Parâmetros da Língua de Sinais
Parâmetros da Língua de Sinais
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Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
Nenhuma parle desla publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou fama sem a prévia autorização da Edtora InterSaberes. A «dação dos dreitos autorais écrime estabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
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0 selo DIALÓGICA da Editora InterSaberes
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um real processo de interlocução para que a
comunicação se efetive.
E D IT O R A
intersaberes
(Org.)
Lara Ferreira dos Santos
Cristina Broglia Feitosa de Lacerda
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Analista editorial
As fo to s não creditadas no m iolo foram produzidas por Halisson
Ariel Martins
Roberto de Souza e Júlio César Pinheiro. As sinalizações foram
realizadas pela professora Rafaela Piekarski Hoebel Lopes dos
Santos.
Foi fe ito o depósito legal. Libras: aspectos fundam entais [livro eletrônicoj/C ristina
Inform am os que é de Broglia Feitosa de Lacerda, Lara Ferreira dos Santos, Vanessa
Apresentação | 9
Organização didático-pedagógica | 15
5
3 Sistema linguístico da Libras | 11
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3.1 A linguística e sua relação com a língua
de sinais | 80
3.2 Fonologia da Libras | 82
3.3 Morfologia | 94
3.4 Semântica | 103
3.5 Sintaxe | 107
3.6 Pragmática | 113
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6.1 Iniciando nossa conversa | 198
6.2 Um pouco sobre a história da educação
de surdos | 202
6.3 Abordagens educacionais: oralismo,
comunicação total e bilinguismo | 211
6.4 Discussões atuais sobre a educação
de surdos e a Libras no Brasil: respingos
da história e as lutas das comunidades
surdas | 218
7 Libras no contexto
socioeconôm ico-cultural | 233
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Apresentação
9
mas que demanda a relação entre eles para que seja adquirida, isto
é, sua aquisição não ocorre de forma espontânea, sem interação e
intervenção social.
Outra característica presente na obra é o reconhecimento da Libras
na sua modalidade visual e gestual, diferente das línguas orais. Para
marcar essa característica linguística, optamos pelo uso do termo
gesto-wsual. No entanto, reconhecemos outras formas de nomeação
para a modalidade das línguas de sinais, como: espaço-gesto-visual,
visto-gesto-espacial, espaço-visual, visto-gestual, entre outras.
Sobre a importância desta obra, destaca-se que por meio da Lei
n. 10.436, de 24 de abril de 2002 (Brasil, 2002), a Libras foi reconhe
cida como meio legal de comunicação e expressão das comunidades
surdas brasileiras. Além disso, com a regulamentação dessa lei, pelo
Decreto n. 5.626, de 22 de dezembro de 2005 (Brasil, 2005), ela pas
sou a ser língua obrigatória no currículo das graduações voltadas à
formação de professores/licenciados. Desde então, refletir sobre a
língua de sinais na constituição subjetiva de alunos surdos, bem como
oferecer um adensamento teórico e conceituai sobre essa língua, é,
sem dúvida, tarefa a ser traçada no ensino superior.
Este material, portanto, dividido em sete capítulos, dedica-se a fun
damentar questões relevantes para a temática da surdez numa vertente
linguística e cultural, salientando a língua de sinais como constitutiva
da pessoa surda e engajando-a nas discussões socioantropológicas da
surdez. Os capítulos aqui desenvolvidos foram articulados tomando o
surdo pela sua diferença linguística, e não como sujeito que deve ser
reabilitado por meio de práticas voltadas ao ensino da oralidade. E por
isso que o leitor vai encontrar nos capítulos a discussão da língua de
sinais em seus aspectos linguísticos, educacionais, sociais, afetivos,
entre outros, sempre voltados às noções sociais da linguagem humana.
10
No Capítulo 1, “Língua de sinais como língua das comunidades
surdas”, as autoras desenvolvem uma discussão sobre a importân
cia da língua de sinais no processo de aquisição de linguagem em
crianças surdas, bem como os problemas de atraso nesse processo
quando feito tardiamente. Elas salientam que a língua de sinais, por
ser gesto-visual, não cria nenhum impedimento orgânico para pes
soas surdas, diferente das línguas orais-auditivas. Ainda, as autoras
apresentam as relações entre sujeito, linguagem e as relações fami
liares no contexto da surdez.
No Capítulo 2, “Língua oral-auditiva e língua gesto-visual”,
articulados ao primeiro capítulo, os autores apresentam as distinções
de modalidades entre as línguas orais e de sinais e suas implicações
na relação lmguístico-estrutural-comunicacional. Fazem análises
das questões desdobradas e da positividade, que concerne ao fun
cionamento e uso de uma língua gestual-visual em pessoas surdas.
No Capítulo 3, “Sistema linguístico da Libras”, as autoras apresen
tam a estrutura linguística da língua de sinais, bem como as pesquisas
que compravam cientificamente o statns de língua natural atribuído
a ela, por meio do reconhecimento de princípios e processos linguís
ticos presentes nas línguas orais. Elas apresentam questões especí
ficas da estrutura linguística da Libras, exemplificando as relações
fonológicas, morfológicas, sintáticas, semânticas e pragmáticas em
interação dialógica entre tais categorias.
No Capítulo 4, “Estrutura da Libras e expressão de conceitos”, os
autores desenvolvem uma reflexão articulada ao Capítulo 3, todavia,
apresentam de modo mais teórico e prático o uso da Libras por sujei
tos surdos e a potencialidade dessa língua na produção de sentidos
diversos. Há um cuidado em apresentar a língua de sinais como
11
língua de expressão das comunidades surdas e seu caráter simbólico
e constitutivo de produções enunciativas aos falantes desse idioma.
No Capítulo 5, “Libras no território brasileiro”, as autoras
fazem um levantamento histórico sobre a presença dessa língua
em diversas esferas sociais, bem como a respeito dos regionalismos
e ídioletos presentes no uso da Libras, levando em conta, também,
a forma de padronização dessa língua, os registros produzidos em
dicionários e glossários e, ainda, as novas formas de manutenção e
disseminação dessa língua gesto-visual por meio das ferramentas
tecnológicas digitais atuais.
No Capítulo 6, “Libras no contexto educacional”, as autoras pro
põem um levantamento histórico geral sobre a educação de surdos,
aprofundando as análises atuais de suas implicações nas políticas
educacionais no Brasil. Elas apresentam três abordagens educacio
nais ainda vigentes em práticas escolares que difundem a concepção
ativa sobre o sujeito surdo, sua língua e os diferentes usos e funcio
namento da linguagem. No interior do texto, defendem a substitui
ção da massiva ideologia da necessidade de produção oral para uma
educação baseada na Libras como língua de instrução, numa escola
que promova diálogo com as comunidades surdas.
No Capítulo 7, “Libras no contexto socioeconômico-cultural”,
as autoras finalizam a obra com a linha dorsal que caracteriza e
fundamenta este livro: a concepção sociocultural dada à surdez.
Apresentam uma discussão sobre língua e linguagem e a dissemi
nação da Libras nas diversas esferas sociais como um produto cultural
de grande valor para as comunidades surdas brasileiras.
Desse modo, esperamos que você possa aprofundar seus conhe
cimentos quanto aos estudos da surdez na perspectiva da diferença,
12
com relação tanto aos aspectos linguísticos quanto às questões sociais
concernentes à Libras. Para tanto, ressaltamos a importância das
lutas por políticas educacionais e linguísticas para as comunidades
de surdos no Brasil, tendo a noção de que a língua de sinais é não
só base da constituição identitária das pessoas surdas, mas, também,
um valor cultural.
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Organização
didático-pedagógica
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Introdução do capítulo Síntese
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Atividades de
Indicações culturais autoavaliação
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Atividades de
aprendizagem
Aiwidadesde aprendizagem
Quesões para reflexas
75
18
capítulo
um
surdas
comunidades
Língua de sinais
como língua das
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Beatriz Aparecida dos Reis Turetta
Cristina Broglia Feitosa de Lacerda
N
este capítulo, optamos por iniciar a discussão abordando a
importância da aquisição de uma língua para o desenvolvi
mento de qualquer ser humano. Em seguida, analisamos os conceitos
de língua natural e de língua de sinais, na tentativa de tornar evidente
que esta deve ser respeitada como língua das comunidades surdas1,
e que as línguas de sinais se constituem de maneiras diferentes em1
1 Neste texto, utilizaremos o termo swilo para todas as pessoas que apresentam algum
déficit de audição, independente do grau de sua perda auditiva ou do uso que fazem da
língua de sinais.
21
diferentes países. A partir dessas considerações, discutimos algumas
questões referentes à língua brasileira de sinais (Libras) de modo
específico: características principais; usuários; processos de aqui
sição e de ensino-aprendizagem. O principal objetivo é fornecer os
subsídios necessários para a compreensão da Libras como língua
fundamental para a constituição dos sujeitos surdos brasileiros.
22
planejamento, da regulação e da avaliação do próprio comportamento.
Também é pela língua que as funções psíquicas superiores, aquelas
tipicamente humanas, transformam-se e reorganizam-se.
Com base nessas considerações, podemos entender o quanto a
aquisição de uma língua é essencial ao processo de desenvolvimento
do homem, seja numa função em específico, seja para o desenvolvi
mento em modo geral. Nessa perspectiva, o desenvolvimento humano
e cultural só pode se constituir na e pela língua, ou seja, não é possí
vel que ela seja entendida somente como instrumento comunicativo.
23
1.3 Línguas de sinais
24
Essas línguas são independentes das que são faladas em seus
respectivos países, e não existe nenhuma maneira aceitável de simul
taneamente fazer uso de duas línguas.
Geralmente, quando os sinais são utilizados na tentativa de acom
panhar o fluxo de uma língua oral, ficam descaracterizados e não
correspondem necessariamente ao sentido literal dos enunciados
emitidos pela língua oral. Quadros e Karnopp (2004) sugerem que a
ideia de que os sinais são meras traduções das palavras das línguas
orais provavelmente está relacionada ao uso do alfabeto manual
(datilologia), em que cada letra é representada por um sinal.
Segundo as autoras, essa ideia é um equívoco porque a soletração
manual é apenas uma possibilidade de expressar conceitos pelos sur
dos em situações específicas, dentro do contexto de uso da língua.
Nenhuma comunidade linguística se comunica exclusivamente pela
soletração manual.
As línguas de sinais também apresentam variações regionais,
a depender das diferentes formas de organização das pessoas que
as utilizam. Tais variações podem ser maiores ou menores, em con
sequência das condições de vida, das influências culturais, da pro
ximidade ou não com outros grupos usuários dessa mesma língua.
A presença de pessoas surdas em uma comunidade social favorece
o surgimento de línguas de sinais. As pessoas surdas em contato
comunicam-se por gestos, os quais vão se constituindo como língua
pela necessidade e atividade dessas pessoas. O surgimento dessas
línguas é tão ou mais antigo que o surgimento das línguas orais.
No entanto, assim como qualquer língua, elas se materializaram
a partir das condições concretas de vida das pessoas, ou seja, das
necessidades de comunicação em determinado grupo social.
25
Cabe salientar que todo ser humano nasce com condições de
desenvolver a lmguagem/língua e que, nesse processo de aquisição,
todos usamos gestos como função linguística (Bellugí et al., 1993).
Todavia, nas comunidades ouvintes, a língua oral emerge com maior
força, e os signos gestuais terminam ocupando um papel secundário.
Assim, oralidade ou gestualidade vão se materializando a depender
do grupo social no qual o sujeito estiver inserido.
Sob essa perspectiva, nascer com surdez, profunda ou parcial,
não garante a aquisição da língua de sinais. E só no contato com os
membros mais experientes da cultura, isto é, com os usuários dessa
língua, que o desenvolvimento da língua de sinais poderá efetivar-se.
Atualmente, o reconhecimento da importância das línguas de
smais na constituição dos sujeitos surdos tem feito diferentes pes
soas se engajarem na aprendizagem e no estudo dessas línguas. Tais
mudanças de concepção frente à surdez e à língua de smais possi
bilitaram que outras demandas fossem almejadas e conquistadas,
tais como a formação de tradutores e/ou intérpretes de Libras e dos
professores bilíngues.
No entanto, não podemos ser ingênuos. 0 reconhecimento teórico
e legal das línguas de sinais foi um grande avanço para a área, mas
as repercussões mais desejadas ainda estão por vir. A maioria das
pessoas ainda considera tais línguas como sistemas inferiores às
línguas orais e, teoricamente, menos completos. Seu status continua
sendo questionado tanto pelo senso comum quanto por estudiosos
que não compartilham da valorização de tais línguas.
26
Mas todos aqueles que se dispõem a aprendê-la certamente irão
perceber que
27
criança surda tenha acesso a ela e a desenvolva. Além disso, não é
superior nem inferior a qualquer outra língua, pois se desenvolve e
se expande de acordo com a necessidade de seus usuários.
De acordo com Brito (1995), os sinais se organizam a partir de
parâmetros que se combinam, na maioria das vezes de forma simul
tânea. São eles: configuração das mãos (CM), movimento (M) e
ponto de orientação (PA). Segundo a autora, embora com algumas
discordâncias, a orientação (0) e a expressão facial e/ou corporal
também se apresentam como traços distintivos dessa língua.
28
Nesse sentido, crianças surdas filhas de pais surdos são privilegia
das por terem nascido num contexto linguístico favorável à aquisição
da Libras como língua materna. Tais crianças geralmente adquirem
a língua de sinais no mesmo tempo em que as crianças ouvintes,
imersas em ambientes que concentram falantes da língua portuguesa.
No entanto, essa é uma realidade pouco observada em diversos
lugares do mundo. A maioria das crianças surdas (cerca de 95% dessa
população) nasce em contextos familiares de ouvintes que desconhe
cem a Libras ou têm dificuldades para aceitá-la. Essas crianças geral
mente passam por um período sem acesso à língua, o qual poderá ser
mais breve ou mais longo, a depender das condições familiares de
acesso e aceitação da surdez e das próprias necessidades de seus filhos.
Não é uma tarefa simples para as famílias, que precisam mudar
suas concepções, inclusive a mais comum - de que a surdez/defi-
ciência auditiva é uma doença que tem tratamento. Geralmente, o
senso comum e as indicações médicas de reabilitação dos sujeitos
surdos por treinamentos de fala e utilização de aparelhos auditivos
(ou implantes cocleares) imperam durante a infância, período essen
cial ao desenvolvimento da língua e da linguagem.
Em geral, a orientação da área médica é de que o desenvolvimento
da oralidade só se dará se a criança não tiver acesso à língua de
sinais. Assim são feitas diversas tentativas de oralização, impedindo a
criança de ter contato com a língua de sinais. A maioria das famílias
acaba aceitando a língua de sinais apenas posteriormente, após um
frustrado período de tentativas de que essas crianças falem, o que,
por vezes, estende-se por anos.
Cabe salientar que o fato de essas crianças não aprenderem a falar
ou atingirem uma fala superficial (sem função de língua que auxilia,
planeja e organiza o pensamento) não tem relação com incapacidade.
29
Como afirmamos desde o início, as línguas orais dependem da audi
ção e não estão acessíveis às crianças surdas.
Infelizmente, em muitos casos, a aquisição da Libras só é admi
tida tardiamente pelas famílias, quando a criança já apresenta um
atraso significativo nos processos de aquisição da linguagem, de
modo específico, e no desenvolvimento cognitivo, de modo geral. Por
não ter tido a oportunidade de adquirir uma língua nos anos iniciais
(0 a 3 anos), ela pode também apresentar comprometimentos signi
ficativos em outras funções psíquicas que dependem da linguagem,
como atenção, memória, imaginação e pensamento (Goldfeld, 2007).
Nesse sentido, torna-se necessário propiciar condições linguísticas
e socioculturais particulares para o processo de apropriação da lingua
gem por esses sujeitos. E, portanto, fundamental que as crianças sur
das convivam com surdos adultos e pares surdos, usuários da Libras e/
ou ouvintes fluentes dessa língua, pois, assim, poderão ampliar suas
relações com o mundo e desenvolver suas funções mentais superiores,
processos esses mediados por signos (Lodi; Luciano, 2009, p. 36).
Cabe destacar que diversas pesquisas voltadas ao desenvolvi
mento de linguagem das crianças surdas indicam que o acesso à
língua de sinais paralelamente aos recursos de oralização favorece
seu desenvolvimento, de tal sorte que a criança não fica impedida
de seu desenvolvimento linguístico, caso as tentativas de oralização
sejam infrutíferas (Quadros; Cruz; Pizzio, 2012).
Em nosso país, infelizmente, muitas crianças surdas sofrem um
atraso brutal no desenvolvimento da linguagem. Em alguns casos
específicos de crianças com perda auditiva, o desenvolvimento da
oralidade é possível; todavia, existe um mito de que a língua de sinais
impede o desenvolvimento da oralidade, levando muitas famílias a
não desejar uma aproximação da Libras e, consequentemente, ao
30
atraso no desenvolvimento da linguagem da criança surda (devido
ao longo e sofrido processo envolvendo a oralidade).
31
Independente de serem surdos ou ouvintes, é imprescindível que
os adultos responsáveis pela inserção dessas crianças na vida social
na e pela linguagem sejam pessoas fluentes em Libras. A aquisição
dessa língua de sinais, assim como de todas as outras línguas, passa
necessariamente pelo contato e pela interação com interlocutores
competentes nessa língua. 0 domínio parcial da Libras não garante
a comunicação e, muito menos, os processos de significação neces
sários à aquisição da língua.
Garantidos os interlocutores necessários à apropriação da Libras,
a escola precisa se preocupar em proporcionar espaços e práticas
que privilegiem o desenvolvimento da linguagem dessas crianças.
Sabemos que a escola é tradicionalmente monolíngue e historica
mente pensada para atender a um público ouvinte. Nesse sentido,
as práticas pedagógicas para atender à demanda da clientela surda
precisam constantemente ser pensadas e refletidas.
Alguns estudos (Lacerda; Góes, 2007; Lodi; Lacerda, 2009) têm
destacado a importância de práticas pedagógicas apropriadas ao
desenvolvimento da linguagem de crianças surdas e apontam os
espaços lúdicos como privilegiados para essa aquisição. Esse desta
que reafirma a tese de Vygotsky (1984) a respeito do papel do brincar
no desenvolvimento humano.
De acordo com esse autor, principal teórico da abordagem históri-
co-cultural, a brincadeira é a atividade mais significativa da míancia.
Essa atividade permite à criança se comportar de maneira mais ela
borada, em comparação com o que vivência nas situações concretas
de sua vida cotidiana. Ainda que não seja a atividade mais frequente,
é a que funciona como mola propulsora do desenvolvimento infantil,
que impulsiona o funcionamento das funções psíquicas em específico
e do desenvolvimento de modo geral (Leontiev, 2001).
32
Nesse sentido, a brincadeira, especialmente os jogos que envol
vem o plano imaginativo - como o faz de conta e o jogo de papéis
permite a transição de um padrão de pensamento menos elaborado
para um mais elevado, qualitativamente novo.
Dois aspectos importantes dessa forma de brincadeira se entre
laçam: o desenvolvimento da imaginação e o da sociabilidade.
0 funcionamento imaginativo emerge e se expande no faz de conta,
com a encenação de situações extraídas da realidade. E visto que a
atividade, geralmente, é realizada de forma partilhada, ela propicia
também o avanço da capacidade de lidar com as interações sociais,
tanto no que diz respeito às relações entre as crianças que constroem
a brincadeira como às relações entre as figuras sociais implicadas
na situação encenada (Turetta, 2013).
Essa é, portanto, uma esfera em que há grande possibilidade de
desenvolvimento da linguagem, pelos diálogos das crianças sobre a
brincadeira e dentro da brincadeira. Trata-se de momentos potencial-
mente favoráveis a usos da linguagem com diferentes finalidades e
à exploração de enunciados em instâncias diversas, pertinentes aos
personagens encenados.
Nesse sentido, o conjunto de possibilidades trazidas para o desen
volvimento torna o jogo de faz de conta um espaço importante para
a aquisição da linguagem pelas crianças surdas e merece destaque
nas práticas que pretendem propiciar a aquisição da Libras como
primeira língua das crianças surdas.
33
1.4.3 Libras como segunda língua para ouvintes
34
Síntese
Este capítulo teve como intuito destacar a importância da aquisição
da língua e linguagem nos processos de desenvolvimento humano.
Os temas abordados procuraram dar destaque ao papel que as línguas
de sinais assumem no desenvolvimento das pessoas que nascem com
surdez e que, devido ao déficit auditivo, não têm acesso às línguas
orais. Tais línguas são consideradas naturais das pessoas surdas por
não precisarem de nenhum processo de ensino-aprendizagem e/ou
treinamento para serem adquiridas. Assim como as línguas orais, as
línguas de sinais são adquiridas por meio do contato e da interação
com os membros mais experientes da cultura surda.
0 principal objetivo foi fornecer subsídios para a compreen
são da Libras como língua natural dos sujeitos surdos brasileiros.
Considerando que a maioria das crianças surdas nasce em contextos
familiares de ouvintes que desconhecem a Libras, a escola é conside
rada espaço privilegiado de relações sociais em Libras. Destacamos,
nesse contexto, a importância do contato das crianças com adultos
fluentes em Libras, preferencialmente surdos adultos representantes
da comunidade surda, além da atividade do brincar como sendo a
mais favorecedora dos processos de aquisição da Libras, de modo
específico, e do desenvolvimento, de modo geral.
35
É d ire ito da pessoa surda. Foi
re c o n h e c id a le g a lm e n te c o m o C o n s titu i-s e a p a rtir das re la çõ e s
m e io d e c o m u n ic a ç ã o e e x p re s sociais c o m os m e m b ro s m ais
são das c o m u n id a d e s surd as a e x p e rie n te s d a c u ltu ra .
p a rtir d a Lei n. 10.436/2002.
Libras
É fu n d a m e n ta l ao d e s e n v o lv i É u m a lín g u a g e s to -v is u a l q u e
m e n to da c ria n ç a surda, seja da se m a te ria liz a a p a rtir d e a lg u n s
lin g u a g e m d e m o d o e s p e c ífic o , p a râ m e tro s : c o n fig u r a ç ã o d e
seja d o d e s e n v o lv im e n to c o g n i m ão s, m o v im e n to , p o n t o d e
tiv o d e m o d o g e ra l. o rie n ta ç ã o , e x p re s s ã o fa cia l e /o u
c o rp o ra l e o rie n ta ç ã o .
Indicações culturais
0 GAROTO selvagem. Direção: François Truffaut. França: Silver
Screen, 1970. 83 min.
36
MR. HOLLAND: adorável professor. Direção: Stephen Herek.
EUA: Flashstar Home Vídeo, 1995. 143 min.
Atividades de autoavaliação
1. Indique se as afirmações a seguir são verdadeiras (V) ou falsas (F):
( ) A língua de sinais é a língua natural dos surdos.
( ) Uma pessoa que nasce surda desenvolve a língua de sinais
mesmo que não esteja em contato com usuários dessa língua.
( ) A aquisição da língua de sinais se dá em contato com os
usuários mais fluentes da comunidade surda.
( ) Somente surdos são capazes de se comunicar em língua de
sinais.
Agora, assinale a alternativa que corresponde à sequência correta:
a. V, F, V, V.
b. V, F, V, F.
c. V, F, F, V.
d. F, F, V, F.
37
2. Assinale a alternativa correta:
a. As línguas de sinais são universais. Por se tratarem de línguas
gesto-visuais, podem ser facilmente compreendidas por pes
soas de diferentes países.
b. As línguas de sinais são códigos inferiores, derivados e subor
dinados às línguas orais.
c. As línguas de sinais são sistemas linguísticos complexos, com
postos por regras e elementos gramaticais que permitem aos
usuários serem capazes de se comunicar e se compreender
de forma efetiva.
d. Considerando que a língua de sinais é um sistema mais sim
ples que o das línguas orais, qualquer pessoa pode fazer uso
dela, podendo compreender e ser compreendida por meio de
gestos e mímicas.
3. Assinale a alternativa incorreta:
a. A Libras foi reconhecida como segunda língua oficial do Brasil
em 2002.
b. Os sinais da Libras são idênticos em todas as regiões e Estados
do Brasil.
c. A Libras tem uma estrutura comum em todas as regiões do
Brasil, mas apresenta alguns regionalismos, dialetos, a depen
der dos grupos sociais que a utilizam.
d. Surdos e ouvintes fazem uso da Libras no Brasil e a utilizam
em diferentes contextos e situações.
38
4. Indique se as afirmações a seguir são verdadeiras (V) ou falsas (F):
( ) Crianças surdas filhas de pais ouvintes geralmente apresen
tam desenvolvimento tardio na aquisição de língua, devido
ao contato restrito com usuários da Libras.
( ) Crianças surdas filhas de pais ouvintes devem aprender a
falar a língua portuguesa, porque a Libras impede a relação
entre os pais e filhos.
( ) A aquisição da Libras por crianças surdas filhas de pais surdos
acontece no mesmo ritmo da aquisição da língua portuguesa
pelas crianças ouvintes, em virtude de aquelas estarem em
constante contato com a língua de sinais desde o nascimento.
( ) Os pais ouvintes que têm filhos surdos devem se esforçar
para aprender a Libras, pois essa é a única língua que pode
ser adquirida de maneira natural por seus filhos.
Agora, assinale a alternativa que corresponde à sequência correta:
a. F, F, V, V.
b. V, F, F, V.
c. V, F, V, V.
d. V, F, V, F.
39
( ) Adultos surdos, representantes das comunidades surdas e
fluentes em Libras, têm maiores chances de possibilitar acesso
das crianças surdas à Libras, por serem considerados referên
cias de língua e identidade.
Agora, assinale a alternativa que corresponde à sequência correta:
a. V, V, V, F.
b. V, V, F, V.
c. F, V, V, V.
d. F, V, V, F.
Atividades de aprendizagem
Questões para reflexão
40
Atividades aplicadas: prática
41
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capítulo
dois
Língua
e língua
gesto-visual
oral-auditiva
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
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Vinícius Nascimento
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
Samantha Camargo Daroque
N
este capítulo, discutimos as diferenças entre as modalidades
oral-auditiva e gesto-visual das línguas humanas. Também,
refletimos sobre as concepções de modalidade, materialidade lin
guística, linearidade, simultaneidade e os aspectos que caracterizam
as línguas como sistemas semióticos utilizados por comunidades
humanas. Buscamos, nesse sentido, demonstrar como as línguas de
sinais e as línguas orais possuem, do ponto de vista da constituição
da subjetividade dos falantes, o mesmo papel e a mesma função nos
âmbitos linguísticos, discursivos e cognitivos, diferenciando-se, não
45
apenas, mas, sobretudo, na sua modalidade, isto é, na composição
material do sistema. Ao fim deste capítulo, esperamos que você possa
discorrer sobre as especificidades das modalidades oral-auditiva e
gesto-visual e sobre a dimensão gestual, espacial e visual da Libras.
46
da sonoridade vocal. Ou ainda, em uma sala de espera, é pos
sível prestar atenção nas conversas de outras pessoas sem ao
menos olhar para elas (a depender, pnncipalmente, da inten
sidade vocal dos sujeitos envolvidos na interação).
® Gesto-visual: Tem como principal meio de produção as mãos,
que, articuladas a partes do corpo, produzem a discursividade
nos espaços em frente ao corpo, dos lados, acima/abaixo do
tronco corporal ou no próprio corpo do falante. Como via de
recepção, a visão e toda a sua composição orgâmco-fisioló-
gica constituem o canal por onde as informações linguísticas
são recebidas. Nesse caso, diferente do que ocorre nas lín
guas orais-auditivas, os falantes de línguas da modalidade
gesto-visual precisam estabelecer contato visual para que haja
interação, pois, sem a visão, não há, apriori, comunicação.
Em uma sala escura, por exemplo, caso haja apenas falan
tes de um sistema linguístico gesto-visual - no caso, línguas
de sinais - , o possível meio de interação entre esses sujei
tos será através do toque, da propnocepção (caso da pró
xima modalidade). Mas, ainda assim, a comunicação ficará
prejudicada, porque embora as mãos sejam os principais
articuladores dessas línguas, quando separadas das expres
sões não manuais faciais e corporais, perdem, em grande
parte, o sentido.
Na Figura 2.1, a seguir, vemos duas pessoas interagindo
por meio da língua de sinais. Perceba que, para se comuni
carem, elas precisam estabelecer contato visual e produzir
os sinais manuais no espaço em frente ao corpo. Porém, o
locus de enunciação das línguas de sinais representa todo o
raio de alcance dos braços e das mãos.
47
Figura 2.2 - Estudantes conversando por meio de língua de sinais
Vladim ir Mucibabic/Shutterstock
Na imagem, observe a gestiialidade à frente do corpo, para a produ
ção do discurso, e o contato visual, necessário para a interação..
48
já dito, as línguas de sinais não são caracterizadas, do ponto
de vista da produção, apenas pelas mãos. Por esse motivo,
alguns surdocegos fazem uso de um sistema complementar de
recepção linguística chamado de comunicação háptica, que
corresponde às descrições de elementos, geralmente visuais,
não acessíveis ao surdocego, por meio de sinalizações nos
braços, ombros e costas.
Tal sistema tem o papel de transmitir informações grama
ticais, como as expressões não manuais faciais do interlocutor
produzidas durante a sinalização e as emocionais, como um
sorriso de satisfação durante uma resposta ou o arqueamento
de sobrancelhas como sinal de reprovação para o sujeito para
qual se enuncia. Em uma situação de diálogo, por exemplo,
com o apoio de um guia-intérprete, um surdocego, em con
tato com outro surdocego que use a língua de sinais tátil, está
privado, de certa forma, de todas as informações ao seu redor.
Pessoas que se aproximam, tomam distância, fazem comen
tários etc. não são perceptíveis aos sujeitos que vivem essa
condição, devido às limitações sensonais auditivas e visuais.
0 guia-intérprete pode, quando alguém se aproximar do sur
docego, sinalizar, nas costas, com o movimento de andar na
região lombar para a região escapular, demonstrando que
alguém está se aproximando.
Esses “códigos”, mesmo quando adaptados de sinais
manuais convencionados nas línguas de sinais, são, na maio
ria das vezes, especialmente na comunicação háptica, con
vencionados entre o surdocego e os seus interlocutores mais
diretos, como o guia-intérprete, por exemplo.
49
® Gráfico-visual: Corresponde, geralmente, a desdobramentos
das duas primeiras modalidades que abordamos. Nesse caso,
a via de produção não é necessariamente manual (existem
pessoas com deficiência física que escrevem com o pé ou
com a boca, por exemplo) ou gráfica (não necessariamente
escrita em papel, já que o computador, um quadro ou uma
tela podem ser suportes para a produção linguística).
A via de recepção, no entanto, é visual. Sem a visão, a
recepção dos discursos escritos é limitada. Sabemos, por
exemplo, que as pessoas cegas podem ler por meio do sis
tema Braille, um código que corresponde aos textos escritos
de determinada língua. Porém, tal sistema possui limitações
de representação dos códigos escritos. Nesse caso, outra
possibilidade de acesso de cegos ao texto escrito é a leitura
por parte de outra pessoa. Entretanto, quando alguém lê
um texto escrito para uma pessoa com deficiência visual, a
modalidade deixa de ser escrita, e passa a ser oral-auditiva,
mesmo fundamentando-se no texto escrito.
Tal mudança de modalidade ocorre porque a escrita não
consegue, em grande parte, apreender todas as possibilida
des do discurso oral, como as entonações, que, embora lin
guísticas, são extremamente contextuais. Existem línguas
que não possuem um desdobramento gráfico-visual. Elas
são chamadas de ágrafas, ou seja, não têm um sistema de
representação e/ou registro escrito como a maioria das lín
guas indígenas e algumas línguas de sinais. Todavia, a sua
condição e o estatuto de línguas permanecem, pois não é a
grafia que insere um sistema semiótico verbal na posição ou
50
na condição de língua, mas, sim, a sua partilha, produção,
recepção, circulação e convenções sociais adotadas em uma
determinada comunidade humana.
52
® o uso da língua de sinais juntamente com o da língua oral,
com o objetivo de tornar a criança bilíngue e, por conse
quência, bimodal (algo que tem sido recorrente nos últimos
15 anos).
53
por 250 anos, constituindo o espaço como legitimamente bilíngue,
pelo uso do inglês e da língua de sinais americana.
“Em resposta a essa situação”, narra o autor, “toda a comunidade
aprendeu a língua de sinais, havendo livre comunicação entre ouvin
tes e surdos. De fato, estes quase nunca eram vistos como ‘surdos’,
e certamente não eram considerados de modo algum ‘deficientes’”
(Sacks, 1998, p. 45). Os ouvintes, que constituíam a minoria, nesse
caso, também eram falantes dessa língua e a adquiriram, na maioria
das vezes, como primeira língua, visto que ela era utilizada pelas
famílias residentes da ilha. Segundo o autor, era muito difícil não
encontrar uma família que não abrigasse um morador surdo. Por isso,
a língua comum partilhada por todos daquela comunidade era a lín
gua de sinais. Ainda assim, os ouvintes também utilizavam a língua
oral e variavam as línguas de acordo com os interlocutores e com
as intenções comunicativas. Com o passar do tempo, a população
surda começou a diminuir na ilha, o que contribuiu para inverter a
relação maioria/minoria: os ouvintes passaram a compor, em grande
escala, a população.
Todavia, Sacks (1998, p. 48), ao visitar a ilha, descreve algo inte
ressante:
54
de repente, de um modo muito surpreendente, todos pas
saram a usar a língua de sinais. Comunicaram-se assim
por um minuto, riram e depois retomaram a conversa
falada. Naquele momento eu soube que tinha ido ao lugar
certo.
1 Variação de caapor.
55
Uma grande diferença entre elas é a tonicidade: na língua
Ka’apor, as palavras são normalmente oxítonas; naWaiãpi,
paroxítonas.
57
linguístico, que as línguas de sinais eram línguas naturais. Os primei
ros estudos publicados datam de 1960, de autoria de William Stokoe,
conforme mencionado no capítulo anterior.
Os estudos recentes envolvendo sujeitos bilíngues que se utilizam
de línguas de diferentes modalidades mostram que os efeitos da
interferência estão para além da questão de alternância dos códigos
utilizados por esses falantes e, ainda, apresentam algo significativo
para estudos da linguagem em geral: os efeitos de modalidade. Esse
conceito foi cunhado para se referir tanto às diferenças estruturais
de línguas de sinais e de línguas orais do ponto de vista da estrutura
quanto para a relação de influência e interferência entre ambas.
Quadros (2006, p. 175) mostra que muitas pesquisas sobre a estru
tura das línguas de sinais têm considerado as relações existentes
com as línguas orais:
58
revelaram que sujeitos que usam línguas de diferentes modalidades
podem misturar as línguas porque, nesse caso, não há uma com
petição pelo canal articulatório de ambas. Enquanto a língua oral
é produzida pela boca, a língua de sinais é produzida com mãos.
Portanto, até certo ponto, ambas as línguas podem ser produzidas
simultaneamente. Esse fenômeno tem sido denominado de sobrepo
sição de línguas (code-blencting) e, ao contrário do que se acreditava,
a mistura de línguas por um falante bilíngue não representa falta de
competência em ambas as línguas. A mistura pode, na verdade, mos
trar grandes habilidades linguísticas. Tais dados mostram o quanto
as línguas de sinais podem estar envolvidas com as línguas orais do
ponto de vista da produção do sujeito bilíngue/bimodal.
Roland Pfau, outro linguista pesquisador de línguas de sinais,
tem mostrado essa interferência em diferentes línguas de sinais pelo
mundo, especialmente no que diz respeito aos gestos utilizados por
ouvintes em uma interação “oral”. 0 pesquisador tem descrito o
processo de gramaticalização de gestos usados pelos ouvintes nas
línguas de sinais e como essa relação é estabelecida por meio dos
contatos entre as comunidades surdas e os ouvintes.
Segundo ele, apenas as línguas de sinais têm a capacidade de gra-
maticalizar gestos (Pfau, 2015; Pfau, Stembach, 2011). Os estudos de
Pfau nos indicam que, para além de um processo de gramaticalização
de gestos emblemáticos culturais utilizados nas sociedades majori
tárias em que os surdos estão inseridos, é bastante difícil distinguir,
nas línguas de sinais, o gesto “linguístico” do gesto “não linguístico”,
já que a base material da língua é completamente gestual2.
2 Essa discussão também tem sido protagonizada pelos linguistas brasileiros Evani Viotti
e Leland McCleary no Grupo de Estudos da Comunidade Surda da Universidade de São
Paulo (ECS/USP). Para mais detalhes, confira McCleary e Viotti (2007,2011) e McCleary,
Viotti e Leite (2010).
59
Os processos de gramaticalização descritos porPfau acontecem
porque as línguas em contato são uma realidade, desde que as comu
nidades humanas não estejam completamente isoladas geografica
mente do contato com outras, como algumas - poucas - comunida
des indígenas no Amazonas ou mesmo no interior da África. Isso
é o que mostra Calvet (2002), que discute, entre outros tópicos, as
políticas linguísticas e as relações entre as comunidades humanas
por meio das línguas.
Segundo o sociolinguista francês, existem aproximadamente
7.000 línguas diferentes em cerca de 200 países, tornando, portanto,
todos os continentes superfícies plurilíngues. Esse dado nos mostra
que é praticamente impossível que as línguas não estejam em contato,
influência e interferência, especialmente no contexto pós-moderno,
globalizado e plural em que vivemos.
O pesquisador mostra, ao definir a sociolmguística enquanto
campo de contraposição aos estudos da linguística estruturalista
moderna, como o conceito de interferência elaborado pelo linguista
Uriel Weinreich se realiza quando línguas estão em contato. Para
Weinreich, as interferências podem acontecer no nível fônico, sintá
tico e lexical. Nas línguas de sinais, vemos interferências acontece
rem nos três níveis, como mostram os estudos recentes realizados
com a Libras sobre empréstimos linguísticos da língua portuguesa
e de outras línguas de sinais nos níveis fonológicos e morfológicos,
por exemplo.
60
2.4 Semelhanças e diferenças entre as línguas
orais-auditivas e as gesto-visuais
3 Wilcox e Wilcox (2005) debatem esse aspecto e defendem que os sinais deveríam ser
chamados de palavras porque são unidades lexicais, tal como as que existem em línguas
orais. Neste capítulo, para fins didáticos, assumiremos a designação sinal/sinms para
discutir as unidades lexicais da Libras.
61
naturais4. Suas pesquisas iniciais no campo da fonética e fonologia
mostraram que, tal como são as palavras, os sinais são passíveis de
decomposição em unidades menores. Segundo Xavier e Barbosa
(2014), assim como as vogais e as consoantes constituem as uni
dades sublexicais das unidades lexicais das línguas orais, Stokoe
mostrou que a configuração de mão, o movimento e o ponto de
articulação constituem unidades menores, descritíveis nos sinais
na língua de sinais americana (ASL)5, seu objeto de estudo.
Stokoe mostrou que os segmentos mínimos, chamados por eles em
um primeiro momento de quiremas, em contraposição aos fonemas,
organizavam-se de maneira diferente com relação às línguas orais.
Nesses primeiros estudos linguísticos sobre uma língua de sinais,
Stokoe identificou os traços distintivos mínimos da ASL e percebeu,
conforme afirma Leite (2008a), que os quiremas pareciam ocorrer
simultaneamente na ASL, ao passo que nas línguas orais os fonemas
ocorriam sequencialmente. Segundo Leite (2008a, p. 22): “Tal dife
rença seria atribuída ao fato de a modalidade oral-auditiva nnpor uma
linearidade sobre a cadeia de fala, os sons obrigatoriamente tendo
que se suceder uns aos outros ao longo do tempo, diferentemente do
que ocorria na composição do gesto no espaço”.
Confira no Quadro 2.1 a comparação da mesma oração feita no
português brasileiro e na Libras, com base na tese de Stokoe.
4 A expressão línguas naturais é utilizado pelos linguistas para contrapor a ideia de lín
guas artificiais. Certainente, nenhuma língua é “natural”, no sentido de que elas nascem
com/nos seres humanos, conforme defendem alguns ramos da linguística. Toda língua
é construída socialmente por meio da interação das comunidades humanas. Entretanto,
utilizaremos, neste texto, o termo usado pelos linguistas, a fim de manter a tese original
de Stokoe.
5 Em inglês, American Sign Langnage.
62
Quadro 2.1 - Exemplo de oração em português x Libras
O r a ç ã o : Eu vo u to m ar ág ua no copo
P o rt u g u ê s b r a s ile iro L ib r a s
L - f - J
6 Transcrição fonética conforme variação padrão de São Paulo feita pelo Portal da Língua
Portuguesa, disponível em: <[Link] Acesso em:
4 fev. 2019.
7 Exemplo retirado de Quadros e Karnopp (2004).
63
mínima, de maneira semelhante, ou seja, utilizam um conjunto limi
tado de elementos para uma produção ilimitada e produtiva (Leite,
2008a). No entanto, ele também revelou que essa organização se
diferencia devido à modalidade. E preciso salientar, no entanto, que
a linearidade é uma característica presente nas línguas de sinais, por
que este é um princípio estrutural nas línguas. O interesse de Stokoe,
nesse sentido, era mostrar que, no nível fonético-fonológico, havia
uma organização diferente em relação às línguas orais.
Pesquisadores identificaram outros traços distintivos mínimos
de sentido estabelecidos durante a produção de uma unidade lexi
cal. Battison (1974) e Friedman (1975) identificaram a orientação da
palma da mão como elemento importante para a produção de sentido
de um sinal e, mais tarde, Liddell (1978) propôs que os sinais não
manuais formados principalmente por determinadas combinações
de posição de cabeça e expressões faciais serviríam para delimitar
constituintes gramaticais como sintagmas e orações.
Com esses acréscimos às descrições de Stokoe, os seguintes parâ
metros fonológicos das línguas de sinais foram delimitados: confi
guração de mão (CM); movimento (M); localização (L); expressões
não manuais (ENMs); e orientação da palma da mão (Or). A alte
ração desses elementos durante a realização de um sinal pode, por
conta de seu caráter distintivo, resultar na realização de um sinal
diferente. Observe o exemplo de três pares mínimos distintivos
retirados de Leite (2008a).
64
Quadro 2.2 - Exemplos de pares mínimos
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
Semana Ir
65
alguma das unidades fonológicas podería produzir sentido adverso
do que o falante onginalmente pretendería8.
Além das dimensões sistêmicas e estruturais citadas, as línguas
gesto-visuais apresentam as mesmas características de funciona
mento e qualidades de qualquer outra língua, conforme mostra
Harisson (2013, p. 32):
66
4. Dupla articulação: é a característica das línguas de pos
suir um número finito de unidades (fonema ou quirema)
que isoladamente não têm significado. Apenas se forem
combinados a outros fonemas/quiremas adquirem signi
ficado. Por exemplo, os sons o,p, t, a, isolados, não têm
significado, mas ao serem combinados, como em pato
ou topa ou opta, ganham diferentes sentidos. Pode-se
compreender, então, que há duas camadas nas palavras,
uma de unidades menores e outra de unidades maiores.
67
já observada para as línguas orais. Os pesquisadores realizaram
um mapeamento neurológico em surdos que foram acometidos por
acidente vascular cerebral (AVC) e que ficaram com sequelas na
linguagem, a chamada afasia. As lesões causadas pelo AVC foram
nas mesmas regiões de processamento da linguagem de sujeitos
ouvintes que utilizam línguas orais. Isso mostrou que, do ponto
de vista neural, as línguas de sinais são processadas no hemisfério
esquerdo, nas regiões de Broca e de Wernicke, responsáveis pela
articulação e compreensão da linguagem.
68
Quadro 2.3 - Exemplos do mesmo sinal em três línguas distintas
69
Alguns dos objetos que apresentam uma forma visual
concreta influenciaram a forma dos seus sinais. Nesse
sentido, passamos a tratar da “íconicidade”, ou seja,
da identidade do signo linguístico e o seu significado.
Klima e Bellugí (1979) analisam detalhadamente a pos
sível iconicidade de alguns smais em diferentes línguas
de smais e concluem que ela é arbitrária, assim como os
demais sinais. (Quadros; Pizzio; Rezende, 2009, p. 15-16)
Sinal dassificador:
pessoa-andar (exemplo!)
Tyler Olson/Shutterstock
Sinal dassificador:
pessoa-andar (exemplo 2)
70
Desse modo, a relação signo/referente em línguas de modalidade
gesto-visual é mais ícônica que arbitrária, embora a arbitrariedade
esteja presente de maneira intensa nessas línguas.
Síntese
Indagações a respeito das comparações entre línguas orais-auditivas
e gesto-visuais existirão por muito tempo. Os estudos sobre as lín
guas de modalidade gesto-visual iniciadas por Stokoe abriram novas
frentes de pesquisas e descobertas nos campos de estudos linguísticos
para as línguas de sinais faladas pelas comunidades surdas ao redor
do mundo e, além disso, abalaram conceitos clássicos da linguística
moderna fundada por Ferdmand de Saussure.
A comprovação de que línguas dessa modalidade são sistemas lin
guísticos autônomos tais como as línguas orais-auditivas abriu espaço
para estudos em diferentes níveis de análises, tendo como consta
tação semelhanças linguísticas e especificidades entre as línguas
de smais e as orais. Pesquisas demonstraram que tanto nas línguas
espaço-visuais como nas línguas orais existem aspectos gramaticais,
linguísticos e interativos.
Aprendizes da língua de sinais, além de compreenderem esses
aspectos, necessitam entender conceitos como iconicidade e simul-
taneidade, além dos recursos da língua, pela sua modalidade ges-
tual-visual que se constrói nos sentidos e significados estabelecidos
no âmbito das comunidades surdas, buscando utilizá-los nas mais
diferentes situações comunicativas.
71
Atividades de autoavaliação
1. As línguas de modalidades oral-auditiva e gesto-visual apresentam
traços de diferença e de semelhança. Com base nessa afirmação,
assinale a alternativa correta:
a. Flexibilidade, criatividade, produtividade e variedade padrão
são as diferenças principais entre as duas modalidades.
b. As duas modalidades têm via de produção oral e via de recep
ção auditiva.
c. As vias de recepção e produção são diferentes e, por isso, não
há competição pelo canal articulatóno.
72
d. Nas línguas orais-auditivas e nas línguas gesto-visuais, a íco-
nicidade é aspecto constitutivo.
73
b. A gramática das línguas orais é influenciada pela das línguas
de sinais.
c. Ainda que estejam em contato, essas línguas não se influenciam.
d. A interferência linguística é um fenômeno natural que acon
tece porque línguas e comunidades estão em contato e, por
isso, línguas de sinais e orais podem se influenciar.
74
Atividades de aprendizagem
Questões para reflexão
1. A língua de sinais, por ser uma língua de modalidade gesto-visual,
é comumente confundida com a pantomima realizada por atores
profissionais. Entretanto, diferente da pantomima, a compreensão
da língua de sinais não se dá apenas associando os gestos aos refe
rentes, ou seja, como língua, a relação entre o signo gestual e os
referentes é bem limitada. Por outro lado, a dimensão gestual da
língua de sinais facilita a interação dos surdos com ouvintes, poi
se estar no limite entre a iconicidade da pantomima e a arbitra
riedade de um sistema linguístico. Reflita sobre as possibilidades
comunicativas que os surdos extraem da língua de smais para as
comunicações cotidianas.
2. A dimensão gestual da língua de smais possibilita uma maior
facilidade na interação entre os surdos e os ouvintes que não
conhecem essa língua. Certamente, essa interação será limitada
às situações mais corriqueiras. Caso a comunicação seja mais
complexa, faz-se necessária a presença de um intérprete. Você já
teve a oportunidade de se comunicar com surdos? Quais foram
os recursos que você utilizou nessa interação? Caso ainda não
saiba a língua de sinais e queira interagir com a comunidade
surda, faça uso dessa dimensão gestual que, aliada a uma boa
articulação orofacial e/ou à escrita, poderá ajudar em situações
comunicativas menos complexas.
75
Atividades aplicadas: prática
76
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■s. A vidaçáo dos d rei tos autorais é crime estabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 doC odgo Penal.
Mariana de Lima Isaac Leandro Campos
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
Joyce Cristina Sonza Almeida
N
este capítulo, tratamos do sistema linguístico da língua brasi
leira de sinais (Libras), considerando-a como forma de comu
nicação e expressão, dotada de uma estrutura gramatical própria, cuja
modalidade é de natureza gesto-visual e é utilizada pelas comunida
des surdas do Brasil, conforme reconhece a Lei n. 10.436, de 24 de
abril de 2002 (Brasil, 2002). O termo Libras representa a língua de
sinais utilizada no Brasil. Nesse sentido, vale ressaltar que cada país
possui a sua própria língua, seja ela oral ou de sinais. No que se refere
às línguas de sinais, temos no Brasil, além da Libras, a língua de
79
sinais urubu-caapor brasileira, utilizada pela comunidade indígena
homônima, localizada no Estado do Maranhão. Além dessas, existem
outras línguas de sinais, tais como a americana (ASL - American
Sign Language), a argentina (LSA- lengna de senas argentina) e a
britânica (BSL - Britisli Sign Language). Tal fato desconstrói o mito
de que a Libras seja uma língua universal.
As línguas de sinais são constituídas pelos mesmos elementos
gramaticais presentes nas línguas orais, pois são estruturadas a partir
de unidades mínimas que formam unidades mais complexas, isto
é, possuem níveis linguísticos nos âmbitos fonológico, morfológico,
sintático, semântico e pragmático.
A seguir, apresentamos os aspectos estruturais gramaticais pre
sentes na Libras.
80
antigo ou o inglês antigo (anglo-saxão), línguas não mais faladas,
mas conhecidas por meio dos registros escritos.
A linguística tem estado fortemente presente em outras áreas de
estudo, dialogando com a filosofia, filologia, educação, antropo
logia, sociologia, psicologia, neurologia, informática, entre outras.
Considerando tais áreas, a linguística se preocupa com a natureza
da linguagem e da comunicação e parte de pressupostos básicos que
determinam suas investigações (Saussure, 2012).
81
A seguir, elencamos as referidas áreas da linguística, fazendo
referência à língua brasileira de sinais - popularmente conhecida
como Libras.
82
Na língua de sinais, a fonologia tem a tarefa de identificar a estru
tura e a organização das unidades que compõem o sistema linguístico,
bem como estabelecer quais são as possíveis combinações e varia
ções entre as unidades, além de descrever os traços distintivos da
língua. Mas, que traços seriam esses? Havería traços comuns a todas
as línguas? No decorrer deste capítulo, analisaremos esses detalhes.
Em 1960, o linguista Stokoe, ao analisar a ASL, identificou ele
mentos gramaticais que permitiam denominá-la língua. Esse autor
comprovou que a ASL atendia aos critérios de uma língua genuína
e apontou três parâmetros principais que constituiríam os sinais,
classificando-os em: configuração de mão (CM), localização (L) ou
ponto de articulação (PA) e movimento (M).
Posteriormente, Battison (1974) e Klima e Bellugí, citados por
Quadros e Karnopp (2004), complementaram o quarto e o quinto
parâmetros desse sistema linguístico, sendo eles: orientação de mão
(OM) e expressão não manual (ENM). Desse modo, configuraram-se
os cinco parâmetros formacionais que compõem o sistema fonológico
das línguas de sinais.
83
pesquisas voltadas para essa língua passaram a enxergar aquilo
que antes era ignorado, trazendo grandes contribuições e avanços
nos estudos da língua de sinais brasileira.
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84
Algumas dessas configurações compõem o alfabeto manual, tam
bém conhecido como alfabeto datilológico ou datilologia, composto
por 27 letras (incluindo o grafema “ç” que é a mesma configuração
da mão da letra “c” com movimento trêmulo).
E importante lembrar que o alfabeto manual não é a língua de
sinais propriamente dita. Sua utilização ocorre quando se pretende
fazer referência a conceitos expressos por palavras da língua oral
majoritária que ainda não são expressos por um sinal convencional
da língua de sinais. Entre os casos em que a datilologia é empregada,
mencionamos os nomes próprios, as siglas, os elementos específi
cos e técnicos etc. Vale ressaltar que cada país possui o seu próprio
alfabeto manual e, consequentemente, uma própria língua de smais.
Na maioria dos países, o alfabeto manual é reproduzido com ape
nas uma das mãos, ficando a critério do sinalizante, seja ele surdo ou
ouvinte, utilizar a sua mão dominante. Já nos países britânicos, o alfa
beto manual é realizado com as duas mãos. A seguir, na Figura 3.2,
você pode conferir o alfabeto manual da Libras, e na Figura 3.3,
o dos Estados Unidos.
85
F ig u ra 3.2 - A lfa b e to m a n u a l d o Brasil
1^1
00
CTt
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Ecítcra I nterSaberes. A vidaçào dos dreitos autorais é crime estabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Cócígo Penal.
F ig u ra 3.3 - A lfa b e to m a n u a l d o s E stad os U n id o s
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
Além do alfabeto manual, existe também o alfabeto datilológico,
utilizado pelas pessoas surdocegas, executado com ambas as mãos
para soletraras palavras. Para soletrar, os surdocegos precisam segu
rar na mão do interlocutor para sentir o sinal. Acompanhe a seguir,
na Figura 3.4, uma ilustração desse alfabeto.
F ig u ra 3.4 - A lfa b e to m a n u a l d o s s u rd o c e g o s
88
3.2.2 Localização (L) ou ponto de articulação (PA)
89
Q u a d ro 3.1 - R e g iõ e s d e c o n ta to d e e x e c u ç ã o d o s sinais
C ab eça T ro n co M ão E sp a ço n e u tro
Queixo
Banheiro Amor
90
3.2.3 Movimento (M)
91
3.2.4 Orientação de mão (OM)
Trabalhar Televisão
92
3.2.5 Expressões não manuais (ENMs)
93
3.3 Morfologia
A morfologia estuda a estrutura, a formação e a classificação das
palavras (na língua portuguesa) ou dos sinais (em Libras). Para iden
tificarmos e compreendermos uma palavra, precisamos contar com
a informação fonética/fonológica (dominar a pronúncia, os sons,
a sequência de sons), a informação morfológica (saber como o plu
ral se forma, como o gênero é marcado, perceber as relações entre
as palavras), a informação sintática (saber onde a palavra se encaixa
na estrutura) e a informação semântica (compreender o significado -
ou os significados - da palavra) (Quadros; Karnopp, 2004).
A morfologia estuda isoladamente as palavras, ou seja, não consi
dera o contexto da frase. Morfemas são as unidades mínimas de signi
ficado que formam as palavras. Eles podem ser simples ou complexos
(nesse caso, constituídos de mais de um elemento). De acordo com
Quadros e Karnopp (2004), a formação de novas palavras envolve
diferentes processos na língua portuguesa, tais como a sufixação, a
prefixação, a composição, entre outros.
Por exemplo, na língua portuguesa existem algumas palavras
monomorfêmicas, isto é, constituídas com apenas um elemento (um
morfema - palavras monomorfêmicas), como acontece nos substan
tivos que não podem ser divididos em unidades semânticas menores,
tais como: sol, pai, mãe, céu. Na Libras, isso também acontece, por
exemplo: os sinais constituídos com apenas um elemento, tais como
para AMIG@ [amiga(s) ou amigo(s)] e AV@ [avó(s) ou avô(s)].
Lembrando que na Libras não há desmências para o uso específico
de gêneros (masculino e feminino) e número (plural). O sinal utilizado
para representar essas marcas é @, para reforçar a ideia de ausência
94
do gênero (Felipe; Monteiro, 2007). A seguir, na Figura 3.8, algumas
imagens para uma melhor compreensão dos sinais monomorfêmicos.
F ig u ra 3.8 - E x e m p lo s d e sinais m o n o m o r fê m ic o s
Amig@ Av@
95
Figura 3.9 - Sinal de precisar-não
Precisar
Precisar-não
96
F ig u ra 3.10 - E x e m p lo s d e v e rb o s na Libras q u e d ife re m d o s s u b s ta n ti
v o s p o r m e io d o m o v im e n to
Ouvir Ouvinte
Cortar Tesoura
97
Figura 3.11 - Exemplos de composição na Libras
98
mínimas com significado (morfemas) são combinadas” (Quadros;
Karnopp 2004, p. 87). As palavras complexas na língua portuguesa
são formadas pela adição de um prefixo ou sufixo a uma raiz, ao
passo que os sinais são formados de processos não concatenativos,
nos quais uma raiz é enriquecida com vários movimentos e contornos
no espaço de sinalização (Quadros; Karnopp, 2004).
Segundo Brito (1995, p. 42), “a modificação na duração e extensão
do movimento de alguns sinais pode acrescentar a ideia de grau e
os verbos multidirecionais apresentam flexão para pessoa e número
através da direção do movimento”. Lembramos que a estrutura da
Libras possui algumas propriedades específicas não encontradas na
língua portuguesa, como, por exemplo, a forma do sinal para especi
ficar número e quantificação. Segundo Brito (1995, p. 42), a Libras
99
o valor dual.
As imagens a seguir mostram exemplos de sinais que representam
100
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4 dias
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Bonit@ muito
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3.4 Semântica
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De acordo com Quadros e Karnopp (2004, p. 21), a semântica “é o
estudo do significado da palavra e da sentença”. Uma descrição
semântica pode ser expressa em diferentes níveis linguísticos: mor-
fológico, lexical, sintático, entre outros. Em português e na Libras,
alguns aspectos semânticos quanto ao significado das palavras são
sinonímia, antonímia, homonímia, paronímia e polissemia.
A seguir, apresentamos a definição de cada um desses aspectos
em ambas as línguas, a língua portuguesa e a Libras, acompanhados
de exemplos para uma melhor compreensão e comparação entre elas.
103
® Antonímia: Relação semântica entre palavras/sinais que
apresentam significação oposta. Por exemplo, antônimos são
acender!apagar, abrir!fechar e amar/odiar. A Figura 3.15 mos
tra um exemplo dos sinais para os antônimos antes e depois.
F ig u ra 3.15 - E x e m p lo d e a n to n ím ia na L ibra s
104
F ig u ra 3.16 - E x e m p lo s d e sinais h o m ô n im o s na Libras
Laranja/sábado
105
F ig u ra 3.17 - E x e m p lo s d e sinais p a rô n im o s na Libras
Lembrar
Segunda-feira
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® Polissemia: Segundo McCleaiy e Viotti (2009, p. 47), “A po-
lissemia se distingue, então, da homonímia, porque os dife
rentes signifi-cados de uma palavra polissêmica são todos bas
tante relacionados, histórica e conceitualmente” De acordo
com os autores, as expressões polissêmicas “têm uma única
fonte lexical e são resultados de processos de extensão de
significados” (McCleary; Viotti, 2009, p. 46).
3.5 Sintaxe
107
Nesse sentido, Quadros e Karnopp (2004) afirmam que a sintaxe
permite a combinação de palavras, mas com um olhar sempre atento
às restrições impostas por princípios (regras) que a determinam. Por
exemplo, entre as sentenças a seguir, fica fácil identificar qual delas
se enquadra nos princípios gramaticais estabelecidos pela língua por
tuguesa: a) “O menino caiu”; b) “Caiu menino o”; c) “O caiu menino”.
Qualquer pessoa com domínio do português teria condições de
julgara gramaticalidade dessas sentenças, pois quaisquer utentes da
língua portuguesa perceberíam a ausência de sentido nos exemplos
(b) e (c), tendo em vista a ordem estrutural e gramatical em português:
sujeito (S), verbo (V) e objeto (O) - estrutura conhecida por SVO.
Nas línguas de sinais, essa exigência em manter as sentenças
estruturadas no formato SVO não acontece, pois, diferente mente do
que ocorre nas línguas orais, as de smais são organizadas no espaço
e podem ser estruturas na ordem SOV, SVO ou VSO. Nesse sentido,
para Quadros e Karnopp (2004, p. 127), “analisar alguns aspectos
da sintaxe de uma língua de smais requer ‘enxergar’ esse sistema
que é visuoespacial e não oral-auditivo”
A maneira como a língua de sinais se organiza, ou seja, utilizan-
do-se do espaço, permite-nos pensar diferentes possibilidades de
combinações lexicais, estabelecendo relações gramaticais. Para que
tais relações ocorram, a utilização do sistema pronominal por meio
do uso de referentes, ou seja, a demarcação de seres ou objetos em
determinados pontos no espaço é de suma importância, pois “qual
quer referência usada no discurso requer o estabelecimento de um
local de sinalização (espaço definido na frente do corpo do sinaliza-
dor), observando várias restrições.” (Quadros; Karnopp, 2004, p. 127).
Na Libras, assim como nas demais línguas de sinais, os sinali-
zantes estabelecem uma relação com os referentes do discurso, que
108
podem, por sua vez, estar ou não presentes no ato de enunciação.
Uma vez demarcados os pontos específicos no espaço, tais referentes
poderão ser retomados sempre que necessário no discurso. Sendo
assim, “quando os referentes estão presentes, os pontos no espaço
são estabelecidos baseados na posição real ocupada pelo referente,
[...] quando os referentes estão ausentes da situação de enunciação,
são estabelecidos pontos abstratos no espaço” (Quadros; Karnopp,
2004, p. 130-131).
Segundo Baker e Cokely (1980, p. 227) e Loew, citado por Quadros
e Karnopp (2004, p. 127-130), o local de realização do sinal pode
ser referido por meio de vários mecanismos espaciais, por exemplo:
Laura está muito feliz, pois mudou-se com seus pais para uma
casa nova na cidade. O pai de Laura se chama João, e sua mãe
se chama Mana. Ele é formado em química, e ela, em pedagogia.
109
F ig u ra 3.18 - E x e m p lo d o m e s m o te x to e m Libras
na cidade
(continua)
110
(Figura [Link] —continuação)
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
(Figura 3.1X -conclusão)
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
ela é formada em Pedagogia
112
3.6 Pragmática
113
lemos “Laura está muito feliz, pois mudou-se com seus pais para uma
casa nova na cidade”, no mínimo duas idéias ficam subentendidas:
a primeira é que Laura, antes de se mudar com seus pais, não estava
feliz; possivelmente, Laura morava no campo, zona rural, já que eles
se mudaram para uma “casa nova na ciclade”. Já no trecho “O pai de
Laura se chama João, e sua mãe se chama Mana. Ele é formado em
química, e ela, em pedagogia.”, torna-se necessária a utilização da
dêixis para retomar os referentes (pai) e (mãe) ditos posteriormente
como el@ (para representar os pronomes ele e ela).
Obseive a seguir, na Figura 3.19, como seria a expressão desses
referentes em Libras.
F ig u ra 3.19 - E x e m p lo das re p re s e n ta ç õ e s d o s re fe re n te s
114
Síntese
A Libras foi oficialmente reconhecida como meio de comunicação e
expressão através da Lei n. 10.436/2002. Trata-se de uma língua de
modalidade visuoespacial, dotada de estrutura gramatical própria.
Vale ressaltar que a Libras representa a língua brasileira de sinais, o
que implica dizer que cada país tem a sua, desmistificando a ideia
de universalidade entre as línguas de sinais.
A partir dos estudos realizados pelo linguista William Stokoe
em 1960, que identificaram traços mínimos distintivos na língua de
sinais americana, também conhecidos como parâmetros, a linguística
passou a observar as línguas de sinais sob outro viés. Neste capítulo,
estudamos os níveis linguísticos da Libras, a saber: fonológico, mor-
fológico, sintático, semântico e pragmático. A seguir, apresentamos
dois esquemas que sintetizam e elencam os principais conceitos
expostos abordados.
Fonética
Fonologia
— Morfologia
Linguística
— Semântica
Sintaxe
— Pragmática
115
FO NOLOGIA M O RFO LOGIA SEM ÂN TICA
® Configuração de mão (CM) ® Monomorfêmicos Sinonímia
® Ponto de articulação (PA) ® Sinal composto Antonímia
® Movimento (M) (dois ou mais Homonímia
® Orientação da mão (OM) elementos) Paronímia
® Expressões não manuais ® Combinação Polissemia
(ENM) morfológica
Indicações culturais
ESTRUTURA gramatical da Libras por Ronice Quadros.
Disponível em: <[Link]
vuYwA>. Acesso em: 6 fev. 2019.
Nesse vídeo, Ronice Quadros, pesquisadora de renome nos estudos
das línguas de sinais, aborda as questões gramaticais relacionadas
à Libras e apresenta, de maneira bastante objetiva, os aspectos
fonológicos, morfológicos e sintáticos dessa língua.
116
Atividades de autoavaliação
1. Observe as imagens e, em seguida, responda à pergunta:
Grátis
Amarelo
117
2. Analise as afirmativas a seguir e indique (V) para as verdadeiras
e (F) para as falsas:
( ) A língua de sinais é universal.
( ) Todos os sinais são exclusivamente ícônicos.
( ) A língua de sinais permite expressar conceitos abstratos
e complexos.
( ) A língua de sinais não tem gramática.
Agora, assinale a alternativa que corresponde à sequência correta:
a. V, F, V, V.
b. F, F, V, F.
c. V, F, F, V.
d. V, F, V, F.
3. Assinale a alternativa correta em relação à paronímia:
a. Trata-se de um parâmetro complexo que pode envolver uma
vasta rede de formas e direções, desde os movimentos internos
da mão, os movimentos do pulso, os movimentos direcionais
no espaço, até conjuntos de movimentos no mesmo sinal.
b. É a relação semântica entre smais com significação semelhantes.
c. Refere-se a duas ou mais palavras/sinais com significados
diferentes, mas parecidas na pronúncia e escrita.
d. Diz respeito a uma propriedade de um mesmo sinal apresentar
vários sentidos e significados.
118
a. Cavalo, dia, perguntar.
b. Domingo, sábado, deficiente.
c. Dia, todo dia, domingo.
d. Sábado, direito, surdo.
Atividades de aprendizagem
Questões para reflexão
1. Após a leitura do capítulo, você deve ter notado que a Libras, assim
como qualquer outra língua, tem suas especificidades e está mti-
mamente relacionada aos fatores culturais das comunidades surdas.
Analisando a realidade dos usuários da Libras e relacionando-a aos
conhecimentos adquiridos, obseive os sinais referentes à palavra
goiaba, a seguir, e reflita: Algum desses sinais está correto? Porquê?
119
2. Sobre a questão do regionalismo nas línguas e a especificidade da
Libras, elabore uma pequena justificativa para a diferença entre
os sinais apresentados na atividade anterior.
Atividade aplicada: prática
120
quatro
capítulo
Estrutura
da Libras
e expressão
de conceitos
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
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■s. A vidaçáo dos d rei tos autorais é crime estabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 doC odgo Penal.
Vinícius Nascimento
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
Rimar Ramalho Segala
123
4.1 Para começar: o que significa expressar
conceitos em/por uma língua?
124
signos. Esse sistema partilhado, denominado língua, possibilita a
comunicação em uma comunidade específica. Sem ela, a comuni
cação, ficaria, de fato, comprometida. E só por meio da aquisição de
um sistema simbólico partilhado que podemos construir e expressar
conceitos. E é sobre isso que este capítulo tratará: a expressão de
conceitos em Libras.
Fiorin (2013a, p. 17) acentua que a linguagem é uma atividade
simbólica, o que significa que, por meio das palavras, nós, humanos,
criamos conceitos, ordenamos a realidade e categorizamos o mundo:
125
Lev Vygotsky (1896-1934), pensador russo que pesquisou o desen
volvimento das funções psicológicas superiores, salientou que é pela
linguagem que o pensamento se forma. Em sua obra A formação
social da mente, o autor declara que “Signos e palavras constituem
para as crianças, primeiro, acima de tudo, um meio de contato social
com outras pessoas. As funções cognitivas e comunicativas da
linguagem tornam-se, então, a base de uma forma nova e superior
de atividade das crianças, distmguindo-as dos animais” (Vygotsky,
2007, p. 18).
Em outra importante obra, Pensamento e linguagem, o autor
discute o processo de formação de conceitos na criança e no ado
lescente e afirma:
[•••]
126
ou palavra, como o meio pelo qual conduzimos as nossas
operações mentais, controlamos o seu curso e as canaliza
mos em direção à solução do problema que enfrentamos.
(Vygotsky, 2008, p. 70-73).
127
0 linguista pós-saussureano Émile Benveniste (1902-1976) dis
correu sobre como é possível um sujeito estabelecer comunicação
usando a língua e, por consequência (algo que não foi trabalhado,
específicamente, pelo autor), expressar conceitos. Ao discutir a enun-
ciação como o produto da apropriação da língua pelo falante, isto é,
“colocar em funcionamento a língua por ato individual de utilização”
(Benveniste, 1989, p. 82), esse linguista acentuou a importância de que,
para enunciar, faz-se necessário, sim, conforme defendia Ferdmand
de Saussure, um sistema semiótico convencionado socialmente.
Todavia, a língua, enquanto um dos diversos sistemas semióti-
cos possíveis de expressão, é o único dotado do que o autor chama
de dupla significância, ou seja, o fato de as línguas apresentarem,
ao mesmo tempo, duas dimensões indissociáveis de produção de
sentidos. Ele se refere à dimensão semiótica, engendrada pelo sis
tema da língua, e à dimensão semântica, movida pelo discurso,
pela língua em uso.
Nas palavras de Benveniste (1989, p. 64), “Ela [a língua] é
investida de uma dupla significância. Trata-se propriamente de
um modelo sem analogia. A língua combina dois modos distintos
de significância, que denominamos modo semiótico por um lado,
e modo semântico, por outro”.
Por meio desses dois níveis articulados, a língua se constitui
como um terreno comum, partilhado, de construção de conhe
cimento, percepção da realidade, compartilhamento de idéias e
expressão, legítima de uma determinada comunidade. Nesse sen
tido, ao expressarmos um conceito, pela língua, arbitramos nessas
duas dimensões: a do sistema comum partilhado (semiótico) e a do
semântico (sentido/significado).
128
Entretanto, se observarmos essa relação por outra perspectiva,
veremos, apriori, que a relação entre semiose e semântica não é dada,
e sim estabelecida na relação imanente da língua; o sistema não pode
atribuir sentido a si mesmo se não for mobilizado por sujeitos, isto é,
pelos falantes. 0 próprio Ferdinand de Saussure (2012), chamado de
“pai” do estruturalismo linguístico, salientou que não existe nada na
língua que não tenha passado pela fala.
Nessa discussão, se inserirmos o contexto, ou melhor, se inserir
mos essa relação em contextos, perceberemos que a dimensão semân
tica, de produção de sentidos e significados, dependerá do lugar em
que o signo é produzido, de quem está produzindo e, ímprescindi-
velmente, do momento sócio-histórico de produção. A leitura dessa
relação, por esse viés, pode ser encontrada no conjunto de trabalhos
elaborados pelo Círculo de Bakhtin, um grupo de intelectuais rus
sos que discutiram, no mício do século XX, entre diversas outras
manifestações humanas, a linguagem e a língua.
Para Bakhtm e Volochínov (2009, p. 109), por exemplo, “o sentido
da palavra é totalmente determinado por seu contexto”. Os autores
afirmaram, ainda: “de fato, há tantas significações possíveis quanto
contextos possíveis”. Por essa razão, até mesmo os conceitos que nos
parecem cristalizados, estáticos e reproduzíveis dependem de quatro
perguntas básicas: Quem? Quando? Onde? O quê?
Entretanto, mesmo com a produção linguística atrelada a deter
minados contextos, sujeitos e histórias, a expressão de conceitos só
é possível porque nossa capacidade humana de linguagem é desen
volvida nas e pelas relações com os outros, além de nos permitir
nos posicionarmos como sujeitos, a partir de um sistema semiótico
partilhado com determinada comunidade discursiva.
129
4.2 Expressão de conceitos em Libras: dimen
sões emotiva, metafórica e descritiva
Comojá compreendemos como se constitui o processo de elaboração,
construção e expressão de conceitos pela língua, a seguir, aprofunda-
mo-nos na especificidade da Libras na qualidade de sistema semió-
tico verbal partilhado por uma determinada comunidade: os surdos.
0 primeiro aspecto a ser observado é a modalidade linguística
dessa língua (conforme abordado no Capítulo 2). Segundo Quadros
e Karnopp (2004), as línguas de sinais constituem-se como sistemas
linguísticos gesto-visuais que têm como principais articuladores as
mãos (de acordo com o que estudamos no Capítulo 3).
Leite (2008a) salienta que as pesquisas linguísticas realizadas no
nível lònológico, na década de 1960, por William Stokoe, nos Estados
Unidos, mostraram que a modalidade linguística é extremamente
determinante para os usos das línguas de smais. Isto se atribui ao fato
de que “a modalidade oral-auditiva impõe uma linearidade sobre a
cadeia de fala, os sons obrigatoriamente, tendo que suceder uns aos
outros ao longo do tempo, diferente do que ocorria na composição
gesto e espaço” (Leite, 2008a, p. 22). A modalidade gesto-visual é
importante no processo de construção de conceitos, porque o espaço
é a base - o locus enunciativo - para se descrever, narrar e citar nos
âmbitos emocional, racional, literal, concreto ou abstrato.
Você já deve ter observado surdos papeando em rodas de conver
sas, shopping centers, ônibus, escolas etc. e reparou quão expres
siva é a comunicação estabelecida entre eles. Há quem diga que as
gestualidades constitutivas das línguas de sinais, visíveis a todos os
que observam falantes dessa língua em interação, não podem ser
130
mapeadas e/ou identificadas como sistemas linguísticos, com base na
pressuposição saussunana - de que, para ser língua, a materialidade
deve ser constituída de oralidade, e não de gesto.
Todavia, Sacks (2008), neurologista, pesquisador e escritor, na obra
clássica sobre o universo da língua de sinais, Vendo vozes, fez um
teste interessante com alguém que afirmava, categoricamente, que a
língua dos surdos é um sistema gestual mímico, pantomímico e sem
estatuto linguístico. O autor pediu ao sujeito que tinha essa opinião
que observasse dois surdos conversando na língua de sinais ameri
cana (ASL) e tentasse “traduzir” o que diziam. Com isso, pretendia
demonstrar que se os surdos usavam “mímicas”, a compreensão seria
fácil por qualquer um que as observasse. Corajosamente, o sujeito que
negava a condição linguística da língua de sinais aceitou o desafio
e tentou, obviamente sem sucesso, traduzir o que os surdos que ele
observava produziam em uma situação de interação.
Os falantes dessa língua, surdos ou ouvintes, fazem uso do que
os estudos linguísticos das línguas de sinais chamam de expressões
não manuais (ENMs), os quais correspondem às expressões faciais
e corporais presentes durante a sinalização e que funcionam nos
âmbitos linguístico (fazem parte do sistema da língua), enunciativo
(sem eles, não é possível enunciar-se, ou seja, falar de si, dos outros,
para si e para os outros) e discursivo (estão presentes em todas as
dimensões de comunicação constituintes da língua, marcando, entre
outros fatores, elementos comuns dos atos de fala na Libras).
As ENMs são consideradas unidades fonológicas que, se ampu
tadas da unidade lexical e dos enunciados nessa língua, não fazem
sentido. No entanto, elas mesmas, muitas vezes, sem estar atreladas
a um sinal específico, constituem unidades concretas enunciativas
131
em Libras. Foram identificadas como um elemento fonológico pelo
pesquisador americano Scott Liddell, em 1978. 0 autor observou
que o movimento de cabeça e algumas expressões faciais possuíam
papel gramatical durante a produção enunciativa em língua de sinais.
Depois dos estudos do Liddell, as ENMs foram inseridas como com
ponentes dos parâmetros fonológicos das línguas de smais.
Tais elementos possuem, segundo pesquisas linguísticas realiza
das até o presente momento, dupla função na comunicação: afetiva e
gramatical. Caso amputemos essa dimensão linguístico-discursiva de
um enunciado produzido em Libras, por exemplo, o sentido daquilo
que pretendemos dizer pode não ser compreendido. Discutiremos
mais adiante como essas duas funções articulam e constituem a
produção de conceitos em Libras.
132
da conversação1, das diferentes correntes da análise do discurso12 e
da semiótica3, vêm mapeando, cada campo em sua especificidade
epistêmica, esses elementos como componentes extraverbais, mas
que juntos com o enunciado linguístico produzem unidade de sentido.
Em Libras, esses recursos são de caráter linguístico sistêmico
e verbal, e apenas o uso das ENMs pode constituir um enunciado
linguístico. Os estudos linguísticos das línguas de sinais vêm apon
tando as ENMs como marcadores prosódicos. Segundo Leite (2008a),
os agrupamentos prosódicos nas línguas de sinais são marcados
pelas expressões compostas pelo olhar, por piscadas e, além disso,
por sinais manuais. O autor salienta, também, que outro recurso de
línguas dessas modalidades que pode ser relacionado à delimitação
de agrupamentos prosódicos é a inclinação do corpo, que envolve o
tronco como um todo ou apenas os ombros.
O uso de uma ENM facial, a depender do contexto de produção
e de quem sinaliza, expressa emoções, feições e sentimentos diretos
atrelados ou não a determinadas unidades lexicais, chamadas, na
Libras, de sinais. Um exemplo disso são os sinais correspondentes aos
sentimentos e estados emocionais dos falantes, como mostrados na
Figura 4.1, e que são marcados e atrelados apenas a um léxico manual.
133
F ig u ra 4.1 - ENM s e m Libras
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
0 caráter afetivo de um enunciado em Libras pode ser expresso
para além de um sinal e, para retomar Bakhtin e Volochínov (2009),
isso acontecerá a partir das situações concretas de interação, de
quem são os sujeitos envolvidos e, sobretudo, do contexto sócio-his-
tórico. No entanto, alguns sinais precisam estar atrelados ao uso
dessas ENMs para a produção de sentidos durante a comunicação.
Os exemplos citados na figura anterior mostram a condição emocio
nal do sinalizante. Caso as ENMs não sejam empregadas, o sentido
não será estabelecido apenas pela produção do sinal manual, pois os
dois precisam ser produzidos simultaneamente.
135
F ig u ra 4.2 - ENM s n e g a tiv a s
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
2. Afirmativas: Assim como as negativas, as ENMs afir
mativas são marcadas pelo balançar da cabeça, mas dessa
vez para cima e para baixo. Geralmente estão atreladas ao
arqueamento das sobrancelhas e à abertura dos lábios, sem
pre dependendo da intenção do falante e do seu projeto
discursivo. Certamente, existem outros modos de marcar
afirmação em Libras, mas a forma mais usual é a de balan
çar a cabeça repetidamente.
▲ a
136
3. Exclamativas: Nas ENMs exclamativas, há maior intensidade
no balançar da cabeça. Elas geralmente estão atreladas a um
movimento único, bem como ao fechamento, arredondamento
ou estiramento dos lábios. Observe os três exemplos a seguir.
Perfeito!
Extremamente inteligente!
Aprovado!
137
4. Interrogativas: No caso das ENMs interrogativas, a incli
nação da cabeça para cima, o franzimento da testa, o abai-
xamento e o arqueamento das sobrancelhas e o estiramento,
o encolhimento ou a abertura dos lábios têm papéis funda
mentais. Na Libras, há, ainda, o uso de elementos retóricos
em diferentes gêneros do discurso, marcados geralmente pelo
movimento das sobrancelhas e dos lábios atrelados a alguns
smais específicos.
Alguns sinais são muito usados como marcadores retó
ricos, por exemplo: o-que, quem, pra-que, como, por-que,
onde. Esses mesmos sinais podem funcionar, também, como
marcadores interrogativos, somados aos advérbios temporais
de quando-fnturo e quando-passado, aí sim usados em uma
situação de diálogo que “exija” uma resposta do interlocutor
envolvido no processo de interação em Libras.
Acompanhe a seguir os sinais utilizados como marcadores
retóricos e interrogativos. No caso de quem e o-que, perceba
que o smal manual é o mesmo, mas a diferença está, justa
mente, na ENM facial, especificamente no arredondamento
dos lábios para o-que e abertura para quem.
138
4.5 - ENMs in te rro g a tiv a s
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
(Figura 4.5 -continuação)
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais écrim e eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo arl. 184 do C ódgo Penal.
(Figura 4.5 —continuação)
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais écrim e eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo arl. 184 do C ódgo Penal.
(Figura 4.5 —conclusão)
Quando [futuro]
142
Em sua pesquisa de mestrado no Programa de Semiótica e
Linguística Geral da Universidade de São Paulo (USP), Renata
Moreira, com base na teoria dos espaços mentais aplicados à língua
de sinais (Liddell, 1995, 1996, 2000; Liddell; Metzger, 1998), des
creveu os pronomes demonstrativos e verbos indicadores na Libras.
Segundo a autora, os surdos usam o espaço de sinalização para criar
locais que serão associados às chamadas entidade dêiticas, enuncia-
tivas, por meio de sinais de apontamento.
Para Liddell e Metzger, citados por Moreira (2007), essas entidades
conceituais só podem ser criadas por meio da integração de espaços
mentais, pictóricos, representados e elaborados nas línguas sinaliza
das visualmente, no espaço físico em frente e ao redor do smalizante.
Com base nessas concepções, Moreira (2007) descreveu, na Libras,
três espaços mentais integrados descritos por Liddell (1995, 2000,
2003) na língua de sinais americana (ASL): o espaço real, o espaço
token e o espaço sub-rogado.
O primeiro espaço mental é o espaço real e se constitui em um
mapeamento cognitivo do espaço físico que rodeia um smalizante, o
qual é uma concepção individual do que é fisicamente real no espaço
de enunciação, ou seja, daquilo que está presente no locus enuncia-
tivo do smalizante. A autora afirma que “entidades que habitam esse
espaço também são “reais”, no sentido de que também são represen
tações mentais das pessoas que estão presentes fisicamente no local
e no tempo em que ocorre uma enunciação.” (Moreira, 2007, p. 46),
Segundo Moreira (2007, p. 46),
143
e correspondem aos lugares que as entidades ou as coi
sas ocupam, no momento e no espaço em que o sinali-
zante está. O espaço mental real é um espaço amplo. Um
sinalizante pode apontar para qualquer local que esteja
associado à representação mental de alguma entidade a
que ele queira se referir, não só no espaço restrito, em
frente ao seu corpo, mas em todo o espaço ao seu redor.
144
línguas de sinais, essa representação sob a forma de token é proje
tada no espaço que fica em frente ao corpo do sinalizante (espaço
de sinalização), um espaço limitado, no qual as mãos do sinalizante
são facilmente localizadas horizontal e verticalmente. Geralmente,
esse espaço mental limita-se, de acordo com os estudos de Liddell
(1995), à representação de terceira pessoa e podem ser usados para
referenciar pessoas e/ou coisas que não estão presentes no momento
e no local da enunciação.
Conforme Moreira (2007), existem algumas formas de localizar o
uso do espaço token em uma sinalização. A autora observou algumas
dessas formas na Libras:
145
Figura 4.7 - Espaço mental token5
Aquele Óculos
146
® as mudanças na expressão facial;
® expressões nominais que indicam a personagem representada
(Moreira, 2007, p. 52-53).
Aquele Homem
147
Geralmente, no processo de descrição de pessoas e personagens,
os smalizantes fazem uso do espaço sub-rogado, incorporando as
características daquilo que buscam descrever. Já objetos, usualmente,
são descritos no espaço token, quando o sinalizante aponta para
determinado ponto do espaço à frente de seu corpo ou na lateral e,
com isso, faz a descrição. E o espaço real comumente é utilizado para
incorporar pessoas ou coisas presentes no momento da enunciação.
Todavia, salientamos que tais espaços precisam estar atrela
dos, conforme discutido micialmente, aos contextos de produção.
Os exemplos nas figuras são apenas enunciados simulados para
mostrar as possibilidades de uso desses espaços. Para ver exemplos
de narrativas com o uso dos espaços mentais real, token e sub-ro-
gado integrados, acesse os vídeos sugeridos na seção “Indicações
culturais”, ao final deste capítulo.
148
Em Libras, assim como em todas as línguas naturais, a metáfora é
uma figura de linguagem bastante utilizada entre os surdos. 0 estudo
de Faria (2006) foi pioneiro em identificar unidades metafóricas
na língua de sinais utilizada no Brasil por meio de contraste com a
língua portuguesa. A pesquisadora, em sua pesquisa de mestrado,
identificou três tipos de metáforas:
149
Figura 4.9 - Metáfora semelhante
150
8
7
151
F igu ra 4.11 - M e tá fo ra d ife re n te : e x e m p lo 2 8
F ig u ra 4.11 - M e tá fo ra e q u iv a le n te 9
Arregaçar as mangas
152
Síntese
Neste capítulo, acompanhamos algumas maneiras de expressar con
ceitos em Libras. Todavia, existem muitos outros recursos dados
pela língua e pela modalidade linguística que contribuem para
expressar conceitos. Por ser uma língua, os conceitos expressos
por ela/nela são, obviamente, construídos no âmbito da partilha
cultural de seus falantes.
Os surdos participam do cotidiano da sociedade ouvinte e da cons
trução de artefatos culturais partilhados, mas também possuem expe
riências culturais singulares dadas pela condição de não ouvir e, mais
que isso, pela visualidade, que os constituem. Os próprios conceitos de
“ser surdo” e “ser ouvinte” só podem existir porque o convívio entre
as pessoas que ouvem e as que não ouvem acontece cotidianamente.
Há quem diga que o ouvinte é o outro do surdo e o surdo é o outro
do ouvinte. Essa relação conceituai só pode ser construída pelas
relações estabelecidas entre sujeitos históricos, sociais e culturais,
por meio das línguas orais e de sinais que são alguns dos terrenos
comuns partilhados por ambas as comunidades. Desse modo, emo
ções, descrições, metáforas, metonímias ou quaisquer outras dimen
sões expressivas podem ser realizadas em Libras.
153
Indicações culturais
MENSAGEM de Natal e Ano Novo para todos... 2015/2016.
Disponível em: <[Link]
3LOY&feature=[Link]>. Acesso em: 7 fev. 2019.
154
ESCOLA bilíngue para surdos??? Por que não escola bilíngue de
surdos? Disponível em: <[Link]
2Fck29XVsc>. Acesso em: 7 fev. 2019.
Nesse vídeo, o sinalizante apresenta um discurso político argu-
mentativo sobre os usos das preposições “de” e “para” (em portu
guês) no âmbito da escola de/para surdos. Para tanto, ele faz uso
de marcadores interrogativos retóricos em seu discurso.
BOLINHA de pmg-pong - Rimar R. Segala. Disponível em:
<[Link] Acesso
em: 7 fev. 2019.
155
Atividades de autoavaliação
1. Com relação à discussão realizada no texto sobre a expressão de
conceitos pela língua, podemos afirmar que:
a. Sem uma língua, é impossível expressar conceitos, pois é a
linguagem verbal que possibilita, enquanto conjunto de signos
internalizados no âmbito de uma comunidade socialmente
organizada, a conformação de idéias e da realidade por meio
da partilha desse mesmo sistema.
b. Um conceito pode ser expresso sem um sistema semiótico
partilhado, porque para ser representado não depende, neces
sariamente, de um signo verbal, mas, sim, de qualquer sistema,
como a dança, por exemplo.
c. A linguagem verbal é um sistema semiótico pobre porque
cada pessoa diz o que quer dizer independente do que o outro
é capaz de compreender.
d. 0 desenho é o melhor sistema para a elaboração de conceitos
complexos, uma vez que possibilita a expressão individual e
artística da nossa subjetividade.
2. Assinale a alternativa que indica as funções das ENMs nas lín
guas de sinais:
a. Função emotiva e função gramatical.
b. Função gramatical e função gráfica.
c. Função emotiva e função agramatical.
d. Função direcional e função gramatical.
156
4. Segundo a pesquisadora brasileira Moreira (2007), a descrição
em Libras pode ser feita por meio de dêiticos utilizados em espa
ços mentais integrados. O espaço mental sub-rogado é o que
possibilita:
a. a descrição de objetos empíricos presentes no espaço de
enunciação.
b. a descrição de objetos e sujeitos imaginários.
c. o apontamento de objetos e coisas distantes do sinalizante.
d. a descrição e incorporação de objetos, coisas e personagens
em seus tamanhos, formas e movimentos.
Atividades de aprendizagem
Questões para reflexão
157
com surdos dificulta a compreensão e a interação por meio dessa
língua. Reflita sobre como seria se comunicar em língua portu
guesa sem o uso das entonações e tente transpor isso às línguas
de sinais. Seria possível uma língua de sinais apenas com sinais
manuais e sem a expressividade de todo o corpo?
2. Em língua de sinais, o uso das apontações nos espaços à frente do
corpo para função dêitica constitui a enunciação. Entretanto, os
ouvintes também fazem uso delas durante a comunicação, mas,
conforme as expressões faciais e corporais, as apontações nas lín
guas orais possuem funções complementares à linguagem verbal.
Nas línguas de smais, a apontação tem função linguístico-discur-
siva e está atrelada à dimensão gesto-visual dessa língua. 0 uso
de espaços mentais na enunciação em língua de sinais refere-se
a elementos de coesão e coerência no discurso. Reflita sobre as
sobreposições espaciais em uma sinalização. Seria possível se
comunicar com surdos colocando todas as construções sintáticas
no espaço neutro à frente do corpo? Pense a respeito da necessi
dade de uso das apontações e dos espaços como aspectos discur
sivos em língua de smais.
158
expressões faciais gramaticais e emotivas que os seus professo
res têm ensinado durante as aulas. Será um exercício, no mínimo,
divertido e contribuirá para a sua expressividade nessa língua.
2. Entre as diferentes figuras de linguagem disponíveis nas línguas
para mobilizar e expressar conceitos e idéias, as metáforas encon-
tram-se entre as mais complexas. Em Libras, existem metáforas
que se assemelham às da língua portuguesa e outras que estão
ligadas ao universo cultural, linguístico e sensório-perceptivo
dos surdos. Faça uma pesquisa entre a comunidade surda sobre
diferentes tipos de metáforas e amplie seu vocabulário em relação
a essa figura de linguagem em Libras.
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Sarah Leite Lisbào
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
Cristina Broglia Feitosa de Lacerda
163
utilizamos para nos comunicar em diferentes regiões do Brasil e do
mundo. Por fim, abordamos alguns exemplos de uso da Libras que
nos fazem pensar sobre a língua e seu uso em diferentes espaços e
realidades. Estudos sobre tais aspectos estão surgindo aos poucos,
permitindo-nos conhecer e compreender melhor a Libras e sua rela
ção com outras línguas.
164
Nesse contexto, Eduard Huet, educador surdo francês, em junho
de 1855, chegou ao Brasil e entregou um relatório em língua francesa
ao Imperador D. Pedro II, no qual afirmava sua intenção de fundar
no Brasil um colégio para educar surdos. De acordo com Rocha
(citado por Sofiato, 2011), o relatório descrevia as experiências que
Huet teve enquanto diretor de uma instituição que atendia surdos
na França, demonstrando seu conhecimento sobre a educação de
surdos e a oportunidade de, naquele momento, propor a organização
de escolas semelhantes no Brasil.
Esse documento também apresentava propostas, cujo objetivo
era que o governo pudesse auxiliar na criação de um colégio, já que
a maioria dos surdos vinha de famílias pobres e sem condições de
pagar por sua educação. Assim, o imperador, em Io de janeiro de
1856, inaugurou o Collegio Nacional para Surdos-Mudos de Ambos
os Sexos, no Rio de Janeiro. Como requisitos para receber os alunos
surdos, o colégio promulgava, segundo Rocha (citado por Sofiato,
2011, p. 37), que os alunos deviam
165
consequentemente, inadequação para receber os alunos surdos que
ali viviam e estudavam.
Em 1857, o local da instituição foi transferido para uma casa maior
no Morro do Livramento. Em dezembro de 1861, Huet deixou a dire
ção do colégio, recebendo uma indenização pelo patrimônio material
deixado no local. Esse colégio fundado por Huet é onde funciona
atualmente o atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines).
Entre os vários diretores do colégio, destacamos o médico sani-
tarista Tobias Rabello Leite, que dirigiu a instituição a partir de
1868 por 28 anos, demonstrando interesse em melhorar o trabalho
realizado na educação dos surdos e compreensão em relação à lín
gua e à pessoa surda. Em relação à educação oferecida no instituto,
Tobias Leite não encontrava grandes dificuldades, já que esta era
baseada nas práticas do abade francês Charles-Michel de 1’Epée
(1712-1789), continuadas por seu aluno Roch-Ambroise Cucurron
Sicard (1742-1822) no Instituto Nacional dos Surdos-Mudos de Paris.
Huet havia trabalhado neste instituto e trouxe essa cultura educa
cional para o Brasil.
Naquele período, o método lancastenano, usado em Paris,
caracterizava-se pelo ensino individual por meio de monitores para
o desenvolvimento de atividades, bem como para a organização
geral da escola, a limpeza, entre outras tarefas. Neves (citado por
Sofiato, 2011) ressalta que esse método foi muito presente no ensino
de alunos surdos, pois fazia uso de repetições e memorizações, já
que se acreditava que esta seria uma forma de inibição à preguiça,
à ociosidade e podería despertar o desejo pela quietude nos alunos,
para gerar disciplina.
166
Para melhor acompanharmos o desenvolvimento da educação de
surdos em nosso país, parece interessante divulgar um levantamento
feito pelo diretor Tobias Leite, relativo ao mapeamento do número de
surdos matriculados nas diversas escolas das províncias pelo Brasil.
A população brasileira em 1870 era de dez milhões cento e doze mil
e sessenta e um habitantes (10.112.061), sendo que mil trezentos e
noventa e dois (1.392) eram surdos (Sofiato, 2011).
F ig u ra 5.1 - A lu n o s su rd o s m a tric u la d o s n o In s titu to N a c io n a l d o s
S u rd o s -M u d o s e m 1870
Haniidah Samutha Rangro on/Shuíter st ock
167
Esses dados nos mostram que o instituto recebia estudantes surdos
de diversas regiões do Brasil. No ano de 1870, havia 1.392 surdos que
frequentavam o instituto, oriundos de diferentes Estados brasileiros.
O maior número de alunos vinha do Estado de São Paulo (532 surdos),
e o menor contingente vinha do Amazonas (7 surdos).
Os alunos surdos educados no instituto foram responsáveis,
em muitos casos, pela divulgação do conhecimento lá ofertado.
Consequentemente, eram também agentes disseminadores da língua
de sinais no território brasileiro. De acordo com Brito (1993, p. 6),
esses surdos que vinham de todo o Brasil para estudar no instituto
tinham uma forte tendência a utilizar uma língua de sinais. E foi
essa utilização que originou a Língua de Sinais dos Centros Urbanos
Brasileiro (LSCB). Cem anos mais tarde, Brito (1995) começou suas
pesquisas sobre o tema.
Souza e Segala (2009) resgataram a difusão e promoção da lín
gua de sinais utilizadas no instituto por diversos alunos, como foi o
caso de Francisco, que havia saído de Santa Catarina para estudar
no instituto e, ao retornar para sua cidade natal, pôde transmitir o
que havia aprendido. Outros responsáveis pela difusão do aprendi
zado e da língua de sinais usada no instituto citados pelas autoras
foram um grupo de rapazes do Mato Grosso, entre eles os irmãos
Aquino, que também a difundiram.
Nesse contexto, destacamos outro importante personagem para
a educação de surdos no Brasil, o jovem Flausino José da Costa
Gama, ex-aluno do Instituto Nacional de Surdos-Mudos. Ele foi
considerado um excelente aluno, já que desenhava bem, era inteli
gente e um ótimo repetidor.
168
o repetidor tinha que assistir às aulas e depois repetir as
lições do professor aos alunos que tinha sob a sua res
ponsabilidade [...] acompanhava os alunos no recreio e
o seu retorno à sala de aula, acompanhava visitantes do
instituto, pernoitava com os outros alunos, corrigia os
exercícios dados pelo professor e fazia a sua substitui
ção quando necessário. (Rocha, citado por Sofiato, 2011,
p. 49-50)
169
Para conseguir realizar esse projeto, Tobias Leite buscou financia
mento, já que o instituto dispunha de poucos recursos. Pela impor
tância da elaboração do dicionário de língua de sinais, o diretor foi
à procura do Dr. Eduard Rensburg, proprietário de uma das mais
importantes oficinas de litografia do Rio de Janeiro. Rensburg con
cordou em ajudar na produção do dicionário, proporcionando a uti
lização de sua oficina para a impressão do material e, ainda, ofere-
cendo-se para ensinar a Flausmo a técnica usada para a impressão
da época, a litografia1.
Com o apoio de um dos maiores litógrafos do Rio de Janeiro,
a Iconographia dos signaes dos surdos-mudos foi publicada em 1873.
Assim, esse dicionário tornou-se o primeiro material impresso sobre
língua de sinais no Brasil. Inicialmente, foi reconhecido como uma
criação de Flausmo José da Gama, mas, de acordo com Sofiato (2011),
o aluno não criou o dicionário, mas, sim, copiou os sinais presentes
no dicionário do francês Pierre Pélissier. Naquela época (século XIX),
a concepção de copiar uma obra era diferente da atual, logo, esse ato
não era visto como errado; pelo contrário, era um ato que propiciava
a divulgação de um material importante (Sofiato, 2011). A meta era
divulgar a língua de sinais, e o exemplar francês encontrado serviu
de base para uma produção e impressão feita no Brasil.
A Figura 5.2, a seguir, indica uma das estampas presentes no
dicionário de Flausmo.
1 Gravura feita em pedra com apresentação da imagem em plano, inventada pelo alemão
Alois Senefelder em 1796. Permite velocidade na produção de imagens, ampliando possibi
lidades de representação. Pela maior resistência da pedra, favorece o aumento da tiragem
(Sofiato, 2011).
170
F ig u ra 5.2 - E sta m p a d o d ic io n á r io d e F la u sin o
Fonte: Gama, 1875.
Nenhuma psrte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a préwa autorização da Edtora InterSaberes. A wdaçào dos dreitos autorais é crime estabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do C ódgo Penal
Esse material reproduzido por Flausino se tornou referência para
as publicações de dicionários de língua de sinais no Brasil, sendo
elaborado a partir da mesma estrutura do dicionário de Pélissier.
Estruturas como a forma dos desenhos, as setas usadas para repre
sentar os movimentos dos sinais, as expressões faciais e a organi
zação do índice são exemplos de aspectos que Flausino reutilizou
para elaborar o dicionário. Essa obra foi de grande importância, já
que se trata de um marco para o registro de sinais feitos na língua
de sinais usada pelos surdos no Brasil, favorecendo que ela fosse
difundida para os surdos.
Contudo, apesar da publicação do dicionário, Sofiato (2011) reforça
que a principal função de Flausmo no instituto era como repetidor.
Cabe destacar que não havia o ensino da língua de smais no instituto,
mas a língua estava presente nesse contexto graças ao uso que os
alunos surdos faziam dela.
Após essa breve contextualização do início histórico da língua
de sinais no Brasil, passamos a tratar do início dos estudos dessa
língua em nosso país.
172
A publicação mais relevante para a trajetória dos estudos das lín
guas de sinais foi a de Stokoe, em 1960: SigiiLangiiage Structure. an
OiitUne o f the Visual Coinmumcalion Systems o f the American D eaf
(Stokoe, 2005). Em 1965, Stokoe, Casterline e Croneberg publicaram
A Dictionary o f American Sign Langnage on Lingnistic Principies,
o primeiro dicionário de língua de sinais produzido no século XX.
Com essas publicações, Stokoe conseguiu inserir as línguas de sinais
no campo de estudos das ciências linguísticas.
A partir do conhecimento dessas pesquisas e publicações, Brito
(1995) refletiu sobre os estudos das línguas de sinais comparadas
com as línguas orais, levando em consideração a diferença entre
essas modalidades e a interferência delas nas teorias linguísticas.
Estas, fortemente apoiadas na fala, consideravam os sinais pouco
arbitrários, desconheciam como lidar com a simultaneidade presente
nas línguas de sinais e eram desafiadas a considerar constitutivos
dos signos os parâmetros antes tidos como periféricos - por exemplo,
entonação e aspectos paralmguísticos (expressão facial) - no caso
das línguas de sinais.
Assim, após os estudos pioneiros de Stokoe, surgiram estudos
em diferentes partes do mundo, nas quais se aglomeravam surdos
buscando descrever e estudar diversas línguas de sinais, reafirmando
a importância do registro dessas línguas, com publicações que aca
baram por traçar e constituir o conhecimento tanto sobre a língua
de sinais quanto a respeito da cultura dessas comunidades surdas.
No Brasil, como já dissemos, a pesquisadora Lucinda Ferreira
Brito foi quem pnmeiramente se dedicou a estudar os aspectos lin
guísticos da língua de sinais. A primeira experiência dela com uma
língua de sinais veio da cultura dos índios urubu-kaapor, habitantes
da Floresta Amazônica brasileira, no estado do Maranhão, em 1982.
173
A pesquisadora conviveu com eles por um mês, registrando suas
experiências por meio de gravações. Brito deu visibilidade a uma
língua desconhecida até então, e os estudos da autora permitiram
afirmar que a língua de sinais que circulava nas grandes cidades -
nomeada por ela de língua de sinais dos centros urbanos brasileiros -
LSCB) se desenvolvia totalmente desvinculada da língua de sinais
dos indígenas urubu-caapor (LSKB2).
Brito (1993) analisou apenas o aspecto semântico (temporal e espa
cial) da LSCB e da LSKB. Para tal, a autora escolheu alguns parâme
tros gramaticais na LSCB para nortear sua análise, tais como: con
figuração de mão, ponto de articulação, movimento e orientação da
palma da mão. Em sua pesquisa, a autora chegou à seguinte conclusão:
174
Brito (1993) ressalta que na aldeia dos urubu-caapor a língua de
sinais era utilizada por uma parcela dos indígenas ouvintes, de modo
que eles poderíam ser considerados bilíngues por fazerem uso tanto
da língua oral nativa quanto da língua de sinais. Já os surdos eram
considerados monolíngues, pois faziam uso apenas da língua de
sinais. Nesse contexto, não havia exclusão da vida em comunidade
para os indígenas surdos.
Depois da imersão na aldeia dos urubu-kaapor, Brito passou a
percorrer o Brasil em busca de prováveis outras línguas de sinais.
Segundo a autora, no Brasil há, no mínimo, duas línguas de sinais, e
a utilizada pelos surdos que vivem nas capitais e em centros urbanos
brasileiros (LSCB) sofre variações, assim como o português utilizado
pelos ouvintes. Brito (1993) ressaltou, ainda, que a LSCB, assim como
o português, possui uma homogeneidade apenas aparente, já que
apresenta variações, com a possibilidade de serem encontrados sinais
diferentes para um mesmo conceito em diferentes regiões do país.
Outro aspecto destacado, e que acreditamos que seja legítimo, é a
influência que uma língua sofre por seu contato com outras línguas.
Assim como ocorreu com o português em relação a outras línguas
orais, a LSCB pode ter sofrido influência no contato com a língua
de sinais francesa (LSF) utilizada por Huet no interior do instituto.
Destacamos, também, que os surdos dos centros urbanos, em geral,
sofriam pressões para a oralização e aprendizagem do português
falado, enquanto os indígenas surdos da aldeia urubu-kaapor não
eram incitados a falar, e a língua de sinais era compartilhada pela
maioria da comunidade local (Brito, 1993).
Souza e Segala (2009) afirmam que a Libras como a conhecemos
hoje é resultado não apenas da LSF, mas sim da língua de sinais que
175
já era utilizada pelos surdos, bem como de outras que chegaram ao
Brasil na época da colonização por imigrantes.
Em 1995, Brito publicou uma gramática que descrevia princí
pios e aspectos linguísticos da língua de sinais usada nos centros
urbanos brasileiros (LSCB). Essa língua, posteriormente, por meio
da Lei n. 10.436, de 24 de abril de 2002 (Brasil, 2002), passou a ser
chamada de língua brasileira de sinais (Libras), refletindo a forma
como os próprios surdos passaram a chamar a língua que falavam.
Essa obra de Brito, além de levantar aspectos linguísticos que afirma
vam que a Libras tinha as mesmas características das línguas orais,
apontava que no território brasileiro, além do português como a lín
gua oficial, havia outras línguas, como a Libras e a LSKB, indicando
um plunlinguísmo em um país que, em geral, declara-se monolíngue.
Quadros e Karnopp (2004), no livro Língua de sinais brasileira,
estudos linguísticos, apresentam aspectos e parâmetros da Libras
antes não contemplados pelas obras mais antigas. No primeiro capí
tulo, as autoras apontam que a Libras revela aspectos linguísticos
como os encontrados nas demais línguas (fonética, fonologia, sintaxe,
semântica, arbitrariedade, dupla articulação, deslocamento, criativi
dade etc.). No segundo capítulo, elas se aprofundam no aspecto fono-
lógico da Libras (configuração de mão, movimento, locação, orien
tação da palma e expressões não manuais). Já no terceiro, abordam
a morfologia e o léxico da Libras. Por sua vez, no quarto e último
capítulo, elas focam na estrutura sintática da Libras (verbos, forma
interrogativa e concordância).
O material elaborado por Flausmo foi considerado por muitos
como um importante glossário da Libras. Apenas em 1969 surgiu
uma publicação, elaborada pelo missionário americano Eugênio
Oates, com a tentativa de registrar a língua de sinais que circulava
176
no Brasil, em uma obra nomeada Linguagem das mãos. Essa forma
de registro foi aceita somente por parte dos surdos usuários da lín
gua de sinais, já que documentava um pequeno conjunto de sinais
de uma determinada região do país (Brito, 1993).
Ainda na perspectiva de divulgar a Libras, em março de 2002,
a professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e
coordenadora da Federação Nacional de Educação e Integração dos
Surdos de São Paulo (Feneis), Tanya Felipe, desenvolveu um projeto
fruto da parceria entre o MEC e o Ines, culminado com a publica
ção do Dicionário Libras/Português em CD-ROM. Essa produção
permitiu uma rápida difusão do dicionário em versão digital, auxi
liando na construção identitária dos cidadãos surdos e no processo
de formação de sua língua.
Outra publicação a ser destacada é aquela considerada como
o primeiro dicionário de Libras, o Dicionário enciclopédico ilus
trado trilíngue de Libras (Capovilla; Raphael, citados por Ramos,
2003, p. 3). Esse dicionário foi resultado de um projeto do professor
Fernando Capovilla, do Instituto de Psicologia/USP (Ramos, 2003).
Em 2009, uma nova versão foi publicada, apresentando o dobro de
sinais em relação à versão anterior: 14 mil verbetes em português
que correspondem a 10.800 sinais em Libras (Capovilla; Raphael;
Maurício, 2013).
177
Porém, em virtude das ações do Instituto Nacional de Surdos-Mudos,
assume-se a possibilidade de que a LSF tenha contribuído para dar
origem à Libras tal como a conhecemos atualmente, por meio da
mistura da LSF às diferentes formas de sinalizar dos surdos oriun
dos de diferentes regiões do país. A língua sofria influências múlti
plas, mas sua divulgação e circulação eram relativamente restritas
se considerarmos que apenas uma parcela dos surdos brasileiros
frequentava o instituto.
Atualmente, essa situação se modificou profundamente. 0 uso de
webcams, telefones celulares com câmeras, vídeos disponibilizados
na internet e aplicativos apoiados em trocas de imagens, entre outros,
favorece que a Libras circule amplamente e que surdos de várias
regiões do país interajam em tempo real, ampliando as possibilidades
de partilha e construção conjunta dessa língua.
0 contexto tecnológico que estamos vivenciando possibilita a
comunicação por meio de diferentes formas: mensagem de textos,
vídeos, áudios, legenda, dublagem etc. e com diferentes pessoas, nos
mais diversos lugares e rapidamente. Por exemplo, o WhatsApp3se
tornou uma das ferramentas mais usadas pela comunidade surda,
não apenas como um aplicativo para recados ou conversas essen
ciais. Os surdos têm a opção de fazer uso das diversas ferramentas
do aplicativo, ao destinarem a conversa para alguém por meio de
vídeo ou mensagem de texto.
Além do WhatsApp, a comunidade surda também utiliza o
Facebook, a rede social mais utilizada na internet. Por meio de gru
pos com pessoas conhecedoras da área da surdez e da Libras, os inte
grantes dessa comunidade inserem e assistem a vídeos para dividir
3 Um dos comunica dores instantâneos mais famosos de todos os tempos, desenvolvido por
Jan Koum e Brian Acton.
178
informações, acompanham divulgações de eventos relacionados
à área, bem como notícias sobre interesses da comunidade surda.
Também é muito comum dividir conselhos, experiências e desabafos.
Os participantes desses grupos manifestam opiniões utilizando as
ferramentas da própria rede social, como “curtir” e “compartilhar”.
Também fazem comentários em português no espaço abaixo do vídeo
e enviam outros vídeos/outras publicações a pessoas específicas.
0 interessante dessa plataforma on-line é que os surdos podem gra
var mensagens em Libras de forma rápida e instantânea, e o com
partilhamento não precisa ser feito apenas para amigos surdos, mas
também para muitas pessoas, comunidades e grupos.
Esse exemplo de rede social nos permite refletir sobre como o
desenvolvimento tecnológico favoreceu e está favorecendo o desen
volvimento linguístico da Libras e do português escrito pelos surdos
no território brasileiro. Os usuários surdos, ao visualizarem as men
sagens nos grupos, entram em contato com as diferentes variações da
Libras, possibilitando trocas linguísticas e cada vez mais diminuindo
as barreiras em prol da ampliação da língua.
Assim, o desenvolvimento tecnológico revela com maior rapidez
a movimentação da língua - ora em direção à padronização, já que
sinais usados em uma região passam a ser usados nacionalmente
pela rapidez de sua difusão; ora em direção às particularidades
que a língua apresenta nas diferentes regiões e comunidades, já
que os modos de dizer no uso cotidiano ganham visibilidade e são
velozmente divulgados.
Desse modo, naturalmente, diferentes grupos criam, a todo
momento, diferentes formas de dizer algo, que vão ou não ganhando
estabilidade na língua. Algumas dessas formas têm rápida aceitação
179
dos usuários em âmbito nacional e se tomam usadas por todos; outras,
por sua vez, recebem apenas aceitação regional, ao passo que outras,
simplesmente, desaparecem. Esse fato não é prerrogativo da Libras,
mas, sim, um modo de funcionamento de toda e qualquer língua.
Para o linguista Marcos Bagno (2007, p. 35), “a língua é hetero
gênea, múltipla, variável, instável e está sempre em desconstrução
e em reconstrução”. Essa heterogeneidade constitui o que os lin
guistas denominam variação linguística, e a língua de sinais que
circula no território brasileiro, reconhecida e regulamentada como
um meio de comunicação e expressão legalmente autorizado para
ser usado pelas comunidades surdas em nosso país, está repleta de
variações linguísticas.
Bagno (2007) ressalta, ainda, que diversos fatores auxiliam na
constituição e variação linguística de uma língua, tais como:
180
® Faixa etária: Os mais jovens utilizam a língua de forma dife
rente em comparação com pessoas de idade mais avançada.
® Fator de gênero: Mulheres e homens também utilizam varia
das formas para se expressarem.
® Fator relacionado ao mercado de trabalho: 0 próprio tra
balho de uma pessoa pode revelar muito sobre o modo como
ela utiliza a língua. Por exemplo, médicos fazem escolhas
linguísticas diferenciadas das de um advogado, de um enge
nheiro, de um agricultor etc.
® Fator tecnológico: Por meio das redes sociais, utilizamos
recursos linguísticos variados, de acordo com a(s) pessoa(s)
com quem interagimos.
181
relacionado a moradores de regiões fronteiriças, usando dois idiomas
que, em contato, se enriquecem mutuamente, ocasionando, muitas
vezes, empréstimos linguísticos, entre outras influências. Um exem
plo de empréstimo linguístico entre línguas de sinais fronteiriças
pode ser visto na Figura 5.3, a seguir.
F ig u ra 5.3 - Sinal para a p a la vra a v e n tu ra
182
F ig u ra 5.4 - Sinal para a p a la vra b o i (s in a liz a d o n o m e io u rb a n o )
183
Já na Figura 5.5, é visível a expressividade (facial e corporal) da
sinalizante, que podería ser explicada pelo fato de os moradores do
meio rural terem uma relação muito mais frequente com o animal.
Esse exemplo nos ajuda a pensar que as experiências colaboram para
a relação dos usuários com a língua e seu modo de sinalizar.
Com relação à faixa etária dos falantes de Libras, selecionamos
uma frase para nos ajudar a refletir sobre aspectos diacrônicos4.
A sentença é “Olá, tudo bem?” e sua representação será abordada
considerando surdos com idade mais avançada e surdos mais jovens.
Veja, primeiramente, a Figura 5.6.
184
Figura 5.6 - Sinal para a sentença "Olá, tudo bem?" (sinalizado por sur
dos com idade mais avançada)
185
Figura 5.7 - Sinal para a sentença "Olá, tudo bem?" (sinalizado por sur
dos mais jovens)
186
atuam em diferentes profissões, podemos identificar o uso de sinais
específicos da área em que trabalham, já que cada esfera comercial
tem seu próprio jargão profissional. Um usuário pode fazer uso desse
jargão em sua vida cotidiana e, por isso, nem sempre ser bem com
preendido pelo outro usuário, e isso é comum nas práticas linguísticas.
Por fim, destacamos o fator tecnológico nas questões relativas
à variação linguística. No uso do Facebook, os vídeos podem ser
inseridos para serem visualizados por um amplo grupo de usuários
ou, ainda, por grupos de usuários mais restritos. Assim, na aber
tura dos vídeos, é comum observarmos uma saudação típica que
se ajusta ao número de destinatários: “Olá a todos” (número mais
restrito) ou “olá para todo o Brasil” (grupos mais amplos). Essa
característica de saudar se tornou uma forma típica dos vídeos nas
redes sociais. Mais estudos podem indicar novos modos de dizer
formatados para esse ambiente virtual, indicando modos específicos
de a língua se organizar.
Esses exemplos ilustram e reafirmam que a Libras funciona
como qualquer outra língua, apresentando regionalismos (variações),
neologismos (palavras novas criadas por seus usuários) e, por isso
mesmo, está em constante transformação e criação. Algumas das
variações regionais serão encontradas nos dicionários de Libras, ao
passo que outras não, porque as pesquisas voltadas para a diciona-
nzação da Libras ainda são recentes, e muitos itens lexicais ainda
não foram registrados.
187
Síntese
Neste capítulo, explicamos de que maneira a Libras surgiu histori
camente e como se disseminou pelo território brasileiro. Também
analisamos as formas a partir das quais a Libras, apesar de ter menor
abrangência nacional, exibe suas variações linguísticas, a exemplo
do que ocorre com as línguas orais.
E o uso da Libras pelas comunidades surdas em todo o país que
consolidará ou não formas novas de expressão nessa língua de sinais
e que favorecerá ou não tais registros em dicionários e gramáticas.
Os teóricos interessados na descrição das línguas trabalham tão
somente com a materialidade da língua que se apresenta nas relações
sociais. Na concepção de Tuxi (2015), quanto mais a comunidade
surda se inserir e participar dos diferentes espaços na/da sociedade,
mais seus integrantes serão impulsionados para a produção de novos
conceitos e termos na Libras. Consequentemente, será cada vez
mais importante refletir sobre a sistematização e padronização
dessa língua em construção.
Sabemos que é necessário ampliar os estudos nessa área para que
possamos evitar falsas interpretações ou equívocos sobre a Libras,
seu uso e sua autenticidade enquanto língua. Nessa direção, com
preenderemos mais e melhor como essa língua é utilizada em todo
o território brasileiro.
188
189
Indicações culturais
ANA. Direção: Manana Magnavita. Brasil/Reino Unido, 2004.
ir54".
Esse curta retrata o momento em que uma menina surda do
semiándo nordestino descobre a vida para além das fronteiras
de seu casebre.
Atividades de autoavaliação
1. 0 que significa a sigla LSCB?
a. Linguagem de Signos das Capitais Urbanas Brasileiras.
b. Linguagem de Signos dos Centros Urbanos do Brasil.
c. Língua de Signos das Cidades do Brasil.
d. Língua de Sinais dos Centros Urbanos Brasileiros.
190
2. Como a língua de sinais foi difundida a partir do Ines?
a. A língua de sinais foi difundida pelas mãos dos ex-alunos do
Imperial Instituto de Surdos-Mudos do Rio de Janeiro.
b. A língua de sinais foi difundida pelas mãos dos professores do
Imperial Instituto de Surdos-Mudos do Rio de Janeiro.
c. A língua de sinais foi difundida pelas mãos dos médicos e
ortofonistas do período imperial.
d. A língua de sinais foi difundida pela Igreja Católica.
191
5. Sobre os fatores linguísticos (variação linguística) apresentados
no capítulo, é possível afirmar:
a. Faixa etária, tecnologia, localização geográfica, mercado de
trabalho, distribuição socioeconômica, gênero e escolaridade
não são fatores que contribuem para as variações.
b. A Libras não apresenta regionalismos (variações) e neologismos.
c. Faixa etária, tecnologia, localização geográfica, mercado de
trabalho, distribuição socioeconômica, gênero e escolaridade
são fatores pertencentes ao campo da variação linguística.
d. A Libras apresenta menos regionalismos que as línguas orais.
Atividades de aprendizagem
Questões para reflexão
Guilherme Guatan/Flickr/CC BY
192
Atividade aplicada: prática
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■s. A vidaçáo dos d rei tos autorais é crime estabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 doC odgo Penal.
Variessei Regina cie Oliveira Martins
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
Sarah Leite Lisbão
197
além de que, ao final da leitura, o texto ofereça bases teóricas para
analisar as políticas atuais e as correntes filosóficas disseminadas
nos mais variados espaços educacionais.
198
reconhecida nacionalmente por meio da Lei n. 10.436, de 24 de abril
de 2002 (Brasil, 2002) e regulamentada pelo Decreto n. 5.626, de
22 de dezembro de 2005 (Brasil, 2005). Citando diretamente a legis
lação, verificamos:
199
Isso significa que a Libras deve estar na escola como direito
de mediação de instrução para a pessoa surda. Isso já é indício
de uma mudança de proposta, uma vez que a escola regular sem
pre trabalhou com a língua portuguesa como língua de instrução
escolar, voltando-se exclusivamente ao público que ouve. Ter que
lidar com a instrução pela Libras é, sem dúvida, uma tarefa inova
dora e desafiante. Além disso, se a Libras é uma língua reconhe
cida cientificamente por meio de inúmeras pesquisas (Brito, 1993,
1995; Perlin, 1998; Souza, 1998; Quadros; Karnopp, 2004), foi seu
reconhecimento legal que gerou ações governamentais e políticas
educacionais as quais veremos a seguir.
Portanto, atualmente, a discussão sobre o uso e a importância
da Libras sai da academia, desse ambiente de pesquisas, e passa
a circular nas esferas sociais, dentre elas, as instituições de ensino.
A Libras como língua de instrução para pessoas surdas, com seu
respaldo legal, necessariamente representa mudanças na dinâmica
escolar e curricular. Mais adiante, tratamos dessas questões e dos
desafios atuais para a implantação de programas educacionais bilín
gues para surdos nas escolas comuns e a manutenção e ampliação de
escolas bilíngues (conhecidas comumente como escolas de surdos).
Por hora, apresentamos os abalos e as mudanças históricas que
dizem respeito ao contexto educacional no campo da surdez. Vale res
saltar que ao modo da perspectiva de Michel Foucault (1979), a história
não é lmear, mas, sim, efeito de relações de poder e saber que culmi
nam em diferentes práticas. E com esse olhar que o autor alerta para os
questionamentos sociais sobre as práticas naturalizadas historicamente,
sendo que “só os conteúdos históricos podem permitir encontrar a
divagem dos confrontos, das lutas que as organizações funcionais ou
sistêmicas têm por objetivo mascarar” (Foucault, 1979, p. 170).
200
Desse modo, as ações e os discursos estão pautados em verdades
difundidas socialmente e que se articulam aos dispositivos escola
res, como parte da maquinaria social, mas camuflados na dinâmica
cotidiana. Como efeito, as ações mudam segundo novas concepções
e novos saberes. São esses saberes circulantes que serão trabalhados
neste capítulo, de modo a revelarmos práticas, propostas e ações
dentro das políticas educacionais voltadas à pessoa surda.
Isso significa que não há ações perpetuadas mfinitamente, sem
alterações. Pelo contrário, há movimentos e lutas constantes para
novas práticas sociais, configurando novos saberes. Isso dito, afir
mamos a presença da comunidade surda na luta pela aparição da
língua de sinais e de seus saberes, afrontando os modos impostos
de vida e de uso da língua oral, por exemplo (Luz, 2013). As mudan
ças na educação de surdos se deram por meio de lutas sociais que
colocaram em cena um novo modo de pensamento sobre a surdez,
o surdo e sua língua; isso porque os surdos enfrentaram e resistiram
à imposição dos ouvintes sobre seus corpos, seu modo de vida e a
forma de relação de suas aprendizagens produzida pela visualidade.
Segundo Luz (2013, p. 41), “quem vive uma língua de maneira
inteligível e irrestrita, tanto no sentido cultural quanto sensorial,
tem facilitadas experiências de aparição”. Isto é, um surdo que
pode utilizar uma língua que já de início não lhe confere nenhum
impedimento sensorial, sem dúvida se sente incluído e mais reali
zado no grupo social.
Ocorre que essa “aparição”, proposta por Luz (2013), não ocorre
de maneira simples, muito menos no interior da escola. Isso porque
presentificar a Libras e os aspectos culturais das pessoas surdas
no interior das práticas educacionais é desafio vigente e que se dá
por fatores humanos, por idéias circulantes, por uma padronização
201
do como e o que se ensina na escola, e, pnncipalmente, da língua
de instrução que deve se manter. Vale ressaltar a primazia para o
uso e circulação da língua oral portuguesa no Brasil. Poucos são
os espaços de uso da língua de sinais, o que reforça a luta pela
sobrevivência linguística desse grupo minoritário que “aparece”
por meio desse idioma (Luz, 2013).
Pois bem, a seguir abordamos o desafio de contextualizar o cená
rio educacional no campo da surdez até os dias atuais, uma vez que
estamos tratando das lutas políticas para a aparição da diferença.
Ressaltamos a escolha de alguns momentos históricos os quais jul
gamos ser significativos para pensar mudanças discursivas e práti
cas metodológicas assumidas em muitas escolas. Cada saber sobre
o surdo e a sua língua repercute em ações afirmando modos de
subjetividades ou de possíveis existências para as pessoas surdas,
marcadas por e dentro desses discursos.
202
uma maneira de estar atento às ações no presente e buscar outras
formas de existência, talvez mais justas - no caso das pessoas surdas.
Quem sabe, possibilitar, no mínimo, novos discursos e outros saberes
sobre a surdez, o corpo surdo e a língua de sinais.
Para nosso passeio histórico na educação de surdos, será necessário
fazer uma breve retrospectiva. Sabemos que durante a Antiguidade e
por quase toda a Idade Média pensava-se que os surdos não fossem
educáveis, ou, pior, que fossem imbecis. Tais idéias estavam basea
das na visão aristotélica de que a fala se atrelava ao ato de pensar,
portanto, um sujeito que não falasse estava necessariamente condi
cionado ao não pensamento, ao não uso da linguagem. A busca pela
cura da surdez, do mal ao corpo e da impotência que ela trazia ao
sujeito, que biologicamente era impedido de ouvir, foram chaves de
leitura para esse momento social, travando vários desdobramentos
práticos desses saberes postos em funcionamento (Lacerda, 1998b).
No início do século XVI, surgiram ações e discussões segundo
as quais os surdos poderíam aprender por meio de procedimentos
pedagógicos sem que houvesse interferências sobrenaturais ou curas
milagrosas da surdez. Muitos foram os relatos de educadores que
se dispuseram a trabalhar com surdos e apresentaram diferentes
resultados por meio dessas práticas pedagógicas. 0 foco principal
da educação das pessoas surdas era o desenvolvimento de seu pen
samento, a aquisição de conhecimentos e, por fim, a comunicação
com o mundo ouvinte. 0 caminho para isso era o ensino da fala e
a compreensão da língua falada. Podemos dizer que a fala, nesse
período, era considerada uma estratégia, em meio a outras, de se
alcançar o seguinte objetivo: desenvolver o pensamento e, conse
quentemente, adquirir linguagem, já que, sob essa ótica, a pessoa
surda estava privada de seu desenvolvimento global por não ouvir.
203
Todavia, as técnicas usadas para o ensino de surdos eram guar
dadas de modo silencioso. O segredo de tais ações nos permite
saber pouco sobre as estratégias utilizadas nesse período. Os sur
dos de famílias nobres eram acompanhados por professores par
ticulares, para que a fala lhes fosse ensinada. Assim, tais surdos
poderíam ter garantidos seus direitos legais. Pedro Ponce de Leon
é reconhecido como o primeiro professor de surdos narrado e
registrado historicamente.
E notório o quanto a fala se tornava fundamental na vida da pes
soa surda. Aqueles que não conseguissem desenvolver a oralidade
estavam fadados à segregação e ao não uso de seus direitos sociais
(Lacerda, 1998b). A cidadania nessa época estava atrelada à condição
de uso da oralidade, o que agregava poucos avanços para a derrubada
da concepção anstotélica de que o pensamento se desenvolvia pela
oralidade. E, mais, tal mentalidade levou à concepção de que para
ser “humano”, seria preciso desenvolver a fala, pois a linguagem oral
era a base para o desenvolvimento da atividade do pensar.
Vale ressaltar que além da atenção dada à fala, os alfabetos
manuais - formas manuais com possíveis relações entre letras e
gestos, criados pelos professores de surdos - eram usados como
estratégia de incentivo à leitura e escrita e, consequentemente, ao
ensino da oralidade. Portanto, todas as técnicas inventadas pelos
educadores nesse período visavam a levar o aluno surdo ao universo
da leitura e escrita e, por fim, ao aprendizado da fala.
A leitura labial também era usada como estratégia de incentivo
à aprendizagem dos surdos. Nesse período, tinha-se em mente que
“a aquisição da linguagem oral é pré-requisito para a aquisição da
linguagem escrita e, por isso, é dada a maior ênfase nas atividades
de treinamento dos órgãos fonoarticulatónos e aproveitamento dos
204
resíduos auditivos”. (Soares, 1999, p. 2). 0 ensino dos outros con
teúdos escolares ficava em segundo plano, uma vez que o objetivo
primordial era a atenção ao desenvolvimento da linguagem oral
para fazer do surdo um cidadão. Infelizmente, pouca coisa mudou
na atualidade, como ainda veremos.
Soares (1999, p. 24), em sua pesquisa, afirma:
205
educacionais que circulam nos dias atuais o oralismo, a comunicação
total e o bilinguismo, elementos que veremos mais adiante.
De modo geral, o que o oralismo e o gestualismo traziam de
divergências? O uso do gesto como forma de comunicação para e
entre surdos. Embora, no século XVI, as práticas oralistas, isto é,
o ensino fundamentado na oralidade fosse o mais usado, no decor
rer do século XVIII, as práticas gestualistas começaram a despontar.
Mesmo ainda vinculadas ao funcionamento da gramática das lín
guas orais, a prática gestualista gerou respeito à singularidade surda,
que, por não ouvir, podia exercer e se constituir por meio da visão.
A comunicação por um sistema gestual certamente é bem mais fácil
de ser aprendida, bem como para se estabelecer interações sociais
entre sujeitos que não ouvem. Parece óbvio, não? Mas a história nos
mostra contradições. Sobre isso Lacerda (1998b) afirma:
206
deixava-se a imensa maioria dos surdos de fora de toda
a possibilidade educativa, de toda a possibilidade de
desenvolvimento pessoal e de integração na sociedade,
obrigando-os a se organizar de forma quase clandestina.
Os segundos, gestualistas, eram mais tolerantes diante
das dificuldades do surdo com a língua falada e foram
capazes de ver que os surdos desenvolviam uma lingua
gem que, ainda que diferente da oral, era eficaz para a
comunicação e lhes abria as portas para o conhecimento
da cultura, incluindo aquele dirigido para a língua oral.
Com base nessas posições, já abertamente encontradas
no final do século XVIII, configuram-se duas orienta
ções divergentes na educação de surdos, que se mantive
ram em oposição até a atualidade, apesar das mudanças
havidas no desdobramento de propostas educacionais.
(Lacerda, 1998b)
207
presença de gestos (das línguas de sinais), tornando a aprendizagem
mais significativa. A disseminação de seu método de ensino teve
grande repercussão porque, diferente dos seus contemporâneos,
de TEpée não mantinha suas práticas em sigilo.
Ressaltamos que o abade Charles-
-Michel de TEpée foi sensível ao perce
ber nas interações entre surdos que o
uso de um sistema gestual funcionava
bem para a comunicação. Por isso, ele
considerou que esse seria o caminho
para a educação de surdos. Nos dias
Universal History Archive/Getty Images
208
Heinicke têm até hoje adeptos e defensores. (Lacerda,
1998b)
209
Na segunda metade do século XIX, o oralismo foi
ganhando maior número de adeptos. Entre eles, desta-
ca-se Alexandre Graham Bell, que se opondo, com força,
aos métodos gestuais, propõe o fim das escolas residen
ciais, a proibição de professores surdos, e indo além, a
interdição por lei, de casamentos entre surdos. (Luchesi,
2003, p. 20)
210
Iguais a quem? Por que medir o outro por um padrão de norma
lidade? Como as mudanças discursivas e conceituais ocorreram ao
longo da história e quais foram suas implicações no Brasil? Seguindo
os interesses de quem?
A história narrada aponta para uma forte prevalência do ensino
da língua oral para os surdos, que veem nessa decisão uma forma
de opressão, a qual acarreta uma recorrente invisibilização das pes
soas surdas, ou ainda, sua não aparição, como aponta Luz (2013) em
sua obra Cenas snrclas. O questionamento e a petição pela aparição
surda ocorrem e se mantêm nos dias atuais. Será que a história
educacional de surdos ainda marca opressões linguísticas? Desses
aspectos tratamos na sequência deste capítulo, quando abordamos
as abordagens educacionais de surdos e as lutas por políticas edu
cacionais bilíngues, de acordo com as quais a língua de smais deve
estar presente na escola. A história dos surdos é permeada por
mudanças, o que ocorre à medida que há lutas para alterações de
paradigmas e a entrada em cena da língua de sinais e do direito do
surdo de viver suas diferenças.
211
e os segundos, com a salvação das almas e a busca de uma comuni
cação que produzisse entendimento da palavra divina.
Desfeita a correlação da surdo-mudez, entendeu-se, a partir dos
estudos empreendidos na anatomia, que a surdez não estava colada à
mudez, e, portanto, os surdos teriam possibilidade de desenvolvimento
oral através de técnicas reabilitatónas (Lacerda, 1998a, 1998b; Soares,
1999; Luchesi, 2003). Houve, assim, um investimento e uma ligação
entre educação e saúde que perdura até os dias atuais. As abordagens
que apresentamos aqui não ocorreram de modo linear na história.
Uma foi “alterada” pela outra, mas, na correlação de suas existên
cias, tais saberes se mantêm quando analisamos as práticas escolares
vigentes. Embora haja prevalência em determinados momentos por
uma ou outra prática, elas não deixam de existir, e nos dias atuais
cada escola exerce um modo de pensar a educação de surdos, o que
se reflete nas concepções arraigadas sobre o surdo, a língua que ele
fala e as questões culturais da comunidade a que pertence.
Segundo Lacerda (1998b), no século XX se iniciaram maiores
estudos sobre a língua de smais. Com isso, reverberaram ações espe
cíficas na educação de surdos:
212
Como mencionado anteriormente, o encontro entre surdos favore
cia o contato e desenvolvimento de uma comunicação gestual. Desse
modo, ainda que oficialmente as práticas escolares estivessem car
regadas da concepção oral como forma ideal de comunicação, havia
resistências da comunidade surda para a manutenção de suas dife
renças por meio do uso dos sinais. Mais adiante, abordaremos o
porquê de o século XX ser considerado fecundo para as discussões
linguísticas da comunidade surda e para a aparição da língua de
sinais e seu status linguístico na academia.
Passemos às definições sobre as três abordagens educacionais
mencionadas neste capítulo. Primeiramente, apresentamos o ora-
lismo. Como sugere o nome, conforme o que já estudamos anterior
mente, o oralismo representou a abordagem que deu destaque ao
ensino da oralidade para os surdos. Ainda que a escola deixasse de
lado os conteúdos curriculares, a primazia era o desenvolvimento da
fala. Diante de todo o processo histórico, tendências a práticas ora-
listas são notórias. Tivemos reflexos no Brasil e no mundo, influen
ciando escolas e programas educacionais, os quais perduram até hoje.
Sob essa abordagem, o sujeito surdo é visto como deficiente, e a
falta de audição pode ser reparada se esse indivíduo aprender a falar.
No campo educacional, as práticas se voltaram para estratégias
de ensino da oralidade, deixando de lado outros conhecimentos
que deveríam ser adquiridos na escola. O principal elemento para
o sucesso do surdo nessa abordagem era a conquista da fala a qual
quer custo. Muitos surdos consideram essa abordagem excludente
do “ser surdo” (Perlin, 1998), na medida em que proporciona um
ensino homogêneo e desvaloriza a língua de sinais e a cultura surda,
que é visual. Portanto, a abordagem oralista tenta reformular o
corpo surdo na forma de um corpo ouvinte através do ensinamento
213
clínico que adentra o espaço escolar. Clínica e escola se tornam o
mesmo espaço: o surdo frequentaria, assim, uma instituição na qual
se ofereceríam condições de aprendizagem da fala, treinamentos
orofaciais, entre outras técnicas que desenvolveríam a cidadania
almejada pelo desenvolvimento oral.
Diante do insucesso de muitos surdos na escola por meio do ora-
lismo, surgiu, por volta de 1990, outra abordagem, nomeada comu
nicação total. Reforçamos que apesar de apresentarmos didática e
cronologicamente os períodos, as abordagens se fazem presentes
em muitas práticas escolares. A comunicação total ainda é muito
usada em escolas e por educadores. Embora se centralize ainda no
desenvolvimento oral, é menos radical que o oralismo, ao permitir o
uso de gestos, mímicas e outros recursos no ensino. Nessa filosofia,
tudo vale para a comunicação. O lema dessa abordagem é: o uso de
todos os recursos possíveis para o desenvolvimento da pessoa surda
e consequentemente da oralidade.
214
Podemos dizer que a comunicação total possibilitou, de algum
modo, o contato com gestos - o que era proibido pelo oralismo -,
embora não em uma estrutura linguística apropriada, já que os sinais
eram realizados de modo artificial e voltados à oralização. No entanto,
em um ambiente informal dentro da escola, mas não nas salas de
aulas, os surdos criaram espaços de convivências e de produção de
comunicação por meio da língua de sinais. “Essas línguas são fre
quentemente usadas entre os alunos, enquanto na relação com o pro
fessor é usado um misto de língua oral com sinais” (Lacerda, 1998b).
Em 1960, Stokoe demonstrou do ponto de vista científico o cará
ter linguístico das línguas de sinais, ao estudar a língua de sinais
americana (American Sign Langiiage - ASL). Nela, ele identificou
princípios estruturais semelhantes àqueles observados nas línguas
orais. Isso modificou, no âmbito da ciência, o modo de compreender
a língua de sinais e sua relação com o aprendiz surdo. Essa é a razão
de terem ocorrido mudanças discursivas e avanços nas relações de
empoderamento linguístico no século XX, conforme já apontado.
Em vez de, apenas, ser representativa de gestos ou mímicas, a língua
de smais passou a valer como sistema linguístico, ou mesmo como
uma representação gestual da língua, tal como os códigos manuais
usados na abordagem da comunicação total.
215
Muitas lutas foram travadas para que as conquistas de estudos na
academia pudessem se refletir em práticas escolares. Conforme já
explicado, nas escolas, os surdos em espaços extraclasse usavam a
língua de sinais. Todavia, na sala de aula, mesmo na abordagem da
comunicação total, a língua de sinais não tinha uma centralidade no
ensino, nem seu valor cultural merecido. Assim como no oralismo,
a comunicação total recebeu várias críticas. Primeiramente, por
não seguir uma linha metodológica de ensino única. Em segundo
lugar, porque, ao usar vários recursos e mesclas entre a língua de
sinais, gestos, leituras labiais, entre outras formas de comunicação,
a criança surda sentia-se perdida e não desenvolvia nenhuma lín
gua de fato. Relatos dessa abordagem apontam novamente para o
insucesso escolar de crianças surdas. Foram, então, propostas novas
buscas e outras formas de ensino.
Evidentemente, tudo isso ocorreu atrelado tanto aos estudos cien
tíficos sobre a surdez, a língua de sinais e a aquisição de linguagem,
a qual deveria ocorrer o mais cedo possível, quanto às lutas das
comunidades surdas espalhadas no Brasil e no mundo. Assim, novos
discursos puderam ser introduzidos na busca de uma centralidade na
língua de sinais e na diferença surda. Sabemos que o aprendizado da
língua de sinais é diferente do aprendizado da língua oral por parte
de estudantes surdos, dado que estes dependem de métodos sistema
tizados de ensino. Com isso, desenvolveu-se a proposta filosófica da
abordagem bilíngue, que passou a ganhar solo fértil contrapondo-se
ao oralismo de modo veemente.
0 bilinguismo corresponde à defesa da aprendizagem de duas
línguas: a língua de sinais como primeira língua a ser adquirida pela
criança surda o mais cedo possível; e a língua oral do país como
segunda língua na modalidade escrita. Logo, a escola passou a ser
216
vista como um espaço para a construção de conhecimentos culturais
através da língua de sinais. Para isso, seria necessário ter contato
com adultos surdos o mais cedo possível.
218
ideais disseminados na Declaração Mundial de Educação para Todos,
buscando o acolhimento de todos os ditos “excluídos” da escola e
sua (re)inserção na instituição escolar e na sociedade. 0 compro
misso estabelecido neste encontro, que contou com a participação
da Unesco e da Unicef, bem como com apoio do Banco Mundial e
de várias outras organizações, partiu da diretriz de que toda pessoa
tem direito à educação.
Esse evento, e as decisões e os compromissos nele assumidos,
afetou diretamente o Brasil com tais concepções, que, apesar de
justas, induzem a alguns desdobramentos não muito favoráveis para
a educação de surdos. Após esse movimento, outras ações foram
tomadas, mas foi por meio da Declaração de Salamanca, em 1994,
que alguns direitos educacionais passaram a ser garantidos de forma
mais precisa para as pessoas com deficiência: principalmente no
âmbito escolar, por meio da ação da educação especial como moda
lidade transversal de ensino.
Esses movimentos, da “educação para todos” e das propostas
advindas pela “Declaração de Salamanca”, repercutiram na filosofia
da educação mclusiva, numa perspectiva que visava à garantia de
ingresso e permanência das pessoas com deficiência nas escolas
comuns. Se para algumas deficiências essa proposta trouxe vanta
gens, para o campo da surdez trouxe muitas polêmicas. Estudar em
escolas inclusivas pode parecer algo favorável politicamente, mas
há controvérsias citadas pelas comunidades surdas, por conta das
diferenças linguísticas e culturais entre surdos e ouvintes, diferen
ciando modos de ensino.
A escola mclusiva mantém como base de ensino a língua oral -
no caso, a língua portuguesa. Consequentemente, exclui o surdo do
direito ao aprendizado pela língua de sinais. Portanto, é precipitado
219
dizer que o movimento surdo defende a exclusão ou segregação de pes
soas surdas ao apontar problemas na inclusão. 0 que os integrantes da
comunidade surda alegam é que na escola inclusiva há pouco espaço,
de fato, acessível aos surdos, pois não há trocas entre surdo-surdo,
e a maior parte dos professores não sabe a língua de sinais. Diante
disso, como ensinar um surdo sem o uso da Libras? Retomaremos
ao ensino exclusivo pela via oral aparentemente superado?
E certo que a língua de sinais não é adquirida sem contato com
falantes dessa língua. Como ficam as questões educacionais des
coladas das questões linguísticas? Posto isto, há a reivindicação da
manutenção de escolas de surdos que se constituem como espaços
bilíngues, nos quais a língua de sinais é ensinada como primeira
língua, e a língua oral, como segunda língua, na modalidade escrita1,
com valorização e transição de ambas as línguas no espaço escolar.
A política nacional favorece a perspectiva inclusiva. Diante disso, a
inclusão de pessoas surdas tem sido realizada por meio de intérpretes
de língua de sinais, o que não representa as demandas da comunidade
surda no que tange à educação básica. Afinal, o que fazem esses pro
fissionais? Interpretam os discursos de uma dada língua para outra:
no caso, da língua portuguesa, de instrução escolar, para a Libras.
Há, sobretudo, distintas formas de pensar a educação de sur
dos, o que repercute em práticas pedagógicas distintas. Sobre
essas políticas, a presença do intérprete passa a ser garantida pelo
Decreto n. 5.626, de 22 de dezembro de 2005 (Brasil, 2005) que
regulamenta a Lei n. 10.436, de 24 de abril de 2002 (Brasil, 2002) e
o art. 18 da Lei n. 10.098, de 19 de dezembro de 2000 (Brasil, 2000),
220
oferecendo-lhe o direito de acessibilidade linguística no espaço
escolar. Assim, vemos o fortalecimento e uma maior procura pela
atuação de intérpretes de língua de sinais nas escolas, atuando como
suporte para a realização da “tal” educação bilíngue nos espaços
inclusivos em que há surdos e ouvintes.
Por que, então, mencionar e problematizar a entrada do tradu
tor e intérprete de língua de sinais educacional (Tilse) na educação
básica principalmente, se é proposta do documento legal? Porque
o documento não propõe o Tilse nesta etapa de escolarização. No
entanto, a educação de surdos tem sido gerenciada pnncipalmente
pelas mãos de intérpretes, e essa prática não é consensual nas comu
nidades surdas que querem uma escola para surdos com docentes
fluentes em língua de smais - portanto, docentes bilíngues.
Tem sido atribuída à figura do intérprete educacional a função
de resolver os problemas educacionais de surdos. Como se ele, ao
adentrar o espaço escolar, pudesse erradicar os problemas correlatos
da própria inclusão, os quais ocorrem por uma política que prioriza
o fato de estar junto (a permanência de corpos, ou de diferenças, em
um mesmo espaço) em detrimento das mudanças estruturais e cur
riculares que particularizam e atendem às especificidades da surdez
(Thoma; Lopes, 2004; Thoma, 2006; Lacerda, 2006, 2010; Martins,
2008; Martins; Souza, 2011).
Essa política inclusiva tem sido pouco frutífera às questões que
envolvem o ensino de surdos: como as questões que envolvem a
aquisição da língua de sinais o mais cedo possível, os desafios e as
estratégias metodológicas de ensino de português escrito para surdos,
o ensino de conteúdos curriculares pela Libras, a produção de mate
riais didáticos nessa língua, entre outras questões. Outro agravante é
que no campo da educação “há uma visão estanque e instrumental de
que a fala do professor é retida e pode ser automaticamente passada
221
ao aluno, quando houver necessidade” (Martins; Souza, 2011, p. 76,
grifo nosso) e, desta forma, não se promovem mudanças estruturais,
já que se faz presente o pensamento de que a inclusão acontece por
meio dessa “passagem” neutra, direta e precisa de transposição de
discursos por um suposto agente que instrumentalmente se coloca
como objeto de intermediação de “falas”
No entanto, o intérprete de língua de sinais não atua de modo neu
tro na tradução dos conteúdos de uma língua para outra. Ele participa
das ações de ensino, muitas vezes sem formação específica. Ainda,
o mais alarmante é salientar que tal profissional, de modo isolado,
não dá conta de “resolver os problemas da inclusão”, nem tem essa
função (Lacerda, 2006, 2010).
Nos anexos do Plano Nacional de Educação (PNE), na meta 4.7,
foram propostas três formas de ensino de surdos (Brasil, 2014): por
meio de escolas bilíngues, classes bilíngues, e em escolas inclusivas.
Tais propostas se referem a modos possíveis de organização das redes
municipais e estatuais de ensino, levando em consideração as par
ticularidades de cada cidade e as concepções defendidas. No entanto,
destacamos a presença de, pelo menos, dois movimentos atualmente
existentes que reivindicam os discursos e fazeres da chamada inclu
são radical, que prioriza um ensino de surdos pelo modelo ouvinte,
em prol de outras práticas.
O primeiro segue a petição de ativistas surdos e ouvintes que
defendem a manutenção de escolas bilíngues, ou escolas de surdos,
nos moldes do Ines, por exemplo. Eles defendem a exclusividade de
estudantes surdos - embora não se proíba o ingresso de estudantes
ouvintes que queiram uma instrução bilíngue em Libras/português -,
a presença de professores fluentes na língua de sinais, modelos surdos
para a aquisição da linguagem por crianças surdas - pnncipalmente
222
as filhas de pais ouvintes, as quais entram na escola ainda fazendo
uso de gestos caseiros que se restringem ao atendimento de necessi
dades comunicativas primordiais da família.
0 segundo movimento refere-se à criação de escolas-polos com
salas bilíngues (para alunos surdos) em escolas comuns. Esse mani
festo não se faz na contramão das concepções apresentadas para a
manutenção das escolas de surdos, ou escolas bilíngues, conforme
o primeiro movimento, mas propõe uma alternativa para municípios
menores que não conseguem se organizar com escolas bilíngues.
Além disso, tal proposta se faz por meio de um enfrentamento da
realidade inclusiva, propondo outro tipo de escola “mclusiva” que
seja, de fato, bilíngue e que sofra alterações profundas para a ade
quação de um espaço que acolha os surdos. As duas propostas não
têm sido facilmente sustentadas, pois demandam muita luta para
aprovação. Novamente, isso ocorre graças às concepções sociais de
normalidade, bem como à padronização do ensino de surdos baseado
no ensino para ouvintes.
Sobre o segundo modelo, cabe destacar projetos de escolas-polo
de surdos em várias localidades do país. Destacamos algumas ações
oferecidas no interior do Estado de São Paulo, em municípios distin
tos, assessorados por pesquisadores e estudiosos da área da surdez.
Uma das pesquisadoras, Cristina B. F. de Lacerda, vem desenvol
vendo ações voltadas para a produção de uma educação bilíngue de
surdos nas escolas públicas. Destacamos, em especial, as assessonas
realizadas nos municípios de Piracicaba, Campinas e, atualmente,
São Carlos e São Paulo2.
223
Tais projetos produziram novos conhecimentos sobre o cotidiano
de escolas inclusivas e as possíveis mudanças para uma proposta
bilíngue para surdos, além de práticas de ensino de surdos na escola
inclusiva, com parceria de professores bilíngues, intérpretes de lín
gua de smais e instrutores surdos: uma equipe fundamental para o
desenvolvimento do ensino de surdos e do sucesso da construção
de uma escola bilíngue dentro da escola comum, muito diferente da
proposta de escolas inclusivas que circulam.
Evidentemente, conforme a petição do primeiro movimento que
recém-abordamos, é favorável trabalhar em prol da manutenção
de escolas de surdos nos municípios que conseguem mantê-las.
Todavia, em municípios que não comportam a estrutura de escolas
de surdos, há que se pensar em salas bilíngues em escolas-polos,
por exemplo, com atendimento adequado às demandas surdas, tal
como apontadas no PNE.
0 fato é que a Libras deve ser garantida como língua de instru
ção tanto nas escolas comuns, nas salas bilíngues, como nas escolas
bilíngues de surdos, e isso não é nada fácil, mas é um direito da
comunidade surda. Conformejá explicitamos, não estamos falando
de salas com intérpretes nos anos iniciais de escolaridade, mas, sim,
de professores bilíngues em Libras/português. A questão é que nos
anos iniciais (educação infantil e ensino fundamental), o aprendizado
por processo tradutório não tem se mostrado tão relevante, uma vez
que os alunos são muito pequenos e, na maioria dos casos, estão
em fase de aquisição da língua de sinais (Lodi; Lacerda, 2009), por
serem filhos de pais ouvintes.
Professores bilíngues, fluentes em Libras e em português, e pro
fessores surdos, diariamente constroem ou facilitam o processo de
uma aprendizagem mais significativa, à medida que os alunos surdos
224
avançam na aquisição de linguagem e, em paralelo, inserem-se nos
conteúdos curriculares dos anos em que estão. A atuação de intérpre
tes de língua de sinais nessa primeira etapa de ensino frustra porque
os conteúdos a serem traduzidos são pensados para alunos que ouvem,
bem como devido ao não conhecimento linguístico dos estudantes
surdos, que, assim, são incapazes de vivenciar a interpretação de
uma língua para outra.
A alfabetização de estudantes surdos não pode seguir os mesmos
parâmetros utilizados para os alunos ouvintes. As rotas de apren
dizagens são diferenciadas, e é preciso evidenciar essa diferença.
Exatamente por isso não é compatível que surdos e ouvintes sejam
alfabetizados nos mesmos espaços com as mesmas orientações apli
cadas de forma padronizada aos estudantes que ouvem. 0 que ocorre,
nesse caso? 0 intérprete se vê numa posição desajustada: não sabe
se muda o que foi proposto pelo professor, se interpreta e arrisca
deixar o aluno sem compreender*, se ensina a língua de sinais ou se
traduz. Isso porque na maioria dos casos as crianças surdas adentram
a escola sem saber língua de sinais.
Ainda, o reduzido número de surdos em uma sala de aula, dife
rente das salas bilíngues, dificulta o processo de aquisição de lingua
gem e de trocas dialógicas, fatores que favorecem o desenvolvimento
de surdos. Dessa forma, muitos alunos passam pelos anos iniciais,
chegando à segunda etapa do ensino fundamental sem ter domínio
225
da língua de sinais e sem os conteúdos básicos que deveríam ter estu
dado ao longo de, no mínimo, cinco anos - isso se só considerarmos
a formação no ensino fundamental I.
Podemos concluir que a educação de surdos no Brasil tem sido
campo para muitas lutas políticas e se pauta em várias controvérsias
sobre seu fazer. No entanto, as comunidades surdas sabem que a lín
gua de sinais deve ganhar espaço na escola como língua de instrução.
De fato, tais lutas têm caminhado para a produção de uma abordagem
bilíngue nas escolas, através da manutenção das escolas de surdos,
ou de salas bilíngues em escolas públicas - uma educação bilíngue
ainda em construção, mas necessária. 0 importante é contar com a
participação ativa de surdos pensando a escola que querem para si,
e não a continuidade da opressão de ouvintes no modo de ensino de
surdos - como proclamado no Congresso de Milão -, com imposição
das formas adequadas de ensino de surdos, sem a participação do
povo surdo nessa construção.
Uma educação bilíngue se faz com surdos, para surdos e pelos
surdos. Diante disso, apoiamos as mudanças históricas e continuamos
seguindo e partilhando lutas por uma educação mais justa e ética:
uma educação de surdos, e não uma educação de ouvintes para surdos.
A língua de sinais é uma língua sem impedimento para o surdo e que
o constitui de modo integral? Afirmamos que sim! Por ela, o sujeito
surdo pode, naturalmente, constituir-se como sujeito de direito sem
nenhum impedimento orgânico. Sendo assim, esperamos que esse
ponto de partida (a língua) seja pensado para produzir mudanças
curriculares, propostas visuais, já que os surdos se constituem pela
visão e precisam de uma pedagogia que corresponda a essa visuali-
dade que os constitui. São esses aspectos atuais que movem as lutas
surdas (Perlin, 1998).
226
Esperamos que este capítulo tenha lhe conferido argumentação o
suficiente para responder ao questionamento do início do texto: quais
são os problemas de a educação de surdos ser igual a uma educação
pensada para ouvintes.
Síntese
Neste capítulo, abordamos que a educação de surdos passou por diver
sos movimentos e distintas práticas educacionais. Tem sido comum
pensá-la por práticas homogêneas, na igualdade de ações para pessoas
que ouvem. Aspectos históricos mostram que a abordagem oralista
prevaleceu historicamente, e isso se revela pela relação de poder e
de controle no uso da língua oral, sendo essa a língua majoritária.
Portanto, práticas de exclusão linguística são recorrentes na história
da educação de surdos.
Também, analisamos os movimentos surdos, os quais, em sua mili
tância, têm reivindicado espaço de aparição na luta por sua diferença
e na busca pela construção de uma educação centrada na língua de
sinais. Tais movimentos têm sido fomentados por meio da aborda
gem filosófica bilíngue, a qual percebe a necessidade de aquisição
da língua de sinais o mais cedo possível. Sob essa ótica, a língua
de sinais passa a ser vista como a primeira língua, já que é a mais
natural para a pessoa surda, e a língua da comunidade majoritária é
tida como a segunda língua, na modalidade escrita. A reivindicação
dos surdos tem sido pela construção de uma ressignificação do con
ceito da inclusão escolar, através da presença de educadores surdos
na escola, da primazia pela língua de sinais e da visualidade como
elemento constitutivo do currículo escolar.
Discorremos, ainda, sobre as legislações brasileiras que reconhece
ram e regulamentaram a Libras como língua oficial das comunidades
227
surdas e língua de instrução escolar. Apontamos a importância do
intérprete (mediador entre línguas e culturas) como agente mtercul-
tural, não apenas na educação básica. Ressaltamos, também, que
a escola precisa de mudanças que vão além da simples entrada de
intérpretes para mediar discursos. Afirmamos que nos anos iniciais
as salas bilíngues ou escolas de surdos são os espaços mais indicados
para a aquisição de linguagem.
Por fim, é necessária a desconstrução do que nomeamos por inclu
são. Inclusão se faz com oportunidades iguais de conhecimento e
crescimento. A história mostra que os surdos têm lutado por uma
escola que seja, de fato, justa e acessível às diferenças linguísticas
que eles apresentam. Muitas conquistas foram realizadas, no entanto,
há muito ainda a ser feito para que essa inclusão ocorra. Só quando
a cultura surda e a língua de smais ganharem espaço social e edu
cacional é que teremos alcançado esse objetivo.
228
Atividades de autoavaliação
1. Quais são as abordagens educacionais presentes na história da
educação de surdos, mencionadas neste capítulo?
a. Comunicação total, construtivismo, escola nova.
b. Bilinguismo, comunicação total, construtivismo.
c. Escola nova, oralismo, comunicação total.
d. Oralismo, comunicação total, bilinguismo.
2. Assinale o evento que marcou a implantação do oralismo puro
como método de ensino exclusivo de surdos.
a. Declaração de Salamanca, em 1994.
b. Congresso de Milão, em 1880.
c. Congresso de Jomtien, em 1990.
d. Congresso das políticas públicas educacionais de surdos,
em 1854.
229
b. Abordagem educacional que defende a língua de sinais como
primeira língua e a língua oral da comunidade majoritária
como segunda língua na modalidade escrita.
c. Abordagem educacional que defende a língua de sinais como
primeira língua e a língua oral da comunidade majoritária
como segunda língua na modalidade falada.
d. Abordagem educacional que defende a língua de sinais como
língua exclusiva de ensmo para surdos.
Atividades de aprendizagem
Questões para reflexão
230
2. Assista ao documentário Sou surda e não sabia, disponível no
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
YouTube no seguinte link. <[Link]
v=Vw364_Oi4xc>. Acesso em: 8 fev. 2019.
Na sequência, reflita sobre as questões de identidade e surdez per
passadas pela presença da língua de sinais na vida da pessoa surda.
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Lara Ferreira dos Santos
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
Samantha Camargo Daroqne
235
como constituinte da identificação da pessoa surda, bem como da
comunidade e cultura surdas, oferecendo subsídios para que o aluno
possa compreender a Libras nos mais diversos contextos.
236
7.2 Concepções de linguagem e língua
237
Se partirmos da concepção de que a língua só existe em situa
ções reais entre falantes, compreenderemos que a Língua Brasileira
de Sinais insere-se nessa concepção. Todo enunciado proferido em
Libras é, portanto, carregado de sentidos e significados marcados
ideologicamente por seus usuários, de acordo com o momento por
eles vivenciado, sendo único e irreproduzível.
Nós assimilamos as várias formas da língua somente por meio das
diversas possibilidades de enunciações e, justamente, graças a elas.
As formas da língua e as maneiras pelas quais constituímos enuncia
dos, isto é, os gêneros do discurso, chegam à nossa experiência e à
nossa consciência em conjunto e estreitamente vinculadas. Aprender
a falar significa aprender a construir enunciados (porque falamos
por enunciados, e não por orações isoladas e, evidentemente, não
por palavras isoladas) (Bakhtin, 2010a, p. 283).
Assim, e em concordância com os princípios apresentados, a lín
gua de sinais é considerada língua, tanto como qualquer outra.
A modalidade difere daquelas social e comumente utilizadas, pois
a Libras se apresenta na modalidade visuogestual. Todavia, é possível
notar que, apesar de ser língua, a Libras não atinge a sociedade de
forma majoritária, permanecendo restrita a grupos e comunidades
minoritárias - não se observa a livre circulação da Libras nas mídias,
nos diferentes contextos sociais, no espaço educacional. E sobre esse
aspecto que discutiremos a seguir.
238
II Congresso de Milão. Nesse evento, organizado e coordenado em
sua maioria por profissionais ouvintes, determinou-se a proibição
da língua de sinais no mundo todo, nos espaços educacionais, visto
que se compreendia que ela atravancava o desenvolvimento da lín
gua oral (Lacerda, 1998b). Embora fora dos espaços acadêmicos a
língua continuasse sendo utilizada, não havia o reconhecimento
social de seu valor e sua importância.
Somada a essa decisão, à visão da deficiência sobre a pessoa
surda e ao fato de essa parcela da população ser uma minoria, a lín
gua de sinais permaneceu à margem da sociedade, no Brasil, durante
quase um século, e somente passou a ser discutida novamente após
seu reconhecimento, a partir da Lei n. 10.436/2002, quando foi reco
nhecida como meio legal de comunicação e expressão das comuni
dades surdas brasileiras.
Embora seu uso e difusão sejam legalmente assegurados, a Libras
continua sendo uma língua utilizada por uma parcela pequena da
sociedade e, em se tratando de língua de minorias, não adquire o
mesmo status da língua majoritária - em nosso país, o português.
Assim como outras línguas de grupos minoritários (tais como as
línguas indígenas), a Libras não tem a visibilidade desejada por
seus usuários, o que provoca uma série de barreiras comunicativas
e sociais aos surdos.
De acordo com Leite (2008b), aos poucos a sociedade vem trans
formando seu olhar sobre a pessoa surda e a língua de sinais. Contudo,
há, ainda, muitos mitos e concepções errôneas que provocam entraves
sociais. O autor afirma que a sociedade ainda trata a surdez como
uma doença/patologia, e isso traz consequências para o reconheci
mento não somente da língua, mas de uma comunidade, com iden
tidade e aspectos culturais diferenciados dos da maioria.
239
Em nossa sociedade, grupos minoritários com profundas dife
renças linguísticas sempre coincidem com minorias imigrantes, isto
é, estrangeiros cujo status linguístico e identitário diferenciado é
reconhecido, embora o fato de pertencerem a outro povo ou nação
possa torna-se fonte de discriminação. Frente aos surdos, no entanto,
o olhar discriminatório da sociedade majoritária assume uma pers
pectiva distinta. Não há, e nunca houve, qualquer polêmica quanto
ao fato de os surdos nascidos no Brasil serem considerados membros
da nação brasileira, tal como qualquer outro cidadão ouvinte nascido
aqui. Embora isso pareça constituir-se numa vantagem, o problema
acarretado por tais circunstâncias não é menor: não somente a língua
e cultura surdas carecem de um status igualitário frente à sociedade
ouvinte; elas sequer são reconhecidas em sua diferença (Leite, 2008b).
O autor ainda faz uma analogia com outros grupos minoritários,
como os homossexuais, alegando que devido à visão frequentemente
negativa sobre alguns aspectos dessa “diferença” pelas pessoas mais
próximas, esses indivíduos buscam, ainda que tardiamente, compar
tilhar suas condições e modo de vida com outras pessoas em situa
ção semelhante. Nesses casos, ocorre um afastamento da “família
biológica” e consequente aproximação da “família cultural”, visando
à partilha dos mesmos ideais e buscando o fortalecimento da autoes-
tima e do reconhecimento pela diferença (Leite, 2008b, p. 5). Com
relação às comunidades surdas, o elo dessa “família cultural”, não
se pode negar, está centrado pnncipalmente no uso de uma língua
que difere daquela que a sociedade majoritariamente utiliza.
Leite (2008b) afirma também que, atualmente, a sociedade
vem modificando sua visão sobre a língua de sinais; em virtude
de um discurso menos assistencialista e de maior respeito pelas
diferenças, a comunidade surda vem conquistando alguns direitos
240
importantes - fruto de suas lutas e movimentos em prol, não apenas
do reconhecimento da língua, mas de condições sociais igualitárias,
como acessibilidade (Brasil, 2000, 2010) e educação de qualidade
(Brasil, 2005). Entretanto, esclarecimentos se fazem necessários, pois
essa suposta aceitação mascara, ainda, alguns preconceitos.
241
disciplina curricular nos cursos de formação de professores, visando
a garantir aos surdos uma educação de melhor qualidade e com res
peito pela sua singularidade linguística.
Ao determinar a obrigatoriedade da disciplina, criaram-se alguns
entraves econômicos. Quem seria o professor a ministrar essa disci
plina? Que formação deveria ter? Onde seriam ofertados os cursos
de formação de docentes para ensino da Libras? O mesmo governo
que publicou o referido decreto passou a fazer uma série de investi
mentos para o uso e a difusão da Libras, com a criação de cursos em
instituições que visem à formação do professor dessa língua, bem
como na formação de tradutores e intérpretes de Libras, entre outros,
a fim de garantir que o texto da lei pudesse ser ofertado na prática
e estivesse ao alcance das comunidades surdas.
Por essa razão, houve um crescimento na oferta de cursos de Libras
na atualidade. Todavia, nem esse aumento, tampouco as ofertas de
cursos e/ou disciplinas, não garante a qualidade de ensino, nem a
proficiência para a atuação profissional - esta é a fonte dos inúme
ros equívocos acerca da Libras no contexto socioeconômico atual.
Acreditamos que a tendência, com o passar dos anos, é de que as
pessoas adquiram mais esclarecimentos a respeito dessa temática,
em virtude da crescente ampliação da presença de surdos, conforme
podemos observar atualmente, nos mais diversos setores sociais.
Asseguradas pela lei de acessibilidade (Brasil, 2000), as pessoas
surdas têm a possibilidade, nos dias atuais, de frequentar diversos
espaços sociais adequados às suas necessidades, ou seja, contando
com a presença de intérpretes de Libras. A imagem a seguir ilustra
um desses espaços. A Figura 7.1 traz um frcane de um pronuncia
mento do ex-Presidente Michel Temer em que vemos uma janela por
meio da qual uma sinalizante reproduz o discurso.
242
F ig u ra 7.1 - P ro n u n c ia m e n to d o e x-P re s id e n te M ic h e l Tem er, e m 25 d e
Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos clreitos autorais é crime estabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
m a io d e 2018, c o m ja n e la d e in te rp re ta ç ã o e m L ib ra s {fra m e d e v íd e o )
BRASÍLIA L
243
F ig u ra 7.2 - Sigla e lo g o tip o da C e n tra l d e In te rp re ta ç ã o d e Libras,
n o m u n ic íp io d e São P au lo
PREFEITURA DE
SÃO PAULO
P E S SO A COM
D E F IC IÊ N C IA
244
têm como primeira língua a Libras, e não a língua portuguesa - lín
gua majoritária no Brasil. Como um indivíduo surdo deve se sentir
sendo “estrangeiro” em seu próprio país? Ele vive em um país cuja
língua principal não lhe é acessível, onde os bens culturais também
são construídos e permeados por esta língua da maioria.
245
0 sujeito surdo, portanto, apesar de brasileiro, encontra-se na
fronteira entre a cultura de uma maioria e a cultura surda, marcada
pelo uso da Libras, afinal, as manifestações culturais dessa comu
nidade só adquirem significação por estarem em contato direto com
culturas outras, dos não surdos.
Nesse sentido, pessoas surdas usuárias da Libras se organizam
cultural e lmguisticamente, representadas/onentadas pelo seu mundo
visual, por vivências e experiências marcadas pela visualidade. Não
pretendemos, neste texto, encerrar as discussões acerca das concep
ções de cultura, haja vista as inúmeras correntes que atualmente
abordam a temática.
De acordo com Strobel (2008, p. 18) e sua concepção embasada
nos estudos culturais, “a cultura é uma ferramenta de transformação,
de percepção a forma de ver diferente, não mais de homogeneidade,
mas de vida social constitutiva de jeitos de ser [...]”, portanto, marca
de um determinado grupo, que surge justamente a partir dessas dife
renças quanto à visão de mundo, às percepções e aos modos de agir
e ser. Assim, esses grupos, com identidades e necessidades próprias
(e formas de usar a linguagem também), produzem elementos e bens
coletivos que desenvolvem no contato de seus integrantes, bem como
com outros grupos, com gerações passadas... E assim a cultura se
dissemina junto aos indivíduos desses grupos.
Com relação específica aos surdos, portanto,
246
nacional, no nível mundial. É uma comunidade que atra
vessa fronteiras. Por outro lado, eles fazem parte de uma
sociedade nacional, com uma língua de sinais própria e
com culturas partilhadas com pessoas ouvintes de seu
país. (Quadros; Sutton-Spence, 2006, p. 111)
247
modificação das políticas públicas, além de se organizarem a favor
da educação e integração dos surdos em parceria pelas principais
capitais do Brasil. Algumas dessas instituições são listadas a seguir:
248
eventos esportivos, entre outras organizações. Para os que desco
nhecem o universo dos surdos, a empreitada é rica, fascinante e
cheia de surpresas - indicações culturais e de sites de interesse
estão disponibilizados ao final do capítulo.
Há também outras produções que podemos observar quando esta
mos em contato com as comunidades surdas, tais como: obras de arte,
poesias, piadas, teatros e outros artefatos que representam a identi
dade e história das pessoas surdas. As figuras a seguir apresentam
alguns artistas relacionados a esse rico universo.
F ig u ra 7.3 - P ro d u ç ã o da a rtis ta p lá stica , p o e tis a e a triz surd a bra sile ira
F e rn a n d a M a c h a d o , c o m a te la in titu la d a M ã o s c la ssifíca d o ra s
249
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Nenhuma parle desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edlora InterSaberes. A violação dos dreilos autorais é crime eslabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
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c lo re s u rd o e m 2014
251
Síntese
Neste capítulo, buscamos tratar da existência da Libras, abordando
sua relevância nos mais diversos contextos sociais. A partir da explo
ração dos conceitos de língua e linguagem, esclarecemos questões
sobre o processo de ensino-aprendizagem dessa língua e menciona
mos também a atual legislação relacionada à temática.
Ainda, procuramos informar, por meio de discussões teóricas,
elementos atuais e imagens representativas, os locais onde podemos
encontrar a Libras na sociedade: no seio familiar, nas escolas, em
locais públicos e, ainda, em espaços culturais, tão pouco conhecidos
e difundidos entre membros da comunidade ouvinte.
Desejamos que o leitor, ao término deste capítulo, possa ter se
aproximado do universo dos surdos, deixando para trás algumas
idéias do senso comum e mitos a respeito da surdez e da Libras.
Q u e s tõ e s le ga is
A s p e c to s c u ltu ra is
A s p e c to s sociais e
re la c io n a d o s a Libras
s ta tu s d a Libras
Libras
A s p e c to s e c o n ô
m ic o s d e u so e
d ifu s ã o da Libras
252
Indicações culturais
FENEIS. Disponível em: <[Link] Acesso em: 8 fev.
2019.
FENEIS SÃO PAULO. Disponível em: <[Link]
Acesso em: 8 fev. 2019.
CULTURA SURDA. Disponível em: <[Link]
Acesso em: 8 fev. 2019.
LIBRAS0L. Disponível em: <[Link]
Acesso em: 8 fev. 2019.
Esses sites apresentam informações sobre elementos que compõem
o universo da surdez, tais como: Libras, cursos, eventos, tecnolo
gia, saúde, leis, educação, esportes, cultura, turismo, empregos e
espaços onde os surdos se encontram.
SENCITY. Disponível em: <[Link]
Acesso em: 8 fev. 2019.
A Sencity é uma festa itinerante feita especialmente para o público
surdo, criada por um finlandês que percorre vários países, com
passagem também pelo Brasil.
253
Atividades de autoavaliação
1. De acordo com a Lei n. 10.436/2002, a sigla Libras significa:
a. linguagem brasileira de sinais.
b. linguagem brasileira se surdos.
c. língua brasileira de sinais.
d. língua brasileira dos surdos-mudos.
254
c. a mesma cultura que a dos ouvintes, considerando que a única
diferença entre os grupos é a língua, o que não configura uma
diferença cultural.
d. a língua de sinais, já que esta, por si só, marca uma diferença,
inexistente entre outros grupos sociais como negros, indígenas,
ou comunidades de imigrantes que habitam o Brasil.
255
Atividades de aprendizagem
Questões para reflexão
256
Art. 3o A Libras deve ser inserida como disciplina cur
ricular obrigatória nos cursos de formação de professores
para o exercício do magistério, em nível médio e superior,
e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições de ensino,
públicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos
sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e
dos Municípios.
257
Diante do exposto e de todas as leituras já realizadas, reflita e
discuta com seus colegas e elabore um pequeno texto sobre o que
se espera/é possível aprender em uma disciplina de Libras para a
graduação, com duração entre 30 e 60 horas, e qual é o objetivo
dessa disciplina para a sua formação.
Atividade aplicada: prática
1. Faça uma entrevista com algum surdo usuário de Libras. Pode ser
tanto via rede social (via contato com associações de surdos ou
outras redes que auxiliem nesse contato) quanto presencialmente
nessas associações. Para essa entrevista, elabore quatro questões,
que abordem os conhecimentos adquiridos neste capítulo, tais
como: quando e como aprendeu a Libras; saber se a família usa a
Libras no espaço domiciliar; quais são os obstáculos/as barreiras
sociais que já enfrentou devido à surdez; questionar se há acessi
bilidade em eventos culturais em sua região, entre outras questões.
As perguntas devem ser abertas, porém, diretas/simples. Após
tomar nota das respostas, organize um quadro com a reprodução/
transcrição da fala do entrevistado. Troque idéias com seus colegas
a respeito da sua pesquisa.
258
Considerações finais
259
poderá desenvolver plenamente as funções sociais da linguagem
humana, se for exposta a essa língua.
A obra ainda pretendeu contribuir com a descrição dos aspectos
linguísticos que envolvem a língua brasileira de sinais (Libras), as
questões referentes à estrutura gramatical, ao funcionamento e uso,
bem como às variações linguísticas desse idioma que é atualmente
reconhecido como patrimônio cultural e linguístico no território
brasileiro, por meio do Decreto n. 5.626, de 22 de dezembro de
2005 (Brasil, 2005).
Outro fator desdobrado foi a apresentação das políticas atuais
(escolar e social) no âmbito da surdez como forma de assegurar a
disseminação social da Libras e a promoção de políticas linguísticas
que influenciem diretamente na promoção de mudanças educacio
nais, como a presença de educadores bilíngues, professores surdos e
intérpretes de língua de sinais, e, o mais importante, a Libras como
língua de instrução escolar. A circulação dessa língua na escola e nas
universidades só vem ocorrendo graças à perseverança dos surdos,
bem como dos ouvintes que aderiram à causa, através de movimen
tos políticos na reivindicação das comunidades surdas, em parceria
com a comunidade acadêmica que constantemente promove novas
pesquisas e saberes para o campo.
Algo importante que reiteramos, já no fim da leitura deste material,
é a importância do envolvimento dos estudantes e futuros docentes
no estudo da língua de sinais e das questões que envolvem a surdez
dentro das disciplinas de Libras, conquistadas por meio de documen
tos legais. Todavia, apenas cursar a disciplina de Libras, ou mesmo
fazer um estudo mais aprofundado, não garante a um sujeito o apren
dizado na prática, nem as relações necessárias de vínculo e parceria
com a comunidade surda, para a apreensão de aspectos culturais.
260
Além disso, também não assegura que ele, ao se formar docente,
futuramente, esteja de fato comprometido com os aspectos metodo
lógicos de adequação de uma aula para surdos - destacando aqui a
visualidade, ponto chave, guardadas as especificidades das pessoas
surdas, já mencionadas nesta obra.
De todo modo, você encontrou aqui um início de contato com as
questões que envolvem o campo da surdez em geral. Esperamos que
isso reverbere em incentivo para um aprofundamento e, quem sabe,
aumente seu interesse pela aproximação com a comunidade surda e
as temáticas de luta desta área de estudo e pesquisa.
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Nenhuma parle desla publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edtora InterSaberes. A violação dos dreitos autorais écrim e estabelecido na Lei n° 9 610/1998 e punido pelo art. 184 do C ódgo Penai
Nenhuma parle desla publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou fama sem a prévia autorização da Edtora InterSaberes. A «dação dos dreitos autorais écrime estabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
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Bibliografia comentada
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280
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Com linguagem clara e conceitos-chave sobre a temática, tal obra
se mostra relevante aos estudantes da disciplina de Libras.
GESSER, A. Libras?: que língua é essa? - crenças e preconceitos
em torno da língua de sinais e da realidade surda. São Paulo:
Parábola, 2009.
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Nenhuma parle desla publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edtora InterSaberes. A violação dos dreitos autorais écrim e estabelecido na Lei n° 9 610/1998 e punido pelo art. 184 do C ódgo Penai
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Capítulo 2
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Nenhuma parle desla publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Edtora InterSaberes. A violação dos dreitos autorais écrim e estabelecido na Lei n° 9 610/1998 e punido pelo art. 184 do C ódgo Penai
Nenhuma parle desla publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou fama sem a prévia autorização da Edtora InterSaberes. A «dação dos dreitos autorais écrime estabelecido na Lei n° 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Códgo Penal.
Sobre os autores
287
Cristina Broglia Feitosa de Lacerda
Graduada em Fonoaudiologia pela Universidade de São Paulo (1984),
mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (1992)
e doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas
(1996). Fez o pós-doutorado no Centro de Pesquisa Italiano (CNR/
Roma) em 2003. Atualmente é professora adjunta II da Universidade
Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenadora do Programa de
Pós-Graduação em Educação Especial (PPGEEs). Assessora de redes
municipais de educação para implantação e acompanhamento de
Programa de Educação Inclusiva Bilíngue em Piracicaba, Campinas,
São Paulo e São Carlos. Tem interesse em pesquisa na atuação do
intérprete educacional de Libras. E consultora de diversas agências
de fomento. Venceu o 56° Prêmio Jabuti (2014) na área de educação
pela obra Tenho um aluno surclo, e agora?.
288
Lara Ferreira dos Santos
Graduada em Fonoaudiologia pela Universidade Metodista de
Piracicaba (2003), mestre em Educação também pela Universidade
Metodista de Piracicaba (2007) e doutora em Educação Especial pela
Universidade Federal de São Carlos - UFSCar - (2014). Atualmente
é professora assistente da UFSCar e vice-coordenadora do curso
de bacharelado em Tradução e Interpretação em Libras/Língua
Portuguesa. Atuou comotradutoraintérprete de Libras em diversos
espaços, bem como enquanto assessora de redes municipais de edu
cação para acompanhamento de Programa de Educação Inclusiva
Bilíngue em Piracicaba, Campinas e São Carlos. Tem interesse de
pesquisa na atuação do intérprete educacional de Libras, formação do
mstrutor/educador surdo e educação bilíngue. Venceu o 56° Prêmio
Jabuti (2014) na área de educação pela obra Tenho nm aluno surdo,
e agora?.
289
Rimar Ramalho Segala
Graduado em Matemática pelo Centro Universitário Assunção (2004),
também possui licenciatura em Libras pela Universidade Federal
de Santa Catarina (2012) e é mestre em Estudos da Tradução pela
Universidade Federal de Santa Catarina (2010). Atualmente é pro
fessor assistente da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Atuou como docente em diversas universidades e tem experiência
como tradutor. Tem interesse de pesquisa na área de Letras, tradução,
educação, arte e literatura com ênfase em Língua Brasileira de Sinais.
290
Sarah Leite Lisbão
Graduada em Interpretação em Língua Brasileira de Smais pela
Universidade Metodista de Piracicaba (2008) e graduanda em
Letras-Espanhol pela Universidade Cruzeiro do Sul, em São
Carlos. Atualmente é servidora técnica-administrativa, no cargo
de tradutora e intérprete de Libras, na Universidade Federal de São
Carlos (UFSCar). Atuou como tradutora-intérprete de Libras nas
seguintes esferas: educacional, cultural e acadêmica, bem como
em conferências. Tem interesse de pesquisa na área de tradução e
interpretação em Libras.
291
Vinícius Nascimento
Graduado em Fonoaudiologia pela Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (2009), mestre (2011) e doutor (2017) em Linguística
Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo. Atualmente é professor assistente da
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Compõe a equipe
de assessona para o Programa de Educação Bilíngue de Surdos da
Secretaria de Educação da Cidade de São Paulo (2011-2012/2014-
2015). Atuou como tradutorintérprete de Libras em diferentes esferas
de atividade. Tem interesse de pesquisa em Libras, língua portu
guesa, educação bilíngue, tradução, interpretação, análise dialógica
do discurso (ADD), leitura e análise da verbo-visualidade, estudos
bakhtinianos e ergologia.
292
Estudar as línguas de sinais,
analisando desde suas estruturas
linguísticas até suas dimensões
culturais, é fundamental para que
possamos refletir sobre processos
que contribuem para a formação da
identidade dos sujeitos surdos.