, aqueles associa­
dos aos perfis mais gerais da vida material e política. O controle hu-
manizador das forças globalizantes, discutido nesta introdução, exi­
girá, em termos gramscianos, longa e paciente “guerra de posição”,
por meio da qual as forças progressistas possam se agrupar em blocos
contra-hegêmonicos mais integrados para conseguirem se engajar
em batalhas intelectuais e políticas numa grande variedade de níveis
da ordem mundial emergente: do local ao global.

Esboços de uma agenda de pesquisa

Resumindo, uma nova agenda de pesquisa histórico-materia-


lista para o estudo da política global envolvería de modo coerente e
sistemático ao menos as seguintes dimensões teóricas e práticas:
I ntrodução ♦ 61

1) tentativas incessantes de reconsiderar aspectos epistemoló-


gicos e ontológicos da ordem mundial no contexto do passado, do
presente e do futuro;
2) esforço contínuo no sentido de promover a inovação meto­
dológica, teórica e conceituai como, por exemplo, para transpor a li­
nha divisória entre aspectos subjetivos e objetivos da análise (e dicoto-
mias agente-estrutura). O trabalho deve procurar generalizar formas
integradas de explicação. O que poderia ser tentado, por exemplo,
colocando a idéia de uma história integral e o conceito de socialização
a ela ligado no centro da análise;
3) o estudo histórico concreto da ordem mundial emergente
em termos de suas dimensões econômica, política e so cio cultural,
tendo em vista suas contradições também emergentes e os limites e
possibilidades que elas implicam para diferentes coletividades. Isso
envolvería trabalhar com as seguintes dimensões:
a) análises das estruturas/agentes da globalização (por exem­
plo, produção e finanças, migração, comunicações e cultu­
ra, ecologia, segurança) e suas relações com estruturas e
forças mais definidas territorialmente;
b) isso estaria ligado à análise - em várias formações sociais -
do papel e das mudanças de organizações sociais como o
Estado e a sociedade civil, o mercado e a família. Por exem­
plo, as hipóteses relativas às formas “pós-westfalianas” de
Estado e à internacionalização da autoridade, bem como a
reflexão sobre as perspectivas de uma sociedade civil global,
precisam de mais análises e mais pesquisa. Parte desse
trabalho se concentraria nos fóruns públicos/privados que
tratam da administração da economia global, como o G7, o
Fórum Econômico Mundial e a Comissão Trilateral, e na­
queles que podem se contrapor a eles;
c) por sua vez, (a) e (b) poderíam estar vinculados à análise da
persistência e da mudança de padrões de interesse e de iden­
tidade, como, por exemplo, aqueles relativos à religião, à
nacionalidade, à etnia e ao gênero. A esse respeito, estudos
sobre os usos políticos da história e da construção de mitos
sociais (como as possibilidades humanas, o desenvolví-
62 ♦ Stephen G ill

mento econômico e as oportunidades de cooperação inter­


nacional) são de importância crucial.
d) finalmente, discutir diretamente e desenvolver abordagens
éticas e práticas dos problemas globais. Essa tarefa precisa­
ria estar ligada a uma análise rigorosa das formas existentes
e potenciais de organização e ação política, incluindo par­
tidos, movimentos sociais e vínculos informais num gran­
de número de níveis, do local ao global.
Como notamos acima, essa análise da política poderia estar
associada, por exemplo, à idéia da autodefesa da sociedade contra a
investida desintegradora e atomizante das forças econômicas globali-
zadoras.
Esse trabalho não só problematizaria os conceitos de sobera­
nia, Estado e mercado, mas também procuraria articular e desenvol­
ver concepções de cidadania e de responsabilidade política coerentes
com o controle democrático sobre as forças econômicas, de modo a
oferecer, por exemplo, alternativas ao “novo constitucionalismo” e à
predominância neoliberal. Esses esforços devem mostrar respeito pe­
las diferenças, evitar o etnocentrismo e auxiliar o desenvolvimento
de blocos históricos contra-hegemônicos (transnacionais). Sua polí­
tica deve estar vinculada ao aumento da capacidade de opção social
dentro e entre as diferentes sociedades.
Em outras palavras, essa agenda de pesquisa “pós-hegemôni-
ca” pode ser vista como geradora de uma perspectiva que precisa ser
entendida como uma parte do processo histórico, isto é, sua forma de
engajamento envolve conhecimento, consciência e ação humanos no
processo de fazer história e de dar forma aos nossos futuros coletivos.

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