Sentença de Roubo Tentado em Almada
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arrancar-lhe aqueles artigos da sua mão e fazê-los seus, sem pagar o preço
correspondente.
5. Edilson Santos distribuidor de pizzas, por suspeitar do pedido, deslocou-
se à referida morada para confirmar se haviam feito o pedido.
6. Obtendo uma resposta negativa, dirigiu-se à Polícia de Segurança Pública
e pediu que o acompanhassem na entrega.
7. Os agentes da polícia elaboraram um plano para cercar o local da entrega
e deterem os suspeitos, o que lograram fazer.
8. Pelas 20:55 horas, Edilson Santos, distribuidor de pizzas daquele
restaurante, deslocou-se àquela morada para efectuar a entrega.
9. Conforme aquilo que combinaram entre si, os arguidos dirigiram-se para
a Avenida 25 de Abril e, quando Edilson Santos estacionou em frente à morada
indicada, partiram em sua direcção.
10. Os arguidos posicionaram-se à volta de Edilson Santos, em forma de
círculo, e referiram que eles haviam feito o pedido e que não iriam pagar.
11. Nesse momento, os arguidos deram conta da presença no local dos
Agentes da Polícia de Segurança Pública, Manuel Pereira, Luís Gaspar e Rogério
Prates, e fugiram, com excepção do arguido Carlos Saldanha que permaneceu no
local.
12. Encetada a perseguição, momentos depois, o arguido Nivaldo Moreira
foi interceptado pelo agente Manuel Pereira, o arguido Hélvio Fernandes foi
interceptado pelo agente Rogério Prates e o arguido Carlos Saldanha permaneceu
no local da entrega com o agente Luís Gaspar.
13. Após ser contactado por um dos arguidos, o arguido Kleiton Tavares
dirigiu- se à esquadra da PSP e identificou-se voluntariamente.
14. Os arguidos agiram em comunhão de esforços e intenções de acordo
com o que previamente combinaram entre si no intuito de se apropriar da
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*
C) Motivação:
O Tribunal fundou a sua convicção com base na avaliação e ponderação de
todos os meios de prova produzidos ou analisados em audiência, os quais foram
conjugados entre si, e ponderados com as regras de experiência comum.
Os arguidos Kleiton Tavares e Nivaldo Moreira não prestaram declarações,
pelo que o Tribunal não pôde contar com a sua versão dos factos para o
apuramento da verdade material.
Apesar de negar o seu envolvimento no ocorrido, dizendo não se ter
apercebido, no momento, da chamada efectuada para a Telepizza, nem da chegada
do ofendido Edilson, o arguido Carlos referiu terem sido os arguidos Kleiton e
Nivaldo a efectuar a encomenda, conforme por estes lhe foi dito, confirmando a
aleatoriedade da morada indicada e o facto de ter estado na companhia dos três
demais arguidos, no momento da prática dos factos.
O ofendido descreveu de forma credível o modo como foi abordado, tendo
contribuído para o apuramento da factualidade apurada.
Apesar de inicialmente começar por descrever outra situação, ocorrida
noutro local, tal vicissitude não descredibiliza o seu depoimento, atendendo ao
crescente número de situações idênticas vivenciadas, o qual é, igualmente, do
conhecimento oficioso do Tribunal.
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Tavares. Também resultou provado que o arguido Carlos Saldanha ficou no local
da entrega pelo que foi ali interceptado.
*
III. Enquadramento Jurídico:
Os arguidos vêm acusados da prática, em co-autoria, de um crime de roubo,
na forma tentada, p. e p. pelo artigo 210.º do Código Penal.
Nos termos do artigo 210.º n.º 1 do Código Penal é punido «quem com
ilegítima intenção de apropriação para si ou para outra pessoa, subtrair, ou constranger a que lhe
seja entregue, coisa móvel alheia, por meio de violência contra uma pessoa, de ameaça com perigo
iminente para a vida ou para a integridade física, ou pondo-a na impossibilidade de resistir».
Da análise do citado normativo, pode concluir-se pela complexidade do
crime em apreço, uma vez que se verifica que este, não obstante apresentar um
carácter uno, protege quer bens jurídicos do foro patrimonial, como bens jurídicos
pessoais, integrando na sua estrutura vários factos que podem constituir, em si
mesmos, outros crimes1.
De facto, a violência física, a ameaça com perigo iminente para a vida ou
para a integridade física ou a colocação da vítima na impossibilidade de resistir
constituem um mero meio de atingir a subtracção e impedir ou neutralizar a
reacção do visado, sendo o furto (no sentido de subtracção), nas palavras de Simas
Santos e Leal Henriques, o crime-fim do roubo.
Assim, da exegese da valência normativa resulta que os elementos tipo de
ilícito são os seguintes:
i) Subtracção de coisa móvel alheia ou constrangimento para a sua entrega;
ii) Através do exercício de violência contra uma pessoa, ameaça com perigo
iminente para a vida ou para a integridade física ou pondo-a na impossibilidade de
resistir.
1
Acórdão do STJ de 19 de Setembro de 1996, in [Link].
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primeiros não são puníveis (cfr. artigo 21.º do Código Penal) e, muitas vezes,
antecedem a realização dos segundos.
A doutrina e a jurisprudência têm apontado como critério diferenciador a
colocação ou não do bem jurídico protegido em perigo. Ou seja, quando um ato
cria
uma situação de perigo para um bem jurídico-penal já podemos considerar
que existe um ato de execução do tipo legal que protege esse bem. Se, pelo
contrário, o ato não criar qualquer situação de perigo, ele será meramente
preparatório.
Quanto a este tema, leia-se o seguinte excerto do Acórdão do Tribunal da
Relação do Porto, que refere que “(...), não chegando a consumar-se o crime,
suscita-se a questão do tratamento dos actos que ainda foram praticados no âmbito
da referida resolução criminosa. (...) Assim, o critério legal para a distinção entre
actos preparatórios e actos de execução é um critério objectivo: Os actos de
execução hão-de conter, em si mesmos, um momento de ilicitude, pois que ainda
que não produzam a lesão do bem jurídico tutelado pela norma incriminadora do
crime consumado produzem já uma situação de perigo para esse bem. E, é este
perigo objectivo - embora aparente causador de alarme e intranquilidade social que
possui aptidão bastante para fundamentar a punição do agente, ao contrário dos
actos preparatórios que, em regra, não possuem potencial lesivo, ou seja não
constituem um perigo objectivo, para o bem jurídico” (Ac. TRP de 11.04.2018,
Processo n.º 216/16.8GBFLG.P1, disponível em [Link]).
Feita a distinção, centremo-nos no tipo de actos de execução previstos na lei.
O n.º 2 do artigo 22.º do Código Penal divide os actos de execução em três grupos:
a) Os que preencherem um elemento constitutivo de um tipo de crime; b) Os que
forem idóneos a produzir o resultado típico; ou c) Os que, segundo a experiência
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2
Jorge Figueiredo Dias, “Questões fundamentais – A doutrina geral do crime”, parte geral, tomo I pág. 705 e ss.
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3
ALBUQUERQUE, Paulo Pinto de, “Comentário do Código Penal à luz da Constituição da República e da
Convenção Europeia dos Direitos do Homem”, Universidade Católica Editora, 3ª edição actualizada, 2015. pp.
193 e 194
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que da atenuação resultem vantagens para a reinserção social do jovem condenado» (cfr. artigo
4.º).
Como referido no douto acórdão da Relação de Lisboa de 30 de Novembro
de 20034, «o legislador não consagrou o regime das disposições especiais para jovens, mas acolheu
o ensinamento de outros ramos do saber que explicam que na adolescência e no início da idade
adulta, os jovens adaptam-se ou não, melhor ou pior, em maior ou menor grau, às várias
transformações que vivenciam. Neste ciclo de vida, não raramente, os jovens enveredam por
condutas ilícitas, mas em regra a criminalidade é um fenómeno efémero e transitório»5.
Por esse motivo, tendo em conta o carácter transitório da delinquência
juvenil, incumbe ao julgador, na esteira do pretendido pelo legislador, evitar a
estigmatização, o que só se consegue com o afastamento, na medida do possível, da
aplicação da pena de prisão.
O regime jurídico para jovens delinquentes foi pensado tendo em vista uma
realidade que tem um campo privilegiado de aplicação nas situações em que o
cometimento do crime constituiu um episódio isolado, uma situação pontual, na
vida do jovem, não sendo desejável que este fique imediatamente marcado com a
inevitabilidade do cumprimento de uma pena longa de prisão que pode tolher-lhe a
própria reinserção, finalidade importante ou mesmo primordial da pena.
Não bastando, como já se referiu, considerar a idade dos arguidos para
efeitos de aplicação do regime especial aludido, importa agora aferir da existência
de elementos objectivos e fundamentados que permitam concluir que a atenuação
especial da pena irá facilitar o processo de reinserção social que a própria pena visa.
4
in [Link]
5
Como referem Norman A. Sprinthall e W. Andrews Collins, “Psicologia do Adolescente, uma abordagem
desenvolvimentista”, 1994, pág. 501, «(...) cerca de 80% dos adolescentes, uma vez por outra, participam em
actos levemente anti-sociais (...) aproximadamente 15% dos adolescentes tomam parte repetidamente em graves
actos anti-sociais, mas só um terço destes entra na criminalidade séria, semelhante a que se pode encontrar em
certos adultos.»
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6
in “Jornadas do CEJ - Pressupostos da Punição”, pág. 47
7
“Direito Penal Português – As consequências jurídicas do crime”, 1993, pág. 215.
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da liberdade aplicável, excepto se a execução da prisão for exigida pela necessidade de prevenir o
cometimento de futuros crimes. É correspondentemente aplicável o disposto no artigo 47.º ».
Assim, em conformidade, não resultando dos autos que a execução da prisão
é exigida para prevenir o cometimento de novos crimes, entendo que, no caso sub
judice, é de substituir a pena de prisão aplicada aos arguidos Carlos e Hélvio por
igual número de dias (120), em conformidade com o regime-regra consagrado no
artigo 45.º do Código Penal.
Sobre a fixação da razão diária dispõe o artigo 47.º, n.º 2 do Código Penal:
«cada dia de multa corresponde a uma quantia entre €. 5 e €. 500, que o tribunal fixa em função
da situação económica e financeira do condenado e dos seus encargos pessoais».
A amplitude estabelecida neste preceito quanto ao quantitativo diário da
multa tem na base «a ideia de dar realização, também quanto à pena de multa, ao princípio da
igualdade de ónus e sacrifícios, esfumando-se deste modo o maior inconveniente que se tem
apontado a esta pena – o seu peso desigual para pobres e ricos»8.
O montante diário da pena de multa deve ser fixado em termos de tal sanção
representar um sacrifício real para o condenado, devendo o Tribunal, por outro
lado, assegurar ao condenado um mínimo de rendimento para que ele possa fazer
face às suas despesas.
Pelo exposto, decido condenar os arguidos Hélvio Fernandes e Carlos
Saldanha pela prática de um crime de roubo na forma tentada, em co-autoria, p. e
p. pelo artigo 210.º, n.º 1 e 22.º, do Código Penal, na pena de quatro meses de
prisão, substituída por igual número de dias de multa, à taxa diária de € 6 (seis
euros), no total de 720 €.
Quanto aos arguidos Nivaldo e Kleiton, o Tribunal entende afastar a
aplicação do citado preceito, por se mostrar mais benéfico para a reinserção dos
jovens a aplicação de uma pena cuja execução seja acompanhada pelos serviços de
8
Maia Gonçalves, ob. cit., pág. 195.
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formação nos termos das quais os arguidos possam vir a criar empatia com as
vítimas e a consciencializar-se da gravidade das suas condutas, bem como a reforçar
as competências sociais e profissionais dos arguidos.
No que respeita às custas, atenta a natureza da matéria e as diligências
efectuadas, vai cada um dos arguidos condenado em taxa de justiça que se fixa em 2
½ UC’s.
*
V. Decisão
Nestes termos e pelo exposto, atendendo às considerações expendidas e
normas legais aplicáveis, decido:
a) Condenar o arguido Carlos Alexandre Girão Saldanha pela prática, em
co-autoria, de um crime de roubo na forma tentada, p. p. nos termos dos artigos
22.°, n.°s 1 e 2, al. c), 23.° e 210.°, n.° 1, todos do Código Penal, na pena de quatro
meses de prisão, substituída por pena de multa de 120 (cento e vinte) dias, à taxa
diária de €6,00 (seis euros), perfazendo o total de €720,00 (setecentos e vinte
euros).
b) Condenar o arguido Hélvio André Tavares Fernandes pela prática, em
co-autoria, de um crime de roubo na forma tentada, p. p. nos termos dos artigos
22.°, n.°s 1 e 2, al. c), 23.° e 210.°, n.° 1, todos do Código Penal, na pena de quatro
meses de prisão, substituída por pena de multa de 120 (cento e vinte) dias à taxa
diária de €6,00 (seis euros), perfazendo o total de €720,00 (setecentos e vinte
euros).
c) Condenar o arguido Kleiton Júnior da Graça Tavares pela prática, em
co-autoria, de um crime de roubo na forma tentada, p. p. nos termos dos artigos
22.°, n.°s 1 e 2, al. c), 23.° e 210.°, n.° 1, todos do Código Penal, na pena de seis
meses de prisão suspensa na sua execução pelo período de 1 (um) ano
acompanhada de regime de prova.
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