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Qualidade na Educação: Presencial vs. EaD

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EDUCAÇÃO SUPERIOR, PROFISSÕES, TR ABALHO

HIGHER EDUCATION, PROFESSIONS, WORK


EDUCACIÓN SUPERIOR, PROFESIONES, TRABAJO
ENSEIGNEMENT SUPÉRIEUR, PROFESSIONS, TRAVAIL

[Link]

EXISTE DIFERENÇA DE QUALIDADE ENTRE AS


MODALIDADES PRESENCIAL E A DISTÂNCIA?
Julio Cesar Godoy Bertolin I
I
Universidade de Passo Fundo (UPF), Passo Fundo (RS), Brasil; julio@[Link]

Resumo
Nos últimos anos, a expansão da educação superior brasileira tem se baseado na modalidade a distância,
especialmente em instituições privadas com fins de lucro. Como estudantes de educação a distância
(EaD) pertencem, em geral, a grupos de menor nível socioeconômico, analisar essa modalidade é
fundamental para avaliar a equidade do sistema. Assim, neste artigo, utilizando a base de dados do
Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), buscou-se verificar se existem diferenças de
desempenho entre as modalidades presencial e a distância. Por meio de dedução lógica entre teoria de
eficácia escolar e comparações sobre médias do Enade, procurou-se demonstrar que cursos presenciais
tendem a propiciar melhores condições de aprendizagem. Em um contexto de acesso e perfil desigual,
é possível deduzir que a expansão da EaD está reforçando a iniquidade do sistema.
EDUCAÇÃO SUPERIOR • QUALIDADE • ENSINO A DISTÂNCIA • DESIGUALDADE SOCIAL

IS THERE A QUALITY DIFFERENCE BETWEEN FACE-TO-FACE AND


DISTANCE EDUCATION?
Abstract
In recent years, the expansion of higher education in Brazil has been based on the distance-education
modality, especially in private, for-profit institutions. Considering that distance-education students
generally belong to lower socioeconomic groups, analyzing this modality is fundamental in order
Cad. Pesqui., São Paulo, v.51, e06958, 2021

to assess the equity of the system. Thus, in this paper, using the National Examination of Student
Performance (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes, Enade) database, I checked
whether there are any differences in performance between the face-to-face and distance modalities.
Through logical deduction between school effectiveness theory and comparisons of Enade averages,
I have tried to demonstrate that face-to-face courses tend to provide better learning. In a context
of unequal access and profiles, it is possible to deduce that the expansion of distance-education is
reinforcing the iniquity of the system.
HIGHER EDUCATION • QUALITY • DISTANCE EDUCATION • SOCIAL INEQUALITY
1
EXISTE DIFERENÇA DE QUALIDADE ENTRE AS MODALIDADES PRESENCIAL E A DISTÂNCIA?

¿EXISTE DIFERENCIA DE CALIDAD ENTRE LAS MODALIDADES PRESENCIAL


Y A DISTANCIA?
Resumen
En los últimos años, la expansión de la educación superior brasileña se ha basado en la modalidad a
distancia (EAD), especialmente en instituciones privadas con fines de lucro. Como los estudiantes de
educación a distancia generalmente pertenecen a grupos de menor estatus socioeconómico, analizar
esta modalidad es fundamental para evaluar la equidad del sistema. Así, en este artículo, utilizando
la base de datos del Examen Nacional de Desempeño de los estudiantes (Enade), se buscó verificar
si existen diferencias en el desempeño entre las modalidades presencial y a distancia. Por medio de la
deducción lógica entre la teoría de la efectividad escolar y comparaciones de los promedios de Enade,
se trató de demostrar que los cursos presenciales tienden a proporcionar mejores condiciones de
aprendizaje. En un contexto de acceso y perfil desigual, se puede deducir que la expansión de EAD está
reforzando la iniquidad del sistema.
EDUCACIÓN SUPERIOR • CALIDAD • ENSEÑANZA A DISTANCIA • DESIGUALDAD SOCIAL

Y A-T-IL UNE DIFFÉRENCE DE QUALITÉ ENTRE LES MODALITÉS D’ENSEIGNEMENT


PRÉSENTIEL ET À DISTANCE ?
Résumé
Ces dernières années, l’expansion de l’enseignement supérieur brésilien s’est basée sur l’enseignement
à distance, en particulier dans les établissements privés à but lucratif. Étant donné que les étudiants de
l’enseignement à distance (EaD) appartiennent en général à des groupes de niveau socio-économique
plus faible, l’analyse de cette modalité est fondamentale pour évaluer l’équité du système. Cet article
a cherché à vérifier s’il existe des différences de performance entre les modalités présentielle et à
distance, appuyé sur la base de données de l’Examen National de Performance des Étudiants (Enade).
Par déduction logique entre la théorie de l’efficacité éducative et des comparaisons concernant les
moyennes de l’Enade, nous avons voulu démontrer que les cours en présentiel ont tendance à offrir de
Cad. Pesqui., São Paulo, v.51, e06958, 2021

meilleures conditions d’apprentissage. Dans un contexte d’accès et de profil inégal, il est possible de
déduire que l’expansion de l’enseignement à distance renforce l’iniquité du système.
ENSEIGNEMENT SUPÉRIEUR • QUALITÉ • ENSEIGNEMENT À DISTANCE • INÉGALITÉ SOCIALE
Julio Cesar Godoy Bertolin

2
EXISTE DIFERENÇA DE QUALIDADE ENTRE AS MODALIDADES PRESENCIAL E A DISTÂNCIA?

N O ÚLTIMO QUARTO DE SÉCULO, A EDUCAÇÃO SUPERIOR BRASILEIRA APRESENTOU UMA GRANDE


expansão, saindo de aproximadamente 1,5 milhão de matrículas para mais de 8 milhões (Ministério
da Educação, 2019). Essa ampliação está transformando os indicadores de atendimento. No período
2000-2018, a parcela de jovens de 18 a 24 anos frequentando algum curso de graduação – taxa líquida –
no país avançou de 7,4% (Corbucci, 2014) para 21,8% (Todos pela Educação, 2019a). Mais
recentemente, em função de um conjunto de programas de democratização do acesso, como reserva
de vagas nas instituições estatais federais (cotas) e de financiamentos não reembolsáveis do Programa
Universidade para Todos (Prouni) e reembolsáveis do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) nas
instituições privadas, o acesso de grupos de menor nível socioeconômico também apresentou avanço.
Em 2002, nenhum estudante de graduação fazia parte dos 20% mais pobres da população, e somente
4% integravam o grupo dos 40% mais pobres. Em 2015, aproximadamente 15% dos estudantes do
ensino superior estavam no grupo dos 40% mais pobres (Banco Mundial, 2017).
A expansão na educação superior brasileira ocorreu por meio tanto das instituições estatais
como das privadas, sendo mais significativa as últimas, especialmente aquelas com fins lucrativos.
Tal tendência pode ser observada pela participação das instituições privadas nas matrículas: cresceram
de 58% em 1995, para 75% em 2018 (Ministério da Educação, 2019). As diferenças qualitativas entre as
instituições de educação superior estatais e privadas vão noutro sentido. As primeiras congregam, por
exemplo, mais professores com título de doutor e são responsáveis por quase a totalidade da produção
científica do país, enquanto as segundas, excetuando-se o reduzido grupo das sem fins lucrativos,
raramente desenvolvem pesquisas. Nos anos mais recentes, a expansão nas instituições privadas tem
se sustentado na modalidade educação a distância (EaD). Em 2005, menos de 2% das matrículas
desta categoria administrativa eram em cursos a distância; pouco mais de dez anos depois, em 2018,
tal modalidade representava 30% das matrículas. Atualmente, as instituições não estatais possuem
mais de 90% dos estudantes da EaD do sistema. Entre 2015 e 2018, o ingresso de alunos dobrou na
modalidade a distância, passando de menos de 700 mil para aproximadamente 1,4 milhão, enquanto
no ensino presencial tal número regrediu de 2,2 milhões para 2,1 milhões. Em 2018, o volume de vagas
oferecidas nessa modalidade superou, pela primeira vez, o número registrado em cursos presenciais –
7,2 milhões ante 6,4 milhões (Ministério da Educação, 2019).
Não obstante, situações de ampliação quantitativa de acesso tenderem a gerar implicações
Cad. Pesqui., São Paulo, v.51, e06958, 2021

qualitativas. Contextos que envolvam a expansão da modalidade a distância maximizam tal relação,
visto que a variabilidade de tempo e espaço complexifica o processo de ensino-aprendizagem. No caso
do crescimento do acesso à modalidade EaD no Brasil, ainda existe um agravante, porque os estudantes
dessa modalidade, em geral, apresentam menor nível socioeconômico do que os da modalidade
presencial. Na média, eles frequentaram mais escola pública no ensino médio – 80% x 60% –,
fazem cursos com menor percepção de status pela sociedade (por exemplo, licenciaturas) e pagam
Julio Cesar Godoy Bertolin

mensalidades menores – a mensalidade média de um curso de bacharelado a distância é quase um terço


de um presencial (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no
Estado de São Paulo [Semesp], 2019). Essa soma de fatores de expansão de modalidade de ensino com
perfil específico de estudantes pode estar oportunizando, para grupos de menor nível socioeconômico,
acesso de qualidade inferior. Assim, avaliar a qualidade da EaD torna-se fundamental no contexto de
análise do sistema em termos de equidade.
3
Nesse sentido, considerando que há mais de meio século estudos têm demonstrado que o
EXISTE DIFERENÇA DE QUALIDADE ENTRE AS MODALIDADES PRESENCIAL E A DISTÂNCIA?

desempenho em exames é significativamente influenciado pelos contextos socioeconômico e cultural


dos estudantes, o presente trabalho, por meio de dedução lógica das pesquisas de eficácia escolar e
dos dados empíricos do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), busca analisar a
diferença de possibilidades de aprendizagem e também de qualidade – entendida como performance
em provas –, entre as modalidades presencial e a distância na educação superior brasileira.

O background e o efeito curso


No âmbito da educação superior, tem-se como quase consenso que o conceito de qualidade em
educação superior é polissêmico. Como as literaturas nacional e internacional demonstram, tal termo
tem sido referenciado e utilizado, até de forma indiscriminada, para justificar muitas coisas: reformas
curriculares, projetos de pesquisa, conferências e congresso científicos, etc. Segundo Orden Hoz
et al. (1997, p. 2), “todas estas atividades e outras muitas se colocam sob o manto da qualidade, porque
obviamente ninguém pode objetar à qualidade como objetivo de um projeto, de uma instituição ou
de um programa”. Há quase três décadas, Vroeijenstijn (1991) já afirmava que “é uma perda de tempo
tentar definir qualidade”, visto que diferentes stakeholders têm diferentes prioridades e expectativas
em relação à educação superior. As diferentes propostas de classificação publicadas no início da década
de 1990 (Harvey & Green, 1993), bem como termos mais recentemente empregados para identificar
propriedades, tais como eficiência, empregabilidade, diferenciação, relevância, pertinência, equidade,
etc. (Bertolin, 2009), ou responsabilidade social – por meio da avaliação de cursos de graduação
(Ministério da Educação, 2004), evidenciam uma trajetória e tendência de continuidade de grande
variabilidade de compreensões sobre qualidade em educação superior.
Apesar de tal polissemia, mais recentemente a aplicação de exames em larga escala tem se
tornado um elemento de destaque no estabelecimento da percepção de governos e sociedades sobre
o valor qualitativo em diferentes níveis educacionais – por exemplo, Programa Internacional de
Avaliação de Estudantes (Pisa), Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Exame Nacional de
Desempenho do Ensino Superior (Enade), etc. Nesse contexto, o entendimento de qualidade em
educação superior está relacionado à capacidade de um curso “pretensamente” viabilizar a aprendizagem
dos graduandos, o que pode ser demonstrado por meio do seu desempenho dos mesmos em provas.
Assim, um grupo de estudantes com performance acima da média numa avaliação de aprendizagem aplicada
ao universo dos discentes de uma determinada carreira/profissão denotaria a certificação da qualidade
do seu curso, como ocorre, por exemplo, com os resultados do Enade. Esse critério ou entendimento de
qualidade na educação, além de ser passível de questionamento, pode gerar metodologicamente quimeras
(Bertolin & Marcon, 2014), visto que, desde meados da segunda metade do século passado, estudos e
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pesquisas têm demonstrado que atributos e características da escola ou de curso de graduação não são os
únicos fatores condicionantes do desempenho dos estudantes em exames.
Publicado em 1966, o Coleman Study transformou-se num marco da pesquisa sociológica,
derrubando mitos e alterando o curso da pesquisa sobre fatores condicionantes da educação. Redigido
com base em uma grande pesquisa survey, realizada com aproximadamente 640 mil alunos e quatro
mil escolas, tal relatório foi encomendado por exigência da Lei dos Direitos Civis, que pressupunha
Julio Cesar Godoy Bertolin

significativa desigualdade qualitativa entre as escolas de negros e brancos e entre as escolas do Norte e
do Sul dos Estados Unidos. Na época, acreditava-se que os insumos das escolas (equipamentos e outras
condições de funcionamento) eram os principais fatores condicionantes da aprendizagem e desempenho
dos estudantes. Entretanto, os resultados divulgados da pesquisa surpreenderam, visto que demonstraram
que outra variável era mais importante: o background, ou seja, o “acúmulo” auferido pelos estudantes em
função de seus contextos familiar, social, econômico e cultural (Coleman et al., 1966).
4
No mesmo sentido, outros estudos sobre a relação background e desempenho foram realizados
EXISTE DIFERENÇA DE QUALIDADE ENTRE AS MODALIDADES PRESENCIAL E A DISTÂNCIA?

na Europa, como, por exemplo, The Plowden Report, elaborado em 1967 pelo Central Advisory
Council for Education da Inglaterra. Tal relatório também evidenciou que a escola tem um impacto
menor na explicação do desempenho dos estudantes comparativamente às condições socioeconômicas.
Os resultados apresentados após levantamento realizado junto a mais de cem escolas de ensino
fundamental da Inglaterra indicaram que a porcentagem da variação de desempenho que podia ser
explicada pelas condições do background dos estudantes era de quase 50%, enquanto os fatores que
descreviam as condições das escolas explicavam pouco menos de 20% (Department of Education and
Science, 1967).
Nesse mesmo período, o sociólogo francês Pierre Bourdieu, ao propor um novo modo de
interpretação da escola e da educação, definiu o conceito de “capital cultural” com base em evidências da
forte relação entre a origem socioeconômica e cultural dos estudantes e desempenho escolar. Tomando por
referência a frustração dos jovens de classe média e dos meios populares de falsas promessas dos sistemas
de ensino, bem como pesquisas quantitativas como Coleman Study e The Plowden Report, Bourdieu
argumentou que existem importantes elementos constitutivos do acúmulo cultural que é transmitido por
meio da educação informal, especialmente no espaço familiar. Assim, afirma o autor, há um
. . . sistema de valores implícitos e profundamente interiorizados, que contribui para definir,
entre outras coisas, as atitudes face ao capital cultural e à instituição escolar. A herança cultural,
que difere, sob os dois aspectos, segundo as classes sociais, é a responsável pela diferença inicial
das crianças diante da experiência escolar e, consequentemente, pelas taxas de êxito. (Bourdieu,
1966, p. 326)
Esses estudos pioneiros subsidiaram discussões sociológicas amplas sobre o efeito do meio
social nos percursos escolares, bem como fomentaram investigações sobre eficácia escolar que trataram
os fatores associados ao desempenho dos estudantes com base em dois principais grupos: efeito escola e
background. A discussão central relaciona-se ao poder de impacto de cada grupo e dos respectivos fatores
condicionantes da performance. O efeito escola esteve quase sempre associado aos atributos do ambiente
escolar, tais como infraestrutura física, recursos e ferramentas educacionais, projeto pedagógico, gestão
e corpo docente. O background, por sua vez, incluiu, fundamentalmente, os contextos familiar, social
e econômico dos estudantes, o que também pode ser entendido como condicionante do seu capital
cultural.
Desde aquele período, quando uma interpretação um tanto radical dos estudos Coleman e
Plowden se estabeleceu, visto que foram interpretados como “a escola não faz diferença”, até os dias
atuais, muitas outras linhas de investigação e interpretação foram desenvolvidas, com importantes
contribuições e avanços observados em diferentes países. Nessa trajetória, um conjunto significativo
Cad. Pesqui., São Paulo, v.51, e06958, 2021

de estudos buscou demonstrar que, de alguma forma, a escola pode influenciar no desempenho
(Summers, 1981; Mortimore, 1997) e que existem características que podem tornar uma escola mais
eficaz (Macgilchrist et al., 2004). Atualmente, a opinião de que a escola não importa está praticamente
ultrapassada, e existe uma ideia generalizada, em nível internacional, de que, apesar de o background ser
um importante fator condicionante, a escola “pode fazer a diferença” (Sammons et al., 1995), impactar
positivamente o desenvolvimento dos estudantes e “agregar valor”, sendo, por conseguinte, um
Julio Cesar Godoy Bertolin

importante desafio das políticas educativas melhorar de forma generalizada todas as escolas (Reynolds
et al., 2002).
No âmbito da educação superior, embora em menor frequência do que no nível básico, também
existem trabalhos que abordam a relação entre background e desempenho dos graduandos (Park & Kerr,
1990; Anderson et al., 1994; Smith & Naylor, 2001), bem como a relação entre aspectos dos cursos de
graduação e seus atributos, tais como formação docente e qualidade de ensino, e a performance dos
5
estudantes (Beekhoven et al., 2003). Nos Estados Unidos, por exemplo, o desempenho dos graduandos
EXISTE DIFERENÇA DE QUALIDADE ENTRE AS MODALIDADES PRESENCIAL E A DISTÂNCIA?

e seus condicionantes vêm sendo analisados por meio do Grade Point Average (GPA) (Betts & Morell,
1999; Cohn et al., 2004). Em geral, esses estudos coadunam as pesquisas da educação básica, ou seja,
indicam que o background é relevante fator condicionante do desempenho, mas aspectos e atributos
dos cursos também podem influenciar nos resultados.
No Brasil, com a construção da base de dados sobre avaliação de larga escala do Enade
– provavelmente uma das maiores do mundo com informações que relacionam notas em exames,
características dos cursos e nível socioeconômico e cultural dos estudantes –, trabalhos sobre fatores
condicionantes do desempenho de graduandos começaram a surgir nos últimos tempos. As análises
estatísticas das notas nas diversas edições do Enade têm demonstrado, sob distintas perspectivas,
que os estudantes provenientes de contextos socioeconômicos mais elevados tendem a obter melhor
desempenho, independentemente de áreas do conhecimento e da categoria administrativa da
instituição. Quase como regra, a média geral dos concluintes aumenta à medida que a renda mensal
da família seja maior, conforme o grau de escolaridade da mãe do concluinte se qualifique e à proporção
que a cor da pele do aluno seja mais clara (Bertolin & Marcon, 2014).
Porém, de forma semelhante ao percurso das pesquisas da educação básica, estudos mais
recentes demonstram que alguns cursos que participaram do Enade podem “fazer a diferença”.
Bertolin et al. (2019), por exemplo, ao avaliarem possibilidades de ampliar a equidade na educação
superior brasileira, demonstraram que um conjunto de cursos que atenderam preponderantemente a
estudantes de menor nível socioeconômico conseguiu compensar defasagens de capital cultural e de
background. Os resultados encontrados permitiram argumentar em favor de que cursos específicos
podem proporcionar uma aprendizagem e um desempenho para além do esperado para a média dos
cursos com mesmo perfil de estudantes com menor nível socioeconômico.
Assim, a partir das literaturas nacional e internacional sobre eficácia escolar, que apresentam
o background como um importante condicionante (não determinante) da aprendizagem e
do desempenho, pode-se inferir que a aproximação da ideia de qualidade como efeito escola
(na educação básica) ou efeito curso (na educação superior) requer a desagregação da performance
por grupos de níveis socioeconômicos e culturais de estudantes. Ao se considerarem apenas dois
fatores que influenciem o resultado num exame, quando se consegue mitigar a influência de um deles
(ex: o background), é, por óbvio, o outro fator (por exemplo, atributos do curso) o potencial causador
da diferença de desempenho. Tal desagregação possibilita, então, atenuar o importante impacto do
capital cultural nas notas e, por conseguinte, viabiliza a realização de comparações “qualitativas”
entre diferentes cursos de instituições ou grupos da educação superior. Nesse sentido, no caso da
comparação de desempenho entre diferentes modalidades de ensino no Enade, por exemplo, para se
realizar uma avaliação mais justa, é fundamental analisar a performance dos estudantes dos cursos
Cad. Pesqui., São Paulo, v.51, e06958, 2021

EaD e presencial que estão nas mesmas faixas de nível socioeconômico e cultural.

O questionamento da qualidade da EaD


A expansão de cursos a distância na educação superior é um fenômeno mundial que tem impactado
os sistemas educacionais de várias formas. Países tão distantes e distintos como Estados Unidos,
Julio Cesar Godoy Bertolin

África do Sul e Austrália, por exemplo, apresentaram aumentos significativos de matrículas nessa
modalidade (Bolton et al., 2019; Department of Education, 2010; Ziguras, 2018) que, apesar de não ser
novidade, ganhou impulso na última virada de século com as novas tecnologias digitais de informação
e comunicação. Além de ser explorada como uma oportunidade de negócio nos (quase-)mercados da
educação superior, a educação a distância também pode representar uma importante alternativa de
ampliação no acesso. Há quase 20 anos, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência
6
e a Cultura (Unesco) (2002, p. 3, tradução nossa)1 já destacava que “a globalização da educação à
EXISTE DIFERENÇA DE QUALIDADE ENTRE AS MODALIDADES PRESENCIAL E A DISTÂNCIA?

distância oferece muitas oportunidades para os países em desenvolvimento alcançarem seus objetivos
nos sistemas de educação”. Porém, a questão da ampliação quantitativa implica, na grande maioria das
vezes, restrições qualitativas.
Um entendimento plausível de educação a distância relaciona-se ao processo educacional
no qual os estudantes e os professores não estão numa mesma sala de aula, encontram-se a alguma
distância e podem ou não se comunicar em “tempo real”, sendo que a mediação didático-pedagógica
ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação. Por óbvio, tal variação
de espaço e tempo pode complexificar o sempre desafiador processo de ensino e aprendizagem
(Dean Nielsen, 1997). Nesse sentido, muitos estudos e trabalhos têm refletido e problematizado a questão
da qualidade no âmbito da modalidade a distância. Os resultados, porém, nem sempre têm convergido.
Por exemplo, se, por um lado, levantamento realizado em 2012 indicou que quase 70% dos
gestores acadêmicos acreditavam que a EaD gera resultados de aprendizagem semelhantes aos da
modalidade presencial (Bolton et al., 2019); por outro, o estudo de Allen e Seaman (2013) demonstrou
que apenas um terço dos professores reconheciam o valor e a legitimidade da modalidade a distância.
Sob a perspectiva dos estudantes, enquanto uma metanálise apontou para a existência de preferência
pelo modelo presencial (Allen et al., 2002), outra investigação, que aplicou três instrumentos a
estudantes de dois cursos equivalentes, sendo um EaD e outro presencial, não encontrou diferenças
significativas entre as preferências de estilo de aprendizagem. Os resultados sugeriram que estudantes
podem aprender de forma semelhante em qualquer das modalidades, desde que o curso seja desenvolvido
com base em teoria da aprendizagem de adultos (Aragon et al., 2002).
No Brasil, estudos comparativos entre as modalidades EaD e presencial começaram a surgir
nos últimos anos, mas também sem univocidade nos resultados apresentados. Em favor da modalidade
EaD, por exemplo, trabalho publicado por Figueiredo et al. (2017) sustentou que estatísticas aplicadas
às bases de dados do Enade demostram que os cursos de graduação oferecidos na modalidade a distância
estão sendo avaliados, na sua maioria, como melhores ou iguais aos mesmos cursos ofertados na
modalidade presencial. Reforçam-se, assim, argumentos na direção de não haver diferenciação entre os
cursos em função da modalidade de ensino. Em outro sentido, artigo de Bielschowsky (2018) sustentou
que, em 2016, cinco instituições que eram responsáveis por 58% das matrículas EaD ofertavam cursos
com conceito abaixo de 1,5 em edições do Enade. Tal análise permite argumentar que a maioria dos
alunos de EaD estava frequentando cursos mal avaliados segundo critérios do próprio exame nacional
de estudantes. O estudo também revelou que os cursos presenciais dessas mesmas instituições, de
maneira geral, mostravam resultados superiores àqueles obtidos em seus cursos a distância, sugerindo
que, na melhor das hipóteses, o tratamento entre as duas modalidades não seria equivalente.
Em edição mais recente do Enade, de fato, os cursos presencias registraram desempenho
Cad. Pesqui., São Paulo, v.51, e06958, 2021

superior aos da EaD. Em 2018, por exemplo, quando concluintes especialmente das áreas de ciências
sociais aplicadas (por exemplo, bacharelados em Direito e Administração e tecnólogos em Gestão)
participaram, ao se considerarem os resultados das instituições públicas e privadas, apenas 2,4% dos
cursos da modalidade a distância alcançaram, dentro da escala de 1 a 5, o conceito 5, enquanto na
modalidade presencial a pontuação máxima da prova foi obtida por 6,1% dos cursos. Os mesmos dados
demostraram que 46% dos cursos a distância obtiveram conceitos insuficientes (1 e 2), e apenas 15%
Julio Cesar Godoy Bertolin

alcançaram os graus mais altos (4 e 5), enquanto no ensino presencial tais proporções foram de 33% e
29%, respectivamente, sugerindo, dessa forma, existirem importantes diferenças de desempenho entre
estudantes das distintas modalidades.

1 No original: “The globalization of distance education provides many opportunities for developing countries for the realization
of their education system-wide goals.”
7
O questionamento da qualidade da EaD ganha relevância no Brasil, especialmente, no âmbito
EXISTE DIFERENÇA DE QUALIDADE ENTRE AS MODALIDADES PRESENCIAL E A DISTÂNCIA?

da formação docente, visto que a educação básica apresenta desempenho insuficiente nas comparações
internacionais, e o curso de Pedagogia apresenta a maior quantidade de matrículas a distância.2
A necessidade de relações mais diretas com escolas, crianças e adolescentes, como recomendado pelo
Conselho Nacional de Educação (CNE), gestores e educadores, e o acompanhamento de estágios são
argumentos fortes em prol da formação presencial de docentes (Gatti et al., 2019). Segundo Claudia
Costin (2019, p. 1), ex-diretora de educação do Banco Mundial,
Um professor precisa cada vez mais saber atuar em atividades que demandam constantes
interações com alunos, por meio de metodologias ativas e ativação cognitiva, num processo
que . . . requer pensamento de ordem mais elevada e resolução colaborativa de problemas.
Ora, as competências para esse trabalho dificilmente podem ser desenvolvidas em um curso a
distância. Seria o mesmo que esperar que um médico aprendesse a operar pacientes em cursos
puramente teóricos e online. Muitos dos cursos oferecidos o são por instituições privadas que
não produzem pesquisas e contam com currículos dissociados da realidade da escola.
Existe literatura internacional que ratifica tal reflexão, visto que relaciona o êxito nos
estudos à necessidade de atributos psicológicos individuais, tais como atitude positiva e crenças,
autodisciplina, motivação e confiança, bem como de domínio interpessoal referente à gama de aspectos
sociais, psicológicos e sociológicos da interação social que precisam ser negociados e dominados no
autodesenvolvimento. Estes incluem habilidades de comunicação, relações interpessoais, questões
culturais e de diversidade, relações de poder, assertividade, reflexão crítica e autoconhecimento
derivados da interação (Subotzky & Prinsloo, 2011).
As dúvidas sobre a EaD ser capaz de proporcionar uma aprendizagem adequada são de tal
ordem que alguns países estão estabelecendo limites regulatórios para a modalidade a distância. Existem
casos de governos, como, por exemplo, da China, Índia e Vietnã, que se recusam a admitir diplomas
obtidos em instituições estrangeiras sob o argumento de que a modalidade a distância é de qualidade
inferior (Ziguras, 2018). No Peru e no México, países com características semelhantes ao contexto
brasileiro, a formação inicial dos professores é proibida por meio de cursos de licenciaturas a distância
(Todos pela Educação, 2019b). No Brasil, conselhos profissionais começaram a aprovar resoluções que
proíbem os estudantes formados na EaD de exercerem a carreira. Nesse sentido, entidades representativas
de Arquitetura, Farmácia, Medicina Veterinária e Odontologia argumentaram que atividades práticas
são essenciais e que, portanto, não é possível garantir formação de qualidade sem aulas presenciais.
Em outubro de 2019, o próprio Ministério Público Federal encaminhou ao Ministério da Educação
recomendação para que fossem suspensas autorizações para criar novos cursos a distância na área da
saúde (Pinho, 2019), e o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ajuizou ação
Cad. Pesqui., São Paulo, v.51, e06958, 2021

solicitando que o Ministério da Educação (MEC) paralisasse a autorização de novos cursos de Direito
na modalidade a distância.
Não obstante a abundância de críticas e questionamentos, investigações desenvolvidas sobre a
qualidade da EaD construíram conhecimentos com vistas a viabilizar uma melhoria da aprendizagem
que identificaram aspectos importantes para a modalidade, como, por exemplo, a influência do perfil dos
estudantes. Nesse sentido, a máxima de que o estudante é o centro do processo educativo também vale
Julio Cesar Godoy Bertolin

2 A expansão da modalidade a distância nas licenciaturas (que incluem Pedagogia) no Brasil nos últimos anos é impressionante.
A quantidade de matriculados nos cursos de formação inicial de professores está aumentando, principalmente, por meio
de novos ingressos na modalidade EaD em instituições privadas. O total de ingressantes em cursos voltados à docência
elevou-se em 44% entre 2010 e 2017, mas, considerando apenas o universo da rede privada na modalidade EaD,
o crescimento foi de 162%. Em 2017, a EaD na rede privada já correspondia a 53% dos ingressantes em licenciaturas.
Em 2010, essa parcela era de um quarto. Dos 208 mil ingressantes a mais em licenciaturas observados nos levantamentos
realizados em 2010 e 2017, mais de 100 mil ocorreram em cursos de Pedagogia (Todos pela Educação, 2019b).
8
para a modalidade EaD. De acordo com Simonson et al. (2019), geralmente, no contexto da educação
EXISTE DIFERENÇA DE QUALIDADE ENTRE AS MODALIDADES PRESENCIAL E A DISTÂNCIA?

a distância, a ênfase volta-se para a tecnologia, enquanto os estudantes são considerados somente após
a organização do hardware, do conteúdo e do plano de ensino. Porém o estudante é o elemento central
do sistema EaD. Logo, ele precisa ser considerado no início do planejamento e da implementação. Para
os autores, conhecer bem os estudantes pode auxiliar o professor na superação da sensação de separação
entre educador e educando e viabilizar uma experiência de aprendizagem mais positiva.
Nesse sentido, diversos estudos ratificam que o capital cultural, o habitus e características
comportamentais dos estudantes constituem aspectos a serem considerados para um melhor
desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem na modalidade a distância (Subotzky &
Prinsloo, 2011; Lephalala & Makoe, 2012). Entretanto, são raros os trabalhos, até mesmo na literatura
internacional, que, em esforços de comparação entre as modalidades EaD e presencial, levam em
conta o perfil dos estudantes. No Brasil, apesar de o Enade conter uma ampla gama de informações
sobre aspectos socioeconômicos e culturais dos participantes, também são raras as publicações que se
baseiam na literatura da eficácia escolar – que indica como condição sine qua non a desagregação por
nível socioeconômico – para avaliar e comparar as possibilidades de desenvolvimento da aprendizagem
entre as diferentes modalidades.
Uma rara exceção é a comparação realizada pela organização Todos pela Educação, intitulada
Formação inicial de professores no Brasil, publicada em agosto de 2019, que, ao utilizar metodologia
que limita o efeito do perfil dos estudantes, estimou a diferença entre as modalidades e indicou que o
graduando em EaD tem maior probabilidade de estar entre o grupo com pior desempenho no Enade
– 30,2%, contra 21,6% do presencial (Todos pela Educação, 2019b). Entretanto, tal estudo limita-se aos
cursos de licenciaturas. Dessa forma, a seguir, considerando a evidente necessidade de desenvolvimento
de mais estudos sobre a questão da qualidade da modalidade a distância, apresenta-se um estudo
comparativo de desempenho entre estudantes EaD e presencial no Enade, tendo como critérios de
análise subgrupos com diferentes perfis de backgrounds dos estudantes.

A comparação entre EaD e presencial por background


Desde 1996, com o Exame Nacional de Cursos (ENC), conhecido também como Provão, os estudantes
concluintes de graduações no Brasil são avaliados por meio de testes padronizados aplicados em escala
nacional. Em 2004, com a implementação do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior
(Sinaes), o ENC foi substituído pelo Enade. Inicialmente, com vistas a apreender o “valor agregado”
durante o curso, de forma inédita, tanto estudantes ingressantes como concluintes participavam do
Enade. A partir de 2011, entretanto, o desempenho dos ingressantes passou a ser inferido pelo Enem.
O Enade é um instrumento dividido em dois componentes: componente específico, com questões
Cad. Pesqui., São Paulo, v.51, e06958, 2021

que abordam o conteúdo de cada carreira/profissão, representando 75% da nota final do estudante na
prova, e formação geral, que engloba conhecimentos gerais e temas exteriores ao âmbito específico da
profissão a ser exercida pelo graduando, cujas questões equivalem a 25% da nota do exame.
Além da prova, o Enade também é composto por questionários para estudantes e coordenadores
de curso responderem. O questionário dos estudantes contém questões diversas sobre a sua condição
socioeconômica e cultural e sobre as impressões qualitativas dos cursos frequentados. Aspectos relativos
Julio Cesar Godoy Bertolin

a cor da pele, condições de vida, renda familiar, condições de estudo, a educação básica cursada e o
nível de formação dos pais são abordados, juntamente com outros aspectos, em mais de 60 questões.
As análises das respostas registradas pelos estudantes no questionário socioeconômico permitem inferir
o seu background e o capital cultural.
O uso do Enade para comparar o desempenho de diferentes grupos de estudantes requer, além
da desagregação por background, distinção entre as notas dos componentes formação geral e específico.
9
Tal necessidade deve-se ao fato de que a nota da formação geral pode informar mais sobre o background
EXISTE DIFERENÇA DE QUALIDADE ENTRE AS MODALIDADES PRESENCIAL E A DISTÂNCIA?

e o capital cultural do estudante do que sobre a aprendizagem proporcionada pelo curso, visto que
conhecimentos gerais tendem a ser adquiridos também em ambientes não acadêmicos. Assim, a nota
mais adequada do Enade para realizar comparações que procuram apreender a capacidade de um curso
em proporcionar aprendizagem para os estudantes é aquela atribuída ao componente específico. Por
conseguinte, faz-se necessário que as comparações ocorram exclusivamente no escopo dos participantes
dos cursos de uma mesma carreira/profissão,3 uma vez que as diversas provas do Enade de componente
específico apresentam diferentes níveis de dificuldades, tornando incomparáveis desempenhos entre
cursos de distintas áreas.
Assim, com o objetivo de comparar a aprendizagem proporcionada pelas modalidades
a distância e presencial, num primeiro momento, realizou-se a seleção de todos os participantes do
Enade – independentemente de modalidade (identificados nos microdados na variável tp_pres com
o valor 555) – pertencentes a cursos de carreiras/profissões com a maior quantidade de concluintes
na modalidade EaD, em cada uma das edições do ciclo 2015-2016-2017, quais sejam: concluintes de
Administração (variável co_grupo=1), em 2015, com quase 123 mil participantes – 99 mil presenciais
e 24 mil EaD –; concluintes de Serviço Social (variável co_grupo=38), em 2016, com quase 28 mil
participantes – 15 mil presenciais e 13 mil EaD –; e concluintes de Pedagogia (variável co_grupo=2001),
em 2017, com aproximadamente 114 mil participantes – 56 mil presenciais e 58 mil EaD. Na sequência,
como indicador para avaliação da diferença de desempenho, foram calculadas, para cada uma das três
carreiras/profissões selecionadas como amostra, as médias da nota bruta no componente específico
(variável nt_ce, que varia de 0,0 a 100,0) obtidas pelos estudantes concluintes no exame exclusivamente
dos cursos das instituições privadas,4 desagregadas, primeiro, por modalidades de ensino (variável
co_modalidade, sendo 0=EaD e 1=presencial) e, segundo, por subgrupos considerados de maior e
menor nível de background:5 cor da pele (variável QE_I2) – brancos e negros/pardos –; renda total da
família (variável QE_I8) – mais de 4,5 salários mínimos e menos de 3 salários mínimos –; escolaridade
da mãe (variável QE_I5) – graduação/pós-graduação e nenhuma formação –; rede escolar frequentada
no ensino médio (variável QE_I17) – particular e pública –; e situação de trabalho (variável QE_I10)
– apenas estudando e estudando/trabalhando.
Tal desagregação por modalidade de ensino e background dos cálculos das médias obtidas
pelos estudantes no componente específico possibilitou observar que o desempenho dos concluintes da
modalidade presencial foi significativamente6 superior ao dos concluintes da modalidade a distância,
nos três cursos analisados. No curso de Serviço Social, por exemplo, nas dez comparações realizadas
(Tabela 1), tanto nas cinco entre subgrupos de background alto (cor da pele branca, renda familiar
maior que 4,5 salários mínimos, mãe com escolaridade em nível de educação superior ou pós-graduação,
ensino médio frequentado na rede particular e apenas estudando) quanto nas cinco entre subgrupos
Cad. Pesqui., São Paulo, v.51, e06958, 2021

3 O Enade também não permite comparações longitudinais, visto que os exames não utilizam a Teoria da Resposta ao Item
(TRI), e, portanto, não permitem a comparação do nível de dificuldades de provas de diferentes edições.
4 A opção de restrição para comparação entre as modalidades de ensino apenas aos cursos das instituições privadas
se justifica pelo fato de a expansão da EaD estar ocorrendo, principalmente, nesse tipo de categoria administrativa
(as instituições públicas e estatais possuem menos de 10% das matrículas na modalidade a distância), bem como pela pouca
quantidade de concluintes de instituições públicas e estatais dentro dos subgrupos de nível de background.
Julio Cesar Godoy Bertolin

5 A escolha das variáveis cor da pele, renda total familiar, escolaridade da mãe, rede frequentada no ensino médio e
situação de trabalho como indicadores de background foi baseada na literatura que indica tais aspectos como importantes
condicionantes de nível socioeconômico e cultural de estudantes (Bertolin et al., 2019).
6 Testes t de Student realizados em amostras da base analisada com o objetivo de verificar a existência de significância
estatística entre as diferenças das médias dos subgrupos com background semelhante, porém de modalidade de ensino
diferente, resultaram em 29, das 30 comparações realizadas, para 95% de intervalo de confiança, em valor-p < 0,05, ou
seja, rejeitaram as hipóteses nulas dos testes de forma a demonstrarem a relevância da variação de desempenho entre os
estudantes das modalidades presencial e EaD (as tabelas utilizadas nos cálculos estão disponíveis em [Link]
10

br/microdados).
de background baixo (cor da pele negra ou parda, renda familiar inferior a 3 salários mínimos, mãe
EXISTE DIFERENÇA DE QUALIDADE ENTRE AS MODALIDADES PRESENCIAL E A DISTÂNCIA?

sem nenhuma escolaridade, ensino médio frequentado na rede pública e estudando e trabalhando ao
mesmo tempo), os resultados evidenciaram médias mais altas nas notas do componente específico de
estudantes que frequentaram cursos na modalidade presencial em relação àqueles que cursaram EaD.
Em média, os subgrupos de background da modalidade presencial apresentaram desempenho 10,0
pontos superior entre os concluintes dos cursos de Serviço Social.

TABELA 1
COMPARAÇÃO DAS MÉDIAS DAS NOTAS NO COMPONENTE ESPECÍFICO DOS CONCLUINTES DO CURSO
DE SERVIÇO SOCIAL NAS MODALIDADES PRESENCIAL E EAD, POR SUBGRUPOS DE BACKGROUND –
EDIÇÃO DO ENADE DO ANO 2016
COR DA PELE

(1) Branco (2) Negro/Pardo


Presencial EaD Presencial EaD
49,5 39,6 48,3 38,1

RENDA FAMILIAR

(3) 4,5 SM* ou mais (4) 3 SM ou menos

Presencial EaD Presencial EaD

50,9 42,4 47,1 36,6

ESCOLARIDADE DA MÃE

(5) Educação superior/pós-graduação (6) Nenhuma

Presencial EaD Presencial EaD

49,5 38,2 44,8 36,6

ESCOLA ENSINO MÉDIO

(7) Privada (8) Pública

Presencial EaD Presencial EaD

50,8 40,6 47,9 37,8

CONDIÇÃO DE TRABALHO

(9) Só estuda (10) Estuda e trabalha

Presencial EaD Presencial EaD

48,3 37,0 48,3 38,7


Fonte: Elaboração do autor, com base em Microdados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira
(Inep) (Ministério da Educação, 2019).
Cad. Pesqui., São Paulo, v.51, e06958, 2021

* SM: salário mínimo.

Nos casos dos cursos de Administração e Pedagogia, a superioridade de desempenho dos


estudantes da modalidade presencial também ocorre. Porém, as diferenças das médias entre as
modalidades de ensino nos subgrupos de background são inferiores às observadas no curso de Serviço
Social. Os concluintes de Administração apresentaram desempenho 5,1 pontos superior aos da
Julio Cesar Godoy Bertolin

modalidade a distância, e os dos cursos de Pedagogia, 3,7 pontos superior. Não obstante, em ambos
os casos, em todas as dez comparações realizadas para cada conjunto de cursos, os estudantes de
ensino presencial obtiveram médias no componente específico do exame superiores às médias dos que
frequentaram cursos EaD. Apenas numa comparação do curso de Pedagogia a diferença de performance
entre os estudantes das diferentes modalidades não apresentou significância estatística, apesar de, ainda
assim, em termos de valor absoluto ser superior. Trata-se da comparação do subgrupo que frequentou
11
rede escolar privada no ensino médio, considerado de background alto. Nesse subgrupo, os concluintes
EXISTE DIFERENÇA DE QUALIDADE ENTRE AS MODALIDADES PRESENCIAL E A DISTÂNCIA?

de Pedagogia da modalidade presencial ficaram com média 46,5, e os da modalidade EaD, com 46,0.
Não obstante, considerando as 30 comparações realizadas no conjunto das três carreiras/profissões
de cursos analisadas, em 29 casos a performance dos estudantes da modalidade presencial foi
significativamente superior à dos estudantes da EaD.
Para além da diferença significativa entre as modalidades dentro dos subgrupos de background
encontrada no estudo, os dados revelaram outra condição de diferença de desempenho importante.
Como demonstrado anteriormente, a performance dos estudantes tende a estar correlacionada de
forma mais visível ao background do que a outros fatores condicionantes. No caso das comparações
realizadas, entretanto, o fator modalidade de ensino se revelou forte o suficiente para superar o capital
cultural. A análise dos dados demonstrou que, não raro, estudantes com menor nível socioeconômico
que frequentam a modalidade presencial conseguem obter melhores notas no componente específico
do que aqueles com maior nível socioeconômico que estudaram na modalidade EaD (Tabela 2).

TABELA 2
COMPARAÇÃO DAS MÉDIAS DAS NOTAS NO COMPONENTE ESPECÍFICO DOS CONCLUINTES ENTRE AS
MODALIDADES PRESENCIAL E EAD CONTRASTADAS POR SUBGRUPOS DE BACKGROUND DISTINTOS –
CURSOS DE ADMINISTRAÇÃO (ENADE 2015), SERVIÇO SOCIAL (ENADE 2016) E PEDAGOGIA (ENADE 2017)
CURSOS
Subgrupo de background /
modalidade de ensino Administração Serviço Social Pedagogia

Negros e pardos / presencial 36,8 48,3 41,2

Brancos / EaD 33,7 39,6 39,7

3 SM ou menos / presencial 35,9 47,1 41,3

4,5 SM ou mais / EaD 35,6 42,4 46,3

Mãe sem estudo / presencial 35,1 44,8 38,9

Mãe com educação superior/


34,7 38,2 41,4
EaD

Escola pública / presencial 37,3 47,9 42,3

Escola privada / EaD 36,8 40,6 46,0

Estuda e trabalha / presencial 38,0 48,3 43,0

Só estuda / EaD 32,0 37,0 37,0

Fonte: Elaboração do autor, com base em microdados do Inep (Ministério da Educação, 2019).
Cad. Pesqui., São Paulo, v.51, e06958, 2021

Especialmente nos contextos dos cursos de Administração e Serviço Social, em todos os


aspectos socioeconômicos considerados – cor da pele, renda familiar, escolaridade da mãe e rede em
que frequentou o ensino médio e situação de trabalho –, constatou-se superioridade da influência da
modalidade de ensino, ou seja, nesses casos estudantes com background inferior do ensino presencial
superaram aqueles com background superior da modalidade EaD. Essa improvável possibilidade de
Julio Cesar Godoy Bertolin

estudantes de menor nível socioeconômico obterem melhor desempenho também foi observada nos
cursos de Pedagogia, porém, não em todos os aspectos analisados.
Dessa forma, considerando as teorias que destacam a importância do background e do capital
cultural no desempenho de estudantes em exames, bem como as comparações realizadas neste
trabalho e no estudo da organização Todos pela Educação entre as modalidades presencial e EaD no
Enade, que indicaram um desempenho superior dos estudantes que frequentaram ensino presencial,
12
independentemente de nível socioeconômico, torna-se plausível argumentar em favor da premissa de
EXISTE DIFERENÇA DE QUALIDADE ENTRE AS MODALIDADES PRESENCIAL E A DISTÂNCIA?

que a modalidade presencial tende a possibilitar melhores condições de aprendizagem.

Conclusão
O Brasil é um dos países social e economicamente mais desiguais do mundo. Para contribuir para a
superação desse cenário adverso e injusto, os sistemas educacionais, para além de proporcionar acesso
e ensino de qualidade para todos, precisariam ser capazes de compensar as perdas decorrentes das
diferenças de origem familiar e cultural dos estudantes. Porém, o que se observa, na maioria das vezes,
é exatamente o contrário. Na educação básica, famílias ricas matriculam suas crianças e seus jovens
nas melhores escolas, que são privadas, enquanto as crianças e os jovens pertencentes a contextos
de pobreza estudam em escolas públicas, que, frequentemente, possuem importantes deficiências.
Na educação superior, a qualidade troca de lugar; por isso, para os ingressantes com melhores condições
socioeconômicas, são as universidades federais estatais o destino provável, e, para muitos jovens de “meios
populares”, a alternativa praticamente se restringe a instituições privadas com fins de lucro, com limitações
acadêmicas. A iniquidade tem sido, assim, uma característica dos sistemas educacionais brasileiros.
Não obstante a emergência de políticas de ações afirmativas, como cotas e Prouni,
a educação superior brasileira ainda está longe de uma condição de democratização
adequada. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2017),
em 2014, apenas 5% dos filhos de pais sem instrução conseguiam concluir um curso de nível
superior. Já entre os filhos de pais graduados, 70% alcançavam um diploma de graduação.
Nesse sentido, estudo recente demonstrou que a educação superior brasileira tem apresentado
limitações para gerar mobilidade social (Mccowan & Bertolin, 2020). Logo, qualquer mudança
deveria vir de encontro a essa realidade de reprodução da desigualdade. A significativa expansão
da educação superior que vem ocorrendo por meio da modalidade a distância está noutro sentido.
Ela está induzindo muitos estudantes com menor nível de background a acessarem cursos de
modalidade e em instituições que podem ser classificados como de “segunda classe”.
Os resultados gerados pelo estudo apresentado nesse artigo permitem argumentar em favor
da possibilidade de a modalidade a distância apresentar condições inferiores para proporcionar
aprendizagem para os estudantes em relação à modalidade presencial. Por meio da necessária
desagregação dos estudantes por níveis socioeconômicos numa amostra dos três cursos com maior
quantidade de concluintes no ciclo 2015-2016-2017 do Enade – Administração, Serviço Social e
Pedagogia –, realizaram-se comparações de desempenho entre as modalidades presencial e EaD que
possibilitaram inferências relevantes. Dentro de subgrupos de background equivalentes, estudantes
que frequentaram cursos presenciais obtiveram desempenho significativamente superior aos
concluintes de cursos de EaD. Nas comparações entre subgrupos de background diferentes,
Cad. Pesqui., São Paulo, v.51, e06958, 2021

contrastando estudantes presenciais de menor nível socioeconômico com estudantes a distância


de maior nível socioeconômico, a performance dos primeiros foi além do esperado, visto que o fator
modalidade superou, na maioria dos casos, o fator background. Dessa forma, pode-se dizer que existe
diferença de qualidade – quando essa é entendida como sinônimo de desempenho em exames –
entre as modalidades presencial e EaD na educação superior brasileira.
Ao considerar que o perfil dos estudantes da modalidade EaD é de menor nível socioeconômico,
Julio Cesar Godoy Bertolin

completa-se o quadro de reprodução da desigualdade social presente no bojo do processo de expansão


privada da modalidade EaD. Especialmente nos cursos de formação inicial de professores (licenciaturas),
a expansão da EaD é preocupante. O fato de aqueles que cuidarão da formação básica e estruturante das
futuras gerações receberem formação inicial em cursos de menor qualidade é um evidente disparate.
Nesse sentido, está se estabelecendo um círculo vicioso, visto que crianças originárias de contextos de
dificuldade e carências terão como mestres aqueles que não receberam a melhor formação docente.
13
Portanto, não obstante o reconhecimento de que a EaD pode ser importante para a
EXISTE DIFERENÇA DE QUALIDADE ENTRE AS MODALIDADES PRESENCIAL E A DISTÂNCIA?

ampliação do acesso em locais específicos, as evidências da existência de dificuldades no processo de


ensino-aprendizagem da modalidade a distância não devem ser ignoradas. Afinal, enquanto a maior
parcela dos estudantes com trajetórias de vida marcadas por dificuldades e carências, exatamente aqueles
que mais precisam da presença do professor, estiver pagando instituições mercantis para aprender longe
dele em cursos de qualidade duvidosa, estaremos, como sociedade, reforçando e perpetuando injustiças
e, por conseguinte, caminhando na contramão da mobilidade e equidade social.

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Disponibilidade de dados
Os dados subjacentes ao texto da pesquisa estão informados no artigo.

Como citar este artigo


Bertolin, J. C. G. (2021). Existe diferença de qualidade entre as modalidades presencial e a distância? Cadernos de
Pesquisa, 51, Artigo e06958. [Link]

Cad. Pesqui., São Paulo, v.51, e06958, 2021


Julio Cesar Godoy Bertolin

Recebido em: 5 NOVEMBRO 2019 | Aprovado para publicação em: 29 SETEMBRO 2020

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