Livro de Rute
Para compreender o propósito de
um livro, é preciso buscar conhecer a
mente do autor a partir do conteúdo
da sua obra.
O texto bíblico não pode atribuir o
seu próprio sentido ao texto, mas
dedicar-se para extrair da Escritura a
intenção do autor e a mensagem
contida na obra. Assim, à luz do
texto de Rute, vários propósitos
podem ser vistos. O propósito do
livro é narrar um episódio entre os
ancestrais de Davi que explicava a
introdução de sangue não israelita
na linhagem da sua família. Ensina
também o grande alcance da graça
de Deus, pronto a dar as boas vindas,
na comunhão do seu povo redimido,
aos convertidos gentios.
Talvez o aspecto de maior
importância dessa curta narrativa
seja exibir a função do “parente
resgatador”.
O cetro de Judá.
Sem dúvida, o principal e mais
evidente propósito do livro é o
registro da linhagem de Davi (Rt
4.18-22). Rute apresenta-o como
descendente de Judá, que é a tribo
real da qual viria o Messias, “[…] o
Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi”
(Ap 5.5). Gênesis 49.10 diz: “O cetro
não se arredará de Judá, Mesmo
legislador dentre seus pés, até que
venha Siló; e a ele congregarão os
povos”. Embora Rúben fosse o
primogênito de Jacó, o seu ato de
desonra ao leito do pai, deitando-se
com a sua concubina, fez com que
perdesse a primogenitura (a sua
posição de liderança) (Gn 35.22;
49.4). A promessa feita a Abraão
seguia, agora, pela linhagem de Judá.
Se Samuel for o autor do livro de
Rute, o propósito de apresentar a
genealogia de Davi ganha ainda mais
sentido, já que era Saul, um
benjamita, quem ocupava o trono
naquele tempo (1 Sm 9.1,2;25.1;
26.1.2).
O registro da ancestralidade de Davi
funcionaria como uma legitimação
para o futuro rei de Israel.
Amor e redenção
Rute é uma peça indispensável na
meta narrativa bíblica que revela o
amor divino pela humanidade,
manifestado através do plano de
redenção, que culminou com o envio
do Filho de Deus ao mundo para,
uma vez encarnado, oferecesse a si
mesmo como sacrifício perfeito no
lugar de toda a humanidade (Jo 1.1-
14; 3.16; Gl 4.4,5).
Esta é a mensagem
principal do livro: o amor
de Deus e o seu plano de
redenção da humanidade
sem acepção de pessoas
(At 10.34-44).
Como representantes de judeus e
gentios, respectivamente, Boaz Rute
prenunciam a derrubada da parede
de separação (Efesios 2.11-16). A
redenção é vista no livro nos
sentidos literal etipológico. Boaz é
tanto o parente remidor que
perpetuou a descendência de
Elimeleque, como também um tipo
de Cristo, nosso eterno Redentor (Is
59.20; Lc 1.68; Ef 1.7; Tt 2.14).
Fidelidade e altruísmo.
O período dos juízes tinha como
característica principal a busca
egoísta dos próprios interesses. Era
cada um por si. O livro de Rute é um
oásis de altruísmo. Noemi, viúva e
sem filhos, prefere o bem-estar das
suas noras, liberando-as para voltar
para as suas respectivas famílias.
Não pensou em si mesma (Rt 1.8-
15). Uma jovem moabita deixa a
terra dos pais para acompanhar a
sua sogra, já idosa, que não tinha
nenhuma perspectiva material ou
humana de trazer-lhe um futuro
promissor (Rt 1.16,17). Pobre e sem
filhos, Noemi não tinha realmente o
que oferecer a Rute. Já em Belém, o
comportamento de Rute foi voltado
integralmente para a proteção e o
cuidado da sogra — e de forma
voluntária (Rt2.2,17,18). Rute não
esboçou uma atitude sequer que lhe
pudesse favorecer em primeiro
lugar, como a busca de um
casamento com qualquer homem
belemita (Rt 3.10). Na verdade, o
interesse por casar-se não surgiu da
decisão dela, mas da específica
orientação da sogra (Rt 3.1-6).
Esse comportamento de Noemi e
Rute dá uma eloquente mensagem:
o valor do altruísmo num mundo
dominado pelo egoísmo. Enquanto
nos dias dos juízes todos viviam
segundo os seus próprios padrões e
interesses (Jz 21.25), Noemi e Rute
exalam abnegação, destoando essa
máxima individualista. Sogra e nora
não pensavam em si mesmas. Elas
praticaram o amor que não busca os
seus próprios interesses (1 Co 13.5).
Por todo esse cenário de
benevolência, o livro de Rute
permite-nos saber que nem tudo
eram trevas nos dias dos juízes.
Havia um remanescente fiel, que
temia ao Senhor Deus e foi usado
para cumprir os seus propósitos (Jó
42.2). Este livro revela que a nobreza
e a graça não desapareceram de
Israel, até mesmo naqueles dias mais
rudes de agitação e anarquia. A
verdadeira piedade e simplicidade
nunca deixaram de existir, nem
mesmo no meio de um período tão
difícil.
A oportunidade na Bíblia funciona
como um convite para que as
pessoas reconheçam os momentos
em que Deus está agindo em suas
vidas e aproveitam.
A fé e a fidelidade de pessoas
piedosas ensejam a Deus a
oportunidade de converter a
tragédia em triunfo e a derrota em
benção.