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Modelagem Criativa em Design de Moda

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O OBJETO COMUM E A MODELAGEM CRIATIVA

The Common Object And Creative Modeling

Andrade, José Luis de; Professor Mestre do Centro universitário Senac –


Campus Santo Amaro; jandrade@[Link].br1

Belschansky, Daniela Nunes Figueira; Professora Mestre do Centro


Universitário Senac – Campus de Santo Amaro; Coordenadora de
Design de Moda - Estilismo; [Link]@[Link].br2

Resumo: A modelagem criativa amplia as possibilidades e o aperfeiçoamento das


técnicas tradicionais de modelagem. Visando enriquecer os processos de criação em
Design de Moda, fora oferecida uma Oficina em que os participantes experimentaram
a criação, a construção e a obtenção de um produto de moda, aqui descritos e
ilustrados, a partir da inserção de um objeto em sua modelagem.
Palavras chave: Modelagem; Modelagem Criativa; Objeto.

Abstract: Creative pattern extends the possibilities and refinement of traditional


modeling techniques. In order to enrich the processes of creation in Fashion Design, a
workshop was offered in which the participants experimented creating, building and
obtaining a fashion product, described and illustrated here, from the insertion of an
object in its modeling.
Keywords: Pattern; Creative Pattern; Object.

Introdução
A modelagem criativa avança e ocupa cada vez mais espaço entre os
processos de criação. Desde meados dos anos 1980 e da década posterior, pode-
se presenciar as tradicionais barreiras da modelagem tradicional serem quebradas
por pesquisadores ou designers japoneses e belgas que restabeleceram novos
parâmetros para a obtenção de um produto de moda.

1
Prof. Ms. José Luis de Andrade; Designer de Moda – Estilismo e Modelagem; Mestre em Arte, Cultura e Moda; Docente e
Pesquisador do Centro Universitário Senac / SP
2
Prof. Ms. Daniela Nunes Fiqueira Belschansky; Designer de Moda – Estilismo e Modelagem; Mestre em Arte, Cultura e Moda;
Docente, Pesquisadora e Coordenadora do Curso de Design de Moda – Estilismo do Centro Universitário Senac / SP
1
Com a mesma intensidade e preocupação de se perpetuar as técnicas de
construção e obtenção de uma roupa, muito bem construídas diga-se de
passagem, encontram-se os professores e técnicos de modelagem e costura que
pesquisam, experimentam e repassam saberes, mas que até as mencionadas
décadas, perpetuavam o que já era considerado clássico ou as impenetráveis
técnicas da alta costura.
Desde os princípios da desconstrução para repensar os modos de
construção e traduzidos em referências, cabe citar os nomes de Martin Margiela,
Ann Demeulemeester, Dirk Bikkembergs, Rei Kawakubo, Issey Myake, Tomoko
Nakamichi, Shingo Sato, Timo Rissanem, Julian Roberts, Richard Lindqvist, entre
outros pesquisadores que hoje podem ser considerados como os mestres da
Modelagem Criativa e, em meio a pesquisas, conheceu-se o trabalho do designer
japonês Kunihiko Morinaga, por meio de sua marca: Anrealage.
Entre tantos projetos apresentados em seus desfiles iniciados em 2006
percebe-se que Kunihiko aperfeiçoa e incorpora desde trabalhos manuais até os
mais tecnológicos em coleções em que a construção e os efeitos obtidos são seus
temas: ruído, rolo, silêncio, shell, bone, time, color, luz, secção, sombra, entre
outros e dos que mais desafiam a construção são as reinterpretações de formas,
nos desfiles silhouette e desigualdade, por meio de objetos cotidianos: bolas,
cubos, pirâmides e outras inserções de formas projetadas nas roupas.
Diante destes novos desafios formais, os autores ofereceram uma oficina
para que alunos de Design de Moda do Centro Universitário Senac - Modelagem e
Estilismo, pudessem desenvolver experimentos para despertar a criatividade por
meio da construção. Foram encontros semanais ao longo do segundo semestre de
2017 e em função do conhecimento técnico, os alunos optaram por trabalhar com a
técnica de projeção da forma mesclando a utilização de modelagem plana, peças
prontas e a planificação de moldes.

2
Paralelamente ao desenvolvimento dos alunos, os autores fizeram o
estudo da construção de uma camisa bola por meio da técnica de moulage sobre
uma bola inflável. Os resultados e as reflexões alcançadas foram importantes aos
alunos, pois perceberam a liberdade da descoberta e como as novas
possibilidades abrem caminhos para o novo e o inusitado. Os registros dos
processos e os resultados alcançados comprovam a importância de se pensar
novas possibilidades para a construção de produtos de moda contemporâneos,
que permitem o vestir em duas ou mais possibilidades, para corpos distintos, em
idades variadas e amplamente criativos.

As Propostas
A oficina “O Objeto comum e a modelagem criativa”, oferecida nas
dependências do Centro Universitário Senac – Campus de Santo Amaro, como já
mencionado, trouxe alunos do Curso de Design de Moda interessados em
processos de criação e na ampliação de seus repertórios técnicos de Modelagem.
Ainda que em número reduzido, puderam reconhecer técnicas e pesquisas
possíveis de diferenciarem os percursos de um objeto de design.
Primeiramente foram apresentadas as diversas possibilidades do que
considera-se Modelagem Criativa, pois o pensar criativamente os processos de
modelagem faz com que o imaginário e a realidade se aproximem. A
transformação de técnicas apuradas surpreende e qualifica a necessidade de se
pensar, geométrica ou organicamente, resultados inovadores que englobam em
seus projetos, elementos ergonômicos, funcionais, sustentáveis e estéticos.

A mais conhecidas técnicas inovadoras e o repensar modos de


construção, são revelados em: Zero Waste, Substraction Cut – Plug /
Displacement, Origami, Kinetic Garment, Pattern Magic e são traduzidas em
referências obrigatórias para os respectivos nomes de Timo Rissanem, Julian

3
Roberts, Issey Myake, Shingo Sato, Richard Lindqvist, Tomoko Nakamichi, entre
outros, que estão em constante atualização e também em coautorias inusitadas.

De maneira resumida e imagética foram descritas as técnicas e os


processos e seus criadores, os designers que pesquisam técnicas inovadoras e
que contribuem pedagógica ou esteticamente para que o produto de moda alcance
o patamar de contemporâneo, diferenciado e criativo.

Com a apresentação das técnicas já conhecidas e experimentadas,


chegou-se ao nome de Kunihiko Morinaga e de sua marca Anrealage. Com
coleções apresentadas no Japão desde 2006, a marca e seu designer, dispõem
estudos e experimentações têxteis, cromáticas, técnicas ou estéticas a cada
coleção desenvolvida. Os alunos puderam se aprofundar e escolher dentre as
técnicas das coleções: bola, pirâmide e cubo – S/S e Desigualdade – A/W, ambas
dos desfiles de 2009 e que partem da experimentação a partir da inserção de um
objeto comum na construção de uma peça do vestuário.

Nas duas coleções, as formas geométricas contribuem e validam o


resultado final. Os resultados alcançados podem ser vestidos com os objetos
geométricos estudados, ou simplesmente, sem os mesmos, de forma a
alcançarem panejamentos inusitados que garantem uma nova possibilidade
estética e ainda, a utilização do produto construído por um corpo diferente do que o
utilizado como referencial para a construção.

Além da versatilidade do vestir, as técnicas empregadas nas construções


também permitem esta variação. A modelagem pode surgir a partir do volume
trabalhado diretamente no objeto, como a modelagem tridimensional – moulage; ou
a partir da modelagem plana inserir o volume do objeto desejado em meio aos
moldes planificados.

4
Sendo assim, apresentou-se entre outras, a Figura 1 aos alunos que
puderam conhecer as duas propostas sendo utilizadas em formas e materiais
diversos e assim, escolherem quais as possibilidades a serem experimentadas.

Validando o pensamento da professora e pesquisadora argentina, Andrea


Saltzman, em seu livro “El cuerpo diseñado. Sobre la forma em el proyecto de la
vestimenta”. As escolhas dos alunos consideraram primeiramente através da
técnica de construção qual seria o corpo a ser trabalhado: alguns decidiram
trabalhar o manequim 38 e utilizar a base de corpo para a elaboração dos moldes
e inclusão do objeto. Outros preferiram trabalhar com uma peça já costurada, ou
seja, na peça de um corpo também 38 e foi inserido o objeto, para depois ser
planificado para a obtenção dos moldes e, por último, os autores decidiram
trabalhar a modelagem tridimensional em um objeto, uma bola inflável, ou o
suporte a ser explorado e depois adaptado a um corpo humano, no caso, também
com manequim 38.

Figura 1: produtos Anrealage – A/W e S/S 2009

5
Fonte: [Link]

Decidido o corpo do usuário e a forma ou volume a ser alcançado, pensou-


se na matéria a ser trabalhada. A maioria preferiu trabalhar tecidos planos, apenas
um aluno escolheu o tecido em malha. As decisões quanto aos materiais recaiu
também pela escolha do que se pretendia como resultado final e qual o objeto a
ser inserido na construção. O tecido plano, da maioria nas escolhas, para a
construção de camisas e a inclusão de caixas. O tecido em malha pela forma

6
arredondada escolhida e para uma blusa fluida. A moulage também fora executada
em tecido plano, ainda que a forma escolhida fosse a redonda.

Obtivemos, então, resultados diversos inclusive através das escolhas de


materiais, dos objetos a serem inseridos e ainda das técnicas empregadas.

As Técnicas

No decorrer dos encontros, iniciaram-se os desenvolvimentos, aplicando


as técnicas de modelagem, inserção dos objetos, obtenção dos moldes, corte e
montagem dos produtos e para melhor compreensão, decidiu-se apresentar em
duas partes, a partir das técnicas utilizadas: a inclusão do objeto e a moulage do
objeto.

A Inclusão

Os projetos que tiveram a inclusão do objeto, passaram pelas seguintes


fases: a escolha do produto a ser modificado; a escolha do objeto a ser inserido
(alguns alunos o construíram); a localização do objeto (nas partes descosturadas
ou em moldes); a desmontagem e planificação do produto; a obtenção dos moldes
finais; o corte e a montagem do produto.

De um modo geral, os objetos inseridos foram caixas, exceção a um


cilindro. Com os moldes ou produtos dispostos na mesa, escolheu-se onde seria
incorporado o objeto, frente ou costas dos produtos, parte de cima, central ou de
baixo; recobriu-se o objeto com tela de algodão ou papel e a partir desta inserção
foram pensados recortes e costuras que facilitaram a remontagem e para tanto
foram marcados os piques de encaixe. Assim que se finalizou esta etapa, os

7
tecidos e os moldes do objeto inserido foram passados a limpo em papel,
recortados no tecido escolhido na etapa anterior e os produtos foram montados.

Com os produtos montados, estes foram vestidos em manequins de


costura ou no próprio corpo e percebeu-se as possibilidades de se obter volumes
variados: para ressaltar a inserção do objeto, fora pensado na aplicação de
entretelas rígidas, para representar as caixas ou o cilindro, ou ainda, para uma
produto mais fluído, simplesmente deixar o tecido tombar junto ao corpo, obtendo-
se então, um panejamento próximo ao volume de alguns tipos de drapeados.

A forma inicial escolhida fora a de camisas e blusas. Com a inserção do


objeto e de acordo com a técnica aplicada, surgiram novos produtos, que
preservaram a essência do produto original, camisa ou blusa, uma vez que os
objetos foram inseridos de forma localizada.

Figura 2: exemplo de moldes de camisa com a inclusão do objeto caixa.

8
Fonte: imagem dos
autores.
2017

A Moulage

O projeto que se utilizou da técnica de modelagem tridimensional,


considerou ser elaborado a partir de uma grande bola inflável e, carregando as
características de uma camisa, o volume arredondado permitiu recortes orgânicos
e o deslocamento da maioria das costuras e do fechamento em curvas harmônicas
que envolveram todo o objeto. Além, é claro, de ser necessária a modelagem da
gola e das mangas e punhos para que o produto conseguido vestisse um corpo
humano.

O desenho orgânico em curvas foi obtido passo a passo, de parte em


parte, sobre a crepagem – desenho elaborado com fita adesiva no próprio objeto –
do que se pretendia enquanto a nova possibilidade de construção de uma camisa,
localizando seus recortes, fechamento, decote para a gola e cavas para as
mangas.

9
O novo produto alcançado, ainda que lembre uma camisa tem seu volume
bem diferenciado e vestido em um manequim de costura ou corpo, ganha também
ares contemporâneos e um panejamento inusitado.

Figura 3: detalhamento da obtenção de moldes – moulage da bola inflável

Fonte: imagem dos autores. 2017

Considerações Finais

A Oficina “O Objeto comum e a modelagem criativa” possibilitou a todos os


participantes a oportunidade de rever conceitos, técnicas e a história da
modelagem contemporânea desde meados da década de 1980. Os
desconstrucionistas belgas e japoneses, os professores e pesquisadores

10
japoneses, europeus e americanos que desde então se debruçam nas
possibilidades de se construir uma vestimenta condizente com o consumidor atual.

Naturalmente, descobrir tecnicamente uma grife japonesa contemporânea,


Anrealage e seu designer Kunihiko Morinaga que aplica o desenvolvimento de
pesquisas têxteis, de técnicas e tecnologias que abrangem o contexto oriental,
porém se dissolve pelo mundo afora.

Permitiu a experimentação e descoberta de um processo de criação em


que a técnica de construção é o protagonista. Valorizou o pensamento voltado a
geometrização que a técnica de modelagem plana se desenvolve e consente ser
desconstruída em termos de atualização.

Pelos processos acompanhados nota-se o quanto pensar o usuário, a


forma e a matéria têxtil se complementam e requerem a técnica como protagonista
para a realização e materialização satisfatória de um projeto de design.

Descobriu-se ainda, que um produto de design não estará totalmente


finalizado se ainda puder dele mesmo, extrair, incluir, transportar e assim, obter
novos resultados e possibilidades. É o objeto vivo e em constante transformação,
ainda que aparentemente apenas estética, como apreciar um novo tombamento do
tecido, um novo panejamento.

Os resultados alcançados nos propõe a reflexão de o quanto a pesquisa e


a experimentação em termos de mercado e academia nacionais reclamam
atualização e também, muitos interessados em avançar tecnologicamente e
disponibilizar suas descobertas para que novas oportunidades sejam construídas e
assim, acompanhar as necessidades do usuário, da cadeia produtiva e do
mercado contemporâneos.

Referências
11
NAKAMICHI, Tomoko. Pattern Magic. Barcelona: Editorial GG, 2012.

SALTZMAN, Andrea. El cuerpo diseñado. Sobre la forma ele l proyecto de la


vestimenta. Buenos Aires: Paidós, 2009.

Referências digitais

Anrealage, Tóquio. Disponível em: [Link] Acesso em: 29 jul.


2018

Imagens Anrealage, Tóquio. Disponível em:


[Link] Acesso em: 29 jul. 2018

Julian Roberts, Londres. Disponível em: [Link] Acesso em: 29


jul. 2018

Kinetic Garment Construction by Rickard Lindqvist. Disponível em:


[Link] Acesso em: 29 jul. 2018

Zero Waste by Timo Rissanen. Disponível em: [Link]


[Link] Acesso em: 29 jul. 2018

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