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Sentença de Roubo Tentado em Almada

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Helvio Fernandes
Direitos autorais
© All Rights Reserved
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Assinado em 03-02-2022, por

Ana Marques Proença, Juiz de Direito

Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa


Juízo Local Criminal de Almada - Juiz 1
Palácio da Justiça, Rua Marcos Assunção
2809-015 Almada
Telef: 212721500 Fax: 212739469 Mail: [Link]@[Link]

Referência:412712489 Processo Comum (Tribunal Singular) 53/20.5PEALM


Data: !AssinaturaData!

Processo n.º 53/20.5PEALM


*
SENTENÇA
*
I. Relatório:
O Ministério Público deduziu acusação, em processo comum, com
intervenção do tribunal singular, contra:
Nivaldo Mendes Moreira, filho de Isaurinda Mendes Moreira e de Raimundo
Rosa Mendes Moreira, natural de França, nacional de Cabo Verde, nascido em
13.08.2001, solteiro, operador de call center, residente na Rua Miradouro da Alfazina, 77,
n.° 13, 6.° Esq.°, Monte de Caparica, na Caparica;
Carlos Alexandre Girão Saldanha, filho de António Soares Saldanha e de Emília
da Conceição Girão, natural de Angola, nacional de Portugal, nascido em 11.11.2002,
solteiro, estudante, residente na Rua l.° de Maio, n.° 17 D, em Porto Brandão, na
Caparica;
Kleiton Júnior da Graça Tavares, filho de Arlindo Sanches Tavares e de Sueli
Simone da Graça Mota/natural e nacional de Cabo Verde, nascido em 29.6.2000, solteiro,
empregado de copa, residente na Rua Amadeu de Sousa Cardoso, n.° 7, R/C H, no Feijó;
Hélvio André Tavares Fernandes, filho de José André Varela Fernandes e de
Aleida Cristina Neves Tavares, natural do Pragal, em Almada, nascido em 07.07.2002,
solteiro, residente na Rua dos Espatários, n.º 21, RC/C Esq.º, Almada;
Imputando-lhes a prática, em co-autoria, de um crime de roubo na forma
tentada, p. e p. pelo artigo 210.º, n.º 1, 22.°, n.°s 1 e 2, al. c), 23.° do Código Penal.
*
Os arguidos não apresentaram contestação.

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Proferido o despacho que recebeu a acusação e designou data para


julgamento, não ocorreram quaisquer nulidades, incidentes ou questões prévias que
obstem à apreciação do mérito da causa.
Realizou-se a audiência de discussão e julgamento com observância do
formalismo legal.
Em sede de audiência de julgamento, comunicou-se à defesa a possibilidade
de se proceder a uma alteração não substancial dos factos constantes da acusação,
ponderando-se que o facto constante do ponto 6) tenha a seguinte redacção:
“Conforme aquilo que combinaram entre si, os arguidos dirigiram-se para a Avenida 25
de Abril e, quando Edilson Santos estacionou em frente à morada indicada em 2), partiram em
sua direcção”.
Tal alteração foi comunicada nos termos e para os efeitos do disposto no
artigo 358.º, n.º 1 do Código de Processo Penal, nada tendo sido requerido.
*
II. Fundamentação:
A) Matéria de Facto Provada
Da discussão da causa, resultaram provados os seguintes factos com
interesse para a causa:
1. De acordo com o que planearam entre si, no dia 17 de Setembro de
2020, pelas 20h35min, os arguidos telefonaram para o restaurante Telepizza, sito na
Rua D. Sancho I, n.° 1, em Almada, e fizeram uma encomenda de três pizzas
médias, uma bebida e uma sobremesa, no valor total de €37,55.
2. Solicitaram a entrega da encomenda na morada sita na Avenida 25 de
Abril, n.° 41. 5.° Dt.°, em Almada, e combinaram hora de entrega da encomenda.
3. Os arguidos não se encontravam na morada pelos mesmos indicada.
4. Pretendiam surpreender o distribuidor de pizzas quando o mesmo
chegasse ao local e, sem que o mesmo se pudesse defender, surpreendê-lo e

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arrancar-lhe aqueles artigos da sua mão e fazê-los seus, sem pagar o preço
correspondente.
5. Edilson Santos distribuidor de pizzas, por suspeitar do pedido, deslocou-
se à referida morada para confirmar se haviam feito o pedido.
6. Obtendo uma resposta negativa, dirigiu-se à Polícia de Segurança Pública
e pediu que o acompanhassem na entrega.
7. Os agentes da polícia elaboraram um plano para cercar o local da entrega
e deterem os suspeitos, o que lograram fazer.
8. Pelas 20:55 horas, Edilson Santos, distribuidor de pizzas daquele
restaurante, deslocou-se àquela morada para efectuar a entrega.
9. Conforme aquilo que combinaram entre si, os arguidos dirigiram-se para
a Avenida 25 de Abril e, quando Edilson Santos estacionou em frente à morada
indicada, partiram em sua direcção.
10. Os arguidos posicionaram-se à volta de Edilson Santos, em forma de
círculo, e referiram que eles haviam feito o pedido e que não iriam pagar.
11. Nesse momento, os arguidos deram conta da presença no local dos
Agentes da Polícia de Segurança Pública, Manuel Pereira, Luís Gaspar e Rogério
Prates, e fugiram, com excepção do arguido Carlos Saldanha que permaneceu no
local.
12. Encetada a perseguição, momentos depois, o arguido Nivaldo Moreira
foi interceptado pelo agente Manuel Pereira, o arguido Hélvio Fernandes foi
interceptado pelo agente Rogério Prates e o arguido Carlos Saldanha permaneceu
no local da entrega com o agente Luís Gaspar.
13. Após ser contactado por um dos arguidos, o arguido Kleiton Tavares
dirigiu- se à esquadra da PSP e identificou-se voluntariamente.
14. Os arguidos agiram em comunhão de esforços e intenções de acordo
com o que previamente combinaram entre si no intuito de se apropriar da

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encomenda que realizaram à Telepizza, sem proceder ao respectivo pagamento,


bem sabendo que não lhes pertencia e que agiam contra a vontade do proprietário.
15. Para o efeito, pretendiam colocar Edilson Santos na impossibilidade de
se defender, beneficiando da sua superioridade numérica e fazendo-o crer que,
sendo necessário, podiam atentar contra a sua integridade física.
16. Agiram livre, deliberada e conscientemente, sabendo ser a sua conduta
proibida e punida legalmente.
17. Os arguidos Hélvio Fernandes e Carlos Saldanha não têm antecedentes
criminais.
18. O arguido Nivaldo Moreira tem antecedentes criminais:
a) O arguido foi condenado por decisão de 07.08.2020, transitada em
30.09.2020, pela prática, em 07.08.2020, de um furto na forma tentada, na pena de
multa de 50 dias, à taxa diária de €5,00, perfazendo o total de €250,00.
19. O arguido Kleiton Tavares tem antecedentes criminais:
a) O arguido foi condenado por decisão de 19.01.2021, transitada em
06.05.2021 pela prática, em 30.01.2021, de um crime de roubo na forma tentada, na
pena de prisão de 9 meses suspensa na sua execução por 1 ano.
b) O arguido foi condenado por decisão de 06.09.2021, transitada em
18.10.2021 pela prática, em 25.05.2021, de um crime condução sem habilitação
legal, na pena de multa de 90 dias à taxa diária de €5,00, perfazendo o total de
400,00.
20. O arguido Carlos está a frequentar o 12.º e vive com os pais, que
suportam as despesas do agregado.
*
B) Matéria de Facto Não Provada:
Não resultaram provados quaisquer outros factos com interesse para a
decisão da causa, designadamente não se provou que:

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A. Nas circunstâncias descritas em 11), os arguidos se encontravam na iminência


de arrancar a encomenda das mãos de Edilson Santos.
B. O arguido Nivaldo Moreira foi interceptado na Rua Liberato Teles, o arguido
Hélvio Fernandes e o arguido Carlos Saldanha foram interceptados na Rua Comandante
António Feio.
C. Nas circunstâncias descritas em 13), foi o arguido Nivaldo Moreira a contactar
o arguido Kleiton Tavares

*
C) Motivação:
O Tribunal fundou a sua convicção com base na avaliação e ponderação de
todos os meios de prova produzidos ou analisados em audiência, os quais foram
conjugados entre si, e ponderados com as regras de experiência comum.
Os arguidos Kleiton Tavares e Nivaldo Moreira não prestaram declarações,
pelo que o Tribunal não pôde contar com a sua versão dos factos para o
apuramento da verdade material.
Apesar de negar o seu envolvimento no ocorrido, dizendo não se ter
apercebido, no momento, da chamada efectuada para a Telepizza, nem da chegada
do ofendido Edilson, o arguido Carlos referiu terem sido os arguidos Kleiton e
Nivaldo a efectuar a encomenda, conforme por estes lhe foi dito, confirmando a
aleatoriedade da morada indicada e o facto de ter estado na companhia dos três
demais arguidos, no momento da prática dos factos.
O ofendido descreveu de forma credível o modo como foi abordado, tendo
contribuído para o apuramento da factualidade apurada.
Apesar de inicialmente começar por descrever outra situação, ocorrida
noutro local, tal vicissitude não descredibiliza o seu depoimento, atendendo ao
crescente número de situações idênticas vivenciadas, o qual é, igualmente, do
conhecimento oficioso do Tribunal.

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Assim, quanto à situação em análise, mostraram-se as declarações do


ofendido isentas e objectivas, tendo descrito as diligências que efectuou para
verificar se o pedido recebido era verídico e para se proteger de um possível assalto.
O ofendido descreveu o modo como foi cercado pelos arguidos, bem como
as expressões por este dirigidas, tendo tal depoimento sido corroborado pelos
agentes da PSP que presenciaram os factos.
De facto, os agentes Luís Gaspar e Rogério Prates relataram a forma como
os arguidos se aproximaram do ofendido, tendo referido que os quatro o fizeram
em conjunto, cercando o ofendido, rodeando a mota do mesmo, com uma postura
agitada, esbracejando e gesticulando.
Mais referiram que quando o ofendido chegou, os arguidos estavam
escondidos na esquina do prédio, tendo-se aproximado quando o ofendido
estacionou, salientando ainda que o arguido Kleiton Tavares não foi interceptado
no local, tendo vindo a apresentar-se posteriormente na esquadra após ser
contactado por um dos arguidos.
O Tribunal procedeu à alteração não substancial do facto constante do
ponto 6) da acusação [9) da factualidade dada como provada], pois resultou do
depoimento do ofendido e das testemunhas supra aludidas que os arguidos o
abordaram quando aquele estacionou a mota em frente ao prédio, em que
supostamente seria realizada a entrega.
Os aludidos agentes e a testemunha Manuel Pereira relataram o modo como
procederam à abordagem aos arguidos, apesar de não terem indicado o local
preciso onde tal sucedeu, razão pela qual, nesse particular, foi tal factualidade dada
como não provada.
O Tribunal atendeu ainda ao auto de denúncia de fls. 3 a 7, quanto às
circunstâncias de tempo e lugar.

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O elemento subjectivo do tipo resultou da concatenação entre a matéria de


facto objectiva e as regras da experiência comum.
No que respeita à existência de um plano conjunto entre os arguidos, o
Tribunal considerou estes factos provados com base no depoimento do ofendido e
das testemunhas, que descreveram a forma como os arguidos agiram em
conjugação de esforços, revelada quer quando se esconderam antes da chegada do
distribuidor, como posteriormente, ao rodeá-lo, sendo que todos o fizeram em
conjunto, assumindo um papel crucial na concretização do plano.
Com efeito, da própria concatenação da matéria de facto objectiva e das
regras da experiência comum se pode inferir que os arguidos agiram segundo um
plano previamente traçado entre todos, ficando claro que agiram concertados entre
si, com o objectivo de se apoderarem dos produtos encomendados sem proceder
ao pagamento dos mesmos.
As condições pessoais do arguido Carlos Saldanha foram descritas pelo
mesmo em audiência de julgamento.
A ausência de antecedentes criminais dos arguidos Hélvio Fernandes e
Carlos Saldanha e os antecedentes criminais dos arguidos Nivaldo Moreira e
Kleiton Tavares resultam dos certificados de registo criminal juntos aos autos.
Relativamente à factualidade dada como não provada, o Tribunal considerou
o facto constante da alínea A como não provado com base no depoimento do
ofendido, que referiu que trazia as pizzas na mala, que havia trancado e que não
houve tempo de as retirar, uma vez que assim que foi cercado pelos arguidos os
agentes intervieram.
Os factos B e C não resultaram provados na medida em que não foram
concretizados, pelas testemunhas, os nomes das ruas em que os arguidos teriam
sido interceptados nem qual teria sido o arguido a contactar o arguido Kleiton

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Tavares. Também resultou provado que o arguido Carlos Saldanha ficou no local
da entrega pelo que foi ali interceptado.
*
III. Enquadramento Jurídico:
Os arguidos vêm acusados da prática, em co-autoria, de um crime de roubo,
na forma tentada, p. e p. pelo artigo 210.º do Código Penal.
Nos termos do artigo 210.º n.º 1 do Código Penal é punido «quem com
ilegítima intenção de apropriação para si ou para outra pessoa, subtrair, ou constranger a que lhe
seja entregue, coisa móvel alheia, por meio de violência contra uma pessoa, de ameaça com perigo
iminente para a vida ou para a integridade física, ou pondo-a na impossibilidade de resistir».
Da análise do citado normativo, pode concluir-se pela complexidade do
crime em apreço, uma vez que se verifica que este, não obstante apresentar um
carácter uno, protege quer bens jurídicos do foro patrimonial, como bens jurídicos
pessoais, integrando na sua estrutura vários factos que podem constituir, em si
mesmos, outros crimes1.
De facto, a violência física, a ameaça com perigo iminente para a vida ou
para a integridade física ou a colocação da vítima na impossibilidade de resistir
constituem um mero meio de atingir a subtracção e impedir ou neutralizar a
reacção do visado, sendo o furto (no sentido de subtracção), nas palavras de Simas
Santos e Leal Henriques, o crime-fim do roubo.
Assim, da exegese da valência normativa resulta que os elementos tipo de
ilícito são os seguintes:
i) Subtracção de coisa móvel alheia ou constrangimento para a sua entrega;
ii) Através do exercício de violência contra uma pessoa, ameaça com perigo
iminente para a vida ou para a integridade física ou pondo-a na impossibilidade de
resistir.

1
Acórdão do STJ de 19 de Setembro de 1996, in [Link].

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Por subtracção de coisa móvel alheia deve entender-se a passagem da coisa


móvel da esfera do domínio do seu detentor para uma nova esfera de domínio,
contra a vontade daquele.
Já constranger significa coagir, obrigar, pressionar o detentor da coisa a
entregar-lha, afectando-se, desta forma, a liberdade do coagido.
O objecto do crime de roubo é sempre uma coisa móvel alheia, ou seja uma
coisa corpórea, material, susceptível de apreensão, pertencente a outra pessoa que
não o agente, e que tenha um valor qualquer, mas juridicamente relevante.
De acordo com o preceito legal, os meios para a subtracção de coisa móvel
alheia ou para o constrangimento à sua entrega estão especificados no tipo:
- A violência contra uma pessoa,
- A ameaça com perigo iminente para a vida ou para a integridade física,
- Ou a colocação da vitima na impossibilidade de resistir.
No que se refere à violência, importa adiantar que esta põe em causa a
liberdade da pessoa e a integridade física do ofendido, tendo de ser exercida contra
pessoas e não contra coisas (a menos que a violência exercida directamente contra
coisas atinja por via indirecta as pessoas).
Pode, assim, afirmar-se que o crime de roubo só existe se houver violência
contra a pessoa, sendo certo que essa violência, de acordo com o actual texto da lei,
não pressupõe formas taxativas e específicas de manifestação, podendo ser física
(emprego de força sobre o corpo da vítima, com ou sem lesão corporal), ou moral
(se e enquanto estritamente indispensável à consumação do delito).
E quer se trate de violência física ou de violência moral, não se exige que
tenha certa intensidade, bastando que seja suficiente para que o agente se apodere
do bem, mesmo que a vítima não esgote a sua capacidade de resistência.
Sendo o crime de roubo um crime de dano e de resultado, é assim necessário
que se verifique um nexo de imputação entre o conseguir a coisa móvel alheia e os

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meios utilizados, e que, esses mesmos meios, tenham provocado um efectivo


constrangimento à tolerância da sua subtracção.
De acrescentar ainda que se trata de um tipo doloso, pelo que o agente terá
de ter o conhecimento correcto da factualidade típica, sob pena de não se
preencher o elemento intelectual do dolo.
Tal elemento intelectual apresenta duas vertentes: no que respeita à intenção
de apropriação, esta corresponde à vontade motivada do agente de se comportar
relativamente à coisa móvel, que sabe não ser sua, como seu proprietário,
manifestando, por um lado, a intenção de a integrar no seu património (ou em
património de terceiro), associada à intenção correlativa de desapropriar terceiro.
Quanto ao constrangimento à entrega de coisa móvel alheia, bem como aos
meios usados para esse constrangimento à entrega ou à subtracção, o agente terá de
representar o resultado lesivo da sua conduta, pelo menos a título eventual.
Com efeito, para se apurar do elemento subjectivo da conduta do agente, é
suficiente que este esteja consciente de que a violência ou a ameaça é adequada a
constranger a vítima à tolerância da subtracção do bem, conformando-se com tal
resultado.
Estando os arguidos acusados da prática de um ilícito criminal na forma
tentada, importa esclarecer o que é que configura uma tentativa e a forma como
esta é punida pela lei penal.
O artigo 22.º, n.º 1 do Código Penal determina que “há tentativa quando o
agente praticar atos de execução de um crime que decidiu cometer, sem que este
chegue a consumar-se”.
Assim, importa esclarecer desde logo o que são atos de execução e, de
seguida, em que momento se consuma o crime de roubo.
Quando se pretende esclarecer o que são atos de execução é sempre
necessário distinguir entre atos preparatórios e atos de execução, já que os

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primeiros não são puníveis (cfr. artigo 21.º do Código Penal) e, muitas vezes,
antecedem a realização dos segundos.
A doutrina e a jurisprudência têm apontado como critério diferenciador a
colocação ou não do bem jurídico protegido em perigo. Ou seja, quando um ato
cria
uma situação de perigo para um bem jurídico-penal já podemos considerar
que existe um ato de execução do tipo legal que protege esse bem. Se, pelo
contrário, o ato não criar qualquer situação de perigo, ele será meramente
preparatório.
Quanto a este tema, leia-se o seguinte excerto do Acórdão do Tribunal da
Relação do Porto, que refere que “(...), não chegando a consumar-se o crime,
suscita-se a questão do tratamento dos actos que ainda foram praticados no âmbito
da referida resolução criminosa. (...) Assim, o critério legal para a distinção entre
actos preparatórios e actos de execução é um critério objectivo: Os actos de
execução hão-de conter, em si mesmos, um momento de ilicitude, pois que ainda
que não produzam a lesão do bem jurídico tutelado pela norma incriminadora do
crime consumado produzem já uma situação de perigo para esse bem. E, é este
perigo objectivo - embora aparente causador de alarme e intranquilidade social que
possui aptidão bastante para fundamentar a punição do agente, ao contrário dos
actos preparatórios que, em regra, não possuem potencial lesivo, ou seja não
constituem um perigo objectivo, para o bem jurídico” (Ac. TRP de 11.04.2018,
Processo n.º 216/16.8GBFLG.P1, disponível em [Link]).
Feita a distinção, centremo-nos no tipo de actos de execução previstos na lei.
O n.º 2 do artigo 22.º do Código Penal divide os actos de execução em três grupos:
a) Os que preencherem um elemento constitutivo de um tipo de crime; b) Os que
forem idóneos a produzir o resultado típico; ou c) Os que, segundo a experiência

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comum e salvo circunstâncias imprevisíveis, forem de natureza a fazer esperar que


se lhes sigam actos das espécies indicadas nas alíneas anteriores.
Verificada a existência de actos de execução, estaremos perante uma
tentativa. A tentativa apenas é punida se ao crime consumado corresponder pena
superior a três anos de prisão ou se a lei expressamente o disser (cfr. artigo 23.º n.º
1 do Código Penal).
No caso em análise, provou-se que no dia 17 de Setembro de 2020, os
arguidos levaram a cabo um plano de fazer uma encomenda na Telepizza e de
abordarem o distribuidor, no momento da entrega, com o objectivo de se
apoderarem dos produtos que aquele trazia consigo.
Na concretização deste plano, os arguidos cercaram o ofendido, tentando
coagi-lo a entregar os produtos encomendados, através do uso da intimidação, por
estarem em vantagem numérica.
Entendo que o comportamento dos arguidos se enquadra na alínea c) do n.º
2 do artigo 22.º do Código Penal, de onde resulta que são actos de execução os que,
segundo a experiência comum e salvo circunstâncias imprevisíveis, forem de
natureza a esperar que se lhes sigam actos das espécies indicadas nas alíneas
anteriores, ou seja, actos que preencham um elemento constitutivo de um tipo de
crime ou que fossem idóneos a produzir o resultado típico.
Diz-se a este propósito que esta alínea c) do n.º 2 do artigo 22.° exige que o
acto em causa anteceda imediatamente, sem solução de (des)continuidade
substancial e temporal, o acto cabido nas als. a) ou b) do mesmo artigo, o que
ocorreria quando existisse uma conexão de perigo típico entre o acto cabível na al.
c) e um dos actos das alíneas antecedentes.
Por sua vez, a conexão de perigo ocorreria quando, segundo o lapso
temporal e o sentido dos actos, houvesse uma relação de iminente implicação entre
o último acto parcial e a realização típica, relevando especialmente a conexão

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temporal estreita. E a conexão típica ocorreria quando o acto parcial penetrasse já


no âmbito de protecção do tipo de crime em causa2.
In casu, não restam dúvidas de que os arguidos, ao encomendarem aqueles
produtos, ao se esconderem à espera do distribuidor e ao cercarem o ofendido, em
conjunto, assim que este estacionou, agiram no intuito de o constranger a entregar-
lhes os referidos bens, dos quais se queriam apoderar.
De acordo com as regras da experiência comum, era de se esperar que teriam
logrado tal intento através da intimidação numérica, pelo que parece claro que
existe a conexão de perigo na medida em que o lapso temporal e o sentido dos
actos estão numa relação de iminente implicação entre o último acto parcial
(intimidação numérica, rodeando o ofendido e referindo que não iriam pagar) e a
realização típica (a ameaça de que se não entregasse algo poderia acontecer-lhe ou
até mesmo a retirada à força dos produtos), relevando especialmente a conexão
temporal estreita.
Ainda assim, tal como ficou explicitado supra, os factos provados
demonstram que, face as condutas dos arguidos, se seguiriam outros actos
susceptíveis de preencherem um elemento constitutivo do crime de roubo.
Contudo, certo é que os arguidos não conseguiram a obtenção dos bens,
pois que este nunca saiu da esfera de domínio do seu proprietário uma vez que,
antes que pudessem forçar o ofendido a de facto entregar os bens, foram
surpreendidos pela presença dos agentes da PSP.
Quanto ao elemento subjectivo, ficou igualmente provado que os arguidos
sabiam que aqueles produtos alimentares não lhes pertenciam e que agiam contra a
vontade do seu legítimo proprietário ao tentarem deles se apropriar, mais sabendo
que pelo uso da intimidação, lhes seria possível obter a sua posse, a que,
efectivamente, recorreram para lograr tal fim.

2
Jorge Figueiredo Dias, “Questões fundamentais – A doutrina geral do crime”, parte geral, tomo I pág. 705 e ss.

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Assim, consubstanciando a conduta dos arguidos a prática de actos de


execução do crime de roubo, nos termos do artigo 22.º n.º 2 al. c) do Código Penal,
estamos perante uma tentativa punível, de acordo com o n.º 1 da mesma disposição
legal.
No que à co-autoria diz respeito cumpre fazer algumas considerações
adicionais.
A autoria está prevista no artigo 26.º do Código Penal, no qual se pode ler,
com relevância para o caso em questão, que “é punível como autor quem tomar parte
directa na sua [facto] execução, por acordo ou juntamento com outro ou outros(....).”
A co-autoria consiste na execução conjunta do facto por duas ou mais
pessoas, com base num acordo dos agentes sobre a divisão de tarefas com vista à
realização do facto. O acordo pode ser expresso ou tácito, desde que haja uma
consciência da colaboração, e pode verificar-se antes ou durante a execução do
facto3.
Na comparticipação criminosa sob a forma de co-autoria são assim
essenciais dois requisitos: uma decisão conjunta, tendo em vista um determinado
resultado, e uma execução igualmente conjunta.
Ou seja, a co-autoria envolve “um acordo prévio com vista à realização do facto,
acordo esse que pode ser expresso ou implícito, a inferir razoavelmente dos factos materiais
comprovados, ao qual se pode aderir inicial ou sucessivamente, não sendo imprescindível que o co-
autor tome parte na execução de todos os actos, mas que aqueles em que venha a participar sejam
essenciais à produção do resultado” - cfr. Ac. STJ de 05.06.2012, Proc. N.º
148/10.3SCLSB.L1.S1, disponível em [Link]).
Analisemos, então, se os arguidos tinham o domínio de todos os factos
ocorridos no dia 17 de Setembro de 2020.

3
ALBUQUERQUE, Paulo Pinto de, “Comentário do Código Penal à luz da Constituição da República e da
Convenção Europeia dos Direitos do Homem”, Universidade Católica Editora, 3ª edição actualizada, 2015. pp.
193 e 194

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Ficou provado que os arguidos agiram segundo um plano previamente


delineado, que abordaram o ofendido com a intenção de se apoderarem dos
produtos alimentares que haviam encomendado e que o ofendido trazia consigo,
que cercaram o ofendido de modo a intimidá-lo e a constrangê-lo à entrega do
referido bem e que não concretizaram tal plano por ter havido intervenção dos
agentes da PSP.
Todos os arguidos agiram da mesma forma, escondendo-se e posteriormente
rodeando o arguido de forma a intimidá-lo, tomando a mesma participação nos
factos.
Dúvidas não restam de que todos foram determinantes para a prossecução
do objectivo traçado em comum, conjugando os seu de forma a complementarem-
se e ser a actuação conjunta apta a concretizar o intento.
Fica, então, claro que os arguidos agiram em comunhão de esforços, tendo
cada um efectuado a sua tarefa dentro desse plano comum. Em consequência,
todos os arguidos realizaram actos de execução do crime de roubo, pelo que, a
tentativa da prática do mesmo, deverá ser-lhes imputada a todos.
Nestes termos, demonstra-se estarem preenchidos os elementos objectivos e
subjectivos do crime de roubo, na forma tentada, nos termos dos artigos 22.º, n.ºs 1
e 2 al. c) e 210.º do Código Penal.
*
Tendo os arguidos, à data da prática dos factos, idades entre os 17 e os 20
anos, importa atentar no Decreto-Lei n.º 401/82, de 23 de Setembro, que regula o
regime penal de jovens adultos, de idade compreendida entre os 16 e os 20 anos.
A maioria da doutrina e jurisprudência tem entendido que o regime especial
do diploma ora em análise não é de aplicação obrigatória e/ou automática, devendo
o tribunal ponderar a pertinência ou inconveniência da aplicação de tal regime,
considerando que o mesmo deve aplicar-se sempre que haja «sérias razões para crer

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que da atenuação resultem vantagens para a reinserção social do jovem condenado» (cfr. artigo
4.º).
Como referido no douto acórdão da Relação de Lisboa de 30 de Novembro
de 20034, «o legislador não consagrou o regime das disposições especiais para jovens, mas acolheu
o ensinamento de outros ramos do saber que explicam que na adolescência e no início da idade
adulta, os jovens adaptam-se ou não, melhor ou pior, em maior ou menor grau, às várias
transformações que vivenciam. Neste ciclo de vida, não raramente, os jovens enveredam por
condutas ilícitas, mas em regra a criminalidade é um fenómeno efémero e transitório»5.
Por esse motivo, tendo em conta o carácter transitório da delinquência
juvenil, incumbe ao julgador, na esteira do pretendido pelo legislador, evitar a
estigmatização, o que só se consegue com o afastamento, na medida do possível, da
aplicação da pena de prisão.
O regime jurídico para jovens delinquentes foi pensado tendo em vista uma
realidade que tem um campo privilegiado de aplicação nas situações em que o
cometimento do crime constituiu um episódio isolado, uma situação pontual, na
vida do jovem, não sendo desejável que este fique imediatamente marcado com a
inevitabilidade do cumprimento de uma pena longa de prisão que pode tolher-lhe a
própria reinserção, finalidade importante ou mesmo primordial da pena.
Não bastando, como já se referiu, considerar a idade dos arguidos para
efeitos de aplicação do regime especial aludido, importa agora aferir da existência
de elementos objectivos e fundamentados que permitam concluir que a atenuação
especial da pena irá facilitar o processo de reinserção social que a própria pena visa.

4
in [Link]
5
Como referem Norman A. Sprinthall e W. Andrews Collins, “Psicologia do Adolescente, uma abordagem
desenvolvimentista”, 1994, pág. 501, «(...) cerca de 80% dos adolescentes, uma vez por outra, participam em
actos levemente anti-sociais (...) aproximadamente 15% dos adolescentes tomam parte repetidamente em graves
actos anti-sociais, mas só um terço destes entra na criminalidade séria, semelhante a que se pode encontrar em
certos adultos.»

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No caso em apreço, importa salientar que os arguidos Hélvio e Carlos não


têm antecedentes criminais, podendo concluir-se que a presente situação tem
carácter pontual e isolado, pelo que pode concluir-se que a atenuação especial da
pena facilitará o processo de reinserção social.
Nestes termos, decido aplicar o regime especial para jovens aos arguidos
Hélvio e Carlos.
Quanto aos arguidos Nivaldo e Kleiton, não é possível entender os factos
em causa nos autos como um episódio isolado no percurso de vida dos mesmos,
tendo em conta as condenações averbadas nos seus certificados de registo criminal,
aqui valoradas como condutas posteriores ao facto, as quais traduzem uma postura
despreocupada e de indiferença perante as normas penais, obstando assim à
aplicação do regime previsto no DL n.º 401/82 por não se vislumbrar vantagens na
aplicação do mesmo para a ressocialização dos arguidos.
*
IV. Da medida concreta da pena
Feito pela forma supra descrita o enquadramento jurídico-penal da conduta
dos arguidos, importa agora determinar a natureza e medida da sanção a aplicar.
O Código Penal traça um sistema punitivo que se baseia no princípio basilar
de que as penas devem ser executadas com um sentido pedagógico e
ressocializador.
As finalidades das penas estão previstas no artigo 40.º do referido diploma
legal e visam, por um lado, proteger bens jurídicos (prevenção geral e especial) e,
por outro, reintegrar socialmente o agente.
Assim, devem ser tidas em consideração as exigências de prevenção que no
caso se façam sentir, incluindo-se as exigências de prevenção geral – que visam o
restabelecimento da paz jurídica comunitária abalada pelo crime, na medida do
indispensável para estabilizar as expectativas comunitárias na validade da norma

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violada – e aquelas de prevenção especial – que visam tanto a reintegração do


arguido na sociedade, como o evitar a prática de novos crimes, impondo-se, assim,
a consideração da conduta e personalidade do agente.
A determinação da medida concreta da pena será efectuada segundo os
critérios consignados no artigo 71.º do Código Penal. Este dispositivo impõe o
entendimento de que o julgador se encontra limitado pela exigência do respeito
pela dignidade da pessoa humana, pelas exigências de prevenção e que toda a pena
tem de ter como suporte axiológico-normativo uma culpa concreta.
Segundo Figueiredo Dias o poder punitivo do Estado exerce-se
«primariamente no sentido do controlo do crime; ou vistas as coisas do outro lado, no sentido da
protecção das condições essenciais da vida do homem na comunidade e, assim, de livre realização e
desenvolvimento da personalidade de cada um»6.
Defende ainda o insigne penalista que «através do requisito de que sejam levadas em
conta as exigências de prevenção, dá-se lugar à necessidade comunitária da punição do caso concreto
e, consequentemente, à realização in casu das finalidades da pena. Através do requisito de que seja
tomada em consideração a culpa do agente, dá-se tradução à exigência de que a vertente pessoal do
crime – ligada ao mandamento incondicional de respeito pela eminente dignidade da pessoa do
agente – limite de forma inultrapassável as exigências de prevenção»7.
O crime de roubo é punido com pena de prisão de um a oito anos (cfr.
artigo 210.º n.º 1 do Código Penal), que, por se tratar de tentativa, será
especialmente atenuada nos termos do artigo 23.º, n.º 2 do Código Penal.
Pelo que a moldura penal prevista para o crime cometido (atenuada, por
força do disposto no artigo 73.º, alíneas a) e b) do Código Penal) é de um mês a
cinco anos e quatro meses de prisão.

6
in “Jornadas do CEJ - Pressupostos da Punição”, pág. 47
7
“Direito Penal Português – As consequências jurídicas do crime”, 1993, pág. 215.

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É importante atentar ainda que, relativamente aos arguidos Hélvio


Fernandes e Carlos Saldanha, existe outra causa de atenuação da pena que deriva da
aplicação do Regime Penal Aplicável a Jovens Delinquentes (DL n.º 401/82, de 23
de Setembro).
Perfilam-se, assim, duas circunstâncias que, no caso concreto, implicam uma
atenuação especial da pena.
A duplicação do efeito atenuante não é legalmente admissível quando a
mesma circunstância determina a atenuação especial por força de duas disposições
diferentes, uma de carácter geral (decorrente da aplicação da cláusula geral do artigo
72.º) e outra especial (determinada por uma norma quer da parte geral, quer da
parte especial do Código Penal, quer de legislação avulsa), como decorre,
expressamente, do n.º 3 do artigo 72.º do Código Penal.
No entanto, admite-se a cumulação de atenuações especiais quando existe a
concorrência de circunstâncias diferentes que implicam, ambas, a atenuação
especial.
Na situação concreta convocam-se duas atenuantes que derivam de
circunstâncias distintas: por um lado, a atenuação especial por força da tentativa,
que decorre directamente de uma norma da parte geral do Código Penal, posto que
a lei estabelece uma regra específica para a punibilidade da tentativa e, por outro
lado, a atenuação especial por força do artigo 4.º do Regime Penal Aplicável a
Jovens Delinquentes.
Assim, aplicando o exposto ao caso concreto, no que aos arguidos Carlos e
Hélvio respeita, o limite mínimo da pena de prisão por crime de roubo na forma
tentada, com a cumulação das duas atenuações especiais, passa a ser de um mês a
três anos, seis meses e vinte dias de prisão.

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Assim, importa proceder à ponderação dos factores relevantes para a


determinação da medida concreta da pena, à luz do n.º 2 do artigo 71.º, devendo
ser atendidas as seguintes circunstâncias concretas:
- A intensidade do dolo, que é directo;
- A ilicitude dos factos é média/baixa, tendo em conta o modo como
ocorreram [com quatro intervenientes, o que eleva a ilicitude, mas em plena via
pública, estando os arguidos desacompanhados de qualquer objecto intimidatório,
tratando-se de bens de reduzido valor e perecíveis];
- O comportamento dos arguidos – os arguidos não tinham antecedentes
criminais, tendo os arguidos Nivaldo e Kleiton vindo a ser condenados, também
por crimes contra o património, posteriormente, o que se valora como conduta
posterior;
- A necessidade de prevenção geral – a liberdade de determinação e o
património têm uma carga elevadíssima para a dignidade da pessoa humana, pelo
que os valores fundamentais são fortemente abalados por atitudes como as supra
descritas, sendo necessário restaurar a confiança societária na validade da norma.
Uma vez feita esta balizagem, adiante-se que a moldura penal prevista para o
crime cometido [atenuada, por força do disposto no artigo 73.º, alíneas a) e b) do
Código Penal] é de um mês a cinco anos e quatro meses de prisão [estando o
Tribunal singular vinculado à aplicação do máximo de cinco anos].
Atenta tal moldura penal, entende este Tribunal que ponderando
conjuntamente as circunstâncias atrás referidas, as políticas de reinserção social e as
exigências de prevenção quanto à prática de futuros crimes, tem-se por adequado
aplicar aos arguidos Carlos e Hélvio a pena de quatro meses de prisão e aos
arguidos Nivaldo e Kleiton a pena de seis meses de prisão.
Dispõe o n.º 1 do artigo 45.º do Código Penal que «a pena de prisão aplicada em
medida não superior a um ano é substituída por pena de multa ou por outra pena não privativa

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da liberdade aplicável, excepto se a execução da prisão for exigida pela necessidade de prevenir o
cometimento de futuros crimes. É correspondentemente aplicável o disposto no artigo 47.º ».
Assim, em conformidade, não resultando dos autos que a execução da prisão
é exigida para prevenir o cometimento de novos crimes, entendo que, no caso sub
judice, é de substituir a pena de prisão aplicada aos arguidos Carlos e Hélvio por
igual número de dias (120), em conformidade com o regime-regra consagrado no
artigo 45.º do Código Penal.
Sobre a fixação da razão diária dispõe o artigo 47.º, n.º 2 do Código Penal:
«cada dia de multa corresponde a uma quantia entre €. 5 e €. 500, que o tribunal fixa em função
da situação económica e financeira do condenado e dos seus encargos pessoais».
A amplitude estabelecida neste preceito quanto ao quantitativo diário da
multa tem na base «a ideia de dar realização, também quanto à pena de multa, ao princípio da
igualdade de ónus e sacrifícios, esfumando-se deste modo o maior inconveniente que se tem
apontado a esta pena – o seu peso desigual para pobres e ricos»8.
O montante diário da pena de multa deve ser fixado em termos de tal sanção
representar um sacrifício real para o condenado, devendo o Tribunal, por outro
lado, assegurar ao condenado um mínimo de rendimento para que ele possa fazer
face às suas despesas.
Pelo exposto, decido condenar os arguidos Hélvio Fernandes e Carlos
Saldanha pela prática de um crime de roubo na forma tentada, em co-autoria, p. e
p. pelo artigo 210.º, n.º 1 e 22.º, do Código Penal, na pena de quatro meses de
prisão, substituída por igual número de dias de multa, à taxa diária de € 6 (seis
euros), no total de 720 €.
Quanto aos arguidos Nivaldo e Kleiton, o Tribunal entende afastar a
aplicação do citado preceito, por se mostrar mais benéfico para a reinserção dos
jovens a aplicação de uma pena cuja execução seja acompanhada pelos serviços de

8
Maia Gonçalves, ob. cit., pág. 195.

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reinserção social, designadamente através do instituto a que alude o artigo 50.º do


Código Penal.
Atendendo às circunstâncias do caso concreto, cumpre apurar se se mostram
reunidos os pressupostos de aplicação do instituto de suspensão da execução de
pena, previsto no artigo 50.º do Código Penal.
Nos termos do n.º 1 deste artigo, «o tribunal suspende a execução da pena de prisão
aplicada em medida não superior a 5 anos se, atendendo à personalidade do agente, às condições
da sua vida, à sua conduta anterior e posterior ao crime e às circunstâncias deste, concluir que a
simples censura do facto e a ameaça da prisão realizam de forma adequada e suficiente as
finalidades de punição».
Tendo presente a matéria de facto apurada, pode concluir-se que a ideia da
prevenção encontra eco na matéria de facto dada como provada.
Com efeito, os arguidos Nivaldo e Kleiton são jovens e não tinham
antecedentes criminais à data da prática dos factos, sendo baixa/média a ilicitude
das suas condutas.
A suspensão da execução da pena de prisão é uma medida penal de conteúdo
reeducativo e pedagógico que pode salvaguardar as expectativas comunitárias na
validade das normas violadas e, ao mesmo passo, aqui prioritariamente, conduzir o
arguido para parâmetros de comportamento mais adequados aos valores sociais
dominantes.
Assim, sem embargo da potencialidade do risco de cometer novos delitos,
neste momento a simples censura do facto e a ameaça da pena realizam de forma
adequada e suficiente as finalidades da punição, pelo que, nos termos e ao abrigo
do disposto no artigo 50.º do Código Penal, se suspende a execução da pena de
prisão aplicada aos arguidos pelo período de um ano (artigo 50.º, n.º 5).
Tal suspensão fica sujeita a regime de prova, por força da idade dos arguidos
(artigo 53.º, n.º 3 do Código Penal), sugerindo-se a frequência de acções de

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formação nos termos das quais os arguidos possam vir a criar empatia com as
vítimas e a consciencializar-se da gravidade das suas condutas, bem como a reforçar
as competências sociais e profissionais dos arguidos.
No que respeita às custas, atenta a natureza da matéria e as diligências
efectuadas, vai cada um dos arguidos condenado em taxa de justiça que se fixa em 2
½ UC’s.
*
V. Decisão
Nestes termos e pelo exposto, atendendo às considerações expendidas e
normas legais aplicáveis, decido:
a) Condenar o arguido Carlos Alexandre Girão Saldanha pela prática, em
co-autoria, de um crime de roubo na forma tentada, p. p. nos termos dos artigos
22.°, n.°s 1 e 2, al. c), 23.° e 210.°, n.° 1, todos do Código Penal, na pena de quatro
meses de prisão, substituída por pena de multa de 120 (cento e vinte) dias, à taxa
diária de €6,00 (seis euros), perfazendo o total de €720,00 (setecentos e vinte
euros).
b) Condenar o arguido Hélvio André Tavares Fernandes pela prática, em
co-autoria, de um crime de roubo na forma tentada, p. p. nos termos dos artigos
22.°, n.°s 1 e 2, al. c), 23.° e 210.°, n.° 1, todos do Código Penal, na pena de quatro
meses de prisão, substituída por pena de multa de 120 (cento e vinte) dias à taxa
diária de €6,00 (seis euros), perfazendo o total de €720,00 (setecentos e vinte
euros).
c) Condenar o arguido Kleiton Júnior da Graça Tavares pela prática, em
co-autoria, de um crime de roubo na forma tentada, p. p. nos termos dos artigos
22.°, n.°s 1 e 2, al. c), 23.° e 210.°, n.° 1, todos do Código Penal, na pena de seis
meses de prisão suspensa na sua execução pelo período de 1 (um) ano
acompanhada de regime de prova.

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d) Condenar o arguido Nivaldo Mendes Moreira pela prática, em co-


autoria, de um crime de roubo na forma tentada, p. p. nos termos dos artigos 22.°,
n.°s 1 e 2, al. c), 23.° e 210.°, n.° 1, todos do Código Penal, na pena de seis meses
de prisão suspensa na sua execução pelo período de 1 (um) ano acompanhada de
regime de prova.
e) Condenar cada um dos arguidos no pagamento de 2 ½ UC`s de taxa de
justiça, e nas demais custas do processo.
*
Notifique.
*
Proceda ao depósito da presente sentença na secretaria nos termos do
disposto no artigo 372.º, n.º 5 do Código de Processo Penal.
*
Após trânsito, remeta boletins ao registo criminal e solicite o envio do CRC
actualizado.
*
Solicite aos serviços de reinserção social a elaboração dos planos a que alude
o artigo 494.º do Código de Processo Penal.
*
Processei e revi.
*
Almada, 2 de Fevereiro de 2022

Ana Marques Proença

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