Número 788 Brasília, 26 de setembro de 2023.
Este periódico destaca teses jurisprudenciais e não consiste em repositório oficial de jurisprudência.
PRIMEIRA SEÇÃO
PROCESSO AgInt na PET no REsp 1.908.497-RN, Rel. Ministra
Assusete Magalhães, Primeira Seção, por unanimidade,
julgado em 13/9/2023, DJe 20/9/2023.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
TEMA Recurso Especial representativo de controvérsia. Pedido
de ingresso de Amicus Curiae. Indeferimento. Art. 138 do
CPC. Agravo interno contra decisão indeferitória. Não
cabimento.
DESTAQUE
Não é cabível agravo interno contra decisão que indefere o ingresso de terceiro na
qualidade de amicus curiae em recurso especial representativo de controvérsia.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a analisar o cabimento de agravo interno contra decisão que
indefere o ingresso de terceiro na qualidade de amicus curiae em recurso especial representatitvo
de controvérsia.
Na doutrina, verifica-se que o cabimento do agravo interno contra decisão que indefere o
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 1/25
ingresso do amicus curiae no feito tem encontrado defensores em dois sentidos: ora em favor da
irrecorribilidade, defendendo que "o art. 138, caput, generalizou a inadmissibilidade do recurso
próprio contra o ato admitindo, ou não, a intervenção do amicus curiae, excepcionando, nesse caso,
o art. 1.015, IX, do NCPC", ora em defesa da recorribilidade, firme no sentido de que "o juiz ou
relator poderá, 'por decisão irrecorrível', 'solicitar ou admitir' a intervenção de amicus curiae. Vê-se,
assim, que a lei processual não estabelece a irrecorribilidade da decisão que não admite a
intervenção de amicus curiae, mas apenas daquela que o admite.
De igual modo, nesta Corte, em um primeiro momento, a Primeira Seção do STJ, sem
maiores embates, em 22/3/2017, no julgamento do AgRg na PET no REsp 1.336.026/PE (Rel.
Ministro Og Fernandes, Primeira Seção, DJe de 28/3/2017), conheceu do agravo interno, interposto
contra decisão que inadmitira o ingresso no feito de amicus curiae, negando-lhe, contudo,
provimento.
Na mesma linha, no julgamento do AgInt na Pet no REsp 1.657.156/RJ (Rel. Ministro
Benedito Gonçalves, Primeira Seção, DJe de 3/10/2017), após amplo debate, em 27/9/2017, a
Primeira Seção também concluiu, por unanimidade, ser cabível a interposição de agravo interno
contra a decisão que não admite a participação de terceiro como amicus curiae, considerando
irrecorrível apenas a decisão que solicita ou admite tal participação, nos termos da interpretação
literal dada ao art. 138 do CPC.
Todavia, ainda que tal posição tenha sido vencedora, em um primeiro momento, existem
precedentes ? inclusive posteriores aos mencionados julgamentos da Primeira Seção, ora no sentido
do não cabimento do recurso contra decisão que indefere o pedido de ingresso de amicus curiae, ora
no sentido de seu cabimento.
A dissipar dúvidas sobre o tema, a Corte Especial do STJ, por unanimidade, em 1º/8/2018,
no julgamento da Questão de Ordem no REsp 1.696.396/MT, afetado sob o rito dos recursos
repetitivos, decidiu que "a leitura do art. 138 do CPC/2015, não deixa dúvida de que a decisão
unipessoal que verse sobre a admissibilidade do amicus curiae não é impugnável por agravo
interno, seja porque o caput expressamente a coloca como uma decisão irrecorrível, seja porque o
§1º expressamente diz que a intervenção não autoriza a interposição de recursos, ressalvada a
oposição de embargos de declaração ou a interposição de recurso contra a decisão que julgar o
IRDR" (QO no REsp 1.696.396/MT, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Corte Especial, DJe de
19/12/2018).
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 2/25
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
Código de Processo Civil, art. 138
PRECEDENTES QUALIFICADOS
Tema 988
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 3/25
PRIMEIRA TURMA
PROCESSO AREsp 1.708.364-RJ, Rel. Ministro Gurgel de Faria,
Primeira Turma, por unanimidade, julgado em
12/9/2023.
RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO
TEMA Comercialização de medicamentos fornecidos por
hospitais. Margem de lucro. Resolução n. 2/2018 da
Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos.
Regulamentação da Lei n. 10.742/2003. Princípio da
legalidade. Inovação. Inexistência.
DESTAQUE
A Resolução n. 2/2018 da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos não
extrapolou do poder regulamentar ao fixar margem zero de sobrepreço em relação aos
medicamentos fornecidos por hospitais na prestação do serviço de assistência médica e estabelecer
sanção na hipótese de violação.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia consiste em saber, em resumo, se a Resolução n. 2/2018 da Câmara de
Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) desbordaram da sua função regulamentar,
disciplinando questões para além da lei regulada (Lei n. 10.742/2003).
No caso, não houve na resolução questionada normatividade capaz de efetivamente inovar
a ordem jurídica, porque esta (a ordem jurídica) já estabelecia a possibilidade de regulamentação e
seus limites, de modo que a norma regulamentadora se situa no âmbito da sua ordinária
competência executiva.
O Supremo Tribunal Federal, diante de contexto semelhante (RMS 28.487/DF), considerou
legal/constitucional a amplitude da delegação normativa conferida à CMED, entendendo ser aquela
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 4/25
necessária para fazer face à dinâmica e às peculiaridades técnicas do mercado de medicamentos.
O art. 6º, V, da Lei n. 10.742/2003 disciplina que compete à CMED estabelecer os critérios
para fixação da margem de comercialização, o que abrangeria, portanto, a hipótese em que fosse
fixada margem zero de sobrepreço em relação aos medicamentos fornecidos pelo hospital na
prestação do serviço de assistência médica.
Extrai-se dos arts. 4º e 5º da Lei n. 5.991/1973 que a negociação em si das drogas,
medicamentos e insumos farmacêuticos é privativa das unidades que exerçam como atividade
principal ou subsidiária o comércio, venda, fornecimento e distribuição daquelas substâncias,
situação jurídica não vivenciada pelos hospitais, cuja função primordial é de prestar o serviço de
assistência médica.
Caso em que a norma principal autorizou a norma secundária a disciplinar, de maneira
ampla, os procedimentos de controle do mercado de medicamentos - inclusive as margens de
comercialização - e expressamente admitiu a aplicação de sanção nas hipóteses de violação àquelas
regras que o próprio legislador quis que fossem criadas.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
Lei n. 10.742/2003, art. 6º, V
Lei n. 5.991/1973, arts. 4º e 5º
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 5/25
PROCESSO AgInt no AREsp 1.912.248-PE, Rel. Ministro Sérgio
Kukina, Primeira Turma, por unanimidade, julgado em
28/8/2023, DJe 31/8/2023.
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA Parcelamento. Leis n. 12.996/2014 e 11.941/2009.
Parcela antecipada. Utilização de prejuízos fiscais de IRPJ
e de base de cálculo negativa da CSLL. Impossibilidade.
DESTAQUE
Na ausência de previsão legal específica, não é possível a utilização da base de cálculo
negativa do CSLL e dos prejuízos fiscais para amortizar o valor a ser pago a título de antecipação de
parcelamento fiscal.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
De acordo com o posicionamento do STJ, ante a ausência de previsão legal específica, não
se mostra possível a utilização da base de cálculo negativa do CSLL e dos prejuízos fiscais para
amortizar o valor a ser pago a título de antecipação do parcelamento. Nessa mesma linha, tem-se
que "na ausência de previsão legal específica, não é possível a utilização da base de cálculo negativa
do CSLL e dos prejuízos fiscais para amortizar o valor a ser pago a título de antecipação do
parcelamento, tendo em vista que, tratando-se de benefício fiscal, deve o aplicador do direito utilizar
a interpretação literal da legislação de regência" (AgInt no REsp n. 2.019.687/PR, relator Ministro
Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 12/6/2023, DJe de 14/6/2023).
Registra-se, ainda, que o remansoso posicionamento deste Tribunal Superior no sentido
de que a utilização de prejuízos fiscais de IRPJ e de bases negativas da CSLL deve obedecer aos ritos
e às possibilidades expressamente previstas em lei. A propósito: "(...) A compensação dos prejuízos
fiscais de IRPJ e bases de cálculo negativas da CSLL com os demais tributos administrados pela
Secretaria da Receita Federal somente é possível excepcionalmente, nas situações expressamente
previstas em lei. Esse fato é de conhecimento da própria recorrente que listou várias dessas leis de
parcelamentos especiais que abrem excepcionalmente essa possibilidade, para determinados
débitos fiscais e com vigência limitada no tempo. Nunca é demasiado lembrar que este STJ tem
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 6/25
julgado em sede de recurso repetitivo no sentido de que a lei aplicável à compensação é aquela
vigente na data do pedido (REsp 1.137.738/SP, Primeira Seção, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em
9/12/2009) e não há qualquer lei em vigor que autorize o pleito" (AgInt no AgInt nos EDcl no AREsp
1.758.987/SP, relator Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 16/5/2022,
DJe de 19/5/2022).
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
Lei n. 12.996/2014
Lei n. 11.941/2009
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 7/25
SEGUNDA TURMA
PROCESSO AgInt no REsp 1.880.724-SP, Rel. Ministro Francisco
Falcão, Segunda Turma, por unanimidade, julgado em
12/9/2023, DJe 15/9/2023.
RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO
TEMA PIS e COFINS. Comissões pagas a Agentes Autônomos de
Investimento (AAIs). Corretora de câmbio e valores
mobiliários. Inclusão na base de cálculo. Obrigatoriedade.
DESTAQUE
É devida a inclusão das despesas com a contratação de Agentes Autônomos de
Investimento (AAIs) na base de cálculo do PIS e da Cofins, tendo em vista que os serviços prestados
pelos referidos profissionais não se enquadram no conceito de intermediação financeira.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Inaplicável, no caso, o disposto na alínea a do inciso I do § 6º do art. 3º da Lei n.
9.718/1998, que permite a exclusão das despesas incorridas com a intermediação financeira da
base de cálculo da contribuição para o PIS e da COFINS exigido das pessoas jurídicas submetidas ao
regime cumulativo.
O agente autônomo de investimento (atualmente chamados de assessores de
investimento, nos termos da Resolução n. 179, de 14 de fevereiro de 2023, da Comissão de Valores
Mobiliários - CVM, e dos arts. 15, III, e 16, III e parágrafo único, ambos da Lei n. 6.385/1976,
conforme a redação conferida pela Lei n. 14.317, de 2022) não realiza propriamente a atividade de
intermediação financeira, a despeito da sua relevância decorrente da facilitação para a formação de
negócios e para a diminuição de assimetrias informacionais. Os agentes autônomos de investimento
(ou os assessores de investimento), conforme se extrai do art. 1º da Instrução n. 497, de 3 de junho
de 2011, e repetido nos incisos do art. 3º da Resolução n. 179, de 2023, realizam (1) a prospecção e
a captação de clientes; (2) a recepção e o registro de ordens e transmissão dessas ordens para os
sistemas de negociação ou de registro cabíveis; e (3) a prestação de informações sobre produtos
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 8/25
oferecidos e sobre os serviços prestados pelos intermediários em nome dos quais atue.
Porém, a intermediação financeira pressupõe (1) a captação de recursos de terceiros; (2) o
objetivo de lucro, advindo do resultado da diferença entre os custos dessa captação e da
remuneração decorrente da distribuição do valor mobiliário; e (3) a habitualidade na conduta e
atuação profissional.
Dessa forma, o fato de fazer parte do sistema de distribuição de valores mobiliários e de
exercer as atividades de mediação de valores mobiliários em bolsas de valores ou no mercado de
balcão mediante credenciamento e registro na CVM, por si só, não justificam a ampliação do
conceito de intermediação financeira a qual pressupõe, frise-se, a captação de recursos do público
no mercado de capitais e equipará-lo ao conceito geral de intermediação, referente às várias formas
de aproximação de partes interessadas para a realização de negócios jurídicos, como é o caso dos
agentes autônomos de investimento (ou assessores de investimento), sob pena de violação do art.
111, II, do CTN.
Conforme a Resolução CVM n. 35, de 26 de maio de 2021, a intermediação de operações no
mercado de capitais é privativa dos intermediários definidos como a instituição habilitada a atuar
como integrante do sistema de distribuição, por conta própria e de terceiros, na negociação de
valores mobiliários em mercados regulamentados de valores mobiliários.
Por outro lado, os assessores de investimento são entendidos como pessoas vinculadas, as
quais, nos termos do art. 3º, I, da Instrução n. 497, de 2011, e do art. 4º e 25, IV, ambos da Resolução
n. 179, de 2023, devem manter contratos com os intermediários para realizar operações na
condição de preposto dos intermediários. Por conseguinte, os assessores de investimento não
realizam propriamente a intermediação financeira no mercado de capitais, isto é, os assessores de
investimento não realizam a atividade-fim dos intermediários, mas apenas as atividades
mencionadas no art. 1º da Instrução n. 497, de 2011, e nos incisos do art. 3º da Resolução n. 179, de
2023.
Vê-se, portanto, a inexistência de violação dos arts. 17 e 18 da Lei n. 4.595/1964, e do art.
15, III, da Lei n. 6.385/1976, porquanto a realidade normativa dos assessores de investimento não é
a de um intermediário financeiro (no sentido amplo), mas é a de um facilitador das negociações no
mercado de capitais (pessoa vinculada).
Não por outro motivo a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é pacífica ao
afirmar que é devida a inclusão das despesas com a contratação de agentes autônomos de
investimento na base de cálculo do PIS/Cofins, tendo em vista que os serviços prestados pelos
referidos profissionais não se enquadram no conceito de intermediação financeira" (STJ, Segunda
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 9/25
Turma, Ministro Herman Benjamin, REsp 1.872.529/SP, 6/10/2020, DJe 14/4/2021.).
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
Código Tributário Nacional, art. 111, II
Lei n. 4.595/1964, arts. 17 e 18
Lei n. 6.385/1976, arts. 15, III, e 16, III e parágrafo único.
Lei n. 9.718/1998, alínea ?a? do inciso I do § 6º do art. 3º
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 10/25
TERCEIRA TURMA
PROCESSO REsp 2.082.256-SP, Rel. Ministro Marco Aurélio Bellizze,
Terceira Turma, por maioria, julgado em 12/9/2023, DJe
21/9/2023.
RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL
TEMA Transporte aéreo. Cancelamento de voo.
Responsabilidade civil da sociedade que apenas vendeu
as passagens. Inexistência. Serviço de emissão das
passagens devidamente prestado. Culpa exclusiva da
companhia aérea pelo descumprimento do contrato. Art.
14, § 3º, incisos I e II, do Código de Defesa do
Consumidor.
DESTAQUE
A vendedora de passagem aérea não responde solidariamente com a companhia aérea
pelos danos morais e materiais experimentados pelo passageiro em razão do cancelamento do voo.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
Cinge-se a controvérsia a saber se a sociedade empresarial que apenas vendeu as
passagens aéreas tem responsabilidade pelo cancelamento do voo.
Inicialmente, constata-se que na ocorrência da compra de passagem, não houve nenhum
defeito na prestação do serviço contratado junto à sociedade empresária, pois as passagens aéreas
foram devidamente emitidas, não lhe incumbindo a responsabilidade pelo efetivo cumprimento do
contrato de transporte aéreo com a companhia.
Com efeito, os fatos demonstram a incidência da exclusão de responsabilidade do
fornecedor, prevista no art. 14, § 3º, incisos I e II, do Código de Defesa do Consumidor, pois, de um
lado, não existe defeito em relação à prestação do serviço que incumbia à empresa que intermediou
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 11/25
a venda da passagem (emissão dos bilhetes aéreos), e, de outro, houve culpa exclusiva de terceiro,
companhia aérea, no tocante ao cancelamento do voo contratado.
Conquanto as normas do Estatuto Consumerista (CDC) tenham como finalidade a busca
pelo equilíbrio nas relações de consumo, trazendo princípios e regras próprias para proteger o
consumidor de eventuais prejuízos na aquisição de produtos e serviços, dentre as quais está a
responsabilidade solidária, a sua aplicação não pode ultrapassar os limites da razoabilidade, tanto
que o próprio diploma consumerista traz hipóteses de exclusão da responsabilidade do fornecedor
de produtos e serviços.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
Código de Defesa do Consumidor (CDC), art. 14, § 3º, incisos I e II
PROCESSO REsp 2.052.228-DF, Rel. Ministra Nancy Andrighi,
Terceira Turma, por unanimidade, julgado em
12/9/2023, DJe 15/9/2023.
RAMO DO DIREITO DIREITO DO CONSUMIDOR
TEMA Responsabilidade objetiva de instituição financeira.
Fraude perpetrada por terceiro. Contratação de mútuo.
Movimentações atípicas e alheias ao padrão de consumo.
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 12/25
DESTAQUE
A instituição financeira responde objetivamente por falha na prestação de serviços
bancários ao permitir a contratação de empréstimo por estelionatário.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O Código de Defesa do Consumidor (CDC) é aplicável às instituições financeiras (Súmula n.
297/STJ), as quais devem prestar serviços de qualidade no mercado de consumo.
O dever de segurança é noção que abrange tanto a integridade psicofísica do consumidor,
quanto sua integridade patrimonial. Como consequência, é dever da instituição financeira verificar a
regularidade e a idoneidade das transações realizadas pelos consumidores, desenvolvendo
mecanismos capazes de dificultar fraudes perpetradas por terceiros, independentemente de
qualquer ato dos consumidores.
Veja-se que, nas fraudes e nos golpes de engenharia social, geralmente são efetuadas
diversas operações em sequência, num curto intervalo de tempo e em valores elevados. Em razão
desta combinação de fatores, as transações feitas por criminosos destoam completamente do perfil
do consumidor e, portanto, podem e devem ser identificadas pelos bancos.
A conduta das instituições financeiras de se manter inerte perante a ocorrência de
diversas transações atípicas em poucos minutos concorre para permitir os golpes aplicados em seus
correntistas. Assim, o nexo causal é estabelecido ao se concluir que poderia a instituição financeira
ter evitado o dano sofrido em decorrência dos golpes, caso adotasse medidas de segurança mais
eficazes.
No entendimento do Tema Repetitivo 466/STJ, que contribuiu para a edição da Súmula
479/STJ, as instituições bancárias respondem objetivamente pelos danos causados por fraudes ou
delitos praticados por terceiros como, por exemplo, abertura de conta corrente ou recebimento de
empréstimos mediante fraude ou utilização de documentos falsos, porquanto tal responsabilidade
decorre do risco do empreendimento, caracterizando-se como fortuito interno (REsp 1.197.929/PR,
Segunda Seção, julgado em 24/8/2011, DJe 12/9/2011).
Mesma lógica se aplica à hipótese em que o falsário, passando-se por funcionário da
instituição financeira e após ter instruído o consumidor a aumentar o limite de suas transações,
contrata mútuo com o banco e, na mesma data, vale-se do alto montante contratado e dos demais
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 13/25
valores em conta corrente para quitar obrigações relacionadas, majoritariamente, a débitos fiscais
de ente federativo diverso daquele em que domiciliado o consumidor.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
SÚMULAS
Súmula 297/STJ
Súmula 479/STJ
SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 784
PROCESSO REsp 2.071.143-RJ, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas
Cueva, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em
12/9/2023, DJe 15/9/2023.
RAMO DO DIREITO RECUPERAÇÃO JUDICIAL
TEMA Recuperação judicial. Alienação de Unidade Produtiva
Isolada. Alteração da situação econômica. Assembleia
geral de credores. Convocação. Necessidade. Princípios
da boa-fé e da transparência.
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 14/25
DESTAQUE
A alienação de Unidade Produtiva Isolada por um valor muito superior ao preço mínimo
previsto no plano de recuperação enseja, excepcionalmente, a convocação de assembleia geral de
credores para que lhes seja demonstrada a nova situação econômica, com a respectiva alteração da
proposta de pagamento dos créditos.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A recuperação judicial tem como objetivo, nos exatos termos do artigo 47 da Lei n.
11.101/2005, viabilizar a superação da situação de crise econômico-financeira do devedor a fim de
permitir a preservação da empresa e dos benefícios sociais que ela gera.
O artigo 53 da Lei n. 11.101/2005 determina que o plano de recuperação contenha o
demonstrativo de sua viabilidade econômica, o laudo econômico-financeiro e de avaliação dos bens
e ativos do devedor, de modo que os credores possam analisar a viabilidade do plano e se o grau de
sacrifício que lhes está sendo exigido encontra respaldo na crise que a empresa diz estar
enfrentando.
Na hipótese, o plano de recuperação judicial previa um preço mínimo de alienação da UPI,
no entanto, alcançou um valor 6 (seis) vezes maior do que o fixado, o que talvez fosse suficiente até
mesmo para descaracterizar a situação de crise.
Nesse contexto, com fundamento no princípio da boa-fé e sem descuidar da assimetria
informacional existente entre devedora e credores, caberia às próprias recuperandas convocar seus
credores e esclarecer como o valor excedente impactou a sua situação econômica e se seria ou não o
caso de lhes oferecer melhores condições.
É da devedora que se exige não agir com dolo, simulação ou fraude contra o interesse de
seus credores (artigo 64, III, da LREF), assim como o dever de transparência e informação. Diante
disso, ainda que não houvesse previsão no plano de recuperação judicial acerca da destinação de
eventual excedente para o pagamento dos credores em melhores condições, essa falha deveria ser
imputada às recuperandas.
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 15/25
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
Lei n. 11.101/2005, arts. 47, 53 e 64, III
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 16/25
QUINTA TURMA
PROCESSO REsp 1.986.629-RJ, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik,
Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 8/8/2023,
DJe 15/8/2023.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL
TEMA Crime de milícia privada. Prática de crimes descritos na
legislação extravagante. Interpretação extensiva in
malam partem. Impossibilidade. Desclassificação para o
delito de associação criminosa armada.
DESTAQUE
Somente configura o crime de constituição de milícia privada se a atuação do grupo
criminoso se restringe aos delitos previstos no Código Penal.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia está em definir se somente configura o crime de milícia privada se o grupo
praticar exclusivamente delitos previstos no Código Penal.
Na hipótese, o Tribunal estadual desclassificou o crime de constituição de milícia privada
(art. 288-A do CP) para o delito de associação criminosa armada (art. 288, parágrafo único, do CP),
mais favorável ao réus, em razão de o grupo criminoso não ter se limitado a praticar somente os
delitos dispostos no Código Penal, destacando que também praticavam outros crimes previstos em
legislação extravagante, notadamente o porte ou posse ilegal de arma de fogo.
Com efeito, comete o crime de constituição de milícia privada, nos termos do art. 288-A do
Código Penal, quem "Constituir, organizar, integrar, manter ou custear organização paramilitar,
milícia particular, grupo ou esquadrão com a finalidade de praticar qualquer dos crimes previstos
neste Código."
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 17/25
Depreende-se da interpretação literal da norma acima descrita, que o legislador restringiu
as hipóteses para a caracterização da milícia privada à prática dos crimes previstos no Código Penal.
Desse modo, deve prevalecer a desclassificação para o delito de associação criminosa
armada, pois a ampliação do alcance da norma disposta no art. 288-A do Código Penal, para incluir
no âmbito de atuação do grupo criminoso os crimes previstos em legislação extravagante, não pode
ser admitida, na medida em que a interpretação extensiva em prejuízo ao réu (in malam partem) é
vedada no âmbito do direito penal.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
Código Penal (CP), art. 288, parágrafo único e art. 288-A
PROCESSO AgRg no AREsp 2.391.112-SP, Rel. Ministro Ribeiro
Dantas, Quinta Turma, por unanimidade, julgado em
12/9/2023, DJe 19/9/2023.
RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL
TEMA Homicídio culposo na direção de veículo automotor.
Incidência da agravante prevista no art. 298, inciso I, do
CTB. Possibilidade.
DESTAQUE
Não há incompatibilidade entre a agravante do art. 298, inciso I, do CTB e os delitos de
trânsito culposos.
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 18/25
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O Tribunal de origem aplicou a agravante do art. 298, inciso I, do Código de Trânsito
Brasileiro em razão do dano no veículo da vítima e, ainda, ao potencial dano para as pessoas que
passavam pelo local.
De fato, a doutrina e a jurisprudência majoritárias somente admitem a incidência das
agravantes previstas no inciso II do artigo 61 do Código Penal aos crimes dolosos, por absoluta
incompatibilidade com o delito culposo, cujo resultado é involuntário.
Contudo, verifica-se, em relação a agravante do art. 298, I, do CTB ("dano potencial para
duas ou mais pessoas ou com grande risco de grave dano patrimonial a terceiros"), que a norma
visou proteger do autor do homicídio culposo, além da vítima, as demais pessoas que forem
colocadas em risco, bem como o patrimônio de terceiros.
Não há, pois, nenhuma incompatibilidade entre a referida agravante e as figuras típicas
culposas, que também têm o potencial de colocar em risco outras pessoas além da vítima.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
Código de Transito Brasileiro (CTB), art. 298, I
Código Penal (CP), art. 61
SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 668
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 19/25
PROCESSO REsp 2.021.651-PR, Rel. Ministro João Batista Moreira
(Desembargador convocado do TRF1), Quinta Turma,
por unanimidade, julgado em 19/9/2023.
RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL, DIREITO PROCESSUAL
PENAL
TEMA Execução de sentença criminal condenatória.
Arresto/sequestro de saldo em conta investimento.
Preservação do montante de até 40 salários-mínimos.
Impenhorabilidade absoluta dos valores, porquanto de
natureza indenizatória do FGTS ou inocorrente hipótese
de execução de alimentos. Descabimento. Transferência
de saldo para conta privada de investimento. Não
incidência de impenhorabilidade absoluta. Relativização
da impenhorabilidade em execução de dívida não
alimentar.
DESTAQUE
A penhora, em execução, de saldo em conta de investimento sujeita-se ao regramento do
art. 833, X, do Código de Processo Civil (impenhorabilidade até o montante de 40 salários-mínimos)
- que incide, inclusive, nas execuções de natureza não alimentar -, ainda que o montante tenha sido
transferido (seja oriundo) de conta vinculada do FGTS, afastando-se, assim, a impenhorabilidade
absoluta de que trataria o art. 2º, § 2º, da Lei n. 8.036/1990.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O § 2º do art. 2º da Lei n. 8.036/1990 dispõe que "As contas vinculadas em nome dos
trabalhadores são absolutamente impenhoráveis."
No caso, a instância de origem afastou a impenhorabilidade absoluta ao fundamento de
que o saldo da conta vinculada do FGTS fora transferido para conta de aplicação financeira.
Nesse sentido, a jurisprudência desta Corte já decidiu que "A ocorrência de transferência
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 20/25
dos créditos para conta particular do trabalhador desautoriza a aplicação do art. 2º, § 2º, da Lei n.
8.036/1990." (REsp 867.062/RS, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, DJe 5/9/2008).
Embora o saldo das contas vinculadas pertença aos seus titulares, os recursos do FGTS não
têm como única finalidade indenizar o trabalhador. Dessa forma, é razoável o raciocínio de que,
enquanto não havida hipótese de saque, a impenhorabilidade absoluta de que trata o § 2ª do art. 2º
da Lei n. 8.036/1990 tem por escopo assegurar a aplicação dos recursos do FGTS nos termos do § 2º
do art. 9º da mesma lei, ou seja, em prol da coletividade.
Contudo, tendo havido saque e transferência do saldo da conta vinculada, passa a incidir,
no regramento sobre impenhorabilidade do saldo na outra conta (conta-investimento), o quanto
disposto no inciso X do art. 833 do CPC, o que afasta a regra da impenhorabilidade com base na Lei
n. 8.036/1990. O entendimento desta Corte é pela incidência da referida norma processual mesmo a
contas de aplicação financeira.
Nessa linha, "A jurisprudência desta Corte Superior é firme no sentido da
impenhorabilidade de valor até 40 salários mínimos poupados ou mantidos pelo devedor em conta
corrente ou em outras aplicações financeiras, ressalvada a comprovação de má-fé, abuso de direito
ou fraude, o que não foi demonstrado nos autos (AgInt nos EDcl no REsp 2.011.412/PR, relator
Ministro Moura Ribeiro, Terceira Turma, DJe de 5/5/2023).
Por fim, registre-se que a jurisprudência do STJ já admitia a penhora de verba salarial para
quitação de qualquer dívida (ou seja, não somente de execução de alimentos) do montante acima de
50 (cinquenta) salários mínimos recebidos pelo executado. O entendimento evoluiu para, em
avaliação a ser feita no caso concreto, afastar até mesmo esse limite (EREsp 1.874.222/DF, Rel.
Ministro João Otávio de Noronha, Corte Especial, por maioria, julgado em 19/4/2023).
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 21/25
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
Lei n. 8.036/1990, art. 2º, § 2º e art. 9º, § 2º
Código de Processo Civil (CPC), art. 833, X
SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 771
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 22/25
SEXTA TURMA
PROCESSO REsp 1.828.546-SP, Rel. Ministro Jesuíno Rissato
(Desembargador convocado do TJDFT), Sexta Turma, por
unanimidade, julgado em 12/9/2023, DJe 15/9/2023.
RAMO DO DIREITO DIREITO CONSTITUCIONAL, DIREITO PROCESSUAL
PENAL, DIREITOS HUMANOS
TEMA Lei Maria da Penha - Lei n. 11.340/2006. Medida
protetiva de urgência. Ação de obrigação de não fazer,
com pedidos de tutelas provisórias. Risco à integridade
da vítima de violência doméstica. Legitimidade do
Ministério Público para requerer atos inibitórios. Art. 26
da Lei n. 11.340/2006. Art. 1º da Lei n. 8.625/1993.
Direito individual indisponível.
DESTAQUE
O Ministério Público possui legitimidade para requerer, em ação civil pública, medida
protetiva de urgência em favor de mulher vítima de violência doméstica.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A controvérsia refere-se à legitimidade, ou não, do Ministério Público para requerer, em
ação civil pública, medida protetiva de urgência em favor de mulher vítima de violência doméstica.
O art. 25 da Lei n. 11.343/2006 determina que o Ministério Público é legítimo para atuar
nas causas cíveis e criminais decorrentes da violência doméstica e familiar contra a mulher.
A Primeira Seção desta Corte Superior, em recurso repetitivo, firmou a tese de que o
Ministério Público é parte legítima para pleitear tratamento médico ou entrega de medicamentos
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 23/25
nas demandas de saúde propostas contra os entes federativos, mesmo quando se tratar de feitos
contendo beneficiários individualizados, porque se trata de direitos individuais indisponíveis.
Segundo este Tribunal, o limite para a legitimidade da atuação judicial do Ministério
Público vincula-se à disponibilidade, ou não, dos direitos individuais vindicados, isto é, tratando-se
de direitos individuais disponíveis, e não havendo uma lei específica autorizando, de forma
excepcional, a atuação dessa instituição permanente, não se pode falar em legitimidade de sua
atuação. Contudo, se se tratar de direitos ou interesses indisponíveis, a legitimidade ministerial
decorre do art. 1º da Lei n. 8.625/1993.
Outrossim, esta Corte entende que é viável a ação civil pública não apenas para tutelar
conflitos de massa (direitos transindividuais), mas também se revela como o meio pertinente à
tutela de direitos e interesses indisponíveis e/ou que detenham suficiente repercussão social,
aproveitando, em maior ou menor medida, toda a coletividade.
A medida protetiva de urgência requerida para resguardar interesse individual de mulher
vítima de violência doméstica tem natureza indisponível, e, pela razoabilidade, não se pode
entender pela disponibilidade do direito, haja vista que a Lei 11.340/2006 surgiu no ordenamento
jurídico brasileiro como um dos instrumentos que resguardam os tratados internacionais de
direitos humanos, dos quais o Brasil é parte, e assumiu o compromisso de resguardar a dignidade
humana da mulher, dentre eles, a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação contra as Mulheres.
A Lei Maria da Penha foi criada como mecanismo para coibir e prevenir a violência
doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do §8° do art. 226 da Constituição da República, da
Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra a Mulher, da Convenção
Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher e de outros tratados
internacionais ratificados pela República Federativa do Brasil; dispõe sobre a criação dos Juizados
de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; e estabelece medidas de assistência e proteção
às mulheres em situação de violência doméstica e familiar.
Portanto, conclui-se que, no âmbito do combate à violência doméstica e familiar contra a
mulher, por se tratar de direito individual indisponível, o MP possui legitimidade para atuar tanto
na esfera jurídica penal, quanto na cível, nos termos do art. 1º da Lei n. 8.625/1993 e art. 25 da Lei
n. 11.340/2006.
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 24/25
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
Constituição Federal (CF), art. 226, § 8º
Lei n. 11.343/2006, art. 25
Lei n. n. 8.625/1993, art. 1º
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 25/25