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Desapropriação por Utilidade Pública: Requisitos

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Número 767 Brasília, 21 de março de 2023.

Este periódico destaca teses jurisprudenciais e não consiste em repositório oficial de jurisprudência.

PRIMEIRA TURMA

PROCESSO REsp 1.930.735-TO, Rel. Ministra Regina Helena Costa,


Primeira Turma, por unanimidade, julgado em
28/2/2023, DJe 2/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO PROCESSUAL


CIVIL

TEMA Desapropriação de imóvel por utilidade pública.


Ausência do depósito previsto no art. 15 do Decreto-Lei
n. 3.365/1941. Exigência legal para o deferimento de
pedido de imissão provisória na posse que não impede a
continuidade da demanda.

DESTAQUE

A ausência do depósito previsto no art. 15 do Decreto-Lei n. 3.365/1941 para o


deferimento de pedido de imissão provisória na posse veiculado em ação de desapropriação por
utilidade pública não implica a extinção do processo sem resolução do mérito, mas, tão somente, o
indeferimento da tutela provisória.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

A disciplina normativa acerca da desapropriação por utilidade pública está radicada, no


plano infraconstitucional, no Decreto-Lei n. 3.365/1941, cuja normatividade estabelece incumbir ao

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 1/50
expropriante, após expedição do ato declaratório e superada a fase administrativa de composição
amigável, provocar o poder judiciário mediante ação de desapropriação com o objetivo de fixar o
montante devido a título de justa indenização.

O art. 13 do Decreto-Lei n. 3.365/1941 estabelece os seguintes requisitos para a petição


inicial da ação expropriatória: "Art. 13. A petição inicial, além dos requisitos previstos no Código de
Processo Civil, conterá a oferta do preço e será instruída com um exemplar do contrato, ou do jornal
oficial que houver publicado o decreto de desapropriação, ou cópia autenticada dos mesmos, e a
planta ou descrição dos bens e suas confrontações".

Assim, a par de instruir a petição inicial com exemplar do jornal no qual publicado o
decreto de utilidade pública e de indicar a oferta do preço, incumbe ao expropriante atender aos
requisitos genéricos previstos nos arts. 319 e 320 do CPC/2015, notadamente a juntada dos
documentos indispensáveis à propositura da ação.

Por sua vez, como a incorporação do bem ao patrimônio público exige, nos termos do art.
5º, XXIV, da Constituição Federal, prévia e justa indenização em dinheiro - cujo adimplemento
somente ocorre quando definitivamente fixado o valor da compensação financeira e quitado o
respectivo precatório -, a legislação autoriza o expropriante, em casos urgentes, a pleitear sua
imissão provisória na posse da área objeto de desapropriação, de modo a permitir a tempestiva
satisfação do interesse público que fundamenta tal forma de intervenção estatal na propriedade
privada.

Nesses casos, o art. 15 do Decreto-Lei n. 3.365/1941 estabelece dois requisitos para


possibilitar a imissão provisória na posse, quais sejam, a alegação de urgência e o depósito de
quantia ofertada pelo expropriante.

Ademais, em ações dessa natureza, o instituto da imissão provisória na posse não detém
autonomia, porquanto possui natureza jurídica de pedido de tutela antecipada voltado a permitir,
antes da transferência definitiva da propriedade ao patrimônio estatal ao final da demanda, a
realização das obras e serviços inadiáveis.

Assim, embora o depósito da quantia estimada pelo ente público para o pagamento de
indenização constitua pressuposto legal para o deferimento de pedido de imissão provisória na
posse, sua ausência não implica a extinção da ação expropriatória sem resolução do mérito, mas, tão
somente, o indeferimento da tutela antecipada, cuja rejeição não obsta a continuidade do processo
para viabilizar a incorporação do bem ao patrimônio estatal.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 2/50
INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Constituição Federal (CF/1988), art. 5º, XXIV


Código de Processo Civil (CPC/2015), arts. 319 e 320
Decreto-lei n. 3.365/1941, arts. 13 e 15

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 192

Informativo de Jurisprudência n. 343

Jurisprudência em Teses / DIREITO ADMINISTRATIVO - EDIÇÃO N. 49: DESAPROPRIAÇÃO - II

PROCESSO REsp 1.930.735-TO, Rel. Ministra Regina Helena Costa,


Primeira Turma, por unanimidade, julgado em
28/2/2023, DJe 2/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO PROCESSUAL


CIVIL, DIREITO FINANCEIRO, DIREITO URBANÍSTICO

TEMA Lei de Responsabilidade Fiscal - LRF. Estimativa de


impacto orçamentário-financeiro e declaração de
compatibilidade das despesas às leis orçamentárias.
Requisitos específicos das ações expropriatórias de
imóveis para o desenvolvimento da política urbana.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 3/50
DESTAQUE

Para cumprimento dos requisitos arrolados no art. 16, caput, I e II, e § 4º, II, da LRF é
necessário instruir a petição inicial da ação expropriatória de imóveis com a estimativa do impacto
orçamentário-financeiro e apresentar declaração a respeito da compatibilidade das despesas
necessárias ao pagamento das indenizações ao disposto no plano plurianual, na lei de diretrizes
orçamentárias e na lei orçamentária anual.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

Nos termos do art. 182, caput, da Constituição Federal, incumbe aos municípios, mediante
os diversos instrumentos jurídicos previstos em lei, a execução da política urbana com o escopo de
ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus
habitantes.

A desapropriação de imóveis urbanos estampada no art. 182, § 3º, da Constituição se


insere precisamente no contexto do aprimoramento da política de ordenamento municipal,
porquanto outorga aos entes locais a prerrogativa de incorporar, de maneira compulsória, imóveis
privados ao patrimônio estatal para permitir sua posterior afetação ao desenvolvimento de projetos
e programas eleitos pelos atores políticos como essenciais para as respectivas comunidades.

Além disso, conquanto a desapropriação implique transferência cogente de bens privados


ao domínio público, atribui-se aos expropriados o direito fundamental ao percebimento de prévia e
justa indenização em dinheiro com o objetivo de compensar os prejuízos individuais suportados em
benefício da coletividade.

No entanto, a despeito dos mandamentos constitucionais condicionando a validade da


expropriação de bens particulares ao pagamento de prévia compensação financeira, não são
desconhecidos casos de declaração de utilidade pública expedidos por entes municipais sem a
devida reflexão acerca dos respectivos impactos nas finanças públicas, contexto que propicia o
desequilíbrio orçamentário-financeiro do expropriante em decorrência da necessária reserva de
vultosos valores ao pagamento das indenizações e, de outra parte, priva os expropriados do
recebimento tempestivo da reparação econômica pela perda forçada da propriedade.

Nesse contexto, buscando equacionar o descompasso entre a normatividade


constitucional e a realidade empírica, o art. 16, caput, I e II, e § 4º, II, da Lei de Responsabilidade
Fiscal passou a condicionar a validade das desapropriações de imóveis urbanos à prévia estimativa
do impacto orçamentário-financeiro, bem como à declaração de compatibilidade das despesas

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 4/50
necessárias ao pagamento das indenizações ao disposto no plano plurianual, na lei de diretrizes
orçamentárias e na lei orçamentária anual.

Tal regramento, além de estabelecer requisitos essenciais à regularidade das


expropriações, tem por escopo, sob o prisma da responsabilidade na gestão fiscal, garantir a
cobertura das despesas a serem suportadas pelos municípios mediante comprovação da existência
de créditos suficientes ao custeio das indenizações, além de atribuir responsabilidades aos
ordenadores de despesas caso apurada a incompatibilidade entre os gastos decorrentes da
expansão da ação governamental e as leis orçamentárias.

Outrossim, como o inciso II do § 4º do art. 16 da LRF estabelece que o cumprimento do


requisitos do caput do dispositivo consiste em condição prévia à desapropriação de imóveis
urbanos, a verificação do atendimento a suas disposições deve ser aferida em momento anterior ao
ajuizamento de ações expropriatórias, porquanto após a expedição do ato declaratório de utilidade
pública incumbe à Administração avaliar os bens a serem incorporados ao patrimônio público para
quantificar o valor reputado devido a título de justa indenização.

Isso porque a avaliação empreendida pelo poder público constitui fase necessária à
verificação da proposta de compensação financeira a ser apresentada ao particular e, uma vez
apurado tal montante, é possível estimar o impacto orçamentário-financeiro da desapropriação e
examinar a adequação das despesas necessárias ao pagamento da indenização ao disposto nas leis
orçamentárias, razão pela qual essas providências devem anteceder a proposta oferecida pelo
expropriante em sede administrativa ou judicial.

Do mesmo modo, a análise antecipada das repercussões dos atos expropriatórios sobre as
finanças públicas vai ao encontro dos deveres de responsabilidade e de planejamento na gestão
fiscal estampados no art. 1º, § 1º, da Lei Complementar n. 101/2000, os quais objetivam afastar os
riscos e corrigir desvios capazes de afetar o equilíbrio das contas públicas e, por isso, demandam
atuação preventiva voltada a debelar eventuais efeitos nocivos decorrentes de despesas cuja
execução não se compatibiliza com as leis orçamentárias.

Dessarte, a adequação formal da ação de desapropriação de imóveis para o


desenvolvimento da política urbana é vinculada à prévia observância das exigências previstas no
art. 16, caput e § 4º, II, da LRF, cujo descumprimento, a par de invalidar o ato expropriatório, implica
a irregularidade das despesas e lesividade ao patrimônio público (art. 15 da LRF), tratando-se,
portanto, de formalidade específica da petição inicial das respectivas ações expropriatórias que se
soma às disposições gerais arroladas no Decreto-Lei n. 3.365/1941 e no CPC/2015, as quais
convivem harmonicamente e devem ser comprovadas pela Administração Pública ao ajuizar a
demanda.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 5/50
INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Constituição Federal (CF/1988), art. 182, caput e § 3º


Lei de Responsabilidade Fiscal - LRF (LC n. 101/2000), arts. 1º, § 1º, 15, 16, caput, I e II, e §4º, II

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 6/50
SEGUNDA TURMA

PROCESSO EDcl no AgInt no AREsp 1.249.853-SP, Rel. Ministro


Humberto Martins, Segunda Turma, por unanimidade,
julgado em 6/3/2023, DJe 13/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL

TEMA Honorários advocatícios. Omissão em decisão


monocrática. Arbitramento pelo órgão colegiado.
Possibilidade.

DESTAQUE

Quando devida a verba honorária recursal, e o relator deixar de aplicá-la em decisão


monocrática, poderá o colegiado arbitrá-la, inclusive de ofício.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

Nos termos do art. 85, § 1º, do Código de Processo Civil - CPC, "são devidos honorários
advocatícios (...) nos recursos interpostos, cumulativamente". A fixação de honorários recursais em
favor do patrono da parte recorrida está adstrita às hipóteses de não conhecimento ou de não
provimento do recurso, com o nítido propósito de desestimular a interposição de recurso infundado
pela parte vencida.

De acordo com a interpretação dada pelo STJ, a majoração dessa verba ocorre sempre que
inaugurada nova instância recursal, e não em todos os recursos que tramitam nessa mesma
instância (por exemplo, é cabível a majoração no julgamento monocrático do recurso especial, mas
isso não ocorre em caso de julgamento de agravo interno e embargos de declaração no apelo nobre;
de outro lado, é novamente aplicável a majoração quando interpostos embargos de divergência no
recurso especial, etc.).

Assim, o entendimento firmado no STJ é de que o arbitramento dos honorários recursais


(art. 85, § 11, do CPC/2015) deve ocorrer quando esta Corte julga o recurso, sujeito ao Código de

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 7/50
Processo Civil de 2015, que inaugure o grau recursal, revelando-se indevida sua fixação em agravo
interno e embargos de declaração, por se tratar da mesma instância recursal.

Este também o entendimento da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de


Magistrados Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira - Enfam adotado no seminário "O Poder
Judiciário e o Novo CPC", no qual se editou o enunciado 16, com o seguinte teor: "Não é possível
majorar os honorários na hipótese de interposição de recurso no mesmo grau de jurisdição (art. 85,
§ 11, do CPC/2015)".

Por outro lado, verifica-se no caso que não houve majoração dos honorários nesta
instância recursal, nem na decisão monocrática, nem no julgamento do agravo interno. Assim, por se
tratar de matéria de ordem pública, cognoscível de ofício, é possível sua majoração neste momento
processual.

Nesse sentido: "(...) Quando devida a verba honorária recursal, mas, por omissão, o Relator
deixar de aplicá-la em decisão monocrática, poderá o colegiado, ao não conhecer do respectivo
Agravo Interno ou negar-lhe provimento, arbitrá-la ex officio, por se tratar de matéria de ordem
pública, que independe de provocação da parte, não se verificando reformatio in pejus. (...)" (AgInt
nos EAREsp 762.075/MT, relator Ministro Felix Fischer, relator para acórdão Ministro Herman
Benjamin, Corte Especial, julgado em 19/12/2018, DJe de 7/3/2019).

PROCESSO AgInt no AREsp 1.996.760-SP, Rel. Ministro Herman


Benjamin, Segunda Turma, por unanimidade, julgado em
14/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL, DIREITO TRIBUTÁRIO

TEMA Ação cautelar de caução. Antecipação de futura penhora.


Superveniência da execução fiscal. Perda do objeto.
Honorários advocatícios. Inexistência de
responsabilidade das partes.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 8/50
DESTAQUE

A decisão a respeito do pedido de caução de crédito tributário ainda não cobrado


judicialmente para fins de obtenção de certidão de regularidade fiscal tem natureza jurídica de
incidente processual inerente à execução fiscal, não guardando autonomia a ensejar condenação em
honorários advocatícios em desfavor de qualquer das partes.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

A controvérsia diz respeito à responsabilidade pelo pagamento dos honorários


advocatícios de sucumbência na hipótese em que há extinção da ação cautelar prévia de caução
diante do ajuizamento da execução fiscal.

A Primeira Turma do STJ, ao julgar o AREsp 1.521.312/MS, da relatoria do eminente


Ministro Gurgel de Faria, entendeu que não se pode atribuir à Fazenda a responsabilidade pelo
ajuizamento da ação cautelar por não ser possível imputar ao credor a obrigatoriedade de imediata
propositura da ação executiva. Ademais, a ação cautelar de caução preparatória para futura
constrição possui "natureza jurídica de incidente processual inerente à execução fiscal, não
guardando autonomia a ensejar condenação em honorários advocatícios em desfavor de qualquer
das partes".

No mesmo sentido: "(...) A questão decidida na ação ajuizada com o objetivo de antecipar a
penhora na execução fiscal tem natureza jurídica de incidente processual inerente à própria
execução, não guardando autonomia a ensejar condenação em honorários advocatícios em desfavor
de qualquer das partes. (...)" AgInt no REsp 1.960.482/DF, relatora Ministra Regina Helena Costa,
Primeira Turma, DJe 25/3/2022.

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 675

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 9/50
PROCESSO AgInt no REsp 1.921.489-RJ, Rel. Ministro Mauro
Campbell Marques, Segunda Turma, por unanimidade,
julgado em 28/2/2023, DJe 7/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO

TEMA Imposto Predial e Territorial Urbano - IPTU.


Responsabilidade do arrematante. Débitos posteriores à
arrematação. Expressa menção no edital de hasta
pública. Necessidade.

DESTAQUE

A responsabilidade pelo adimplemento dos débitos tributários que recaiam sobre o bem
imóvel é do arrematante havendo expressa menção no edital de hasta pública nesse sentido.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

Cuida-se, na origem, de exceção de pré-executividade pugnando pela declaração de


ilegitimidade do ora recorrente quanto aos débitos de IPTU incidentes antes de sua imissão na posse
de imóvel arrematado perante o Juízo da Vara do Trabalho.

Com efeito, quando da arrematação, o edital de convocação do leilão continha a


informação de que os valores de Imposto Predial e Territorial Urbano - IPTU posteriores à
arrematação seriam de responsabilidade do arrematante.

A jurisprudência deste STJ assevera que "havendo expressa menção no edital de hasta
pública nesse sentido, a responsabilidade pelo adimplemento dos débitos tributários que recaiam
sobre o bem imóvel é do arrematante" (AgRg no AREsp 248.454/SP, Rel. Ministro Arnaldo Esteves
Lima, Primeira Turma, DJe de 12/9/2013).

Assim, se depois de formalizada a arrematação ela é considerada perfeita, ainda que haja
morosidade dos mecanismos judiciais na expedição da carta de arrematação, para a devida
averbação no Registro Geral de Imóvel - RGI, o entendimento é no sentido de que os débitos fiscais

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 10/50
deverão ser suportados pelo arrematante.

Isso porque a regra contida no art. 130, parágrafo único, do Código Tributário Nacional -
CTN não afasta a responsabilidade do arrematante no que concerne aos débitos de IPTU posteriores
à arrematação, ainda que postergada a respectiva imissão na posse.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

CTN, art. 130, parágrafo único.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 11/50
TERCEIRA TURMA

PROCESSO REsp 2.021.711-RS, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Rel.


para acórdão Ministro Moura Ribeiro, Terceira Turma,
por maioria, julgado em 14/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL

TEMA Compra e venda de imóvel na planta. Sala comercial.


Natureza de investimento. Código de Defesa do
Consumidor. Aplicação. Teoria finalista mitigada.
Pequena diferença na área real. Descumprimento
contratual. Rescisão de contrato. Não cabimento. Compra
e venda "ad mensuram". Não configuração. Diferença de
metragem aquém da margem fixada pelo art. 500, § 1º do
Código Civil. Compra e venda "ad corpus".

DESTAQUE

Em contrato de compra e venda de imóvel na planta, a diferença ínfima a menor na


metragem, que não inviabiliza ou prejudica a utilização do imóvel para o fim esperado, não autoriza
a resolução contratual, ainda que a relação se submeta às disposições do Código de Defesa do
Consumidor.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

A controvérsia está em saber se a diferença de metragem entre aquela que foi definida no
contrato de compra e venda, quando o imóvel ainda estava na planta, e a que consta no registro da
matrícula do imóvel e na promessa de compra e venda conceitua-se como venda ad mensuram de
forma a incidir o disposto no art. 500, § 1º, do Código Civil.

Inicialmente, anota-se que, se admite, na hipótese, a utilização do Código de Defesa do


Consumidor para amparar, concretamente, o investidor ocasional (figura do consumidor
investidor), pois ele não desenvolve a atividade de investimento de maneira reiterada e profissional.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 12/50
No entanto, a aplicação do referido diploma legal não tem o condão de enquadrar a
compra e venda sub judice na qualificação "ad mensuram".

É de se concluir, pelos demonstrativos e provas, relacionados aos fatos que o negócio


envolveu coisa delimitada (sala comercial), sem apego as suas exatas medidas, o que caracteriza,
inequivocadamente, uma compra e venda "ad corpus".

Em se tratando de imóvel urbano, obviamente o comprador adquiriu o bem como um


todo, ou como coisa certa e determinada. Logo, é possível concluir que as medidas do imóvel foram
meramente enunciativas, e não decisivas como fator da aquisição.

Outrossim, o simples fato de ter sido uma compra na planta não altera a situação,
porquanto as medidas constantes no instrumento particular de promessa de compra e venda eram
somente enunciativas, ou seja, o que sobreleva é o bem em si (sala comercial), e não propriamente a
metragem, até porque não restou demonstrado que o preço foi calculado com base na área de
construção.

Doutrinariamente, a venda "ad mensuram" é a hipótese em que as partes estipulam "o


preço por medida de extensão, situação em que a medida passa a ser condição essencial ao contrato
efetivado (...) Como exemplo de venda ad mensuram, pode ser citado o caso de compra e venda de
um imóvel por metro quadrado (m²)".

Em que pese a segunda parte do § 1º do art. 500 do Código Civil ressalvar, ao comprador, o
direito de provar que, em tais circunstâncias, não teria realizado o negócio, no caso, não há
evidências de que o negócio não teria sido realizado pela ínfima diferença a menor na metragem
que, aliás, de modo algum inviabiliza ou prejudica a utilização do imóvel para o fim esperado.

Cumpre salientar que o fato de incidir o direito consumerista na relação sub judice não
significa a procedência da pretensão de resolver do negócio jurídico, com a devolução dos valores
pagos e com a aplicação da multa contratual, pois não se está diante de efetivo vício, ou defeito de
qualidade, ou quantidade do produto capaz de abalar o equilíbrio do contrato e prejudicar o
consumidor.

Com efeito , é até possível dizer que a mínima diferença em discussão nem sequer reúne
condições para caracterizar efetivo "vício de quantidade" do produto, uma vez que está aquém da
margem fixada pela lei.

Não é demasiado anotar que o contrato firmado entre as partes prevê, no seu parágrafo

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 13/50
segundo da cláusula décima sétima, que serão toleradas pequenas diferenças nas dimensões do
projeto, consoante, expressamente, asseverado na sentença.

Assim, perfeitamente aceitável a diferença, no caso, irrisória da área do imóvel, não


havendo que se falar em qualquer descumprimento contratual capaz de ensejar o pagamento da
multa pelo seu rompimento.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Código Civil, art. 500, § 1º

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 693

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 14/50
PROCESSO REsp 2.031.816-RJ, Rel. Ministra Nancy Andrighi,
Terceira Turma, por unanimidade, julgado em
14/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO DO CONSUMIDOR

TEMA Responsabilidade civil. Shopping center e unidade


gestora do estacionamento. Roubo à mão armada na
cancela. Abrangência da proteção consumerista. Área de
prestação do serviço. Barreira física imposta para
benefício do estabelecimento empresarial. Dever de
fiscalização. Possibilidade de responsabilização. Nexo de
imputação verificado. Fortuito interno. Legítima
expectativa de segurança ao cliente. Acréscimo de
conforto (estacionamento) aos consumidores em troca
de benefícios financeiros indiretos.

DESTAQUE

O shopping center e o estacionamento vinculado a ele podem ser responsabilizados por


roubo à mão armada ocorrido na cancela para ingresso no estabelecimento comercial, em via
pública.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

Pragmaticamente, incide o regramento consumerista no percurso relacionado com a


prestação do serviço e, notadamente, quando o fornecedor dele se vale no interesse de atrair o
consumidor. Assim, na hipótese de se exigir do consumidor determinada conduta para que usufrua
do serviço prestado pela fornecedora, colocando-o em vulnerabilidade não só jurídica, mas
sobretudo fática, ainda que momentaneamente, se houver falha na prestação do serviço, será o
fornecedor obrigado a indenizá-lo.

Nessa linha de raciocínio, quando o consumidor, com a finalidade de ingressar no

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 15/50
estacionamento de shopping center, tem de reduzir a velocidade ou até mesmo parar seu veículo e
se submeter à cancela - barreira física imposta pelo fornecedor e em seu benefício - incide a
proteção consumerista, ainda que o consumidor não tenha ultrapassado referido obstáculo e mesmo
que este esteja localizado na via pública.

Nessa hipótese, o consumidor se encontra, de fato, na área de prestação do serviço


oferecido pelo estabelecimento comercial. Por conseguinte, também nessa área incidem os deveres
inerentes às relações consumeristas e ao fornecimento de segurança indispensável que se espera
dos estacionamentos de shoppings centers.

Esta Corte analisou situação parecida, na qual o consumidor que se encontrava dentro de
estacionamento de shopping center, ao parar na cancela para sair do referido estabelecimento, foi
surpreendido pela abordagem de indivíduos com arma de fogo que tentaram subtrair seus
pertences (REsp 1.269.691/PB, Quarta Turma, DJe 5/3/2014).

Da mesma maneira como sucede com a saída, o consumidor também está sujeito a tal
vulnerabilidade ao ingressar no estabelecimento. É necessário que aquele, a fim de utilizar o serviço
oferecido pela recorrente, permaneça - ainda que por pouco tempo - desprotegido ao esperar a
emissão do ticket e o levantamento da cancela.

Inclusive, a única razão para que o consumidor permaneça desprotegido, aguardando a


abertura da cancela, é, justamente, para ingressar no estabelecimento do fornecedor. Logo, não pode
o shopping center buscar afastar sua responsabilidade por aquilo que criou para se beneficiar e que
também lhe incumbe proteger, sob pena de violar até mesmo o comando da boa-fé objetiva e o
princípio da proteção contratual do consumidor.

Em síntese, o shopping center e o estacionamento vinculado podem ser responsabilizados


por defeitos na prestação do serviço não só quando o consumidor se encontra efetivamente dentro
da área assegurada, mas também quando se submete à cancela para ingressar no estabelecimento
comercial.

No que tange especificamente à responsabilidade de shoppings centers, este Superior


Tribunal de Justiça, "conferindo interpretação extensiva à Súmula n. 130/STJ, entende que
estabelecimentos comerciais, tais como grandes shoppings centers e hipermercados, ao oferecerem
estacionamento, ainda que gratuito, respondem pelos assaltos à mão armada praticados contra os
clientes quando, apesar de o estacionamento não ser inerente à natureza do serviço prestado, gera
legítima expectativa de segurança ao cliente em troca dos benefícios financeiros indiretos
decorrentes desse acréscimo de conforto aos consumidores" (EREsp 1.431.606/SP, Segunda Seção,
DJe 2/5/2019) - com exceção da hipótese em que o estacionamento representa "mera comodidade,

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 16/50
sendo área aberta, gratuita e de livre acesso por todos".

Com efeito, não cabe dúvida de que a empresa que agrega ao seu negócio um serviço
visando à comodidade e à segurança do cliente deve responder por eventuais defeitos ou
deficiências na sua prestação. Afinal, serviços dessa natureza não têm outro objetivo senão atrair um
número maior de consumidores ao estabelecimento, incrementando o movimento e, por via de
consequência, o lucro, devendo o fornecedor, portanto, suportar os ônus respectivos.

Nos termos expostos, pode-se concluir que o shopping center que oferece estacionamento
responde por roubo perpetrado por terceiro à mão armada ocorrido na cancela para ingresso no
estabelecimento, uma vez que gerou no consumidor expectativa legítima de segurança em troca dos
benefícios financeiros que percebera indiretamente.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Código de Defesa do Consumidor, art. 14

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 648

Informativo de Jurisprudência n. 752

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 17/50
PROCESSO REsp 2.037.088-SP, Relator Ministro Marco Aurélio
Bellizze, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em
7/3/2023, DJe 13/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL

TEMA Ação de produção antecipada de provas. Deferimento


liminar do pedido. Ausência de oitiva da parte adversa.
Interposição de agravo de instrumento. Não
conhecimento. Art. 382, § 4º, do Código de Processo Civil.
Interpretação literal. Não cabimento. Contraditório.
Vulneração.

DESTAQUE

O art. 382, § 4º, do Código de Processo Civil não pode ser interpretado em sua acepção
literal, de modo a obstar qualquer manifestação da parte adversa no procedimento de antecipação
de provas, em detida observância do contraditório.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

A controvérsia posta centra-se em saber se, no procedimento de produção antecipada de


prova, a pretexto da literalidade do § 4º do art. 382 do Código de Processo Civil, há espaço para o
exercício do contraditório, e se caberia ao Juízo a quo, liminarmente - a despeito da ausência do
requisito de urgência - e sem oitiva da parte demandada, determinar-lhe, de imediato, a exibição dos
documentos requeridos na petição inicial, advertindo-a sobre o não cabimento de nenhuma defesa.

O chamado processo civil constitucional é garantia individual e destina-se a dar


concretude às normas fundamentais estruturantes do processo civil, utilizadas, inclusive, como
verdadeiro vetor interpretativo de todo o sistema processual civil.

Os valores e as normas fundamentais estabelecidos na Constituição Federal consistem no


fundamento de validade - e mesmo de legitimidade - de todo e qualquer regramento processual.
Com o propósito de reforçar essa concepção jurídico-positiva, há muito internalizada na doutrina e
na jurisprudência processualista nacional, o Código de Processo Civil, em seu art. 1º, estabeleceu

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 18/50
que: "o processo civil será ordenado, disciplinado e interpretado conforme os valores e as normas
fundamentais estabelecidos na Constituição da República Federativa do Brasil, observando-se as
disposições deste Código".

As normas fundamentais de conteúdo principiológico - estruturantes e, portanto,


superiores aos demais regramentos -, que traduzem e asseguram o tratamento isonômico das partes
no processo, o direito de defesa, bem como o contraditório, hão de ser necessariamente observadas
na aplicação e na interpretação de todos os dispositivos legais previstos no Código de Processo Civil.

É possível que as normas processuais estipulem o modo como o contraditório deve ser
exercido, diferindo-o eventualmente. É possível que, em função das especificidades de determinado
procedimento, possam restringir as matérias passíveis de serem nele arguidas. A restrição do
direito de defesa, estabelecida em lei, encontra justificativa, portanto, nas particularidades e,
principalmente, na finalidade do procedimento por ela regulado. Não há, obviamente, nenhuma
vulneração ao princípio do contraditório em tais disposições legais. Todavia, eventual restrição legal
a respeito do exercício do direito de defesa da parte não pode, de maneira alguma, conduzir à
intepretação que elimine, por completo, o contraditório.

A vedação legal quanto ao exercício do direito de defesa somente pode ser interpretada
como a proibição de veiculação de determinadas matérias que se afigurem impertinentes ao
procedimento nela regulado. Logo, as questões inerentes ao objeto específico da ação em exame e do
correlato procedimento estabelecido em lei poderão ser aventadas pela parte em sua defesa,
devendo-se permitir, em detida observância do contraditório, sua manifestação, necessariamente,
antes da prolação da correspondente decisão.

Por conseguinte, o § 4º do art. 382 do CPC - ao estabelecer que, no procedimento de


antecipação de provas, "não se admitirá defesa ou recurso, salvo contra decisão que indeferir
totalmente a produção da prova pleiteada pelo requerente originário" - não pode ser interpretado
em sua acepção literal. Importa, nesse passo, bem identificar o objeto específico da ação de
produção antecipada de provas, bem como o conflito de interesses nela inserto, a fim de delimitar
em que extensão o contraditório pode ser nela exercido.

Como é de sabença, o Código de Processo Civil de 2015 buscou reproduzir, em seus


termos, compreensão há muito difundida entre os processualistas de que a prova, na verdade, tem
como destinatário imediato não apenas o juiz, mas também, diretamente, as partes envolvidas no
litígio.

Reconhece-se, assim, à parte o direito material à prova, cuja tutela pode se referir tanto ao
modo de produção de determinada prova (produção antecipada de prova, prova emprestada e a

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 19/50
prova "fora da terra"), como ao meio de prova propriamente concebido (ata notarial, depoimento
pessoal, confissão, exibição de documentos ou coisa, documentos, testemunhas, perícia e inspeção
judicial).

INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Código de Processo Civil, art. 382, § 4º

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 20/50
QUARTA TURMA

PROCESSO AgInt no REsp 1.609.931-SC, Rel. Ministra Maria Isabel


Gallotti, Quarta Turma, julgado em 13/2/2023, DJe
17/2/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO BANCÁRIO, DIREITO AGRÁRIO

TEMA Imóvel rural. Cédula de crédito rural. Hipoteca.


Impenhorabilidade.

DESTAQUE

É inadmissível a penhora de bem já hipotecado por força de cédula de crédito rural, salvo:
a) em face de execução fiscal; b) após a vigência do contrato de financiamento; c) quando houver
anuência do credor; ou d) quando ausente risco de esvaziamento da garantia, tendo em vista o valor
do bem ou a preferência do crédito cedular.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

Dispõe o art. 11 da LC 93/1998 que "Os beneficiários do Fundo não poderão alienar as
suas terras e as respectivas benfeitorias no prazo do financiamento, salvo para outro beneficiário
enumerado no parágrafo único do art. 1º e com a anuência do credor".

O art. 11 da LC 93/1998 não deve ser analisado de maneira isolada.

O Decreto-Lei 167/1967, que dispõe sobre títulos de crédito rural, prevê, em seu art. 69, a
impenhorabilidade dos bens objeto de hipoteca constituídos pela cédula de crédito rural com
relação a outras dívidas: "Os bens objeto de penhor ou de hipoteca constituídos pela cédula de
crédito rural não serão penhorados, arrestados ou sequestrados por outras dívidas do emitente ou
do terceiro empenhador ou hipotecante, cumprindo ao emitente ou ao terceiro empenhador ou
hipotecante denunciar a existência da cédula às autoridades incumbidas da diligência ou a quem a
determinou, sob pena de responderem pelos prejuízos resultantes de sua omissão".

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 21/50
A regra é a impenhorabilidade do imóvel dado em garantia em financiamento de imóvel
rural. O Superior Tribunal de Justiça, no entanto, admite a relativização do bem gravado com cédula
de crédito rural quando: a) em face de execução fiscal; b) após a vigência do contrato de
financiamento; c) quando houver anuência do credor; ou d) quando ausente risco de esvaziamento
da garantia, tendo em vista o valor do bem ou a preferência do crédito cedular.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Lei Complementar n. 93/1998, arts. 1º, parágrafo único, e 11


Decreto-Lei n. 167/1967, art. 69
Código de Processo Civil (CPC/1973), art. 649, I

PROCESSO AREsp 1.192.906-SP, Relator Ministro Raul Araújo,


Quarta Turma, por maioria, julgado em 14/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL

TEMA Dano moral. Atos praticados após rescisão de contrato de


trabalho. Pretensão indenizatória. Prescrição. Prazo
trienal. Responsabilidade extracontratual.

DESTAQUE

É trienal o prazo prescricional aplicável à pretensão de indenização fundada em atos


ofensivos praticados após a rescisão do contrato de trabalho.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 22/50
A pretensão de indenização por danos morais fundada em atos ofensivos praticados após
a rescisão do contrato de trabalho, ante a imputação da prática de crimes de apropriação indébita e
de desvio de recursos, submete-se a prazo prescricional trienal.

Isso, porque constata-se que a causa de pedir da ação de indenização está fundada na falsa
imputação de condutas criminosas, o que teria causado danos à honra pessoal e profissional. Assim
sendo, não há, de fato, que se falar em responsabilidade civil contratual, uma vez que, em que pese a
relação das partes seja marcada pela prévia existência de contrato de trabalho extinto, na hipótese,
busca-se indenização decorrente de suposto ato ilícito extracontratual.

Conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça, reafirmado no julgamento do


Tema IAC 2, incide o prazo prescricional trienal, nos moldes do art. 206, § 3º, inciso V, do Código
Civil, nas ações de indenização oriundas de responsabilidade civil extracontratual.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Código Civil (CC/2002), art. 206, § 3º, inciso V

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 530

Informativo de Jurisprudência n. 732

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 23/50
PROCESSO AREsp 1.192.906-SP, Relator Ministro Raul Araújo,
Quarta Turma, por maioria, julgado em 14/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL

TEMA Pretensão indenizatória. Imputação de crimes indevida.


Posterior absolvição. Prescrição. Fluência do prazo.
Trânsito em julgado da sentença na ação penal.

DESTAQUE

A fluência da prescrição da pretensão indenizatória fundada na imputação de crimes dos


quais se venha a ser posteriormente absolvido tem início com o trânsito em julgado da sentença na
ação penal.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

Em regra, segundo a teoria da actio nata, considera-se nascida a pretensão no momento da


violação (ou inobservância) do direito, de sorte que o prazo prescricional é contado a partir desse
momento. Contudo, a regra geral cede nas hipóteses em que a própria legislação vigente estabeleça
que o cômputo do lapso prescricional se dê a partir de termo inicial distinto, como ocorre, por
exemplo, nas ações que se originam de fato que deva ser apurado no juízo criminal.

Nessa hipótese, ao tratar das causas que impedem ou suspendem a prescrição, dispõe o
Código Civil em seu artigo 200 que "Quando a ação se originar de fato que deva ser apurado no juízo
criminal, não correrá a prescrição antes da respectiva sentença definitiva".

A previsão do referido dispositivo legal visa a beneficiar, via de regra, as vítimas de crimes
que buscam indenização de natureza civil pelos prejuízos causados pelo ato criminoso por meio do
ajuizamento de ação civil ex delicto, hipóteses nas quais, muitas vezes, é necessário apurar o fato na
esfera penal, principalmente no que tange à certeza e autoria do crime, anteriormente à veiculação
da pretensão indenizatória.

Todavia, a jurisprudência desta Corte entende que, verificada a relação de estrita

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 24/50
dependência entre a pretensão de indenização por danos morais com o fato apurado no juízo
criminal, aplicam-se analogicamente as regras do art. 200 do CC, ainda que não se trate de ação civil
ex delicto - inclusive quanto ao prazo prescricional -, devendo ser afastada a inação da parte autora
que aguardou o desfecho da ação na esfera penal para propor ação de reparação de danos na esfera
civil, diante da possibilidade de que o trâmite simultâneo dos processos em ambas as esferas
resultasse em indesejável contradição.

Tendo em vista que a parte autora fundamentou sua pretensão indenizatória na


ocorrência de alegados prejuízos de ordem moral em razão da imputação da prática de crimes dos
quais foi posteriormente absolvida, a apuração dos supostos fatos criminosos na esfera criminal era,
portanto, questão prejudicial ao ingresso do pedido indenizatório na esfera cível, fazendo incidir,
por analogia, o disposto no art. 200 do CC, no que tange ao termo inicial da prescrição.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Código Civil (CC/2002), art. 200

PROCESSO REsp 2.035.515-SP, Rel. Ministro Antonio Carlos Ferreira,


Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 7/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO BANCÁRIO

TEMA Cédula de Crédito Bancário. Alienação fiduciária.


Decretação de falência do banco beneficiário. Alienação
em hasta pública da carteira de crédito. Emitentes e
avalistas. Direito de preferência. Não configuração.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 25/50
DESTAQUE

Na hipótese de decretação de falência de instituição financeira, os emitentes e avalistas de


cédula de crédito bancário não possuem direito de preferência em sua aquisição em leilão realizado
no processo de liquidação.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

O crédito concedido por instituição financeira e representado pela cédula de crédito


bancário possui garantia fiduciária imobiliária e, com o desenvolvimento ordinário e esperável da
relação obrigacional consistente no pagamento do numerário emprestado, a propriedade resolúvel
cessará e a garantia não mais subsistirá. No entanto, caso haja inadimplemento por parte dos
devedores fiduciantes, o credor pode dar início ao procedimento de execução para ver consolidada
em suas mãos a propriedade plena do bem dado em garantia fiduciária e, posteriormente, aliená-lo
para a satisfação da obrigação. É nesse contexto que a legislação de regência - art. 27, § 2º-B, da Lei
n. 9.514/1997 - prevê o direito de preferência do devedor fiduciante quando da alienação do bem
em hasta pública, após a consolidação da propriedade nas mãos do credor. Cuida-se do direito de
preferência de o devedor fiduciante readquirir o bem do qual foi privado em virtude do
inadimplemento e da consequente consolidação da propriedade em favor do credor fiduciário.

Direito de preferência é aquele que confere a seu titular o exercício de determinada


prerrogativa ou vantagem em caráter preferencial quando em concorrência com terceiros. Tal
prerrogativa pode decorrer de lei, quando o legislador elege determinadas circunstâncias fáticas ou
jurídicas que justificam que determinada pessoa pratique um ato ou entabule um negócio jurídico
de forma prioritária ou precedente, ou ainda pode ter origem contratual, desde que não interfira na
posição de terceiros estranhos à relação jurídica a quem a própria lei confira posição de vantagem. O
legislador confere ao devedor fiduciante o direito de preferência na aquisição - rectius, reaquisição -
do bem que já lhe pertencia e cuja privação decorra do inadimplemento de obrigação à qual se
vinculava por garantia fiduciária.

Contudo, na circunstância presente, trata-se de alienação da carteira de crédito, na qual


está incluído o crédito representado pela cédula de crédito bancário, de titularidade da instituição
financeira, no concurso falimentar. Existe, portanto, significativa diferença entre o que dispõe a
legislação de regência e a pretensão dos recorrentes. O que se defere ao devedor fiduciante é a
preferência na aquisição do bem que lhe pertencia, ao passo que, no caso presente, pretende-se a
aquisição do próprio crédito, da relação jurídica obrigacional, que possui garantia representada pela
alienação fiduciária de bem imóvel.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 26/50
O art. 843 e seu parágrafo estabelecem que, na hipótese de penhora de bem indivisível, há
preferência do coproprietário ou cônjuge executado na arrematação do bem. Com isso, possibilita-se
a penhora da integralidade do bem, ainda que o executado seja proprietário de uma fração ou quota-
parte, evitando-se, a um só tempo, a dificuldade de alienação da quota-parte do devedor e a
constituição forçada de condomínio entre o adquirente e o cônjuge ou coproprietário.

A situação contemplada pelo programa normativo mencionado difere substancialmente


do caso dos autos. A garantia fiduciária não constitui nenhuma forma de copropriedade, mas
transfere a propriedade do bem dado em garantia, ainda que sob condição resolutiva, ao credor
fiduciário; o que há é o desmembramento da posse. No leilão realizado, o que ocorreu foi a
transferência do crédito garantido e representado pela cédula de crédito bancário, inexistindo
similitude que atraia a incidência da regra que garante o direito de preferência.

Acrescente-se, nesse sentido, que os dispositivos da Lei de Introdução às Normas do


Direito Brasileiro (LINDB) - arts. 4º e 5º - cuidam de critérios decisórios e interpretativos que não
permitem conferir ao caso o resultado pretendido. Com efeito, não há falar em omissão legislativa
capaz de autorizar a aplicação da analogia pelo simples motivo de que a preferência, quando
existente, tem assento legal e, de certa forma, excepcional, porquanto estabelece casos especiais em
que determinadas pessoas têm prerrogativas ou vantagens, e não há previsão do direito de
preferência de devedores de obrigações garantidas por alienação fiduciária na aquisição de seu
crédito levado à alienação em hasta pública.

Veja-se que, para o recurso à autointegração do sistema pela analogia, faz-se necessário
que se estenda a uma hipótese não regulamentada a disciplina legalmente prevista para um caso
semelhante. Com efeito, a regra prevista pelo ordenamento em casos como que tais é a alienação dos
bens ou direitos em hasta pública para qualquer interessado que atenda aos editais de chamamento,
orientando-se a disciplina processual civil expressamente nesse sentido. Ao não ser atribuída uma
prerrogativa adicional aos emitentes de cédula de crédito bancário com garantia representada por
alienação fiduciária de bem imóvel, conclui-se que não houve de fato omissão regulamentadora,
senão a intenção legislativa de manter a regra geral nessas condições.

Ademais, permitir que os devedores fiduciantes adquirissem por valor inferior implicaria
prejuízo a todos os demais credores da massa, que teriam diminuída a importância recebida após a
realização do ativo.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 27/50
INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Lei n. 9.514/1997, art. 27, § 2º-B


Código de Processo Civil, art. 843, § 1º
Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, arts. 4º e 5º

PROCESSO REsp 2.004.210-SP, Relator Ministro João Otávio de


Noronha, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em
7/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO BANCÁRIO

TEMA Plano de previdência privada complementar aberta.


Natureza de investimento. Possibilidade. Configuração.
Excepcionalidade. Não conversão em renda e
pensionamento do titular. Morte do titular. Partilha.
Possibilidade.

DESTAQUE

Na hipótese excepcional em que ficar evidenciada a condição de investimento de plano de


previdência privada complementar aberta, operado por seguradora autorizada pela
Superintendência de Seguros Privados (Susep), os valores devem ser trazidos à colação no
inventário, como herança, devendo ainda ser objeto da partilha, desde que antes da conversão em
renda e pensionamento do titular.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 28/50
Cinge-se a controvérsia a definir se valores depositados em plano de previdência privada
aberta - no caso, o VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre) - devem, em alguma medida, compor ou
não o acervo hereditário.

Conforme informado no site da Superintendência de Seguros Privados (Susep), órgão


público supervisor das entidades abertas de previdência complementar, e indicado em vários dos
pareceres das entidades que aqui se manifestaram, o VGBL e o PGBL (Plano Gerador de Benefício
Livre) são planos por sobrevivência (de seguro de pessoas e de previdência complementar aberta,
respectivamente) que, após um período de acumulação de recursos (período de diferimento),
proporcionam aos investidores (segurados e participantes) uma renda mensal, que poderá ser
vitalícia ou por período determinado, ou um pagamento único.

Esses planos de previdência privada aberta, operados por seguradoras autorizadas pela
Susep, podem ser objeto de contratação por qualquer pessoa física ou jurídica, tratando-se de
regime de capitalização no qual cabe ao investidor, com ampla liberdade e flexibilidade, deliberar
acerca dos valores de contribuição, depósitos adicionais, resgates antecipados ou parceladamente
até o fim da vida. Dessa forma, sua natureza jurídica ora se assemelha a seguro previdenciário
adicional, ora a investimento ou aplicação financeira.

Não se pode descurar que, para o mercado, muitos desses fundos constituem mais uma
aplicação financeira que propriamente uma previdência privada. Isso devido à natureza jurídica
desses contratos antes que se concretize sua condição previdenciária, ou seja, antes que o investidor
passe a receber as prestações periódicas.

Como regra, o VGBL tem natureza preponderantemente de seguro. Não há, por assim
dizer, a lógica de que todo e qualquer aporte em plano VGBL configuraria, sempre e sempre, mera
aplicação financeira.

A matéria já foi analisada pela Terceira Turma no REsp n. 1.726.577/SP, e a decisão,


concluindo-se que os planos de previdência privada aberta, de que são exemplos o VGBL e o PGBL,
não apresentam os mesmos entraves de natureza financeira e atuarial que são verificados nos
planos de previdência fechada. Assim, a eles não se aplicam os óbices à partilha por ocasião da
dissolução do vínculo conjugal ou da sucessão (REsp n. 1.726.577/SP, relatora Ministra Nancy
Andrighi, Terceira Turma, julgado em 14/9/2021, DJe 1º/10/2021).

Nesse julgado se decidiu que os planos de previdência privada aberta têm natureza
multifacetária e, assim, natureza securitária (e de previdência complementar), o que se evidencia no
momento em que o investidor passa a receber, a partir de determinada data futura e em prestações
periódicas, os valores que acumulou ao longo da vida, como forma de complementação do valor

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 29/50
recebido da previdência pública e com o propósito de manter determinado padrão de vida. No
entanto, não se pode excluir a natureza de investimento no período que antecede a percepção dos
valores, ou seja, durante as contribuições e formação do patrimônio, uma vez que, nesse tipo de
plano, estão asseguradas múltiplas possibilidades de depósitos, de aportes diferenciados e de
retiradas, inclusive antecipadas.

No caso em análise, a morte da titular, que é o evento de risco no seguro e que gera o
pagamento do prêmio contratado, ocorreu durante o período que antecedeu a percepção dos
valores a título de previdência complementar, antes, portanto, de sua conversão em renda e
pensionamento.

Contudo, o que leva à compreensão de que a natureza preponderante do contrato de


previdência complementar aberta ora objeto de análise é de aplicação e investimento não é apenas o
momento em que se deu a morte mas também as circunstâncias que envolveram a própria
contratação do seguro, ou seja, a titular utilizou valores decorrentes da venda do único imóvel do
casal quando já tinha idade avançada (78 anos) e com quase nenhuma viabilidade de conversão em
pensão por sobrevivência, pois, na data provável do resgate, a titular teria 100 anos de idade.

Por fim, deve-se considerar que o valor do contrato implicou significativo aporte de capital
e potencialmente feriria o limite disponível para que a titular pudesse livremente dele dispor.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Código Civil, art. 794

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 709

Informativo de Jurisprudência n. 723

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 30/50
PROCESSO REsp 2.028.234-SC, Rel. Ministro Antonio Carlos Ferreira,
Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 7/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO COMERCIAL, DIREITO FALIMENTAR

TEMA Falência. Títulos protestados cuja soma ultrapassa o


equivalente a 40 (quarenta) salários mínimos. Protesto
especial. Duplicata. Comprovação da remessa dos títulos
para aceite e da recusa injustificada do devedor.
Desnecessidade. Comprovação da entrega e do
recebimento da mercadoria. Ausência de recusa de aceite
pelo sacado. Suficiência.

DESTAQUE

A exigibilidade do protesto da duplicata mercantil para a instrução do processo de falência


(i) não exige a realização do protesto especial para fins falimentares, bastando qualquer das
modalidades de protesto previstas na legislação de regência; (ii) torna-se suficiente a triplicata
protestada ou o protesto por indicações, desde que acompanhada da prova da entrega da
mercadoria, por cuidar-se de título causal; e (iii) é possível realizar diretamente o protesto por falta
de pagamento ou o protesto especial para fins falimentares.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

A Lei de Recuperação de Empresas e Falência prevê uma única hipótese para a


comprovação de impontualidade e que faz presumir a insolvência: o protesto do título ou títulos
extrajudiciais ou judiciais, como prevê a redação do art. 94, § 3º: "Na hipótese do inciso I do caput
deste artigo, o pedido de falência será instruído com os títulos executivos na forma do parágrafo
único do art. 9º desta Lei, acompanhados, em qualquer caso, dos respectivos instrumentos de
protesto para fim falimentar nos termos da legislação específica".

Qualquer que seja a natureza do título - sanando dúvida que pairava sob a legislação
anterior -, o credor deverá levá-lo a protesto para a comprovação da impontualidade e, assim,
autorizar a deflagração do processo de quebra. Os títulos de crédito, contudo, tal como as duplicatas
que instruíram o processo de falência, possuem disciplina especial que preveem, em distintas

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 31/50
hipóteses, a necessidade do protesto como meio comprobatório de algum fato juridicamente
relevante ou mesmo do inadimplemento. Assim, a duplicata comporta três modalidades de protesto,
cada qual em diferente oportunidade e com efeitos próprios: (I) o protesto por falta de devolução;
(II) o protesto por falta de aceite; e (III) o protesto por falta de pagamento (art. 13 da Lei n.
5.474/1968).

Exatamente em razão da disciplina particular da duplicata, que se interliga a uma relação


que opera como causa para sua emissão, a vinculação do sacado ou comprador de mercadorias ao
título cambial - porque vinculado pela operação mercantil que lhe é subjacente - pode dar-se de
maneira presumida, se o vendedor ou sacador levar os títulos a protesto, acompanhados do
comprovante de entrega das mercadorias, o que implicará, ainda, o vencimento antecipado da
obrigação cambial (art. 25 da Lei 5.474/1968 c/c art. 43 da Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e
Notas Promissórias). Em qualquer hipótese, ainda, o credor poderá proceder ao protesto do título
por falta de pagamento (art. 13, § 2º, da Lei n. 5.474/1968).

Acerca do protesto especial em referência, dispõe o art. 23 da Lei n. 9.492/1997 que "Os
termos dos protestos lavrados, inclusive para fins especiais, por falta de pagamento, de aceite ou de
devolução serão registrados em um único livro e conterão as anotações do tipo e do motivo do
protesto, além dos requisitos previstos no artigo anterior. Parágrafo único. Somente poderão ser
protestados, para fins falimentares, os títulos ou documentos de dívida de responsabilidade das
pessoas sujeitas às consequências da legislação falimentar".

O art. 15 da Lei n. 5.474/1968 prevê a possibilidade cobrança judicial "l - de duplicata ou


triplicata aceita, protestada ou não; II - de duplicata ou triplicata não aceita, contanto que,
cumulativamente: a) haja sido protestada; b) esteja acompanhada de documento hábil
comprobatório da entrega e do recebimento da mercadoria, permitida a sua comprovação por meio
eletrônico; c) o sacado não tenha, comprovadamente, recusado o aceite, no prazo, nas condições e
pelos motivos previstos nos arts. 7º e 8º desta Lei".

É possível, portanto, a cobrança judicial ou a instrução de processo de falência com a


duplicata ou triplicata não aceita, desde que tenha sido protestada, esteja acompanhada de
documento hábil comprobatório da entrega e do recebimento da mercadoria e não tenha sido
recusado o aceite pelo sacado, de maneira comprovada.

Em suma, A exigibilidade do protesto da duplicata mercantil para a instrução do processo


de falência (I) não requer a realização do protesto especial para fins falimentares, bastando
qualquer das modalidades de protesto previstas na legislação de regência; (II) torna suficiente a
triplicata protestada ou o protesto por indicações, desde que acompanhada da prova da entrega da
mercadoria, por cuidar-se de título causal; e (III) faz com que seja possível realizar-se diretamente o

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 32/50
protesto por falta de pagamento ou o protesto especial para fins falimentares.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Lei n. 11.101/2005 (Lei de Recuperação de Empresas e Falência), art. 94, I, § 3º


Lei n. 5.474/1968, arts. 13, § 2º, 15 e 25
Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 596

PROCESSO REsp 1.804.804-MS, Rel. Ministro Antonio Carlos


Ferreira, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em
7/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO EMPRESARIAL, RECUPERAÇÃO JUDICIAL

TEMA Ação de cobrança. Ajuizamento contra consórcio.


Ausência de personalidade jurídica. Homologação de
plano de recuperação judicial de uma das consorciadas.
Novação sui generis. Concursalidade do crédito. Extinção
parcial da ação. Contrato de constituição do consórcio.
Responsabilidade das consorciadas. Solidariedade.
Disposição contratual. Imprescindibilidade.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 33/50
DESTAQUE

Verificada a novação da obrigação, em virtude da homologação de plano de recuperação


judicial de consorciada, quando ausente disposição estabelecendo solidariedade da partes no
contrato de constituição do consórcio, a ação de cobrança de quantia líquida ajuizada apenas contra
o consórcio extingue-se na medida da responsabilidade da recuperanda/consorciada.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

A Lei de Sociedades Anônimas (Lei n. 6.404/1976) estabelece, em seu art. 278, que o
"consórcio não tem personalidade jurídica e as consorciadas somente se obrigam nas condições
previstas no respectivo contrato, respondendo cada uma por suas obrigações, sem presunção de
solidariedade", e que a "falência de uma consorciada não se estende às demais, subsistindo o
consórcio com as outras contratantes; os créditos que porventura tiver a falida serão apurados e
pagos na forma prevista no contrato de consórcio".

Deflui do dispositivo legal a regra geral na hipótese de pluralidade de partes nas


obrigações - concursu partes fiunt - não sendo presumida a solidariedade entre as consorciadas.
Contudo, o limite e as condições da responsabilidade de cada uma delas decorrem do contrato
constitutivo do consórcio.

Em ação de cobrança, quando há obrigações divisíveis com pluralidade de devedores, cada


devedor somente pode ser acionado por sua fração na obrigação. Portanto, se em relação ao
devedor submetido à recuperação judicial houver novação e, em consequência, houver extinção da
obrigação, a ação contra ele não poderá continuar, uma vez que sua quota-parte da prestação não
poderá ser cobrada de outro devedor (art. 257 do Código Civil).

Assim, malgrado haja pluralidade de devedores em relação a um único vínculo, presume-


se dividido em tantas obrigações quantos forem os devedores, na proporção determinada pelos
negócios que lhe deram origem.

Na hipótese, o consórcio decorre de contrato firmado entre suas participantes, cujo ajuste
não cria ente com personalidade jurídica distinta de seus membros. Dessa forma, a imputação

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 34/50
responsabilizatória ocorre diretamente sobre as consorciadas contratantes e, por esse motivo,
revela-se imprescindível a análise de seus atos formativos para verificar a disciplina concreta acerca
das obrigações assumidas, porquanto, repita-se, a solidariedade, em regra, é afastada.

Concomitantemente, ultrapassado o stay period e aprovado e homologado o plano de


recuperação judicial, não mais se cogita da suspensão dos processos contra o devedor, mas o efeito
daí decorrente enseja a extinção das ações, na forma referida. A aprovação e homologação do plano
de recuperação judicial implicam novação das obrigações concursais, é dizer, daquelas existentes ao
tempo da apresentação do pedido, ainda que não vencidas (art. 49 da Lei n. 11.101/2005).

É indiferente, ainda, o fato de o referido crédito não se encontrar habilitado e constar do


plano de recuperação judicial. Com efeito, a novação operada pela aprovação e homologação do
plano tem o efeito de extinguir todas as obrigações anteriores e substituí-las por outras, nas
condições aprovadas pela assembleia de credores ou pelo magistrado (cram down),
independentemente de constarem no rol ou da concordância do credor. Essa eficácia expansiva dos
efeitos da aprovação e homologação do plano repousa exatamente no princípio fundamental da
recuperação, que é permitir o soerguimento da sociedade empresária, a partir do reconhecimento
de sua função social.

Nesse sentido, ainda que o credor não conste do quadro geral, ele tem a faculdade de
habilitar seu crédito de forma retardatária ou cobrá-lo posteriormente, mas terá de fazê-lo, nesta
última hipótese, nas condições determinadas no plano de recuperação judicial.

Revela-se, pois, perfeitamente decomponível a obrigação derivada do contrato de


constituição do consórcio, no bojo da ação de cobrança de quantia líquida, de forma que a solução
adequada, a teor da disciplina prevista na Lei n. 11.101/2005, é a extinção parcial da ação na medida
da responsabilidade da consorciada, porque sua obrigação foi extinta pela novação decorrente da
aprovação e homologação do plano de recuperação judicial.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 35/50
INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Lei n. 6.404/1976 (Lei de Sociedades Anônimas), art. 278, §§ 1º e 2º


Código Civil, art. 257
Lei n. 11.101/2005, arts. 49 e 59

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 36/50
QUINTA TURMA

PROCESSO AgRg no HC 746.729-GO, Rel. Ministro Ribeiro Dantas,


Quinta Turma, por unanimidade, julgado em
19/12/2022, DJe 21/12/2022.

RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL

TEMA Crime de ameaça. Violência contra mulher. Dosimetria.


Exasperação da pena-base. Ameaça contra ex-esposa com
o objetivo de impedi-la de requerer o divórcio e pensão
alimentícia para os filhos. Valoração negativa dos
motivos do crime. Fundamentação idônea.

DESTAQUE

É idônea a valoração negativa dos motivos do crime na hipótese em que o agressor se


utiliza de ameaças para constranger a vítima a desistir de requerer o divórcio e pensão alimentícia
em benefício dos filhos.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

A individualização da pena é submetida aos elementos de convicção judiciais acerca das


circunstâncias do crime, cabendo às Cortes Superiores apenas o controle da legalidade e da
constitucionalidade dos critérios empregados, a fim de evitar eventuais arbitrariedades.

No caso, percebe-se que a pena-base restou fixada acima do mínimo legal pela análise
desfavorável dos motivos do crime. Destacou-se que o crime de ameaça ocorreu em decorrência do
sentenciado reprovar a conduta da vítima - sua ex-esposa, de ter acionado a Justiça para pôr fim ao
casamento e requerer pensão alimentícia para os filhos do casal e demais direitos relativos a tal
demanda. A intenção do agente seria ameaçar a vítima para que ela desistisse de acioná-lo
judicialmente.

Tal elemento é concreto e não é ínsito ao tipo penal em questão, podendo ser sopesado

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 37/50
como circunstância judicial desfavorável, na medida em que demonstra uma maior reprovabilidade
da conduta, motivada pelo anseio de enfraquecimento e de desrespeito ao direitos conferidos à
mulher pela Lei Maria da Penha. Dessa forma, devidamente motivada a exasperação da pena-base,
não se constata qualquer ilegalidade a ser sanada.

PROCESSO AgRg no HC 768.624-SP, Rel. Ministro Ribeiro Dantas,


Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 6/3/2023,
DJe 10/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL

TEMA Posse ilegal de arma de fogo. Crime permanente.


Mandado de busca e apreensão. Prescindibilidade.
Ausência de específica numeração da casa. Ingresso dos
policias em endereço diverso do contido na ordem
judicial. Legalidade. Mitigação do direito à inviolabilidade
de domicílio.

DESTAQUE

A ocorrência de crime permanente e a existência de situação de flagrância apta a mitigar a


garantia constitucional da inviolabilidade de domicílio justificam o ingresso dos policiais em
endereço diverso daquele contido na ordem judicial.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

Consoante decidido no RE 603.616/RO pelo Supremo Tribunal Federal, não é necessário


certeza quanto à prática delitiva para se admitir a entrada em domicílio, bastando que, em compasso
com as provas produzidas, seja demonstrada justa causa para a medida, ante a existência de
elementos concretos que apontem para situação de flagrância.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 38/50
No caso, os policiais civis, dando cumprimento ao mandado de busca e apreensão
expedido em procedimento investigatório, se depararam com um sobrado com duas escadas
externas, sem nenhuma indicação a respeito da numeração das casas (1 ou 2), razão pela qual a
equipe se dividiu e ingressou em ambos os imóveis.

Embora a diligência tenha sido realizada também na casa n. 1, em aparente extrapolação


dos limites da ordem judicial, "em se tratando de crimes de natureza permanente, como é o caso do
tráfico de entorpecentes e de posse irregular e posse ilegal de arma de fogo, mostra-se prescindível
o mandado de busca e apreensão para que os policiais adentrem no domicílio de quem esteja em
situação de flagrante delito, não havendo que se falar em eventuais ilegalidades relativas ao
cumprimento da medida". (AgRg no RHC 144.098/RS, relator Ministro Jesuíno Rissato
(Desembargador convocado do TJDFT), Quinta Turma, julgado em 17/8/2021, DJe 24/8/2021).

O contexto fático delineado nos autos evidenciou, de maneira suficiente, a ocorrência de


crime permanente e a existência de situação de flagrância apta a mitigar a garantia constitucional da
inviolabilidade de domicílio e permitir o ingresso dos policiais em endereço diverso daquele contido
na ordem judicial. A situação, assim, era demonstrativa da existência de estado de flagrância em
crime permanente, baseado em fundadas suspeitas da sua prática em concurso de agentes. Ademais,
franqueado o acesso e apreendido o material bélico, a situação se amolda às hipóteses legais de
mitigação do direito à inviolabilidade de domicílio.

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 738

Informativo de Jurisprudência n. 760

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 39/50
PROCESSO Processo em segredo de justiça, Rel. Ministro Messod
Azulay Neto, Quinta Turma, por unanimidade, julgado em
6/3/2023, DJe 14/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL, DIREITO DA CRIANÇA E


DO ADOLESCENTE

TEMA Produção antecipada de provas. Depoimento especial de


vítima adolescente e testemunha criança na forma da Lei
n. 13.431/2017. "Depoimento sem dano". Prova
irrepetível já produzida. Flagrante ilegalidade não
constatada. Proteção à criança e ao adolescente vítima de
violência.

DESTAQUE

É justificável a antecipação de prova no caso de depoimento especial de adolescente


vítima de possível crime sexual - na forma da Lei n. 13.431/2017 - pela relevância da palavra da
vítima em crimes dessa natureza e na sua urgência pela falibilidade da memória de crianças e
adolescentes.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

A controvérsia consiste em definir se há nulidade na prova já produzida em depoimento


especial de criança e adolescente, sob a justificativa de falibilidade da memória do menor.

No caso, verifica-se que a prova que se buscava afastar já foi produzida, com a respectiva
audiência realizada.

A prova produzida se mostrou pertinente em relação ao caso concreto (dois depoimentos


especiais: de vítima, com apenas 14 anos de idade, de crime de natureza sexual supostamente
cometido pelo próprio padrasto e de testemunha que teria presenciado os fatos, com apenas 11
anos), foi devidamente requerida pela autoridade policial e deferida de forma fundamentada, tanto
na sua relevância (pela força probatória da palavra da vítima em crimes dessa natureza) e na sua
urgência (pela falibilidade da memória de crianças e adolescentes, em especial, quando

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 40/50
repetidamente questionadas sobre os fatos).

Assim, tratava-se de prova essencial e irrepetível pela própria natureza.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Lei 13.431/2017, arts. 7º, 8º e 9º e 11, § 1º

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 755

Jurisprudência em Teses / DIREITO PENAL - EDIÇÃO N. 153: DOS CRIMES CONTRA A DIGNIDADE
SEXUAL - III

PROCESSO HC 795.970-SC, Rel. Ministro Reynaldo Soares da


Fonseca, Quinta Turma, por unanimidade, julgado em
14/3/2023.

RAMO DO DIREITO EXECUÇÃO PENAL

TEMA Saída temporária. Indeferimento. Falta disciplinar grave.


Incompatibilidade do benefício com os objetivos da pena.
Limitação do período de aferição do requisito subjetivo.
Impossibilidade.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 41/50
DESTAQUE

Não se aplica limite temporal à análise do requisito subjetivo para concessão de saída
temporária, devendo ser considerado todo o período de execução da pena, a fim de se averiguar o
mérito do apenado.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

Nos termos do art. 123 da LEP, a autorização da visita periódica ao lar "será concedida por
ato motivado do Juiz da execução, ouvidos o Ministério Público e a administração penitenciária e
dependerá da satisfação dos seguintes requisitos: I - comportamento adequado; II - cumprimento
mínimo de 1/6 (um sexto) da pena, se o condenado for primário, e 1/4 (um quarto), se reincidente;
III - compatibilidade do benefício com os objetivos da pena".

No caso, o Tribunal estadual fundamentou o indeferimento do benefício de saída


temporária com base no histórico penal que registra várias faltas disciplinares de natureza grave e
média, incluindo fuga registrada, anteriormente, quando no gozo do mesmo benefício de saída
temporária e, também, com base no parecer desfavorável da Comissão Técnica de Classificação.

Dessa forma, tanto as faltas graves consistentes em evasões, fugas, flagrante quanto o
registro de comportamento evidenciam que a conduta do apenado durante a execução penal não
atende aos parâmetros necessários para demonstrar seu senso de disciplina e responsabilidade,
bem como a compatibilidade do benefício com os objetivos da pena imposta.

Com relação ao tema, a jurisprudência do STJ é pacífica no sentido de que a autorização


para saídas temporárias leva em consideração o comportamento do sentenciado no cumprimento
da pena.

Nessa esteira, esta Corte tem entendido que "Não se aplica limite temporal à análise do
requisito subjetivo, devendo ser analisado todo o período de execução da pena, a fim de se averiguar
o mérito do apenado" (AgRg no HC 734.258/SC, Relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma,
DJe 10/6/2022).

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 42/50
INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Lei de Execução Penal, art. 123

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 558

Informativo de Jurisprudência n. 590

Informativo de Jurisprudência n. 590

Informativo de Jurisprudência n. 590

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 43/50
SEXTA TURMA

PROCESSO Processo em segredo de justiça, Rel. Ministro Sebastião


Reis Júnior, Sexta Turma, por unanimidade, julgado em
14/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL

TEMA Manobras abortivas praticadas pela gestante.


Atendimento médico-hospitalar. Médico que noticiou o
fato à autoridade policial. Confidente necessário.
Proibição de revelar segredo. Proibição de depor sobre o
fato como testemunha.

DESTAQUE

Médico não pode acionar a polícia para investigar paciente que procurou atendimento
médico-hospitalar por ter praticado manobras abortivas, uma vez que se mostra como confidente
necessário, estando proibido de revelar segredo do qual tem conhecimento, bem como de depor a
respeito do fato como testemunha.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

O trancamento da ação penal em sede de habeas corpus é medida excepcional, cabível


somente quando manifesta a atipicidade da conduta, causa extintiva de punibilidade ou ausência de
indícios de autoria ou de prova sobre a materialidade do delito.

No caso, o modo como ocorreu a descoberta do crime invalidou a persecução penal. O


médico que realizou o atendimento da paciente - a qual estaria supostamente grávida de
aproximadamente 16 semanas e teria, em tese, realizado manobras abortivas em sua residência,
mediante a ingestão de medicamento abortivo - acionou a autoridade policial, figurando, inclusive,
como testemunha da ação penal que resultou na pronúncia da acusada.

O art. 207 do Código de Processo Penal dispõe que "são proibidas de depor as pessoas que,

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 44/50
em razão de função, ministério, ofício ou profissão, devam guardar segredo, salvo se, desobrigadas
pela parte interessada, quiserem dar o seu testemunho". O médico que atendeu a paciente se
encaixa na proibição legal, uma vez que se mostra como confidente necessário, estando proibido de
revelar segredo de que tem conhecimento em razão da profissão intelectual, bem como de depor
sobre o fato como testemunha.

Sobre o sigilo profissional, este STJ já teve a oportunidade de decidir que, "O interesse
público do sigilo profissional decorre do fato de se constituir em um elemento essencial à existência
e à dignidade de certas categorias, e à necessidade de se tutelar a confiança nelas depositada, sem o
que seria inviável o desempenho de suas funções, bem como por se revelar em uma exigência da
vida e da paz social." (RMS 9.612/SP, Ministro Cesar Asfor Rocha, Quarta Turma, DJ 9/11/1998).

Ademais, também como razões de decidir, o Código de Ética Médica (Resolução CFM n.
2.217/2018) enuncia que é vedado ao médico "revelar fato de que tenha conhecimento em virtude
do exercício de sua profissão". Não obstante existam exceções à mencionada regra, nos casos de
"motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito, do paciente", o art. 73, parágrafo único, da
citada Resolução, prevê, de forma expressa, que a vedação em questão permanece "na investigação
de suspeita de crime", contexto em que o médico "estará impedido de revelar segredo que possa
expor o paciente a processo penal" (art. 73, parágrafo único, "c", da Resolução CFM n. 2.217/2018).

Com efeito, o médico não possui, via de regra, o dever legal de comunicar a ocorrência de
fato criminoso ou mesmo de efetuar prisão de qualquer indivíduo que se encontre em situação de
flagrante delito. E, ainda, mesmo nos casos em que o médico possui o dever legal de comunicar
determinado fato à autoridade competente, como no contexto de doença cuja notificação seja
compulsória (art. 269 do CP), ainda assim é vedada a remessa do prontuário médico do paciente
(art. 2º da Resolução n. 1.605/2000 do CFM).

Dessa forma, visto que a instauração do inquérito policial decorreu de provocação da


autoridade policial por parte do próprio médico, que além de ter sido indevidamente arrolado como
testemunha, encaminhou o prontuário médico da paciente para a comprovação das afirmações,
encontra-se contaminada a ação penal pelos elementos de informação coletados de forma ilícita,
devendo ser trancada.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 45/50
INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Código de Processo Penal, art. 207

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 710

Informativo de Jurisprudência n. 751

PROCESSO AgRg no HC 768.530-SP, Rel. Ministro Antonio Saldanha


Palheiro, Sexta Turma, por unanimidade, julgado em
6/3/2023, DJe 9/3/2023.

RAMO DO DIREITO EXECUÇÃO PENAL

TEMA Remição. Aprovação no ENEM. Conclusão do ensino


médio antes do encarceramento. Possibilidade. Art. 126,
§ 5º, da LEP. Acréscimo de 1/3 (um terço). Não
cabimento.

DESTAQUE

É cabível a remição da pena pela aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM,
ainda que o apenado já tenha concluído o ensino médio antes do encarceramento, excluído o
acréscimo de 1/3 (um terço) com fundamento no art. 126, § 5º, da Lei de Execução Penal.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 46/50
Inicialmente, destaca-se que a aprovação no ENEM, a despeito de "não mais ocasionar a
conclusão do ensino médio, configura aproveitamento dos estudos realizados durante a execução da
pena, conforme dispõem o art. 126 da LEP e a Recomendação n. 44/2013 do CNJ" (AgRg no HC
629.666/SC, Relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe 11/2/2021).

Por outro lado, o Superior Tribunal de Justiça vinha entendendo não ser possível a
remição da pena amparada na certificação pelo ENEM quando o sentenciado já houvesse concluído
essa etapa educacional antes da execução penal.

No entanto, em recente julgamento ocorrido (REsp 1.854.391/DF, Rel. Ministra Laurita


Vaz, julgado em 22/9/2020, DJe 6/10/2020), decidiu a Sexta Turma que o direito à remição deve
ser aplicado independentemente de o apenado ter concluído o ensino médio em momento anterior,
uma vez que a aprovação no exame demandaria estudos por conta própria, mesmo para aqueles
que, fora do ambiente carcerário, já possuíssem o referido grau de ensino.

O fato de o paciente já haver concluído o ensino médio antes do início da execução da pena
impede "apenas o acréscimo de 1/3 (um terço) no tempo a remir em função da conclusão da etapa
de ensino, afastando-se a incidência do art. 126, § 5º, da Lei de Execução Penal" (REsp
1.854.391/DF, Rel. Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, DJe 6/10/2020).

INFORMAÇÕES ADICIONAIS

LEGISLAÇÃO

Lei de Execução Penal, art. 126, § 5º


Recomendação n. 44/2013 do CNJ

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 764

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 47/50
RECURSOS REPETITIVOS - AFETAÇÃO

PROCESSO ProAfR no REsp 1.987.558-PR, Rel. Ministro João Otávio


de Noronha, Corte Especial, por unanimidade, julgado em
28/2/2023, DJe 8/3/2023. (Tema 1181).

RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL

TEMA A Corte Especial acolheu a proposta de afetação do REsp


n. 1.987.558/PR ao rito dos recursos repetitivos, a fim de
uniformizar o entendimento a respeito da seguinte
controvérsia: definir se os efeitos da coisa julgada da
sentença que fixa os honorários de defensor dativo se
estendem ou não ao ente federativo responsável pelo
pagamento da verba quando não participou do processo
ou não tomou ciência da decisão (art. 506 do CPC).

PROCESSO ProAfR no REsp 1.945.110-RS, Rel. Ministro Benedito


Gonçalves, Primeira Seção, por unanimidade, julgado em
7/3/2023, DJe 20/3/2023. (Tema 1182).

RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 48/50
TEMA A Primeira Seção acolheu a proposta de afetação dos
REsps 1.945.110/RS e 1.987.158/SC ao rito dos recursos
repetitivos, a fim de uniformizar o entendimento a
respeito da seguinte controvérsia: definir se é possível
excluir os benefícios fiscais relacionados ao ICMS, - tais
como redução de base de cálculo, redução de alíquota,
isenção, imunidade, diferimento, entre outros - da base
de cálculo do IRPJ e da CSLL (extensão do entendimento
firmado no ERESP 1.517.492/PR que excluiu o crédito
presumido de ICMS das bases de cálculo do IRPJ e da
CSLL).

PROCESSO ProAfR no REsp 1.995.213-SP, Rel. Ministro Marco


Aurélio Bellizze, Segunda Seção, por unanimidade,
julgado em 14/3/2023, DJe 20/3/2023. (Tema 1183).

RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL

TEMA A Segunda Seção acolheu a proposta de afetação dos


REsps 1.995.213/SP e 2.023.451/SP ao rito dos recursos
repetitivos, a fim de uniformizar o entendimento a
respeito da seguinte controvérsia: definir qual a natureza
do crédito oriundo do rateio de despesas e cobrado por
associações de moradores, se propter rem ou pessoal, a
fim de viabilizar, ou não, a penhora do bem de família.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 49/50
CORTE ESPECIAL - JULGAMENTO NÃO CONCLUÍDO

PROCESSO EREsp 1.872.414-MG, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Corte


Especial, sessão de julgamento do dia 15/3/2023.

RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL

TEMA Honorários de sucumbência. Execução. Estatuto da OAB


de 1994. Advogado empregado. Regime da CLT. Direito
autônomo do advogado. Pedido de vista.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR

A controvérsia está em definir se o advogado tem legitimidade ativa para execução dos
honorários sucumbenciais de causas julgadas antes da entrada em vigor do Estatuto da Advocacia,
em 1994, em que atuou como empregado da parte vencedora sob regime da Consolidação das Leis
do Trabalho (CLT).

O Ministro Luis Felipe Salomão apresentou voto divergente no sentido de que não deve
haver distinção entre o caso analisado e o precedente EAg 884.487/SP. Ponderou que a Corte,
naquela oportunidade, não fez distinção quanto ao vínculo entre advogados e seus constituintes,
mas tão somente analisou a natureza jurídica dos honorários de sucumbência, concluindo
pertencerem ao advogado.

Após o voto-vista do Ministro Luis Felipe Salomão conhecendo dos embargos de


divergência e negando-lhes provimento, a Ministra Laurita Vaz pediu de vista.

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 475

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 50/50

Common questions

Com tecnologia de IA

According to the Lei de Execução Penal, sentence remission for prisoners who pass educational exams like the ENEM during incarceration is granted, even if the prisoner has already completed the educational stage prior to imprisonment. However, the 1/3 increase in remission time applicable to those completing a new educational stage does not apply if the stage was completed before incarceration .

The Brazilian Constitution mandates that expropriation of urban properties must be accompanied by prior and fair compensation in cash. This requirement is designed to compensate individuals for personal losses incurred for the benefit of the public, ensuring that such actions are contingent upon the fulfillment of constitutional compensation conditions .

Non-compliance with the Lei de Responsabilidade Fiscal in urban property expropriation cases can invalidate the expropriation act and render the associated expenses irregular and harmful to public assets. The public administration must ensure formal adequacy in expropriation actions, including budget impact estimates and declarations of expense compatibility with fiscal plans .

Maintaining professional confidentiality in Brazil's healthcare professions is critical to ensuring public trust in these services, enabling effective patient care, and upholding the dignity of professional practices. Breaching this confidentiality in legal proceedings without proper justification compromises these objectives and may result in legal and ethical sanctions .

The STJ's interpretation that additional attorney's fees are due only when a new level of appeal is initiated discourages frivolous appeals by penalizing unsuccessful appellants with extra costs. This impacts legal strategy by making parties more cautious when considering appeals, ensuring that only substantial grievances are pursued, thereby preserving judicial efficiency and protecting parties from unduly increased litigation costs .

In Brazilian law, the absence of a deposit for a preliminary possession order in expropriation proceedings does not result in the termination of the expropriation action without examining the merits. Rather, it leads to the denial of the preliminary injunction, which does not prevent the continuation of the process aimed at incorporating the property into the state's assets .

The protest requirement for initiating a bankruptcy proceeding under Brazilian commercial law does not necessitate a special protest for bankruptcy purposes. It suffices to have a duly protested triplicate or an indication-based protest, provided it is accompanied by proof of delivery of goods, aligning with the causal nature of the title .

The inclusion or exclusion of tax benefits like ICMS exemptions in federal tax base calculations, such as IRPJ and CSLL, is a contentious issue in Brazilian tax law. Excluding these benefits from tax calculations can lead to lower tax obligations, impacting revenue and compliance strategies. The determination to exclude ICMS credits from federal tax bases extends to other tax benefits, influencing future tax policy and legal interpretations .

Under Brazilian law, the liability of consortia members for debts is determined by the terms of the consortial contract, with no presumption of joint liability. Each member is liable only according to the contract terms. The bankruptcy of one member does not affect the others, and debts are generally apportioned without imputed collective liability absent contractual stipulations to the contrary .

A medical professional in Brazil may legally disclose confidential information if there is a just reason, legal duty, or written consent from the patient. However, even in cases involving suspicion of a crime, the professional is prohibited from revealing information that may expose the patient to legal proceedings unless legally required .

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