UNIVERSIDADE DE UBERABA
ANA CRISTINA RODRIGUÊS VILELA
RA 1135160-1
TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA:
PROTEÇÃO JURÍDICA DAS PESSOAS
PORTADORAS
DE TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA
UBERABA
2022
ANA CRISTINA RODRIGUÊSVILELA
TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA:
PROTEÇÃO JURÍDICA DAS PESSOAS
PORTADORAS
DE TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado ao Curso de Graduação
em Licenciatura em Pedagogia da
Universidade do Sul de Santa
Catarina, como requisito parcial à
obtenção do título de Bacharel em
Direito.
Orientador:
UBERABA
2022
ANA CRISTINA RODRIGUÊSVILELA
TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA:
PROTEÇÃO JURÍDICA DAS PESSOAS
PORTADORAS
DE TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA
Este Trabalho de Conclusão de Curso
foi julgado adequado à obtenção do
título de Bacharel em Direito e
aprovado em sua forma final pelo
Curso de Graduação em Direito da
Universidade do Sul de Santa
Catarina.
Araranguá, 07 de julho de
2020. Rejane da Silva
Johansson, Esp.
Professor e orientador
Universidade do Sul de Santa
Catarina
Nádila da Silva Hassan, Esp.
Prof.
Universidade do Sul de Santa Catarina
ANA CRISTINA RODRIGUÊSVILELA
Fátima Hassan
Caldeira Prof.
Universidade do Sul de Santa Catarina
Dedico este meu trabalho acadêmico
primeiramente a Deus, a minha
família e em especial ao meu
sobrinho diagnosticado com
Transtorno de Espectro Autista.
AGRADECIMENTOS
Primeiro e acima de tudo agradeço a Deus, pois nos momentos
de desespero e exaustão era a Ele que eu recorria, buscando forças para
continuar.
Agradeço aos meus familiares pela paciência e a motivação de
estar hoje nesta fase de minha vida acadêmica, sem eles não estaria aqui.
Agradeço de coração a todos os meus amigos os quais
vivenciaram comigo essa rotina de loucuras e desespero que é trabalhar e
estudar ao mesmo tempo.
Agradeço a todos os professores do curso de direito que nos
transmitiram uma parte de seu conhecimento e a todos os funcionários da
Unisul Araranguá, por sempre serem solícitos e dispostos com nós
acadêmicos.
Agradeço aquela que me orientou no desenvolvimento desta
Monografia, professora Rejane Johansson, obrigado por não ter desistido
de mim, meus eternos agradecimentos e carinho.
Enfim, agradeço a todas as pessoas que fizeram parte dessa
etapa decisiva em minha vida.
“A vida é como uma montanha russa, sempre tem os seus altos e
baixos. Quando estamos na parte de baixo, ela nos faz gritar, enjoar e até
as vezes chorar, e quando estamos na parte alta nos sentimos tranquilos
e seguros, até ela te puxar pra baixo novamente”. (Tita Viegas).
RESUMO
O presente trabalho foi desenvolvido a partir de pesquisa bibliográfica e
documental. Tendo como principal assunto os direitos das pessoas com
Transtorno de Espectro Autista, com o objetivo de discutir as leis que
protegem as pessoas com autismo, vinculam-se o sistema de proteção ao
princípio da dignidade humana, para desenvolvimento de uma sociedade
justa e fraterna. Autismo é uma síndrome complexa, tanto em nível de
diagnóstico, quanto de tratamento, pois afeta vários aspectos da
comunicação, integração e inclusão social, além de influenciar no
comportamento do indivíduo. Neste contexto, as pessoas com autismo
acabam sendo discriminadas, não tendo acesso a serviços em condições
de igualdade com as pessoas não portadoras de TEA, como o direito à
educação, emprego e vida em comunidade. A rejeição das pessoas que
apresentam essa condição neurológica “é uma violação dos direitos e um
desperdício do potencial humano”. Não é levado em consideração o fato
de que pessoas com autismo tem um enorme potencial. Sendo que ser
autista não é uma doença, mas o preconceito em si é. Para tanto, este
trabalho foi elaborado para tratar do conceito e a evolução do Transtorno
do Espectro Autista, a repercussão do diagnostico na família e a
integração social, e discutir mais diretamente o direito e proteção jurídica
dos deficientes e dos portadores de Transtorno de Espectro Autista, bem
como das leis que regulam o dia a dia dessas pessoas na sociedade.
Palavras-chave: Autismo, Direito, Proteção.
ABSTRACT
The present work was developed from bibliographic and documentary
research. Having as main subject the rights of people with Autistic
Spectrum Disorder (ASD), with the objective of discussing the laws that
protect people with autism, the system of protection is linked to the
principle of human dignity, for the development of a just society and
fraternal. Autism is a complex syndrome, both in terms of diagnosis and
treatment, as it affects various aspects of communication, integration and
social inclusion, in addition to influencing the individual's behavior. In this
context, people with autism end up being discriminated against, having no
access to services on an equal basis with people without ASD, such as the
right to education, employment and community life. The rejection of
people with this neurological condition "is a violation of rights and a waste
of human potential". The fact that people with autism has enormous
potential is not taken into account. Being autistic is not a disease, but
prejudice itself is. To this end, this work was designed to address the
concept and evolution of Autistic Spectrum Disorder, the repercussion of
the diagnosis in the family and social integration, and to discuss more
directly the right and legal protection of the disabled and individuals with
Autism Spectrum Disorder, as well as the laws that regulate the daily lives
of these people in society.
Keywords: autism, right, protection.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO....................................................................................................... 9
2 O AUTISMO......................................................................................................... 12
2.1 ANTECEDENTES E EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE AUTISMO.................12
2.2 TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA................................................16
2.3 REPERCUSSÃO DO DIAGNÓSTICO DO TRANSTORNO DO ASPECTRO
AUTISTA NA FAMÍLIA
18
2.4 A INTEGRAÇÃO SOCIAL DO AUTISTA....................................................21
3 A INCLUSÃO SOCIAL.........................................................................................22
3.1 DIREITOS FUNDAMENTAIS E PROTEÇÃO JURÍDICA...............................24
3.2 DIREITOS E PROTEÇÃO JURIDICA DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA.......26
3.3 DIREITOS E PROTEÇÃO JURIDICA DE PESSOAS COM TRANSTORNO DO
ESPECTRO AUTISTA
36
3.3.1 A Lei Berenice Piana 12.764/2012................................................................42
3.3.2 Legislações que regulam questões especificas do cotidiano de um
autista....................................................................................................................... 44
4 CONCLUSÃO...................................................................................................... 48
REFERÊNCIAS......................................................................................................... 50
9
1 INTRODUÇÃO
A experiência vivenciada pela autora deste trabalho acadêmico,
de ser tia de uma criança diagnosticada como Autista, não foi fácil,
entretanto, com toda a certeza essa experiência já foi e será
experimentada por muitas outras pessoas.
Importante ressaltar, que as pesquisas efetuadas até os dias
atuais não conseguiram desvendar os fatores causadores do autismo,
entretanto, essas mesmas pesquisas já conseguiram concluir que os
indivíduos do sexo masculino possuem maior predisposição para
desenvolver TEA:
Apesar do grande esforço e atenção dedicados pelas
neurociências, um entendimento definitivo sobre as possíveis
causas do autismo ainda não foi alcançado. Por outro lado,
estatísticas confiáveis apontam que o transtorno do espectro do
autismo em meninos é mais comum. A proporção é de quase 5
meninos afetados para cada menina (AUTISMO..., 2020, p.1).
Dessa forma, temos que nenhuma família esta alheia à
possibilidade de ter entre os seus membros uma criança autista. Todavia,
quando a família é abastecida com o devido conhecimento para cuidar
dessa criança especial, ela pode organizar toda a rotina familiar de modo a
desfrutarem das suas vidas de forma satisfatória e feliz, bem como
proporcionar para a criança um desenvolvimento saudável e livre de
traumas.
Sendo assim, a presente obra visa estudar a proteção jurídica
das pessoas Portadoras do Transtorno de Espectro Autista que é definido
como “um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta as pessoas de
diferentes formas na área da socialização, comunicação e
comportamento” (RUSSO, 2019, p. 4).
Atualmente, devido o aumento do número de diagnósticos, a
maioria das pessoas conhece ou ouviu falar sobre o Transtorno do
Espectro Autista. No entanto, grande parte dessas pessoas desconhecem
especificidades acerca do Autismo, sabendo apenas aquilo que ouvem
falar ou através de conclusões próprias e precipitadas, e a partir destas
pequenas informações ou desinformações surgem os preconceitos e
generalizações.
Isso acontece devido à população não interagir com os
portadores de Transtorno de Espectro Autista, identificando, assim, o
1
autista apenas por uma observação superficial. Mas para saber se uma
0
criança é ou não autista existe muito tempo de avaliação especializada,
relatórios, consultas com psicólogos, fonoaudiólogos, neurologistas e
muitos outros profissionais, além de exames que
1
1
ajudam a eliminar outras hipóteses de doenças. Sendo de extrema
importância todas essas avaliações pois os autistas não são iguais, e
somente olhos treinados e médicos serão capazes de fechar um
diagnóstico certo.
Da mesma forma que cada pessoa tem sua individualidade,
aqueles com Transtorno do Espectro Autista não são diferentes, uma vez
que estes vivem dentro de um contexto: classe social, religião, formação
familiar, enfim, um conjunto de influências que irão refletir diretamente no
seu desenvolvimento.
Além disso, o Transtorno do Espectro Autista é caracterizado pela
dificuldade na comunicação social e pela presença de comportamentos
restritos e repetitivos. Essas são as características que definem o Autismo,
porém elas podem se manifestar de diferentes formas e intensidades.
Esses déficits podem causar prejuízos nas áreas personalíssimas, familiar,
social, educacional, bem como em atividades da vida diária e profissional.
Diante desse contexto, a questão que guiará nossa pesquisa
será como as pessoas portadoras do Transtorno do Espectro Autistas são
tratadas pelo ordenamento jurídico vigente.
Assim, os autistas possuem o direito de desfrutar uma vida
significativa, produtiva e plena assim como qualquer outro cidadão, essa
garantia esta normatizada pela Lei n 12.764 de 2012, que instituiu a
Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do
Espectro Autista.
Destaca-se, ainda, que o Autismo é uma síndrome complicada,
desde o nível de diagnóstico até o tratamento, pois afeta vários pontos da
comunicação, assim acaba a influenciar no comportamento do indivíduo.
Por esse diferencial, as pessoas com autismo acabam sendo
discriminadas, sendo obstadas do acesso a serviços em condições de
igualdade com as pessoas não portadoras de TEA, tais como o direito à
educação, emprego e vida em comunidade.
“A rejeição das pessoas que apresentam essa condição
neurológica é uma violação dos direitos e um desperdício do potencial
humano” (NÚMERO...,2018, p.1). Ademais, não é levado em consideração
o fato de que pessoas com autismo têm um enorme potencial, muitos
possuindo notáveis habilidades visuais, artísticas ou acadêmicas.
1
Assim, cada vez mais é preciso debater o assunto e disseminar
2
os direitos garantidos às pessoas com transtorno do espectro autista,
tanto pela Constituição Federal, quanto pelas leis específicas de inclusão
dessas pessoas, a fim de remover
1
3
as barreiras sociais que ainda persistem e os pensamentos equivocados
acerca desta deficiência.
Para chegarmos à conclusão pretendida, realizamos a presente
pesquisa através de estudo bibliográfico e documental, com a leitura de
livros, monografias, revistas jurídicas e doutrinas, inclusive on-line,
equitativamente, por meio de análise legal, trazendo o entendimento do
atual ordenamento jurídico acerca da temática.
Para tanto, este trabalho foi dividido em dois capítulos: o
primeiro trata de apresentar o conceito e a evolução do Transtorno do
Espectro Autista, a repercussão do diagnóstico na família e a integração
social, o segundo, por sua vez, trata mais diretamente do direito e
proteção jurídica dos deficientes em si, bem como do direito e proteção
dos portadores de Transtorno de Espectro Autista e as leis que regulam o
seu dia a dia.
Por fim, demonstramos as conclusões alcançadas através da
realização do presente trabalho e apontamos as referências usadas para
sua formulação.
Entretanto, para uma melhor compreensão do acima exposto,
necessária a detida análise dos resultados das pesquisas realizadas,
conforme veremos a seguir.
1
4
2 O AUTISMO
2.1 ANTECEDENTES E EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE AUTISMO
A expressão “autismo” foi utilizada por Eugene Bleuler pela
primeira vez em 1911, “para definir a perda de contato com a realidade,
produzindo um déficit de comunicação” entre uma pessoa e os demais
membros e situações sociais (GOMEZ, TERÁN, 2014, p. 461).
Em 1943, Leo Kanner realizou estudos em crianças para
descrever a qualidade de relacionamento delas, registrando os sintomas
autistas, considerado por outros estudiosos como desequilíbrio emocional,
ou retardo mental. Além disso, constatou que os autistas apresentavam
características em suas relações interpessoais equivalentes as
apresentadas por pessoas com quadro de esquizofrenia (GOMEZ; TERÁN,
2014, p. 461).
Nesse sentido, Kanner criou um rol com as particularidades
comuns às crianças autistas, separando-as em três aspectos, as relações
sociais, a comunicação e a linguagem, e, por fim, a insistência na
invariância do ambiente:
As relações sociais. Para Kanner, o ponto fundamental da síndrome
do autismo era ‘a incapacidade de relacionar normalmente com as
pessoas e situações’, e fez a seguinte reflexão: ‘desde o princípio
há uma extrema solidão autista, algo que ignora ou impede a
entrada de tudo que vem de fora à criança.
A comunicação e a linguagem. Kanner destacou também um amplo
conjunto de deficiências e alterações na comunicação e na
linguagem das crianças autistas. [...] Ele notou a ausência de
linguagem em algumas crianças com autismo e um uso estranho
por parte daquelas que a possuem [...].
A “insistência na invariância do ambiente”. A terceira característica foi a
inflexibilidade, a adesão rígida a rotinas e a insistência sobre a
igualdade. Kanner comentou até que ponto se reduz drasticamente
a gama de atividades espontâneas no autismo [...]. Kanner
relacionava esta característica com outra muito própria do
autismo: a incapacidade de perceber ou conceituar totalidades
coerentes e a tendência para representar as realidades de forma
fragmentada e parcial (GOMEZ; TERÁN, 2014, p. 462).
Além disso, o mesmo pesquisador, Kanner, elaborou a tese de
que o autismo estava ligado com o mau relacionamento da criança com
seus genitores, também conhecida pela expressão “mãe-geladeira”.
Segundo este pensamento, o desenvolvimento do autismo estaria ligado
com o tratamento ofertado pelos pais aos filhos, especificamente, os
1
perfis de “mães emocionalmente frias” e “pais 5
1
6
intelectuais”, ambos mais preocupados com o desenvolvimento físico da
criança, do que em ter contato com ela e desenvolver suas emoções e
forma de relacionar-se com as pessoas e situações em sua volta
(CAVALCANTI, 2007, apud MARTINS, 2019, p. 19).
Entretanto, a concepção de que a origem do autismo está ligada
a suposta maternidade fria ou ideia de mãe-geladeira foi descartada por
estudiosos posteriores a Kanner, conforme aponta Stelzer:
[...] não se defende mais ideias de que o autismo tenha qualquer
origem psicogênicas, das ‘mães-geladeiras” ou outras, que tinham
por base a rejeição dos pais, especialmente da mãe, em relação à
criança autista, não merecem qualquer menção como causa de
autismo, por serem equivocadas e terem sido completamente
abandonadas. Assim como estas hipóteses foram derrubadas, foi
também o tratamento psicoterápico do autismo (STELZER, 2010,
apud, MARTINS, 2019, p. 19).
Em consonância com os estudos de Kanner, em 1944, Hans
Asperger descreveu casos em que havia algumas características
semelhantes ao autismo, no tocante às dificuldades de comunicação social
enfrentadas por crianças com inteligência normal, concluindo que “o
transtorno fundamental dos autistas [...] é a limitação das suas relações
sociais. Toda a personalidade destas crianças está determinada por essa
limitação” (GOMEZ; TERÁN, 2014, p. 462).
Noutro norte, em 1948, a OMS (Organização Mundial da Saúde)
pela primeira vez constou na sexta edição de seu sistema de Classificação
Internacional de Doenças, uma sessão específica para os Transtornos
Mentais, caracterizando-os sob o CID-6 (ARAÚJO; LOTUFO NETO, 2014, p.
1).
Ainda, Araújo e Lotufo Neto (2014, p. 1) destacam que o primeiro
manual com o objetivo de aplicação clínica para transtornos mentais
surgiu apenas em momento posterior, vejamos:
A primeira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais (DSM) foi publicada pela Associação
Psiquiátrica Americana (APA) em 1953, sendo o primeiro manual
de transtornos mentais focado na aplicação clínica. O DSM-I
consistia basicamente em uma lista de diagnósticos categorizados,
com um glossário que trazia a descrição clínica de cada categoria
diagnóstica. Apesar de rudimentar, o manual serviu para motivar
uma série de revisões sobre questões relacionadas às doenças
mentais. O DSM-II, desenvolvido paralelamente com a CID-8, foi
publicado em 1968 e era bastante similar ao DSM-I, trazendo
discretas alterações na terminologia.
Sobre o DSM-I, Fátima Rodrigues Fernandes (2020, p. 1) comenta
1
que na época ele foi uma referência em nível global para os profissionais
7
e estudiosos da
1
8
área, pois ele “fornece as nomenclaturas e os critérios padrão para o
diagnóstico dos transtornos mentais estabelecidos”. Ainda, ressalta que
“os diversos sintomas de autismo eram classificados como um subgrupo
da esquizofrenia infantil, não sendo entendido como uma condição
específica e separada”.
No ano de 1965, Temple Grandin, diagnosticada com Síndrome
de Asperger, desenvolveu a “Máquina do Abraço”, um aparelho com o
objetivo de representar um abraço e deixar os pacientes autistas mais
calmos, auxiliando no tratamento e no cotidiano dessas pessoas
(FERNANDES, 2020, p. 1).
Além disso, Fernandes (2020, p. 1) cita que em 1978, Michael
Rutter caracterizou “[...] o autismo como um distúrbio do desenvolvimento
cognitivo, criando um marco na compreensão do transtorno”. Ademais,
Rutter propôs essa definição com fundamento em quatro princípios, sendo
eles:
1. atraso e desvio sociais não só como deficiência intelectual; 2.
Problemas de comunicação não só em função de deficiência
intelectual associada; 3. Comportamentos incomuns, tais como
movimentos estereotipados e maneirismos; e 4. Início antes dos 30
meses de idade (FERNANDES, 2020, p. 1).
Em 1980, foi publicada a terceira edição do Manual Diagnóstico e
Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-III), sendo que “nesta edição do
manual, o autismo é reconhecido pela primeira vez como uma condição
específica e colocado em uma nova classe, a dos Transtornos Invasivos do
Desenvolvimento (TID)” (FERNANDES, 2020, p. 1).
Entretanto, o conceito de autismo como um espectro, surgiu
apenas em 1981, instituído pela psiquiatra Lorna Wing, a qual também
criou o termo Síndrome de Asperger, homenageando o pesquisador Hans
Asperger. Para mais, Lorna apresentou um trabalho revolucionário, como
pesquisadora, clínica e mãe de um autista, interveio por uma maior
compreensão e assistência à população autista e seus familiares
(FERNANDES, 2020, p. 1).
Continuamente, no ano de 1988, o psicólogo Ivar Lovaas
elaborou um estudo com dezenove crianças autistas entre as idades de
quatro a cinco anos, submetendo elas a 40 horas de terapia
comportamental intensiva pelo período de dois anos, findado este período,
observou-se que o QI dessas crianças aumentou em média vinte pontos.
1
Em consequência desse e de outros estudos, no decorrer dos anos 1980
9
e 1990, “[...] a terapia comportamental e os ambientes de
2
0
aprendizagem altamente controlados emergem como os principais
tratamentos para o autismo e condições relacionadas” (FERNANDES,
2020, p. 1).
Posteriormente, conforme aponta Fátima Rodrigues Fernandes
(2020, p. 1), em 1994, através de um estudo internacional multicêntrico
onde foram analisados mais de mil pacientes autistas, por 100 avaliadores
clínicos, foram instituídos novos critérios para o autismo.
No mais, naquele mesmo ano, “os sistemas do DSM-4 e da CID-
10 (Classificação Estatística Internacional de Doenças) tornaram-se
equivalentes para evitar confusão entre pesquisadores e clínicos, bem
como, nesta edição do DSM foi adicionada a Síndrome de Asperger “[...]
ampliando o espectro do autismo, que passa a incluir casos mais leves,
em que os indivíduos tendem a ser mais funcionais” (FERNANDES, 2020,
p. 1).
Em 2007, o dia dois de abril foi designado como o Dia Mundial da
Conscientização do Autismo “para chamar atenção da população em geral
para importância de conhecer e tratar o transtorno, que afeta cerca de
setenta milhões de pessoas no mundo todo, segundo a Organização
Mundial de Saúde”. Mais tarde, no ano de 2018, o Brasil incluiu em seu
calendário oficial o dia dois de abril como Dia Nacional de Conscientização
sobre o Autismo (FERNANDES, 2020, p. 1).
Outro marco importante na história autista brasileira foi o
sancionamento da Lei Berenice Piana (Lei 12.764/12) em 2012, a qual
fixou a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com
Transtorno do Espectro Autista, sendo imprescindível para assegurar
direitos aos diagnosticados com TEA (Transtorno do Espectro Autista).
Além disso, a mencionada lei determinou “[...] o acesso a um diagnóstico
precoce, tratamento, terapias e medicamento pelo Sistema Único de
Saúde; à educação e à proteção social; ao trabalho e a serviços que
propiciem a igualdade de oportunidades” para essas pessoas
(FERNANDES, 2020, p. 1).
Na publicação do DSM IV:
a grande variabilidade no grau de habilidades sociais e de
comunicação e nos padrões de comportamento que ocorrem em
autistas tornou mais apropriada o uso do termo – Transtorno
Invasivos do Desenvolvimento (TID). A partir da descrição de
Kanner, inúmeros aportes quanto à epidemiologia, classificação e
2
reconhecimento do autismo têm contribuído de forma significativa
1
para a compreensão dos aspectos biológicos dos TID
(TUCHMAN,1991 apud COSTA et al., 2015, p. 4).
No ano de 2013, foi publicado o DSM-V o qual transformou todas
as subcategorias do autismo em uma única, qual seja o Transtorno do
Espectro Autista
2
2
(TEA). Dessa forma, os pacientes passaram a ser identificados “[...] em um
único espectro com diferentes níveis de gravidade” (FERNANDES, 2020, p.
1). Por exemplo, a Síndrome de Asperger deixou de ser apontada como
um transtorno isolado e os critérios para reconhecimento do autismo
passaram a ser: “[...] as deficiências sociais e de comunicação e a
presença de comportamentos repetitivos e estereotipados” (FERNANDES,
2020, p. 1).
Importante ressaltar, que antes de 2014 as estimativas atribuíam
o desenvolvimento do autismo de 80% a 90% à genética, porém, no
mencionado ano foi realizado um grande estudo acerca dos fatores
ocasionadores do TEA, revelando-se “[...] que os fatores ambientais são
tão importantes quanto a genética para o desenvolvimento do transtorno”
(FERNANDES, 2020, p. 1), sendo que para este estudo “Foram
acompanhadas mais de 2 milhões de pessoas na Suécia entre 1982 e
2006, com avaliação de fatores como complicações no parto, infecções
sofridas pela mãe e o uso de drogas antes e durante a gravidez”
(FERNANDES, 2020, p. 1).
Atualmente, os critérios utilizados para diagnosticar o autismo
são os descritos no Manual Estatístico e Diagnóstico da Associação
Americana de Psiquiatria, o DSM 5, na prática, os Transtornos Do Espectro
Autista (TEA):
Têm sido usados como categorias diagnósticas em indivíduos com
déficits na interação social, déficits em linguagem/comunicação e
padrões repetitivos do comportamento, contudo nem sempre estes
são autistas (MONTEIRO et al, 2017, p.1).
Independentemente de no mundo inteiro ter várias investigações
e definições sobre a causa do autismo, os sintomas variam grandemente e
apresentam-se de diversas formas, desde o mais leve ao mais alto
comprometimento. Não existindo enfim, uma cura, mas sim tratamento
que visam desenvolver as habilidades da melhor maneira possível no
indivíduo.
2.2 TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA
Imprescindível destacar que neste trabalho trilharemos por um
caminho desconhecido por muitos, o autismo. Segundo o dicionário da
2
Língua Portuguesa o autismo é definido como: “Psicopatologia
3
caracterizada pelo recolhimento e absorção do indivíduo em seu universo
privilegiado de pensamentos, sentimentos e
2
4
devaneios subjetivos, com o consequente alheamento do mundo exterior
e a perda do contato com a realidade a seu redor” (AUTISMO, 2020, p. 1).
Em outro norte, a Drª Fabiele Russo, destaca que “o Transtorno
do Espectro do Autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento que
afeta as pessoas de diferentes formas na área da socialização,
comunicação e comportamento” (RUSSO, 2019, p. 4).
Ademais, Gomez e Terán (2014, p. 446) afirmam que se tem
chamado autismo uma constituição de SER caracterizada por uma
alteração no contato com a realidade, que tem como consequência para o
indivíduo uma grande dificuldade em relacionar-se com os outros. Com
isso, tal dificuldade está diretamente ligada ao processo de
desenvolvimento do ser humano desde as fases iniciais de sua vida.
Então, podemos dizer que se trata de um comportamento
singular de cada indivíduo, que passa a se manifestar no início do ciclo da
sua vida.
Os Transtornos do Espectro Autista (TEA) decorrem de
perturbações do desenvolvimento neurológico, manifestadas
geralmente a partir dos três anos de idade, período em que os
neurônios responsáveis pela comunicação e pelas relações sociais
não estabelecem as conexões tipicamente estabelecidas. É
denominado ESPECTRO por haver uma gama de condições que
englobam desde níveis mais leves até níveis mais profundos de
comprometimento nestas conexões, resultando em diversos tipos
de autismos, que podem apresentar divergências de pessoa para
pessoa (CONHECENDO..., 2017, p. 3).
Nesse sentido, Lia Maia (2017, p. 1), afirma que costumam
serem frequentes os seguintes comportamentos:
[...] pouco ou nenhum contato visual; atraso na fala; apatia ou falta
de resposta a estímulos; grito, choro ou outra manifestação de
irritação súbita e aparentemente sem motivo; agitação nas mãos
(bater palmas ou chaqualhar) (sic); aparente alienação ao
ambiente (o autismo não parece compreender os contextos e
situações que o cercam); apego à rotina; repetição frequente de
palavras isoladas ou frases inteiras (ecolalia); difícil alimentação ou
compulsão alimentar; não interage em grupos; costuma urrar de
excitação ou irritação; brincadeiras repetitivas e aparentemente
sem sentido; obsessão por determinado brinquedo ou brincadeira
(rodinhas de carrinhos, papel de embrulho, enfileirar brinquedos,
bolhas, círculos ou movimentos circulares, pedaços de brinquedos
como cabeças de bonecas); fala difícil ou ausência de fala. Em
alguns casos a fala pode parecer mecânica e sem emoção ou pode
ser intercalada por gritos agudos e repentinos; pode não
compreender propostas de atividades ou tarefas; quando verbal,
refere-se a si mesmo na terceira pessoa; caminha na ponta dos
pés; sono difícil; usa outras pessoas como ferramenta para
alcançar coisas (puxa a mãe pelo braço para indicar que deseja
coisas); apego á um único brinquedo, filme, personagem ou uma
única música.
2
5
Diferentemente, Tardem (2018, p. 4-6) fixa outros critérios para
diagnóstico do autismo, sendo eles:
2
6
A. Déficits clinicamente significativos e persistentes na
comunicação social e nas interações sociais entre vários contextos,
atuais ou históricos, manifestados conforme segue: 1. Déficits na
reciprocidade sócio emocional. [...] 2. Déficits na comunicação não
verbal usadas para interação social. [...].
3. Déficits no desenvolvimento e manutenção de relacionamento
social. [...]
B. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e
atividades, atual ou histórico, manifestados por pelo menos duas
das maneiras abaixo: 1. Estereotipia em movimentos físicos, uso
de objetos ou discurso. [...] 2. Insistência por rotinas, padrões
verbais ritualizados. [...] 3. Interesses muito restritos e com
intensidades anormais. [...] 4. Hiper ou Hipo-reatividades sensoriais
a estímulos ou interesse por aspectos sensoriais incomuns do
ambiente. [...]
C. Os déficits devem estar presentes no início do período de
desenvolvimento (mas podem não aparecer até que as demandas
sociais ultrapassem suas capacidades ao longo da vida).
D. Os sintomas devem causar prejuízos sociais, ocupacionais ou
em outras áreas importantes de modo significado.
E. Os sintomas não são melhor explicados por outros critérios
diagnósticos.
Ainda, segundo Marcelo Martins (2019, p. 5), o transtorno do
Espectro Autista é uma síndrome intrigante, complexa e que, apesar de
enormes avanços alcançados por meio de estudos, pesquisas, descobertas
etc. ainda carecem de algumas respostas. Por isso, pode ser comparado
com um grande quebra-cabeça.
2.3 REPERCUSSÃO DO DIAGNÓSTICO DO TRANSTORNO DO ASPECTRO
AUTISTA NA FAMÍLIA.
A vida de uma família se baseia em diversos eventos de
desenvolvimento, levando em consideração as diversas gerações das
quais a família faz parte, além, dos vários contextos histórico-sócio-
culturais. Assim, para o presente trabalho, ela constitui instituição social
significativa, sendo que, desta instituição, se faz necessário o
entendimento da organização familiar diante do autismo, levando em
consideração que o transtorno interferi diretamente na vida do portador e
dos familiares. (BALBI; PORTO, 2015, p. 1).
De acordo com Balbi e Porto (2015, p. 1), os conjuntos familiares
das pessoas identificadas com Transtorno do Espectro Autista veem-se
“frente ao desafio de ajustar seus planos e expectativas quanto ao futuro,
às limitações desta condição, além da necessidade de adaptar-se à
intensa dedicação e prestação de cuidados das necessidades específicas
do filho”.
2
Seguindo o pensamento das autoras podemos concluir que para
7
os pais, ter um filho diagnosticado com o espectro autista é uma grande
dificuldade, tendo como primeira reação a negação, ficando os
genitores em estado de choque e
2
8
perturbados com a notícia e possíveis dificuldades que enfrentarão,
entrando num processo de luto. Porém, para muito este luto ao final vai
significar lutar contra as próprias barreiras e dificuldades para
proporcionar o bem-estar da criança autista. “Essa negação é
caracterizada por uma defesa temporária, na qual algumas famílias têm
diferente tempo para processar todas as informações que lhe são dadas
para que mais tarde seja substituída pela aceitação” (PAÚL; FONSECA,
2004 apud BALBI; PORTO, 2015, p.1).
Nessa toada, Pinto et al. (2016, p. 1), comenta sobre as
adversidades enfrentadas pela família quando do diagnóstico do espectro
autista:
O momento do diagnóstico de uma doença ou síndrome crônica
para a família é permeado por um conjunto de sensações e
sentimentos diversos, a exemplo da frustração, insegurança, culpa,
luto, medo e desesperança, principalmente quando o paciente se
remete a uma criança. O nascimento de um filho se constitui na
formulação de um novo ciclo vital, o qual passa a ser idealizado
pelos pais e por toda a família. Entretanto, quando ocorre alguma
ruptura nesses planos todos os membros familiares são afetados.
Nesse contexto, Sprovieri e Assumpção Júnior (2000, p. 1),
destacam os sentimentos negativos experimentados pelos pais quando da
descoberta de que o filho possui autismo:
A definição de autismo corrobora que ele compromete seriamente
o grupo familiar quando este passa a viver com o problema.
Usualmente, as relações familiares são naturalmente afetadas
quando um elemento de seu grupo apresenta uma doença. As
limitações vivenciadas frente à doença levam-na a experimentar
alguns tipos de limitação permanente, que são percebidos em sua
capacidade adaptativa ao longo do desenvolvimento. Assim, o
autismo do filho coloca os pais frente a emoções de luto pela perda
da criança saudável que esperavam. Apresentam, por isso,
sentimentos de desvalia por terem sido escolhidos para viver essa
experiência dolorosa.
Assim, temos que a notícia de uma criança fora do conceito de
normalidade ocasiona importantes repercussões no contexto familiar e, a
princípio, o sentimento dos membros familiares acerca da descoberta do
transtorno do espectro autista na criança varia entre tristeza, sofrimento e
negação.
Gómez e Téran (2014, p. 530), afirmam que a forma de reação à
identificação do espectro autista varia de família para família, sendo que
cada componente familiar é afetado de uma forma, “experimentando de
sentimentos diversos como dor, pena, frustação, satisfação em poder
2
ajudar, repulsa, negação, raiva, etc”. Além disso, destacam que o tempo
9
de adaptação com o diagnóstico, pode ser diverso entre os familiares.
3
0
Ademais, inconscientemente qualquer mulher idealiza a
maternidade como sua obra de arte, um quadro perfeito com todos seus
detalhes, ou seja, um filho dito perfeito, com saúde, sem deformidades,
nos moldes do padrão da nossa sociedade. No entanto, ocorrendo alguma
ruptura nesses planos toda a família acaba sendo abalada. Para nenhuma
família é fácil escutar que seu filho está dentro do espectro autista. Neste
momento todos ficam sem chão, percebem a necessidade de um novo
planejamento. Quando recebem o diagnostico comprovando que seu filho
tem Transtornos do Espectro Autista (TEA), é uma tarefa complexa para
os pais, que vem perante seus olhos suas vidas alteradas, buscando
refúgio em profissionais para superar o medo. Mas é nesse momento que
a situação às vezes se torna complicada, quando a família não encontra
profissionais que saibam orientá-la adequadamente nessa nova jornada
(PINTO et al., 2016, p. 1).
Desse modo, as famílias têm grandes dificuldades de adaptarem-
se ao novo estilo de vida que deve ser estabelecido para que o indivíduo
consiga sobreviver no mundo atual. As famílias apresentam dificuldades
em estabelecer convívio social, em seu dia a dia devido às repercussões
negativas dos comportamentos das crianças com TEA. Isolam-se
socialmente em suas casas, as atividades, as brincadeiras ao ar livre e os
círculos de amizades diminuem, pois, as famílias não se sentem mais
seguras nestes locais ou melhor acolhidas. As crianças com TEA
apresentam muitas vezes comportamentos considerados como
estereotipias bem diferenciadas umas das outras, para isso a família passa
por um grande desgaste emocional para se adaptar a este processo, as
crianças dependem muito mais de seus pais ou cuidadores.
Os desafios que as famílias enfrentam no dia a dia com as
crianças portadoras de TEA, podem ser exemplificadas pelas “birras” e
agressões imprevisíveis que muitas vezes os pais ou cuidadores nem
sabem o motivo de terem surgido. Podendo se justificarem pelo fato de as
crianças com autismo terem uma hipersensibilidade bem elevada o que
causa desconforto e sofrimento a situações que para um não portador de
TEA seriam irrelevantes, como sons altos e luzes fortes, ou outras
situações, como uma alimentação restrita que pode influenciar no
cotidiano da criança, deixando-a irritadiça.
3
Continuamente, os autores Balbi e Porto (2015, p. 1), fazem um
1
cotejo entre o autismo e uma montanha russa, ao dizerem que “O autismo
é um passeio de
3
2
montanha russa emocional que começa antes do diagnóstico e continua ao
longo da vida”.
Dessa comparação, podemos concluir que os autores consideram
o autismo uma montanha russa, pois na base ela tem uma parte bem
sólida e consistente, na qual todos possuem supedâneo para depositar
confiança sobre os desafios a enfrentar. Todavia, no decorrer dessa
aventura de emoções que é o autismo cada um terá uma reação diferente,
bem como altos e baixos, porquanto, cada ser humano reage de uma
maneira distinta ao diagnostico do autismo.
O autismo leva o contexto familiar a viver rupturas por interromper
suas atividades sociais normais, transformando o clima emocional
no qual vive. A família se une à disfunção de sua criança, sendo tal
fator determinante no início de sua adaptação. Paralelamente,
torna-se inviável reproduzir normas e valores sociais e,
consequentemente, manter o contexto social. A família sente-se
então frustrada e diminuída frente ao meio, com os pais e a
criança passando a ser desvalorizados. Isso porque a limitação em
um elemento afeta não apenas os relacionamentos entre o
"doente" e os demais, mas também entre os outros elementos do
grupo. As relações familiares são então afetadas com a presença
de uma criança autista, e a comunicação conjugal torna-se confusa
aparecendo agressividade. Ressalta-se assim a importância de um
posicionamento pautado pela aceitação realística da situação, uma
vez que o medo e a incerteza passam a ser emoções comuns aos
pais de uma criança problema (SPROVIERI; ASSUMPÇÃO JÚNIOR,
2000, p. 1).
Logo, depreende-se que inexiste uma receita de como serão as
dificuldades cotidianas do portador de TEA e de seus familiares, bem como
de que maneira as resolves, no entanto, aconselha-se aos pais valorizarem
as boas ações efetuadas pelo filho autista e estimularem-no para que
realize novamente, não dando ênfase a qualquer ponto ou ações
negativas feitas por ele.
Enfim, as famílias passam por um período enorme de
transformação, na qual todos nesse processo árduo buscam conhecimento
e sabedoria para lidar com seus “anjos azuis” cada qual respeitando a sua
individualidade. Assim, se conclui que todos precisam entender que o
essencial é que a criança com TEA aprenda a ler o mundo a sua volta,
para que todos consigam viver uma vida mais saudável e prazerosa em
família.
2.4 A INTEGRAÇÃO SOCIAL DO AUTISTA
3
Em épocas passadas a integração social era conceituada como3a
transformação daquele com necessidades especiais para que ele pudesse
se identificar com os demais membros da sociedade considerados
normais. Porém,
3
4
esse conceito não levava em conta o fato de que as diferenças não
desaparecem com o tempo, mas sim devem ser aceitas pela sociedade,
pois não existe inferioridade por ser diferente (HAMZE, 2020, p. 1).
Além disso, Hamze (2020, p. 1) aponta que há igualdade de
direitos a todos, independentemente de sua capacidade mental:
As pessoas com necessidades educacionais especiais são cidadãos
como quaisquer outros, possuidores dos mesmos direitos e com as
mesmas regalias quanto às oportunidades disponíveis na
sociedade, involuntariamente do tipo de deficiência e do grau de
comprometimento que apresentem. A pessoa com deficiência tem
direito ao convívio não segregado e ao ingresso e acesso imediato
aos recursos disponíveis e facilitados aos demais cidadãos.
Em outro norte, para a sociologia, integração social consiste no
desenvolvimento de formas de introduzir pessoas ou grupos de pessoas
diferentes em um contexto social mais generalizado. Porquanto, quão
grande for a adaptação entre os indivíduos de uma sociedade, maior será
o equilíbrio social existente (SIGNIFICADO..., 2020, p. 1).
Ademais, o texto A Importância... (2019, p. 1) traz o conceito de
integração social instituído pela ONU (Organização das Nações Unidas):
A integração social consiste na inclusão e na participação de todos
os indivíduos em uma sociedade. De acordo com a Organização
das Nações Unidas (ONU), a integração social visa a criar uma
sociedade inclusiva, dotada de mecanismos que acolham a
diversidade e permitam que os mais diferentes indivíduos –
independentemente de raça, gênero, classe social, idade, crenças,
nacionalidade, etc. – participem ativamente da vida política,
econômica e social.
Dessa forma, podemos deduzir que todos os cidadãos têm direito
a serem tratados de forma justa e igualitária, propiciando qualidade de
vida e liberdade de sentir e agir de acordo com suas necessidades e
diferenças.
3 A INCLUSÃO SOCIAL
Para falar de inclusão precisamos definir o que é deficiência, a
qual possui um conceito em “evolução que se integra a expressão da
diversidade humana, ou seja, a condição física, sensorial, intelectual e
mental das pessoas com o ambiente, o sistema e a sociedade” (ITS
BRASIL, 2018, p. 1).
3
5
Nesse sentido, o Estatuto da Pessoa com Deficiência estabelece
o conceito de deficiência como uma restrição do indivíduo que perdura por
um extenso período:
Art. 2º Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem
impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual
ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras,
pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em
igualdade de condições com as demais pessoas (BRASIL, LEI
13.146/2015, 2020, p. 1).
“A partir deste conceito é que podemos pensar em uma
sociedade inclusiva e em ações que possam auxiliar no processo de
eliminação de barreiras para criar condições menos desiguais de vida e
convivência para as pessoas com deficiência” (ITS BRASIL, 2018, p. 1).
Logo, a inclusão social é o conjunto de medidas direcionadas a
indivíduos excluídos do meio social, seja por alguma deficiência
física ou mental, ou ainda, devido uma característica como cor da
pele, condição sexual, gênero ou poder aquisitivo dentro da
comunidade. Dessa forma, o objetivo dessas ações é possibilitar
que todos os cidadãos tenham as mesmas oportunidades de
acesso à bens e serviços, como saúde, educação, emprego, renda,
lazer e cultura (BESSA, 2019, p.1).
O advento da Declaração Universal dos Direitos Humanos
(DUDH) instituiu que todos os seres humanos têm direito de igualdade e
liberdade, vejamos:
Artigo 1°: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em
dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência,
devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
Artigo 2°: Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as
liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção
alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de
religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social,
de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. Além
disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto
político, jurídico ou internacional do país ou do território da
naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente,
sob tutela, autônomo ou sujeito a alguma limitação de soberania
(BRASIL, DUDH, 1948, p.1).
Além disso, a Lei 13.146 de 06 de julho de 2015 (Estatuto da
Pessoa com Deficiência) garante à pessoa com deficiência todos os
direitos inerentes a dignidade da pessoa humana, em consonância com
nossa Constituição Federal:
Art. 5º É dever do Estado, da sociedade, da comunidade e da
família assegurar, com prioridade, às pessoas com deficiência a
plena efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à
sexualidade, à paternidade e à maternidade, à alimentação, à
habitação, à educação, à profissionalização, ao trabalho, à
previdência social, habilitação e reabilitação, transporte,
3
acessibilidade, cultura, desporto, turismo, lazer, informação 6e
comunicação, avanços científicos e tecnológicos, dignidade,
respeito, liberdade e convivência familiar e comunitária, dentre
outros decorrentes da Constituição Federal e das leis, que
propiciem seu bem estar pessoal, social e econômico.
3
7
Fora a legislação específica que garante os direitos, da dignidade
e liberdade das pessoas com deficiência, temos também nossa lei maior
que garante seus direitos perante a lei (ITS BRASIL, 2018, p. 1).
Dessa maneira, percebe-se que a inclusão social é muito ampla e
pode ser utilizado em diversas situações, no entanto contém apenas um
propósito, a de garantir igualdade e direitos a todos.
3.1 DIREITOS FUNDAMENTAIS E PROTEÇÃO JURÍDICA
Como apresenta Caroline Silva Lima (2011, p.1), “direitos
fundamentais são normas que estabelecem direito e limitações aos
particulares e ao Estado visando possibilitar o convívio social e concretizar
a dignidade da pessoa humana”.
Eles surgiram em consequência de muitas batalhas sociais em
busca de melhores condições de vida conforme apontam Duarte, Marques
e Santos (2011, p. 1):
Os direitos fundamentais são o resultado de uma evolução
histórica ocorrida por meio das lutas e rupturas sociais que
buscavam a dignidade humana e a consolidação dos direitos
fundamentais para resguardá-la dos abusos de poder praticados
pelo Estado. Observa-se, assim, que constituem uma variável no
decorrer dos últimos séculos, cujo conjunto se modificou e
continua se modificando, em virtude dos marcos históricos e dos
interesses pelo poder.
Consta na Constituição da República Federativa do Brasil (2020,
p.1), e desde seu preâmbulo demonstra fundar e manter o Estado
Democrático de Direito, assegurando aos cidadãos brasileiros diversos
direitos, dentre eles os sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o
bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça.
Sendo eles elencados no Título II do texto constitucional,
intitulado de os “Dos Direitos e Garantias Fundamentais”, o qual se
subdivide em cinco capítulos:
A. Direitos individuais e coletivos: são os direitos ligados ao
conceito de pessoa humana e à sua personalidade, tais como à
vida, à igualdade, à dignidade, à segurança, à honra, à liberdade e
à propriedade. Estão previstos no artigo 5º e seus incisos;
B. Direitos sociais: o Estado Social de Direito deve garantir as
liberdades positivas aos indivíduos. Esses direitos são referentes à
educação, saúde, trabalho, previdência social, lazer, segurança,
proteção à maternidade e à infância e assistência aos
desamparados. Sua finalidade é a melhoria das condições de vida
dos menos favorecidos, concretizando assim, a igualdade social.
3
Estão elencados a partir do artigo 6º; 8
C. Direitos de nacionalidade: nacionalidade, significa, o vínculo
jurídico político que liga um indivíduo a um certo e determinado
Estado, fazendo
3
9
com que este indivíduo se torne um componente do povo,
capacitando-o a exigir sua proteção e em contra partida, o Estado
sujeita-o a cumprir deveres impostos a todos;
D. Direitos políticos: permitem ao indivíduo, através de direitos
públicos subjetivos, exercer sua cidadania, participando de forma
ativa dos negócios políticos do Estado.
E. Direitos relacionados à existência, organização e a participação
em partidos políticos: garante a autonomia e a liberdade plena dos
partidos políticos como instrumentos necessários e importantes na
preservação do Estado democrático de Direito.(SILVA, 2006, p. 1).
Assim todo ser humano já nasce com seus direitos e garantias,
sem ter que ninguém os ofertar. Com isso devem exigir respeito a sua
dignidade humana e garantir suas necessidades básicas para seu convívio
em sociedade. (SILVA, 2006, p. 1).
“Os direitos humanos têm uma posição bidimensional, pois por
um lado tem um ideal a atingir, que é a conciliação entre os direitos do
indivíduo e os da sociedade; e por outro lado, assegurar um campo
legítimo para a democracia” (SILVA, 2006, p. 1).
Sendo assim as principais características dos direitos
fundamentais são:
a- Historicidade: os direitos são criados em um contexto histórico,
e quando colocados na Constituição se tornam Direitos
Fundamentais;
b- Imprescritibilidade: os Direitos Fundamentais não prescrevem,
ou seja, não se perdem com o decurso do tempo. São
permanentes;
c- Irrenunciabilidade: os Direitos Fundamentais não podem ser
renunciados de maneira alguma;
d- Inviolabilidade: os direitos de outrem não podem ser
desrespeitados por nenhuma autoridade ou lei infraconstitucional,
sob pena de responsabilização civil, penal ou administrativa;
e- Universalidade: os Direitos Fundamentais são dirigidos a todo
ser humano em geral sem restrições, independente de sua raça,
credo, nacionalidade ou convicção política;
f- Concorrência: podem ser exercidos vários Direitos
Fundamentais ao mesmo tempo;
g- Efetividade: o Poder Público deve atuar para garantir a
efetivação dos Direitos e Garantias Fundamentais, usando quando
necessário meios coercitivos;
h- Interdependência: não pode se chocar com os Direitos
Fundamentais, as previsões constitucionais e infraconstitucionais,
devendo se relacionarem para atingir seus objetivos;
i- Complementaridade: os Direitos Fundamentais devem ser
interpretados de forma conjunta, com o objetivo de sua realização
absoluta. (SILVA, 2006, p. 1).
Podendo assim, afirma que os direitos fundamentais, são
reconhecidos mundialmente, sendo que esses direitos já nascem com os
cidadãos sem qualquer tipo de discriminação tendo que ter apenas a
proteção deles (SILVA,2006, p.1).
4
0
3.2 DIREITOS E PROTEÇÃO JURIDICA DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
As autoras Marina Torres e Rebeca Napoleão de Araujo Lima
textualizam que “o preconceito e a ignorância são marcas relevantes da
história das pessoas com deficiência. Apesar de mudanças significativas já
terem proporcionado um certo otimismo”.
O advento da Constituição Federal do Brasil (2020, p.1) foi um
marco para que as pessoas com deficiência passassem a ser considerados
sujeitos de direito:
iniciou-se, de fato, no Brasil, a consciência de que um tratamento
isonômico seria necessário e urgente. O conceito de pessoa com
deficiência passou a ser revisto e, com isso, o comportamento da
sociedade também. A visão assistencialista que até então
imperava passou a ser substituída por ações afirmativas na
tentativa de promover a emancipação real daquelas pessoas
(TORRES; LIMA,2012, p.1).
O artigo quinto do texto constitucional estabeleceu que não há
distinção perante a lei entre cidadãos residentes no país, garantindo a
todos “[...] a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade” (BRASIL, CFRB, 2020, p.1).
Após a caminhada histórica dos direitos fundamentais criou-se
um conjunto de normas e garantias aos portadores de deficiências. Onde
se apresentam os princípios da dignidade e igualdade, assim como os
direitos a liberdade, a saúde, a educação, a integridade física e mental, a
acessibilidade e o trabalho.
O princípio da dignidade humana vem expresso logo no art. 1º da
Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e todos os
demais princípios e direitos originaram-se dele:
O propósito da presente Convenção é promover, proteger e
assegurar o exercício pleno e equitativo de todos os direitos
humanos e liberdades fundamentais por todas as pessoas com
deficiência e promover o respeito pela sua dignidade inerente.
Além disso, a Constituição Federal estabeleceu como
fundamento da República Federativa do Brasil a dignidade humana, de
forma que pessoas físicas e jurídicas devem pautar suas condutas em
conformidade com este princípio (BRASIL, CRFB, 2020, p. 1). Expressa o
artigo primeiro do referido diploma legal:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união
indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal,
4
constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como
1
fundamentos:
I - a
soberania; II -
a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
4
2
IV - os valores sociais do trabalho e da livre
iniciativa; V - o pluralismo político.
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por
meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta
Constituição (grifo nosso).
Entendemos que todos os seres humanos são dotados de
dignidade, sendo assim todos aqueles que são de uma mesma sociedade
tem a mesma dignidade, inclusive os deficientes.
O ser humano neste contexto, não pode ser reconhecido apenas
como objeto, mas sim possuidor de direitos e obrigações. Essas
obrigações, o Estado, deve realizar ações concretas para que a dignidade
humana seja protegida e resguardada perante a sociedade (TORRES;
LIMA, 2012, p. 1).
A dignidade humana é assegurada e diferenciada para cada
época, local e a cultura em que se deu, conforme necessidade dos
indivíduos envolvidos naquela sociedade. Podendo ser alterada com o
passar do tempo. As alterações são necessárias para que ocorra uma
proteção mais digna para cada fase que se encontra os seres humanos
envolvidos nessa sociedade (TORRES; LIMA, 2012, p. 1).
Implícito no conceito de dignidade humana está a vedação ao
tratamento desumano e degradante. O respeito não deve ser
direcionado apenas a um grupo da sociedade, há que se
reconhecer a necessidade de tratamento isonômico e digno para
com todos (TORRES; LIMA, 2012, p. 1).
O princípio da igualdade ou isonomia, como já mencionado, esta
previsto no artigo quinto da Constituição Federal de 1988, o qual dispõe
de forma clara que “Todos são iguais perante a lei [...]” (BRASIL, CRFB,
2020, p. 1, grifo nosso).
Esse princípio possibilita ao ordenamento jurídico tratar
igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na media em que se
desigualam, não se aplicando a isonomia como forma que impeça o
estabelecimento de situações jurídicas distintas entre pessoas que
necessitam de um tratamento diferenciado. “Assim o princípio da
igualdade aborda que, as desigualdades de fato têm origem das
diferenças e aptidões pessoais, cabendo tratar de forma distintas aqueles
com necessidades diferenciadas” (PAIXÃO, 2018, p.1).
O presente princípio apresenta que as pessoas são tratadas
desiguais, devem ser reconhecidas e inseridas na sociedade perante a lei
4
e aos cidadãos (TORRES; LIMA, 2012, p. 1). 3
4
4
Assim, não há que se considerar o princípio em tela somente como
um elemento norteador da conduta humana, deve-se lembrar, sim,
que há um dever-ser, trata-se de uma reivindicação de natureza
moral.
Nessa esfera, cumpre ressaltar que no âmbito da dimensão
positiva do Estado há um dever de proteção contra qualquer ato
de discriminação já que todos devem ser considerados dignos e
iguais, respeitando-se as diferenças inerentes de cada ser humano
que compõe a sociedade (TORRES; LIMA, 2012, p. 1).
Com relação a estas pessoas consideradas deficientes, têm
poder de todos os direitos iguais aos outros indivíduos, sendo protegido
pelo princípio da dignidade humana, excluindo a rejeição da palavra
deficiência (TORRES; LIMA, 2012, p. 1).
O direito à liberdade também se encontra garantido por nossa
Constituição Federal em seu artigo quinto, o qual estabelece que ela é
inviolável (BRASIL, CRFB, 2020, p. 1).
Nesse sentido Marina Torres e Rebeca Napoleão de Araujo Lima
(2012,
p. 1), explicam que o direito a liberdade não se limita a mobilidade física,
abrangendo também “liberdade de crença, de convicções, de expressão
de pensamento, de reunião e de associação”. Continuamente, elas
também dividem a liberdade do portador de deficiências em duas
dimensões distintas, quais sejam, “as liberdades negativas e positivas”.
A primeira requer dos particulares, das pessoas jurídicas e do
próprio Estado uma atuação que não abuse dos direitos
individuais, é um dever omissivo. Já a segunda, analisada sob a
ótica das necessidades das pessoas com deficiência, pode ser
compreendida como autonomia e requer por parte daqueles um
posicionamento concreto, que realize o que se tem estabelecido no
campo do Direito. Trata-se de um dever de viabilização. Importante
ressaltar que uma liberdade não produz efeitos sem a outra
(TORRES; LIMA, 2012, p.1).
Além disso, toda pessoa com deficiência tem direito a saúde
sem qualquer discriminação e desigualdade, conforme preceitua o
Estatuto da Pessoa com Deficiência em seus artigos 24 e 25, vejamos:
Art. 24. É assegurado à pessoa com deficiência o acesso aos
serviços de saúde, tanto públicos como privados, e às informações
prestadas e recebidas, por meio de recursos de tecnologia
assistiva e de todas as formas de comunicação [...].
Art. 25. Os espaços dos serviços de saúde, tanto públicos quanto
privados, devem assegurar o acesso da pessoa com deficiência,
em conformidade com a legislação em vigor, mediante a remoção
de barreiras, por meio de projetos arquitetônico, de ambientação
de interior e de comunicação que atendam às especificidades das
pessoas com deficiência física, sensorial, intelectual e mental
(BRASIL, EPD, 2020, p. 21).
4
5
O direito a educação está elencado em nossa Constituição
Federal em seu artigo 205, o qual dispõe que “A educação, direito de
todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a
colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa,
seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o
trabalho” (BRASIL, 2020, p.1).
A partir da análise desse artigo vemos que o legislador impôs
“[...] ao Estado, à família e à sociedade, em conjunto, o DEVER de
promover a educação [...]” das pessoas com deficiência, devendo todos
zelarem para que a criança autista tenha acesso ao ensino de qualidade
e possa se tornar em um adulto capaz de enfrentar as dificuldades
apresentadas pela vida social (TORRES; LIMA, 2012, p. 1).
Outrossim, Torres e Lima (2012, p.1) ressaltam a importância de
uma educação vasta, direcionada a inclusão e identificação dos contrates
humanos, pois convivendo com o diferente as pessoas crescem, evoluem
e aprendem a respeitar uns aos outros, gerando uma sociedade
harmônica.
No seu art. 208, III, a CRFB/88 estabelece que: “O dever do
Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:
atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência,
preferencialmente na rede regular de ensino” (BRASIL, 2020, p.1).
Dessa forma, a preocupação de nossa Lei maior, é relacionada
em criar indivíduos que respeitam o outro, pois são esses que vão dar
continuidade a nossa sociedade, assim devem apresentar o amor pelo
outro sem qualquer tipo de discriminação a pessoa que expõe alguma
deficiência (TORRES; LIMA, 2012, p.1).
Igualmente, no Estatuto da Pessoa com Deficiência encontramos
a imposição ao Estado, à família e à sociedade de resguardar o direito a
educação da pessoa com deficiência (2020, p. 1):
Art. 27. A educação constitui direito da pessoa com deficiência,
assegurado sistema educacional inclusivo em todos os níveis e
aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o
máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades
físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas
características, interesses e necessidades de aprendizagem.
Parágrafo único. É dever do Estado, da família, da comunidade
escolar e da sociedade assegurar educação de qualidade à pessoa
com deficiência, colocando-a a salvo de toda forma de violência,
negligência e discriminação.
4
6
Podemos assim assegurar que o Estado, à família e a sociedade
têm o dever de ofertar uma educação de qualidade a todos os cidadãos
brasileiros, sem qualquer tipo de discriminação.
4
7
A competência de garantir o direito dos cidadãos brasileiros à
integridade física e mental foi atribuída à União, aos Estados, aos
Municípios e ao Distrito Federal, podendo todos eles legislarem sobre a
proteção e integração social das pessoas portadoras de deficiências
conforme disposto no art. 24, XIV e parágrafos da Constituição da
República Federativa do Brasil (2020, p. 1):
Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal
legislar concorrentemente sobre:
[...]
XIV - proteção e integração social das pessoas portadoras de
deficiência.
§ 1º No âmbito da legislação concorrente, a competência da
União limitar- se-á a estabelecer normas gerais.
§ 2º A competência da União para legislar sobre normas gerais não
exclui a competência suplementar dos Estados.
§ 3º Inexistindo lei federal sobre normas gerais, os Estados
exercerão a competência legislativa plena, para atender a suas
peculiaridades.
§ 4º A superveniência de lei federal sobre normas gerais suspende
a eficácia da lei estadual, no que lhe for contrário.
Ressaltar que é inerente a humanidade o desejo de viver em
sociedade, o homem necessita de seus semelhantes para sobreviver,
perpetuar como espécie realizar-se como pessoa. Participando da vida e
sociedade, aprendendo normas, valores e costumes, o ser humano
interage e sente-se parte de um grupo (TORRES; LIMA, 2012, p. 1). A
inclusão social, por sua vez, tem o objetivo de dar a todas as pessoas
oportunidades e um espaço na sociedade, buscando facilitar a superação
dos obstáculos sociais.
Porquanto, durante muitos anos persistiu o pensamento de que
os portadores de deficiências eram as únicas pessoas que deveriam
enfrentar seus obstáculos, todavia, hoje sabemos que a sociedade
possui a obrigação de ofertar possibilidades para uma vida digna para
essas pessoas (TORRES; LIMA, 2012, p.1). O direito a Acessibilidade
também está garantido constitucionalmente,
estando presente nos artigos 227, §1º, II, e §2º e 244, da Constituição da
República Federativa do Brasil (2020, p.1), assim dispondo:
Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à
criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o
direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade
e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo
de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência,
crueldade e opressão.
§ 1º O Estado promoverá programas de assistência integral à
4
saúde da criança, do adolescente e do jovem, admitida 8a
participação de entidades não governamentais, mediante políticas
específicas e obedecendo aos seguintes preceitos:
[...]
4
9
II - criação de programas de prevenção e atendimento
especializado para as pessoas portadoras de deficiência física,
sensorial ou mental, bem como de integração social do
adolescente e do jovem portador de deficiência, mediante o
treinamento para o trabalho e a convivência, e a facilitação do
acesso aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de
obstáculos arquitetônicos e de todas as formas de discriminação.
[...]
§ 2º - A lei disporá sobre normas de construção dos logradouros e
dos edifícios de uso público e de fabricação de veículos de
transporte coletivo, a fim de garantir acesso adequado às pessoas
portadoras de deficiência.
[...]
Art. 244. A lei disporá sobre a adaptação dos logradouros, dos
edifícios de uso público e dos veículos de transporte coletivo
atualmente existentes a fim de garantir acesso adequado às
pessoas portadoras de deficiência, conforme o disposto no art.
227, § 2º.
Para mais, o Estatuto dos Portadores de Deficiência (2020, p.1)
em seu artigo 53 que o direito “a acessibilidade visa garantir à pessoa
com deficiência ou que tenha sua mobilidade física restrita, poder viver
independentemente e efetivar o direito à cidadania, bem como participar
ativamente da sociedade”.
Já a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com
Deficiência (2009, p. 1), em seu art. 9º, apresenta uma série de medidas a
serem tomadas pelo Estado para garantir a acessibilidade e
independência das pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida:
Artigo 9º Acessibilidade: A fim de possibilitar às pessoas com
deficiência viver de forma independente e participar plenamente
de todos os aspectos da vida, os Estados Partes tomarão as
medidas apropriadas para assegurar às pessoas com deficiência o
acesso, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas,
ao meio físico, ao transporte, à informação e comunicação,
inclusive aos sistemas e tecnologias da informação e comunicação,
bem como a outros serviços e instalações abertos ao público ou de
uso público, tanto na zona urbana como na rural. Essas medidas,
que incluirão a identificação e a eliminação de obstáculos e
barreiras à acessibilidade, serão aplicadas, entre outros, a:
a) Edifícios, rodovias, meios de transporte e outras instalações
internas e externas, inclusive escolas, residências, instalações
médicas e local de trabalho;
b) Informações, comunicações e outros serviços, inclusive
serviços eletrônicos e serviços de emergência.
[Link] Estados Partes também tomarão medidas apropriadas para:
a) Desenvolver, promulgar e monitorar a implementação de
normas e diretrizes mínimas para a acessibilidade das instalações
e dos serviços abertos ao público ou de uso público;
b) Assegurar que as entidades privadas que oferecem instalações
e serviços abertos ao público ou de uso público levem em
consideração todos os aspectos relativos à acessibilidade para
pessoas com deficiência;
c) Proporcionar, a todos os atores envolvidos, formação em
relação às questões de acessibilidade com as quais as pessoas
com deficiência se confrontam;
d) Dotar os edifícios e outras instalações abertas ao público ou de
5
uso público de sinalização em braille e em formatos de fácil leitura
0
e compreensão;
5
1
e) Oferecer formas de assistência humana ou animal e serviços de
mediadores, incluindo guias, ledores e intérpretes profissionais da
língua de sinais, para facilitar o acesso aos edifícios e outras
instalações abertas ao público ou de uso público;
f) Promover outras formas apropriadas de assistência e apoio a
pessoas com deficiência, a fim de assegurar a essas pessoas o
acesso a informações;
g) Promover o acesso de pessoas com deficiência a novos sistemas
e tecnologias da informação e comunicação, inclusive à Internet;
h) Promover, desde a fase inicial, a concepção, o desenvolvimento,
a produção e a disseminação de sistemas e tecnologias de
informação e comunicação, a fim de que esses sistemas e
tecnologias se tornem acessíveis a custo mínimo.
Logo, temos a acessibilidade reconhecida “como uma condição
social”, tornando-se obrigatória e necessária a implantação da
infraestrutura física e serviços inerentes a perfectibilização desse direito,
sendo dever dos órgãos governamentais e de natureza privada
programarem essas medidas a fim de conceder ao portador de deficiência
“uma vida compatível e adequada às demandas sociais” Disponibilizar as
informações e os serviços em diversos formatos para que todos possam
compreender e formar conhecimento sobre o mesmo (TORRES; LIMA,
2012, p.1).
Sem que essas necessidades sejam delimitadas e supridas, o
acesso igualitário às condições básicas de vida digna em sociedade
não poderá ser viabilizado. Desta forma, a acessibilidade é o
primeiro passo para que os demais direitos (igualdade, liberdade,
educação, saúde, inserção no mercado de trabalho etc.) sejam
efetivados (TORRES; LIMA, 2012, p.1).
Podemos considerar uma forma de inclusão e acessibilidade o
direito ao trabalho pelos portadores de deficiências, o qual também
encontra amparo em nossa legislação.
Nossa Carta Magna, ao proteger os interesses da pessoa com
deficiência, em seu art. 7º, XXXI, impõe a “[...] proibição de qualquer
discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador
portador de deficiência” (BRASIL, CRFB, 2020, p.1).
Corroborando com o acima exposto, a Convenção sobre os
direitos da Pessoa com Deficiência (2009, p.1), estabeleceu, em seu art.
1º, a seguinte definição para o termo “pessoas com deficiência”: “Art. 1º.
Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de natureza
física, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas
barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade
com as demais pessoas”.
5
2
Outro artigo importante, que trata acerca da análise das relações
de trabalho e seus efeitos, é o artigo 2º da Convenção sobre os Direitos
das Pessoas com Deficiência, para os propósitos de:
“Comunicação” abrange as línguas, a visualização de textos, o
braille, a comunicação tátil, os caracteres ampliados, os
dispositivos de multimídia acessível, assim como a linguagem
simples, escrita e oral, os sistemas auditivos e os meios de voz
digitalizada e os modos, meios e formatos aumentativos e
alternativos de comunicação, inclusive a tecnologia da informação
e comunicação acessíveis;
“Língua” abrange as línguas faladas e de sinais e outras formas de
comunicação não-falada;
“Discriminação por motivo de deficiência” significa qualquer
diferenciação, exclusão ou restrição baseada em deficiência, com o
propósito ou efeito de impedir ou impossibilitar o reconhecimento,
o desfrute ou o exercício, em igualdade de oportunidades com as
demais pessoas, de todos os direitos humanos e liberdades
fundamentais nos âmbitos político, econômico, social, cultural, civil
ou qualquer outro. Abrange todas as formas de discriminação,
inclusive a recusa de adaptação razoável;
“Adaptação razoável” significa as modificações e os ajustes
necessários e adequados que não acarretem ônus desproporcional
ou indevido, quando requeridos em cada caso, a fim de assegurar
que as pessoas com deficiência possam gozar ou exercer, em
igualdade de oportunidades com as demais pessoas, todos os
direitos humanos e liberdades fundamentais; “Desenho universal”
significa a concepção de produtos, ambientes, programas e
serviços a serem usados, na maior medida possível, por todas as
pessoas, sem necessidade de adaptação ou projeto específico. O
“desenho universal” não excluirá as ajudas técnicas para grupos
específicos de pessoas com deficiência, quando necessária
(BRASIL, CDPD, 2020, p.1).
Estes dispositivos acima transcritos demonstram a preocupação
social em concretizar os mandamentos referentes aos princípios da
dignidade humana e da igualdade, através da concessão de iguais
oportunidades de trabalho e emprego, bem como observando as
habilidades, potencialidades e limitações de todos os indivíduos, inclusive
daqueles que apresentam alguma deficiência (TORRES; LIMA, 2012, p. 1).
Sendo assim, o Art. 611-B, XXII, da Consolidação das Leis do
Trabalho dispõe: “Constituem objeto ilícito de convenção coletiva ou de
acordo coletivo de trabalho, exclusivamente, a supressão ou a redução
dos seguintes direitos: XXII - proibição de qualquer discriminação no
tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador com deficiência”
(BRASIL, CLT,2020, p.1).
As autoras Marina Torres e Rebeca Napoleão de Araújo Lima
(2012, p.1) acrescentam que:
É lógico pensar que para cada vaga disponível, existe uma
infinidade de pessoas que, de acordo com suas possibilidades,
5
podem se encaixar e desempenhar um bom papel. Igualmente, 3
existem pessoas que, por motivos diversos, não estão capacitadas
para aquele exercício de profissão ou por
5
4
não terem a instrução necessária ou por já haver alguém mais
preparado. Apesar disto, a avaliação que deve ser feita, deve estar
relacionada às exigências da função e à potencialidade do
indivíduo avaliado, oferecendo- se iguais chances para todos, sem
distinção por qualquer motivo, inclusive deficiência. As diferenças
devem ser respeitadas e os “excessos” combatidos, daí a
ilegalidade em impedir a investidura em um determinado cargo
por razão de deficiência.
A respeito deste assunto, o artigo 35 do Decreto 3.298/99
dispõe:
Art. 35. São modalidades de inserção laboral da pessoa portadora
de deficiência:
I - colocação competitiva: processo de contratação regular, nos
termos da legislação trabalhista e previdenciária, que independe
da adoção de procedimentos especiais para sua concretização, não
sendo excluída a possibilidade de utilização de apoios especiais;
II - colocação seletiva: processo de contratação regular, nos
termos da legislação trabalhista e previdenciária, que depende da
adoção de procedimentos e apoios especiais para sua
concretização; e
III - promoção do trabalho por conta própria: processo de fomento
da ação de uma ou mais pessoas, mediante trabalho autônomo,
cooperativado ou em regime de economia familiar, com vista à
emancipação econômica e pessoal.
§ 1º As entidades beneficentes de assistência social, na forma da
lei, poderão intermediar a modalidade de inserção laboral de que
tratam os incisos II e III, nos seguintes casos:
I - na contratação para prestação de serviços, por entidade pública
ou privada, da pessoa portadora de deficiência física, mental ou
sensorial: e
II - na comercialização de bens e serviços decorrentes de
programas de habilitação profissional de adolescente e adulto
portador de deficiência em oficina protegida de produção ou
terapêutica [...].
Importante mostrar que a proteção não é somente para os
nascidos deficientes, mas, também, para as pessoas que por devido sua
função tiveram alguma deficiência adquirida ao longo da vida. Assim, a
legislação protege tanto o processo de habilitação quanto o de
reabilitação. Os artigos 31 e 32 do Decreto 3.298/99 são esclarecedores
sobre o tema.
Art. 31. Entende-se por habilitação e reabilitação profissional o
processo orientado a possibilitar que a pessoa portadora de
deficiência, a partir da identificação de suas potencialidades
laborativas, adquira o nível suficiente de desenvolvimento
profissional para ingresso e reingresso no mercado de trabalho e
participar da vida comunitária.
Art. 32. Os serviços de habilitação e reabilitação profissional
deverão estar dotados dos recursos necessários para atender toda
pessoa portadora de deficiência, independentemente da origem de
sua deficiência, desde que possa ser preparada para trabalho que
lhe seja adequado e tenha perspectivas de obter, conservar e nele
progredir. (BRASIL, DC 3.298,2020, p. 1).
5
Procurar sempre normas para a inclusão das pessoas deficientes
5
em serviços públicos e privados, havendo a garantia de iguais
oportunidades para todos sem qualquer discriminação.
5
6
Busca proteger o acesso e a permanência em seu emprego
escolhido. (TORRES; LIMA, 2012, p. 1).
Desta forma, este mandamento foi direcionado não apenas às
instituições que, porventura, disponham de vagas e que realizem processo
de seleção, mas, também, ao próprio legislador infraconstitucional, para
que, respeitando o princípio da igualdade, estabelecesse distinções que
protejam e favoreçam os direitos da pessoa com deficiência.
A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com
Deficiência (2020, p.1), em seu artigo 27, veda a discriminação no
trabalho, conforme a seguir:
1. Os Estados Partes reconhecem o direito das pessoas com
deficiência ao trabalho, em igualdade de oportunidades com as
demais pessoas. Esse direito abrange o direito à oportunidade de
se manter com um trabalho de sua livre escolha ou aceitação no
mercado laboral, em ambiente de trabalho que seja aberto,
inclusivo e acessível a pessoas com deficiência. Os Estados Partes
salvaguardarão e promoverão a realização do direito ao trabalho,
inclusive daqueles que tiverem adquirido uma deficiência no
emprego, adotando medidas apropriadas, incluídas na legislação,
com o fim de, entre outros:
a) Proibir a discriminação baseada na deficiência com respeito a
todas as questões relacionadas com as formas de emprego,
inclusive condições de recrutamento, contratação e admissão,
permanência no emprego, ascensão profissional e condições
seguras e salubres de trabalho;
b) Proteger os direitos das pessoas com deficiência, em condições
de igualdade com as demais pessoas, às condições justas e
favoráveis de trabalho, incluindo iguais oportunidades e igual
remuneração por trabalho de igual valor, condições seguras e
salubres de trabalho, além de reparação de injustiças e proteção
contra o assédio no trabalho;
c) Assegurar que as pessoas com deficiência possam exercer seus
direitos trabalhistas e sindicais, em condições de igualdade com as
demais pessoas;
d) Possibilitar às pessoas com deficiência o acesso efetivo a
programas de orientação técnica e profissional e a serviços de
colocação no trabalho e de treinamento profissional e continuado;
e) Promover oportunidades de emprego e ascensão profissional
para pessoas com deficiência no mercado de trabalho, bem como
assistência na procura, obtenção e manutenção do emprego e no
retorno ao emprego;
f) Promover oportunidades de trabalho autônomo,
empreendedorismo, desenvolvimento de cooperativas e
estabelecimento de negócio próprio;
g) Empregar pessoas com deficiência no setor público;
h) Promover o emprego de pessoas com deficiência no setor
privado, mediante políticas e medidas apropriadas, que poderão
incluir programas de ação afirmativa, incentivos e outras medidas;
i) Assegurar que adaptações razoáveis sejam feitas para pessoas
com deficiência no local de trabalho;
j) Promover a aquisição de experiência de trabalho por pessoas
com deficiência no mercado aberto de trabalho;
k) Promover reabilitação profissional, manutenção do emprego e
programas de retorno ao trabalho para pessoas com deficiência.
2. Os Estados Partes assegurarão que as pessoas com
5
deficiência não serão mantidas em escravidão ou servidão 7e
que serão protegidas, em
5
8
igualdade de condições com as demais pessoas, contra o trabalho
forçado ou compulsório.
Temos o direito a previdência social elencado em nossa lei
maior:
Art. 201. A previdência social será organizada sob a forma do
Regime Geral de Previdência Social, de caráter contributivo e de
filiação obrigatória, observados critérios que preservem o equilíbrio
financeiro e atuarial, e atenderá, na forma da lei, a:
[...]
§ 1º É vedada a adoção de requisitos ou critérios diferenciados
para concessão de benefícios, ressalvada, nos termos de lei
complementar, a possibilidade de previsão de idade e tempo de
contribuição distintos da regra geral para concessão de
aposentadoria exclusivamente em favor dos segurado;
I - com deficiência, previamente submetidos a avaliação
biopsicossocial realizada por equipe multiprofissional e
interdisciplinar; (BRASIL, CFRB,2020, p.1).
Para concluir temos a Lei Complementar nº 142/13, a qual
regulamenta o direito das pessoas portadoras de deficiência á previdência
social:
Art. 1º Esta Lei Complementar regulamenta a concessão de
aposentadoria da pessoa com deficiência segurada do Regime
Geral de Previdência Social
- RGPS de que trata o § 1o do art. 201 da Constituição Federal.
Art. 2º Para o reconhecimento do direito à aposentadoria de que
trata esta Lei Complementar, considera-se pessoa com deficiência
aquela que tem impedimentos de longo prazo de natureza física,
mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com
diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva
na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas
(BRASIL, LC 142, 2020, p.1).
Além dos direitos acima elencados, os portadores de deficiência
possuem ainda o direito à moradia, á assistência social e ao transporte
que são tão importantes quanto os já mencionados.
Sendo assim, a elaboração da Convenção e sua ratificação pelo
Brasil permitiram a mudança de políticas voltadas para o tema, trazendo,
também, significativos avanços normativos ao ordenamento jurídico
pátrio. Do assistencialismo, hoje se tem procurado a implementação de
ações afirmativas que possibilitem o avanço e a superação das barreiras
impostas pelo meio social (TORRES; LIMA, 2012, p.1).
3.3 DIREITOS E PROTEÇÃO JURIDICA DE PESSOAS COM TRANSTORNO DO
ESPECTRO AUTISTA
Quanto aos direitos dos portadores de transtorno do espectro
5
autista, após muitos anos de estudos desenvolveram uma lei especifica
9
a Lei 12.764/12
6
0
conhecida como lei da Berenice Piana, a qual assegura aos portadores de
TEA e demais deficiências, direitos em pé de igualdade aos demais
cidadãos, sem qualquer tipo de discriminação conforme está assegurado
em nossa Constituição em seus artigos 3º e 5º.
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República
Federativa do Brasil:
[...]
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça,
sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
[...]
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos
termos desta Constituição; [...] (BRASIL, CRFB, 2020, p.1).
A Lei 12.764/12 (2020, p.1), que trata especificamente do
Transtorno do Espectro Autista, conceitua o referido em seu art. 1º,
determinando que:
Art. 1º Esta Lei institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos
da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista e estabelece
diretrizes para sua consecução.
§ 1º Para os efeitos desta Lei, é considerada pessoa com
transtorno do espectro autista aquela portadora de síndrome
clínica caracterizada na forma dos seguintes incisos I ou II:
I - deficiência persistente e clinicamente significativa da
comunicação e da interação sociais, manifestada por deficiência
marcada de comunicação verbal e não verbal usada para interação
social; ausência de reciprocidade social; falência em desenvolver e
manter relações apropriadas ao seu nível de desenvolvimento;
II - padrões restritivos e repetitivos de comportamentos,
interesses e atividades, manifestados por comportamentos
motores ou verbais estereotipados ou por comportamentos
sensoriais incomuns; excessiva aderência a rotinas e padrões de
comportamento ritualizados; interesses restritos e fixos.
§ 2º A pessoa com transtorno do espectro autista é considerada
pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais.
Seguimos assim com o art. 3º da Lei 12.764 (2020, p. 1), no
qual encontramos garantidos os direitos da pessoa com transtorno do
espectro autista:
Art. 3º São direitos da pessoa com transtorno do espectro autista:
I - a vida digna, a integridade física e moral, o livre
desenvolvimento da personalidade, a segurança e o lazer;
II - a proteção contra qualquer forma de abuso e exploração;
III - o acesso a ações e serviços de saúde, com vistas à atenção
integral às suas necessidades de saúde, incluindo:
a) o diagnóstico precoce, ainda que não definitivo;
b) o atendimento multiprofissional;
c) a nutrição adequada e a terapia nutricional;
d) os medicamentos;
6
e) informações que auxiliem no diagnóstico e no 1
tratamento; IV - o acesso:
6
2
a) à educação e ao ensino profissionalizante;
b) à moradia, inclusive à residência protegida;
c) ao mercado de trabalho;
d) à previdência social e à assistência social.
Parágrafo único. Em casos de comprovada necessidade, a pessoa
com transtorno do espectro autista incluída nas classes comuns de
ensino regular, nos termos do inciso IV do art. 2º, terá direito a
acompanhante especializado.
Os portadores de Transtorno do Espectro Autista têm direito ao
acesso a saúde como todos indivíduos, consta no art. 196 da
Constituição Federal (2020, p. 1):
A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante
políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de
doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às
ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.
Os autistas encontram seus direitos assegurados e protegidos
também na Lei Federal 7.853 de 1989 em seu at. 2º:
Art. 2º Ao Poder Público e seus órgãos cabe assegurar às pessoas
portadoras de deficiência o pleno exercício de seus direitos
básicos, inclusive dos direitos à educação, à saúde, ao trabalho, ao
lazer, à previdência social, ao amparo à infância e à maternidade,
e de outros que, decorrentes da Constituição e das leis, propiciem
seu bem-estar pessoal, social e econômico.
[...]
c) a criação de uma rede de serviços especializados em
reabilitação e habilitação;
d) a garantia de acesso das pessoas portadoras de deficiência
aos estabelecimentos de saúde públicos e privados, e de seu
adequado tratamento neles, sob normas técnicas e padrões de
conduta apropriados; [...]
f) o desenvolvimento de programas de saúde voltados para as
pessoas portadoras de deficiência, desenvolvidos com a
participação da sociedade e que lhes ensejem a integração social;
Apesar de assegurado pelo princípio da igualdade que todos
devem ser tratados iguais perante a lei sem que haja alguma
discriminação, tendo direito a saúde pública e particular, nosso sistema
público de saúde não disponibiliza uma estrutura adequada para o
tratamento dos portadores de autismo, pois não há servidores capacitados
para tal atendimento, sendo que a lei prevê que aqueles municípios
desprovidos de recursos financeiros para contratação destes servidores
capacitados a uma possibilidade de haver em forma de convênio com a
rede privada. Como elencado na Lei nº 12.764/12, artigo 2º, Parágrafo
único: “Para cumprimento das diretrizes de que trata este artigo, o poder
público poderá firmar contrato de direito público ou convênio com pessoas
jurídicas de direito privado” (BRASIL, Lei nº 12.764, 2020, p.1).
6
3
O que também é assegurado pela própria Constituição Federal,
quando estabelece que:
“Art. 197. São de relevância pública as ações e serviços de saúde,
cabendo ao Poder Público dispor, nos termos da lei, sobre sua
regulamentação, fiscalização e controle, devendo sua execução ser
feita diretamente ou através de terceiros e, também, por pessoa
física ou jurídica de direito privado” (BRASIL, CRFB, 2020, p.1).
Sendo assim, para que haja efetividade aos direitos assegurados,
o Estado deverá exercer seu poder de polícia e fiscalizar as atividades
fornecidas pelos terceiros. Ocorre que, o uso de sistema conveniado
apresenta vantagens e desvantagens.
Temos como vantagens a não necessidade de contratações de
servidores, ausência de previsão de gastos a longo prazo e uma
flexibilidade de locação de recursos. Mas ocorre as desvantagens, tais
como o fato de o Estado ficar dependente de terceirizados e perder o
controle dos atendimentos, devido não existir um reajuste das atividades
(CARVALHO, 2020, p.1).
Já no âmbito da rede privada o art. 5º da Lei 12.764/12
dispõe que: “a pessoa com transtorno do espectro autista não será
impedida de participar de planos privados de assistência à saúde em
razão de sua condição de pessoa com deficiência, conforme dispõe o art.
14 da Lei 9.656, de 3 de junho de 1998”.
Apesar de respaldo legal aos autistas de participarem de planos
privados à saúde, os mesmos encontram diversos entraves, senão
vejamos:
Perante as empresas responsáveis e os Portadores de Espectro
Autista vivem verdadeiras batalhas em relação as empresas que prestam
serviços privados à saúde. Pois os planos da rede privada tentam eximir
as suas responsabilidades nos custeios dos planos, mesmo tendo respaldo
jurídico dos Portadores de Espectro Autista (CARVALHO, 2020, p.1).
Por fim os portadores de Transtorno do Espectro Autista têm
direito a atenção integral para seu tratamento contínuo sendo,
atendimentos com multiprofissionais, acesso a medicação e a seus
nutrientes. Demonstra o artigo 2º, III, da Lei 12.764 de 2012:
a atenção integral às necessidades de saúde da pessoa com
transtorno do espectro autista, objetivando o diagnóstico precoce,
os atendimentos de forma multidisciplinar com equipe formada por
diversos profissionais da área de saúde como médicos,
6
fonoaudiólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais,
4
psicólogos e assistentes sociais tem direito ainda ao acesso a
medicamentos e nutrientes necessário.
6
5
O direito a educação elenca no artigo 54 do Estatuto da Criança
e do Adolescente (ECA): “ É dever do Estado assegurar à criança e ao
adolescente: [...] III - atendimento educacional especializado aos
portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino”
(BRASIL, ECA,2020, p.1).
Como toda criança e adolescente tem direito a educação no qual
garante seu crescimento como pessoa para sua vida no dia a dia e sua
carreira profissional.
Os portadores de Transtorno do Espectro Autista, têm a
educação especializada que “é o conjunto de atividades, recursos de
acessibilidade e pedagógicos organizados institucionalmente, prestado de
forma complementar ou suplementar à formação dos alunos no ensino
regular” (TIBYRIÇÁ, 2011, p. 11).
Na proposta de educação inclusiva todos os alunos devem ter a
possibilidade de integrar-se ao ensino regular, mesmo aqueles
com deficiências ou transtornos de comportamento, de preferência
sem defasagem idade-série.
A escola, segundo essa proposta, deverá adaptar-se para atender
às necessidades destes alunos inseridos em classes regulares.
Portanto, requer mudanças significativas na estrutura e no
funcionamento das escolas, na formação dos professores e nas
relações família-escola.
A principal importância é considerar as características de cada
criança, garantindo o convívio entre crianças e adolescentes com e
sem deficiência, com aprendizado do respeito e da tolerância às
diferenças. (TIBYRIÇÁ, 2011, p. 11).
A educação tem que ser de qualidade a todos sem qualquer tipo
de distinção, pois para a educação ser coerente necessita ser dada a
todos direitos iguais, para assim, ter um crescimento social. Como a
autora Cátia Aparecida Teles Frazão (2018, p.1) apresenta:
Examina-se que o direito ao acesso à educação é um direito social
fundamental para a vida do indivíduo, sendo essencial para sua
integração na sociedade e seu pleno exercício de cidadania.
O Brasil possui o sistema público e privado de educação, onde o
serviço público é mantido e prestado pelo estado e o privado é
administrado e mantido por pessoa jurídica de direito privado.
O surgimento da inclusão escolar fez com que as pessoas
portadoras de deficiência tivessem seu direito de acesso à
educação assegurado, e que as instituições de ensino não
pudessem negar a realização da matrícula, sendo estas instituições
obrigadas a prover meios necessários para permanência desses
indivíduos em sala de aula, e a ajuda necessária para seu
desenvolvimento.
O objetivo da inclusão escolar é fazer com que a diversidade seja
respeitada entre os cidadãos e que seus direitos não sejam
violados, respeitando assim a singularidade de cada indivíduo.
O que tem se observado é a constante ocorrência da segregação
pedagógica onde as instituições de ensino aceitam as pessoas com
6
deficiência por que são obrigadas, porém não oferecem a mínima
6
estrutura para que essa pessoa tenha seu devido acesso ao
ambiente escolar, o que torna impossível manter a pessoa com
deficiência na escola, um total descaso.
6
7
Desta maneira, os cidadãos portadores de Transtorno Espectro
Autistas com a Lei Berenice Piana 12.764/12, têm assegurado não só o
seu direito, mas o acesso a ter professores mediadores para auxiliar,
sendo que as instituições de ensinos públicas e privadas devem fornecer
esses profissionais para auxiliar os portadores de transtorno de espectro
autista.
Catia Aparecida Teles Frazão, reforça que não bastam direitos
aos cidadãos com transtornos do espectro autista, ou seja, vai mais além,
para que se tenha realmente a Justiça:
o poder público precisa garantir que essas pessoas tenham seus
direitos respeitados, reconhecer que eles fazem parte da
sociedade, não bastando apenas fazer campanhas contra atos
discriminatórios e sim fazer valer seus direitos sociais
fundamentais mudando esse contexto de exclusão do qual a
pessoas com Transtorno Espectro Autista fazem parte.
Aceitar as diferenças é essencial para constituição de uma
sociedade democrática, todas as pessoas têm o direito de
participar da constituição de uma sociedade de forma atuante e
em condições de igualdade.
As garantias da pessoa com Transtorno Espectro Autista estão
envolvidas diretamente as prestações positivas do poder público,
que deve promover o pleno acesso à educação inclusiva sendo em
instituições públicas ou privadas estabelecendo uma justiça social.
Assim como a educação os portadores de Transtorno do Espectro
Autista têm o direito exercer algum trabalho e quando lhes é possibilitado
e bem direcionado para as suas aptidões, resultam, positivamente, tanto
para o empregador, como para ele e sua família, frente a interação no
meio social de forma ampla.
Conforme o artigo 93 da Lei 8213/91 (2020, p.1):
A empresa com 100 (cem) ou mais empregados está obrigada a
preencher de 2% (dois por cento) a 5% (cinco por cento) dos seus
cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de
deficiência, habilitadas, na seguinte proporção:
I - até 200 empregados..........................................................2%;
II - de 201 a 500.....................................................................3%;
III - de 501 a 1.000.................................................................4%;
IV - de 1.001 em diante.........................................................5%.
A referida determinação legal gera mais oportunidades aos
portadores de Transtorno do Espectro Autista ingressarem no mercado de
trabalho.
Os portadores do Transtorno do Espectro Autista possuem o
direito ao Benefício. O Benefício de Prestação Continuada (BPC) mais
6
conhecido como LOAS (Lei Orgânica da Assistência Social), não é uma
8
aposentadoria, é restrito a poucas
6
9
pessoas apresentando alguns requisitos para poder solicitar tal benefício,
sendo eles previstos no art. 20, da Lei nº 8.742/93:
O benefício de prestação continuada é a garantia de um salário-
mínimo mensal à pessoa com deficiência e ao idoso com 65
(sessenta e cinco) anos ou mais que comprovem não possuir meios
de prover a própria manutenção nem de tê-la provida por sua
família.
A previdência deles é está prevista na Lei Complementar nº
142/13:
Art. 1o Esta Lei Complementar regulamenta a concessão de
aposentadoria da pessoa com deficiência segurada do Regime
Geral de Previdência Social
- RGPS de que trata o § 1o do art. 201 da Constituição Federal.
Art. 2o Para o reconhecimento do direito à aposentadoria de que
trata esta Lei Complementar, considera-se pessoa com deficiência
aquela que tem impedimentos de longo prazo de natureza física,
mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com
diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva
na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.
(BRASIL, LC 142, 2020, p.1).
Para finalizar, cabe ressaltar o direito a assistência social que “ é
um direito do cidadão e dever do Estado, prestada independente de
contribuição, sendo prevista na Constituição Federal de 1988 e
regulamentada pela Lei Orgânica da Assistência Social” (LOAS – Lei
8.742/93). (TIBYRIÇÁ, 2011, p. 7).
Busca garantir o atendimento das necessidades básicas dos
indivíduos e suas famílias, permitindo que todas as pessoas tenham
seus direitos assegurados no que diz respeito ao acolhimento,
renda, convivência familiar e comunitária, desenvolvimento da
autonomia individual, familiar e social e sobrevivência a riscos
circunstanciais (TIBYRIÇÁ, 2011, p. 7, grifo do autor).
Apesar Além dos direitos acima garantidos aos cidadãos
portadores do Transtorno do Espectro Autista, com a Lei 12.764/2012, os
mesmos encontram-se amparados por Lei especial que a seguir será
tratada.
3.3.1 A Lei Berenice Piana 12.764/2012
A lei resulta da luta dos direitos para a inclusão das pessoas
diagnosticadas com o transtorno do espectro autista na educação, saúde,
assistência e trabalho. Encontrando, ainda, alguns impasses por ser uma
lei nova, mas o seu conhecimento já demonstra um notável crescimento
para os portadores do transtorno. (CRUZ, 2020, p1).
7
Como diz Deusina Lopes da Cruz (2020, p.2-3), foi uma lei
0
aprovada para a mudança dos Portadores de Espectro Autista:
A Lei nº 12.764, aprovada no Congresso Nacional, sancionada pela
Presidenta Dilma e publicada no dia 28/12/2012 - Lei Berenice Piana,
7
1
representa um AVANÇO NESTA TRAJETÓRIA DE LUTA POR
DIREITOS.
Durante a sua tramitação, sob a forma de Projeto de Lei no
Congresso Nacional, incorporou contribuições relevantes da
sociedade e dos congressistas, tanto na Câmara dos Deputados
como no Senado Federal. A sanção de uma Lei que institui a
Política Nacional de Proteção dos Direitos das Pessoas com
Transtorno do Espectro do Autismo significa o compromisso do
país na execução de um conjunto de ações, nos três níveis de
governo, necessário à integralidade das atenções a estas
pessoas. A Lei ora sancionada, ao tempo em que protege, elimina
toda e qualquer forma de discriminação, reafirmando todos os
direitos de cidadania deste público alvo. O mencionado marco
legal é importante para viabilizar, direitos a um diagnóstico
precoce, tratamento, terapias e medicamento; acesso á educação;
à proteção social (benefícios, cuidados e moradia); ao trabalho e à
provisões adequadas de serviços que lhes propiciem a igualdade
de oportunidades (grifo do autor).
Com essa lei aumentou de forma significativa o avanço em
termos sociais comparando com os direitos dos cidadãos com Transtorno
de Espectro Autista reafirmando conceitos e concepções presentes na
Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência,
ratificada pelo Brasil como emenda à Constituição Federal. Mostrando-se
um caminho livre para todas as famílias dos portadores de Transtorno de
Espectro Autista.
Por tratar-se de um fenômeno complexo, de causa ainda
desconhecida e de abrangência biopsicossocial, o conhecimento
sobre o Transtorno do Espectro do Autismo carece de avanços em
pesquisas e estudos sobre a origem, desenvolvimento e
prognóstico das pessoas afetadas. É sabido, porém que o
desenvolvimento dos autistas varia de pessoa para pessoa, mas que
ele pode ser fortemente determinado pelas condições sociais
vivenciadas pelas famílias. Nesse contexto, a lei nº 12.764/2012 visa
atender as principais reivindicações das famílias com relação ao
acesso às informações de qualidade, serviços especializados e
acessíveis, apoio aos cuidadores familiares e garantia de direitos
de cidadania.
Atento. À NOVA LEI e as medidas necessárias ao acesso das
pessoas com autismo à saúde, educação e assistência social, o
Governo Federal, por meio do Ministério da Saúde (MS), produziu
documento técnico intitulado DIRETRIZES DE ATENÇÃO À
HABILITAÇÃO/REABILITAÇÃO DAS PESSOAS COM TRANSTORNO
DO ESPECTRO DO AUTISMO NO SUS.
Este documento traz importante avanço na sua concepção ao
reafirmar o direito universal de acesso à saúde dessas pessoas e
indicar a importância de ações intersetoriais e articuladas com a
Educação e Assistência Social. (Grifo autor, CRUZ, 2020, p. 5-6).
Com esse documento técnico do Ministério da Saúde, se deu
mais atenção a saúde das pessoas com autismo.
Envolvendo um conjunto de medidas nos níveis de atenção do SUS
a partir da atenção básica, com acesso a orientações sobre a
identificação, em bebês, de sinais e sintomas com risco de
evolução para Transtorno do Espectro do Autismo; diagnóstico
7
diferencial até três anos; acesso a tratamento e medicamento;2
atendimento em Habilitação e Reabilitação e cuidados com a
saúde mental nos serviços de atendimento psicossocial.
Na mesma direção o MEC destaca o direito à educação inclusiva e
ao Atendimento Educacional Especializado (AEE) reafirmando o
direito à
7
3
educação em todos os níveis, etapas e modalidades de ensino, em
todo o território nacional, bem como, a receber os apoios
necessários para o atendimento às necessidades específicas
individualizadas ao longo de toda a trajetória escolar. Significa
tomar uma série de medidas de capacitação dos professores e
gestores; instituição do Plano Individual de Atendimento
Educacional Especializado que considere as potencialidades do
aluno; a viabilização de recursos educacionais, mediações e
estratégias para o acesso à rotina escolar, dentre outras medidas
(CRUZ, 2020, p.7-8).
Esta conforme o artigo 3º. da Lei 12.764/2012, até mesmo, no
que se refere o poder de ter um professor especializado nos casos
necessários. (CRUZ, 2020, p.8).
No âmbito da Assistência Social a garantia do direito à proteção
social das pessoas com autismo e de suas famílias, em situação de
vulnerabilidade e risco ou com direitos violados, a partir da oferta de
um conjunto de iniciativas do SUAS. Destaque para a atenção
desse público, além dos serviços ofertados nos Centros de
Referência de Assistência Social (CRAS) e Centros de Referência
Especializada de Assistência Social (CREAS), com a implantação
dos Centros-dia de convivência, fortalecimento e vínculos e cuidados
pessoais e do Serviço de Acolhimento em Residências Inclusivas e a
importância da garantia da segurança de renda das pessoas com
autismo, por meio do acesso ao Programa Bolsa Família, benefícios
eventuais e ao pagamento mensal, do Benefício de Prestação
Continuada da Assistência Social – BPC, no valor de um salário
mínimo em curso no país, desde 1996 (grifo do autor, CRUZ, 2020,
p.9).
Assim, podemos afirmar que o Brasil, ao promulgar a Lei
12.764/2012 e instituir a Política Nacional de Proteção dos Direitos das
Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo, deu oportunidades a
estes cidadãos a ter voz e vez, superando seus desafios tendo seus
direitos nos três níveis do governo, havendo uma igualdade entre todos,
sem qualquer tipo de desumanização. Um verdadeiro avanço para nossa
democracia Brasileira. (CRUZ,2020, p.10).
3.3.2 Legislações que regulam questões especificas do cotidiano de um
autista
Os indivíduos portadores de Transtorno de Espectro Autista têm
seus direitos, assegurados na Constituição Federativa do Brasil em vigor,
bem como alguns direitos contidos em leis específicas.
Podemos citar algumas leis específicas para pessoas com algum
tipo de deficiência, como por exemplo:
A Lei 7.853/89 Dispões sobre o apoio às pessoas portadoras de
7
deficiência, sua integração social, sobre os interesses coletivos ou
4
difusos dessas
7
5
pessoas, garantindo o tratamento adequados em estabelecimentos de
saúde públicos e privados específicos para a sua patologia.
A Lei 8.899/94, concede passe livre às pessoas portadoras de
deficiência no sistema de transporte coletivo interestadual. O passe livre é
valido para transporte interestadual convencional público por ônibus,
trem ou barca/balsa.
A prioridade de atendimento às pessoas com deficiência,
encontra-se assegurado na Lei 10.048/00, conforme determina o: “Art. 1º
As pessoas com deficiência, os idosos com idade igual ou superior a 60
(sessenta) anos, as gestantes, as lactantes, as pessoas com crianças de
colo e os obesos terão atendimento prioritário, nos termos desta Lei ”.
Destaca-se, ainda que a Lei 10.098/00, estabelece normas gerais
e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas
portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida:
Art. 1º Esta Lei estabelece normas gerais e critérios básicos para a
promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência
ou com mobilidade reduzida, mediante a supressão de barreiras
e de obstáculos nas vias e espaços públicos, no mobiliário urbano,
na construção e reforma de edifícios e nos meios de transporte e
de comunicação.
Enquanto a Lei 13.370/2016, em seu preambulo altera: “ § 3º do
art. 98 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, para estender o
direito a horário especial ao servidor público federal que tenha cônjuge,
filho ou dependente com deficiência de qualquer natureza e para revogar
a exigência de compensação de horário”.
No qual pode ser reduzida a jornada de trabalho de servidores
públicos com filhos autistas. Sem que haja qualquer tipo de compensação
ou redução do salário dos funcionários públicos.
Dispondo sobre a educação especial e o atendimento
educacional especializado, determina o Decreto 7.611/2011, o que segue:
Art. 2º A educação especial deve garantir os serviços de apoio
especializado voltado a eliminar as barreiras que possam obstruir
o processo de escolarização de estudantes com deficiência,
transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou
superdotação.
§ 1º Para fins deste Decreto, os serviços de que trata o caput serão
denominados atendimento educacional especializado,
compreendido como o conjunto de atividades, recursos de
acessibilidade e pedagógicos organizados institucional e
continuamente, prestado das seguintes formas:
I - complementar à formação dos estudantes com deficiência,
7
transtornos globais do desenvolvimento, como apoio permanente6e
limitado no tempo e na frequência dos estudantes às salas de
recursos multifuncionais; ou
II - suplementar à formação de estudantes com altas habilidades
ou superdotação.
7
7
§ 2º O atendimento educacional especializado deve integrar a
proposta pedagógica da escola, envolver a participação da família
para garantir pleno acesso e participação dos estudantes, atender
às necessidades específicas das pessoas público-alvo da educação
especial, e ser realizado em articulação com as demais políticas
públicas.
A criação da Carteira de Identificação da Pessoa com transtorno
do Espectro Autista, deu-se com a entrada em vigor da Lei 13.977/20.
Conforme expressa no artigo:
Art. 3º-A. É criada a Carteira de Identificação da Pessoa com
Transtorno do Espectro Autista (Ciptea), com vistas a garantir
atenção integral, pronto atendimento e prioridade no atendimento
e no acesso aos serviços públicos e privados, em especial nas
áreas de saúde, educação e assistência social.
§ 1º A Ciptea será expedida pelos órgãos responsáveis pela
execução da Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa
com Transtorno do Espectro Autista dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios, mediante requerimento, acompanhado
de relatório médico, com indicação do código da Classificação
Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à
Saúde (CID)
[...]
§ 2º Nos casos em que a pessoa com transtorno do espectro
autista seja imigrante detentor de visto temporário ou de
autorização de residência, residente fronteiriço ou solicitante de
refúgio, deverá ser apresentada a Cédula de Identidade de
Estrangeiro (CIE), a Carteira de Registro Nacional Migratório
(CRNM) ou o Documento Provisório de Registro Nacional Migratório
(DPRNM), com validade em todo o território nacional.
[...]
§ 4º Até que seja implementado o disposto no caput deste artigo,
os órgãos responsáveis pela execução da Política Nacional de
Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro
Autista deverão trabalhar em conjunto com os respectivos
responsáveis pela emissão de documentos de identificação, para
que sejam incluídas as necessárias informações sobre o transtorno
do espectro autista no Registro Geral (RG) ou, se estrangeiro, na
Carteira de Registro Nacional Migratório (CRNM) ou na Cédula de
Identidade de Estrangeiro (CIE), válidos em todo o território
nacional (BRASIL, Lei 12.764, 2020, p. 1).
No sentido de suma importância para identificação dos autistas,
para diminuição do preconceito nos lugares em que frequentam e
precisam de atendimento prioritários, como na saúde, educação, ou
qualquer lugar assegurado por lei. Devendo ser renovadas a cada cinco
anos. Assim melhorando sua qualidade de vida.
Ainda, destaca-se que a Lei 16.756/18 da assembleia legislativa
de São Paulo, dispõe sobre o dever de inserção do símbolo mundial da
conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista - TEA nas placas
de atendimento prioritário.
Além dessas leis citadas acima, o Brasil ratificou algumas normas
7
internacionais, como por exemplo, a Convenção das Nações Unidas sobre
8
os Direitos das Pessoas com Deficiência.
7
9
Não podemos deixar de citar que em consonância com os
direitos acima citados, existem ainda, a aplicabilidade, no que couber
quanto aos previstos no Estatuto da Criança e Adolescente (Lei 8069/90) e
na melhor idade, ou seja, maiores de 60 anos têm os direitos do Estatuto
do Idoso (Lei 10.741/2003).
8
0
4 CONCLUSÃO
A pesquisa realizada para a elaboração do presente trabalho
teve como principal objetivo compreender quais os direitos garantidos aos
portadores de Transtorno de Espectro Autista, bem como as formas de
afastar o preconceito e as discriminações, buscando, assim, a edição de
normas junto ao Poder Público com intuito da efetivação da legislação
protetiva dos portadores do espectro autista.
Buscamos estudar as reações familiares ao diagnóstico do
autismo tendo em vista que a discriminação tem início em casa, com a
família, movida por comportamentos muitas vezes em sentido defensivo,
cuja aplicação é inadequada para a inclusão social. Sendo de extrema
importância o apoio familiar ao portador de TEA, pois a família é o primeiro
passo para nossa formação cidadã.
Além disso, a integração social das pessoas autistas depende da
criação, aplicação e eficácia de políticas públicas, para garantir aos
autistas acessos aos serviços de educação, inserção no trabalho, lazer e
saúde.
Durante a pesquisa do tema foram encontradas diversas
legislações que garantem direitos aos autistas, mas que nem sempre tem
sua eficácia e efetivação plena, configurando realmente um processo
lento de conquistas de espaços na sociedade sem sombra de dúvidas.
Com isso, a família após o impacto causado pelo transtorno e
necessidade de fazer luto pela perda do filho dito como ideal, deve se
organizar e buscar pelos seus direitos e da criança autista, para que ele
conquiste seu espaço na sociedade. Na verdade, as famílias passam por
muitas dificuldades desde a dor do diagnóstico, na falta de atendimento
especializado e nas incertezas quanto ao futuro. A única certeza é o amor
incondicional dos pais pelos filhos, que movem tudo em busca de seus
direitos perante órgãos governamentais e instituições obrigadas a prestar
auxílio.
É evidente que o ordenamento jurídico brasileiro assegura meios
para garantir os direitos fundamentais inerentes a pessoa humana,
especificamente, em relação aos autistas, temos a Lei 12.764 de 2012 que
institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com
8
Transtorno do Espectro Autista. 1
Os direitos e prerrogativas de um cidadão não portador de TEA
são os mesmos para os autistas, entretanto, os autistas possuem
características e peculiaridades próprias, necessitando de atenção
especial em algumas situações.
8
2
Conclui-se, dessa forma, que para uma concreta integração e
inclusão da pessoa com autismo no meio social será necessário um
trabalho com objetivo de informar a população, a como lidar com essas
pessoas especiais, e assim acabar com o preconceito.
Além disso, as famílias são os maiores vetores de concretização
da dignidade do autista e possuem a missão e privilegio de cuidar dessas
pessoas, portanto, nada mais óbvio que sejam também os principais
lutadores pelos direitos dos diagnosticados com TEA, buscando concretizar
a dignidade decorrente da condição de ser humano.
Com isso, todos podem ser cidadãos e é dever da sociedade em
geral conceder cidadania a quem, até pouco tempo, não tinha perspectiva
alguma de futuro, estimulando relações sociais, bem como, mostrando
que as pessoas autistas podem trabalhar e serem produtivas, superando
as expectativas. Assim, garantindo a proteção dos direitos aos autistas e
proporcionando uma dignidade efetiva.
8
3
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