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Amor e Idealização: Reflexões Profundas

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AMOR

É possível realmente amar alguém sem as lentes da idealização? Quando


percebemos que nos apaixonamos pela imagem que criamos e não pela pessoa real,
somos confrontados com uma verdade difícil de engolir: nosso desejo de viver uma paixão é
capaz de transformar o outro naquilo que queríamos que ele fosse. Essa invenção é uma
mistura das nossas idealizações e desejos mais profundos e torna quem amamos um
reflexo das nossas próprias fantasias e criando expectativas que são fadadas a se tornarem
frustrações. Confrontar a realidade de que nos apaixonamos pela ideia que construímos é
quase como um grito de liberdade, já que o amor nos é vendido como uma solução para
todas as nossas faltas. Na verdade, ele pode justamente trazer luz para nossa mais
profunda solidão.
E respondendo essa pergunta, não, não existe amor sem idealização, na realidade,
não existe nada, porque o avesso da idealização seria a coisa nua e crua tal como ela é e
nada é por si só, tudo depende, do modo como a gente olha, do modo como a gente sente,
do modo como as coisas tocam em tudo que a gente foi, viveu ou imaginou. A gente precisa
idealizar para suportar não só o outro, mas a gente também. O que com frequência
acontece é que a gente tende a pensar que aquilo que é idealizado é mentiroso, e não é
assim que funciona. Mas seríamos capazes de nos apaixonar pelo cru de alguém? A paixão
precisa ser um pouco mais floreada para que a gente consiga se envolver de fato com
alguém? Porque o amor consegue conviver com os defeitos, a paixão consegue? Eu penso
muito sobre isso, porque a paixão é uma loucura socialmente aceita, quando estamos
apaixonados, nos identificamos com o outro, a gente acha que encontramos no outro algo
que é nosso. E saber racionalmente que não existe, por exemplo a metade da laranja, a
nossa tampa da panela, não nos impede de viver isso. A reciprocidade está sempre na
nossa cabeça, é sempre uma aposta, por mais que a gente expresse em palavras, é
sempre uma interpretação. Nós temos uma tendência de querer que as coisas sejam
estáticas, paradas. E não é assim, a vida é movimento, mesmo que seja pra trás, as coisas
estão se movimentando.
Uma das grandes causas da morte do amor é o final do apaixonamento no sentido
último da coisa, quando não tem mais mistério, eu já não pergunto mais pro outro o que que
ele pensa, o que que ele fez, porque eu suponho que eu já sei. E aí as conversas vão
parando de acontecer por excesso de suposição de conhecer o outro. Então tem sempre
algo de mistério (e não é de fazer tipo). A paixão vai se alimentar do mistério, do
desconhecimento. Encontrar uma paixão é encontrar possibilidades que chegam até nós
através do outro. Estamos descobrindo sobre nós o tempo todo.
A maior parte dos conflitos partem de interpretações, nós não sabemos sob qual
lente a pessoa está recebendo a nossa mensagem. Dificilmente um casal briga por motivos
diferentes, é meio que a mesma coisa, são diferentes releituras da mesma coisa e de novo
a mesma coisa, sempre a mesma coisa. E à medida que isso se repete, não existe o
mistério que eu falei que é uma condição do amor sobreviver, então quando um faz alguma
coisa já sabe como o outro vai dizer, o outro já sabe como vai reagir e enfim essa chatice da
repetição ela é mortificante.
O amor precisa de uma estabilidade. O amor precisa de uma certa pacificação.
O amor precisa te dar notícias de que está tudo bem. A questão toda disso é a dose,
aí a gente se empolga na dose do caos da paixão e esbanja isso para o campo da
ansiedade e acha que isso que é amor, isso que é amor de verdade. E quando a gente
encontra com alguma coisa mais pacífica a gente acha que é muito tédio, que horror,
não é possível que seja isso, não é possível que seja assim. A gente acha que as
coisas estão erradas. Se não é isso ou então a gente vai ficar entediando tudo de uma
maneira excessiva. Cê percebe como é muito banal? A diferença entre prestar
atenção em alguma coisa reconhecendo que sempre tem alguma diferença e você
não conseguir mais prestar atenção porque parece tudo igual? A maneira como os
relacionamentos foram construídos socialmente é a fórmula perfeita para a morte da
paixão. O amor como a gente entende no sentido de que a gente tem que ter tudo
sobre o outro e isso destroi a parte principal que é o descobrir sobre o outro. E isso
tudo tem um estímulo que no fundo é egoísta: Eu respeito a sua individualidade não
porque eu quero que você seja livre, eu respeito a sua individualidade porque eu sei
que é isso que vai me fazer sustentar a nossa relação.

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