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Conhecendo Cristo e Seus Significados Místicos

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Sumário

PREFÁCIO................................................................................................................................................................................ 5

PARTE I - Como Conheceremos Cristo Quando Voltar............................................................................................................... 6


Capítulo I - Quem É Cristo?............................................................................................................................................................7
Capítulo II - Por Que Cristo Veio À Terra Pela Primeira Vez?.........................................................................................................7
Capítulo III – Por Que Ele Deve Vir Outra Vez................................................................................................................................8
Capítulo IV – Como Conheceremos Cristo Quando Ele Voltar?....................................................................................................10

PARTE II - A Interpretação Mística do Natal............................................................................................................................ 13


Capítulo I - A Significância Cósmica do Natal..............................................................................................................................14
Capítulo II - Luz Espiritual - O Novo Elemento e a Nova Substância............................................................................................16
Capítulo III - O Sacrifício Anual de Cristo.....................................................................................................................................19
Capítulo IV – O Místico Sol da Meia-Noite..................................................................................................................................21
Capítulo V – A Missão de Cristo e o Festival das Fadas...............................................................................................................23
Capítulo VI – O Cristo Recém-Nascido.........................................................................................................................................25

PARTE III – A Interpretação Mística da Páscoa........................................................................................................................ 27


Capítulo I - O Cristo Cósmico.......................................................................................................................................................27
Capítulo II - Um Acontecimento de Sentido Místico....................................................................................................................30
Capítulo III - O Significado Cósmico da Páscoa............................................................................................................................33
Parte I......................................................................................................................................................................................33
Parte II.....................................................................................................................................................................................36
Capítulo V - O Significado Esotérico da Páscoa e o Ponto de Partida da Filosofia Rosacruz........................................................38
Capítulo VI - O Símbolo do Ovo...................................................................................................................................................41
Capítulo VII - A Cruz de Cristo......................................................................................................................................................43
Capítulo VIII - Que Foi Feito do Corpo Físico de Jesus?................................................................................................................44

PARTE IV – O Véu do Destino - Como Se Tece e Destece......................................................................................................... 46


Capítulo I - Investigação Espiritual – O Corpo-Alma....................................................................................................................47
Capítulo II - Cristo Interno – A Memória da Natureza.................................................................................................................50
Capítulo III - “O Guardião do Umbral” – Espíritos Apegados À Terra..........................................................................................53
Capítulo IV - “O Corpo de Pecado” - Possessão por Demônios Autocriados - Elementais............................................................57
Capítulo V - Obsessão do Ser Humano e dos Animais.................................................................................................................59
Capítulo VI - A Criação do Ambiente - Gênese das Deficiências Mentais e Físicas.......................................................................61
Capítulo VII - A Causa da Enfermidade – Esforços do Ego para Escapar do Corpo – Efeitos da Lascívia......................................63
Capítulo VIII - Os Raios de Cristo Constituem O “Impulso Interno” - Visão Etérica - Destino Coletivo.........................................65

PARTE V - Os Efeitos Ocultos das Nossas Emoções.................................................................................................................. 67


Capítulo I - A Função do Desejo...................................................................................................................................................67
Capítulo II - Os Efeitos da Cor da Emoção Nas Reuniões das Pessoas - O Efeito Isolante da Preocupação..................................69
Capítulo III - Efeitos da Guerra Sobre o Corpo de Desejos - O Corpo Vital Afetado pelas Detonações dos Grandes Canhões......72
Capítulo IV – A Natureza dos Átomos Etéricos – A Necessidade da Estabilidade........................................................................75
Capítulo V – Os Efeitos do Remorso - Os Perigos do Excesso de Banhos.....................................................................................78

Parte VI - A Oração: Uma Invocação Mágica........................................................................................................................... 81


Capítulo I – A Natureza da Oração e a Preparação para Orar.....................................................................................................81
Preparação para a Oração – Ora et Labora.............................................................................................................................81
Capítulo II - As Asas e o Poder - A Posição do Corpo - A Invocação - O Clímax............................................................................84
As Asas e o Poder....................................................................................................................................................................84
A Posição do Corpo................................................................................................................................................................. 84
A Invocação.............................................................................................................................................................................85
O Clímax Final......................................................................................................................................................................... 85

PARTE VII - Métodos Práticos para Alcançar o Sucesso Baseados na Conservação da Força Sexual..........................................87
Parte VIII - Ensinamentos de um Iniciado............................................................................................................................... 89
Capítulo I - Os Dias de Noé e de Cristo........................................................................................................................................90
Capítulo II - O Sinal do Mestre.....................................................................................................................................................93
Capítulo III - O Que é Trabalho Espiritual?..................................................................................................................................96
Capítulo IV - O Caminho da Sabedoria......................................................................................................................................100
Capítulo V - O Segredo do Sucesso............................................................................................................................................102
Capítulo VI - A Morte da Alma.................................................................................................................................................. 106
Capítulo VII - O Novo Sentido da Nova Era................................................................................................................................109
Capítulo VIII - O Povo Escolhido de Deus...................................................................................................................................112
Capítulo IX - Luz Mística na Guerra Mundial - (1914-1918).......................................................................................................114
Parte I - Fontes Secretas....................................................................................................................................................... 114
Parte II - Seu desenvolvimento sob o ponto de vista espiritual.............................................................................................116
Parte III - Paz na Terra...........................................................................................................................................................119
Parte IV - O Evangelho do Regozijo.......................................................................................................................................122
Capítulo X - Método Científico para o Desenvolvimento Espiritual...........................................................................................125
Parte I - Analogias Materiais................................................................................................................................................. 125
Parte II - Retrospecção: Um Método para evitar o Purgatório..............................................................................................128
Capítulo XI - Os Céus Proclamam a Glória de Deus...................................................................................................................130
Capítulo XII - Religião e Cura.....................................................................................................................................................132
Os Princípios Rosacruzes de Cura..........................................................................................................................................132
Capítulo XIII - Discurso na Colocação da Pedra Fundamental em Mount Ecclesia.....................................................................135
Capítulo XIV - Nosso Trabalho no Mundo - (Publicado Em Maio, 1912)....................................................................................138
Parte I....................................................................................................................................................................................138
Parte II...................................................................................................................................................................................141
Parte III..................................................................................................................................................................................144
Capítulo XVI - Condenação Eterna e Salvação...........................................................................................................................146
Capítulo XVII - O Arco nas Nuvens.............................................................................................................................................149
Capítulo XVIII - A Responsabilidade do Conhecimento..............................................................................................................151
Capítulo XIX - A Jornada no Deserto..........................................................................................................................................154

Parte IX Coletâneas De Um Místico...................................................................................................................................... 159


Capítulo I – Iniciação: O Que É e o que Não É............................................................................................................................160
Parte I....................................................................................................................................................................................160
Parte II...................................................................................................................................................................................163
Capítulo II – O Sacramento Da Comunhão................................................................................................................................166
Parte I....................................................................................................................................................................................166
Parte II...................................................................................................................................................................................168
Capítulo III – O Sacramento do Batismo....................................................................................................................................171
Capítulo IV – O Sacramento do Matrimônio.............................................................................................................................174
Capítulo IV – O Pecado Imperdoável e as Almas Perdidas.........................................................................................................177
Capítulo V – A Imaculada Concepção........................................................................................................................................179
Capítulo VI – A Vinda do Cristo..................................................................................................................................................181
Capítulo VII – A Próxima Era..................................................................................................................................................... 184
O Açúcar pelo Álcool.............................................................................................................................................................185
Capítulo VIII – A Carne Animal e a Bebida Alcoólica como Fatores na Evolução.......................................................................187
Capítulo IX – Um Sacrifício Vivente........................................................................................................................................... 189
Capítulo X – A Magia Branca e a Magia Negra.........................................................................................................................192
Capítulo XI – Nosso Governo Invisível........................................................................................................................................195
Capítulo XII – Preceitos Práticos para Pessoas Práticas.............................................................................................................197
Capítulo XIII – O Som, O Silêncio e o Crescimento Anímico.......................................................................................................200
Capítulo XIV - O “Magno Mistério” da Rosacruz.......................................................................................................................203
Capítulo XV – Pedras de Tropeço...............................................................................................................................................206
Capítulo XVI – A Eclusa da Elevação..........................................................................................................................................209
Capítulo XVII – Porque Sou um Estudante Rosacruz..................................................................................................................211
Capítulo XVIII – O Objetivo da Fraternidade Rosacruz...............................................................................................................213
Parte X - Iniciação Antiga e Moderna................................................................................................................................... 216
O Tabernáculo no Deserto................................................................................................................................................... 217
Capítulo I – O Templo de Mistério Atlante................................................................................................................................217
O Tabernáculo no Deserto....................................................................................................................................................218
O Átrio do Tabernáculo.........................................................................................................................................................220
Capítulo II – O Altar e o Lavabo de Bronze................................................................................................................................221
Capítulo III – A Sala Leste do Templo........................................................................................................................................225
O Místico Significado da Sala Leste e Seu Mobiliário................................................................................................................225
O Candelabro de Ouro.......................................................................................................................................................... 225
O Altar do Incenso.................................................................................................................................................................227
Capítulo IV – A Arca da Aliança.................................................................................................................................................228
O Pote de Ouro do Maná......................................................................................................................................................229
A Vara de Aarão.................................................................................................................................................................... 229
Capítulo V – A Glória Sagrada do Shekinah...............................................................................................................................231
A Sombra da Cruz..................................................................................................................................................................231
A Lua Cheia como um Fator de Crescimento Anímico...........................................................................................................233
Capítulo VI – A Lua Nova e a Iniciação......................................................................................................................................235

A Iniciação Cristã Mística..................................................................................................................................................... 237


Capítulo I – A Anunciação e a Imaculada Concepção................................................................................................................237
A Anunciação e a Imaculada Concepção...............................................................................................................................240
Capítulo II – O Ritual Místico do Batismo..................................................................................................................................243
Capítulo III – A Tentação........................................................................................................................................................... 246
Capítulo IV – A Transfiguração..................................................................................................................................................248
Capítulo V – A Última Ceia e o Lava-pés....................................................................................................................................253
Capítulo VI – Getsemani, o Horto da Aflição.............................................................................................................................255
Capítulo VII – Os Estigmas e a Crucificação...............................................................................................................................257

Parte XI - Maçonaria e Catolicismo....................................................................................................................................... 262


Capítulo I - Lúcifer, o Anjo Rebelde............................................................................................................................................262
Capítulo II - A Lenda Maçônica..................................................................................................................................................265
Capítulo III - A Rainha de Sabá..................................................................................................................................................268
Capítulo IV - Moldando o Mar Fundido.....................................................................................................................................271
Capítulo V - O Mistério de Melquisedeque................................................................................................................................273
Capítulo VI - Alquimia Espiritual................................................................................................................................................278
Capítulo VII - A Pedra Filosofal: O Que É e Como É Feita...........................................................................................................281
Celibato e Matrimônio..........................................................................................................................................................284
Capítulo VIII - O Caminho da Iniciação......................................................................................................................................285
Hiram Abiff............................................................................................................................................................................ 285
Capítulo IX - Armageddon, a Grande Guerra e a Próxima Era...................................................................................................287
Resumo..................................................................................................................................................................................... 289

Parte XII - Mistérios das Grandes Óperas.............................................................................................................................. 290


Fausto................................................................................................................................................................................. 291
Capítulo I - Divina Discórdia......................................................................................................................................................291
Capítulo II - As Tristezas da Alma que Procura..........................................................................................................................293
Parte I....................................................................................................................................................................................293
Parte II...................................................................................................................................................................................296
Capítulo III - Vendendo sua Alma a Satanás..............................................................................................................................299
Parte I....................................................................................................................................................................................299
Parte II...................................................................................................................................................................................302
Capítulo IV - O Preço do Pecado e os Caminhos da Salvação....................................................................................................305
Parsifal................................................................................................................................................................................ 308
Capítulo V - Célebre Drama Musical Místico de Wagner...........................................................................................................308
O Anel do Niebelungo.......................................................................................................................................................... 314
Capítulo VI - As Donzelas do Reno.............................................................................................................................................314
Capítulo VII - O Anel dos Deuses................................................................................................................................................316
Capítulo VIII - As Valquírias.......................................................................................................................................................318
Capítulo IX - Siegfried, o que busca a Verdade..........................................................................................................................321
Capítulo X - A Batalha da Verdade e do Erro.............................................................................................................................323
Capítulo XI - O Renascimento e a Bebida Letal..........................................................................................................................325
Capítulo XII - O Crepúsculo dos Deuses.....................................................................................................................................328
Tannhauser......................................................................................................................................................................... 331
Capítulo XIII - O Pêndulo da Alegria e da Tristeza.....................................................................................................................331
Capítulo XIV - Menestréis, os Iniciados da Idade Média............................................................................................................334
Capitulo XV - O Pecado Imperdoável.........................................................................................................................................337
Capítulo XVI - O Cajado que Floresceu......................................................................................................................................339
Lohengrin............................................................................................................................................................................ 341
Capítulo XVII - O Cavaleiro do Cisne..........................................................................................................................................341

APENDICE............................................................................................................................................................................ 344
Conto de um Teólogo................................................................................................................................................................ 344
PREFÁCIO

Este volume apresenta um compêndio que engloba mensagens transmitidas por Max Heindel, o Místico do
Ocidente, a seus alunos por meio de aulas ministradas mensalmente. Estes ensinamentos, sempre reeditados desde
que esse grande Espírito foi chamado para uma obra mais elevada nos mundos superiores em 6 de janeiro de 1919,
abrangem algumas das suas composições em forma de carta, sendo:

Quatro sob o título Como Conheceremos Cristo Quando ele Voltar


Seis sob o título A Interpretação Mística do Natal;
Oito sob o título A Interpretação Mística da Páscoa;
Oito sob o título: O Véu do Destino;
Cinco sob o título O Efeito Oculto das Nossas Emoções
Duas sob o título A Oração
Uma sob o título Invocação Mágica e Métodos Práticos para se Alcançar o Sucesso;
Dezenove sob o título Ensinamentos de um Iniciado;
Vinte e quatro sob o título: Coletâneas de Um Místico;
Treze sob o título Iniciação Antiga e Moderna
Dezenove sob o título Os Mistérios das Grandes Óperas;
Nove sob o título: Maçonaria e Catolicismo;
Cartas aos Estudantes

Estas obras abrangem suas últimas investigações como Clarividente.


Os leitores têm recebido proveitosas mensagens e eficaz estímulo espiritual através das inspiradoras
palavras contidas nessas obras. Com o correr do tempo, também acreditamos no crescente entendimento do
verdadeiro valor das obras de Max Heindel, atendendo as necessidades dos Estudantes esclarecidos e avançados e
auxiliando quem busca a verdade através do misticismo e do ocultismo. Suas palavras atingem o íntimo do coração
dos leitores. Muitos dos que leram seu primeiro trabalho, “Conceito Rosacruz do Cosmos”, ficaram impressionados.
Max Heindel, o mensageiro autorizado da genuína Fraternidade Rosacruz, além de transmitir também viveu
seus ensinamentos. Somente quem sofreu como ele, durante toda sua vida, consegue percutir as cordas do coração
humano. Somente quem sentiu as dores do parto do nascimento espiritual, e foi admitido nos reinos da alma, tem o
poder de emocionar seus leitores. As obras que Max Heindel legou à Humanidade viverão e frutificarão, pois
resultam desse nascimento espiritual.
Possam os leitores sentir o palpitar do coração desse homem que, por amor à Humanidade, sacrificou sua
própria existência física no desejo de transmitir a todos as maravilhosas verdades assimiladas durante o convívio
com os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz.
PARTE I - Como Conheceremos Cristo Quando Voltar

Por
Max Heindel

Revisado de acordo com:


1ª Edição em Inglês, How shall we know Crist at his coming, editada por The Rosicrucian Fellowship
1ª Edição em Português, editada pela Fraternidade Rosacruz São Paulo – SP – Brasil

Relatório Taquigrafado de uma Palestra Proferida em Los Angeles Study Center, Rx. F., em 18 de maio de 1913, por
Max Heindel

Existe um quadro em minha Mente, ele está lá há anos; algumas vezes, quando tenho tempo disponível para
voltar-me para dentro de mim mesmo e olhar aquele arquivo, este aparece. Deixe-me descrevê-lo: Acompanhe-me,
regredindo no tempo, cerca de dois mil anos. A cena passa-se na Palestina; as colinas estão desertas; vê-se um
pequeno grupo de homens e no rosto de cada um reflete-se a tristeza. Eles estão pranteando. Aquele que,
pensavam, tinha vindo para fazer grandes coisas foi-lhes tirado por mãos implacáveis e Sua vida parecia-lhes
destruída, e eles perguntavam-se: “Será este o fim”? Isto emocionava-os profundamente. Ele os tinha chamado de
amigos. Disse-lhes: “Vós sois meus amigos”1, e eles choravam por Ele, como a um amigo. Disse-lhes também: “Se Eu
for embora, Eu virei novamente”2, e eles discutiam, ansiosamente, procurando saber quando esse advento ocorreria.
Assim foi o início, mas, desde então, isto continua sendo um assunto de interesse para todos que, pela graça
de Cristo, intitulam-se Seus amigos. Tem sido um tema de entusiástica e constante indagação: Quando Ele virá
novamente, e como O conheceremos quando Ele voltar?
Ele disse a Seus seguidores na Palestina que muitos viriam para enganar: que se lhes fosse dito para irem ao
deserto, a este ou aquele lugar para procurá-Lo, eles não deveriam ir. Disse-lhes, também, que os Anjos no céu não
sabiam o dia em que Ele retornaria; que mesmo o Filho não sabia, mas somente o Pai. Como descrevi antes, eles
estavam discutindo, procurando saber o tempo aproximado do advento e, particularmente, como cada um poderia
conhecê-Lo quando Ele aparecesse.
Pretendentes – tem havido muitos desde aquele dia – têm alegado ser Cristo; alguns enganam-se a si
próprios e aos outros, acreditando que são realmente aquele exaltado e elevado Mestre. Existem outros que,
deliberada e maliciosamente, procuram usurpar Seu lugar. Portanto, há um interesse permanente na pergunta:
Como vamos reconhecê-Lo?
Há um ano, apareceu em uma revista inglesa, um artigo intitulado “Arautos Ocultos”. Nele foram
apresentados resumos dos Ensinamentos dos Mistérios Ocidentais como são fornecidos no “Conceito Rosacruz do
Cosmos” e do Ocultismo Oriental, representado por uma sociedade que promulga aquela doutrina. Os líderes das
duas sociedades e suas obras foram comparados. Semelhanças foram encontradas, mas o autor do artigo também
percebeu, com notável perspicácia, o que Estudantes superficiais dos Ensinamentos da Sabedoria Ocidental não
perceberam, isto é, a diferença Vital e irreconciliável nos dois ensinamentos, no que diz respeito a Cristo e Sua vinda.
Foi mostrado que, de acordo com os ensinamentos Orientais, tanto Cristo quanto Buda foram homens de vida
comum, enquanto nos ensinamentos do Mistério Ocidental se diz, com ênfase, que Cristo é um Hierarca divino, não
de nossa evolução, mas, “que por nós, homens, veio” e que, tendo uma vez deixado o Corpo Denso, Ele jamais
aparecerá em um veículo físico.
Como esta é uma das principais diferenças entre a Sabedoria do Ocidente e os Ensinamentos Orientais,
constituindo isto um dos maiores problemas atuais, parece vital que todos os Estudantes dos Ensinamentos da
Sabedoria Ocidental compreendam perfeitamente o assunto.
Para sistematizar nossa exposição, vamos dividi-la em quatro partes, cada uma dedicada à consideração de
uma questão que tenha relação definida com nosso assunto:
1. Quem é Cristo?
2. Por que Cristo veio à Terra pela primeira vez?
3. Por que Ele deve vir outra vez?
4. Como conheceremos Cristo quando Ele voltar?
Deste modo, será mais fácil para aqueles que não estudaram os Ensinamentos da Sabedoria Ocidental
compreenderem a ideia.
1
Jo 15:14
2
Jo 14:3
Capítulo I - Quem É Cristo?
O primeiro ponto que precisamos colocar é a identidade de Cristo, como é ensinada na Escola dos Mistérios
Ocidentais. De acordo com a figura anterior, “Os Sete Dias da Criação”, o ser humano passou por um período de
involução compreendendo os Períodos de Saturno, Solar e Lunar, como também metade do Período Terrestre. Nesta
peregrinação através da matéria, ele adquiriu os veículos que hoje possui.
Durante o Período de Saturno, quando éramos semelhantes aos minerais, alguns seres eram humanos como
nós somos hoje, mas eram de uma onda de evolução diferente. Desde então, eles têm avançado e tornaram-se os
Senhores da Mente. O mais elevado daquela evolução – da Onda de Vida que estava, então, no estágio humano – é
chamado no esoterismo de o Pai.
O mais elevado Iniciado do Período Solar, quando aqueles seres, que agora são Arcanjos, eram humanos, é
chamado o Filho, ou seja, o Cristo.
Os Anjos atuais eram humanos no Período Lunar e o mais elevado Iniciado, que agora chamamos de Jeová, é
também chamado Espírito Santo.
Temos aqui a categoria dos três mais ativos grandes seres – os líderes da evolução.
A humanidade do Período Solar não podia descer mais no mar da matéria além do Mundo do Desejo (veja a
figura acima), portanto, seu veículo inferior era o Corpo de Desejos e, como é uma lei cósmica que nenhum ser pode
criar um veículo que não aprendeu a construir durante sua evolução, era impossível para o Espírito Cristo nascer em
um Corpo Denso. Ele não poderia formar tal veículo. Nem poderia formar o Corpo Vital, feito de Éter. Faltava-Lhe
também a habilidade de funcionar na última substância, pois Ele nunca a havia adquirido em Sua evolução. Para
fornecer os veículos necessários para Cristo, Jesus, um ser humano da nossa evolução – um homem nascido de um
pai e de uma mãe, ambos altos Iniciados, que fizeram do ato criador um sacrifício e chegaram à concepção
imaculada sem paixão – entregou seus Corpos Denso e Vital no Batismo para o Espírito Sol, Cristo, que, então,
entrou no mundo material e tornou-se mediador, possuindo todos os veículos necessários para funcionar entre Deus
e o ser humano. Cristo Jesus é, portanto, absolutamente único, e a Bíblia nos diz que não há nenhum outro nome
pelo qual devemos ser salvos, a não ser pelo nome de Cristo Jesus. Este é o único Credo Cristão autorizado.
Tendo explicado a identidade de Cristo e de Jesus, como é apresentada nos Ensinamentos da Sabedoria
Ocidental, nosso problema seguinte é:

Capítulo II - Por Que Cristo Veio À Terra Pela Primeira Vez?


No Gólgota, o Corpo Denso de Jesus foi destruído, ao mesmo tempo em que se manifestavam certos
fenômenos relatados na Bíblia, e o Espírito de Cristo penetrou na Terra. Até aquele momento, a Terra vinha sendo
governada de fora. Do mesmo modo que os Espíritos-Grupo guiam os animais de fora, também a Terra foi guiada em
sua órbita e a humanidade também o foi, no caminho de evolução, dirigida quase que inteiramente por Jeová, mas,
desde aquele momento, o Cristo se tornou nosso Espírito Interno da Terra. Agora, Ele guia nosso Planeta em sua
órbita e está procurando substituir o regime de guerra, inaugurado por Jeová de um lado e pelos marciais espíritos
Lucíferos de outro, por um regime de altruísmo, um reino de Fraternidade Universal. Ouvimos falar muito sobre
Fraternidade Universal, mas não é necessário formarem-se sociedades para proclamar que somos irmãos. Todos
sabemos disto, não há necessidade de chamar atenção para este fato. Irmãos e irmãs nem sempre são harmoniosos,
mas devem procurar sê-lo, se pretendem ser amigos. Cristo instituiu um ideal muito mais elevado, quando chamou
Seus Discípulos de amigos: “Vós sois meus amigos se fizerdes tudo que Eu vos mandar”3.

3
N.T.: Jo 15:14
Capítulo III – Por Que Ele Deve Vir Outra Vez
Enquanto temos a promessa enfática do retorno de Cristo, existem muitos Cristãos que não acreditam no
Segundo Advento, de maneira que será melhor, analisar se existe alguma razão compelindo Seu retorno.
Para elucidar este ponto, tomemos um episódio iluminador de “Fausto”. Embora escrito por Goethe, este
drama não foi uma ficção, pois a lenda de Fausto é mais velha que a história; é um dos mitos que expressa, em
termos fantasiosos, pictóricos, a história da alma em busca da luz. Estes contos foram transmitidos à humanidade
infantil para que pudesse, subconscientemente, absorver os ideais que, em épocas posteriores, deveria viver. Na
verdade, usamos o mesmo método de instrução quando damos a nossos filhos livros com ilustrações para inculcar-
lhes ideias que não podem captar intelectualmente, por serem muitos novos.
Fausto leu livros durante sua vida inteira e, gradualmente, aprendeu que nós sabemos somente o que
vivemos. Se não for para aplicação prática na vida diária, o aprendizado através de livros não terá nenhum valor.
Quando a alma desperta para este fato, coloca-se no limiar do verdadeiro conhecimento olhando em direção à LUZ.
Mas, a estrada se bifurca: um caminho é tranquilo e fácil, por toda sua extensão existem guias serviçais e risonhos
prontos para encorajar o viajante e assisti-lo em tudo que desejar, e, no final, está Lúcifer, o portador da luz,
disposto a dar honras mundanas àqueles que lhe prestam culto. O outro caminho é áspero, escarpado e perigoso;
algumas vezes é muito escuro; muitos corações doloridos estão nele e, frequentemente, podemos ouvir o grito de
angústia: “Quanto tempo mais, Ó, Senhor! Quanto tempo”? Mas, ainda que a alma lute aparentemente sozinha,
sempre escuta uma voz interior, suave, tênue e silenciosa, mas inconfundivelmente clara: “ Vinde, vós que estais
fatigados e sobrecarregados e Eu vos darei repouso”4. Às vezes, a “Verdadeira Luz”, Cristo, a meta da alma que
procura, é vista através de uma brecha nas nuvens tempestuosas, que precisam ser transpostas para que o aspirante
alcance o topo da realização e, a partir da visão beatificada, a alma que busca reúne novas forças.
No caminho escuro, Lúcifer favorece todos os apetites sem restrições ou reserva. Enquanto a alma é levada
pela correnteza, tudo aparenta ser fácil e o prazer parece estar a espera a cada passo. No entanto, quanto a alma
finalmente chega ao fim do rio da vida, em lugar de voar muito alto em direção à própria meta, é arrastada para
baixo pelos apetites vis que se uniram a ela, como a polpa de sua fruta verde está colada na presente; e ela
experimenta, com uma intensidade mil vezes maior, a dor que sobrevém quando pretende se libertar dos grilhões
consolidados pelo pecado.
Thomas A. Kempis menciona o desejo da maioria de viver uma longa vida e como poucos se preocupam em
viver uma boa vida. Eu posso parafrasear isto, exclamando: “Oh, quantos desejam alcançar poderes espirituais, mas
como são poucos os que se esforçam para cultivar a espiritualidade”! A história de Fausto dá-nos uma visão daquilo
que pode acontecer, se exclamássemos com toda a intensidade de nosso ser, como ele o fez:

“Oh! Há Espíritos no ar,


Que flutuam entre o céu e a terra em domínio atuando?
Inclinai-vos aqui de vossa atmosfera dourada,
Para cenários, nova vida e plena rendição ides me guiando.
Se eu possuísse um manto mágico, simplesmente,
Para transportar-me como que em invisíveis asas, largamente,
Muito mais do que custosas vestes eu prezaria,
E nem por um manto real o trocaria”.

Por esta impaciência e desejo de obter alguma coisa em troca de nada, de colher onde não semeou, ele atrai
para si um espírito de natureza indesejável, pois os habitantes dos Mundos invisíveis não são, de modo algum,
diferentes das pessoas daqui. Um filantropo não é encontrado a cada curva do caminho neste mundo, nem
encontramos Anjos por todos os lados quando atravessamos fronteira, e a única proteção é esforçar-nos para
sermos dignos de entrar conscientemente naqueles reinos. Quando tivermos alcançados o caráter requerido, não
teremos que esperar.
Não precisamos referir-nos ao tipo de barganha que foi proposta a Fausto por Lúcifer, que seguiu sua vítima
em perspectiva até seu gabinete; mas, quando ele se volta para a porta e está prestes a sair, ele vê, aflito, uma
estrela de cinco pontas, com duas pontas viradas para a porta e uma ponta à sua frente. Esta, ele pede a Fausto que
a remova, mas ao ser rigorosamente interpelado e convidado a sair pela janela ou chaminé, Lúcifer finalmente
confessa:

“Para os fantasmas e espíritos é uma lei


Por onde entrarmos, por aí sair devemos”.

4
N.T.: Mt 11:28
Isto é um ponto muito importante, pois, assim como Lúcifer entrou no gabinete de Fausto pela porta e é
forçado a sair pelo mesmo caminho, Cristo entrou na Terra por meio do Corpo Vital de Jesus e precisa, em Seu
retorno, sair da Terra redimida por esse mesmo caminho em direção ao Sol, Seu lar celestial. Nenhum outro veículo
o fará.
Mas existem mais coisas de interesse nesta situação e na ligação entre Fausto e Lúcifer. A porta está aberta, então,
por que a estrela de cinco pontas iria barrar a saída de Lúcifer, especialmente quando ele a havia transposto ao
entrar no gabinete?
A estrela de cinco pontas é o emblema do ser humano com seus membros separados e braços estendidos;
uma ponta está no topo, representando a cabeça que é a porta natural do espírito. Por aí ele entra em seu futuro
Corpo cerca de 18 dias depois da concepção, daí saindo quando o Corpo dorme, retornando pela mesma passagem
pela manhã. Para os Auxiliares Invisíveis esta é, também, a saída e a entrada. Finalmente, quando a morte chega, o
espírito se retira por meio da cabeça.
Por esta razão, a estrela de cinco pontas, com uma ponta para cima, como está representada no emblema da
Fraternidade Rosacruz, é o símbolo de magia branca, que trabalha por meios naturais, em harmonia com a lei de
evolução.
O Estudante de uma Escola de Mistérios aprende a dirigir a força criadora para cima, para o cérebro e
transmutá-la em poder anímico através de uma vida de castidade e auto sacrifício. Esse poder anímico ele o usa para
projetar-se nas esferas superiores por meio da cabeça. O seguidor da magia negra, incapaz de auto sacrifício, obtém
o poder através do uso pervertido da força de vida de suas vítimas, que o projetam para baixo por meio dos pés, e
ele deve retornar pelo mesmo caminho. O Cordão Prateado, então, projeta-se através do órgão inferior. Portanto, a
estrela de cinco pontas, com duas pontas apontando para cima e uma para baixo, é o símbolo da magia negra. Foi
fácil para Lúcifer entrar no gabinete de Fausto porque as duas pontas da estrela estavam apontando para a entrada,
mas, quando ele quis sair e defrontou-se com uma ponta do símbolo, sua alma pervertida foi repelida pelo emblema
da pureza e do amor.
Realmente, não temos qualquer prova legal de que Cristo tenha entrado na Terra e esteja lá parcialmente
confinado, como estamos confinados em nossos Corpos Densos, mas existe nisto muita evidência mística e, pela Lei
da Analogia, está evidente que Cristo, passa Seus dias-santos, parte dentro e parte fora da Terra.
Câncer, regido pela Lua, é o Signo que rege a concepção. Os Egípcios o retrataram como um besouro e, para
eles, o escaravelho era o símbolo da alma. Quando a Luz do Mundo, o Sol, entra em Câncer, em Junho, o poder
criador do último ciclo que deu vida à Terra foi gasto e, para renovar esta vida, que caso contrário se desvaneceria, o
Sol precisa descer novamente. No Equinócio de Setembro, a balança se inclina e a força germinativa entra em nossa
Terra, alcançando o Centro no Natal, quando o Sol está em seu ponto mais baixo de declínio, o Solstício de
Dezembro. Daí a força germinante, o raio de Cristo, se irradia para frutificar novamente a matéria e alcançar a
periferia da Terra quando o Sol cruza o equador celeste, no Equinócio de Março. Então, o Salvador, o Cordeiro de
Deus, morre para o Mundo, mas se torna vivo para as esferas superiores.
Assim como estamos confinados em nossos Corpos Densos, de manhã até a noite pelas atividades do dia,
também Cristo está confinado na Terra, do Equinócio de Setembro até o Equinócio de Março, que é o período em
que as atividades físicas estão bastante inativas, mas onde os esforços espirituais trazem melhores resultados. E, da
mesma forma que somos libertados de nossos Corpos à noite e entramos nos Mundos invisíveis para recuperar-nos
(para o espírito) das condições difíceis da existência física, o Cristo também é temporariamente libertado da Terra na
crucificação quando vemos o Sol passar o equador celeste e elevar-se às alturas celestiais. Esta é, portanto, a ocasião
em que sentimos o impulso espiritual enfraquecer e utilizamos nossa energia nas atividades físicas, no cultivo do
solo, fazendo crescer duas folhas de erva onde havia apenas uma.
De acordo com a opinião comum sobre o assunto, Cristo completou o Sacrifício no Gólgota, mas, na verdade,
aquilo foi só o início. Ele ainda está confinado à Terra como nós estamos em nossos “Corpos de Morte”. Ele sofre
como nós sofremos, mas com uma intensidade que não podemos avaliar. Ele ainda está “gemendo e labutando
esperando pela manifestação dos Filhos de Deus”5, que somos nós mesmos. Quando um número suficiente de
pessoas sentir o nascimento do Cristo Interno, de modo que possam suportar a carga de seus irmãos e dar suas vidas
como Cristo está agora dando a Sua, então, a hora da libertação soará e Cristo poderá retornar permanentemente
para o Sol. Mas, da mesma forma que Ele entrou na periferia da Terra quando veio, assim também, sob a lei que
acabamos de explicar, Ele deve voltar para a superfície da Terra e isto, em si, é o que constitui a Segunda Vinda.
Não existe na Bíblia aviso mais enfático do que aquele dado por Cristo contra os que pretendem ser Cristos.
Ele declarou que alguns produziriam sinais e maravilhas que poderiam enganar o próprio escolhido, e nós devemos
lembrar-nos de Suas palavras, quando começamos a considerar nossa última pergunta:

5
N.T.: Rm 8:18
Capítulo IV – Como Conheceremos Cristo Quando Ele Voltar?
Cristo disse: “Tende cuidado para que nenhum ser humano vos engane; pois muitos virão em meu nome,
dizendo, Eu sou Cristo; e enganarão muitos. E, se algum ser humano vos disser, olhai, aqui está Cristo, ou olhai, ele
está lá, não acrediteis nele. Pois falsos Cristos e falsos profetas surgirão e produzirão sinais e milagres para enganar,
se isto fosse possível, o verdadeiro escolhido... então, eles verão o Filho do homem vindo nas nuvens com grande
poder e glória ... Ele enviará Seus Anjos e juntará Seu escolhido dos quatro ventos ..., mas, deste dia e hora, nenhum
ser humano o sabe, nem os Anjos que estão no céu, nem o Filho, mas só o Pai”.6
Por essas passagens, vemos como precisamos ser cuidadosos para não sermos atraídos por impostores.
Existe, também, muita luz a guiar-nos para o caminho certo e alguns sinais são os indicadores pelos quais podemos,
certamente, reconhecer Cristo dos imitadores. O sinal mais conclusivo dos impostores é que, não importa quanto
seu argumento possa ser inteligente, eles vêm revestidos em um Corpo físico. Existem boas razões para
entendermos que: Cristo Não Virá em um Corpo Físico7.
Nenhum veículo poderia suportar a tremenda vibração de tão grande Espírito. Pelas Escrituras, sabemos que
Cristo frequentemente afastava-Se de Seus Discípulos. Nessas ocasiões, Ele levava o Corpo de Jesus para os Essênios,
que eram homens de nossa evolução e hábeis médicos esotéricos, peritos nos cuidados com o Corpo. Eles
restauravam o seu vigor e energia e, dessa forma, mantiveram o Corpo de Jesus unido por três anos. Do Gólgota, o
Corpo foi levado para o túmulo e, como a influência coesiva foi retirada, os átomos espalharam-se em todas as
direções e quando o túmulo foi aberto, somente a vestimenta foi encontrada.
Para obter outro veículo físico para a Segunda Vinda, da mesma maneira que o primeiro foi preparado, seria
muito difícil, mas poderia ser conseguido. No entanto, sob a lei de que um espírito deve sair por onde entrou,
somente aquele único Corpo de Jesus seria utilizado e, como foi destruído, é impossível que Cristo apareça em um
veículo físico. Portanto, como já foi dito, possuir tal Corpo revela o impostor.
Supondo que essa “lei” seja uma invenção da imaginação do autor e que a Lei de Analogia, citada como
defesa, seja somente uma coincidência, nossa argumentação é ainda apoiada pela Bíblia, não obstante todas as
outras evidências. Cristo disse: “Se eles disserem para vós; Olhai, Ele está no deserto; não ides. Olhai, Ele está nas
câmaras secretas; não acrediteis”8. Assim Cristo não deve ser encontrado em nenhum lugar físico. São Paulo
também declara enfaticamente que “carne e sangue” não herdarão o reino. Se nós estamos para ser “revestidos
com uma casa que nos vem do céu”, por que o líder da Nova Dispensação deveria Ter um veículo físico?
A Bíblia não abandona o assunto e diz-nos onde não procurar Cristo. Ele disse enfaticamente: “O Filho do
Homem virá nas nuvens”9. Quando Ele finalmente deixou Seus Discípulos, “Ele foi levado para cima, e uma nuvem O
recebeu, sem ser visto por eles. E, enquanto eles olhavam fixamente para o céu, à medida que Ele subia, dois homens
permaneceram perto deles em trajes branco, os quais também disseram: Ele voltará do mesmo modo que O vistes ir
para o céu” (At 1:10-11). São Paulo diz: “O Senhor, Ele mesmo descerá do céu... depois nós ... seremos arrebatados
por entre nuvens para encontrar o Senhor, no ar” (ITes 4:16-17). São João viu o primeiro céu e a terra desaparecerem
– o mar secou e uma cidade santa desceu do céu, da qual Cristo era o regente. Estas coisas são, evidentemente,
impossibilidades físicas. Um Corpo de carne e sangue não pode elevar-se no ar, e São Paulo afirma, categoricamente,
que “carne e sangue não podem herdar o Reino de Deus”. Se nós não podemos entrar naquele traje, como pode
Cristo, o líder, usar um Corpo físico em um universo de lei?
Se pudéssemos, agora, descobrir que tipo de veículo Ele usou, saberíamos como reconhecê-Lo e, também,
como seremos constituídos, pois “seremos como Ele” de acordo com São João: “Amados, agora nós somos os filhos
de Deus, e não aparece ainda o que seremos: mas nós saberemos que, quando Ele aparecer, nós seremos como Ele.”
(IJo 3:2). São Paulo diz: “nossa comunidade (não conversação, como foi traduzido; a palavra grega é “politeuma” –
forma de governo ou comunidade e é usada pelo apóstolo para se referir ao novo céu e terra) está no céu, de onde
também estamos esperando o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso Corpo vil, fazendo-o
semelhante ao Seu Corpo glorioso.” (Fp 3:20-21).
O Corpo que Cristo usou depois do evento do Gólgota era também capaz de entrar em uma sala com portas
fechadas, pois Ele assim apareceu para Seus Discípulos e deixou Tomás tocá-lo. Podem pseudo-Cristos, em um Corpo
físico, fazer isto? Acredito que não.
Este fato requer um veículo mais sutil que o físico e nenhum sofisma poderá invalidar este argumento, isto é,
de que Cristo usará um veículo mais sutil que o físico. A Bíblia diz que Cristo usou um Corpo tão sutil depois da
ressurreição, que Ele ascendeu ao Céu dentro dele, que Ele deverá voltar neste mesmo Corpo e que, neste aspecto,
nós mudaremos para um estado onde seremos como Ele.

6
N.T.: Mt 24 4-36 e Mc 13:5-32
7
N.T.: em um Corpo Denso
8
N.T.: Mt 24:26
9
N.T.: Mt 24:30; Lc 21:27 e Mc 13:26
Surge a pergunta final: Ensina-nos a Bíblia que veículo é esse e existe alguma informação pela qual possamos
obter conhecimento completo e definitivo com respeito a este novo veículo? Devemos procurar a resposta no
inimitável capítulo XV da 1ª Epístola aos Coríntios, onde São Paulo ensina a doutrina do Renascimento por meio dos
Átomos-semente, tão claramente quanto a dos Ensinamentos da Sabedoria Ocidental de hoje.
Na versão inglesa, o versículo 44 diz: “Existe um Corpo natural e um Corpo espiritual”; mas o Novo
Testamento não foi escrito em inglês e, como os tradutores nada sabiam dos ensinamentos internos, não tinham
ideia de como traduzir a palavra grega que para eles parecia sem sentido, por isso, a traduziram como a
compreenderam. Contudo, deixarei que vocês a traduzam, mesmo que não sejam Estudantes de grego. A palavra
que é usada e traduzida como “corpo natural” é soma psuchicon. Soma é uma palavra grega que, todos concordam,
é Corpo – não há dúvidas quanto a isto. Mas Psuchicon – psuche – (psyche) – a alma – um Corpo-Alma do qual nunca
ouviram falar; provavelmente pareceu-lhes tolice, de maneira que traduziram a palavra como “Corpo natural”. É
verdade que São Paulo diz na 1ª Epístola aos Tessalonicenses, 5:23, que o ser de todo ser humano é Espírito, Alma e
Corpo, mas, provavelmente, eles interpretaram alma e espírito como sinônimos. Existe, porém, uma grande
diferença, como é explicado nos Mistérios Rosacruzes: este Corpo-Alma é o veículo a que São Paulo se refere e no
qual encontraremos Cristo. É composto de Éter e, portanto, capaz de levitação e de passar por paredes, uma vez que
toda matéria densa é permeada com Éter. Os Auxiliares Invisíveis o usam hoje, como Cristo o fez.
De início, parece muito estranho saber que encontraremos o Senhor “no ar”, que esta Terra vai ser deixada
para trás. Mas não é estranho se considerarmos que o caminho da evolução sempre foi de dentro para fora. Na
última parte da Época Lemúrica, quando esta terra estava em um estado ígneo, o ser humano vivia na crosta que
estava sendo formada próxima ao centro ígneo, em um Corpo que começava também a ser formado. Ele viveu na
Época Atlante, nas bacias da Terra, sob a densa neblina que se levantava da terra que se esfriava, como é
mencionado no capítulo segundo do Livro do Gênesis. Então, a humanidade foi chamada, como relata a história
folclórica alemã “Niebelungen” – Niebel, que significa neblina e Ungen, filhos: Filhos da Neblina. A Bíblia conta-nos
como eles foram guiados por seus mestres e, gradualmente, como esta atmosfera nebulosa da terra condensou-se
quando o Planeta resfriou e, finalmente, como as águas desceram do céu no chamado “o dilúvio”.
Nessa ocasião, sabemos que o ser humano deixou as terras baixas, que estavam submersas pela neblina
condensada, o mar, e entrou em uma nova era de desenvolvimento sob as atuais condições. Então, ele viu o arco-íris
pela primeira vez, quando o Sol brilhou sobre as nuvens e foi-lhe dito que, enquanto aquele sinal permanecesse, a
sucessão de mudanças, que conhecemos como estações, continuaria. Enquanto tivermos as atuais condições
atmosféricas, esta era de alternâncias continuará. Devagar, mas seguramente, estamos subindo em direção aos
cumes da terra; procuramos níveis cada vez mais altos.
Quanto mais elevada for a evolução das raças, mais elas quererão subir em direção ao ar e, gradualmente,
vão deixando as terras baixas.
Como aconteceu na época de Noé, dia virá que ocorrerá uma grande mudança cósmica. Cristo refere-se a
isto ao falar de Sua vinda: “Assim como foi nos dias de Noé, assim será nos dias do Filho do homem”10. Pessoas
movimentavam-se como sempre o haviam feito. Casavam-se e eram dadas em casamento; comiam e bebiam e
viviam suas vidas mundanas. Mas, de repente, o dilúvio desceu sobre a antiga Atlântida e os veículos que tinham não
lhes eram mais úteis. Necessitavam de veículos onde pudessem adaptar-se às novas condições atmosféricas, da
mesma maneira que o bebê, quando nasce, precisa instantaneamente adaptar-se, da respiração que tinha dentro da
água, à respiração no ar. Se não puder fazer isto, ele morrerá e foi o mesmo no caso dos Atlantes que estavam
acostumados a respirar em sua atmosfera aquosa e nebulosa. Aqueles que não estavam fisiologicamente ajustados
para esta mudança, afogaram-se.
Cristo disse que uma condição semelhante ocorrerá à Sua vinda. Aqueles que viviam na Atlântida, talvez não
tenham percebido o desenvolvimento fisiológico que ocorreu em alguns e que os preparou para mudar da
respiração aquosa para a respiração do ar, usando diretamente os pulmões. Do mesmo modo, há uma mudança
acontecendo na humanidade, não observável por aqueles que não cultivam a visão espiritual. É um fato que uma
atmosfera áurica envolve todo ser humano. Sabemos que, frequentemente, sentimos a presença de uma pessoa que
não vemos e sentimos isto porque existe esta atmosfera fora de nossos Corpos Densos. Ela está, pouco a pouco,
mudando; está se tornando cada vez mais dourada no Oeste. Quanto mais caminhamos com Cristo, mais esta cor
dourada aumentará – esta que é a cor do Cristo e dos semelhantes a Ele: os Santos que os pintores retrataram com
uma auréola. Gradualmente, estamos nos tornando mais semelhantes a Ele e esse “soma psuchicon” ou Corpo-Alma
está adquirindo forma, está sendo preparada como nosso “traje nupcial”.
Um número crescente de pessoas está se tornando capaz de funcionar neste veículo e muitos estão se
preparando para o dia da vinda de Cristo. Esta mudança não é realizada por processo físico, mas pelo serviço, pelo
amor, pelo que conhecemos no mundo ocidental como altruísmo, que está se difundindo cada vez mais na
sociedade. Estamos ficando mais humanos; cada vez mais iguais a Cristo, embora longe de sermos perfeitos. Talvez o
10
N.T.: Mt 24:37
dia da vinda de Cristo não seja nesse século ou no outro, nem no próximo milênio, não obstante, podemos observar
uma mudança espiritual acontecendo na humanidade e depende de nós apressarmos o dia da vinda de Cristo, pois
como Ele mesmo disse: “Este dia nenhum ser humano conhece”11. Nenhum ser humano está habilitado a dizer
quando e quantas pessoas terão desenvolvido o soma psuchicon, de tal forma que estejam capacitados a fazer a
obra que Ele está agora fazendo para nós.
Descemos até ao vale da matéria e, por nossa causa, foi necessário que Cristo entrasse na Terra para nos
ajudar de dentro. Por nossa causa, Ele está agora sofrendo e labutando lá, esperando pela manifestação dos filhos
de Deus e depende de nós apressarmos ou retardarmos este dia. Cada ato nosso tem algum efeito nesse sentido –
cada um de nós tem seu trabalho neste mundo e quanto mais cedo aprendermos a fazê-lo, melhor será para nós.
Não deveríamos procurar o Cristo fora – Ele não se encontra lá. Ele mesmo disse, “ Não vás para o deserto”. Não O
procuremos nestes lugares: o Cristo é formado de dentro. O Corpo-Alma que está, gradualmente, tornando-se capaz
de elevar-se sobre as montanhas, é o resultado do esforço de cada aspirante que esforça para ser admitido à vida
superior. Como diz Fausto:
“Duas almas, oh! Moram dentro do meu peito,
E aí lutam por um indivisível reino;
Uma aspira pela terra, como vontade apaixonada
À íntimas entranhas ainda está ligada.
Acima das névoas, a outra aspira, de certeza,
Com ardor sagrado por esferas onde reine a pureza”.

Amigos, em cada um de nós há essa luta travada entre a natureza superior e a inferior. São Paulo teve que
lutar essa batalha e toda alma que procura deve lutar, também. Mas, não pensem que é saindo para o extenso
mundo e nele lutar, que encontraremos o que procuramos. Sir Launfal saiu de sua casa ainda jovem, passou toda
uma vida procurando o Graal. Quando voltou para seu castelo, encontrou o mesmo mendigo que ele havia
desdenhosamente ignorado quando partiu de casa, mas, quando agiu certo, quando o amoroso espírito do serviço
entrou nele, então, o Cristo se manifestou.
“Ele partiu em duas, sua única côdea de pão,
Ele quebrou o gelo da beira do córrego;
E ao leproso deu de comer e beber pela mão”.
O Salvador, diante dele, disse: “Este é meu Corpo e este é meu sangue”.
“Santa Ceia é mantida, na verdade,
Por tudo que ajudamos o outro em sua necessidade”

Não é o que damos, mas é o que compartilhamos que realmente tem valor. Aqueles que dão somente
quando têm em abundância, quando dão coisas que não necessitam – coisas que são realmente um peso para eles,
coisas de que não sentem falta – não sabem o que é dar a vida por um amigo. Enquanto não se derem, suas dádivas
serão estéreis. “Não há maior amor que o do ser humano que dá sua vida por um amigo”. Este não deve ser um
único ato – o dar a vida por um amigo – mas sim um auto sacrifício constante, diário. “ Eu estava com fome e tu me
deste de comer; eu estava com sede e tu me deste de beber ... eu estava doente e tu me visitaste ”12. Este é o único
requisito. Que nós possamos aprendê-lo, amigos. Não precisamos procurá-Lo tão longe: está perto de nós, ao nosso
lado.
Conhecemos aquele pequeno poema sobre deixar nossa luz brilhar exatamente onde estamos. Nem todos
podem ser uma estrela, nem podem brilhar, nem ser um líder, mas cada um pode fazer algo, acender sua própria
velinha e deixar que ela dissipe um pouco a escuridão ao redor. Isto é o que temos que fazer e se fizermos somente
este tanto, descobriremos que aquela vela será como uma estrela ardente para guiar-nos para o Cristo, na Sua
próxima vinda. Então, teremos certeza de reconhecê-Lo, pois encontraremos a resposta dentro de nós. Diz-se que O
conheceremos porque seremos como Ele e, como Ele não tem Corpo Denso para vir, temos que desenvolver aquele
veículo da alma, o soma psuchicon. Para que nós possamos encontrá-Lo quando Ele aparecer, mas deveremos estar
trajados com o “Dourado Manto Nupcial”.

11
N.T.: Mt 24:36
12
N.T.: Mt 25:35-36
PARTE II - A Interpretação Mística do Natal
Por
Max Heindel

Traduzido e Revisado de acordo com:


1ª Edição em Inglês, 1920, The Mystical Interpretation of Christmas, editada por The Rosicrucian Fellowship
10ª Edição em Inglês, 2012, The Mystical Interpretation of Christmas, editada por The Rosicrucian Fellowship
1ª Edição em Português, editada pela Fraternidade Rosacruz São Paulo – SP – Brasil

A principal característica dessas lições é o nascimento místico e à morte do grande Espírito Cristo, abordados
sob o ponto de vista de um Clarividente. O autor recebeu essas preciosidades raras da verdade por meio da
iluminação divina. O materialista mais pronunciado deve se tornar convencido da divindade do ser humano, após ler
essas revelações do autor sobre a significância espiritual do Cristo e dos princípios que Ele proclamou.

Nós temos a esperança de que a leitura cuidadosa e atenta desse volume sobre a vida sagrada de Cristo
estimule uma maior veneração pela Religião Cristã, tornando-a mais aceitável à razão por meio da obra inspirada
desse autor, cujo principal objetivo, enquanto viveu, foi o de trazer o ideal de Cristo e a vida simples de um serviço
mais próximo dos corações das pessoas.
Capítulo I - A Significância13 Cósmica do Natal
Mais uma vez, no decorrer de um ano, estamos às vésperas do Natal. A visão de cada um de nós sobre essa
festividade não é a mesma e nem semelhante entre uma e outra. Para o religioso devoto é um período santificado,
sagrado e repleto de mistério, não menos sublime por ser incompreendido. Para o ateu é uma tola superstição. Para
o puramente intelectual é um enigma, pois está além da razão.
Nas igrejas a história é narrada de como na noite mais santa do ano, Nosso Senhor e Salvador,
imaculadamente concebido, nasceu de uma virgem. Nenhuma outra explicação é fornecida; o assunto é deixado a
critério do ouvinte que o aceita ou rejeita, de acordo com o seu temperamento. Se a Mente e a razão prevalecem, a
fé é excluída; se ele pode acreditar apenas no que pode ser demonstrado aos sentidos, então, é forçado a rejeitar a
narrativa como absurda e desarmônica com as várias e imutáveis leis da natureza.
Várias interpretações diferentes foram fornecidas para satisfazerem a Mente, principalmente às de natureza
astronômica. Elas estabelecem de como na noite de 24 para 25 de dezembro, o Sol começa sua jornada do sul para o
norte. Ele é a “Luz do Mundo”. O frio e a fome inevitavelmente exterminariam a onda de vida humana se o Sol
permanecesse sempre no Sul14. Por isso, é um motivo de grande regozijo quando ele começa sua jornada em direção
ao norte. Ele é, então, aclamado o “Salvador”, pois vem “salvar o mundo”, vem para dar o “pão da vida”, quando
amadurece “o grão e a uva”. Assim, “Ele dá a sua vida” na cruz (quando cruza) do equador (no Equinócio de
Setembro) e começa sua ascensão no céu (norte). Na noite em que começa sua jornada em direção ao norte, o Signo
de Virgem, a Virgem Celestial, a “Rainha do Céu”, está no horizonte oriental à meia-noite e é, então,
astrologicamente falando, seu “Signo Ascendente”. Portanto Ele “nasce de uma virgem”, sem intermediários, sendo
assim “concebido imaculadamente”.
Essa explicação pode satisfazer a Mente quanto à origem da suposta superstição, mas o dolorido vazio que
existe no coração de todo cético, esteja ou não ciente do fato, deve permanecer até que a iluminação espiritual seja
alcançada, a qual fornecerá uma explicação aceitável tanto ao Coração como à Mente. Derramar tal luz sobre esse
mistério sublime será nosso esforço nas páginas seguintes. A Imaculada Concepção será o assunto de uma lição
futura; por hora queremos mostrar como as forças materiais e espirituais fluem e refluem alternadamente no
decurso do ano, e porque o Natal é verdadeiramente um “dia santo”.
Digamos que concordamos com a interpretação astronômica como sendo válida, desse ponto de vista, como
o que se segue é verdadeiro, quando contemplamos o mistério do nascimento sob outro ângulo. O Sol nasce, ano
após ano, na noite mais escura. O Salvador do Mundo Cristo também nasce, quando a escuridão espiritual da
humanidade é a maior. Há um terceiro aspecto de suprema importância, isto é, não há nenhuma futilidade nas
palavras de São Paulo quando ele fala do Cristo sendo “formado em você”15. É um fato sublime que todos somos
Cristos-em-formação, de modo que quando compreendemos que temos que cultivar o Cristo interno antes que
possamos perceber o Cristo externo, mais apressaremos o dia da nossa iluminação espiritual. Nesse sentido,
novamente citamos o nosso aforismo preferido, de Angelus Silesius 16, cuja sublime percepção espiritual fê-lo
proferir:

“Ainda que Cristo nasça mil vezes em Belém,


Se não nascer dentro de ti, tua alma segue extraviada.
Olharás em vão a Cruz do Gólgota,
Enquanto ela não se erguer dentro de ti mesmo novamente.”

No Solstício de Junho a Terra está mais distante do Sol, mas o raio solar a atinge quase em ângulo reto, em
relação ao seu eixo no Hemisfério Norte, assim resultando no alto grau da atividade física. Nessa ocasião, as
radiações espirituais do Sol são oblíquas nessa parte da Terra e são tão fracas como os raios físicos, quando esses são
oblíquos.
Por outro lado, no Solstício de Dezembro, a Terra está mais perto do Sol. Os raios espirituais caem em
ângulos retos na superfície da Terra no Hemisfério Norte, promovendo a espiritualidade, enquanto as atividades
físicas diminuem devido ao ângulo oblíquo em que o raio solar atinge a superfície dessa parte da Terra. Por esse
princípio, as atividades físicas estão no seu mais baixo nível e as forças espirituais no seu mais elevado fluxo na noite

13
N.T.: a riqueza da experiência.
14
N.T.: para o Hemisfério Norte e para os extremos do Hemisfério Sul isso é um fato inquestionável. Para o restante
do Hemisfério Sul, também, só que aqui seria pelo fortíssimo calor e pela fome, por sua resultante escassez.
15
N.R.: Gl 4:4
16
N.R.: Pseudônimo de Johannes Scheffler (1624-1667) – Místico cristão, filósofo, médico, poeta, jurista alemão.
entre 24 e 25 de dezembro, por isso, ela é chamada a “noite mais santa” do ano. Por outro lado, no meio do verão é
a época de divertimento para os duendes e para as entidades semelhantes compromissadas com o desenvolvimento
material do nosso Planeta, conforme demonstrado por Shakespeare no seu Sonho de Uma Noite de Verão.
Se nadarmos quando a maré está mais forte, alcançaremos uma distância maior e com menos esforço do
que em qualquer outra ocasião. É de grande importância para o Estudante esotérico saber e compreender as
condições particularmente favoráveis que prevalecem na época do Natal. Sigamos a exortação de São Paulo, no
Capítulo 12 da Epístola aos Hebreus 17, jogando fora toda carga à mais, como fazem as pessoas que participam de
corridas. Batamos no ferro enquanto ele está quente; isso significa que devemos, nessa época do ano, concentrar
todas as nossas energias nos esforços espirituais e para colher o que não conseguiríamos obter em nenhuma outra
ocasião do ano.
Lembremo-nos, também, que o autoaperfeiçoamento não deve ser a nossa única consideração. Nós somos
Discípulos de Cristo. Se aspirarmos a tal distinção, lembremo-nos do que Ele disse: “Aquele que quiser ser o maior
entre vós, seja o servo de todos”18. Há um sentimento muito grande de tristeza e sofrimento à nossa volta; há muitos
corações solitários e doloridos em nosso círculo de conhecidos. Busquemo-los de maneira discreta. Em nenhuma
outra época do ano eles serão mais acessíveis aos nossos apelos. Espalhemos a luz do Sol em seus caminhos. Desse
modo, ganharemos suas bênçãos e também as dos nossos Irmãos Maiores. Por sua vez, as vibrações resultantes
promoverão um crescimento espiritual impossível de ser atingido de qualquer outro modo.

17
N.T.: Hb 12:1-2 – “também nós, com tal nuvem de testemunhas ao nosso redor, rejeitando todo fardo e o pecado
que nos envolve, corramos com perseverança para o certame que nos é proposto, com os olhos fixos naquele que é
o autor e realizador da fé, Cristo Jesus”.
18
N.R.: Mt 20:27; Lc 22:26; Mc 9:15
Capítulo II - Luz Espiritual - O Novo Elemento e a Nova Substância
No ano passado, nosso Curso de Cristianismo Místico, por correspondência, começou com uma lição sobre o
Natal, do ponto de vista cósmico. Explicamos que os Solstícios de Junho e Dezembro, juntamente com os Equinócios
de Março e Setembro, constituem os momentos decisivos na vida do Grande Espírito da Terra, assim como a
concepção assinala o começo da descida do espírito humano ao Corpo físico, resultando no nascimento, o qual
inaugura o período de crescimento até que a maturidade seja alcançada. Neste ponto se inicia uma época de
sobriedade e amadurecimento, juntamente com um declínio das energias físicas que terminam em morte. Este
acontecimento liberta o ser humano dos tresmalhos da matéria e o conduz a um período de metabolismo espiritual,
por meio do qual nossa colheita de experiências terrenas é transmutada em poderes anímicos, talentos e
tendências, a fim de serem multiplicados e utilizados nas vidas futuras e, assim, termos condições para crescer mais
rica e abundantemente com tais tesouros e sermos considerados dignos, como “administradores fiéis”, para
assumirmos postos cada vez mais elevados entre os servos da Casa do Pai.
Essa ilustração se apoia sobre o firme alicerce da grande Lei de Analogia, tão sucintamente expressa pelo
axioma hermético: “Assim como é em cima, é em baixo”. Baseados nisso, que é uma chave-mestra para todos os
problemas espirituais, dependemos também de um “abre-te sésamo” para as nossas lições do Natal desse ano, que
nós esperemos poder corrigir, confirmar ou completar os pontos de vista dos nossos Estudantes, conforme requeira
cada caso.
Os corpos, originalmente cristalizados na terrível temperatura da Lemúria, eram demasiado quentes para
conter umidade suficiente que permitisse ao espírito acesso livre e irrestrito a todas as partes da anatomia deles,
doe mesmo modo que o espírito consegue, atualmente, por meio do sangue circulante. Mais tarde, no começo da
Atlântida, de fato os corpos continham sangue, mas se moviam com dificuldade, e teriam se ressecados
rapidamente, em razão da alta temperatura interna, não fora o fato de prevalecer naquela atmosfera aquosa uma
farta umidade. A inalação desse solvente atenuava grandemente o calor e abrandava o Corpo, até que uma
quantidade suficiente de umidade pudesse ser retida dentro dele, permitindo a respiração na atmosfera
comparativamente seca que mais tarde ocorreria.
Os corpos dos primitivos Atlantes eram de uma substância granulosa e fibrosa, não diferentes dos nossos
atuais tendões, e também semelhante a madeira; contudo, com o tempo, o hábito adquirido de comer carne,
capacitou o ser humano a assimilar a quantidade de albumina suficiente para construir tecidos elásticos necessário à
formação dos pulmões e das artérias, assim permitindo a livre circulação do sangue, conforme se verifica agora em
todo o sistema humano. Na época em que aconteceram essas mudanças interna e externamente, o grande e
glorioso arco de sete cores surgiu no céu carregado de nuvens para assinalar o advento do Reino do Homem, aonde
as condições viriam a ser tão variadas como os matizes que colorem a atmosfera ao refratar a luz solar de uma só
cor. Então, o primeiro aparecimento do arco-íris nas nuvens marcou o início da era de Noé, com suas estações e
períodos alternantes, dos quais o Natal é um deles.
Entretanto, as condições prevalecentes nesse período não são permanentes, como não o eram as dos
períodos anteriores. O processo de condensação que transformou o nevoeiro ardente da Lemúria na atmosfera de
umidade densa da Atlântida, e mais tarde se liquefez em água, que inundou as cavidades da Terra e impeliu a
humanidade para as montanhas e os altiplanos, ainda continua. Ambas, a atmosfera e a nossa condição fisiológica
estão mudando, assinalando, aos que sabem ver e compreender, que a aurora de um novo dia no horizonte virá ou
acontecerá em breve, uma era de unificação, mencionada na Bíblia como o Reino de Deus.
A Bíblia não nos deixa dúvidas a respeito das mudanças. Cristo disse que, como nos dias de Noé, assim
deverá ser nos dias vindouros. Ambos, a Ciência e os descobrimentos, agora encontram condições que não existiam
anteriormente. É um fato científico que o oxigênio está sendo consumido em quantidades alarmantes, alimentando
os fornos e outros processos que necessitam desse combustível das indústrias; os incêndios nas florestas também
sorvem em grande escala o nosso estoque desse elemento importante, além de aumentar o processo secante a que
a atmosfera está naturalmente submetida. Eminentes cientistas ressaltam que chegará o dia em que o globo não
poderá sustentar a vida que depende da água e do ar para existir. Suas ideias não nos afligem tanto, pois a data que
apontam ainda está muito distante; mas, mesmo que seja assim, o destino da Época Ária é tão inevitável quanto o
da Atlântida inundada.
Pudesse um Atlante ser transferido para nossa atmosfera ele seria asfixiado, como um peixe fora de seu
elemento natural. Quadros vistos na Memória da Natureza provam que os aviadores pioneiros, daquela Época, de
fato desmaiavam quando encontravam essas correntes de ar que desciam, gradualmente, sobre a terra que
habitavam, e tais experiências suscitavam muitos comentários e especulações. Os aviadores de hoje já estão
encontrando o novo elemento e experimentando a sensação de asfixia, do mesmo modo que experimentaram os
seus ancestrais Atlantes e, por razões análogas, encontraram um novo elemento descendo do alto, o qual tomará o
lugar do oxigênio da nossa atmosfera. Há também uma nova substância se introduzindo na constituição humana e
que substituirá a albumina. Ademais, assim como os aviadores da Atlântida desmaiavam e eram impedidos, pela
corrente descendente de ar, de penetrar na Época Ária, a terra prometida, dessa maneira prematura, também assim
o novo elemento desafia os aviadores de hoje e a humanidade em geral, até que todos tenham aprendido a assimilar
seus aspectos materiais. E tal como os Atlantes, cujos pulmões não estavam desenvolvidos e sucumbiram na
inundação, assim também a nova Era encontrará alguns sem o “Manto Nupcial”, e, portanto, incapacitados para
entrar nela, até que se qualifiquem num período posterior. Por isso, é da maior importância para todos saber a
respeito do novo elemento e da nova substância. A Bíblia e a Ciência, unidas, fornecem ampla informação a respeito
do assunto.
Como mencionamos anteriormente, na Grécia antiga, a Religião e Ciência eram ensinadas nos templos de
mistério, juntamente com a belas-artes e as habilidades manuais, como uma doutrina única de vida e de ser;
contudo, essa condição foi temporariamente suspensa para facilitar determinadas fases do desenvolvimento. A
união das linguagens religiosa e científica na Grécia antiga facilitava a compreensão dessas matérias; no entanto,
hoje em dia, as complicações repousam no fato de que a religião traduziu e a Ciência simplesmente transferiu seus
termos do Grego original, o que tem causado muitas divergências e uma perda do elo entre as descobertas da
Ciência e os ensinamentos da Religião.
Para chegarmos a uma desejada compreensão das mudanças fisiológicas que continuam agora em nosso
sistema, podemos lembrar que, segundo a Ciência, os lóbulos frontais do cérebro estão entre as estruturas humanas
de mais recente desenvolvimento e que, proporcionalmente, este órgão é muito maior no ser humano do que em
qualquer outra criatura. Agora, a pergunta: existe no cérebro alguma substância peculiar, e se existe, qual pode ser a
sua significância?
A primeira parte da pergunta pode ser respondida por qualquer obra científica relativa ao assunto, mas o
livro O Conceito Rosacruz do Cosmos fornece mais subsídios, conforme transcrevemos abaixo:
“O cérebro (...) é constituído pelas mesmas substâncias que as demais partes do Corpo, mas, além delas,
tem o fósforo, peculiar somente ao cérebro. Conclusão lógica a tirar: o fósforo é o alimento particular mediante o
qual o Ego pode expressar pensamentos... A quantidade desta substância é proporcional ao estado de consciência e
ao grau de inteligência do indivíduo. Os idiotas têm muito pouco fósforo. Os profundos pensadores têm muito. (...)
Portanto, é de suma importância que o Aspirante ansioso de se empregar em trabalhos mentais e espirituais dê ao
cérebro esta necessária substância”.
A indiscutível religiosidade dos Católicos é verificável, em parte, na prática de comer peixe, alimento rico em
fósforo, às sextas-feiras e durante a Quaresma. Ainda que o peixe pertença a uma ordem de vida inferior, O Conceito
Rosacruz do Cosmos não aprova a sua matança, indicando ao Estudante certas verduras por meio das quais pode
conseguir, fisicamente, abundância dessa desejável substância. Existem outros e melhores meios para essa
obtenção, embora não mencionados em O Conceito Rosacruz do Cosmos.
Não foi por acaso que os instrutores da Escola de Mistério Grega denominaram assim essa substância
luminosa que conhecemos por fósforo. Para eles era patente que “Deus é Luz” – a palavra grega designativa de luz é
phos. Portanto, muito apropriadamente, eles denominaram a substância do cérebro, que é a avenida de ingresso do
impulso divino, phos-phorus, literalmente “portador da luz”. Na medida em que formos capazes de assimilar essa
substância, nos tornamos cheios de luz e começamos a brilhar a partir de dentro, nos circundando, então, de um
halo como uma marca de santidade. O fósforo, contudo, é apenas um meio físico que possibilita a luz espiritual se
expressar por meio do cérebro físico, sendo a luz, em si mesma, um produto do crescimento anímico. Entretanto, o
crescimento anímico capacita o cérebro a assimilar quantidades crescentes de fósforo; assim, o método para a
aquisição dessa substância, em maiores quantidades, não deve ser pelo metabolismo químico e sim pelo processo
alquímico do crescimento anímico, o que foi totalmente esclarecido por Cristo quando Ele disse a Nicodemos:

“Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo... Quem nele crê não é julgado; quem não crê, já
está julgado.
... Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram mais trevas à luz...
... Pois quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como
culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus”
(Jo 3:17-21).

O Natal é a época do ano da luz espiritual mais intensa que há. Durante esta Época de ciclos alternantes há
marés altas e baixas de luz espiritual, como acontece com as águas do oceano. A primitiva Igreja Cristã marcou a
concepção no mês de setembro, de modo que até hoje o evento é celebrado pela Igreja Católica, quando a grande
onda de vida e luz espirituais começa a sua descida na Terra. O ponto máximo de maré é alcançado no Natal, que é
verdadeiramente a época santa do ano, a ocasião em que essa luz espiritual é mais facilmente contatada e
especializada pelo Aspirante, por meio dos atos de compaixão, gentileza e amor. As oportunidades para praticar
esses atos não faltam, nem mesmo para os mais pobres, porque, conforme enfatizam frequentemente os
Ensinamentos Rosacruzes, o serviço conta mais que os auxílios financeiros, que pode até ser prejudicial a quem o
recebe. Todavia, a quem muito é dado, muito será exigido e, se alguém foi abençoado com abundância de bens do
mundo, uma cuidadosa distribuição dos mesmos deveria, necessariamente, ser observada em qualquer
oportunidade de servir. Recordemos, ainda, as palavras de Cristo: “Em verdade vos digo, sempre que fizerdes isto a
um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fazeis”19. Então, nós devemos segui-Lo como luzes ardentes e
brilhantes, mostrando o caminho para a Nova Era.

19
N.T.: Mt 25:40
Capítulo III - O Sacrifício Anual de Cristo
Você já esteve ao lado do leito de um amigo ou parente que se encontrasse preste a passar desse Mundo
para o além? Muitos de nós já tivemos essa experiência, pois qual o lar que não foi visitado pelo Pai Tempo? Nem é
incomum a fase que se segue ao ocorrido, à qual devemos prestar atenção especial. A pessoa prestes a passar desse
Mundo para o além, muitas vezes fica em estado de estupor 20; então desperta e vê não apenas esse Mundo, mas
também o Mundo em que está preste a entrar; é muito significante que nesses momentos ela vê as pessoas que
foram suas amigas ou parentes durante a parte da sua vida – filhos, filhas, esposa (ou marido) ou qualquer pessoa
que lhe tenha sido realmente muito próxima ou muito querida – postadas ao redor do seu leito e aguardando o
momento da transição. A mãe poderá estender os braços: “Oh! É o João e como ele cresceu! Que rapaz esplêndido e
enorme ele está!”. E, desse modo, ela reconhecerá, um após outro, todos os filhos já falecidos. Estes estão reunidos
em volta da sua cama à espera que ela vá se unir a eles, animados pela mesma sensação que assalta as pessoas
quando uma criança está prestes a nascer nesse Mundo: o regozijo pela chegada de alguém que eles sentem,
instintivamente, ser um amigo que está voltando para eles.
Assim, o mesmo se dá com as pessoas que, tendo passado antes ao além, se reúnem para receber um amigo
(ou uma amiga) que está prestes a cruzar a fronteira e se juntar a eles do outro lado do véu. Vemos, assim, que o
nascimento em um Mundo é morte, sob o ponto de vista do outro Mundo, isto é, a criança que vem a nós morre
para o Mundo espiritual, e a pessoa que sai do alcance dos nossos olhos, ao transpor o véu pela morte, nasce em um
novo Mundo e se junta a seus amigos lá.
Como é em cima, assim é em baixo; a Lei da Analogia, que é a mesma para o microcosmo e para o
macrocosmo, nos diz que aquilo que acontece aos seres humanos sob determinadas condições, também deve se
aplicar ao super-humano, em circunstâncias análogas. Estamos nos aproximando do Solstício de Dezembro, os dias
mais escuros do ano, a época em que a luz brilha com menos intensidade, quando o Hemisfério Norte se torna frio e
melancólico. Porém, na noite mais longa e mais escura do ano, quando o Sol retoma o seu caminho ascendente, a
luz de Cristo nasce de novo na Terra e o mundo inteiro se rejubila. Conforme a nossa analogia, quando Cristo nasce
na Terra, Ele morre no céu. Assim como o espírito livre está, no momento do nascimento, firme e fortemente
enclausurado no véu da carne, que o restringe por toda a vida física, assim também o Espírito de Cristo é agrilhoado
e tolhido, toda vez que Ele nasce na Terra. Esse grande Sacrifício Anual começa quando soam os nossos sinos de
Natal, quando os alegres sons do nosso louvor e gratidão ascendem aos céus. No mais literal sentido da palavra,
Cristo é aprisionado desde o Natal até a Páscoa.
O ser humano pode zombar da ideia de que existe, nessa época do ano, um influxo de vida e luz espirituais,
não obstante, isso é um fato, creiamos ou não. Nessa época do ano, no mundo inteiro, todos se sentem mais leves,
diferentes, algo como se um fardo fosse tirado dos seus ombros. O espírito de “paz na terra e boa vontade entre os
homens” prevalece, e o espírito de que nós também deveríamos dar algo se expressa nos presentes de Natal. Esse
espírito não pode ser negado, já que é evidente a qualquer observador; e isso é um reflexo da grande onda de
dádiva divina. Deus tanto amou o mundo, que Ele deu Seu Filho único ou unigênito. O Natal é a época das dádivas,
mesmo que a consumação do sacrifício aconteça apenas na Páscoa; aqui está o ponto crucial, o momento decisivo, o
lugar onde sentimos que alguma coisa aconteceu e que garante a prosperidade e a continuidade do mundo.
Quão diferente é o sentimento do Natal daquele que se manifesta na Páscoa! Nesse último há uma
expressão de desejo, uma energia que se expressa em amor sexual, visando à perpetuação de si mesmo como nota-
chave; quão diferente disso é do amor que se expressa no espírito de dar ao invés de receber, que sentimos no
Natal.
Agora, observe as igrejas; nunca suas velas brilham tanto quanto nesse dia mais curto e mais escuro do ano.
Em nenhuma outra ocasião os sinos ressoam tão festivos, do que quando proclamam para o mundo a mensagem
para o mundo esperançoso: “O Cristo nasceu!”.
“Deus é Luz”21, diz o inspirado Apóstolo e nenhuma outra descrição é capaz de comunicar ou expressar tanto
da natureza de Deus quanto essas três pequenas palavras. A luz invisível, que se encontra envolvida pela chama
sobre o altar, é uma representação apropriada de Deus, o Pai. Nos sinos, temos um símbolo muito apropriado de
Cristo, a Palavra, pois suas línguas metálicas proclamam a mensagem do Evangelho da paz e boa vontade, enquanto
o incenso, simbolizando um maior fervor espiritual, representa o poder do Espírito Santo. Por conseguinte, a
Trindade é simbolicamente parte da celebração que faz do Natal a época do ano de maior regozijo espiritual, sob o
ponto de vista da onda de vida humana que está envolvida e trabalhando, atualmente, no Mundo Físico.

20
N.T.: estado de inconsciência profunda, com desaparecimento da sensibilidade ao meio ambiente e da faculdade
de exibir reações motoras. A pessoa não consegue pensar, falar, ver ou ouvir com clareza.
21
N.R.: IJo 1:5
Todavia, não se deve esquecer, conforme dissemos no terceiro parágrafo desse capítulo, que o nascimento
de Cristo na Terra é a Sua morte para a glória dos céus; que, quando nos rejubilamos pelo Seu regresso anual a nós,
de fato Ele toma novamente sobre Si o pesado fardo físico que cristalizamos ao nosso redor, e que é agora a nossa
habitação – a Terra. Nesse pesado corpo, Ele é incrustado e espera, ansiosamente, pelo dia da libertação final.
Podemos compreender, naturalmente, que existem dias e noites, tanto para os maiores espíritos quanto para os
seres humanos; que, do mesmo modo que vivemos em nossos Corpos durante o dia, cumprindo o destino que nós
mesmos criamos no Mundo Físico e somos liberados à noite para nos recuperarmos nos Mundos superiores, assim
também existe essa alternância para o Espírito de Cristo. Parte do ano Ele habita o interior do nosso globo, e depois
se retira para os Mundos superiores. Assim, o Natal é para Cristo o começo de um dia de vida física, o início de um
período de restrição.
Qual deveria ser, portanto, a aspiração do místico devotado e iluminado, que percebe a grandeza do Seu
sacrifício, a grandeza desse dom que está sendo concedido à humanidade por Deus nessa época do ano; que
percebe esse grande sacrifício de Cristo por nossa causa; essa dádiva de Si mesmo Se sujeitando a uma morte virtual
para que possamos viver esse maravilhoso amor que está sendo derramado sobre a Terra nessa época? Unicamente
a de imitar, mesmo que em pequena escala, as maravilhosas obras de Deus! Ele deveria aspirar fazer de si mesmo
um servo da Cruz como jamais o fora antes; mais disposto a seguir o Cristo em todas as coisas, se sacrificando pelos
seus irmãos e irmãs; colaborando, dentro de sua esfera imediata de trabalho, para a elevação da humanidade, de
modo a apressar o dia da libertação pela qual o Espírito de Cristo está esperando, gemendo e trabalhando
penosamente. Estamos aqui falando de uma libertação permanente, do dia e do advento de Cristo.
Para alcançarmos essa aspiração na medida mais ampla, avancemos pelo ano que está a nossa frente plenos
de autoconfiança e fé. Se até aqui temos sentido que não há esperanças sobre a nossa capacidade de trabalhar para
Cristo, ponhamos de lado esse sentimento, pois afinal Ele não disse: “Maiores obras que estas vós o fareis!”22. Ele,
que era a Palavra da Verdade, teria dito tais coisas, se elas não fossem possíveis de serem alcançadas? Todas as
coisas são possíveis àqueles que amam a Deus. Se realmente trabalharmos em nossa própria pequena esfera, não
buscando coisas maiores até havermos feito aquelas que estão à mão, então descobriremos que um maravilhoso
crescimento anímico pode ser atingido, de forma que as pessoas que nos rodeiam possam ver em nós algo que não
saberão definir, mas que, não obstante, lhes será evidente – elas verão a luz do Natal, a luz do Cristo recém-nascido
brilhando dentro da nossa esfera de ação. Isso pode ser conseguido; depende apenas de nós mesmos aceitá-Lo por
meio da Sua palavra, cumprindo o que Ele ordenou: “Sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai que está nos céus”23.
A perfeição pode parecer uma longa caminhada; nós podemos perceber mais agudamente quando olhamos para Ele
quão longe estamos de viver de acordo com nossos ideais. Mesmo assim, é pelo esforço diária, hora após hora, que
finalmente chegaremos lá, e a cada dia algum progresso pode ser feito, algo pode ser realizado; de um modo ou de
outro podemos deixar a nossa luz brilhar para que os seres humanos possam vê-la como faróis na escuridão do
Mundo. Possa Deus nos ajudar durante o próximo ano a alcançar uma semelhança com Cristo maior do que jamais
conseguimos antes. Possamos viver a vida de tal modo que, quando outro ano tiver passado, quando
contemplarmos novamente as luzes do Natal e ouvirmos os sinos chamando para as cerimônias da Noite Santa,
possamos sentir que não temos vivido em vão.
Cada vez que nos damos ao serviço em benefício dos outros, acrescentamos brilho aos nossos Corpos-Alma,
que são feitos de Éter. É o Éter de Cristo que permite esse nosso globo flutuar, e recordemos que, se quisermos
trabalhar por Sua libertação, devemos, juntos com uma quantidade suficiente de pessoas, desenvolver nossos
Corpos-Alma até ao ponto em essa quantidade de pessoas possa fazer flutuar a Terra. Desse modo poderemos
tomar o Seu fardo e O livrar da dor da existência física.

22
N.R.: Jo 14:12
23
N.R.: Mt 5:8
Capítulo IV – O Místico Sol da Meia-Noite
Exotericamente, e desde tempos imemoriais, o Sol é venerado como o dador de vida, porque a multidão era
incapaz de ver, além do símbolo material, uma grande verdade espiritual. Contudo, além daqueles que adoravam a
órbita celeste, que é vista com os olhos físicos, sempre houve e continua a haver uma pequena, mas crescente
minoria, um sacerdócio consagrado mais pela retidão do que pelos rituais, que viu e vê as eternas verdades
espirituais, por trás das formas temporais e evanescentes que revestem essas verdades, nas mudanças das vestes
cerimoniais, conforme o momento, e às pessoas a que foram, originalmente, destinadas. Para eles, a lendária Estrela
de Belém brilha todos os anos como o Místico Sol da Meia-Noite, quando os três atributos divinos: Vida, Luz e Amor
penetram em nosso Planeta no Solstício de Dezembro e começam a irradiar do centro do nosso globo. Esses raios de
esplendor e poder espirituais inundam o nosso globo com uma luz sobrenatural que envolve todos sobre a Terra, do
mais insignificante ao mais importante, sem distinção alguma. Todavia, nem todos podem participar desse
maravilhoso dom na mesma medida; alguns conseguem mais, outros menos e alguns nem participam da grande
oferta de amor que o Pai preparou para nós em Seu Filho Unigênito, porque ainda não desenvolveram o imã
espiritual, o Cristo menino interno, que sozinho pode nos guiar ao Caminho, à Verdade e à Vida.

“Que adianta o Sol brilhar,


Se eu não tiver olhos para ver?
Como saberei que o Cristo é meu,
a não ser através do Cristo em mim?
Essa voz silenciosa dentro do meu coração
é o penhor do pacto
entre Cristo e eu – ela transmite
para a fé a força do Feito”

Essa é, sem dúvida, uma experiência mística que soa verdadeira para muitos de nossos Estudantes, tão
verdadeira como a noite segue ao dia e ao inverno segue o verão. A menos que tenhamos Cristo dentro de nós, a
menos que um maravilhoso pacto fraternal de sangue tenha sido consumado, não podemos ter parte no Salvador,
embora os sinos de Natal nunca parem de soar. Contudo, quando Cristo se formar em nós, quando a Imaculada
Concepção se tornar uma realidade em nossos próprios corações, quando nós nos prostrarmos aos pés do Cristo
recém-nascido, para Lhe oferecer os nossos presentes, dedicando a natureza inferior ao serviço do Eu Superior,
então, e só então, as festividades natalinas serão compartilhadas por nós, ano após ano. E, quanto mais arduamente
tenhamos trabalhado arduamente na “vinha do Mestre”, mais clara e distintamente poderemos ouvir a voz
silenciosa dentro dos nossos corações, sussurrando o convite: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e
oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o Meu jugo... porque o Meu jugo é suave e o Meu fardo é leve ”24.
Então, ouviremos uma nova nota nos sinos de Natal como nunca ouvimos antes, pois em todo ano não há dia mais
feliz do que o do Nascimento de Cristo, quando Ele renasce na Terra, trazendo com Ele presentes para os filhos dos
seres humanos – presentes que significam a continuação da vida física; porque sem essa vitalizante e energizante
influência do Espírito de Cristo, a Terra permaneceria fria e árida; não haveria uma nova canção da primavera, nem
os pequeninos coristas da floresta para alegrar os nossos corações à chegada do verão; a pressão gélida dos polos
Boreais manteria a Terra agrilhoada e muda para sempre, nos impossibilitando de prosseguir em nossa evolução
material, tão necessária para aprendermos a usar o poder do pensamento por meio de apropriados canais criativos.
O espírito de Natal é, pois, uma realidade viva para todo aquele que já desenvolveu o Cristo interno. O
homem e a mulher comum sentem esse espírito somente nas proximidades das festas natalinas, mas o místico
iluminado pode vê-lo e senti-lo meses antes e meses depois do seu ponto culminante na Noite Santa. Em setembro
ocorre uma mudança na atmosfera terrestre; uma luz começa a reluzir nos céus; essa luz parece permear todo o
universo solar; gradualmente, vai crescendo em intensidade, parecendo envolver o nosso globo; então, ela penetra
na superfície do Planeta e, pouco a pouco, se concentra no centro da Terra, onde os Espíritos-grupo das plantas
residem. Na Noite Santa ela alcança o mínimo de seu tamanho e o máximo de seu esplendor. Então, começa a
irradiar a luz concentrada, fornecendo nova vida a Terra para que essa prossiga com as atividades da Natureza no
ano entrante.
Isso é o começo do grande drama cósmico “do Berço à Cruz”, que acontece anualmente durante os meses de
dezembro, janeiro e fevereiro.
Cosmicamente, o Sol nasce na mais longa e escura noite do ano, quando o Signo zodiacal Virgem, a Virgem
Celestial, está no horizonte oriental à meia-noite, para dar à luz o filho Imaculado. Durante os meses que se seguem,

24
N.R.: Mt 11:29-30
o Sol transita pelo violento Signo de Capricórnio onde, miticamente, todos os poderes das trevas se concentram em
frenético esforço para matar o Portador-da-Luz, uma fase do drama solar que é apresentado, misticamente, no
episódio da perseguição movida pelo Rei Herodes, e da fuga para o Egito, a fim de escapar da morte.
Quando o Sol entra no Signo de Aquário – o Portador-da-Água –, em fevereiro, temos a época das chuvas e
tempestades; e do mesmo modo que o batismo misticamente consagra o Salvador à sua obra de serviço, assim
também a abundância de umidade, que desce sobre a Terra, a torna amaciada e pronta para que possa produzir
frutos que preservam a vida de todos os que nela habitam.
A seguir, o Sol transita pelo Signo de Peixes – os peixes. Nessa altura, os estoques de alimentos do ano
anterior já foram quase totalmente consumidos, de forma que as provisões dos seres humanos ficam escassas.
Temos, por conseguinte, o longo jejum da Quaresma, que misticamente representa para o Aspirante o mesmo ideal
mostrado cosmicamente pelo Sol. Nesse momento do ano ocorre o carne-vale, o adeus à carne, pois todo aquele
que aspira a vida superior precisa, algum dia, se despedir da natureza inferior com todos os seus desejos e se
preparar para a Páscoa que, então, se aproxima.
Em abril, quando o Sol cruza o equador celestial e entra no Signo de Áries – o Cordeiro – a cruz se ergue
como um símbolo místico que o candidato à vida superior precisa aprender e, em seguida, aprender a abandonar o
veículo mortal e começar a escalada para o Gólgota, o lugar na caveira; e daí cruzar o limiar do Mundo invisível.
Finalmente, imitando a subida do Sol para os céus do norte, ele precisa aprender que o seu lugar é com o Pai e, com
todo fervor, deve se elevar até aquele exaltado lugar. Assim como o Sol não permanece naquele elevado grau de
declinação, mas ciclicamente desce para o Equinócio de Setembro e Solstício de Dezembro a fim de completar
novamente o círculo para benefício da humanidade, do mesmo modo todo aquele que aspira se tornar um Caráter
Cósmico, um salvador da humanidade, precisa ser preparado para se oferecer, muitas vezes, como um sacrifício em
benefício de seus semelhantes.
Esse é o grande destino colocado diante de nós; cada um é um Cristo-em-formação, se o quiser ser, porque
como disse Cristo aos Seus Discípulos: “Aquele que crer em Mim fará também as obras que faço, e maiores ainda”25.
Além disso, e de acordo com a máxima: “A necessidade do homem é a oportunidade de Deus”, nunca houve tão
grande oportunidade de imitar o Cristo, de fazer as obras que Ele fez, como nos dias atuais, quando todo o
continente europeu vive sob o paroxismo de uma guerra mundial 26 e quando o maior de todos os cânticos de Natal:
“Paz na Terra e boa vontade entre os homens”27 parece mais longe de se concretizar do que nunca. Temos em nós o
poder de apressar o dia da paz ao falar, pensar e viver em PAZ, pois a ação conjunta de milhares de pessoas
transmite uma impressão ao Espírito de Raça, quando a ele é direcionada, especialmente quando a Lua está em
Câncer, Escorpião ou Peixes, que são os três grandes Signos psíquicos mais apropriados para trabalhos ocultos dessa
natureza. Usemos os dois dias e meio que a Lua transita por cada um desses Signos para propósito de meditar sobre
a paz – “paz na Terra e boa vontade entre os homens”. Todavia, ao fazê-lo, estejamos certos de não tomar partido, a
favor ou contra, por quaisquer das nações conflitantes; lembremos a todo instante que cada um dos seus membros
é nosso irmão. Cada um merece o nosso amor tanto quanto o outro. Vamos manter o foco do pensamento de que
nós queremos é ver a Fraternidade Universal ser realizada sobre a Terra, ou seja, “a paz na Terra e boa vontade
entre os homens”, a despeito de terem os combatentes nascidos de um lado ou de outro das linhas imaginárias
traçadas nos mapas, ou como eles se expressam nesse, naquele ou em qualquer outro idioma. Oremos para que a
paz possa reinar sobre a Terra; uma paz duradoura e uma boa vontade entre todos os seres humanos, não
importando quaisquer diferenças de raça, cor ou religião. Na medida em que tenhamos êxito em formular com os
nossos corações, e não apenas com os nossos lábios, essa prece impessoal a favor da paz, estaremos antecipando a
chegada do Reinado de Cristo para recordar que é a Ele que estamos todos destinados na época oportuna – o Reino
dos Céus, onde Cristo é “Rei dos reis e Senhor dos senhores”.

25
N.T.: Jo 14:12
26
N.T.: Refere-se à Primeira Grande Guerra
27
N.T.: Lc 2:14
Capítulo V – A Missão de Cristo e o Festival das Fadas
Sempre que nos defrontamos com um dos mistérios da natureza que não conseguimos explicar,
simplesmente acrescentamos um novo termo ao nosso vocabulário, uma espécie de truque para ocultar a nossa
ignorância a respeito do assunto. Tal ocorre com a palavra ampère que utilizamos para medir o volume da corrente
elétrica, o volt que usamos para medir que empregamos para medir a força da corrente, e o ohm que empregamos
para demonstrar o grau de resistência que um dado condutor oferece à passagem da corrente. Dessa maneira,
depois de muito estudar a respeito de palavras e figuras, as Mentes mestras da Ciência elétrica tentam se persuadir
e persuadir aos demais que compreenderam o que significa tais coisas após pensarem muito sobre tal penetrando
no mistério dessa força difícil de descrever e que desempenha um papel tão importante no trabalho do mundo; mas,
depois de tudo dito e eles entrarem em consenso, esses seres humanos iminentes admitem que as mais brilhantes
luzes da Ciência elétrica não conhecem senão um pouquinho mais do que uma criança da escola primária, quando
começa a experiência com pilhas e baterias.
O mesmo se passa com as outras Ciências; os anatomistas não podem distinguir o embrião de um cão do de
um ser humano durante um longo período, e enquanto o fisiologista discorre com autoridade sobre o metabolismo,
não pode deixar de admitir que as experiências de laboratório, pelas quais se esforça para imitar nosso processo
digestivo, devem ser e são muito diferentes das transmutações que se operam no laboratório químico do corpo, pela
alimentação que ingerimos. Isso não é dito para desacreditar ou menosprezar as maravilhosas descobertas da
Ciência, mas para demonstrar que existem fatores por detrás de todas as manifestações da natureza – inteligências
de diversos graus de consciência, construtivas e destrutivas, que desempenham parte importante na economia da
natureza – e até que esses agentes sejam reconhecidos e suas atividades estudadas, nós não podemos ter um
conceito adequado do modo como atuam essas forças da natureza, as quais chamamos: calor, eletricidade,
gravidade, ação química, etc.. Para os que cultivam a visão espiritual, é evidente que os chamados mortos
empregam parte de seu tempo em aprender a construir corpos sob a direção de certas Hierarquias espirituais. Eles
são os agentes metabólicos e anabólicos; eles são os fatores invisíveis na assimilação e é, portanto, literalmente
exato que seríamos incapazes de viver sem a importante ajuda daqueles que nós chamamos mortos.
Para conceber a ideia de como esses agentes trabalham e da sua relação conosco, podemos citar um
exemplo mencionado no Livro Mistérios Rosacruzes: “suponhamos que um carpinteiro está construindo uma mesa, e
um cachorro, que é um espírito em evolução pertencente à outra onda de vida, está observando-o. Ele vê o processo
de cortar tábuas; gradualmente a mesa é formada desse material e finalmente fica pronta. No entanto, ainda que o
cachorro esteja atento ao trabalho do carpinteiro, ele não tem um conceito claro de como esse trabalho foi feito,
nem do uso final da mesa. Suponhamos, ainda mais, que o cachorro estivesse dotado somente de uma limitada visão
e incapaz de perceber o carpinteiro e suas ferramentas; veria somente as tábuas de madeira, gradualmente, sendo
divididas em partes, depois se juntarem e ficarem dispostas de outra maneira até a mesa tomar forma e ficar pronta.
Ele veria o processo da formação e o objeto terminado, mas não teria ideia que a ação ativa do carpinteiro foi
necessária para transformar a madeira em mesa”. Se o cachorro pudesse falar, explicaria a origem da mesa como
Topsy28 se referiu a si mesma dizendo: “simplesmente cresceu”.
Nossa relação com as forças da natureza é semelhante àquela do cachorro com o invisível carpinteiro, e
também nós somos tão capazes de explicar os mistérios da natureza, como Topsy o fez. Nós, cultamente, narramos
às crianças como o calor do Sol evapora a água dos rios e oceanos, fazendo que esse vapor ascenda às regiões mais
frias do ar onde se condensa em nuvens, que se tornam, finalmente, tão saturadas de umidade que elas gravitam em
direção à terra em forma de chuva para encher os rios e oceanos, e novamente a água é evaporada. É tudo
perfeitamente simples: um belo processo automático de movimento contínuo. Contudo, é só isso? Não há, nessa
teoria, um número de omissões? Sabemos que sim, embora não possamos nos desviar muito do nosso assunto para
discuti-lo. Uma coisa que está faltando explicar completamente é a ação das, nomeadamente, semi-inteligente
Sílfides29 que levantam as delicadas partículas da água volatilizada em vapor de água preparadas pelas Ondinas, e
que as levam o mais alto possível antes que aconteça a condensação parcial e as nuvens são formadas. Essas
partículas de água são guardadas pelas Sílfides, até que as Ondinas as forcem a libertá-las. Quando dizemos que há
tempestades, na verdade, batalhas estão sendo travadas na superfície do mar e no ar, algumas vezes com a ajuda
das Salamandras, para acender a tocha do relâmpago da separação entre hidrogênio e oxigênio, e enviar seu
aterrorizante zigue-zague através da negra escuridão, seguida do poderoso troar do trovão na atmosfera clareada,
enquanto as Ondinas, triunfalmente, lançam as resgatadas gotas de água sobre a terra, para que elas possam
novamente se unir ao seu elemento materno.

28
N.R.: Personagem do romance A Cabana do Pai Tomás, (em inglês: Uncle Tom's Cabin; or, Life Among the Lowly),
livro da escritora estadunidense Harriet Beecher Stowe.
29
N.R.: ou Silfos
Os pequenos Gnomos são necessários para construir as plantas e as flores. Seu trabalho é pintá-las com
matizes inumeráveis de cor, que deleitam os nossos olhos. Eles, também, cortam os cristais em todos os minerais e
elaboram as gemas valiosas que cintilam nos diademas preciosos. Sem eles não haveria ferro para nossas máquinas
e nem ouro com que pagá-las. Eles estão em todas as partes e a proverbial abelha não é tão atarefada como eles.
Enquanto para a abelha é dado todo o crédito pelo trabalho que ela faz, os pequenos espíritos da natureza, que
desempenham uma parte imensamente importante no trabalho do mundo, são desconhecidos, salvo por alguns que
são chamados de sonhadores ou loucos.
No Solstício de Junho, as atividades físicas da natureza estão no apogeu ou zênite, portanto, é na “Noite do
meio do Verão” que se realiza o grande festival das Fadas, que trabalharam para construir o universo material;
nutriram o gado, cultivaram o grão e estão saudando com alegria e dando graças à onda de força, que é a sua
ferramenta, para colorir as flores, na assombrosa variedade de delicados matizes requeridos por seus arquétipos,
pintando-as em inúmeras tonalidades que são o prazer e o desespero do artista.
Na maior de todas as noites da alegre estação do verão, as Fadas se reúnem vindas dos pântanos e das
florestas, dos estreitos e pequenos vales para o Festival das Fadas. Elas realmente cozem e preparam seus alimentos
etéricos e, mais tarde, dançam em êxtases de alegria – a alegria de terem realizado o seu trabalho e desempenhado
importante papel na economia da natureza.
É um axioma científico que a natureza não tolera o que é inútil; os parasitas e os zangões são uma
abominação; o órgão que se torna supérfluo se atrofia, assim também acontece com o membro ou o olho que não é
usado. A natureza tem um trabalho a fazer e necessita da colaboração de todos que se propuseram a justificar suas
existências, pois todos são partes desse trabalho. Isso se aplica à planta, ao Planeta, ao ser humano, ao animal e
também às Fadas. Elas têm seu trabalho a cumprir; elas são hostes ativas e suas atividades são a solução para muitos
mistérios da natureza, como já foi explicado.
Nós estamos agora no outro polo do ciclo anual, quando os dias são curtos e as noites mais longas 30;
fisicamente falando, a escuridão cai sobre o Hemisfério Norte, mas a onda espiritual de luz e vida, que será à base do
crescimento e progresso do próximo ano, agora está na maior altura e força. Na Noite de Natal, no Solstício de
Dezembro, quando o celestial Signo da Virgem Imaculada está no horizonte oriental à meia noite, o Sol do novo ano
nasce para salvar a humanidade do frio e da fome, que continuariam se a manifestação dessa luz fosse suprimida.
Nessa ocasião, o Espírito Cristo nasce na Terra e começa a fermentar e fertilizar os milhões de sementes que as
Fadas prepararam e regaram para que possamos ter alimento físico. No entanto, “o homem não vive somente de
pão”. Importante como é o trabalho das Fadas, se torna insignificante comparado com a missão de Cristo, que nos
traz, a cada ano, o alimento espiritual necessário para que avancemos no caminho do progresso, para que possamos
alcançar a perfeição no amor com tudo o que ele implica.
É o advento dessa maravilhosa luz de amor que nós simbolizamos pelas lamparinas acesas no altar e pelo
soar dos sinos do Natal que, a cada ano, anunciam as boas novas do nascimento do Salvador, pois no sentido
espiritual, luz e som são inseparáveis; a luz é colorida e o som é modificado de acordo com o tom vibratório. A luz do
Natal que brilha sobre a Terra é dourada, induzindo os sentimentos de altruísmo, alegria e paz, os quais nem mesmo
a grande guerra consegue obscurecer.
A guerra passou e como normalmente damos mais valor ao que perdemos, esperemos que toda a
humanidade se una nesse Natal para o canto dos cantos: “Paz na Terra e Boa Vontade entre os homens”.

30
N.R.: Para o Hemisfério Norte
Capítulo VI – O Cristo Recém-Nascido
Tem sido dito, muitas vezes, em nossa literatura, que o sacrifício de Cristo não foi um acontecimento que,
tendo ocorrido no Gólgota, foi realizado em poucas horas e assim consumado, mas que os nascimentos e as mortes
místicas do Redentor são ocorrências cósmicas contínuas. Podemos, portanto, concluir que esse sacrifício é
necessário para a nossa evolução física e espiritual durante a presente fase do nosso desenvolvimento. À medida
que o nascimento anual de Cristo Menino se aproxima, mais uma vez é-nos apresentado um tema para meditação,
um tema que nunca envelhece e é sempre novo, do qual podemos tirar muito proveito ponderando sobre ele com
uma oração, para que possa criar em nossos corações uma nova luz para nos guiar no caminho da regeneração.
O apóstolo inspirado nos deu uma definição maravilhosa da Deidade quando disse que “ Deus é Luz”31 e,
portanto, “luz” tem sido usada para ilustrar a natureza do Divino nos Ensinamentos Rosacruzes, especialmente o
mistério da Trindade na Unidade. É claramente ensinada nas Sagradas Escrituras de todos os tempos que Deus é uno
e indivisível. Ao mesmo tempo descobrimos que, do mesmo modo que a luz branca una se refrata nas três cores
primárias – vermelho, amarelo e azul – Deus também Se revela em um papel tríplice durante a manifestação, pelo
exercício das três funções divinas: criação, preservação e dissolução.
Quando Ele exerce o atributo criação, Deus SE revela como Jeová, o Espírito Santo; Ele é, então, o Senhor da
lei e da geração, e projeta o princípio da fertilização solar indiretamente por meio dos satélites lunares de todos os
planetas onde for necessário fornecer Corpos para seus seres em evolução.
Quando Ele exercita o atributo preservação, com o propósito de sustentar os corpos gerados por Jeová sob
as Leis da Natureza, Deus Se revela como o Redentor, Cristo, e irradia os princípios de amor e regeneração
diretamente a qualquer Planeta, onde as criaturas de Jeová requeiram essa ajuda para se libertarem das malhas da
mortalidade e do egoísmo, a fim de alcançar o altruísmo e a vida infinita.
Quando Deus exerce o atributo divino da dissolução, Ele aparece como O Pai que nos chama de volta ao
nosso lar celestial, para assimilarmos os frutos das experiências e do crescimento anímico que acumulamos durante
o dia de manifestação. Esse Solvente Universal, o raio do Pai, emana do Sol Espiritual Invisível.
Esses processos divinos de criação e nascimento, preservação e vida, e dissolução, morte e retorno ao Autor
do nosso ser, vemos em toda parte ao nosso redor, e reconhecemos o fato de que são atividades do Deus Trino em
manifestação. Mas, já nos demos conta de que nos Mundo espirituais não existem acontecimentos definidos nem
condições estáticas; que o começo e o fim de todas as aventuras, de todas as épocas, estão presentes no eterno
“aqui” e “agora”? Do seio do Pai brota eternamente a essência das coisas e dos acontecimentos, que penetra nos
reinos do “tempo” e do “espaço”. Lá gradualmente tudo se cristaliza e se torna inerte, necessitando de dissolução
para que possa haver espaço para outras coisas e outros eventos.
Não há como escapar dessa Lei Cósmica; se aplica a tudo no reino do “tempo” e do “espaço”, incluindo o
raio de Cristo. Assim, como o lago que deságua no oceano se reabastece quando a água que o deixou se evaporou e
retorna a ele em forma de chuva, para fluir novamente incessantemente em direção ao oceano, assim o Espírito do
Amor nasce eternamente do Pai, dia após dia, hora após hora, para o universo solar para nos redimir do mundo da
matéria que nos envolve em suas garras mortais. Onda após onda é assim impelida do Sol em direção a todos os
Planetas, o que proporciona um impulso rítmico às criaturas em evolução.
E assim é, no sentido mais verdadeiro e literal, um Cristo recém-nascido que saudamos em cada festa de
32
Yule que se aproxima, e o Natal é o evento anual mais importante para toda a Humanidade, quer tenhamos
consciência ou não. Não é apenas uma comemoração do nascimento do nosso amado Irmão Maior, Jesus, mas sim
da chegada ou do advento da vida amorosa rejuvenescedora do nosso Pai Celestial, enviada por Ele para redimir o
mundo do glacial abraço da morte. Sem essa nova infusão de vida e energia divinas, logo pereceríamos fisicamente,
frustrando o nosso progresso no que tange às atuais linhas de desenvolvimento. Esse é um ponto que devemos nos
esforçar para compreender completamente, a fim de que aprendamos a apreciar o Natal, tão profundamente
quanto deveríamos.
Podemos aprender uma lição a esse respeito, como em muitos outros, com os nossos filhos ou com as
recordações da nossa própria infância. Quão vivas eram as nossas expectativas quando se aproximavam os festejos
natalinos! Quão ansiosamente esperávamos pela hora em que receberíamos os presentes que sabíamos que viriam
do Papai Noel, o misterioso benfeitor universal que trazia os brinquedos! Como nos sentiríamos se nossos pais ou
responsáveis nos tivessem dado bonecas quebradas e os tambores danificados do ano passado? Certamente seria

31
N.T.: IJo 1:5
32
N.T.: Jól (do nórdico antigo: júl) ou Yule (do inglês antigo: géol ou géola) é uma comemoração do Norte da Europa pré-Cristã.
Os pagãos Germânicos celebravam o Yule desde os finais de dezembro até aos primeiros dias de janeiro, abrangendo o Solstício
de Dezembro. Foi a primeira festa sazonal comemorada pelas tribos neolíticas do norte da Europa, e é até hoje considerado o
início da roda do ano por muitas tradições Pagãs. Embora Yule seja o nome do Solstício de Dezembro, originalmente é um
tronco de árvore, possivelmente parecido com um tipo de pinheiro. Yule, o menino da promessa; semente de luz; festa medieval
que comemorava a chegada do inverno no hemisfério norte; na língua inglesa significa em torno do Natal; natalício.
uma sensação como de um infortúnio avassalador, e teria deixado uma profunda sensação de quebra de confiança
que mesmo com o tempo seria difícil de ser restabelecida; no entanto, não teria sido nada comparado à calamidade
cósmica que se abateria sobre a Humanidade, se o nosso Pai Celeste não conseguisse providenciar o Cristo recém-
nascido como a nossa dádiva cósmica de Natal.
O Cristo do ano passado não pode nos salvar da fome física, assim como as chuvas do ano passado não
podem agora encharcar o solo e fazer crescer os milhões de sementes que dormitam na terra, à espera de que as
atividades germinativas da vida do Pai as façam começar a crescer; o Cristo do ano passado não pode reacender em
nossos corações as aspirações a ideais elevados que nos impelem a avançar espiritualmente, assim como o calor do
verão passado não pode nos aquecer agora. O Cristo do ano passado nos deu o Seu amor e a Sua vida até o último
suspiro, sem restrição ou medida; quando Ele nasceu na Terra no Natal passado, Ele impregnou de vida as sementes
adormecidas, que cresceram e muito gratamente encheram os nossos celeiros com o pão da vida física; Ele
derramou sobre nós o amor que lhe foi dado pelo Pai, e quando Ele gastou toda a Sua vida, Ele morreu na época da
Páscoa para ressuscitar novamente para o Pai, como o rio volta para o céu pela evaporação.
Mas o amor divino jorra infinitamente; assim como os pais têm compaixão dos seus filhos, também nosso Pai
Celestial se compadece de nós, pois Ele conhece a nossa fragilidade e as nossas dependências física e espiritual.
Portanto, aguardamos agora com confiança o nascimento místico do Cristo de mais um ano, carregado de renovada
vida e de renovado amor, enviado pelo Pai para nos preservar da fome física e espiritual, que seriam certas se não
fosse essa oferta anual de amor.
As almas mais jovens, geralmente, acham difícil separar em suas Mentes a personalidade de Deus, de Cristo
e do Espírito Santo, de modo que algumas só conseguem amar a Jesus, o ser humano. Elas se esquecem de Cristo, o
Grande Espírito, que inaugurou uma nova Era, na qual as nações estabelecidas sob o regime de Jeová serão
destroçadas, e a sublime estrutura da Fraternidade Universal poderá ser edificada sobre as suas ruínas. Com o
tempo, todo o mundo perceberá que “Deus é Espírito”33, e é para ser adorado em “Espírito e em verdade”. É bom
amar Jesus e O imitar; desconhecemos um ideal mais nobre e mais digno. Se alguém mais nobre tivesse sido
encontrado, Jesus não teria sido escolhido para ser o veículo do Grande Unigênito, Cristo, em que habita a
Divindade. Portanto, fazemos bem em seguir “Seus passos”.
Ao mesmo tempo, exaltaremos Deus em nossas próprias consciências, aceitando a afirmação bíblica de que
Ele é Espírito e de que não podemos tentar representar a Sua imagem, nem retratá-lo, pois Ele não se assemelha a
nada nem a ninguém, quer nos céus quer na Terra. Podemos ver os veículos físicos de Jeová circulando como
satélites em volta de diversos Planetas. Também podemos ver o Sol, que é o veículo visível de Cristo; mas o Sol
Invisível, que é o veículo do Pai e fonte de tudo, aparece aos maiores Clarividentes apenas como a oitava superior da
fotosfera do Sol, um anel de luminosidade azul-violeta por trás do Sol. Mas nós não precisamos vê-Lo; podemos
sentir Seu amor, e esse sentimento nunca é tão grande como na época do Natal, quando Ele nos dá o maior de todos
os presentes: o Cristo do novo ano.

33
N.T.: Jo 4:24
PARTE III – A Interpretação Mística da Páscoa
Capítulo I - O Cristo Cósmico
“Ainda que Cristo nascesse mil vezes em Belém,
se não nasce dentro de ti, tua alma segue extraviada.
Olharás em vão a Cruz do Gólgota,
enquanto não fizeres um Gólgota de teu coração também”.
Angelus Silésius34

A canção popular de hoje, que todo mundo canta com entusiasmo, mas que é esquecida amanhã; o espetáculo que é levado à
cena, talvez, cem noites seguidas, para depois ser abandonado e relegado ao pó, e todas as outras coisas que são
evanescentes demonstram, claramente, que não tem um valor intrínseco. O brilho de uma estrela cadente ilumina o céu por
um momento, mas embora o brilho das outras estrelas seja mais fraco e atraia menos a nossa atenção, suas luzes confortam
ao caminhante, noite após noite, através dos tempos. Somente as canções que, por seu valor, são reproduzidas sempre de
novo, cuja música não nos cansa nunca, têm realmente algo de valioso na vida. O mesmo acontece nos ciclos cósmicos que
sempre se repetem, marcados pelas festas do ano. Como elas são recorrentes, sempre nos ensinam as mesmas antigas lições,
sempre sob um novo ponto de vista.
O impulso de vida do Cristo Cósmico que entrou na Terra no último mês de setembro, manifestou-se no nascimento Místico no
Natal e realizou sua maravilhosa magia de fecundação do mês de setembro até março e se libertou da cruz da matéria para
ascender novamente ao trono do Pai, na Páscoa deixa a Terra coberta de uma glória verde dos próximos meses, pronta para
as atividades físicas35.
Como é em cima, assim também é em baixo. Os processos que se desenvolvem em larga escala na Terra manifestam-se,
também, no ser humano. Durante os meses de setembro a março nós fomos completamente impregnados pelas vibrações
espirituais que predominaram nos últimos meses, muito mais do que foi possível sob as condições mais materiais que
prevalecem entre março e setembro. Chegou-nos em setembro com um novo impulso para a vida superior; culminou na Noite
Santa, e sua magia trabalhou dentro de nós e em nossas naturezas na proporção que aproveitamos nossas oportunidades. De
acordo com a nossa aplicação ou descuido no último período, o progresso será acelerado ou atrasado no próximo período,
porque não existem palavras mais verdadeiras do que aquelas que nos ensinam que somos exatamente aquilo que fizermos
de nós mesmos. O serviço que prestamos ou deixamos de prestar determina se a nova oportunidade, para um serviço maior,
nos proporciona um impulso mais forte para cima; e não será nunca demais repetir que é inútil esperar libertação da cruz da
matéria, antes que tenhamos usado nossas oportunidades aqui e, então obter uma mais ampla capacidade de sermos úteis.
Os “cravos” que prendem a Cristo na Cruz do Calvário prendem você e eu, até que o impulso dinâmico de amor flua de nós em
ondas e correntes rítmicas, tal como a maré de amor que, anualmente, entra na Terra, e a impregna com vida renovada.
Conhecemos a analogia entre o ser humano – que entra nos seus veículos, quando desperta pela manhã, vive neles e trabalha
por meio deles, e a noite é um Espírito livre, livre da escravidão do Corpo Denso – e o Espírito de Cristo que mora em nossa
Terra, uma parte do ano. Nós todos sabemos que grilhão e que prisão esse Corpo representa; como nós somos cerceados
pelas doenças e sofrimentos, porque não existe ninguém que esteja sempre em perfeita saúde, de maneira que nunca
estamos livres de sentir as ânsias de dor, pelo menos ninguém que esteja no estreito caminho espiritual.
A mesma coisa acontece com o Cristo Cósmico, que dirige Sua atenção para a nossa pequena Terra, focando Sua consciência
neste Planeta, para que tenhamos vida. Ele tem que vitalizar esta massa morta (que nós mesmos cristalizamos fora do Sol)
todos os anos; e isso é um grilhão, um peso e um aprisionamento para Ele. Esse é o motivo justo e próprio pelo qual devemos
nos alegrar quando Ele chega à época do Natal, todos os anos, e nasce, novamente, no nosso mundo para nos ajudar a
transformar para melhor essa massa informe, com a qual nos sobrecarregamos. Nossos corações, nessa época, devem voltar-
se para Ele, em gratidão pelo sacrifício que Ele faz por nossa causa, durante os meses de: setembro, outubro, novembro e
dezembro, permeando este Planeta com Sua Vida, para despertá-lo da hibernação, no qual permaneceria se não fosse Ele,
pelo seu nascimento, para dar-lhe vida.

34
N.R.: Pseudônimo de Johannes Scheffler (1624-1667) – Cristão Místico, filósofo, médico, poeta, jurista alemão.
35
N.R.: Independentemente da inversão das estações, uma coisa que se mantém idêntica no Norte e no Sul: a
distância maior ou menor, a que o Sol se encontra da Terra. No Solstício de Dezembro, o Sol se encontra mais
próximo da Terra: a Terra é permeada mais fortemente pela aura do Sol Espiritual (inspiração de crescimento
anímico nos seres humanos). No Solstício de Junho, a Terra no máximo afastamento do Sol: diminuição de
espiritualidade com a intensificação de vitalidade física.
Durante os meses de setembro, outubro, novembro e dezembro Ele sofre agonias de torturas, “gemendo, trabalhando e
esperando pelo dia da libertação”36, a qual chega no tempo em que nós falamos nas igrejas ortodoxas: Semana da Paixão,
mas nós afirmamos que, de acordo com os ensinamentos místicos, essa semana é exatamente a culminação ou ponto mais
alto dos Seus sofrimentos, e que Ele, então, sai de Sua prisão; e quando o Sol cruza o Equador, Ele é suspenso na Cruz,
exclamando: “Consummatum est!” – “Está consumado!”37; ou “Está cumprido!”. Isto quer dizer que o Seu trabalho, para
aquele dia, foi cumprido. Não é um grito de agonia, mas um grito de triunfo, um grito de alegria, pois a hora da libertação
chegou e, mais uma vez, Ele pode se elevar, por mais um período, se livrando da prisão e do peso do nosso Planeta.
O ponto para o qual desejo chamar vossa atenção é que deveríamos nos alegrar com Ele, nessa grande, gloriosa e triunfante
hora, a hora da libertação, quando Ele exclama: “Está cumprido”. Sintonizemos os nossos corações para esse grande
acontecimento Cósmico; alegremo-nos com o Cristo, nosso Salvador, que o tempo de Seu sacrifício anual se completou, mais
uma vez; sintamo-nos agradecidos, do fundo dos nossos corações, que Ele está, agora, prestes a ser libertado da prisão
terrena; pois a vida que Ele imbuiu no nosso Planeta é suficiente para conservar-se até o próximo Natal.
A Natureza é a expressão simbólica de Deus. Por isso, quando queremos conhecer a Deus precisamos estudar a Natureza,
lembrando-nos sempre que existe um propósito em toda a manifestação; que a vida é uma escola e aprendendo suas muitas
lições a humanidade evolui lentamente de uma chispa divina para a Divindade. Se tivéssemos aprendido as lições da vida, tal
como nos foram dadas, não teria havido necessidade do grande sacrifício que foi feito e que é anualmente repetido pelo
Espírito de Cristo, que é a personificação do Amor. Por egoísmo, desobediência às Leis e práticas do mal fomos cristalizando
rapidamente, não somente nossos corpos, mas, também a Terra na qual vivemos, a um nível que ambos estavam se tornando
inúteis como meios de evolução. Quando já não nos podíamos salvar dos resultados dos nossos próprios erros, o Cristo
compassivo ofereceu a Si mesmo e o seu grande Poder de Amor para romper essas condições cristalizadas dos corpos
humanos e da Terra. Durante três anos Ele ensinou a Humanidade pela palavra, pelo preceito e exemplo.
Quando Ele foi crucificado no Gólgota o seu Grande Sacrifício pela humanidade apenas começou. Cada ano, desde esse
tempo, quando o Sol passa do Signo zodiacal de Virgem para o de Libra, o Espírito de Cristo, retornando à nossa Terra, toca a
sua atmosfera. Ele começa a sua jornada de descida em torno de 21 de junho38, no Solstício de Junho, quando o Sol entra no
Signo de Câncer. Ele chega ao centro da nossa Terra à meia-noite de 24 de dezembro. Aí Ele fica por três dias e, depois,
começa a voltar. Esta volta completa-se na Páscoa. Da Páscoa até o Solstício de Junho Ele está passando pelos Mundos
Espirituais e chega ao Mundo do Espírito Divino, o Trono do Pai, a 21 de junho39. Durante julho e agosto, quando o Sol está em
Câncer e Leão, Ele reconstrói o seu veículo Espírito de Vida, que Ele trará ao mundo, novamente, e, com esse veículo, Ele
voltará a rejuvenescer a Terra e os reinos de vida que nela evolucionam. Do Natal até a Páscoa Ele se dá a Si mesmo sem
limitações nem medida, imbuindo com vida, não apenas as sementes adormecidas, mas todas as coisas sobre e dentro da
Terra.
Sem essa infusão da vida e energia Divinas, todos os seres viventes da nossa Terra morreriam imediatamente, e todo o
progresso seria frustrado, no que concerne à nossa presente linha de desenvolvimento. Essa atividade germinativa da vida do
Pai, que nos é trazida por Cristo e entregue amplamente no tempo da Páscoa, que renova o crescimento e intensifica a
atividade na planta, no animal e no ser humano, nessa especial parte do ano. Cristo não deixa a Terra na Páscoa senão depois
de dar de Si Mesmo até ao máximo. É, então, que a infusão de Sua Vida, junto com os raios quase verticais do Sol, faz as
sementes germinarem; as árvores florirem; os pássaros acasalarem, dirigidos pelos seus Espíritos-Grupo, e construírem seus
ninhos. A humanidade, então, é fortificada e imbuída com a energia e a coragem necessárias para enfrentar, aproveitar e
crescer por meio das experiências inesperadas providas pelos diversos e perplexos problemas da vida.
Para aqueles que se decidiram trabalhar consciente e inteligentemente com a Lei Cósmica, a Páscoa tem um grande
significado. Para eles significa a libertação anual do Espírito de Cristo das restrições dolorosas da Terra e Sua gloriosa
ascensão ao mundo do Seu verdadeiro lar, para lá permanecer um período junto ao seio do Pai. E se os seus olhos estão
verdadeiramente abertos eles podem ver as hostes Angélicas que O estão esperando, prontos para acompanhá-Lo na Sua
viagem em direção ao céu; se os seus ouvidos estão sintonizados com os sons celestiais, eles ouvem os coros celestiais
cantando Seu louvor e hosanas jubilosos, elevados ao Deus Altíssimo.
Para as almas iluminadas a Páscoa traz uma profunda compreensão do fato de que toda a humanidade é peregrina na Terra;
que a verdadeira pátria do Espírito são os Mundos Espirituais e para alcançar esse reino devemos nos esforçar em aprender as
lições da escola da vida o mais rápido possível, de maneira que possamos ser capazes de ver para o amanhecer de um dia que
nos liberaremos, permanentemente, da escravidão da Terra. Então, da mesma forma como o Cristo libertado, chegaremos a
uma realização dessa gloriosa imortalidade, como recompensa da conquista do Espírito perfeito. Para as almas iluminadas, a
Páscoa simboliza o amanhecer de um dia feliz, quando toda a humanidade, semelhante ao Cristo, será permanentemente

36
N.R.: Rm 8:22
37
N.R.: Jo 19:30 8 INTERPRETAÇÃO MÍSTICA DA PÁSCOA
38
O Solstício de Junho varia entre 20 e 21 de junho, dependendo do ano.
39
N.R.: ou 20, dependendo do ano
livre das restrições materiais, e ascenderão aos Reinos celestes, tornando-se pilares de força na Casa do Pai, de onde não mais
sairão.
Capítulo II - Um Acontecimento de Sentido Místico
Para onde eu vou não podes agora seguir-me; mas
depois me seguirás ... Aquele que crê em mim
também fará as obras que eu faço
e as fará maiores do que estas.
Jo 13:36; 14:12

Se fôssemos a uma igreja ortodoxa num Domingo de Páscoa, provavelmente ouviríamos a história de Jesus, o Filho de Deus,
concebido sem pecado e que, com a idade de 30 anos, assumiu um sacerdócio que durou três anos e que terminou em
crucificação e morte por nós; que através de seu sangue podemos ser salvos. Provavelmente, poderíamos ouvir, também, que
no dia da Páscoa ele levantou-se novamente dos mortos, subindo depois para o Pai onde está agora sentado à direita da
majestade de Deus, de onde retornará para julgar os vivos e os mortos na última Ressurreição.
Porém, mesmo sabendo – em virtude de podermos ler na Memória da Natureza – que Jesus viveu e morreu, que teve uma
missão mística da máxima importância para a evolução humana e que os principais acontecimentos daquela grande vida se
deram realmente conforme relata o Evangelho, sabemos também que a missão do Cristo Místico é algo infinitamente mais
gloriosa do que aquilo que já penetrou no coração dos que conhecem apenas a interpretação ortodoxa dos Evangelhos.
Em primeiro lugar, a festa da Ressurreição, chamada Páscoa, não comemora simplesmente a ressurreição de um indivíduo,
mas significa um evento cósmico. Seria extrema tolice celebrar-se a morte e ressurreição de uma pessoa, ocorrida em certo
dia do ano, com uma festa móvel que é determinada pelas posições do Sol e da Lua no Signo zodiacal de Áries, o carneiro ou
cordeiro.
Cada ano uma onda espiritual de vitalidade invade a Terra no Solstício de Junho, a fim de despertar a semente que hiberna no
solo gelado e infundir nova vida ao mundo em que vivemos. Este trabalho se processa durante os meses de dezembro, janeiro
e fevereiro, enquanto o Sol transita pelos Signos zodiacais de Capricórnio, Aquário e Peixes. Então, ele cruza o equador
celestial vindo do Sul, onde esteve durante os meses de dezembro, janeiro e fevereiro; esse cruzamento ou crucificação
(crucifixão) é então relacionado, cosmicamente, com a sua entrada no Signo de Áries, o carneiro ou cordeiro. Então, o Sol se
eleva para os Signos dos céus setentrionais a fim de promover, com seus raios aquecedores, o crescimento da semente no solo
já revitalizada pela onda de vida Crística nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Sem essa onda mística anual de energia
vital oriunda do Cristo Cósmico, a vida física seria uma impossibilidade. Sem ela não poderia haver nem pão e vinho físicos,
nem a transubstanciada tintura espiritual, preparada pela alquimia vinda do sangue do coração do Discípulo.
O cordeiro foi morto quando da fundação do mundo da Época Ária, em que agora vivemos. Seu sangue foi o símbolo que
salvou da morte o povo escolhido de Deus quando este deixou o lendário Egito, a pátria de adoração do boi Touro ou Apis. A
partir dali, tornou-se idolatria para todos os que haviam sido salvos pelo sangue do cordeiro, adorar o bezerro de ouro, pois as
velhas Religiões do boi Touro tinham sido superadas pela Religião do cordeiro, quando o Sol, por Precessão dos Equinócios,
deixou o Signo de Touro e entrou no Signo celestial de Áries, o cordeiro ou carneiro.
Completado o tempo em que o Sol, por Precessão dos Equinócios, havia alcançado os sete graus no Signo do carneiro, Cristo
veio no corpo de Jesus para estabelecer um novo pacto sob o selo e símbolo dos místicos pão e água da vida. Mas o Cordeiro
de Deus precisava morrer, e isto aconteceu individualmente quando Cristo deixou o corpo de Jesus e, cosmicamente quando o
Sol, por Precessão dos Equinócios, saiu do Signo de Áries. Então um novo símbolo precisava ser dado àqueles que seriam os
mensageiros durante a entrante Era de Peixes, por conseguinte, Ele, Ele próprio representou na última ceia do cordeiro do
sacrifício. O pão e a água da vida foram dados como símbolo do seu corpo e do seu sangue, devendo ser usados para recordá-
Lo durante a próxima Era. Há, portanto, uma ligação entre o vinho místico e o sangue, como também entre o pão místico e o
corpo, que precisamos compreender se quisermos conhecer o verdadeiro sentido místico da morte e da ressurreição.
Em sua evolução o ser humano recebeu o alimento apropriado ao desenvolvimento de cada um dos seus veículos. Um veículo
como o nosso corpo físico, formado de compostos químicos, só pode ser nutrido com substâncias químicas. Analogamente, só
Espírito pode atuar sobre Espírito, portanto o vinho foi acrescentado à dieta do ser humano para ajudá-lo a dissolver as
pesadas moléculas da carne e estimulá-lo na batalha da existência. A isto se refere à história de Noé (Gn 9:2-20), o qual com
seus seguidores, representa a humanidade na era do arco-íris em que a assim chamada “dieta mista” e o vinho constituem a
alimentação necessária à presente fase de evolução.
Fortalecido pela Mente carnívora e pelo Espírito do álcool, o ser humano se afastou cada vez mais do caminho da
fraternidade, pois nutrindo-se com o mesmo alimento dos carnívoros ele se tornou necessariamente tão feroz quanto um
animal predador, passando a caçar instintivamente ao seu próprio semelhante. Enquanto o sistema de procriação e
casamento dentro da mesma tribo prendia-o firmemente aos seus companheiros de clã, ele ao menos demonstrava amá-los.
Mas desde que os casamentos intertribais entraram em voga e ele começou a emancipar-se gradativamente do Espírito de
raça, passou a saquear, ao próprio ser humano e até à própria família. O egoísmo tomou-se ilimitado, nada mais foi sagrado
aos olhos cobiçosos, e cada ser humano passou a viver em guarda contra todos os outros. Além da ação que tais coisas
trazem, não há descanso, não há paz duradoura nem felicidade na senda da paixão e da autogratificação. Portanto, chega a
hora em que o ser humano deseja um fim permanente para os seus sofrimentos mais do que qualquer outra coisa, e aí
começa a buscar o caminho da paz, que é também o caminho da pureza e da abnegação. Então ele é introduzido nos
mistérios do Gólgota, do Sangue Purificador e da Cruz das Rosas, como segue:
Purificar o sangue do egoísmo é o Mistério no Gólgota. O processo começou quando o sangue de Jesus foi derramado e
continuou através das guerras entre nações Cristãs todas as vezes que o ser humano lutou por um ideal, e prosseguirá até que
o contraste entre os horrores da guerra e a beleza da fraternidade tenham impressionado suficientemente a espécie humana.
Abaixo de nós na escala da evolução estão os vegetais e os animais, acima estão os deuses. Anatomicamente nós
pertencemos ao reino animal e, em nossas vidas passadas, vivemos abaixo da nossa condição de humanos. Como os animais,
gratificávamos nossos desejos sexuais e nossos apetites, mas enquanto aqueles eram mantidos sob controle por um sábio
Espírito-Grupo nós não exercemos nenhum domínio sobre os nossos desejos, pelo que a doença, a dor e o sofrimento
tornaram-se o nosso quinhão. Agora, contudo, aspiramos palmilhar a senda da paz em direção à serena felicidade dos deuses.
Para isso devemos nos tomar como as plantas, isto é, puros e sem paixões. Consideremos o antigo Templo de Mistérios
Atlante, também chamado “O Tabernáculo no Deserto”. Na velha Dispensação, quando a carne oferecida em sacrifício pelos
pecados era queimada sobre o altar do sacrifício, seu odor elevava-se aos céus como um atestado da repugnante natureza da
transgressão, da paixão e da impureza. Mas dentro do Tabernáculo havia o candelabro de sete braços, que queimava a
essência das oliveiras sem desprender odor desagradável. Toda carne foi concebida sob a paixão e o pecado, mas a geração
da planta é pura e imaculada. Por conseguinte, a flor aromática, especialmente a rosa vermelha, mantém-se em simbólica e
direta oposição à carne corrompida. A flor é o órgão gerador da planta. Ela nos diz que a concepção sem mácula, em amor e
pureza, é o caminho da paz e do progresso. Em Sua última reunião com seus Discípulos, Cristo estabeleceu os símbolos do
novo pacto, do Testamento: deu-lhes pão para comer, simbolizando o Seu corpo, e a taça simbolizando o Seu sangue. Não
uma taça comum para qualquer líquido, nem que o líquido por si só tivesse o poder suficiente para ratificar o novo pacto. O
mistério jaz no fato de que a taça e seu conteúdo eram partes essenciais e necessárias de um sublime todo. O nome que
designava essa taça mística em latim era “Cálix”, em grego era “Poterion”.
Na velha Dispensação só a água era usada nos serviços do templo, mas com o tempo o vinho tornou-se um fator na evolução
humana. Um deus do vinho – Baco – passou a ser adorado, e orgias da mais brutal natureza eram celebradas para que,
sufocando as aspirações do Espírito, o ser humano se voltasse mais para a conquista do Mundo Físico. Mesmo sob a
Dispensação mosaica os sacerdotes eram rigorosamente proibidos de usar o vinho enquanto oficiassem no templo, mas Cristo
em sua primeira aparição em público mudou a água em vinho, aprovando deste modo o seu uso na ordem de coisas então
existentes. Note-se, todavia, que isso foi feito em público, e que esse foi Seu primeiro ato como sacerdote do povo, mas na
última reunião esotérica de Cristo com Seus Discípulos, quando o novo pacto foi dado, não havia nem carne de carneiro (Áries)
– conforme estabelecia a ordem Mosaica – nem vinho, mas tão somente pão, um produto vegetal e o cálice do qual falaremos
após ouvirmos as palavras que Ele proferiu naquela ocasião: “Não mais beberei deste fruto da videira até o dia em que hei de
beber, novo, convosco no Reino dos Céus”40. O suco novo, recém-espremido da uva, não contém o Espírito da fermentação e
da decomposição, mas é um alimento vegetal nutritivo e puro. Por conseguinte, os seguidores da doutrina esotérica foram
instruídos por Cristo a não consumirem alimentos cárneos nem alcoólicos.
Geralmente supõe-se que o cálice usado por Cristo na Última Ceia continha vinho, muito embora não haja fundamento bíblico
para tal suposição. Existem três relatos dos preparativos para a Páscoa. Mesmo que Marcos e Lucas refiram-se aos
mensageiros enviados a certa cidade em busca de um homem que carregava um cântaro de água, nenhum dos evangelistas
diz que o cálice continha vinho. Além disso, investigações na Memória da Natureza mostram que a água é que foi usada, e no
que diz respeito aos esoteristas o vinho não tinha mais vez. Daquele ato, data também a inauguração do movimento de
temperança, pois tais mudanças cósmicas envolvem longos preparativos nos Mundos Espirituais internos antes que possam
manifestar-se nas sociedades do Mundo externo. Assim, milhares de anos quase nada significam nesses processos.
O uso da água na Última Ceia também se harmoniza com os requisitos astrológicos e éticos. O Sol saía de Áries – o Signo do
Cordeiro – e entrava em Peixes, um Signo de Água. Ia soar uma nova nota de aspiração. Na Era de Peixes entrante ia iniciar-se
uma nova fase de soerguimento humano. A autoindulgência ia ser suplantada pela autonegação. O pão, a matéria da vida,
que é feito do grão gerado imaculadamente, não estimula paixões como a carne, nem nosso sangue se agita tão
apaixonadamente quando recebe água do que quando recebe vinho. Portanto, pão e água são os alimentos e símbolos
apropriados aos ideais da Era Peixes-Virgem, pois representam pureza.
Igreja Católica dá aos seus fiéis a água de Peixes na porta dos templos, como dá também o pão da Virgem no altar, mas nega-
lhes o cálice de vinho do ofício. Todavia, as considerações acima não conduzem no âmago do mistério oculto no “Cálice do
Novo Pacto”.
A taça de vinho velho, que nos foi dada no início da Época Ária – terra da geração – estava cheia de destruição, morte e
veneno, de modo que a palavra que então aprendemos a falar é morta e destituída de poder.
A taça de vinho novo, mencionada como o ideal da futura época – a Nova Galileia (não a confundir com a Era de Aquário) – é
um órgão etérico construído no interior da cabeça e da garganta pela força sexual economizada, o qual órgão é visto pelos
Clarividentes como a haste de uma flor que ascende da parte inferior do tronco. Este cálice, ou taça-semente, é
verdadeiramente um órgão criador capaz de emitir a palavra, a vida e o poder.

40
N.R.: Mt 26:26-29
A palavra atual é produzida por movimentos musculares rudimentares que combinam laringe, língua e lábios de tal modo que
a passagem do ar saído dos pulmões gera determinados sons. Mas o ar é um veículo pesado, difícil de mover-se, comparado
as forças mais sutis da Natureza como a eletricidade, que se propaga no Éter, de modo que, quando este órgão tiver
alcançado pleno desenvolvimento, ele terá o poder de falar a palavra da vida e infundir vitalidade nas substâncias que até ali
estiverem inertes. Este órgão está sendo agora construído por nós, através do serviço.
Recorde-se que Cristo não deu o cálice ao povo, mas sim aos Seus Discípulos, Seus mensageiros e servos da Cruz. Nos dias
atuais, aqueles que bebem do cálice da auto abnegação para poderem usar a força no serviço aos outros estão construindo
esse órgão e, também, o Corpo-Alma, que é o traje nupcial. Estão aprendendo a usá-lo aos poucos, como Auxiliares Invisíveis,
quando fora de seus corpos à noite precisam emitir a palavra de poder para dissipar doenças e produzir tecidos sadios.
Quando a Época Atlante se aproximava do seu fim e a humanidade abandonava o lar de sua infância, onde viveu sob a
orientação direta de Guias Divinos, o velho pacto foi feito dando ao ser humano carne e vinho, e estes dois elementos,
juntamente com o uso descontrolado da força sexual, tornaram a Época Ária uma era de morte e destruição. Agora estamos
nos aproximando do fim dessa era. Estamos em busca do Reino dos Céus, da Nova Galileia, e a fim de preparar-nos para essa
época. Cristo nos deu o pão e a água da vida, ordenando-nos ao mesmo tempo não cedermos a luxúria. Tendo feito este novo
pacto, Ele foi para a cruz da libertação, deixando atrás de Si o corpo da morte e pairando nas alturas em um veículo de vida, o
Corpo Vital. Mas Ele deu aos Seus seguidores a certeza de que, embora eles não O pudessem seguir então ao lugar para onde
ia, mais tarde o seguirão. Cada pessoa é um Cristo-em-formação e algum dia acontecerá a “Páscoa” para cada um de nós.
Capítulo III - O Significado Cósmico da Páscoa
Parte I

“Toda a vida de Cristo foi uma cruz e um martírio,


e tu buscas para ti mesmo folga e prazer? Quanto
maior o avanço espiritual de um indivíduo mais
pesadas as cruzes com que ele se depara frequentemente,
pois as dores do seu desterro aumentam
com o fortalecimento do seu amor”.
Thomas de Kempis41

Na manhã da Sexta-Feira Santa de 1857, Richard Wagner42, o maior artista do século dezenove, sentou-se à varanda de uma
vivenda suíça que se debruçava às bordas do lago de Zurich43. O panorama que se descortinava ao redor estava banhado por
um glorioso brilho do Sol; paz e boa vontade pareciam vibrar por toda a Natureza. A criação inteira palpitava de vida e o ar
estava carregado da deliciosa fragrância dos bosques de pinho – bálsamo gratificante para um coração atormentado e uma
Mente agitada.
Então, de súbito, como um raio caído do céu azul, surgiu na alma profundamente mística de Wagner a lembrança do
execrável significado daquele dia – o mais sombrio e mais doloroso do ano Cristão. Essa lembrança o inundou de tristeza, pelo
contraste com o que via. Era uma incongruência marcante entre o alegre cenário que tinha diante de si, a clara atividade
notável da Natureza, em luta pela renovação da vida após o longo sono hibernal, e o mortal esforço do Salvador torturado na
cruz; entre os gorjeios plenos de vida e amor dos milhares de cantores de pena do bosque, na charneca e no prado, e os
hediondos gritos de ódio duma turba enfurecida que insultava e zombava do mais nobre ideal que o mundo já conheceu;
entre a maravilhosa energia criadora manifestada pela Natureza na primavera44 e o elemento destruidor no ser humano, que
assassinou o caráter mais nobre que já agraciou a Terra.
Enquanto Wagner meditava assim sobre os paradoxos da vida, ocorreu-lhe a pergunta: “há alguma relação entre a morte do
Salvador por crucificação, na Páscoa, e a energia vital que se manifesta tão abundantemente na primavera quando a
Natureza começa a vida de um novo ano?”.
Mesmo que Wagner não percebesse, conscientemente, o significado total da relação entre a morte do Salvador e o
rejuvenescimento da Natureza, não obstante ele havia dado com a chave de um dos mais sublimes mistérios com que o
Espírito humano já deparou em sua peregrinação da Terra à Deus.
Na noite mais escura do ano, quando a Terra dorme mais profundamente no abraço do frio Boreal, quando as atividades
materiais descem ao nível mais baixo, uma onda de energia espiritual transporta em sua crista a “Palavra do Céu”, divina e
criadora, para um nascimento místico no Natal. Então, como uma nuvem luminosa, o impulso espiritual paira sobre o mundo
que “não o conheceu”45 porque ele “brilha nas trevas”46 do inverno, quando a Natureza está paralisada e muda.
Essa divina “Palavra” criadora contém uma mensagem e tem uma missão. Nasceu para “salvar o mundo”47 e “para dar sua
vida pelo mundo”. Deve, necessariamente, sacrificar sua palavra para conseguir o rejuvenescimento da Natureza.
Gradativamente sepulta-se na Terra e passa a infundir sua própria energia vital nas milhões de sementes que jazem
adormecidas no solo. Sussurra a “palavra de vida” nos ouvidos dos animais e pássaros, até que o evangelho das boas novas
tenha sido pregado a todas as criaturas. O sacrifício se completa totalmente na época do ano em que o Sol cruza seu nódulo
oriental no Equinócio de Março. Então a divina palavra criadora expira. Em um sentido místico, ela morre na cruz da Páscoa,
emitindo um último brado de triunfo: “Está Consumado”48 (Consummatum est).
Porém, do mesmo modo que o eco volta a nós, muitas vezes, repetido, assim também o canto celestial de vida se repete sobre
a Terra. A criação inteira entoa um cântico de louvor, que é repetido sem cessar pelo coro de uma legião de línguas. As
pequeninas sementes no seio da Mãe Terra começam a germinar, brotando e despontando em todas as direções, e logo um
maravilhoso mosaico de vida, um tapete verde aveludado bordado de flores multicores, toma o lugar da mortalha do
imaculado branco gelado. Dos animais de pelo e pena, em todos a palavra de vida ressoa como uma canção de amor,
impelindo-os ao acasalamento. Geração e multiplicação é o lema em toda parte – o Espírito libertou-se para uma vida mais
abundante.

41
N.R.: Também conhecido como Tomás de Kempen, Thomas Hemerken, Thomas à Kempis, ou Thomas von Kempen (1379 ou
1380-1471) foi Monge e escritor alemão.
42
N.R.: Wilhelm Richard Wagner (1813-1883) – maestro, compositor, diretor de teatro e ensaísta alemão.
43
N.R.: ou Zurique é a maior cidade da Suíça, um país do hemisfério norte.
44
N.R.: a Suíça fica no hemisfério norte, onde, em março, é a estação da primavera.
45
N.R.: Jo 1:10
46
N.R.: Jo 1:5
47
N.R.: Jo 12:47
48
N.R.: Jo 19:30
Podemos, assim, observar todos os anos, misticamente, o nascimento, a morte e a ressurreição do Salvador como o fluxo e o
refluxo de um impulso espiritual que culmina no Solstício de Dezembro – Natal – e sai da Terra logo após a Páscoa, quando a
“palavra” sobe ao Céu, no Domingo de Pentecostes. Mas lá não fica para sempre. Foi-nos ensinado que “dali retornará”, “no
Juízo”. Portanto, quando o Sol desce pelo equador, em outubro, através do Signo de Libra – época em que os frutos do ano
são colhidos, pesados e classificados por tipos – começa a descida do Espírito do novo ano, culminando está descida no
nascimento, no Natal.
O ser humano é uma miniatura da Natureza. O que acontece em grande escala na vida de um Planeta, como a nossa Terra,
ocorre em escala menor ao longo da vida do ser humano. Um Planeta é o corpo de um grande, maravilhoso e exaltado Ser,
um dos Sete Espíritos diante do Trono (do Pai Sol). O ser humano também é um Espírito “feito à sua imagem e semelhança”.
Assim como um Planeta gira em seu caminho cíclico ao redor do Sol, de onde é emanado, assim também o Espírito humano se
move numa órbita em volta de sua fonte central – Deus. Sendo elípticas as órbitas planetárias, possuem pontos muitíssimo
próximos e pontos extremamente afastados dos seus centros solares. De maneira análoga, a órbita do Espírito humano é
elíptica. Nós estamos mais perto de Deus quando nossa jornada cíclica nos leva à esfera de atividade celeste – o Céu – e
estamos mais separados d'Ele durante a vida terrena. Tais mudanças são necessárias ao nosso crescimento anímico. Assim
como as festividades do ano assinalam o caráter repetitivo de acontecimentos importantes na vida de um Grande Espírito, do
mesmo modo nossos nascimentos e mortes são fatos de repetição periódica. É tão impossível para o Espírito permanecer
definitivamente no Céu ou na Terra como o é para um Planeta deter-se em sua órbita. A mesma imutável lei de periodicidade
que determina a ininterrupta sequência das estações, a alternação do dia com a noite e os fluxos e refluxos das marés,
governa também a marcha progressiva do Espírito humano tanto no Céu quanto na Terra.
Dos domínios de luz celestial onde vivemos em liberdade, sem as limitações do tempo e do espaço, onde vibramos em
uníssono com a infinita harmonia das esferas, nós descemos para nascer no Mundo Físico, onde nossa visão espiritual torna-
se obscurecida pela corda enrolada que nos agrilhoa a esta fase de limitações da nossa existência. Vivemos uns tempos aqui,
depois morremos e subimos aos céus, para renascer e morrer outra vez. Cada vida terrena é um capítulo da história seriada
da vida, extremamente humilde em seu começo, mas crescendo em interesse e importância à medida que ascendemos para
estágios de responsabilidade humana, cada vez mais altos. Nenhum limite é concebível, pois somos divinos em essência e,
portanto, temos latentes em nós as infinitas possibilidades de Deus. Quando tivermos aprendido tudo o que este mundo tem
para ensinar-nos, uma órbita mais ampla, uma esfera maior de utilidade sobre-humana, abrir-se-á às nossas maiores
capacidades.

“Constrói Alma minha, as mais belas mansões


Enquanto as estações se sucedem!
Deixa teu humilde passado!
Que cada novo templo, mais nobre que o anterior,
Te separe dos céus com um domo mais amplo,
Até que, por fim, possas ficar livre,
Abandonando tua pequena concha no revolto mar da vida!”49

Assim diz Oliver Wendell Holmes50, comparando a progressão espiral com a concha espiralada com seções ou
compartimentos separados de um náutilo à expansão da consciência que é o resultado do crescimento anímico em
um ser humano em evolução.
“Mas, e Cristo?” – Pode alguém perguntar. “Você não acredita n'Ele? Você está discorrendo sobre a Páscoa, o feriado que
comemora a morte cruel do Salvador e Sua gloriosa e triunfante ressurreição, todavia parece referir-se a Ele mais como uma
alegoria que como um fato real.”.
Certamente nós cremos em Cristo; nós O amamos de todo o coração e com toda a nossa alma, mas
queremos enfatizar o ensinamento de que Cristo é a primícia 51 da Onda de Vida humana. Ele disse que nós
poderíamos fazer as coisas que Ele fez, “e maiores ainda”52. Portanto, somos Cristos em formação.

“Ainda que Cristo nasça mil vezes em Belém,


Se não nascer dentro de ti, tua Alma segue extraviada.
Olharás em vão a Cruz do Gólgota,
Enquanto ela não se erguer dentro de ti mesmo novamente.”
49
N.T.: do poema “The Chambered Nautilus” de Oliver Wendell Holmes.
50
N.T.: (1809-1894) - médico americano, professor, palestrante e autor.
51
N.T.: ICor 15:20-23. Repare que como as primícias do Antigo Testamento simbolizavam e consagravam toda a colheita que se
seguiria, a Ressurreição de Cristo foi a antecipação da ressurreição de todos os Cristãos que ainda viriam. Sua Ressurreição é
nossa garantia de que um dia todos os Cristãos serão ressuscitados dentre os mortos e receberão novos corpos ressuscitados.
52
N.T.: Jo 14:12
Assim declara Angelus Silesius53, com a verdadeira compreensão mística dos fundamentos para nos
realizarmos espiritualmente.
Temos o hábito de olhar para um Salvador externo, enquanto abrigamos um demônio interior; mas, até que
Cristo seja formado EM NÓS, conforme diz São Paulo 54, buscaremos em vão, pois é impossível para nós percebermos
a luz e a cor, embora estejam ao nosso redor, a menos que o nosso nervo ótico registre as vibrações da luz e da cor,
e permanecemos inconscientes do som quando os tímpanos dos nossos ouvidos estão insensíveis, também devemos
permanecer cegos à presença de Cristo e surdos a Sua voz até que despertemos nossa natureza espiritual interna.
Mas, uma vez que essa natureza espiritual tenha despertada, elas revelarão o Senhor do Amor como uma realidade
primordial; isso com base no princípio de que, fazendo-se vibrar um diapasão, outro diapasão de mesmo tom
começará também a vibrar, enquanto outros diapasões de tons diferentes permanecerão imóveis, sem nenhuma
vibração. Por isso Cristo disse que Suas ovelhas O conheciam pelo som de Sua voz, à qual respondiam, mas não
ouviam a voz do estranho (Jo 10:5). Não importam nosso credo, todos somos irmãos em Cristo, portanto nos
regozijemos, o Senhor ressuscitou! Busquemos a Ele e esqueçamos nossos credos e outras diferenças de menor
importância.

53
N.T.: Pseudônimo de Johannes Scheffler (1624-1667) – Místico Cristão, filósofo, médico, poeta, jurista alemão.
54
N.T.: Gl 4:19
Parte II

O sinal da Cruz estará no céu quando o Senhor


vier para julgar. Então, todos os que servem a
Cruz e que na vida se tenham harmonizado com o
Crucificado poderão aproximar-se de Cristo com
toda coragem.
Thomas de Kempis

Mais uma vez chegamos ao ato final do drama cósmico que envolve a descida do Raio solar de Cristo ao interior da matéria
de nossa Terra, o qual se completa no nascimento místico celebrado no Natal e na Morte Mística e Libertação, celebradas
logo após o Equinócio de Março, quando o Sol do novo ano inicia sua ascenção às esferas superiores dos céus setentrionais,
depois de verter sua vida para salvar a humanidade e revigorar todas as coisas sobre a Terra. Nessa época do ano uma nova
vida, uma energia intensificada, circula com força irresistível nas veias e artérias de todos os seres vivos, inspirando e
instilando neles novas esperanças, novas ambições e nova vida, e impelindo-os a novas atividades pelas quais possam
aprender novas lições na escola da experiência. Consciente ou inconscientemente, tudo o que tem vida beneficia-se desse
manancial de energia fortalecida. Até a planta responde por um aumento de circulação de seiva, que resulta em uma
renovação de folhas, flores e frutos, meios pelos quais esta classe de vida expressa-se a si mesma e evolui para um estado
superior de consciência.
Mas ainda que maravilhosas sejam essas manifestações físicas externas, e ainda que possa ser chamada de gloriosa essa
transformação da Terra de um deserto de neve e gelo em um formoso jardim florido, isso é insignificante diante das
atividades espirituais paralelas que se efetuam ao mesmo tempo. As características salientes do drama cósmico são idênticas
em termos de época com os efeitos materiais do Sol nos quatro Signos Cardeais (Áries, Câncer, Libra e Capricórnio), porque os
eventos mais significativos ocorrem nos pontos equinociais e solsticiais.
Realmente, é de fato verdadeiro que “em Deus vivemos, nos movemos e temos o nosso ser”55. Fora d'Ele não poderíamos
existir; vivemos por e através de Sua vida; movimentamo-nos e agimos por e através de sua fortaleza; é o Seu poder que
sustenta nossa morada, a Terra, e sem Seus incessantes e invariáveis esforços o universo desintegrar-se-ia por si mesmo.
Sabemos que o ser humano foi feito à semelhança de Deus, e nos é dado compreender que, consoante a lei de analogia,
possuímos internamente certos poderes latentes idênticos àqueles que vemos tão poderosamente manifestados pela Deidade
na obra do universo. Isso desperta, em nós, um particular interesse no drama cósmico anual em que envolve a morte e
ressurreição do Sol. A vida do Deus-Homem, Cristo-Jesus, foi moldada de conformidade com a história solar e prenuncia, de
modo idêntico, tudo o que pode acontecer ao Homem-Deus, a quem Cristo-Jesus profetizou quando disse: “As obras que eu
faço vós fareis também, e maiores ainda56; para onde vou agora vós não podeis ir, mas depois podereis seguir-me”57.
A Natureza é a expressão simbólica de Deus. Ela nada faz em vão ou arbitrariamente, mas existe um propósito por trás de
todas as coisas e de todos os atos. Por conseguinte, devemos estar alertas e considerar cuidadosamente os sinais nos céus,
porque eles possuem um significado profundo e importante referentes às nossas próprias vidas. A compreensão inteligente
desses propósitos capacita-nos a trabalhar mais eficazmente com Deus em Seus maravilhosos esforços para emancipar nossa
raça da escravidão das leis da Natureza e, mediante essa liberação, alcançarmos a plena estatura de filhos de Deus, coroados
de glória, honra e imortalidade; livres do poder do pecado, da doença e do sofrimento que agora encurtam nossas existências
terrenas em razão de nossa ignorância e de inconformidade às leis de Deus. O propósito divino visa essa emancipação, e ser
ela conseguida através do longo e tedioso processo evolutivo ou ser alcançada através do caminho muitíssimo mais curto da
Iniciação, isso depende da nossa vontade de cooperar ou não. A maioria da humanidade atravessa a vida com olhos que não
veem e ouvidos que não ouvem. Segue absorvida em seus negócios materiais, comprando e vendendo, trabalhando e
divertindo-se sem a devida apreciação ou compreensão dos propósitos da existência e, ainda que tais propósitos se tornassem
claros, é provável que dificilmente se conformasse em virtude do sacrifício que isso envolve.
Não é de estranhar que Cristo chame especialmente o pobre e enfatize a dificuldade do rico entrar no Reino dos Céus, pois
mesmo hoje, quando a humanidade já avançou dois milênios na escola da evolução desde aquela data, vemos que a grande
maioria ainda dá mais valor às suas casas e terras, às suas roupas e chapéus, aos prazeres sociais, festas e banquetes do que
aos tesouros celestiais, que se juntam pelo serviço aos outros e sacrifício de si mesmo. Ainda que essa maioria possa perceber
intelectualmente a beleza da vida espiritual, a conveniência desta torna-se insignificante aos seus olhos quando comparada
ao sacrifício exigido para alcançá-la. Como o moço rico, ela seguiria, voluntariamente, a Cristo não fora a necessidade de
tanto sacrifício. Prefere ir-se quando percebe que o sacrifício é a única condição para ingressar-se no discipulado. Portanto,
para tais pessoas a Páscoa não é mais que uma ocasião de regozijo porque se trata do fim de um momento especial e começo
de outro momento especial diferente, que convida manifestações de alegrias.

55
N.R.: At 17:28
56
N.R.: Jo 14:12
57
N.R.: Jo 13:36
Mas, para aqueles que escolheram definitivamente o caminho do auto sacrifício que conduz à Libertação, a
Páscoa é o sinal anual que lhes é fornecido como prova da base cósmica das esperanças e aspirações deles. Como S.
Paulo afirma apropriadamente naquele glorioso capítulo XV da Primeira Epístola aos Coríntios58:

“E, se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé. Acontece mesmo que
somos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, quando de fato não
ressuscitou, se é que os mortos não ressuscitam. Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou.
E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que
adormeceram em Cristo estão perdidos. Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais
dignos de compaixão de todos os homens. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que
adormeceram.”.

No Sol da Páscoa, que no Equinócio de Março começa a percorrer os céus setentrionais, após verter sua vida na Terra, temos o
símbolo cósmico da veracidade da ressurreição. Quando o consideramos como um fato cósmico enquadrado na lei de
analogia, que relaciona o macrocosmo com o microcosmo, o importante é saber que algum dia alcançaremos a consciência
cósmica e conheceremos positivamente por nós mesmos, por nossa própria experiência, que a morte não existe, mas o que
isso parece é apenas uma transição para uma esfera mais sutil.
É um símbolo anual para fortalecer nossas almas no afã de fazer o bem, para que possamos tecer o Dourado Manto Nupcial
necessário para nos convertermos em filhos de Deus, no sentido mais elevado e mais santo. É literalmente verdade que a
menos que “andemos na luz, como Deus na luz está, não seremos fraternais uns com os outros”59; mas, ao fazermos os
sacrifícios e prestarmos o serviço altruísta e desinteressado para ajudar a emancipação da Onda de Vida humana, estamos
construindo o Corpo-Alma de radiante luz dourada, que é a substância especial emanada do Espírito do Sol, o Cristo Cósmico
e, também, emanada dele mesmo. Quando essa substância dourada nos revestir com a densidade suficiente, seremos capazes
de imitar o Sol da Páscoa e voar para as esferas mais elevadas.
Com esses ideais firmemente impressos em nossas Mentes, a época da Páscoa se converte em uma estação apropriada para
revisarmos nossas vidas durante o ano que passou e tomarmos novas resoluções que adiantem nosso crescimento anímico
até ao próximo. É uma época em que o símbolo do Sol ascendente deve levar-nos a uma compreensão profunda do fato de
que na Terra não somos mais que peregrinos e forasteiros; que, como Espíritos, nossa verdadeira pátria é o Céu; e que
devemos esforçar-nos para aprender as lições desta vida tão depressa quanto nos permitam os caminhos apropriados. O Dia
da Páscoa marca a ressurreição e libertação do Espírito de Cristo dos planos inferiores, e essa libertação deve lembrar-nos de
buscar continuamente a aurora do dia em que estaremos permanentemente livres das malhas da matéria, do corpo de
pecado e morte, juntamente com todos os nossos irmãos em escravidão. Nenhum aspirante sincero poderia conceber uma
libertação que não incluísse a todos que estivessem na mesma situação.
Esta é uma tarefa gigantesca. Enfrentá-la pode muito bem desalentar o mais valente coração, de modo que se estivéssemos
sozinhos não poderíamos realizá-la, mas as Hierarquias Divinas, que têm guiado a humanidade no caminho evolutivo desde o
começo da jornada, ainda estão ativas e trabalhando conosco desde os Mundos Espirituais siderais, de maneira que com sua
ajuda seremos, oportunamente, capazes de conseguir o soerguimento da humanidade como um todo e alcançar uma
condição individual de glória, honra e imortalidade. Com esta enorme esperança dentro de nós mesmos, com esta grande
missão no mundo trabalhemos como nunca para sermos melhores homens e mulheres, de forma que, por nossos exemplos,
possamos despertar nos outros o desejo de levar uma vida que conduza à libertação.

58
N.T.: ICor 15:14-20
59
N.T.: IJo 1:7
Capítulo V - O Significado Esotérico da Páscoa e o Ponto de
Partida da Filosofia Rosacruz
“Porque se morreres com Ele, também com Ele
viverás, e se partilhares dos Seus sofrimentos,
da Sua glória também partilharás”.
Thomas de Kempis

Outra vez a Terra alcança o Equinócio de Março, em seu movimento anual de translação em torno do Sol, e assim chegamos à
Páscoa. O raio espiritual emitido pelo Cristo Cósmico nesse período, para reativar a esgotada vitalidade da Terra, está quase
subindo de volta ao Trono do Pai. Às atividades espirituais de fecundação e germinação, levadas a efeito durante os últimos
seis meses, seguir-se-ão os processos de crescimento físico e amadurecimento durante os próximos seis meses, sob a
influência do Espírito da Terra. O ciclo termina no “Lar da Colheita”. Deste modo o grande Drama do Mundo é encenado e
reencenado ano após ano, numa eterna disputa entre a vida e a morte, sendo cada uma por vez vencedora e vencida na
sequência dos ciclos.
Os grandes fluxos e refluxos cíclicos não estão limitados em seus efeitos à Terra, à sua flora e fauna. Exercem igualmente uma
influência dominante sobre a humanidade, mesmo que a grande maioria não se aperceba das causas que a impelem a agir
numa e noutra direção. Não obstante, essa ignorância, permanece o fato de que a mesma vibração terrestre que adorna
vistosamente as aves e outros animais nesses próximos três meses, responde também pelo desejo humano de se vestir com
cores alegres e roupas mais claras nessa época do ano. É, também, “o apelo do silvestre campo”, que nos subsequentes três
meses convida o ser humano a relaxar no meio rural, onde os Espíritos da natureza exercitaram suas artes mágicas nos
campos e florestas, para recuperar-se da tensão das condições artificiais reinantes nas cidades congestionadas.
Por outro lado, é a “queda” do raio espiritual do Sol nos meses de Setembro, Outubro e Novembro que causa o reinício das
atividades mentais e espirituais nos meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro. A mesma força germinadora que fermenta a
semente na terra e a prepara para reproduzir sua espécie multiplicada, também ativa a Mente humana e fomenta atividades
altruístas que tornam o mundo melhor. Caso essa grande onda de desprendido Amor Cósmico não culminasse no Natal, com
vibrações de paz e boa-vontade, não poderia haver nenhuma sensação festiva em nossos corações de modo a gerar o desejo
de fazer os outros igualmente felizes. O costume universal de dar presentes no Natal seria impossível, e todos nós sofreríamos
essa perda.
Quando Cristo andava, dia após dia, pelas colinas e vales da Judeia e Galileia, ensinando às multidões, todos foram
beneficiados. Mas Ele convivia mais com Seus Discípulos, e estes cresciam rapidamente cada dia. À medida que o tempo
passava esses laços de amor estreitavam-se ainda mais, até que, um dia, mãos impiedosas tiraram o amado Mestre e o
levaram a morte desonrosa. Contudo, mesmo que tenha morrido na carne, Ele continuou a conviver intimamente com Seus
Discípulos por algum tempo, em Espírito. Mas por fim subiu às esferas superiores, perdendo-se assim o contato direto com
Ele, e aqueles homens olharam-se tristemente, cara a cara e perguntaram-se: “É este o fim?”. Eles haviam esperado tanto,
haviam alimentado tão elevadas aspirações que, apesar da verdejante paisagem continuar brilhante e beijada pelo Sol como
antes de Sua Partida, a Terra parecia fria e monótona, pois sombria desolação oprimia os seus corações.
Algo semelhante também acontece conosco quando buscamos seguir o Espírito e lutar contra a carne, mesmo que a analogia
não tenha sido aparente até aqui. Quando, nos meses de setembro, outubro e novembro a “queda” do raio Crístico começa
anunciando a época da supremacia espiritual, logo o sentimos e começamos avidamente a banhar nossas almas nessa
bendita maré. Experimentamos uma sensação semelhante à dos Apóstolos, quando andavam com Cristo, e à medida que os
meses avançam torna-se cada vez mais fácil comungar com Ele, face a face, como antes. Mas, no curso anual dos
acontecimentos, a Páscoa e Ascenção do raio de Cristo “ressuscitado” para o Pai, deixa-nos em idêntica posição à dos
Apóstolos quando seu querido Mestre se afastou. Nós ficamos desolados e tristes, vemos o mundo como um deserto
monótono e não podemos atinar com a razão de nossa perda, que é tão natural como os fluxos e refluxos das marés ou como
os dias e as noites – fases da era atual dos ciclos alternados.
Existe um perigo nesta atitude mental. Se permitirmos que ela nos domine, é possível que abandonemos o nosso trabalho no
mundo e nos convertamos em sonhadores desiludidos, percamos, nosso equilíbrio e provoquemos, contra nós, a crítica muito
justa dos demais. Este tipo de conduta é inteiramente errado, pois, assim como a Terra emprega o seu esforço material para
produzir abundantemente em um período, após haver recebido o ímpeto espiritual em outro período, é nosso dever, também,
envidar os maiores esforços ao trabalho do mundo quando possuímos o privilégio de comunicar com o Espírito. Assim
fazendo, é possível que despertemos nos outros o Espírito de emulação e o de reprovação.
Estamos acostumados a pensar no avaro como alguém que junta ouro, sendo essa classe de pessoas objeto de desprezo, de
modo geral. Mas há indivíduos que lutam tão tenazmente para adquirir conhecimento, quanto se esforça o avaro para
acumular ouro, não hesitando em usar qualquer meio ou subterfúgio para alcançar seu intento e guardando consigo seus
conhecimentos, tão egoisticamente quanto o avaro guarda o seu tesouro. Não compreendem que por tal método eles fecham
de fato as portas à uma sabedoria maior. A antiga teologia nórdica continha uma parábola que, simbolicamente, esclarece o
assunto. Dizia que todos os que morriam no campo de batalha (as almas fortes que combateram o bom combate até o fim)
eram levados ao Valhalla60, a estar com os deuses, enquanto os que morriam na cama ou por doenças (as almas fracas, que
vagavam pela vida) iam para o lúgubre Niflheim. No Valhalla, os valentes guerreiros banqueteavam-se diariamente com a
carne de um javali chamado Sæhrimnir61, que se caracterizava por uma particularidade: sempre se cortava um pedaço de suas
carnes, imediatamente outro crescia no lugar, de modo que seu corpo nunca era consumido, não importa quanto se cortasse
dele. Isto simbolizava adequadamente o “conhecimento”, pois, não importa quanto dele possamos dar aos outros, o original
sempre fica conosco.
Existe, portanto, certa obrigação de transmitirmos os conhecimentos que possuímos, pois “àquele a quem
muito foi dado, muito lhe será pedido”62. Talvez seja oportuno descrever novamente uma experiência para ilustrar o
caso. Trata-se da “prova” decisiva pela qual fui submetido, antes de me serem confiados os ensinamentos
compreendidos no livro “Conceito Rosacruz do Cosmos”, embora nessa ocasião, naturalmente, eu não soubesse que
estava sendo testado. Aconteceu numa época em que viajei à Alemanha em busca de um professor que, acreditava,
poderia ajudar-me a avançar no caminho da realização. Mas, chegou um ponto onde já havia assimilado com
profundidade seus ensinamentos. Então, o questionei sobre algumas ideias incongruentes. Ele viu-se obrigado a
admitir sua incapacidade para elucidá-las. Fiquei desalentado. Uma verdadeira frustração. Já de malas prontas para
voltar para a América me sentei na cadeira do quarto. Estava pensativo e desapontado, conjecturando sobre o
fracasso da viagem. De repente tive a sensação da presença de alguém vindo em minha direção. Olhei para cima e
contemplei Aquele que, desde então, se tornou meu Mestre. Lembro-me, envergonhado, do quão rispidamente
perguntei quem O havia enviado e o que o “intruso visitante” desejava. Eu estava muito mortificado. Muito hesitei
antes de aceitar Seu auxílio. Enfim consegui conversar sobre as dúvidas e a busca que motivaram minha ida para a
Europa.
Durante os dias seguintes, o recente companheiro reapareceu diversas vezes nos meus aposentos.
Respondia às minhas perguntas e ajudava-me a encontrar soluções para problemas, até então, desorientadores.
Contudo ainda permanecia cético. Seria tudo isso mera alucinação? Pois minha visão espiritual era pouco
desenvolvida e nem sempre sob o necessário controle. Compartilhei a situação com um amigo. Disse-lhe que o
inesperado visitante dava respostas claras, concisas e perfeitamente lógicas a todas as dúvidas. Respostas diretas e
muito além de qualquer concepção que eu fosse capaz de imaginar. Assim concluímos que a experiência só poderia
ser real e consistente.
Alguns dias depois, o recente amigo revelou-me que era membro de uma Ordem Espiritual. Os
ensinamentos da Ordem continham uma solução completa para o enigma do universo, muito mais completa do que
qualquer outro ensinamento já divulgado. Afirmou que os Irmãos da Ordem estavam dispostos a compartilhar
comigo esses ensinamentos. Mas havia uma condição. Eu deveria conservá-los como um segredo inviolável.
Reagi furiosamente: “Ah, então é isso! Agora estou percebendo a armadilha! Não! Se você possui o que diz e
se, de fato, é tão bom, então, é um bem a ser compartilhado com o mundo todo. A Bíblia proíbe-nos expressamente
de ocultar a Luz. Não me interessa desfrutar dessa fonte de conhecimentos enquanto milhares de almas anseiam por
uma solução a seus problemas, tal como eu”. O visitante, então, retirou-se e não voltou. Apressadamente concluí
que se tratava de um emissário dos Irmãos das Trevas.
Mais ou menos um mês depois, deduzi que não poderia obter maior iluminação na Alemanha. Sem demora,
fiz reserva num navio para Nova York. Devido ao intenso movimento, só consegui vaga para um mês depois.
Quando voltei ao alojamento, logo depois de comprar a passagem, lá estava novamente o rejeitado Mestre.
Insistiu na oferta. Ensinamentos completos com a condição de conservá-los em segredo. Desta vez a reação de
recusa foi talvez mais enfática e indignada do que antes. Porém, desta vez o Mestre permaneceu e disse: “Estou
contente em ouvir sua recusa, meu irmão. Espero que você seja sempre zeloso em propagar os ensinamentos da
Ordem, sem medo nem parcialidade, como tem sido firme sua recusa. Esta é a real condição para receber as
revelações”.
60
N.R.: Valhala, Valíala, Valhalla ou Palácio dos Einherjar (em português “Palácio dos mortos heroicos”), na mitologia
nórdica e nas religiões pagãs nórdicas, como a popular Ásatrú, é um palácio com enorme salão com 540 quartos —
situado em Asgard e dominado pelo deus Odin — no qual metade dos guerreiros mais nobres e destemidos mortos
em batalha são levados pelas valquírias após a morte para viverem com Odin (enquanto a outra metade vai para os
campos Folkvang da deusa Freia), onde participam de combates diários, para manter o exercício da luta e preparar-
se para o dia de Ragnarök (em português “o dia do fim do mundo”).
61
N.T.: Sæhrímnir segundo a mitologia nórdica, é o animal que o cozinheiro dos deuses, Andhrimnir, cozinhava no
caldeirão gigante e mágico Eldhrímnir. Todos os dias Sæhrímnir era ressuscitado e novamente cozinhado para os
Ases e os guerreiros mortos, os Einherjar, comerem, em Valhalla. A existência do animal é comprovada nas fontes
antigas, sendo referido por Snorri Sturluson no Gylfaginning da Edda em prosa, como um javali.
62
N.R.: Lc 12:48
Então, recebi instruções para tomar um determinado trem, numa certa estação, com destino a um lugar do qual
nunca ouvira falar. Lá chegando, encontrei o Irmão em carne e osso. Em seguida fui levado ao Templo. Desde então,
venho recebendo as principais instruções contidas em nossa literatura. Mas vamos para a parte que mais nos
importa no momento: se eu tivesse concordado em conservar em segredo as revelações, naturalmente teria sido
considerado incapaz de ser um mensageiro dos Irmãos Maiores e eles teriam procurado outro mais qualificado. Isto
também ocorre com todos nós. O mal estará batendo à nossa porta quando, de forma mesquinha, guardamos as
bênçãos espirituais que recebemos. Assim sendo, vamos imitar a Terra nesta época da Páscoa. Vamos dar ao Mundo
Físico a atividade construtora dos frutos do Espírito. Frutos semeados no solo de nossas almas durante a precedente
estação invernal. Dessa forma, receberemos bênçãos mais abundantes a cada ano que se passa.
Capítulo VI - O Símbolo do Ovo
“E quando este corpo incorruptível se revestir de incorruptibilidade,
e o que é mortal se revestir de imortalidade,
então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória”.
I Cor 15:54

Novamente estamos na Páscoa. Para os nossos irmãos e irmãs do hemisfério norte passaram-se os sombrios
e pesados dias dos meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro. A Mãe Natureza remove o manto frio de gelo que
cobria a terra63 liberta milhões e milhões de sementes que estavam resguardadas no macio do chão. Elas rompem
sua crosta e vestem o solo com trajes de verão numa orgia de cores alegres e vistosas. Preparam as “câmaras
nupciais” para animais e aves celebrarem seus rituais de acasalamento.
Mesmo neste ano de guerra64 regado de lágrimas, o canto da vida ressoa bem alto, acima do canto fúnebre
da morte.
Oh morte! Onde está teu aguilhão?
Oh tumba! Onde está tua vitória?
Cristo ressuscitou! Vede os primeiros frutos.
Ele é a Ressurreição e a Vida.
Quem n’Ele acredita não morrerá,
mas terá vida eterna.

Na presente estação, a mente do mundo civilizado volta-se para a festividade que chamamos Páscoa. Nela
comemora-se a morte e ressurreição do Nobre Ser que o mundo conhece pelo nome de Jesus. Sua história e Sua
vida foram descritas nos Evangelhos. Mas, um Cristão Místico tem uma visão mais profunda e mais ampla desse
evento cósmico que se repete anualmente. Ele reconhece o anual fluxo e refluxo da vida do Cristo Cósmico
interpenetrando o corpo da Terra. Nosso Planeta então respira. A Terra inala esse influxo vital durante os meses de
Setembro, Outubro e Novembro, cuja culminância é alcançada no Solstício de Dezembro, quando celebramos o
Natal. E a Terra exala durante os meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro até culminar a época da Páscoa. A
inspiração, ou injeção de força vital, manifesta-se pela aparente inatividade dos meses de Dezembro, Janeiro e
Fevereiro. Segue-se a expiração da vida de Cristo, manifestada como força da ressurreição. Força que dá nova vida a
tudo que vive e se movimenta sobre a Terra. Vida abundante. Não apenas para manter, mas para propagar e
perpetuar.
O drama cósmico da vida e da morte é representado, anualmente, por todas as criaturas e coisas em
evolução, da maior à menor. Até o grande e sublime Cristo Cósmico, em Sua compaixão, torna-se sujeito à morte
quando, durante seis meses do ano, interpenetra no ambiente cristalizado do corpo da Terra. Por conseguinte, é
oportuno recordar alguns pontos relativos à morte e renascimento que, às vezes, podemos esquecer.
Entre os símbolos cósmicos conservados desde a antiguidade, seguramente o mais popular é o ovo. O
Simbolismo do Ovo permeia as Religiões. Está presente no Antigo Eddas 65 dos Escandinavos. Antiga lenda que nos
fala do ovo e da origem dos mundos. Ovo esfriado pelo sopro gelado no Niebelheim 66. Mas também aquecido pelo
hálito quente do Muspelheim. Mesmo antes que os vários mundos e o próprio ser humano viessem a existir. Indo
em direção ao ensolarado sul, podemos encontrar nos Vedas 67, da Índia, história análoga. Trata-se do mito
Kalahamsa68, protagonizado pelo Cisne do tempo e do espaço o qual pôs o ovo que veio a ser, finalmente, o mundo.
Entre os egípcios encontramos o globo alado e as serpentes ovíparas, simbolizando a sabedoria manifestada neste

63
N.T.: o Autor se refere ao hemisfério norte .
64
N.T.: o Autor se refere à 2ª Guerra Mundial
65
N.T.: Eddas, Edas ou simplesmente Edda, é o nome dado a duas coletâneas distintas de textos do séc. XIII,
encontradas na Islândia, e que permitiram iniciar o estudo e a compilação das histórias referentes aos deuses e
heróis da mitologia nórdica e germânica.
66
N.T.: Na mitologia nórdica, Niflheim (“reino da névoa”) o mundo do frio, da névoa e da neve.
67
N.T.: Denominam-se Vedas as quatro obras, compostas em um idioma chamado Sânscrito védico, de onde se
originou posteriormente o sânscrito clássico.
68
N.T.: da mitologia hindu, Kalahamsa é o cisne negro que navega pelas águas do Universo.
nosso mundo. Depois, os gregos utilizaram esse mesmo simbolismo, cultuado e reverenciado em seus Templos de
Mistérios. Foi preservado e sacralizado pelos Druidas69.
Era também conhecido dos construtores do Grande Montículo da Serpente, em Ohio, EUA 70. O simbolismo
relativo do ovo conservou seu lugar na Simbologia Sagrada até hoje, muito embora a imensa maioria dos seres
humanos seja cega ao Grande Mistério que ele encerra e revela: “O Magno Mistério da Vida”.
Quando quebramos a casca de um ovo, achamos apenas fluídos viscosos de coloração variada e consistência
diversa. Mas, quando submetido a uma temperatura adequada, logo observamos uma série de mudanças. Assim, em
pouco tempo, uma criatura viva pode romper a casca e surgir pronta para assumir seu lugar entre os de sua espécie.
Os “magos” dos laboratórios podem sintetizar as substâncias do ovo e injetá-las numa casca. Uma réplica perfeita do
ovo natural pode ser produzida, conforme as experiências realizadas até hoje. Contudo, o ovo artificial difere do ovo
natural em um ponto fundamental: nenhuma coisa viva pode ser incubada no ovo obtido artificialmente. Fica
evidente, portanto, que alguma coisa intangível deve estar presente em um e ausente noutro.
Esse mistério primordial que anima todas as criaturas é o que nós chamamos Vida. A Vida não pode ser
detectada em meio às substâncias do ovo, nem mesmo através do mais potente microscópio, ainda que ela esteja ali
presente para produzir as notáveis mudanças. Pode-se assim concluir que a Vida tem a propriedade de existir
independentemente da matéria. Aprendemos através do sagrado simbolismo do ovo que, apesar da Vida ser capaz
de modelar a matéria, não depende dela para existir. A Vida é autoexistente. Não tendo princípio não pode também
ter fim. Essa ideia está bem representada pela geometria ovoide presente na própria forma do ovo.
Estamos estarrecidos com a carnificina nos campos de batalha da Europa. Somando a maneira atroz como as
vítimas são arrancadas da vida física. Vamos considerar que a média da expectativa de vida aqui é de apenas 50
anos71, mais ou menos, e que, em meio século, a morte ceifa a vida de cento e cinquenta milhões de irmãos. Três
milhões por ano. Duzentos e cinquenta mil a cada mês. Podemos ver que, afinal de contas, o total não foi tão
expressivamente aumentado. Vamos refletir sobre o verdadeiro conhecimento contido no simbolismo do ovo, isto é,
que a Vida não pode ser criada, nunca teve princípio e nunca terá fim. Assim estamos prontos para encarar os fatos e
admitir: aqueles que são agora retirados da existência física estão apenas atravessando uma jornada cíclica idêntica
à da vida do Cristo Cósmico. Vida que interpenetra a Terra nos meses de Setembro, Outubro e Novembro e retira-se
na Páscoa. Aqueles que morreram estão apenas indo para os reinos invisíveis. De onde mais tarde, e em novo ciclo
mergulharão na matéria densa, interpenetrando, como todas as coisas vivas, o óvulo da futura mãe. Após um
período de gestação, reingressarão na vida física para aprender novas lições na grande escola.
Assim, vemos como a grande lei da analogia opera em todas as fases e sob todas as circunstâncias da vida. O
que acontece ao Cristo no grande mundo vai acontecer também na vida particular (pequeno mundo) daqueles que
caminham para converterem-se em Cristos. Encarando os desafios humanos dessa maneira podemos enfrentar o
presente conflito com mais ânimo.
Devemos admitir que a morte cumpre, nas atuais circunstâncias, uma tarefa cósmica necessária. Podemos
imaginar as consequências de permanecer aprisionado num corpo como o que agora usamos. Se fôssemos
introduzidos num ambiente tal e qual este em que nos encontramos hoje, para assim viver perenemente. As
enfermidades do corpo e as condições insatisfatórias do ambiente bem cedo nos fariam cansar da vida e implorar
por libertação.
Um corpo imortal impediria todo progresso e tornaria impossível evoluirmos às alturas mais elevadas. Por
outro lado, o renascimento em novos veículos e novos ambientes permite novas possibilidades de crescimento. Por
conseguinte, devemos agradecer a Deus tanto o nascimento quanto a morte. O nascimento em um Corpo Denso é
necessário para nosso contínuo desenvolvimento. Igualmente necessário é o abandono desse corpo, através da
morte, e tem sido providenciado com o objetivo de libertar-nos de um instrumento esgotado pelo uso.
Tanto a ressurreição do Espírito como uma nova encarnação sob o céu auspicioso e em um novo ambiente,
proporcionam oportunidades inéditas para recomeçar a vida. Sob as novas condições podemos aprender as lições
que não foram devidamente assimiladas antes. Graças a esse método seremos algum dia perfeitos como o Cristo
ressuscitado. Assim Ele determinou e nos legou Seu exemplo, auxiliando todos a caminhar em Sua direção.

69
N.T.: Druidas (no feminino druidesas ou druidisas) eram pessoas encarregadas das tarefas de aconselhamento e ensino, e de
orientações jurídicas e filosóficas dentro da sociedade celta.
70
N.T.: O Great Serpent Mound ou Grande Montículo da Serpente é um montículo-efigie (Effigy Mounds) de 380 metros de
comprimento, 6 metros de largura e 1,2 metros de altura localizado na meseta de Serpent Mount Crater no Condado de Adams,
Ohio, Estados Unidos. A sua forma é sinuosa e assemelha-se a uma serpente, começa num torque e termina com a cabeça no
que parece que teve um altar. É o maior montículo-efigie do mundo.
71
Na época em que esse livro foi escrito.
Capítulo VII - A Cruz de Cristo
“Se alguém quiser vir após mim,
negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”.
Mt 16:24

De acordo com uma antiga lenda, quando expulso do Paraíso, Adão levou consigo três mudas da árvore da
vida, as quais, plantadas pelo seu filho Seth, vingaram e cresceram. De uma delas se fez mais tarde o cajado de
Aarão, com o qual este operou milagres diante do Faraó. Outra foi levada ao Templo de Salomão para servir de pilar
ou coisa semelhante ali, mas, como não serviu para nada no interior do edifício, foi então utilizada como uma ponte
sobre um regato que corria fora do Templo. A terceira foi usada para fazer-se a cruz de Cristo, sobre a qual Ele sofreu
por nós, libertou-se finalmente, penetrou na Terra e tornou-se o Espírito Planetário do nosso globo, no qual Ele
agora sofre e geme esperando o dia da libertação.
Existe um grande significado nessa lenda antiga. A primeira muda da árvore representa o poder espiritual
exercido pelas Hierarquias Divinas na infância da humanidade, isto é, um poder exercido por outrem para o nosso
próprio benefício. A segunda era para ser usada no Templo de Salomão. Ninguém pode apreciá-la, exceto a Rainha
de Sabá, nenhuma serventia foi achada para ela, pois o Templo de Salomão era a consumação das artes e ofícios e
em uma civilização materialista nada que seja espiritual é apreciado. Os Filhos de Caim conseguiam sua salvação ao
longo de linhas materiais, portanto não precisavam de poderes espirituais. Assim, “ela foi usada como ponte sobre o
regato”. Sempre existiram almas – os reais, os verdadeiros Maçons Místicos capazes de usar essa ponte que vai do
visível ao invisível, e de voltarem ao Jardim do Éden; ao Paraíso, através da mesma. Foi a terceira muda da árvore da
vida que deu a cruz de Cristo. Erguido naquela cruz foi que Ele conseguiu se libertar desta existência física e entrar
nas esferas superiores. De modo semelhante nós também, ao tomarmos nossa cruz e segui-Lo, podemos
desenvolver nossos poderes anímicos e ingressar numa esfera de maior utilidade nos Mundos invisíveis. Esforcemo-
nos todos de modo que, dia após dia, sejamos encontrados de joelhos e vencedores, agarrados à cruz de Cristo para
que, num dia não muito distante, possamos subir à nossa própria cruz e dali alcançarmos a gloriosa libertação, a
ressurreição da vida da qual Cristo foi e continua sendo os primeiros frutos para toda alma crente. Esta é a autêntica,
a verdadeira mensagem da Páscoa e devemos compreender que todos somos Cristos-em-formação, e que quando
Cristo nasce real e verdadeiramente dentro de nós Ele então nos mostrará o caminho da cruz a partir da Árvore do
Conhecimento pela qual conseguimos avançar. Essa cruz trouxe morte à Árvore da Vida no Corpo Vital, mas trouxe
também a imortalidade.
Capítulo VIII - Que Foi Feito do Corpo Físico de Jesus?
“Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste Tabernáculo se desfizer,
temos da parte de Deus um edifício,
casa não feita por mãos, eterna, nos céus”.
IICor 5: 1

Que fim teve o Corpo Denso de Jesus, colocado no túmulo, mas não encontrado na manhã do domingo de
Páscoa? E se o Corpo Vital de Jesus foi preservado para ser usado novamente por Cristo, como pode ele, Jesus, estar
nesse meio tempo funcionando num Corpo Vital? Não teria sido mais fácil conseguir para Cristo, em Sua segunda
vinda, outro Corpo Vital?
Essas perguntas foram respondidas assim, no “Ecos” de 1914:
Estudos nas Escrituras revelam o fato de que Cristo costumava afastar-se de Seus Discípulos e que estes
ignoravam para onde Ele ia nessas ocasiões ou, se não ignoravam, isso jamais foi mencionado. O motivo desses
afastamentos, porém, era que, sendo Ele um Espírito tão glorioso, Suas vibrações eram demasiado elevadas mesmo
para o melhor e mais puro dos veículos físicos, fazendo-se, portanto, necessário retirar-se deste veículo,
frequentemente, para um período de completo repouso, de modo que o padrão vibratório de seus átomos pudesse
baixar ou voltar ao normal. Por conseguinte, Cristo habitualmente buscava os Essênios em tais momentos, aos
cuidados de quem deixava o Corpo, uma vez que eles eram peritos em lidar com o Corpo Denso. Cristo nada sabia de
como tratar o veículo que recebera de Jesus. Não fora esses repousos e os cuidados recebidos, o corpo de Jesus ter-
se-ia desintegrado bem antes de se haverem completado os três anos do Seu ministério, e assim o Gólgota não teria
sido alcançado.
Quando o tempo se esgotou e o ministério terreno chegou ao fim, os Essênios pararam de intervir, então as
coisas tomaram o seu curso natural e a tremenda força vibratória que atuava sobre os átomos físicos espalhou-os
aos quatro ventos de modo que, quando o túmulo foi aberto poucos dias depois, nenhum sinal do corpo foi
encontrado.
Isso se harmoniza perfeitamente com as leis naturais que conhecemos e com o seu modo de atuarem no
Mundo Físico. A corrente elétrica de baixa potência queima e até mata, enquanto a alta voltagem pode atravessar o
corpo sem prejudicá-lo. A luz, que possui elevadíssimo grau vibratório, é agradável e benéfica ao corpo, mas quando
focalizada através de uma lente esse grau vibratório é reduzido, produzindo-se então o fogo que queima e destrói.
De modo idêntico, quando Cristo, o Grande Espírito Solar, entrou no Corpo Denso de Jesus, reduzindo Seu padrão
vibratório em virtude de resistência da matéria densa, tê-lo-ia queimado – como na cremação – caso não tivessem
sido tomadas medidas para evitá-lo. A força era a mesma, os resultados idênticos, exceto num pormenor: o fogo que
consumiu o corpo de Jesus não produziu cinzas, conforme aconteceria com o fogo comum que produz chamas. A
propósito, é bom recordar que o fogo, embora invisível, encontra-se latente em todas as coisas. É verdade que não o
vemos na planta, no animal ou na pedra, não obstante, ele ali está perceptível à visão interna e capaz de manifestar-
se a qualquer momento na substância física em forma de chama.
Uma das nossas ilusões é a de que o corpo que habitamos é vivo. Isto de fato não acontece. Pelo menos a
porção deste corpo que pode ser verdadeiramente chamada de viva é tão pequena que a afirmação acima é
praticamente verdadeira. O resto dele existe absolutamente adormecido, se não inteiramente morto. Este fato é
bem conhecido pela ciência e é algo que a razão nos demonstra ser verdade: nosso poder espiritual é tão pequeno
que não pode dotar de vida este veículo por tempo suficientemente longo, de modo que, na medida em que nos
incapacitamos para vitalizar o corpo, este começa a assemelhar-se a um pesado torrão de barro que devemos
arrastar penosamente conosco até que alguns poucos anos depois ele se cristaliza a tal ponto que se nos torna
impossível manter o trabalho vibratório por mais tempo. Então, somos forçados a abandoná-lo, e aí se diz que ele
morre. Inicia-se, assim, um lento processo de desintegração que devolve o átomo à sua condição original de
liberdade.
Confronte agora a condição das coisas quando um desses mesmos corpos terrenos é possuído por um
poderoso Espírito como o de Cristo. Pode-se achar uma analogia com o caso de um indivíduo reanimado após um
afogamento. Em tais casos o Corpo Vital se retira e a ação vibratória dos átomos físicos quase cessa, quando não
para totalmente. Restauradas as condições que permitem ao Corpo Vital voltar a interpenetrar o corpo físico, aquele
entra imediatamente a acionar e pôr em vibração todos os átomos deste. Esta tentativa de despertar os átomos
inertes provoca aquela intensa e desagradável sensação de formigamento que o afogado descreve depois de
reanimado, sensação que persiste até os átomos físicos alcançarem o grau vibratório de uma oitava abaixo daquele
em que vibra o Corpo Vital. Chegado a esse ponto acaba a sensação, nada mais é sentido, salvo aquilo que se sente
normalmente.
Agora consideremos o caso de Cristo entrando no Corpo Denso de Jesus, cujos átomos naturalmente
moviam-se numa velocidade muito inferior àquela das forças vibratórias do Espírito Cristo. Consequentemente, uma
aceleração tinha de acontecer, de tal maneira que, durante os três anos de ministério, essa notável aceleração de
vibração desses átomos teria desintegrado o corpo não fora a atuação da poderosa vontade do Mestre para
conservá-lo inteiro, reforçada pela habilidade dos Essênios. Se os átomos do corpo de Jesus estivessem adormecidos
no momento em que Cristo dele se retirou – conforme ocorre aos nossos átomos quando abandonamos nossos
corpos – um longo processo de putrefação ter-se-ia feito necessário para desintegrar aquele corpo. No entanto eles
estavam altamente sensibilizados e vivos, portanto, era impossível ficarem presos após o Espírito ter-se retirado. Em
futuras épocas, quando tenhamos aprendido a manter nossos corpos vivos, não precisaremos mudar átomos nem
trocar de corpos tão frequentemente. Quando isso acontecer, o processo de putrefação não exigirá tanto tempo
para se completar, conforme acontece presentemente. O sepulcro não foi fechado hermeticamente, portanto não
podia oferecer obstáculo à passagem dos átomos.
Ao morrer o Corpo Denso de Jesus, os Átomos-semente retomaram ao seu primitivo dono. Durante os três
anos de intervalo entre o batismo, em que ele renunciou a seus veículos, e a crucificação, quando pôde reaver os
Átomos-semente, Jesus formou um veículo etérico, do mesmo modo que um Auxiliar Invisível junta matéria física
sempre que se faça necessário materializar um corpo ou parte dele. Contudo, matéria que não corresponda ao
Átomo-semente não pode ser utilizada de modo permanente: desintegra-se tão logo desapareça a força de vontade
que a atraiu. Portanto, aquilo foi para Jesus apenas um expediente de ocasião. Quando o Átomo-semente do seu
Corpo Vital retornou, então um novo corpo foi formado, e em tal veículo Jesus vem funcionando desde então,
trabalhando com as igrejas. Nunca mais utilizou um Corpo Denso, embora seja perfeitamente capaz de fazer um.
Presumivelmente isto se dá em virtude de seu trabalho ser totalmente desligado das coisas materiais e diferir
diametralmente da obra de Christian Rosenkreuz, que tem muito a ver com problemas de governos, industriais e
políticos, pelo que precisa de um corpo físico em que possa aparecer ao público.
A razão pela qual o Corpo Vital de Jesus é conservado para a segunda vinda de Cristo ao invés de Lhe
providenciar um novo veículo pode ser encontrada em “Fausto”, mito que apresenta em sentido figurado grandes
verdades espirituais de valor inestimável à alma sedenta. Fausto, em seu esforço para obter poder espiritual antes
de merecê-lo, atrai um Espírito disposto a auxiliá-lo em seus desejos mediante uma compensação, pois em tal classe
de Espírito o altruísmo é uma virtude que simplesmente não existe. Quando Lúcifer se volta para sair, nota
apavorado a existência de um pentagrama diante da porta, uma das pontas em sua direção. Pede, então, a Fausto
que retire dali o símbolo para que ele possa sair, ao que este lhe pergunta por que não sai pela janela ou pela
chaminé. Lúcifer, relutantemente, admite que:
Para os fantasmas e Espíritos é lei que por onde entramos, devemos sair.
Quando, no curso natural dos acontecimentos, o Espírito volta a nascer, ele entra no Corpo Denso pela
cabeça, trazendo consigo os veículos superiores. Ao deixar o corpo à noite, sai pelo mesmo lugar, para reentrar do
mesmo modo na manhã seguinte. O Auxiliar Invisível também sai do seu corpo e nele reentra da mesma maneira. E
quando por fim nossa vida terrena chega a seu termo, é pela cabeça que saímos do nosso corpo pela última vez.
Vemos, pois, que a cabeça é a porta natural do corpo e, por conseguinte, o pentagrama com uma ponta para cima é
o símbolo da magia branca, que atua em harmonia com a lei de progressão.
O mago negro, que atua contrariamente à natureza, perverte a força da vida dirigindo-a para baixo, através
dos órgãos inferiores. O portal da cabeça está fechado para ele, mas ele se retira pelos pés, o cordão prateado
estendendo-se através dos órgãos inferiores. Portanto, foi fácil para Lúcifer entrar no gabinete de Fausto, pois o
pentagrama com duas pontas voltadas para ele representava o símbolo da magia negra, mas ao tentar sair depara
com uma só ponta em sua direção, e então se amedronta diante do sinal da magia branca.
Ele só podia sair pela porta inferior porque por ali é que havia entrado, por isso ficou preso quando essa
porta inferior foi bloqueada.
De maneira análoga, Cristo era livre para escolher Seu veículo para entrar na Terra onde agora se acha
confinado, mas uma vez escolhido o veículo de Jesus a este ficou limitado como único meio de sair dela. Se esse
veículo houvesse sido destruído, Cristo teria de ficar enclausurado no globo até que a Terra se dissolvesse no caos.
Isso seria uma calamidade imensurável, portanto o veículo usado por Ele está sendo guardado com o máximo
cuidado pelos Irmãos Maiores.
Nesse meio tempo Jesus perdeu todo o crescimento anímico alcançado durante seus trinta anos na Terra,
antes do batismo, e contido no veículo dado a Cristo. Isto foi e continua sendo um grande sacrifício feito por nós,
mas redundará em glória maior no futuro, como todas as boas ações. Porque esse veículo, utilizado como foi, e a ser
usado novamente por Cristo em Sua vinda para estabelecer e aperfeiçoar o Reino de Deus será tão espiritualizado e
glorificado que, quando for devolvido a Jesus na época em que Cristo entregar o Reino ao Pai será também o mais
maravilhoso de todos os veículos humanos. E, ainda que isto não tenha sido ensinado, o autor acredita que Jesus
será, por isso mesmo, o mais alto fruto do Período Terrestre, seguido de Christian Rosenkreuz. Porque “nenhum
homem tem maior amor do que aquele que dá a própria vida” 72 e dar não somente o Corpo Denso, mas também o
Corpo Vital, e por tempo tão prolongado, certamente é o máximo dos sacrifícios.

72
N.R.: Jo 15:13
PARTE IV – O Véu do Destino - Como Se Tece e Destece

Por

Max Heindel

(1865-1919)

Uma Série de Lições sobre o Lado Oculto da Vida, Mostrando as Forças Ocultas que Moldam o Nosso Destino

Fraternidade Rosacruz

Traduzido e Revisado de acordo com:

1ª Edição em Inglês, editada por Augusta Foss Heindel, em 1920

1ª Edição em Português, editada pela Fraternidade Rosacruz Rio de Janeiro – Guanabara – Brasil

2ª Edição em Português, editada pela Fraternidade Rosacruz São Paulo – SP – Brasil


Capítulo I - Investigação Espiritual – O Corpo-Alma
Embora muitos esclarecimentos e muita informação foram fornecidos sobre esse assunto no “Conceito
Rosacruz do Cosmos” e em outras nossas obras, temos recebido muitas cartas de Estudantes nos pedindo mais
esclarecimentos sobre alguns pontos, tais como obsessão, mediunidade, insanidade, condições anormais do caráter,
etc. Isso tem dado ao autor uma motivação para investigar o assunto mais profundamente que antes. A máxima que
diz que “a prática leva à perfeição” pode se aplicar, com a mesma propriedade, tanto aos reinos espirituais como
para as coisas físicas. Assim, esperamos que a luz derramada sobre estes assuntos, nas páginas que se seguem, possa
ajudar o Estudante a perceber, com mais clareza, as causas que produzem os efeitos observados nessa vida.
A fim de que possamos compreender perfeitamente o problema, será necessário que partamos do seu início;
para perceber que os primeiros fatos fundamentais da existência são a continuidade da vida e que a ação é a
expressão desta mesma vida em manifestação. No momento exato em que o Espírito executa sua primeira ação ele
gera uma causa que, forçosamente, há de produzir um efeito correspondente. Isso é uma absoluta necessidade a fim
de que o equilíbrio do Universo possa ser mantido. Se esta ação for física, isto é, realizada pelo Espírito em um Corpo
Denso, a reação deverá ser, forçosamente, também física. Se é assim de fato, é evidente que devemos renascer
neste Mundo, de tempos em tempos, pois é um fato comprovado que, quando geramos causas nesse Mundo, na
existência diária, e essas causas não apresentam uma reação adequada, e, também, quando não nos é possível
colher o que tivermos semeado, devemos necessariamente voltar em um Corpo novo; do contrário, a lei seria
invalidada. Se a Lei de Causa e Efeito é verdadeira, então o renascimento periódico é uma consequência lógica de
absoluta necessidade. Assim, pois, tanto se o compreendermos ou não, tanto se nos agrade ou não, estamos
encerrados dentro de um círculo e, devido as nossas próprias ações do passado, constrangidos a que estas ajam e
reajam sobre nós, até que desenvolvamos uma força superior à que agora nos subjuga. O que é esta força, Goethe, o
grande místico alemão, nos revela em poucas palavras:
“De todas as forças que encadeiam o mundo,
o ser humano se liberta quando adquire o domínio de si mesmo”.

E, como o conhecimento é poder, é evidente que quanto mais completo seja o nosso conhecimento, em
relação a cada detalhe e não superficial ou parcial, de como operam as leis gêmeas de Consequência e do
Renascimento, mais facilmente encontraremos o caminho da libertação, mais facilmente nós encontraremos o
caminho da libertação e, também, melhor saberemos como ajudar aos demais.
A ciência deve ser muito elogiada pelo talento, pela paciência e a persistência que ela exibe na invenção de
instrumentos para descobrir os segredos da natureza. Porém, enquanto isso se consegue com êxito no que concerne
à matéria, os segredos da vida e do Espírito são um livro fechado para o sábio, segundo diz Mefistófeles, com fina
ironia ao Estudante que bate à porta de Fausto, solicitando admissão a sua escola:

“Qualquer pessoa que quiser conhecer e tratar com alguma coisa viva,
Busque, primeiro, o Espírito vital que a anima.
Pois tem somente em suas mãos fragmentos inertes,
A ele falta, ai!, o alento do Espírito vital”.

Há somente um instrumento adequado para investigar as coisas do Espírito, e este é o próprio Espírito.
Assim como é necessário preparar um ser humano para a pesquisa científica aqui no mundo material, também é
necessário um longo e lento processo para adaptá-lo às investigações dos Mundos espirituais. Do mesmo modo
como o cientista deve pagar o preço de seu conhecimento com meses e anos de trabalho constante e tenaz, o
investigador místico também deve sacrificar muitos anos de sua vida para compreender e se capacitar a respeito das
suas investigações espirituais.
Como você sabe, o que agora é o nosso Corpo Denso foi o primeiro veículo que o ser humano adquiriu como
pensamento-forma, tendo sobre si um imenso período de evolução e organização até chegar ao que é agora, ou
seja, o esplêndido instrumento que tão bem lhe serve conquanto seja pesado, difícil de governar e de agir com ele. O
veículo adquirido logo após, foi o Corpo Vital, que, também, atravessou um longo período de desenvolvimento, até
se condensar e tomar consistência etérica. O terceiro veículo, o Corpo de Desejos, foi adquirido, relativamente,
muito mais tarde, achando-se ainda em estado fluídico. Por último, o ser humano tomou posse da Mente, que é
apenas uma nuvem informe e não merece ainda o nome de veículo, servindo, entretanto, de união ou de laço entre
os três veículos mencionados e o Espírito.
Estes três veículos, o Corpo Denso (o físico), o Corpo Vital e o de Desejos ligados à Mente, são os
instrumentos do Espírito em sua evolução. E, ao contrário da crença geral, a habilidade do Espírito para investigar os
planos superiores, não depende tanto dos Corpos mais sutis, como depende do mais denso de todos. A prova dessa
asserção é evidente e está ao alcance de nossas mãos, e, sem dúvida alguma, todo aquele que quiser tentar com
seriedade, poderá confirmá-la por si mesmo. E terá resultados imediatos se seguir certas determinações para mudar
as condições de sua Mente. Suponhamos que uma pessoa formou certos hábitos de pensamento que ele não gosta.
Talvez, após uma experiência religiosa, ele percebe que, a despeito de todos seus desejos, esses hábitos de
pensamentos não o deixam. Porém, se ele decidir limpar completamente a Mente de forma que só contenha
pensamentos bons e puros, ele poderá conseguir o que pretende simplesmente recusando admitir pensamentos
impuros. Notará então que, depois de uma ou duas semanas de esforços, sua Mente está, notadamente, mais pura
do que quando começou tal esforço; que isso se mantém se preferir e procurar gerar pensamentos de caráter
religioso nela. Até uma Mente a mais anormal ou degenerada pode ser totalmente purificada em poucos meses de
esforço. Este resultado já foi comprovado por muitos que fizeram isso e, qualquer pessoa que o deseja e seja
suficientemente tenaz para tentá-lo pode ter a mesma experiência e gozará de uma Mente pura e limpa, em muito
pouco tempo.
Entretanto, enquanto os nossos pensamentos purificados nos fazem avançar consideravelmente no caminho
da perfeição, as emoções e os desejos do nosso Corpo de Desejos não são dominados com tanta facilidade, por ser
este veículo muito mais desenvolvido do que a Mente. Enquanto a Mente regenerada está pronta a aceitar a ideia
de que devemos amar a nossos inimigos, a natureza passional e emocional do Corpo de Desejos anseia pela
vingança, com todas as suas forças, aferrando-se ao “olho por olho e dente por dente”. Algumas vezes até depois de
anos e anos de luta, quando supomos que a serpente adormecida foi realmente dominada e que nós temos,
finalmente, obtido o domínio sobre isso e, que isso não poderá mais transtornar a nossa paz, inesperadamente ela
desperta, desvanecendo as nossas esperanças; e, arrebatada por um acesso de raiva, pode morder-nos, clamando
vingança por qualquer agravo real ou imaginário. Então, será necessário empregar todo o poder da natureza
superior para dominar esta parte rebelde do nosso ser. Isso, acha o escritor, é o espinho da carne sobre o qual São
Paulo suplicou ao Senhor três vezes e recebeu a resposta: “Minha graça é suficiente para ti”73. Certamente se
necessita toda a graça que se possa conceber, para vencer e, como uma vigilância permanente é o preço da
segurança, vamos “vigiar e orar”74.
O Corpo de Desejos é o responsável por todas as nossas ações, quer sejam boas, más ou indiferentes. Por
esta razão, os filósofos orientais prescreveram algumas instruções a seus discípulos com o objetivo de matar o
desejo, ensinando-os a se absterem de agir, bem ou mal, dentro do possível, com o objetivo de se libertarem da lei
do nascimento e da morte. Porém, esses mesmos arroubos que constituem tão séria ameaça quando nos dominam,
podem ser muito eficazes para o serviço, se forem conduzidos sob nossa própria orientação. Jamais pensaríamos em
tirar o gume de uma faca, pois ela nada cortaria. O temperamento do Corpo de Desejos deve ser controlado, mas
nunca, de nenhum modo, ser morto. O poder dinâmico do movimento e da ação nos Mundos invisíveis está
armazenado no Corpo de Desejos e, a menos que este permaneça intacto não podemos nos controlar, do mesmo
modo que um transatlântico, cujas máquinas estiverem funcionando mal, não poderia enfrentar os embates numa
tempestade. Existem certas sociedades que ensinam métodos negativos de desenvolvimento, e uma de suas
primeiras instruções para o aluno é afrouxar o maxilar e se tornar perfeitamente negativo. Qualquer pessoa que se
dirigir do Mundo material aos Mundos Espirituais equipada com tais métodos estará como uma tábua abandonada
em pleno oceano, ao sabor das ondas, joguete de toda a espécie de correntes. E, como acontece aqui, existem, nos
Mundos internos, seres que nada tem de bondosos e que estão dispostos a se aproveitarem de quem se aventure ao
seu Mundo sem estar devidamente preparado para se proteger deles. Vemos, assim, que é de primordial
importância sujeitar nossos desejos ao domínio do Espírito aqui nesse mundo e reforçar o Corpo de Desejos antes de
tentarmos penetrar nos Mundos internos. Aqui está, em grande medida, mantido sob controle pelo fato de que ele é
interpolado dentro do Corpo Denso e, portanto, não pode nos jogar de um lado para outro, da mesma forma
quando se liberta da prisão física.
Porém, ainda assim, o governo do Corpo de Desejos, mesmo sendo difícil de conseguir, não servirá para
tornar o ser humano consciente nos Mundos invisíveis. Isso porque o Corpo de Desejos ainda não evoluiu até o
ponto em que possa servir como um instrumento de consciência. Na grande maioria dos seres humanos se encontra,

73
N.T.: II Cor 12:9
74
N.T.: Mt 26:41
ainda, em estado informe e nebuloso. Existem nele somente uma quantidade de vórtices como centros de sentidos
ou centros de consciência; esses não estão suficientemente desenvolvidos para que possam servir a um propósito,
sem qualquer ajuda extra. Portanto, é necessário trabalhar sobre e educar o Corpo Vital para que possa ser utilizado
nos voos da alma. Este veículo, como já sabemos, é composto de quatro Éteres. É pela ação deste Corpo que
podemos manipular o mais denso dos nossos veículos, o Corpo Denso, que geralmente supomos constituir o ser
humano, como um todo. Os Éteres Químico e de Vida formam a matriz dos nossos Corpos físicos. Cada molécula do
Corpo Denso está submersa numa rede de Éter que a interpenetra e lhe infunde vida. É por meio destes Éteres que
as funções do corpo, tais como a respiração e outras, se realizam, e, a consistência e densidade destas matrizes de
Éter determinam o estado da nossa saúde. Porém, a parte do Corpo Vital formada pelos dois Éteres Superiores, o
Éter Luminoso e o Refletor, constituem o que em nossa doutrina denominamos de CORPO-ALMA; isto é: é mais
intimamente ligado com o Corpo de Desejos e com a Mente e é mais sensível ao contato espiritual do que os dois
Éteres inferiores. É o veículo do intelecto, responsável por tudo o que faz o ser humano verdadeiramente um ser
humano. Nossas observações, aspirações, caráter, etc., são devidos ao trabalho do Espírito sobre os Éteres
Superiores que se tornam mais ou menos luminosos de acordo com a natureza de nosso caráter e de nossos hábitos.
Assim como o Corpo Denso assimila partículas de alimento, ganhando sustância física, os Éteres Superiores também
assimilam as boas ações durante a vida, aumentando, consequentemente, de volume. Desta forma, em harmonia
com os nossos atos durante a vida terrestre, aumentamos ou diminuímos a bagagem que trazemos ao nascer. Se
tivermos nascido com um caráter doce, expressado pelos Éteres Superiores, não nos será fácil mudar esta condição,
porque o Corpo Vital já se consolidou durante os milhares de anos em que tem durado a sua evolução. Por outro
lado, se temos sido preguiçosos e negligentes, se fomos muito indulgentes com os hábitos considerados prejudiciais,
se formamos um mau caráter em nossas vidas passadas, também nos será muito difícil dominar devido à natureza
do Corpo Vital, e serão necessários vários anos de esforço constante. Para mudar a sua estrutura. Esta é a razão dos
Ensinamentos da Sabedoria Ocidental afirmarem que todo desenvolvimento místico começa com o Corpo Vital.
Capítulo II - Cristo Interno – A Memória da Natureza
Há muitas pessoas que associam espiritualidade com um grande show de emocionalismo, mas, como vimos
no capítulo anterior, esta ideia não tem nenhum fundamento; ao contrário, o tipo de espiritualidade que é
desenvolvida e associada à natureza emocional do Corpo de Desejos é extremamente enganadora; esse é um dos
tipos que é gerada em reuniões de revivificação, onde o emocionalismo é elevado ao seu mais alto grau, provocando
em uma pessoa grande fervor religioso, que logo se desfaz e a deixa exatamente como era antes, para desconsolo
dos revivalistas e outras pessoas empenhadas nos trabalhos evangélicos. Mas, o que mais podiam esperar? Eles se
propõem a salvar as almas ao som de tambores e cornetas, com cânticos rítmicos revivificantes, com invocações
feitas em um tom de voz que se eleva e abaixa em ondas harmônicas, e que têm sobre o Corpo de Desejos o mesmo
poder efetivo das tormentas que encrespam o mar e depois se acalmam. O Corpo Vital é muito mais consistente, e
ele é afetado somente quando a conversão se firma e permanece no homem ou na mulher durante toda a vida.
Aqueles que possuem verdadeira espiritualidade não se consideram salvos em um só dia, nem se sentem no sétimo
céu de êxtase, para, em seguida, se sentirem deprimidos e miseráveis pecadores incapazes de serem perdoados; isso
porque a sua religião não está apoiada sobre a natureza emocional que provoca tais reações, mas sim enraizada no
Corpo Vital, que é o veículo da razão, sempre firme e persistente no caminho escolhido. Assim como as formas novas
são propagadas por meio do segundo Éter do Corpo Vital, o “EU SUPERIOR”, o CRISTO INTERNO é formado por
intermédio desse mesmo veículo de geração, o Corpo Vital, em seus aspectos mais elevados, incorporados nos dois
Éteres superiores.
No entanto, da mesma forma que uma criança necessita de nutrição ao nascer neste mundo, assim também
o Cristo, que nasce internamente, é como uma bebê e precisa ser nutrido para que alcance o desenvolvimento
característico de adulto. E como o Corpo Denso cresce mediante a assimilação contínua de matérias pertencentes à
Região Química –sólidos, líquidos e gases – assim também, à medida que o Cristo cresce, os dois Éteres superiores
aumentam em volume e formam uma nuvem luminosa em torno do homem ou da mulher suficientemente
esclarecidos, que olham em direção do céu; isso revestirá o peregrino com uma luz tão brilhante, que ele, na
verdade, “caminha na luz”. Por meio dos exercícios dados pela Escola Ocidental de Mistérios dos Rosacruzes, se
torna possível, com o tempo, separar os dois Éteres superiores e, então, o ser humano poderá sair de seu Corpo
Denso, deixando-o momentaneamente revestido e vitalizado somente pelos dois Éteres inferiores; ele é, então, o
que nós chamamos de um Auxiliar Invisível.
Há vários graus de visão espiritual. Um deles habilita o ser humano a ver o Éter, normalmente invisível, com
as miríades de seres que habitam esse reino. Outros e mais elevados graus lhe proporcionam a faculdade de ver o
Mundo do Desejo e até o Mundo do Pensamento, permanecendo, não obstante, no seu Corpo Denso. Entretanto,
essas faculdades, ainda que valiosas quando se exercem sob o controle da vontade humana, não são suficientes para
se ler na “Memória da Natureza” com absoluta exatidão. Para que isto seja possível e, também, para que se possa
efetuar investigações necessárias com o objetivo de compreender como se tece e destece a “Teia do Destino”, é
necessário possuir a faculdade de sair, por livre e espontânea vontade própria, do Corpo Denso e funcionar fora
dele, no Corpo-Alma, o qual já dissemos é formado pelos dois Éteres superiores, estando também revestido pelo
Corpo de Desejos e pela Mente. Desse modo, o investigador se achará na posse total de suas faculdades; ele sabe
tudo que conheceu no Mundo Físico e tem a habilidade de trazer novamente à consciência física, as coisas que
aprendeu fora. Quando ele obtém essa capacidade, deve aprender também a se examinar, para compreender as
coisas que vê do lado de fora, para que fica claro o seguinte: não é suficiente ser capaz de abandonar o Corpo para
entrar em outro mundo e ver o que lá existe; nós não nos tornamos oniscientes por esse fato, nem sabemos o uso
de tudo, ou como tudo funciona aqui nesse mundo físico, só porque vivemos aqui, dia após dia, ano após ano.
Necessita-se de muito estudo e aplicação para se familiarizar com os fatos dos Mundos invisíveis, da mesma maneira
que com os fatos do mundo em que estamos vivendo com nossos Corpos físicos. Por isso, o livro, a “Memória da
Natureza”, não é fácil de ser lido à primeira ou à segunda tentativa, porque, da mesma forma que uma criança
necessita empregar muito tempo para aprender a ler nos livros escolares, muito esforço e tempo são necessários
para aprender a decifrar essa maravilhosa película.
É um fato conhecido, por todos os Estudantes de ciência, que a história da Terra está escrita em caracteres
inconfundíveis sobre as rochas e geleiras; sobre cada pedra se encontra algum sinal que guia o investigador treinado
a decifrar sua mensagem concernente ao desenvolvimento da Terra nas épocas passadas e é maravilhoso ler nos
livros que tratam deste assunto, o modo como os investigadores científicos são capazes de reconstruir a história, se
valendo desses muitos indícios. Da mesma forma, é sabido que cada movimento individual que fazemos, deixamos,
atrás de nós, vestígios que podem ser reconhecidos, ainda que sejam invisíveis a nós mesmos. A grande capacidade
dos índios em perseguir e descobrir amigos ou inimigos através da selva virgem, guiados por arbustos quebrados
etc., segundo citações de Fenimore Cooper 75 e de outros, é superada extraordinariamente pelos cientistas atuais, os
quais são capazes de identificar criminosos pelas impressões digitais. As façanhas aparentemente fantásticas de
Sherlock Holmes estão comprovadas mediante as atuais experiências de averiguação criminal. Os movimentos da
Humanidade de hoje podem ser reproduzidos, graças à câmara cinematográfica, mesmo depois que se tenham
transcorridos muitos anos da morte de seus verdadeiros atores; e, assim, iluminados pelas últimas descobertas,
podemos preparar nossas Mentes para aceitar a ideia de que existe um registro automático de cada vida humana e,
também, das vidas de comunidades, preservado, no que podemos chamar, por falta de melhor denominação, na
Memória da Natureza. Essa nos mostra os estados de evolução alcançados por todos os seres viventes e proporciona
aos ministros de Deus, os Anjos Relatores, a perspectiva necessária de nos ajudar no esforço para alcançarmos a
sabedoria, o conhecimento e o poder; eis os motivos pelos quais estas lições são necessárias para nosso avanço no
Caminho. No que se refere ao indivíduo, este registro começa no momento exato em que ele emite sua primeira
respiração, prosseguindo até que o último sopro de vida tenha esvaziado as artérias do sangue. Nós sabemos que
todo o universo vibra com vida, que cada objeto emite, constantemente, ondas vibratórias que revelam sua natureza
e sua presença. Também sabemos que, quando um recém-nascido efetua sua primeira respiração, as condições
fisiológicas do coração se modificam, o forame oval é fechado e o sangue é forçado a circular através do coração e
dos pulmões. Dessa forma, entra em contato com o ar que tem a imagem do ambiente que o cerca. Então, o sangue,
que é o veículo do Ego, absorve pelos pulmões essa imagem completa do mundo exterior. Quando passa através do
ventrículo esquerdo do coração, imprime os acontecimentos sobre o diminuto Átomo-semente situado no ápice, o
que corresponde a um filme da câmera fotográfica. Não devemos duvidar de ser possível se imprimir tão grande
quantidade de imagens sobre uma superfície tão pequena. Quando consideramos que a imagem da Lua, que vemos
em nossa retina, é menor do que cinco centésimas partes de cada centímetro de diâmetro, concluímos que uma
pequena imagem pode ser muito clara, pois mesmo dentro desse pequeno espaço notamos na Lua, a olho nu,
grande número de montanhas e vales. A imagem de um homem, à distância de trinta e um metros, segundo fonte
autorizada, não chega à centésima parte de um centímetro e, no entanto, nessa diminuta imagem podemos
distinguir a expressão do rosto, o traje do homem, etc. Analogamente, existe sobre esse pequeno Átomo-semente
uma imagem de todas as ações realizadas, de todas as cenas em que tomamos parte durante a nossa vida, desde o
nascimento até a morte. George du Maurier 76 e Jack London77 descrevem em “Peter Ibbetson” e em “The Star
Rover”, como um prisioneiro pode reviver as ocorrências de sua infância, se vendo a si mesmo, a seus companheiros
de brinquedo, a seus pais, a todo o seu ambiente pela reprodução do registro etérico de sua vida infantil, e até de
vidas passadas. Qualquer um que conheça o segredo de como se colocar em contato com tais imagens, pode
encontrar e ler a vida das pessoas com as quais mantém contato, como está provado pelos médiuns. Porém,
enquanto se pode ler os acontecimentos recentes e atuais com relativa facilidade, se torna, gradualmente, mais
difícil fazê-lo à medida que retrocedem. Isso porque os registros gravados no Éter são pouco nítidos, quando
comparados com os que se encontram nos planos superiores, e, por isso, se desvanecem gradualmente.
Quando um vidente observa uma pessoa que está para adoecer, percebe que o Corpo Vital vai se tornando
mais tênue, e quando este atinge um ponto de fragilidade em que já não é possível sustentar o Corpo Denso, os
sintomas da enfermidade começam a se manifestar. Da mesma forma, antes de se constatar o restabelecimento
físico, o Corpo Vital começa a adquirir mais densidade, e aí começa o período de convalescença. Sabemos que as
vítimas de acidentes não sofrem tanto quando acabam de ser acidentadas, como vão sofrer logo depois; isso
acontece porque o Corpo Vital, no momento do acidente, permanece ileso e, portanto, o efeito total não se nota até
que esse veículo se tenha tornado mais tênue e incapaz de manter o processo vital. Assim, podemos ver que existem
mudanças no Éter de um ser humano e, de acordo com o axioma místico “Como é em cima, assim é embaixo” e vice-
versa, existem também mudanças no Éter planetário, que constitui o Corpo Vital do Espírito Terrestre. Como a
Memória consciente dos acontecimentos recentes, que é intensa no ser humano, esmaece gradualmente, assim
também o registro etérico, que é o aspecto mais inferior da Memória da Natureza, esmaece com o tempo.
Na subdivisão mais elevada da Região do Pensamento Concreto, justamente na linha divisória entre o Espírito puro e
a matéria, se efetua uma impressão das coisas e dos acontecimentos deste mundo mais límpida e duradoura que a

75
N.T.: James Fenimore Cooper (1789-1851) foi um político e popular escritor dos Estados Unidos do início do século XIX.
76
N.T.: George du Maurier (1834-1896) – cartunista e autor franco-britânico.
77
N.T.: Jack London foi o pseudônimo de John Griffith Chaney (1876-1916), autor, jornalista e ativista social norte-
americano, pioneiro no que era, então, o novo mundo das revistas comerciais de ficção.
do registro etérico; porque, enquanto as ocorrências inscritas nesse registro etérico se desvanecem em manchas no
decurso de algumas centenas de anos, e até os acontecimentos importantes podem durar somente mil ou dois mil
anos, o registro impresso na subdivisão mais elevada da Região do Pensamento Concreto permanece durante o
Período Terrestre. Enquanto as imagens gravadas no Éter Refletor podem ser lidas por alguém destituído de
treinamento, mas que possui um pouco de visão espiritual, é necessário passar por várias Iniciações antes que seja
possível, a quem quer que seja, ler as imagens conservadas na elevada Região citada acima. Compreenderemos
facilmente a relação que existe entre este registro e o impresso no Éter e, também, entre as recordações
absolutamente permanentes inscritas no Mundo do Espírito de Vida, se examinarmos o Diagrama N° 1 do “Conceito
Rosacruz do Cosmos”78.
Paracelso chama o registro feito no Éter de Luz Sideral, e Eliphas Levi, o grande cabalista, fala dessas
gravações como as que estão conservadas na Luz Astral. Esta é uma definição verídica, pois, mesmo que não tenha
nada a ver com as estrelas, como se poderia interpretar pelo seu nome, as impressões se acham na Região Etérica,
fora da atmosfera da Terra. O médium ou a vítima hipnótica, que abandona o corpo por um método negativo sob
controle alheio, levita por essas regiões tão naturalmente como nosso Corpo Denso gravita na Terra.
Como já dissemos no “Conceito Rosacruz do Cosmos” com referência à constituição de nosso Planeta, o caminho da
Iniciação passa através da Terra, da periferia ao centro, um estrato de cada vez, e, mesmo que nossos Corpos físicos
sejam impelidos naquela direção pela força de gravidade, sua densidade evita que a trespassemos, assim como
eficazmente faz a força de levitação que repele a classe despreparada, citada acima, dos recintos sagrados. Somente
quando, pelo poder de nosso próprio Espírito, nós tenhamos deixado o nosso Corpo Denso, instruídos por, e em
consequência da reta maneira de viver, seremos capazes de ler o registro etérico com proveito. Em um ponto mais
avançado do progresso, o “estrato aquoso” da Terra será aberto ao Iniciado, que se colocará num estado
conveniente para ler o registro dos acontecimentos passados, impressos permanentemente na substância vivente da
Região das Forças Arquetípicas79, onde o tempo e espaço praticamente não existem, e onde tudo é um eterno Aqui e
Agora.

78

N.T.:

Diagrama 1 – O Mundo Material: um reflexo reverso dos Mundos Espirituais

79
N.T.: nome da quarta divisão ou Região do Pensamento Concreto.
Capítulo III - “O Guardião do Umbral” – Espíritos Apegados À
Terra
Enquanto estivermos estudando este Livro “A Teia do Destino, Como se Tece e Destece”, será conveniente
dedicarmos alguma atenção ao misterioso “Guardião do Umbral”, um assunto que é tão mal compreendido. Nossas
investigações sobre as vidas passadas de um grupo de pessoas que solicitaram auxílio da Fraternidade Rosacruz para
se livrar da assim chamada obsessão, provaram que seus problemas são devidos a uma fase que foi chamada,
equivocadamente por investigadores anteriores, de “O Guardião do Umbral”. Quando esses casos são examinados
simplesmente por meio da visão espiritual ou pela leitura dos registros etéricos, se pode cair, facilmente, em
semelhante erro, ou seja, confundir tal aparição com o verdadeiro Guardião do Umbral. Porém, assim que
analisamos esses casos nos registros imperecíveis que se encontram na Região das Forças Arquetípicas 80, o assunto
se esclarece imediatamente, e as conclusões tiradas dessas investigações podem ser assim resumidas:
No momento da morte, quando o Átomo-semente no coração é interrompido, e que contém todas as
experiências da vida que acaba de findar em um quadro panorâmico, o Espírito abandona o Corpo Denso, levando
consigo os veículos mais sutis. Ele flutua, então, sobre o Corpo Denso, que agora está morto, como assim dizemos,
por um período que varia de algumas horas até três dias e meio. O fator determinante desta variação de tempo é o
vigor do Corpo Vital, o veículo que constitui o Corpo-Alma 81 de que fala a Bíblia. Há, em seguida, uma reprodução
pictórica da vida, um panorama em ordem inversa, desde a morte até o nascimento, e as imagens são impressas
sobre o Corpo de Desejos, por meio do Éter Refletor neste Corpo Vital. Durante esse tempo a consciência do Espírito
está concentrada no Corpo Vital, ou pelo menos deveria ser assim, e por isso nada sente deste processo. A imagem
que foi impressa sobre o veículo do sentimento e da emoção, o Corpo de Desejos, é a base do subsequente
sofrimento no Purgatório, em consequência das más ações e, também, a base do regozijo que sentiremos no
Primeiro Céu, em virtude do bem praticado na vida passada.
Esses foram os pontos principais que o autor pôde observar pessoalmente acerca da morte, na época em
que lhe foi dado conhecer os primeiros ensinamentos, e quando foi levado, com a ajuda do Mestre, a presenciar as
reproduções panorâmicas das vidas de pessoas que estavam atravessando as portas da morte, mas investigações
posteriores vieram revelar um fato adicional, isto é, que existe outro processo em ação nos dias importantes que se
seguem à morte. Uma divisão se realiza no Corpo Vital, semelhante à do processo de Iniciação. Uma grande parte
deste veículo, que pode ser chamado “alma”, se une aos veículos superiores e forma a base da consciência nos
Mundos invisíveis, depois da morte. A parte inferior, que é descartada, volta ao Corpo Denso e flutua sobre a tumba,
na maioria dos casos, como já foi explicado no “Conceito Rosacruz do Cosmos”. Essa separação do Corpo Vital não é
a mesma em todas as pessoas, mas depende da natureza da vida vivida e do caráter de quem estiver passando para
o além. Em casos extremos, essa divisão varia muitíssimo dos considerados casos normais. Esse ponto importante
nos levou a pensar, em muitos casos que foram investigados pela Sede Mundial, em suposta obsessão de Espíritos;
de fato, foram esses casos que desenvolveram descobertas assombrosas e de alcance extraordinário, efetuadas em
nossas investigações mais recentes, relativas à natureza da obsessão sofrida pelas pessoas que nos procuraram.
Como seria esperado, logicamente, a divisão, em tais casos, indicou uma preponderância do mal; efetuaram-se,
então, grandes esforços para descobrir se havia outra classe de pessoas com uma divisão diferente, em que se
manifestasse a preponderância do bem. É uma satisfação reconhecer que assim acontece e, depois de analisarmos
os casos descobertos e confrontá-los uns com os outros, podemos fazer uma descrição correta das condições
observadas e suas razões:
O Corpo Vital procura sempre construir o Corpo Denso, ao passo que os nossos desejos e emoções o
destroem. É a luta entre o Corpo Vital e o Corpo de Desejos que produz a consciência no Mundo Físico e que
endurece os tecidos, de modo que o Corpo tenro da criança vai se tornando, com os anos, cada vez mais rígido e
encolhe na velhice, seguindo-se a morte. A moralidade ou imoralidade dos nossos desejos e emoções atuam de
maneira semelhante sobre o Corpo Vital. Quando a devoção aos ideais elevados é a mola principal de ação, onde a
natureza devocional pôde se manifestar durante anos, livre e frequentemente, e, sobretudo, quando isso foi
acompanhado dos exercícios científicos indicados aos Probacionistas da Fraternidade Rosacruz, há uma diminuição
gradual da quantidade dos Éteres Químicos e de Vida, à medida que os apetites animais desaparecem, e se
manifesta um aumento progressivo dos Éteres Luminoso e Refletor. Como consequência, a saúde física não é tão

80
N.T.: Quarta Região do Mundo do Pensamento
81
N.T.: Também chamado de: Vestes de Bodas; Vestidos de Bodas, Veste Nupcial, Traje Nupcial. São Paulo chama de
soma psuchicon (ICor 15:44).
robusta entre os que seguem o caminho superior, como entre aqueles em que a satisfação das paixões inferiores
atrai os Éteres Químico e o de Vida, conforme a extensão e a natureza dos vícios, com exclusão parcial ou total dos
dois Éteres superiores.
Várias consequências muito importantes relacionadas com a morte acompanham esse acontecimento. Como é o
Éter Químico que consolida as moléculas do Corpo Denso, para que permaneçam em seus respectivos lugares e as
conservam nele durante toda a vida, quando existe somente um mínimo desse material, a desintegração do veículo
físico, depois da morte, com certeza é muito rápida. Isso o autor não pôde comprovar porque foi muito difícil
encontrar seres humanos de vocação espiritual elevada que tivessem falecido na ocasião, mas parece que deve ser
assim pelo fato registrado na Bíblia referente ao Corpo de Cristo, que não foi achado na tumba quando o povo foi
buscá-Lo. Como já dissemos em relação a este assunto, Cristo espiritualizou o Corpo de Jesus tão altamente,
tornando-o tão vibrante, que lhe era quase impossível conservar as partículas no lugar durante o seu ministério. Esse
fato já era do conhecimento do autor por meio dos ensinamentos dos Irmãos Maiores e das investigações feitas, por
ele mesmo, na Memória da Natureza, porém, a conexão desse fato sobre a morte e a existência “post-mortem”, não
era, até então, do seu conhecimento, até recentemente.
O verdadeiro “Guardião do Umbral” é uma entidade elemental criada nos planos invisíveis por todos os
maus pensamentos e obras que não se transmutaram durante todo o período passado de nossa evolução. Este
“guardião” está guardando a entrada dos Mundos invisíveis e desafia nosso direito para neles penetrar. Esta
entidade deve ser, finalmente, redimida ou transmutada. De nossa parte, devemos gerar equilíbrio e força de
vontade suficientes para enfrentá-lo, antes que possamos entrar, conscientemente, nos Mundos suprafísicos.
Como já dissemos, uma vida mundana aumenta a proporção dos Éteres inferiores do Corpo Vital, em
prejuízo dos mais elevados. Da mesma forma, uma pessoa que leva unicamente uma assim chamada “vida pura” e
sem excessos, tem uma saúde melhor do que a do Aspirante à vida superior, pois as atitudes do último constroem
um Corpo Vital composto, principalmente, dos Éteres superiores. Ele ama o “pão da vida” mais do que o sustento
físico e, portanto, o seu instrumento se torna cada vez mais flexível, nervoso e delicado, uma condição sensível que,
gradualmente, impulsiona para as coisas do Espírito, mas que se torna uma tarefa difícil, do ponto de vista físico.
Na maior parte das pessoas há uma tal preponderância de egoísmo e um desejo de extrair o máximo da vida
que, ou estão empenhados em afastar as adversidades de sua porta ou se acham acumulando posses e cuidando
delas, e assim elas têm muito pouco tempo ou inclinação para se dedicarem à cultura da alma, tão necessária ao
verdadeiro sucesso na vida. Muitas vezes, o autor as ouvia dizerem que se elas pagassem o ministro para estudar a
Bíblia durante os seis dias e no sétimo dia lhes fazer um resumo, então teriam tudo que é necessário para
adquirirem um bilhete para o céu. Elas se filiam às igrejas, fazem as coisas normalmente consideradas nobres e
retas; no resto do tempo se divertem. Consequentemente, é tão pouco os que persistem, em cada vida, e a evolução
é tão desesperadamente lenta que, até que possam ver o ato da morte das regiões superiores do Mundo do
Pensamento Concreto e, por assim dizer, olhar para baixo, parece que nada se salva do Corpo Vital. Esse Corpo
parece que retorna completo ao Corpo Denso, flutuando sobre a tumba até se desintegrar simultaneamente com o
último. Na verdade, uma grande parte adere aos veículos superiores e segue com eles até o Mundo do Desejo, onde
formará a base da consciência, durante a passagem pelo Purgatório e pelo Primeiro Céu, geralmente permanecendo
aí até que o ser humano entre no Segundo Céu e se una às forças da natureza, no esforço de criar, para si mesmo,
um novo ambiente. Nessa ocasião, já foi absorvido ou quase totalmente absorvido pelo Espírito, e qualquer coisa
que ali permaneça, de natureza material, desaparecerá rapidamente. Desse modo, a personalidade da vida passada
se desvanece e o Espírito não voltará a encontrá-la em suas vidas futuras nessa Terra.
Entretanto, existem pessoas de natureza tão perversa que apreciam a vida gasta em vícios e práticas
degeneradas, vidas brutais, e até se deleitam em fazer sofrer. Algumas vezes, chegam a cultivar artes ocultas com
propósitos malignos, para poderem ter maior domínio sobre suas vítimas. Suas artes demoníacas, suas práticas
imorais resultam no endurecimento do seu Corpo Vital.
Em tais casos extremos, em que a vida animal predominou; quando na vida terrena precedente não houve
expressão de alma, a divisão do Corpo Vital, de que falamos antes, não pode ocorrer com a morte, uma vez que não
existe linha divisória. Assim, se o Corpo Vital gravitasse de volta ao Corpo Denso e ali se desintegrasse gradualmente,
o efeito de uma vida perversa não teria consequências tão sérias, mas, infelizmente, em tais casos existe uma
algema interna entre os Corpos Vital e o de Desejos, que evita a separação. Temos observado que quando um ser
humano vive quase exclusivamente uma vida superior, seus veículos espirituais são alimentados em detrimento do
inferior. Pelo contrário, quando sua consciência está enfocada nos veículos inferiores, ele os fortalece imensamente.
Devíamos entender que a vida do Corpo de Desejos não se acaba com a partida do Espírito, pois permanece um
resíduo de vida e de consciência. O Corpo Vital também é capaz de sentir levemente as coisas durante alguns dias
após a morte (daí o sofrimento causado pelo embalsamento, pelas autópsias etc. logo após a morte), porém, quando
uma vida grosseira o endureceu e o robusteceu grandemente, ele possui uma tenacidade para se aferrar à vida, e
uma habilidade para se nutrir dos odores dos alimentos e das bebidas alcoólicas. Algumas vezes, tal como um
parasita, se alimenta das pessoas com quem se põe em contato, como se fosse um vampiro.
Assim, um ser humano que é mau pode viver, invisivelmente, entre nós durante muitos e muitos anos, e tão
junto que estará mais perto do que nossas mãos e nossos pés. Ele é muito mais perigoso do que um criminoso em
Corpo Denso, porque tem meios para impelir outras pessoas a praticarem atos puníveis, degenerados e criminosos,
sem que tenha medo de ser detido e castigado pela lei.
Semelhantes seres são, portanto, uma das maiores ameaças para a sociedade. São culpados de terem
causado a prisão de muitos, de dissolver muitos lares e do haver provocado uma quantidade incrível de infelicidades.
Sempre abandonam as suas vítimas quando estas caem nas garras da justiça. Saboreiam a dor e a desgraça delas,
constituindo isso parte do seu esquema diabólico. Há outras classes que se deleitam em adotar uma postura
“angélica” nas sessões espíritas. Eles também encontram vítimas lá e ensinam a elas práticas imorais. Os
denominados “Poltergeist”82, que se comprazem em quebrar pratos, derrubar mesas, levantar os chapéus das
cabeças de uma plateia que se deleita, e fazer outras brincadeiras dessa natureza, também estão incluídos nesta
classe. A força e a densidade do Corpo Vital de tais seres lhes facilitam essas manifestações físicas muito mais do que
para aqueles que ultrapassaram o Mundo do Desejo; de fato, os Corpos Vitais desta classe de Espíritos são tão
densos que quase se aproximam do estado físico, e constitui um mistério para o autor que as pessoas que foram
enganadas por tais entidades não as tenham visto. Se pudessem ver seus rostos perversos e assustadores, a ilusão
de que fossem anjos logo se dissiparia.
Existe ainda outra classe de Espíritos que pertencem a esta mesma categoria e que se apegam às pessoas
que procuram desenvolvimento espiritual fora da linha espiritualista, sugerindo serem mestres individuais, e dão às
suas vítimas uma série de ensinamentos tolos e sem sentido. Eles jogam com a credulidade de suas vítimas de uma
maneira inacreditável e, mesmo que guardem suas intenções secretas durante anos, algum dia se mostrarão com
sua verdadeira aparência. Por conseguinte, nunca será demais repetir que não devemos aceitar de ninguém, seja
visível ou invisível, ensinamentos que não se amoldem, ainda que no grau mais sutil, à nossa mais elevada
concepção de ética. É muito perigoso confiarmos em pessoas deste mundo e lhes dar nossa total confiança; nós
sabemos disso por experiência e agimos de acordo com nossos princípios. Portanto, nós devemos ser mais
cuidadosos quando a questão se refere aos assuntos da alma e não confiar tão importante matéria, como é o nosso
bem-estar espiritual, às mãos de alguém que não podemos, pelo menor, ver ou julgar, adequadamente. Há muitos
Espíritos que não têm aptidão para fazer grande mal às suas vítimas, se contentando em rondá-las durante anos,
sem resultados particularmente nefastos. Contudo, a autoconfiança é a virtude essencial a ser cultivada neste
estágio de nossa evolução; a máxima mística: “Se és Cristo, ajuda-te”, deve ressoar constantemente nos ouvidos
daqueles que desejam encontrar e seguir o verdadeiro caminho. Por isso, devemos conduzir sempre a nossa vida
sem medo e sem ajuda de qualquer Espírito.
Quando se pesquisa o passado na Memória da Natureza é espantoso encontrar o quanto tem prevalecido,
através de séculos e de milênios, esta ligação dos Corpos Vital e o de Desejos. Nós percebemos, logicamente, de uma
forma abstrata, que quanto mais regredimos na história dos seres humanos, mais selvagens os encontramos,
contudo, na própria história atual, a selvageria tem sido tão comum e tão brutal que seu poder tem representado a
medida indiscutível do que seja o certo, e essa verificação constitui para o autor uma experiência chocante. Já disse
que o egoísmo e o desejo foram decididamente estimulados, sob o regime de Jeová, para dar incentivo à ação. Isso
com o transcurso do tempo endureceu de tal modo o Corpo de Desejos que, quando o advento de Cristo aconteceu,
não existia quase ideia da vida celestial no seio da Humanidade daquela época, mas o autor, pessoalmente, não
havia percebido o significado desse fato, até que deu início às recentes investigações da “A Teia do Destino”.
Os povos antigos não se contentavam em fazer somente todo o mal possível na vida e seguir adiante, mas
eles tinham também que matar seus cavalos de guerra, colocar suas armas em seus esquifes, fazendo tudo para que
se conservassem ali, porque o Éter desses instrumentos de guerra que lhes havia pertencido durante a vida, exercia
82
N.T.: do alemão: poltern (barulho), e geist (fantasma), também chamado por alguns parapsicólogos como
Psicocinese Recorrente Espontânea (em inglês: Recurrent Spontaneous Psychokinesis, RSPK), é um tipo de evento
paranormal que se manifesta em um ambiente no qual existem ocorrências físicas, tais quais, chuva de pedras,
movimentação, aparecimento e desaparecimento de objetos, sons, pirogenia, luzes, entre outras. Pode envolver até
ataques físicos.
uma atração sobre eles e era um meio de mantê-los presos à esfera terrestre. Isso os permitia assombrar, porque, na
verdade, eles vagavam pelos castelos por muitos e muitos anos e, logicamente, essas entidades não pertenciam
somente à classe dos ricos ou de guerreiros, mas de outras classes também. Em caso de brigas sangrentas, nas quais
as pessoas se matavam uns aos outros, os fantasmas incitavam seus familiares vivos para que os vingassem,
permanecendo a seu lado e os ajudando a finalizar os feitos sangrentos. Dessa forma, se perpetuava a maldade, e o
mundo permanecia em constante agitação, com sangue e luta; ainda essa condição não se dissipou, inteiramente,
em nossos dias, no chamado tempo moderno. Quando morre uma pessoa que manteve em seu coração ódio e
maldade, estes sentimentos entrelaçam os Corpos de Desejos e o Vital, a convertendo numa séria ameaça para a
comunidade que ninguém que não investigou pode imaginar. Portanto, mesmo que não houvesse outras razões, a
pena de morte devia ser abolida, para que não se mantivessem sobre a comunidade essas entidades de
características tão perigosas, capazes de incitar os seres humanos moralmente fracos, a seguir as suas pegadas.
Capítulo IV - “O Corpo de Pecado” - Possessão por Demônios
Autocriados - Elementais
Os Espíritos apegados à Terra, como já foi dito, gravitam nas regiões inferiores do Mundo do Desejo, o qual
interpenetra o Éter, e ficam em constante e estreito contato com pessoas da Terra que estão em situação mais
semelhantes para ajudá-los nos seus maus desígnios. Permanecem nessa situação durante cinquenta, sessenta ou
setenta e cinco anos, porém, têm-se visto casos extremos em que tais pessoas permanecem assim durante séculos.
Com referência às descobertas do autor até o presente, parece que não há limite para o que eles possam fazer, ou
quando deixarão de fazê-lo. Porém, vão amontoando sobre si uma carga horrorosa de pecados, a qual não poderão
escapar sem sofrimento, pois o Corpo Vital reflete e grava profundamente no Corpo de Desejos um registro de tais
maldades, e quando, finalmente, abandonam a vida errática e entram na existência purgatorial, eles encontram a
retribuição e o castigo que merecem. O seu sofrimento será, naturalmente, de uma duração proporcional ao tempo
em que permaneceram em suas práticas perniciosas depois da morte do Corpo Denso – o que vem provar mais uma
vez que, “os moinhos de Deus moem devagar, mas moem extraordinariamente bem”.
Quando o Espírito abandonou o Corpo de Pecado, como chamaremos este veículo para contrastá-lo com o
Corpo-Alma, a fim de ascender ao Segundo Céu, ele não se desintegra tão rapidamente como acontece com o
invólucro deixado para trás, como acontece, normalmente, com as pessoas; isso porque, nele, a consciência se acha
aumentada por uma dupla composição, isto é, sendo composto de um Corpo Vital e de um Corpo de Desejos tem
uma consciência individual ou pessoal muito marcante. Não pode raciocinar, mas existe uma astúcia inferior que faz
com que pareça ter o aspecto de um Espírito, um Ego, e isso lhe facilita viver uma vida separada por muitos séculos.
Entretanto, o Espírito que partiu entra no Segundo Céu, porém, não tendo efetuado nenhum trabalho na Terra que o
faça merecer uma prolongada estada ali ou no Terceiro Céu, permanece nesses lugares somente o tempo suficiente
para criar um ambiente para si e, então, renasce muito antes do tempo normal, para satisfazer seu desejo de coisas
materiais que tão intensamente o atraem.
Quando o Espírito retorna à Terra, seu Corpo de Pecado é atraído, naturalmente, para ele e, geralmente,
permanece a seu lado toda a sua vida, como um demônio. As investigações demonstraram que esta classe de
criaturas sem alma existiu em abundância nos tempos bíblicos e foi a elas que o nosso Salvador se referia como
demônios, sendo a causa de diversas obsessões e enfermidades corporais a que se refere a Bíblia. A palavra grega
“daimon” os descreve com precisão. Ainda hoje, numa parte do sul da Europa e do Oriente, eles perturbam, sendo
que esta situação aflitiva se encontra mais agravada na Sicília, Córsega e Sardenha. Tribos inteiras da África, nas
quais prevalece a prática da magia Vodu, têm esses espectros horrorosos; os indígenas dos Estados Unidos da
América e os negros do Sul desse país estão, também, sujeitos a eles.
Infelizmente, o mal não está só confinado a essas chamadas raças inferiores ou atrasadas. Mesmo aqui,
entre os habitantes que chamamos de países civilizados, no norte da Europa e nas Américas do Norte e do Sul,
vemos que possessões demoníacas estão longes de não ser frequentes, mesmo que, logicamente, sua forma não
seja de natureza tão miserável como nos casos acima citados, em que a ação demoníaca é acompanhada,
frequentemente, de práticas abomináveis e repulsivas.
Em certa época, o autor esteve muito apreensivo com o efeito que a guerra poderia ter no entrelaçamento
do Corpo Vital e o de Desejos, pensando que pudesse produzir o nascimento de legiões de monstros que afligiriam
as futuras gerações. No entanto, é com grande alegria que reafirmo que não devemos temer por isso. Somente
quando o ser humano é, premeditadamente, mau e vingativo, e persistentemente nutrem esse desejo, sentimento e
propósito focado em alguém; somente quando tais desejos e emoções são cultivados, estimulados e mantidos é que
produzem o endurecimento do Corpo Vital e criam uma ligação interna entre esses veículos. Sabemos, pelos
registros da grande guerra, que as tropas não alimentam tais sentimentos umas contra as outras, contudo os
adversários se relacionam como amigos, entrando, muitas vezes, em contato e se confraternizando. Ainda que a
guerra seja responsável por uma tremenda mortalidade, e, em consequência, acarretando uma deplorável
mortalidade infantil em idade futura, não pode ser acusada pelas doenças terríveis engendradas pela obsessão, nem
pelos crimes sugeridos por esses demoníacos Corpos de Pecado.
Os Corpos de Pecado abandonados, a que nos referimos anteriormente, habitam, de preferência, as regiões
mais inferiores do Éter e se condensam muito próximo à linha da visão física. Algumas vezes, podem fazer uso de
alguns constituintes do ar, tornando-se perfeitamente visíveis para as pessoas a quem costumam molestar, embora
suas vítimas tenham sempre muito cuidado para evitar que alguém perceba essa presença demoníaca à sua volta,
isto é, pelo menos no mundo ocidental; parece não haver tal sutileza na parte sul da Europa.
Seguindo investigações anteriores, o autor tentou várias experiências com Espíritos que se encontravam nos
reinos superiores do Éter e que acabavam de morrer e, também com pessoas que haviam estado no Mundo do
Desejo, por um tempo curto ou longo, e que estavam quase prontos para passar para o Primeiro Céu. Muitos
Espíritos que haviam partido desta vida procuraram cooperar, bondosamente, sobre o assunto. O objetivo destas
experiências era determinar até que ponto lhes seria possível se revestirem nos materiais das regiões etéricas
inferiores e mesmo das regiões gasosas. Foi comprovado que aqueles que acabavam de morrer podiam aguentar
facilmente as vibrações etéricas inferiores, e, embora sendo seres de bom caráter, não se sentiam satisfeitos em lá
permanecer mais tempo do que o necessário, pois aquela situação lhes era desconfortável. Porém, ao fazer a
experiência com Espíritos vindos das sucessivas regiões superiores do Mundo de Desejo e do Primeiro Céu, notamos
que se tornou cada vez mais difícil para eles se envolverem no Éter ou penetrar nele. A opinião geral foi que
sentiram uma sensação semelhante a descida ao interior de um poço profundo, chegando até à asfixia. Também se
comprovou que foi absolutamente impossível às pessoas do Mundo Físico avistá-los. Tentamos, por todos os meios
de sugestão, dar uma sensação da nossa presença às pessoas congregadas em salões que visitávamos, mas não
percebemos resposta às nossas manifestações, embora, em alguns casos, as formas que condensamos parecessem
ao autor tão escuras como as das pessoas físicas cuja atenção desejávamos atrair. Colocamos nossos elementos
experimentais entre as pessoas físicas e a luz, mas, mesmo assim, não obtivemos nenhum êxito, tanto com aqueles
que procediam das regiões superiores, como com os que acabavam de morrer e podiam permanecer, durante um
tempo considerável, na posição e na densidade que lhes foram dadas.
Além disso, entre as entidades já mencionadas anteriormente, e que moram em um Corpo de Pecado
construído por elas mesmas e, por isso, sofrem intensamente durante o período de expiação, encontramos duas
classes que, em certo sentido, são iguais entre si, embora, em outros, sejam completamente diferentes. Além das
Hierarquias Divinas e das quatro ondas de vida dos Espíritos que se acham agora evoluindo no Mundo Físico, por
meio dos reinos mineral, vegetal, animal e humano, existem outras ondas de vida que se manifestam nos vários
Mundos invisíveis. Entre elas há certa classe de Espíritos sub-humanos que são chamados elementais. Ocorre,
algumas vezes, que um desses elementais se apossa do Corpo de Pecado de alguém de uma tribo selvagem, e, deste
modo, acrescenta a tal ser, uma inteligência extra. No renascimento daquele Espírito que gerou esse Corpo de
Pecado, a atração natural os une; porém, devido ao elemental que anima o Corpo de Pecado, o Espírito se torna
diferente dos outros membros da tribo e daí o vermos atuando entre os seus como curandeiro ou outras ocupações
semelhantes. Estes Espíritos elementais que animam os Corpos de Pecado dos indígenas, também atuam como
Espíritos de controle sobre o médium e, alcançando poder sobre ele durante a vida, quando este morre, estes
Espíritos de controle elementais expulsam-no dos veículos que contém a sua experiência de vida e, como
consequência, o Espírito do médium pode se atrasar em sua evolução durante eras, porque não há poder capaz de
obrigar os elementais a abandonar suas presas sobre quem obtiveram total controle. Portanto, mesmo que a
mediunidade não produza efeito maléfico visível no curso de uma vida, existe um grande perigo, depois da morte,
para a pessoa que permitiu que seu corpo fosse assim possuído. O espiritismo prestou ao mundo um serviço
necessário. Foi provavelmente o principal meio para provar o materialismo absoluto da ciência, e trouxe consolo a
milhares de almas sofredoras que lamentavam a perda de seus entes queridos; fez, também, com que muitos céticos
acreditassem numa existência superior. Não temos intenção de menosprezar os militantes deste credo, mas não
podemos deixar de emitir nossa advertência, pois acreditamos ser um dever apontar o enorme perigo em que se
encontram aqueles que, habitualmente, permitem ser controlados por Espíritos que não podem ver e de quem
absolutamente nada sabem.
Capítulo V - Obsessão do Ser Humano e dos Animais
É um fato curioso como os elementais sub-humanos, algumas vezes, agregam-se a determinadas pessoas, a
uma família ou até as sociedades religiosas; mas em tais casos, tem-se visto que os veículos usados por eles não
consistem em um Corpo de Pecado endurecido, composto pela ligação dos Corpos Vital e de Desejos, mas tais
veículos são obtidos por meio da mediunidade praticada por uma pessoa normalmente de bom caráter, e o Éter
desse veículo estava em estado de desintegração. Para preservar e prolongar o seu domínio sobre tal veículo, pedem
àquele a quem servem, que lhes ofereçam regularmente alimento e lhes queimem incenso; ainda que não possam,
naturalmente, assimilar o alimento físico, podem e vivem dos vapores e do cheiro que eles exalam, assim como da
fumaça do incenso.
Essa é mais uma ilustração de que os motivos, por mais puros que sejam, não nos protegerão quando agimos
contra as leis de Deus, assim como não podemos deixar de queimar as mãos se as pusermos no fogo, não importa a
razão por que o fizemos. Entretanto, temos observado que quando um médium se deixa dominar por motivos puros
ou por uma elevada devoção religiosa, é muito difícil a essas entidades malignas sustentarem a possessão do Corpo
Vital por muito tempo; cansam-se depressa do esforço e vão procurar outra vítima mais de acordo com a sua
natureza. Sabe-se que no sul da Europa e no Oriente distante existem elementais que se apossam dos Corpos Vitais
de uma família por gerações seguidas, deixando um Corpo por outro, realizando certos serviços para a família, como
compensação pelo alimento que lhes é dado regularmente. Alguns desses elementais são demasiado malignos para
se satisfazerem com simples alimentos e exigem sangue, até sangue humano, sendo responsáveis por tribos como as
dos caçadores de cabeças das Filipinas e a dos estranguladores da Índia, que cometem assassinatos como um rito
religioso. Isso, também, é a base do Culto aos Antepassados no Oriente.
Estes elementais, assim como os corpos de pecado que não são animados por uma inteligência externa, são
denominados “OS GUARDIÃES DO UMBRAL”, devido ao fato de que quando a pessoa, por quem este demônio foi
originalmente gerado, renasce esse demônio se agrega a ela e se torna um tentador e um Espírito do mal para ele
em toda sua vida. Frequentemente se verifica que uma pessoa, que em uma vida gerou tal demônio, mas aprendeu
as lições na existência purgatorial, e quando renasce se esforça com o máximo empenho para viver uma vida pura,
honesta e decente, ainda assim encontrará ao seu lado esse Corpo de Pecado para atrapalhá-la. Muitas pessoas
torturadas desse modo eram tão sinceras em seus desejos de reforma que entraram para mosteiros e praticaram
mortificações severas em seus Corpos, acreditando que o demônio que as rodeava e de cuja presença estavam
conscientes, era o próprio diabo ou um dos seus emissários.
Diz-se, na verdade, que o menino é o pai do homem. Similarmente, nossas existências anteriores são
progenitoras de nossa vida presente e futura. E é muito certo que, pelo menos nesse sentido, “os pecados dos pais
recaiam sobre os filhos”. Não podemos negar a justiça desse fato, pois, as crueldades praticadas pelas pessoas que
deram origem a formação dos corpos de pecado foram, geralmente, da natureza mais atroz que se possa imaginar.
Você, provavelmente, já ouviu falar que quando um cachorro buldogue prende uma vítima com seus dentes,
não quer largá-la. Isso implica em dizer que o animal tem o poder de fazer o que quiser. O mesmo não acontece com
uma cobra; seus dentes são virados para o fundo da boca e, uma vez que os tenha enterrado na carne de sua vítima,
não pode desprendê-los e terá, forçosamente, que engolir a presa. Por curioso que nos pareça, acontece algo
semelhante com a obsessão.
Lembram-se que o autor tem dito sempre que os Espíritos de controle estão do lado de fora do Corpo de sua
vítima e por detrás dela, manipulando o órgão da voz ou todo o Corpo, segundo o caso, através do cerebelo e da
medula oblongada, onde a chama da vida arde com um som duplo e sibilante, composto de dois tons que indicam a
resistência do Corpo às manipulações do intruso. Nossas últimas investigações, entretanto, revelaram o fato de que
o Espírito de controle que atua pelo lado de fora da vítima, é da classe dos argutos que se acautelam para não serem
apanhados numa armadilha. Enquanto estão fora podem abandonar a presa a qualquer momento, e permitem que
suas vítimas sigam a própria vida como desejarem, como eles também o fazem. Porém, existem outros Espíritos que
não são tão sagazes, que são talvez mais arrojados ou que estão ansiosos por penetrar no mundo material e por isso
põem de lado qualquer precaução. Penetrando no Corpo de suas vítimas, acham-se quase na mesma situação de
uma presa nos dentes de uma cobra; o Corpo de suas vítimas os mantém firmemente presos e não podem se livrar
em circunstâncias normais. Nesses casos, a obsessão se torna permanente e a personalidade da vítima se transforma
totalmente.
Se o Espírito obsessor for uma entidade elemental ou sub-humana, que não é capaz de usar a Mente ou a
laringe, uma vez que esses órgãos foram as últimas aquisições humanas, a pessoa assim obsidiada se converte num
lunático irremediável, não raro de natureza perversa, cuja faculdade de linguagem frequentemente se torna
danificada. É quase impossível desalojar tal entidade, uma vez que ela tenha entrado. Investigações de vidas
anteriores indicam que tal aflição é geralmente o resultado de um desejo de fugir às experiências da vida, pois,
aqueles que estão obsidiados, frequentemente, foram suicidas em uma existência anterior. Tiveram um Corpo que
desprezaram e, em uma vida posterior, a mentalidade se debilitou como resultado de alguma doença física, de um
grande choque ou mesmo de uma obsessão. Em quaisquer desses casos, o Espírito foi expulso do seu Corpo,
pairando à sua volta ansioso por possuí-lo, mas incapaz de fazê-lo devido à falta da Mente, por meio da qual poderia
focar o pensamento sobre o cérebro, ou devido à obsessão de uma entidade alheia.
A dor e o desapontamento são causas frequentes do suicídio, e, muitas vezes, uma grande tristeza foi o
motivo para arruinar a Mente; entretanto, o Espírito é capaz de compreender e enfrentar a situação, ainda que não
seja capaz de usar seus veículos devido ao escasso foco da Mente. Porém, no caso que se tenha desejado fugir da
situação pelo suicídio, o indivíduo aprende, pela maneira já descrita, a conhecer o valor de um Corpo e de suas
ligações, não havendo no futuro causa suficiente para decidi-lo a romper o Cordão Prateado. Algumas vezes, a dor
vem para tentar uma pessoa que cometeu suicídio em vida anterior; e, quando ele resiste à prova, mostra que já
está imune à tentação. Sob o mesmo princípio, o alcoólatra de vidas anteriores é tentado a beber para testar sua
estabilidade de caráter, ao rejeitar conscientemente a bebida.
É curioso como a perpetração do suicídio em uma vida e consequente sofrimento post-mortem ao tempo
em que ainda existe o arquétipo, frequentemente gera no suicida um medo mórbido da morte na próxima vida,
assim, quando a morte chega, no decurso normal, os suicidas parecem frenéticos depois de abandonar o Corpo e tão
ansiosos de voltar ao mundo material que, com frequência, cometem o crime da obsessão da forma mais tola e
irrefletida. Entretanto, como nem sempre há pessoas negativas sujeitas à obsessão (e ainda que as houvesse, não é
fácil à pessoa que acaba de morrer, e que procura uma oportunidade de voltar, encontrar alguém que a possa
abrigar), uma coisa estranha e horrível acontece: o Espírito expulsa o verdadeiro possuidor de um Corpo animal e
passa a animar este veículo. Acha-se, assim, na horrorosa contingência de viver uma existência pura e simplesmente
animal. Se o animal está sujeito a crueldades por parte do dono, o Espírito humano obsessor sofre como sofreria o
Espírito animal; se o animal é sacrificado para prover alimento, o ser humano, dentro dele, vê e compreende os
preparativos para o abate, vendo-se obrigado a passar pelas horrorosas experiências relacionadas com isso. Casos
dessa natureza não são tão raros como se poderia supor; ao contrário, ocorrem frequentemente, como uma visita a
alguns dos grandes matadouros da América do Norte, onde o autor tomou conhecimento disso; e compreendeu a
situação, chegando à mais dolorosa convicção da necessidade de educar o ser humano com respeito à grande
verdade de que a morte, assim como o nascimento, é somente um acontecimento frequente na vida eterna do
Espírito imortal.
Uma fé total nessa doutrina eliminaria incontáveis misérias da Humanidade, e devemos fazer tudo que
esteja ao nosso alcance para ajudar a divulgar este Evangelho de Vida.
Algumas vezes, também, um ser humano perverso incorpora um animal feroz e sente um prazer diabólico
em aterrorizar uma comunidade. Quando Cristo andou na Terra, casos de obsessão animal por Espíritos humanos
aconteciam diariamente, e os exemplos registrados na Bíblia não são, em absoluto, mitos ou loucuras para aqueles
que são dotados de visão espiritual e capazes de ler na Memória da Natureza, pois veem que essas coisas ocorreram
realmente; com efeito, os antigos videntes que observaram essa entrada de pessoas de caráter baixo e vil nos
Corpos de animais, ao abandonarem seu próprio Corpo na morte, pensavam que isso era o curso normal da
natureza, ao invés de ser uma condição anormal. Daí terem formulado a doutrina da Transmigração.
Capítulo VI - A Criação do Ambiente - Gênese das
Deficiências Mentais e Físicas
É um fato evidente, depois de uma simples observação, que enquanto os animais atuam de modo
semelhante, sob as mesmas circunstâncias, por estarem sendo guiados por um Espírito-Grupo, o ser humano não
age assim. Na Humanidade há tantas espécies quantos são os indivíduos, sendo que cada um é uma lei em si
mesmo; e ninguém pode predizer as ações de um ser humano, ou como um outro agirá em circunstâncias análogas;
o mesmo indivíduo pode agir distintamente, e provavelmente o fará, diante de condições idênticas e em ocasiões
diferentes. Por essa razão, é muito difícil tratar ou elucidar devidamente um assunto como o da “A Teia do Destino”,
quando nós, seres humanos, ainda possuímos Mentes presentemente com capacidade reduzida. Para compreender
totalmente esse assunto precisaríamos da sabedoria de grandes seres como são os Anjos do Destino, que têm a seu
cargo este intrincado departamento da vida.
No entanto, não se deve pensar que o autor esteja dando, nesse livro, uma ideia superficial de como se faz
ou desfaz o destino. Cada ato de cada indivíduo produz uma determinada vibração no universo, que incide sobre ele
e sobre os outros ao seu redor; e simples Mente humana não pode ver ou calcular os resultados dessas ações e
reações que se produzem em poucos meses, anos ou vidas. Tivemos a oportunidade de ver, graças ao quadro geral
impresso em nossa Mente quando desenvolvíamos este tema, o modo de classificar as causas geradas no passado,
segundo se nos apresentam, e seus efeitos na vida atual. No decurso desse estudo investigamos centenas de pessoas
e, em alguns casos, retrocedemos três, quatro e até mais vidas, com o objetivo de chegar à raiz da questão e
determinar como as ações do passado reagem para criar as atuais condições de nossas vidas presentes. Embora
tenhamos feito o melhor possível, pedimos aos Estudantes que não considerem isso como uma conclusão definitiva
sobre o assunto, mas antes como um início, que confiamos possa ajudá-los a resolver determinados problemas.
No que concerne ao ambiente, parece-nos que as pessoas que são de natureza difícil de conviver com outras
e que têm diante de si uma vida árdua, nascem frequentemente entre estranhos, dos quais não receberão simpatia
e onde seus sofrimentos não despertarão, nas pessoas do mesmo sangue, nenhum sentimento de apoio apreciável;
às vezes, ficam órfãs, ou são abandonadas pelos pais, ou fogem de casa na tenra idade. Quando é esse o caso, essa
alma, muitas vezes, anseia pelo afeto que ela recusou dar aos outros em vidas anteriores. Também vimos casos em
que determinados indivíduos cometeram atrocidades no passado e levaram a desonra e a vergonha a seus
familiares, os quais sofreram muito devido ao grande amor que dedicavam a esses depravados. Quando tal alma
errante se dispõe a se emendar e purgar os erros do passado, encontrar-se-á em um ambiente totalmente hostil,
com fome e sede por um amor que desprezou anteriormente; então isso lhe causa agora uma vida tão difícil. Se o
ser humano não aprendeu a lição em uma só vida, muitas outras vidas com experiências semelhantes lhe ensinarão
a ser amável com aqueles que o amam, bem como a agir correta e honestamente com os outros.
Também observamos que, muitas vezes, uma alma que viveu erradamente em vidas passadas, não teve uma
assistência bondosa por parte de sua família, que lhe devia ter dado atenção, apoio e amor. Naturalmente, a falta
deste ambiente afetivo não foi uma justificativa para os seus erros perante a lei, e a pessoa foi obrigada a expiá-los
em vidas posteriores. No entanto, em tais casos, os papéis foram, normalmente, trocados; a família, que em vidas
passadas a repudiou, agora a amou profundamente e, então, sentiu intensamente toda a mágoa e todo sofrimento
que ela teve que passar por conta de seu passado. Assim, a família também expiou suas ações do passado dando a
pessoa o que faltou em simpatia e bondade.
Esses são casos extremos e, naturalmente, não podemos tirar conclusões definitivas de casos pouco nítidos,
pois quanto mais nebulosos eles forem, mais fácil será tabulá-los. A lei aplicada nos casos extremos também se
aplica aos de menor importância, com as modificações necessárias às diferenças de ambiente.
Os fatos relatados acima indicam, de forma clara, que somos realmente os guardiães de nossos irmãos e que
convém que todos nós exteriorizemos muita simpatia e bondade aos desafortunados, tanto da nossa família como
aos demais. Mesmo que vendo as coisas superficialmente e olhando a vida somente sob o ponto de vista da nossa
encarnação atual, pode parecer que não temos responsabilidade alguma pelas ações de nossos infelizes familiares;
no entanto, se pudéssemos ver mais amplamente o sentido da vida, ver por trás do véu, provavelmente
descobriríamos que nós mesmos os ajudamos a se afundarem na degradação.
Frequentemente ouvimos a expressão que uma pessoa é o “pesadelo” em uma certa família; e nós
podemos, muito de perto, sempre considerarmos que essa pobre alma é uma estranha entre gente estranha,
devendo estar ali por algum desajuste praticado no passado. O “sangue é mais espesso que a água”, diz um velho
provérbio; na verdade, o laço de sangue não traz consequências, a menos que as pessoas de uma família estejam
unidas entre si pelo amor ou pelo ódio do passado, os quais determinam as verdadeiras relações da vida atual. Uma
alma pode nascer em determinada família, pode se sentar à sua mesa, ter o direito legítimo de herança e ser,
entretanto, tão estranha a ela como qualquer mendigo que lhe chegue à porta pedindo um prato de comida.
Recordemos que Cristo disse: “Eu estava faminto e vós Me destes de comer; Eu estava sedento e Me destes de
beber; Eu era um estranho e Me admitistes ao vosso lado”83. Depois: “Tudo o que fizestes em favor do menor de
meus irmãos, a Mim mesmo o fizestes”84. Quando nós encontrarmos tal tipo de alma, “estranha”, solitária e
estrangeira em seu meio ambiente, é nosso dever, como Cristãos, imitar o exemplo de nosso Senhor; nós devemos
nos esforçar para que essa alma estrangeira se sinta em casa e aplique seus conhecimentos pelo amor de Cristo, sem
tomar em conta suas excentricidades.
As deficiências que afetam a Humanidade podem ser divididas em duas grandes classes: mentais e físicas. As
perturbações mentais, quando congênitas, são especialmente consequências do abuso da força criadora, com uma
só exceção que veremos depois. Pode-se incluir no caso as debilidades dos órgãos vocais. Isso é lógico e
compreensível. O cérebro e a laringe foram construídos com a metade da força criadora pelos Anjos, assim, o ser
humano, que antes da aquisição desses órgãos era bissexual e capaz de criar por si mesmo, sozinho, perdeu essa
faculdade quando esses órgãos foram criados e, agora, depende da cooperação de alguém do outro sexo ou
polaridade oposta, a fim de gerar um veículo novo para um Espírito que renasce.
Quando usamos a visão espiritual para observar um ser humano na Memória da Natureza, durante a época
em que ainda estava em formação, vemos que, onde quer que agora exista um nervo, existia antes uma corrente de
desejos; que pelo próprio cérebro foi feito, de início, de substância de desejos, bem como a laringe. Foi o desejo que
primeiramente enviou um impulso motivador por meio do cérebro e criou tais correntes nervosas para que o Corpo
pudesse se mover e dar ao Espírito qualquer gratificação que fosse indicada pelo desejo. A linguagem, da mesma
forma, é utilizada com o propósito de obter um objeto ou alcançar uma finalidade desejada. Por meio dessas
faculdades, o ser humano alcançou certo domínio sobre o mundo e, se pudesse voar de um Corpo a outro, não teria
fim o abuso de seu poder para satisfazer qualquer capricho ou desejo. Porém, sob a Lei de Consequência, ele leva
com ele, em um Corpo novo, as faculdades e órgãos semelhantes àqueles que utilizou em Corpos precedentes.
Quando a paixão arruinou o Corpo em uma vida, isso fica gravado no Átomo-semente. Na descida para o
próximo renascimento é impossível para este Espírito juntar material puro com o qual possa organizar um cérebro
de construção estável. Nesse caso, renasce geralmente sob um dos Signos Comuns 85 e, muitas vezes, os quatro
Signos Comuns se acham nos ângulos; porque, através de tais Signos, o desejo passional encontra dificuldade para se
manifestar. Em consequência, este poderoso impulso que anteriormente regeu seu cérebro e que poderia ser usado
agora com o propósito de renovação, acha-se ausente; ele tem falta de incentivo na vida e, com isso, se converte em
um inútil, uma tábua sobre o oceano da vida, e, frequentemente, um insano.
Porém, o Espírito não é insano; ele vê, conhece e tem um desejo veemente de utilizar seu Corpo, embora ser
uma impossibilidade, pois, muitas vezes, não pode nem sequer enviar um impulso adequado aos seus nervos. Os
músculos do rosto e do corpo não estão sob o controle de sua vontade. Isso é devido à falta de coordenação que faz
com que o maníaco tenha tão lamentável aspecto. Assim, o Espírito aprende uma das mais duras lições da vida, pois
é muito pior do que a morte se achar sujeito a um Corpo vivo e ser incapaz de se expressar por meio dele. Isso
porque a força de desejos necessária para realizar o pensar, o falar e o se mover, foi arruinada em uma vida de
depravação no passado, deixando o Espírito sem a energia necessária para manipular seu atual instrumento.

83
N.T.: Mt 25:25
84
N.T.: Mt 25:40
85
N.T.: Gêmeos, Virgem, Sagitário e Peixes
Capítulo VII - A Causa da Enfermidade – Esforços do Ego para
Escapar do Corpo – Efeitos da Lascívia
Ainda que as incapacidades mentais, quando congênitas, sejam em geral produzidas pelo abuso da função
criadora em vidas passadas, há uma notável exceção a essa regra, como nos casos mencionados no “Conceito
Rosacruz do Cosmos” e em outras partes de nossa literatura, e descritos a seguir: quando um Espírito que tem
diante de si uma vida particularmente penosa está prestes a renascer, e sente, no momento de entrar no útero
materno, que o panorama da vida futura que lhe é exibido naquele momento marca uma existência dura e infeliz
demais para ser suportada, algumas vezes tenta fugir à escola da vida. Nessa ocasião, os Anjos do Destino, ou seus
agentes, já fizeram no feto em formação as conexões necessárias entre o Corpo Vital e os centros sensoriais do
cérebro; portanto, o esforço do Espírito para fugir do útero materno é frustrado, mas, o deslocamento produzido
pela torção dada pelo Ego, altera a conexão entre os centros sensoriais etéricos e físicos, daí o Corpo Vital não ficar
em posição concêntrica com o físico, fazendo com que a cabeça etérica sobressaia do crânio físico. Resulta disto a
impossibilidade do Espírito usar seu veículo denso, achando-se ligado a um corpo sem Mente que não poderá
utilizar, e o renascimento será inútil.
Temos casos em que uma grande comoção durante a vida faz com que o Espírito tente escapar do Corpo
com os veículos invisíveis. Como consequência da torção, se produzem emoções iguais nos centros sensoriais
etéricos do cérebro e esse choque desorganiza a expressão mental. Provavelmente todos já devem ter
experimentado uma sensação semelhante ao receber um susto; há uma agitação como se algo se esforçasse para
escapar do Corpo Denso; se trata do Corpo de Desejos e do Corpo Vital, que são tão velozes em seus movimentos,
que um trem expresso comparado a eles pareceria uma lesma. Estes Corpos sentem o perigo e se enchem de temor
antes que o medo se transmita ao inerte e lento Corpo Denso, ao qual estão ligados e do qual não podem fugir em
condições normais.
Às vezes, como já dissemos, o susto e o choque são suficientemente fortes e podem atuar com tal impulso
que os centros sensoriais etéricos se desorganizam. Isso ocorre mais frequentemente com as pessoas que nasceram
sob Signos Comuns, que são os mais fracos do Zodíaco. Tal como um ligamento que foi distendido e rompido pode
recuperar gradualmente uma relativa elasticidade, assim também é mais fácil restaurar as faculdades mentais nesses
casos do que naqueles onde a insanidade congênita, acarretada por vidas passadas, ocasionou uma conexão
indevida.
Comprovou-se que a histeria, a epilepsia, a tuberculose e o câncer são o resultado de tendências errôneas de
uma vida passada. Observou-se que muitos indivíduos, que haviam sido quase maníacos na satisfação de sua lascívia
em vidas anteriores, possuíam ao mesmo tempo uma natureza altamente devota e religiosa; e em tais casos, parece
que o Corpo Denso gerado na vida presente era de saúde normal, havendo unicamente incapacidade mental;
enquanto que em outros casos onde a indulgência com a natureza passional estava unida a um caráter maligno e a
um grande desrespeito aos semelhantes, a epilepsia, o raquitismo, a histeria e uma deformação corporal foram os
resultados desses erros, assim como o câncer, em especial no fígado e no seio.
Nessa conexão, entretanto, sentimos o dever de advertir os Estudantes que não tirem conclusões apressadas
de que as manifestações citadas anteriormente representem regras fixas e inflexíveis. As muitas investigações
levadas a efeito, embora tenham sido árduas para um só investigador, são ainda escassas para que sejam conclusivas
e onde estão envolvidos milhões de seres humanos. De qualquer modo, estão em harmonia com os ensinamentos
contidos no “Conceito Rosacruz do Cosmos” ministrados pelos Irmãos Maiores, que exemplificaram os efeitos do
materialismo como produtor do raquitismo, isto é, o amolecimento de uma parte do corpo que deveria ser dura e da
tuberculose que endurece tecidos que deviam permanecer moles e flexíveis. O câncer é essencialmente semelhante
em seus efeitos; e quando consideramos que o Signo de Câncer é regido pela Lua, o Astro da geração, estando a
esfera lunar sob o controle de Jeová, o Deus da reprodução, cujos Anjos anunciam e presidem o nascimento, como
nos casos de Isaac, Samuel, João Batista e Jesus, nós compreendemos facilmente que o abuso das funções geradoras
pode causar tanto o câncer como a insanidade nas mais variadas formas.
Portanto, com respeito às anormalidades e deformidades físicas, parece ser regra geral que, assim como a
indulgência física com as paixões atua sobre o estado mental, os abusos dos poderes mentais em uma vida
conduzem à incapacidade física em existências posteriores. Uma máxima oculta diz que “uma mentira é ao mesmo
tempo assassina e suicida no Mundo do Desejo”. Os ensinamentos dos Irmãos Maiores, contidos no “Conceito
Rosacruz do Cosmos”, explicam que sempre que um incidente ocorre, um determinado pensamento-forma gerado
no Mundos invisíveis registra o acontecimento. Cada vez que se fala e se comenta o caso, cria-se uma forma de
pensamento que se funde com o original e o robustece, desde que ambos possuam a mesma vibração. Se não se diz
a verdade acerca do sucedido, então as vibrações do original e da reprodução não serão idênticas e o resultado é
que investem uma contra a outra, destruindo-se mutuamente. Se o pensamento-forma verdadeiro e bom for
suficientemente forte, conseguirá o domínio da situação e aniquilará os pensamentos-forma baseados na mentira;
consequentemente, o bem vencerá o mal. Ao contrário, se os mais fortes forem os pensamentos mentirosos e
maliciosos, estes podem vencer o pensamento-forma verdadeiro, destruindo-o. Depois haverá discórdia entre eles e,
um a um, todos serão aniquilados.
Deste modo, a pessoa que leva uma vida pura, se esforçando por obedecer às leis de Deus e lutando
ardentemente pela verdade e pela justiça criará pensamentos-forma de natureza semelhante; sua Mente trilhará
caminhos em harmonia com a verdade; e quando chegar o momento de criar seu próprio arquétipo para a vida
futura, essa pessoa, pela força do hábito adquirido em sua vida terrestre anterior, estará pronta, e, intuitivamente,
colocar-se-á com as forças da retidão e da verdade. Tais linhas, uma vez somadas ao seu Corpo, criarão harmonia
nos novos veículos e a saúde será a consequência natural em sua próxima vida. Por outro lado, aqueles que
formaram uma visão distorcida das coisas em suas vidas anteriores, que desprezaram a verdade, exercitando a
astúcia, o egoísmo exagerado e a desconsideração pelo bem-estar dos outros, se acham impelidos, no Segundo Céu,
a ver também as coisas de modo oblíquo, já que este é o seu habitual modo de pensar. Consequentemente, o
arquétipo construído por eles incorporará linhas de erro e de falsidade; e, consequentemente, ao renascer, vários
órgãos de seu Corpo serão fracos, quando não todo o seu organismo.
Novamente advertimos aos leitores que não tirem conclusões apressadas destas regras experimentais. Não é
nossa intenção insinuar que todo aquele que possua um Corpo aparentemente sadio tenha sido um exemplo de
virtude em sua vida passada, nem que aquele que sofre alguma anomalia ou incapacidade física foi um crápula ou
um inútil. Nenhum de nós está capacitado atualmente para dizer “a verdade completa e nada mais que a verdade”.
Podemos nos enganar porque nossos sentidos são ilusórios. Uma rua longa aparenta ser mais estreita à distância,
quando em realidade tem a mesma largura, tanto no lugar onde estamos colocados como a um quilômetro de
distância. O Sol e a Lua parecem muito maiores quando estão próximos do horizonte do que quando se encontram
no zênite, porém, nós sabemos que, na realidade, não aumentam de tamanho ao descer no horizonte, nem
diminuem chegar no zênite. Na verdade, estamos sempre retificando e corrigindo a ilusão de nossos sentidos e,
também, em referência a muitas outras coisas do mundo. O que nos parece certo nem sempre o será, e o que hoje é
verdade com respeito às condições da vida, poderá mudar amanhã. É impossível conhecermos a verdade final sob as
condições evanescentes e ilusórias da existência física.
Somente quando entramos nos reinos superiores, especialmente na Região do Pensamento Concreto, é que
nos apercebemos das verdades eternas; eis porque é natural que uma ou outra vez nos equivoquemos, apesar de
nossos mais sinceros esforços em colocar-nos sempre em condições de conhecer e dizer só a verdade. Por tal razão
nos é impossível construir um veículo totalmente harmonioso. Se fosse possível, tal Corpo seria realmente imortal, e
nós sabemos que a imortalidade na carne não é o desígnio de Deus, pois segundo São Paulo: “ A carne e o sangue
não podem herdar o Reino de Deus”86.
Contudo, nós sabemos que, atualmente, apenas um número muito reduzido de pessoas está disposto a viver
em harmonia com a verdade, a confessá-la e professá-la diante dos outros, por meio do serviço e de uma vida
inofensiva e reta. Nós, também, entendemos que isso aconteceu com muito poucos ao retrocedermos na história,
quando o ser humano não havia ainda desenvolvido o altruísmo iniciado em nosso Planeta com o advento de nosso
Senhor e Salvador, Cristo Jesus. Nesse tempo, os padrões de moralidade eram muito inferiores e o amor à verdade
quase insignificante, para a maior parte da Humanidade, a qual estava focada em acumular riquezas e adquirir tanto
poder e prestígio quanto fosse possível. Eles desconsideravam os interesses dos demais e dizer uma mentira não
parecia um ato censurável, pelo contrário, muitas vezes era admitida como meritória. Consequentemente, os
arquétipos estavam cheios de fraquezas, e as funções orgânicas do Corpo atual estão prejudicadas em um grau
bastante elevado, porque, particularmente, os Corpos ocidentais estão se tornando mais sensíveis à dor devido ao
crescimento da consciência do Espírito.

86
N.T.: ICor 15:50
Capítulo VIII - Os Raios de Cristo Constituem O “Impulso Interno”
- Visão Etérica - Destino Coletivo
A assimilação dos frutos de cada vida passada acontece antes que o Espírito renasça e, consequentemente, o
caráter gerado é totalmente formado e se expressa de imediato na sutil e móvel matéria mental da Região do
Pensamento Concreto, onde o arquétipo do Corpo Denso é construído. Se o Espírito que procura renascer é amante
da música, tentará construir um ouvido perfeito, com os canais semicirculares devidamente situados e com o
tímpano mais delgado e sensível à vibração; tentará construir dedos compridos e finos com os quais possa executar
os acordes celestes captados por seus ouvidos. Se não aprecia a música, e, em sua vida anterior fechou os ouvidos
aos acordes da alegria ou ao pranto da dor, e desejou se afastar da companhia dos demais, isto fará com que se
esqueça de construir o arquétipo de seu ouvido e, como consequência, esse órgão será defeituoso em proporção ao
grau de negligência exercida em sua existência anterior.
De maneira similar ocorre com os outros sentidos; aquele que bebe de uma fonte de conhecimento e se
esforça em compartilhar seu saber com os que o rodeiam, estabelece as bases para adquirir a faculdade da oratória
em sua vida futura, porque o desejo de comunicar seu conhecimento vai induzi-lo a prestar atenção especial à
formação e fortalecimento de seu órgão vocal, quando estiver construindo o arquétipo de seu futuro corpo. Por
outro lado, aqueles que se esforçam para ganhar acesso aos mistérios da vida por simples curiosidade ou para
satisfazer o orgulho de seu próprio intelecto, deixam de construir o órgão adequado para sua expressão e ficam
sujeitos a debilidades na voz ou a impedimentos da palavra. Deste modo, vem-lhes o reconhecimento de que a
expressão é um bem valioso. Embora o cérebro de um indivíduo, assim afligido, não possa compreender a lição, o
Espírito aprende que somos considerados somente pelo uso que fazemos de nossos talentos e que devemos pagar a
dívida, algum dia, em algum lugar, se descuidarmos de transmitir a palavra de Vida para iluminar nossos irmãos e
irmãs no caminho, sempre que estivermos, pelo conhecimento, qualificados para isso.
Com respeito à cegueira ou distúrbios do órgão da visão é de longa data que os investigadores sabem que é
o efeito de extrema crueldade praticada em vidas passadas. Investigações recentes vieram demonstrar que muitas
afecções dos olhos, agora comum entre os seres humanos, é devido ao fato de que nossos olhos estão mudando;
esses órgãos, de fato, estão se tornando mais sensíveis a uma oitava superior da visão, porque o Éter que rodeia a
Terra está se tornando mais denso e o ar mais rarefeito. Isto é verdade principalmente no sul da Califórnia e outros
certos lugares do mundo. É digno de nota saber que a Aurora Boreal está se tornando cada vez mais frequente e
seus efeitos mais poderosos sobre a Terra. Nos primórdios da Era Cristã, esse fenômeno era quase desconhecido,
mas, com o decorrer do tempo, com a onda de Cristo descendo para o interior da Terra durante uma parte do ano,
infundindo mais e mais Sua própria vida na amortecida e pesada massa terrestre, os Raios Etéricos Vitais vão se
tornando cada vez mais visíveis. Posteriormente, eles se tornarão mais e mais numerosos e, agora, já começam a
interferir com as atividades elétricas, especialmente com o telégrafo que, por vezes, não funciona bem, devido a
essas correntes de irradiação.
É, também, digno de se observar que tais distúrbios estão limitados aos fios que vão para leste e oeste. Se o
leitor quiser recorrer ao “Conceito Rosacruz do Cosmos”, no capítulo II – Os Quatro Reinos 87, poderá entender que
existem raios ou linhas de força dos Espíritos-Grupo dos vegetais que irradiam em todas as direções desde o centro
da Terra até a periferia e depois para fora, passando através das plantas ou árvores, subindo até suas copas.
Já as correntes de força dos Espíritos-Grupo animais, por outro lado, rodeiam a Terra. As correntes
relativamente fracas e invisíveis geradas pelos Espíritos-Grupo dos vegetais e os poderosos raios de força gerados
pelo Espírito de Cristo, agora se tornando visíveis como a Aurora Boreal, têm sido até aqui quase da mesma natureza
que a eletricidade estática, enquanto as correntes, geradas pelos Espíritos-Grupo animais que circundam a Terra,
podem ser comparadas à eletricidade dinâmica que deu à Terra seu poder de movimento em épocas passadas.
Atualmente, as correntes de Cristo estão se tornando cada vez mais poderosas e sua eletricidade estática está sendo
liberada. O impulso etérico que elas dão inaugurará uma nova era, e os órgãos dos sentidos que o ser humano
possui hoje deverão se adaptar à tal mudança. Em lugar dos raios etéricos que emanam de um objeto trazerem à
retina a imagem refletida, o chamado “ponto cego” será sensibilizado e veremos através do olho diretamente sobre
a própria imagem, em vez desta se refletir sobre a nossa retina. Assim, não somente veremos a superfície do objeto,
como também seremos capazes de ver através dele, da mesma forma que fazem os que já têm cultivada a visão
etérica.

87
N.T.: Leia a partir da seguinte sentença: “As relações das plantas, dos animais e do ser humano com as correntes
de vida na atmosfera terrestre são representadas simbolicamente pela cruz...”
À medida que o tempo passa e Cristo, com Seus benéficos ensinamentos, atrai cada vez mais e mais Éter
interplanetário para a Terra, tornando o Corpo Vital da Terra mais luminoso, nós estaremos caminhando como se
andássemos sobre um mar de luz e quando aprendermos a abandonar nossos modos egoístas e egotistas, por meio
do constante contato com estas vibrações benéficas de Cristo, também nós nos tornaremos luminosos. Então, o
olho, tal como está constituído atualmente, não nos será de utilidade alguma, assim é que está começando a mudar
e estamos experimentando os incômodos inerentes a toda reconstrução. Com referência à Aurora e aos seus efeitos
sobre nós, podemos dizer que estes raios são irradiados para todas as partes da Terra, a qual é o Corpo de Cristo,
desde o centro à periferia, mas, nos pontos povoados do mundo, tais raios são absorvidos pela Humanidade, da
mesma forma que os raios dos Espíritos-Grupo dos vegetais são absorvidos pela flor. Estes raios constituem o
“impulso interno”, que está lenta, mas seguramente impelindo a Humanidade a adotar uma atitude altruísta. São os
raios fecundantes que fertilizam a nossa alma e, algum dia, se manifestará a Imaculada Concepção e o Cristo nascerá
dentro de cada um de nós. Quando todos estivermos perfeitamente impregnados por esses raios, a luz de Cristo
começará a se irradiar de nós. Então, caminharemos na luz como Ele na Luz está, e seremos fraternais uns com os
outros.
Para terminar estas lições, diremos algumas palavras sobre o destino coletivo:
Além do destino individual gerado por nós mesmos em cada vida, existe, também, um destino coletivo, ao
qual estamos sujeitos por sermos membros de uma comunidade ou nação. É bem sabido que as comunidades,
algumas vezes, atuam como um todo, tanto para o bem como para o mal, e é compreensível que estas ações
coletivas tenham também um efeito coletivo em vidas futuras sobre os membros de tais comunidades ou nações
que tomaram parte nelas. Observou-se que, quando tais atos são maus, a dívida assim contraída é geralmente
liquidada no curso dos chamados acidentes de grandes proporções. Também já se explicou que não existem
acidentes, salvo nos casos em que o ser humano, que tem prerrogativa divina de iniciar causas novas, intervenha na
vida de outros, produzindo mudanças em suas condições, ou quando, por negligência, tira a vida de um semelhante.
Isso sim, em muitos casos, constitui um acidente. Porém, os grandes cataclismos como os que presenciamos na
Sicília, o terremoto em São Francisco, a Grande Guerra Europeia, etc. não são acidentes, mas atos causais da
comunidade envolvida ou o resultado de tais atos em vidas anteriores. Conhecendo a lei de mortalidade infantil,
podemos compreender por que centenas de milhares de pessoas, vítimas da Grande Guerra, ao passarem dos
campos de batalha para o além, não puderam gravar o panorama da vida que findou e, por isso, precisam morrer
durante a infância na próxima existência, e como poderá acontecer esta espantosa mortalidade de crianças no
futuro, senão por meio de alguma epidemia ou algum cataclismo? Baseados em tal hipótese, podemos ver no
terremoto da Sicília, na destruição de São Francisco, na “epidemia” de fome da Irlanda e da Índia e em outras
catástrofes nacionais similares a ação do destino vinda do passado, trazendo, à cada nação, os frutos de suas vidas e
ações passadas, como uma comunidade.
O que foi dito é simplesmente uma indicação de como se faz e desfaz o destino. Por favor, lembremos que as
poucas centenas de casos examinados não podem dar base adequada para um ponto de vista geral da ação da Lei, e
o Estudante está exposto a encontrar incongruências em casos individuais acerca do que foi dito. Algumas questões
indubitavelmente se apresentarão em relação a esse, àquele ou a outro caso específico, e enquanto é relativamente
fácil investigar casos individuais e especificar que causas em uma vida produziram certos efeitos em outra vida da
mesma pessoa, é diferente quando procuramos estabelecer uma lei geral, como vimos tentando fazer nessa obra.
Para desempenhar essa missão de forma perfeita, são necessários conhecimentos e sabedoria super-humanos, e o
presente esforço pode talvez ser considerado um caso de ímpeto tolo, onde até os Anjos teriam medo de pôr as
mãos. Pessoalmente, o autor conquistou mais conhecimentos do que tem sido capaz de comunicar e confia que
estas revelações possam servir de alguma utilidade ao Estudante, no que se refere ao grande mistério da vida.
Que esses estudos na “Teia do Destino” possam suscitar em cada Estudante um intenso desejo de viver, dia
após dia, de modo a contribuir para que haja mais paz na Terra e boa vontade entre os seres humanos.
PARTE V - Os Efeitos Ocultos das Nossas Emoções

Capítulo I - A Função do Desejo


Aqueles que estão familiarizados com o estudo deste assunto conhecem os desastrosos efeitos que um
sentimento agudo de medo ou de ansiedade produz sobre o Corpo Denso. Sabemos como essas emoções alteram a
digestão, interferem no metabolismo, na eliminação dos detritos e, em suma, transtornam todo o sistema, com o
resultado que, em alguns casos, a pessoa se vê forçada a ficar de cama por maior ou menor espaço de tempo,
conforme a importância da crise e do poder de resistência de sua constituição. Contudo, existe um efeito oculto que
pode ser tão sério ou até pior, e que geralmente não é compreendido, e, portanto, pode ser um benefício
considerável estudar o efeito oculto do equilíbrio e da paixão, da ira e do amor, do pessimismo e otimismo.
Do estudo do “Conceito Rosacruz do Cosmos”, aprendemos que nosso Corpo de Desejos foi gerado no
Período Lunar. Se você deseja obter uma imagem mental do modo que as coisas se pareciam, veja a figura do feto,
como mostrado em qualquer livro de anatomia. Nele há três partes principais: a placenta, que está cheia do sangue
da mãe; o cordão umbilical, que conduz esta corrente vital, e o feto, que é nutrido, desde o estado embrionário até o
amadurecimento, por aquela corrente. Imagine, agora, naqueles tempos idos, o firmamento com uma imensa
placenta da qual pendiam bilhões de cordões umbilicais, cada um com seu apêndice fetal. Por toda a família
humana, então em formação, circulava a única essência universal do desejo e da emoção, gerando em todos, os
impulsos necessários para a ação, que agora se manifesta em todas as fases do trabalho do mundo. Estes cordões
umbilicais e apêndices fetais eram moldados de uma úmida substância de desejos pelas emoções dos Anjos Lunares,
enquanto as correntes ígneas de desejos que se esforçavam em animar a vida latente da Humanidade, então em
formação, eram geradas pelos ígneos e marcianos Espíritos Lucíferos. A cor da primeira e lenta vibração que eles
puseram em movimento, naquela matéria emocional de desejos, foi o vermelho.
Enquanto aquela coloração de movimento (pois assim é realmente esta corrente constante, esta eterna
intranquilidade que, sem pausa e sem paz, impulsiona os seres humanos) se achava circulando em nosso interior, o
Planeta em que nós habitávamos também circundava um sol, que não deve ser confundido com o atual dador da luz,
mas compreendido como uma passada encarnação da substância que compõe nosso atual universo solar, e nós, por
sua vez, circundávamos o globo sobre o qual morávamos, da luz às trevas, do calor ao frio. Deste modo, éramos
trabalhados por fora e por dentro, num esforço para excitar nossa consciência adormecida. E houve uma resposta,
pois, ainda que nenhum dos Espíritos parcialmente separados, habitando uma bolsa fetal individual, pudessem
sentir aqueles impactos, apesar de serem muito fortes, as sensações acumuladas de bilhões de Espíritos
semelhantes eram sentidas como um som do universo, um grito cósmico – a primeira nota da harmonia das esferas
– tocada em uma única corda. Entretanto, foi bastante expressiva e adequada aos impulsos latentes e às aspirações
da incipiente raça humana daqueles dias distantes.
Desde então, esta natureza de desejos tem evoluído; o ígneo e marciano substrato de paixão e as bases
aquosas lunares da emoção se tornaram capazes de numerosas combinações. Da mesma forma que o pensamento
sulca o cérebro com circunvoluções e o rosto com linhas, também as paixões, os desejos e as emoções vêm
mudando a matéria móvel de desejos em linhas curvas, em espirais, redemoinhos, corredeiras e vórtices que
parecem uma torrente quando essa se acha na maior agitação – sendo muito raro ficarem num descanso relativo.
Essa matéria de desejos, em sucessivos períodos de sua evolução, foi respondendo a cada uma das sete vibrações
astrais emanadas do Sol, de Vênus, de Mercúrio, da Lua, de Saturno, de Júpiter e Marte. Durante aquele tempo,
cada Corpo de Desejos individual tem sido tecido sob um único modelo e, como a lançadeira do tempo corre
incessantemente de um lado para outro sobre o tear do destino, este modelo está sendo aumentado, embelezado e
melhorado, mesmo que não possamos percebê-lo. Assim como o tecelão realiza seu trabalho no avesso do tapete,
estamos também tecendo o desenho supremo, sem compreender realmente e sem ver a sublime beleza desse
desenho, porque ainda se encontra oposto a nós o lado oculto da natureza.
Porém, para que possamos compreender melhor, tomemos alguns destes emaranhados fios de paixão e
emoção para vermos o efeito que têm neste modelo que Deus, o Mestre Fiandeiro, deseja que teçamos.
Os mitos antigos sempre espalham um brilho luminoso sobre os problemas da alma e nós podemos, com
proveito, levar em consideração certa parte da lenda maçônica. Os maçons são uma sociedade de construtores,
“tektons” em grego – a mesma sociedade a que pertenciam José e Jesus, pois a eles a Bíblia grega chamava de
“tektons” – construtores – e não carpinteiros, segundo a versão ortodoxa. Os maçons, sob Salomão, foram os
construtores deste templo místico projetado por Deus, o Grande Archetekton ou Mestre Construtor, construído sem
ruído de martelo, a respeito do qual o personagem Manson fala na maravilhosa peça “O Servente da Casa” 88. Este
nos diz que “o templo não é um monte de pedras mortas e vigas insignificantes, mas é uma coisa vivente. Quando
você entra nele, ouve um som, um som como o de um vigoroso poema cantado, isto é, se você tem ouvidos; se você
tem olhos, poderá agora ver o próprio templo, um mistério de formas e sombras indistintas, projetando-se
verticalmente do solo à cúpula. Ele está ainda sendo construído e reconstruído; às vezes, a obra segue sob escuridão
profunda, outras vezes, sob luz ofuscante”. Todo verdadeiro maçom sabe o que significa esse templo e se esforça
por construí-lo. A antiga lenda maçônica nos conta que quando Hiram Abiff, o mestre de obras encarregado da
construção do templo de Salomão, um edifício de Deus construído sem ruído de martelo, estava terminando os
preparativos para executar sua obra mestra, o “mar fundido”, ele reuniu material de todos os recantos da Terra,
pondo-os em um forno ardente, porque era um descendente de Caim, um filho do fogo, o qual, por sua vez, era um
filho de Lúcifer, o Espírito do fogo. Hiram se propunha a fazer uma liga de metais de claridade cristalina, capaz de
refletir toda a sabedoria do mundo. Porém, segundo diz a história, houve entre os trabalhadores alguns traidores –
espiões dos Filhos de Seth – os quais, por meio de Adão e Eva, eram descendentes do Deus lunar Jeová, que tinha
afinidade pela água e odiava o fogo. Esses traidores jogaram água na matriz no qual o mar fundido, a Pedra Filosofal,
ia ser moldado. No momento do encontro do fogo com a água se produziu uma grande explosão. Hiram Abiff, o
mestre de obras, sendo incapaz de harmonizar os elementos em luta, assistiu com indescritível aflição a erupção
destruidora de sua obra mestra. Enquanto se achava observando a luta dos Espíritos da água e do fogo, Tubal Caim,
seu antecessor, apareceu e o convidou a se atirar na massa fervente. Foi, então, levado ao centro da Terra, onde
encontrou seu primeiro antecessor, Caim, que lhe deu uma palavra nova e um novo martelo que o tornariam capaz,
uma vez que se tornasse proficiente no seu uso, de misturar os elementos antagônicos e extrair deles a Pedra
Filosofal, a mais alta aquisição humana possível.
Há nessa história simbólica mais sabedoria do que a que podemos obter em livros que dizem respeito ao
desenvolvimento da alma humana. Se o Estudante ler nas entrelinhas e meditar sobre as diversas expressões
simbólicas, ganhará muito mais do que podemos dizer, uma vez que a verdadeira sabedoria é gerada interiormente
e a missão dos livros é apenas dar um indício.
Desde aqueles dias distantes, os Anjos lunares se encarregaram, principalmente, do aquoso e úmido Corpo
Vital, composto dos quatro Éteres e que se relaciona com a propagação e nutrição das espécies, enquanto os
Espíritos de Lúcifer se encarregaram, especialmente, do seco e ígneo veículo de desejos. A função do Corpo Vital é a
de construir e manter o Corpo Denso, enquanto a do Corpo de Desejos envolve a destruição dos tecidos. Assim, há
uma guerra constante entre os Corpos de Desejos e Vital, e é essa guerra no céu que produz a nossa consciência
física na Terra. Durante inumeráveis vidas temos atuado em todos os tipos de climas e de lugares e, de cada vida,
extraímos certa quantidade de experiência, reunida e armazenada como força vibratória nos Átomos-sementes de
nossos diversos veículos. Por conseguinte, cada um de nós é um construtor, construindo o templo do Espírito imortal
sem ruído de martelo; cada um de nós é um Hiram Abiff reunindo material para o desenvolvimento da alma e
jogando-o no forno da experiência de nossa própria vida, para ali manipulá-lo mediante o fogo da paixão e do
desejo. Devagar, mas seguramente bem-feito, todo o material está sendo expurgado em cada existência purgatorial
e a quintessência do crescimento da alma está sendo extraída através de muitas vidas. Dessa maneira, cada um de
nós está se preparando para a Iniciação – nos preparando, quer o saibamos ou não, a aprender a amalgamar as
paixões do fogo com as mais suaves e gentis emoções. O novo martelo, com o qual o mestre trabalhador dirige seus
subordinados, é agora uma cruz de sofrimento e a nova palavra é o autocontrole.

88
N.T.: de Charles Rann Kennedy (1871-1950): foi um escritor anglo-americano.
Capítulo II - Os Efeitos da Cor da Emoção Nas Reuniões das
Pessoas - O Efeito Isolante da Preocupação
Vejamos agora como o Corpo de Desejos se modifica sob a ação de variados sentimentos, desejos, paixões e
emoções, para que possamos aprender a construir, sabiamente e bem, o templo místico que vamos habitar.
Ao estudarmos uma das ciências físicas, seja anatomia ou arquitetura, que tratam de coisas tangíveis, nossa
tarefa é facilitada pelo fato de termos palavras com que descrever as coisas de que tratamos, mas ainda assim, o
quadro mental que envolve o significado de uma palavra é diferente para cada indivíduo. Ao falar de uma “ponte”,
alguém pode mentalizar uma ponte construída em ferro no valor de um milhão de dólares e outra pessoa pensará
numa simples prancha atravessando um córrego. A dificuldade que sentimos em produzir impressões adequadas do
que queremos dizer, aumenta logo que tentamos exprimir ideias referentes às forças intangíveis da natureza, tal
como a eletricidade. Medimos a intensidade da corrente em volts, o volume em ampères e a resistência dos
condutores em ohms, porém, na realidade, tais termos servem somente para encobrir a nossa ignorância sobre a
matéria. Todos sabemos o que é um quilo de café, porém, os maiores cientistas do mundo não têm uma concepção
mais acurada do que sejam os volts, ampères e ohms – sobre os quais tão sabiamente discorrem – do que a de um
Estudante de uma escola que escuta esses termos pela primeira vez.
Não nos surpreendemos quando os assuntos suprafísicos são frequentemente descritos em termos vagos e
desorientadores, pois não possuímos palavras, em qualquer linguagem física, para descrever claramente esses
assuntos, e temos de confessar a nossa impotência e perplexidade por não encontrarmos termos adequados para
expressar-nos a respeito deles. Se fosse possível projetar sobre uma tela cinematográfica, os quadros em cores do
Corpo de Desejos e mostrar como esse incansável veículo muda de contorno e de cor conforme as emoções, nem
assim seria compreensível para aquele que não é capaz de ver essas coisas por si mesmo. Isso porque os veículos de
qualquer ser humano diferem dos demais na medida em que respondem a certas emoções. Aquilo que induz alguém
a sentir um intenso amor, ódio, raiva, medo ou qualquer outra emoção, pode deixar um outro absolutamente
insensível.
Inúmeras vezes, o autor observou as multidões para estabelecer comparações a este respeito, e encontrou
sempre algo surpreendentemente novo e diferente do que havia observado antes. Certa ocasião, um demagogo se
esforçava em incitar um sindicato de trabalhadores à greve; ele mesmo se achava vivamente exaltado e, ainda que a
cor básica laranja escuro fosse perceptível naquele momento, estava quase obscurecida por uma cor escarlate de
matiz mais brilhante e o contorno de seu Corpo de Desejos era quase como o de um porco-espinho com as pontas
eriçadas. Existia um potente elemento de oposição naquela reunião e, à medida que falava, podia-se distinguir
claramente as duas facções pelas cores de suas respectivas auras. Um grupo de homens mostrava o escarlate da
raiva, porém, no outro grupo, está cor estava mesclada com o cinza, a cor do medo. Era também digno de nota o
fato de que, ainda que os homens da cor cinza estivessem em maioria, os outros eram ressaltados, porque cada
medroso se acreditava sozinho ou pelo menos com poucos defensores e, por conseguinte, temia defender sua
própria opinião. Se alguém que pudesse perceber esta condição estivesse presente, e tivesse se dirigido a cada um
que manifestava em sua aura os sinais de dissensão, e assegurado que eles eram a maioria, o curso das coisas
caminharia em direção oposta. Muitas vezes isso acontece nos assuntos humanos, já que, atualmente, a maioria das
pessoas é incapaz de ver além da superfície do Corpo Denso e, desta maneira, perceber a verdadeira condição de
pensamentos e de sentimentos dos demais.
Noutra ocasião, o autor foi a uma reunião de revivificação, onde milhares de espectadores estavam
presentes para ouvir um orador de reputação nacional. No princípio da reunião era evidente, pelo estado das auras
das pessoas, que a maior parte delas tinha vindo com o único propósito de passar alguns momentos agradáveis e ver
algo divertido. Os pensamentos, sentimentos e emoções da vida comum de cada um eram plenamente visíveis, se
bem que, em alguns, a cor azul escuro revelasse uma atitude de preocupação; era como se tivessem sofrido alguma
desilusão na vida e estivessem muito apreensivos.
Ao aparecer o orador, deu-se um curioso fenômeno: sabemos que os Corpos de Desejos estão usualmente
num estado de movimento constante, porém, naquele momento, toda aquela vasta audiência reteve a respiração
em atitude de expectativa, e as cores variadas dos Corpos de Desejos individuais cessaram, e uma cor básica, laranja,
foi perfeitamente perceptível, por alguns momentos; logo depois, cada um voltou às suas atividades emocionais
anteriores, enquanto o prelúdio estava sendo tocado. Em seguida, começou o cântico de hinos e esse fato revelou o
valor e o efeito da música, pois todos se uniram, cantando as mesmas palavras e no mesmo tom, e pareciam ser
envolvidos pelas mesmas vibrações rítmicas em seus Corpos de Desejos, tornando-os, momentaneamente, quase
um ser único. Um bom número deles estava sentado em atitude céptica, se recusando a cantar e a se unir aos
demais. À visão espiritual pareciam como homens de aço, vestindo uma armadura daquela cor, e, de cada um deles,
sem exceção, desprendia-se uma vibração que expressava mais do que poderiam dizer por palavras: “Deixem-me em
paz, vocês não me comoverão”. Algo interior os havia arrastado até ali, porém sentiam-se mortalmente
amedrontados de entregar-se e, por conseguinte, toda a sua aura expressava a cor acinzentada do medo, que é uma
armadura da alma contra interferências externas.
Terminado o primeiro canto, a unidade de cor e a vibração desapareceram quase imediatamente e cada um
revestiu-se de sua atmosfera habitual de pensamentos e, se nada mais tivesse sido feito, cada pessoa teria voltado à
sua vida interior habitual. Porém, o evangelista, ainda que incapaz de ver isso, por experiência sabia que seu
auditório ainda não estava preparado, e, por conseguinte, uma sucessão de cânticos se elevaram com
acompanhamento de palmas, bater tambores e gesticulações do líder, ajudado por um coral treinado. Isso reuniu
outra vez as almas dispersas em um laço de harmonia; gradualmente, as pessoas foram dominadas pelo fervor
religioso e se estabeleceu a unidade necessária para o trabalho seguinte. Pela música, pelas palmas do regente e
pelo apelo dos cânticos, aquela vasta audiência se havia transformado em uma só. Os homens de aço, os céticos de
tom cinzento, que se acreditavam demasiado sábios para serem enganados (quando, em realidade, sua emoção era
realmente medo) eram agora uma parte insignificante naquela vasta congregação. Todos os outros estavam
afinados, da mesma forma que as diversas cordas de um grande instrumento, e o evangelista que se erguia diante
deles era um soberbo artista tocando com as emoções. Incitava-os do riso às lágrimas, do pesar à vergonha. Grandes
ondas de cores correspondentes pareciam cobrir toda a assistência em um quadro magnífico e assombroso. Vieram,
a seguir, as invocações de costume: “Levantai-vos para receber Jesus”; a solicitação para os “que se lamentam”, etc.,
e cada um desses chamados extraía de toda a audiência uma resposta emocional determinada, mostrada
plenamente nas cores dourada e azul. Seguiram-se mais cânticos, mais palmas e gesticulações que,
momentaneamente, trouxeram a unidade e deram àquela assembleia uma experiência parecida com o sentimento
de fraternidade universal e a realidade da Paternidade de Deus. As únicas pessoas sobre quem a música não surtiu
efeito foram os indivíduos revestidos da armadura azul de aço do medo. Esta cor parece ser impenetrável a qualquer
emoção e, ainda que o sentimento experimentado pela grande maioria fosse relativamente fugaz, as pessoas se
beneficiaram com a revivificação, excetuando aqueles homens de aço.
Pelo que o autor pôde aprender, a sensação interna do medo de se render à emoção – o medo é saturnino
em seus efeitos e irmão gêmeo da preocupação – parece exigir um choque, o qual afastará de seu ambiente aquela
pessoa que o experimentar e o transportará para um novo lugar, em novas condições, antes que as antigas
condições possam ser dominadas.
A preocupação é uma condição na qual as correntes de desejos não circulam em grandes linhas curvas em
alguma parte do Corpo de Desejos, porque o veículo está cheio de redemoinhos – só redemoinhos, em casos
extremos. A pessoa assim afetada não se esforça por atuar em coisa alguma; vê calamidades onde não existem e, em
vez de gerar correntes que a levem à ação para evitar o que lhe produz medo, alimenta pensamentos inquietantes
que produzem um redemoinho em seu Corpo de Desejos e, em consequência, ela nada faz. Essa condição de
preocupação no Corpo de Desejos pode ser comparada à água que está próxima do congelamento sob uma
temperatura baixa; o medo, que se expressa como ceticismo, cinismo e pessimismo, pode ser comparado a esta
mesma água quando já congelada, porque o Corpo de Desejos dessas pessoas está quase sem movimento e nada do
que se possa dizer ou fazer terá poder de alterar essa condição. Para usar uma expressão comum que traduz
exatamente essa condição, diremos que estão “presos em uma concha” e essa concha saturnina deverá ser rompida
antes que se possa chegar a esses indivíduos e ajudá-los em seu deplorável estado.
Essas emoções saturninas de medo e de preocupação são comumente causadas pela apreensão dos que
sofrem dificuldades econômicas ou sociais. “Talvez tenha prejuízo nesse investimento que acabo de fazer, pois pode
baixar a cotação ou até desvalorizar-se totalmente; posso perder meu emprego e me encontrar subitamente na
miséria; tudo o que empreendo parece dar errado; meus vizinhos falam mal de mim e tratam de prejudicar minha
posição social; meu marido (ou esposa) não se preocupa mais comigo; meus filhos se mostram displicentes comigo”;
e uma centenas de outras sugestões parecidas se apresentam sempre à sua Mente. Ele deveria se lembrar que, cada
vez que um desses pensamentos é gerado e introduzido em seu interior, ajudará a congelar as correntes de seu
Corpo de Desejos e a construir ao seu redor, uma concha de aço de cor azul em que a pessoa, que habitualmente
alimenta o medo e a preocupação, se encontrará, algum dia, encerrada e isolada do amor, da simpatia e da ajuda de
todos. Por conseguinte, devemos nos esforçar por ser alegres, ainda que em circunstâncias adversas, a menos que
queiramos correr o risco de permanecer em tristes condições aqui e na vida futura.
“É muito fácil estar contente

Quando a vida flui como uma canção,

Mas o ser humano digno e valente

É aquele que sorri,

Quando tudo é provação”89.

89
N.T.: do poema: Worth While de Ella Wheeler Wilcox (1850-1919), escritora e poeta estadunidense.
Capítulo III - Efeitos da Guerra Sobre o Corpo de Desejos - O
Corpo Vital Afetado pelas Detonações dos Grandes Canhões
No início da Grande Guerra90 as emoções na Europa foram se tornando horríveis, primeiro entre os
chamados “vivos” e depois entre os que foram mortos – quando despertavam. Esse despertar levava muito tempo
devido às detonações dos grandes canhões e, conforme a Guerra corria, mais tempo ainda. Toda a atmosfera dos
países envolvidos fervia em correntes de ira e ódio, igual a uma nuvem vermelha-escura que pairasse sobre os seres
humanos e sobre a região. Depois, apareceram faixas negras semelhantes a mortalhas, que parecem se gerar
sempre em crises de desastres súbitos, quando a razão não trabalha e o desespero domina o coração. Isso, sem
dúvida, ocorreu quando os povos envolvidos perceberam que aquela catástrofe era de tal magnitude, que eles não
eram capazes de compreender o que estava acontecendo. Os Corpos de Desejos da maioria giravam em alta
velocidade, em grandes ondas de pulsações rítmicas que falavam mais alto do que as palavras: “Matar, matar,
matar”. Quando dois ou três indivíduos ou uma multidão se encontravam e começavam a discutir sobre a guerra, as
pulsações rítmicas, indicando o firme propósito de agir e desafiar, cessavam e os pensamentos e sensações de
excitação gerados pela discussão ou conversa tomavam a forma de projeções cônicas, que rapidamente cresciam a
uma altura de quinze a vinte centímetros, então, estouravam e emitiam uma língua de fogo. Alguns indivíduos
geravam grande número dessas estruturas vulcânicas de uma só vez, outros geravam uma ou duas ao mesmo
tempo. Enquanto prosseguia a discussão e quando uma dessas bolhas estourava, aparecia outra em alguma parte do
Corpo de Desejos, e as chamas que delas emergiam iam colorir de escarlate a nuvem sobre a região entorno.
Quando uma multidão se desagregava ou os amigos se separavam, depois de uma discussão, o borbulhar e as
erupções diminuíam e se tornavam menos frequentes, cessando, finalmente, para dar lugar de novo às grandes
pulsações rítmicas acima mencionadas.
Essas condições são agora muito raras, se é que são vistas ainda; a ira explosiva para com o inimigo,
conforme foi demonstrado, já é uma coisa do passado, pelo menos no que concerne à grande maioria. A cor
alaranjada básica da aura dos povos ocidentais é novamente visível, e tanto os oficiais como os seres humanos
parecem que se fixaram na guerra como se fosse um jogo; cada um anseia superar o outro e excedê-lo em astúcia. A
guerra não é mais do que um canal para a sua habilidade; porém, alguns dos Irmãos Leigos da Ordem Rosacruz
creem que a condição de ira voltará a aparecer em uma forma modificada, quando cessarem as hostilidades ativas e
começarem as negociações de paz.
A esta forma de emoção podemos chamar de ira abstrata e difere amplamente do que se observa no caso de
duas pessoas que se enraivecem entre si, na vida privada, quer comecem a brigar fisicamente ou não. Vistas do lado
oculto da natureza, há hostilidades antes que os golpes sejam desferidos. Formas de desejos, em formatos de adagas
pontudas, se projetam umas contra as outras como lanças, até que a fúria que as gerou se esgote. Nos casos de ira
envolvendo o patriotismo não existem um inimigo pessoal e, por conseguinte, as formas de desejos são mais bruscas
e explodem sem abandonar o indivíduo que as gerou.
Os “homens de aço”, tão comuns na vida privada, onde a preocupação por mil e uma coisas, que nunca
ocorrem, cristalizam uma armadura ao seu redor, permitindo que o velho Saturno os aprisione, estavam e estão
totalmente ausentes. No entanto, o autor crê na hipótese de que a tensão de seu meio-ambiente os forçou a se
alistarem e o choque deve ter rompido a concha; então, a familiaridade com o perigo chegou a agradá-los. É certo
que essas pessoas se beneficiaram grandemente com a guerra, pois nenhum estado é tão obstrutor para o
desenvolvimento da alma do que o medo e a preocupação constante. É um fato igualmente notável que, embora os
seres humanos arrastados pela guerra sofram pavorosas privações, a maior parte deles está cultivando um matiz
azul celeste pálido que significa esperança, otimismo e um nascente sentimento religioso, dando um toque altruísta
ao caráter. Isso vem indicar que aquele sentimento de fraternidade universal, que não reconhece distinção de credo,
cor ou nação, está crescendo no coração humano.
No começo da guerra, os Corpos de Desejos dos combatentes giravam a uma espantosa velocidade, e se
notava que, enquanto as pessoas que morriam por enfermidade, velhice ou acidentes comuns recobravam sua
consciência em curto lapso de tempo, variando de poucos minutos a alguns dias, os mortos na guerra permaneciam
na inconsciência por várias semanas e, ainda que pareça estranho, os que foram estraçalhados despertavam muito
mais depressa do que os milhares que sofreram somente ferimentos insignificantes. Esse enigma não foi decifrado
por muitos meses. Antes de estudarmos as causas que motivavam esse fenômeno, devemos nos recordar que nos
primeiros tempos de guerra, quando as pessoas que morriam cheias de ira e despertavam nos Mundos invisíveis,
queriam reiniciar suas pelejas com o inimigo, e até que o grande trabalho educativo iniciado pelos Irmãos Maiores e
90
N.T.: Refere-se à Primeira Guerra Mundial (1914-1918)
seus Auxiliares Invisíveis produzisse frutos, essas pessoas peregrinavam errantes pelo espaço com seus corpos
mutilados e cheios de amargura, sentindo a falta dos seres queridos deixados para trás. Agora, tais acontecimentos
são extremamente raros e prontamente solucionados, pois todos aprenderam que o pensamento criará um braço,
membro ou rosto; o ódio patriótico desapareceu e os “inimigos” que sabem falar a língua do outro, frequentemente,
se confraternizam, com proveito para ambos. A nuvem vermelha de ódio está desaparecendo, o véu negro do
desespero acabou; não há explosões vulcânicas de paixão, nem nos vivos nem nos mortos, e, até onde o autor pôde
ler os sinais dos tempos na aura das nações existe um propósito determinado para pôr fim a esse jogo. Mesmo nos
lares despojados de vários membros, isso parece ser aceito. Existe uma saudade profunda pelos amigos que foram
para o além, mas não há ódio pelos inimigos terrenos. Essa saudade é compartilhada pelos amigos invisíveis, e
muitos estão atravessando o véu, pois a intensidade de sua saudade desperta no “morto” o poder de se manifestar,
atraindo uma quantidade de Éter e gás que, frequentemente, é extraída do Corpo Vital de um amigo “sensitivo”, da
mesma maneira que os Espíritos materializantes usam o Corpo Vital de um médium em transe. Deste modo, os olhos
cegos pelas lágrimas são, muitas vezes, abertos por um coração saudoso, de maneira que os seres queridos, agora
no Mundos Espirituais, são vistos novamente face a face, coração a coração. Este é um método da natureza para
cultivar o sexto sentido que, futuramente, capacitará todos a saber que o ser humano é um Espírito imortal e que a
continuidade da vida é um fato na natureza.
Para compreender a lentidão com que os mortos durante a guerra recobravam a consciência no Mundos
Espirituais, devemos antes de tudo empreender um estudo mais apurado dos quatro Éteres, como descrito no
“Conceito Rosacruz do Cosmos”.
Os átomos dos Éteres Químico e de Vida, reunidos em torno do núcleo do Átomo-semente 91, situado no
plexo solar, têm a forma de prismas. Todos estão situados de tal maneira que, quando a energia solar penetra em
nosso Corpo, através do baço, o raio refratado é vermelho. Essa é a cor do aspecto criador da Trindade, chamado
Jeová, o Espírito Santo, que rege a Lua, o Astro da fecundação. Por conseguinte, o fluido vital que vem do Sol e que
penetra no corpo humano por meio do baço, toma a cor rosa pálida, frequentemente notado pelos videntes, quando
o fluído corre ao longo dos nervos, como a eletricidade corre pelos fios de um sistema elétrico. Assim carregados, os
Éteres Químico e de Vida são as avenidas da assimilação, que preservam o indivíduo, e da fecundação, que
perpetuam a raça.
Durante a vida, cada átomo vital prismático penetra em um átomo físico e o faz vibrar. Para se ter uma ideia
dessa combinação, imaginemos um cesto de arame em forma de pera, cujas paredes de arame torcido em espiral
correm obliquamente de polo a polo. Esse é o átomo físico; sua forma é aproximadamente a da nossa Terra; e o
átomo vital prismático se introduz por cima, o qual é a parte mais larga e corresponde ao polo norte da Terra. Desta
maneira, a ponta do prisma penetra no átomo físico pelo seu ponto mais estreito, que corresponde ao polo Sul de
nossa Terra, e o todo se parece a um pião girando, balançando e vibrando. Desse modo, nosso Corpo adquire vida e
é capaz de se movimentar (É conveniente notar que nossa Terra é, de modo semelhante, permeada por um corpo
cósmico de Éter, e que aquelas manifestações a que chamamos Aurora Boreal e Aurora Austral são correntes
etéricas circundando a Terra, do polo ao Equador, como fazem as correntes dos átomos físicos).
Os Éteres de Luz e Refletor são avenidas de consciência e de memória. São um pouco atenuados nos
indivíduos comuns e ainda não tomaram uma forma definida; interpenetram o átomo como o ar interpenetra uma
esponja, e formam uma ligeira atmosfera áurica no exterior de cada átomo.
Com a morte acontece uma separação; o Átomo-semente 92 se retira do ápice do coração ao longo do nervo
saturnino pneumogástrico, através dos ventrículos, saindo pelo crânio (Gólgota). Todos os átomos do Corpo Vital
ficam libertos da cruz do Corpo Denso, pelo mesmo movimento em espiral que desprende cada átomo prismático de
Éter do seu envoltório físico.
Esse processo se verifica com maior ou menor violência, conforme a causa da morte. Uma pessoa de idade,
cuja vitalidade declinou lentamente, pode dormir e, ao despertar se achar do outro lado do véu sem a menor
consciência de como ocorreu a mudança; uma pessoa devota e religiosa, que se preparou pela oração e meditação
para ingressar no além, poderá se desligar facilmente; aqueles que morrem de frio encontram o que o autor acredita
ser a mais fácil das mortes por acidente, seguindo-se à do afogado.
Porém, quando um indivíduo é jovem e saudável, especialmente se inclinado ao ateísmo e irreligiosidade, o
átomo etérico prismático se acha tão estreitamente envolvido pelo átomo físico, que requer um puxão considerável

91
N.T.: Átomo-semente do Corpo Vital.
92
N.T.: Átomo-semente do Corpo Denso.
para se separar do Corpo Vital. Quando a separação do Corpo Denso dos veículos superiores foi efetuada e o
indivíduo morre, como dissemos, os Éteres de Luz e Refletor são separados dos átomos prismáticos. É essa matéria,
como se descreve no “Conceito”, que molda as imagens da vida passada e as grava no Corpo de Desejos, o qual,
então, começa a sentir tudo que havia de dor ou prazer na vida. A parte do Corpo Vital composta de átomos
prismáticos dos Éteres Químico e de Vida retorna ao Corpo Denso, flutuando sobre a sepultura e se desintegrando
sincronicamente com ele.
Agora chegamos ao âmago da nossa explanação. O Éter é matéria física e enquanto os que morreram por
armas menores em combates de menor importância podem, algumas vezes, serem vistos perambulando, aturdidos,
mas conscientes, as aterradoras detonações dos grandes canhões, tão extensamente usados, têm o efeito de
transformar inteiramente os átomos etéricos prismáticos e destroçar (não esparramar) o invólucro áurico dos Éteres
de Luz e Refletor, que são a base do sentido da percepção e da memória. Até que isto seja explicado dentro da sua
relatividade original, o ser humano permanece aturdido, numa condição comatosa que perdura, muitas vezes, por
semanas. Sob tais condições, essa matéria sutil etérica não pode ser utilizada para a formação das imagens da vida
passada – em sua grande parte está congelada.
Capítulo IV – A Natureza dos Átomos Etéricos – A Necessidade da
Estabilidade
Quando o Ego caminha para o renascimento através da Região do Pensamento Concreto, do Mundo do
Desejo e da Região Etérica, toma certa quantidade de material de cada uma delas. A qualidade desse material é
determinada pelo Átomo-semente, baseado no princípio de que o “semelhante atrai o semelhante”. A quantidade
depende do volume da matéria necessária pelo arquétipo construído por nós mesmos no Segundo Céu. Os Anjos do
Destino e seus agentes constroem uma forma etérica utilizando a quantidade de átomos etéricos prismáticos
apropriados por um determinado Espírito, que, então, é colocada no útero da mãe e, gradualmente, envolvida de
matéria física, formando o Corpo visível da criança recém-nascida.
Somente uma pequena porção de Éter apropriado para um determinado Ego é assim utilizada, e o restante
do Corpo Vital da criança, ou melhor dizendo, o material com o qual este veículo será posteriormente feito, fica fora
do Corpo Denso. Por esta razão, o Corpo Vital de uma criança sobressai da periferia do Corpo Denso muito mais do
que o do adulto. Durante o período do crescimento, essa reserva de átomos etéricos é aplicada para vitalizar os
acréscimos dentro do Corpo, até que, quando for atingida a idade adulta, o Corpo Vital sobressai somente 2,5 a 4
centímetros da periferia do Corpo Denso.
A ciência física confirmou que os átomos em nosso Corpo Denso estão mudando constantemente, de
maneira que todo o material que compõe nosso veículo no presente desaparecerá dentro de poucos anos; contudo,
é um fato conhecido que as cicatrizes e outras manchas de nascença se mantêm da infância à velhice. A razão disso é
que os átomos etéricos prismáticos, que compõem nosso Corpo Vital, permanecem imutáveis do berço ao túmulo.
Estão sempre na mesma posição relativa – isto é, os átomos etéricos prismáticos que fazem vibrar os átomos físicos
nos dedos dos pés ou das mãos nunca chegam às mãos, às pernas ou a qualquer outra parte do Corpo, pois
permanecem exatamente no mesmo lugar em que foram colocados a princípio. Uma lesão nos átomos físicos
implica numa impressão idêntica nos átomos etéricos prismáticos. A nova matéria física, modelada sobre eles,
continua a tomar forma e textura semelhantes à que possuíam originalmente.
As observações precedentes se aplicam somente aos átomos etéricos prismáticos, que correspondem aos
sólidos e aos líquidos no Mundo Físico, pelo fato de adotarem uma certa forma definida que eles preservam. Além
disso, cada ser humano nesse estado de evolução possui também determinada quantidade de Éteres de Luz e
Refletor, que são os veículos dos sentidos da percepção e da memória, mesclados em seu Corpo Vital. Podemos
dizer que o Éter de Luz corresponde aos gases de nosso Mundo Físico; talvez a melhor descrição que podemos fazer
do Éter Refletor é lhe dar o nome de hiper-etérico. É uma substância vazia, de cor azulada, semelhante em aparência
ao núcleo azul de uma chama de gás. Parece transparente, como se revelasse tudo o que contém dentro dele,
entretanto, esconde todos os segredos da natureza e da Humanidade. Nele está contido um registro da Memória da
Natureza. Os Éteres de Luz e Refletor são de natureza exatamente opostas aos estacionários átomos etéricos
prismáticos. São voláteis e migratórios. Uma pessoa pode possuir pouco ou muito desse material, no entanto, ele
constituirá sempre um fator de crescimento, como resultado de suas experiências na vida. Dentro do Corpo se
mistura com a corrente sanguínea e, à medida que cresce por meio do serviço e do sacrifício da pessoa na escola da
vida, e já não pode quase ser contido no Corpo, é visto do lado de fora como um Corpo-Alma azul e dourado. O azul
revela o tipo mais elevado de espiritualidade e, por conseguinte, é o menor em volume e pode ser comparado ao
núcleo azul de uma chama de gás, enquanto a matiz dourada forma a maior parte e corresponde à luz amarela que
circunda o núcleo da chama de gás. A cor azul não aparece no exterior do Corpo Denso, salvo nos casos dos maiores
santos – somente o amarelo é geralmente observado nele. Com a morte essa parte do Corpo Vital é gravada no
Corpo de Desejos com o panorama da vida que ela contém. A quintessência de toda a nossa experiência de vida se
imprime, então, no Átomo-semente como consciência ou virtude, que nos levará a evitar o mal e a fazer o bem na
próxima vida terrestre. É assim que se altera a qualidade do Átomo-semente de uma vida a outra. A quintessência
do bem, extraída da parte migratória do Corpo Vital numa vida, determina a qualidade dos átomos etéricos
prismáticos estacionários na próxima vida terrestre. O mais elevado em uma vida será o mais baixo na seguinte e,
assim, gradualmente, nós nos elevamos pela escada da evolução até a divindade.
Do que foi dito, se torna evidente que o Corpo Vital é um veículo de hábitos; todos os pais deveriam saber
que durante os sete primeiros anos da infância, quando esse veículo está sendo gestado, é que as crianças adquirem
um hábito atrás do outro. A repetição é a nota-chave do Corpo Vital, assim como os hábitos dependem dessa
repetição. Isto é diferente em relação ao Corpo de Desejos, pois ele é o veículo dos sentimentos e das emoções que
estão variando constantemente; mesmo que se diga que o Éter que forma nosso Corpo-Alma está em constante
movimento e se mistura com a corrente sanguínea, esse movimento é relativamente lento comparado com a rapidez
das correntes do Corpo de Desejos; podemos até afirmar que o Éter se move como um caracol, comparado com a
luz.
O que dissemos anteriormente pode ser assim resumido:

• A matéria de desejos se move com rapidez inconcebível, comparável somente com a luz.
• Os dois Éteres superiores viajam também com grande velocidade, embora mais lentamente do que a
matéria de desejos.
• Os átomos etéricos prismáticos que entram na composição dos Éteres inferiores são estacionários, mas
possuem um alto grau de movimento vibratório.
• Os átomos densos permanecem tão estacionários como o cristal na rocha.

Não importa o que as pessoas falem de nós ou para nós; suas palavras carecem de poder intrínseco para
ferir, é nossa própria atitude mental com relação ao que elas disseram que determina o efeito de suas palavras
sobre nós, para o bem ou para o mal. São Paulo, ao se defrontar com a perseguição e calúnia, afirmou que
“nenhuma destas coisas me comove”93. Todos que esperam avançar espiritualmente, devem cultivar um estado de
equilíbrio, pois, sem ele, o Corpo de Desejos correrá desenfreado ou se congelará, conforme a natureza das emoções
geradas pelas relações com os demais, seja preocupação, raiva ou medo. Sabemos que o Corpo Denso é o nosso
veículo de ação, que o Corpo Vital dá a ele o poder para agir, que o Corpo de Desejos fornece o incentivo para a ação
e que a Mente foi dada como um freio para os impulsos. Aprendemos no Livro “O Conceito Rosacruz do Cosmos”
que os pensamentos-forma, dentro e fora do nosso Corpo, estão sendo projetados continuamente sobre o Corpo de
Desejos, em um esforço para despertar o sentimento que conduzirá à ação, e que a razão deve reger a natureza
inferior, deixando que o Ego superior alcance a expressão de suas tendências divinas. Sabemos igualmente que um
pensamento habitual tem o poder de modelar inclusive a matéria física, pois a natureza do sensualista é tão
facilmente perceptível em seus aspectos vulgares e grosseiros, como são delicados e finos os de uma Mente
espiritualizada. O poder do pensamento é ainda maior em sua potência para modelar as vestimentas mais sutis.
Acabamos de ver como os pensamentos de medo e preocupação congelam o Corpo de Desejos da pessoa que seja
indulgente com esse hábito, e é igualmente certo que cultivando um estado mental otimista, sob qualquer
circunstância, podemos sintonizar nossos Corpos de Desejos a qualquer posição que quisermos. Depois de um
tempo isto se tornará um hábito. Admitimos que é difícil sujeitar o Corpo de Desejos sob uma linha definida, porém,
pode ser conseguido e essa tentativa deve ser feita por todos os que aspirem o avanço espiritual.
Quanto ao efeito dessa polarização, sob o ponto de vista oculto, podemos aprender muito sobre certos
costumes das chamadas sociedades secretas. Como sabemos, tais organizações colocam sempre à porta um
guardião com instruções para proibir a entrada daquele que não saiba a palavra-passe e os sinais, e isto surte muito
bom efeito até com as pessoas que funcionam unicamente em seus Corpos físicos. No entanto, os chamados
segredos dessas organizações não são, em hipótese alguma, segredos para aqueles que são capazes de entrar nesses
lugares de reunião em seus Corpos Vitais. De forma muito diversa ocorre numa verdadeira ordem esotérica como,
por exemplo, a dos Rosacruzes. Nenhum guardião impede a entrada ao Templo quando é celebrada a Missa Mística
da Meia-noite, todas as noites da semana. A porta está escancarada para todos aqueles que aprenderam a
pronunciar o “abre-te-sésamo”. Porém, esta não é uma senha falada; o Iniciado que deseja comparecer deve saber
como sintonizar seu Corpo-Alma ao grau de vibração particular mantido naquela noite. No entanto, essa vibração
difere todas as noites da semana, de maneira que aqueles que aprenderam a se harmonizar com a vibração mantida
aos sábados à noite, quando se reúne o primeiro grau, tem sua entrada efetivamente barrada ao Templo quando se
reúnem aqueles que executam seu trabalho aos domingos, na segunda-feira, na terça-feira etc., como qualquer
outra pessoa comum.
A lei cósmica, sob a qual atua o que foi dito, tem também sua aplicação para o controle e efeito de nossos
pensamentos, sentimentos e emoções. Bem disse São Paulo quando manifestou que nós somos o templo do Deus94
vivo (nosso “Eu Superior”). Também criamos uma aura sutil em torno de nós sob a salvaguarda das Divinas
Hierarquias que regem os sete Astros: Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Saturno e Júpiter. O Universo, ou o grande
mundo, é chamado misticamente a lira de sete cordas de Apolo. Nosso organismo individual, ou microcosmo, é uma
réplica ou imagem de Deus, e devemos despertar em nós um eco dessa música das esferas. Muitos de nós

93
N.T.: Atos 20:24
94
N.T.: II Cor 6:16-18
aprendemos a responder bastante às vibrações saturninas de pesar, tristeza, medo e preocupação que congelam
nossos Corpos de Desejos e seria um benefício duradouro se tratássemos de cultivar as vibrações espirituais do Sol,
enchendo nossas vidas de otimismo e de luz solar que dissipariam a tristeza e o desalento saturninos, impedindo que
tais pensamentos penetrassem em nossa aura no futuro.
A primeira necessidade para o adiantamento é o estado de equilíbrio. Todos os que aspiram devem adotar o
lema de São Paulo: “Nenhuma dessas coisas me comove”95.

95
N.T.: Atos 20:24
Capítulo V – Os Efeitos do Remorso - Os Perigos do Excesso de
Banhos
Como existem muitos Estudantes Rosacruzes que praticam os exercícios aconselhados pelos Irmãos Maiores
para o desenvolvimento progressivo da alma, mas que ainda não se sentiram inclinados a penetrar no Caminho, nos
parece conveniente considerar o efeito oculto das emoções geradas por esses exercícios.
No Exercício Esotérico de Retrospecção quando o Aspirante à vida superior revê os acontecimentos do dia
em ordem inversa e chega a um incidente no qual injuriou alguém, deixou de ajudar outro ou não se comportou
como crê ser o ideal de conduta, ele aprende a cultivar um intenso remorso pelo que fez de mal, com o objetivo de
erradicar esse registro do Átomo-semente do coração, onde ficou impresso aquele ato e onde permanecerá até ser
apagado pelo sofrimento no Purgatório, a menos que, previamente, tenha sido eliminado por outros meios, sendo
um desses meios esse Exercício Esotérico de Retrospecção.
No Purgatório, o processo de purificação é efetuado pela força centrífuga da repulsão que arrasta e destroça
a matéria de desejos, na qual o quadro é formado por cima de sua matriz de Éter, fora do Corpo de Desejos. Nessa
ocasião, a alma sofre como fez sofrer os outros, por causa da condição própria das regiões inferiores do Mundo do
Desejo, onde está localizado o Purgatório. Alguns videntes, incapazes de contatar as regiões superiores, falam do
Mundo do Desejo como ilusório, e estão certos no tocante às regiões inferiores, porque ali todas as coisas aparecem
invertidas como nós as vemos em um espelho. Essa particularidade não foi feita sem propósito – nada no Reino de
Deus o é; todas as coisas servem a um fim sábio. Essa inversão coloca a alma daquele que errou na posição de sua
vítima, de maneira que, quando se desenrola na tela uma cena da sua vida passada, em que fez mal a alguém, a alma
não permanece apenas como simples espectadora contemplando a cena representada, mas se torna, naquele
momento, a vítima do erro, sentindo a dor do injuriado, já que a força centrífuga de repulsão exercida para destruir
o quadro do Corpo de Desejos do pecador, deve, ao menos, igualar ao ódio e à raiva da vítima que imprimiu a cena
sobre o Átomo-semente no momento da ocorrência.
Durante a prática do Exercício Esotérico de Retrospecção, o Aspirante se esforça por reproduzir essas
condições; experimenta visualizar as cenas em que fez algo de errado, e o remorso que procura sentir deve, pelo
menos, se igualar ao ressentimento sofrido por aquele que prejudicou. Produz-se, então, o mesmo efeito do apagar
o registro da ofensa, como o faz a força centrífuga de repulsão que efetua a erradicação do mal no Purgatório, com o
propósito de extrair dali a qualidade de alma que conhecemos com o nome de Consciência, e que age como um
dissuasivo na hora da tentação. Assim usada, a emoção do remorso limpa profundamente e purifica o Corpo de
Desejos das ervas daninhas e do joio, deixando livre o terreno e favorecendo o desenvolvimento de todas as virtudes
que florescem no avanço espiritual e oferecem as maiores oportunidades para o serviço na “vinha do Senhor”.
Contudo, assim como a força latente da pólvora e substâncias explosivas similares podem ser utilizadas para
impulsionar os maiores objetivos da civilização ou para levar a efeito os piores atos de barbarismo, também a
emoção do remorso pode ser utilizada de tal maneira que passa a ser um obstáculo e um prejuízo para a alma, em
vez de constituir um auxílio. Quando nos entregamos ao remorso diariamente e de hora em hora, estamos
desperdiçando um poder imenso que pode ser utilizado para os mais nobres objetivos da vida, já que uma constante
mania de se lastimar afeta o Corpo de Desejos, em uma maneira similar à que causam os banhos excessivos no
Corpo Denso, como já descrevemos em “Vício de Excessiva Limpeza”, um artigo publicado em nossa revista “Rays
from the Rose Cross”. Afirmou-se nesse artigo que a água tem grande afinidade com o Éter, absorvendo-o
avidamente como se demonstrou em vários exemplos; afirmou-se, também, que ao tomar um banho em condições
normais, expulsamos boa quantidade de Éteres venenosos e miasmáticos de nosso Corpo Vital, desde que
permaneçamos na água por pouco tempo. Depois de um banho, o Corpo Vital enfraquece ligeiramente e, por
conseguinte, sentimos uma sensação de fraqueza, mas, se gozamos de boa saúde e não permanecemos demasiado
tempo na água, aquela deficiência se modifica imediatamente em uma corrente de força que flui para o nosso Corpo
por meio do baço. Quando esse influxo de Éter fresco tiver substituído a substância prejudicial levada pela água,
sentimos novo vigor que atribuímos ao banho, sem nos darmos conta dos fatos como são detalhados aqui.
Entretanto, quando uma pessoa que não goze de perfeita saúde e adquire o hábito de se banhar todos os
dias, inclusive duas ou três vezes por dia, extrai de seu Corpo Vital um excesso de Éter. A provisão que entra pelo
baço diminui igualmente pela falta de tonificação do Átomo-semente colocado no plexo solar e pelo
enfraquecimento do Corpo Vital. Dessa maneira, é impossível a tal pessoa se recuperar entre tão repetidas abluções
e, em consequência, a saúde do Corpo Denso sofre; perde continuamente as forças e se predispõe a ser um inválido.
“Como é em cima assim é em baixo, e como é em baixo assim é em cima”, diz o aforismo hermético,
explicando a grande lei da analogia que é a chave mestra de todos os mistérios. Ao utilizar a força centrífuga do
remorso, durante o Exercício Esotérico noturno de Retrospecção, para erradicar de nossos corações as faltas
cometidas, o efeito é semelhante à ação da água que remove o venenoso Éter miasmático de nossos Corpos Vitais
durante o banho, deixando lugar para um influxo de Éter puro e saudável. Depois de queimarmos os erros cometidos
no sacrifício do fogo do remorso, a substância tóxica assim extirpada deixa lugar para um influxo de matéria de
desejos, que moralmente é mais saudável, e deixa terreno mais propício para praticarmos as ações nobres. Quanto
mais exaustivamente nos purguemos pelo remorso, tanto maior será o vazio produzido e melhor será o grau de
material novo que atrairemos para os nossos veículos mais sutis.
Contudo, por outro lado, se nos entregarmos ao remorso e aos pesares durante as horas de vigília, como
fazem alguns, excederemos o nosso Purgatório e, ainda que esse tempo seja dedicado à extirpação do mal, a
consciência de cada quadro volta, e este já foi extirpado pela força de repulsão. Aqui, devido a conexão entre os
Corpos de Desejos e Vital, podemos reviver o quadro mentalmente tantas vezes quanto o desejarmos e, enquanto o
Corpo de Desejos se dissolve gradualmente no Purgatório pela expurgação do panorama da vida, uma porção
determinada é acrescida durante a existência no Mundo Físico para substituir a que se expulsou por meio do
remorso. Quando nos entregamos ao remorso e ao pesar excessivos, se produz o mesmo efeito sobre o Corpo de
Desejos que o banho excessivo sobre o Corpo Vital. Ambos os veículos ficam destituídos de força devido a excessiva
limpeza profunda e, por esta razão, é tão perigoso para a saúde moral e espiritual se entregar, indiscriminadamente,
aos sentimentos de pesar e remorso, como é fatal ao bem-estar físico o se banhar demasiado. O discernimento deve
imperar em ambos os casos.
Quando nós praticamos o Exercício Esotérico de Retrospecção, devemos nos entregar ao sentimento de
pesar e remorso com toda a nossa alma; devemos procurar verter lágrimas de fogo que queimem até o mais íntimo
de nosso ser; devemos fazer o processo purificador da maneira mais profunda e completa possível, com o objetivo
de poder crescer em graça até ao máximo possível. Porém, uma vez terminado o exercício, devemos fazer o mesmo
que se faz no Purgatório – considerar os incidentes do dia liquidados e esquecê-los completamente, salvo em casos
que necessitem restituição, desculpas ou atos subsequentes que a consciência nos aponte. Resgatada assim a dívida,
nossa atitude deve ser de um inquebrantável otimismo. “Ainda que vossos pecados sejam escarlates, tornar-se-ão
tão brancos como a neve”96. “Se Deus está conosco, quem estará contra nós?”97. Por aquela atitude morremos
diariamente para a vida passada, para renascer a cada dia para caminhar em uma nova vida espiritual, já que nossos
Corpos de Desejos são assim renovados e preparados para servir a um fim mais elevado na vida, do que o do dia
anterior.
E porquanto nós discutimos sobre o pesar e o remorso aplicados ao problema do crescimento da alma, com
seu efeito sobre os nossos Corpos sutis, podemos, vantajosamente, também mencionar o efeito do pesar voltado
para outras direções. Há pessoas que vivem com o pesar como um companheiro agradável, levam-no para a cama a
noite e despertam com ele pela manhã; levam-no ao trabalho, às compras ou à igreja; sentam-se com ele à mesa e
tratam-no com cuidado como se fosse a coisa mais preciosa que possuíssem, e deixariam até de viver, mas não de
manifestar seu pesar por essa, aquela ou outra coisa.
Como um vampiro que suga o Éter do Corpo Vital de sua vítima e se alimenta dele, os pensamentos
perpétuos de pesar e de remorso, concernentes a determinados fatos, se tornam um elemental de desejo que age
como um vampiro e extrai a vida da pobre alma a quem deu forma, e, em virtude da atração do semelhante pelo
semelhante, alimenta a continuidade desse mórbido hábito de pesar.
Não será com nossos remorsos que ajudaremos os seres queridos que partiram dessa vida e, embora
pensemos que os ajudamos com nossa fidelidade, na verdade, estamos prejudicando-os. Eles abandonaram a esfera
atual de experiência e seguem adiante para outros reinos, onde existem outras lições a aprender, e nós os detemos
em seu caminho com nossos pensamentos, porque eles nos sentem mais profundamente depois que passaram para
o além, e nós temos que considerar um dever lhes dirigir pensamentos de carinho e amor, em lugar do pesar egoísta
que os prejudica tanto quanto a nós. O pesar é destrutivo para o desenvolvimento espiritual, porque, enquanto o
assim criado pensamento elemental permanece agarrado a nós como um vampiro, não podemos nos elevar pelo
escarpado caminho.
Repugnantes como o abutre, que se alimenta de restos decompostos e hediondos dos mortos, são os vãos
remorsos que vivem na mórbida contemplação do passado e de seus erros. É nosso dever expulsá-los de nosso
ambiente mental como expulsaríamos de nosso lar o primeiro abutre que nele tentasse penetrar.

96
N.T.: Is 1:18
97
N.T.: Rm 8:31
Ao invés disso, cultivemos sempre e em tudo, uma atitude de otimismo, pois todas as coisas trabalham
juntas para o bem – Deus está no leme e nada pode sair realmente errado, e tudo sairá certo, dentro do tempo de
Deus.
Parte VI - A Oração: Uma Invocação Mágica

Capítulo I – A Natureza da Oração e a Preparação para Orar


O assunto Oração deve merecer uma profunda atenção e estudo por todos aqueles que aspiram à
espiritualidade, e confiamos que as explicações que se seguem possam ajudar nossos estudantes em seus esforços
neste sentido.
Há uma só força no Universo, nomeada o Poder de Deus, que Ele enviou através do espaço em forma de
uma Palavra; não uma simples palavra, mas o fiat criador, cuja vibração sonora amalgamou milhões de átomos
caóticos em uma infinidade de figuras e de formas, desde a estrela do mar à estrela do firmamento, do micróbio ao
ser humano, tudo o que constitui e habita o Universo. À medida que as sílabas e os sons dessa Palavra Criadora
foram sendo emitidos, uns após outros no transcurso dos tempos, espécies foram sendo criadas e as mais antigas
desenvolvidas, tudo de acordo com o pensamento e o plano concebido pela Mente Divina, antes que a força
dinâmica da energia criadora fosse enviada para fora, para o abismo do espaço.
Isso, então, é a única fonte de poder na qual real, verdadeira e literalmente vivemos, nos movemos e temos
o nosso ser, tão certo como os peixes vivem na água. Não podemos escapar ou nos afastar de Deus, do mesmo
modo que o peixe não pode viver e nadar na terra seca. Não era um mero sentimento poético quando o salmista
disse: “Para onde ir, longe do teu sopro? Para onde fugir, longe da tua presença? Se subo aos céus, tu lá estás; se me
deito no túmulo, aí te encontro. Se tomo as asas da alvorada para habitar nos limites do mar, mesmo lá é tua mão
que me conduz, e tua mão direita me sustenta.”98.
Deus é Luz, e nem mesmo o mais potente telescópio moderno, que pode alcançar milhões de quilômetros
no espaço, conseguiu descobrir os limites da luz. Contudo, nós sabemos que, se não tivéssemos olhos para perceber
a luz e ouvidos que registrassem as vibrações do som, caminharíamos pela Terra em eterna escuridão e silêncio;
similarmente, para perceber a Luz Divina, que sozinha pode iluminar nossa escuridão espiritual, e para ouvir a voz do
silêncio, que é a única voz que poderá nos guiar, devemos cultivar nossa visão e audição espirituais; e a oração, a
verdadeira oração científica, é um dos métodos mais poderosos e eficazes para encontrar graça diante de nosso Pai,
e receber a imersão na luz espiritual, que transforma alquimicamente o pecador em santo e o envolve com o
Dourado Manto Nupcial de Luz, o luminoso Corpo-Alma.

Preparação para a Oração – Ora et Labora

Devemos estar cientes de que a oração por si só não pode efetuar essa transformação. A menos que nossa
vida inteira, tanto despertos como em sono, seja uma oração para a iluminação e santificação, nossas preces jamais
penetrarão na Divina Presença, e nem trarão até nós um batismo do Seu Poder. “Ora et labora” – ora e trabalha – é
um preceito oculto a que todos os aspirantes devem obedecer ou terão sucesso muito pequeno. Nesse sentido, uma
antiga lenda de São Francisco de Assis confirmará o que dissemos. Ela demonstra a luz derramada sobre alguém cuja
vida foi inteiramente consagrada ao serviço de Deus.
Um dia, São Francisco se aproximou de um jovem monge no mosteiro, com o convite: “Vem, irmão, vamos à
cidade e a pregar ao povo”. O jovem monge aceitou o convite com entusiasmo, radiante com a perspectiva de um
passeio com o santo padre, pois sabia que fonte de elevação espiritual isto seria. Caminharam para a vila, subindo e
descendo por várias ruas e praças, absorvidos o tempo todo em uma interessante conversa espiritual, e finalmente
regressaram ao mosteiro. Só então o jovem monge percebeu que haviam estado tão profundamente absorvidos na
conversa que esqueceram por completo o objetivo de sua ida à vila. Delicadamente lembrou a omissão a São
Francisco, ao que esse respondeu: “Filho, enquanto estávamos caminhando pelas ruas da vila, as pessoas nos
observavam, ouvindo trechos da nossa conversa e constatando que falávamos do Amor de Deus e de Seu Filho
querido, nosso Salvador; eles notaram nossas carinhosas saudações e as palavras de ânimo e de consolo aos aflitos
que encontrávamos, e até o nosso traje lhes falava a linguagem e o chamado à religião; assim, estivemos pregando
durante todo o tempo de nossa presença entre eles, de um modo mais efetivo do que se lhes tivéssemos discursado
horas e horas em praça pública”. São Francisco não tinha outro pensamento senão Deus e fazer o bem em Seu
nome, portanto, estava em grande harmonia com a vibração divina, e não nos devemos surpreender que quando ele

98
N.T.: Sl 139:7-10
fazia suas orações regulares se tornava um poderoso ímã para a Vida e Luz divinas, que se difundiam por todo o seu
ser.
Nós que estamos empenhados no trabalho secular do mundo e forçados a fazer coisas que nos parecem
mesquinhas, muitas vezes sentimos que estamos afastados e impedidos de sentir a Luz Divina; porém, se “ fizermos
todas as coisas como se fossem para o Senhor”99 e “formos fiéis nas coisas pequenas”100 veremos que, com o tempo,
se apresentarão oportunidades como jamais havíamos sonhado. Assim como a agulha magnética,
momentaneamente afastada do Norte por uma pressão externa, volta instantaneamente e ansiosamente à sua
posição natural quando se liberta da pressão, também nós devemos cultivar tal anseio por nosso Pai, que fará com
que nossos pensamentos se voltem imediatamente para Ele ao terminarmos nosso trabalho diário no mundo e
ficarmos livres para agir segundo nossa própria inclinação. Devemos cultivar um sentimento similar ao que anima os
jovens enamorados quando, depois de uma ausência, voltam a se encontrar e correm para se abraçarem em um
êxtase de felicidade. Essa é uma preparação absolutamente essencial para a oração e, se voarmos em direção ao
nosso Pai da maneira indicada, a Luz de Sua presença e a doçura de Sua voz nos ensinarão e nos animarão muito
além de nossas mais ardentes esperanças.
O próximo ponto que requer consideração se refere ao lugar da oração, e isso é de vital importância por uma
razão geralmente desconhecida, até mesmo pelos estudantes de ocultismo. Toda oração, quer falada ou não, todo
canto de louvor e toda leitura das passagens da Sagrada Escritura que ensinam ou exortam, se são feitas por um
leitor cuidadosamente preparado, que ama e vive o que lê, derrama e difunde a graça do Espírito tanto sobre aquele
que ora, quanto sobre o lugar da oração. Desse modo, com o tempo, se constrói uma igreja invisível em torno da
estrutura física, a qual, no caso de uma congregação de devotos se torna tão bela que transcende toda imaginação e
dispensa descrição. O personagem Manson no livro “Servente da Casa” 101 nos dá um sutil vislumbre do que é isso,
quando ele diz ao velho Bispo:
“Eu receio que você não considere esse templo de grande importância. Ele deve ser visto de certo modo e
sob determinadas condições. Algumas pessoas nunca o veem na sua totalidade. Você deve compreender que ele não
é um monte de pedras mortas e vigas insignificantes, mas é uma Coisa Vivente. Quando você entra nele, ouve um
som, um som como o de um vigoroso poema cantado. Escute-o bem, e você aprenderá que esse som é feito pelo
palpitar de corações humanos, de música não nominadas das almas dos seres humanos, isto é, se você tem ouvidos
para ouvir. Se você tem olhos, logo verá o próprio templo, um enorme mistério de muitas formas e imagens,
projetando-se verticalmente do solo à cúpula, a obra de um extraordinário construtor. Suas colunas se levantam
como vigorosos troncos de heróis; a delicada matéria humana de homens e mulheres é modelada em torno de seus
fortes e inexpugnáveis baluartes. Em cada pedra fundamental, rostos sorridentes de crianças; seus espantosos vãos
e arcos são as mãos unidas dos companheiros e; em cima, nas alturas e espaços, acham-se inscritas as inumeráveis
meditações de todos os idealistas do mundo. Ele se acha ainda em construção e a construção continua. Às vezes, a
obra segue sob escuridão profunda – outras vezes, sob luz ofuscante – ora, sob o peso de indizível angústia, ora, com
a música de sonoras risadas e aclamações heroicas como o ribombar do trovão. Às vezes, no silêncio da noite, se
pode ouvir o suave martelar dos companheiros trabalhando na cúpula, os companheiros que chegaram no alto”.
Contudo, esse edifício invisível não é um lugar meramente fascinante como um castelo de fadas no sonho de
um poeta; é, como disse Manson, uma coisa vivente, vibrante com a força divina de imensa ajuda para os fiéis,
porque os auxilia no ajuste das caóticas vibrações do mundo que permeiam sua aura quando eles entram em uma
verdadeira “Casa de Deus”, em atitude apropriada de oração. Desse modo, são ajudados a se elevarem em aspiração
ao trono da graça divina, para oferecer ali seu louvor e adoração, solicitando do Pai uma nova efusão espiritual e
recebendo a amorosa resposta: “Este é meu Filho amado em quem Me comprazo”102.
Tal lugar de adoração é essencial ao crescimento espiritual pela oração científica, e aqueles que são tão
afortunados para ter acesso a tal templo deveriam sempre ocupar o mesmo lugar nele, porque este fica impregnado
com suas vibrações individuais e eles se adaptam àquele ambiente mais facilmente do que em qualquer outra parte
e, consequentemente, lograrão melhores resultados.

99
N.T.: Col 3-23:24
100
N.T.: Lc 16:10
101
N.T.: do livro: The Servant in the House por Charles Rann Kennedy
102
Mt 3:17
No entanto, tais lugares são raros, porque para a oração científica é necessário um verdadeiro santuário. Não
deve haver nele, nem em suas proximidades, qualquer rumor ou conversa profana, porque esses fatos alteram as
vibrações; as vozes devem ser contidas e as atitudes reverentes; cada um deve ter em mente que está em um lugar
sagrado e agir de acordo com ele. Por esta razão, nenhum lugar aberto ao público será apropriado.
Além disso, o poder da oração aumenta imensamente com cada nova pessoa que ali ora. O crescimento
pode ser comparado a uma progressão geométrica, se os que ali oram estiverem devidamente harmonizados e
habituados à oração coletiva; acontecendo exatamente o contrário se não o estiverem.
Talvez o seguinte exemplo esclareça esse princípio. Suponhamos que um certo número de músicos que
jamais tenham tocado juntos e que não possuam ainda domínio suficiente do seu instrumento fossem solicitados
para tocar em um concerto; não é necessária uma imaginação perspicaz para compreender que seu primeiro esforço
seria marcado por muita desarmonia, e o mesmo aconteceria se um amador se dispusesse a tocar com eles, ou
mesmo com uma orquestra já formada, não importando quão sério e intenso fosse seu desejo, ele, inevitavelmente,
estragaria a música. Idênticas condições científicas governam a prece coletiva; para que seja eficaz, os participantes
devem estar igualmente preparados, como já explicamos no capítulo anterior; devem ter as mesmas influências
harmoniosas em seus horóscopos. Quando um Aspecto adverso em um tema astrológico se encontra no Ascendente
do outro, estes dois seres não poderão tirar nenhum proveito da oração em comum; eles devem dominar seus
Astros e viver em paz, se são almas evoluídas, mas carecem da harmonia básica, que é absolutamente essencial para
a oração coletiva. Só a Iniciação remove esse obstáculo.
Capítulo II - As Asas e o Poder - A Posição do Corpo - A Invocação
- O Clímax
Ficou claro na primeira parte que há determinadas razões ocultas que não aconselham a oração coletiva,
exceto em circunstâncias especiais.
O conhecimento dessas dificuldades foi que levou Cristo a advertir seus Discípulos para que não fizessem
suas preces diante de outras pessoas e os aconselhou que, quando necessitassem ou quisessem orar, se recolhessem
a seus aposentos. Não podemos ter, individualmente, um edifício bonito e grande para as nossas devoções, nem o
necessitamos; com muita frequência, a pompa e a exibição fazem com que afastemos os nossos corações de Deus.
Porém, a maioria de nós pode, perfeitamente, dedicar uma pequena parte de nosso aposento para a devoção, o
separando com uma cortina ou com um biombo do resto da habitação, ou ainda podemos transformar um cômodo
em um santuário completo. Não importa o tipo das paredes que o separem; é a separação e a invisível Casa de Deus
que construímos com nossas orações, e a graça divina que recebemos como resposta de nosso Pai que são
importantes. Pode-se colocar na parede uma imagem de Cristo e o símbolo da Rosacruz, se o desejarmos, porém
isso não é o essencial. O Olho que Tudo Vê é o preferido por alguns ocultistas avançados que conhecemos, como um
símbolo do Pai. Porém, recordemos as palavras de Cristo: “O Pai e Eu somos um”, e mesmo não tendo uma imagem
autêntica de Cristo, podemos utilizar a que tivermos, já que sabemos que os nossos pensamentos não se perderão
por falta de autenticidade. Cristo é o Senhor dessa era; mais tarde, naturalmente, o Pai tomará este lugar, mas agora
Cristo é o mediador dos povos.
Cremos ser desnecessário dizer que não importam as dimensões do lugar de oração, pois qualquer cômodo
ou habitação do aspirante fiel acha-se compenetrado por uma atmosfera de santidade, pois todos os pensamentos
que ele gerou legitimamente, depois de haver cumprido religiosamente suas obrigações com o mundo, provêm do
Pai Celestial, assim que o lugar reservado ao santuário logo se encherá de supremas vibrações espirituais;
entretanto, qualquer aspirante que pretenda seguir o método científico de oração deve procurar, antes de tudo, um
lugar permanente de residência, porque, se se mudar de um lugar para outro, sofrerá uma perda importante e terá
que voltar a formar as mesmas vibrações. O templo invisível que ele constrói se desintegra gradualmente quando a
adoração cessa.
As Asas e o Poder

É uma máxima mística que “todo o desenvolvimento espiritual começa no Corpo Vital”. Esse é o mais
próximo em densidade ao nosso Corpo Denso, sua nota-chave é a repetição, e é o veículo dos hábitos, sendo assim
difícil de modificá-lo ou influenciá-lo, mas, uma vez que alguma mudança se tenha operado e um hábito tenha sido
adquirido pela repetição, sua atuação se torna, até certo ponto, automática. Essa característica é boa e má com
respeito a oração, porque a impressão registrada nos Éteres desse veículo impulsionará o aspirante ao fiel
cumprimento de suas devoções nas datas marcadas, ainda que possa ter perdido o interesse no exercício e suas
preces sejam meras fórmulas. Se não fosse por esse hábito formando tendências no Corpo Vital, os aspirantes não se
fariam conscientes do perigo no momento exato em que o verdadeiro amor começasse a diminuir e não seria fácil
recuperar a perda e permanecer no Caminho. Portanto, o aspirante deve se examinar cuidadosamente, de tempos
em tempos, para ver se ainda possui as asas e o poder com os quais possa se elevar segura e rapidamente ao nosso
Pai que está nos Céus. As asas são duas: Amor e Aspiração são seus nomes, e a força irresistível que as move é um
intenso anseio. Sem eles e uma compreensão inteligente para dirigir a invocação, a prece é uma tagarelice, enquanto
bem realizada é o mais poderoso método conhecido para o crescimento da alma.

A Posição do Corpo

A posição do corpo importa pouco para a oração individual; a melhor é aquela que nos proporciona a
concentração mais completa; mas, na oração coletiva, os ocultistas experientes têm o costume de permanecerem
com a cabeça inclinada e as mãos enlaçadas de maneira apropriada. Isso forma um circuito magnético que une todos
espiritualmente, desde o princípio dos exercícios. Em comunidades não tão avançadas, se observa que o canto de
hinos feitos de pé, da maneira acima mencionada, produz um grande benefício, desde que todos participem.
A Invocação

Oração é uma palavra da qual se tem abusado tanto, que já não expressa, realmente, o exercício espiritual a
que nos referimos. Como já dissemos, sempre que formos ao nosso santuário devemos ir como o amante que vai ao
encontro de sua amada; nosso Espírito deve voar à frente de nosso lento corpo, em ansiosa antecipação das delícias
que nos estão reservadas, e devemos esquecer tudo o mais para só dar lugar aos pensamentos de adoração que nos
ocorrem no caminho. Isso é literalmente verdadeiro; o sentimento necessário para alcançar bons resultados é
unicamente comparável àquele que impele o amante para a sua amada. “Como a corça bramindo por águas
correntes, assim minha alma está bramindo por ti, ó meu Deus!”103 é uma experiência real daquele que
verdadeiramente é amante de Deus. Se não tivermos esse Espírito, podemos cultivá-lo por meio da oração, e uma
das mais autênticas orações que deveríamos pronunciar constantemente, é a seguinte: “Aumenta meu amor por Ti,
ó Deus, para que eu possa servir-Te melhor cada dia que passa. Faze que as palavras da minha boca e as meditações
do meu coração sejam agradáveis à Tua presença, ó Senhor, minha Força e meu Redentor”104.
As invocações usadas para pedir coisas temporais são magia negra; pois temos a promessa de: “Buscai, em
primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.”105. Cristo nos indicou o
limite a que podíamos aspirar no Pai Nosso, quando ensinou Seus discípulos a dizer: “O pão nosso de cada dia nos
dai hoje”. Tanto no que diz respeito a nós mesmos como aos demais, devemos nos resguardar de ultrapassar esse
limite na invocação científica. Mesmo quando oramos por bênçãos espirituais, devemos evitar que se manifeste
qualquer sentimento egoísta, o que destruiria o nosso crescimento anímico. Todos os santos nos testemunharam
seus dias de obscuridade, e a consequente depressão, quando o divino Amante oculta a Sua face. Isso depende da
natureza e da força da nossa devoção: amamos a Deus por Ele mesmo ou O amamos pelas alegrias que
experimentamos na doce comunhão com Ele? Se for somente por este último motivo, nosso afeto é essencialmente
tão egoísta como os sentimentos da multidão que O seguia pelo alimento que Ele havia fornecido, e agora, como
naquele tempo, é necessário que Ele oculte de nós a manifestação de Seu terno amor e solicitude para que nos
ajoelhemos envergonhados e arrependidos. Felizes somos nós se vencermos os defeitos de nosso caráter e
aprendermos a lição de uma fidelidade firme, tal como a agulha magnética que aponta para o Norte sem vacilar,
embora chova, haja tormenta ou o céu esteja coberto de nuvens negras que ocultam a visão da sua amada estrela.
Dissemos que não devemos orar por coisas temporais e que devemos ter muito cuidado até em nossas
orações por dádivas espirituais; portanto, é autêntica esta pergunta: Qual deve ser o objetivo da nossa invocação? E
a resposta é, geralmente, louvar e adorar. Devemos abandonar a ideia de que toda vez que nos dirigimos a nosso Pai
Celestial devemos Lhe pedir alguma coisa. Não ficaríamos contrariados se os nossos filhos estivessem a todo
momento nos pedindo coisas? Entretanto, não podemos imaginar que Deus se desgoste por nossas importunas
petições, nem devemos esperar que Ele nos conceda tudo o que pedimos porque, muitas vezes, nos prejudicaria.
Por outro lado, quando oferecemos ações de graças e orações, estamos nos colocando em situação favorável com a
Lei de Atração, estamos em um estado receptivo no qual poderemos receber uma nova descida do Espírito do Amor
e da Luz e, deste modo, ficaremos mais perto do nosso ideal adorado.

O Clímax Final

Não é necessário que a invocação, audível ou não, seja mantida durante todo o tempo da oração. Quando nas asas
do Amor e da Aspiração, impelidos pela intensidade de nosso zelo, aproximamo-nos do Trono do nosso Pai, chegará
o momento da doce, mas silenciosa comunhão, mais deliciosa do que qualquer outro estado ou condição; é algo
análogo ao contentamento dos enamorados que ficam sentados horas e horas, um ao lado do outro, sem romper o
silêncio, pois se acham em um estado que transcende, em muito, o estágio onde precisam da fala para se
entreterem. Assim também é no clímax final, quando a alma descansa em Deus, com todos os desejos satisfeitos
pela sensação de comunhão expressa pelas palavras de Cristo: “Meu Pai e Eu somos Um” 106. Quando atingimos este
clímax, a alma terá provado a quintessência da alegria, e não importa quão sórdido possa parecer o mundo ou quão
103
N.T.: Sl 42:2
104
N.T.: Oração do Estudante Rosacruz
105
N.T.: Mt 6:33
106
N.T.: Jo 10:30
triste seja o destino que tenhamos de enfrentar, o amor de Deus, que sobrepassa toda a compreensão, é uma
panaceia para tudo.
Entretanto, este clímax final só é obtido em toda a sua plenitude em intervalos muito raros. Pressupõe não
somente a intensidade de propósito, para se elevar ao divino, como também um fundo de reserva para permanecer
fixo naquele ponto, o que a maioria de nós nem sempre consegue. É muito conhecido o ditado de que nada de valor
se alcança sem esforço. Tudo o que o ser humano fez, o ser humano poderá fazer, e se começarmos a cultivar o
poder da invocação ao longo de linhas científicas aqui especificadas, dia chegará em que colheremos resultados com
os quais nem sequer sonhamos.
Que Deus nos Céus abençoe os nossos esforços!
PARTE VII - Métodos Práticos para Alcançar o Sucesso
Baseados na Conservação da Força Sexual
É tão impossível alcançar um sucesso verdadeiro e duradouro sem viver em harmonia com as leis da vida,
como é para o criminoso viver em paz na sociedade cujas leis ele desrespeitou. E, da mesma forma que ele é
castigado, encarcerado e reprimido devido a seus hábitos predatórios, a natureza também nos castiga, encarcera e
restringe quando desobedecemos às suas leis. Essa restrição se chama doença e é inimiga da felicidade, pois
ninguém pode ser feliz, não importa quão rico seja ou que posição ocupe no mundo, quando se encontra
fisicamente enfermo. Então, é preciso termos em conta que uma das condições vitais que deve ser adquirida pelo
homem ou pela mulher que aspira a felicidade e o êxito na vida, em sua plenitude, é a saúde, incluindo o vigor, pois
somente com boa saúde poderemos ser, suficientemente, otimistas, alegres e vigorosos para alcançar o sucesso que
procuramos.
A Bíblia nos diz que a morte e a enfermidade vieram ao mundo por termos comido da “Árvore do
Conhecimento” e ainda que, sob o ponto de vista materialista, isso possa parecer pueril, não desprezemos a história
sem a estudarmos profundamente. Poderemos comprovar que se acha em perfeita harmonia com os fatos
científicos mostrados atualmente. Consideremos, em primeiro lugar, o significado da Árvore do Conhecimento, por
meio dos seguintes princípios: “Adão conheceu sua esposa e essa deu à luz a Abel”; “Adão conheceu sua esposa e
essa deu à luz a Seth”, e as palavras de Maria ao Anjo: “Como poderei conceber, se não conheço nenhum
homem?”107. Por essas e por muitas outras observações semelhantes, se conclui evidentemente que a Árvore do
Conhecimento era uma expressão simbólica do ato gerador. A Humanidade foi, como diz a Bíblia, concebida em
pecado e, portanto, sujeita à morte da qual não haveria maneira de escapar.
Devemos relembrar que a evolução é uma realidade na natureza; que o ser humano atual é o resultado de
um passado distante e que o presente estado não é o ponto final de uma meta de perfeição, mas que existem
maiores alturas à nossa frente. Assim, todos estamos em um estado de desenvolvimento perpétuo; não existem
paradas ou descansos, pois o caminho é tão ilimitado como a idade do Espírito. O que somos hoje é o resultado do
que fomos ontem, portanto, o que seremos amanhã, dependerá do modo como utilizarmos, atualmente, as nossas
faculdades. Examinemos, pois, o passado, para que, ao conhecermos o que temos sido, alcancemos um vislumbre do
que haveremos de ser.
De acordo com a Bíblia, a Humanidade foi hermafrodita antes de ser separada em dois sexos distintos como
homem e mulher. Ainda temos entre nós hermafroditas que, como pensamos atualmente, têm essa formação
anormal para provar a verdade dessa afirmação Bíblica; e fisiologicamente, o órgão do sexo oposto se acha latente
em todos nós. Durante o período em que o ser humano esteve assim constituído, a fecundação devia ocorrer dentro
de si mesmo; isto não difere muito do que sucede com muitas plantas hoje em dia.
Vejamos, segundo nos diz a Bíblia, qual o efeito da autofecundação nos dias primitivos. Existem dois fatos
principais que são muito significativos: o primeiro, havia gigantes na Terra naqueles dias; o segundo, os patriarcas
viveram centenas de anos; e essas duas características, grande desenvolvimento físico e longevidade, muitas plantas
as possuem atualmente. O tamanho das árvores e a duração de suas vidas são fatos maravilhosos; elas vivem
séculos, enquanto o ser humano vive um número reduzido de anos. Daí nos ocorre perguntar: qual a razão da vida
efêmera do ser humano e qual o remédio? Examinemos primeiro os motivos desta razão, e o remédio aparecerá.
É bem sabido pelos horticultores que as plantas param de crescer durante um florescimento muito prolífero.
Uma roseira, ao florescer intensamente, pode morrer; por essa razão, o jardineiro sábio poda os brotos da planta
para que a força se manifeste, parcialmente, em crescimento, em vez de dar somente flores. Desse modo,
conservando a semente dentro de si mesma, guarda a força necessária para o crescimento e a longevidade. Esse é o
segredo da altura e da longa vida das raças primitivas, como também é o segredo do tamanho e da longevidade das
plantas atuais.
Que a essência criadora na semente é uma substância espiritual é evidente, quando comparamos a
intrepidez e impetuosidade do touro e do garanhão, com a docilidade do boi e dos animais castrados. Além disso,
sabemos que os libertinos e os degenerados se convertem em estéreis e fracos. Quando esses fatos se fixam em
nossa consciência, não nos é difícil entender a verdade da Bíblia quando diz que o fruto da carne, que nos põe sob a

107
N.T.: Lc 1:26-38
lei do pecado e da morte, é antes de tudo e principalmente a fornicação, enquanto os frutos do Espírito, que
conduzem à imortalidade, ainda segundo a Bíblia, são especialmente a continência e a castidade.
Consideremos também a criança e como a força criadora empregada internamente e para ela própria,
produz um extraordinário desenvolvimento durante os primeiros anos, mas, na puberdade, o nascimento da paixão
começa a dominar o desenvolvimento; então a força vital produz a semente com objetivo de alcançar o
desenvolvimento e a expressão em outra direção, sendo que, desde aquele momento, termina o crescimento. Se
continuássemos crescendo, como acontece na infância, seríamos gigantes, como o foram os divinos hermafroditas
do passado.
A força espiritual gerada desde a puberdade e através da vida, pode ser usada com três propósitos: geração,
degeneração ou regeneração. Depende de nós qual dos três métodos escolheremos; mas a escolha que fizermos
terá uma influência importante sobre toda nossa vida, porque o uso dessa força não está confinado ao momento ou
à ocasião em que é empregada. Abrange todos os momentos de nossa existência e determina a nossa atitude em
cada uma das fases da vida entre nossos semelhantes; com a forma de como enfrentaremos os problemas da vida;
se seremos capazes de agarrar as oportunidades ou as deixarmos escapar; se seremos saudáveis ou doentes; e se
nós vivemos nossa vida com um propósito satisfatório; tudo isso depende da forma de usar nossa força vital. Esta
força é a fonte de toda a existência, o elixir da vida.
A parte da força criadora que é legitimamente sacrificada, sobre o altar da paternidade e maternidade, é tão
pequena que pode ser completamente desprezada nessas considerações. Não há razão, sob o ponto de vista
espiritual ou físico, para que deva ser imposto o celibato em uma ordem religiosa, e nem essa imposição se encontra
em qualquer passagem da Bíblia. A mera supressão da atração sexual não é virtude em si mesma; de fato pode até
ser um vício muito sério, pois não há dúvida que milhares de pessoas que foram proibidas ou impedidas de buscar a
satisfação natural, acabem caindo nos vícios mais inconfessáveis. Ainda que se abstenham do ato sexual, seus
pensamentos serão de tal índole que as converterão em sepulcros caiados, horríveis por dentro, mesmo que
externamente possam parecer puros e brancos. O próprio São Paulo, embora não na condição mencionada, disse: “É
preferível se casar a se abrasar”108; essa expressão natural é, de longe, preferível ao estado acima descrito.
Embora existam poucas pessoas que defendam o abuso da função geradora, existem muitos indivíduos que,
mesmo seguindo os preceitos espirituais em outros aspectos, mantém a crença de que a frequente satisfação dos
desejos nos prazeres sexuais não é prejudicial; e existem outros que julgam que esse ato é tão necessário como
qualquer outra função orgânica. Isso está errado por duas razões: primeiro, cada ato criador exige e consome uma
certa dose de força e o organismo deve ser reabastecido com uma quantidade extra de alimento. Isso fortalece e
aumenta o Éter Químico. Segundo, como a força propagadora atua por meio do Éter de Vida, esse constituinte do
Corpo Vital também aumenta a cada gratificação dos sentidos. Deste modo, os dois Éteres inferiores do Corpo Vital
se fortificam dirigindo a força criadora para baixo, para satisfazer o nosso prazer; e as ligações assim formadas e que
oprimem os dois Éteres superiores que formam o Corpo-Alma, vão se tornando mais compactas e mais poderosas
com o tempo. Como a evolução dos poderes anímicos e a faculdade de viajar em nossos veículos mais sutis
dependem da separação que se efetua entre os Éteres inferiores e o Corpo-Alma, é evidente que frustramos o
objetivo que temos em vista, retardando o desenvolvimento pela satisfação da natureza inferior.
Se dirigirmos novamente nossa atenção para o jardim, obteremos uma demonstração palpável e luminosa
dos resultados em seguir o conselho do Apóstolo, quando disse: “guardai a semente dentro”, considerando as
qualidades das diversas variedades de frutas sem semente. As frutas sem semente são maiores e de um sabor mais
agradável do que as que possuem sementes, porque naquelas toda a seiva é empregada com o único propósito de
tornar a fruta deliciosa e suculenta. Similarmente, se nós, em vez de desperdiçarmos nossa substância, vivermos
castamente e dirigirmos a nossa força criadora para a regeneração, refinaremos e eterizaremos nossos Corpos
físicos, ao mesmo tempo que fortaleceremos nosso Corpo-Alma. Desse modo, poderemos materialmente prolongar
a nossa vida e, como consequência, aumentar nossas oportunidades para o crescimento anímico e avançar no
Caminho de forma mais marcante.
Quando tivermos compreendido que o sucesso não consiste em acumulação de riquezas, mas no
desenvolvimento anímico, se tornará evidente que a continência é um fator importante para o êxito na vida.

108
N.T.: I Cor 7:9
Parte VIII - Ensinamentos de um Iniciado

Por
Max Heindel
Fraternidade Rosacruz

Traduzido e Revisado de acordo com:

2ª Edição em Inglês, Teachings of an Initiate, editada por The Rosicrucian


Fellowship

2ª Edição em Português, editada pela Fraternidade Rosacruz São Paulo – SP –


Brasil
Capítulo I - Os Dias de Noé e de Cristo
Nicodemos ao ouvir Cristo falar-lhe sobre a necessidade do renascimento, perguntou: “Como pode ser
isso?”109
Com nossas Mentes inquiridoras, nós também ansiamos por mais luz sobre diversos ensinamentos que
apontam para o nosso futuro. Como seria útil se pudéssemos perceber esses ensinamentos manifestados e
enquadrados nos eventos físicos do quotidiano. Então, teríamos uma base mais firme para sustentar nossa fé e
aceitar coisas ainda desconhecidas.
O método de trabalho do autor tem sido o de correlacionar os fatos espirituais com os fatos físicos, de modo
a apelar, primeiro, para a razão e, só depois, estabelecer a fé. Deste modo tem sido seu privilégio iluminar as almas
que buscam esclarecimentos sobre os mistérios da vida.
Recentemente realizou-se uma nova descoberta. Embora tão remota quanto o Leste para o Oeste, parece
ter relação com a futura vinda de Cristo. Lança uma luz considerável sobre esse evento, principalmente sobre o
nosso encontro com o Senhor que, como diz a Bíblia, será “num piscar de olhos”.
Nossos Estudantes sabem muito bem como é desagradável para o autor relatar experiências pessoais, não
obstante, algumas vezes, como no caso presente, parece necessário e pedimos escusas por usar um pronome
pessoal ao relatar o incidente.
Numa noite, há algum tempo, ao transportar-me para um lugar numa terra distante onde devia
desempenhar uma missão, ouvi um grito. Embora a voz humana só possa ser ouvida através do ar, há sons que são
perceptíveis no reino espiritual a distâncias que excedem as percorridas pelas mensagens do telégrafo sem fio.
Contudo, o grito vinha de perto e fui ao local no mesmo instante, mas não tão depressa para poder oferecer o
socorro necessário. Vi um homem deslizando por um aterro inclinado, sem vegetação, com mais ou menos quatro
metros de largura e, como ficou provado em exame subsequente, sem nenhuma fresta onde pudesse agarrar com os
dedos.
Para salvá-lo, seria necessário materializar braços e ombros, mas não havia tempo. Num instante, ele já
havia deslizado pelo desfiladeiro e estava caindo em um precipício, provavelmente com algumas centenas de
metros; embora não possa ter certeza, pois não sei fazer estimativas de distâncias.
Impelido por um natural Espírito de ajuda ao próximo, aproximei-me e então observei o fenômeno
inspirador do nosso tema. A saber, quando o corpo atingiu uma velocidade considerável, os Éteres do Corpo Vital
começaram a fluir para fora do Corpo Físico. Quando o corpo se chocou contra as pedras lá embaixo, tornando-se
uma massa esfacelada, havia pouco ou nenhum Éter interpenetrando-o. Contudo, gradativamente, os Éteres
agruparam-se, tomaram forma, e pairaram com os outros veículos mais sutis sobre o corpo despedaçado. Mas, o
homem estava em estado letárgico. Era incapaz de sentir ou compreender as mudanças em suas condições.
Quando percebi que ele estava além de qualquer ajuda, retirei-me. Mas, pensando no caso, comecei a sentir
que algo de extraordinário havia acontecido. Era meu dever procurar saber se os Éteres fluíam da mesma maneira
em semelhantes casos de queda. Se assim fosse, por quê.
Tal pesquisa teria sido mais difícil em épocas remotas. Mas, com o atual advento das máquinas voadoras,
principalmente nestes infelizes tempos de guerra, muitas vítimas podem ser investigadas. Assim, ficou mais fácil
constatar que, quando o corpo atinge certa velocidade durante a queda, os Éteres superiores 110 retiram-se do Corpo
Denso e o indivíduo torna-se insensível durante o percurso. Quando o corpo atinge o solo fica destroçado, mas a
pessoa pode retomar a consciência no momento no qual o Éter se reorganiza. Donde terá início o sofrimento
conforme as sequelas no Corpo Físico.
Se a queda continuar após a saída dos Éteres superiores, o aumento da velocidade também desaloja os
Éteres inferiores (Químico e de Vida). Somente o Cordão Prateado permanece unido ao corpo. Seu rompimento
ocorre no momento do impacto com o solo e o Átomo-semente transfere-se para o ponto de ruptura, onde fica
afixado da maneira usual.
Analisando o processo, concluímos que a pressão normal do ar retém o Corpo Vital dentro do Corpo Denso.
Quando nos movemos com uma velocidade anormal, a pressão é removida de algumas partes do corpo e um vácuo
parcial é formado e, por esse motivo, os Éteres retiram-se do corpo e fluem para dentro desse vácuo. Os dois Éteres
superiores, unidos mais frouxamente, são os primeiros a sair e deixam a pessoa inconsciente. Pouco antes, num
rápido instante, esses Éteres desenrolam o panorama da sua vida. Depois, se a queda continuar a aumentar a
pressão do ar na região frontal do corpo e a produzir vácuo atrás, os Éteres inferiores, mais firmemente aderidos,
também são expelidos e o corpo estará morto antes de chegar ao solo.
Examinando uma série de pessoas em estado normal de saúde, verificou-se que cada um dos átomos
prismáticos componentes dos Éteres inferiores está inserido no interior de cada átomo do Corpo Físico. Eles irradiam
109
N.T.: Jo 3: 9
110
N.T.: Luminoso e Refletor
de si mesmos as linhas de força que animam os átomos físicos, provendo todo o corpo com vida. A direção de todas
estas unidades de força está para além da periferia do corpo, onde constituem o que se convencionou chamar
“Fluido Ódico”, também designado por outros nomes.
Quando a pressão do ar exterior fica reduzida em grandes altitudes, manifesta-se uma tendência para o
nervosismo, porque a força etérica interna tende a retirar-se desordenadamente. Se o ser humano não fosse capaz
de impedir a entrada da emanação de energia solar, em parte por grande força de vontade para sobrepujar a
dificuldade, ninguém poderia viver em tais lugares.
Já conhecemos a expressão “choque por explosão”. Sabíamos de vários casos de indivíduos encontrados já
falecidos nos campos de batalha, mesmo sem apresentar qualquer sinal de ferimento. De fato, deparamos e
conversamos com pessoas que desencarnaram dessa maneira. Elas estavam perplexas. Não podiam compreender o
motivo do abandono do Corpo Físico. Relatavam total ausência da sensação de medo. Foram unânimes em
confirmar que, de repente, ficaram inconscientes e logo em seguida perceberam-se na presente condição. Não
exibiam sequer um arranhão em seus corpos, ao contrário de seus companheiros.
Contudo mantivemos uma ideia preconcebida. Em tais situações, cercadas de mistério sobre a causa mortis,
pelo menos em alguns instantes o medo deveria assolar as vítimas. Prosseguimos as investigações para ter um
quadro mais completo. Conjecturamos sobre as peculiaridades dessas mortes e supomos que algo análogo deveria
acontecer durante uma queda. A suposição foi logo demonstrada.
Quando um grande projétil cruza o ar, cria um vácuo atrás de si, em função da enorme velocidade
desenvolvida durante o movimento. Se alguém permanecer na região de vácuo durante a trajetória do projétil,
sofrerá semelhantes consequências, na medida determinada por sua própria natureza e por sua proximidade ao
centro de sucção. Na realidade, nesse evento o sujeito não está em movimento, como na queda, mas fica estático
enquanto um corpo em movimento remove a pressão do ar e permite a saída de seus Éteres.
Se a quantidade de Éter deslocado for relativamente pequena e composta apenas dos Éteres Luminoso e
Refletor (responsáveis pelos sentidos de percepção e da memória), verifica-se apenas uma perda temporária da
memória e uma repentina incapacidade de sentir as coisas ou de se mover. Tal incapacidade desaparece quando os
Éteres extraídos reassumem seus locais de alojamento no interior do corpo denso. É uma tarefa muito mais difícil
quando comparada com a morte do Corpo Denso, pois na morte os Éteres reorganizam-se já livres da matéria física.
Se as pessoas assim atingidas soubessem como efetuar os exercícios que separam os Éteres superiores e os
inferiores, permaneceriam fora do corpo dotadas de plena consciência e talvez prontas para o primeiro voo de sua
alma, se tivessem coragem para decolar. Não importa como, mas podemos dizer com segurança que, ao retornarem
ao Corpo Denso, sentiriam pouco ou nenhum incômodo. Além disso, se o vácuo fosse suficientemente intenso para
desconectar todos os quatro Éteres e causar a morte, provavelmente não haveria um período de inconsciência como
acontece com uma pessoa comum.
Como pudemos constatar, quem afirmava ter passado por instantes de inconsciência estava equivocado.
Seria necessário um tempo variável de um até vários dias, nos casos investigados, para a reorganização completa do
Corpo Vital e o restabelecimento pleno da consciência.
Vejamos agora a relação existente entre os fatos descritos e recentemente descobertos com o advento de
Cristo e nosso encontro com Ele nos “ares”. Quando vivíamos na antiga Atlântida, nas bacias da Terra, a pressão da
névoa carregada de umidade era muito intensa. Isso enrijeceu o Corpo Denso e as vibrações dos veículos mais sutis
nele interpenetrados resultaram consideravelmente desaceleradas.
Assim sucedeu com o Corpo Vital, formado de Éter, matéria natural do Mundo Físico e, portanto, também
sujeita a algumas leis físicas. A força viva da irradiação solar não penetrava na névoa densa com tanta abundância
como hoje, com atmosfera bem translúcida. Acrescente-se também outro fato relevante, os Corpos Vitais dessa
época eram quase inteiramente compostos dos dois Éteres inferiores. Isso favorecia a assimilação e a reprodução.
Fica fácil compreender como o progresso era lentíssimo nessa época. A Humanidade levava uma existência
predominantemente vegetativa. Os maiores esforços direcionavam-se na obtenção de alimentos e reprodução da
espécie.
Se os Corpos Físicos dessa época fossem transferidos para as atuais condições atmosféricas, a falta de
pressão exterior resultaria em deslocamento do Corpo Vital. Todos sofreriam morte instantânea.
Porém, gradativamente o Corpo Físico tornou-se menos denso e a quantidade dos dois Éteres superiores
aumentou. Assim, o ser humano tornou-se apto a viver numa atmosfera límpida, sob uma pressão menos intensa.
Estamos desfrutando desse clima mais rarefeito desde o acontecimento histórico conhecido como “O Dilúvio”,
quando a névoa se condensou e as águas inundaram a Terra.
Desde essa época, também desenvolvemos a capacidade de especializar maior quantidade de força vital
proveniente do Sol. Os dois Éteres superiores, agora em maior proporção no nosso Corpo Vital, permitem-nos
expressar os mais elevados atributos humanos e colaborar para o desenvolvimento desta época.
As vibrações do Corpo Vital, sob a presente condição atmosférica, capacitaram o Espírito a construir a
moderna civilização, repleta de conquistas industriais e artísticas, onde vigoram normas de conduta morais e
espirituais. A superioridade tanto moral quanto industrial está tão interligada e interdependente, como o
desenvolvimento artístico está associado ao crescimento espiritual.
As atividades comerciais, atividades que envolvem compra e venda de mercadorias ou em transações
financeiras relacionadas, atividades industriais (produção de bens e de serviços), as operações e funcionamento de
transportes de mercadorias e pessoas têm a finalidade de desenvolver o lado moral da natureza humana enquanto a
arte desabrocha a natureza espiritual. Assim, estamos sendo preparados para o próximo passo de nosso
desenvolvimento.
Recordemos que as qualificações necessárias para nos emanciparmos das condições predominantes na
Atlântida eram parcialmente fisiológicas. Precisávamos desenvolver pulmões com a finalidade de respirar o ar puro
no qual agora estamos imersos. Nessas condições o Corpo Vital pode vibrar com mais intensidade em comparação
com a pesada umidade da atmosfera Atlântida. Pensando nisso, podemos perfeitamente perceber que o futuro
avanço consiste em libertar inteiramente o Corpo Vital dos entraves do Corpo Denso e deixá-lo vibrar livremente em
meio ao ar puro.
Foi isto o que aconteceu na sublime altitude, esotericamente conhecida como o “Monte da Transfiguração”.
Seres humanos altamente desenvolvidos de várias épocas, Moisés, Elias e Jesus (ou antes, o Corpo de Jesus que
acolheu o Espírito de Cristo) apareceram em vestes luminosas ou em Corpo-Alma plenamente livre. Vestimenta que
será comum aos habitantes da Nova Galileia, o Reino de Cristo.
O Corpo Denso tornar-se-á obstáculo ao progresso espiritual nessa nova etapa: “A carne e sangue não
podem herdar esse reino.”111
Assim, quando Cristo reaparecer, é necessário manter-se em um estado de prontidão. O Corpo-Alma será o
veículo devidamente emancipado das condições materiais. Assim, estaremos prontos para abandonar o Corpo
Denso e sermos “arrebatados para encontrá-Lo nos ares”.
O resultado da investigação, que é a base do presente artigo, pode fornecer um vislumbre do método de
transição quando comparado com o ensinamento bíblico. Diz-se que o Senhor retornará acompanhado de um
poderoso som, como a voz de um Arcanjo. Haverá trovões e toques de trombetas acompanhando o evento.
O som é produto de uma perturbação atmosférica. A passagem de um projétil construído pelo ser humano
pode arrebatar os Corpos Vitais de soldados de seus Corpos Densos. Portanto, não há necessidade de muitos
argumentos para provar que o brado de uma voz sobre-humana pode conseguir o mesmo resultado com maior
eficácia e “num piscar de olhos”.
“Quando acontecerão essas coisas? “112 , perguntaram os Discípulos.
Disseram-lhes que como sucedeu nos dias de Noé (quando estava para começar a Época Ária), assim deveria
ser no Dia de Cristo. Eles comiam, bebiam, casavam-se e eram dados em casamento. Porém, alguns, que talvez não
se diferenciassem tanto dos outros, haviam desenvolvido os tão importantes pulmões e, quando a atmosfera ficou
clara, foram capazes de respirar o ar puro, enquanto os outros, que só possuíam as fendas das guelras, pereceram.
No Dia de Cristo, quando Sua voz emitir o Chamado, aqueles que desenvolveram o Corpo-Alma estarão
aptos para elevar-se acima dos obsoletos Corpos Densos, enquanto outros serão como os soldados que morreram
do “choque por explosão” nos campos de batalha.
Oxalá estejamos adequadamente preparados para esse dia. Assim poderemos seguir os Seus passos.

111
N.T.: ICor 15:50
112
N.T.: Mt 24:3
Capítulo II - O Sinal do Mestre
Na época atual, há muitos que, julgando pelos sinais dos tempos, acreditam que Cristo está na iminência de
retornar e esperam Sua chegada com alegre expectativa. Embora, na opinião do autor, as “coisas que devem antes
acontecer” ainda não ocorreram em muitas particularidades importantes. Não devemos esquecer Sua advertência:

“Assim como era no tempo de Noé, assim será no dia do Filho do Homem.”113

Então, eles comiam, bebiam, divertiam-se, casavam-se e eram dados em casamento até serem tragados pelo
Dilúvio. Apenas um pequeno número se salvou. Portanto, quando oramos pela Sua vinda, também devemos estar
atentos e vigiar. Caso contrário, as preces podem ser atendidas antes de estarmos preparados. O Mestre afirmou:

“O dia do Senhor virá como um ladrão na noite.”114


Mas ainda existe outro perigo, um enorme perigo por Ele apontado:
“Haverá falsos Cristos.”.
“Eles enganariam até mesmo os próprios escolhidos, se isso fosse possível.”115

Assim, fiquemos prevenidos quando exclamarem: “Cristo está aqui na cidade ou encontra-se lá no deserto”.
Não devemos ir, pois certamente seremos ludibriados.
Mas, por outro lado, se não procurarmos, como O conheceremos? Não poderíamos correr o risco de rejeitar
Cristo recusando-nos a ouvir quem julga tê-Lo visto? Quando examinamos as exortações da Bíblia a esse respeito,
ficamos confusos. A questão não fica elucidada e a pergunta permanece: “Como conheceremos Cristo quando Ele
voltar?”. Já publicamos um panfleto sobre o assunto. Entretanto, acreditamos que será muito bem-vindo, para
todos, um esclarecimento adicional.
Cristo disse que alguns dos falsos Cristos operariam sinais e maravilhas. Quando instado pelos escribas e
fariseus a provar Sua divindade por meio de prodígios, Ele sempre Se recusou. Porque sabia que esses fenômenos
apenas excitariam as sensações de maravilhamento e aguçariam a ânsia por muito mais.
Quem presencia essas manifestações é, às vezes, sincero em seus esforços para também convencer e
entusiasmar a outros e, em geral, logra êxito, pois, quem ouve seus calorosos comentários responde prontamente:
“Você afirma ter visto alguém fazer maravilhas e por essa razão agora acredita. Muito bem! Nós também queremos
ver e acreditar”.
Mas, mesmo supondo que um Mestre acedesse a provar Sua identidade, quem na multidão estaria
qualificado para julgar a validade da prova? Ninguém! Quem reconhece o sinal do Mestre ao vê-lo? O sinal do
Mestre não é um fenômeno que possa ser repudiado ou explicado pelos sofistas, nem é algo que o Mestre possa
mostrar ou esconder a Seu bel-prazer. É obrigado a carregá-lo sempre, assim como nós carregamos nossos
membros. Seria absolutamente impossível esconder o sinal do Mestre aos qualificados para vê-lo, reconhecê-lo e
julgá-lo, como seria impossível para nós esconder nossos membros para alguém que tenha visão física. Por outro
lado, como o sinal do Mestre é espiritual, deve ser percebido espiritualmente. Portanto, é impossível mostrar o sinal
do Mestre aos que não possuem visão espiritual, como é impossível mostrar uma forma material a alguém
fisicamente cego.
Assim lemos:

“Uma geração corrompida e adúltera procura o sinal, mas, o sinal não lhe será dado.”116
Mais adiante, no mesmo capítulo (Mt 16), vemos Cristo perguntando a Seus Discípulos:

“Que dizem os homens que Eu, o Filho do Homem, sou?”

A resposta revela que embora os judeus vissem n’Ele um ente superior, fosse Moisés, Elias ou um dos
profetas, eram incapazes de reconhecer Sua verdadeira identidade. Eles não podiam perceber o sinal do Mestre, do
contrário não teriam necessidade de outro testemunho.
Então, Cristo voltou-se para Seus Discípulos e perguntou-lhes:
113
N.T.: Mt 24:37
114
N.T.: IIPd 3:10
115
N.T.: Mc 13:28
116
N.T.: Mt 16:4
“E vós, que dizeis que Eu sou?”117

E de Pedro veio a resposta cheia de convicção, rápida e incisiva:

“Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo.”.

Ele havia visto o sinal do Mestre e sabia do que falava, independentemente de prodígios ou circunstâncias
exteriores, como o próprio Cristo enfatizou ao dizer:

“Bem-aventurado és tu, Simão, Filho de Jonas, pois não foram a carne e o sangue que te revelaram, mas meu Pai que
está no Céu.”.

Em outras palavras, a percepção dessa grande verdade era consequência de uma qualificação interior,
espiritual. Podemos compreender a natureza dessa qualificação pelas palavras de Cristo que se seguiram:

“Pois também te digo que és Pedro (Petros = “Rochedo”) e sobre esta rocha (petra) edificarei a minha Igreja.”.

Cristo disse ao referir-se à multidão de judeus materialistas:

“Uma geração corrompida e adúltera tenta encontrar o sinal, mas o sinal não lhe será dado, a não ser o sinal do
profeta Jonas.”118

Também entre os Cristãos materialistas de nossos tempos há muita especulação nessa direção. Alguns
afirmaram que realmente uma baleia havia engolido o profeta e, mais tarde, o depositou na praia. As igrejas
dividem-se em relação a este tema, assim como em relação a muitos outros. Mas, ao consultarmos registros ocultos,
encontramos uma interpretação que satisfaz o coração sem violentar a inteligência.
Essa grande alegoria, como muitos outros mitos, está retratada nas cenas do firmamento, pois ela foi
representada no céu antes de ser encenada na Terra. Podemos recapitular no céu estrelado “Jonas, a Pomba” e
“Cetus, a Baleia”. Mas não vamos nos ocupar tanto com a parte celestial, e sim com seu reflexo no plano terrestre.
“Jonas” significa pomba, o bem conhecido símbolo do Espírito Santo. Durante os três “dias” que abrangem
as revoluções de Saturno, Solar e Lunar do Período Terrestre, e as “noites” entre eles, o Espírito Santo e todas as
Hierarquias Criadoras trabalharam no Grande Abismo, aperfeiçoando a natureza interna da Terra e da Humanidade,
removendo o peso morto da Lua. Então, a Terra emergiu de seu estágio aquático de desenvolvimento na metade da
Época Atlante, e assim “Jonas, a Pomba Espiritual”, protagonizou a salvação da maior parte da Humanidade.
Nem a Terra nem seus habitantes eram capazes de manter seu equilíbrio no espaço sideral. Portanto, o
Cristo Cósmico principiou Seu trabalho com e em nós. Finalmente desceu como uma pomba durante o Batismo (não
em forma de uma pomba, mas como uma pomba) sobre o homem Jesus. Assim como Jonas, a pomba do Espírito
Santo permaneceu três Dias e três Noites no Grande Peixe (a terra submersa na água). Assim, também, no fim da
nossa peregrinação durante a involução, possa outra pomba, o Cristo, entrar no coração da Terra para o advento dos
três revolucionários Dias e Noites e patrocinar o impulso necessário para nossa jornada evolutiva. Ele deve ajudar-
nos a eterizar a Terra119.
Dessa forma, Jesus tornou-se, no ritual do Batismo, “um Filho da Pomba”, e foi reconhecido por outro
semelhante, “Simão Bar-Jonas” (Simão, Filho da Pomba). Com este reconhecimento pelo sinal de uma pomba, o
Mestre proclama Simão “uma rocha”, a Pedra Fundamental, e lhe confere as “Chaves do Céu”. Estas não são
palavras vãs, nem promessas a esmo. São fases envolvendo o desenvolvimento da alma pelas quais cada um deve
ser submetido, se ainda não passou por elas.
O que é então o “sinal de Jonas” que Cristo ostentou em Si mesmo, visível para todos que pudessem ver, a
não ser a “Casa do Céu”, com a qual São Paulo ansiava ser envolvido: a gloriosa casa de tesouros, dentro da qual
todos os atos nobres de muitas vidas brilham e resplandecem como pérolas preciosas?

117
N.T.: Mt 16:15
118
N.T.: Mt 16:4
119
N.T.: do estado denso ao etérico na preparação para o Período de Júpiter.
Todos nós temos uma pequena “Casa do Céu”. Jesus, Santo e Puro acima de tudo, provavelmente
configurava uma visão esplêndida. Imagine quão indescritivelmente resplandecente deve ter sido o veículo no qual
Cristo desceu. Agora podemos ter uma ideia da “cegueira” dos que pediam “um sinal”.
Mesmo entre Seus próprios Discípulos, Ele deparou-se com a mesma catarata espiritual. “Mostra-nos o Pai”,
disse Filipe, esquecido do conhecimento místico da Trindade na Unidade, que deveria ter sido óbvio para ele. Simão,
contudo, percebeu rapidamente, porque ele, por uma alquimia espiritual, tinha preparado esta pedra espiritual ou
“pedra” do filósofo, que lhe deu o direito de receber as “Chaves do Reino”. É a Iniciação que transforma em poderes
dinâmicos os poderes latentes do candidato que atingiu o requerido grau de evolução através do serviço.
Chegamos à conclusão de que estas “pedras” que edificam o “templo feito sem ruído de martelo” perfazem
um processo preparatório para ascender na evolução. Antes era “Petros”, o diamante bruto, por assim dizer,
encontrado na natureza. Recordemos a Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, Capítulo 10, Versículo 4:
“E todos beberam da mesma bebida espiritual; pois beberam da Rocha espiritual (Petros) que os acompanhava, e
essa Rocha era Cristo.”.
Quando lida com o coração, tais passagens são reveladoras. Gradativamente, ficamos impregnados com a
água da vida jorrando da grande Rocha. Também ficamos polidos como as “lithoi zontes” (pedra vivente) destinadas
a se juntarem àquela Grande Pedra que o Construtor rejeitou. Quando estivermos completamente lapidados,
receberemos finalmente no Reino o diadema, a mais preciosa de todas as joias, o “psiphon leuken” (a pedra branca)
com seu Novo Nome.
Há três fases na evolução da “Pedra da Sabedoria”:
 Petros, a dura pedra bruta;
 Lithon, a pedra polida pelo serviço e pronta para receber novas inscrições;
 Psiphon leuken, a suave pedra branca que atrai para si todos os que são fracos e oprimidos.
Há muita coisa escondida na natureza e na composição da pedra em cada uma das fases. Mas não podem ser
descritas, devem ser interpretadas nas entrelinhas.
Se almejemos construir o Templo Vivo com Cristo no coração do Novo Reino, devemos capacitar-nos para
reconhecer o Mestre e o Sinal do Mestre.
Capítulo III - O Que é Trabalho Espiritual?
Sobre este tema apresentaremos trechos de um maravilhoso poema de Longfellow 120, “A Bela Lenda” (The
Beautiful Legend):
“Sozinho em sua cela,
No chão de pedra ajoelhado,
O monge orava em profunda contrição
Por seus pecados de indecisão.
Suplicava por maior renúncia
Na tentação e na provação;
O mostrador meio-dia já marcava
E o monge em solidão ainda orava”.

“De repente, como num relâmpago,


Algo incomum resplandeceu, afora e no âmago,
E nessa estreita cela de pedra fez abrigo;
Então, o monge teve com o Poder do Clarão
De Nosso Senhor, a Abençoada Visão.
Como um manto, O envolveu,
Como uma veste, O abrigou”.

Contudo, este não era o Salvador açoitado e penitenciado, mas o Cristo que alimenta os famintos e cura os
enfermos.
“A alma em preces acalentada,
Cada mão sobre o peito cruzada,
Reverente, adorando, assombrado,
O monge, perdido em êxtase, caiu ajoelhado”.
“Depois, em meio à sua exaltação,
Retumbante o sino do convento em exortação
De seu campanário tangeu, ressoou,
Por pátios e corredores reverberou
Com persistência badalando,
Como nunca antes ousou”.

Esse era o chamado para seu dever cumprir. Como esmoler da Irmandade sua tarefa era alimentar os
pobres, tal como Cristo ensinou e exemplificou.

“Profunda angústia e hesitação


Misturavam-se à sua adoração;
Deveria ir, ou deveria ficar?
Poderia os pobres deixar
Famintos no portão a esperar,
Até a Visão se dissipar?
Poderia ele seu brilhante hóspede desprezar?
Seu visitante celestial desconsiderar
Por um grupo de míseros esfarrapados,
Mendicantes no portão do convento sediados?
Será que a Visão esperaria?
Será que a Visão retornaria?
Então, dentro do seu peito uma voz
Audível e clara sussurrou,
E ele, nitidamente escutou:
Cumpre teu dever sem inquietação ou protesto,
Deixa aos cuidados do Senhor o resto!”.

“Imediatamente ergueu-se resoluto,


120
N.T.: Poema de Henry Wadsworth Longfellow (1807-1882) foi um tradutor, poeta, romancista, professor, escritor
estadunidense
E com um olhar ardente, decidido e arguto
Dirigido à Abençoada Visão,
Lentamente A deixou em sua cela na solidão,
Diligentemente foi cumprir sua missão”.
“No portão, os pobres estavam esperando
Através do gradil de ferro observando,
Com terror no semblante
Que só se vê no suplicante
Que em meio a desgraças e desditas
Ouve o som das trancas lhe cerrando as portas,

Pobres, por todos desprezados,


Com o desdém, familiarizados,
Com o dissabor, acostumados,
Buscam o pão pelo qual muitos sucumbem!
Mas hoje, sem o motivo sequer saberem bem,
Tal como Portal do Paraíso no além
Abre-se a porta do convento!
E como um divino Sacramento
Parecia-lhes o pão e o vinho nesse momento!
Em seu coração o Monge estava orando,
Nos pobres sem teto pensando,
Tudo que sofrem e suportam
E vendo ou ignorando, muitos rejeitam.
Enquanto isso uma voz interna ao Monge dizia:
O que quer que faças
Ao último e menor dos meus,
A Mim o fazes!”.

“A Mim! Mas se tivesse a Visão


Se apresentado em farrapos e errante,
Como um desvalido suplicante,
Ter-me-ia ajoelhado em adoração?
Ou A receberia com escárnio e presunção
E até ter-me-ia afastado com aversão”.

“Assim questionou sua consciência,


Com insinuações e incômoda insistência,
Quando, por fim, com passo apressado
Dirigindo-se à sua cela com ânsia,
Seus olhos contemplaram o convento iluminado
Por uma luz sobrenatural inundado,
Como uma nuvem luminosa se expandindo
E sobre o chão, paredes e tetos subindo”.

“Mas, assombrado parou a extasiar,


Da porta contemplou, no limiar!
A Visão que lá permanecera,
Exatamente como antes A deixara
Na hora em que o sino do convento soou,
De seu campanário clamou, clamou,
E para os pobres alimentar o intimou.

Por longa e solitária hora esperara,


Seu regresso iminente aguardara.
O coração do Monge ardeu
Quando Sua mensagem compreendeu,
Logo que o Vulto Amado deixou esclarecido:
Eu teria desaparecido
Se tu tivesses permanecido!”.

Vou contar-lhes uma história:


Há muitos e muitos anos atrás; na verdade, há tanto tempo, quase um ontem longínquo, a Terra estava em
trevas e a Humanidade tentava em vão buscar a luz. Alguns a haviam encontrado e decidiram mostrar o seu reflexo
aos outros e, por isso, tornaram-se alvo de copiosa solicitação.
Entre estes, encontrava-se um Ser especial, ele visitou a cidade da luz por algum tempo e conseguiu absorver
um pouco do seu brilho. Imediatamente homens e mulheres, vindos do país da escuridão, foram procurá-lo.
Andaram milhares de quilômetros por terem ouvido falar dessa luz. Quando soube ele desse grande contingente
dirigindo-se para a sua casa, começou a trabalhar e preparou-se para oferecer-lhes o melhor possível.
Fincou estacas ao redor de sua casa e ergueu luzes sobre elas para orientar os visitantes na escuridão,
evitando quedas e transtornos. Ele e seus familiares proveram os peregrinos na medida da necessidade de cada um.
Ele compartilhou os mais profundos ensinamentos com seus hóspedes.
Entretanto, alguns visitantes começaram a murmurar. Esperavam encontrá-lo num pedestal radiante de luz
celestial. Imaginavam-se venerando seu santuário. Mas, em vez da luz espiritual tão esperada, apanharam-no
quando estendia fios com lâmpadas elétricas para iluminar o local. Nem mesmo vestia um turbante ou um manto. A
ordem à qual pertencia, tinha como uma de suas regras fundamentais que seus membros deveriam usar as vestes do
país onde vivessem.
Então, os visitantes chegaram à conclusão de que haviam sido enganados, logrados, e que ele não tinha luz
alguma. A seguir, eles o apedrejaram e, também, aos seus familiares. Tê-lo-iam aniquilado não fosse uma lei que
imperava nessa região. Lei que exigia olho por olho, dente por dente.
Voltaram, então, para o país das trevas, e quando viam uma alma dirigindo-se para a luz, levantavam os
braços e aconselhavam: “Não vás para lá; essa não é a luz verdadeira, é como uma lanterna de bruxa que vai levar-te
para o mau caminho. Sabemos que não há espiritualidade naquilo”. Muitos acreditaram nessas desalentadoras
advertências. Repetia-se nessa ocasião o que foi dito muito tempo antes e está escrito num dos mais antigos livros:

“É esta a condenação: que a luz tenha vindo ao mundo,


mas que os indivíduos tenham preferido as trevas à luz.”.

Como era nesse ontem distante, assim é ainda hoje. Os seres humanos correm de cá para lá procurando a
luz. Muitas vezes, como Sir Launfal13, viajam para os confins da Terra desperdiçando toda sua vida à procura de uma
coisa que chamam “Espiritualidade”, mas só encontram desapontamentos atrás de desapontamentos.
Sir Launfal passou toda sua vida em vã peregrinação, longe do seu lar, e finalmente encontrou o Santo Graal
exatamente às portas do seu próprio castelo. Portanto, qualquer um que honestamente esteja em busca da
espiritualidade, com certeza deverá encontrá-la em seu próprio coração. O único perigo consiste em perdê-la, como
o grupo de viajantes mencionado, por não saber reconhecê-la. Ninguém poderá reconhecer a verdadeira
espiritualidade nos outros, enquanto não a tiver desenvolvido em si mesmo.
Portanto, será interessante tentar estabelecer definitivamente: O que é Espiritualidade?” e, assim, teremos
uma indicação pela qual possamos identificar esta marca característica de Cristo. Para consegui-lo, devemos
abandonar nossas ideias preconcebidas ou do contrário falharemos. A ideia mais comumente aceita sobre
espiritualidade considera a prece e a meditação como seus pilares. Contudo, se analisarmos os exemplos de nosso
Salvador, constataremos uma vida dedicada ao trabalho no mundo. Ele não foi um recluso, não Se afastou nem Se
esquivou da vida pública. Andava entre as pessoas e proveu-lhes as necessidades diárias. Ele as alimentou e curou
quando foi necessário. Pregou e ensinou a boa nova. Portanto, Ele era, no verdadeiro sentido da palavra, um
SERVIDOR DA HUMANIDADE.
O monge da “A Bela Lenda”121 contemplou-O quando estava em oração, enlevado em êxtase espiritual. Mas,
nesse exato momento, o sino do convento soou as doze badaladas e era seu dever ir e imitar o Cristo, cumprindo o
dever de alimentar os pobres reunidos à porta do convento. Na verdade, a tentação de ficar foi muito intensa, pois
queria se banhar nas vibrações celestiais. Mas, então, ouviu a voz:
“Cumpre teu dever sem inquietação ou protesto;
deixa aos cuidados do Senhor o resto.”
121
N.T.: Segunda Parte Conto de um Teólogo – Ver Apendice
Como poderia manter-se em adoração ao Salvador cujo exemplo consistia em alimentar os pobres e curar os
enfermos. Que insensatez seria deixar os pobres famintos fora das portas do convento esperando que ele cumprisse
seu dever! Na verdade, teria sido incoerente, caso permanecesse em sua cela. Assim, quando retornou de sua
missão, a Visão lhe disse:

“Se você tivesse ficado, eu teria ido embora.”

Tal autoindulgência teria sido inteiramente contrária ao propósito de uma vida consagrada ao serviço. Caso
não cumprisse fielmente os pequenos encargos, próprios da vida terrena, como esperar que fosse fiel na grande
obra espiritual? Naturalmente, se não fosse capaz de resistir à prova, não receberia maiores poderes.
Há pessoas que buscam poderes espirituais migrando de um centro de ocultismo para outro. Algumas
entram para conventos ou outros lugares de reclusão, na esperança de desenvolver sua natureza espiritual, fugindo
do apelo e da fascinação do mundo. Aquecem-se ao sol da oração e da meditação, desde o amanhecer até o
anoitecer, enquanto o mundo geme em agonia. Depois se espantam por não progredirem. Não compreendem por
que não avançam no caminho de sua aspiração. Preces sinceras e meditação são necessárias, absolutamente
essenciais para a elevação da alma. No entanto, estamos destinados a fracassar se, para a elevação da alma,
dependermos de orações que não passam de meras palavras. Para obter resultados devemos viver de tal maneira
que toda nossa vida seja uma aspiração. Como disse Ralph Emerson122

“Embora teus joelhos nunca se dobrem,


De hora em hora ao céu tuas preces sobem,
E para o bem ou para o mal sejam formuladas,
Ainda assim são respondidas e gravadas.”.

Não são as palavras pronunciadas ao rezar que contam, mas sim a vida que culmina com a prece.
Qual a vantagem de orar pela paz na Terra aos domingos, quando durante o resto da semana fabricamos
armas? Como podemos pedir a Deus que perdoe as nossas dívidas como nós perdoamos aos nossos devedores,
quando temos nossos corações cheios de ódio?
A fé deve ser demonstrada através de obras. Não importa qual seja a nossa situação na vida: se estamos
numa escala social alta ou baixa; se somos ricos ou pobres; se estamos ocupados em colocar lâmpadas elétricas para
evitar eventuais quedas e acidentes; se temos o privilégio de ocupar uma tribuna mostrando aos outros uma luz
espiritual, ensinando os caminhos da alma. Não importa se as mãos estão sujas ou limpas, talvez encardidas pelo
trabalho mais humilde de cavar o canal do esgoto para conservar a saúde da nossa comunidade; talvez macias e
brancas para cuidar dos enfermos.
O fator determinante para decidir a qualidade do trabalho, se é espiritual ou material, é nossa atitude ao
executá-lo. A pessoa que coloca as lâmpadas elétricas pode ser muito mais espiritualizada do que aquela que se
apresenta na tribuna, pois, é triste saber: há muitos que exercem essa sagrada missão com o desejo de deliciar os
ouvidos de sua congregação com bela oratória, em vez de prodigalizar-lhes verdadeiro amor e solidariedade. É um
trabalho muito mais nobre limpar um esgoto entupido, como o fez o irmão desprezado no livro “O Servo da Casa”
(The Servant in the House), de Kennedy123, do que viver falsamente com as honrarias do cargo de mestre,
ostentando uma espiritualidade que na realidade não existe.
Quem quer desenvolver a rara qualidade da espiritualidade, deve começar oferecendo todo o seu trabalho
para a glória de Deus. Seja o que for, façamos como se estivéssemos nos dedicando ao Pai, não importa a espécie de
trabalho que desenvolvamos. Cavando um esgoto, inventando um mecanismo para facilitar o trabalho, pregando um
sermão ou desempenhando qualquer outro serviço. Tudo é obra espiritual quando feita por amor a Deus e ao
próximo.

122
N.T.: Ralph Waldo Emerson (1803-1882) foi um famoso escritor, filósofo e poeta estadunidense.
123
N.T.: Charles Rann Kennedy (1871-1950) foi um escritor anglo-americano.
Capítulo IV - O Caminho da Sabedoria
Há muitos anos os ensinamentos dos Irmãos Maiores foram publicados, pela primeira vez, no Livro “Conceito
Rosacruz do Cosmos”. Desde então, nossa literatura ampliou-se bastante. Parece-nos oportuno fazer um
levantamento do nosso trabalho para avaliar como estamos empregando os talentos a nós confiados.
Em primeiro lugar, devemos averiguar a razão de ingressarmos na Fraternidade Rosacruz. A principal razão
baseia-se na insatisfação. Não encontrávamos as respostas adequadas para nossas perguntas sobre os enigmas
fundamentais da vida e da morte em outras instituições.
Todos procuram a luz, mas alguns agem como ilustra uma parábola bíblica. Narra-se a história de um homem
que vendo uma pérola de grande valor vendeu todas as posses para comprar a joia. A pérola simboliza o
conhecimento do Reino dos Céus. Em outras palavras, alguns dentre nós estão tão determinados a encontrar a luz, e
ficam tão radiantes quando a encontram, que dedicam toda a vida, pensamentos e disposição a essa tarefa.
A rede de compromissos assumidos impossibilita a maioria de gozar deste grande privilégio. No entanto,
estamos imersos numa teia de relações: se recebemos ajuda somos obrigados, pela lei da compensação, a dar algo
em reciprocidade. Intercâmbio e circulação preenchem todos os espaços e promovem a vida. A estagnação conduz à
morte.
Não é possível ingerir alimento físico e retê-lo no organismo. O processo de eliminação é fundamental para
manter o equilíbrio e a saúde afastando a doença e a morte. Da mesma maneira, não podemos impunemente nos
fartar com uma alimentação mental. Devemos compartilhar nosso tesouro com os outros e empregar os
conhecimentos adquiridos nas obras do mundo. Caso contrário, corremos o risco de estagnação no pântano da
especulação metafísica.
Nos anos que se seguiram desde a publicação do Livro “Conceito Rosacruz do Cosmos”, os Estudantes
dispuseram de bastante tempo para conhecer e praticar seus ensinamentos. Não há expediente para desculpas,
alegando ignorância ou falta de tempo para compenetrar-se no estudo. Não podem usar como pretexto insuficiência
ou incapacidade pessoal para divulgar seu conteúdo.
Mesmo aqueles que têm pouco tempo disponível para estudar, devido aos deveres desempenhados no
mundo, deveriam estar agora suficientemente posicionados “para dar um sentido à sua fé”, como São Paulo nos
exortou a fazê-lo. Mesmo que não consigamos mostrar a luz a todos que solicitam, devemos praticá-la na
intimidade, em gratidão aos Irmãos Maiores e de maneira impessoal a toda Humanidade. O desenvolvimento de
nossa própria alma depende do grau de participação e empenho no fortalecimento do movimento ao qual estamos
ligados. Portanto, é conveniente que compreendamos detalhadamente qual a missão da Fraternidade Rosacruz.
Isto está inteira e claramente elucidado no capítulo introdutório do “Conceito”. Em resumo, sua missão
concentra-se em proporcionar uma explicação sobre as questões da vida capaz de contemplar tanto as necessidades
da Mente como do Coração. Com a finalidade de remover as confusões inerentes a duas classes de pessoas: os
eclesiásticos e os cientistas. Ambos seguem tateando nas trevas pela carência de um conhecimento unificador e
podem ser muito beneficiados com nossa literatura.
Designamos eclesiásticos todos os que são guiados por uma sincera devoção ou bondade natural, pertençam
ou não a alguma igreja. No âmbito dos cientistas incluímos os que encaram a vida de um ponto de vista puramente
mental, sejam atuantes ou não no campo da ciência.
É propósito e objetivo do Livro Conceito Rosacruz do Cosmos ampliar o campo de ação espiritual de um
número sempre crescente dessas duas classes que pressentem, com maior ou menor clareza, a falta de algo de
grande importância em sua concepção da existência.
Devemos lembrar o episódio do Rei Davi. Quando desejou construir um templo a Deus foi-lhe negado esse
privilégio. Isso por ter empunhado armas como guerreiro de sua tribo. Sempre houve organizações a combater
outras organizações. Apontando erros e buscando meios de destruir as rivais, guerreando tanto quanto Davi o fez
outrora. Com essa atitude, não se conquista a permissão para construir o templo que é feito de pedras vivas de
homens e mulheres. Esse templo ao qual o personagem Manson se refere com tão belas palavras no livro “O Servo
da Casa” (The Servant in the House)124
Portanto, quando tentamos divulgar as verdades dos Ensinamentos Rosacruzes, devemos sempre ter em
mente que não podemos impunemente depreciar a Religião de quaisquer outros nem os antagonizar. Não é nossa
missão lutar con-tra seus erros. Eles infalivelmente manifestar-se-ão no devido tempo.
Quando Davi morreu Salomão reinou em seu lugar. Este teve uma visão de Deus em sonho e Lhe pediu
sabedoria! Foi-lhe dada oportunidade de pedir o que bem quisesse, e Salomão pediu sabedoria para guiar seu povo.
Na verdade, foi esta a resposta recebida:

124
N.T.: de Charles Rann Kennedy (1871-1950): foi um escritor anglo-americano .
“Porque em teu coração pediste sabedoria, porque não pediste riquezas ou vida longa ou vitória sobre os teus
inimigos ou qualquer coisa semelhante, mas pediste sabedoria, ser-te-á concedida essa sabedoria e muito mais do
que isso.”125

Portanto, devemos seguir o exemplo de Salomão e orar sinceramente por sabedoria. Mas, é importante
dispor de critérios para reconhecê-la. Portanto convém comentar o que é a verdadeira sabedoria.
Diz-se, e é verdade, que saber é poder. Saber, embora não seja nem o bem nem o mal em si mesmo, pode
ser usado tanto para um como para o outro fim. O gênio apenas mostra a propensão para o saber, mas o gênio pode
também ser bom ou mau. Falamos de um gênio militar, dotado de maravilhoso conhecimento sobre táticas de
guerra. Tal homem, porém, não pode ser verdadeiramente bom, pois está destinado a ser impiedoso e destrutivo ao
manifestar sua genialidade.
Um guerreiro, seja ele Napoleão ou um simples soldado, nunca poderá ser sábio, porque deliberadamente
deve esmagar todos os bons sentimentos. Vale lembrar-se do coração como símbolo dos mais nobres sentimentos.
Um GOVERNANTE SÁBIO TEM UM GRANDE CORAÇÃO, assim como tem uma inteligência superior. Tem o coração e o
intelecto em harmonioso equilíbrio para promover o desenvolvimento de seu povo.
Mesmo o mais profundo conhecimento sobre assuntos Religiosos ou ocultos não é sabedoria, como nos
ensina São Paulo no seu magnífico 13º Capítulo da Primeira Epístola São Paulo aos Coríntios:

“Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, se não tiver amor, nada serei”.

Somente quando o conhecimento se mesclar com o amor poderá realmente se converter em sabedoria.
AMOR-SABEDORIA é a expressão do princípio Crístico, o segundo aspecto da Divindade Trina.
Deveríamos ser muito cautelosos para compreender e discernir corretamente. Só assim podemos eleger
caminhos vantajosos para alcançar um determinado objetivo e evitar ciladas que causam atrasos e angústia.
Podemos optar por um caminho de sofrimento no presente visando futuras realizações, mas não é necessariamente
sinônimo de sabedoria. Conhecimento, prudência, discrição e discriminação são próprios da Mente. Em si mesmo,
todos são tentações do mal. Cristo na Oração do Senhor nos ensinou a pedir: “Livrai-nos do mal”. As faculdades
inatas da Mente devem ser temperadas com a qualidade inata do coração, o amor. Dessa mescla resulta a sabedoria.
Se lermos o 13º Capítulo da Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, substituindo a palavra caridade ou
amor pela palavra sabedoria, entenderemos o significado dessa grande qualidade e a desejaremos ardentemente.
Portanto, é missão da Fraternidade Rosacruz divulgar uma doutrina capaz de unir o intelecto com o coração.
Esta é a única verdadeira sabedoria. Nenhum ensinamento genuinamente sábio pode prescindir de um destes
elementos. Do mesmo modo, não podemos fazer soar um acorde musical com apenas uma corda. Assim como a
natureza humana é complexa, também os ensinamentos que contribuem para esclarecer, purificar e elevar esta
mesma natureza devem ter aspectos múltiplos. Cristo seguiu este princípio quando nos legou aquela prece magnífica
que, em suas sete estrofes, atinge a nota-chave de cada um dos sete veículos do ser humano e os agrupa nesse
magistral acorde de perfeição mais conhecido e popularizado como Oração do Senhor (Pai Nosso).
Mas, como transmitiremos ao mundo essa maravilhosa doutrina que recebemos de nossos Irmãos Maiores?
A resposta a esta pergunta é: Agora e sempre vivendo a vida.
Diz-se, para o eterno mérito de Maomé, que sua esposa foi sua primeira discípula. Com toda certeza não
foram apenas seus ensinamentos, mas a vida que vivia no lar, dia a dia, ano após ano, que conquistou a confiança de
sua companheira, de tal modo que ela não hesitou em depositar em suas mãos seu destino espiritual.
É relativamente fácil permanecer diante de estranhos que desconhecem nossas mazelas e para quem nossos
defeitos não são visíveis, e pregar por uma ou duas horas cada semana. Mas é muito diferente pregar vinte e quatro
horas por dia dentro do lar, como Maomé deve ter feito vivendo a vida.
Para obtermos o mesmo êxito de Maomé devemos principiar pelo exemplo na própria casa. Demonstrar aos
irmãos mais próximos, no exercício do cotidiano, os ensinamentos que norteiam nossa existência. Isso é realmente
sabedoria. Diz-se que a caridade começa em casa. Esta é a palavra que deveria ser traduzida por “amor” no 13º
Capítulo da Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios. Mude isto também para sabedoria e leia: a disseminação da
sabedoria começa em casa. Que seja este o nosso lema através dos anos.
Vivendo a vida em nosso lar, promoveremos nosso ideal, de forma mais eficaz do que por qualquer outro
método. Muitas pessoas céticas se converteram à Fraternidade Rosacruz através da conduta de seus maridos,
esposas ou familiares. Possam os demais segui-los.

125
N.T.: 2Cr 1:11-12.
Capítulo V - O Segredo do Sucesso
Eis um tema para despertar o interesse geral. O desejo de obter sucesso está presente em todos. Mas a
questão é: como podemos definir sucesso? Provavelmente cada indivíduo formulará uma resposta muito particular
para esta pergunta. Mas, aprofundando o pensamento colhemos algumas evidências. Seja qual for o caminho
escolhido para atingir a meta do sucesso, esse caminho deve seguir os rumos da evolução da Humanidade. Portanto,
devemos encontrar um fator comum no conceito de sucesso e desvelar seu segredo.
Portanto, seria um erro buscar a solução deste problema estudando apenas a vida do ser humano na
presente época. Devemos considerar cuidadosamente os estágios de desenvolvimento no passado e observar
atentamente as tendências das futuras diretrizes da Humanidade. Assim podemos elaborar um quadro preciso e
confiável para responder a esta importante questão.
Não há necessidade de adentrar em detalhes secundários. Podemos sumariar sem perda de rigor. Nas
épocas pretéritas da nossa evolução, quando a Humanidade em formação imigrava dos Mundos espirituais para a
presente existência material, o segredo do sucesso residia no conhecimento do Mundo Físico e de suas leis e
características próprias.
Nesse tempo não era necessário descrever os Mundos Espirituais para os seres humanos. Nossos veículos
mais sutis eram fatos patentes para todos. Nós víamos e vivíamos num reino espiritual. Nesse tempo ainda
estávamos gradualmente interpenetrando o Mundo Físico. Portanto, as escolas de Iniciação ensinavam aos pioneiros
da Humanidade as leis que governam o Mundo Físico. Os Iniciados aprendiam a maestria das artes e dos engenhos
capacitando-se a conquistar o reino material. Desde essa época até uma data comparativamente recente, a
Humanidade vem trabalhando para aperfeiçoar-se nesses ramos do conhecimento. Eles atingiram a mais alta
expressão nos séculos imediatamente anteriores à descoberta do vapor. Agora, contudo, encontram-se em
decadência.
À primeira vista, esta parece ser uma afirmação injustificável. Mas, um exame mais cuidadoso dos fatos irá
rapidamente revelar a verdade nela contida. Na chamada Idade Média não havia fábricas, mas todas as cidades e
aldeias possuíam pequenas oficinas onde o dono, às vezes só ou com artesãos e aprendizes, executava as obras do
seu ramo, desde a matéria prima até o produto, desempenhando sua arte e Espírito criativo com toda a alma e
coração em cada peça nascida de suas mãos. Se fosse ferreiro, sabia como produzir trabalhos ornamentais em ferro
para tabuletas, portões e outras peças que iriam ornar os originais detalhes dessas cidades e aldeias medievais. Sua
obra mantém-se viva nos trilhos da história.
Ao andar pela cidade o artesão podia rever este ou aquele ornamento e orgulhar-se de sua beleza. Orgulhar-
se também por conquistar o respeito e admiração de seus concidadãos por seu trabalho artístico e consciencioso. O
marceneiro preparava a estrutura das cadeiras e, também, as estofava com trabalhos de tapeçaria, cujas estampas
artísticas tentamos agora imitar. O sapateiro, o tecelão e todos os outros artesãos, sem exceção, produziam o artigo
final partindo da rústica matéria prima. Todos se orgulhavam de suas obras.
Trabalhavam arduamente por muitas horas, mas sem queixas, pois todos se regozijavam durante o exercício
de seus talentos e criatividade. O canto do ferreiro, acompanhado pelo martelo na bigorna, era ouvido por todos. Os
oficiais e aprendizes não se consideravam escravos, mas sim mestres em formação.
Depois veio o período do vapor e das máquinas. Surge, então, um novo tipo de mão-de-obra. Em lugar da
produção de um objeto confeccionado por uma só pessoa, desde a matéria prima, o que contemplava seu talento
criativo, o novo plano de produção qualificava as pessoas para operarem em máquinas que fabricam apenas uma
parte do produto. Depois, essas partes são montadas em outro setor também especializado.
Embora este plano diminuísse o custo da produção e aumentasse o rendimento, não deixava espaço para o
Espírito criativo do indivíduo. Ele se transformou meramente em um dente da engrenagem de uma enorme
máquina.
Na loja medieval, o dinheiro era, na verdade, pouco considerado. O prazer de produzir era tudo. O tempo
não importava. Mas sob o novo sistema, as pessoas começaram a trabalhar por dinheiro e contra o tempo.
Em consequência, a alma dos mestres perdeu sua fonte de alimento. Assim também ocorre com os demais
indivíduos inseridos no novo sistema. Perderam o essencial e conservaram apenas a sobra daquilo que torna a vida
digna de ser vivida. Agora trabalham por algo que não poderão usar nem desfrutar. Com isso toda a Humanidade foi
penalizada.
Que diríamos de um jovem cuja ambição fosse acumular um milhão de lenços que nunca poderia usar? Com
certeza o consideraríamos um tolo. Por que não colocarmos nessa mesma categoria a pessoa que gasta todas as suas
energias e se priva de todos os confortos da vida para tornar-se um milionário?
Este sistema não pode perdurar. Ele está dando ao indivíduo uma pedra quando ele pede pão. Na verdade, é
apenas mais uma etapa preparatória para alcançar outro degrau na espiral evolutiva. Novos modelos de
desenvolvimento estão em processo de gestação. Novos ideais surgirão para ampliar nossa visão.
Sobre a tendência da evolução vamos aprender com nossos irmãos mais qualificados e inspirados. Os poetas
e os visionários iluminam nossos caminhos. James Russell Lowell 126 emite uma nota-chave de incomparável clareza
em sua Visão de Sir Launfal. É a história de um cavaleiro lançando-se em uma saga ao deixar seu castelo. Imbuído do
desejo de realizar grandes e corajosos feitos para Deus. Junta-se às Cruzadas em busca do Santo Graal na distante
Palestina. Sai do castelo convicto de sua nobre missão, orgulhoso, arrogante, voltado para sua meta. No portão do
palácio encontra um pobre mendigo, um leproso. O indigente estende a mão suplicando uma esmola. Sir Launfal não
demonstra compaixão. Para livrar-se daquela situação repugnante, atira uma moeda de ouro e segue seu caminho
procurando esquecê-la:
Mas o leproso não ergueu o ouro do pó e disse:

“Melhor para mim é a côdea de pão que o pobre me dá,


também melhor é sua mão que me abençoa,
e, assim, de mãos vazias de sua porta devo me afastar.
Esmolas só com as mãos dispostas a ofertar,
não são sinceras nem verdadeiras.
Inúteis são o ouro e as riquezas para prover,
quando apenas libertam de um indesejável dever.
Porém, a mão não pode abarcar o que a esmola contém,
quando vem daquele que reparte o pouco que tem,
que dá o que não é possível medir nem pesar,
esse fio de beleza que tudo sabe perpassar,
que tudo sustenta, penetra e compreende.
A mão do coração amoroso se estende
Quando Deus acompanha o ato da doação,
alimentando a alma faminta, em desolação,
que antes sucumbia solitária, na escuridão”.

Mas, e Sir Launfal? Com esse modo de pensar poderia esperar alcançar sucesso e encontrar o Graal? A
resposta com certeza é não. Só encontra decepção sobre decepção. Por fim, retorna a seu castelo, desalentado e
com o coração humilde. Aqui, depara-se novamente com o leproso, mas, ao vê-lo:

“Só cinza e pó era seu coração.


Ele partiu em duas, sua única côdea de pão,
e derretendo o gelo das margens do riachão,
ao leproso deu de comer e beber pela mão”.
Tendo cumprido seu ato de misericórdia, recebeu a recompensa:
“Não mais o leproso ao seu lado se curvava,
mas, à sua frente, glorioso se levantava”.
E a voz, ainda mais doce que o silêncio, disse:
“Vê, Sou Eu, não temas!
Na busca do Santo Graal, em muitos lugares
consumiste tua vida, sem nada encontrares.
Olha! Ei-lo aqui: o cálice que acabaste de encher
com a límpida água do regato que Me deste de beber.
Esta côdea de pão é Meu corpo
sacrificado para tua remissão.
Esta água é de Meu sangue porção,
vertido para tua salvação.
A Santa Ceia é mantida, na verdade,
quando ajudamos o próximo em sua necessidade.
Pois a dádiva só tem valor
se com ela vem também o doador,
e a três pessoas ela alimenta assim:
ao faminto, a si própria e a Mim”.

126
N.T.: James Russell Lowell (1819-1891) – poeta romântico, crítico, satírico, escritor, diplomata e abolicionista
americano
Nestas palavras repousa o segredo do sucesso. Prontidão para fazer as pequenas coisas da nossa esfera de
ação, esse é o segredo. Coisas, talvez, aparentemente desagradáveis, mas próximas de nossas mãos, em lugar de
peregrinar em busca de fantasias quiméricas que jamais se transformarão em algo definido e tangível.
Mas o que de fato representa para nós o episódio relatado anteriormente? Mais uma vez podemos obter a
resposta de um poeta, Oliver Wendel Holmes 127 Ele nos fala do náutilo. Pequena criatura marinha que primeiro
constrói uma concha, de tamanho suficiente para abrigá-la. À medida que vai crescendo, constrói outro
compartimento maior para poder ocupar até o período seguinte de seu crescimento. Assim procede até construir
uma concha em espiral, tão grande quanto possa, e depois a abandona. Esta ideia o poeta transmite nas seguintes
estrofes:

“Oh, Minh’alma! Constrói para ti lar majestoso,


enquanto passam as estações em ritmo silencioso!
Abandona teu invólucro demasiado pequeno
e habita novo templo, mais nobre e grandioso,
com cúpula celeste, com domo espaçoso.
E entrega tua concha já superada
aos agitados mares desta vida,
no dia da libertação, com tua missão cumprida!”.

Quando atingirmos este ponto, teremos alcançado o sucesso. Todo o sucesso possível de ser conquistado em
nosso mundo atual. Dessa forma ingressaremos numa nova esfera, com melhores oportunidades.

127
N.T.: (1809-1894) - médico americano, professor, palestrante e autor.
Capítulo VI - A Morte da Alma
De tempos em tempos, aparentemente seguindo uma lei de periodicidade, as mesmas dificuldades surgem
inesperadamente na Mente dos Estudantes. De diferentes partes do mundo, ao mesmo tempo, chegam cartas
pedindo informações sobre determinado assunto e posteriormente sobre outro. Depois de anos os mesmos temas
ressurgem. Enquanto a resposta é dirigida aos que perguntam, é provável que outros estejam interessados no
mesmo assunto e simultaneamente. Esse é o motivo desta lição sobre a morte da alma. Esse tema preocupa a
Mente de muitos, talvez porque a morte do corpo seja tão comum e frequente.
Há alguns anos, publicamos uma lição sobre “O Pecado Imperdoável e Almas Perdidas”. Os Sacramentos
eram o tema abordado na ocasião. Afirmamos que todos os Sacramentos têm relação com a transmissão dos
Átomos-sementes que formam o núcleo de nossos vários corpos.
O germe de nosso corpo terrestre deve ser corretamente colocado em solo fértil para formar um veículo
denso apropriado e, por essa razão, como está escrito no Gênese 1:27, “Elohim criou o homem varão e fêmea”. As
palavras hebraicas são Sacr va N’cabah. Estes são os nomes dos órgãos sexuais. Em tradução literal Sacr significa o
portador do germe.
O Matrimônio é, portanto, um Sacramento, pois abre o caminho para a transmissão do Átomo-semente
físico do pai para a mãe e preserva a raça humana da irreversível extinção.
O Batismo como Sacramento significa a pulsão germinal da alma em direção a uma vida superior, é o plantio
de uma semente espiritual.
A Comunhão é o Sacramento no qual partilhamos o pão feito da casta semente da planta na qual o cálice
simboliza e aponta para uma época futura em que a semente será fecundada sem a paixão. Uma época em que o
matrimônio será desnecessário para transmitir a semente do pai para a mãe. Assim, conquistaremos a morte através
do alimento absorvido diretamente da vida cósmica.
Finalmente, a Extrema Unção é o Sacramento que caracteriza o rompimento do Cordão Prateado e a
extração do germe sagrado, até que seja novamente plantado em outra N’cabah, ou mãe.
Como a semente e o óvulo são a raiz e a base de um desenvolvimento racial, é fácil perceber que nenhum
pecado pode ser tão sério quanto o que abusa da função criadora. Este sacrilégio impede o crescimento das futuras
gerações. É uma transgressão contra o Espírito Santo, Jeová, o guardião da criadora força lunar. Seus Anjos
anunciam nascimentos, como no caso de Isaac, João Batista e Jesus. Para recompensar Abraão, Seu mais fiel
seguidor, prometeu-lhe que sua descendência seria tão numerosa como as areias da praia. Ele também puniu
terrivelmente os Sodomitas por cometerem sacrilégio usando incorretamente a função criadora. E, também, o
pecado de Onã128, cuja tônica é o desperdício dessa função.
A Bíblia relata que a Humanidade estava proibida de comer da Árvore do Conhecimento sob a pena de
morrer. Mas, em vez de esperar pacientemente pelas condições interplanetárias propícias, Adão conheceu Eva e,
desde então, ela deu à luz a seus filhos com dores, sofrimentos e sujeitou-os à morte prematura. Portanto, o abuso
desta sagrada função para gratificação da natureza passional, e particularmente por perversão, é reconhecido pelos
esotéricos como o pecado imperdoável. Sobre esse tema alude São Tiago, quando diz: “Há um pecado mortal. Não
digo que deveis rezar para isso.”129
Investigações ocultas provaram neste caso, assim como em todas as outras formas de conhecimento, que
Deus e a natureza são muito mais clementes e misericordiosos para com o ser humano do que este para com seus
iguais. Embora a punição justa aplicada aos que viveram uma vida de pecados e vícios tenha sido realmente severa
em todos os casos, nada é tão sério como a “morte da alma”.
Tanto quanto é do nosso conhecimento, apenas o Mago Negro abusa conscientemente da força criadora
para propósitos malévolos, e enfrenta algo tão terrível como a morte de sua gema preciosa. Realmente não haveria
necessidade de abordar o assunto, a não ser porque projeta luz sobre outros temas valiosos para o Estudante.
Para bem entender isto devemos relembrar as precisas definições dos termos Espírito, Alma e Corpo, explanadas no
“Conceito Rosacruz do Cosmos”. Podemos recapitular um trecho: no princípio da manifestação do Espírito Virginal,
cada Centelha Divina envolveu-se em um tríplice véu de Espírito-matéria e tornou-se Ego.
O Tríplice Espírito moldou e projetou uma sombra tríplice sobre os reinos constituídos de matéria. Assim, o
Corpo Denso desenvolveu-se como uma contraparte do Espírito Divino. O Corpo Vital como uma réplica do Espírito
de Vida. O Corpo de Desejos como a imagem do Espírito Humano.

128
N.T.: Onã, ou Onan, é um personagem bíblico do Antigo Testamento, mencionado no livro de Gênesis como o
segundo filho de Judá. Ao ter relações sexuais com Tamar, a Bíblia diz que Onã “desperdiçou o seu esperma na
terra”, ou seja, não a inseminou, jogando dessa forma fora seu esperma em um coito interrompido, conduta essa
que aborreceu a Deus que tirou sua vida (Gn 38:9-10).
129
N.T. Tg 1: 15.
De relevante importância foi a construção da Mente. Ela é o elo de ligação entre o Tríplice Espírito e seu
Tríplice Corpo refletido. A Mente possibilitou o princípio da consciência individual. A aquisição da Mente também
determina a linha divisória onde termina a involução do Espírito na matéria e tem início o processo evolutivo pelo
qual o Espírito gradualmente retira-se dos veículos constituídos de matéria.
A involução envolve a cristalização do Espírito em corpos de densidade crescente. A evolução depende da
dissolução desses corpos. Mas, durante a evolução devemos extrair de cada um dos três corpos sua quintessência,
sua alma. Portanto, do Tríplice Corpo extraímos a Tríplice Alma. Paralelamente ocorre o processo alquímico de
amalgamação da substância anímica com o Espírito.
No começo da evolução, a Humanidade era constituída apenas de Espírito e corpo. Era ingênua e
inexperiente, portanto, ainda não tinha alma. A Terra é a grande escola da experiência e manancial de
oportunidades para construirmos nossa alma. A cada encarnação vivida em nossa esfera planetária podemos
desenvolver e ampliar qualidades anímicas conforme o aproveitamento das oportunidades que se apresentam. De
acordo com as escolhas alguns avançam enquanto outros se atrasam; disto resultam as diferentes gradações entre
um selvagem e um santo.
Mas, vejamos no que consiste a perda da alma até sua total extinção ou morte. Vamos deixar bem claro que
o verdadeiro Espírito é eterno, nunca pode morrer. O Espírito é uma Centelha Divina, uma Fagulha do Próprio Deus
e, portanto, sem princípio nem fim. Então, como falar na morte da alma e qual o verdadeiro sentido dessa
expressão? Este é um assunto sobre o qual o autor não gosta de repisar, mas como lança uma luz importante para o
avanço espiritual, recordaremos alguns fatos.
Vimos que o Tríplice Espírito projetou um Tríplice Corpo. Das experiências no Tríplice Corpo devemos extrair
a Tríplice Alma para amalgamá-la com o Tríplice Espírito, esse é o objetivo da evolução. Agora, muita atenção.
Chegamos ao ponto crucial de toda a lição. Uma informação importante e valiosa ajudará os Estudantes a
entender mais profundamente tudo que já foi dito até aqui.
Muito se fala na literatura ocultista sobre “O Caminho”. Embora o Iniciado já tenha recebido informações
abundantes sobre seu significado, o seguinte esclarecimento nunca foi dado antes ao Estudante exotérico. São Paulo
afirma que estar mentalizado na carne é a morte, mas estar espiritualmente mentalizado é vida e paz. Esta é a
verdade exata, pois, a Mente é o elo entre o Espírito e o corpo, é o caminho ou ponte, o único meio de transmissão
da alma para o Espírito.
A razão de viver de muitos se alinha com a frase proverbial:

“Vamos comer, beber e gastar o tempo em diversões já que amanhã morreremos mesmo.”130

Enquanto o ser humano estiver mentalizando a matéria, e dirigindo sua atenção para os sucessos mundanos,
todas as suas atividades estarão centralizadas na parte inferior do seu ser, a Personalidade. Viverá e morrerá como
os animais, inconsciente das reservas magnéticas do Espírito.
Entretanto, há um momento decisivo no qual os anseios do Espírito são sentidos. A Personalidade vê a luz.
Entusiasmada, compromete-se a atingir seu Eu Superior por meio da ponte da Mente. Como a carne e o sangue não
podem herdar o Reino de Deus, o corpo deve ser crucificado, assim a alma pode ser libertada para unir-se ao seu Pai
no Céu, o Tríplice Espírito, o Eu Superior.
O superior deve estimular a elevação do inferior, esse é o processo natural. Mas, infelizmente, há exemplos
na direção oposta: a Personalidade se recusa a sacrificar-se pelo Espírito. Nesse caso a Personalidade inferior
mostra-se muito forte e dominadora, impregnada de materialismo. A Mente se mostra intensamente enredada com
os veículos inferiores. Como resultado a ponte da Mente finalmente se quebra.
A Personalidade sem alma pode continuar a viver por muitos anos depois que esta separação se efetivou.
Pode executar os mais violentos atos de crueldade e astúcia até sucumbir. A Magia Negra, envolvendo o uso
pervertido da semente obtida de outros, é geralmente utilizada por essas Personalidades desalmadas com o
propósito de satisfazer seus desejos demoníacos. Frequentemente, eles obtêm poderes sobre uma nação ou uma
sociedade, logo depois se comprazem em arruiná-las.
Enquanto isso, o Espírito permanece desnudo; não tem Átomos-semente com os quais possa construir
corpos adicionais. Então, automaticamente, gravita para o Planeta Saturno e depois para o Caos, onde deve
permanecer até a aurora de um novo Dia de Criação.
À primeira vista, pode parecer injusto que o Espírito seja assim condenado a sofrer, embora não tenha
cometido qualquer perversidade. Mas, por outro lado, compreendemos que, sendo a Personalidade uma criação do
Eu Superior, a responsabilidade existe e não pode ser evitada. Felizmente, porém, esses casos são cada vez mais
raros à medida que avançamos no Caminho da Evolução. Mesmo assim, é necessário que todos se direcionem

130
Is 22:13 e Cor 15:32
seriamente para o verdadeiro caminho, para a luz que conduz ao nosso ideal espiritual, a união com o Eu Superior.
Que essa luz resplandeça cada vez mais.
Capítulo VII - O Novo Sentido da Nova Era
No fim da Idade de Touro, há mais ou menos 4.000 anos atrás, o “Povo de Deus” fugiu da ira prestes a
derramar-se sobre o Egito, a terra onde esse povo adorava o Touro.
Era guiado por Moisés, enquanto estava em fuga rumo à Terra Prometida. Em antigas iconografias esotéricas
Moisés aparece com a cabeça adornada com chifres de carneiro. Simbolismo utilizado para evidenciar seu papel de
precursor dos 2.100 anos da Época Ária. Durante esses anos, em cada manhã de Páscoa, o Sol de março tingia de
vermelho as soleiras das portas, lembrando o sangue de um cordeiro, quando atravessa o Equador na constelação
(não no Signo) do Cordeiro, Áries.
De igual modo, quando o Sol, por precessão, se aproximava da constelação aquosa de Peixes, os Peixes, João
mergulhava nas águas do Jordão os convertidos à Religião Messiânica, e Jesus chamava seus Discípulos de
“pescadores de homens”. Assim como o “cordeiro” foi sacrificado na Páscoa, enquanto o Sol passava pela constelação
de Áries, o Carneiro, também os fiéis, em obediência aos mandamentos de sua igreja, alimentam-se de peixe durante
a Quaresma no atual ciclo de Peixes.
Na época em que o Sol, por precessão, deixou a constelação de Touro o povo que ainda adorava esse animal
foi considerado pagão e idólatra. Um novo símbolo do Salvador ou Messias foi representado com imagem de um
cordeiro, que correspondia à constelação de Áries. Mas, quando o Sol, por precessão, deixou esse Signo, o judaísmo
passou a ser uma Religião do passado. Desde então, os bispos da nova Religião Cristã adotaram a mitra com formato
de cabeça de peixe para patentear sua posição hierárquica como ministros da Igreja durante a Era de Peixes que,
agora, está chegando ao seu final.
Considerando o futuro pela perspectiva do passado é evidente que uma nova Era deverá iniciar-se quando o
Sol transitar pela constelação de Aquário, o Aguadeiro, daqui a algumas centenas de anos. A julgar pelos
acontecimentos do passado é razoável esperar-se que uma nova fase Religiosa suplantará nosso presente sistema.
Revelará maiores e mais nobres ideais e superará a nossa presente concepção da Religião Cristã. Portanto, quando
esse dia chegar, devemos estar preparados para integrar as fileiras que conduzem aos novos ideais ou seremos
excluídos com os demais idólatras e pagãos.
João Batista pregou o evangelho da preparação. Sem palavras ambíguas advertiu o povo: o machado deve ser
colocado na raiz da árvore. Também os preveniu para fugirem da ira que acompanhava a chegada do Filho de Deus (o
Sol), para separarem o trigo do joio e queimá-lo. Cristo comparou o Evangelho com o fermento, fundamental para
vivificar o pão da alma.
À primeira vista, o método de João parece ser muito mais drástico, colocando o machado na base de toda a
estrutura social. Enquanto o processo de levedura mencionado por Cristo parece ser mais suave. Entretanto, na
realidade, é mais severo e drástico. Quando observamos cuidadosamente a metamorfose da massa do pão durante a
fermentação o fato ganha maior evidência. Há uma revolução nos processos químicos, uma guerra em miniatura,
envolvendo uma completa transformação na estrutura íntima da farinha. O fermento convoca todos para o combate.
O som dos canhões junta-se ao coro das explosões de bombas e granadas. Ao término da microscópica batalha a
massa cresceu e tornou-se leve.
Essa revolução dos componentes químicos, essa guerra interna, é absolutamente indispensável na fabricação
do pão. Sem o processo de fermentação o resultado seria um produto pesado, indigesto e até intragável. É a
transformação processada pelo fermento que torna o pão saboroso, suave e nutritivo.
O processo de preparação para a Era de Aquário já começou, e como se trata de um Signo aéreo, científico e
intelectual, conclui-se, de forma inequívoca, que a nova fé basear-se-á na razão. Portanto, estará capacitada para
resolver os mistérios envolvendo a vida e a morte de modo a preencher as necessidades tanto da Mente como do
anseio Religioso.
A Fraternidade Rosacruz tem por missão preparar, desde já, a futura atmosfera aquariana. Assim sendo,
trabalha para divulgar a Sabedoria contida na Religião Ocidental. Atua como o fermento no pão. Tem por finalidade
dissipar o medo da morte através do entendimento espiritual e profundo sobre o propósito da vida. A vida e a
consciência são eternas e governadas por leis tão imutáveis como Deus.
O desenvolvimento da consciência pode conduzir a vida espiritual do ser humano a esferas cada vez mais
elevadas, nobres, sublimes e acende o farol da luz da esperança no altar do coração.
Desde remoto passado temos desenvolvido cada um dos cinco sentidos pelos quais interagimos com o atual
mundo visível. Poderemos, num futuro não muito distante, desenvolver outro sentido, um sexto órgão de percepção.
Isso ampliará nossas possibilidades de interação com novas dimensões como, por exemplo, os habitantes da Região
Etérica. Assim também com os nossos entes queridos que já abandonaram os corpos físicos e habitam o Éter e o
Mundo do Desejo inferior durante o primeiro estágio nos reinos mais sutis.
A missão de Aquário está representada apropriadamente pelo símbolo do homem esvaziando o cântaro
d’água. Aquário é um Signo aéreo e governa especialmente as propriedades do Éter.
O Dilúvio tornou o ar parcialmente seco, depositando a maior parte de sua umidade no mar. Mas quando o
Sol entrar em Aquário, por precessão, o restante da umidade será eliminado e as vibrações visuais, transmitidas mais
facilmente numa atmosfera etérica seca, serão mais intensas. Assim, as condições serão particularmente propícias
para produzir a adequada extensão de nossa atual visão. Dessa forma nossos olhos também poderão colher imagens
da região etérica. O aparecimento de sensitivos na Califórnia exemplifica o efeito da atmosfera seca e elétrica, embora
mais atenuado se comparado com a futura Era de Aquário.
A fé será complementada pelo conhecimento, e todos poderemos lançar o brado triunfal:

“Oh! Morte, onde está teu aguilhão?


Oh! Tumba, onde está tua vitória? “131

Não devemos deixar escapar as oportunidades que se apresentam quando já estamos no caminho, meditando
e aspirando por esse maravilhoso dia. É imprescindível compreender nosso privilégio em relação aos irmãos que ainda
estão inconscientes do que o futuro lhes reserva. Os desinformados podem retardar o desenvolvimento de sua visão.
Quando experimentarem os primeiros vislumbres das entidades etéricas, tenderão a crer que suas visões não passam
de meras alucinações. Para não ser considerados loucos podem adotar uma atitude de repressão e negação dessa
nova faculdade.
Portanto, a Fraternidade Rosacruz foi incumbida, pelos Irmãos Maiores, da tarefa de promulgar o Evangelho
da Era Aquariana. Tem a responsabilidade de dirigir uma campanha educativa e iluminadora, preparando o terreno
para o porvir. O mundo deve ser fermentado com as seguintes ideias:
1. Dissipar o véu do mistério sobre a continuidade da vida após a morte do Corpo Físico. O conhecimento
dos mundos invisíveis é tão válido e outros povos, segundo relatos e documentos de pessoas
credenciadas.
2. Estamos próximos do limiar. Em breve conheceremos diretamente estas verdades.
3. Como Estudantes, o mais importante é acelerarmos o passo para alcançar esse dia. Tendo em mãos o
conhecimento da realidade suprafísica, estaremos mais preparados e qualificados para lidar com o
amanhã. Saberemos como e onde investigar os fenômenos e as leis das dimensões superiores.
Afastaremos o eventual medo e a incredulidade quando surgirem os primeiros vislumbres dessas coisas.
Embora esse desenvolvimento seja maravilhoso, ele vem acompanhado de uma grande responsabilidade. Os
Estudantes devem compreender que um sério compromisso é inerente à posse do conhecimento:

“A quem muito é dado, muito será exigido.”132

Se enterrarmos nossos talentos, não devemos esperar uma merecida condenação? A Fraternidade Rosacruz
poderá cumprir sua missão somente quando cada membro fizer a sua parte, difundindo os Ensinamentos e vivendo a
vida. Portanto, esperamos que isto alerte os Estudantes quanto aos seus deveres individuais.
A visão etérica é semelhante ao raio “X”, permite ver através dos objetos. Mas ela tem um poder ainda maior
que torna tudo transparente como o vidro. Sendo assim, na Era de Aquário a percepção da realidade será bem
diferente. Por exemplo, será muito fácil estudar anatomia e detectar um tumor maligno, uma luxação ou um estado
patológico do corpo. Atualmente, médicos eminentes pesarosamente admitem que seus diagnósticos, não poucas
vezes, estão errados. Fato constatado pelos exames realizados depois da morte do paciente.
Entretanto, quando desenvolverem a visão etérica, serão capazes de estudar diretamente tanto a estrutura
anatômica como o processo fisiológico, sem obstáculos físicos.
A visão etérica não nos capacitará a ler o pensamento alheio. Pois a matéria que constitui o pensamento é
muito mais sutil. Porém, ser-nos-á impossível levar uma vida dupla. Seremos prontamente desmascarados se nossa
vida privada for incoerente com a vida pública.
Se soubéssemos que entidades invisíveis frequentam as nossas casas, fica-ríamos envergonhados com as
coisas que fazemos. Mas, não haverá privacidade na Era de Aquário. O que está aparentemente oculto pode ser
desvelado por quem quiser observar. Será inútil obrigar a criada dizer a uma visita indesejável que “não estamos”.
Na Nova Era a honestidade e a retidão serão as únicas condutas sensatas. Qualquer ação maléfica será
descoberta. Esconder a sujeira ou fugir do local do crime será em vão. Não obstante, como atualmente, haverá
pessoas com inclinações ao vício e a serviço da maldade. Contudo serão reconhecidas com facilidade e assim poderão
ser evitadas.
O Estudante pode tecer conjecturas sobre as possíveis condições reinantes na futura Era Aquariana e a
correlata ampliação da percepção visual. Sabendo viver de antemão essa realidade vindoura, o quanto possível, estará
em posição de tornar-se um dos pioneiros dessa Era.
Nesse dia “não haverá noite”, e a “árvore da vida” florescerá constantemente pelo etérico “mar de vidro”
transparente, que permeia e infunde vitalidade em todas as coisas.
131
N.T.: ICor 15:55
132
N.T.: Lc 12:48.
Capítulo VIII - O Povo Escolhido de Deus
Quando estudamos a história dos Hebreus, como está descrita na Bíblia e em relatos da Idade Média e
Moderna pelos diversos povos habitantes do mundo ocidental, um fato incontestável destaca-se com peculiar clareza.
Eles foram conduzidos ao exílio, à escravidão e odiados em todos os países por onde se espalharam. Sofreram
perseguições em países onde a política era conivente com o antissemitismo. Os judeus são menosprezados mesmo
nas nações que adotam “a Palavra de Deus” em conformidade com os textos bíblicos, onde lemos que o povo hebreu
é “o povo escolhido de Deus”. Quando investigamos a razão de tanta tragédia, dois fatos relevantes se apresentam:

1. Em todos os lugares os judeus proclamaram-se “o povo eleito de Deus”. Destinados, por desígnio divino, a se
tornarem os senhores do mundo no curso da história. Por fim, todas as nações prestarão homenagem e
tributo aos eleitos.
2. Seus relacionamentos com os gentis têm, invariavelmente, sido marcadas por tais práticas, tal como o
personagem Shyloc em O Mercador de Veneza, de Shakespeare, cobrando seu “meio quilo de carne”,
corroborando com o conceito popularmente difundido sobre essa natureza.

Assim, inconscientemente, estabeleceu-se na mente de outros povos um ressentimento contra essa postura
pretensiosa. Preconceito e antagonismo são consequências dos judeus se considerarem os filhos divinamente
favorecidos de Deus e de classificarem os demais como enteados, pagãos e idólatras. Estes proscritos serão
subjugados no tão esperado dia da ira, quando Israel virá triunfalmente para assumir o governo do mundo com bastão
de ferro. Esse ressentimento se acentua em função da forma conservadora com a qual os judeus mantêm esses
hábitos ainda hoje.
Se os judeus tivessem justificado a sua pretensão de serem os favoritos da divindade através de vidas nobres,
exemplares e elevada conduta, provavelmente teriam atraído a admiração de diversos povos com os quais têm estado
em contato. Se tivessem despertado em alguns o Espírito da emulação, mesmo aqueles que invejassem suas
convicções, provavelmente seriam mais respeitados. Entretanto, seus hábitos são tão discordantes de suas crenças
que, lamentavelmente, provocam a hostilidade de muitos.
Advertimos os Estudantes para não considerarem o exposto como uma crítica aos judeus. É errado comentar
as faltas alheias e criticá-las, a não ser que se tenha em vista um fim construtivo. É sempre fácil notar o cisco no olho
de nosso próximo, mas é muito mais fácil ignorar uma trave no nosso próprio. A razão para abordarmos o assunto dos
judeus com suas crenças elevadas e seus hábitos discordantes é para perguntar se, procurando com a lanterna o cisco
em seus olhos, não encontraremos a trave nos nossos. Se assim for, conquistaremos algo realmente valioso se
estivermos dispostos a remover essa trave.
Enquanto vivemos nas malhas do mundo, levando uma existência comum, fazendo coisas corriqueiras, sejam
boas, más ou indiferentes, ninguém toma conhecimento de quem somos. Por outro lado, quando afirmamos que
somos diferentes ou especiais, como fazem os judeus, a sociedade reage imediatamente. Com olhar atento, começa
uma vigilância com a finalidade de avaliar se há coerência entre nossas crenças e nossas ações. Seremos alvo da
observação alheia onde estivermos, seja agindo ou descansando. Portanto, uma grande responsabilidade pesa sobre
nós. Devemos bem desempenhar as nossas tarefas, só assim podemos justificar os elevados ensinamentos recebidos
dos Irmãos Maiores e, também, estimular no próximo o desejo de abraçar a mesma filosofia.
Por isso, devemos parar e avaliar nossos atos e realizações no ano passado. Depois, tomemos as resoluções
que julgarmos necessárias para tornar o futuro mais proveitoso do ponto de vista da alma.
Em primeiro lugar, devemos reconhecer que fomos especialmente agraciados, muito além de nossos
merecimentos, em receber dos Irmãos Maiores os Ensinamentos Rosacruzes. Esperamos ter-lhes expressado a nossa
gratidão durante todo o ano que passou. Vamos enviar-lhes, neste momento, especiais pensamentos de carinho e
gratidão. Não é preciso dizer que eles não necessitam de agradecimentos, pois estão acima disso, mas, praticando a
gratidão, progrediremos espiritualmente.
Avaliemos qual proveito colhemos desses ensinamentos preciosos no ano passado. Por exemplo, temos dado
o tratamento justo e adequado às necessidades do próximo? Conseguimos dominar nosso temperamento,
desenvolver mais equilíbrio e superar falhas de caráter proeminentes?
Os esforços lograram algum êxito? Esperemos que nossas conquistas tenham sido pelo menos razoáveis.
Lembremos sempre do exemplo dado pelo povo hebreu. Seremos avaliados pela coerência e sinceridade com as quais
colocamos em prática nossas crenças. Do mesmo modo, certos ou errados, os Ensinamentos dos Irmãos Maiores
serão avaliados na comunidade conforme os atos dos que se confessam seus seguidores.
No entanto, há uma conclusão que forçosamente devemos aceitar ao final de nossa retrospecção. Estamos
muito aquém dos sublimes ideais propostos.
Contudo é preciso acautelar-se com os exageros. Há um ponto crítico quando o caminho espiritual corre a
ameaça de soçobrar nos rochedos da pusilanimidade. Em outras palavras, há perigo de sério retrocesso quando o
temperamento se fragiliza em demasia a ponto de admitir o total fracasso, de chocar-se ao vislumbrar a possibilidade
de seu progresso frustrado. Preocupações e temores coloridos pela morbidez. Tal atitude mental antecipa o desastre.
Empalidece a alma e esvazia a vontade de prosseguir na batalha. Espalha uma nuvem escura de derrotismo, onde as
desvantagens ganham estatura e sufocam a luz da esperança. Crescem as desculpas. Alegamos o antagonismo dos
amigos e da família com nossas crenças; a falta de tempo, pois os deveres nos consomem etc. Mas, na verdade, o
problema está dentro de nós. Se cedermos ao negativismo, constataremos que amigos e familiares irão desprezar-
nos, embora não o demonstrem abertamente como o fazem no caso dos judeus.
Ao contrário, longe de estimular o abandono do caminho do progresso, os fracassos deveriam servir como
incentivos para esforços maiores. Resolutos, deveríamos caminhar com mais determinação e firmeza. Assim, no
próximo ano, estaremos mais fortalecidos para vencer nossas imperfeições.
Todos conhecem seus próprios defeitos: “O pecado que tão facilmente nos domina.”133
Naturalmente, cada qual deve formular as suas próprias resoluções. Mas, para cumpri-las de forma benéfica,
favorecendo o crescimento da alma e colaborando na tarefa de tecer o Dourado Manto Nupcial, será de muita ajuda
fixarmos os olhos e pensamentos em alguém portador da virtude que desejamos cultivar.
Temos um magnífico exemplo em Cristo: “Ele foi tentado na carne como nós, porém, não cometeu pecado.”.
Tenhamo-Lo bem perto do coração durante o próximo ano e certamente nossa alma muito crescerá. Esta será
também a melhor maneira de divulgar os Ensinamentos Rosacruzes. Vivendo a vida de forma sincera e coerente
poderemos despertar na alma dos outros o desejo de compartilhar suas bênçãos.

133
N.T.: Rm 7:18 .
Capítulo IX - Luz Mística na Guerra Mundial - (1914-1918)
Parte I - Fontes Secretas

Os Estudantes dos Ensinamentos Rosacruzes sabem muito bem que nós, como Espíritos, somos imortais, sem
princípio e sem fim. Desde o passado remoto, estamos frequentando a grande escola da experiência por meio de
sucessivas vidas. Nossos veículos, ou revestimentos de matéria, são constantemente aprimorados. Neles vivemos por
determinado tempo, variando desde algumas horas até uma vida longa.
Descartamos o invólucro mortal, muitas vezes já desgastado e decrépito, quando mais um dia da escola da
vida se completa. Em seguida, iniciamos o caminho de retorno ao nosso lar celestial para repouso e assimilação das
lições aprendidas. Mais tarde, renasceremos e retomaremos as lições exatamente no ponto onde a aula anterior da
escola da vida foi encerrada, e fomos chamados de volta ao lar.
Durante cada dia nessa escola, encontramos outros Espíritos e estabelecemos laços de amor e ódio. Em vidas
futuras encontrar-nos-emos novamente, para que as dívidas, eventualmente contraídas e acumuladas no banco do
destino, possam ser liquidadas. Assim, nossos amigos de hoje são aqueles com quem travamos amizade na vida
anterior, e nossos inimigos são aqueles com quem nos indispusemos no passado esquecido. Desse modo, estamos
continuamente tecendo a teia do destino no tear do tempo e criando, para nós mesmos, um manto de glória ou de
trevas, conforme tenhamos agido bem ou mal.
Mas, nós não realizamos apenas nosso destino individual, pois como diz o provérbio: “Nenhum ser humano
vive só”; somos agrupados em famílias, tribos, raças e nações. Além de nosso destino individual, estamos unidos pelos
destinos de família e de nação, porque estamos sob a guarda dos Anjos e Arcanjos. Eles atuam, respectivamente,
como Espíritos de família e de raça. São estes grandes Espíritos que fixam em nossos Átomos-sementes a forma racial
e as características particulares do Corpo Físico. Eles também implantam nos Átomos-sementes de nossos mais
refinados veículos, as simpatias e ódios nacionais.
O Espírito de Raça paira como uma nuvem sobre a terra habitada por seus tutelados. Estes absorvem dessa
atmosfera a matéria apropriada para compor seus corpos mais sutis.
Verdadeiramente, cada indivíduo vive, move-se e desenvolve a consciência de seu ser no seio do Espírito de
Raça. Seus veículos são constituídos dentro desse ambiente. Sim, a cada sopro, cada indivíduo respira o hálito do seu
correspondente Espírito de Raça. Por isso, incontestavelmente, o sentimento racial conserva-se mais próximo e íntimo
do que seus próprios pés e mãos.
O Espírito de Raça também impregna a alma com amor ou ódio por outras nações. Condiciona o
relacionamento predominantemente inamistoso e desconfiado entre certos povos, mas também confiança e amizade
entre outros.
Segundo os Ensinamentos Rosacruzes, todo Espírito renasce duas vezes enquanto o Sol, por precessão,
transita por um Signo do Zodíaco. Alterna seu veículo físico encarnando uma vez como homem e outra como mulher.
Assim pode assimilar as experiências proporcionadas por esse Signo do ponto de vista de ambos os sexos.
Há muitas exceções a esta regra. A lei não é cega e, portanto, age de acordo com as necessidades individuais
do Espírito. Os Elevados Seres denominados Anjos do Destino, na terminologia cristã, governam as linhas da evolução,
e têm a função de ajustar o Relógio do Destino. Definem com precisão a ocasião propícia para colher as safras do
passado. Isso se aplica tanto para indivíduos como para agrupamentos humanos. Portanto, se estudarmos as
características das nações recentemente engalfinhadas numa luta titânica, bem como os objetivos pelos quais estão
lutando, e lançarmos um olhar retrospectivo pelas páginas da história, não há necessidade do dom da visão, nem
mesmo da intuição, para localizar e inferir que as fontes da recente guerra foram geradas num passado distante.
Para alguns historiadores, os filhos de Albion134 são uma reencarnação dos antigos romanos. Mas, sob a luz das
investigações no domínio oculto, essa não é a completa verdade, pois também identificamos a presença de muitas
raças estrangeiras naquela época. Entretanto, houve uma miscigenação com a raça dominante, donde se pode
praticamente confirmar o fato mencionado pelos historiadores.
Recordemos a história de Roma. O Espírito democrático manifestou-se por meio da formação de uma
república, logo depois do reinado dos sete primeiros reis. Na sequência, teve início uma guerra expansionista, com o
objetivo de conquistar o domínio sobre o mundo. No decurso dessas operações militares, houve uma batalha contra
Cartago, numa violenta disputa pelo domínio do Mar Mediterrâneo. Visando ampliar o território na direção oeste, os
romanos combateram para expulsar os cartagineses da Sicília. Nessa época, Cartago apesar de ser uma grande
potência marítima foi vencida pelos romanos em 260 a.C. em suas próprias águas.
Em seguida a esta vitória, Roma levou a guerra para a África, e foi bem-sucedida no princípio. Mas Régulo, o
cônsul eleito, foi derrotado e feito prisioneiro. Seguiu-se uma série de desastres navais para Roma, e Cartago esteve
na iminência de recuperar o que havia perdido na Sicília e ainda mais. Foi quando Tétulus, o cônsul romano, obteve
134
N.T.: Albion é o nome celta ou pré-céltico da Grã-Bretanha. Atualmente é ainda usado, na linguagem poética, para
designar a ilha ou a Inglaterra em particular.
outra vitória decisiva sobre os cartagineses em 241 a.C. Disso decorreu a evacuação da Sicília e das ilhas adjacentes.
Este foi o fim da primeira Guerra Púnica, cuja duração foi de vinte anos.
Mas, Cartago não seria conquistada tão facilmente. Considerando o estado romano como um poderoso
adversário no mar, retomou as hostilidades consolidando uma posição estratégica e segura na Espanha. O grande
general cartaginês, Aníbal Barca, cultivando um ódio profundo por Roma, declarou guerra em 218 a.C., conhecida
como a segunda Guerra Púnica. Seus planos foram elaborados em segredo e executados com uma rapidez nunca vista.
Cruzou os Pirineus da Espanha para a França. Atravessando os Alpes lutou contra todos os obstáculos, e invadiu a
Gália na região cisalpina com apenas 26.000 sobreviventes de seu exército de 59.000 homens. Depois de sucessivas
derrotas dos romanos, sobreveio a grande batalha de Cannes em 216 a.C., onde a vitória de Aníbal foi completa. A
Macedônia e a Sicília uniram-se aos conquistadores, e Aníbal avançou até a porta das colinas de Roma. Considerando
essa cidade muito poderosa, recuou para o sul da Itália onde foi derrotado, e Cartago viu-se obrigada a pedir a paz.
Roma tornou-se a senhora do Mediterrâneo.
Mas o ódio de Aníbal não arrefeceu, e quando ele e seus compatriotas, os cartagineses, renasceram na
Prússia, os antigos romanos, como senhores dos mares, ocupavam as Ilhas Britânicas e era inevitável que com o
tempo, um grande conflito ressurgisse. Como as antigas Guerras Púnicas geraram o recente conflito, também esta
guerra, no seu devido tempo, trará a renovação da luta, a não ser que demonstremos um Espírito de bondade ao
tratar com o adversário vencido, ao invés de tratá-lo como fez Roma no passado, sem misericórdia e sem
consideração. O desejo de agredir os outros deve ser eliminado dos militaristas dessas nações. É absolutamente
imperativo que o mundo seja salvo da repetição dessa catástrofe.
Todos devem empenhar-se para evitar as hostilidades. Medidas efetivas devem assegurar a manutenção da
paz atualmente, assim como no futuro. Caso contrário, amanhã reencontraremos, com outra aparência, aqueles com
os quais estivemos em guerra hoje.
Seja feita a justiça, mas temperada e equilibrada com clemência para evitar a perpetuidade do ódio. Portanto,
são erradas as medidas severas como, por exemplo, o boicote industrial. Bastaria que as nações envolvidas tivessem
apenas uma parcela justa do comércio mundial. O novo continente americano, ainda não dominado por qualquer
Espírito racial, vê com maior imparcialidade e, portanto, com maior clareza do que qualquer outro, o que é correto.
Esperemos que as ideias americanas de justiça prevaleçam. Tenhamos sempre em mente que um erro nunca poderá
corrigir e justificar outro. É imperativo viver e deixar viver.
Parte II - Seu desenvolvimento sob o ponto de vista espiritual

Esta afirmação pode soar estranha. Entretanto, verdade seja dita, a maioria da Humanidade permanece
adormecida por largos períodos. Não obstante, na aparência, os Corpos Físicos movimentam-se intensamente,
dedicados ao trabalho ativo no mundo.
Contudo, sendo os seres humanos compostos de quatro corpos, em geral, apenas o Corpo de Desejos é o
veículo mais desperto e ativo. Normalmente o estilo de vida da maioria baseia-se quase inteiramente em sentimentos
e emoções. Raramente há interesse nas questões fundamentais da existência. Vive-se para garantir as necessidades
do corpo e afastar a morte, nada, além disso.
Muitos talvez nunca tenham considerado seriamente o sentido da vida e nunca se perguntaram: “De onde
viemos, por que estamos aqui, e para onde vamos?”.
O Corpo Vital está em constante atividade reparando os estragos do Corpo de Desejos sobre o Corpo Denso.
Ele fornece a necessária vitalidade que logo será consumida na gratificação dos desejos e emoções.
Esta é a batalha árdua entre o Corpo Vital e o de Desejos. Nesse conflito é gerada a consciência no Mundo
Físico. Isso torna os homens e mulheres tão intensamente alertas que, do ponto de vista do Mundo Físico, parece
desmentir a afirmação sobre a dormência parcial. Contudo, depois de todos os fatos examinados, verificar-se-á sua
veracidade. Também podemos afirmar que tudo se processa conforme o planejado pelas Grandes Hierarquias
responsáveis pela nossa evolução.
Revisitando as épocas passadas, a Humanidade já foi muito mais desperta nos Mundos Espirituais do que no
Mundo Físico. Mesmo já possuindo um Corpo Denso, ainda não tinha consciência disso. Precisava aprender a utilizar
adequadamente esse instrumento, a conquistar o Mundo Físico e a pensar corretamente. Por isso foi necessário, por
algum tempo, esquecer tudo sobre os mundos espirituais e, assim, canalizar todas as energias para as demandas do
Mundo Físico.
Como já foi explanado no Livro Conceito Rosacruz do Cosmos, o esquecimento derivou da introdução do
álcool como bebida estimulante e, também, por outros meios. Portanto, não detalharemos esse tema agora.
Atualmente enfrentamos outro problema. A Humanidade, a maciça maioria, se tornou profundamente
envolvida no materialismo. Com isso, os veículos invisíveis estão inteiramente voltados para as atividades físicas e
muito adormecidos para as verdades espirituais. Mesmo quem está despertando do sono do materialismo é
considerado fanático. Chega a ser ridicularizado como candidato à internação num manicômio. Taxado de cérebro
doentio e povoado de entes imaginários.
Se esta atitude mental permanecesse para sempre, o Espírito acabaria completamente cristalizado no corpo. A
vida celestial, na qual preparamos os futuros veículos e ambientes, tornar-se-ia cada vez mais árida.
Quanto mais nos agarramos persistentemente ao pensamento empirista, onde nada existe além da realidade
concreta e mensurável, perceptível através dos sentidos (visão, audição, tato, olfato, paladar e percepção), mais esta
atitude mental, cultivada na vida terrena, persistirá durante a passagem do Ego pelo Segundo Céu. Isso produz pouco
interesse na preparação de um campo mais amplo onde se possam aplicar novos esforços e instrumentos para
desenvolver e expandir nossos talentos. Como resultado, a evolução logo cessaria.
Segundo os Ensinamentos Rosacruzes, a alma é o extrato (ou quintessência) obtido por meio da experiência
nos vários corpos. Da alma consubstancia-se o pão vivo, o verdadeiro alimento do Espírito.
No curso normal da evolução, o aperfeiçoamento dos vários veículos é lento e gradual. A substância anímica é
acumulada e assimilada pelo Espírito no intervalo entre as existências terrenas. Mas, em determinado período da
trajetória evolutiva, quando estamos ingressando em nova espiral espiritual – uma fase diferente da evolução comum
– em geral é necessário empregar medidas drásticas para desviar o Espírito do caminho já trilhado e orientá-lo para
uma nova e desconhecida direção.
Antes, quando possuíamos pouca individualidade e éramos incapazes de tomar a iniciativa, essas mudanças
eram efetivadas pelo que costumamos chamar de grandes cataclismos da natureza. Mas, na verdade, eram planejados
pelas Divinas Hierarquias, regentes da evolução, com o objetivo de destruir grande quantidade de corpos que foram
úteis para o desenvolvimento humano até aquele ponto. O ambiente é, então, alterado em conformidade com as
inéditas possibilidades de um novo caminho. Aqueles que se prepararam adequadamente tornam-se os pioneiros do
novo curso.
Essa destruição em massa era naturalmente muito mais frequente em épocas anteriores. Na Lemúria foram
planejados diversos ambientes, numerosas foram às tentativas para recomeçar com um agrupamento humano
quando outro havia falhado e sido destruído. Na verdade, não houve apenas um dilúvio na Atlântida, mas três, e entre
o primeiro e o último decorreu um período de mais ou menos três quartos de um milhão de anos.
Não devemos esperar a suspensão desse método de destruição em massa para um novo começo. Nós, como
um todo, devemos despertar para a necessidade de tomar um novo rumo durante a aproximação do fim do antigo.
Entretanto, os Guias Invisíveis da evolução estão empregando novo método. Aboliram muitos cataclismos da
natureza. Agora, para mudar a antiga ordem por algo novo e melhor, utilizam as energias mal dirigidas da própria
Humanidade para atingir seus objetivos.
Eis a origem da grande guerra que recentemente nos assolou. Tem o propósito de desviar o olhar da busca
pelo pão, pelo qual muitos morrem, e criar em nós a fome da alma. Assim, a atenção é deslocada das coisas materiais
para as espirituais. Na verdade, estamos começando a trabalhar pela nossa própria salvação, fazendo coisas por nós,
abandonando gradualmente o estado de tutela. Embora ainda inconscientes estamos aprendendo a transformar o
mal em bem.
Há quem possa pensar que esta guerra afetou apenas alguns milhares de pessoas, a parcela realmente
envolvida no conflito. Mas, refletindo um pouco mais sobre o assunto, qualquer pessoa ficará convencida que o bem-
estar do mundo inteiro foi envolvido, em proporções variadas, no âmbito das condições econômicas. Não há raça ou
país inteiramente imune a essa catástrofe. Ninguém pôde ausentar-se completamente e nem prosseguir com a
mesma tranquilidade que antes reinava.
Parentesco e amizade são laços que se estendiam desde as trincheiras da Europa alcançando todas as partes
do globo. Muitos de nós tínhamos parentes em um e talvez nos dois grupos empenhados na luta, e acompanhávamos
a sua sorte com interesse proporcional ao grau de nossos sentimentos por eles.
Mas, durante a noite, enquanto nosso Corpo Denso dormia, ingressávamos no Mundo do Desejo, não
podíamos deixar de viver e sentir toda a tragédia, com toda a intensidade possível, pois as correntes de desejos
arrebatavam o mundo todo. No Mundo do Desejo não existe tempo nem distância. As trincheiras da Europa vinham
até nossa porta, não importa onde estivéssemos. Não podíamos fugir dos efeitos subconscientes do espetáculo diante
de nossos olhos.
Além disso, essa luta titânica produzia efeitos jamais igualados a um cataclismo natural, que é muito mais
rápido em sua ação, muito mais curto em sua duração e que, além de atuar de forma localizada, não provocava os
mesmos sentimentos de amor e ódio, fatores tão importantes na Grande Guerra.
Durante o curso evolutivo do passado, as Divinas Hierarquias tinham por objetivo ensinar a Humanidade a
obter resultados físicos por meios físicos. Assim, o ser humano esqueceu o modo de empregar as forças mais sutis da
natureza como, por exemplo, a energia liberada quando uma semente está germinando. Essa energia era usada para
propósitos de propulsão e levitação nas aeronaves da Atlântida. O ser humano não só perdeu a percepção da
santidade do fogo, como também a capacidade de o usar com propósitos espirituais. Atualmente, somente uns quinze
por cento de seu poder é utilizado nas melhores máquinas a vapor.
Há fortes razões para nossas atuais limitações. Alguém, com as faculdades espirituais despertas e com poder
nas mãos, provavelmente utilizaria esta maravilhosa energia para destruir nosso mundo e tudo que há sobre ele.
A Humanidade é portadora do livre-arbítrio; faz o melhor ou o pior que pode com os poderes disponíveis em
cada fase de sua história. Hoje está aprendendo a dominar seus sentimentos, importante lição preparatória de
capacitação para ingressar na Era de Aquário, onde utilizará com aptidão as forças superiores necessárias para seu
próprio progresso. Está também arrancando a venda dos olhos para descortinar o novo mundo destinado a ser
conquistado.
Dois processos específicos e diferentes estão sendo usados para atingir esse resultado. Um, é a visita da morte
a milhões de lares. Ela arranca do grupo familiar o marido, o pai ou o irmão. Os sobreviventes enfrentam uma negra
existência de privação econômica.
O Sol existiu antes da formação dos olhos e construiu esse órgão para ser percebido. O desejo de ver era
naturalmente inconsciente, o indivíduo não conhecia e nem fazia ideia do sentido ou uso da visão. No entanto, no
mundo da alma repousava o conhecimento e o desejo necessários para tornarem possível o milagre da visão.
Algo análogo ocorre em relação à morte. Quando nossa consciência se concentrou integralmente nos veículos
físicos e a realidade da morte nos foi apresentada, não restou mais esperança, antevíamos o fim definitivo. Mas, no
tempo apropriado, a Religião liberou o conhecimento da existência de um mundo invisível, de onde o Espírito veio e
para onde retornará depois da morte. A esperança da imortalidade renasceu gradativamente. Instaurou-se um
sentimento consolador, a morte passou a ser compreendida apenas como uma etapa de transição. Mas, a ciência
moderna tem feito o possível para roubar do ser humano este alívio para a alma.
Todavia, as lágrimas derramadas a cada morte servem para dissolver o véu que esconde o mundo invisível da
nossa atual visão. A profunda saudade e a tristeza pela partida dos entes queridos dilaceram as linhas sutis do véu que
separa ambos os lados. Algum dia, não muito distante, o efeito acumulado de tudo isto revelará a inexistência da
morte. Quem passou para o além está tão vivo quanto nós. Contudo, a intensidade destas lágrimas, desta tristeza,
desta saudade não é igual em todos os casos, e os efeitos diferem largamente segundo o Corpo Vital tenha sido ou
não despertado por atos de abnegação e serviço em determinada pessoa. Isso se coaduna com o aforismo oculto:
toda evolução no caminho espiritual começa no Corpo Vital. Esta é a base, e nenhuma superestrutura pode ser
construída até que este princípio esteja assentado.
Abordaremos o segundo processo do desenvolvimento da alma. Abrange todos os envolvidos em conflitos no
seio da guerra. Provavelmente poucos tiveram a rara oportunidade de estudar as reais condições da prolongada
frente de batalha como o autor. Apesar de todo horror e brutalidade, ele acredita ser esta a maior escola de
desenvolvimento anímico, como nunca existiu. Em nenhum outro lugar houve tantas oportunidades de serviço
desinteressado como nos campos de batalha da França. Em nenhum outro lugar os seres humanos estiveram tão
dispostos a ajudar seu semelhante. Assim, os Corpos Vitais de muitas pessoas receberam um revigoramento como
provavelmente não teriam conseguido em outras numerosas vidas.
Essas pessoas tornaram-se mais sensíveis às vibrações espirituais. Portanto, mais suscetíveis, num elevado
grau de receber benefícios advindos do primeiro processo antes mencionado. Consequentemente, a seu devido
tempo, veremos entre nós uma multidão de sensitivos em contato tão íntimo com o mundo invisível, que seu
testemunho simultâneo não poderá ser desqualificado pela escola materialista. Esses valorosos indivíduos nos
auxiliarão na preparação para as elevadas condições da Era de Aquário.
“Mas”, perguntarão alguns, “quando a tensão e o Espírito de sacrifício da guerra tiverem passado essas coisas
não serão esquecidas? Uma grande porcentagem destas pessoas não voltará à mesma rotina em que estavam
antes?”.
Podemos responder e temos confiança, isto não irá acontecer. Pois, enquanto os veículos invisíveis, especialmente o
Corpo Vital, estão adormecidos, o ser humano pode persistir numa escalada materialista. Porém, quando esse veículo
for despertado e provar o pão da vida, tornar-se-á como o Corpo Denso, sujeito à fome – tem fome de alma – e seu
desejo não deixará de ser atendido, salvo se sucumbir após uma luta extremamente árdua. Neste caso, as palavras de
São Pedro são bem aplicadas: “O último estado desse homem é pior do que o primeiro.”135
Contudo, é bom sentir que, não obstante a indescritível dor e a calamidade da guerra, o bem foi trabalhado no
crisol dos deuses, e será permanente. Possamos todos reunir nossas forças e ajudar a extrair o bem de todas as coisas
e em todas as situações. Assim, seremos exemplos luminosos na missão de conduzir a Humanidade para a Nova Era.

135
N.T.: IIPd 2:20 .
Parte III - Paz na Terra

Num mundo cansado de guerra, tingido com o sangue de milhões de irmãos ainda na flor da juventude, a
esperança geme em agonia clamando por um futuro em que reine a paz. Não por armistício, uma cessação temporária
das hostilidades, mas por uma paz duradoura. A paz é o anseio de todos diante das atrocidades da guerra. No entanto,
a cega Humanidade ignora a causa fundamental de tanta belicosidade. Um tênue verniz de civilização mantém
recoberta nossa agressividade, até que a sua devastadora força vulcânica ecloda diante de nosso perplexo olhar.
A paz permanente será conquistada quando for compreendida a conexão entre a natureza do alimento
consumido e seus efeitos sobre a constituição humana. O controle das paixões e a erradicação da selvageria resultam
da correta aplicação do conhecimento sobre a relação alimento-corpo.
Na nebulosa aurora de sua manifestação, ainda em estado germinal, a Humanidade crescia. Era guiada no
caminho da evolução sob a orientação direta das Hierarquias Divinas. Recebia alimento adequado para desenvolver
seus vários veículos de maneira ordenada e sistemática. Assim, no devido tempo, esses diferentes corpos se tornavam
um instrumento completo e apropriado às necessidades do Espírito. Servindo de templo para o Espírito que neles
habitava, onde podia aprender as lições proporcionadas pela vida, por uma série de renascimentos em corpos
terrestres de textura cada vez mais sutil.
Existem cinco grandes estágios, ou épocas, na jornada evolutiva da Humanidade sobre a Terra.
Na primeira, conhecida por Época Polar, o ser humano possuía apenas um Corpo Denso, tal como os minerais de hoje.
Portanto, naquele estágio de evolução, era semelhante ao mineral. A Bíblia relata que “Adão (Adam) foi formado da
terra”.
Na segunda, ou Época Hiperbórea, foi-lhe acrescentado um Corpo Vital, feito de Éter. O ser humano em
formação possuía, então, um corpo constituído tal como as plantas atuais. Não era exatamente uma planta, mas era
semelhante a uma planta. Caim, o ser humano dessa época, é descrito como um agricultor. Sua dieta provinha apenas
dos vegetais, pois as plantas contêm uma quantidade de Éter superior a qualquer outro alimento.
Na terceira, ou Época Lemúrica, o ser humano desenvolveu o Corpo de Desejos, um veículo gerador de
paixões e emoções. Era constituído como as criaturas do atual reino animal. O leite naturalmente estimula as
emoções. Então, esse produto de origem animal, habitante das pastagens, foi acrescentado à sua alimentação. Abel, o
ser humano dessa época, é descrito como um pastor. Não há nenhuma evidência de que ele tenha matado um animal
para alimentar-se.
Na quarta, ou Época Atlante, a Mente desabrochou. O Espírito habilitou-se a pensar no interior de seu corpo-
templo. A Humanidade tornou-se um ser pensante. Mas, o pensamento desgasta as células nervosas. Mata, destrói e
causa degradação. Para compensar o desgaste, a carne de animais foi introduzida na dieta dos Atlantes. Eles matavam
para comer. A Bíblia descreve o indivíduo dessa época como Nimrod, um poderoso caçador.
Empregando variado cardápio, o ser humano mergulhou cada vez mais fundo na matéria. Seu corpo, outrora
etérico, consolidou um rígido esqueleto dentro de si e cristalizou-se. Ao mesmo tempo, foi gradativamente perdendo
a percepção espiritual. Mas a lembrança do céu ainda permanecia. Sentia sua condição de exílio, uma nostalgia de seu
verdadeiro lar, o mundo celestial.
Na quinta época, ou Época Ária, a principal tarefa consistia em direcionar nossa atenção exclusivamente à
conquista do mundo material. Com esse objetivo, um novo elemento foi introduzido no regime alimentar: o vinho;
ingrediente que acelera o esquecimento da divina morada.
Desde o alvorecer da Época Atlante, durante muitos milênios até os dias atuais, o uso abusivo e indulgente do
embriagante Espírito do álcool, lançou a Humanidade no ateísmo e no materialismo, na mesma proporção de seu
desenvolvimento civilizatório. São todos bêbados.
Uma pessoa pode afirmar, com convicção, que nunca provou uma só gota de álcool em sua vida. Entretanto, o
corpo por ela habitado nessa existência, descende de ancestrais que por milênios se entregaram à bebida, sem
comedimento. Portanto, os átomos que atualmente compõem os corpos do ser humano ocidental são incapazes de
vibrar na frequência necessária para a percepção dos mundos invisíveis, como ocorria antes do vinho ser acrescentado
à alimentação humana.
Analogamente, embora uma criança possa crescer com dieta sem carne, ainda participa da natureza feroz dos
ancestrais carnívoros desde milhões de anos. É claro que os efeitos são atenuados quando comparados com os que
continuam a deliciar-se com esse alimento. Assim, as consequências da introdução da carne estão firmemente
implantadas e arraigadas, mesmo naqueles que agora não a consomem.
Não é de se espantar: quem ainda aprecia a carne e o vinho, às vezes, extravasa uma perversa selvageria, e
exibe uma ferocidade incontida contra qualquer dos sentimentos superiores, supostamente acalentados durante
séculos por uma, assim chamada, civilização!
Enquanto as pessoas continuarem a reprimir o Espírito imortal dentro de si, por apreciarem a carne e o
enganador Espírito do álcool, nunca haverá paz duradoura na Terra. A ferocidade inata produzida por estes alimentos,
de vez em quando, virá à tona e arrebatará até as mais altruísticas concepções e ideais num turbilhão de selvageria,
numa orgia de cruel carnificina, que aumentará em proporção ao desenvolvimento da inteligência do ser humano, o
que o habilitará a conceber com sua Mente superior, métodos de destruição mais diabólicos do que qualquer um já
testemunhado.
Não há necessidade de argumentos para provar que a última guerra foi mais destrutiva, do que qualquer dos
conflitos anteriores registrados pela história, porque foi travada entre mais seres humanos com cérebros do que entre
seres humanos com músculos.
A habilidade, que em tempos de paz tem sido tão proveitosa em empreendimentos construtivos, foi
canalizada para objetivos de destruição. Podemos supor que, se houver outra guerra daqui a cinquenta ou cem anos,
a Terra poderá, talvez, ficar despovoada.
Portanto, é absolutamente necessária uma paz duradoura sob o ponto de vista da autopreservação. Nenhum
ser humano que raciocine pode permitir-se ignorar esta realidade, e deve interessar-se por toda filosofia que
considere a guerra um fato absurdo e lastimável, mesmo que se tenha habituado a olhá-la como um acontecimento
banal.
Está comprovado que uma dieta carnívora aguça a ferocidade. Mas não nos estenderemos mais sobre o
assunto por falta de espaço. Contudo, queremos mencionar como exemplo claro a bem conhecida agressividade das
feras e a crueldade dos índios antropófagos americanos. Por outro lado, a força prodigiosa e a natureza dócil do boi,
do elefante e do cavalo mostra o efeito da dieta herbívora nos animais.
Os povos vegetarianos e pacíficos do Oriente são uma prova para reforçar o argumento contra uma dieta de
carne. Portanto, a relação entre violência e hábitos carnívoros é inegável.
No passado, o consumo da carne impulsionou os, ainda tímidos, desejos humanos de conquistar e dominar a
Terra. Serviu a propósitos bem delineados para nossa evolução. Mas agora estamos no limiar de uma nova era: “o
desenvolvimento espiritual por meio da abnegação e do serviço”.
A evolução da Mente proporcionará uma sabedoria profunda, muito além das possibilidades atuais. Contudo,
para merecermos tão ampla sabedoria é imprescindível demonstrar, na prática, que somos dignos de confiança.
Devemos tornar-nos inofensivos como pombas. Caso contrário, seríamos capazes de usá-la com propósitos ainda mais
egoístas e destrutivos, uma tenebrosa ameaça para a vida na Terra. A dieta vegetariana deve ser adotada para
evitarmos nossa própria calamidade.
Mas há vegetarianos e vegetarianos. Atualmente na Europa as condições obrigam o povo a abster-se de carne
por um longo tempo. Não são verdadeiros vegetarianos, pois desejam ardentemente comer carne, e acham a escassez
uma grande privação e sacrifício. Com o tempo até se acostumariam e, em muitas gerações, isso os converteria em
seres mais tranquilos e dóceis. Obviamente este não é o tipo de vegetarianismo que necessitamos agora.
Há outros que se abstêm de carne por motivo de saúde. Um motivo egoísta. Muitos dentre eles,
provavelmente até desejam deleitar-se com as “Panelas de carne do Egito”. Atitude mental que não colabora para
abolir a ferocidade com rapidez.
Mas há uma terceira classe capaz de compreender que a vida é dádiva de Deus, e que causar sofrimento a
qualquer criatura é crime contra a vida e a liberdade. Sendo assim, imbuídos de compaixão, se abstêm da carne como
alimento. Estes são os verdadeiros vegetarianos. É evidente que uma guerra mundial nunca poderia ser travada por
pessoas com essa mentalidade.
Todos os verdadeiros Cristãos deverão abster-se de carne por motivos semelhantes. Então, será um fato a paz
na Terra e a boa vontade entre os seres viventes. As nações transformarão suas espadas em arados e suas lanças em
instrumentos de colheita. Ferramentas para propiciar vida, amor e felicidade. O advento de uma nova ordem onde
hostilidade, tristeza e sofrimento serão fatos do passado.
Nossa própria segurança, a segurança de nossos filhos e até a segurança da raça humana, obriga-nos a
entender a inspirada poetisa Ella Wheeler Wilcox136.
Ela escreveu este comovente apelo em favor de nossos amigos animais:

“Eu sou a voz dos sem voz,


através de mim os mudos hão de falar,
para que o surdo ouvido do mundo
seja aberto para escutar
as crueldades contra os fracos,
que não podem se expressar.
O mesmo poder que ao pardal formou
ao homem, como um rei, modelou.
A todos Deus concedeu

136
N.T.: 1850-1919: escritora e poeta estadunidense.
uma centelha espiritual
e de pele ou penas cada uma revestiu.
Sou o guardião de meu irmão,
e até que o mundo corrija sua direção,
a luta dele lutarei,
e para animais e aves
a palavra deles falarei”.
Parte IV - O Evangelho do Regozijo

A recente luta titânica entre as nações europeias abalou o equilíbrio do mundo inteiro. A esfera emocional das
pessoas que vivem até nas mais remotas regiões da Terra foi perturbada como nunca havia sido antes. Os sentimentos
foram sacudidos pela cólera, ódio, histeria ou desalento, conforme a natureza e o temperamento de cada um.
Para os Estudantes dos mistérios profundos da vida, os fenômenos físicos e suprafísicos estão interligados.
Compreendem a ação das Leis da Natureza na Terra e seus efeitos correspondentes nos Mundos invisíveis. Quando
comparados com os que vivem aqui, em corpos físicos, fica evidente que os habitantes dos reinos espirituais são
afetados com mais intensidade. Em Corpos Densos e pesados não podemos sentir toda amplitude e intensidade das
ondas emocionais.
Depois da deflagração da guerra, uma profusão de emoções espalhou-se forte e rapidamente, pois não havia
condições adequadas para refreá-la.
Transcorrido um ano, com grande trabalho e organização, os Irmãos Maiores da Humanidade conseguiram
convocar um exército de Auxiliares Invisíveis. Eles passaram pelo umbral da morte e sentiram a tristeza e o sofrimento
inerentes a uma transição prematura. Ficaram sensibilizados e plenos de compaixão por todos que constantemente
chegavam. Habilitaram-se para confortá-los e ajudá-los até que encontrassem seu próprio equilíbrio.
Mais tarde, contudo, intensificaram-se os sentimentos de ódio e maldade gerados no Mundo Físico, cujas
influências tornaram-se mais danosas. Então, foi necessário adotar urgentes providências para neutralizar essa nova
onda de sentimentos negativos. Em todos os lugares as forças do bem foram reunidas e dirigidas para ajudar a
restabelecer o equilíbrio. Empenharam-se em conservar, e manter controladas, as emoções básicas.
A maioria das pessoas orava pelo fim da guerra. Mas um fato relevante agravou o problema e corroborou para
prolongá-la: a fixação mental sobre o lado aterrador do conflito. O lado favorável caiu no esquecimento.
“O lado favorável dessa guerra cruel? Como assim?”
Essas perguntas podem, provavelmente, surgir na mente do leitor. Para alguns pode até parecer sacrilégio
sugerir um lado favorável diante de tamanha calamidade.
Muitos costumam reter o olhar sobre o aspecto sombrio da história. Entretanto, vejamos se não há uma
auréola prateada até na mais escura nuvem. Se não existe um método pelo qual essa auréola possa ser mais e mais
ampliada até que a nuvem também fique luminosa.
Há algum tempo, nossa atenção foi dirigida para um livro chamado Poliana 137. Poliana era a filha de um
missionário. Seu salário era muito baixo, mal garantia o essencial para viver.
De tempos em tempos, chegavam, ao Centro Missionário, caixas de donativos com roupas usadas e
quinquilharias para serem distribuídas. Poliana esperava que algum dia chegasse alguma caixa contendo uma
bonequinha. Seu pai até escreveu solicitando, para uma próxima remessa, a inclusão de uma boneca para sua filha,
mesmo usada.
A caixa chegou, mas, em vez de uma boneca, continha um par de muletas. Notando a decepção da criança, o
pai disse: “Há uma coisa pela qual podemos ficar contentes e agradecidos, não precisamos de muletas!”.
Desde então instituíram o jogo do “estou contente”. Consistia em procurar e encontrar qualquer motivo para
alegrar-se e agradecer. Não importava o que fosse. E eles sempre garimpavam uma boa razão para contentarem-se.
Por exemplo, quando não podiam pagar os pratos mais elaborados do cardápio do restaurante, eram
obrigados a pedir a mais modesta refeição, então diziam: “Bem, estamos contentes, pois gostamos de feijão”. Embora
os olhos brilhassem fixamente sobre o apelo visual dos pratos suculentos, com preço obviamente proibitivo.
Depois, ensinaram o jogo a outros. Proporcionaram estados de felicidade e satisfação para muitas pessoas.
Inclusive para algumas que já não acreditavam na possibilidade de sentir alegria.
Por fim, estavam realmente passando fome. Além disso, a mãe de Poliana partiu para o céu onde podia viver
sem sobrecarregar as despesas. Logo depois seu pai também partiu.
Poliana passou a depender da generosidade de uma tia solteira e rica. Mas era rabugenta e hostil, morava em
Vermont138. Foi mal-recebida e obrigada a hospedar-se em um quarto inóspito. Mesmo assim a menina só viu motivos
para alegrar-se. Literalmente irradiava alegria.
Por seu encanto conquistou a simpatia da empregada e do jardineiro e, com o tempo, até da áspera tia.
A Mente radiosa da criança logo forrou as paredes nuas, o chão, e até mesmo o sótão do seu frio quarto.
Povoou o ambiente com toda espécie de beleza. Mesmo sem quadros na parede ela ficava contente. Atravessando o
olhar por sua pequena janela deslumbrava-se com a paisagem que superava em beleza a obra de talentosos pintores.
Avistava o gramado, um tapete vivo, verdejante e dourado, nem o mais hábil tecelão do mundo poderia assim tecer.

137
Pollyanna ou Poliana é uma comédia de Eleanor H. Porter, publicado em 1913 e considerado um clássico da
literatura infanto-juvenil.
138
N.T.: Vermont (também chamado Vermonte) é um dos 50 estados dos Estados Unidos.
Se em seu grosseiro lavatório não havia espelho, ela ficava contente porque isso a poupava de ver suas sardas. Se
tivesse sardas, era um bom motivo para ficar contente, pois não eram verrugas! Se sua mala era pequena e as roupas
poucas, não eram bons motivos para ficar contente porque com rapidez poderia desfazer a bagagem? Se seus pais já
partiram, não devia estar contente por eles estarem no céu, com Deus? Deles não podia mais ouvir a voz, mas
alegrava-se por poder dirigir-lhes o pensamento!
Quando voava como um pássaro pelos campos e charnecas, esquecendo a hora da ceia, ao voltar mandavam-
na para a cozinha. Na mesa apenas pão e leite. A tia, esperando lágrimas e protestos, ficava surpresa ao ouvi-la
exclamar: “Que bom, estou tão contente com a refeição; eu gosto muito de pão e leite”.
Qualquer tratamento ríspido, aliás, muito abundantes no início, Poliana transformava em bom motivo para
enaltecer o bem por detrás de tudo. Com pensamentos e palavras sempre demonstrava gratidão pelo que recebia.
A primeira a seguir seu exemplo foi Nancy, a criada da casa. Nancy aguardava com verdadeiro pavor o dia da
semana destinado à lavagem de roupa. Encarava a segunda-feira com péssimo humor. Não tardou para a menina
contagiá-la. Segunda-feira logo se transformou na melhor de todas as manhãs, pois justamente nesse dia podia ficar
livre da roupa suja e melhor desfrutar dos outros dias da semana. Também se sentia contente por se chamar Nancy e
sorria imaginando um nome estranho, por exemplo, Hepsibah.
Certo dia, Nancy protestava dizendo: “Quero ver o que há num enterro para ficar contente”. Poliana de
pronto respondeu: “Claro que há. Podemos ficar contentes por não ser o nosso”.
Com as costas encurvadas, o jardineiro se queixava do reumatismo. Poliana entra em cena aplicando o jogo do
contente e mostra-lhe a vantagem de estar meio curvo. Deveria ficar contente, pois estava mais próximo do chão e se
curvava só mais um pouquinho na hora de arrancar o mato.
Numa mansão perto de sua casa vivia um velho solteirão. Pessoa reclusa e impermeável. Mesmo diante das
suas antipáticas atitudes a menina se mantinha solícita. Visitava-o com frequência. Não ficava indiferente à sua
inevitável solidão.
Com inocência e compaixão Poliana atribuía sua falta de cortesia a algum infortúnio guardado em segredo.
Cultivava crescente esperança de encontrar uma boa oportunidade para ensinar-lhe o jogo do contente.
Eis que ela ensinou e ele aprendeu. Mas não foi fácil no começo. Houve um episódio no qual ele quebrou a
perna. Foi trabalhoso convencê-lo a ficar contente por haver quebrado apenas uma e não as duas pernas. E ainda
mais, admitir a possibilidade de algo muito pior: ter tão numerosas pernas quanto centopeias. Já imaginou todas elas
quebradas!
Por fim, graças à sua alegre disposição ele passou a gostar do Sol. Abria as venezianas e enrolava as cortinas.
Já conseguia abrir seu coração para o mundo. Ele quis adotá-la, não tendo êxito, adotou um menino órfão que Poliana
havia encontrado à beira da estrada.
A incansável postura amorosa da menina também tocou a alma de uma senhora. Tinha o hábito de usar
apenas roupas escuras e tristes. Mudou para roupas com cores alegres e joviais.
Outra senhora era rica, porém infeliz. Sua mente ficou fixada em dissabores do passado. Poliana redirecionou
sua atenção para as misérias alheias. Aprendeu o jogo do contente. Agora sabia como levar alegria para almas que
tinham fortes razões para sofrer. Esta senhora encheu de satisfação sua própria alma. Sem o saber, ela reaqueceu a
relação de um casal que estava a ponto de separar-se. Acendeu em seus corações, já quase frios, um grande amor
pelos filhos.
Aos poucos, toda a cidade começou a jogar o jogo do contente. Foi uma reação em cadeia. Sob esta influência,
homens e mulheres transformavam-se em seres diferentes. Os infelizes ficavam felizes. Os doentes curavam-se. Os
que estavam a ponto de proceder mal reencontravam o bom caminho. Os desanimados readquiriam coragem.
O principal médico da cidade achou por bem recomendá-la, como se ela fosse algum remédio. Dizia: “Essa
garotinha é melhor do que um vidro de tônico. Se há alguém capaz de retirar o mau humor de alguém é ela. Uma dose
de Poliana é mais eficaz na cura do que uma farmácia cheia de medicamentos”.
Mas o jogo do contente operou um milagre de maiores proporções. Conseguiu transformar o caráter de sua
intransigente e insensível tia. Ela recebeu Poliana em sua casa por estrito dever de família. Mas a convivência com sua
sobrinha impregnou seu coração com transbordante carinho. A sobrinha foi transferida de seu frio quarto no sótão
para um quarto lindamente decorado. Bem mobiliado com quadros e tapetes. Situava-se no mesmo andar dos
aposentos de sua tia. Assim, o bem por ela praticado reverteu em seu próprio benefício.
A história é uma ficção, mas está inspirada em fatos fundamentados na lei cósmica. O exemplo dessa menina,
com as pessoas e o ambiente que a cercava, nós, Estudantes dos Ensinamentos Rosacruzes, podemos e devemos
praticar em nossas esferas de ação. Tanto no círculo mais imediato, com nossos parentes e companheiros próximos,
como no mundo em geral.
Bem, então, que benefício se pode extrair da guerra? É possível encontrar um lado favorável, mesmo numa
tão devastadora calamidade? Como superar a decepção com a derrota ou o pavor diante das catástrofes anunciadas
em manchetes sensacionalistas?
Em primeiro lugar não devemos somar mais desalento, ódio e rancor aos sentimentos similares já proliferados
por outros.
E é evidente que há motivo para extremo regozijo. Basta notar o Espírito de abnegação que impele tantos
nobres soldados a renunciar o rentável trabalho no mundo, além do conforto de seus lares. Encaram o conflito com a
esperança e com o ideal de tornar o mundo melhor. Não para si, mas para os que vêm depois. Reconhecem a remota
possibilidade de retorno para gozar dos eventuais frutos alcançados.
Também há motivo para regozijo quando tantas mulheres, educadas na comodidade e no conforto, trocam
seus lares e vida social pelo árduo trabalho de cuidar dos feridos. Elas compartilham um notável Espírito de altruísmo.
Aquelas que, por força das circunstâncias, são obrigadas a permanecer em casa, ainda assim colaboram tecendo e
trabalhando para socorrer as vítimas da batalha.
O altruísmo está nascendo em milhões de corações humanos. O imenso sofrimento é seu fermento. Da
opressiva angústia, imposta na última guerra, a Humanidade torna-se mais benevolente, nobre e aprimorada.
Podemos alimentar este bom aspecto da recente experiência nefasta. Também podemos ensinar a ter
esperança e comentar sobre as bênçãos futuras resultantes desses conflitos. Assim ganharemos forças renovadas para
suplantar as provas e estaremos mais qualificados para ajudar o próximo a mudar de atitude, principalmente de
atitude mental.
Desse modo, imitaremos Poliana. Com dedicação sincera, nosso exemplo se ampliará e se enraizará em outros
corações. Como pensamentos são coisas, e os pensamentos positivos são mais poderosos que o mal, desde que
estejam em harmonia com a tendência da evolução, breve virá o dia em que conseguiremos a supremacia do bem e
ajudaremos a instaurar a paz duradoura.
Esperamos que esta sugestão seja seriamente incorporada e posta em prática. Esperamos o empenho de
todos os Estudantes, pois a imperiosa necessidade atual supera a de outros tempos.
Capítulo X - Método Científico para o Desenvolvimento Espiritual
Parte I - Analogias Materiais

Enquanto estávamos descendo para uma existência concreta, através da involução, nossa linha de progresso
consistia unicamente no desenvolvimento material. Mas, desde que ultrapassamos o nadir da materialidade 139 e
começamos a ascender para além do mundo concreto, a expansão espiritual está ganhando importância cada vez
maior. Agora, o progresso espiritual é um fator determinante para nosso desenvolvimento, embora ainda restem
muitas lições fundamentais para serem aprendidas nessa atual fase material de nossa evolução. Isto se aplica à
Humanidade em geral. Em especial, é claro, aos que já estão conscientemente aspirando à vida superior. Portanto, é
oportuno rever, por outro ângulo, os Ensinamentos Rosacruzes. Trata-se do método científico empregado para
alcançar o almejado desenvolvimento espiritual.
Pessoas da velha geração, especialmente na Europa e no leste dos Estados Unidos, sem dúvida, devem
lembrar-se com prazer de seus passeios através de tranquilas alamedas nos campos de exuberante frescor. Algumas
dessas caminhadas conduziam a um murmurante riacho com seu velho e rústico moinho e sua barulhenta roda d’água
movendo, com dificuldade, todo o rústico maquinário. Apenas uma pequena fração da força transportada pela água
corrente era aproveitada, a fração restante seguia seu curso natural, desperdiçada. Mais tarde, surgiu uma nova
geração de empreendedores que notou a potencialidade dessa poderosa energia. Poderia ser mais bem aproveitada
com as recentes conquistas científicas. Engenheiros começaram a construir represas para deter e controlar o fluxo das
águas, evitando desperdícios. Através de sistemas de canos e calhas condutoras, e em harmonia com princípios
científicos, conduziam, para as rodas d’água, a água represada nos reservatórios. Dessa forma podiam, então, regular
a vazão da grande energia assim armazenada. Liberavam apenas a quantidade suficiente para movimentar as rodas
d’água, ajustando a velocidade e o volume conforme a necessidade.
Sem dúvida, a roda d’água construída cientificamente é muito mais eficiente quando comparada com a sua
rústica antecessora. Trabalhando com as Leis da Natureza, o ser humano assegurara um provedor com energia
inesgotável. Apesar disso, ainda persistia uma idêntica limitação. Sua poderosa energia podia ser aproveitada somente
no lugar onde estava localizada a própria fonte geradora. Tais lugares, em geral, estão a muitos quilômetros dos
centros urbanos, justamente onde há maior demanda de energia.
O novo desafio agora estava em conduzi-la aonde fosse mais necessária. Para solucionar esse problema, as
Leis da Natureza foram invocadas mais uma vez. Surgiram os geradores elétricos. Agora a energia mecânica das rodas
podia ser transformada em energia elétrica.
Mas como enviar e distribuir essa energia para os centros urbanos? A inventividade humana sempre
reaparece. Com diligentes esforços e empregando os adequados métodos científicos, em harmonia com as Leis da
Natureza, descobriu-se que diferentes metais transmitem eletricidade com maior ou menor resistência. Constatou-se
que o cobre e a prata são os melhores condutores. Logicamente, foi escolhido o cobre por ser o mais barato.
O Estudante deve observar, com atenção, que não podemos obrigar as forças da natureza a fazer nada;
sempre que a utilizamos devemos se harmonizar com a manifestação delas, escolhendo a linha de menor resistência
para obter o máximo de energia. Se fios de ferro ou prata alemã, que têm uma resistência comparativamente alta,
tivessem sido escolhidos como transmissores, uma grande quantidade de energia teria sido perdida, além disso,
outras complicações teriam surgido, as quais não precisamos entrar em nosso propósito. Mas trabalhando com as Leis
da Natureza e escolhendo a linha de menor resistência, obtemos o melhor resultado da maneira mais fácil.
Mas, os pesquisadores enfrentaram outros problemas. Como transportar a força elétrica captada da água?
Como convertê-la em eletricidade utilizável a muitos quilômetros além da fonte geradora?
As pesquisas demonstraram que qualquer corrente elétrica prefere, sempre que há opção, chegar ao solo
seguindo o caminho mais curto e com menos obstáculos. Então, para evitar o escoamento de corrente elétrica através
da fiação foram desenvolvidos os materiais isolantes. Assim, o metal que transporta a corrente elétrica foi isolado da
terra pelo revestimento com material isolante. Exatamente como altos muros confinam, com segurança, prisioneiros
em seu interior.
Foi preciso pesquisar materiais com os quais a eletricidade demonstrasse uma aversão natural. O vidro, a
porcelana e certas substâncias fibrosas mostraram-se impermeáveis à eletricidade.
Vemos, portanto, que através de procedimentos científicos e da engenhosidade, e sempre trabalhando com
as Leis da Natureza, os problemas podem ser solucionados. No nosso exemplo, foram superados os desafios inerentes
à transformação e ao transporte de grandes quantidades de energia para lugares distantes, com eficiência e máxima
redução do desperdício.
Resultados igualmente maravilhosos podem ser obtidos em proveito e conforto da Humanidade, basta
empregarmos métodos científicos aos eventuais desafios. Por exemplo, na agricultura é possível fazer brotar duzentos
pés de uma planta onde antes, pelos antigos métodos rústicos, nem sequer um vingaria.
139
N.T.: Na Época Atlante
Gênios, como Luther Burbank140, melhoraram as variedades silvestres de frutas e legumes tornando-os
maiores, mais suculentos e mais saborosos, bem como mais produtivos.
Em qualquer área na qual os métodos científicos suplantaram os hábitos rústicos e o puro acaso também foram
obtidos resultados vantajosos.
Mas, vamos enfatizar o aspecto mais importante dentro do conjunto de nossas considerações: “Tudo o foi
feito, foi realizado trabalhando com as Leis da Natureza”.
Lembremos o axioma hermético que sintetiza a Lei da Analogia: “Como é em cima, assim também é embaixo”.
A Lei da Analogia é a chave mestra de todos os mistérios espirituais ou materiais. Podemos, então, deduzir com
segurança: “métodos científicos aplicados em problemas materiais produzem resultados valiosos. Obteremos
resultados igualmente valiosos quando aplicarmos métodos análogos para a solução de desafios no domínio
espiritual”. Mesmo percorrendo um retrospecto superficial do desenvolvimento dos sistemas Religiosos do passado,
já é o suficiente para evidenciar a ausência de ciência e método no bojo de seus preceitos. Além disso, prevaleciam
concepções completamente fortuitas. Apesar de tudo, algumas almas alcançaram sublime espiritualidade nas alturas
celestes, graças a um profundo sentimento de devoção. São reverenciados através dos séculos e recebem o título de
Santos. Iluminam caminhos. Exemplificam o que pode ser feito. Mas, como alcançar essa sublime espiritualidade? Eis
um antigo desafio tanto para os Aspirantes do passado como do presente. Mesmo para aqueles que desejam
ardentemente. Lamentavelmente são muito poucos que, comparativamente, procuram o caminho hoje em dia Os
Irmãos Maiores da Rosacruz desenvolveram um método científico que, se seguido persistente e profundamente,
ajudará a desenvolver os poderes latentes da alma. É útil e eficiente para todas as pessoas. Tão eficaz quanto uma
prática sistemática pode tornar qualquer pessoa competente na atividade material em que se compenetre.
Para entender este assunto é necessário repassar alguns tópicos do exemplo anterior. Foi a velha e precária
roda do moinho que despertou, no engenheiro, a ideia de utilizar a força da água de maneira mais eficiente e
vantajosa.
Se estudarmos o desenvolvimento natural do poder anímico através dos degraus evolutivos, estaremos,
então, em posição de entender os grandes e benéficos resultados que podem advir da aplicação de métodos
científicos nesta importante questão.
Naturalmente, os Estudantes dos Ensinamentos Rosacruzes estão bem familiarizados com os pontos principais
deste processo de desenvolvimento com relação à Humanidade. Mas pode haver alguns não tão bem-informados. Em
consideração a eles faremos um resumo sobre esse assunto.
A ciência diz, com muita propriedade, que uma substância invisível, intangível, chamada Éter, permeia tudo,
desde os sólidos mais densos até o ar que respiramos. Este Éter nunca foi visto, medido ou confinado em laboratório
pela ciência. Porém, é necessário admitir a sua existência para explicar os vários fenômenos como, por exemplo, a
transmissão de luz através do vácuo.
Portanto, diz a ciência, o Éter é o agente de transmissão dos raios de luz. Ele nos traz uma imagem de todos os
objetos que estão ao nosso redor e no raio de ação de nossa capacidade visual, impressionando a retina de nossos
olhos.
De igual modo opera uma máquina cinematográfica quando projeta um filme. Ela focaliza uma série ordenada
de fotogramas em rotação constante. O Éter transporta as imagens e os movimentos de todos os objetos contidos em
cada fotograma. Transmite os mínimos detalhes para a placa sensível através das lentes da câmera. Deixa um registro
completo de todo o cenário e dos atores da película.
Imaginemos nossos olhos semelhantes a uma filmadora muito fiel e sensível, dotada de filme suficientemente
extenso para conter todas as imagens de uma vida. Ao terminar a existência poderíamos acessar um arquivo
completo de todos os acontecimentos perfeitamente gravados nesse filme.
Há muitas pessoas com as mais diversas deficiências. No entanto, há uma coisa que todos fazem para poder viver:
“Respirar, respirar, respirar...”.
Deus recebe várias denominações. Natureza é uma delas. E a Natureza sabiamente determinou: “O registro
completo de nossas vidas será gravado por meio da respiração, função imprescindível e comum para todo ser vivo”.
Em todos os momentos de nossa participação no cenário da vida, desde o primeiro alento até o último
suspiro, o Éter, que penetra em nossos pulmões junto com o ar inalado, leva consigo a imagem completa de nosso
ambiente externo. Tanto dos nossos atos como das ações de outras pessoas que convivem conosco.
O registro ocorre em um único e pequeno átomo situado no ventrículo esquerdo, no ápice do coração, por
onde o sangue recém-oxigenado flui incessantemente. O sangue transporta as imagens particulares de cada evento de
nossa vida.
Portanto, tudo que dizemos ou fazemos, de bem ou de mal, de maior ou de menor importância, fica
indelevelmente gravado no coração.

140
N.T.: (1849-1926) norte-americano, foi botânico e horticultor, pioneiro na ciência agrícola.
Esse registro serve de base para o método lento e natural de crescimento da alma através dos ciclos
evolutivos. Tal como a velha e primitiva roda d’água.
No próximo capítulo, estudaremos esse processo com mais detalhes e com abordagem científica. Esse
conhecimento devidamente aplicado promove rápido crescimento espiritual, aperfeiçoamento e desenvolvimento dos
poderes anímicos ainda latentes.
Parte II - Retrospecção: Um Método para evitar o Purgatório

Vimos no capítulo anterior que um registro de nossa existência, desde o berço até o túmulo, está gravado
num pequeno átomo no coração. O Éter que inalamos em cada respiração transporta consigo os quadros do mundo
exterior. Graças ao Éter registramos as cenas, como em um filme, de tudo que vivemos e ainda estamos vivendo.
Esse processo determina a base de nossa existência “post-mortem”.
O registro das ações más é erradicado através do sofrimento. A dolorosa experiência purgatorial. O fogo do
remorso cauteriza a alma à medida que o filme se desenrola diante de nossa visão. Dessa maneira ficamos menos
propensos a repetir, em vidas futuras, os mesmos atos reprováveis.
Por outro lado, quando recordamos as imagens das boas ações praticadas sentimos uma alegria celestial. A
essência dessa sublime experiência estimulará, de forma subconsciente, a alma a agir ainda melhor em vidas futuras.
Mas, esse processo é naturalmente lento e pode ser comparado ao funcionamento da velha roda d’água. Esse
ritmo compassado e moroso foi estabelecido pela sábia natureza com o propósito de conduzir a Humanidade de
forma prudente e, também, torná-la cada vez mais consciente de suas leis. Nesse ritmo a maior parte da Humanidade
está gradativamente evoluindo do egoísmo para o altruísmo. Embora extremamente vagaroso, parece ser o único
método pelo qual aprende.
Há outra classe que, no relance de uma visão do distante futuro, vislumbrou uma Humanidade gloriosa
expressando seus atributos divinos, finalmente vivendo uma vida de amor e paz. Esta classe tem as estrelas como alvo
de suas aspirações. Procura realizar em uma, ou em poucas encarnações, o que seus semelhantes necessitarão de
centenas de reencarnações para consumar. São como os pioneiros que souberam aproveitar, cientificamente, a
energia da água para transformá-la em eletricidade.
Os pioneiros no domínio espiritual também estão à procura de um método científico para superar a perda de
tempo e energia envolvidos no lento processo de evolução. Método que possa capacitá-los a avançar na grande obra
e assegure um desenvolvimento pessoal de forma científica.
Este era o maior desafio dos pioneiros Irmãos da Ordem Rosacruz. Com afinco estudaram e desenvolveram
um método. Agora está disponível a seus fiéis seguidores e, também, para a prosperidade eterna. Um sistema eficaz a
todos aqueles que anseiam e perseveram na senda espiritual.
Já vimos como os engenheiros se incumbiram de aperfeiçoar a primitiva roda do moinho e conseguiram
transmitir eletricidade para pontos distantes. Seus objetivos foram concretizados graças ao estudo das vantagens e
limitações do primitivo mecanismo.
Assim também, os Irmãos Maiores da Rosacruz estudaram, com auxílio de sua visão espiritual, todas as fases
da evolução humana desde o Mundo Físico até o estado “post-mortem”. Assim conseguiram demarcar como o
progresso, através de muitas vidas, é gradativamente alcançado.
Estudaram também os sinais e símbolos dados à Humanidade através dos séculos para ajudá-la no
crescimento da alma. Especial atenção foi destinada ao estudo do Tabernáculo no Deserto. Esse templo conforme
afirmava São Paulo era: “Uma sombra das boas coisas que virão.”.
Durante as pesquisas encontraram o segredo do crescimento da alma oculto nos vários utensílios e acessórios
usados naquele antigo local de adoração.
As cenas do panorama da vida, que se desenrolam diante dos olhos da alma depois da morte, causam um
sofrimento no Purgatório e livram a alma do desejo de repetir as ações que originaram essa penitência. A dor
abrasadora sentida pela alma no Purgatório está intimamente ligada com o sal e o fogo. O sal era friccionado nas
vítimas encaminhadas ao Altar dos Sacrifícios antes de serem imoladas e consumidas no próprio fogo do altar.
Aplicando o axioma hermético “Como é em cima, assim também é embaixo”, concluíram que o método de
“Retrospecção” se harmoniza com as leis cósmicas do crescimento da alma.
A Retrospecção limpa os pecados da alma pelo sal da purificação e pelo fogo do remorso. Tem a propriedade
de realizar a cada dia o que a experiência purgatorial só pode fazer uma única vez ao término de cada vida.
Mas, ao mencionarmos a palavra “Retrospecção”, frequentemente ouvimos as pessoas afirmarem: “Ah, isso
não é novidade! Também é ensinada em outros grupos Religiosos. Eu mesmo já a pratiquei durante toda minha vida.
Examino meus atos diários todas as noites antes de dormir”.
Porém, isso não é suficiente.
Para poder realizar esta prática cientificamente é necessário reproduzir os processos da natureza, como no
exemplo do engenheiro. Para isolar a corrente elétrica do solo descobriu que o vidro, a porcelana e a fibra agiam
como obstáculos à sua passagem. Também devemos seguir, em cada detalhe, as propriedades e os processos da
natureza. Seguindo seus métodos certamente obteremos maior crescimento anímico.
Quando estudamos o processo de expiação purgatorial, aprendemos que “o panorama da vida se desenrola
em ordem inversa”, do túmulo para o berço. Cenas que se passaram no fim da vida são expiadas em primeiro lugar. As
que aconteceram no início da juventude são as últimas a serem revistas.
Essa inversão na ordem dos eventos auxilia no entendimento da lei de causa e efeito. Demonstra à alma o
mecanismo que define as consequências que foram colhidas na medida em que determinadas causas foram
semeadas.
Considerando esses fatos, podemos deduzir um método científico para o desenvolvimento da alma:
“O Aspirante deve examinar, passo a passo, a sucessão dos episódios ocorridos em sua vida, todas as noites e
antes de dormir. Deve começar pelas últimas ações imediatamente antes de se recolher, continuando gradativamente
em ordem inversa para os atos praticados durante a tarde, depois para os da manhã até o momento de acordar”.
Mas, e isto é muito importante, não é suficiente examinar essas cenas de maneira descuidada e admitir estar
arrependido ao defrontar-se com uma cena na qual agiu mal ou injustamente para com outra pessoa.
Os sinais gravados no Altar dos Sacrifícios oferecem instruções precisas e inequívocas:
“A carne ofertada no Altar dos Sacrifícios era atritada com sal e, em seguida, consumida pelo fogo (como é do
conhecimento de todos, o sal num ferimento provoca sensação dolorosa semelhante ao fogo). Assim também o
Aspirante ao desenvolvimento da alma deve compreender que ele é, ao mesmo tempo, oferta e sacrifício, sacerdote e
purificação, altar e chama ardente. Ele deve permitir que o sal expiatório e as brasas do remorso queimem e
cauterizem, no mais recôndito de seu coração, todas as falhas cometidas”.
O Aspirante deve sentir uma verdadeira contrição ao relembrar qualquer erro. Unicamente esse profundo e
sério procedimento apagará o registro do Átomo-semente no coração, deixando-o limpo. Sem esse compromisso
nada se conseguirá.
Contudo, se o Aspirante ao desenvolvimento científico da alma conseguir tornar bastante intenso este fogo do
remorso e da contrição, então, o Átomo-semente será purificado dos pecados diários acumulados durante sua vida.
Mesmo os acontecimentos anteriores ao início da prática destes exercícios irão gradativamente sendo transmutados
por esse fogo purificador. Assim, no fim da existência, quando o cordão prateado se romper, o Aspirante estará livre
do sofrimento na Região Purgatorial do Mundo do Desejo. Além disso, economizará o tempo equivalente ao período
de expiação purgatorial, ou seja, mais ou menos um terço do tempo que viveu encarnado em seu Corpo Denso.
A mesma coisa não sucede com as pessoas comuns que não tiveram o privilégio de aprender e a felicidade de
praticar este método científico.
O Aspirante que, incansável e dedicadamente praticar este método, encontrar-se-á desimpedido no mundo
invisível. Estará desprendido das limitações que aprisionam e escravizam. Totalmente livre para trabalhar pela
Humanidade sofredora durante o tempo que permanecer nas regiões inferiores do Mundo do Desejo.
Mas, há uma grande diferença entre o contexto de cada oportunidade oferecida e de suas respectivas
vantagens.
No Mundo Físico um terço de nossa vida é empregado em repouso e recuperação, outro terço empregado no
trabalho para obter recursos para manter nosso Corpo Denso alimentado, vestido e abrigado. Apenas o terço restante
estará disponível para os propósitos de relaxamento, recreação ou desenvolvimento da alma.
No Mundo do Desejo, onde o Espírito ingressa após a morte, a situação é bem diferente. Nele ingressando, já
estamos constituídos e envolvidos na matéria desse mundo. Alimento, vestuário e abrigo não são mais necessários.
Não sentimos cansaço nem sono. Desaparecem as necessidades biológicas tais como sustentar e resguardar o corpo.
O Espírito encontra-se livre. Está apto a utilizar seus veículos durante as vinte e quatro horas, dia após dia.
Portanto, o tempo disponível nos mundos internos, por termos vivido diariamente o nosso Purgatório aqui, é
equivalente ao período de toda uma vida destinada às tarefas na Terra.
Mas, o tempo assim poupado deve ser direcionado ao aperfeiçoamento do processo de evolução. Devemos
manter as ações e os pensamentos concentrados na colaboração e no auxílio dos nossos irmãos mais jovens e menos
afortunados. Agindo assim, colheremos uma abundante safra. Obteremos um substancial crescimento anímico na
existência “post-mortem”. Crescimento superior ao equivalente obtido durante muitas vidas comuns.
Quando renascermos, traremos conosco todos os poderes incorporados à alma. Estaremos muito mais
adiantados no caminho da evolução do que poderíamos estar em circunstâncias usuais.
Devemos alertar que outros métodos de desenvolvimento da alma ensinados por outras escolas são
perigosos. Podem, algumas vezes, conduzir seus praticantes ao manicômio.
O método científico de desenvolvimento da alma difundido pelos Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz só traz
benefícios e nunca causará nenhum dano a ninguém. Nós podemos dizer, também, que há outros meios de auxílio,
não mencionados aqui, e que são comunicados àqueles que tenham provado serem merecedores pela persistência, e
porquanto eles não visem, diretamente, o desenvolvimento da visão espiritual, essa será desenvolvida por todos
aqueles que praticá-lo com a necessária e fiel perseverança.
Capítulo XI - Os Céus Proclamam a Glória de Deus
“Os Céus proclamam a glória de Deus e o firmamento exibe Sua obra. Dia após dia enunciou Sua palavra, e
noite após noite mostrou Seu conhecimento. Não há fala ou língua onde Sua voz não se faça ouvir. Suas formas
espalharam-se por toda a Terra e Suas palavras até o fim do mundo. Erigiu um templo para o Sol, que é como o noivo
saindo de seu aposento, regozijando-se como um homem forte ao disputar uma competição.”141
Em toda parte, por imensas distâncias ao nosso redor, vemos o glorioso nascer do Sol trazendo luz e vida para
todos. Depois, a estrela do dia sobe aos céus para então declinar no horizonte ocidental numa gloriosa explosão de
luminosidade quando mergulha no mar. Espalha um arrebol de indescritíveis e variadas nuances, colorindo os céus
com pincel de fogo. Adorna o horizonte com os mais suaves e belos matizes, inimitáveis até para o artista mais
habilidoso.
Depois a Lua, o Astro da noite, nasce sobre as colinas do Leste conduzindo para cima, como séquito, as
estrelas e constelações em direção ao zênite, em sua perpétua dança circular ao redor da Terra.
Sem trégua e enquanto o tempo durar, os caracteres astrais descrevem sobre o mapa do céu a evolução
passada, presente e a futura da Humanidade no seu meio ambiente, o mundo concreto.
Neste caleidoscópio celeste em constante mutação, uma única estrela permanece comparativamente
estacionária. Para todos os efeitos e do ponto de vista de nossa efêmera vida de cinquenta, sessenta ou cem anos, é
um seguro e imutável ponto de referência: “A Estrela do Norte”142.
O marinheiro nutre uma fé absoluta quando navega na vastidão das águas. Sabe que, enquanto se guiar por
esse fixo ponto de luz, chegará a salvo ao porto desejado. Também não desanima quando as nuvens encobrem sua
estrela orientadora. Dispõe de uma bússola magnetizada por um poder misterioso. Chova ou faça sol, com neblina ou
garoa, ela aponta infalivelmente para esse luminar imóvel. Com a bússola o marinheiro pode pilotar sua embarcação
tão seguramente como se, na realidade, estivesse vendo a própria estrela.
Realmente, os céus proclamam as maravilhas do Senhor.
Assim como é no macrocosmo, o grande mundo fora de nós, também é em nossas vidas. Quando nascemos, o
Sol da vida desponta e começamos a ascensão através dos anos da infância e da juventude em direção ao zênite da
vida adulta.
O mundo circundante, em constante mutação, configura o nosso ambiente, incluindo pais, irmãos e familiares.
Com amigos, conhecidos e adversários, enfrentaremos a batalha da existência com a força que adquirimos em nossas
vidas passadas, pagando as dívidas contraídas e suportando os encargos diários. Podemos torná-los mais leves ou
pesados, consoante nossa sabedoria ou ausência dela.
Mas, entre todas as variáveis circunstanciais e as vicissitudes da existência, há um grande e magnífico guia
que, como a Estrela do Norte, nunca falha. Um guia de prontidão, como a fixa estrela no céu, para nos ajudar a
navegar no barco de nossa vida em águas serenas. Esse guia não poderia ser outro senão Deus.
É significativo lermos na Bíblia que os Reis Magos, quando caminhavam em busca do Cristo (NOSSO GRANDE
MESTRE ESPIRITUAL), guiavam-se também por uma estrela. Foram orientados até encontrarem a verdadeira e gloriosa
Luz Espiritual.
O que pensaríamos do capitão de um navio que amarrasse o leme e deixasse o seu navio à deriva,
entregando-o às mudanças do vento ou do destino? Surpreender-nos-ia se o navio finalmente naufragasse e o capitão
perdesse sua vida nas rochas? Certamente não. Extraordinário seria se conseguisse alcançar a margem.
Uma grande e maravilhosa alegoria se estampa nos céus em caracteres cósmicos. E, também, está escrita em
nossas próprias vidas. Com palavras de advertência, recomenda o abandono da fugaz vida material e a busca da vida
eterna em Deus.
Embora o véu da carne, o orgulho e a luxúria nos ceguem por algum tempo, não estamos abandonados, sem
um guia. Nossa estrela guia é o próprio Espírito.
Tal como o campo magnético atrai o ímã da bússola, o Espírito exercerá uma força de atração irresistível em
direção à sua fonte. Mesmo estando submerso e cego pelos convites sedutores do materialismo, não há como sufocá-
la completamente. Brotarão, cedo ou tarde, um anseio e um apelo ardente no seio da alma.
Presentemente há muitos tateando e vasculhando, na tentativa de encontrar uma solução para o
desassossego que ecoa em suas almas desde o íntimo. Muitas vezes encontram-se frustrados sem compreenderem o
motivo. Enquanto isso, algo continuamente os arrasta para frente à procura do reino espiritual. A busca por algo
superior: “Nosso Pai no Céu”
Davi disse:

141
N.T.: Sl 19: 1-5 .
142
N.T.: Símbolo muito importante entre os marinheiros, a estrela náutica refere-se à estrela que está no hemisfério
norte, ou seja, a “estrela polar” chamada também de “estrela do norte”. Para eles, a estrela do norte indicava a
posição certa, ou o norte no mapa.
“Se eu subir ao Céu, Tu estarás lá.
Se eu fizer minha cama no inferno, Tu estarás lá.
Tua mão direita me guiará e me sustentará.”143
E no oitavo Salmo, ele diz:
“Quando considero Teus Céus,
o trabalho de Teus dedos,
a Lua e as estrelas que ordenaste,
o que é para Ti o homem que Tu cuidas tanto,
e o filho do homem para que Tu o visitaste?
Pois Tu o fizeste um pouco mais baixo do que os anjos,
e o coroaste de glória e honra.
Tu o fizeste para que dominasse as obras de Tuas mãos,
Tu puseste todas as coisas sob seus pés.”.

Tudo isso não é novidade para quem está procurando a Luz, dando o melhor de si para viver a vida. Mas o
perigo ronda quando a indiferença se instala na alma. A indiferença produz uma espécie de anemia espiritual.
O bom timoneiro deve manter-se sempre alerta e vigilante, norteando-se, com o auxílio da bússola, para
conduzir sua embarcação na rota segura e ao destino traçado. De maneira análoga devemos buscar orientação e
manter o barco da alma em movimento. Caso contrário, o esmorecimento desviará o curso de nossas vidas.
Encaremos firmemente essa estrela da esperança, essa grande luz espiritual, a verdadeira e única coisa realmente
importante: “A vida de Deus”.

143
N.T. Sl 139: 8-10.
Capítulo XII - Religião e Cura
Em várias épocas e de maneiras específicas foram dadas à Humanidade Religiões apropriadas para estimulá-la
no caminho da evolução. O ideal de cada Religião era suficientemente elevado para despertar as aspirações do
conjunto de pessoas a quem eram destinadas. Mas não tão elevadas que estivessem além de sua compreensão e
desmotivassem sua busca.
O selvagem, por exemplo, precisa de um Deus forte. A Divindade, para conquistar seu respeito, deve
empunhar a espada flamejante do raio com mão viril e poderosa. O medo e a submissão pautam sua relação com o
sobrenatural. Por outro lado, um Deus portador de sentimentos sublimes, como amor e misericórdia, seria
desconsiderado.
Portanto, as Religiões foram gradualmente evoluindo à medida que a própria Humanidade evoluiu. O ideal
Religioso vem sendo elevado lentamente e atingiu o ponto mais alto por meio dos ensinamentos Cristãos. A flor das
Religiões é sempre oferecida à flor da Humanidade.
Numa época futura, uma Religião ainda mais elevada será dada a uma raça mais desenvolvida. A evolução é
eterna e incessante.
Os Invisíveis Guias da Humanidade dão a cada nação os ensinamentos mais adequados às suas condições. O
Hinduísmo ajuda nossos irmãos mais jovens no Leste. Mas, o Cristianismo é o Ensinamento Ocidental particularmente
apropriado aos povos do Oeste. A grande massa da Humanidade fica aos cuidados da Religião ensinada publicamente
(exotérica) em seu país de origem.
Mas, em todo agrupamento humano surgem os pioneiros. Com extraordinária precocidade necessitam de
ensinamentos em grau mais avançado. Para ministrar uma doutrina mais profunda, surgem as Escolas de Mistérios
situadas em locais apropriados a esse fim.
Quando apenas pequeno contingente está apto a receber esses ensinamentos preparatórios, eles são
ministrados particularmente. Porém, à medida que o número aumenta, os conhecimentos são ensinados
publicamente.
Assim acontece atualmente no mundo ocidental. Os Irmãos da Rosacruz ministraram ao autor a filosofia que
agora está sendo organizada e publicada, compondo nossa coleção de obras. Foi aprovada a fundação da
FRATERNIDADE ROSACRUZ para promulgar os ensinamentos contidos em sua filosofia. O propósito maior consiste em
colocar as almas Aspirantes em contato com o Mestre. Para efetivar esse encontro, o Aspirante deve demonstrar
sinceridade no amor e na dedicação ao serviço realizado AQUI no Mundo Físico. Para merecer a Iniciação nos Mundos
espirituais, deve dar provas suficientes de que usará sua força e conhecimento exclusivamente para servir.
Os ensinamentos superiores nunca são ministrados com fins lucrativos. No passado, São Pedro repreendeu
Simão, o feiticeiro. Ele queria comprar o poder espiritual para prostituí-lo com ganhos materiais. OS IRMÃOS MAIORES
TAMBÉM SE RECUSAM A ABRIR AS PORTAS AOS QUE PROSTITUEM A CIÊNCIA ESPIRITUAL DISTRIBUINDO
HORÓSCOPOS, LENDO AS MÃOS, OU DANDO INTERPRETAÇÕES DE CLARIVIDÊNCIA PROFISSIONALMENTE, POR
DINHEIRO.
A Fraternidade Rosacruz apoia o estudo da Astrologia e da quiromancia, e proporciona, gratuitamente, um
curso de Astrologia. Assim, todos os seus membros podem livremente habilitar-se nessa ciência. Sobretudo podem
evitar a armadilha de profissionais que são, quase sempre, charlatões.
Durante os últimos anos, desde o início da divulgação, os Ensinamentos Rosacruzes espalharam-se
rapidamente pelo mundo civilizado. São estudados avidamente desde o Cabo da Boa Esperança até o Círculo Ártico e
ainda além. Proporcionam respostas para os corações de inúmeras pessoas e de diversas culturas nas cabanas
cobertas de neve dos mineiros do Alasca, nas casas governamentais onde um vento tropical desfralda o Leão
Britânico, nas capitais das autocracias turcas, assim como nas democracias americanas. Nossos adeptos podem ser
encontrados tanto em instituições governamentais como nas mais modestas esferas da vida. Todos interagindo
ativamente conosco, em íntimo contato com o movimento. Trabalhando para a divulgação das verdades profundas
referentes à Vida e a todos os seres que auxiliam nossa evolução.

Os Princípios Rosacruzes de Cura

É uma inegável verdade que “o ser humano tem vida curta e atribulada”, e entre todas as vicissitudes da vida
nenhuma tem o maior poder de fazer se voltar para Deus do que o sofrimento no Corpo. Podemos perder a nossa
posição econômica ou os amigos com relativa equanimidade, mas quando nos falta a saúde e a morte nos ameaça, até
os mais fortes vacilam. Compreendendo a impotência humana, e poderosamente movido por uma necessidade
premente, sentimos necessidade de apelar para o socorro Divino, e quanto mais severamente a dor física nos aflige,
mais insistentemente vamos pedir ajuda à Deus. Nada pode nos fazer orar tão fervorosamente como a dor no Corpo.
Por isso, o ofício sacerdotal sempre esteve intimamente ligado à cura. Entre os selvagens, o sacerdote era
também o “homem da medicina”; na Grécia antiga o templo de Esculápio 144 era famoso pelas curas que eram
operadas lá; Cristo, em Seus dias, curava totalmente o doente. A igreja primitiva seguiu essa prática, como é evidente
nas Epístolas; e certas ordens católicas continuaram no esforço de amenizar a dor, através dos séculos, desde aqueles
tempos até os dias atuais.
Nos tempos modernos, a tendência é de se dissociar o consolador espiritual do sacerdote, quando de um
Corpo doente. Por isso, o estreito contato e a calorosa simpatia entre o sacerdote e os paroquianos foram perdidos, e,
em consequência, ambos empobreceram, nesse sentido. Antigamente, nos momentos de doença, o “bom pai” era
tido como um representante de nosso Pai Celeste. Provavelmente ele era não especializado em comparação com
nossos médicos modernos, mas, se ele fosse um verdadeiro e santo sacerdote, seu coração seria caloroso e amoroso e
suas orientações mais potentes, devido à fé do paciente em seu ofício sacerdotal, e, após a recuperação, seu paciente
também seria seu amigo e se aconselharia com ele a respeito das coisas espirituais, coisa que ele nunca faz, onde os
“consultórios” do sacerdote e do médico estão dissociados.
Não se pode negar que aquele consultório com essa dupla função deu aos titulares um poder e tanto sobre as
pessoas, e que esse poder foi, por vezes, abusado. Também é patente que a arte da medicina atingiu um estágio de
eficiência, o qual não poderia ter sido atingido, salvo pela devoção a um determinado fim e objetivo. As leis sanitárias,
a extinção de insetos portadores de doenças, e consequente imunidade, são testemunhos monumentais do valor dos
métodos científicos modernos. Portanto, pode parecer que tudo esteja bem e que não haveria necessidade de
escrever sobre o assunto, mas, na realidade, até que a Humanidade, como um todo, desfrute de uma perfeita saúde,
não existe nenhum problema mais importante do que a questão: como podemos conseguir e manter a saúde?
Além da escola regular de cirurgia e medicina, que depende exclusivamente de meios físicos para a cura da
doença, outros sistemas surgiram que dependem inteiramente da cura total mental. Já se tornou costume corrente
nas organizações que advogam a “cura mental”, a “cura natural” e outros a realização das “reuniões de troca de
experiências” e a publicação em revistas especializadas com testemunhos de milhares de pessoas agradecidas que
foram beneficiadas por tais “tratamentos”, e se os médicos da escola regular fizessem a mesma coisa não lhes
faltariam testemunhos similares acerca das suas eficácias.
A opinião de milhares de pessoas é de grande valor, mas nada prova porque outros tantos milhares de
pessoas podem sustentar exatamente o ponto de vista oposto. Ocasionalmente uma só pessoa pode ter razão,
enquanto o resto do mundo está errado, como aconteceu quando Galileu 145 afirmou que a Terra se movia. Hoje em
dia, todo o mundo converteu-se à opinião pela qual Galileu foi perseguido como herege. Sustentamos que, sendo o
ser humano um ser composto, a cura tem êxito na proporção em que se remedeiem os defeitos nos planos: físico,
moral e mental do ser, e nós, também, afirmamos que resultados podem ser obtidos mais facilmente nos períodos
quando os raios dos Astros são propícios para a cura definitiva de uma doença específica que faz uma pessoa sofrer.
Ou doenças podem ser tratadas com mais sucesso por remédios previamente preparados sob condições propícias (ou
favoráveis) do que quando o remédio é preparado sob condições astrais desfavoráveis.
É fato bem conhecido do médico moderno que o estado do sangue, e, por conseguinte, de todo o Corpo,
muda de acordo com o estado mental do paciente, e quanto mais o médico empregar a sugestão como auxiliar dos
remédios, tanto mais êxito obterá. Todavia, são poucos os que aceitariam o fato de que tanto nosso estado mental
como o físico são influenciados pelos raios planetários, que mudam com o movimento dos respectivos Astros e, ainda,
desde que foi reconhecida a existência da radioatividade, nós sabemos que todos os Corpos celestes lançam partículas
radioativas no espaço. Na telegrafia sem fio nos demonstra que as ondas etéreas viajam segura e rapidamente através
do espaço, atuando por meio de uma chave, de acordo com a nossa vontade. Sabemos, também, que os raios do Sol
nos afetam de modo diferente pela manhã, quando nos atingem horizontalmente, do que ao meio-dia, quando caem
sobre nós perpendicularmente. Se os raios luminosos do Sol, que se movem rapidamente, produzem mudanças físicas
e mentais, por que não teriam efeito correspondente os raios persistentes dos Astros mais lentos? Se eles têm, então
eles são fatores na saúde que não devem ser negligenciados por um verdadeiro curador científico.
A enfermidade é uma manifestação da ignorância, o único pecado, e a cura definitiva é uma demonstração do
conhecimento aplicado, que é a única salvação. Cristo é a incorporação do Princípio de Sabedoria e, na mesma
proporção em que o Cristo se forme em nós, alcançaremos a saúde. Por conseguinte, a pessoa que cura deve ser
espiritualizada e deve procurar infundir em seu paciente elevados ideais, para que gradualmente aprenda a se
conformar com as leis de Deus, que governam o Universo, alcançando, assim, saúde permanente na vida atual bem
como nas futuras.
Todavia, “a fé sem obras é morta.”. Se nós persistimos em viver sob condições não sanitárias a fé não nos salvará da
febre tifoide, mas quando nós aplicamos medidas preventivas apropriadas e remédios para os doentes, nós estamos
realmente mostrando nossa fé por obras.
144
N.T.: o deus da Medicina e da cura da mitologia greco-romana
145
N.T.: Galileu Galilei (1564-1542) – físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano.
Está escrito em várias obras que os membros da Ordem dos Rosacruzes têm o objetivo de ajudar a
Humanidade em obter a saúde do Corpo, e fazem o voto de curar definitivamente os outros gratuitamente. Mas,
como se vê em muitas das chamadas “revelações”, esta afirmação é inexata. Os Irmãos Leigos fazem o voto de assistir
a todos com o melhor de sua capacidade gratuitamente. Esse voto inclui o trabalho de curar definitivamente, para os
possuidores dessa aptidão, como foi o caso de Paracelso 146. Ele tinha uma grande capacidade curadora e procurava
combinar a eficiência dos remédios físicos, aplicados em fases astrológicas favoráveis, com a orientação espiritual
conveniente. Os que não possuem a faculdade sanadora trabalham em outros setores, mas todos têm uma
característica em comum: nunca cobram pelos seus serviços e sempre trabalham em segredo, sem clarinadas e rufos
de tambores.

146
N.T.: ou Paracelsus - Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim (1493-1521) – físico, botânico,
alquimista, astrólogo e ocultista suíço-germânico.
Capítulo XIII - Discurso na Colocação da Pedra Fundamental em
Mount Ecclesia

Cristo disse:

“Onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, Eu estarei no meio deles.”147

Essa declaração era a expressão da mais profunda sabedoria divina, assim como todos os Seus ensinamentos.
Ela se apoia sobre uma lei da natureza, tão imutável como o próprio Deus.
Quando os pensamentos de dois ou três focalizam-se sobre qualquer objeto ou pessoa determinada, gera-se
um poderoso pensamento forma. Resultado da bem definida projeção de suas Mentes conjuntamente ajustadas para
o propósito almejado. Seus efeitos ulteriores dependerão da afinidade entre os pensamentos e a natureza do alvo que
os recebe. Pois, para gerar uma correspondência vibratória sobre a nota soada por um diapasão, é necessário outro
diapasão afinado no mesmo tom.
Se forem projetados pensamentos e preces de natureza inferior e egoísta, apenas criaturas inferiores e
egoístas responderão a eles. Essa espécie de oração nunca chegará até Cristo, como a água não pode subir montanha
acima. Ela gravita em torno de demônios ou elementais: criaturas totalmente indiferentes às sublimes aspirações
manifestadas pelos que estão reunidos em nome de Cristo.
Estamos aqui reunidos hoje, neste lugar, com a finalidade de assentar a pedra fundamental para a construção
da Sede de uma Associação Cristã. Tão certo como a gravidade atrai uma rocha em direção ao centro da terra, o fervor
de nossas unidas aspirações atrairá a atenção do Fundador de nossa fé, o Cristo. Estamos confiantes que Ele está
entre nós. Com a mesma certeza na qual diapasões com a mesma afinação vibram em uníssono, também o augusto
Cabeça da Ordem Rosacruz, Christian Rosenkreuz, empresta sua presença nessa solene ocasião, quando a Sede da
Fraternidade Rosacruz está tendo início.
O Irmão Maior inspirador deste movimento está presente e visível, pelo menos para alguns de nós. Somando
o número dos presentes nesta maravilhosa ocasião, todos diretamente engajados no projeto, temos como resultado o
número perfeito, 12. Isto é, há três guias invisíveis que estão além do estágio da Humanidade comum, e nove
membros da Fraternidade Rosacruz. Nove é o número de Adão, ou Humanidade. Destes nove membros, cinco
(número ímpar masculino) são homens, e quatro (número par feminino) são mulheres. O número três, relativo aos
guias invisíveis, apropriadamente representa a Divindade assexuada.
O número dos que atenderam ao convite não foi programado pelo orador. Os convites para tomar parte nesta
cerimônia foram enviados a muitas pessoas, mas apenas nove compareceram. E, como não acreditamos no acaso, a
presença deve ter sido conduzida de acordo com os desígnios de nossos Guias invisíveis.
Esse sincronismo também revela a força espiritual por trás deste movimento. Como prova evidente desse
argumento observemos a extraordinária expansão dos Ensinamentos Rosacruzes. Nos últimos anos disseminaram-se
por todas as nações da Terra. Despertam aprovação, admiração e amor nos corações das pessoas da mais variadas
classes e condições, especialmente entre os homens.
Enfatizamos isto por ser um fato notável. Todas as outras organizações Religiosas compõem-se
majoritariamente por mulheres. Entretanto, os homens são maioria entre os membros da Fraternidade Rosacruz.
Também é significativo que os membros da área médica sejam mais numerosos em relação às demais profissões, e em
seguida encontram-se os ministros das igrejas. Isso demonstra a crescente conscientização da estreita relação entre
desenvolvimento espiritual e saúde. A fraqueza do Corpo reflete a fraqueza da Alma. Muitos estão se esforçando para
compreender essas relações e, assim, garantir melhor assistência aos enfermos.
Demonstra que os orientadores espirituais, cuja tarefa consiste em zelar pela saúde das almas, estão também
empenhados em socorrer mentes exigentes e inquiridoras. Dessa forma podem recuperar o vigor da fé, por vezes já
muito empobrecida, das Mentes inquietas que anseiam por explicações consistentes sobre os mistérios espirituais.
Com a razão satisfeita, reafirmam seus laços com a Igreja.
Explicações não sustentadas pela razão, que apelam para máximas inquestionáveis e dogmas inflexíveis,
abrem totalmente as comportas para o mar agitado do ceticismo. Afastam aqueles que procuram a luz por meio do
porto seguro da Igreja. Lamentavelmente arrasta-os para a escuridão do desespero materialista.
A Fraternidade Rosacruz recebeu o abençoado privilégio de poder atender às necessidades dos irmãos que
buscam sinceramente a verdade. Com entusiasmo procuram a luz, guiados pelo intelecto. São incapazes de acreditar
por imposição e aceitar explicações incompatíveis com a razão. Mas, quando podem compreender que o conjunto de
dogmas e doutrinas apresentadas pela Igreja está em fundamental harmonia com as Leis da Natureza, então, muitos
retornaram mais fortalecidos à sua congregação. Enriquecidos pela luz, convertem-se nos melhores e mais ativos
membros. Compartilham alegria e entusiasmo com seus companheiros.
147
N.R: Mt 18: 20
Qualquer movimento para perdurar deve possuir três qualidades divinas: Sabedoria, Beleza e Força.
Ciência, Arte e Religião: cada uma possui, por sua natureza, uma dessas correspondentes qualidades. O
objetivo da Fraternidade Rosacruz é uni-las em um conjunto harmonioso. A Religião deve ser tanto científica como
artística. Todas as igrejas devem se unir numa só grande Irmandade Cristã. Presentemente, o relógio do destino marca
um momento auspicioso para o início das atividades da construção da Sede. Então, vamos erigir um Centro visível de
onde os Ensinamentos Rosacruzes possam irradiar uma benéfica influência. Seu propósito é elevar o bem-estar de
todos que estão moral, mental ou fisicamente enfermos.
Agora, cavemos a primeira pá de terra no local da construção, acompanhada de uma prece pela Sabedoria,
para guiar esta grande escola no caminho certo. Sulquemos o solo uma segunda vez, com uma súplica ao Mestre
Artista pelo direito de introduzir, aqui, a Beleza da vida superior, de tal maneira a torná-la atrativa para toda
Humanidade. Rasguemos o solo pela terceira e última vez, nesta cerimônia, suspirando uma prece pela Força. Para
que assim, com serenidade e diligência, sejamos dignos de prosseguir no bom e perseverante trabalho de converter
este lugar num prodigioso fator de elevação espiritual, superando o resultado dos seus antecessores.
Já escavado o local do primeiro prédio, continuemos agora plantando o maravilhoso símbolo da vida e do ser,
o emblema da Escola de Mistérios Ocidentais. Agora descreveremos seu simbolismo. A cruz representa a matéria. As
rosas, envolvendo e rodeando o tronco, sugerem a vida em evolução subindo cada vez mais alto através da cruz.
Cada um de nós, os nove membros, participará deste trabalho de escavação para este primeiro e mais
importante elemento distintivo de Mount Ecclesia. Vamos fixá-lo numa posição onde os braços apontem um para
Leste e outro para Oeste, enquanto o Sol meridional projeta-o inteiramente em direção ao Norte. Assim, ele estará
alinhado com as correntes espirituais que vitalizam as formas dos quatro reinos da vida: mineral, vegetal, animal e
humano.
Sobre os braços, na parte superior da cruz, podemos divisar três letras douradas, “C.R.C”, Christian
Rosenkreuz, ou Christian Rose-Cross, as iniciais do Augusto Chefe da Ordem.
O simbolismo da cruz está parcialmente elucidado aqui como também em nossa literatura. Mas seriam
necessários volumes para dar uma explicação completa. Vamos lançar o olhar para adiante, vejamos o significado da
lição oferecida por este maravilhoso emblema.
Quando vivíamos na densa atmosfera aquosa da antiga Atlântida, estávamos submetidos a leis
completamente diferentes das que vigoram hoje. Quando deixávamos o corpo, não o percebíamos, pois, nossa
consciência estava mais focalizada nos Mundos Espirituais do que nas densas condições da matéria. Nossa vida não
sofria quebras de continuidade: “Não percebíamos nem o nascimento nem a morte”.
Ao emergirmos para as condições aéreas da Época Ária, o mundo atual, nossa consciência dos Mundos
Espirituais desvaneceu-se e a percepção da forma tornou-se mais proeminente. Teve início uma existência dupla. Cada
fase bem delimitada e diferenciada. O nascimento e a morte demarcavam seus limites. Numa etapa o Espírito vivia em
liberdade no reino celestial. Na outra, encontrava-se aprisionado no corpo terrestre. Essa etapa pode ser considerada
como a morte virtual do Espírito. Assim está também simbolizado na mitologia grega, nas figuras de Castor e Pólux 148 ,
os gêmeos celestiais.
Já foi elucidado, em diversos pontos de nossa literatura, como o Espírito livre ficou emaranhado na matéria
pelas maquinações dos Espíritos lucíferos. Cristo classificou-os de falsas luzes. Isso ocorreu na ígnea Lemúria.
Portanto, Lúcifer pode ser chamado o Gênio da Lemúria.
Os efeitos da intervenção dos Anjos Lucíferos ganharam maior transparência na Época de Noé, abrangendo o
final da Época Atlante e o início da presente Época Ária.
O arco-íris não podia ganhar forma sob as condições atmosféricas da Lemúria. Entretanto, inaugurou o céu
cristalino da Época de Noé, coloriu o fundo azul e elevou-se acima das nuvens. Imprimiu nas alturas uma inscrição
mística proclamando o início dos ciclos alternantes, enchente e vazante, verão e inverno, nascimento e morte.
Durante a vigência desta era, o Espírito perdeu sua ampla liberdade e devia permanecer confinado num corpo mortal.
Agora os corpos são gerados sob a influência da paixão satânica engendrada por Lúcifer. O Espírito empreende
repetidas tentativas de regresso à Casa Paterna, no anseio de permanecer no seu verdadeiro lar celestial. Mas é
frustrado pela lei dos ciclos alternantes, pois, ao livrar-se de um corpo pela morte será novamente conduzido ao
renascimento, quando o ciclo se completar. Engano e ilusão não podem perdurar eternamente.
Nasceu entre nós, então, o Redentor para purificar o sangue cheio de paixão e para pregar a verdade que nos
libertará deste corpo de morte. Veio para instaurar a Imaculada Concepção, em harmonia com a evolução dos
conhecimentos sobre a ciência genética e a erradicação das deformações físicas. Profetizou uma nova Era, um novo
Céu e uma nova Terra, onde Ele, a verdadeira Luz, será o novo Gênio. A Humanidade encontrará a plena realização de
seus anseios nessa nova era onde florescerão a virtude e o amor.

148
N.T.: No mito, os gêmeos partilham a mesma mãe, porém têm pais diferentes - o que significa que Pólux, por ser
filho de Zeus, era imortal, enquanto Castor não o era.
Tudo o que dissemos e o nosso caminho evolutivo estão representados na cruz de rosas diante de nós. Na
rosa a seiva da vida está inativa no inverno e ativa no verão. Ela bem ilustra o efeito da lei dos ciclos alternantes. A
tonalidade da flor e seus órgãos reprodutores lembram o nosso sangue. No entanto, sua seiva flui com pureza e sua
semente é gerada imaculadamente, sem paixões.
Quando também alcançarmos tal pureza, tão bem simbolizada, estaremos libertos da cruz da matéria. As
futuras condições etéricas do novo milênio já estarão presentes.
A aspiração da Fraternidade Rosacruz é abreviar os dias para celebrarmos a chegada desse feliz momento,
quando a tristeza, a dor, o pecado e a morte desaparecerão. Estaremos, enfim, redimidos das fascinantes, porém
escravizantes, ilusões da matéria. Despertaremos para a suprema verdade da realidade do Espírito. Que Deus
frutifique nossos esforços e antecipe esse dia.
Capítulo XIV - Nosso Trabalho no Mundo - (Publicado Em Maio,
1912)
Parte I

Observando o progresso dos trabalhos da Fraternidade Rosacruz concluímos que ele não resulta dos esforços
exclusivos de alguns membros. Ele é produto do trabalho conjunto dos Irmãos Maiores e de todos os membros da
Fraternidade Rosacruz. Na dedicação a essa missão encontramos uma excelente oportunidade para o
desenvolvimento da alma.
Não temos o direito de uso exclusivo do alimento espiritual, como não temos o direito exclusivo do alimento
material. Devemos dar a todos a oportunidade de colaborar neste trabalho, seja física, mental ou financeiramente. De
acordo com o tempo, talento, aptidão e condições de cada um.
Por outro lado, compreendemos a importância da nossa participação, sem a qual a obra poderá ficar
incompleta. Nesse caso seremos servos improdutivos dos Irmãos Maiores. A carga é superior à nossa capacidade de
suportá-la. Portanto, para prosperarmos, a Grande Obra necessita de muitos colaboradores. Assim sendo, nesta lição
vamos repassar o histórico do trabalho efetivado até hoje. Dessa forma os Estudantes podem vislumbrar uma real
perspectiva das linhas do futuro trabalho. Será necessário abusar do pronome “Eu”. Peço aos Estudantes a bondade e
a compreensão para serem pacientes comigo neste caso. Ninguém menos aprecia introduzir um elemento pessoal do
que o autor, mas no caso presente parece ser inevitável.
Temos deixado claro em nossa literatura, como ensinamento axiomático, que cada objeto no universo visível é
a corporificação de um pensamento invisível pré-existente. Fulton 149 construiu um barco a vapor e Bell 150 um telefone.
O pensamento criador precedeu os primeiros modelos construídos em madeira e metal. Do mesmo modo, um escritor
planeja e idealiza um livro antes de escrevê-lo.
Uma Ordem de Mistérios também deve idealizar e planejar sua filosofia espiritual para suprir as necessidades
das pessoas que foi encarregada de servir. Esse trabalho pode levar séculos.
As investigações científicas são realizadas no isolamento dos laboratórios. As conclusões provenientes dos
resultados experimentais não são divulgadas até estarem devidamente comprovadas. Esse rigor é necessário para
assegurar e promover os avanços no âmbito da ciência. Analogamente os ensinamentos espirituais, destinados a
incrementar o desenvolvimento de certo conjunto de almas afins, não são divulgados a todos enquanto não ficar bem
demonstrada sua eficácia entre os estudiosos e pesquisadores.
Como as invenções, também as teorias ou projetos passam pelo estágio experimental. A menos que
comprovem alguma utilidade, serão rejeitados. Também um ensinamento espiritual deve atingir um ponto de
perfeição para ser divulgado e utilizado no trabalho do mundo. Se não for assim, sucumbe. Esse tem sido o método
utilizado para divulgar os Ensinamentos da Sabedoria Ocidental. Foram formulados pela Ordem Rosacruz com o
objetivo de encontrar ressonância com a Mente extremamente intelectualizada dos irmãos da Europa e da América.
Há séculos, nosso venerado Fundador elegeu doze Irmãos Maiores para colaborarem com essa obra. Todos,
provavelmente, empenharam-se no estudo retrospectivo da evolução histórica das linhas de pensamento do ser
humano. Elaboraram um inventário abrangendo, talvez, vários milênios. Dessa forma, consolidaram, com
fundamentos, uma concepção apurada da direção que provavelmente assumiriam as Mentes das gerações futuras.
Puderam também antever suas inclinações e necessidades espirituais. Analisando o contexto dentro de diversos
ângulos, procuravam identificar os pecados dominantes em nossos dias. Chegavam sempre na inequívoca conclusão:
“Orgulho intelectual, intolerância e impaciência diante das limitações e restrições”.
Formularam uma filosofia capaz de satisfazer os apelos do coração e ao mesmo tempo capaz de corresponder
aos clamores do intelecto. Enfatizaram a importância do domínio próprio como o melhor meio para vencer as
limitações humanas.
Recebemos milhares de cartas de apreço de diferentes cantos do mundo, das altas esferas às camadas mais
baixas. Atestam o desejo ardente da alma e a satisfação proporcionada pelos ensinamentos.
Mas, à medida que o tempo passa, daqui a cinquenta anos, talvez um século ou dois, quando as descobertas
científicas confirmarem muitas das afirmações contidas no “Conceito Rosacruz do Cosmos”, quando a inteligência da
maioria se tornar ainda mais aberta, os Ensinamentos Rosacruzes darão satisfação espiritual a milhões de Espíritos
que buscam esclarecimento.
Neste caso, percebemos como é indispensável o prudente e criterioso cuidado dos Irmãos Maiores, antes de
confiarem tão importante missão a qualquer um. Os ensinamentos serão divulgados apenas em momentos decisivos
para as futuras épocas. Como as sementes são plantadas no começo do ciclo anual, também uma semente filosófica,
149
N.T.: Robert Fulton (1765-1815) foi um engenheiro e inventor estadunidense que é amplamente creditado com o
desenvolvimento do primeiro barco a vapor comercialmente bem-sucedido.
150
N.T.: Alexander Graham Bell (1847-1922) foi um cientista, inventor e fundador da companhia telefónica Bell
como os Ensinamentos da Rosacruz, deve ser plantada na primeira década do século quando se inicia um novo ciclo.
As publicações devem respeitar esses períodos. Se passar o prazo, aguarda-se outro momento oportuno.
O mensageiro dos ensinamentos escolhido em 1905 foi considerado inapto. Então, os Irmãos Maiores se
voltaram para mim. Fui testado e aprovado em 1908. Desde então venho recebendo seus ensinamentos. O livro “O
Conceito Rosacruz do Cosmos” foi publicado em novembro de 1909, pouco antes do fim da primeira década.
Exatamente um ano e um mês antes.
Amigos organizaram o manuscrito original e fizeram um trabalho esplêndido. Entretanto, é claro, ainda era
preciso revisá-lo antes de destiná-lo ao trabalho de impressão. Depois li as provas já impressas, corrigi e encaminhei
para nova impressão. Tornei a lê-las e os erros foram corrigidos. Depois de paginadas, li novamente. Dei instruções ao
pessoal da gráfica sobre os desenhos e a correta posição de cada um nas páginas no livro, etc.
Levantava-se às seis horas da manhã e trabalhava até o início da madrugada, normalmente entre meia-noite e
três horas da madrugada. Assim foi durante semanas. Tudo em meio a confusões intermináveis envolvendo
comerciantes e o ruído de Chicago agredindo meus ouvidos. Muitas vezes cheguei ao limite de minha resistência
nervosa. Ainda assim consegui concentrar-me e redigi muitos temas novos para o “Conceito”.
Eu teria sucumbido não fosse o apoio dos Irmãos Maiores. Era obra deles e eles me forneceram todo suporte.
Minha função era trabalhar até o limite de minhas forças e capacidade, deixando o resto aos cuidados deles. Contudo,
eu era quase uma ruína quando essa tarefa se consumou.
Talvez agora todos entendam a minha atitude no que se refere ao “Conceito Rosacruz do Cosmos” . Mais do
que ninguém, permaneço extasiado diante de seus maravilhosos ensinamentos, e posso fazê-lo sem falsa modéstia
porque o livro não é meu, ele pertence à Humanidade. Inclusive nem parece que fui eu que o escrevi. Sinto-me
absolutamente impessoal no assunto. Minha tarefa é cuidar de sua correta publicação e dos direitos autorais com o
intuito de protegê-lo contra deturpações.
Contudo, logo que seja possível encontrar depositários responsáveis e competentes, a Fraternidade Rosacruz
será incorporada. Todos os meus direitos autorais passarão para a instituição, juntamente com tudo mais que me
pertença, pois faz parte do acordo com os Irmãos que qualquer lucro resultante da obra, a ela deve reverter.
Aceitei essa condição voluntariamente. Nem eu nem a Sra. Heindel visamos ganhos materiais. A nós importa
somente o suficiente para levar adiante esse trabalho. A abençoada missão é para nós a melhor recompensa. É mais
preciosa do que qualquer dádiva material.
Entre algumas opiniões e tolices publicadas sobre a Ordem Rosacruz, destaquemos uma que afirma uma
grande verdade: Ela anseia curar os doentes.
Antigas ordens Religiosas acreditavam no flagelo do corpo como meio para se alcançar o desenvolvimento
espiritual. Os Rosacruzes, pelo contrário, demonstram o maior zelo por esse instrumento. Um corpo saudável é
indispensável para a manifestação de uma Mente sã.
Curar os enfermos e pregar os evangelhos da Era de Aquário são as duas atividades fundamentais para os
zelosos seguidores de Cristo, e todos esperam ansiosamente pelo “dia do Senhor”. Com esse Espírito norteamos a
totalidade do nosso trabalho no mundo.
Os Irmãos Maiores sabem que o abuso da força sexual, estimulado pelos Espíritos Lucíferos, deixa sequelas no
corpo. A perversão do amor (luxúria) é responsável por doenças e debilidades. Por isso, o Método Rosacruz de Cura
ensina a manter saudável o Corpo Denso. Somente um Corpo são pode hospedar uma Mente sadia e um coração
pleno de amor puro. A concepção sem mácula proporciona corpos cada vez mais puros e abrevia o advento do Reino
de Cristo. Somente a pureza pode libertar o Espírito da carne. Lembremos: “A carne e o sangue não podem herdar o
Reino dos Céus.”.
Pregar o Evangelho (da próxima Era) é tão necessário quanto Curar os Enfermos. O sistema de cura
desenvolvido pelos Irmãos Maiores combina as melhores técnicas e métodos praticados por diversas escolas atuais.
Conta com um método de diagnose e tratamento tão exato quanto simples. Assim foi dado um grande passo para
elevar e promover o trabalho na área da cura. Como dizem: das areias da experiência às rochas do conhecimento
exato.
Na noite de nove de abril de 1910, quando a Lua Nova transitava por Áries, o Mestre apareceu em meu quarto
e disse que uma nova década (ciclo) havia começado naquela noite. Na noite anterior, minhas obrigações com o
recém-inaugurado Centro da Fraternidade de Los Angeles haviam terminadas.
Viajei e proferi conferências seis noites por semana, além de algumas tardes. Depois da experiência em
Chicago na época da edição, adoeci e afastei-me do trabalho em público para descansar e recuperar o vigor físico.
Tinha ciência dos perigos envolvidos quando abandonava conscientemente meu corpo enfermo. O Éter está muito
desvitalizado e o cordão prateado pode romper-se com facilidade. A morte, sob tais condições, causaria os mesmos
sofrimentos que o suicídio. Por isso, previne-se sempre o Auxiliar Invisível para permanecer em seu corpo quando este
está enfermo. Mas, por solicitação do Mestre, eu ficava de prontidão para os voos da alma até o Templo. Neste
ínterim, alguém ficava incumbido de cuidar do meu corpo ainda debilitado.
Parte II

Como foi exposto anteriormente em nossa literatura, há nove graus dos Mistérios Menores – em qualquer
escola – e a Ordem Rosacruz não é exceção. O primeiro deles corresponde ao Período de Saturno e os exercícios
correspondentes são realizados no dia de Saturno, aos sábados, à meia-noite. O segundo grau corresponde ao Período
Solar, e este rito específico é celebrado aos domingos. O terceiro grau corresponde ao Período Lunar, e é celebrado às
segundas-feiras à meia noite; e assim sucessivamente com os restantes sete graus. Cada um corresponde a um
Período e tem, por isso, o dia apropriado para a sua celebração. O oitavo grau é celebrado nas noites de Lua Nova e
Lua Cheia. O nono grau nos Solstícios de Junho e Dezembro.
Quando um Discípulo se torna um Irmão ou Irmã Leiga, ele, ou ela, é introduzido ao ritual celebrado nas noites
de Sábado. A Iniciação seguinte faculta-os assistir os Serviços do Templo, à meia noite dos domingos, e assim por
diante.
Note-se que, embora todos os Irmãos e Irmãs Leigas, nos seus corpos espirituais, tenham livre acesso ao
Templo durante todos os dias, eles são proibidos de entrar nos serviços da meia-noite nos graus superiores.
O Templo não está sob qualquer vigilância. Não há exigência de palavra-passe para quem desejar entrar.
Entretanto, há um muro invisível ao redor do Templo. Impenetrável para aqueles que ainda não receberam o “Abre-te
Sésamo”. Cada noite esta muralha é edificada de modo diferente. Por isso se alguém, por engano ou por
esquecimento, quiser entrar no Templo quando o grau vibratório da reunião está acima de seu nível, aprenderá uma
lição muito pouco agradável: é possível bater a cabeça contra uma muralha espiritual.
Como já foi dito, o oitavo grau oficia-se nas noites de Lua Nova e Lua Cheia. Quem não alcançou esse estágio
não está, naturalmente, credenciado para o Serviço da meia-noite, é o caso do autor destas linhas. A elevação de grau
depende de mérito, não pode ser comprada. Exigia um desenvolvimento espiritual muito além do que possuo
atualmente. Não obstante o meu esforço e aspiração para atingir esse estágio, preciso ainda dedicar-me por muitas
vidas.
Portanto, o leitor entenderá que na noite de Lua Nova em Áries em 1910, quando o Mestre veio me buscar,
não foi para levar-me àquela exaltada reunião do oitavo grau, mas a outra, de diferente natureza. Além disso, aquela
reunião ocorreu à noite, na Alemanha, e eu estava na Califórnia, com outro fuso horário. Portanto, os exercícios da
Lua Nova foram celebrados algumas horas antes. Por isso, quando cheguei ao Templo com o Mestre, o Sol já estava
alto nos céus.
Entramos no Templo. Depois passei algum tempo numa conversa a sós com o Mestre. Então, ele fez um
esboço da missão da Fraternidade. Como porta-voz dos Irmãos, discorreu sobre as diretrizes do movimento.
A nota-chave da missão consistia em evitar a obstrução da liberdade pessoal. Hierarquia e regras são
importantes e cheias de boas intenções, mas não devem ser castradoras e nem opressoras. As tentações do poder e
da vaidade não podem ser subestimadas. Sistemas rígidos de organização caminham rapidamente para a cristalização
e morte.
Portanto, a liberdade de pensar, discernir e escolher é prioritária e deve ser franqueada aos membros da
Fraternidade. Todo membro deve ser encorajado a emancipar-se e conquistar autoconfiança. Se o livre-arbítrio sofrer
violência e empalidecer, o objetivo da Ordem Rosacruz estará frustrado.
Leis e estatutos são limitações. Quando realmente houver necessidade, devem conter o menor número
possível de regras. O Mestre até pensou na possibilidade de abster-se delas.
Baseados nesse Espírito de liberdade, imprimimos em nosso papel timbrado: “UMA ASSOCIAÇÃO
INTERNACIONAL DE CRISTÃOS MÍSTICOS”.
Notemos que há uma grande diferença entre uma associação, que é inteiramente composta por voluntários, e
uma organização que vincula os membros a votos, cargos, promessas, etc.
Os que assumiram o compromisso como Probacionistas na Fraternidade Rosacruz sabem que esse
Compromisso é uma promessa a eles próprios e não à Ordem Rosacruz. O mesmo cuidado para assegurar o máximo
da liberdade individual evidencia-se em todas as etapas da Escola de Mistérios Ocidental.
Nós não temos Mestres. Quando, eventualmente, empregamos o termo Mestre é por consideração e
respeito. Na verdade, Eles são nossos amigos e nossos Professores. Sob nenhuma condição exigem obediência a
alguma ordem, nem nos impelem a fazer isto ou aquilo. Quando muito nos aconselham, deixando-nos livres para
escolher e decidir.
Posso dizer que esta política de não organizar já está sendo adotada nos centros de estudos em Columbus,
Ohio, Seattle, Washington e Los Angeles 151. Desde então, tenho ido mais além nessa diretriz, tentando divulgar os
ensinamentos por meio de uma Sede Mundial, em vez de formar novos centros em diversas cidades.
Em alguns lugares, grupos de Estudantes desejam reunir-se para estudos e elevação espiritual. Para auxiliar
nesse propósito, a Sede fornece-lhes toda assistência possível, mas como já foi dito, não tenho mais me empenhado

151
N.T.: cidades dos Estados Unidos
na formação de centros de estudos. Agora deixo os Estudantes decidirem. Dessa maneira sentem-se mais estimulados
e emancipam-se com mais rapidez.
Agora abordaremos outro tema fundamental: o inovador Serviço de Cura da Fraternidade. Como vivemos num
mundo concreto, vinculados às condições materiais, necessitamos de uma Sede e de um Templo de Cura. A Sede deve
ser estruturada em harmonia com as leis do país que a acolhe. Também deve ser coerente com a sociedade onde está
inserida. Assim o produto da obra pode ficar disponível para o uso da Humanidade depois que os líderes atuais se
tenham desprendido da vida física.
Até aqui não pudemos evitar situações severas onde firmes decisões foram tomadas para viabilizar a criação
da Sede, mas a associação deve permanecer livre, sem restrições.
Insistimos na questão da liberdade. Mas, é somente com esse compromisso que poderemos alcançar maior
crescimento espiritual e vida mais longa. No entanto, é triste considerar que, embora sejam essas as nossas intenções,
chegará o dia em que a Fraternidade Rosacruz terá o mesmo destino de todos os outros movimentos: ficará atada por
regras, e a usurpação de poder a conduzirá fatalmente à cristalização e consequente desintegração. Mas é um consolo
saber que de suas ruínas surgirá algo maior e melhor. Assim como ela surgiu de outras importantes estruturas que já
tiveram sua utilidade e agora estão em vias de extinção.
Depois do encontro com o Mestre, entramos no Templo onde os doze Irmãos estavam presentes. A
configuração do ambiente era bem diferente do encontro anterior. Entretanto, não há necessidade de detalhar o
local.
É importante descrever a presença de três esferas suspensas, uma sobre a outra, no centro do Templo. A
esfera central situava-se exatamente entre o piso e o teto e era a maior delas. As outras duas estavam suspensas uma
acima e a outra abaixo da esfera central.
Além da visão física, há outras formas de visão: a etérica ou raio-X; a visão da cor que nos abre o Mundo do
Desejo; a visão tonal que revela a Região do Pensamento Concreto. Esse tema está plenamente explanado no livro “Os
Mistérios Rosacruzes”.
Meu desenvolvimento da visão espiritual das Regiões do Pensamento Concreto era muito insuficiente até a
sucessão de eventos já mencionados. De fato, quanto melhor for a nossa saúde, tanto mais apegados estamos ao
Mundo Físico. Isso inibe a faculdade de entrar em contato com as regiões espirituais. Pessoas que dizem: “Não estive
doente um único dia em minha vida”, revelam estar perfeitamente sintonizadas com o mundo material e, portanto,
menos capacitadas para ingressar nos reinos espirituais.
Essa foi minha situação até o ano 1905. Sofri dores atrozes durante toda a vida, consequência de uma cirurgia
na perna esquerda realizada na infância. A ferida não cicatrizava. Quando abandonei alimentos com carne então
fiquei curado e a dor desapareceu.
Minha resistência e paciência foram grandes durante todos esses anos e nunca dei demonstrações de
sofrimento. Mas, fora isso, gozava fisicamente de perfeita saúde. É interessante notar também que quando eu sofria
qualquer acidente e me cortava, o sangue escorria e não coagulava. Em consequência muito sangue se perdia. No
entanto, depois de dois anos adotando uma dieta pura e equilibrada, quando acidentalmente fiquei sem uma unha
inteira, perdi só umas poucas gotas de sangue e pude escrever à máquina na mesma tarde sem qualquer infecção, e
uma nova unha logo cresceu.
A edificação da parte espiritual da nossa natureza produz, muitas vezes, distúrbios em nosso Corpo Denso.
Este fica muito mais sensível às condições do ambiente e, portanto, o resultado pode ser um esgotamento. A
resistência física me conservou de pé por meses. Chegou o momento em que o descanso era necessário, porém isso
não foi possível e ultrapassei o limite das minhas forças. Sobreveio o esgotamento total, fui conduzido às portas da
morte.
A morte definitiva consiste na irreversível ruptura do laço entre o Corpo Físico e os Corpos sutis. Na
aproximação desse estado especial de transição, na iminência de ocorrer o desligamento da matéria, podemos
receber instruções sobre a ciência de retirar-se do corpo. Goethe, o grande poeta alemão, recebeu sua primeira
Iniciação quando seu corpo se achava debilitado e à beira da morte.
Quando fui abatido pela enfermidade, ainda não havia progredido o suficiente no caminho espiritual. Mas a
dedicação aos estudos, aspirações e um exercício praticado por muito tempo, e que naquela época acreditava tê-lo
inventado, mas agora já sei, vem de tempos remotos, contribuíram para que pudesse abandonar o meu corpo por um
curto espaço de tempo e regressar logo em seguida. Não sei como fazia isso, e nem podia fazê-lo voluntariamente.
Contudo, isso não vem ao caso.
Um ponto relevante deve ser ressaltado. A saúde perfeita é necessária antes de conseguirmos equilíbrio nos
Mundos Espirituais. Entretanto, quanto mais forte e vigoroso o instrumento, tanto mais drástico será o método para
debilitá-lo. Em decorrência, as condições de saúde oscilam durante anos até atingirem o devido ajuste. Assim,
aprendemos a conservar a saúde enquanto estamos ativos no Mundo Físico e, ao mesmo tempo, adquirimos a
capacidade de atuar nos reinos superiores.
Assim aconteceu comigo. A sobrecarga de trabalho tanto físico como mental, sem trégua até hoje, tem
deixado o meu instrumento físico longe de um estado saudável. Amigos alertam-me e tenho tentado considerar suas
admoestações. Mas, o trabalho urge e deve ser executado. Enquanto não houver suficiente ajuda, sou obrigado a
continuar, apesar da saúde. Em todos os aspectos a Sra. Heindel tem sido uma companheira inestimável.
No entanto, desenvolvi uma capacidade crescente de atuar nos Mundos espirituais, mesmo com a saúde
precária. Como já afirmei, na ocasião dos principais acontecimentos aqui narrados, minha visão tonal era mediana e
principalmente limitada às subdivisões inferiores da Região do Pensamento Concreto. Uma pequena ajuda dos Irmãos
naquela noite permitiu-me entrar em contato com a quarta região, o lar dos arquétipos. Lá compreendi as lições
relativas ao mais alto elevado ideal da Fraternidade Rosacruz e, também, sobre sua missão na Terra.
Pude ver nossa Sede e uma multidão de pessoas vindas de todas as partes do mundo para receber seus
ensinamentos. Pessoas também de lá saiam para levar lenitivo aos aflitos próximos e distantes.
Neste mundo é necessário dedicar um bom tempo investigando e estudando para se adquirir conhecimento
sobre qualquer assunto. Mas, na Região Arquetípica do Mundo do Pensamento, a voz de cada arquétipo transporta
consigo a rica emissão de conteúdos daquilo que ele representa. Ao mesmo tempo ele carrega de impressões a
consciência espiritual. Portanto, nessa noite recebi um entendimento muito além do poder de expressão das palavras.
O mundo em que vivemos é regido pelo ritmo do tempo. Enquanto no reino superior dos arquétipos tudo é
um eterno agora. Os arquétipos não revelam seu conteúdo numa sucessão de fatos ao longo do tempo, tal como uma
história é narrada aqui. Eles imprimem sobre a consciência uma concepção instantânea e completa da ideia em
questão. Com clareza e consistência muito superior a qualquer pormenorizada narrativa. Não ousei mencionar esses
fatos na ocasião em que ocorreram. Dedicarei o próximo capítulo a essa tarefa.
Parte III

Relembremos importante tema dos Ensinamentos Rosacruzes: “A Região do Pensamento Concreto é o reino
do som”. É o lar da música celestial, da harmonia das esferas. Esse oceano sonoro envolve e interpenetra tudo e
todos, assim como a atmosfera da Terra circunda e envolve todas as coisas terrestres. Nessa região tudo que existe
está banhado e impregnado de música, tudo vive e cresce pela música. A PALAVRA de Deus ressoa e modela os
diversos protótipos de todas as coisas corporificadas na dimensão terrestre.
No piano, cinco teclas pretas e sete brancas formam a oitava. Além dos sete Globos nos quais evoluímos
durante um Dia de Manifestação, existem cinco Globos escuros pelos quais atravessamos durante as Noites Cósmicas.
Em cada ciclo de vida e por algum tempo, o Ego recolhe-se no mais denso destes cinco, o Caos, o mundo sem forma
onde nada permanece. Apenas os centros de força conhecidos como Átomos-sementes prosseguem. No começo de
um novo ciclo de vida, o Ego desce novamente até a Região do Pensamento Concreto, onde a “música das esferas”
sincronicamente coloca em vibração os Átomos-sementes.
Há sete esferas. São os sete Planetas de nosso Sistema Solar. Cada Planeta tem sua nota-chave e emite um
som particular, diferente de todos os demais. Os tons de todos os Planetas participam na construção de um organismo
completo. Entretanto, um deles vibra em singular consonância com os Átomos-sementes do Ego durante o processo
de renascimento. Então, esse Planeta corresponde à nota “tônica” da escala musical. É o Astro mais harmonioso para
esse Ego. É o regente da nova vida em formação. É sua Estrela Guia. As vibrações sonoras dos demais Astros adaptam-
se à frequência sonora dessa nota tônica ou nota-chave.
Como na música terrestre, na celestial há harmonias e dissonâncias. A música entoada pelos Astros reverbera
nos Átomos-sementes e direciona a construção do arquétipo dos corpos em vias de encarnar. Assim se formam as
linhas vibratórias de força. Essas linhas atraem e organizam as partículas físicas durante a vida. Acontece algo
semelhante quando um arco de violino coloca em vibração partículas minúsculas espalhadas sobre um prato de latão.
Podemos ver a formação de figuras geométricas.
O Corpo Denso é gradualmente formado segundo as linhas arquetípicas definidas por um conjunto de
vibrações. O Corpo Denso é a fiel expressão da harmonia das esferas, modelado conforme as melodias entoadas
durante o período de sua construção.
Este período, contudo, é muito mais longo do que o período real da gestação, e varia de acordo com a
complexidade da estrutura requerida pela vida em busca de manifestação física.
Tampouco o processo de construção do arquétipo é contínuo. Existem acordes inacessíveis aos diapasões
vibratórios dos Átomos-sementes, sons que eles ainda “não sabem ouvir” e, portanto, não podem entrar em
ressonância com eles. Quando os Aspectos Astrais entoam esses acordes “incompreensíveis”, o arquétipo
simplesmente permanece em compasso de espera e “sussurra” os acordes que já foram incorporados na sua
estrutura. Conforma-se em aguardar os sons dos acordes coerentes com o projeto de construção dos órgãos
necessários à sua própria expressão.
Concluindo, os organismos terrestres são formados segundo linhas vibratórias produzidas pela música das
esferas. Habitamos um corpo composto por órgãos. Cada órgão está associado a um Astro ou vibração sonora.
Estamos em condições de bem compreender que as enfermidades são, na verdade, manifestações de dissonâncias ou
desarmonias sonoras, cuja causa, provém primeiramente de uma desarmonia espiritual interna.
Há um fator notável para nós. Se conhecermos com exatidão a causa direta da desarmonia, podemos saná-la.
Fica evidente que a manifestação física da doença em breve desaparecerá.
Todavia, é justamente esta a preciosa informação dada pelo horóscopo de uma pessoa. Cada Astro, ocupando
uma casa terrestre e Signo celeste, expressa harmonia ou discórdia, saúde ou doença. Portanto, todos os métodos de
cura são eficazes apenas na proporção em que levam em consideração as harmonias e discordâncias estelares
manifestadas na roda da vida, o horóscopo.
Em circunstâncias normais as Leis da Natureza governam os reinos inferiores com pleno poder. Não obstante,
há leis superiores relativas aos reinos espirituais. Em determinadas circunstâncias as leis superiores podem suplantar
as inferiores. Por exemplo, a lei superior do perdão dos pecados. O reconhecimento dos erros, acompanhado de
sincero arrependimento, pode suplantar a inferior e severa lei: olho por olho e dente por dente.
Quando Cristo veio em missão ao nosso Planeta, curava os enfermos. Sendo Ele o Senhor do Sol, incorporou
em Si mesmo a síntese das vibrações estelares, como a oitava incorpora todos os tons da escala. Ele pôde, portanto,
emitir de Si a correta influência planetária corretiva requerida em cada caso. Sentia a desarmonia e imediatamente
sabia como equilibrá-la graças ao Seu elevado desenvolvimento. Não necessitava de preparação adicional e obtinha
resultados instantâneos. Substituía a dissonância planetária, a causa da doença, pela harmonia correspondente.
Apenas num único caso Ele recorreu às leis superiores e disse: “Levanta-te, teus pecados estão perdoados.”.
Do mesmo modo, o Serviço de Auxílio de Cura da Fraternidade Rosacruz emprega métodos baseados nas
dissonâncias astrais. Desse modo, constata-se as causas das doenças e aconselha-se as medidas corretivas para curá-
las. Esse procedimento tem sido suficiente, e eficaz, em todas as solicitações de cura recebidas até hoje.
Contudo, existe um método mais poderoso e acessível que, sob uma lei superior, pode acelerar a recuperação
nos casos mais crônicos e demorados. Em determinadas circunstâncias, quando existe o reconhecimento sincero e
profundo do erro, podemos até erradicar uma futura doença sentenciada pelo frio e inflexível destino.
Quando observamos com a visão espiritual algum enfermo, esteja seu Corpo Denso debilitado ou não, torna-
se claro para o Clarividente a fragilidade dos veículos mais sutis. Em relação ao estado normal de saúde eles estão
muito mais debilitados e, consequentemente, não conseguem transferir a dosagem necessária de vitalidade para o
Corpo Denso. Portanto, por falta de revitalização, o Corpo Denso perde vigor.
No entanto, conforme o estado de abatimento de todo Corpo Denso, determinados centros ficam obstruídos
na proporção da gravidade da doença. Segundo o grau de desenvolvimento espiritual da pessoa, esses centros
também ficam com a saúde fragilizada.
Isto acontece principalmente no centro principal situado entre as sobrancelhas. Nesse local está enclausurado
o Espírito. Em alguns casos está tão aprisionado, com a consciência totalmente voltada para sua débil condição, que
perde contato com o mundo exterior. Nesse caso, somente a completa ruptura do Corpo Denso poderá libertá-lo. Mas
pode ser um processo demorado.
No decorrer do tempo, a desarmonia planetária causadora do início da doença, vai diminuindo até
desaparecer. Mas o sofredor crônico é incapaz de aproveitar novas influências. Em tais casos, é necessária uma efusão
espiritual especialíssima para levar a mensagem à alma: “Teus pecados estão perdoados.”. Quando isso for ouvido, a
pessoa poderá responder à ordem: “Toma tua cama e anda.”.
Ninguém da presente Humanidade pode sequer comparar-se à estatura de Cristo, consequentemente,
ninguém pode exercer Seus poderes em casos tão extremos. No entanto, a necessidade desse poder em ativa
manifestação está presente tanto hoje quanto a dois mil anos atrás.
O Espírito envolve e impregna nosso Planeta. Em diferentes dimensões permeia a tudo e a todos, do centro
até a superfície da Terra. Tem maior afinidade por algumas substâncias do que por outras. Sendo uma emanação do
Princípio de Cristo, é o Espírito Universal compondo o Mundo do Espírito de Vida que restaura a completa harmonia
de todo corpo.
Uma substância foi mostrada ao autor no Templo dos Rosacruzes na noite memorável já mencionada. O
Espírito Universal combinava-se e unia-se a essa substância de maneira simples e rápida. Tal como o amoníaco
interage com a água.
Dentro da grande esfera central, mencionada em lição anterior, havia um recipiente menor contendo vários
pacotes repletos dessa substância. Quando os Irmãos se colocaram em determinadas posições, e a harmonia
emprestada por uma música já havia preparado o ambiente, repentinamente os três Globos começaram a brilhar nas
três cores primárias, azul, amarelo e vermelho.
O recipiente, contendo os já mencionados pacotes, tornou-se luminoso durante a entoação das fórmulas
mágicas. Para a visão do autor ficou evidente a ação de uma essência espiritual que antes não se encontrava lá. Em
seguida os Irmãos empregaram essa essência espiritual no Serviço de Cura. O êxito foi instantâneo. As partículas
cristalizadas, que envolviam os centros espirituais do paciente, dissiparam-se como por mágica, e o doente despertou
sentindo o restabelecimento da saúde e o bem-estar físico.

Nota: Os quatros artigos seguintes são transcrições de manuscritos de Max Heindel. Não haviam sido
publicados antes de sua morte. Foram publicados na revista “Rays From the Rose Cross”.
Capítulo XVI - Condenação Eterna e Salvação
Na Fraternidade Rosacruz foram ministradas, durante a semana, certo número de palestras. Nelas o lado
intelectual de nossa natureza predominou. Mas, o culto de domingo à noite, incluindo a pregação, destinou-se ao
coração.
O objetivo da Fraternidade Rosacruz é unir o intelecto com o coração. Portanto, as palestras dos domingos
devem ser destinadas a ressaltar o lado do coração, deve tocar as suas cordas.
O coração precisa de mais alimento do que o intelecto. Na atual civilização somos muito propensos a encarar
tudo pelo aspecto intelectual. Sempre buscamos explicações para os problemas de interesse apenas da Mente. As
emoções e os sentimentos mais profundos padecem de esquecimento.
Durante a exposição, o orador deve esforçar-se para encaminhar a alma do ouvinte para um estado de
reflexão e meditação cujo núcleo seja o coração. As exortações devem estimular mais o coração do que a Mente. Uma
atmosfera devocional envolve e beneficia tanto o orador como a plateia.
Durante a semana passada, o Irmão Maior, que tem sido o Professor do orador, pediu que a palestra do
último domingo fosse proferida de outra forma. Assim, revisamos o aspecto dos ensinamentos filosóficos que,
atualmente, requer maior atenção.
A Fraternidade Rosacruz é uma escola preparatória visando capacitar os Estudantes para trabalhos nos planos
superiores. Se olharmos para o ser humano como ele é agora, teremos apenas uma visão parcial dele, pois ele, como
tudo o mais, está em contínua transformação.
Movimento, adaptação e transformação estão sempre presentes em qualquer forma de vida. Portanto, se
desejamos progresso contínuo, devemos nos inspirar nos exemplos da vida.
É necessário dirigirmos os olhos de nossa Mente para o futuro. Assim, poderemos saber o que nos espera.
Também é necessário o esforço para viver de forma coerente com nossos ideais. Dessa forma podemos realizar as
transformações exigidas enquanto há tempo.
Quando atingimos um ideal, ele deixa de ser um ideal. Houve uma época na qual comíamos carne.
Obtínhamos tal alimento por meio de uma tragédia, tirando alguma vida. Resolvemos eliminar esse hábito cruel
apoiados no ideal do vegetarianismo. Em pouco tempo podemos alcançar esse ideal. Portanto, o alimento de origem
vegetal deixou de ser um ideal, pois já foi alcançado.
Também há ideais muito distantes, entretanto necessários à vida espiritual. Mas, devemos lutar para alcançá-
los no tempo devido, estimular e praticar o melhor em nós.
Vamos agora discorrer sobre um assunto conhecido na Igreja como “condenação eterna e salvação”. Será
possível evitar essa terrível sina? Naturalmente, em algumas pregações já sentimos a ameaça do inferno pairar sobre
nossas cabeças. Os líderes Religiosos evocam a questão da salvação, falam aos fiéis sobre a urgência de meditarem
sobre suas vidas no sentido de evitarem a condenação eterna.
Muitos questionam tal doutrina. Não aceita a ideia do tormento eterno, muito menos a ideia de um Deus
tirano e inclemente. Decepcionados, afastam-se da Igreja e se voltam para outros sistemas Religiosos ou filosóficos.
Alguns abraçam as Religiões do Oriente. Preferem a ideia da reencarnação, da continuidade da vida, onde o
ser humano evolui por meio de ciclos sucessivos até se tornar um deus. Entendem que os seres evoluem na infinitude
do tempo e, por isso, não há urgência nem necessidade de grandes esforços. Com a mentalidade “orientalizada”,
entram em desarmonia com o ritmo progressista do Ocidente.
Ao Mundo Ocidental foi dada a doutrina que ensina a “condenação eterna e a eterna salvação” e, embora não
acreditemos nisso da maneira ortodoxa e literal, não obstante, há uma grande verdade nessa doutrina.
A sua compreensão inteligente depende da origem da palavra “eterna”. Se nos reportarmos à Bíblia grega,
encontraremos a palavra “aionian”. Procurando no dicionário encontramos seu significado: “que dura séculos; por um
ilimitado período de tempo”. A Epístola de São Paulo a Filemon, onde ele fala do retorno do escravo Onésimo, diz: “Se
ele se apartou de ti por algum tempo, foi sem dúvida para que o pudesse reaver para sempre (aionian).”152. Nem
Onésimo nem Filemon eram imortais, portanto, “aionian” só pode significar uma parte da vida, e não a eternidade.
Portanto, “eternidade” não tem o sentido que lhe foi atribuído. Mas, qual o seu significado?
Podemos aprender muito quando observamos o mundo ao nosso redor. Contemplamos a evolução das
criaturas e reconhecemos um perpétuo progresso. O Espírito em contínua peregrinação desde o barro até Deus.
Nesse caminho evolutivo o Espírito passa por muitos estágios e, também, por períodos de descanso antes de
prosseguir.
Conforme ensina a Filosofia Rosacruz a Humanidade atravessou por Épocas e Períodos de Evolução. Na última parte
da Época Lemúrica houve a primeira separação real dos seres humanos. Nessa Época havia um “povo escolhido”. A
essa “seleta coletividade” pertenciam às pessoas que apresentavam um especial refinamento na constituição do
Corpo de Desejos. Quem possuísse matéria de desejos de qualidade superior tinha alcançado o nível de evolução

152
N.T.: Fil 1:15
suficiente para o Ego, ou Espírito Humano interpenetrar seus veículos. Esses pioneiros converteram-se em seres
humanos tal como os conhecemos hoje.
Assim surgiu a primeira raça. Depois, gradualmente, outras raças surgiram. A saber, sete durante a Época
Atlante e cinco na Época Ária, a atual. Haverá mais duas na Época Ária e uma na Sexta Época. Em seguida as raças
desaparecerão.
Enquanto se efetua este processo de evolução, um vastíssimo grupo de Espíritos vem continuamente
progredindo de estágio em estágio, não obstante, muitos atrasados ficam pelo caminho. Mesmo quando ainda não
éramos conscientes, alguns não acompanhavam o ritmo, não eram tão adaptáveis como os outros, mostravam-se
inaptos para dar o passo seguinte na evolução. Chegamos agora no estágio onde o ritmo das mudanças é mais
acelerado, onde o tempo de existência entre duas raças é mais curto do que antes. Assim, os Irmãos Maiores, de
forma justificável, classificam as dezesseis raças como “os dezesseis caminhos da destruição”.
Aqui temos a nossa lição. Há uma passagem decisiva de uma raça para a seguinte. Cabe a cada um de nós
efetuá-la. Estamos caminhando através das raças desde a Época Lemúrica. Peregrinamos pelas sete raças Atlantes.
Enfim chegamos à primeira das raças Arianas.
Estamos acompanhando o contínuo processo evolutivo. Realizamos as passagens entre as Etapas e as Épocas
com êxito. Superamos os desafios e evitamos os atrasos, embora muitos de nossos irmãos foram divididos e
separados em raças menos avançadas. Assim, podemos afirmar, alcançamos a salvação.
É exatamente como as crianças na escola. Progridem desde o jardim da infância até a universidade. Algumas
são reprovadas e obrigadas a ficar para trás, repetem as lições não assimiladas no ano anterior. Mas, uma nova
oportunidade lhes é dada. Sempre alguns Egos ficam para trás e outros, mais diligentes, seguem à frente.
Coloco esta questão para o leitor e para mim, para ser respondida esta noite. Vamos ficar entre os atrasados
ou vamos evoluir como devemos e podemos? Tendo recebido esta maravilhosa doutrina e conhecido a excelsa
verdade da continuidade da vida, não podemos hesitar e dizer para nós mesmos: “Temos muito tempo. Não
acreditamos na condenação eterna. Seremos todos salvos no devido tempo”.
Todavia, alguns conseguirão com antecipação e outros ficarão para trás. A questão é: seremos nós uma ajuda
ou um obstáculo para a raça?
Atualmente encontramo-nos entre os pioneiros no panorama do Mundo Ocidental. Nossa filosofia expõe os
mistérios da vida e da morte como nenhuma outra. Vamos praticá-la de forma coerente e digna, concentrando
esforços para sermos exemplos vivos no exercício do quotidiano?
A maneira como vivemos importa mais do que nossas crenças. Não é só uma questão de fé, mas é demonstrar
a nossa fé através das obras. De fato, praticamos nossos ideais no dia a dia? As pessoas ao nosso redor, a nos
observar, veem exemplos do que devem ou não devem ser.
Ouvimos estes ensinamentos todos os domingos, refletimos sobre as lições da vida, meditamos sobre a
palavra “servir”. No entanto, estamos vivendo de acordo com esse ideal? Estamos servindo no mundo? Saímos pelo
mundo praticando estes princípios e vivendo uma vida em concordância com os ensinamentos ministrados aqui?
Nenhum de nós pode afirmar que dá o melhor de si e está plenamente satisfeito consigo. Na verdade, deixamos muito
a desejar. Então, perguntamos: “Esse ideal é muito elevado?”. Não, não é. Há uma maneira pela qual podemos viver
melhor dia após dia, e vamos mencioná-la.
Os Estudantes e leitores que não praticaram ainda os exercícios recomendados em nossos livros, devem
seriamente pensar em fazê-lo. Eu os aconselho a começar, porque se sentimos em nós mesmos algum crescimento,
seja ele notado ou não pelo mundo a nossa volta, o progresso sempre existe.
Diariamente devemos examinar nossos pensamentos e ações. Assim, individualmente homens e mulheres,
conquistam uma vida melhor, enobrecendo o caráter e purificando a alma. Os dois exercícios Rosacruzes 153 não são
difíceis e requerem muito pouco tempo. Não devemos empregar o tempo legitimamente destinado ao trabalho para
nosso próprio desenvolvimento. Isto seria tão errado como tirar o pão da boca das pessoas da família e comê-lo. Todo
e qualquer egoísmo deve ser evitado. O esforço deve estar focado no aprimoramento constante e diário. Deve
imprimir maior capacidade para irradiar vida mais abundante sobre a Fraternidade.
Os Probacionistas dedicados à prática dos exercícios identificam-se com os Ensinamentos Rosacruzes. Donde
podem exercer uma influência mais proveitosa e intensa em relação à ausência da prática. Portanto, torno a insistir, e
não repetiria se não fosse uma recomendação especial, todos devem iniciar a prática destes exercícios. Esforcem-se
por viver de acordo com eles. Somente vivendo uma vida superior estaremos, de fato, preparados para o progresso
vindouro.
Durante o trânsito do Sol por um novo Signo do Zodíaco, a Humanidade recebe renovado impulso espiritual.
Esse impulso deve encontrar um canal por onde fluir. Esse canal deve estar preparado e capacitado para vibrar em
harmonia com o impulso recebido. Não havendo pessoas devidamente preparadas para receber e transmitir essas
vibrações, os ensinamentos relacionados com esse impulso espiritual ficam impossibilitados de chegar até nós.

153
N.T.: Retrospecção e Concentração
Sabemos como durante estes passados mil e novecentos anos, a segunda vinda de Cristo tem sido esperada. Como no
tempo dos Apóstolos, alguns esperavam Sua vinda e achavam que Ele viria fundar um reino mundano na Terra. Como
no passado, também nos tempos de agora encontramos pessoas esperando Sua vinda, retornando como um ser
humano. Mas, como disse Angelus Silesius154:

“Ainda que Cristo nascesse mil vezes em Belém


Se não nascer dentro de ti,
tua alma seguirá extraviada.
Em vão olharás a Cruz do Gólgota,
A menos que dentro de ti,
ela seja novamente erguida.”.

Como um diapasão afinado em determinada vibração começará a soar quando outro do mesmo tom for
tocado, assim também ocorrerá conosco. Quando estivermos afinados com as vibrações de Cristo, seremos capazes
de expressar o amor por Ele ensinado. Devemos demonstrar esse amor por meio do nosso serviço todos os domingos
à noite. Enquanto não vivermos à altura desse amor e reconhecermos o Cristo interno, não poderemos ver o Cristo
externo. Por isso, vamos rever o pequeno poema:

“Não desperdicemos nosso tempo


ardentemente desejando
feitos brilhantes, mas impossíveis;
Não fiquemos indolentemente esperando
o nascimento de asas angelicais visíveis.
Não desperdicemos as pequenas luzes brilhando,
pois nem todos podem ser uma estrela reluzente;
Mas vamos realizar nossa missão,
iluminando a escuridão,
irradiando luz com nossa presença.”.

154
N.T.: Pseudônimo de Johannes Scheffler (1624-1667) - Místico cristão, filósofo, médico, poeta, jurista alemão
Capítulo XVII - O Arco nas Nuvens
Devo dar algumas explicações preliminares, algumas razões por que a matéria contida no “O Arco nas Nuvens”
é levada ao conhecimento do leitor. Recentemente ditei o manuscrito de um livro que estou, desde então, revisando.
Durante o ditado surgiram alguns pontos para serem investigados. Um deles refere-se à força vital que penetra no
corpo através do baço. Investigando, descobri que essa força se manifesta em diferentes cores. Além disso, ela opera
de maneira diversa nos vários reinos da vida. Há muito ainda para ser investigado antes de trazer a informação ao
público.
Um amigo, ao ler parte do manuscrito, mandou buscar, em sua biblioteca em Seattle, um livro publicado há
mais ou menos quarenta anos atrás chamado “Princípios de Luz e Cor” por Edwin D. Babbitt 155. Consultei esse livro e
achei-o muito interessante, escrito por um homem dotado de Clarividência. Depois de estudar o livro por uma hora fiz
novas investigações. O tema ganhou mais clareza. É um assunto sério e profundo, pois, a própria vida de Deus parece
estar incorporada nessas cores.
Entre outras coisas, remontando à Memória da Natureza no que se refere à luz e à cor, cheguei ao ponto onde
não existia a luz, como foi descrito no Livro “Conceito Rosacruz do Cosmos”. Depois segui os diferentes estágios da
formação dos Astros até o momento em que o arco-íris foi visto entre as nuvens. Fiquei tão impressionado com essa
investigação que minha devoção cresceu.
A Bíblia afirma que “Deus é Luz”, e nada nos pode revelar a natureza de Deus tão claramente como esse
símbolo. Se um Clarividente voltasse para o passado distante e obscuro, e olhasse para esse Astro na época da sua
formação, vê-lo-ia como era no princípio, uma nuvem escura, informe, surgindo do Caos.
Depois veria essa nuvem de substância virgem transformada em luz pelo Fiat Criador: foi sua primeira
manifestação visível, uma luminosa névoa de fogo.
Em seguida, houve uma época na qual a umidade se acumulou ao redor dessa névoa de fogo e, mais tarde,
culminaria o Período conhecido como o Período Lunar. Mais tarde ainda, viria o estágio mais escuro e mais denso
chamado Período Terrestre.
Na Época Lemúrica, a primeira incrustação da Terra começou quando a água fervente, em ebulição, foi
evaporada. Quando a água ferve e referve, deixa uma marca na chaleira. De maneira semelhante, a ebulição da
umidade externa da bola ígnea da Terra formou uma crosta dura. Assim já estava constituída a superfície da Terra.
Com referência à Época seguinte, a Bíblia diz que não chovia na Terra, mas havia uma névoa elevando-se dela.
Naquela época, fluía da terra úmida uma névoa, envolvendo-a completamente. Portanto, era impossível ver a luz do
Sol, como a vemos hoje. O Sol tinha a aparência de um arco de luz numa noite escura. Ao redor dele havia uma aura.
No início da Época Atlante, nós vivíamos nessa atmosfera nebulosa. Mais tarde, a temperatura foi
gradativamente caindo e a umidade foi-se condensando em água. Por fim, uma chuva contínua forçou os Atlantes a
abandonarem seus domínios territoriais. Foi o decisivo episódio conhecido por dilúvio, como assinalam as várias
Religiões.
Quando essa atmosfera nebulosa ainda envolvia a Terra, era impossível a formação do arco-íris. Geralmente
esse fenômeno ocorre quando há uma atmosfera clara em certos lugares e nuvens em outros. Então, chegou a Época
na qual a Humanidade contemplou o arco-íris pela primeira vez. Quando vi esta cena na Memória da Natureza fiquei
maravilhado.
Alguns refugiados foram compelidos a sair da Atlântida. Esse antigo continente está hoje parcialmente
submerso no Oceano Atlântico. Porém, abrange também a Europa e a América dos dias atuais. Esses refugiados foram
guiados para o Leste até atingir um lugar elevado onde a atmosfera estava parcialmente clara. Lá viram, acima de suas
cabeças, o céu claro. De repente, apareceu uma nuvem, e dessa nuvem saiu um relâmpago. Ouviram o reboar do
trovão.
Como sobreviveram às enchentes graças a orientação de um guia, reverenciado como Deus, então, se
voltaram para Ele perguntando: “O que foi isso? Vamos ser, enfim, destruídos?”. O Guia apontou para o arco-íris na
nuvem e disse: “Não, pois enquanto esse arco estiver na nuvem, assim também as estações se seguirão umas às
outras, em sucessão ininterrupta”. E o povo, com grande admiração e alívio, contemplou esse arco promissor.
Quando consideramos o arco como uma das manifestações da Divindade, podemos aprender algumas lições
maravilhosas no domínio da devoção. Quando ficamos atemorizados diante do relâmpago e do trovão, o arco-íris no
céu deve provocar sempre no coração humano uma admiração pela beleza de sua composição de sete cores. Não há
nada que se compare a esse arco maravilhoso, e quero de chamar a atenção para alguns fatos físicos referentes a ele.
Em primeiro lugar, o arco-íris nunca aparece ao meio-dia. Ele ocorre quando o Sol já atravessou mais da
metade da distância desde o zênite até o horizonte. Quanto mais próximo do horizonte o Sol estiver, maior, mais claro
e mais belo ele será. Jamais aparece num céu sem nuvens. Normalmente tem como fundo uma nuvem escura e
sombria.

155
N.T.: Edwin Dwight Babbitt (1828-1905) foi um médico Americano, espiritualista e promotor da cromoterapia.
Só podemos vê-lo quando damos as costas ao Sol. Não podemos olhar em direção ao Sol e, ao mesmo tempo,
ver um arco-íris. Quando levantamos os olhos para o arco, ele aparece como um semicírculo acima da Terra e de nós.
Quanto mais alto estivermos, mais ampla visão teremos dele. Nas montanhas, quando atingimos uma altura suficiente
acima do arco, podemos vê-lo como um círculo sétuplo. Sétuplo como a Divindade da qual é a manifestação.
Com esses fatos físicos diante de nós, consideremos a interpretação mística do assunto. Na vida comum,
quando estamos no apogeu da atividade física, quando a prosperidade está no seu máximo, quando tudo parece
brilhante e claro, então, não temos necessidade da manifestação da luz e da vida divina. Não temos necessidade desse
acordo firmado por Deus com o ser humano, desde sua entrada na Época Ária. Não há razão alguma para dar
importância a uma vida superior. O barco da vida navega num mar de rosas. Não há motivo para preocupações e este
mundo provê todas as necessidades. Os assuntos relativos ao além não interessam no momento.
Mas, de repente, surge a tempestade. Tristezas e aborrecimentos lançam uma cortina sombria sobre nós. A
borrasca do desastre rouba-nos o conforto material. Muitas vezes somos forçados a encarar a solidão, imersos num
mar de sofrimentos.
Nesse momento, quando desviamos nossa atenção do Sol da prosperidade material e olhamos para a vida
superior, veremos sobre a nuvem escura do desastre, o arco colorido indicando o pacto entre Deus e a Humanidade.
Assim fica evidente que sempre podemos entrar em contato com a vida superior.
Contudo, é preciso lucidez e cautela. Precisamos decidir com propósitos bem delineados. Pois, talvez não seja
o momento certo. Necessitamos de condições materiais para levar uma vida digna, mesmo sendo modesta. A vida
material prospera melhor quando não estamos em contato muito íntimo com a vida elevada.
Todavia, para evoluir, progredir e aspirar a um estado cada vez maior de espiritualidade, devemos, vez por
outra, sofrer inquietações e sofrimentos na carne. Dessa forma, entrarmos em maior sintonia com a vida superior.
Quando encararmos o sofrimento e as tribulações como um meio para atingir esse fim, então, as desgraças
transformar-se-ão nas maiores bênçãos já recebidas.
Quando não temos fome, que nos importa o alimento? Mas, quando estamos famintos e temos diante de nós
um alimento, não importa quão insignificante seja, ficamos muito agradecidos por ele.
Dormindo bem todas as noites, não podemos avaliar quão privilegiados e abençoados somos. Mas, quando
insones, noite após noite, desejando ardentemente conciliar o sono com o descanso correspondente, reconhecemos o
seu devido valor.
Quando gozamos de boa saúde e não sentimos dor ou qualquer mal afligindo o corpo, esquecemos a
existência e o significado da dor. No entanto, quando nos restabelecemos de uma doença ou depois de um grande
sofrimento, avaliamos bem as bênçãos da saúde.
No contraste entre os raios do Sol e a escuridão da nuvem, vemos o arco acenando para uma vida superior.
Nesse momento especial estamos em melhores condições de aceitar o convite do arco-íris.
Muitas pessoas preocupam-se com ninharias. Isto me faz lembrar uma história, recentemente publicada num
de nossos jornais. Um rapaz subiu numa escada. Enquanto subia olhava para cima. Encontrava-se em tal altura que
uma queda seria morte certa. De repente parou e olhou para baixo. Ficou imediatamente tonto. Pois, quando
olhamos para baixo, já a uma elevada altura, ficamos tontos e assustados. Mas, alguém acima dele chamou-o e disse:
“Olhe para cima, garoto. Suba até aqui e eu ajudarei você”. Ele olhou para cima, e imediatamente a tontura e o medo
desapareceram. Então, continuou subindo até ser apanhado por alguém que o aguardava em uma janela. Vamos olhar
para cima. Manter o vigor na subida e abandonar os pequenos tropeços da vida. Contemplemos o arco da ESPERANÇA
que está sempre enfeitando as nuvens. Quanto mais nos esforçamos por viver a vida superior e alcançar as alturas
sublimes em direção a DEUS, mais veremos o arco da paz tornando-se um círculo e haverá tanta paz aqui embaixo
como lá em cima.
É nosso dever realizar o trabalho que nos cabe nesse mundo. Oremos para nunca nos esquivarmos dele. Ainda
assim temos um dever para com a vida superior. Este é o propósito das reuniões aos domingos à noite. Unindo nossas
aspirações, avançaremos em direção às alturas espirituais.
Devemos lembrar que todos trazem dentro de si uma força espiritual latente. Ela é superior a qualquer poder
no mundo. Como ainda não está disponível, somos responsáveis pelo seu desenvolvimento e uso. Para aumentar esse
poder devemos dedicar parte de nosso tempo livre ao cultivo da vida espiritual. Assim, quando a nuvem da desgraça
descer sobre nós, possamos, com o auxílio dessa força, encontrar o arco dentro da nuvem.
Como o arco é visto depois da tempestade, assim também quando pudermos ver o brilhante arco-íris em
nossa nuvem de dor, o sofrimento estará no fim e o lado luminoso começará a aparecer. Quanto maior a provação,
maior a necessidade da lição. Quando trilhamos o caminho do erro, mais cedo ou mais tarde seremos bondosos, mas
firmemente, fustigados pela realidade da vida e forçados a reconhecer que o caminho da verdade aponta para o alto e
não para baixo, e que Deus governa o mundo.
Capítulo XVIII - A Responsabilidade do Conhecimento
Na época distante e obscura do passado, quando começamos nossas vidas como seres humanos, pouca
experiência havia sido acumulada e, consequentemente, menor responsabilidade arcava sobre nós. A
responsabilidade depende do grau de conhecimento.
Sabemos que os animais não são responsáveis perante a Lei de Causa e Efeito, sob o ponto de vista moral.
Porém, é claro, se um animal saltar de uma janela estará sujeito às leis físicas. Quando estatelar-se no chão
possivelmente fraturará uma pata ou sofrerá qualquer outro dano.
Se uma pessoa fizesse a mesma coisa, teria de responder à Lei da Responsabilidade, além da Lei de Causa e
Efeito. Recai sobre ela uma responsabilidade moral. Está ciente da importância do instrumento a ela dado, portanto,
não tem o direito de lhe causar dano.
Vemos, então, que nossa responsabilidade moral depende do nosso nível de consciência, ou de
conhecimento.
Adquirimos experiência através de muitas vidas. A cada vez incorporamos mais talentos e faculdades.
Renascemos sempre com talentos acumulados. Resultam das experiências agregadas durante vidas. Quanto mais
talentos, mais responsáveis somos pelo seu uso. Além disso, devemos aplicar e multiplicar esses talentos durante a
vida. Sem essa prática, as qualidades estarão condenadas a progressiva atrofia, tão certo como a mão não usada
pende inerte para um lado.
As habilidades espirituais podem definhar, tal como um músculo sem exercício também enfraquece. Para
evitar a atrofia devemos colocar os talentos em ação. Não pode haver descanso nem hesitação na rota evolutiva
assumida por nós.
Devemos seguir adiante ou sofreremos as consequências da degeneração dos poderes anímicos.
Há um inseparável casamento entre responsabilidade e conhecimento. Mais conhecimento, mais
responsabilidade. Isto está bem claro. Observando sob o ponto de vista mais profundo, na perspectiva do cientista
ocultista, há uma responsabilidade vinculada ao conhecimento geralmente ignorada pela Humanidade. A esse nível
particular de responsabilidade dedicaremos o estudo seguinte.
Mabel Collins156 afirma que é real a história narrada em seu livro chamado “A Floração e o Fruto, ou a História
de Fleta, a Necromante”.
Segundo a autora, o material recolhido para compor essa história veio de um país distante e de maneira muito
estranha, fazendo referências a alguém que conhecia.
A história narra verdades profundas relacionadas com a aquisição de conhecimentos e seu respectivo uso.
Conta-nos como Fleta no começo de sua encarnação, quando ainda estava em estado selvagem, assassinou
seu amante. Em seguida, Fleta obteve certo poder relacionado com a atmosfera cruel do crime. Esse poder, em
conformidade com a natureza do caso, estava no plano da magia negra. Portanto, como sugere a história, Fleta
possuía o poder de um mago negro. Ela forçou seu amante a matar uma entidade para adquirir mais poder. Desta
forma obscura utilizava seu conhecimento.
Há aqui uma grande verdade. Todo conhecimento que não estiver impregnado de vida é vazio, sem propósito
e inútil. O conhecimento pode ser obtido de várias maneiras, e deve também ser utilizado de várias formas. Uma vez
adquirido, pode ser guardado num talismã e depois usado pelas pessoas para bons ou maus propósitos, segundo o
caráter de quem o utilizar.
Se conservado por alguém que desenvolveu essa força com esforço próprio, será usado de acordo com a
índole desse homem ou dessa mulher.
Aplica-se aqui o mesmo princípio do gerador de eletricidade ligado a uma bateria. A bateria acumula a
eletricidade gerada. Essa energia acumulada pode ser utilizada para acionar diversos dispositivos elétricos e não
apenas para retornar a quem a forneceu. Assim também acontece com a força dinâmica advinda do sacrifício de uma
vida com o propósito de adquirir poder oculto. Pode ser armazenada num talismã e usada de diferentes modos.
Vemos este grande fato particularmente descrito na lenda de Parsifal 157. Nesta bela saga o poderoso sangue
purificador do Salvador foi recolhido em um cálice. O sangue foi vertido em nobre sacrifício próprio e não usurpado de
outrem. Esse cálice, o Graal, converteu-se em talismã. A relíquia foi guardada por nobres cavaleiros. O Graal lhes
conferia força espiritual desde que conservassem a pureza, castidade e vida inofensiva.
Além do cálice temos também o simbolismo da lança responsável pelo ferimento do qual jorrou o sangue. A
lança foi “imantada” pelo sangue purificador e, também, se converteu em talismã, poderia ser destinada para diversos
propósitos.
Durante o reinado de Titurel, o poder do Graal foi conservado. O filho de Titurel, Amfortas, herdou o trono.
Certo dia Amfortas deixou a guarda do Cálice e armou-se com a lança sagrada para matar Klingsor. Então, o rei

156
N.T.: Mabel Collins (1851-1927) foi uma mística britânica.
157
N.T.: ópera de três atos do com a música e libreto do compositor alemão Richard Wagner.
corrompeu sua natureza inofensiva. Perverteu o grande poder espiritual da lança. Tentou usá-lo para matar um
inimigo.
Embora Klingsor fosse um mago negro e, portanto, inimigo do bem, Amfortas jamais deveria utilizar o poder
da lança para um propósito nefasto. Ele violou a natureza casta, pura e inofensiva. Esse equívoco trouxe muita
desgraça para Amfortas. O poder da lança voltou-se contra ele. Foi o início de um padecimento sem trégua. Um
ferimento incurável impingiu-lhe terrível suplício. É também assim em casos análogos.
O rei Davi é lembrado pela alcunha de: o guerreiro manchado de sangue. O Senhor proibiu-lhe a construção
do Templo, mesmo sendo um deus da guerra, punindo nações para fazê-las voltar à razão. Como Amfortas, Davi não
pôde construir um templo com o instrumento maculado pelo sangue de suas guerras. Essa tarefa foi delegada ao filho
de Davi, Salomão, o homem da paz.
Fato notável em Salomão: Ele pediu sabedoria. Pediu a Deus abundante sensatez, não para vencer seus
inimigos, não para conquistar mais territórios e multiplicar seu povo, mas para governar melhor o povo colocado aos
seus cuidados. Como o desejo de Salomão já estava imbuído de sabedoria, sabedoria foi-lhe concedida em
abundância.
Retornando à Lenda do Graal, Parsifal representa a antítese de Amfortas. Parsifal não chegou a conhecer seu
pai, um guerreiro, um homem manchado de sangue e por isso mesmo ceifado pela morte. Herzleide (aflição do
coração), sua enviuvada mãe, sozinha o criou. Ainda, jovem e ingênuo, Parsifal utilizava um arco para flechar animais
selvagens. Mas, a certa altura, mais maduro, quebrou seus instrumentos de caça. Converteu-se em um ser casto, puro
e inofensivo. Pelo poder inerente a essas virtudes conservou-se firme quando foi tentado por Kundry. Nesse dia de
grande tentação, arrebatou a lança das mãos de Klingsor. Lembremos que Amfortas tinha perdido a lança para o mago
negro.
Parsifal, durante sua peregrinação pelo mundo, desde o resgate da lança até o retorno ao Castelo do Graal, foi
perseguido por muitas tentações, muita tristeza, problemas e tribulações. Homens quiseram tirar-lhe a vida, e, muitas
vezes, poderia livrar-se dos inimigos empunhando a lança sagrada.
Mas, Parsifal já havia compreendido o real propósito da lança. Seu poder miraculoso deve ser direcionado
para curar, não para ferir. Compreendeu o poder sagrado conferido ao talismã através do sangue sacrifical, e esse
poder deve ser usado somente para os mais elevados propósitos.
De fato, quem possui genuíno poder espiritual jamais o utiliza para qualquer deliberação egoísta. São firmes
em seus propósitos, não importa quão irresistível a tentação ou o grau de aflição imposto pelas forças do mal. Nem
sequer por um momento sonham em prostituir o sagrado poder para propósitos egoístas.
Apesar de alguém poder alimentar cinco mil pessoas que estão famintas, afastadas da fonte de provisões, ele
não apanhará nem mesmo uma pequena pedra para transformá-la em pão com o fito de aplacar a sua própria fome.
Embora possa postar-se diante de seus inimigos e curá-los, como Cristo restaurou a orelha do soldado
romano, recusará o uso do poder espiritual para estancar o sangue jorrando de seu próprio flanco.
Seres dessa natureza “a outros salvam, a si mesmos não salvam”. Mas, eles poderiam sempre tê-lo feito se
quisessem, pois, o poder é grande. Mas se o tivessem usado para esse fim, tê-lo-iam perdido. Não tinham o direito de
assim prostituir seu precioso poder.
Vejamos outros exemplos de transferência de poder. Por exemplo, a cabeça de João Batista foi colocada numa
bandeja logo após ter sido sacrificado. As pessoas presentes a esse brutal espetáculo adquiriram certa quota de
poder.
A mitologia grega conta-nos as façanhas de Argos. Possuía tantos olhos a ponto de ver tudo e quanto
desejasse, era Clarividente. Mas usou seu poder para um propósito mesquinho, e Mercúrio, o deus da sabedoria, lhe
decepou a cabeça retirando seu poder.
Toda vez que um ser humano tenta usar seu conhecimento espiritual e seu poder de maneira deturpada, ele
os perderá. Perde o direito adquirido de posse e uso desse poder.
Mesmo quando observamos o conhecimento do ponto de vista científico, constatamos o consumo da vida.
Cada pensamento rompe a delicada malha do tecido cerebral, formado de pequenas células. Cada célula tem vida
individualizada e essa vida é destruída pelo pensamento. Ou melhor, a forma celular é destruída e assim a vida não
pode mais manifestar-se nela.
Quando direcionamos o intelecto à procura de conhecimento, em qualquer área de estudo, sempre há
destruição da vida.
Alguns tiram a vida em experiências científicas por mera curiosidade. Outros são cruéis ao tirar a vida, como
na vivissecção. Nesse caso, se a busca pelo conhecimento se baseia apenas na curiosidade, uma terrível dívida
acumula-se para resgate futuro. A Natureza incansavelmente trabalha para restaurar o equilíbrio da balança do
destino.
No caso de Fleta, seu poder originou-se de dois sacrifícios. O sacrifício da vida, cujo cenário foi o Mundo Físico,
foi seguido por outro sacrifício em outro mundo. Através desse poder ela conseguiu chegar até os portais do templo,
onde se postou e pediu Iniciação. Entretanto, seus propósitos, tal como Klingsor, não eram puros.
Ela não era casta, não estava qualificada para ter poder espiritual em toda a sua dimensão, nem capacitada
para auxiliar a Humanidade. Portanto, foi banida da porta do templo e teve a morte decretada conforme o triste
destino das necromantes. Um véu pende sobre essa morte e não sabemos o que está por trás dele. Mas, não convém
falar sobre esses temas, é melhor não os revelar.
Dessas histórias vale extrair lições práticas. Não podemos tirar a vida nem acumular conhecimentos de uma
maneira prejudicial, sem incorrer com isso numa terrível responsabilidade. A única razão satisfatória e apropriada
para a busca do conhecimento é aquela onde possamos servir e ajudar a Humanidade da maneira mais eficiente.
Na época presente é imprescindível o sacrifício de vidas para obter-se conhecimento, não podemos evitar.
Portanto, o conhecimento deve ser almejado com o mais puro e melhor dos motivos, pois são inumeráveis as vidas
aniquiladas.
O ocultista pode observar a vida na iminência de encarnar. Até a vida mais elementar dedica-se a construir e
habitar a forma mais adequada para sua manifestação. Quando essa vida é privada de sua forma em função do
processo da obtenção de conhecimento, o ocultista fica surpreso com a imensa quantidade de vidas sacrificadas.
Muitas delas imoladas sem um bom propósito.
Por isso, repetimos e insistimos: ninguém tem o direito de procurar conhecimento a não ser com o mais puro
e melhor dos motivos.
Se, por outro lado, trilhamos o caminho do dever, se procuramos fazer bem, e completamente, as coisas que
nos chegam às mãos, e se temos aspirações de ingressar nos Mundos sutis sem artifícios para forçar o crescimento
espiritual, então estamos mais qualificados para obter poderes superiores.
Os Ensinamentos Rosacruzes estimulam a busca do bem, do belo e do verdadeiro. Ensina verdades espirituais
e, também, tem a beleza de emancipar seus Estudantes. Todos devem aprender a trilhar o caminho do dever e a viver
a vida do bem.
Não importa se a vida tem longa ou curta duração. Muitas pessoas, como diz Thomas de Kempis 158,
preocupam-se em garantir uma vida longa. Não importa a quantidade dos dias e sim a qualidade dos dias vividos.
Devemos dirigir nossos esforços no cumprimento do dever diário. Então, certamente estaremos qualificados para
receber o conhecimento superior e o exaltado poder que o acompanha.
Há sempre espaço para praticarmos o conhecimento adquirido, não importa onde. Não se trata de pregar
sermões nem de extasiar plateias. Declamar, desde manhã até a noite, as maravilhas que conhecemos para angariar
admiradores. Ao contrário, devemos servir com humildade, vivendo a verdadeira vida espiritual. Dando exemplos
vivos e coerentes com nossos ensinamentos. A oportunidade para servir existe para todos nós. Não precisamos
procurá-la muito longe, ela está precisamente aqui.
Thomas de Kempis expressou tudo isso da maneira singela, própria de um místico inspirado. Com lindas
palavras abordou o mesmo tema na “Imitação de Cristo”. Vale a pena relembrar, ele diz:
“Todo ser humano, naturalmente, desejaria saber de que vale o conhecimento sem o temor a Deus. Com
certeza, um humilde agricultor que serve a Deus é melhor do que um orgulhoso filósofo dedicado a estudar o curso
dos céus, mas negligente consigo mesmo. Quanto maior for o conhecimento, mais severo será o julgamento, a não ser
que a vida também seja a mais santa.
Portanto, não se envaideça, mas, antes tema o conhecimento que lhe foi dado. Quem se julga saber muito,
lembre-se que existe muita coisa ainda desconhecida. ‘Ninguém sabe como e quanto poderá progredir ao fazer o
bem’”.
Por isso lembremo-nos: não devemos procurar o conhecimento simplesmente pelo conhecimento, mas
apenas como um meio para viver uma vida melhor e mais pura, pois apenas isso pode justificá-lo.

158
N.T.: Também conhecido como Tomás de Kempen, Thomas Hemerken, Thomas à Kempis, ou Thomas von Kempen
(1379 ou 1380-1471) foi Monge e escritor alemão.
Capítulo XIX - A Jornada no Deserto
Nosso tema, agora, está baseado na passagem bíblica “O Tabernáculo no Deserto”. Vamos interpretá-lo sob o
ponto de vista dos Ensinamentos Rosacruzes. Pode parecer, para quem não estudou estes ensinamentos, que uma
interpretação é tão válida e tão digna de confiança como qualquer outra. Mas, uma reflexão mais profunda sobre o
assunto poderá suscitar uma opinião um pouco diferente.
São Pedro, em sua segunda Epístola, primeiro capítulo, versículo 20, diz: “Atenção a este ponto: nenhuma
profecia contida nas Escrituras está sujeita a interpretações particulares”.
Em nossa vida diária compreendemos que se nossa opinião sobre qualquer assunto for considerada valiosa,
essa opinião deve estar baseada sobre um razoável conhecimento do assunto. O depoimento de testemunhas num
tribunal está lastreado neste mesmo princípio.
Se uma pessoa bem qualificada, por estudos ou por experiência, expõe uma opinião sobre um assunto, ela é
ouvida com respeito e recebe a devida consideração. Deveria acontecer o mesmo com quem se propõe a interpretar
as Escrituras.
Deve-se notar a observação de São Pedro quando afirma que as Escrituras não são de interpretação particular.
Os Católicos Romanos sustentaram, durante muitos séculos, sua autoridade na interpretação das Escrituras (e
foram censurados por isso). Mas, há fundamento para tal alegação, pois, cada Papa que esteve à frente do Vaticano,
com uma única exceção, era dotado de visão espiritual desenvolvida. Não podemos assegurar que os Papas exerceram
seus poderes com sabedoria. Contudo, não eram cegos guiando cegos.
É essa reivindicação que São Pedro reclama para si em II Pedro 1:16. Ele diz: “Porque não vos fizemos saber a
virtude e a vinda do nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos Sua
Majestade”. São Paulo também afirma, no nono capítulo da primeira Epístola aos Coríntios no primeiro versículo:
“Então eu não vi Jesus Cristo Nosso Senhor?”.
Eles testemunharam dos fatos, viram e ouviram. Portanto, existe fundamento em suas palavras e
ensinamentos.
Podemos ir mais além. Podemos demonstrar o desenvolvimento da visão espiritual dos integrantes do grupo
de seguidores mais intimamente associados ao Cristo quando Ele esteve na Terra.
Eles foram levados para o Monte da Iniciação, onde viram Moisés e Elias, mesmo já desencarnados há muito
tempo. Em estado de contemplação, eles viram e ouviram coisas das quais não deveriam falar. Portanto, pelo
desenvolvimento do sexto sentido, ou sentido espiritual, eles adquiriram os fundamentos necessários para pregar
seus conhecimentos. Obtiveram provas objetivas. Portanto, estavam capacitados para interpretar os ensinamentos a
eles ministrados.
Na Fraternidade Rosacruz não acreditamos que a faculdade da visão espiritual seja privilégio apenas de
alguns. Entendemos que ela pode ser adquirida por todo ser humano no decurso de seu desenvolvimento espiritual.
Algum dia, todos nós conquistaremos a visão espiritual. Então, reconheceremos o teor de verdade das coisas que
foram a priori proclamadas como verdadeiras.
Dentre nós, alguns já desenvolveram a visão espiritual. Dotados dessa faculdade, podem ver além do véu,
podem ler na Memória da Natureza e encontrar refletidas nela, vindas de um mundo superior, as causas geradoras da
presente civilização. Alguns podem também ver o porvir, e assim conhecer as futuras diretrizes do trabalho em prol da
evolução.
As Escrituras não foram estudadas pelo autor e interpretadas segundo seu entendimento pessoal, mas esse
conhecimento resulta de uma compreensão obtida por meio da visão espiritual.
Em primeiro lugar, vamos deixar bem claro, como já foi dito quando estudamos os Mistérios do Cristianismo:
os quatro Evangelhos não são meramente o relato da vida de um indivíduo comum narrado por quatro pessoas
diferentes, mas, simbolizam diferentes etapas do Processo Iniciático.
São Paulo diz: “Até que Cristo seja formado em vós”159. Algum dia, todos passarão pelos quatro estágios
descritos nos quatro Evangelhos. Cada um desenvolverá em si mesmo o Espírito de Cristo. Afirmamos isto sobre os
quatro Evangelhos, mas podemos aplicar a mesma afirmativa a uma grande parte do Velho Testamento. Trata-se de
um maravilhoso livro de ocultismo.
Quando colhemos batatas, não esperamos encontrar só batatas sem resíduos de terra. Também seria ingênuo
supor o conteúdo da Bíblia isento de impurezas. Imaginar cada palavra portadora de uma verdade oculta. Assim como
há terra no meio das batatas, por analogia devem existir impurezas entre as verdades ocultas nas Escrituras.
Os quatro Evangelhos foram escritos para “olhos de ver e ouvidos de ouvir”. Somente quem tem o direito de
saber pode desvendar seu significado e compreender as entrelinhas. Da mesma forma, encontramos no Velho
Testamento grandes verdades ocultas. Elas se tornam muito evidentes quando podemos olhar por trás do véu. Mas,
muitos ainda permanecem cegos pela cortina do mistério.

159
N.T.: Gl 4:19
No momento, muitos ainda estão privados da visão oculta para concentrar suas forças no progresso material.
Precisam aperfeiçoar-se nas atividades do mundo concreto. Mas nós, do mundo Ocidental, estamos agora na curva
ascendente do desenvolvimento da natureza oculta. Estamos nas praias do mar espiritual, onde, individualmente,
devemos colher as pérolas do conhecimento submerso no oceano da vida, por muito tempo mantidas invisíveis e
encobertas pela matéria.
Vamos agora examinar uma modalidade de Iniciação relatada numa parte da Bíblia. Ela descreve a jornada da
Humanidade desde o barro até Deus. Quando nos enfronhamos nessa fabulosa coleção de livros chamada Bíblia,
reparamos que começa com cinco livros comumente denominados os cinco Livros de Moisés.
Narram à epopeia do “povo escolhido”. Sua peregrinação desde o Egito até a Terra Prometida. A travessia das
águas do Mar Vermelho, guiados de uma maneira sobrenatural. Depois de muitos, muitos anos, e depois de muitos
pioneiros da jornada já terem perecido, finalmente alcançaram a terra a eles prometida. Ainda assim, São Paulo, na
Epístola aos Hebreus, quando menciona essa passagem do povo hebreu afirma que esse pacto não foi consumado, o
acordo malogrou. Isso é um fato. Quando instituímos uma lei, também podemos transgredi-la e incorrer no pecado.
Portanto: “É impossível à salvação enquanto a lei prevalecer”.
Houve uma época em que a organização Humanidade necessitava de leis rigorosas para ser governada. As leis
foram detalhadas e prescritas para abranger todos os casos possíveis. Tinha o objetivo de refrear e controlar o
comportamento dos indivíduos e ditavam as regras do cotidiano. Portanto, impor leis era a missão dos guias do povo
daquela época. Estas leis foram incorporadas nos cinco livros de Moisés.
Historicamente, os israelitas eram um povo nômade. O êxodo não transcorreu do Egito para a Palestina. Na
verdade, os israelitas foram levados, por seus guias, da condenada Atlântica, onde a umidade condensada da
atmosfera causava enchentes tornando a Terra inabitável, até a parte central da Ásia.
Quando finalmente alcançaram esse território na Ásia, os imigrantes foram selecionados para formar o núcleo
de uma raça escolhida. Eis a gênese do que se conhece como Raça Ária. Além dos importantes fatos relacionados com
a história da espécie humana, há também uma grande lição espiritual, especialmente nessa parte dos
acontecimentos. Ela é fundamental para nossos estudos.
No “Conceito Rosacruz do Cosmos” há o relato de dois homens parados numa esquina, um derruba o outro.
Um observador poderia afirmar que um pensamento de ódio derrubou o homem. Outro discordaria dessa afirmação,
dizendo que viu o braço levantado desferindo um golpe sobre a cabeça do homem e isso causou a sua queda.
A última versão está correta, mas também houve a elaboração do pensamento. O braço não pode ser
responsabilizado, foi mero instrumento e não o verdadeiro autor da agressão. O pensamento a tudo movimenta.
Quando consideramos o lado oculto dos efeitos, teremos uma compreensão mais profunda das causas.
Partindo deste ponto de vista, analisaremos o “Tabernáculo no Deserto”.
Na Bíblia há uma descrição dos primeiros seres humanos sobre a Terra. Chamavam-se Adão e Eva.
Corretamente interpretado, o casal representa a própria raça humana quando tomou conhecimento do fruto
proibido.
Gradativamente o poder de procriação foi usurpado e o livre-arbítrio incorporado ao destino humano. Foi o
alvorecer do exercício da liberdade.
Paralelamente entrou em vigência a Lei de Consequência. Desde então, cada um e todos são
responsabilizados por suas escolhas.
A Humanidade abriu os olhos e conheceu o poder gerador. Aprendeu a criar corpos usurpando esse poder.
Apropriou-se da força sexual e foi, então, divorciada da Árvore da Vida. Perdeu a conexão direta com a Região Etérica
do Mundo Físico.
O Corpo Vital é constituído de matéria etérica. Ele é a Árvore da Vida de todos nós. Abastece o Corpo Denso
de energia vital. Imprime movimento e promove a circulação da seiva da vida.
Agora estamos em condições de compreender a razão da “Expulsão do Paraíso”. O poder recriador e
regenerador foi-nos arrebatado, para assim evitar a revitalização e perpetuação do imperfeito Corpo Denso. Os
portais da região etérica foram trancados e, desde então, estão sob uma constante vigilância. Conforme afirma a
Bíblia, Querubins com espadas flamejantes protegem a entrada do Jardim do Éden.
Esta história está relatada no começo da Bíblia, mas, no fim do livro, na Revelação (Apocalipse), fala-se sobre
uma cidade onde haverá paz entre as pessoas.
Duas cidades são mencionadas na Bíblia. A primeira, Babilônia, uma cidade de desgraças e tribulações, onde a
confusão instaurou-se pela primeira vez. Os indivíduos separaram-se e a fraternidade humana fragmentou-se.
A segunda, a Nova Jerusalém, é descrita como a futura cidade onde haverá paz. Segundo o Apocalipse na
Nova Jerusalém reside a Árvore da Vida.
Portanto, o poder regenerador está simbolizado em nossa futura morada, a “nova cidade”. Nela resgataremos
a saúde e a beleza perdidas.
Houve um bom propósito no fato deste poder ter-nos sido tirado. Não por maldade ou punição, muito menos
para impor tristeza, dor e sofrimento, mas sim para recuperarmos a imortalidade perdida. Somente através de
repetidas existências em corpos materiais aprenderemos a construir um veículo imortal.
Conforme analisamos, gradualmente o ser humano migrou do estado etérico para a presente condição sólida.
No “paraíso”, ele podia viver no estado etérico tão facilmente como pode viver hoje nos sólidos, líquidos e gases da
Região Química do Mundo Físico. Quando vivia na região etérica interligava, em seu próprio Corpo Vital, as correntes
vitais que agora nós contatamos apenas de forma inconsciente. Naquele tempo, tinha capacidade de centralizar a
energia do Sol em seu corpo e empregava-a de modo diferente do atual. Este poder foi-lhe gradualmente retirado à
medida que ingressava no presente estado sólido.
Então, começou a jornada através do deserto. Um deserto de espaço e matéria. Continuaremos nesta
peregrinação até reentrarmos conscientemente no reino etérico. Reino conhecido como O Novo Céu e A Nova Terra
ou A Nova Jerusalém. Onde imperará a virtude e não haverá mais pecado.
Atualmente ainda estamos viajando através do deserto do espaço, como veremos se estudarmos a Bíblia com
devido entendimento.
Contudo, não nos referimos à versão inglesa, organizada por tradutores tolhidos por um édito do Rei Jaime.
Trabalharam sob um regime de censura. A tradução não podia conter temas polêmicos. Por conveniência, não podia
perturbar as crenças existentes naquela época.
Do ponto de vista oculto, de imediato aprendemos algo importante sobre o Tabernáculo construído no
deserto. Moisés foi conduzido para as montanhas. Lá entrou em contato com certas imagens (padrões ou símbolos
arquetípicos).
Do “Conceito Rosacruz do Cosmos” recordemos que no mundo celeste há imagens modelos-arquétipo. Na
língua grega a palavra “apxn” significa “no começo”, isto é, no início, no princípio. Tal como o Iniciado, que já
compreendeu Sua própria divindade, Cristo afirma, de Si mesmo: “Eu sou o princípio (apxn) e o fim”. Há nessa palavra
“princípio” (apxn) o núcleo gerador de tudo que temos aqui.
No Tabernáculo foi colocada uma Arca. Foi disposta de tal modo que suas hastes não poderiam ser removidas.
Durante toda a viagem através do deserto as hastes deveriam permanecer imóveis. De fato, jamais foram removidas
enquanto a Arca peregrinava até ser conduzida ao Templo de Salomão.
Temos aqui uma constatação notável. Um determinado símbolo, um arquétipo, algo transportado desde o
princípio, é elaborado de tal modo que possa ser reativado em determinadas ocasiões e reconduzido mais adiante.
A Arca era o núcleo, ou o coração do Tabernáculo. O centro ao redor do qual todas as coisas gravitavam.
Continha também o Cajado de Aarão, o Pote do Maná e as duas Tábuas da Lei.
Acabamos de descrever o símbolo perfeito da verdadeira constituição do ser humano. Enquanto ele atravessa
o vale da matéria e transita continuamente de um lugar a outro, as hastes, sob nenhuma hipótese, podem ser
removidas. Permanecerão intactas até reingressar novamente no estado etérico descrito em linguagem simbólica no
Apocalipse. Onde se diz: “Aquele que triunfar, eu o farei um pilar no templo de meu Deus; e dali nunca mais sairá”160.
Durante o transcorrer do tempo, desde o momento no qual o ser humano começou sua viagem através da matéria,
ele possui esse Espírito de peregrino.
Nunca ficou parado. Algumas vezes, o Tabernáculo era conduzido, assim como a arca, mais para adiante, para
um novo lugar.
Também o ser humano está sempre sendo impelido de um lugar para outro, de um ambiente para outro, de
uma condição para outra. Não é uma jornada sem objetivo. A meta é a terra prometida, a Nova Jerusalém, onde
haverá paz. Mas, enquanto o ser humano estiver na jornada, deve estar ciente de que não haverá descanso e nem
paz.
Nosso destino assim determinado resulta do cumprimento da lei. Recordemos que, de certo modo, o ser
humano foi transgressor. No plano original nosso destino teria tomado outro rumo, sem o vale de dor e lágrimas no
qual estamos evoluindo agora.
A força criadora permanece latente dentro de todos nós. Estamos apenas começando a utilizá-la de maneira
construtiva. Inicialmente ela foi manejada por nós sob a orientação dos Anjos. Nessa época os Anjos organizavam e
cuidavam dos períodos propícios para a procriação, segundo condições planetárias favoráveis. O parto era indolor e
tudo era bom sobre a Terra. O Senhor garantia a boa qualidade da vida sobre o Planeta.
Mas, os Espíritos de Lúcifer necessitavam de um ambiente semelhante ao nosso para prosseguirem a própria
evolução. Estavam atrasados em relação aos Anjos. Necessitavam de cérebros para funcionar no Mundo Físico.
Astutamente mostraram como poderíamos manejar nossa força criadora e nos libertar do regime de tutela dos Anjos.
Assim, quando um corpo fosse abandonado por ocasião da morte, quando se tornasse inútil, poderíamos criar outro
corpo.

160
N.T.: Ap 3:12
Portanto, há duas classes de Anjos trabalhando em diferentes partes do nosso corpo. Os Espíritos de Lúcifer
(Anjos caídos) ocupam-se da medula espinhal e do cérebro. Os Anjos fiéis a Deus se encarregam da faculdade de
propagação, mas não podem intervir em nossa liberdade. Aqui tem início à vigência do livre-arbítrio, da liberdade de
escolha e, também, da Lei de Consequência.
Os animais não estão imbuídos de responsabilidade tal como nós. Se um animal for imprudente, pode
machucar-se apenas de maneira física, e esse é o âmbito de sua responsabilidade. Entretanto, as consequências
seriam diferentes para nós. Nesse caso, arcaríamos com as mesmas sequelas físicas adicionadas à responsabilidade
moral. Pois estamos conscientes do dever e da necessidade de zelar pela saúde do veículo físico. Assim, a Lei de
Consequência está diretamente vinculada ao livre-arbítrio. Todos os atos do ser humano são pesados nessa balança.
Todo erro deve, de alguma forma, chegar ao nosso conhecimento. Tristeza e dor têm sido os agentes, os guias
necessários para sinalizar o bom caminho. A ação gradual da Lei de Consequência ensina-nos, no ritmo do tempo e do
grau de evolução, a corrigir os erros e agir na direção certa.
Na arca, símbolo perfeito do ser humano, estão presentes as Tábuas da Lei e, também, o Pote do Maná. A
palavra “maná” (manna) não significa o pão descido dos céus, mas o Pensador, o Ego, que desceu das esferas
superiores. Em quase todos os idiomas existe a palavra “man” (homem, moon, mente). Em sânscrito, alemão,
escandinavo, etc., a raiz é a mesma. Na arca reside o Pensador.
Durante o presente estágio de sua evolução Ele, o Pensador, está sendo conduzido através do espaço e do
tempo no interior do Tabernáculo do Deserto, seu próprio Corpo Denso.
Em nós também há o poder espiritual simbolizado pelo Cajado de Aarão. Foi o cajado que floresceu quando
todos os outros permaneceram secos.
Há em todos nós um poder espiritual. Esteve latente durante o tempo de peregrinação pela matéria. Agora é
nossa tarefa despertar esse poder. Falamos inúmeras vezes sobre este poder espiritual. Ele traz bênçãos para o
mundo quando utilizado tal como Parsifal, e traz desgraças quando usado pervertidamente como o fez Amfortas.
Este poder espiritual permanece latente na época atual. A Humanidade, simbolizada pela arca itinerante,
ainda não se qualificou para recebê-lo, ainda somos muito egoístas. Devemos cultivar o altruísmo antes que nos seja
confiado o domínio sobre esse maravilhoso poder.
São Pedro é muito enfático quando fala de falsos mestres, referindo-se aos “guias” que podem aparecer entre
nós. Eles tentam auferir lucros em práticas que envolvem a ciência espiritual. Comercializam lições em troca de
algumas moedas, provavelmente com maior incidência na Astrologia. Trocam conhecimentos por moedas e
prometem o reino aos incautos.
Devemos sempre relembrar que não é o dinheiro, mas sim o mérito que nos leva às conquistas espirituais. É
impossível iniciar uma pessoa por artifícios mágicos ou adivinhação. Tampouco é possível crescer espiritualmente em
troca de dinheiro ou por qualquer outra consideração material.
É necessário carregar o revólver antes de puxar o gatilho para gerar a explosão. Assim também é necessário
armazenar dentro de nós a força, o poder espiritual, simbolizado pelo Cajado de Aarão, antes de colocarmos essa
força na direção correta e legítima. Esta é uma das grandes lições oferecidas pelo simbolismo da arca.
Se continuarmos peregrinando no espaço e no tempo, renascimento após renascimento, e não aprendermos a
obedecer à voz de Deus, a aceitar Seus mandamentos sagrados, vivendo uma vida em prol do bem, devemos estar
cientes que não alcançaremos a Cidade da Paz. Continuaremos aprisionados na terra da tristeza e do sofrimento.
Então, como vamos desenvolver nossa força espiritual? O que é o caminho, a verdade e a vida? O triplo
caminho foi-nos mostrado no glorioso ensinamento de Cristo. Em todo o mundo, a Humanidade comum está sendo
regida pelo rigor da lei. As proibições agem sobre o Corpo de Desejos para refreá-lo.
O Pensador, o Ego, contrapõe-se à carne. Mas, sob a força da lei, ninguém pode ser salvo. Temos dedicado
muito estudo sobre o Corpo Vital, pois ele é o veículo do amor e da atração, como disse São Paulo.
Se pudermos dominar o lado passional de nossa natureza e sublimar as baixas vibrações do amor. Se
pudermos cultivar a pureza e resistir à tentação, como fez Parsifal vivendo uma vida pura, estaremos todos os dias
cultivando dentro de nós a poderosa força do amor.
O amor será a força motivadora de nossas tarefas diárias. A capacidade de servir, gradativamente, irá
aumentando até ser como a pólvora na pistola carregada. Então, o Mestre virá e nos mostrará como libertar a
prodigiosa força armazenada na alma.
O tempo de duração da nossa jornada no Deserto da matéria é determinado pelo nosso esforço. A força está
em estado de latência no íntimo do nosso ser. Seu poder um dia nos conduzirá à Cidade da Paz, um lugar distante da
tristeza e do sofrimento.
Sem exceção, podemos e devemos começar a jornada ascensional em algum momento. O primeiro passo é a
purificação. Sem uma vida pura não há progresso espiritual.
“Não podemos servir a Deus e a Mammon” 161. Geralmente “Mammon” representa o ouro e as riquezas do
mundo. Contudo, uma pessoa pode manter-se em seus negócios e cuidar deles pelo bem de todos, não por seu
próprio interesse ou ganância, mas fazendo o possível para ajudar os outros. Não servindo a “Mammon”, não importa
quanta riqueza esteja administrando.
Podemos amar apenas uns poucos ao nosso redor. Mas, há um amor maior que deve espraiar-se e fluir para
outros além do nosso círculo social. Todo dever merece ser cumprido. Precisamos saber aproveitar as elevadas
oportunidades que sempre se abrem diante de nós.
Precisamos aprender a servir e servir sempre reaprendendo. Viver de prontidão para colaborar, servindo a
Humanidade, servindo os animais, servindo os nossos irmãos menores, servindo em toda parte. Somente essa boa
vontade em prestar serviço nos libertará do “deserto”. Aqueles que servem estão situados no ponto mais alto no
templo. Cristo disse: “Aquele que quiser ser o maior dentre vós, seja o servo de todos”.
Esforcemo-nos por prestar este serviço. É fácil cumpri-lo se quisermos. Então, algum dia, num futuro não
muito distante, ouviremos aquela voz gentil, a voz do Mestre. Ela chega a quem ouve e acata a voz de Deus.

161
N.T.: Mt 6:24
Parte IX Coletâneas De Um Místico

Revisado de acordo com:


1ª Edição em Inglês, 1922, Gleanings of a Mystic, editada por The Rosicrucian Fellowship
1ª Edição em Português, 1986, editada pela Fraternidade Rosacruz São Paulo – SP – Brasil

O conteúdo a seguir está entre os últimos escritos de Max Heindel, o Místico. Eles contêm alguns de seus
pensamentos mais profundos e são o resultado de anos de pesquisa e investigação ocultas. Ele, também poderia dizer
como disse Parsifal: “Eu vim através do erro e por meio do sofrimento; vim através de muitos fracassos e por meio de
incontáveis angústias”. Finalmente, a ele foi fornecida a água vivificante com a qual foi capaz de saciar a sede
espiritual de muitas almas. Ele, também, desenvolveu profundamente a piedade e o amor e pôde sentir o palpitar do
coração da Humanidade sofredora.
Normalmente, as almas fortes são dotadas de grande energia e impulso e, por meio dessas mesmas forças,
com dispêndio de muito esforço chegam às primeiras fileiras, embora muitas vezes sofram muito. Como resultado
disso, eles sentem imensa compaixão pelos outros. O autor dessas lições sacrificou esse seu Corpo Denso no altar do
serviço.
Ao escrever os livros e as lições mensais da Fraternidade, em suas palestras e aulas, e no árduo trabalho
pioneiro de fundar a Sede Mundial no curto período de dez anos, Max Heindel realizou mais do que muitos, que são
abençoados com uma ótima saúde, poderiam ter realizado em toda a vida. Seu primeiro livro, sua obra-prima, “O
Conceito Rosacruz do Cosmos”, foi escrito sob a orientação direta dos Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz. Esse livro
leva uma mensagem vital para o mundo. Satisfaz não apenas o intelecto, mas também o coração. Seu livro “A
Maçonaria e o Catolicismo” pode ser encontrado em muitas bibliotecas maçônicas. O Ocultista tem aprendido muito
com o estudo do livro “A Teia do Destino”, que é uma fonte de conhecimentos místicos e de proveitosas verdades
ocultas. É também um guia para o investigador, quando indica os sinais de perigo aos aventureiros que desejam tomar
o céu por assalto. Para a Ciência da Astrologia, ele forneceu, em poucos anos, mais informações do que haviam sido
fornecidas anteriormente, em séculos. Seus dois valiosos trabalhos, “Astrologia Científica Simplificada” e “A
Mensagem das Estrelas” tratam amplamente dos aspectos espirituais e da saúde e respectivos tratamentos de
doenças da Astrologia. A obra “A Mensagem das Estrelas” fornece os métodos de diagnóstico e de cura, o que
constitui um acréscimo valioso para os trabalhos de outros autores, tanto antigos quanto modernos. Esses livros
podem ser encontrados nas bibliotecas de muitos profissionais da saúde da escola antiga.
Capítulo I – Iniciação: O Que É e o que Não É
Parte I

Frequentemente recebemos perguntas referentes à Iniciação e, também com frequência, nos pedem para
informar se essa ordem ou aquela sociedade é genuína e se as Iniciações que elas oferecem aos interessados –
algumas estipulando até o preço – são “feitas de boa-fé, sem fraude ou engano”. Por essa razão, nos parece
necessário escrever uma exposição sistemática sobre o assunto, incluindo uma discussão metódica dos fatos e
princípios envolvidos e uma conclusão clara, para que os Estudantes da Fraternidade Rosacruz possam ter um
esclarecimento oficial que lhes sirva de referência e orientação no futuro.
Em primeiro lugar, deixemos aqui bem claramente entendido que nós consideramos repreensível expressar
uma condenação sobre qualquer ordem ou sociedade, independentemente do que ela pratique. Pode ser
perfeitamente sincera e honesta, de acordo com a sua luz. Não acreditamos que possamos nos elevar no conceito das
pessoas discriminando homens e mulheres por meio de menções em termos depreciativos; nem labutamos sob a falsa
crença que nós temos toda a verdade e que as outras sociedades estão imersas nas trevas. Reiteramos o que muitas
vezes já dissemos, que todas as Religiões foram dadas à Humanidade pelos Anjos do Destino, que conhecem as
necessidades espirituais de cada classe, nação e povo, e têm a inteligência de fornecer a cada uma a forma de
adoração perfeitamente ajustada à sua necessidade em particular; assim, o Hinduísmo é apropriado ao indiano, o
Islamismo ao árabe e a Religião Cristã aos nascidos no hemisfério ocidental.
As Escolas de Mistérios de cada Religião fornecem aos membros mais avançados do povo ou nação que a
adote um ensinamento mais elevado, o qual, se vivenciado, os promovem a uma esfera superior de espiritualidade em
relação aos seus irmãos da mesma Religião. Mas, assim como a Religião das Raças mais atrasadas é de uma ordem
mais inferior que a Religião dos pioneiros, os povos Cristãos, assim também os Ensinamentos das Escolas de Mistérios
Orientais são mais elementares que os do Ocidente, e o Iniciado hindu ou chinês está em um grau de realizações
correspondentemente inferior ao do Místico ocidental. Por favor, pondere isso muito bem, para que você não seja
mais uma vítima de pessoas mal-informadas que tentam persuadir os outros dizendo que a Religião Cristã é cruel,
comparada com os cultos orientais. Sempre para o oeste, seguindo o sol brilhante, a luz do mundo, caminhou a
estrela do império e, não é razoável supor que a luz espiritual acompanhou a civilização ou, até mesmo, a precedeu do
mesmo modo que o pensamento precede a ação? Nós sustentamos que esse é o caso, que a Religião Cristã é a mais
elevada, em caráter e em Espírito, já fornecida ao ser humano, e que repudiá-la, seja esotericamente ou
exotericamente, por qualquer outro sistema mais antigo, é análogo a preferir livros científicos desatualizados ao invés
dos mais novos que contém as descobertas recentes.
Nem as práticas, executadas pelos aspirantes orientais para uma vida mais elevada, devem ser imitadas pelos
Aspirantes à vida superior ocidentais; referimo-nos, particularmente, aos exercícios respiratórios. Esses são benéficos
e necessários ao desenvolvimento do hindu, mas a mesma coisa não se aplica ao Aspirante à vida superior ocidental.
Para ele, é perigoso praticar tais exercícios de respiração, almejando o desenvolvimento anímico; esses exercícios se
provarão, até mesmo, ser uma causa de atraso ou interrupção do desenvolvimento anímico, e inclusive são
absolutamente desnecessários. A razão é explicada a seguir.
Durante a Involução, o Tríplice Espírito, gradualmente, se incrustou em um Tríplice Corpo. Na Época Atlante, o
ser humano estava no Nadir da Materialidade. Presentemente, estamos circulando pelo ponto mais baixo no arco da
Involução e começamos a subir o arco da Evolução. Nesse ponto, então, toda a Humanidade está enclausurada nesta
prisão terrestre, e de tal forma que as vibrações espirituais estão quase extintas. Isso é, claro, particularmente
verdade para as raças atrasadas e para as classes mais inferiores do mundo ocidental. Os átomos nos corpos das
pessoas dessas raças atrasadas estão vibrando com uma intensidade extremamente baixa, e quando, com o decorrer
do tempo, uma dessas pessoas se desenvolve a um ponto em que é possível elevar o seu tom vibratório no caminho
da realização, se faz necessário aumentar essa velocidade de rotação vibratória do átomo para que o Corpo Vital, que
é o agente do crescimento oculto, possa ser, até certo ponto, liberado da força enfraquecedora do átomo físico. Esse
resultado é atingido por meio de exercícios respiratórios que, com o tempo, aceleram a vibração do átomo e
permitem o crescimento espiritual necessário para que o indivíduo consiga atingir esse estado.
Esses exercícios também podem ser praticados por muitas pessoas no mundo ocidental, particularmente por
aquelas que não estão de fato interessadas no desenvolvimento espiritual. Mas, mesmo entre aquelas que desejam o
crescimento anímico, há muitas ainda que não atingiram o ponto em que os átomos dos seus corpos tenham
evoluídos a um tom de vibração que uma aceleração, além da usual, poderia prejudicá-las. Nesses casos, os exercícios
respiratórios não causariam nenhum dano; mas, se forem fornecidos a uma pessoa que, realmente, tem a capacidade
de entrar no caminho do desenvolvimento, normalmente preparado para os precoces irmãos e irmãs Hinduístas no
Oeste, ou em outras palavras, quando ela está quase pronta para a Iniciação e poderia ser beneficiada por exercícios
espirituais, então, o caso se torna bem diferente.
Durante todo um período incomensuravelmente longo que nós percorremos na evolução, desde quando
estávamos em corpos indianos, os tons vibratórios dos nossos átomos vêm acelerando enormemente e, como foi
explicado no caso da pessoa que está, realmente, quase pronta para a Iniciação, o tom de vibração está mais elevado
do que o da média dos outros seres humanos. Portanto, a pessoa não precisa dos exercícios respiratórios para
acelerar esse grau, mas de certos exercícios espirituais, individualmente adequados, que a fará avançar no caminho
certo. Se nesse período crítico, ela encontra alguém que, ignorante e inescrupulosamente, lhe fornece exercícios
respiratórios, e se ela segue as instruções fidedignamente na esperança de obter resultados mais rápidos, ela os
obterá rapidamente, mas não da forma que esperava, pois a taxa vibratória dos átomos em seu corpo se tornará, em
muito pouco tempo, acelerado a um tom que se assemelhará como se ela estivesse caminhando no ar; então,
também, poderá ocorrer uma divisão imprópria no Corpo Vital, e um desgaste físico ou uma doença mental grave se
seguirá. Agora, por favor, grave bem em sua consciência e com letras de fogo, o seguinte: a Iniciação é um processo
espiritual, e o progresso espiritual não pode ser concluído por meios físicos, mas somente por exercícios espirituais.
Existem muitas ordens no ocidente que alegam iniciar qualquer pessoa, desde que pague por isso. Algumas
dessas ordens têm nomes muito parecidos com o nosso e muitos Estudantes Rosacruzes, constantemente, nos
perguntam se estão afiliadas a nós. A fim de resolver essa questão de uma vez por todas, por favor, percebam que a
Fraternidade Rosacruz tem ensinado constantemente que nenhum dom espiritual pode ser negociado por dinheiro.
Se você pensar nisso especialmente como um alerta, você poderá deduzir que nós não temos conexão com qualquer
ordem que solicite dinheiro para a transferência de nenhum tipo de poder espiritual. Aquele que tem algo a oferecer
de natureza verdadeiramente espiritual, não o permutará por dinheiro. Recebi uma injunção particular a esse respeito
dos Irmãos Maiores no Templo Rosacruz, quando me disseram para ser o mensageiro deles no mundo de língua
inglesa, uma declaração que não tenho a expectativa que você acredite, salvo se você vir que ela é justificada pelos
seus frutos.
Agora, então, voltemos à Iniciação. O que é? É uma cerimônia da forma como é afirmada por certas ordens?
Se assim for, qualquer ordem poderá, certamente, inventar cerimônias de um tipo mais ou menos elaborado. Podem,
por meio de vestes esvoaçantes e cruzamento de espadas, apelar para as emoções; podem apelar para o senso de
deslumbramento e de emoção que combina de forma variada o temor, a veneração e a admiração – inspirada pela
autoridade – chacoalhando correntes e ressoando fortemente gongos e, assim produzir em seus membros uma
“sensação oculta”. Muitos se deleitam com as aventuras e experiências do herói do “O Irmão do Terceiro Grau” 162,
pensando que isso é, de fato, Iniciação, mas eu asseguro que isso está muito longe de ser Iniciação. Nenhuma
cerimônia pode fornecer a alguém a experiência interna que constitui a Iniciação, não importa quanto foi pago ou
quão impactante foi a declaração solene da verdade ou inviolabilidade das palavras de alguém, quão terrível ou linda
foi a cerimônia, ou quão deslumbrantes são as vestimentas, o fato é que não é passando por uma cerimônia que se
pode converter um pecador em um santo, pois a conversão é, para o religioso exotérico, exatamente o que a Iniciação
é para o misticismo mais elevado.
Por favor, considere esse ponto com muito cuidado e terá a chave do problema.
Você acha que alguém poderia se aproximar de uma pessoa de caráter depravado, concordar em convertê-la
em troca de uma certa soma de dinheiro e cumprir com a parte dele no acordo? Certamente, você sabe que nenhuma
quantia de dinheiro poderia realizar essa transformação no caráter de um ser humano. Pergunte a um verdadeiro
convertido onde e como obteve a sua religiosidade. Um poderá lhe dizer que a recebeu na estrada, enquanto
caminhava; outro lhe dirá que a luz e a sua transformação o alcançaram na solidão do seu quarto; outro, ainda, que a
luz incidiu sobre ele, como aconteceu a S. Paulo na estrada de Damasco, convertendo-o. Cada um tem uma
experiência diferente, mas, em cada caso, é uma experiência interna e a manifestação externa dessa experiência
interna é que transforma toda a vida do ser humano, desde o menor até os maiores de todos os seus aspectos.
Assim, tudo isso acontece, também, com a Iniciação; ela é uma experiência interna, totalmente separada e à
parte de qualquer cerimonial e, portanto, é uma impossibilidade absoluta que alguém possa vendê-la para qualquer
outra pessoa. A Iniciação transforma por completo a vida de um ser humano. Fornece a ele uma confiança que jamais
possuiu. Envolve-o com um manto de autoridade que nunca lhe será retirado. Não importam as circunstâncias que se
apresentem na vida, ela difunde uma luz sobre todo seu ser que é simplesmente maravilhosa. Nenhuma cerimônia
pode efetuar tal transformação. Portanto, nós repetimos que aquele que oferece a Iniciação em uma ordem ocultista
por meio de cerimoniais que envolve, de qualquer forma, um preço financeiro, se qualifica de imediato como um
impostor. Se um Aspirante se aproximar de um verdadeiro Mestre e oferecer a ele uma quantia financeira – seja de
que forma – para obter os conhecimentos espirituais, o verdadeiro Mestre responderá, indignamente, usando as
mesmas palavras proferidas por S. Pedro a Simão, o feiticeiro, que lhe ofereceu dinheiro para obter poderes
espirituais: “Tua prata perecerá contigo”163.
162
N.T.: do inglês “The Brother of the Third Degree”, livro publicado pela primeira vez em 1894, de autoria de Will L.
Garver.
163
N.T.: At 8:20
Parte II

Para obter uma melhor compreensão do que constitui a Iniciação e quais são os seus pré-requisitos, primeiro
de tudo, o Estudante deve fixar firmemente em sua Mente que uma grande parte da Humanidade, como um todo,
está progredindo lentamente no Caminho de Evolução e, assim, muito lentamente, quase imperceptivelmente, está
alcançando estados de consciência cada vez mais elevados. O Caminho de Evolução é uma espiral quando o
observamos unicamente sob o ponto de vista físico, mas é uma lemniscata quando visto tanto em seu lado físico como
no espiritual (Veja o Diagrama do caduceu químico no Conceito Rosacruz do Cosmos). Na lemniscata, ou forma de
“oito”, há dois círculos que convergem para um ponto central e esses círculos podem ser considerados símbolos do
Espírito imortal, do Ego em evolução. Um dos círculos significa sua vida no Mundo Físico, do nascimento à morte.
Durante esse intervalo de tempo, ele planta uma semente em cada ato praticado e, em troca, deve colher uma
correspondente quantidade de experiência. No entanto, do mesmo modo que podemos semear e nada colher, porque
a semente caiu em um solo pedregoso, entre espinhos, etc., também a semente da oportunidade pode ser
desperdiçada devido à negligência em cultivar o solo. A vida, então, será infrutífera. Por outro lado, assim como o
interesse ou cuidado aplicado no cultivo aumentam, imensamente, o poder produtivo da semente, assim também a
séria dedicação aos vários afazeres da vida – o aproveitamento das oportunidades para aprender as lições da vida e
extrair delas a experiência que contêm – resulta em mais oportunidades; e ao fim de um dia de existência, o Ego se
encontra à porta da morte repleto com os mais ricos frutos colhidos durante a vida.
Ao terminar o trabalho objetivo da existência física, com o consequente findar dos dias dedicados às ações, o
Ego entra no trabalho subjetivo da assimilação, realizado durante sua permanência nos Mundos invisíveis,
compreendendo o período desde a morte até ao nascimento, simbolizado pelo outro anel da lemniscata. Como o
método da realização dessa assimilação já foi minuciosamente descrito em várias partes da nossa literatura, não é
necessário repeti-lo aqui. É suficiente dizer que no momento em que um Ego chega ao ponto central na lemniscata, o
qual divide o Mundo Físico dos Mundos psíquicos, e que chamamos a porta do nascimento ou da morte, dependendo
se o Ego está entrando ou saindo da vida aqui, ele tem consigo um conjunto de faculdades ou talentos adquiridos em
todas as suas vidas anteriores, e que poderá usá-los ou não durante sua próxima existência; assim, seu crescimento
anímico dependerá do uso que fizer dessas suas faculdades ou desses seus talentos.
Se por muitas vidas ele alimentou, principalmente, a natureza inferior, vivendo para comer, beber e se
divertir, ou se sonhou e passou a vida em especulações metafísicas sobre a natureza de Deus, diligentemente se
abstendo de todas as ações necessárias, gradualmente será deixado para traz pelos mais ativos e progressistas.
Agrupamentos desses que passam o tempo ociosamente formam o que chamamos de “raças atrasadas”, enquanto os
ativos, os atentos e os completamente despertos, que aproveitam a maior quantidade possível das oportunidades,
são os pioneiros. Contrariamente à ideia comumente aceita, isso se aplica também àqueles engajados em trabalhos
sistemáticos especialmente para algum propósito útil ou a criação de algo de valor (por exemplo, em qualquer tipo de
empresa, na prestação de serviços, na agricultura, etc.). O fato de ganhar dinheiro é somente uma circunstância, um
incentivo. Além desse aspecto, o trabalho deles é tão ou mais espiritual que o daqueles que passam seu tempo
orando em prejuízo de um trabalho útil.
Do que foi dito, torna-se claro que o método de crescimento da alma, alcançado pelo processo da evolução,
requer ação na vida física, seguido de um processo de reflexão no estado “post mortem”, o qual se efetiva por um
repassar repetidamente e muitas vezes casualmente ou lentamente, durante o qual as lições da vida são extraídas e
completamente incorporadas à consciência do Ego, embora as experiências, em si mesmas, sejam esquecidas – do
mesmo modo que esquecemos o nosso esforço quando aprendemos a tabuada, embora a faculdade de utilizá-la
permaneça conosco.
Esse processo extremamente vagaroso e tedioso está perfeitamente de acordo com as necessidades da
imensa maioria das pessoas; porém, há alguns que consomem inteira e normalmente as experiências fornecidas,
exigindo, então, e merecendo um campo maior para utilizar suas energias. A diferença de temperamento é a
responsável pela divisão desses grupos em duas classes.
Uma classe, guiada por sua devoção a Cristo, simplesmente segue os ditames do coração nos trabalhos deles
de amor por seus semelhantes – índoles maravilhosas, tornam-se luzes de amor num mundo sofredor; nunca são
movidas por motivos egoístas, mas estão sempre prontas a abdicar de seu conforto pessoal para ajudar os outros.
Assim foram os santos; eles tanto trabalharam como rezaram; nunca se esquivando do dever e da oração. Não estão
mortos hoje. A Terra seria um deserto estéril, apesar de toda a sua civilização, se eles não tivessem circulado pelo
mundo com mensagens de perdão, iluminando a vida dos sofredores com a luz da esperança que irradia de seus
semblantes amorosos. Se eles tivessem apenas o conhecimento possuído pela outra classe, certamente, não teriam
ajudado tanto, incentivando e acompanhando juntos, os que buscam o caminho para o Reino.
A Mente é a característica predominante da outra classe. Com o objetivo de ajudar essa classe em seus
esforços para obter o conhecimento, as Escolas de Mistérios foram inicialmente estabelecidas onde o drama do
mundo estava sendo representado para fornecer à alma aspirante, enquanto estava admirada e repleta de interesse e
atenção, respostas às perguntas sobre a origem e o destino da Humanidade. Uma vez ciente disso, era instruída na
ciência sagrada de como ascender mais seguindo o método da natureza – que é Deus em manifestação – plantando a
semente da ação, meditando sobre a experiência e incorporando a moral essencial para obter, finalmente, um
crescimento anímico correspondente; também, por meio desse importante método, considerando o curso normal das
coisas, se uma vida inteira for dedicada à semeadura e uma existência inteira “post mortem” dedicada ao processo de
repassar repetidamente e muitas vezes casualmente ou lentamente e à incorporação da substância anímica, então
esse ciclo de mais ou menos mil anos pode ser reduzido a um dia 164, como assegura a máxima mística: “Um dia é como
mil anos e mil anos como um dia” 165. Para ser mais explícito, seja qual for o trabalho executado em um único dia, se
repassado repetidamente e muitas vezes casualmente ou lentamente à noite, antes de cruzarmos o ponto neutro
entre o estado de vigília e o sono, pode ser incorporado à consciência do Espírito como um valioso poder anímico.
Quando esse exercício é executado fielmente, os pecados de cada dia, assim revistos, são realmente eliminados e a
pessoa começa cada dia como se fosse uma nova vida, com um poder anímico adicional, obtido em todos os dias
precedentes de sua vida de Probacionista166.
Mas! – sim, há um grande “MAS”; a natureza não deve ser enganada; Deus não pode ser zombado. “O que o
homem semear, isso colherá”167. Não devemos pensar que uma revisão superficial dos acontecimentos de um dia
com, talvez, admitindo despreocupadamente ou sem seriedade: “gostaria de não ter feito isso”, ao rever uma cena
em que tenhamos feito algo obviamente e perceptivelmente errado, nos salvará da punição retributiva futura.
Quando, ao morrer, abandonamos o Corpo Denso e entramos no Purgatório e o panorama da nossa vida passada se
desenrola em ordem inversa para nos mostrar, primeiro, os efeitos e depois as causas das nossas ações, sentimos em
uma proporção intensificada a dor que causamos aos outros; e a menos que efetuemos nossos exercícios de um modo
único em que vivamos todas as noites nosso inferno, sentindo aguda e criticamente toda a dor extrema – seja física ou
psíquica, seja agonia ou sofrimento – que infligimos, esses exercícios de nada valerão. Da mesma forma, devemos nos
esforçar para sentir, com a mesma intensidade, a gratidão pela bondade que recebemos dos outros e a aprovação
pelo bem que tenhamos feito aos outros.
Somente assim estaremos realmente vivendo a existência post mortem e avançando cientificamente em
direção à Iniciação. O maior perigo do Aspirante, que está trilhando esse caminho, é que ele pode ficar enredado na
armadilha do egotismo168, e sua única proteção deve advir do cultivo das faculdades da fé, devoção e compaixão para
com todos. É difícil, mas pode ser feito, e quando isto acontece, a pessoa se torna um maravilhoso poder para o bem
no mundo.
Agora, se o Estudante ponderou bem os argumentos anteriores, provavelmente compreendeu – a natureza, a
significância e o significado – da analogia entre o ciclo longo da evolução e os ciclos curtos ou degraus percorridos no
Caminho da Preparação. Deve ficar bem claro que ninguém pode fazer esse trabalho post mortem por nós e nos
transmitir crescimento anímico resultante, assim como uma pessoa não pode comer o alimento físico de outra e lhe
transmitir o sustento e o crescimento. Você acha contrário à natureza, à razão ou ao senso comum quando um
sacerdote (seja de qualquer Religião) oferece encurtar a permanência de uma alma no purgatório. Como, então,
podemos acreditar que alguém possa – não importa quais as considerações feitas – antecipar e prevenir ou até
considerar algumas existências purgatoriais desnecessárias para o nosso próprio benefício e transmitir a você, de uma
vez só, o poder anímico que você mesmo deveria ter adquirido prosseguindo o curso normal da vida, até o dia que
estivesse pronto para a Iniciação? Portanto, é isso que é: contrário à natureza, à razão ou ao senso comum a oferta
para iniciar uma pessoa que ainda não está pronta para a Iniciação. Você deve ter o poder anímico necessário para a
Iniciação, caso contrário, ninguém poderá lhe iniciar. Se você tiver esse poder, estará pronto graças aos seus próprios
esforços, sem dever nada a ninguém, e pode solicitar a Iniciação como um direito que ninguém ousaria refutar ou
deter. Se você não a possuísse e pudesse comprá-la, seria muito barato mesmo por vinte e cinco milhões de dólares, e
a pessoa que a oferece por vinte e cinco dólares é tão ridícula como aquela que foi lograda. Por favor, lembre-se que
se alguém se oferece para lhe iniciar em uma ordem ocultista, não importa se tem o nome de “Rosacruz” ou qualquer
outro, exigindo pagamento (direta ou indiretamente) por uma taxa de Iniciação, imediatamente, o considere e o
classifique como um impostor. Explicações de que a taxa será usada para comprar insígnias, etc., são outras evidências
164
N.T.: tempo médio entre dois renascimentos de um Ego da Onda de Vida humana.
165
N.T.: II Pe 3:8
166
N.T.: Esse exercício é chamado de Exercício Esotérico noturno da Retrospecção
167
N.T.: Gl 6:7
168
N.T.: Diferente do egoísta, pessoa que manifesta o egotismo, ou seja, o egocentrismo se caracteriza pela simples
aplicação prática do egoísmo. Priorizando o seu ego, o egocêntrico simplesmente prioriza a sua razão sobre a razão de
terceiros, ignorando o Ego dos outros. Já o egoísta, o que pratica o egoísmo, se coloca no centro do seu universo.
da natureza fraudulenta da ordem. Por tudo isso é dito que “a Iniciação, enfaticamente, não é uma cerimônia externa,
mas uma experiência interna”. Posso acrescentar ainda que os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz no Templo Místico,
onde eu recebi a Luz, deixou clara uma condição de que a ciência sagrada deles nunca deve ser negociada por
dinheiro. Gratuitamente a recebi e gratuitamente fui exigido a dar. Tenho obedecido a esse preceito, tanto em
Espírito como em tudo o que escrevo, como é do conhecimento de todos que se relacionam com a Fraternidade
Rosacruz
Capítulo II – O Sacramento Da Comunhão
Parte I

Para obter um conhecimento detalhado e completo em todos os aspectos da profunda e abrangente


significância do modo como o Sacramento da Comunhão foi instituído, é necessário considerar a evolução do nosso
Planeta e a composição do ser humano, assim como a química dos alimentos e a sua influência sobre a Humanidade. A
fim de elucidar melhor, nós recapitularemos sucintamente os Ensinamentos Rosacruzes e nos vários pontos
envolvidos aqui. Isso foi fornecido amplamente no livro “Conceito Rosacruz do Cosmos” e em outros trabalhos nossos.
Os Espíritos Virginais, que hoje são a Humanidade, começaram sua peregrinação através da matéria na aurora
dos tempos e, pelo atrito da existência concreta, seus poderes latentes puderam ser transmutados em energia
cinética como um poder anímico utilizável. Três véus sucessivos de matéria, cada vez mais densa, foram adquiridos
pelos
Espíritos em evolução durante os Períodos de Saturno, Solar e Lunar. Assim, cada Espírito foi separado de
todos os outros e a consciência, que não podia penetrar as paredes da prisão da matéria e se comunicar com os
outros, foi forçada a se interiorizar e, ao fazê-lo, se descobriu A SI MESMA. Assim foi obtida a consciência de si mesmo.
Uma cristalização ulterior dos véus acima mencionados ocorreu no Período Terrestre durante as Épocas Polar,
Hiperbórea e Lemúrica. Na Época Atlante, a Mente foi acrescentada como um ponto focal entre o Espírito e o corpo,
completando a constituição do ser humano que ficou, então, equipado para conquistar o mundo e gerar força anímica
pelo seu esforço e experiência, tendo individualmente vontade própria e livre-arbítrio, exceto quando limitado pelas
Leis da Natureza e por suas próprias ações anteriores.
À medida que o ser humano em formação evoluía, grandes Hierarquias Criadoras guiavam os seus passos.
Nada era deixado ao acaso. Até o alimento era escolhido, para que obtivesse daí o material necessário para construir
os vários veículos de consciência necessários para realizar o processo do crescimento anímico. A Bíblia menciona essas
várias etapas, embora coloque Nimrod em lugar errado ao fazê-lo simbolizar os reis da Atlântida que viveram antes do
Dilúvio.
Na Época Polar, a matéria mineral pura tornou-se uma parte constituinte do ser humano. Assim, Adão foi feito
de terra, isto é, quanto ao seu Corpo Denso.
Na Época Hiperbórea, o Corpo Vital foi acrescentado e assim sua constituição tornou-se semelhante à de uma
planta, e Caim, o ser humano dessa época, viveu dos frutos do solo.
A Época Lemúrica presenciou a evolução de um Corpo de Desejos que fez o ser humano semelhante aos
animais atuais. O leite, produto dos animais vivos, foi acrescentado à dieta humana. Abel era um pastor, mas em
nenhum lugar consta que tenha matado um animal.
Naquele tempo, a Humanidade vivia inocente e pacificamente na atmosfera nebulosa que envolvia a Terra
durante a última parte da Época Lemúrica, como está descrito no capítulo sobre o “Batismo”. Os homens eram como
crianças sob os cuidados de um pai comum, até que receberam a Mente no início da Época Atlante. A atividade do
pensamento desgasta o tecido que precisa ser reposto. Quanto mais baixo e mais materialista for o pensamento,
maior será a destruição e mais premente a necessidade de albumina por meio da qual se efetuam reparos rápidos. Daí
a necessidade, a mãe da invenção, de iniciar a repugnante prática de comer carne e, enquanto continuarmos com
pensamentos voltados só para os negócios e puramente materialistas, temos que prosseguir usando nosso estômago
como receptáculo de nossas vítimas: os corpos em decomposição dos animais assassinados. Contudo, como veremos
mais adiante, a alimentação carnívora possibilitou-nos alcançar o maravilhoso progresso material no Mundo
Ocidental, enquanto os vegetarianos hinduístas e chineses permaneceram num estado quase primitivo. É triste saber
que eles serão forçados a seguir nossos passos e verter o sangue desses animais quando nós já tivermos acabado com
esta prática bárbara, da mesma forma que acabamos com o canibalismo.
Quanto mais crescermos espiritualmente, mais nossos pensamentos se harmonizarão com o ritmo de nosso
corpo, e menos albumina será necessária para reconstituir os tecidos. Consequentemente, uma dieta vegetariana
preencherá nossas necessidades. Pitágoras pregou abstinência de leguminosas aos alunos mais avançados por achar
que eram ricos em albumina e reavivariam os apetites inferiores. Não vá o Estudante concluir, apressadamente, que
deve eliminar as leguminosas de sua dieta. Muitos não estão ainda preparados para tais extremos, e nem mesmo
aconselharíamos todos os Estudantes a absterem-se totalmente da carne. A mudança deve vir de dentro. No entanto,
verificamos que a maioria das pessoas come carne demais pensando que lhe faz bem. Mas isto é uma digressão,
portanto, voltemos à evolução ulterior da Humanidade no que se relaciona ao Sacramento da Comunhão.
Quando a neblina densa que envolvia a Terra esfriou, condensou-se e inundou as diversas bacias, a atmosfera
clareou e, em consequência dessa mudança atmosférica, houve uma adaptação fisiológica no ser humano. As fissuras
em forma de brânquias, que haviam permitido que ele respirasse no ar denso carregado de água (que são vistas no
feto humano até hoje), gradualmente se atrofiaram e sua função foi exercida pelos pulmões, com o ar puro entrando
e saindo deles através da laringe. Isso permitiu que o Espírito, confinado pelo véu da carne, pudesse expressar-se em
palavras e ações.
Foi nos meados da Época Atlante, que o Sol brilhou pela primeira vez sobre o ser humano, como o
conhecemos hoje. Foi quando ele nasceu pela primeira vez no mundo. Até então, havia estado sob o controle
absoluto das grandes Hierarquias espirituais, mudo, sem voz ou escolha no que se referia à sua educação, do mesmo
modo que uma criança está agora sob o controle de seus pais.
Porém, no dia em que finalmente emergiu da atmosfera densa da Atlântida, quando contemplou pela
primeira vez e claramente a silhueta das montanhas e os contornos nítidos da abóbada azul-celeste; quando se
deparou com a beleza das charnecas, das campinas, das criaturas que se moviam, dos pássaros no ar, e viu seu
semelhante, o ser humano; quando sua visão se tornou clara por não mais existir aquela obscuridade parcial da
nebulosa que antes embaraçava a percepção e, acima de tudo, quando tomou conhecimento de si mesmo como ser
separado e à parte de todos os outros, brotou de seus lábios o grito glorioso e triunfante, “EU SOU”.
Agora, o ser humano já possuía faculdades que o possibilitavam entrar na escola da experiência, o mundo
fenomenal, como um agente livre para aprender as lições da vida, sem impedimentos, exceto pelas Leis da Natureza e
pela reação de suas próprias ações anteriores, que se converteram em destino.
A dieta contendo um excesso de albumina, proveniente da carne, com a qual o ser humano se fartava,
sobrecarregava seu fígado além de sua capacidade e obstruía o organismo, tornando-o moroso, obstinado e brutal.
Assim, ele foi perdendo a visão espiritual que lhe revelava os Anjos guardiães nos quais confiava, e viu somente as
formas dos animais e dos outros seres humanos. O contato direto com os Espíritos – que anima as formas humanas –,
com os quais ele viveu em amor e fraternidade durante o início da Época Atlante, foram obscurecidos pelo véu da
carne. Tudo era muito estranho e ele os temia.
Portanto, tornou-se necessário dar ao ser humano um novo alimento que pudesse ajuda-lo a dominar as
moléculas de carne altamente individualizadas (como é explicado no “Conceito Rosacruz do Cosmos”; no capítulo
sobre “A Lei da Assimilação”), apoiá-lo na batalha do mundo e estimulá-lo em sua autoafirmação.
Assim como nossos corpos visíveis169, formados de componentes químicos, desenvolvem-se somente com
alimentos químicos, assim também é necessário que o Espírito atue sobre as partículas individualizadas da carne
animal, para ajudar a dissolver a pesada substância proteica e estimular o decaído veículo Espírito Humano.
O emergir da Atlântida inundada, a liberação da Humanidade do governo absoluto dos visíveis guardiães
sobre-humanos, sua colocação sob a Lei de Consequência e as Leis da Natureza, e a dádiva do “VINHO” são fatos
descritos nas narrativas de Noé e Moisés, embora em relatos diferentes de um mesmo acontecimento.
Tanto Noé quanto Moisés conduziram seus prosélitos através da água. Moisés clama aos céus e à terra para
que testemunhem que colocou diante deles a bênção e a maldição, exorta-os a escolher o bem ou arcar com as
consequências de seus atos. Em seguida, deixa-os.
O fenômeno do arco-íris necessita que o Sol esteja perto do horizonte, quanto mais perto melhor, e requer
uma atmosfera límpida e uma nuvem escura na parte oposta do céu. Sob tais condições, um observador que
permanecer de costas para o Sol, poderá ver os raios deste astro refletidos através das gotas da chuva como um arco-
íris. No início da Época Atlante, quando ainda não havia chuva e a atmosfera era uma névoa úmida e quente, através
da qual o Sol parecia uma de nossas lâmpadas num dia de neblina, o fenômeno do arco-íris era uma impossibilidade.
Só teve condições de aparecer quando a névoa se condensou em chuva, inundou as bacias da Terra e deixou a
atmosfera clara como descrita na história de Noé, que assim aponta os ciclos da Lei de Alternância que trazem o dia e
a noite, o verão e o inverno, em sequência invariável, à qual o ser humano está sujeito na época atual.
Noé cultivou a vinha e forneceu uma bebida alcoólica para estimular o ser humano. Dessa forma, equipado
com uma constituição heterogênea, com uma dieta apropriada à ocasião e leis divinas para guiá-lo, o ser humano
tornou-se responsável por suas próprias iniciativas na batalha da vida.

169
N.T.: nossos Corpos Densos.
Parte II

“... na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: “Isto é
o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim”.
Do mesmo modo, após a ceia, também tomou o cálice, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança em meu sangue;
todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória de mim”.
Todas as vezes, pois, que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele
venha. Eis porque todo aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do
sangue do Senhor. Por conseguinte, que cada um examine a si mesmo antes de comer desse pão e beber desse cálice,
pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação. Eis porque há entre vós
tantos débeis e enfermos e muitos morreram.” (I Cor 11:23-30).
Nos trechos acima há um significado esotérico profundamente oculto que é particularmente obscuro na
tradução inglesa, mas em alemão, latim e grego o Estudante Rosacruz ainda tem um indício do que realmente foi
pretendido com essa última admoestação do Salvador a Seus Discípulos. Antes de examinar esse aspecto do assunto,
vamos considerar primeiro as palavras: “em memória de Mim”. Estaremos, então, talvez em melhores condições para
compreender o que significa o “cálice” e o “pão”.
Suponhamos que uma pessoa procedente de um lugar distante venha ao nosso país e viaje através dele,
visitando vários lugares. Por toda parte verá pequenas comunidades se reunindo ao redor da Mesa do Senhor para
celebrar esse rito mais sagrado para todos os Cristãos, e se perguntasse a razão de fazerem isso, as pessoas lhe
responderiam que elas faziam isso em memória d'Aquele que viveu uma vida mais nobre do que qualquer um que já
viveu nesta Terra; d’Aquele que foi a bondade e o amor personificados; d’Aquele que foi o servo de todos sem se
preocupar em ganhar ou perder. Se esse estranho comparasse a atitude dessas comunidades religiosas aos domingos
na celebração desse rito com as vidas deles durante o restante da semana, o que veria?
Cada um de nós sai para o mundo para batalhar pela existência. Sob a lei da necessidade, esquecemos o amor
que deveria ser o fator principal nas vidas Cristãs. A mão de uma pessoa está sempre contra seu irmão ou sua irmã.
Todos lutam por posição, riqueza e pelo poder que advém com esses atributos. Esquecemos na segunda-feira o que,
reverentemente, relembramos no domingo e, em consequência, todo o mundo é digno de pena por isso. Fazemos,
também, uma distinção entre “o pão e o vinho” que bebemos na chamada “Mesa do Senhor” e o alimento que
comemos ou bebemos durante os intervalos entre o comparecimento à Comunhão. Porém, nada é mencionado nas
Escrituras que justifique tal distinção, como qualquer um pode verificar mesmo na versão inglesa, que omite as
palavras impressas em itálico inseridas pelos tradutores para dar o que pensavam ser o sentido da passagem. Pelo
contrário, é nos dito que tudo o que comermos, bebermos ou qualquer coisa que fizermos, deveria ser feito para a
glória de Deus. Todos os nossos atos deveriam ser uma oração. A “ação de graças” superficial que fazemos às
refeições é, na realidade, uma blasfêmia e o pensamento silencioso de gratidão Àquele que nos dá o pão de cada dia
está longe de ser o suficiente. Quando lembramos, à cada refeição, que o alimento retirado da substância da Terra é o
corpo do Espírito de Cristo que ali habita, que aquele corpo está sendo repartido para nós diariamente, podemos
compreender apropriadamente a bondade amorosa que O impele a Se dar por nós; por isso vamos, também,
relembrar que não há um momento, dia ou noite, que Ele não esteja sofrendo por estar aprisionado a esta Terra.
Portanto, quando comemos e percebemos a verdadeira situação, de fato estamos proclamando a morte do Senhor
Cristo, cujo Espírito está gemendo e labutando, esperando pelo dia da libertação, quando não haverá necessidade de
uma envoltura tão densa como a que necessitamos agora.
Mas há um outro mistério, maior e mais maravilhoso ainda, oculto nessas palavras de Cristo. Richard Wagner,
com a rara intuição do gênio do músico, percebeu essa ideia quando, sentado em meditação à beira do Lago de
Zurique numa Sexta-Feira Santa, sentiu brotar em sua Mente um pensamento: “Que conexão há entre a morte do
Salvador e os milhões de sementes que germinam na terra nessa época do ano?”. Se meditarmos sobre aquela vida
que anualmente brota na primavera, vemo-la como algo gigantesco e inspirador; uma intensidade enorme de vida
que transforma o globo, de um momento próximo à morte congelante a uma vida rejuvenescida, em um curto espaço
de tempo; e a vida que assim se propaga nos brotos de milhões e milhões de plantas é a vida do Espírito da Terra.
Dela vem tanto o trigo como a uva. Esses representam o corpo e o sangue do aprisionado Espírito da Terra,
incumbido de sustentar a Humanidade durante a presente fase da evolução dela. Nós repudiamos a argumentação
daqueles que alegam que o mundo tem a obrigação de lhes dar uma vida boa, sem que eles se esforcem e onde não
tenham nenhuma responsabilidade material da parte deles; no entanto, nós insistimos que há uma responsabilidade
espiritual conectada com “o pão e o vinho” servidos na Última Ceia do Senhor: devem ser ingeridos dignamente, caso
contrário, causarão problemas de saúde e até mesmo a morte. Superficialmente lido, poderá parecer um conceito
forçado, porém, quando meditamos à luz do esoterismo, examinando outras traduções da Bíblia e observando as
condições atuais do mundo, veremos que não é assim tão forçado.
Retornemos ao momento na Evolução em que o ser humano vivia sob a guarda dos Anjos, construindo,
inconscientemente, o Corpo que agora ele usa. Isso foi na antiga Época Lemúrica. Era necessário um cérebro para
evolução do pensamento e uma laringe para expressão verbal desse mesmo pensamento. Portanto, metade da força
criadora foi dirigida para cima e usada pelo ser humano para formar esses órgãos. Por isso, a Humanidade se tornou
separada em sexos masculino e feminino, e foi forçada a procurar um complemento quando foi necessário criar um
outro novo Corpo Denso e um Corpo Vital para servir como um instrumento numa fase mais elevada da evolução.
Enquanto o ato do amor era consumado sob a sábia custódia dos Anjos, a existência do ser humano estava
livre de angústias e tristezas profundas, e de dores e da morte. Mas quando, sob a tutela dos Espíritos Lucíferos, ele
comeu da árvore do Conhecimento e perpetuou a raça, sem levar em conta as linhas de forças interplanetárias,
transgrediu a lei e os Corpos assim formados se cristalizaram excessivamente e se tornaram sujeitos à morte, de uma
maneira muito mais perceptível do que haviam estado até então. Por isso, foi forçado a criar Corpos novos mais
frequentemente, à medida que seu período de vida aqui se encurtava. Os guardiães celestiais da força criadora
expulsaram o ser humano do jardim de amor para o deserto do mundo, e ele se tornou responsável por suas ações
sob a lei cósmica que governa o universo. Desde então, por um longo tempo, o ser humano continua essa luta difícil e
esgotante para conseguir sua própria salvação, e a Terra, em consequência disso, se cristalizou cada vez mais.
Hierarquias divinas, incluindo o Espírito de Cristo, trabalharam sobre a Terra externamente, assim como o
Espírito-Grupo guia os animais sob sua proteção; mas, como diz São Paulo tão corretamente: “Ninguém pode ser
justificado sob a lei, pois sob ela todos pecaram e todos devem morrer” 170. Não há no antigo pacto nenhuma esperança
além da presente, salvo um presságio de alguém que há de vir e que restaurará o agir de acordo com a Lei Divina, livre
de culpa ou pecado. Por isso, São João proclama que a lei foi dada por Moisés e a graça veio por meio de Cristo 171.
Mas, o que é a graça? Ela pode trabalhar contra a lei e revogá-la completamente? Certamente não. As Leis de Deus
são imutáveis e firmes, ou o universo se tornaria um caos. A lei de gravidade mantém nossas casas em posição relativa
às outras casas e por isso, quando saímos delas sabemos, com certeza, que as encontraremos no mesmo lugar ao
retornarmos. Pelo mesmo princípio, todas as outras divisões no universo estão sujeitas a leis imutáveis.
Assim como a lei, separada do amor, originou o pecado, assim também a lei temperada com amor é a graça.
Tomemos um exemplo de nossas condições sociais concretas: temos leis que decretam uma certa penalidade para
uma ofensa específica e, quando a lei é observada, chamamos isso de justiça. Porém, a longa experiência está
começando a nos ensinar que justiça, pura e simples, é como os dentes do dragão Colchian 172 que gera disputas e lutas
cada vez maiores. O chamado criminoso permanece criminoso e se torna cada vez mais embrutecido pelas
penalidades da lei; mas, quando um regime menos rigoroso, nos tempos atuais, permite que a sentença imputada
àquele que transgrediu a lei seja suspensa, então ele estará sob a graça e não sob a lei. Também, o Cristão que
procura seguir os passos do Mestre é emancipado da lei do pecado pela graça, desde que abandone o caminho do
pecado.
Esse foi o pecado dos nossos progenitores na antiga Época Lemúrica que eles espalharam suas sementes
independentemente da lei e sem o amor. Mas é o privilégio do Cristão se redimir pela pureza da sua vida, em
memória do Senhor. São João diz: “Sua semente permanece nele” 173 e esse é o significado oculto do “pão e vinho”. Na
versão inglesa lemos simplesmente: “Esse é a taça do Novo Testamento”, mas no alemão, a palavra que designa cálice
é “Kelch” e em latim é “Cálix” 174, ambas significando a parte externa que envolve a semente da flor. Em grego temos
um significado mais sutil ainda, não expresso em outras línguas, na palavra “poterion”, um significado que se torna
evidente quando consideramos a etimologia da palavra “pot”. Isso nos fornece, imediatamente, a mesma ideia de
cálice ou “cálix” – um receptáculo; e verbo latino “potare” (beber) também mostra que a “taça” é um receptáculo
capaz de reter um líquido. As palavras inglesas “potente” e “impotente”, designando possuir ou ter falta da força viril,
mostra o significado dessa palavra grega que indica a evolução do “homem para um super-homem”.

170
N.T.: Rm (2:12)
171
N.T.: Jo 1:17
172
N.T.: No mito grego, os dentes do dragão aparecem com destaque nas lendas do príncipe fenício Cadmo e na busca de Jasão
pelo Velocino de Ouro. Em cada caso, os dragões estão presentes e cospem fogo. Seus dentes, uma vez plantados, se
transformariam em guerreiros totalmente armados. Cadmo, o portador da alfabetização e da civilização, matou o dragão
sagrado que guardava a fonte de Ares. A deusa Atena disse-lhe para semear os dentes, de onde surgiu um grupo de guerreiros
ferozes chamados spartoi (um povo mítico que surgiu dos dentes do dragão semeados por Cadmo e foram considerados os
ancestrais da nobreza tebana.). Ele jogou uma joia preciosa no meio dos guerreiros, que se viraram na tentativa de se apoderar
da pedra. Os cinco sobreviventes juntaram-se a Cadmo para fundar a cidade de Tebas. Da mesma forma, Jason foi desafiado
pelo Rei Aeëtes da Cólquida a semear dentes de dragão (daí dragão de Colchian) em Atenas para obter o Velocino de Ouro.
Medea, filha de Aeëtes, aconselhou Jason a jogar uma pedra entre os guerreiros que surgiram da terra. Os guerreiros
começaram a lutar e matar uns aos outros, não deixando nenhum sobrevivente além de Jason. As lendas clássicas de Cadmo e
Jasão deram origem à frase "semear dentes de dragão". Isso é usado como uma metáfora para se referir a fazer algo que tem o
efeito de fomentar disputas.
173
N.T.: I Jo 3:9
174
N.T.: Na língua portuguesa temos a tradução como cálice
Já vivemos existências semelhantes ao mineral, à planta e ao animal, respectivamente, antes de nos
tornarmos humanos como o somos hoje e, diante de nós existem ainda outras evoluções até nos aproximarmos cada
vez mais do Divino. Prontamente aceitamos como verdade e válido que são nossas paixões animais que nos retêm no
caminho da realização; a natureza inferior está constantemente em luta com o “eu superior”. Isso acontece, pelo
menos, com os que já experimentaram um despertar espiritual; uma guerra está sendo travada silenciosamente no
interior e pior seria se isso fosse reprimido. Goethe 175, com arte magistral, exprimiu esse sentimento nas palavras de
Fausto, a alma aspirante, ao se dirigir a seu amigo materialista, Wagner:

“Por um só impulso tu estás possuído,


Inconsciente do outro permaneces, ainda não o tens sentido.
Duas almas, oh! moram dentro do meu peito,
E aí lutam por um indivisível reino;
Uma aspira pela terra, com vontade apaixonada
Às íntimas entranhas ainda está ligada.
Acima das névoas, a outro aspira, de certeza,
Com ardor sagrado por esferas onde reine a pureza”.

Foi o conhecimento dessa necessidade absoluta de castidade (exceto quando o objetivo é a procriação) por
parte daqueles que já haviam tido um despertar espiritual, que inspirou as palavras de Cristo e o Apóstolo Paulo
exprimiu uma verdade esotérica quando disse que aqueles que tomam a comunhão sem viver a vida, estão em perigo
de doença e morte. Assim como, sob uma tutela espiritual, a pureza de vida pode elevar o Discípulo de uma maneira
maravilhosa, assim também a falta de castidade produz um efeito muito maior sobre os Corpos mais sensibilizados do
que sobre aqueles que estão ainda sob a lei e não se tornaram participantes da graça, pelo cálice da Nova Aliança.

175
N.T.: Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) foi um polímata, autor e estadista alemão do Sacro Império Romano-
Germânico que também fez incursões pelo campo da ciência natural. Como escritor, Goethe foi uma das mais importantes
figuras da literatura alemã e do Romantismo europeu, nos finais do século XVIII e inícios do século XIX.
Capítulo III – O Sacramento do Batismo
Tendo estudado a significância esotérica das festividades Cristãs, tais como a do Natal e a da Páscoa, e tendo
também estudado a doutrina da Imaculada Concepção, agora podemos dedicar a nossa atenção ao significado interno
dos Sacramentos da igreja que são ministrados a cada pessoa em todos os países Cristãos, desde o berço até o
túmulo, e que fazem parte de todos os momentos importantes da vida de um Cristão.
Assim que ele inicia a jornada da vida, a igreja o admite em seu meio pelo rito do Batismo, que lhe é
concedido quando ele ainda não é responsável por si mesmo; mais tarde, quando sua mentalidade já está um pouco
mais desenvolvida, ele ratifica aquele pacto e é admitido na Comunhão, em que o pão é partido e o vinho é bebido em
memória do Fundador da nossa fé. Mais adiante, ele se depara com o sacramento do Matrimônio e, finalmente,
quando seu caminhar na Terra expira e o Espírito, novamente, se retira e retorna para o céu, de onde se originou, o
corpo terreno é entregue ao pó, de onde veio, acompanhado pelas bênçãos da igreja.
Em alguns movimentos Protestantes, o Espírito do protesto é desenfreado ao extremo e os discordantes
erguem suas vozes se rebelando contra a arrogância ilusória dos Católicos e desaprovam os Sacramentos,
qualificando-os como meras fantasias, ridículos e hipócritas. Em consequência dessa atitude, essas funções se
tornaram de pouco ou nenhum efeito na vida da comunidade; dissensões surgiram entre os próprios responsáveis
pelas igrejas e várias seitas se formaram e se afastaram da congregação apostólica original.
Apesar de todos os protestos, as várias doutrinas e os Sacramentos da igreja são, contudo, as próprias pedras
angulares no arco da evolução, pois inculcam moralidade da mais sublime, nobre e elevada natureza, e até mesmo
cientistas materialistas, como Husley176, admitiram que, enquanto a autoproteção promove “a sobrevivência do mais
forte” no Reino Animal e é, consequentemente, a base da evolução animal, o auto sacrifício é o princípio sustentador
do progresso humano. Quando isso é o caso entre os simples mortais, nós podemos muito bem acreditar que assim
deva ser, também, em extensão muito maior, no Autor Divino do nosso ser.
Entre os animais, a força é um direito, mas nós reconhecemos que os fracos reivindicam a proteção dos fortes.
A borboleta põe seus ovos no lado de baixo de uma folha verde e os abandona sem se importar com o bem deles. Nos
mamíferos, o instinto materno é fortemente desenvolvido e vemos a leoa cuidando dos seus filhotes e pronta para
defendê-los com sua própria vida; mas, somente quando o Reino Humano é alcançado, é que o pai começa a
desempenhar plenamente a sua responsabilidade como alguém que ampara, que sustenta, que educa e que ajuda a
criança a se desenvolver. Entre os selvagens, o cuidado com os filhos praticamente termina quando esses já são
capazes fisicamente de se cuidarem sozinhos, mas, quanto mais ascendemos em civilização, mais o jovem recebe
cuidados de seus pais e maior esforço é despendido na sua educação mental, para que, quando alcançar a
maturidade, a batalha pela vida possa ser travada com mais vantagens do ponto de vista mental do que do físico;
quanto mais avançamos no caminho da evolução, mais desenvolvemos o poder da Mente sobre a matéria. Pelo auto
sacrifício cada vez mais prolongado dos pais, a Onda de Vida humana vai se tornando cada vez mais com uma
sensibilidade aguçada e fino discernimento e o que perdemos em rudeza material, ganhamos em percepção espiritual.
À medida que essa faculdade cresce e se torna cada vez mais forte e mais desenvolvida, o desejo ardente do
Espírito, encerrado dentro desse Corpo Denso, busca mais intensamente a compreensão do lado espiritual do seu
desenvolvimento. Wallace177 e Darwin178, Huxley179 e Spencer apontaram como a evolução da forma é realizada na
natureza; Ernest Haeckel180 tentou resolver o enigma do universo, mas nenhum deles pôde explicar, satisfatoriamente,
o Autor Divino daquilo que vemos. A grande deusa, a Seleção Natural, está sendo abandonada ou deixada de lado por
um após o outro de seus defensores à medida que os anos passam. Mesmo Haeckel, o eminente materialista, em seus
últimos anos demonstrou uma ansiedade quase histérica para achar um lugar para Deus em seu sistema, e o dia virá,
em um futuro não muito longínquo, quando a ciência se tornará tão religiosa quanto a própria Religião. A igreja, por
outro lado, embora ainda extremamente conservadora, está, entretanto, pouco a pouco abandonando o seu
dogmatismo autocrático e se tornando mais científica em suas explicações. No devido tempo, veremos a união da
ciência e da Religião como existia nos antigos templos de mistérios e, quando isso acontecer, as doutrinas e
Sacramentos da igreja estarão fundamentadas em leis cósmicas imutáveis, tão importantes quanto a lei da gravidade
que mantém os Planetas em marcha nos seus trajetos ao redor do Sol. Assim como os pontos dos Equinócios e
Solstícios são marcos decisivos no caminho cíclico de um Planeta, marcados por festividades como o Natal e a Páscoa,

176
N.T.: Aldous Leonard Huxley foi um escritor inglês e um dos mais proeminentes membros da família Huxley. Mais conhecido
pelos seus romances, como Admirável Mundo Novo e diversos ensaios.
177
N.T.: Alfred Russel Wallace (1823-1913) foi um naturalista, geógrafo, antropólogo e biólogo britânico.
178
N.T.: Charles Robert Darwin (1809-1882) foi um naturalista, geólogo e biólogo britânico, célebre por seus avanços sobre
evolução nas ciências biológicas.
179
N.T.: Herbert Spencer (1820-1903) foi um filósofo, biólogo e antropólogo inglês, bem como um dos representantes do
liberalismo clássico.
180
N.T.: Ernst Heinrich Philipp August Haeckel (1834-1919) foi um biólogo, naturalista, filósofo, médico, professor e artista
alemão que ajudou a popularizar o trabalho de Charles Darwin e um dos grandes expoentes do cientificismo positivista.
assim também o nascimento no Mundo Físico, a admissão na igreja, a cerimônia do matrimônio e, finalmente, a
partida da vida física, são marcos no caminho cíclico do Espírito humano ao redor de sua fonte central – Deus – e são
caracterizados pelos Sacramentos do Batismo, da Comunhão, do Matrimônio e da Extrema Unção.
Consideraremos agora o rito do Batismo. Muito foi dito pelos dissidentes contra a prática de se levar uma
criança, no seu primeiro período de vida, para a igreja e prometer, em seu nome, uma vida religiosa. Discussões
inflamadas quanto ao aspergir da água versus o mergulhar na água resultaram em divisões de igrejas. Se quisermos
obter a noção verdadeira do Batismo, temos que retroceder aos princípios da história da Onda de Vida humana, como
está gravada na Memória da Natureza. Tudo que já aconteceu está indelevelmente gravado no Éter, do mesmo modo
que uma cena cinematográfica está impressa sobre uma película, e essa mesma cena pode ser reproduzida sobre uma
tela a qualquer momento. As imagens na Memória da Natureza podem ser vistas por um Clarividente treinado,
mesmo que milhões de anos já tenham passados desde que as cenas lá retratadas foram promulgadas na vida.
Quando consultamos aquele incontestável registro, observamos que houve um tempo em que a nossa Terra
saiu do Caos, escura e não organizada regularmente em forma ou ordem, como diz a Bíblia. As correntes
desenvolvidas pelos agentes espirituais nessa massa nebulosa geraram calor, e a massa se inflamou quando Deus
pronunciou: “Faça-se a luz”181. O calor da massa ígnea e o espaço frio que a circundava geraram um líquido difundido
ou condensado em quantidade relativamente pequena; a névoa incandescente ficou cercada por água que fervia, e o
vapor foi projetado na atmosfera; então, “Deus dividiu as águas... das águas...” 182 - a água densa que estava mais
próxima da névoa incandescente do vapor (que é água em suspensão), como está relatado na Bíblia.
Quando a água contendo sedimento é fervida repetidamente, uma crosta é formada e, similarmente, a água
que circundava nosso Planeta finalmente formou uma crosta ao redor do centro ígneo. A Bíblia nos informa, mais
adiante, que uma névoa subiu do solo, e podemos muito bem imaginar como aquele líquido difundido ou condensado
em quantidade relativamente pequena foi gradualmente se evaporando do nosso Planeta naqueles dias longínquos.
Os mitos antigos são, atualmente e em geral, tidos como superstições, mas, na realidade, cada um deles
contém uma grande verdade espiritual em símbolos pictóricos. Essas histórias fantásticas foram dadas à Humanidade
infantil para ensiná-la lições morais que seus intelectos recém-nascidos não estavam, ainda, preparados para receber.
Ela era ensinada por meio de mitos – do mesmo modo que ensinamos nossas crianças por meio de livros com
ilustrações e fábulas – lições além de sua compreensão intelectual.
Uma das mais famosas histórias desse gênero é “O Anel dos Niebelungos “ 183, que nos fala de um maravilhoso
tesouro escondido sob as águas do Reno184. Era uma massa de ouro em seu estado natural. Colocada sobre um alto
rochedo, iluminava todo o cenário submarino, onde as Ninfas 185 se exibiam inocentemente em alegres brincadeiras.
Porém, um dos Niebelungos, levado pela cobiça, roubou o tesouro, tirou-o da água e fugiu. Entretanto, era impossível
para ele dar forma a essa massa, se não renunciasse ao amor. Então, ele o transformou num anel que lhe deu poder
sobre todos os tesouros da Terra, mas, ao mesmo tempo, isso deu início a dissenções e conflitos. Por sua causa, amigo
traiu amigo, irmão matou violentamente irmão, e em todos os lugares causou opressão, tristeza e angústias
profundas, pecado e morte, até que, finalmente, foi devolvido ao elemento aquoso e a Terra se consumiu em chamas.
Contudo, mais tarde, como uma nova fênix 186 das cinzas da velha ave, um novo céu e uma nova Terra se ergueu onde
a retidão foi restabelecida.
Essa antiga história popular nos fornece uma maravilhosa imagem da evolução humana. O nome Niebelungen
é derivado das palavras alemãs nebel (que significa névoa), e ungen (que significa filhos). Assim, a palavra
Niebelungen significa filhos da névoa e refere-se ao tempo em que a Humanidade vivia na atmosfera nublada que
circundava nossa Terra, no estágio de desenvolvimento anteriormente mencionado. Ali, a Humanidade infantil vivia
numa grande fraternidade, inocente de todo o mal como um bebê de hoje, e iluminada pelo Espírito Universal,
simbolizado pelo Ouro do Reno, que irradiava sua luz sobre as Ninfas de nossa história. Contudo, com o tempo, a
Terra foi ficando cada vez mais fria, a neblina se condensou, a água inundou as depressões da terra, a atmosfera
clareou, os olhos do ser humano foram abertos e ele se percebeu como um Ego separado. Então, o Espírito Universal
de amor e solidariedade foi posto de lado pelo egoísmo e interesse próprio.
Esse foi o desenrolar do roubo do Ouro do Reno e a tristeza e angústia profundas, o pecado, a discórdia, a
traição e o assassinato substituíram o amor infantil que existia entre a Humanidade daquele estado primitivo, quando
ela habitava naquela atmosfera aquosa tempos atrás. Gradualmente essa tendência está se tornando cada vez mais
181
N.T.: Gn 1:1
182
N.T.: Gn 1:6
183
N.T.: Os Nibelungos são, na mitologia nórdica, um povo formado por anões. Eles habitavam Niflheim, também chamada de
Mistland, ou Terra das Neblinas.
184
N.T.: O rio Reno é um curso de água com 1 233 km de comprimento que atravessa a Europa de sul a norte, desaguando no
mar do Norte no delta do Reno–Mosa–Escalda. Seu nome é de origem celta e significa “fluir”.
185
N.T.: um dos Espíritos da Natureza das águas.
186
N.T.: A fénix ou fênix, fênice é um pássaro da mitologia grega que, quando morria, entrava em autocombustão e, passado
algum tempo, ressurgia das próprias cinzas.
marcante e a maldição do egoísmo cresce mais e mais visivelmente. “A desumanidade do homem para com
homem”187 pesa como uma mortalha sobre a Terra e deve, inevitavelmente, trazer a destruição das condições
existentes. Toda a criação está gemendo e labutando, esperando pelo dia da redenção, e a Religião Ocidental faz soar
a palavra-chave do caminho da realização, quando nos exorta a amar nosso próximo como amamos a nós mesmos;
dessa forma, o egotismo – o amor exagerado pela própria personalidade – será revogado pela fraternidade universal e
pelo amor.
Portanto, quando uma pessoa é admitida na igreja, que é uma instituição espiritual onde o amor e a
fraternidade são as molas principais da ação, é conveniente colocá-la sob as águas do batismo, como símbolo da
condição da inocência infantil e do amor que prevaleceram quando a Humanidade habitava sob a neblina naquele
período longínquo. Naquele tempo os olhos do ser humano infantil ainda não haviam sido abertos para as vantagens
materiais deste mundo. A pequena criança que é trazida para a igreja ainda não está desperta para o poder de atração
ou da fascinação da vida, e outros se propõem a guiá-la para lhe proporcionar uma existência santa e proveitosa,
porque a experiência adquirida desde o Dilúvio nos ensinou que o amplo caminho do mundo está coberto de dor,
tristeza e angústia profundas e decepções; que só pelo caminho reto e estreito podemos escapar da morte e entrar na
vida eterna.
Portanto, vemos que há uma significância maravilhosamente profunda e mística por trás do Sacramento do
Batismo; que é para nos lembrar das bênçãos que caem sobre aqueles que são membros de uma fraternidade, em
que o interesse próprio é colocado em segundo plano e o serviço ao próximo é a palavra-chave e a mola propulsora da
ação. Enquanto estamos no mundo, o serviço é o que temos de melhor para dominar os outros com sucesso. Na
igreja, temos a definição de Cristo: “Aquele que quiser ser o maior entre vós, seja o servo de todos” 188.

187
N.T.: A frase “A desumanidade do homem para com o homem” foi documentada pela primeira vez no poema de Robert
Burns, chamado “O homem foi feito para lamentar: A Dirge” em 1784. É possível que Burns tenha reformulado uma citação
semelhante de Samuel von Pufendorf, que em 1673 escreveu: “Mais desumanidade foi cometida pelo próprio homem do que
qualquer outra causa da natureza.”
188
N.T.: Mt 20:26
Capítulo IV – O Sacramento do Matrimônio
Quando despojados das coisas não essenciais, os argumentos da Religião Cristã ortodoxa podem ser
resumidos conforme abaixo.
Primeiro: que tentados pelo demônio, nossos primeiros pais pecaram e foram exilados do estado anterior
deles de bem-aventurança celestial, postos sob a lei, sujeitos à morte, ficando incapazes de se libertarem disso por
seus próprios esforços.
Segundo: que Deus amou tanto o mundo que Ele enviou Cristo, Seu único Filho gerado, para a redenção do
mundo e para estabelecer o Reino dos Céus. Assim, a morte será finalmente absorvida pela imortalidade.
Essa simples crença tem provocado o sorriso dos ateus e dos puramente intelectuais que estudaram filosofias
transcendentais com suas sutilezas de lógica e argumentação; e até mesmo de alguns Estudantes dos Ensinamentos
dos Mistérios Ocidentais.
Tal atitude mental é inteiramente gratuita. Deveríamos saber que os líderes divinos da Humanidade não
permitiriam que milhões de pessoas continuassem em erro por milênios. Quando os Ensinamentos dos Mistérios
Ocidentais se despojam de suas explicações excessivas e das suas descrições detalhadas, e quando seus ensinamentos
básicos são expostos, vemos que estão em exata concordância com os ensinamentos Cristãos ortodoxos.
Houve, sim, um tempo em que a Humanidade vivia em um estado livre de pecado, quando a tristeza
profunda, a dor e a morte eram desconhecidas. Nem o tentador pessoal do Cristianismo é um mito, pois podemos
seguramente dizer que os Espíritos Lucíferos são os Anjos caídos, e a tentação que eles exercem na Humanidade
resultou na focalização da consciência do ser humano na fase material da existência, em que ele está sob a lei da
decrepitude e da morte. Igualmente verdadeira é a missão de Cristo no auxílio à Humanidade, elevando-a a um estado
mais etérico, em que a morte aqui não mais será necessária para livrá-la dos veículos que se tornaram muito pesados
para uso futuro. O que temos agora é um “corpo de morte”, no qual só uma ínfima quantidade de material está
realmente viva, visto que parte de seu volume é matéria nutriente que ainda não foi assimilada e a outra grande parte
já está no caminho para ser eliminada, e somente entre esses dois polos é que pode ser encontrado o material que é
totalmente vivificado pelo Espírito.
Em outros capítulos consideramos o Sacramento do Batismo e da Comunhão, Sacramentos esses que estão
muito ligados ao Espírito. Procuremos, agora, compreender o lado mais profundo do Sacramento do Matrimônio, que
tem a ver, particularmente com o corpo. Como os outros Sacramentos, a instituição do matrimônio teve seu começo
e, também, terá seu fim. Seu início foi descrito por Cristo quando Ele disse: “Não lestes que desde o princípio o
Criador os fez homem e mulher?” e que disse: “Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher e os dois
serão uma só carne?” (Mt 19:4-6). Pelo que Ele indicou também o fim do matrimônio ao dizer: “Com efeito, na
ressurreição, nem eles se casam e nem elas se dão em casamento, mas são todos como os Anjos no céu.” (Mt 22:30).
Sob essa luz, a lógica do ensinamento é evidente, pois o matrimônio se tornou necessário para que o
nascimento pudesse proporcionar novos instrumentos para substituir os que foram desfeitos pela morte; e quando a
morte for absorvida pela imortalidade e não houver necessidade de prover novos instrumentos, o matrimônio será,
também, desnecessário.
A ciência, com admirável audácia, tem tentado resolver o mistério da fecundação e já desvendou como a
invaginação189 se processa dentro das paredes do ovário; como o pequeno óvulo é formado na reclusão de sua
cavidade escura; como emerge daí e entra na trompa de Falópio; como é penetrado pelo espermatozoide do macho e
como o núcleo de um corpo humano se completa. Supõe-se que assim seja “a fonte e a origem da vida”!
Mas a vida não tem começo e nem fim, e o que a ciência erradamente considera a fonte da vida é, na
realidade, a fonte da morte, pois tudo que vem do útero está destinado, mais cedo ou mais tarde, a terminar no
túmulo. A festa do matrimônio, que prepara para o nascimento, ao mesmo tempo provê o alimento para a insaciável
garra da morte, e enquanto o matrimônio for necessário para a geração e o nascimento, a desintegração e a morte
devem ser os resultados inevitáveis. Portanto, é de suma importância conhecer a história do matrimônio, suas leis e
atividades envolvidas, a duração dessa instituição e como pode ser transcendida.
Quando obtivemos nossos Corpos Vitais na Época Hiperbórea, o Sol, a Lua e a Terra ainda estavam unidos e as
forças solares-lunares permeavam cada ser em proporção igual, de maneira que todos eram capazes de perpetuar sua
espécie por meio de brotos e esporos como fazem certas plantas atualmente. Os esforços do Corpo Vital para suavizar
o Corpo Denso e conservá-lo vivo, em nada interferia nele e esses corpos primitivos, semelhantes à planta, viviam por
muito tempo. Mas o ser humano era inconsciente e estacionário como uma planta; não fazia nenhum esforço, nem se
empenhava nisso. O acréscimo de um Corpo de Desejos forneceu o incentivo e desejo, e a consciência resultou da luta
entre o Corpo Vital, que constrói, e o Corpo de Desejos, que destrói o Corpo Denso.

189
N.T.: nesse caso, são os processos morfogênicos pelos quais um embrião toma forma, e é a etapa inicial de gastrulação, a
enorme reorganização do embrião a partir de uma simples esfera de células, a blástula, em um organismo multicamadas, com
camadas diferenciadas: endoderme, mesoderma e ectoderme. As invaginações mais localizadas também ocorrem mais tarde
no desenvolvimento embrionário.
Assim, a dissolução se tornou apenas uma questão de tempo, principalmente porque a energia construtiva do
Corpo Vital foi também dividida, posto que uma parte ou polo foi usada nas funções vitais do corpo e a outra serviu
para substituir o veículo destruído pela morte. Mas, como os dois polos de um ímã ou dínamo são necessários para a
manifestação, assim também dois seres unissexuais se tornaram necessários para a geração; dessa forma, o
matrimônio e o nascimento foram necessariamente instituídos para compensar o efeito da morte. A morte, então, é o
preço que pagamos pela consciência no mundo atual; o matrimônio e os repetidos nascimentos são nossas armas
contra a morte, até que a nossa constituição seja alterada e que nos tornemos como os Anjos.
Preste bastante atenção aqui: isso não quer dizer que vamos nos tornar Anjos, mas que vamos ser como os
Anjos; eles são a Humanidade do Período Lunar; eles pertencem a uma corrente de evolução totalmente diferente da
nossa, tão diferente como os Espíritos humanos o são dos animais atuais. São Paulo diz, em sua Epístola aos Hebreus,
que o ser humano foi feito por pouco tempo inferior aos Anjos 190; o ser humano desceu mais baixo na escala de
materialidade durante o Período Terrestre, enquanto os Anjos nunca habitaram um globo mais denso que o Éter. Da
mesma maneira que construímos nossos corpos com os constituintes químicos da Terra 191, os Anjos constroem os seus
corpos de Éter192. Essa substância é o caminho direto de todas as forças de vida, e quando o ser humano conseguir se
tornar como os Anjos e aprender a construir seu corpo de Éter, naturalmente, não haverá mais morte e nem a
necessidade do matrimônio para promover os nascimentos.
Porém, considerando o matrimônio sob outro ponto de vista, reconhecendo-o como uma união de almas, ao
invés de uma união de sexos, entramos em contato com o maravilhoso mistério do Amor. Logicamente, a união dos
sexos deve servir para perpetuar a Onda de Vida humana aqui, mas o verdadeiro matrimônio é também um
companheirismo de almas que transcende o sexo completamente. Aqueles que realmente forem capazes de
encontrar esse elevado plano de intimidade espiritual, alegremente, oferecem seus corpos como sacrifícios vivos
sobre o altar do Amor ao Não Nascido, atraindo amorosamente um Espírito que está esperando para renascer em um
corpo imaculadamente concebido. Assim, a Humanidade poderá ser salva do reinado da morte.
Isso manifesta-se facilmente à compreensão tão logo consideremos a ação não áspera, nem severa nem
violenta do Corpo Vital em contraste com o do Corpo de Desejos num período curto e repentino de raiva
descontrolada, quando se diz que uma pessoa “perdeu o controle de si mesma”. Sob tais condições, os músculos se
tornam tensos e a energia nervosa é gasta em grau suicida, de maneira que, depois de tal explosão, o Corpo Denso
pode ficar prostrado, algumas vezes, por várias semanas. O mais árduo trabalho não traz a fadiga proporcionada por
um período curto e repentino de raiva descontrolada; do mesmo modo, uma criança concebida sob paixão, sob as
tendências cristalizantes da natureza do desejo terá, certamente, uma existência curta aqui, e é um fato lamentável
que a duração de vida aqui seja, atualmente, quase um contrassenso; em vista da espantosa mortalidade infantil,
devíamos chamá-la de brevidade de existência.
As tendências construtivas do Corpo Vital, que é o veículo do amor, não são tão facilmente consideradas,
porém, essa observação prova que a satisfação prolonga a vida daquele que cultiva essa qualidade e, seguramente,
podemos concluir que uma criança concebida sob condições de harmonia e amor tem uma maior possibilidade de ser
bem sucedida na vida do que aquela concebida sob condições de raiva, de embriaguez e de paixão.
De acordo com o Gênesis foi dito à mulher: “na dor darás à luz filhos” 193 e sempre foi um delicado enigma para
aqueles que comentam a Bíblia explicar que conexão lógica pode existir entre o ato de comer uma fruta e as dores do
parto. Mas, quando compreendemos as castas referências da Bíblia ao ato de geração, a conexão é facilmente
percebida. Enquanto uma mulher negra, que vive no interior da África, ou uma mulher índia, que ainda vive no seu
ambiente natural – ambas possuidoras de corpos menos sensíveis – dão à luz e voltam logo aos seus trabalhos no
campo, a mulher ocidental, que vive nas cidades ou nas vilas, tendo um corpo mais sensível e de temperamento mais
nervoso, a cada ano que passa acha mais difícil desempenhar a tarefa da maternidade, embora auxiliada pelas
melhores e mais sofisticadas ajudas científicas.
As razões que contribuem para isso são várias: em primeiro lugar, enquanto insistimos em selecionar os
nossos cavalos e gado para a reprodução, enquanto insistirmos no pedigree dos nossos animais para que possamos
obter a melhor linhagem – a fim de melhorar a espécie, promovendo corpos mais sadios, mais altivos –, não agimos
com tanto cuidado com respeito à escolha de um pai ou uma mãe para nossos filhos. Unimo-nos por impulso e depois
nos lastimamos e nos arrependemos, auxiliados por leis que tornam muito fácil entrar ou sair dos laços sagrados do
Matrimônio. As palavras pronunciadas pelos padres, pastores ou juízes são tomadas como permissão para uma
indulgência sem limites, como se qualquer lei feita pelo ser humano pudesse permitir a contravenção da lei de Deus.
Enquanto os animais se cruzam somente em certas épocas do ano e a mãe não é molestada durante o período de
gravidez, o mesmo não acontece com a Onda de Vida humana.

190
N.T.: Hb 2:7
191
N.T.: Corpo Denso
192
N.T.: Corpo Vital
193
N.T.: Gn 3-16
Tendo em vista esses fatos, não é de estranhar que encontremos tanto medo da maternidade e já não é
tempo de solucionar esse problema por meio de uma relação mais sã entre os cônjuges? A astrologia revelará o
temperamento e as tendências de cada ser humano; ela capacitará duas pessoas a combinarem suas personalidades
de tal maneira que uma vida de amor possa ser vivida, e indicará os períodos em que as linhas de força
interplanetárias estão mais propícias para um parto sem dor. Assim, a astrologia nos permite tirar das entranhas da
natureza crianças nascidas do amor, capazes de viver longas vidas com excelente saúde. Finalmente, chegará o dia em
que esses corpos serão feitos com tal perfeição em sua pureza etérica, que perdurarão do começo ao fim da próxima
Era, tornando assim supérfluo o matrimônio.
Mas, se nós podemos amar agora, quando nos vemos um ao outro “obscuramente, como por espelho”,
através da máscara da personalidade e do véu da incompreensão, então mais convictos estaremos de que o amor da
alma para alma, purificado da paixão no crisol do sofrimento, será nossa joia mais preciosa e brilhante no céu, assim
como o peso de sua sombra está agora na Terra.
Capítulo IV – O Pecado Imperdoável e as Almas Perdidas
Alguns dos nossos Estudantes Rosacruzes já foram esclarecidos sobre o pecado imperdoável, e como esse
assunto tem uma certa ligação relativa ao matrimônio, o primeiro considerado um sacrilégio e o segundo, um
sacramento, será melhor elucidar essa matéria sob um ponto de vista diferente daquele anteriormente abordado em
nossa literatura.
Inicialmente, vejamos o significado de um sacramento e porque os Ritos do Batismo, da Comunhão, do
Matrimônio e da Extrema Unção são apropriadamente assim chamados; então, estaremos numa posição para
compreender o porquê de um sacrilégio ser imperdoável.
Os Rosacruzes ensinam, embora com mais detalhes, a mesma doutrina que São Paulo pregou no décimo
quinto Capítulo da Primeira Carta aos Coríntios, começando no trigésimo quinto Versículo, quando diz que além do
“corpo de carne e sangue”, temos um Corpo-Alma, um soma psuchicon (mal traduzido para corpo “natural”), e um
“corpo espiritual”; que cada um desses Corpos cresce de um Átomo-semente diferente e que há três estágios de
desenvolvimento para Adão ou o ser humano. O primeiro Adão foi tirado da terra e não tinha vida senciente. A alma
foi acrescentada ao segundo Adão; por isso, ele tinha uma vida interior, como um fermento trabalhando para
promovê-lo de um torrão de terra à Deus. Quando o potencial da alma extraído do corpo físico tiver sido elevado ao
espiritual, o último Adão se tornará um Espírito dador de vida, capaz de transmitir o impulso da vida diretamente a
outros, do mesmo modo que a chama de uma vela pode ser passada para muitas outras sem diminuir a magnitude da
luz original.
Entretanto, o germe para nosso corpo terrestre tinha que ser apropriadamente colocado em solo frutífero
para o crescimento de um veículo adequado e, desde o início, foram fornecidos órgãos geradores para alcançar esse
propósito. Está declarado no Livro do Gênesis (1:27) que os Elohim os criaram macho e fêmea. As palavras em hebreu
são “sacre va n'cabah”. Esses são os nomes dos órgãos sexuais. Traduzido literalmente, sacr significa “portador do
germe”. Assim, o casamento é um sacr-amento, pois abre o caminho para transmissão de um Átomo-semente físico
do pai para a mãe, e tende a preservar a Onda de Vida aqui contra as devastações da morte. O Batismo, como um
Sacramento, significa a força ou o impulso germinal que empreende a realização, com energia e entusiasmo, da alma
para a vida superior. A Sagrada Comunhão, na qual partilhamos do pão (feito da semente de plantas castas) e do
vinho (o cálice simbolizando o pistilo desprovido de paixão), aponta-nos para a Era que virá, uma Era quando será
desnecessário transmitir a semente através de um pai e de uma mãe, uma vez que poderemos nos alimentar
diretamente da vida cósmica e, então, conquistar a morte. Finalmente, a Extrema Unção é o Sacramento que marca o
rompimento do Cordão Prateado e a extração do germe sagrado, libertando-o até que possa, novamente, ser
implantado em outro n'cabah, ou mãe.
Como a semente e o óvulo são as raízes e a base do desenvolvimento da Onda de Vida aqui, é fácil
compreender que nenhum pecado pode ser mais sério do que aquele que abusa da função criadora, já que por aquele
sacr-ilégio impedimos o crescimento normal, o desenvolvimento ou o progresso de futuras gerações e transgredimos
contra o Espírito Santo, Jeová, que é guardião das forças criadoras lunares. Seus Anjos anunciam nascimentos, como
nos casos de Isaac, João Batista e Jesus. Quando Jeová queria recompensar seus seguidores mais fiéis, prometia fazer
a semente deles tão numerosa quanto as areias da praia. Ele também ordenou que os sodomitas deveriam ser
punidos por terem cometidos sacr-ilégio, por usarem ou empregarem a semente de uma forma incorreta e
desapropriada. Inclusive ele impôs aos filhos os pecados dos pais até a terceira e quartas gerações, pois, sob seu
regime, a Lei reinava suprema. O ser humano ainda não evoluiu ao ponto em que possa responder ao amor. Age com
seus inimigos pela regra do olho por olho e, da mesma maneira como mede, é medido pelos outros.
Embora isso nos pareça muito cruel, em virtude de estarmos diariamente desenvolvendo mais e mais as
faculdades do amor e do perdão, precisamos lembrar que essa justiça retributiva se relaciona puramente com o Corpo
Denso, que está sob as Leis da Natureza, tanto quanto qualquer outra composição química no Universo. Quando os
abusos tenham enfraquecido esse Corpo Denso, ele se torna incapaz de cumprir sua missão e de responder às nossas
exigências, como ocorre com qualquer outra máquina que tenhamos construído com os materiais que estão em torno
de nós. Portanto, não há milagres como um que seria necessário para gerar um corpo são, vigoroso e saudável vindo
de pais que transgrediram as Leis da Natureza pelos seus abusos; consequentemente, aquele pecado não pode ser
redimido, mas deve ser expiado; porém, quando o tempo e o cuidado restaurarem a necessária força e vigor, o Corpo
Denso desempenhará novamente as suas funções de uma maneira normal e saudável.
Assim, compreendemos que sob a Lei não existe a misericórdia, pois a misericórdia é ditada pelo amor. Logo,
isso estava em perfeita consonância com a ordem cósmica quando Cristo, o Senhor do Amor, disse que todas as coisas
feitas por qualquer pessoa contra Ele seriam perdoadas, pois o amor é a característica predominante no Seu Reino;
porém, o que for feito contrário à Lei de Jeová terá seu justo castigo. Nunca poderemos ser suficientemente gratos
pela maravilhosa Religião que Ele nos deu, particularmente se a comparamos com aquelas Religiões sob as quais
nossos irmãos e irmãs menos evoluídos estão agora enfrentando resolutamente. Tomemos, por exemplo, os budistas:
embora seu fundador tenha sido grande e sublime, ele viu somente o sentimento de profunda tristeza e lamentação,
um combate constante contra as Leis da Natureza. Ele aspirava ensinar seus seguidores a transcenderem aquela
condição por meio da perfeita obediência, tal como nós conquistamos as leis da eletricidade e outras forças da
natureza. O budista nada vê além da lei fria e impiedosa; por outro lado, nós do Mundo Ocidental temos diante de
nossos olhos, desde o berço até o túmulo, um quadro maravilhoso de Alguém que disse: “Vinde a mim todos os que
estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso”194.
Porém, pode-se perguntar: “E as almas perdidas”, elas são também coisas da nossa imaginação? Para essa
questão podemos responder que “sim”, embora isso precise de alguns esclarecimentos. Compreenderemos melhor o
caso se retrocedermos na história da Humanidade e examinarmos as experiências daqueles que transgrediram, pois
eles nos fornecerão um exemplo do que pode acontecer. A fim de demonstrar esse ponto de maneira apropriada
devemos reiterar algumas partes dos Ensinamentos Rosacruzes que detalham a gênese da Terra e do ser humano que
a habita. Três grandes estágios de desenvolvimento e desdobramento precederam o atual Período Terrestre. O Pai é o
mais elevado Iniciado do Período de Saturno, particularmente habitando o Sol Espiritual. O
Filho, o Cristo Cósmico, é o mais elevado Iniciado do Período Solar, habitando o Sol Central e guiando os
Planetas em suas órbitas por meio de um raio refletido de Si mesmo, que se torna o Espírito morador dentro de cada
Planeta, quando esse amadureceu suficientemente para conter tão grande Inteligência. Jeová, o Espírito Santo, é o
mais elevado Iniciado do Período Lunar e tem sua morada interna no Sol físico visível. Ele é o regente das diversas
Luas derivadas dos diferentes Planetas, com o propósito de fornecer aos seres que tenham ficado para trás na marcha
de evolução, uma disciplina mais rígida, sob uma Lei mais firme, para despertá-los e impeli-los, se possível, na direção
certa.
Quando olhamos para o espaço, percebemos que alguns Planetas têm um certo número de Luas e outros não
têm nenhuma; mas, do mesmo modo que existem pessoas que ficam para trás (que se atrasam, que demoram para
avançar) em qualquer grupo e como as Luas são necessárias para auxiliar esses retardatários a alcançarem o estado
em que se perderam, se for possível, podemos estar certos de que os Planetas que agora não têm Luas, já as tiveram
no passado. Aqueles Grandes Seres, os quais no Conceito Rosacruz do Cosmos são chamados de “Senhores de Vênus”
e “Senhores de Mercúrio,” eram, de fato, retardatários daqueles dois Planetas. No ofuscado e distante passado, eles
habitavam Luas que circundavam seus respectivos Planetas e foram bem-sucedidos em alcançarem o estado em que
eles se perderam por meio de muita disciplina que lhes foi imposta. Mais tarde, receberam a oportunidade de servir a
Humanidade da nossa Terra e por esse serviço asseguraram um retorno ao Planeta natal do qual haviam sido exilados.
Estavam perdidos sob a Lei, porém redimidos pelo amor; e assim podemos inferir que as oportunidades para servir
também trarão para outros seres, que se “perderam”, a oportunidade de reaver o passado.
Uma vez que isso pode confundir o Estudante Rosacruz quanto ao que acontece com as Luas em que tais seres
habitam por um tempo, podemos dizer que o Sistema Solar deve ser visto como o corpo do Grande Espírito a quem
chamamos Deus e, da mesma maneira que um tumor motivado por um processo anormal no nosso corpo nos causa
dor, assim também essas cristalizações em Luas são fontes de desconforto para aquele Grande Ser. Além disso, assim
como nosso próprio sistema orgânico se esforça por eliminar tais anomalias, como os tumores, o universo também se
esforça para expelir Luas que já tenham cumprido o propósito delas. Enquanto os seres que foram exilados para uma
Lua lá permanecem, o Espírito Planetário do Planeta do qual se originou a Lua, por seu cuidado para com esses seres,
conserva a Lua em sua órbita, e falamos do seu amor por eles como a Lei de Atração; mas, quando eles retornam ao
Planeta que originou a Lua, o Espírito Planetário não tem mais interesse naquela habitação semelhantes a cinzas.
Então, lentamente, a órbita da Lua desocupada se dilata, começando a se desintegrar e, finalmente, é expelida para o
espaço interestelar. Os asteroides são remanescentes de Luas que, uma vez, circundaram Vênus e Mercúrio. Há,
também, outras Luas e fragmentos lunares semelhantes em nosso Sistema Solar, porém o Conceito Rosacruz do
Cosmos não se ocupa delas, pois estão fora dos limites da evolução.

194
N.T.: Mt 11:28
Capítulo V – A Imaculada Concepção
A periódica alteração, de um modo regular e repetitivo, das forças materiais e espirituais que envolvem a
Terra são as causas invisíveis das atividades físicas, morais e mentais do nosso globo.
De acordo com o axioma hermético “assim como é em cima, assim é embaixo”, uma atividade similar deve
acontecer no ser humano, que não é mais do que uma edição menor da Mãe Natureza.
Os animais têm vinte e oito pares de nervos espinhais e estão, agora, em seu estágio lunar, perfeitamente
sintonizados com os vinte e oito dias que a Lua leva para transitar pelo Zodíaco. No estado selvagem em que eles se
encontram, o Espírito-Grupo regula o acasalamento, com o objetivo de procriação. Com isso não há extravasamento
com eles. Por outro lado, o ser humano está num estágio de transição; ele progrediu o suficiente para não ser
influenciado pelas vibrações lunares, pois tem trinta e um pares de nervos espinhais. Mas não está, ainda, sintonizado
com o mês solar de trinta e um dias e pratica a reprodução sexual em qualquer época do ano; consequentemente o
fluxo periódico na mulher, sob condições apropriadas, é utilizado para formar parte do corpo de uma criança mais
perfeita que seus pais. Similarmente, o fluxo periódico na Humanidade se torna a força resiliente sólida e a fundação
ou a parte mais substancial do avanço dos povos; e o fluxo periódico das forças espirituais da Terra, que ocorrem por
ocasião do Natal, resulta no nascimento dos Salvadores que, de tempos em tempos, proporcionam um impulso
renovador para o progresso espiritual da Onda de Vida humana.
Há duas partes na nossa Bíblia: o Antigo e o Novo Testamentos. Depois de fazer um breve relato de como o
mundo surgiu, o Antigo Testamento nos conta a história da “Queda”. Considerando o que foi escrito em nossa
literatura, compreendemos que a “Queda” foi ocasionada pelo uso impulsivo e ignorante das forças sexuais pelo ser
humano em momentos nos quais os raios interplanetários eram adversos, obstrutivos ou prejudiciais à concepção de
melhores e mais puros veículos. Dessa forma, gradualmente, o ser humano se tornou prisioneiro num Corpo Denso,
cristalizado pela paixão pecaminosa e, consequentemente, um veículo imperfeito, sujeito à dor e à morte.
Dessa forma, ele começou a peregrinação através da matéria, e por milênios tem vivido nesse duro e rígido
envoltório do corpo que obscurece a luz do céu ao Espírito interno. O Espírito é como um diamante bruto, e os
lapidários celestiais, os Anjos do Destino, estão constantemente se esforçando para remover essa camada bruta a fim
de que o Espírito possa brilhar por meio do veículo que ele dota e imbui de uma alma.
Quando o lapidário coloca o diamante nas máquinas para clivagem e raspagem, essa pedra emite um guincho
agudo semelhante a um grito de dor à medida que a camada opaca é removida; mas, gradualmente, com muitas
sucessivas aplicações de clivagem e raspagem, o diamante bruto pode se tornar uma gema de transcendente beleza e
pureza. Similarmente, os seres celestiais encarregados da nossa evolução nos mantêm próximos à clivagem e
raspagem da experiência. Daí resultam a dor e o sofrimento, que despertam o Espírito que está adormecido dentro de
nós. O ser humano que até então se contenta com as coisas materiais, indulgente com seus sentidos e com o sexo, se
torna imbuído de uma inquietação divina que o impele a procurar uma vida superior.
Contudo, a satisfação dessa aspiração não é normalmente realizada sem um esforço extenuante e severo
diante das dificuldades ou oposições impostas pela nossa natureza inferior. Foi durante esses esforços extenuantes
diante de dificuldades ou oposições que São Paulo exclamou com toda a angústia de um coração devoto e aspirante:
“Infeliz de mim!... (...) Com efeito, não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero. (...) Eu me
comprazo na lei de Deus segundo o homem interior; mas percebo outra lei em meus membros, que peleja contra a lei
da minha razão e que me acorrenta à lei do pecado que existe em meus membros.” (Rm 7:19-24).
Quando a flor é amassada ou espremida, seu perfume é liberado e enche o ambiente ao redor com uma
agradável fragrância, deliciando todos aqueles que, privilegiadamente, se encontram próximos. Os golpes
esmagadores do destino podem abater um homem ou uma mulher que tenham alcançado o estágio de eflorescência;
mas, tais golpes servirão para exteriorizar a doçura da natureza e intensificar a beleza da alma, até que ela brilhe com
um esplendor que marque, com uma auréola, a pessoa que a possui. Então, ela está no Caminho da Iniciação. Ela tem
aprendido como o uso desenfreado do sexo, sem levar em conta os raios astrais, a tem aprisionado no corpo e como
esse restringe seu progresso, e como pelo uso apropriado dessa mesma força em harmonia com os Astros pode,
gradualmente, melhorar e eterizar seu corpo e, finalmente, libertá-la da existência concreta.
Um construtor naval não pode construir um forte navio de carvalho com a casca de abeto; não “se vindimam
uvas de sarças”195; semelhante sempre atrai o semelhante, e um Ego possuidor de uma natureza apaixonada é atraído
para pais de natureza semelhante, quando, então, seu corpo é concebido pelo impulso do momento, num sopro de
paixão.
A alma que tenha experimentado o cálice da amargura, em consequência do abuso da força sexual criadora, e
tenha bebido a parte mais indesejável, amarga, nele contida, procurará, gradualmente, por pais de natureza cada vez
menos passional, até que alcance a Iniciação.
Tendo sido ensinada a influência dos raios astrais sobre o parto, durante o processo de Iniciação, o próximo
corpo proporcionado será gerado por pais Iniciados sem paixão, sob a constelação mais favorável ao trabalho que é

195
N.T.: Lc 16:44
contemplado pelo Ego. É por esse motivo que os Evangelhos (que são fórmulas de Iniciação) começam com o relato
sobre a Imaculada Concepção e terminam com a Crucificação, ambos ideais maravilhosos que nós devemos alcançar
um dia, porque cada um de nós é um Cristo em formação e, algum dia, iremos passar tanto pelo nascimento místico
como pela morte mística delineados nos Evangelhos. Por meio do conhecimento podemos antecipar o dia
cooperando, inteligentemente, ao invés de, como fazemos agora e muitas vezes, frustrando, pela ignorância, o
objetivo do desenvolvimento espiritual.
Em relação à Imaculada Concepção, prevalecem interpretações errôneas em vários pontos: a virgindade
perpétua da mãe, mesmo depois de ter dado à luz a outros filhos; a humilde profissão de José, o suposto padrasto,
etc. Vamos examiná-las abaixo, brevemente, sob a luz dos fatos como são revelados na Memória da Natureza.
Em algumas partes da Europa, pessoas de classes sociais mais altas são chamadas de “bem-nascidas” ou
mesmo de “muito bem-nascidas”, indicando que são filhos de pais de elevada posição social. Tais pessoas,
normalmente, olham com desprezo para aquelas de posição mais modesta. Nada temos contra a expressão “pessoa
bem-nascida”; nós desejaríamos que todas as crianças fossem bem-nascidas, isto é, nascidas de pais possuidores de
elevada reputação moral, não importando sua posição social na vida. Há uma virgindade de alma que é independente
do estado do corpo, uma pureza de Mente que levará quem a possui ao ato de gerar sem a mácula de paixão, e
permitirá que a mãe carregue seu filho em gestação com o coração cheio de um amor que nada tem a ver com sexo.
Isso teria sido impossível antes da primeira vinda do Cristo entre nós. Nos primeiros tempos da nossa
caminhada na Terra, a quantidade era desejável e a qualidade era de menor importância. Assim, a ordem dada era:
“Ide, sede férteis e multiplicai-vos”. Além disso, era necessário que nós esquecêssemos, temporariamente, a nossa
natureza espiritual e concentrássemos nossas energias nos objetivos materiais. A indulgência com a paixão sexual
favoreceu esse objetivo e foi fornecido um domínio pleno à natureza de desejos. A poligamia floresceu e quanto maior
o número de filhos, mais dignos de respeito se tornavam um homem e uma mulher, enquanto a esterilidade era vista
como a pior das desgraças possíveis.
Em outras direções, a natureza de desejos estava sendo reprimida pelas Leis dadas por Deus, e a obediência
aos mandamentos divinos era imposta pela punição imediata ao transgressor, tal como guerras, pestes ou fome.
Recompensas para aquele que estava pleno ou motivado pelo senso de dever em cumprir a Lei não eram poucas,
também; aos “filhos do homem honrado”, o seu gado e as colheitas eram numerosos; ele se sentia vitorioso sobre
seus inimigos e era, para ele, a evidência da bondade e da benção de Deus para com ele.
Mais tarde, quando a Terra já estava suficientemente povoada, depois do Dilúvio Atlante, a poligamia se
tornou cada vez mais obsoleta, o que resultou em uma melhor qualidade dos corpos e, na época de Cristo a natureza
de desejos se tornou tão suscetível de ser controlada pelos mais avançados da Humanidade, que o ato de gerar uma
criança podia ser executado sem paixão, advindo do amor puro, de maneira que a criança podia ser concebida
imaculadamente.
Assim aconteceu com os pais de Jesus. Diz-se que José era um carpinteiro, mas ele não trabalhava com
madeira. Ele era um “construtor”, no sentido mais elevado. Deus é o Grande Arquiteto do Universo. Sob Ele estão
muitos construtores de diversos graus de esplendor espiritual, alguns ainda abaixo dos que conhecemos como
Maçons. Todos estão empenhados em construir um templo sem o ruído de martelo, e José não era exceção.
Pergunta-se, algumas vezes, porque os Iniciados são sempre homens. Não é assim; nos graus mais baixos há
muitas mulheres, mas, quando um Iniciado é capaz de escolher seu sexo, normalmente, escolhe o positivo Corpo
Denso masculino, uma vez que a vida que o levou à Iniciação espiritualizou seu Corpo Vital e o tornou positivo sob
todos os aspectos, de maneira que ele consegue ter um instrumento altamente eficiente.
No entanto, há ocasiões em que as exigências requerem um Corpo Denso feminino, como, por exemplo, para
prover um Corpo do tipo mais elevado para receber um Ego superlativamente evoluído. Então, um elevado Iniciado
pode escolher vir em um Corpo Denso feminino, disposto a passar pela experiência da maternidade novamente, talvez
depois de ter evitado por motivos práticos nas várias vidas anteriores, como aconteceu com o lindo caráter que
conhecemos como Maria de Belém.
Concluindo, lembremo-nos dos principais pontos apresentados. Explicamos que nós somos todos Cristos em
formação; que, algumas vezes, devemos cultivar o nosso caráter livre de impurezas de forma que sejamos dignos de
habitar em corpos que são imaculadamente concebidos; e quanto mais cedo começarmos a purificar nossas Mentes
de pensamentos passionais, mais cedo alcançaremos esse grau. Numa análise final, isso depende exclusivamente da
seriedade dos nossos propósitos e da força da nossa vontade. As condições atuais são tais que nós podemos viver
vidas puras, quer estejamos casados ou solteiros, não sendo exigidas as frias relações do gênero irmã-irmão.
Será que uma vida de absoluta pureza ainda está fora do nosso alcance? Não nos devemos desencorajar;
Roma não foi construída em um dia. Continue aspirando a ela, mesmo que erre muitas vezes, pois o único fracasso é
deixar de lutar. Que Deus fortaleça suas aspirações para a pureza.
Capítulo VI – A Vinda do Cristo
Vimos, anteriormente, como a infante Humanidade da Atlântida vivia em uma condição de harmonia, de
união, sob a orientação direta dos líderes divinos, e como ela foi retirada da água e levada para uma atmosfera clara,
onde a separatividade de cada indivíduo dos demais se tornou imediatamente evidente.
“Deus é Luz”196 – a Luz que se tornou vida no ser humano. Ela era fraca e acromaticamente difusa na
atmosfera enevoada dos primórdios da Atlântida, tão incolor quanto o ar o é num dia coberto por uma intensa
umidade nos dias de hoje, daí a unidade de todos os seres que viviam nessa luz. Mas, quando o ser humano se elevou
acima das águas, quando emergiu no ar onde a manifestação divina, a Luz, era refratada em numerosos matizes, essa
luz multicolorida foi absorvida de forma diferenciada por cada pessoa. Assim se iniciou a diversidade, quando a
Humanidade contemplou o grandioso arco-íris com suas variegadas e belas cores. Portanto, esse arco pode ser
considerado um portão de entrada para “a Terra Prometida”, o mundo como está atualmente constituído.
Aqui, a luz de Deus não é mais um único e insípido matiz, como no início da Atlântida. O atual deslumbrante
jogo de cores nos diz que o lema da Época atual é a segregação e, portanto, enquanto permanecermos na condição
atual, sob a Lei de Ciclos Alternantes, em que o verão e o inverno, as marés, alta e baixa, se sucedem numa sequência
ininterrupta, enquanto o arco de Deus permanecer no céu, um símbolo da diversidade, ainda estaremos no “reino dos
homens”, e o Reino de Deus permanecerá em um estado temporário de inatividade.
Entretanto, tão certo como as condições Edênicas sobre o cinturão de fogo das ilhas da antiga Lemúria
terminaram na separação dos sexos, cada um expressando um elemento do fogo criador, e tornando a união do
homem e da mulher tão necessária à geração de um corpo, assim como a união do hidrogênio e oxigênio o é para a
produção da água; e tão certo como a emersão da atmosfera aquosa da Atlântida no meio ambiente aéreo da Ariana,
o mundo de hoje, estimulou uma segregação posterior entre nações e indivíduos, que lutam e se oprimem uns aos
outros (porque as formas nitidamente diferenciadas que eles observam não os permitem ver a unidade inalienável de
cada alma com as demais); assim também a condição atual desse mundo dará lugar a um “novo Céu e uma nova
Terra, onde habitará a justiça”197.
No início da Atlântida vivíamos nas bacias mais profundas da Terra, onde a névoa era mais densa;
respirávamos por meio de um órgão (parecido com as brânquias dos peixes atuais) para obter oxigênio da água e seria
impossível viver numa atmosfera como a que temos agora. Com o decorrer do tempo, o desejo de explorar mais além
levou à invenção de aeronaves mais leves que o ar com sistemas de propulsão baseados na força expansiva do grão
em germinação. A história da “arca”198 é uma lembrança deturpada desse fato. Aquelas naves, na verdade, paravam e
caíam nos topos das montanhas onde a atmosfera era muito rarefeita para suportá-las. Hoje, nossas naves flutuam
sobre o elemento no qual as naves atlantes, naquele passado, estiveram imersas. Agora, já foram formados e criados
engenhosa e artisticamente vários meios de propulsão capazes de nos transportar sobre as partes mais elevadas e
montanhosas da Terra, e estamos começando a alcançar a atmosfera para conquistar esse elemento, da mesma
maneira que subjugamos as águas; e assim como nossos ancestrais atlantes abriram um caminho pelo elemento
aquoso em que respiravam e daqui se elevaram acima dele, para viver em um novo elemento, do mesmo modo e
certamente deveremos conquistar o ar e, depois, nos elevaremos acima dele, para o recém-descoberto elemento que
chamamos Éter.
Dessa forma, cada Época tem suas condições e leis peculiares; os seres que evoluem têm uma constituição
fisiológica adequada ao meio ambiente daquela Época, porém, são dominados pelas forças da natureza prevalecentes
no momento, até que aprendam a se ajustar a elas. Então, essas forças se tornam auxiliares de imenso valor como,
por exemplo, o vapor e a eletricidade, que temos aproveitados parcialmente. A lei de gravidade ainda nos segura na
sua aderência poderosa, apesar de estarmos, por meios mecânicos, tentando escapar para um novo elemento.
Deveremos, dentro de pouco tempo, obter o domínio do ar, mas como as embarcações da Atlântida caíram e pararam
nos topos das montanhas da Terra, porque a flutuabilidade delas era insuficiente para permiti-las que se elevassem
acima na clara névoa daquelas altitudes e porque a respiração era difícil, assim também a rarefação crescente da
nossa atual atmosfera nos impedirá de entrar no “novo Céu e na nova Terra”, que servirão de cenário para a Nova
Dispensação.
Antes de atingirmos esse estado, mudanças fisiológicas e, também, morais e espirituais devem ocorrer. O
texto grego do Novo Testamento não nos deixa dúvidas quanto a isso, embora a falta de conhecimento dos

196
N.T.: I Jo 1:1
197
N.T.: II Pd 3:13
198
N.T.: se trata da Arca de Noé.
ensinamentos dos mistérios tenha impedido os tradutores de mencioná-los na versão inglesa. Se apenas
acreditássemos na Bíblia, como a temos, seríamos poupados de muitas ilusões e inquietações em relação ao tempo
disso. Comunidades religiosas, seitas, movimentos espiritualistas inteiros se dispuseram dos seus pertences pela
antecipação do advento de Cristo que, segundo eles, aconteceria num determinado dia, e sofreram incontáveis
privações posteriores. Impostores fizeram-se passar por Cristo ou mesmo por Deus, se casaram, constituíram família e
morreram, deixando a seus filhos a crença que eram Cristos e que lutassem por seu reino. Um governo secular foi
forçado a banir um desses “Cristos” militantes para uma ilha do Mediterrâneo, e outro para uma cidade asiática onde
ele está atualmente sob vigilância militar. Não há sinais de que tais pretendentes venham a diminuir no futuro; pelo
contrário, a impostura sacrílega está se espalhando.
Podemos ficar tranquilos que os líderes divinos da evolução não cometeram nenhum erro quando deram a
Religião Cristã ao Mundo Ocidental – o mais avançado ensinamento para os mais precoces entre a Humanidade.
Portanto, pode ser considerado como um detrimento quando uma organização se propõe introduzir uma Religião
Hindu (que é excelente para as pessoas a quem foi divinamente dada) sobre o nosso povo. Os exercícios de respiração
importados dos orientais Hindus têm, certamente, levados muitas pessoas para hospitais psiquiátricos, unidades de
saúde mental ou unidades de saúde comportamental.
Se acreditássemos nas palavras de Cristo: “Meu Reino não é deste mundo” 199 (kosmos, a palavra grega usada
para “mundo” significa “ordem das coisas”, ao invés de nosso Planeta, a Terra, que é chamada gee) saberíamos
melhor como procurar Cristo atualmente.
“A carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus” 200, do mesmo modo que a criatura que respirava por
meio de um órgão (parecido com as brânquias dos peixes atuais) para obter oxigênio da água, no início da Época
Atlante, não estava preparada para viver sob as condições naturais prevalecentes na presente Época, onde existe “o
Reino dos homens”. São Paulo, falando sobre a Ressurreição, não diz como está na versão inglesa: “Há um corpo
natural e um corpo espiritual” (ICor 15:14). Ele afirma que há um “soma psuchicon”, um Corpo-Alma, e diz nos
versículos anteriores como isso é gerado de uma “semente”, da mesma forma como é explicado nos Ensinamentos
Rosacruzes. A Bíblia afirma que nossos corpos são corruptíveis. (Também nos ensina que um órgão, o coração, é uma
exceção. Isto se refere ao Átomo-semente no coração (Sl 22:26)). Consequentemente, nossos corpos precisam ser
mudados antes que Cristo possa vir.
Se acreditássemos verdadeiramente nisso, poucas pessoas correriam atrás dos impostores, pois o trabalho
deles nada representaria. Mas, infelizmente, a imprensa ocidental dá notoriedade a tais maquinadores, embora os
trate como uma piada, como o são realmente, pois seria contrário à razão ou ao bom senso, para não dizer absurdo,
acreditar que o grande e sábio Ser que guia a evolução pudesse ser de uma visão tão acanhada que não saberia que o
Mundo Ocidental nunca aceitaria seguir um caminho que reputa semibárbaro e que essa missão fosse atribuída ao
seu Salvador.
Quando os preparativos para a vinda do Salvador do mundo foram feitos, há 2000 anos, a Galileia era a Meca
dos Espíritos errantes. Para lá afluíam povos da Ásia, África, Grécia, Itália e de outras partes do mundo daquele tempo.
As condições lá existentes eram excepcionalmente atraentes e agradavelmente adequadas à natureza, aos gostos e às
perspectivas, e a Galileia era, como declarado por muitos estudiosos que investigaram o assunto, tão cosmopolita
quanto Roma. De fato, era o “crisol” daqueles dias. Entre muitos, José e Maria, os pais de Jesus, haviam emigrado da
Judeia para Nazaré, na Galileia, antes do nascimento do seu primogênito, e o corpo gerado naquele ambiente era
diferente do corpo comum da raça judaica.
É um fato incontestável que o ambiente desempenha um grande papel no processo da evolução. Temos hoje
na Terra, três grandes raças. Uma, a negra, tem o fio do cabelo de secção chata e a cabeça é alongada, estreita e
achatada nos lados. A órbita do globo ocular é também alongada e estreita. Os negros são descendentes da Raça
Lemúrica.
Os Mongóis e povos semelhantes têm cabeças arredondadas. O fio de seu cabelo tem secção redonda, assim
como as órbitas de seus olhos. São os descendentes da Raça Atlante.
A Raça Ariana tem o fio do cabelo oval, assim como o crânio e as órbitas dos olhos, com secção oval, sendo
que esses traços são mais pronunciados nos Anglo-Saxões, que são o florescer da raça atual.
Na América, a Meca das nações de hoje, essas várias raças estão claramente representadas. Esse é o “crisol”
onde elas estão sendo amalgamadas. Verifica-se que aqui há uma diferença entre as crianças que pertencem a uma

199
N.T.: Jo 18:36
200
N.T.: I Cor 15:50
mesma família. Os crânios das crianças que nascem na América são mais ovais do que o de seus irmãos mais velhos
nascidos em outra parte do mundo.
Por esse e por outros fatos, que não precisam ser mencionados aqui, é evidente que uma nova Raça está
nascendo no continente americano; e, raciocinando do fato conhecido de que o Cristo veio da parte mais cosmopolita
do mundo civilizado 2.000 anos atrás, seria bem lógico esperar que, se um renascimento estivesse sendo preparado
para esse exaltado Ser, Seu corpo seria, provavelmente, formado de uma nova Raça, ao invés de uma Raça antiga. Por
outro lado, se fosse conveniente buscar um Salvador nas Raças antigas, porque não um Bushman 201 ou um
Hotenote202?
Contudo, podemos ter certeza de que, embora os impostores iludam por algum tempo, mais cedo ou mais
tarde eles serão descobertos e seus planos estão fadados ao fracasso. Enquanto isto, o progresso continua nos
levando para mais próximo da Era de Aquário, e um Mestre está vindo para fornecer à Religião Cristã um estímulo e
encorajamento, resultando em um aumento de atividades, numa nova direção.

201
N.T.: Ou bushmen que vivem na região rural, inexplorada, conhecida como “bush” da Austrália. Bush é um termo usado
principalmente no vernáculo inglês da Austrália e Nova Zelândia, onde é amplamente sinônimo de sertão, referindo-se a uma
área natural não desenvolvida. A fauna e a flora contidas nesta área devem ser nativas da região, embora espécies exóticas
muitas vezes também estarão presentes.
202
N.T.: Os hotentotes constituem uma etnia negra, nativa da África do Sul, de cultura bastante primitiva. Caracterizam-se pela
vida nômade, baseada na caça e na coleta, hoje combinada com a atividade pastoril e cultivos itinerantes.
Capítulo VII – A Próxima Era
Quando falamos da “Próxima Era”, “do Novo Céu e da Nova Terra” mencionados na Bíblia e, também, da “Era
de Aquário”, as diferenças entre elas podem não ser claras nas Mentes dos nossos Estudantes Rosacruzes. A confusão
dos conceitos é um dos campos mais férteis para a falácia, e os Ensinamentos Rosacruzes procuram evitar isso usando
uma nomenclatura ou um conceito particularmente definido. Algumas vezes, um esforço extra se faz necessário para
dissipar a confusão ou a distorção gerada por concepções nebulosas engendradas por outros, tão sinceros como o
presente escritor, porém, não tão afortunados em ter acesso aos incomparáveis Ensinamentos da Sabedoria
Ocidental.
Em nossa literatura aprendemos que quatro grandes Épocas de desenvolvimento gradual precederam a atual
ordem das coisas; que a densidade da Terra, suas condições atmosféricas e as Leis da Natureza que prevaleciam numa
Época eram tão diferentes das de outras Épocas, como a correspondente constituição fisiológica da Humanidade em
uma Época era bem diferente das de outras Épocas.
Os corpos de ADM (o nome significa terra vermelha), a Humanidade da ígnea Lemúria, foram formados do “pó
da terra”, da lama vermelha, quente e vulcânica, e estavam adaptados ao meio ambiente deles. A carne e o sangue
teriam se atrofiado e se enrugado, especialmente pela perda de umidade, no calor intenso daqueles dias e, embora
adaptados às condições presentes, São Paulo nos diz que “eles não podem herdar o Reino de Deus”203. É evidente,
portanto, que antes que uma nova ordem de coisas possa ser inaugurada, a constituição fisiológica da Humanidade
precisa ser radicalmente alterada, isto sem mencionar a atitude espiritual. Serão necessários milhões de anos para
regenerar toda a Onda de Vida humana e torná-la apta a viver em corpos etéricos204.
Por outro lado, nem mesmo um novo ambiente surge de um momento para o outro, mas a terra e os povos
vêm evoluindo juntos, desde os menores e mais primitivos primórdios.
Quando a neblina da Atlântida começou a assentar, alguns dos nossos antepassados já haviam desenvolvido
pulmões embrionários, e foram compelidos a subir para as montanhas muito antes de seus pares ou companheiros.
Eles vagaram pelo “deserto” enquanto a “Terra Prometida” estava emergindo das névoas mais tênues e, ao mesmo
tempo, seus pulmões em crescimento estavam os preparando e os ajustando para viverem sob as condições
atmosféricas atuais.
Mais duas Raças nasceram nas bacias da Terra, antes que uma sucessão de inundações os forçasse a ir para as
montanhas; a última inundação aconteceu no momento quando o Sol entrou no Signo aquoso de Câncer, há cerca de
dez mil anos atrás, como disseram os sacerdotes egípcios a Platão. Como vimos, não há uma mudança súbita no
organismo humano ou no meio-ambiente para toda a Onda de Vida humana, quando uma nova Época é introduzida,
mas uma sobreposição de condições que tornam isso possível para a maioria dos seres da Onda de Vida humana, por
meio de um ajustamento gradual para entrar na nova condição, embora a mudança possa parecer súbita ao indivíduo
que fez toda a mudança preparatória inconscientemente. A metamorfose do girino, de um habitante do elemento
aquoso para um habitante do elemento aéreo, fornece uma analogia do passado, e a transformação de uma lagarta
em uma borboleta se elevando pelo ar é uma ilustração apropriada da próxima Era. Quando o celestial marcador do
tempo entrou em Áries, por Precessão 205, um novo ciclo se iniciou e as “boas-novas” foram pregadas por Cristo. Ele
enfatizou que o Novo Céu e a Nova Terra não estavam ainda prontos, quando disse a Seus discípulos: “Não podes
seguir-me agora aonde vou, mas me seguirás mais tarde”206 (..) “vou preparar-vos um lugar, e quando eu me for e vos
tiver preparado um lugar, virei novamente e vos levarei comigo”207.
Mais tarde São João viu, numa visão, a Nova Jerusalém procedendo do Céu e São Paulo exortou os
Tessalonicenses “pela palavra do Senhor”208 que aqueles que vivem em Cristo, na Sua próxima vinda, deverão ser
arrebatados no ar para se encontrarem com Ele e estar com Ele para a Nova Era.
Porém, durante essa mudança, há pioneiros que entram no Reino de Deus antes de seus irmãos e de suas
irmãs em Cristo. Cristo disse, no Evangelho Segundo São Mateus 11:12: “Desde os dias de João Batista até agora, o
Reino dos Céus sofre violência, e violentos se apoderam dele”. Essa não é uma tradução correta. A tradução deve ser:
“O Reino dos Céus foi invadido (biaxetai) e os invasores se apoderaram dele”. Homens e mulheres já aprenderam, por
meio de vidas santas e baseadas na prestação de serviços e auxílios, a deixar de lado o corpo de carne e de sangue,
seja intermitente ou permanentemente, e caminhar pelos céus com pés alados, atentos aos assuntos do Senhor deles,
vestidos do etérico “Manto Nupcial” da Nova Dispensação. Essa mudança pode ser conseguida por meio de uma vida
de simples serviço, de ajuda, de auxílio e de oração e prece, como a praticada pelos Cristãos devotos, não importando

203
N.T.: I Cor 15:50
204
N.T.: Corpos Vitais
205
N.T.: Movimento de Precessão dos Equinócios
206
N.T.: Jo 13:36
207
N.T.: Jo 14:2-3
208
N.T.: ITess 4:15
a que igreja estejam afiliados, assim como por meio dos Exercícios Esotéricos específicos fornecidos pela Fraternidade
Rosacruz. Esses Exercícios Esotéricos não trarão nenhum resultado, a não ser que sejam acompanhados por
frequentes atos de amor, pois o amor será a palavra chave da próxima Era, do mesmo modo que a Lei é a palavra-
chave da presente ordem. A expressão intensa das qualidades mencionadas acima que aumenta a luminosidade
fosforescente é a densidade dos Éteres em nossos Corpos Vitais; as correntes ígneas cortam a ligação com os cuidados
e as preocupações do dia a dia, e o ser humano, uma vez nascido da água em sua emersão da Atlântida, agora nasce
do Espírito, para o Reino de Deus. A força dinâmica do seu amor abriu um caminho para a terra do amor, e é
indescritível o regozijo daqueles que já se encontram lá quando novos seres chegam, pois cada um que chega apressa
a vinda do Senhor e o estabelecimento definitivo do Reino.
Entre os religiosamente inclinados há um clamor definido e incessante: “Quanto tempo, Oh Senhor, quanto
tempo?”. E, apesar da afirmação enfática de Cristo de que o dia e a hora são desconhecidos, mesmo para Ele, profetas
continuam ganhando credibilidade quando predizem Sua volta para uma determinada data, embora cada um se
frustra quando o dia passa e nada acontece. A questão também tem sido debatida entre nossos Estudantes
Rosacruzes, e esse capítulo é uma tentativa de mostrar a falsa ou errada ideia de esperarmos pelo Segundo Advento
no próximo ano, nos próximos cinquenta ou nos próximos quinhentos anos. Os Irmãos Maiores se recusam a
expressar uma opinião e assinalam só o que deve ser realizado primeiramente.
Nos dias de Cristo, o Sol estava ao redor dos sete graus de Áries. Foram necessários quinhentos anos para, por
Precessão, chegar ao décimo terceiro grau de Peixes. Durante este tempo, a nova igreja viveu fases de violência
ofensiva e defensiva, justificando bem as palavras de Cristo: “Eu não vim trazer a paz, mas uma espada”209. Passaram-
se mais mil e quatrocentos anos sob a influência negativa de Peixes, que tem fomentado o poder da igreja e sujeitado
o povo pelo credo e pelo dogma.
Em meados do último século210, o Sol entrou na Órbita de Influência do Signo científico de Aquário e, embora
ainda leve cerca de seiscentos anos para que a Era de Aquário comece, é altamente instrutivo notar que mudanças ao
mero contato com esse Signo tem acontecido e disponibilizadas para o uso no mundo. Nosso limitado espaço nos
impede de enumerar os maravilhosos avanços realizados desde então; mas não demais dizer que a ciência, as
invenções e a indústria decorrentes desse desenvolvimento, tem mudado o mundo completamente, tanto na vida
social como nas condições econômicas. Os grandes progressos realizados por meio da comunicação, têm contribuído
muito para quebrar as barreiras do preconceito racial, nos preparando para as condições da Fraternidade Universal.
Os instrumentos de destruição têm sido elaborados tão assustadoramente eficientes, que as nações militantes serão
forçadas, dentro de pouco tempo, a “quebrar as suas espadas, transformando-as em arados, e as suas lanças, a fim
de fazerem podadeiras”211. A espada tem tido seu reinado durante a Era de Peixes, mas a ciência governará na Era de
Aquário.
Na terra do sol poente podemos esperar vislumbrar as condições ideais da Era de Aquário: uma mescla de
Religião e ciência, formando uma ciência religiosa e uma Religião científica, que proporcionarão a saúde, a felicidade e
o regozijo de uma vida vivida em sua plenitude.

O Açúcar pelo Álcool

No capítulo que elucida a Lei de Assimilação, no livro Conceito Rosacruz do Cosmos, afirmamos que os
minerais não podem ser assimilados porque lhes falta um Corpo Vital, e é a falta dele que torna impossível o ser
humano elevar o grau vibratório deles até o seu próprio. As plantas 212 têm um Corpo Vital e não têm uma consciência
própria, daí serem mais facilmente assimiladas e permanecerem com o ser humano por mais tempo do que as células
da carne animal (mamíferos, aves, peixes, répteis, anfíbios, frutos do mar e afins), que são permeadas por um Corpo
de Desejos. A taxa vibratória dessas últimas é elevada, e muita energia é necessária na assimilação; suas células
também escapam rapidamente e o carnívoro tem necessidade de ir atrás de alimento mais frequentemente.
Estamos cientes de que o álcool é um “Espírito estranho” e um “Espírito de decadência”, porque é gerado pela
fermentação FORA do organismo daquele que o bebe. Sendo um “Espírito”, vibra com rapidez tão intensa que o
Espírito humano é incapaz de regulá-lo e controlá-lo como o faz com o alimento e, por isso, o metabolismo é
impossível. Ainda mais, como não podemos reduzir sua taxa vibratória às taxas dos nossos corpos, esse Espírito
estranho pode acelerar as taxas vibratórias dos nossos corpos e nos controlar, como acontece no estado de

209
N.T.: Mt 10:34
210
N.T.: Século XIX
211
N.T.: Is 2:4
212
N.T.: ou a Onda de Vida Vegetal
embriaguez. Assim, álcool é um grande perigo para a Humanidade e precisamos nos emancipar dele, antes que
possamos realizar a nossa natureza divina.
Um Espírito estimulante é necessário, enquanto vivemos numa dieta baseada de carne animal, ou o progresso
pararia, e um alimento foi fornecido aos pioneiros do ocidente para preencher todos os requisitos necessários.
Chama-se “açúcar”213. Do açúcar, o próprio Ego gera o álcool DENTRO do organismo pelo simples processo do
metabolismo. Esse produto é, portanto, alimento e estimulante, perfeitamente em sintonia com a taxa vibratória do
corpo. Tem todas as boas qualidades do álcool, em proporção maior e nenhuma das suas desvantagens e dos seus
inconvenientes. Para percebermos claramente os efeitos desse alimento, vamos tomar como exemplo os povos da
Europa oriental, onde pouco açúcar é consumido. São servis; falam de si mesmos em termos depreciativos; o
pronome “eu” é sempre escrito em letras minúsculas e “você” em maiúsculas. A Inglaterra consome cinco vezes mais
açúcar “per capita” do que a Rússia. Na primeira, há um Espírito diferente: o maiúsculo “Eu” e o minúsculo “você”. Na
América, as confeitarias são as grandes rivais dos bares e botecos, pois o ser humano que come doces não ingere
bebidas alcoólicas, e não há cura melhor para o alcoolismo do que induzi-lo a comer doces livremente. O beberrão
tem aversão ao açúcar, enquanto seu organismo está sob a influência do “Espírito estranho”.
O movimento de temperança no uso de bebidas alcoólicas começou na terra onde mais açúcar é consumido, e
tem gerado “o Espírito do autorrespeito”.

213
N.T.: apenas o mascavo e não o branco polido ou demerara ou cristal.
Capítulo VIII – A Carne Animal e a Bebida Alcoólica como Fatores
na Evolução
Em capítulos anteriores, vimos como a Humanidade infantil era cuidada por guardiães sobre-humanos que lhe
forneciam um alimento apropriado, afastavam-na dos perigos, protegiam-na sob todos os aspectos até alcançar a
estatura humana, e preparavam-na para entrar na escola da experiência e aprender as lições da vida no Mundo
fenomenal. Vimos, também, como o arco-íris indica as leis naturais peculiares da Época atual 214; como foi fornecido à
Humanidade o livre-arbítrio sob essas leis, e como o Espírito do vinho foi-lhe ofertado para animar e estimular seu
próprio Espírito tímido e temeroso e, assim, lhe proporcionar a força moral e a coragem para enfrentar a batalha do
mundo.
De maneira análoga, a criancinha irresponsável, é trazida sob as águas do Batismo por seus guardiães naturais,
é cuidada durante os anos da infância enquanto seus vários veículos estão sendo organizados. Quando o sangue dos
pais, armazenado na Glândula Timo, se extingue a criança, então, se emancipa deles, desperta para a Individualidade,
para o sentimento do “EU SOU”. Está, então, preparada com um conhecimento do bem e do mal, com o qual
enfrentará a batalha da vida e, neste momento, o jovem ou a jovem é levado (a) à igreja e lá recebe o “pão e o vinho”
para lhe proporcionar a força moral e a coragem e, também, para nutri-lo (a) espiritualmente. Isso simboliza que ele
(a) é, daqui em diante, um (a) agente livre e responsável perante as Leis de Deus. Essa liberdade pode ser uma bênção
ou uma maldição, dependendo da maneira como for usada.
Nos primórdios da Atlântida, a Humanidade era uma fraternidade universal, composta de crianças submissas,
sem incentivo algum para entrar em conflitos de maneira ativa ou vigorosa ou, ainda, para brigar. Mais tarde, a
Humanidade foi segregada em nações e as guerras inculcaram a lealdade à família e ao país. Cada soberano era um
autocrata absoluto, com poder sobre a vida e os pertences dos seus súditos, que chegavam a ser centenas de
milhares, os quais lhe rendiam a pronta e servil submissão, uma atitude mantida até o presente entre os milhões de
asiáticos, que são vegetarianos e, consequentemente, não precisam da bebida alcoólica.
Quando se iniciou o hábito de comer carne animal, o vinho se tornou cada vez mais uma bebida comum. Em
consequência da alimentação carnívora, houve um grande progresso material antes da vinda de Cristo e, devido à
prática de beber vinho, um número crescente de seres humanos se declararam líderes. Disso resultou que, em lugar
de poucas grandes nações como os povos da Ásia, muitas nações pequenas se formaram na porção sudoeste da
Europa e Ásia Menor.
Porém, embora a grande massa de pessoas que formaram essas várias nações estivessem à frente de seus
irmãos e irmãs asiáticos como artesãos, eles continuavam submissos a seus dirigentes e viviam tão arraigados às suas
tradições como esses últimos. Cristo os repreendeu, pois se gloriavam de ser a semente de Abraão. Ele lhes disse:
“Antes que Abraão existisse, EU SOU”215, querendo dizer que o Ego sempre existiu.
É Sua missão emancipar a Humanidade da Lei e conduzi-la para o AMOR, para destruir “o reino dos homens”
com todos os seus antagonismos, e construir sobre suas ruínas, “o Reino de Deus”. Uma ilustração elucidará melhor
esse método.
Se temos um certo número de construções de alvenaria e desejamos uni-las numa única e grande estrutura, é
necessário demoli-las primeiro, e limpar cada tijolo da argamassa que as liga. Do mesmo modo, cada ser humano deve
ser libertado dos grilhões da família, por isso, Cristo ensinou-nos que: “A menos que um homem deixe pai e mãe, ele
não poderá ser Meu discípulo” 216. Ele deve superar o partidarismo religioso e o patriotismo, e aprender a dizer o que o
incompreendido e caluniado Thomas Paine217 disse: “O mundo é minha pátria e fazer o bem é minha Religião”.
Cristo não quis dizer que abandonemos aqueles que pedem a nossa ajuda e o nosso apoio, mas que não
devemos permitir a anulação da nossa Individualidade em condescendência às tradições familiares e às crenças.
Consequentemente, Cristo veio “não para trazer a paz, mas uma espada.” 218, e enquanto as Religiões orientais
desencorajam o uso do vinho, o primeiro milagre de Cristo foi transformar a água em vinho. A espada e o cálice de
vinho são sinais da Religião Cristã, pois, por meio deles, nações se destroçaram e o indivíduo se emancipou. O governo
pelo povo e para o povo é uma realidade no noroeste da Europa, onde os governantes são mais de nome que de fato.
Porém, o alimentar o Espírito marcial, tal como prevalece na Europa, foi somente um meio para atingir um
fim. A segregação que causou deve dar lugar a um regime de fraternidade, como professado por Paine. Um novo
passo foi necessário para que isso se realizasse; um novo alimento devia ser encontrado para agir sobre o Espírito de

214
N.T.: A Época Ária
215
N.T.: Jo 8:58
216
N.T.: Lc 14:26
217
N.T.: Thomas Paine (1737-1809) foi um político britânico, além de panfletário, revolucionário, inventor, intelectual e um dos
Pais Fundadores dos Estados Unidos da América. Thomas Paine foi, a um só tempo, ator, intérprete e testemunho não apenas
das Revoluções Americana e Francesa, mas também dos movimentos revolucionários ingleses em fins do século XVIII e, em
menor medida, do movimento revolucionário nos Países Baixos e na Irlanda, onde ele era continuamente citado e admirado.
218
N.T.: Mt 10:34
maneira a encorajar a Individualidade através da afirmação de si própria, sem a opressão de outras e sem a perda do
autorrespeito. Já enunciamos isso como uma lei, isto é, somente o Espírito pode agir sobre o Espírito e,
consequentemente, esse alimento precisa ser um Espírito, mas diferindo em outros aspectos dos intoxicantes.
Antes de explicar isso, vejamos o que a carne animal fez para a evolução do mundo.
Vimos, anteriormente, que durante a Época Polar, o ser humano tinha somente um Corpo Denso; era como os
minerais de hoje nesse aspecto e, por natureza, era inerte e passivo.
Ao absorver os cristaloides preparados pelas plantas, o ser humano desenvolveu um Corpo Vital durante a
Época Hiperbórea e se tornou semelhante à planta de hoje, tanto em constituição quanto em natureza, pois vivia sem
esforço e tão inconsciente quanto as plantas.
Mais tarde, extraiu leite dos então estacionários animais. O desejo por esse alimento de mais fácil digestão o
estimulou a se esforçar e, gradualmente, sua natureza de desejos evoluiu durante a Época Lemúrica. Assim, sua
constituição se tornou semelhante a atual classe de animais que se alimentam por meio de pastagem ou forragem
(ervas, folhas e outras substâncias vegetais). Embora possuidor de uma natureza passional, ele era dócil e não se
sentia induzido a lutar, a não ser para se defender, defender aos seus companheiros e à sua família. Só a fome tinha o
poder de torná-lo agressivo.
Portanto, quando os animais começaram a se movimentar e procuraram escapar desse impiedoso parasita,
aumentou a dificuldade do ser humano encontrar o tão cobiçado alimento, e isso elevou seu desejo a tal extremo que,
quando tinha que caçar um animal, não mais se contentava em sorver seus úberes até secá-los, mas começou a se
alimentar do seu sangue e da sua carne. Assim, ele se tornou tão feroz quanto nossos atuais animais da ordem dos
mamíferos que se alimentam principalmente de carne.
A digestão da carne animal requer uma reação química muito mais poderosa e uma eliminação mais rápida
dos resíduos do que aquela produzida por uma dieta vegetariana, como ficou provado pelas análises químicas dos
sucos gástricos dos animais, e pelo fato de que os intestinos da classe de animais que se alimentam por meio de
pastagem ou forragem (ervas, folhas e outras substâncias vegetais) serem muitas vezes mais longos do que os dos
animais carnívoros de igual tamanho. Os animais da ordem dos mamíferos que se alimentam principalmente de carne,
em geral, tornam-se sonolentos e aversos ao esforço físico.
Quando incitado a agir pela dor intensa da fome, o lobo feroz persegue sua presa com uma inabalável
perseverança, e o salto e o posterior agachamento do leão, o rei dos animais, supera a alta velocidade do veado. Por
meio de emboscadas, a família dos felinos frustra os mais velozes nas suas tentativas de fugir. A astúcia da raposa é
proverbial, e os hábitos noturnos de ataque da hiena e de outros animais que se alimentam de carniça ilustram a
profunda perversão resultante de uma dieta de carne putrefata.
Alguns dos padrões de comportamento anormal, que é prejudicial à saúde, resultantes da ingestão da carne
animal podem ser a fadiga, a ferocidade, a astúcia e a depravação. Podemos domar o boi e o elefante, que são
herbívoros. São dóceis e armazenam uma enorme força que, obedientemente, usam ao nosso serviço executando
longos e árduos trabalhos. A ingestão de carne necessária às peculiaridades constitucionais dos animais da ordem dos
mamíferos que se alimentam principalmente de carne, faz com que se tornem perigosos e incapazes de serem
completamente domesticados. Um gato pode arranhar a qualquer momento, e os regulamentos nas cidades para que
os cães sejam amordaçados são provas suficientes desse perigo. Além disso, a energia contida na dieta dos animais da
ordem dos mamíferos que se alimentam principalmente de carne é tão utilizada na digestão, que eles ficam
indolentes e incapazes de executar trabalhos mais árduos, como os desempenhados pelo cavalo e pelo elefante.
Capítulo IX – Um Sacrifício Vivente
Volumes e volumes e livros – e até bibliotecas inteiras – já foram escritos para explicar a natureza de Deus,
mas, provavelmente é uma experiência universal que quanto mais lemos a respeito das explanações feitas por outras
pessoas, menos nós compreendemos.
Há uma descrição, fornecida pelo inspirado Apóstolo São João quando ele escreveu:
“Deus é Luz”219, que é tão esclarecedora para a Mente, quanto as outras são confusas. Qualquer um que use
essa passagem como assunto de Meditação encontrará, seguramente, uma maravilhosa recompensa à sua espera,
pois não importa quantas vezes tomemos esse assunto, nosso próprio desenvolvimento, conforme os anos passam,
nos assegura uma compreensão cada vez mais completa e melhor. Cada vez que mergulhamos nessas três palavras,
sentimo-nos banhados por uma fonte espiritual de inesgotável profundidade e, a cada vez, sondamos mais
minuciosamente as profundezas divinas e nos aproximamos mais do nosso Pai celestial.
Para mantermo-nos nesse assunto, voltemos no tempo para obter a posição e a direção da nossa futura linha
de progresso.
A primeira vez que nossa consciência se dirigiu para a Luz, foi logo após sermos dotados da Mente. Quando
entramos definitivamente em nossa evolução como seres humanos na Atlântida – a terra da névoa – nas profundezas
das bacias de nosso planeta, a neblina quente, emitida da terra que se resfriava, pairava como um denso nevoeiro
sobre a Terra. Nessa época, as estrelas nas grandes alturas do universo nunca eram vistas, e nem a luz prateada da
Lua podia penetrar a atmosfera densa e nebulosa que pairava sobre aquela antiga terra. Mesmo o esplendor ígneo do
Sol estava quase totalmente extinto, e quando estudamos a Memória da Natureza daquela época, vemos que ele se
assemelhava a um lampião colocado num poste num dia enevoado. Era bastante obscuro e tinha uma aura de
variadas cores, muito similar àquelas observadas ao redor de um arco de luz.
Mas, essa luz tinha um fascínio. Os antigos Atlantes foram instruídos pelas Hierarquias Divinas, que os
acompanhavam, que aspirassem a luz e, como a visão espiritual já estava, então, em declínio (até mesmo os
mensageiros, ou Elohim, eram percebidos com dificuldade pela maioria) eles aspiravam cada vez mais ardentemente à
nova luz, pois temiam as trevas das quais se tornaram conscientes por meio da dádiva da Mente.
Então, ocorreu o inevitável dilúvio, quando a neblina esfriou e se condensou. A atmosfera clareou e o “povo
escolhido” foi salvo. Aqueles que trabalharam internamente e aprenderam a construir os órgãos necessários para
respirar numa atmosfera semelhante à atual, sobreviveram e vieram para a luz. Não foi uma escolha arbitrária; o
trabalho do passado consistiu na construção do corpo. Aqueles que só possuíam fendas parecidas com brânquias, tal
como o embrião humano que ainda as tem em seu desenvolvimento pré-natal 220, não estavam preparados
fisiologicamente para entrar na nova Era 221, como não estaria o embrião humano se nascesse antes de construir os
pulmões. O embrião humano morreria como morreram aqueles povos antigos quando a atmosfera rarefeita tornou
inúteis as fendas parecidas com brânquias.
Desde o dia que saímos da antiga Atlântida, nossos corpos estão praticamente completos, isto é, não tivemos
o acréscimo de novos veículos; mas, desde aqueles tempos e de agora em diante, os que desejam seguir a luz
precisam se esforçar para obter o crescimento anímico. Os corpos que cristalizamos ao nosso redor precisam ser
dissolvidos, e a quintessência da experiência extraída, que como “alma” pode ser amalgamada com o Espírito, para
fomentá-lo da impotência à onipotência. Por isso, o Tabernáculo no Deserto foi proporcionado aos antigos e a luz de
Deus desceu sobre o Altar dos Sacrifícios. Isso tem uma grande significância: o Ego tinha acabado de descer para
dentro do seu tabernáculo, o corpo. Todos nós conhecemos a tendência do instinto primitivo para o egoísmo e, se
tivéssemos estudado as éticas superiores, saberíamos quão subversiva do bem é a indulgência às tendências egoístas;
portanto, Deus imediatamente colocou ante a Humanidade, a Luz Divina sobre o Altar dos Sacrifícios.
Sobre esse altar, eles foram forçados, por uma terrível necessidade, a oferecer suas mais preciosas posses por
cada transgressão cometida, pois imaginavam Deus como um chefe severo, a cujo desagrado era perigoso incorrer.
Mesmo assim, a Luz os atraia. Eles sabiam, então, que era inútil tentar escapar das mãos de Deus. Eles nunca não
tinham ouvido as palavras de São João: “Deus é Luz”, mas eles já tinham aprendido sobre os céus que, de algum
modo, lhe davam o significado do infinito, como algo medido pelo reino da luz, pois ouvimos Davi exclamar: “ Para
onde ir, longe do teu sopro? Para onde fugir, longe da tua presença? Se subo aos céus, tu lá estás; se me deito no Xeol,
aí te encontro. Se tomo as asas da alvorada para habitar nos limites do mar, mesmo lá é tua mão que me conduz, e
tua mão direita me sustenta. Se eu dissesse: ‘Ao menos a treva me cubra, e a noite seja um cinto ao meu redor’ —
mesmo a treva não é treva para ti, tanto a noite como o dia iluminam”222.
Com o passar dos anos, com o auxílio dos mais poderosos telescópios que a engenhosidade e as habilidades
mecânicas do ser humano foram capazes de construir para penetrar nas profundezas do espaço, se tornou mais

219
N.T.: IJo 1:5
220
N.T.: são fendas e arcos nos seus pescoços que são idênticos as fendas e arcos branquiais dos peixes atuais.
221
N.T.: se refere à Era de Áries.
222
N.T.: Sl 139:7-12
evidente que a infinitude da luz nos mostra a infinitude de Deus. Quando ouvimos que “ os homens preferiram mais
trevas à luz, porque as suas obras eram más”223, isto também se amolda ao que, infelizmente, conhecemos como fatos
atuais, e ilumina a natureza de Deus para nós; pois não é verdade que sempre que nos sentimos em perigo no escuro,
a luz nos proporciona uma sensação de segurança semelhante ao sentimento de uma criança que se sente protegida
pela mão de seu pai?
Tornar permanente essa condição de estar na Luz foi o passo seguinte do trabalho de Deus para conosco, o
qual culminou com o nascimento de Cristo que, como presença física do Pai, trouxe em Si mesmo aquela Luz, pois a
Luz veio ao mundo para que todos que acreditassem em Cristo não perecessem, mas tivessem vida eterna. Ele disse:
“Eu sou a Luz do Mundo”224. O Altar dos Sacrifícios no Tabernáculo no Deserto ilustrou o princípio do sacrifício como o
meio de regeneração, por isso, Cristo disse a Seus discípulos: “Nenhum ser humano tem maior amor que este, o que
dá sua vida por seus amigos. Vós sois meus amigos”225. E, imediatamente, Ele começou um sacrifício que, contrário à
opinião ortodoxa vigente, não foi consumado em umas poucas horas de sofrimento físico numa cruz material, mas é
tão perpétuo quanto eram os sacrifícios feitos no Altar dos Sacrifícios do Tabernáculo no Deserto, pois impõe uma
descida anual para dentro da Terra e um enfrentamento de todas as condições cristalizadoras e limitadoras, como um
aprisionamento, da Terra que deve significar para esse tão grande Espírito.
Isto deve continuar até que um número suficiente de pessoas tenha evoluído a ponto de suportar a carga
dessa densa massa de escuridão que nós chamamos de Terra, e que pende como uma pedra de moinho sobre o
pescoço da Humanidade226 impedindo seu futuro crescimento espiritual. Até que aprendamos a seguir “Seus passos”,
não nos elevaremos em direção à Luz.
Conta-se que quando Leonardo da Vinci completou sua famosa obra “A Última Ceia”, pediu a um amigo para
observá-la e dizer-lhe o que pensava a respeito.
O amigo olhou-a criticamente por alguns minutos e depois disse:
“Acho que você cometeu um erro ao pintar os cálices dos apóstolos tão ornamentados e parecendo ser de
ouro. Pessoas na posição deles não iriam beber em recipientes tão caros”.
Da Vinci, então, passou o pincel sobre os cálices que tinham sido alvo das críticas de seu amigo, mas, ficou
profundamente desgostoso, pois havia pintado aquele quadro com toda a sua alma, mais do que com suas mãos, na
intenção de que este pudesse transmitir uma mensagem para o mundo. Havia colocado toda a grandeza de sua arte e
a mais sincera devoção de sua alma no esforço de pintar um Cristo que, através de Sua palavra, levasse os seres
humanos a seguir Seus passos.
Podemos vê-Lo como sentado naquela mesa na significativa reunião, a INCORPORAÇÃO DA LUZ, e proferindo
aquelas maravilhosas palavras místicas: “Esse é meu corpo, (...) esse é meu sangue, dados a vós.”227 – Um sacrifício
vivente.
No período anterior do nosso caminho espiritual, estávamos procurando uma Luz exterior a nós mesmos,
porém, agora, chegamos ao ponto onde devemos procurar a luz de Cristo dentro de nós e tentar imitá-Lo, tornando-
nos “sacrifícios viventes”, como Ele está fazendo. Vamos nos relembrar que, quando o sacrifício que está à nossa
porta parece agradável e ao nosso gosto, quando nos sentimos capazes de escolher nosso trabalho “na vinha do
Senhor” e fazer o que nos agrada, não estamos fazendo um verdadeiro sacrifício como Ele o fez, e nem quando somos
vistos pelos outros a nossa volta e aplaudidos por nossa benevolência. Porém, quando estamos prontos para segui-lo,
desde aquela reunião significativa, onde Ele era o mais honrado entre os amigos, até o jardim de Getsemani onde Ele
ficou sozinho e envolvido, como se estivesse em uma luta violenta e determinada, com o grande problema diante
d’Ele enquanto Seus amigos dormiam, então, aí sim, estamos fazendo um sacrifício vivente.
Quando nos sentirmos satisfeitos em seguir “Seus passos” a ponto do auto sacrifício, onde nós pudermos dizer
do fundo do coração “Tua vontade e não a minha”228, então, certamente teremos a luz interior e, desde esse
momento, nunca mais existirá em nós o que entendíamos ser a escuridão. Andaremos na luz229.
Esse é nosso glorioso privilégio, e a meditação sobre as palavras do apóstolo: “Deus é Luz”230 nos ajudará a
perceber esse ideal, desde que acrescentemos obras à nossa fé e digamos, pelos nossos atos, o mesmo que disse o
Cristo: “Esse é o meu corpo e esse é o meu sangue”, um sacrifício vivente sobre o altar da Humanidade.
223
N.T.: Jo 3:19
224
N.T.: Jo 8:12
225
N.T.: Jo 15:13-15
226
N.T.: O enforcamento literal de uma pedra de moinho (ou mó) no pescoço é mencionado como uma punição no Novo
Testamento, fazendo com que o malfeitor fosse afogado. Eis a passagem bíblica: “E aquele que receber uma criança como esta
por causa do meu nome, recebe a mim. Caso alguém escandalize um destes pequeninos que creem em mim, melhor será que
lhe pendurem ao pescoço uma pesada mó e seja precipitado nas profundezas do mar.” (Mt 18:5-6)
227
N.T.: Lc 22:19-20
228
N.T.: Lc 22:42
229
N.T.: I Jo 1:7
230
N.T.: I Jo 1:5
Capítulo X – A Magia Branca e a Magia Negra
De tempos em tempos, conforme a exigência da ocasião, nós advertimos os Estudantes da Fraternidade
Rosacruz, em nossas cartas individuais, para não participarem de sessões espíritas, de lugares em que evocam
“Espíritos”, de demonstrações hipnóticas ou de lugares onde o incenso é queimado pelos diletantes do ocultismo. A
Magia Negra é praticada tanto consciente como inconscientemente e, de tal forma, que chega a ser até inacreditável.
O “perverso magnetismo animal”, que é somente outro nome dado à Força Negra, é responsável por mais fracassos
nas atividades profissionais, na perda da saúde e infelicidade nos lares do que a maioria das pessoas pode imaginar.
Mesmo os que perpetram tais ultrajes são, muitas vezes, inconscientes do mal que praticam. Portanto, me parece
oportuno dedicar um capítulo à explanação de algumas leis de magia, que são as mesmas para a branca e para a
negra. Há somente uma força, e essa pode ser usada para o bem ou para o mal; e de acordo com as razões que a
motivam e do uso que é feito dela, se torna negra ou branca.
É um axioma científico que “Ex nihil, nihil fit” (do nada, nada vem). Deve haver uma semente antes que haja
uma flor, porém, de onde veio a primeira semente é algo que a ciência não consegue explicar. O ocultista sabe que
todas as coisas vieram do arche, a essência infinita do Caos, usada por Deus, o Grande Arquiteto, para a construção do
nosso universo; e dado o núcleo de alguma coisa, o mago proficiente, como resultado da prática e de treinamento,
pode usar, como uma fonte de recurso, a mesma essência para uma necessidade posterior. Cristo, por exemplo, tinha
alguns pães e alguns peixes231 e, por meio daqueles núcleos, Ele usou, como uma fonte de recurso, a essência
primordial do Caos para suprir o que Lhe faltava, realizando o milagre de alimentar uma multidão. Um mago humano,
cujo poder não é tão elevado, pode mais facilmente usar, como fonte de recurso, as coisas que já se tenham
materializado, vindas do Caos. Ele pode pegar flores ou frutas pertencentes a alguém, numa distância de quilômetros
ou centenas de quilômetros, desintegrá-las em seus constituintes atômicos, transportá-las através do ar e fazer com
que elas assumam suas formas físicas regular no lugar onde está entretendo as pessoas a sua volta com o objetivo de
surpreendê-las. Tal magia é, no mínimo, cinza, ainda que ele envie o pagamento pelas flores ou frutas que ele tirou de
quem as pertencia; se ele assim não o fizer, é Magia Negra, pois roubou bens que pertencia a alguém. A magia para
ser branca precisa, sempre, ser utilizada altruisticamente, e mais ainda: com propósitos nobres – como, por exemplo,
salvar uma pessoa que está sofrendo. Cristo, quando alimentou a multidão, a partir do Caos, justificou Sua atitude
pelo fato dessas pessoas estarem com Ele há vários dias e, se tivessem que voltar para os seus lares sem o alimento
físico, por certo, desmaiariam pelo caminho e sofreriam privações.
Deus é o Grande Arquiteto do Universo e os Iniciados das Escolas de Magia Brancas são, também, “arche-
tektons”, construtores da essência primordial em suas atividades beneficentes à humanidade. Esses Auxiliares
Invisíveis necessitam de um núcleo do Corpo Vital do paciente que, como sabem os Estudantes da Fraternidade
Rosacruz, lhes é fornecido pelos eflúvios vindos da mão do solicitante e que impregnam o papel 232 quando ele assina
pedindo auxílio e cura. Com esse núcleo do Corpo Vital do paciente, eles podem usar, como fonte de recurso, a
matéria virgem necessária para restaurar a saúde, reconstruindo e fortalecendo o organismo afetado.
Os Magos Negros são espoliadores, atuam pelo ódio e pelo desejo de causar dor, injúria e angústia a outra
pessoa. Eles, também, precisam de um núcleo para suas ações nefastas e conseguem mais facilmente obter tal núcleo
do Corpo Vital da vítima nas sessões espíritas, em lugares em que evocam “Espíritos” ou em sessões hipnóticas, onde
os participantes relaxam, se colocam num estado mental negativo, deixam cair seus maxilares, enfraquecendo suas
individualidades por meio de outras práticas distintas mediúnicas. Mesmo as pessoas que não frequentam esses
lugares não estão totalmente imunes, pois há certas partes do Corpo Vital que são ignorantemente dispersadas pelas
pessoas e que podem ser usadas eficazmente pelos Magos Negros. As principais partes do Corpo Vital que são
utilizadas pelos Magos Negros são o cabelo e as unhas. Os praticantes da magia vodu 233 usam a placenta para seus
propósitos horríveis. Um ser humano particularmente perverso, cujas práticas foram expostas há alguns anos atrás,
obtinha de meninos o fluído vital que ele usava para seus atos demoníacos. Até mesmo uma coisa tão simples como
um copo com água, colocado bem próximo a certas partes do corpo de uma vítima em perspectiva, pode absorver
uma parte do Corpo Vital da vítima, enquanto o Mago Negro conversa com ela. Isso fornecerá ao Mago Negro o
231
N.T.: veja na Bíblia em Mc 8:1-9 e Mt 15:32-39
232
N.T.: Ou seja, uma caneta carregada de fluído, como é o nanquim da caneta tinteiro (ou pena mosquitinho), que é um
condutor de magnetismo muito maior do que um lápis seco ou uma caneta esferográfica ou hidrográfica ou, ainda, qualquer
outro tipo de meio de escrita. O Éter, que impregna o papel sobre o qual o paciente escreve, semana a semana, fornece uma
indicação de sua condição no momento da escrita, e é uma chave de entrada para acesso à parte (ou -partes) doentes do seu
Corpo. Conforme mude o estado do paciente, muda igualmente o registro nas Fichas semanais! É algo que ele deu
voluntariamente e com o propósito expresso de fornecer acesso aos Auxiliares Invisíveis. A menos que o doente faça a sua parte
nesse aspecto, os Auxiliares Invisíveis são incapazes de fazer qualquer coisa pelo paciente. Portanto: os eflúvios que procedem
da mão do paciente ao escrever proveem aos Auxiliares Invisíveis uma chave de admissão ao organismo do paciente. Por mais
simples que seja essa regra, são muitos os que deixam de cumpri-la!
233
N.T.: também escrito: vodum, vudu é uma tradição religiosa que é derivada do politeísmo africano e do culto aos ancestrais e
é praticada principalmente no Haiti.
núcleo necessário, ou poderá obter esse núcleo necessário de um pedaço de roupa da pessoa. A mesma emanação
invisível contida em uma vestimenta, que orienta um cão de caça na pista de determinada pessoa, não só guiará o
Mago Branco ou Negro à residência daquela pessoa, como ainda fornecerá a chave do seu organismo ao Mago Branco
ou Negro, que poderá ajudar ou prejudicar aquela pessoa, de acordo com a intenção do Mago.
Há, porém, métodos para se proteger das influências com disposições hostis, inimigas ou prejudiciais, as quais
faremos menção na última parte desse capítulo. Debatemos longamente o fato de ser ou não prudente chamar a
atenção dos Estudantes Rosacruzes para esses fatos, e chegamos à conclusão de que não devemos imitar o avestruz,
que esconde sua cabeça num buraco na areia quando o perigo se aproxima. É melhor estarmos esclarecidos quanto às
coisas que nos ameaçam para que, numa emergência, possamos tomar as precauções necessárias. A batalha entre as
forças do bem e do mal está sendo travada com tal intensidade, que quem não estiver empenhado no verdadeiro
combate não poderá compreender a natureza e o significado disso. Os Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz e outras
ordens afins que, podemos dizer, representam o Santo Graal em sua totalidade, vivem do amor e da essência do
serviço altruísta, que eles recolhem e armazenam como as abelhas que juntam o mel, de todos os que estão se
esforçando para viver a vida na sua plenitude. Isso acrescenta brilho ao Santo Graal, que se torna mais esplendoroso
irradiando uma influência mais forte sobre aqueles que estão espiritualmente inclinados, permeando-os e
influenciando-os de um maior ardor, de um maior zelo e de uma maior dedicação ao trabalho amoroso, no combate
da luta pelo bem. Semelhantemente, as forças do mal do Graal Negro florescem através do ódio, da traição, da
crueldade e de todos os atos demoníacos do calendário do crime. Tanto as forças do Graal Branco como as do Graal
Negro necessitam de um sustento, de um pábulo, um fornecido pelo bem, o outro pelo mal, para a continuidade da
existência deles e poder para lutar. Se eles não conseguirem obter o que necessitam, eles passam fome e se tornam
enfraquecidos. Daí a luta implacável que está ocorrendo entre os dois.
Todas as noites, à meia-noite, os Irmãos Maiores prestam um serviço onde abrem os seus peitos para atrair os
dardos de ódio, inveja, dos desejos de causar dor, injúria e angústia a outra pessoa e de todo o mal que tenha sido
perpetrado nas últimas vinte e quatro horas. Primeiro, para que eles possam privar as forças do Graal Negro de obter
alimento; e segundo, para que eles possam transmutar o mal em bem. Então, da mesma maneira que as plantas
juntam o inerte dióxido de carbono exalado pela humanidade e a partir daí constroem seus corpos, os Irmãos do
Santo Graal transmutam o mal dentro do templo; e da mesma maneira que as plantas expelem o oxigênio renovado
tão necessário à vida humana, assim também os Irmãos Maiores devolvem à humanidade a essência do mal
transmutado como remorso, contrição ou compunção para que, juntamente com o bem, o mundo cresça cada dia
melhor.
Os Irmãos Negros, ao invés de transmutar o mal, infundem a esse mal uma energia dinâmica maior e, em sua
missão, o lançam em vãos esforços para conquistar os poderes do bem. Para esses fins, eles usam os Elementais e
outras entidades desencarnadas, as quais, sendo de uma ordem inferior, estão disponíveis para tais práticas
repulsivas, qual delas necessitam. No passado, quando as pessoas queimavam óleo advindo de gordura animal ou
velas feitas do sebo de animais, os Elementais se aglomeravam ao redor do óleo ou das velas como diabos ou
demônios, procurando obsediar aquele que oferecesse urna oportunidade. Até mesmo as velas de cera oferecem
alimento para essas entidades, porém, os modernos métodos de iluminação por eletricidade, carvão ou mesmo velas
de parafina são inadequados para os Elementais. Eles ainda gravitam por bares, matadouros e lugares semelhantes
onde existem animais e pessoas parecidas com os animais. Eles também gostam muito de lugares onde se queime
incenso, pois isto lhes oferece um meio de acesso fácil, e quando os participantes de sessões inalam o odor do
incenso, estão inalando também os Espíritos Elementais que os vão afetar de acordo com o caráter de cada um.
É aqui onde podemos usar a proteção da qual falamos anteriormente. Quando vivemos vidas de pureza,
quando nossos dias são preenchidos em serviços para Deus e para nossos irmãos e as nossas irmãs com pensamentos
e ações da mais alta nobreza, então estamos criando para nós o Dourado Manto Nupcial, que é uma força radiante
para o bem. Nenhum mal é capaz de penetrar essa armadura, pois o mal age, então, como um bumerangue e retorna
para aquele que o enviou, devolvendo-lhe o mal que ele engendrou.
Mas, infelizmente, nenhum de nós é completamente bom. Conhecemos muito bem a guerra travada entre a
carne e o Espírito. Não podemos ignorar o fato de que, assim como São Paulo, “com efeito, não faço o bem que eu
quero, mas pratico o mal que não quero.”234. Frequentemente nossas boas resoluções redundam em nada e fazemos o
mal porque é mais fácil. Portanto, todos temos o núcleo do mal dentro de nós, que permite o “abre-te-sésamo” para
que essas forças do mal possam agir. Por esta razão, é melhor não nos expormos sem necessidade em lugares onde
são efetuadas sessões com Espíritos invisíveis, mesmo que seus ensinamentos pareçam elevados para os mais
incautos. Mesmo como espectadores, não devemos participar de demonstrações hipnóticas, pois uma atitude
negativa pode deixar a pessoa sujeita ao perigo da obsessão. Deveríamos seguir sempre o conselho de São Paulo e nos
revestir com a completa armadura de Deus.
Devemos ser positivos em nossa luta pelo bem contra o mal, e nunca perder uma oportunidade de ajudar os
Irmãos Maiores por meio da palavra ou da ação na Grande Luta pela supremacia espiritual.
234
N.T.: Rm 7:19
Capítulo XI – Nosso Governo Invisível
É bem sabido dos Estudantes da Filosofia Rosacruz que cada espécie de animal é dominada por um Espírito-
Grupo, que é o guardião e que cuida dela – como um protetor – com o objetivo de guiá-la pelo Caminho da Evolução
naquilo que for mais conveniente para o desenvolvimento de cada espécie animal; não importa qual a posição
geográfica desses animais; o leão nas selvas da África é dominado pelo mesmo Espírito-Grupo do leão que está na
jaula de um zoológico em qualquer lugar do mundo. Portanto, esses animais são semelhantes em todas as suas
principais características: têm os mesmos gostos e as mesmas aversões com respeito à alimentação, e agem de
maneira quase idêntica sob circunstâncias similares. Se alguém quer estudar a espécie dos leões ou dos tigres tudo o
que é necessário é estudar um deles, pois esse não tem o poder de escolha nem de prerrogativa, mas age
inteiramente de acordo com o que dita o Espírito-Grupo. O mineral não pode escolher se vai se cristalizar ou não; a
rosa é impelida a desabrochar; o leão é compelido a caçar e matar por comida; e em cada caso a atividade é ditada
completamente pelo Espírito-Grupo.
Porém, o ser humano é diferente; quando queremos estudá-lo, percebemos que cada indivíduo é como se
fosse uma espécie única em si mesmo. O que um faz sob determinada circunstância, não indica o que o outro fará em
circunstância idêntica; “o que é bom para um, pode não ser para outro”; cada um tem diferentes preferências e
aversões. Isso ocorre porque o ser humano, como o vemos no Mundo Físico, é a expressão de um Espírito interno
individual, aparentemente tendo escolhas e prerrogativas.
Mas, na verdade, o ser humano não é tão livre quanto parece; todos os estudiosos da natureza humana já
observaram que, em certas ocasiões, um grande número de pessoas agiria como se estivesse dominado por um único
Espírito. É fácil notar, também, sem recorrer ao ocultismo, que as diferentes nações têm certas características físicas
próprias. Todos nós conhecemos os tipos alemães, franceses, ingleses, italianos e espanhóis. Cada uma dessas nações
tem características que diferem das de outras nações, indicando assim que deve haver um “ Espírito de raça” na raiz
dessas peculiaridades. O ocultista que é dotado de visão espiritual sabe que isso é um fato, que cada nação tem um
Espírito de Raça diferente que a envolve e paira como uma nuvem sobre o país inteiro. Nele as pessoas vivem, se
movimentam e têm a existência delas; é o guardião delas e está constantemente trabalhando para o desenvolvimento
delas, construindo a civilização delas e amparando ideais da mais elevada natureza, compatíveis com a capacidade
delas para o progresso.
Na Bíblia nós lemos que Jeová, Elohim, que era o Espírito de Raça dos judeus, foi adiante deles numa coluna
ou numa nuvem, e no Livro de Daniel tomamos um conhecimento considerável do funcionamento e mecanismo
desses Espíritos de Raça. A imagem vista por Nabucodonosor com cabeça de ouro e pés de argila mostrava,
claramente, como uma civilização construída inicialmente com ideais dourados, pouco a pouco, degenerou até que na
última parte de sua existência os pés eram de argila instável e desagregada e a imagem foi condenada a ruir. Assim,
todas as civilizações quando cuidadas e orientadas, durante os estágios iniciais da existência, pelos diferentes Espíritos
de Raça tiveram grandes e dourados ideais, mas a humanidade, por ter algum livre-arbítrio e algum poder de escolha,
não segue implicitamente os ditames dos Espíritos de Raça, como os animais seguem os comandos dos Espíritos-
Grupo. Por essa razão, com o correr do tempo, uma nação para de crescer e, como não pode haver imobilidade no
cosmos, começa a degenerar até que, finalmente, os pés são de argila e é necessário desferir um golpe para destruí-la,
para que outra civilização possa ser construída sobre suas ruínas.
Mas, os impérios não caem sem um forte golpe físico e, consequentemente, um instrumento do Espírito de
Raça de uma nação é sempre levantado no momento em que essa nação está condenada a cair. Nos Capítulos X e XI
do Livro de Daniel temos uma explicação de uma visão do funcionamento e mecanismo dos governos invisíveis dos
Espíritos de Raça, os poderes por detrás do trono. Daniel estava muito perturbado em Espírito; jejuava por três
semanas completas, rezando por iluminação e, ao final desse período, um Arcanjo, um Espírito de Raça, apareceu
diante dele e lhe dizendo: “Não temas, homem das predileções, pois desde o primeiro dia em que aplicaste o teu
coração a compreender e a te mortificar na presença de teu Deus, foram ouvidas as tuas palavras e eu vim por causa
dos teus rogos. Porém, o príncipe do reino dos Persas resistiu-me por vinte e um dias; mas eis que veio em meu socorro
Miguel, um dos primeiros príncipes, e eu fiquei lá junto do rei dos Persas”. Em seguida, explica a Daniel o que irá
acontecer: “Sabes tu porque eu vim ter contigo? Tenho de voltar para combater o Príncipe da Pérsia: quando eu tiver
partido, deverá vir o Príncipe de Javã. Ninguém me presta auxílio para essas coisas senão Miguel, vosso Príncipe ”. O
Arcanjo também disse: “e eu, no primeiro ano de Dario, o Medo, me mantive firme para ajudá-lo e sustentá-lo.”.
Assim, quando a sentença é dada, alguém se erguerá para gerir o golpe; pode ser um Ciro, um Dario, um
Alexandre, um César, um Napoleão ou um kaiser. Esse poderá pensar que é o primeiro a iniciar tal movimento, um
indivíduo livre agindo por sua própria escolha e prerrogativa, mas, na verdade, é somente o instrumento do governo
invisível do mundo, o poder por detrás dos tronos, os Espíritos de Raça, que veem a necessidade de destruir
civilizações que já viveram além da utilidade delas, de modo que a humanidade possa ter um novo começo e possa
evoluir sob um novo ideal, mais elevado do que aquele que a animava antes.
O próprio Cristo, quando na Terra na sua primeira vinda, disse: “Vim não para trazer a paz, mas uma
espada”235, pois era evidente para Ele que, enquanto a humanidade estivesse dividida em raças e nações, não poderia
haver “paz na Terra e boa vontade entre os homens”236. Somente quando as nações se unirem numa fraternidade
universal é que a paz será possível. As barreiras do nacionalismo devem ser abolidas e, para esse fim, nos Estados
Unidos da América têm sido trabalhado para ser um cadinho, onde tudo aquilo que há de bom das nações antigas está
sendo reunido e amalgamado para que uma nova raça com ideais mais elevados e sentimentos de fraternidade
universal possa nascer para a Era Aquariana. Entretanto, as barreiras do nacionalismo já foram parcialmente
destruídas na Europa, através do terrível conflito que teve seu fim há pouco tempo 237. Isso faz aproximar o Dia da
Amizade universal e a realização da Fraternidade entre os seres humanos.
Há, também, outro objetivo a ser conquistado. De todos os terrores aos quais a humanidade está sujeita, não
há nenhum maior que a morte, que nos separa daqueles que amamos, pois somos incapazes de vê-los depois que
deixaram os seus corpos. Mas, tão certamente como ao dia se segue a noite, assim também todas as lágrimas vertidas
destruirão a camada que agora cega os olhos do ser humano ocultando-lhe a terra dos mortos que vivem. Já
dissemos, repetidas vezes e reafirmamos agora, que uma das maiores bênçãos que advirá da guerra será a visão
espiritual que se desenvolverá num grande número de pessoas. A intensa e profunda angústia, tristeza e
arrependimento dos milhões de seres humanos, o anseio de rever os entes queridos que lhes foram arrebatados tão
brusca e cruelmente, são uma força de incalculável potência e poder. Da mesma maneira, aqueles que morreram
prematuramente e se encontram agora nos Mundos invisíveis estão igualmente desejosos de rever seus entes
próximos e queridos para lhes transmitir palavras de conforto que possam convencê-los de seu bem-estar. Assim,
podemos dizer que dois grandes exércitos compostos de milhões e milhões estão, com enorme energia e intensidade,
abrindo um túnel com o propósito de ligar os Mundos invisíveis ao Mundo visível. Dia após dia, esse véu está ficando
mais tênue e, mais cedo ou mais tarde, os vivos e os mortos que vivem se encontrarão no meio do túnel. Antes que
percebamos, a comunicação será estabelecida e isso constituirá uma experiência tão comum que, quando nossos
entes amados saírem de seus corpos gastos e doentes, não sentiremos nenhuma angústia ou tristeza e nem a perda,
porque seremos capazes de vê-los em seus corpos etéricos, movimentando-se entre nós como costumavam fazer.
Então, sairemos vitoriosos do grande conflito com a morte e poderemos dizer: “Oh, morte, onde está teu aguilhão?
Oh, tumba, onde está tua vitória?”238.

235
N.T.: Mt 10:34
236
N.T.: Lc 2:14
237
N.T.: O autor se refere à Primeira Guerra Mundial.
238
N.T.: I Cor 15:55
Capítulo XII – Preceitos Práticos para Pessoas Práticas
“Se eu tivesse que fazer negócios seguindo os princípios formulados no Sermão da Montanha, estaria
totalmente arruinado em menos de um ano”, disse um crítico, recentemente. “Isso porque é absolutamente
impraticável seguir a Bíblia em nossas atuais condições econômicas; é impossível viver de acordo com ela.”
Se isso é verdade, aqui está uma boa razão para o ceticismo nas questões de fé e de Religião do mundo, mas
como num tribunal é sempre permitido ao acusado um julgamento justo, então vamos examinar a Bíblia do começo
ao fim antes de julgá-la. Quais são as acusações específicas? “Porque elas são incontáveis”, respondeu o crítico, mas
para citar apenas algumas delas, vamos tomar certas passagens como: ‘Bem-aventurados os pobres em Espírito,
porque deles é o Reino dos Céus’, ‘Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra’ 239, ‘Por isso, não andeis
preocupados, dizendo: Que iremos comer? Ou, que iremos beber? Ou, que iremos vestir?’240.
“Muito bem”, diz o apologista, “consideremos primeiramente a última asserção. A versão da Bíblia do Rei
Jaime diz: “Nenhum homem pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se apegará a
um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom. Por isso eu vos digo: Não vos preocupeis pela vossa
vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir.
Não é a vida mais do que a comida, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu; pois elas não
semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai Celeste as alimenta. Não sois vós muito melhores do que
elas? Mas quem de vós, com suas preocupações, poderá acrescentar um côvado à sua estatura? E quanto às vestes,
por que vos preocupeis? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam. E eu vos digo que
nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, vestiu-se como um deles. Portanto, se Deus assim veste a grama do
campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais, ó vós de pequena fé? Portanto, não
fiqueis ansiosos, dizendo: O que comeremos ou o que beberemos, ou com que nos vestiremos? (Porque todas essas
coisas os gentios buscam). Porquanto vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas essas coisas. Mas buscai
primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas”241.
Se isso pretende significar que devemos desperdiçar gastando prodigamente tudo o que temos, vivendo de
maneira perdulária ou desenfreada, então, é realmente uma ideia impraticável, além de desmoralizante. Contudo, tal
interpretação não está de acordo com o conteúdo e o ensinamento de toda a Bíblia, e não é isso que se quer dizer. A
palavra grega merimnon significa ser excessivamente cuidadoso ou ansioso, e se lermos a passagem com essa
alteração nós descobriremos que ela ensina uma lição diferente, que é inteiramente praticável. “Mammon” é a
palavra siríaca242 para as riquezas desejadas pelas pessoas sem bom senso ou sem julgamento, imprudentes ou
néscias. No parágrafo anterior, Cristo exortou-os a não se tornarem servos ou escravos das riquezas, as quais devem
ser abandonadas quando o Cordão Prateado se rompe e o Espírito retorna a Deus e, além disso, que almejassem viver
vidas praticando o amor, servindo e acumulando tesouros de boas ações, que poderão levar consigo para o Reino dos
Céus. Nesse meio tempo, Ele exortou-os para que não ficassem excessivamente ansiosos quanto ao que eles mesmos
deveriam comer, beber ou vestir. Por que a preocupação? Você não pode acrescentar nem um milésimo de milímetro
a mais na sua altura, nem um fio de cabelo em sua cabeça com essa preocupação. A preocupação é a mais inútil e
extenuante de todas as nossas emoções e não traz nada de bom e nem faz bem. O seu Pai celestial sabe que você
precisa das coisas materiais, portanto, busque primeiro o Seu Reino e a justiça, e tudo o mais necessário será
acrescentado. Em, pelo menos, duas ocasiões, quando multidões acompanhavam Cristo em lugares distantes de seus
lares e longe de cidades onde podiam obter o necessário para o sustento, Ele demonstrou isso; Ele deu à multidão
primeiro o alimento espiritual que procuravam e, então, atendeu às suas necessidades físicas diretamente de uma
fonte espiritual de abastecimento.
Isso funciona nos dias modernos? Certamente tem havido tantas demonstrações a esse respeito que não é
necessário relatar nenhuma em especial. Quando trabalhamos e oramos, oramos e trabalhamos, e fazemos das
nossas vidas uma prece viva de oportunidades para servir os outros, então, todas as coisas terrenas virão
naturalmente conforme tenhamos necessidades delas, e continuarão vindo, cada vez em maior escala, de acordo com
o grau em que forem usadas à serviço de Deus. Se nos consideramos apenas como administradores e guardiões de
quaisquer bens terrenos que possuímos, então somos realmente “pobres de Espírito”, no que diz respeito aos
evanescentes tesouros terrenos, mas ricos nos tesouros mais duradouros do Reino dos Céus; se não formos
totalmente materialistas, certamente essa é uma atitude prática.

239
N.T.: Mt 5:3-4
240
N.T.: Mt 6:31
241
N.T.: Mt 6:24-33
242
N.T.: a língua da Síria antiga, um dialeto ocidental do aramaico no qual muitos textos Cristãos primitivos importantes são
preservados e que ainda é usado pelos Cristãos sírios como língua litúrgica.
Não faz muito tempo que “caveat emptor”243, “o comprador que fique esperto”, era o lema dos negociantes
vendedores que procuravam riquezas terrenas e consideravam o comprador como sua presa legítima. Quando já
tinham vendido suas mercadorias e recebido o dinheiro, não se importavam se o comprador ficava satisfeito ou não.
Ainda se gabavam por ter vendido um artigo inferior que logo se desgastaria, como fica evidente no lema: “a
fragilidade da mercadoria é a força do comércio”. Porém, aos poucos, as mesmas pessoas que desprezavam a ideia de
introduzir a Religião em seus negócios, estão rejeitando esse “caveat emptor” como uma conduta e estão,
inconscientemente, adaptando o preceito de Cristo: “Aquele que quiser ser o maior entre vós, seja o servo de
todos”244. Em toda parte, os mais esclarecidos seres humanos que negociam vendas são insistentes em sua
reivindicação em proteger e cuidar bem do que venderam, com base no serviço que prestam ao comprador, porque é
uma política que tem retorno e que se paga e pode, consequentemente, ser classificada como outro dos preceitos
práticos da Bíblia.
No entanto, algumas vezes, acontece que, apesar do desejo desses mais esclarecidos seres humanos que
negociam vendas em servir corretamente a seus clientes, alguma coisa não corre bem, e um comprador zangado e
insatisfeito chega falando alto e agressivamente, depreciando até publicamente a mercadoria que adquiriu. Sob o
antigo e imprevisível regime de “caveat emptor”, o vendedor teria simplesmente sorrido ou expulsado o cliente do
recinto. Não é assim que o vendedor moderno se comporta, aquele que aplica a Bíblia em seus negócios. Ele relembra
a sabedoria de Salomão que dizia: “Uma resposta branda aplaca a ira”245 e a asserção de Cristo: “os humildes
herdarão a terra”246. Assim, ele se desculpa pelos defeitos da mercadoria, oferece uma restituição e o comprador,
anteriormente insatisfeito, sai sorrindo e ansioso para contar a forma corretíssima como o trataram. Então,
obedecendo os preceitos práticos da Bíblia, mantendo sua disposição de mansidão, de suavidade e de humildade, o
vendedor ganha mais clientes que confiam nele e têm certeza de que receberão um tratamento justo, e o lucro
adicional nas vendas será suficiente para equilibrar a perda ocasionada pelas mercadorias que causaram a insatisfação
dos outros clientes. Esse comportamento de mansidão resulta em um aumento financeiro, no entanto o aumento do
ponto de vista moral e espiritual será bem maior. Não existe um lema melhor para os negócios do que aquele que
pode ser encontrado no Livro de Eclesiastes: “Mais vale sabedoria do que armas...”247. “Que tua boca não se precipite
e teu coração não se apresse em proferir uma palavra...”248. “...pois a irritação mora no peito dos insensatos.” 249 Tato e
diplomacia são sempre melhores que a força; pois como diz o Livro de Deus: “Se o machado está cego e não for
afiado, é preciso muita força; é mais vantajoso usar sabedoria”250. A linha de menor resistência, desde que seja pura e
honrada, é sempre a melhor. Assim, “amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem...”251 “...e faça o bem a
eles”252.
É uma boa prática de negócios tentar nos reconciliar com aqueles que nos prejudicaram para que não façam
outra vez; e é melhor para nós superarmos nossas animosidades ou nossos ressentimentos do que os nutrir, pois o
que o ser humano semear, isso também colherá, e se semeamos desejos de ferir, de aborrecer ou ofender alguém ou,
ainda, se semeamos a mesquinharia, a baixeza, a mediocridade, a injustiça, reproduzimos e produzimos, como efeito
e consequência, sentimentos da mesma natureza nos outros. Tudo isso se aplica, também, à vida particular e aos
relacionamentos sociais como nos negócios cotidianos. Quantas discussões acaloradas e discordantes – geralmente
243
N.T.: Caveat emptor é uma expressão em língua latina (ou latim) que significa, literalmente, “(toma) cuidado, comprador”.
Em uma tradução livre, significa “o risco é do comprador”. Ao colocar à venda um produto sob as regras do “caveat emptor”, o
vendedor diz que não garante a qualidade ou procedência do produto. Cabe ao comprador avaliar a situação do bem e
entender que defeitos ocultos não serão reembolsados. Esse tipo de venda é comum em leilões de carros, em que não é possível
fazer um “test drive” ou uma revisão prévia do automóvel. Compra-se o que se vê. Qualquer defeito que o carro tiver, faz parte
do pacote. Cabe ao consumidor munir-se de informações e cuidados para tomar a decisão de compra, não recaindo sobre o
ofertante responsabilidades maiores, além de atuar dentro dos limites da lei.
A situação oposta ao “caveat emptor” é o “caveat venditor”. Nesse caso, o vendedor do produto deve dar a garantia
de que, se o produto estiver estragado ou tenha procedência duvidosa, será trocado por um novo – ou o dinheiro
pago será devolvido pelo vendedor. Entretanto, o vendedor pode estabelecer limites à garantia, desde que tais limites
sejam previamente informados ao comprador. Esse tipo de situação impera nas relações de consumo no Brasil, desde
a vigência do Código de Defesa do Consumidor.
244
N.T.: Mt 20:26
245
N.T.: Pb 15:1
246
N.T.: Mt 5:5
247
N.T.: Ecl 9:18
248
N.T.: Ecl 5:1
249
N.T.: Ecl 7:9
250
N.T.: Ecl 10:10
251
N.T.: Mt 5:44
252
N.T.: Mc 6:35
sobre assuntos triviais e entre pessoas que, geralmente, têm bons relacionamentos – não poderiam ser evitadas se
cultivássemos a virtude da mansidão, da suavidade e da humildade em nossos lares; quanto regozijo obteríamos;
quanta felicidade entraria em nossas vidas, se em nossos relacionamentos sociais e profissionais aprendêssemos a
“fazer aos outros o que gostaríamos que fizessem a nós”253!
Não há necessidade para a grande tensão mental que muitos de nós despendem na preocupação do que
deveriam comer e o que deveriam beber. Nosso Pai Celestial possui a Terra e toda abundância que nela há; os
rebanhos de animais e tudo o mais em milhares de campos são d’Ele. Se aprendermos verdadeiramente a entregar
nossos cuidados a Ele, não há dúvida que a solução para resolver todas as nossas dificuldades será providenciada. É
um fato, conhecido por todos que investigaram o assunto, que poucas pessoas, comparativamente, morrem por falta
de recursos necessários à vida, mas, muitos morrem pela indulgência excessiva – especialmente excessivo consumo
de alimentos, de bebidas, etc. – aos seus apetites. É experiência prática e constante do autor, e de muitas outras
pessoas, que se nós fizermos fielmente o nosso trabalho do dia a dia da forma como ele se apresenta diante de nós,
dando o melhor que pudermos, o melhor da nossa capacidade, os recursos para o amanhã sempre serão fornecidos.
Se seguirmos as instruções da Bíblia, fazendo tudo “como se fosse para o Senhor”254, não importa que linha de
trabalho honesto realizemos: nós estaremos, então, ao mesmo tempo, buscando o Reino de Deus. Mas, se somos
apenas servos temporários, trabalhando por medo ou favor, não poderemos esperar ser bem-sucedidos a longo
prazo; saúde, riqueza e felicidade podem nos servir por pouco tempo, mas fora dos fundamentos sólidos da Bíblia não
pode haver prazer duradouro na vida e nem a real prosperidade nos negócios.

253
N.T.: Lc 6:31
254
N.T.: Cl 3:23
Capítulo XIII – O Som, O Silêncio e o Crescimento Anímico
Os Estudantes sinceros da Ciência da Alma são, naturalmente, ansiosos para “crescerem na graça”255 a fim de
que eles possam servir o melhor possível no Grande Trabalho de Ascensão Humana. Sendo humildes e modestos,
estão tristemente conscientes das suas deficiências, mas, frequentemente, enquanto procuram ao redor por meios
que facilitam o progresso, eles se perguntam: “O que dificulta ou torna tão lento o meu progresso?”. Alguns,
especialmente em tempos passados, quando a vida era menos intensa do que agora, perceberam que a vivência
cotidiana entre as pessoas comuns tinha muitas desvantagens. Para vencê-las e promover o crescimento anímico, se
retiravam da comunidade para um mosteiro ou para as montanhas, onde podiam se dedicar à vida espiritual sem
serem perturbados.
Nós sabemos, no entanto, que aquele não é o caminho. Está bem definido nas Mentes da maioria dos nossos
Estudantes Rosacruzes que se nós fugimos de uma experiência hoje, iremos confrontá-la novamente amanhã, e que a
palma da vitória256 é conseguida vencendo ou superando o mundo, não fugindo dele. O ambiente no qual fomos
colocados pelos Anjos do Destino foi de nossa própria escolha, quando estávamos no momento decisivo do nosso
ciclo de vida no Terceiro Céu. Éramos, então, Espíritos puros 257, livres da cegueira ou ilusão da matéria que agora
cobre a nossa visão. Assim, sem dúvida, aquela experiência contém as lições necessárias para nós, e cometeríamos um
grave erro se tentássemos escapar dela completamente.
Contudo, recebemos uma Mente para um propósito definido: raciocinar sobre coisas e condições de modo
que possamos aprender a discernir entre o que é essencial e o que não é essencial, entre o que é projetado para
dificultar ou tornar tão lento com o propósito de nos ensinar uma virtude para sobrepassá-la e aquilo que é um
empecilho, que abala as nossas sensibilidades e arruína os nossos nervos sem qualquer ganho espiritual
compensatório. Será maior o proveito se nós pudermos aprender a diferenciar a fim de conservarmos as nossas
forças, aceitando apenas o que devemos suportar em prol do nosso bem-estar espiritual. Então, economizaremos
muita energia e teremos muito mais entusiasmo para seguirmos em direções mais produtivas do que temos agora. Os
detalhes desse problema são diferentes em cada vida aqui; entretanto, há certos princípios gerais que nos
beneficiarão a compreender e a aplicá-los em nossas vidas, e entre eles está o efeito do silêncio e do som no
crescimento anímico.
Em um primeiro vislumbre ou uma primeira impressão pode nos surpreender a afirmação de que o som e o
silêncio são fatores muito importantes no crescimento anímico, mas, quando examinamos o assunto, logo
percebemos que isso não é uma noção absurda. Primeiro, consideremos a expressão gráfica: “A guerra é um inferno”,
e depois vamos imaginar uma cena de guerra. A visão é aterrorizante, ainda mais para aqueles que veem isso com
uma visão espiritual mais clara do que para os que estão limitados pela visão unicamente física, pois esses últimos
podem, pelo menos, fechar os olhos deles para isso se o quiserem, porém, o verdadeiro horror da situação é sentido,
pesadamente, no coração do Auxiliar Invisível, que não só ouve e vê, mas sente em seu próprio ser a angústia e a dor
de tudo que o circunda, sofrendo como Parsifal 258 sentia, no coração dele, a ferida de Amfortas 259, o rei do Graal
seriamente ferido; de fato, sem aquele intenso sentimento íntimo de unidade com o sofrimento, não poderia haver
nem a cura nem o auxílio. No entanto, há uma coisa da qual ninguém pode escapar, o terrível barulho das granadas, o
estrondear ensurdecedor dos canhões, o pipocar violento das metralhadoras, os gemidos profundos indicativos de
dores dos feridos e as ofensivas expressões de raiva e outras emoções semelhantes de uma certa classe de
participantes. Não precisamos de nenhum outro argumento para concordar que é, realmente, um “ruído infernal” e
255
N.T.: 2Pd 3:18
256
N.T.: O ramo de palmeira é um símbolo da vitória, do triunfo, da paz. A palma tornou-se tão intimamente associada à vitória
na cultura romana antiga que a palavra latina palma poderia ser usada como uma metonímia para “vitória”, e era um sinal de
qualquer tipo de vitória.
257
N.T.: Ego humano sem o Tríplice Corpo e sem a Mente (somente com os quatro Átomos-sementes desses veículos).
258
N.T.: Parsifal é uma ópera ou drama musical em três atos de Richard Wagner, e sua última composição. O libreto é vagamente
baseado no poema épico alemão médio do século XIII Parzival do Minnesänger Wolfram von Eschenbach, contando a história do
cavaleiro arturiano Parzival (Percival) e sua busca pelo Santo Graal.
259
N.T.: A ópera Parsifal se passa nas legendárias colinas do Monte Salvat, na Espanha, onde vive uma fraternidade de
cavaleiros do Santo Graal. O mago negro Klingsor teria construído um jardim mágico povoado com mulheres que, com seus
perfumes e trejeitos, seduziriam os cavaleiros e faria com que eles quebrassem seus votos de castidade, e teria ferido Amfortas,
rei do Graal, com a lança que perfurou o flanco de Cristo, e todas as vezes em que Amfortas olha em direção ao Graal sente a
ferida arder. Tal redenção só poderia ser realizada por um “inocente casto” (significado da palavra “Parsifal”). Esse, em sua
primeira aparição na ópera, surge ferindo um dos cisnes que purificavam a água do banho de Amfortas, e a todas as perguntas
que os cavaleiros lhe fazem responde dizendo que não sabe de nada, nem ao menos seu nome. Parsifal atravessa o jardim
mágico de Klingsor e é seduzido pela amazona Kundry, que ora é uma fiel serva do Graal, ora é escrava de Klingsor. Ao beijá-la,
sente os estigmas das feridas que afligiam Amfortas e, quando Klingsor atira a lança contra ele, a lança dá a volta em seu
corpo, e todo o castelo mágico é destruído. Tempos depois, tendo os cavaleiros se convencido de que ele é o “inocente casto”
que faria a salvação, Parsifal cura as feridas de Amfortas e o destrona, assumindo a nova condição de rei do Graal.
tão subversivo ao crescimento anímico quanto possível. O campo de batalha é o último lugar que alguém, com uma
Mente sã, escolheria para obter crescimento anímico, embora não devamos esquecer que muito desse crescimento
anímico foi alcançado pelas ações nobres e de auto sacrifício ali realizadas; mas, tais resultados foram alcançados
apesar das condições e não por causa delas.
Por outro lado, consideremos uma igreja ressoando com acordes de um canto gregoriano 260 ou de um oratório
de Haendel261, sobre os quais as orações da alma aspirante voam em direção ao Autor do nosso Ser. Essa música pode
ser, certamente, denominada “celestial” e a igreja designada como oferecendo uma condição ideal para o
crescimento anímico, mas, se lá permanecêssemos permanentemente, negligenciando nossos deveres,
fracassaríamos, apesar da condição ideal.
No entanto, resta apenas um método seguro para nós, isto é, um método que nos possibilite permanecer no
barulho dos campos da batalha do mundo, esforçando-nos para extrair, das condições menos promissoras, o material
necessário para o crescimento anímico, por meio do serviço altruísta, e, ao mesmo tempo, construir dentro de nós um
santuário repleto daquela música silenciosa que soa sempre na alma de quem serve amorosamente, como uma fonte
de elevação acima de todas as vicissitudes da existência terrena. Possuindo aquela “igreja viva” interna, tornando-nos
de fato, sob aquela condição, “templos vivos”, podemos voltar a qualquer momento, quando nossa atenção não for
legitimamente exigida pelos assuntos temporais, para aquela casa espiritual, não construída por mãos, nos banhando
em sua harmonia. Podemos fazer isso muitas vezes durante o dia e, assim, continuamente restaurar a harmonia que
foi perturbada pelas discórdias das relações mundanas.
Então, como devemos construir este Templo e enchê-lo com a música celestial que tanto desejamos? O que
ajudará e o que atrasará, impedirá ou evitará? Essas são questões que pedem uma solução prática, e devemos tentar
elaborar respostas da maneira mais simples possível, pois esse é um assunto de vital importância. As pequenas coisas
são particularmente importantes, pois o neófito precisa levar em conta até aquelas aparentemente insignificantes. Se
acendermos um fósforo em meio a um vento muito forte, ele se apaga antes que alcance qualquer ponto perceptível
de fogo, mas, se a pequena chama for colocada em um monte de mato ou galhos secos, e tiver a chance de crescer
devagar e com calma, o vento crescente atiçará a chama ao invés de apagá-la. Os Adeptos ou as Grandes Almas
podem permanecer serenos sob condições que perturbariam o Aspirante à vida superior comum, motivo por que tal
Aspirante deve utilizar o discernimento e não se expor desnecessariamente às condições contrárias ao crescimento
anímico; o que precisa, mais do que tudo, é um estado de equilíbrio estável, e nada é mais hostil ou prejudicial para
alcançar essa condição do que o ruído.
Não podemos negar que nossas comunidades são lugares, cenas e até situações em que há alvoroços e
confusões e que temos um direito legítimo de fugir, se possível, de alguns ruídos tais como os dos automóveis ao
fazerem uma curva. Não precisamos viver nessas esquinas em detrimento dos nossos nervos ou em prejuízo dos
nossos esforços de concentração, porém, se temos uma criança doente, chorando, que necessita dia e noite da nossa
atenção, não importando, inclusive, como isso afete os nossos nervos, nós não temos o direito, perante Deus e os
seres humanos, de fugir ou negligenciar o nosso dever com o pretexto de nos concentrar. Esses fatos são
perfeitamente óbvios e aceitos imediatamente, mas, as coisas que mais ajudam ou impedem são, na maioria e como
já dissemos, as tão pequenas que escapam inteiramente à nossa atenção. Quando começamos a enumerá-las,
poderão provocar um sorriso de incredulidade, porém, se forem ponderadas e praticadas, logo perceberemos que é
por aí mesmo, pois considerando o axioma, “pelos seus frutos os conhecereis.”262, elas demonstrarão resultados e
justificarão a nossa afirmação de que “o silêncio é um dos maiores auxiliares para o crescimento anímico”, e deve ser
cultivado pelo Aspirante à vida superior em seu lar, em seu comportamento pessoal em relação aos outros, em suas
caminhadas, em seus hábitos e, por mais paradoxal que pareça, até em suas conversas.
Uma prova do benefício da Religião é que ela faz as pessoas felizes, mas, a maior felicidade é, geralmente,
muito profunda para ser mostrada externamente. Preenche todo nosso ser com tal plenitude, que é algo de
extraordinário, e um modo de agir barulhento, tempestuoso ou turbulento nunca caminha junto com a verdadeira
felicidade, pois o ruído é o sinal da superficialidade. A voz alta, a risada espalhafatosa, os modos de agir barulhentos,
os saltos rijos dos sapatos que soam como batidas de martelo, o bater de portas e o barulho de pratos são as marcas
características de pessoas de sentimentos grosseiros, pois elas gostam muito de zoada e quanto mais, melhor, pois
excitam os Corpos de Desejos delas. Para tais pessoas, a música sacra ou litúrgica é um anátema; um conjunto musical
ou uma banda de instrumentos metálicos é preferível a qualquer outra forma de divertimento, e quanto mais
selvagem for a dança, melhor. Mas, isso não acontece, ou não deveria acontecer, com o Aspirante à vida superior.

260
N.T.: É um gênero de música sacra cristã de recitação salmódica. Tem seu início no Cristianismo primitivo. É um canto
monódico executado em uníssono com eventuais trechos em solo e executado sem acompanhamento de instrumentos, exceto
acompanhamento pelo órgão de tubos, já que esse foi inventado justamente para substituir as vozes faltantes.
261
N.T.: Georg Friedrich Händel ou Haendel (1685-1759) foi um compositor alemão, naturalizado cidadão britânico, considerado
um dos maiores compositores da música barroca.
262
N.T.: Mt 7:16
Quando o menino Jesus foi perseguido por Herodes, que tinha uma intenção criminosa, a única salvação dele
era a fuga e, por meio desse expediente foram preservados a sua vida e o seu poder para, assim, crescer e cumprir
com a missão dele. Similarmente, quando o Cristo interno nasce no Aspirante à vida superior, ele pode melhor
preservar essa vida espiritual fugindo ou se mantendo bem longe dos ambientes frequentados por pessoas que têm
tais sentimentos grosseiros, onde essas coisas que atrasam a evolução são praticadas, e procurar um lugar entre
pessoas de ideais semelhantes, desde que possa fazê-lo; mas, se colocado numa posição de responsabilidade para
com uma família, é o dever dele dedicar um esforço e uma energia árduos para alterar as condições por meios de
preceitos e exemplos, particularmente pelo exemplo, de maneira que, com o tempo, aquela atmosfera refinada e
suave que transmite harmonia e vigor possa reinar sobre toda a casa. Não é essencial, para a felicidade das crianças,
que lhes sejam permitidas o gritar com toda intensidade das vozes ou correr freneticamente pela casa, batendo portas
e quebrando móveis em sua desabalada carreira; é, de fato, decidida e obviamente prejudicial, pois ensina-lhes a
desrespeitar os sentimentos dos outros para a própria gratificação delas. Elas se beneficiarão mais do que a mãe ao
utilizarem calçados com solas de borracha ou de material que não faça barulho ao caminhar e se forem ensinadas a
reservar suas brincadeiras barulhentas para locais ao ar livre, brincando silenciosamente dentro de casa, fechando as
portas com cuidado e falando em tom de voz moderado, como os pais ou responsáveis devem fazer.
Na infância começamos a danificar os nossos nervos, os quais, mais tarde, nos incomodarão. Assim, se
ensinarmos às nossas crianças as lições acima indicadas, nós as pouparemos de muitos problemas na vida e, também,
ajudaremos o nosso próprio crescimento anímico agora. Isso pode levar alguns anos para corrigir um lar que tenha
esses erros aparentemente insignificantes e assegurar uma atmosfera que contribua para esse crescimento da alma,
especialmente se as crianças já se tornaram adultas e se ressentem de correções dessa natureza, mas vale muito a
pena tentar. Nós podemos e precisamos cultivar, pelo menos, a virtude do silêncio em nós mesmos ou nosso próprio
crescimento anímico será muito pouco. Talvez, se considerarmos esse problema sob o ponto de vista oculto em
conexão com o importante veículo, o Corpo Vital, essa necessidade ficará bem mais evidente.
Sabemos que o Corpo Vital está sempre armazenando força no Corpo Denso para ser utilizada nesta “Escola
de Experiência” e que, durante o dia, o Corpo de Desejos está constantemente dissipando essa energia em ações que
constituem a experiência a qual é, finalmente, transmutada em crescimento da alma. Sabemos isso muito bem, mas, o
Corpo de Desejos tem a tendência a se exceder, se não for contido com rédea curta. O Corpo de Desejos tem intenso
prazer e satisfação quando há movimentos sem restrições, quanto mais loucuras praticar, melhor, e se desenfreado
age sobre o Corpo Denso fazendo o assobiar, cantar, pular, dançar e fazer tantas outras coisas desnecessárias, tolas,
impróprias e carentes de dignidade que são, obviamente, tão nocivas e danosas a esse crescimento anímico. Enquanto
sob tal forte influência e atração de desarmonia e discórdia, a pessoa está como morta para as oportunidades
espirituais no Mundo Físico e, à noite, quando deixa seu Corpo Denso, o processo de restauração desse veículo
consome tanto tempo que sobra muito pouco, ou nenhum tempo para o trabalho espiritual, mesmo que a pessoa
tenha a inclinação para pensar seriamente em se dedicar a esse trabalho espiritual.
Portanto, devemos, por todos os meios, fugir dos ruídos que não somos obrigados a ouvir, e cultivar,
pessoalmente, o comportamento calmo e gentil, a voz modulada, o andar silencioso, a presença discreta e todas as
outras virtudes que contribuem para a harmonia a fim de que o processo de restauração seja rapidamente realizado e,
assim, ficarmos livres, a maior parte da noite, para trabalhar nos Mundos invisíveis, para adquirir mais crescimento
anímico. Lembremo-nos, nessa tentativa de melhoria, de não nos deixarmos intimidar pelos fracassos ocasionais,
recordando a admoestação de São Paulo de continuarmos fazendo o bem com paciência persistente.
Capítulo XIV - O “Magno Mistério” da Rosacruz
Ocasionalmente, nós recebemos cartas de Estudantes Rosacruzes se queixando de que eles estão sozinhos no
estudo da Filosofia Rosacruz, que os maridos deles, as esposas deles, os filhos deles ou outros parentes deles não
simpatizam ou até mesmo são contrários aos Ensinamentos Rosacruzes, apesar de todos os esforços dos referidos
Estudantes Rosacruzes para despertar o interesse desses amigos e, assim, obter a companhia deles nos estudos ou,
pelo menos, a liberdade para seguir o caminho escolhido por eles. Esse atrito lhes causa uma certa infelicidade, de
acordo com cada temperamento, e nós somos solicitados por esses Estudantes Rosacruzes a aconselhá-los como
superar o antagonismo das pessoas com quem eles se relacionam e convertê-las. Isso já temos feito por meio de
cartas pessoais e temos sido privilegiados por ajudar a mudar as condições em muitos lares quando nossas sugestões
foram seguidas; mas, nós sabemos que, frequentemente, aqueles que sofrem mais agudamente não se manifestam e,
portanto, decidimos tornar a discorrer um pouco sobre esse assunto.
Diz-se muito acertadamente que “pouco conhecimento é uma coisa perigosa” 263, e isso se aplica inteiramente
tanto aos Ensinamentos Rosacruzes como a outros assuntos. Portanto, o primeiro passo de todos é avaliar se você
tem o conhecimento suficiente para se certificar se está pronto para as perguntas e respostas que virão. Então, deixe-
me fazer uma pergunta: “O que são os Ensinamentos Rosacruzes que você está tão ansioso para compartilhar com os
outros e a quais desses Ensinamentos as pessoas se opõem? São as Leis gêmeas de “Causa e Efeito” e de
“Renascimento”? Elas são excelentes para explicar uma imensa quantidade de problemas da vida, são um grande
conforto quando o ceifador264 da vida aparece e nos rouba de nosso lar um ente próximo e querido. Mas, você deve
relembrar que há muitas pessoas que não sentem a necessidade de ter explicações sobre tais assuntos. Elas são, na
sua estrutura, composição ou constituição tão inaptas para aplicar esses conhecimentos, quanto um surdo-mudo o é
para usar um telefone. É verdade que trabalhamos com um aproveitamento maior quando conscientes da Lei e dos
objetivos dela, mas tenhamos consciência do fato que essas Leis trabalham para o bem de todos, quer tenhamos
conhecimento disso ou não e, portanto, esse conhecimento não é essencial. As pessoas não sofrerão nenhuma grande
perda por não assumirem prontamente ou com prazer essa doutrina, e podem escapar do perigo que carregam o
possuir “pouco conhecimento”.
Na Índia, onde essas verdades são conhecidas e milhões de pessoas acreditam nelas, as pessoas fazem pouco
esforço para o progresso material, porque sabem que elas têm um tempo infinito, e o que não conseguirem realizar
nesta vida podem esperar até na próxima vida ou nas outras à frente. Muitos ocidentais que assumiram prontamente
ou com prazer a doutrina do renascimento deixaram de ser membros úteis e ativos em sua comunidade adotando
uma vida de indolência, provocando, desse modo, a reprovação e a repreensão de muitos a esses chamados
ensinamentos superiores. Se seus amigos não quiserem aceitar esses ensinamentos, os deixem em paz. Fazer
conversões não é de modo algum o ponto essencial dos Ensinamentos Rosacruzes. O Guardião do Umbral não os
examinará quanto ao conhecimento, e eles podem admitir que são totalmente ignorantes sobre esse assunto, e bater
à porta na cara de outros que dedicaram a vida deles a estudar e a ensinar essas Leis.
Então, se as doutrinas de “Causa e Efeito” e “Renascimento” não são essenciais, o que dizer da complexa
constituição do ser humano? Certamente é essencial saber que nós não somos meramente esse corpo visível, mas que
temos um Corpo Vital que carrega esse corpo visível com energia, um Corpo de Desejos para gastar essa força, uma
Mente para guiar nossos esforços físicos ou mentais pelos canais da razão, e que somos Espíritos Virginais envoltos
em um véu tríplice como Egos. Não é essencial saber que o corpo físico é a contraparte material do Espírito Divino;
que o Corpo Vital é uma réplica do Espírito de Vida e que o Corpo de Desejos é a sombra do Espírito Humano,
enquanto a Mente forma a conexão entre o Tríplice Espírito e o Tríplice Corpo?
Não, não é essencial saber essas coisas. Esse conhecimento, quando usado apropriadamente, é uma
vantagem, mas pode ser, também, uma desvantagem evidente no caso daqueles que possuem somente “pouco
conhecimento” sobre esses assuntos. Há muitos que estão sempre meditando sobre o “Eu superior” enquanto se
esquecem inteiramente dos muitos “eu inferiores” gemendo de miséria nas portas deles. Há muitos que sonham, dia
e noite, com o momento de empreenderem seus voos de alma diários como “Auxiliares Invisíveis” e aliviarem os
sofrimentos dos doentes e daqueles que sofrem com profundas angústias, tristezas ou profundos arrependimentos,
ainda que não gastariam um só centavo numa corrida de táxi e nem uma hora do seu tempo para levar uma flor ou
uma palavra de carinho a uma pobre e solitária alma que está num hospital. Repito que é mais provável que o
Guardião do Umbral admita aquele que fez o que pôde, do que aquele que sonhou muito e nada fez para ajudar seus
semelhantes que sofrem.

263
N.T.: O provérbio ‘Um pouco de conhecimento é uma coisa perigosa’ expressa a ideia de que uma pequena
quantidade de conhecimento pode levar as pessoas a pensarem que são mais experientes do que realmente são, o
que pode levar a erros. Tal provérbio é atribuído a Alexander Pope (1688-1744).
264
N.T.: uma personificação da morte na forma de um esqueleto encapuzado empunhando uma grande foice.
Se você pudesse fazer com que as pessoas estudassem os Ensinamentos Rosacruzes sobre a morte e a vida
“post mortem”, você acharia importante que deveriam, também, conhecer sobre o Cordão Prateado, que permanece
sem se romper por um período de, aproximadamente, três dias e meio depois que o Espírito deixa o Corpo Denso, e
que o Corpo Denso deve ficar sem nenhum tipo de perturbação enquanto o Panorama da Vida que acaba de findar
está sendo gravado no Corpo de Desejos, para servir como árbitro da vida da pessoa nos Mundos invisíveis? Você
apreciaria que as pessoas conhecessem tudo sobre a vida do Espírito no Purgatório – como as más ações da vida
recém-finda reagem sobre ele em forma de dor para criar a consciência e evitar que se repita, numa vida posterior, os
atos que causaram sofrimento a alguém? Você gostaria que elas soubessem como as boas ações da vida recém-finda
são transformadas em virtudes que serão utilizadas em vidas posteriores, como já foi explicado em nossa Filosofia
Rosacruz?
Você, sem dúvida, ficou surpreso com a afirmação de que o conhecimento das grandes Leis gêmeas não é
essencial. Provavelmente, a próxima afirmação que é irrelevante se os outros aprenderam sobre a constituição do ser
humano, como a conhecemos, pode ter escandalizado você; e você, indubitavelmente, se sente chocado ao ouvir que
os Ensinamentos Rosacruzes, referentes à morte e à passagem do Espírito para os Mundos invisíveis são,
comparativamente, desnecessários para o objetivo que visamos alcançar. Realmente não importa se os seus pais
compreendem ou acreditem nesses Ensinamentos Rosacruzes. No que diz respeito ao seu próprio falecimento, um
pedido sincero para que deixem seu Corpo Denso quieto e imperturbável pelo período apropriado, provavelmente,
será cumprido ao pé da letra, pois as pessoas têm uma consideração quase supersticiosa por esse “último pedido”; e
se algum dos nossos amigos morrer, você está lá com o seu conhecimento e pode proceder da maneira correta para
com ele. Então, não importa se eles se recusarem a admitir essa parte dos Ensinamentos Rosacruzes.
Mas, o Estudante Rosacruz pode dizer: “Se um conhecimento dos assuntos mencionados acima, que parecem
de tanto valor prático é irrelevante para a progresso, então segue-se que os estudos sobre os Períodos, as Revoluções,
os Globos, os Mundo, etc., também são totalmente irrelevantes. Isso refuta tudo o que foi ensinado no livro ‘Conceito
Rosacruz do Cosmos’ e nada resta dos Ensinamentos Rosacruzes que temos abraçado e aos quais depositamos a nossa
fé!”.
Nada resta? Sim, de fato, TUDO RESTA, pois os pontos acima mencionados são somente a casca que você
deve remover para chegar ao fruto, à essência, ao cerne de tudo. Talvez você já tenha lido o livro “Conceito Rosacruz
do Cosmos” muitas vezes. Talvez você já o tenha estudado e se sente orgulhoso do seu conhecimento dos mistérios
do mundo, porém, você algum dia já leu o mistério escondido em cada entrelinha? Esse é o maior e o mais essencial
ensinamento, o único a ser ensinado e que desperta o interesse aos seus amigos, mas só se você conseguir encontrá-
lo e fornecê-lo a eles. O livro “Conceito Rosacruz do Cosmos” prega, em cada página, o EVANGELHO DO SERVIÇO.
Por nossa causa, a Divindade manifestou o universo. Todas as grandes Hierarquias Criadoras foram e algumas
delas ainda são nossas servas. Os luminosos Anjos estelares, cujos corpos ígneos vemos movimentando-se
rapidamente por todo o espaço, têm trabalhado conosco desde eras e, no devido tempo, Cristo veio para nos trazer o
ímpeto espiritual necessário para aquele momento. Também é extremamente significativo que na Parábola do Juízo
Final265 , Cristo não diz: “Bem fizeste, ó grande e erudito filósofo, ... conheces a Bíblia, a Kabala, o “Conceito” e todas as
outras literaturas misteriosas que revelam os intrincados trabalhos da natureza”, mas Ele disse: “Bem fizeste tu, bom e
fiel servo... entrarás na alegria do teu Senhor... Pois Eu estava com fome e Me deste de comer, Eu estava com sede, e
Me deste de beber...” Não há menção alguma à palavra conhecimento; toda a ênfase estava reservada à fidelidade e
ao serviço.
Há uma profunda razão oculta para isso: o serviço constrói o Corpo-Alma, o glorioso Traje Nupcial, sem o qual
nenhum ser humano pode entrar no Reino dos Céus, ocultamente chamado de “A Nova Galileia”, e não importa se
somos conscientes de que estamos indo nesse caminho, contanto que realizemos o nosso trabalho. Além do mais, à
medida que o luminoso Corpo Alma cresce internamente e ao redor de uma pessoa, essa luz lhe ensinará os Mistérios
sem a necessidade de livros, e aquele que assim aprende sobre Deus, conhece mais do que tudo que está contido em
todos os livros do mundo. Em seu devido tempo, a visão interna lhe será aberta e o caminho para o Templo lhe será
mostrado. Se você quer ensinar os seus amigos, não importa quão céticos possam ser, eles acreditarão em você, se
você pregar o evangelho do serviço.
Mas, você deve pregar por meio da prática. Você deve se tornar um servo de todos, se quiser que acreditem
em você. Se você quiser que eles o sigam, você deve servir como um canal, caso contrário, eles terão o direito de
questionar a sua sinceridade. Lembre-se: “Tu és uma cidade sobre uma colina”266, e quando você faz declarações de
crenças nos Ensinamentos Rosacruzes, eles têm o direito de lhe julgar por meio dos seus frutos; portanto, fale pouco,
sirva muito.
Há muitos que adoram discutir sobre a vida pacífica e inofensiva no jantar, alheios ao fato de que a carne
assada na mesa e o cigarro na boca embotam o efeito. Há outros que endeusam o estômago e prefeririam estudar
mais sobre gastronomia do que sobre a Bíblia; eles estão sempre dispostos a atrair a atenção dos seus amigos e os
265
N.T.: (Mt 25:31-46).
266
N.T.: Mt 5:14
deter em conversas, mesmo contra a vontade deles, discorrendo sobre as últimas novidades gastronômicas. Eu
conheci um homem que era dirigente de um grupo esotérico. A esposa dele era contra e se opunha ao ocultismo e à
dieta sem carne animal. Ele a obrigava a preparar os vegetais dele em casa e a avisou que se ousasse trazer carne para
a cozinha dele ou contaminar os pratos dele com a carne animal, ele a expulsaria de casa juntamente com todos os
utensílios, acrescentando que se ela quisesse fazer o papel de porco, poderia ir comer carne num restaurante.
É de se admirar que ela julgou a Religião pelo homem e que não queria ter nada com ela ? Certamente ele foi o
culpado, sendo o “guardião do seu irmão”267, e embora esse seja um caso extremo, torna a lição mais óbvia. É um
louvor eterno para Maomé que a esposa dele se tornou a primeira discípula dele e ele ter sempre falado sobre a
gentileza e a consideração no lar. Esse é um exemplo que todos deveríamos seguir, se quisermos conduzir nossos
amigos para a vida superior, pois embora todos os sistemas religiosos difiram externamente, a essência de todos é o
AMOR.

267
N.T.: A frase “guardião do meu irmão” é uma referência à história bíblica de Caim e Abel do Livro de Gênesis. É geralmente
entendido como sendo responsável pelo bem-estar de um irmão ou outro irmão ou, por extensão, de outros seres humanos em
geral.
Capítulo XV – Pedras de Tropeço
Não raramente, pessoas que não simpatizam com a ideia ou que não aspiram a viver uma vida superior,
alegam que isso os torna incapazes para o trabalho do mundo. Infelizmente não podemos negar que há uma
justificativa aparente para essa afirmação embora, na realidade, o primeiro requisito para se viver uma vida superior
envolva uma obrigação em se comportar irrepreensivelmente ao lidar com assuntos materiais, pois, a menos que
sejamos honestos nas pequenas coisas, como podemos esperar ser confiados em maiores responsabilidades?
Portanto, julgamos conveniente dedicar uma lição à discussão de algumas coisas que atuam como pedras de tropeço
na vida dos Aspirantes à vida superior.
Estudamos, na bíblia, uma passagem em que o rei enviou seus servos com convites para o banquete que havia
preparado, e lemos lá que seus convites foram recusados por vários motivos 268. Cada um tinha algum motivo material
para usar como desculpas: compras, vendas, casamentos, portanto não podiam participar de algo espiritual e
podemos dizer que tais pessoas representam a maior parte da humanidade de hoje, as quais estão muito absorvidas
com os interesses do mundo para devotarem mesmo um pensamento à aspiração de um objetivo superior. Porém, há
outras que se tornam tão entusiasmadas com a primeira experiência dos ensinamentos superiores, que estão prontas
a desistir de todo trabalho no mundo, a repudiar toda a obrigação e a devotar o tempo delas àquilo que, com prazer,
chamam de “ajudar a humanidade”. Elas rapidamente admitem que toma tempo aprender a ser um relojoeiro, um
sapateiro, um engenheiro ou um musicista, e elas não sonhariam, nem por um momento, em desistir da atual
atividade material delas para se estabelecerem como sapateiros, relojoeiros ou professores de música só porque se
animaram com esses trabalhos ou se sentiram inclinadas a aprender esta ou aquela profissão. Elas compreenderiam
que sem o preparo e o treinamento adequados estariam destinados ao fracasso e, no entanto, elas pensam que só
porque se entusiasmaram pelos ensinamentos superiores estão imediatamente aptas para abandonar o trabalho do
mundo e dedicar o tempo delas a serviços semelhantes, embora em menor grau, ao prestado pelo Cristo em Seu
ministério.
Uma pessoa escreveu para Mount Ecclesia: “Desisti de comer carne animal e sinto um forte e poderoso desejo
para viver uma vida ascética, longe do barulho do mundo que tem um efeito duramente desagradável em mim. Quero
dar minha vida pela humanidade”. Outro diz: “Quero viver a vida espiritual, mas tenho uma esposa que precisa do
meu carinho e apoio. Você acha que seria justo abandoná-la para ajudar meus semelhantes?”. Ainda, outro diz: “E
estou em um negócio que não é espiritual; todos os dias tenho que fazer coisas que estão em oposição à minha
natureza superior, mas tenho uma filha cuja educação depende de mim. Que devo fazer: continuar ou desistir?”. Claro
que há muitos outros problemas que nos são apresentados, mas esses servem como bons exemplos, pois
representam uma classe que está pronta para desistir do mundo à menor palavra de encorajamento, e correr para as
montanhas na esperança de imediatamente criar asas. Se as pessoas que são dessa classe tiverem quaisquer laços que
as prendam, elas o romperão sem escrúpulos ou ponderações.
Outras pessoas ainda sentem alguma obrigação, mas seriam facilmente persuadidas a repudiá-la a fim de viver
o que chamam de “a vida espiritual”. Não podemos ignorar que quando as pessoas chegam a esse estado de Espírito,
quando perdem o desejo ardente delas de trabalhar no mundo, quando se tornam incapazes e negligentes com as
obrigações delas, merecem a reprovação da comunidade.
Mas, como já foi dito, tal conduta está baseada na incompreensão dos ensinamentos superiores e não é, de
maneira alguma, aprovada pela Bíblia ou pelos Irmãos Maiores.
É um passo na direção certa quando uma pessoa cessa de se alimentar de carne animal (mamífero, aves,
peixes, répteis, anfíbios, frutos do mar e afins) porque sente compaixão pelo sofrimento dos animais. Há muitas
pessoas que se abstêm de comer carne animal só por motivos de saúde, mas esse motivo delas é um motivo egoísta,
tal sacrifício não traz consigo nenhum mérito. Em circunstâncias em que o Aspirante à vida superior é levado a se
abster de comer carne animal porque percebe que a influência refinadora de uma dieta isenta de carne animal sobre
o Corpo o ajudará em sua busca, porque torna o Corpo mais sensível às influências espirituais, também não há um
mérito real. De fato, as pessoas que se abstêm de comer carne animal por causa da saúde serão muito beneficiadas, e
as que não comem carne animal para que seu Corpo se torne mais sensível, também terão a recompensa delas àquele
respeito, mas, do ponto de vista espiritual, nenhuma delas alcançará o verdadeiro objetivo. Por outro lado, aquelas
que se abstêm de comer carne animal porque percebem que a vida de Deus é imanente em todos os animais, assim
como nelas mesmas, que compreendem, em última análise, que Deus sente todos os sofrimentos experimentados
pelos animais, que é uma Lei Divina – “Não matarás” – e que elas devem se abster por compaixão, então essas
268
N. T.: “Cristo Jesus lhes falou novamente por parábolas, dizendo: ‘O Reino dos céus é como um rei que preparou um
banquete de casamento para seu filho. Enviou seus servos aos que tinham sido convidados para o banquete, dizendo-lhes que
viessem; mas eles não quiseram vir. (...)” (Mt 22:1-3).
pessoas não são beneficiadas apenas na saúde, nem apenas em tornar os Corpo delas mais sensíveis aos impactos
espirituais, mas, devido aos motivos que as impelem, elas colherão uma recompensa no crescimento anímico
imensuravelmente mais preciosa do que qualquer outra que se possa considerar. Assim, nós diríamos, de todas as
formas, para se abster de comer carne animal, mas se certificar de tomar essa decisão inspirado no motivo espiritual
correto, caso contrário, isso não afetará os seus interesses espirituais nem um pouco.
Quando um entusiasta diz que quer se retirar do mundo e do barulho que o atordoa para viver a vida ascética,
isso é realmente uma ideia estranha de servir ao próximo. A razão pela qual estamos aqui neste mundo é para
podermos acumular experiência, que então é transmutada em crescimento anímico. Se um diamante bruto for
colocado numa gaveta e aí permanecer por muitos anos, permanecerá exatamente igual e em nada mudará, mas
quando é submetido a uma pedra de esmeril, o processo de lapidação removerá até a última partícula da camada
bruta e o transformará numa bela e preciosa gema. Cada um de nós é um diamante bruto, e Deus, o Grande Lapidário,
usa o mundo como uma pedra de esmeril que, pela lapidação, retira a camada áspera e feia, deixando que nosso “Eu”
espiritual brilhe e se torne luminoso. Cristo foi um exemplo vivo disso. Ele não se afastou dos centros da civilização,
mas estava sempre entre os sofredores e os pobres, ensinando, orando e ajudando até o momento em que, pelo
glorioso serviço prestado, Seu corpo se tornou luminoso no Monte da Transfiguração e Ele, que havia trilhado o
Caminho, exortou Seus seguidores a “estarem no mundo, mas não serem do mundo”269. Essa é a grande lição que todo
Aspirante à vida superior tem que aprender.
Uma coisa é ir para as montanhas onde não há uma só pessoa para nos contradizer ou abalar a nossa
sensibilidade e manter facilmente nosso autocontrole e manter uma postura equilibrada; é outra coisa, inteiramente
diferente, manter nossas aspirações espirituais e permanecer equilibrados num mundo onde tudo nos afeta; mas,
quando permanecemos nesse caminho, ganhamos um autocontrole inatingível de qualquer outra maneira.
Contudo, embora tenhamos o cuidado de preparar bem a nossa comida e nos abstermos de comer carne
animal ou evitemos qualquer outra influência contaminadora externa; embora desejemos fugir para as montanhas
para escapar das coisas sórdidas da vida na cidade, e queiramos nos livrar de todas as coisas externas que podem ser
uma pedra de tropeço para nosso progresso, o que acontece com as coisas que vêm de dentro, os pensamentos que
temos em nossas Mentes e o nosso alimento mental? Em nada nos ajudará o alimentarmos nossos Corpos com néctar
e ambrosia – o alimento etérico dos deuses – quando a Mente é um ossuário – onde se guardam os ossos humanos
em um cemitério –, um habitat de pensamentos inferiores, pois, então seremos somente sepulcros caiados, belos de
ser por fora, mas, por dentro, cheios de um fedor nauseante 270 e essa delinquência mental pode ser mantida com a
mesma facilidade e talvez até com mais facilidade na solidão das montanhas ou num chamado retiro espiritual do que
numa cidade onde estamos ocupados com o nosso trabalho cotidiano. É verdadeiro o axioma popular que diz: “um
cérebro desocupado é a oficina do diabo”, e a maneira mais segura de alcançar a pureza e a limpeza interna é manter
a Mente ocupada o tempo todo, encaminhando nossos desejos, sentimentos e nossas emoções para os problemas
práticos da vida, e trabalhando, cada qual no seu próprio ambiente, para ajudar os pobres e necessitados e, assim,
lhes fornecer a ajuda suficiente que cada caso requeira e para aqueles que mereçam. As pessoas que não têm laços
próprios podem, com muito proveito, fazer laços de amor e amizade com aqueles que estão carentes desses dois
importantes sentimentos.
Se é o cuidado de um parente – esposa, marido, filho, filha – ou qualquer um que nos peça ajuda, lembremo-
nos das palavras de Cristo quando Ele disse: “Quem é minha mãe e quem é meu irmão?”271. E Ele respondeu à própria
pergunta, dizendo: “Aqueles que fazem a vontade de Meu Pai”272. Essa afirmação foi interpretada erroneamente por
alguns, que julgaram que Cristo repudiou os relacionamentos físicos d’Ele e preferiu os relacionamentos espirituais,
mas é só nos lembrar que nos últimos momentos da vida d’Ele aqui na Terra, Ele chamou para perto d’Ele o Discípulo
que mais amava e disse à mãe d’Ele que ali estava o filho dela e disse ao Discípulo que ali estava a mãe dele,
encarregando-o de cuidar dela273. O amor é a força unificante na vida e, de acordo com os Ensinamentos da Sabedoria
Ocidental, é indispensável amar nossos parentes, mas também estender nossa natureza amorosa de modo a incluir
todos os nossos semelhantes. É bom que amemos os nossos pais, entretanto, devemos amar também os pais, irmãos
e as irmãs dos outros, pois a fraternidade universal nunca se tornará uma realidade enquanto nosso amor estiver
confinado somente à família. É preciso que todos sejam incluídos, indistintamente.

269
N.T.: Jo 17:14
270
N.T.: Mt 23:27
271
N.T.: Mt 12:48
272
N.T.: Mt 12:50
273
N.T.: Jo 19:25-34
Havia, entre os Discípulos, um que Cristo amava especialmente e seguindo o exemplo d’Ele podemos,
também, conceder uma afeição particular a alguns, embora devamos amar todos e fazer o bem, mesmo àqueles que
se manifestam para nós por meio da malícia e do ódio. Esses são ideais elevados e difíceis de serem alcançados em
nosso atual estágio de desenvolvimento, mas, assim como o marinheiro guia o seu navio se orientando por uma
estrela-guia e alcança o seu porto desejado, embora nunca alcançando a própria estrela, assim também ao
colocarmos os nossos ideais em planos elevados, viveremos vidas mais nobres e melhores do que se a nada
aspirássemos e, futuramente, com o tempo e através de muitos renascimentos, finalmente alcançaremos esse
estágio, porque a divindade inerente a nós o torna imperativo.
Afinal então, para resumir, realmente não importam as condições em que estejamos colocados na vida, se
numa posição mais elevada ou em outra qualquer. O ambiente atual, com suas oportunidades e limitações, está
exatamente de acordo com as nossas necessidades individuais, tais como determinadas pelo destino autocriado em
existências anteriores. Portanto, isso encerra para nós uma lição que precisamos aprender a fim de progredirmos
corretamente ou apropriadamente. Se temos uma esposa, um marido, um filho, uma filha ou outros relacionamentos
de família que nos ligam a um ambiente comum, todos eles devem ser considerados como parte do que temos que
enfrentar e, cumprindo com o nosso dever para com eles, aprendemos a lição necessária. Se eles são contrários à
nossa crença, se não veem com simpatia nossas aspirações, se nós temos que levar adiante um trabalho, uma
atividade ou um negócio por causa deles e fazer coisas que não nos agradam, é porque devemos aprender algo sobre
isso, e o caminho correto para um Aspirante à vida superior sincero é encarar as condições diretamente com o
objetivo de descobrir com exatidão o que é necessário. Isso pode não ser uma consideração fácil. Pode levar semanas,
meses ou anos para resolver o problema, mas, se o Aspirante à vida superior se dedicar devotamente a essa tarefa,
ele pode estar certo de que a luz brilhará um dia e, então, verá o que é necessário e o porquê dessas condições lhe
terem sido impostas. Então, tendo aprendido a lição ou descoberto os propósitos dela, ele irá, se tiver o Espírito
esclarecido, suportar o fardo devotamente e em oração, pois saberá que está no caminho certo e que é uma certeza
absoluta que, assim que a lição naquele ambiente for aprendida, um novo caminho lhe será aberto indicando o
próximo passo no caminho do progresso. Assim, as “pedras de tropeço” terão sido transformadas em trampolim, o
que nunca aconteceria se ele as tivesse evitado. Com relação a isso citaremos este belo pequeno poema 274:

“Não desperdicemos nosso tempo ardentemente desejando


Feitos brilhantes, mas impossíveis.
Não fiquemos indolentemente esperando
O nascimento de asas angelicais visíveis.
Não desprezemos as pequenas luzes brilhando,
Pois nem todos podem ser uma estrela reluzente;

Mas, vamos realizar nossa missão, iluminando o lugar onde estamos presentemente.
As velas pequenas são tão indispensáveis como o é no céu o Sol fulgente.
E as ações mais nobres são realizáveis quando as fazemos dignamente.
Talvez agora não consigamos, caminhando, alumiar a escuridão das distantes regiões, claramente.
Mas, vamos realizar nossa missão, iluminando o lugar onde estamos presentemente.”.

274
N.T.: do poema: “Shining Just Where We Are” – de Autor Desconhecido
Capítulo XVI – A Eclusa da Elevação
Você já viu como os navios que sobem um canal ou um rio são elevados de um nível para outro? É um
processo muito interessante e instrutivo. Primeiro, o navio é levado para uma pequena eclusa onde o nível da água é
o mesmo que o da parte mais baixa do rio em que antes navegava. Depois, as entradas da eclusa são fechadas e o
navio fica isolado do mundo externo pelas altas paredes do recinto. Não pode voltar para o rio; a própria
luminosidade ao seu redor se torna bem menor, mas, acima dele as nuvens em movimento ou o brilho do Sol são
visíveis como se estivessem acenando para ele. O navio não pode subir sem ajuda, e a lei de gravidade impossibilita a
água, naquela parte do rio onde o navio estava navegando, a se elevar a um nível mais alto, uma vez que não há
possibilidade de ajuda daquela parte.
Também há comportas na parte superior da eclusa que impedem que as águas do nível superior invadam a
parte inferior, caso contrário, a água invasora inundaria a eclusa rapidamente, afundando o navio que está na parte
inferior, porque ela age em conformidade com a mesma lei de gravidade. Contudo, é de cima que deve vir a força para
o navio atingir um nível mais elevado do rio e, para ser feito com segurança uma pequena correnteza é dirigida para o
fundo da eclusa que eleva o navio muito lenta e gradualmente, mas com segurança, ao nível do rio acima. Quando
esse nível é alcançado, as comportas superiores podem ser abertas sem perigo para o navio, e esse pode prosseguir a
viagem na ampla superfície do curso mais elevado do rio. Então, a eclusa é esvaziada lentamente e a água nela contida
se junta à água do nível mais baixo que, dessa maneira, se eleva, mesmo que levemente. Assim, a eclusa está pronta
para levantar outra embarcação.
Isso é, como foi dito no começo, uma operação física muito interessante e instrutiva, mostrando como a
capacidade e o engenho humano vencem grandes obstáculos pelo uso das forças da natureza. Porém, é uma fonte de
iluminação ainda maior quando se refere a assuntos espirituais, que são de vital importância para todos aqueles que
aspiram e se esforçam por viver a vida superior, pois isso ilustra bem o único método seguro pelo qual o ser humano
pode se elevar do mundo temporal para os Mundos Espirituais e refuta, também, aqueles falsos instrutores ou
mestres que, para benefício próprio, jogam com os intensos anseios das pessoas ainda imaturas e se declaram
habilitados para abrir os portões dos Mundos invisíveis, mediante uma taxa para obter a Iniciação. Nosso exemplo
mostra que isso é impossível, pois as imutáveis Leis da Natureza não permitem que isso aconteça.
Para uma melhor elucidação, vamos chamar nosso rio de rio da vida e nós, como indivíduos, somos os navios
que nele navegam; o rio mais baixo é o mundo temporal e quando já o tivermos navegado em todo o seu
comprimento e largura através de muitas vidas, inevitavelmente, chegaremos à eclusa elevada que está localizada ao
final. Podemos ficar muito tempo rondando e observando a entrada, impelidos por uma força interior para entrar,
mas somos puxados, por outro impulso, para o largo rio da vida, o do lado de fora. Muitas vezes essa eclusa de
elevação, com suas paredes altas e despidas, nos parece proibitiva e solitária, em comparação com o alegre e
divertido rio da vida, repleto de embarcações coloridas que navegam vistosamente pelo rio, mas, quando o desejo
interno se torna realmente intenso, finalmente nos dirigimos à eclusa de elevação, e nos imbuímos com uma
determinação de não voltar para o rio da vida mundana. Porém, mesmo nesse estágio há algumas pessoas que
vacilam e temem em fechar a comporta atrás de si; elas aspiram ardentemente aos momentos da vida em um nível
mais elevado, mas isso faz com que se sintam menos sozinhas ao olhar para trás, para o rio da vida mundana e,
algumas vezes, permanecem nessa condição por vidas inteiras, se perguntando por que não progridem, porque não
experimentam nenhum derramamento espiritual275, porque não há nenhuma melhoria espiritual em suas vidas. Nossa
ilustração torna o motivo disso muito claro; não importa o quanto o capitão possa implorar, o encarregado da eclusa
jamais pensaria em soltar a correnteza da água de cima até que a comporta da eclusa estivesse totalmente fechada
atrás do navio, pois o fluxo da água não poderia levantar o navio nem um só centímetro nessas condições, mas
escoaria através das comportas abertas para se perder no nível mais baixo do rio. Nem os guardiães dos portões dos
Mundos superiores nos abririam o fluxo da elevação, não importa o quanto fervorosamente rezemos até que
tenhamos fechado a porta do Mundo atrás de nós, e fechado muito bem em relação à concupiscência dos olhos 276 –
ou seja: o desejo pecaminoso de possuir o que vemos ou ter todas as coisas que possuem apelo visual, especialmente
quando delas não precisamos de fato – e ao orgulho da vida 277 – ou seja: qualquer coisa que se refira à busca de
honras, títulos e pedigrees; gabando-se de ascendência, conexões familiares, grandes cargos, conhecidos honrosos e
coisas do gênero –, pecados que tão facilmente nos cercam e que são cultivados por nós, descuidadamente, nestes
dias mundanos. Devemos fechar a porta sobre todas elas, antes que estejamos realmente em uma condição para
receber o fluxo da elevação, mas, uma vez que tenhamos fechado a porta e, irrevogavelmente, nos dirigirmos para
frente, o derramamento começa, lento, mas de forma segura, assim como a correnteza da eclusa que eleva a
embarcação.

275
N.T.: como, por exemplo, aconteceu no evento Pentecostes (At 2) com os Discípulos
276
N.T.: IJo 2:16
277
N.T.: IJo 2:16
Entretanto, tendo deixado o mundo temporal com todos os seus atrativos, e tendo voltado a sua face para os
Mundos espirituais, o anseio do Aspirante à vida superior se torna mais intenso. À medida que o tempo passa, ele
sente, cada vez mais, um vazio que o atinge nos dois lados de si mesmo. O mundo temporal e tudo relacionado a ele
foram largados como uma roupa já usada; ele pode estar fisicamente neste mundo, desempenhando seus deveres,
mas perdeu interesse; ele está no mundo, mas não faz parte dele 278, e os Mundos espirituais, onde aspira obter
cidadania, parecem igualmente distantes. Ele se sente sozinho e todo seu ser chora e se contorce de dor, ansiando por
luz.
Então, chega a vez do tentador: “Tenho uma escola de Iniciação e sou capaz de fazer com que meus alunos
avancem rapidamente, mediante uma taxa”, ou palavras semelhantes e, geralmente, mais sutis; e quem pode culpar
os pobres Aspirantes à vida superior que caem diante da astúcia desses impostores? Afortunados são eles se, como
geralmente é o caso, passarem simplesmente por um cerimonial e lhes conferirem algum grau sem valor, mas,
ocasionalmente, eles podem encontrar alguém que realmente os envolvem superficial ou intermitentemente com
magia e que é capaz de abrir os portões da correnteza que vem do nível superior. Então, a entrada repentina do poder
espiritual despedaça o organismo do malsucedido tolo, do mesmo modo que as águas do rio que estão acima
despedaçaria um navio que está no fundo da eclusa, se uma pessoa ignorante ou mal-intencionada abrisse as
comportas. A embarcação precisa ser elevada lentamente até por motivos de segurança e, assim também deve ser
com o Aspirante à vida superior; paciência e uma persistência inabalável em fazer o bem são atributos absolutamente
indispensáveis, e a porta para os prazeres do mundo deve ser mantida fechada. Se isso for feito, seguramente e sem
nenhuma dúvida, nós conseguiremos ascender às alturas dos Mundos invisíveis com todas as oportunidades lá
encontradas para um crescimento anímico, porque isso é um processo natural governado por Leis da Natureza, do
mesmo modo que ocorre com a elevação de um navio para níveis mais elevados de um rio por um sistema de eclusas.
Mas, como posso permanecer na eclusa da elevação e servir ao meu próximo? Se o crescimento anímico vem
somente por meio do serviço, como posso avançar, isolando-me? Essas são perguntas que podem, naturalmente,
surgir diante dos Estudantes Rosacruzes. Para respondê-las, mais uma vez devemos enfatizar que nenhuma pessoa
pode elevar outra se ela própria não estiver num nível superior, não tão elevado a ponto de ser inatingível, mas
suficientemente perto para poder ser alcançada. Há, infelizmente, muitos que professam os ensinamentos superiores,
mas vivem ao nível de homens e mulheres vulgares do mundo ou mesmo abaixo desse nível. As declarações e as
afirmações solenes deles tornam os ensinamentos superiores um sinônimo de desprezo e atraem o escárnio dos
céticos. Mas, aqueles que vivenciam os ensinamentos superiores não têm necessidade de professá-los oralmente;
mantêm-se discretos, mas são notados apesar de tudo, e embora prejudicados pelos erros dos “que professam o que
não sabem”, com o tempo, conquistam o respeito e a confiança daqueles que os cercam; e, finalmente, despertam
nesses o desejo para se esforçarem e chegarem ao resultados daqueles que realmente vivenciam os ensinamentos
superiores, colhendo em troca desse serviço um crescimento anímico proporcional ao esforço.
Época de Natal é o momento do ano quando uma onda de poder espiritual envolve o mundo. Culmina no
Solstício de Dezembro, quando o Cristo renasce em nosso Planeta e, embora impedido pelas condições da deplorável
guerra279 atual (sob o limitado ponto de vista), Sua vida, que nos é dada, pode ser, nesse momento do ano, mais
facilmente auferida pelo Aspirante à vida superior para assim impulsionar o seu crescimento espiritual; portanto,
todos aqueles que desejam alcançar os níveis superiores agiriam corretamente se empregassem esforços especiais
naquela direção durante essa época do ano.

278
N.T.: Jo 15:19 e Jo 17:14-16
279
N.T.: o autor se refere à Primeira Guerra Mundial, época em que esse livro foi escrito.
Capítulo XVII – Porque Sou um Estudante Rosacruz
Frequentemente aparece alguém que aproveita a oportunidade de estar conosco para explicar por que é
Batista, Metodista, Católica, Cientista Cristão ou outra Religião que professe. Muitas vezes, nossos Estudantes nos
pedem algo que os ajudassem a esclarecer por que adotaram os Ensinamentos Rosacruzes dos Irmãos Maiores,
promulgados pela Fraternidade Rosacruz, em preferência à fé que eles deixaram. Tentarei, portanto, fornecer um
resumo sucinto das razões que nos parecem suficientes, mas os Estudantes, sem dúvida, encontrarão muitas outras
razões, igualmente boas ou até melhores, que poderão acrescentar verbalmente ao que é dito aqui.
Antes de tudo, deve ficar claro que os Estudantes da Fraternidade Rosacruz não se autodenominam
Rosacruzes. Esse título se aplica aos Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz, que são os Hierofantes dos Ensinamentos da
Sabedoria Ocidental. Eles estão muito além do maior santo vivo com relação ao desenvolvimento espiritual, assim
como um santo está acima do mais baixo adorador de ídolos ou de fetiches.
Quando o barco da nossa vida navega levemente sobre os mares calmos e tranquilos, levado pelos bons
ventos da saúde e prosperidade; quando os amigos estão sempre presentes, prontos para nos ajudar a compartilhar
conosco dos prazeres que aumentarão os nossos desfrutes dos bens do mundo; quando as honras sociais ou os
poderes políticos nos são conferidos em esferas em que nossas inclinações possam se expressar, então, de fato,
poderemos dizer e parecer justificados em dizer de todo o nosso coração e a nossa alma: “Este mundo é bom e
suficiente para mim”. Mas, quando o mar de sucessos acaba; quando o turbilhão da adversidade nos lança para as
costas rochosas e uma onda de sofrimento ameaça nos engolir; quando os amigos nos abandonam e toda a ajuda
humana nos parece estar longe e inacessível, então, como faz o marinheiro quando conduz o seu barco contra o
ímpeto das ondas, nós devemos buscar orientação nos céus.
Mas, quando o navegante examina o céu em busca de uma estrela que o possa guiar com segurança, ele
descobre que todo o céu está em movimento. Portanto, seguir simplesmente uma das miríades de estrelas visíveis a
olho nu seria desastroso. Para atender aos requisitos a estrela-guia deve ser totalmente visível e parecer o mais
imóvel possível, e só há uma, a saber, a Estrela Polar280. Por meio da luz orientadora dela, o marinheiro pode, com
total confiança, conduzir e levar o seu barco a um lugar de descanso e segurança. Da mesma forma, quem procura
uma orientação em quem possa confiar nos dias de provação – quando a angústia e a tristeza profundas e as
adversidades se tornam presentes –, deve abraçar uma Religião fundada sobre leis eternas e princípios imutáveis,
capaz de explicar o mistério da vida de uma maneira lógica, para que seu intelecto possa ser satisfeito e, ao mesmo
tempo, contendo uma forma de devoção que possa satisfazer o Coração, para que esses fatores gêmeos na vida
possam receber igual satisfação. Só quando a pessoa tenha uma concepção intelectual clara do esquema do
desenvolvimento humano é que ela está em condições de se alinhar com ele. Quando ficar claro que esse esquema é
benéfico e benevolente no mais elevado grau, que tudo é verdadeiramente governado pelo amor divino, então essa
compreensão, mais cedo ou mais tarde, despertará nele uma verdadeira devoção e aquiescência sincera que se
transformará no desejo de se tornar um colaborador de Deus na obra do mundo.
Quando almas que estão buscando ajuda se aproximam da Igreja procurando alívio para as angústias e
tristezas profundas que estão passando, elas não podem ficar satisfeitas com banalidades de que é a vontade de Deus
que sofram essas angústias e tristezas profundas; que em Sua Divina Providência Ele achou por bem flagelá-las e que
elas devem interpretar tudo isso como uma indicação de que Ele as considera como Seus filhos amados e que estão
satisfeitos, não importa o que lhes aconteça. Não conseguem ver que a Deidade faz justiça quando torna alguns ricos
e outros pobres, alguns saudáveis e outros doentes; e muitas vezes fica evidente que a iniquidade é próspera
enquanto a retidão as levou à miséria.
Os Ensinamentos Rosacruzes fornecem informações claras e lógicas sobre o mundo e o ser humano; eles
convidam a se fazer perguntas em vez de desencorajá-las, para que aqueles que buscam a verdade espiritual possam
receber plena satisfação intelectual; suas explicações são estritamente científicas e reverentemente religiosas. Esses
Ensinamentos nos encaminham para obter informações sobre os problemas da vida, as leis que são tão imutáveis em
sua esfera de ação, como imutável é a Estrela Polar no céu.
Embora a Terra gire em torno do seu eixo a uma velocidade incrível em torno de 1.666 quilômetros por hora,
nós permanecemos em pé sobre a sua superfície, porque o princípio de gravidade nos impede de sermos lançados ao
espaço por essa incrível velocidade. Sabemos que a lei de gravidade é eterna; não agirá hoje para ser suspensa
amanhã. Quando entramos em um elevador hidráulico, permanecemos seguros sobre uma coluna de água ou de óleo,
porque esse fluído exerce menos pressão que os sólidos e essa propriedade foi a mesma ontem, é hoje e o será

280
N. T.: Polar (Polaris, α UMi, α Ursae Minoris, Alpha Ursae Minoris, comumente chamada de Estrela do Norte ou Estrela Polar)
é a estrela mais brilhante da constelação da Ursa Menor, e situa-se aproximadamente no polo norte celeste, daí recebendo seu
nome. Por esse motivo, ela permanece praticamente fixa no céu noturno, enquanto todas as outras estrelas parecem girar ao
seu redor. A Estrela Polar tem sido usada, há séculos, como referência para orientação, tendo sido crucial, por exemplo, na
navegação.
sempre. Se a sua ação fosse suspensa, mesmo que por alguns momentos, milhares de pessoas morreriam; mas, essa
lei é firme e constante e nós confiamos nela.
A Lei de Causa e Efeito também é imutável; se atirarmos uma pedra para cima, o ato não estará completo até
que, pela lei da gravidade, ela volte à superfície da Terra. “Tudo o que o homem semear, assim também colherá”281, é a
forma com que essa Lei se expressa no domínio da moral. “Os moinhos de Deus moem devagar, mas moem
extremamente fino” e, uma vez que um ato foi realizado, a reação ocorrerá em algum momento e de alguma maneira,
tão certo quanto a pedra que foi atirada para cima volta à superfície da Terra.
Mas, é claro que nem todas as causas que colocamos em funcionamento na vida têm seu efeito na presente
existência e, portanto, devem produzir seus efeitos em alguma parte ou em alguma outra ocasião, ou a Lei seria
invalidada, uma proposição que seria tão absolutamente impossível quanto a suspensão da lei da gravidade, pois
qualquer uma das duas coisas transformaria o Cosmos em caos. Os Ensinamentos Rosacruzes explicam isso afirmando
que o ser humano é um Espírito que veio à Escola da Vida com o propósito de desenvolver o seu poder espiritual
latente, e que para esse propósito ele vive muitas vidas em corpos terrestres de textura cada vez mais fina que o
anterior, o que o capacita a se expressar cada vez melhor. Nos primeiros graus dessa Escola de evolução, o ser
humano tem poucas faculdades ativas. Todos os dias da sua vida ele vem para a escola na manhã da infância e recebe
lições que deve aprender e, à noite, quando idoso a cuidadora “Morte” o põe para dormir para que ele possa
descansar de seus trabalhos até o amanhecer de um outro novo corpo infantil e outras novas lições. A cada dia, a
“Experiência”, a mestra da Escola o ajuda a aprender algumas lições de vida e, gradualmente, ele se torna mais
proficiente. Algum dia ele terá aprendido todo o currículo da Escola que inclui a construção de Corpos e, também,
como utilizá-los.
Assim, quando vemos alguém que demonstra poucas faculdades, sabemos que é uma alma jovem que
frequentou a Escola da Vida apenas por alguns dias; e quando encontramos um caráter belo, vemos que é uma alma
experiente, que já passou por muitas vidas aprendendo, assimilando e praticando as suas lições. Portanto, não nos
desesperemos do amor de Deus quando vemos as desigualdades, pois sabemos que, algum dia, tudo será perfeito,
assim como nosso Pai Celestial é perfeito.
Os Ensinamentos Rosacruzes também tiram o aguilhão das angústias e das tristezas profundas da maior de
todas as provações: a perda dos nossos entes queridos, mesmo que esses tenham sido o que se chama de rebeldes ou
ovelhas negras; pois sabemos que é um fato que “em Deus vivemos, nos movemos e temos o nosso ser”282; portanto,
se uma única alma se perdesse, uma parte de Deus se perderia, e tal proposição é absolutamente impossível. Sob a
imutável Lei de Causa e Efeito, estamos fadados a encontrar esses entes queridos em algum momento no futuro, sob
outras circunstâncias, e aí o amor que nos une deve continuar até encontrar a sua mais elevada expressão. As Leis da
Natureza seriam violadas se uma pedra atirada para cima ficasse suspensa na atmosfera e, sob essas leis imutáveis
aqueles que passam para as esferas mais elevadas devem regressar. Cristo disse: “É necessário nascer outra vez”283 e
“Se eu for para meu Pai, retornarei”284.
Mas, embora a nossa razão possa alcançar os mistérios da vida, ainda há um estágio mais elevado, o
conhecimento direto, em primeira mão. Na verdade, as proposições anteriores são passíveis de verificação por cada
um, pois todos temos um sexto sentido latente em nosso ser, que em algum momento nos permitirá ver os Mundos
espirituais com a mesma clareza com que vemos o mundo temporal. Esse sexto sentido será desenvolvido por todos
durante o curso da evolução, e existem certos meios pelos quais ele pode ser desenvolvido agora por todos que se
dedicam ao trabalho e se esforçam para fazê-los. Alguns alcançaram esse resultado e nos contaram suas viagens pela
terra da alma. Acreditamos no seu testemunho sobre esse lugar, tal como acreditamos no que as pessoas que
viajaram para a África ou para a Austrália nos dizem sobre esses países. E tal como dizemos que sabemos que a Terra
gira sobre o seu eixo e gira na sua órbita em torno do Sol, porque fomos assim informados pelos cientistas que fizeram
as investigações e os cálculos que estabelecem esses fatos, assim também dizemos que sabemos que os mortos
vivem, e que mortos ou vivos, no corpo ou fora dele, estamos todos envolvidos no amor de nosso Pai Celestial, sem
cuja Vontade nem a menor folha cai no chão e que Ele cuida de todos e guia nossos passos em harmonia com Seus
planos para desenvolver nossos poderes espirituais no mais elevado grau possível.
Assim, devido à filosofia de vida lógica e satisfatória da alma dada pelos Rosacruzes, seguimos os seus
ensinamentos, preferindo-os a outros sistemas, e convidamos todos que desejem partilhar as suas bençãos a
investigar.

281
N.T.: Gl 6:7
282
N.T.: At 17:28
283
N.T.: Jo 3:4-5
284
N.T. Jo 16:28
Capítulo XVIII – O Objetivo da Fraternidade Rosacruz
O objetivo da Fraternidade Rosacruz já foi claramente apresentado em nossa literatura, assim como já foram
enunciados os meios pelos quais se espera alcançar o fim a que se propõe; mas, em atendimento a inúmeros pedidos
resolvemos dedicar o presente capítulo à apresentação de um resumo desse assunto.
O mundo é a escola de instrução de Deus. No passado aprendemos a construir diferentes veículos, entre eles
o Corpo Denso. Através desse trabalho somos promovidos de nível em nível, cada um com seu escopo particular de
consciência. Desenvolvemos olhos para podermos ver, ouvidos para podermos ouvir e outros órgãos para podermos
saborear (paladar), para podermos cheirar (olfato) e para podermos sentir (tato). Mas, nem todos os Egos foram
promovidos a cada passo. Quando, na Época Atlante, a névoa úmida que compunha o ar se condensou e encheu as
bacias da Terra com oceanos de água líquida, forçando os seres humanos a rumarem para os lugares mais altos,
muitos morreram por asfixia, porque não tinham pulmões desenvolvidos. Eles não puderam passar pelo portal do
arco-íris que foi, por assim dizer, o portão de entrada da nova Era com as suas condições atmosféricas secas.
Outra grande transformação neste mundo está por vir, não sabemos quando; até o próprio Cristo confessou
Sua ignorância quanto ao dia e à hora; mas, Ele nos alertou que o dia chegaria como o ladrão à noite, e Ele profetizou
que as condições do mundo seriam, então, semelhantes às que prevaleceram nos dias de Noé; eles viviam
despreocupados e se divertindo quando, de repente, as comportas do céu se abriram e a morte e a destruição se
propagaram diante deles.
Cristo nos disse que é possível tomar de assalto o Reino de Deus 285 e alcançar a consciência e as condições que
ali prevalecem. No entanto, S. Paulo nos informa que a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus 286; ele
afirma que temos um Corpo-Alma (soma psuchicon – ICor 15:44), e que encontraremos o Senhor no ar, quando Ele
vier. Esse Corpo-Alma é, portanto, tão necessário para entrar na nova Era do Reino de Deus, como o corpo equipado
com os pulmões foi necessário para os Atlantes que desejavam entrar na Era que vivemos agora. Portanto, é
necessário que façamos a nossa parte, trabalhando para a nossa vocação e eleição, preparando a Veste Dourada de
Bodas, o Corpo-Alma, o único que pode garantir a nossa admissão ao casamento místico.
O povo está se movendo lentamente na direção certa, conduzido pelas diferentes Religiões Cristãs, mas há
uma classe sempre crescente que, por assim dizer, sente as asas do Corpo-Alma brotando, pessoas que sentem um
desejo interior de tomar o Reino de Deus por assalto. Embora não possuam nenhum ideal definido, sentem uma
verdade maior e uma luz mais evidente do que aquelas que as Religiões Cristãs atuais irradiam; elas estão cansadas de
parábolas e anseiam aprender os fatos subjacentes aos próprios pés de Cristo.
A Fraternidade Rosacruz foi instituída com o propósito de alcançar essa classe de pessoas, para lhes mostrar o
caminho para a iluminação, para ajudá-las a construir o Corpo-Alma delas e desenvolver os poderes anímicos, que as
capacitarão a entrar, conscientemente, no Reino de Deus e obter o conhecimento direto.
Esse é um grande empreendimento, o maior de todos, e mesmo sob as condições mais favoráveis existentes,
o progresso deve ser lento, mas, se o Aspirante à vida superior continuar com paciente perseverança em fazer o bem,
isso pode ser feito.
Os métodos são definidos, científicos e religiosos; foram criados pela Escola Ocidental da Ordem Rosacruz e,
portanto, são especialmente adequados para os povos ocidentais. Às vezes, mas muito raramente, produzem
resultados a curto prazo; geralmente são necessários anos e até vidas antes que o Aspirante à vida superior alcance o
objetivo dele, mas ao seguir esses métodos alcançará, ao final, a realização de tudo que o coração dele deseja.
O Tabernáculo no Deserto287 era uma representação simbólica do caminho para Deus e, como diz S. Paulo,
continha uma sombra das boas coisas que estavam por vir. Tudo nele tinha um significado espiritual. A Mesa dos Pães
da Proposição288 nos fornece uma lição importante pertinente à nossa atual situação. Os Estudantes Rosacruzes
devem estar lembrados de que os antigos israelitas eram instruídos a levar os Pães da Proposição ao Tabernáculo em
285
N.T.: Mt 11:12
286
N.T.: ICor 15:50
287
N.T.: Foi a primeira igreja erigida pela Humanidade sobre a Terra, quando constatada a necessidade de darmos
início ao trilhar do “caminho de volta para Deus” (fim da Involução e início da Evolução). Estávamos na Época Atlante,
por isso ficou conhecido como o Templo de Mistérios Atlante. Sua localização estava relacionada aos pontos cardeais,
e foi colocada na direção leste para oeste (o caminho da evolução espiritual). Foi dado para que pudéssemos
encontrar Deus quando nos qualificássemos pelo serviço e tivéssemos subjugado a natureza inferior pelo “Eu
superior”. E essa mesma natureza ambulante dele que é uma excelente representação simbólica da nossa natureza
migratória: um eterno peregrino, passando sempre do limite do tempo à eternidade – o nosso verdadeiro lar – para
voltar novamente (ciclo de nascimentos e mortes). O Tabernáculo no Deserto mostra algo muito além do que a visão
alcança. Em outras palavras, sob a aparência material e terrena estava esquematizada uma representação de fatos
celestiais e espirituais que continham instruções aos candidatos à Iniciação.
intervalos determinados. O grão, com o qual esses Pães foram feitos, foi fornecido por Deus, mas foram eles que
deviam preparar o solo em que o grão iria crescer, eles é que tinham que plantar e cultivar, que deviam capinar e
regar, de modo a garantir o maior crescimento possível; eles deveriam colher e debulhar, moer e cozer e, dessa forma,
obtinham os Pães que traziam ao Tabernáculo como o pão da proposição, resultado do trabalho árduo e pesado deles.
Da mesma forma, Deus fornece a todos nós a oportunidade de servir, mas é nosso dever cultivar essas oportunidades,
nutri-las e alimentá-las no solo da bondade amorosa, para que possam alcançar um maior desenvolvimento. Devemos
levar sempre em consideração as palavras de Cristo quando Ele diz que veio para prover e servir. Portanto, qualquer
pessoa que aspire a seguir Seus passos e ser grande no Reino de Deus deve estar sempre atenta às oportunidades de
servir aos seus semelhantes. Cada dia deve ser preenchido, tanto quanto possível, com atos, ações ou obras bondosos
e prudentes, pois são a urdidura e a trama com o que é tecida a Veste Dourada das Bodas. Sem esses “atos, ações e
obras” nenhuma oração, nenhum jejum ou outros exercícios religiosos terão valor. É inútil ir ao Templo sem esse Pão
da Proposição para mostrar que realmente trabalhamos no serviço do Mestre.
O que foi dito acima é, também, o ensinamento das Religiões que praticam o Cristianismo exotérico; mas, o
que exporemos a partir daqui são os ensinamentos e o método científico exclusivamente Rosacruz, baseado no mais
profundo conhecimento dos fatos espirituais, por meio dos quais o Aspirante à vida superior é capaz de obter o
máximo crescimento da alma em cada vida, de modo que seu avanço espiritual seja acelerado além de seus sonhos
mais almejados. Portanto, esse é o ensinamento espiritual mais importante que foi fornecido a nós nos tempos atuais,
e ninguém que tente honestamente seguir esse método pode deixar de ser enormemente beneficiado.
O Éter é o meio de transmissão da luz, e é aquele que grava uma imagem numa película sensível ou em um
filme fotográfico. Ele permeia o ar e em cada respiração quando inspiramos, desde o nascimento até a morte, o Éter
entra em nosso organismo e grava uma imagem de tudo que nos rodeia e das nossas ações em um pequeno átomo no
coração289. Assim, cada um de nós carrega consigo um registro completo da sua vida, que é assimilado depois da
morte. A expiação das más ações causa a dor e angústia quando no Purgatório. Essas são, assim, transmutadas em
consciência para evitar a repetição dos mesmos erros nas vidas seguintes aqui; do mesmo modo as boas ações são
transmutadas em amor e benevolência. Em vez de esperar por essa transmutação post mortem do Pão da Proposição
da vida, o Aspirante à vida superior que deseja “tomar o céu por assalto” pode assimilar os frutos de cada dia depois
de se recolher à noite e antes de dormir, repassando as ações, obras e atos realizados. Os acontecimentos diários
devem ser revistos e considerados na ordem inversa, isto é, se revê primeiro o que foi feito na noite, depois os
acontecimentos da tarde, do meio-dia e da manhã. Isso é importante porque está de acordo com a forma como o
Panorama da Vida é revisto depois da morte, desenrolando-se primeiro os acontecimentos que precederam a morte e
recuando, sucessivamente, até os dias da infância. O objetivo é mostrar os efeitos das ações, obras e dos atos
praticados e depois as causas que os originaram290.
Nessa retrospectiva, não fará bem ao Aspirante à vida superior recapitular os acontecimentos do dia e se
culpar moderadamente pelos erros que cometeu e se elogiar com entusiasmo pelas boas ações praticadas. Mas, ele
deve se lembrar do Altar dos Sacrifícios291, em que eram oferecidos os sacrifícios pelo pecado. Primeiro, esses
288
N.T.: A Mesa dos Pães da Proposição era um dos três objetos principais que compunham o mobiliário da Sala Leste (Lugar
Santo – Sanctum) do Tabernáculo no Deserto e estava colocada ao lado norte, de modo a estar à mão direita do sacerdote
quando ele se encaminhasse ao segundo véu. Doze pães sem fermento eram continuamente mantidos sobre a mesa. Eram
colocados em duas pilhas, um pão sobre o outro, e em cima de cada pilha havia uma pequena quantidade de incenso. Esses
pães eram chamados os Pães da Proposição ou pão da face, porque foram colocados solenemente diante da presença do
Senhor que habitava a Glória de Shekinah, atrás do segundo véu. Todos os sábados, os pães eram substituídos pelo sacerdote,
sendo os velhos retirados e os novos colocados no mesmo lugar. Os pães retirados eram entregues aos sacerdotes para
comerem e ninguém mais tinha permissão de prová-los; também não era permitido comê-los em nenhum lugar fora do
Santuário porque era santíssimo e, portanto, só poderia ser consumido por pessoas consagradas e em solo sagrado. O incenso
que ficava sobre as duas pilhas dos Pães da Preposição era queimado quando havia a troca dos pães como uma oferta
queimada ao Senhor por um memorial em lugar do pão. Detalhando um pouco mais: sobre essa mesa havia duas pilhas de Pães
da Proposição, cada uma com seis pães, e sobre cada pilha havia uma pequena quantidade de incenso. O Aspirante que
chegasse à porta do Templo, “pobre, nu e cego”, era conduzido à luz do Candelabro de Sete Braços, obtendo um determinado
grau de conhecimento cósmico para ser utilizado unicamente a serviço de seus semelhantes. A Mesa do Pães da Proposição
simboliza esse conceito.
289
N.T.: Átomo-semente do Corpo Denso que está situado no Ápice do Ventrículo esquerdo do Coração.
290
N.T.: Esse é o Exercício Esotérico noturno de Retrospecção.
291
N.T.: O Altar de Bronze ou Altar dos Sacrifícios era uma peça que fazia parte do Tabernáculo no Deserto e que estava localizado
dentro do portão leste (no Átrio do Tabernáculo) e era utilizado para o sacrifício de animais durante o serviço no templo. A ideia de
utilizar bois e bodes como sacrifícios parece bárbaro para a mentalidade moderna, e não podemos alcançar a compreensão de que
isso pudesse resultar em algo eficaz como efeito ao sacrifício. Mas, não devemos esquecer que o Tabernáculo no Deserto é um
assunto do Antigo Testamento e se refere ao momento da primeira e segunda Dispensação, sobre as Religiões de Raça. Nessas
Dispensações adorávamos as posses materiais e sabíamos que o aumento dos nossos rebanhos ocorria pela disposição de Deus, e
sacrifícios eram esfregados com sal e depois colocados no Altar para serem consumidos por um fogo divinamente
aceso.
Qualquer um sabe a dor intensa causada quando se esfrega sal em uma ferida, e essa fricção com sal simboliza
a dor que o Aspirante à vida superior deve sentir pelo seu erro. Agora, observe que não era permitido depositar o
sacrifício no Altar até que fosse esfregado com sal. Deus não o aceitaria antes, mas, depois de salgado, era consumido
por um fogo aceso pelo próprio Deus.
Isso nos diz que, a menos que tenhamos lavado nossas más ações, obras e nossos maus atos do dia no sal de
nossas lágrimas e com sincera contrição, Deus não aceitará nosso sacrifício de arrependimento; mas, quando
realmente nos arrependemos, nossos pecados serão lavados e o nosso Átomo-semente ficará limpo, tão branco como
a neve. Com respeito às nossas boas ações, podemos lembrar que havia duas pequenas pilhas de incenso sobre os
Pães da Proposição. Essas pilhas de incenso eram oferecidas no Altar de Incenso 292, em que a fumaça subia como um
suave aroma ao Senhor, bem diferente do odor nauseabundo que subia do Altar em que as oferendas pelos pecados
eram queimadas. É de admirar que Deus não tenha se agradado do sacrifício de touros e bezerros, mas sim de um
coração contrito e de um Espírito arrependido?
É esse extrato espiritual aromático de nossas boas ações, obras e bons atos que constrói nosso Corpo-Alma.
Pelo processo natural normal, são necessários cerca de um terço dos anos da nossa existência post mortem, enquanto
vivíamos aqui nesse Corpo Denso, para colher o que semeamos. Mas, quando um Aspirante à vida superior assimilou
os frutos da vida por meio da fiel execução do Exercício Esotérico noturno de Retrospecção, ao final de cada dia, ele se
torna livre assim que deixa o Corpo Denso ao morrer aqui, e pode utilizar os anos passados por outros no Purgatório e
no Primeiro Céu da maneira que lhe aprouver. Além disso, como não precisa de alimento, de abrigo ou de dormir,
pode passar as vinte e quatro horas do dia fazendo o bem. Assim, ele tem, praticamente, tantos anos de serviço e de
crescimento anímico após a morte aqui, quanto os anos de sua vida terrena recém-finda; e sendo treinado e instruído
nessa atividade, suas realizações são, provavelmente, maiores do que poderiam ser obtidas em várias vidas vividas de
maneira normal.
Para auxiliar os Aspirantes à vida superior merecedores, ensinamentos ainda mais profundos e definidos são
fornecidos pelos Irmãos Maiores por meio da Fraternidade Rosacruz. Os Estudantes que sentem esse impulso interior
podem pedir informações sobre esses ensinamentos.

dado por Ele segundo o mérito. Assim, fomos ensinados a agir corretamente na esperança de uma recompensa nesse mundo
atual. Também fomos dissuadidos de praticar o mal, devido ao rápido castigo que sofreríamos em consequência da retribuição por
nossos pecados. Isso era a única maneira que nós entendíamos. Nós não podíamos fazer o bem pelo simples prazer de fazer o
bem, e muito menos podíamos compreender o princípio de nos tornarmos nós próprios “sacrifícios viventes” e, provavelmente,
sentíamos tanto a perda de um animal quando cometíamos o pecado, assim, como nós sentimos as dores agudas da consciência
por nossas más ações.
292
N.T.: O Altar do Incenso ou Altar de Ouro era um dos três objetos principais que compunham o mobiliário da Sala Leste (Lugar
Santo – Sanctum) do Tabernáculo no Deserto. Ficava no centro da sala, isto é, a meio caminho entre as paredes norte e sul, em
frente ao segundo véu. Nenhuma carne jamais foi queimada nesse altar e nenhum sangue jamais fora derramado sobre ele,
exceto em ocasiões muito solenes, e apenas os seus chifres eram marcados com a mancha vermelha. A fumaça que era vista no
topo, nunca foi outra, senão a fumaça do incenso queimado. Isso acontecia todas as manhãs e todas as noites, preenchendo o
Santuário com uma nuvem de fragrância agradável que impregnava todo o ambiente interior e que se estendia por todo o país de
todos os lados por milhas ao redor.
Parte X - Iniciação Antiga e Moderna

Por
Max Heindel

Revisado de acordo com:


7ª Edição em Inglês, 2011, Ancient and Modern Initiation, editada por The Rosicrucian Fellowship
1ª Edição em Português, Iniciação Antiga e Moderna – editada pela Fraternidade Rosacruz – São Paulo – SP –
Brasil

Nesta parte se encontram algumas das joias das mais inestimáveis pertencentes às fases mais profundas da
Religião Cristã. Essas joias são o resultado das investigações espirituais do vidente inspirado e iluminado, Max Heindel,
o mensageiro autorizado dos Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz, que estão trabalhando para disseminar por todo o
mundo ocidental os significados espirituais mais profundos, ocultos e revelados da Religião Cristã.
Os vários passos importantes descritos na vida de nosso Salvador, Jesus Cristo, formam o plano geral da
Iniciação para a humanidade. Max Heindel, nesse trabalho, fornece uma visão mais profunda e mística desse processo
alquímico, que ocorre no corpo do próprio ser humano. Pois somos apenas “um pouco mais inferiores que os Anjos ...
e ainda não aparece o que seremos”.
Esse volume será uma adição bem-vinda às bibliotecas de muitos ministros e organizações da igreja em todo o
mundo. Soará como uma nova nota de inspiração e encorajamento para todos aqueles que trabalham em Seu nome.
A Escola Rosacruz tem uma herança inestimável na oportunidade de promulgar, durante esse período crucial
na evolução espiritual dos seres humanos e nações, os ensinamentos esotéricos pertencentes à Igreja Cristã. “A quem
muito for dado, muito será exigido.”. Portanto, é no espírito de reverência e humildade que a Fraternidade Rosacruz
dedica os ensinamentos inestimáveis contidos nesse pequeno livro ao serviço de toda a humanidade.
Que a Sua Verdade ilumine, que a Sua Sabedoria e o Seu Amor envolvam a todos aqueles que vierem a
participar de Sua Água da Vida. E que cada um que vier encontre o Caminho Iluminado que é descrito aqui.

“O Reino dos Céus é semelhante a um comerciante, buscando boas pérolas. Quando encontrou uma pérola de grande
valor, foi e vendeu tudo o que tinha e a comprou.”293.

293
N.T.: Mt 13:45-46
O Tabernáculo no Deserto
Capítulo I – O Templo de Mistério Atlante

Figura 1

Desde que a humanidade, os filhos pródigos espirituais de nosso Pai Celestial, começou e continua a vaguear
pelo deserto do mundo, a se alimentar dos prazeres mundanos, que faz o corpo sofrer e até morrer por falta de
alimento real suficiente, existe lá dentro do Coração do ser humano uma voz silenciosa que fortemente o estimula a
voltar ao lar; porém, a maioria dos seres humanos está tão absorvida nos interesses materiais que não pode ouvir. O
Maçom Místico que ouviu essa voz interior se sente impelido por um estímulo interno muito forte para procurar pela
Palavra Perdida; para construir uma casa de Deus, um templo do espírito, onde ele possa encontrar o Pai frente a
frente e responder ao Seu chamado.
Ele não é dependente de seus próprios recursos nessa busca, pois nosso Pai Celestial preparou um caminho
marcado com mensagens que nos levarão até Ele, caso queiramos segui-lo. No entanto, como esquecemos a Palavra
divina e seríamos incapazes de compreender o seu significado agora, o Pai nos fala na linguagem do simbolismo, que
tanto oculta como revela as verdades espirituais que devemos compreender antes de podermos voltar a Ele. Assim
como damos aos nossos filhos livros ilustrados que lhes revelam conceitos intelectuais, de outro modo
incompreensíveis às suas Mentes infantis, também cada símbolo fornecido por Deus tem um significado profundo que
não poderia ser aprendido se não fosse dessa maneira expressado.
Deus é espírito e em espírito deve ser adorado. Portanto, é estritamente proibido fazer d’Ele uma imagem
material, pois nada que pudéssemos fazer transmitiria uma ideia adequada. No entanto, como saudamos a bandeira
de nosso país com regozijo e entusiasmo, porque desperta em nós os sentimentos mais ternos pelo lar e por nossos
entes queridos, porque fomenta nosso impulso mais nobre por ser um símbolo de tudo o que mais estimamos, assim
também agem os diferentes símbolos divinos que foram fornecidos à humanidade, de tempos em tempos, falando
com aquele fórum da verdade que está dentro dos nossos corações e despertando nossa consciência para as ideias
divinas que transcendem inteiramente as palavras. Contudo, o simbolismo, que desempenhou um papel muito
importante em nossa evolução passada, ainda é uma necessidade primordial em nosso desenvolvimento espiritual;
daí a conveniência de estudá-lo com nossos intelectos e nossos corações.
É óbvio que assim como nossa atitude mental de hoje depende de como pensamos ontem, também nossa
condição e circunstâncias atuais dependem de como trabalhamos ou nos esquivamos no passado. Cada novo
pensamento ou nova ideia que chega a nós consideramos à luz de nossas experiências anteriores e, assim, vemos que
nosso presente e nosso futuro são determinados por vivências passadas. Semelhantemente, o caminho do esforço
espiritual que abrimos por nós mesmos em existências passadas determina nossa atitude presente e o caminho que
devemos seguir para alcançar nossas aspirações. Por isso, não podemos obter uma perspectiva verdadeira do nosso
desenvolvimento futuro, a menos que nos familiarizemos primeiramente com o passado.
É em reconhecimento desse fato que a Maçonaria moderna se volta ou remonta ao templo de Salomão. Isso é
muito bom até certo ponto, porém, para obter uma perspectiva mais ampla, também devemos levar em consideração
o antigo Templo de Mistério Atlante, o Tabernáculo no Deserto. Devemos compreender a importância daquele
Tabernáculo e, também a do primeiro e do segundo Templos, pois havia diferenças vitais entre eles, cada um repleto
de significância cósmica específica; e dentro de todos eles havia o prenúncio da cruz, espargido com sangue e que foi
transformado em rosas.
O Tabernáculo no Deserto

Lemos na Bíblia a história de como Noé e o remanescente de seu povo foram salvos com ele do dilúvio e
formaram o núcleo da humanidade da Época do Arco-Íris, na qual vivemos agora. Lá, também, afirma que Moisés
conduziu seu povo para fora do Egito, a terra do touro, do Signo de Touro, através das águas que tragaram seus
inimigos. Levou-o, a salvo, liberto, como o povo escolhido para adorar o Cordeiro, do Signo de Áries, em cujo Signo o
Sol entrara por Precessão dos Equinócios. Essas duas narrativas se referem a um mesmo incidente, conhecido como o
surgimento da humanidade infantil do continente perdido da Atlântida, atual Era dos ciclos alternantes, onde verão e
inverno, dia e noite, fluxo e refluxo, se sucedem ininterruptamente. Como a humanidade havia acabado de ser
contemplada com a Mente, começou a notar a perda da visão espiritual que possuía até então, e desenvolveu um
anseio pelos Mundos espirituais e por seus guias divinos, sentimento que permanece até os dias de hoje, pois a
humanidade nunca deixou de lamentar a perda deles. Portanto, o antigo Templo de Mistério Atlante, o Tabernáculo
no Deserto, foi providenciado aos seres humanos para que pudessem encontrar o Senhor, quando se qualificassem
pelo serviço e pela subjugação da natureza inferior pelo “Eu superior”. Projetado por Jeová, era a personificação das
grandes verdades cósmicas ocultas por um véu de simbolismo, o qual falava ao “Eu interno” ou “Eu superior”.
Em primeiro lugar, é digno de nota que esse Tabernáculo, divinamente projetado, foi dado a um povo
escolhido, que deveria construí-lo a partir de ofertas voluntárias, doadas do fundo dos seus corações. Eis aqui uma
lição bem específica, pois o modelo divino do caminho para o progresso nunca é fornecido a alguém que não tenha
feito, primeiro, uma aliança com Deus, em que assume o compromisso de servi-Lo, disposto a Lhe ofertar o sangue de
seu Coração em uma vida de serviço altruísta. O termo “Maçom” é derivado de phree messen, que é um termo egípcio
que significa “Filhos da Luz”. Na linguagem Maçônica, Deus é mencionado como o Grande Arquiteto. Arche é uma
palavra grega que significa “substância primordial”. Tekton é o nome grego para construtor. Diz-se que José, o pai de
Jesus, foi um “carpinteiro”, mas a palavra grega é tekton – construtor. Também se diz que Jesus era um “tekton”, um
construtor. Assim, todo verdadeiro Maçom místico é um filho da luz, um construtor, esforçando-se por construir o
templo místico de acordo com o modelo divino fornecido a ele por nosso Pai Celestial. Para esse fim, ele dedica todo o
seu Coração, toda a sua alma e toda a sua Mente. A aspiração dele é, ou deveria ser, “ tornar-se o maior no Reino de
Deus” e, portanto, ele deve ser o servo de todos.
O próximo ponto que exige nossa atenção prévia é a localização do templo em relação aos pontos cardeais, e
verificamos que ele foi colocado na direção do leste para o oeste. Assim, vemos que o caminho do progresso espiritual
é do Leste para o Oeste. O Aspirante entrava pela porta leste e seguia o caminho que passava pelo Altar dos
Sacrifícios, pelo Altar de Bronze e pelo Lugar Santo, na parte mais ocidental do Tabernáculo, onde estava localizada a
Arca, o maior de todos os símbolos, no Santo dos Santos. À medida que os sábios do Oriente seguiam a estrela de
Cristo para o oeste em direção a Belém, o centro espiritual do mundo civilizado se deslocava cada vez mais para o
oeste, e ainda hoje o ponto mais alto da onda espiritual que começou na China nas costas ocidentais do Pacífico,
chegou agora às costas orientais do mesmo oceano, onde está reunindo forças para dar mais um salto em sua jornada
cíclica através da imensidade das águas, para recomeçar, em um futuro distante, uma nova jornada cíclica ao redor da
Terra.
A natureza ambulante desse Tabernáculo no Deserto é, portanto, uma excelente representação simbólica da
natureza migratória do ser humano, um eterno peregrino, passando sempre dos limites do tempo à eternidade e vice-
versa. À medida que um Planeta gira em sua jornada cíclica ao redor do Sol principal, o ser humano, o pequeno
mundo ou o microcosmo, viaja numa dança cíclica ao redor de Deus, que é a fonte e a meta de todos.
O grande cuidado e atenção aos detalhes relativos à construção do Tabernáculo no Deserto mostra que algo
muito mais elevado do que os nossos sentidos podiam alcançar foi planejado em sua construção. Em sua mostra
terrena e material foi projetada uma representação de fatos celestiais e espirituais que continham instruções ao
candidato à Iniciação; e essa reflexão não deveria nos estimular a procurar uma ligação mais íntima e familiar com
esse antigo santuário? Certamente ele nos exorta a considerar todas as partes do seu plano com a devida, cuidadosa e
reverente atenção, recordando a cada passo, a origem divina de tudo isso e, humildemente, almejar penetrar através
das sombras dos serviços terrenos, nas sublimes e gloriosas realidades que, de acordo com a sabedoria do espírito, ele
descortina para nossa contemplação solene.
Para que possamos ter uma concepção correta desse lugar sagrado, devemos considerar o próprio
Tabernáculo, seu mobiliário e seu átrio.
A ilustração a seguir pode ajudar o Estudante a formar uma melhor concepção do arranjo interno.

Figura 2
O Átrio do Tabernáculo

Esse era um recinto que rodeava o Tabernáculo. Seu comprimento era o dobro da sua largura e o portão
ficava no extremo leste. Esse portão era coberto por uma cortina de linho fino torcido de cores azul, escarlate e roxo,
e essas cores nos demonstram, de bate e pronto, o nível desse Tabernáculo no Deserto. No sublime Evangelho de São
João somos ensinados que “Deus é luz”, e nenhuma descrição ou semelhança poderia transmitir uma melhor
concepção ou maior iluminação para a Mente espiritual do que essas palavras. Quando consideramos que mesmo o
maior dos telescópios modernos não conseguiu determinar as fronteiras da luz, embora eles penetrem no espaço por
milhões e milhões de quilômetros, isso nos fornece uma fraca ideia, porém abrangente, da infinitude de Deus.
Sabemos que essa luz, que é Deus, é refratada nas três cores primárias pela atmosfera que circunda nossa
Terra, a saber: o azul, o amarelo e o vermelho. É um fato bem conhecido, por todo ocultista, que o raio do Pai é azul,
enquanto o do Filho é amarelo e a cor do raio do Espírito Santo é vermelha. Somente o raio mais forte e mais
espiritual tem a possibilidade de penetrar no assento da consciência da onda de vida que anima o nosso Reino Mineral
e, dessa forma, encontramos sobre as cordilheiras de montanhas o raio azul do Pai refletindo em volta das encostas
áridas e pairando como uma névoa sobre desfiladeiros e barrancos. O raio amarelo do Filho, mesclado ao azul do Pai,
fornece vida e vitalidade ao mundo das plantas, que, dessa forma, refletem de volta uma cor verde por incapacidade
de reter o raio dentro de si. Porém, no Reino Animal, ao qual, anatomicamente, o ser humano não regenerado
pertence, os três raios são absorvidos e o raio do Espírito Santo fornece a cor vermelha da carne e do sangue do ser
humano. A mescla do azul e do vermelho evidencia a cor púrpura do sangue, envenenado devido ao pecador.
Contudo, o amarelo nunca se evidenciará até que se manifeste como um Corpo-Alma, o “traje nupcial” da Noiva
mística do Cristo místico desenvolvido desde o interior.
Desse modo, as cores dos véus do Templo, tanto no portão como na entrada do Tabernáculo, mostravam que
essa estrutura foi projetada para um período anterior ao tempo do Cristo, pois possuía somente as cores azul e
escarlate do Pai e do Espírito Santo, respectivamente, que juntas formavam a cor púrpura. Porém, o branco é a
síntese de todas as cores e, portanto, o raio amarelo de Cristo estava oculto nessa parte do véu, até que, no seu
devido tempo, Cristo deveria aparecer para nos emancipar das leis, como eram fornecidas, que nos limitam e nos
iniciar na plena liberdade dos Filhos de Deus, Filhos da Luz, Phree Messen ou Maçons Místicos.
Capítulo II – O Altar e o Lavabo de Bronze
O Altar de Bronze estava localizado dentro do portão leste e era utilizado para o sacrifício de animais durante
o serviço no templo. A ideia de utilizar bois e bodes como sacrifícios parece bárbaro para a mentalidade moderna, e
não podemos alcançar a compreensão de que isso pudesse resultar em algo eficaz como efeito ao sacrifício. De fato, a
Bíblia relata sobre isso detalhadamente e fornece uma explicação sobre o assunto, quando nos diz, repetidamente,
que Deus não deseja sacrifícios, mas um espírito aquebrantado e um Coração contrito, e que Ele não quer sacrifícios
de sangue. À vista desse fato, parece estranho que os sacrifícios fossem uma vez sido ordenados. Contudo, devemos
entender que nenhuma religião pode elevar aqueles a quem lhe foi concebido ajudar, se seus ensinamentos estiverem
muito acima do seu nível intelectual ou moral. Para apelar a um bárbaro, a religião deve ter certos traços bárbaros.
Uma religião de amor nunca poderia ter sido atraente para aquelas pessoas; por isso, a elas foram fornecidas uma lei
que exigia “um olho por um olho e um dente por um dente”. Não há, no Velho Testamento, qualquer menção à
imortalidade, porque essas pessoas não poderiam compreender um céu e nem a ele aspirar. Entretanto, elas amavam
as posses materiais e, por isso, foram instruídas que, se procedessem corretamente, elas e sua descendência
habitariam na Terra para sempre e, que seu gado seria multiplicado, etc.
Elas adoravam as posses materiais e sabiam que o aumento dos seus rebanhos ocorria pela disposição de
Deus, e dado por Ele segundo o mérito. Assim, elas foram ensinadas a agir corretamente na esperança de uma
recompensa nesse mundo atual. Também foram dissuadidas de praticar o mal, devido ao rápido castigo que sofreriam
em consequência da retribuição por seus pecados. Isso era a única maneira que elas entendiam. Elas não podiam fazer
o bem pelo simples prazer de fazer o bem, e muito menos podiam compreender o princípio de se tornarem elas
próprias “sacrifícios viventes” e, provavelmente, sentiam tanto a perda de um animal quando cometiam o pecado,
assim, como nós sentimos as dores agudas da consciência por nossas más ações.
O Altar era feito de bronze, um metal não encontrado na natureza, porém, fabricado pelo ser humano a partir
de cobre e zinco. Assim, simbolicamente, é mostrado que o pecado não estava originalmente previsto em nosso
Esquema de Evolução294, e é uma anomalia na natureza, bem como suas consequências, isto é, a dor e morte, que são
simbolizadas pelas vítimas sacrificadas. Contudo, enquanto o próprio Altar era feito de metais compostos
artificialmente, o fogo que queimava incessantemente era de origem divina, e era mantido aceso ano após ano com o
mais zeloso cuidado. Nenhum outro fogo jamais foi usado, e podemos notar um resultado declarado que, quando dois
sacerdotes presunçosos e rebeldes ousaram desobedecer a esse mandamento e usar um fogo estranho, eles
depararam, como retribuição, uma morte horrível e instantânea 295. Quando, uma vez prestado um juramento de
lealdade ao Mestre místico, o “Eu superior”, é extremamente perigoso desconsiderar os preceitos então fornecidos.
Quando o candidato aparece no portão leste, se encontra “pobre, nu e cego”. Naquele momento, ele é digno
de compaixão, precisando ser vestido e trazido à luz, mas, isso não pode ser feito imediatamente no Templo místico.
Durante o período do seu progresso, da condição de nudez até que ele tenha sido trajado com as vestes
resplandecentes do sumo sacerdote, há um longo e difícil caminho a ser percorrido. A primeira lição que lhe é
ensinada é que o ser humano progride somente por meio de sacrifícios e sozinho. Na Iniciação Cristã Mística, quando
o Cristo lava os pés dos Seus Discípulos, a explicação fornecida é que a menos que seja oferecida a decomposição dos
minerais como forma de alimento ao Reino vegetal, não haveria vegetação; também, se os alimentos vegetais não
fossem o sustento para os animais, esses últimos não conseguiram se expressar; e assim sucessivamente – o superior
está sempre se alimentando do inferior. Portanto, o ser humano tem uma obrigação para com os animais, e assim o
Mestre lava os pés dos Seus Discípulos, simbolizando nesse humilde serviço o reconhecimento do fato de que eles O
serviram como bases de apoio para algo mais elevado.
Do mesmo modo, quando o candidato é trazido ao Altar de Bronze, aprende a lição de que o animal é
sacrificado por sua causa, dando seu corpo como alimento e sua pele como vestuário. Além disso, ele vê a densa
nuvem de fumaça flutuando sobre o Altar e percebe dentro dela uma luz, porém, essa luz é muito tênue e muito
encoberta pela fumaça para servir como orientação permanente para ele. Seus olhos espirituais são frágeis, portanto,
não faria sentido expô-los imediatamente à luz das verdades espirituais mais elevadas.
O Apóstolo São Paulo nos ensinou que o Tabernáculo no Deserto era uma sombra de grandes coisas que vêm.
Por isso, pode ser interessante e proveitoso ao candidato que vem ao Templo em tempos atuais descobrir qual é o
significado desse Altar de Bronze, com seus sacrifícios e a queima da carne. A fim de que possamos compreender esse
mistério, primeiro de tudo, devemos assimilar a grande e absoluta ideia essencial que fundamenta todo verdadeiro
misticismo; a saber, que essas coisas estão dentro e não fora de nós. Angelus Silesius diz sobre a Cruz:

“Ainda que Cristo nasça mil vezes em Belém,


Se não nascer dentro de ti, tua alma segue extraviada.

294
N.T.: Nosso Esquema de Evolução começou no Período de Saturno e vai até o Período de Vulcano.
295
N.T.: Lv 10:1
Olharás em vão a Cruz do Gólgota,
Enquanto ela não se erguer dentro de ti mesmo novamente.”

Essa ideia deve ser aplicada a todo símbolo e a toda fase da experiência mística.
Não é o Cristo externo que salva, mas o Cristo interno. O Tabernáculo foi construído no passado; é claramente
visto na Memória da Natureza quando a visão interior tenha sido suficientemente desenvolvida para tal; porém,
ninguém deve esperar qualquer ajuda do símbolo externo. Devemos construir o Tabernáculo dentro dos nossos
corações e da nossa consciência. Devemos vivenciar, como uma real experiência interna, o ritual completo do serviço
lá demonstrado. Devemos ser, tanto o Altar dos Sacrifícios como o animal sacrificado repousado sobre ele. Devemos
ser, igualmente, o sacerdote que imola o animal e o próprio animal imolado. Mais tarde, devemos aprender a nos
identificar com o Lavabo místico e devemos aprender a nos lavar nele, em espírito. Em seguida, devemos adentrar
pelo primeiro véu, servir na Sala Oriental, e prosseguir através de todo serviço do Templo até nos tornarmos o maior
de todos esses antigos símbolos, a Glória de Shekinah, ou isso de nada nos beneficiará. Em resumo, antes que o
símbolo do Tabernáculo possa, realmente, nos ajudar, devemos transferi-lo do deserto para um lar em nossos
corações, para que quando nós nos tornarmos em tudo que aquele símbolo é, também tenhamos nos tornados
naquilo que ele significa em espiritualidade.
Vamos começar, então, a construir dentro de nós o Altar dos Sacrifícios, primeiramente, para que nele
possamos imolar nossas transgressões e depois expiá-las no crisol do remorso. Isso é realizado, no moderno sistema
de preparação para o Discipulado, por um exercício que se executa à noite 296, e que foi cientificamente elaborado
pelos Hierofantes da Escola de Mistérios Ocidental para crescimento do Aspirante no caminho que conduz ao
Discipulado. Outras escolas ensinaram um exercício similar, mas esse difere de todos os métodos anteriores, em um
ponto particular. Depois da explanação dos exercícios, daremos a razão dessa grande e fundamental diferença. Esse
método especial tem um efeito de longo alcance, que possibilita que se aprenda agora, não somente as lições que se
deveria aprender, normalmente, nessa vida, mas a alcançar um desenvolvimento que, de outro modo, não poderia ser
alcançado senão somente em muitas vidas futuras.
À noite, quando nos retiramos para dormir, o corpo deve estar relaxado. Isso é muito importante, pois quando
alguma parte do corpo está tensa, o sangue não circula livremente; tal parte está temporariamente aprisionada, sob
pressão. Como todo desenvolvimento espiritual depende do sangue, o esforço máximo para alcançar o crescimento
anímico não pode ser feito, enquanto qualquer parte do corpo está sob tensão.
Quando o relaxamento ideal é alcançado, o Aspirante à vida superior começa a rever as cenas do dia, porém,
não deve começar com as ocorrências da manhã e encerrar com os acontecimentos da noite. Ele as revive em ordem
inversa: primeiro as cenas da noite, então os acontecimentos da tarde e, por fim, as ocorrências da manhã. A razão
para isso é que no instante do nascimento, quando a criança inala a sua primeira completa respiração, o ar inspirado
pelos pulmões carrega com ele uma imagem do mundo exterior e, à medida que o sangue passa pelo ventrículo
esquerdo do Coração, cada cena da vida é retratada em um pequeno Átomo-semente ali localizado. Cada inspiração
traz consigo novas imagens que ficam gravadas naquele pequeno Átomo-semente, um registro de cada cena e de cada
ação praticada durante toda a nossa vida, desde a primeira respiração até o último suspiro. Após a morte, essas
imagens formam a base da nossa existência no Purgatório. Sob as condições dos Mundos espirituais, sofremos dores
cruciantes de consciência tão agudas, inacreditáveis, por cada má ação cometida e, assim, nos sentimos
desencorajados em continuar no caminho do transgressor. A intensidade das alegrias que experimentamos devido as
nossas boas ações praticadas atua como um estímulo para seguir o caminho da virtude nas vidas futuras. Porém, na
existência post-mortem esse panorama da vida é revisto na ordem inversa, a fim de mostrar, primeiramente, os
efeitos e depois as causas que os geraram, para que o espírito possa aprender como a Lei de Causa e Efeito funciona
na vida. Por esse motivo, o Aspirante, que está sob a orientação científica dos Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz,
recebe ensinamentos para realizar seu exercício noturno também na ordem inversa, julgando-se diariamente e, assim,
ele pode escapar do sofrimento no Purgatório após a morte. Contudo, devemos compreender que não haverá mérito
algum se as cenas do dia forem feitas superficialmente. Não é suficiente quando revemos uma cena em que nós
tenhamos prejudicado seriamente e causado a alguém muita dor e sofrimento e dizer simplesmente: “Bem, lamento
muito pelo que fiz. Eu gostaria de nunca ter feito isso”. Nesse momento, somos o animal sacrificado repousado sobre
o Altar dos Sacrifícios e, a menos que consigamos sentir em nossos corações o fogo divinamente inflamado do
remorso queimando até o mais profundo do nosso ser, devido às nossas más ações praticadas durante o dia, de nada
valerá.
Durante a antiga Dispensação297, todas os sacrifícios eram esfregados com sal, antes de colocadas no Altar dos
Sacrifícios. Todos sabemos como dói e queima quando, acidentalmente, esfregamos sal em um ferimento recente.
Esse salgamento nos sacrifícios naquele Antigo Templos de Mistérios simbolizava a intensidade da dor que devemos

296
N.T.: Esse exercício noturno é chamado de Exercício de Retrospecção.
297
N.T.: Primeira e Segunda Dispensações, de um total de quatro.
sentir, quando nós, como sacrifícios vivos, nos colocamos sobre o Altar dos Sacrifícios. É o sentimento do remorso, o
profundo e sincero arrependimento pelo que fizemos, que erradica a imagem do Átomo-semente, limpando-o e
deixando-o sem manchas e, assim como na antiga Dispensação os transgressores eram justificados, quando traziam
uma oferenda para ser queimada ali no Altar dos Sacrifícios, assim também nós, nos tempos atuais, ao realizar
cientificamente o exercício noturno de Retrospecção, eliminamos o registro de nossos pecados. É uma conclusão
precipitada que não poderemos continuar, noite após noite, a executar esse sacrifício vivo sem nos tornarmos
consequentemente melhores e, deixando pouco a pouco de cometer os erros, pois do contrário seremos obrigados a
nos responsabilizar quando nos recolhemos para fazer o exercício noturno. Assim, além de nos purificar de nossas
falhas, esse exercício nos eleva a um nível mais elevado de espiritualidade que, de outra maneira, não poderíamos
alcançar na vida atual.
Também vale ressaltar que quando um indivíduo cometia um grave delito e se refugiava no santuário, ele
encontrava proteção à sombra do Altar dos Sacrifícios, pois, ali, somente o fogo divinamente inflamado podia
executar o julgamento. Ele escapava das mãos dos seres humanos, mas se colocava sob as mãos de Deus. Também, de
modo semelhante, o Aspirante que reconhece suas más ações todas as noites, se refugiando no altar do julgamento
vivente, alcança o santuário da Lei de Causa e Efeito, e “mesmo que seus pecados sejam escarlates, ficarão tão
brancos como a neve.”298.

Figura 3

O Lavabo de Bronze era um grande lavatório redondo, mantido sempre cheio de água. É dito na Bíblia que
estava sobre as costas de doze grandes bois, também feitos de bronze e que as partes posteriores desses 12 grandes
bois estavam voltadas para o centro do lavatório. Entretanto, na Memória da Natureza parece que esses animais não
eram grandes bois, mas representações simbólicas dos doze Signos do Zodíaco. Naquele tempo, a humanidade estava
dividida em doze grupos, um grupo para cada Signo zodiacal. Cada animal simbólico atraia um raio particular e, tal
como a água benta usada atualmente nas igrejas católicas é magnetizada pelo padre, durante a missa, assim também
a água desse Lavabo era magnetizada pelas Hierarquias divinas que guiavam a humanidade.
Não pode haver dúvida quanto ao poder da água benta preparada por alguém que tenha um caráter muito
forte e magnético. Ela adquire ou absorve os eflúvios do Corpo Vital de quem a preparou, e as pessoas que a usam se
tornam receptivas às suas sugestões em um grau proporcional à sensibilidade delas. Consequentemente, o Lavabo de
Bronze, nos antigos Templos de Mistérios Atlante, onde a água era magnetizada pelas Hierarquias divinas de poder
imensurável, era um fator poderoso para guiar o povo de acordo com os desejos desses poderes instituídos.
298
N.T.: Is 1:18
Por isso, os sacerdotes estavam perfeitamente sujeitos aos mandatos e ordens de seus líderes espirituais
invisíveis, e por meio deles, o povo foi guiado cegamente. Era exigido dos sacerdotes que lavassem as mãos e os pés
antes de adentrar no Tabernáculo. Se essa ordem não fosse obedecida, a morte aconteceria imediatamente, assim
que o sacerdote entrasse no Tabernáculo. Portanto, podemos dizer que, como a palavra-chave do Altar de Bronze era
“justificação”, então a ideia central do Lavabo de Bronze era “consagração”.
“Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”299. Temos o exemplo do jovem rico300 que perguntou a
Cristo o que ele deveria fazer para ser perfeito. Ele afirmou que havia cumprido a lei, mas quando Cristo lhe ordenou:
“Segue-me”, ele não pôde, pois possuía muitas riquezas que o prendiam tão firme como uma prensa. Como a grande
maioria, ele ficaria feliz se pudesse somente escapar à condenação e, como muitos, ele não estava muito interessado
em se esforçar para alcançar a merecida recompensa pelo serviço. O Lavabo de Bronze é o símbolo da santificação e
consagração a uma vida de serviço. Assim como Cristo iniciou Seus três anos de ministério por meio das águas
batismais, assim também, o Aspirante ao serviço no antigo Templo devia se santificar na corrente sagrada que fluía do
Mar Fundido. E o Maçom místico que se esforça para construir um templo “sem ruído de martelo” e nele servir deve,
também, se consagrar e se santificar. Ele deve estar disposto a desistir de todos as posses terrenas para poder seguir o
Cristo Interno. Embora ele possa preservar seus bens materiais como um depósito sagrado e usá-los como um
administrador sábio usaria as posses de seu patrão. E devemos estar realmente prontos para obedecer ao Cristo
Interno quando Ele disser: “Siga-Me”, ainda que a sombra da cruz apareça sombria no final, pois, para os propósitos
superiores, sem esse total desapego da vida para a Luz não pode haver progresso. Do mesmo modo, como o Espírito
desceu sobre Jesus quando ele emergiu da água batismal da consagração, também o Maçom místico, que se banha no
lavabo do Mar Fundido, começa a ouvir vagamente a voz do Mestre dentro do seu próprio Coração, lhe ensinando os
segredos do Ofício para que ele possa usá-los em benefício dos outros.

299
N.T.: Mt 22:14
300
N.T.: Aí alguém se aproximou dele e disse: “Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?”. Respondeu: “Por que me
perguntas sobre o que é bom? O Bom é um só. Mas se queres entrar para a Vida, guarda os mandamentos”. Ele perguntou-lhe:
“Quais?”. Jesus respondeu: “Estes: Não matarás, não adulterarás, não roubarás, não levantarás falso testemunho; honrarás pai e
mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Disse-lhe então o moço: “Tudo isso tenho guardado. Que me falta ainda?”. Jesus
lhe respondeu: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e
segue-me”. O moço, ouvindo essas palavras, saiu pesaroso, pois era possuidor de muitos bens. (Mt 19:16-30; Lc 18:18-30)
Capítulo III – A Sala Leste do Templo
Após ter subido os primeiros degraus do caminho, o aspirante encontra-se em frente ao véu que pende diante
do Templo Místico. Deixando isso de lado, ele entra na Sala Leste do Santuário, chamado Lugar Santo. Não havia
janelas ou quaisquer aberturas no Tabernáculo para deixar penetrar a luz do dia, porém, essa sala nunca ficava escura.
Noite e dia era brilhantemente iluminada por lamparinas. O mobiliário simbolizava o método pelo qual o aspirante
podia adquirir o crescimento da alma pelo serviço.
Esse mobiliário era composto de três objetos principais: o Altar do Incenso, a Mesa dos Pães da Proposição e o
Candelabro de Ouro, do qual procediam as luzes. Não era permitido ao israelita comum entrar nesse lugar sagrado e
nem contemplar os objetos. Ninguém, a não ser um sacerdote, podia passar pelo véu externo e entrar nessa primeira
sala. O Candelabro de Ouro estava colocado na parte sul do Lugar Santo, de modo que se encontrava do lado
esquerdo de qualquer pessoa que estivesse no meio da sala. Era inteiramente de ouro puro e constituído de uma base
vertical, haste central que se elevava, juntamente com seis braços. Esses braços começavam em três pontos
diferentes da haste central e arqueavam-se em três semicírculos de diâmetros diferentes, simbolizando os três
Períodos de desenvolvimento (Períodos de Saturno, Solar e Lunar) pelos quais o ser humano passou antes do Período
Terrestre, que estava, então, a menos da metade. Esse último Período era representado pela sétima luminária do
Candelabro. Cada um dos sete braços terminava num candeeiro, e esse candeeiro era suprido com o mais puro azeite
de oliva, o qual foi elaborado por um processo especial. Ao sacerdote foi exigido o devido cuidado para que no
Candelabro nunca faltasse luz. Todos os dias as lamparinas eram examinadas, limpas e abastecidas com azeite, e assim
podiam manter-se acesas perpetuamente.
A Mesa dos Pães da Proposição estava colocada ao lado norte da sala, de modo a estar à mão direita do
sacerdote quando este se encaminhasse ao segundo véu. Doze pães sem fermento eram continuamente mantidos
sobre a mesa. Eram colocados em duas pilhas, um pão sobre o outro, e em cima de cada pilha havia uma pequena
quantidade de incenso. Esses pães eram chamados os Pães da Proposição ou pão da face, porque foram colocados
solenemente diante da presença do Senhor que habitava a Glória de Shekinah, atrás do segundo véu. Todos os
sábados, os pães eram substituídos pelo sacerdote, sendo os velhos retirados e os novos colocados no mesmo lugar.
Os pães retirados eram entregues aos sacerdotes para comer e ninguém mais tinha permissão de prová-los; também
não era permitido comê-los em qualquer lugar fora do Santuário porque era santíssimo e, portanto, só poderia ser
consumido por pessoas consagradas e em solo sagrado. O incenso que ficava sobre as duas pilhas dos Pães da
Preposição era queimado, quando havia a troca dos pães como uma oferta queimada ao Senhor por um memorial em
lugar do pão.
O Altar do Incenso ou Altar de Ouro era o terceiro objeto do mobiliário da Sala Leste do Templo. Ficava no
centro da sala, isto é, a meio caminho entre as paredes norte e sul, em frente ao segundo véu. Nenhuma carne jamais
foi queimada nesse altar e nenhum sangue jamais fora derramado sobre ele, exceto em ocasiões muito solenes, e
apenas os seus chifres eram marcados com a mancha vermelha. A fumaça que era vista no topo, nunca foi outra
senão a fumaça do incenso queimado. Isso acontecia todas as manhãs e todas as noites, preenchendo o Santuário
com uma nuvem de fragrância agradável que impregnava todo o ambiente interior e que se estendia por todo o país
de todos os lados por milhas ao redor. Pelo fato de o incenso ser queimado todos os dias foi chamado: “um perpétuo
incenso diante do Senhor”. Não era simplesmente um incenso comum queimado, mas um composto disso com outras
especiarias doces, elaborado sob a direção de Jeová para este fim especial e por isso considerado santo, de modo que
nenhum ser humano poderia fazer uso dessa composição para si. O sacerdote era encarregado de zelar para que
nenhum incenso estranho fosse oferecido no Altar de Ouro, isto é, nenhum outro que não tivesse a composição
sagrada. Esse Altar estava colocado diretamente diante do véu, do lado de fora, mas diante do Propiciatório, que
estava dentro da sala do segundo véu. Por isso, quem ministrasse no Altar do Incenso não podia ver o Propiciatório
por causa do véu interposto, mas devia olhar nessa direção e para ela orientar o fluxo do incenso. Era costume,
quando a nuvem fragrante do incenso se erguia por cima do templo, que todas as pessoas que estivessem no Átrio do
Santuário enviassem suas preces a Deus, cada uma silenciosamente dentro de si.

O Místico Significado da Sala Leste e Seu Mobiliário


O Candelabro de Ouro

Como dito anteriormente, quando o sacerdote se posicionava no centro da Sala Leste do Tabernáculo, o
Candelabro de sete Braços ficava à sua esquerda em direção ao sul.
Isso simbolizava o fato de que os sete dadores de luz, ou Planetas que trilham a dança do círculo místico ao
redor da órbita central, o Sol, deslocam-se na estreita faixa abrangendo oito graus de cada lado do caminho do Sol,
que é chamado de Zodíaco. “Deus é luz” e os “Sete Espíritos diante do Trono” são Ministros de Deus; portanto, eles
também são mensageiros da luz para a humanidade.
Além disso, como os céus ficam iluminados, quando a Lua em suas fases chega à ‘plenitude’ na parte oriental
dos céus, também a Sala Leste do Tabernáculo ficava cheia de LUZ, indicando visivelmente ali a presença de Deus e
Seus sete ministros, os Anjos Estelares.
Podemos observar, de passagem, a luz do Candelabro de Ouro, que era clara e a sua chama sem odor, e
compará-la com a esfumaçada chama no Altar dos Sacrifícios que, em certo momento, gerava escuridão ao invés de
dissipá-la. Mas, há um significado ainda mais profundo e sublime nesse símbolo do fogo, que não entraremos em
discussão até tratarmos da Glória de Shekinah, cujo brilho deslumbrante pairava sobre o Propiciatório na Sala
Ocidental. Antes de entrarmos nesse assunto, precisamos compreender todos os símbolos que estão entre o Castiçal
de Ouro e o sublime Fogo do Pai, que era o ponto mais elevado do Santo dos Santos (Sanctum Sanctorum), a parte
mais sagrada do Tabernáculo no Deserto.

Figura 4
A Sala Leste do Templo pode ser chamada de Salão do Serviço, pois corresponde aos três anos de ministério
de Cristo e contém toda a parafernália para o crescimento da alma, embora, como dito anteriormente, era mobiliado
apenas com três peças principais. Entre as principais delas está a Mesa dos Pães da Proposição. Sobre essa mesa,
como visto anteriormente, havia duas pilhas de Pães da Proposição, cada uma com seis pães, e sobre cada pilha havia
uma pequena quantidade de incenso. O Aspirante que chegasse à porta do Templo, “pobre, nu e cego”, era conduzido
à luz do Candelabro de Sete Braços, obtendo um determinado grau de conhecimento cósmico para ser utilizado
unicamente a serviço de seus semelhantes. A Mesa do Pães da Proposição simboliza esse conceito.
Originalmente, os grãos dos quais eram feitos esses Pães da Proposição foram fornecidos por Deus, mas foi a
humanidade que os plantou, depois de ter arado e preparado o solo. Depois de plantados os grãos, ela devia cultivá-
los e regá-los. Então, quando, de acordo com a natureza do solo e os cuidados recebidos, o que foi plantado
produzisse os grãos, esses eram colhidos, debulhados, moídos e assados. Depois os anciãos servos de Deus tinham
que levar os pães ao Templo, onde eram colocados diante do Senhor para “demonstrar” que eles tinham realizado seu
árduo trabalho, durante todo um longo tempo, e prestado o serviço essencial.
Os grãos de trigo fornecidos por Deus e contidos nos doze pães representam as oportunidades para o
crescimento da alma, que chegam a todos por meio dos doze departamentos da vida, representados pelas doze Casas
do horóscopo e sob o domínio das doze Hierarquias Divinas, conhecidas como os Signos do Zodíaco. Contudo, é tarefa
do Maçom Místico, o verdadeiro Construtor do Templo, abraçar essas oportunidades, cultivá-las e nutri-las para
extrair delas o PÃO VIVO que nutre a alma.
No entanto, não assimilamos totalmente o nosso alimento físico; sobra um resíduo, uma grande porção de
cinzas, após termos amalgamado a quintessência em nosso organismo. Similarmente, os Pães da Proposição não eram
queimados ou consumidos diante do Senhor. Sobre cada uma das duas pilhas dos Pães da Proposição era colocada
uma pequena porção de incenso. Isso foi concebido para que o aroma dos pães fosse percebido e para que, mais
tarde, eles fossem queimados no Altar do Incenso. Dessa forma, o alimento da alma extraído do serviço diário pelo
fervoroso Maçom Místico é lançado no moinho da Retrospecção, quando ele se retira para dormir e executa os
exercícios científicos fornecidos pelos Irmãos Maiores da Ordem Rosacruz.
Há um dia em cada mês que é particularmente propício para extrair o incenso do crescimento da alma e
queimá-lo diante do Senhor, de modo que possa exalar um suave aroma e ser amalgamado com o Corpo-Alma e fazer
parte do dourado e radiante “traje nupcial”. Isso ocorre quando a Lua está se tornando cheia. Então, a Lua está a leste
e os céus estão inundados de luz, como estava a Sala Leste do antigo Templo de Mistérios Atlante, onde o sacerdote
acumulava o pábulo da alma, simbolizado pelos Pães da Proposição e pela essência perfumada, que deleitava nosso
Pai Celestial, tanto quanto agora.
No entanto, deixemos que o Maçom Místico observe atentamente que os Pães da Proposição não eram
fantasias de sonhadores, nem produto de especulações sobre a natureza de Deus ou da luz. Eles eram o produto de
um trabalho árduo e real, de um trabalho sistemático e organizado, e nos compete seguir o caminho do verdadeiro
serviço, se desejamos acumular tesouros no céu. A menos que realmente trabalhemos e sirvamos a humanidade, não
teremos nada para apresentar, nem pão para “ofertar”, na Festa da Lua Cheia. E no casamento místico do “Eu
superior” com o “Eu inferior” nos encontraremos desprovidos do radiante e dourado Corpo-Alma, o traje místico
nupcial, sem o qual a união com Cristo jamais pode ser consumada.

O Altar do Incenso

No Altar do Incenso, como vimos na descrição geral do Tabernáculo e dos seus mobiliários, o incenso era
oferecido diante do Senhor continuamente, e o sacerdote que oficiava diante do altar, naquele momento, estava
olhando para o Propiciatório sobre a Arca, embora lhe fosse impossível vê-la por causa do segundo véu que foi
interposto entre a primeira e segunda salas do Tabernáculo, o Lugar Santo e o Santo dos Santos. Também vimos que
em relação aos “Pães da Proposição” o incenso simboliza o extrato, o aroma do serviço que prestamos de acordo com
as nossas oportunidades e, assim como o animal sacrificado no Altar de Bronze representa os atos de má ação
cometidos durante o dia, assim também o incenso queimado no Altar Dourado, que é um doce aroma para o Senhor,
representa os atos virtuosos de nossas vidas.
Capítulo IV – A Arca da Aliança

É importante e repleta de grande significância mística, merecendo nossa atenção, que o aroma do serviço
voluntário seja representado como uma doce fragrância perfumada de incenso, enquanto o odor do pecado, do
egoísmo e das transgressões da lei, representado pelo sacrifício compulsório no Altar do serviço, é nauseante. Não se
precisa, pois, de muita imaginação para compreender que a nuvem de fumaça, que subia continuamente das carcaças
queimadas dos animais sacrificados, exalava um cheiro nauseante, forte e muito ruim para mostrar a destacada
repugnância disso, enquanto o contínuo incenso oferecido no Altar, antes do segundo véu, por antítese, mostrava a
beleza e a sublimidade do serviço altruísta, exortando o Maçom Místico, como um filho da luz, a deliberadamente
evitar um e a continuar a acreditar firmemente no outro.
Também é bom deixar bem claro que o serviço não consiste, somente, em realizar grandes feitos. Alguns que
são chamados de heróis foram, em suas vidas cotidianas, bons e simples, e se destacavam apenas nas ocasiões em
que era necessário. Os mártires foram inseridos no calendário dos santos porque morreram por uma causa;
entretanto, o maior heroísmo, o grande martírio é, às vezes, fazer as pequenas coisas que ninguém nota e se sacrificar
no serviço simples aos outros.
Vimos, anteriormente, que o véu na entrada do pátio exterior e o véu em frente à Sala Leste do Tabernáculo
eram confeccionados em quatro cores – azul, vermelho, púrpura e branca. Porém, o segundo véu, que dividia a Sala
Leste do Tabernáculo da Sala Oeste, diferia em relação à caracterização dos outros dois. Foi forjado com as figuras dos
Querubins. Porém, não consideraremos o significado desse fato até que abordemos o assunto da Lua Nova e da
Iniciação, mas agora examinaremos o segundo recinto do Tabernáculo, a sala ocidental, chamado de Santíssimo ou
Santo dos Santos.
Atrás do segundo véu, nessa segunda sala, nenhum mortal poderia passar a não ser o Sumo Sacerdote e,
mesmo assim, era permitido a ele entrar somente uma vez por ano, a saber, no Yom Kippur, no Dia da Expiação, e
somente após a mais solene preparação e com o maior reverente cuidado. O Santo dos Santos era revestido com a
solenidade de outro mundo; estava repleto de uma grandeza sobrenatural. O Tabernáculo inteiro era o santuário de
Deus, mas, aqui nesse local estava a certeza absoluta da Sua presença, a morada especial da Glória Shekinah, e
qualquer ser mortal tremia ao se apresentar dentro desses recintos sagrados, como deveria acontecer com o Sumo
Sacerdote, no Dia da Expiação.
Na parte mais ocidental desse recinto, o extremo oeste de todo o Tabernáculo, estava a “ARCA DA ALIANÇA”.
Era um receptáculo vazio que continha o Pote de Ouro do Maná, a Vara de Aarão que floresceu e as Tábuas da Lei,
que foram dadas a Moisés. Enquanto essa Arca da Aliança permanecia no Tabernáculo no Deserto, as duas varas
ficavam colocadas sempre dentro dos quatro anéis da Arca, para que ela pudesse ser levantada e transportada a
qualquer momento. Mas, quando a Arca finalmente foi transportada para o Templo de Salomão, as varas foram
retiradas. Isso tem um significado simbólico de grande importância. Sobre a Arca pairavam os Querubins, e entre eles
habitava a não criada glória de Deus.
“Aqui”, disse Ele a Moisés, “Eu virei a ti, e, de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins que estão
sobre a arca do Testemunho, falarei contigo acerca de tudo o que eu te ordenar para os filhos de Israel.”301.
A glória do Senhor, vista acima do Propiciatório, tinha a aparência de uma nuvem. O Senhor disse a Moisés:
“Fala a Aarão teu irmão: que ele não entre em momento algum no santuário, além do véu, diante do propiciatório que
está sobre a arca. Poderá morrer, pois apareço sobre o propiciatório, em uma nuvem”302.
Essa manifestação da divina presença foi chamada entre os judeus de Glória Shekinah. Sem dúvida, sua
aparência era de uma maravilhosa glória espiritual, da qual é impossível formar qualquer concepção adequada.
Fora dessa nuvem, a voz de Deus era ouvida com uma profunda solenidade quando Ele era consultado em
prol do povo.
Quando o Aspirante tinha se qualificado para entrar nesse local, atrás do segundo véu, ele encontrava tudo
escuro (aos olhos físicos), e era preciso que ele tivesse outra luz, interior. Quando ele chegou pela primeira vez ao
portão oriental do Templo, estava “pobre, nu e cego”, pedindo LUZ. Então, lhe foi mostrada a luz fraca que surgia na
fumaça acima do Altar do Sacrifício, e lhe disseram que ele deveria desenvolver, para avançar, dentro de si mesmo
essa chama, resultado do remorso pelas transgressões à Lei. Mais tarde, ele recebeu a luz mais brilhante na Sala Leste
do Tabernáculo, que procedia do Candelabro de Sete Braços; em outras palavras, ele recebeu a luz do conhecimento e
da razão para que por ela pudesse avançar, ainda mais, no caminho. Contudo, era necessário que ele desenvolvesse,
dentro de si e ao seu redor, pelo serviço, outra luz, o “Traje de Bodas” dourado, que também é a luz do Cristo do
Corpo-Alma. Por meio de vidas dedicadas ao serviço, essa gloriosa essência da alma penetrava, gradualmente, em
toda a sua aura até ficar envolta por uma luz dourada. Só quando tivesse desenvolvido essa luz interna, ele poderia
entrar nos recintos sombrios do segundo Tabernáculo, como às vezes é chamado, o Santo dos Santos.

301
N.T.: Ex 25:22
302
N.t.: Lv 16-2
“Deus é luz; se andarmos na luz como Ele está na luz, seremos fraternais uns com os outros.” Isso geralmente é
usado para indicar apenas a Fraternidade dos Santos, mas, de fato, se aplica também à Fraternidade que temos com
Deus. Quando o Discípulo entra no segundo Tabernáculo, a LUZ dentro de si vibra com a LUZ da Glória Shekinah entre
os Querubins, e ele realiza a Fraternidade com o Fogo do Pai.
Assim como os Querubins e o Fogo do Pai, que pairavam sobre a arca, representam as Hierarquias Divinas que
guiavam a humanidade durante sua peregrinação pelo deserto, assim também a Arca que era encontrada ali
representava o ser humano em seu desenvolvimento mais elevado. Havia, como já foi dito, três coisas dentro da Arca:
o Pote de Ouro do Maná, o Bastão que floriu e as Tábuas da Lei.
Quando o Aspirante estava no portão oriental como filho do pecado, a lei estava fora dele, como orientador
para trazê-lo a Cristo. Exigia com severidade implacável um “olho por olho e dente por dente”. Cada transgressão
trazia uma recompensa justa, e o ser humano estava circunscrito por todos os lados por leis que o ordenavam a fazer
certas coisas e a não fazer outras. Contudo quando, por meio de sacrifício e serviço, ele finalmente chegou ao estágio
de evolução representado pela Arca na sala ocidental do Tabernáculo, as Tábuas da lei estavam dentro dele. Então,
ele se emancipou de toda a interferência externa em suas ações – não que ele infringisse alguma lei, mas porque ele
trabalhava com elas. Assim como aprendemos a respeitar o direito de propriedade dos outros e, portanto, nos
tornamos emancipados do mandamento “Não furtarás”, também aquele que guarda todas as leis, porque deseja fazê-
lo, não precisa mais de um orientador externo, mas de bom grado obedece em todas as coisas, porque ele é um servo
da lei e trabalha com ela, por escolha e não por necessidade.

O Pote de Ouro do Maná

Manas, mensch, homem ou ser humano são palavras diretamente associadas com o maná que desceu do céu.
É o Espírito Humano que desceu do alto, de nosso Pai, para uma peregrinação através da matéria, e o Pote de Ouro
onde foi guardado simboliza a aura dourada do Corpo-Alma.
Apesar da narrativa na Bíblia não estar estritamente de acordo com os acontecimentos, ela nos fornece os
principais fatos do maná místico que caiu do céu. Quando queremos aprender qual é a natureza desse chamado pão,
devemos retornar ao sexto capítulo do Evangelho Segundo de São João, que relata como Cristo alimentou as
multidões com pães e peixes, simbolizando a doutrina mística dos 2000 anos que Ele estava iniciando, pois durante
essa época, o Sol, por Precessão dos Equinócios, estava transitando pelo Signo dos peixes, Peixes, e as pessoas foram
ensinadas a se abster , pelo menos um dia durante a semana (sexta-feira) e em certa época do ano, das panelas de
carne que pertenciam ao Egito ou à antiga Atlântida.
Foram dadas a água Pisciana na porta do templo, e a Hóstia Virginiana na mesa da comunhão diante do altar quando
adoravam a Virgem Imaculada, representando o Signo celestial de Virgem (que está em Oposição ao Signo de Peixes),
e que entraram em comunhão com o Sol gerado por ela.
Cristo também explicou, naquela época, em uma linguagem mística, mas inconfundível, que o pão vivo ou
maná era, nomeadamente, o Ego. Essa explicação é encontrada nos versículos 33 e 35, onde lemos: “ porque o pão de
Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo”. (...) “Eu sou o pão da vida”. Esse, então, é o símbolo do Pote de
Ouro do Maná que se encontrava na Arca. Esse maná é o Ego ou Espírito Humano, que dá vida aos organismos que
nós observamos no Mundo Físico. Encontra-se escondido dentro da Arca de cada ser humano e o Pote de Ouro, ou
Corpo-Alma ou a “Veste Nupcial”, também se encontra latente dentro de cada um. Ele se torna mais consistente,
brilhante e resplandecente pela alquimia espiritual quando o serviço é transmutado em crescimento anímico. É a casa
não construída por mãos, eterna nos céus, com a qual São Paulo desejava estar vestido, como disse na Epístola aos
Coríntios. Todo aquele que se esforça em ajudar seus semelhantes, desse modo, acumula dentro si esse tesouro de
ouro que é depositado no céu, onde nem a traça nem a ferrugem podem destruí-lo.

A Vara de Aarão

Uma antiga lenda relata que quando Adão foi expulso do Jardim do Éden, levou consigo três mudas da Árvore
da Vida, que foram plantadas por Seth. Seth, o segundo filho de Adão, é de acordo com lenda Maçônica pai da
hierarquia espiritual dos clérigos que trabalham com a humanidade através do Catolicismo, enquanto os filhos de
Caim são os Artesões do mundo. Esses últimos estão ativos na Maçonaria, promovendo o progresso material e
industrial, como deveriam ser os construtores do Templo de Salomão, o universo. As três mudas plantadas por Seth
tiveram importantes missões no desenvolvimento espiritual da humanidade, e uma delas é a Vara de Aarão. No início
da existência concreta, a geração era realizada sob a sábia direção dos Anjos, que assistiam para que o ato criador
fosse realizado nos momentos em que os raios de força interplanetários eram propícios, e o ser humano também foi
proibido de comer da Árvore do Conhecimento. A natureza dessa árvore foi prontamente determinada a partir de
sentenças como “Adão conheceu sua esposa e ela deu à luz Caim”; “Adão conheceu sua esposa, e ela deu à luz Seth”.
“Como posso dar à luz a uma criança visto que não conheço um homem?”, como foi dito por Maria ao Anjo Gabriel.
À luz dessa interpretação, a afirmação do Anjo (não foi uma maldição), quando descobriu que seus preceitos
foram desobedecidos, “morrendo morrerás”, também é compreensível, pois os corpos gerados independentemente
das influências cósmicas não esperariam que persistisse.
Por isso, o ser humano foi exilado dos Reinos etéricos da força espiritual (Éden), onde cresce a árvore do
poder vital; exilado para a existência concreta em Corpos Físicos Densos que ele gerou para si. Certamente foi uma
bênção, pois quem de nós possui um corpo totalmente saudável e perfeito, segundo a nossa opinião e quem gostaria
de viver nele para sempre?
Por isso, a morte é uma dádiva e uma bênção, na medida em que nos permite retornar aos Reinos espirituais
periodicamente e, assim, construirmos melhores veículos para cada retorno à vida terrena. Como disse Oliver Wendell
Holmes303:
“Constrói alma minha, as mais belas mansões
Enquanto as estações se sucedem!
Deixa teu humilde passado!
Que cada novo templo, mais nobre que o anterior,
Te separe do céu com um domo mais amplo,
Até que, por fim, possas ficar livre,
Abandonando tua pequena concha no revolto mar da vida!”

No decorrer do tempo, quando aprendemos a evitar o orgulho da vida e a luxúria da carne, o ato gerador
deixará de minar nossa vitalidade. Então, a energia vital será usada para a regeneração, e os poderes espirituais,
simbolizados pela Vara de Aarão, serão desenvolvidos.
A varinha do mágico, a lança sagrada de Parsifal, o Rei do Graal, e a Vara de Aarão que floresceu são símbolos
(ou emblemas) dessa força criadora divina, que faz maravilhas as quais chamamos de milagres.
Contudo, que fique bem claro que ninguém que chegue a tal ponto na evolução, simbolizado pela Arca da
Aliança na Sala Oeste do Tabernáculo, jamais usará esse poder para fins egoístas. Quando Parsifal, nome dado ao
herói do mito da alma, tendo testemunhado a tentação de Kundry e provado estar emancipado do maior de todos os
pecados, os da luxúria e a falta de castidade, ele recuperou a lança sagrada roubada pelo mago negro Klingsor, do rei
do Graal caído e impuro, Amfortas. Então, viajou por muitos anos pelo mundo procurando novamente o Castelo do
Graal, e disse: “Muitas vezes eu fui atormentado por inimigos e tentado a usar a lança em defesa própria, mas sabia
que a lança sagrada nunca deveria ser usada para ferir, e tão somente para curar”.
E essa é a atitude de todo aquele que desenvolve, dentro de si, o florescimento da Vara de Aarão. Embora ele
possa transformar essa faculdade espiritual em condições de prover pão para uma multidão, ele nunca pensaria em
transformar uma pedra em pão para si mesmo, para aplacar a própria fome. Mesmo que ele tenha sido pregado à cruz
para morrer, não se libertaria dela com o poder espiritual que havia exercido prontamente, para salvar os outros da
sepultura. Apesar de ter sido insultado todos os dias de sua vida como impostor e charlatão, nunca utilizaria
indevidamente seu poder espiritual para revelar qualquer sinal pelo qual o mundo pudesse conhecer, sem sombra de
dúvida, que ele era regenerado ou nascido no céu. Essa foi a atitude de Cristo-Jesus, que tem sido e é imitada por
todo aquele que é um Cristo em formação.

303
N.T.: (1809-1894) - médico americano, professor, palestrante e autor
Capítulo V – A Glória Sagrada do Shekinah

A Sala Ocidental do Tabernáculo era tão escura como os céus quando o luminar menor, a Lua, está no lado
ocidental dos céus, ao entardecer, junto com o Sol; isto é, na Lua Nova, que inicia um novo ciclo em um novo Signo do
Zodíaco. No extremo oeste desse santuário totalmente escuro ficava a Arca da Aliança, com os Querubins pairando
acima e, também, a flamejante Glória de Shekinah, de onde provia a Luz do Pai que comungava com Seus adoradores,
mas que era invisível para a visão física e, portanto, escura.
Nós, normalmente, não percebemos que o mundo inteiro está em chamas, que o fogo está na água, que arde
continuamente na planta, no animal e no ser humano, sim, não há nada no mundo que não esteja dotado ou imbuído
de uma alma pelo fogo. A razão pela qual não percebemos isso com mais clareza é que não podemos dissociar o fogo
da chama. Contudo, na realidade, o fogo tem, como característica, a mesma relação com a chama tal como o espírito
a tem com o corpo, é o não visto ou não percebido, mas, potente poder de manifestação. Em outras palavras, o
verdadeiro fogo é escuro e invisível à visão física. Só é revestido de chama quando consome matéria física. Considere,
a título de ilustração, como uma faísca de fogo salta de uma pedra de quartzo escuro quando atingido por um aço e
como uma chama de gás tem o centro escurecido debaixo da parte luminosa; também como um fio pode conduzir
eletricidade e, no entanto, permanecendo frio emitir uma chama sob certas condições.
Nesse ponto, pode ser oportuno marcar a diferença entre o Tabernáculo no Deserto, o Templo de Salomão e o
último templo construído por Herodes. Há uma diferença extremamente vital. Tanto o fogo milagrosamente aceso no
Altar de Bronze na parte oriental do Tabernáculo quanto a invisível Glória de Shekinah na parte mais ocidental do
santuário também estavam presentes no Templo de Salomão.
Portanto, nesse sentido esses eram santuários diferentes do Templo construído por Herodes. Esse último,
contudo, em um certo sentido, foi o mais glorioso dos três, pois foi agraciado com a presença corporal do nosso
Senhor, Cristo Jesus, em Quem habitava a Divindade. Cristo fez o primeiro auto sacrifício, revogando assim o sacrifício
de animais e, finalmente, na consumação do Seu trabalho no Mundo visível, rasgou o véu e abriu o caminho para o
Santo dos Santos, não somente a uns poucos favorecidos, os sacerdotes e Levitas, mas a TODO AQUELE QUE queira vir
e servir a Divindade, a quem nós conhecemos como o nosso Pai. Tendo confirmada a lei e as profecias, Cristo acabou
com o santuário externo e, desde então, o Altar dos Sacrifícios deve ser estabelecido dentro do Coração para expiar as
transgressões; o Candelabro de Ouro deve ser aceso dentro do Coração para nos guiar em nosso caminho, como o
Cristo interno; a Glória Shekinah do Pai deve habitar dentro dos recintos sagrados da nossa própria consciência de
Deus.
A Sombra da Cruz

São Paulo, em sua Carta aos Hebreus 304, forneceu uma descrição do Tabernáculo e muitas informações sobre
os costumes que lá se usavam, os quais beneficiariam o Estudante a conhecê-los. Entre outras coisas observe que ele
chama o Tabernáculo de “uma sombra das boas coisas que virão”305.
Há, nesse antigo Templo de Mistério, uma promessa feita que ainda não foi cumprida, uma promessa que é
tão boa hoje como o foi naquele tempo em que foi feita. Se visualizarmos em nossa Mente a disposição dos objetos
no interior do Tabernáculo, facilmente veremos a sombra da Cruz. Começando pelo portão oriental havia o Altar dos
Sacrifícios; um pouco além, em direção ao Tabernáculo, encontramos o Lavabo da Consagração, o Mar Fundido, no
qual se lavavam os Sacerdotes. Logo depois de entrarmos na Sala Oriental do Templo encontramos uma peça de
mobiliário, o Candelabro Dourado, no lado extremo esquerdo de quem entra, e a Mesa dos Pães da Proposição no
lado extremo direito de quem entra, os dois formando uma cruz com o caminho que temos seguido ao longo do
Tabernáculo. No centro e em frente do segundo véu, encontramos o Altar de Incenso, que forma o centro da cruz,
enquanto a Arca, colocada na parte mais ocidental da Sala Ocidental, o Santo dos Santos, representa a parte mais
curta ou superior da Cruz. Desse modo, o símbolo do gradual desenvolvimento ou revelação espiritual, que hoje é o
nosso específico ideal, foi representado ou indicado vagamente no antigo Templo de Mistério, e aquela consumação
que se atinge no topo da cruz, a plenitude da lei dentro de nós como estava dentro da Arca é a única que deve
interessar atualmente a todos nós. A Luz que brilha sobre o Propiciatório no Santo dos Santos, no topo da cruz, no fim
do caminho nesse mundo, é a luz ou o reflexo do Mundo invisível, em que o candidato procura entrar quando, ao seu
redor, tudo no mundo se tornou para ele sombrio e obscuro. Só quando atingimos esse estado, em que percebemos a
luz espiritual que nos acena, a luz que paira sobre a Arca, somente quando permanecemos à sombra da Cruz,
podemos conhecer o significado, o objetivo e a meta da vida.

304
N.T.: Capítulos 8, 9 e 10.
305
N.T.: Hb 10:1: a sombra dos bens futuros.
Figura 5
Atualmente, podemos aproveitar as oportunidades que são oferecidas e prestar o serviço com maior ou
menor eficiência, porém, somente quando por meio desse serviço desenvolvermos a luz espiritual dentro de nós, que
é o Corpo-Alma, e assim tivermos obtido acesso à Sala Ocidental, chamada o Vestíbulo da Libertação, então
perceberemos e compreenderemos realmente o motivo pelo qual estamos no mundo e o que necessitamos para nos
tornarmos propriamente úteis. Entretanto, nós não podemos permanecer ali quando tenhamos obtido acesso. Ao
Sumo Sacerdote era permitido entrar somente uma vez por ano; havia um longo intervalo de tempo entre esses
lampejos do real propósito da existência. Durante esse intervalo, o Sumo Sacerdote precisava sair e viver entre seus
irmãos, a humanidade, servindo-os da melhor maneira que pudesse e, porque não era perfeito, pecava, para de novo
entrar no Santo de Santos, após ter feito as reparações devidas pelos seus pecados.
Atualmente, sucede algo similar conosco. Por vezes, nós obtemos vislumbres das coisas que nos estão
reservadas e das coisas que devemos fazer para seguirmos Cristo ao lugar para onde Ele foi. Você relembra que Ele
disse aos Seus Discípulos: “Não podes seguir-me agora aonde vou, mas me seguirás mais tarde”306. E sucede o mesmo
conosco. Devemos olhar repetidamente para dentro desse templo escuro, o Santo dos Santos, antes de estarmos
realmente capacitados para permanecer lá; antes que estejamos realmente preparados para darmos o último passo e,
assim, subir até o cume da Cruz, o lugar da caveira, aquele ponto, em nossas cabeças, por onde o Espírito sai quando
deixa o seu Corpo quando da morte, ou entrando e saindo como um Auxiliar Invisível. Esse Gólgota é a melhor
realização humana alcançável e devemos estar preparados para entrar muitas vezes na sala obscura antes que
estejamos prontos para esse clímax final.

A Lua Cheia como um Fator de Crescimento Anímico

Consideremos, agora, o Caminho da Iniciação, tal como se ensinava simbolicamente nos antigos Templos –
com a Arca, o Fogo e o Shekinah – e no último Templo onde Cristo ensinou. Observemos primeiro que quando o ser
humano foi expulso do Jardim do Éden, por haver comido o fruto da Árvore do Conhecimento, um Querubim
guardava a entrada com uma espada flamígera. As seguintes passagens da Bíblia: “Adão conheceu Eva e ela concebeu
Abel”307; “Adão conheceu Eva e ela concebeu Seth”308; “Elcana conheceu Ana e ela concebeu Samuel”309; também a
pergunta de Maria ao Anjo Gabriel: “Como pode ser isso possível se eu não conheço a nenhum homem?”310, todas elas
mostram claramente que a indulgência das paixões no ato criador estava implícita na frase, “Comer da Árvore do
Conhecimento”. Quando o ato criador era realizado sob as influências desfavoráveis dos raios astrais, era cometido
um pecado contra as Leis da Natureza, o que trouxe a dor e a morte ao mundo, nos afastou dos nossos primitivos
guardiães e nos forçou a vagar pelo deserto do mundo durante séculos.
No pórtico do Templo Místico de Salomão encontramos o Querubim, mas a espada flamígera não está mais
em suas mãos; ao invés dela ele segura uma flor, um símbolo cheio de significado místico. Vamos comparar o ser
humano com uma flor para que possamos conhecer a grande importância e significância desse emblema. O ser
humano toma seu alimento pela cabeça, de onde vai descendo. A planta toma seu alimento através das raízes e o
impulsiona para cima. O ser humano reveste seu amor de paixão e tem o órgão de geração voltado para a terra,
escondendo-o com vergonha, graças a essa mácula de sua paixão. A planta desconhece a paixão, a fertilização é
realizada na forma mais pura e casta imaginável, portanto, ela projeta seu órgão criador, a flor, para o Sol, uma coisa
muito formosa que deleita a todos que a contemplam. O ser humano decaído e passional exala o mortífero dióxido de
carbono; a casta flor inala esse veneno, transmuta-o e o devolve puro, doce e perfumado, um fragrante elixir da vida .
Esse é o mistério do Cálice do Graal, esse é o significado emblemático do Cálice da Comunhão, que é chamado
“Kelch” em alemão, “Cálix” em latim, significando ambos os nomes o pericarpo da flor. O Cálice da Comunhão, com
seu sangue místico limpo, por ter sido removida a paixão inerente da geração, traz a vida eterna ao que o bebe em
verdade e, portanto, se converte no veículo da regeneração, do nascimento místico em uma esfera mais elevada, um
“país estrangeiro”, onde o que cumpriu sua aprendizagem em edificar Templos e dominou as “artes e os ofícios” deste
mundo pode aprender coisas mais elevadas.
O símbolo do Querubim, com a flor aberta colocada sobre a porta do Templo de Salomão, transmitia a
mensagem para o Aspirante de que a pureza é a chave com a qual, por si só, ele pode ter a esperança em abrir a porta
que conduz a Deus; ou como Cristo se expressou: “Bem-aventurados os puros de Coração, porque eles verão a Deus”.
A carne deve ser consumida no Altar do auto sacrifício, e a alma deve ser lavada no Lavabo da Consagração à vida
mais elevada, antes que possa se aproximar da porta do Templo. Quando “nu”, “pobre” e “cego” pelas lágrimas de
contrição, tatear na escuridão, buscando a porta do Templo, deve encontrar a entrada para o Salão do Serviço, a Sala

306
N.T.: Jo 13:36
307
N.T.: Gn 4:2
308
N.T.: Gn 4:25
309
N.T.: Ism 1:19
310
N.T.: Lc 1:34
Leste do Tabernáculo, que está iluminada com a luz do Candelabro de Sete Braços, emblemático da luminosidade da
Lua Cheia, Lua essa que muda em ciclos de sete dias. Nesse Salão do Serviço, é ensinado ao Aspirante tecer a
vestimenta luminosa de flama, a qual São Paulo chamou de “Soma Psuchicon”, ou Corpo-Alma (I Cor 15:44), do aroma
dos Pães da Proposição.
Quando falamos de Corpo-Alma, queremos dizer exatamente isso, e esse veículo não dever ser confundido
com a alma que interpenetra o corpo. O Auxiliar Invisível, que o utiliza nos voos da alma, sabe que ele é tão real e
tangível como o Corpo Denso de carne e sangue. Porém, dentro dessa dourada “veste nupcial” há algo intangível
conhecido pelo espírito de introspecção. É inominável e indescritível; escapa aos mais persistentes esforços para
compreendê-lo, mas, está lá, tão certamente quanto o veículo que ele ocupa. Sim, e mais ainda, não é vida, amor,
beleza, sabedoria, nem pode qualquer outro conceito humano transmitir uma ideia do que é, entretanto, é a soma de
todas as faculdades, de todos os atributos e conceitos humanos do bem, numa incomensurável intensidade. Se tudo o
mais nos fosse tirado, essa realidade primordial ainda permaneceria, e deveríamos ser ricos com a sua posse, pois por
meio dela sentimos o poder de atração do nosso Pai Celestial, aquele impulso interior que todos os Aspirantes
conhecem tão bem.
Cristo se referiu a esse sentimento interior quando disse: “Ninguém vem ao Pai, senão por mim”311. Assim
como o verdadeiro fogo está oculto na chama que o encerra, assim também, algo inominável e intangível se esconde
no Corpo-Alma e queima o incenso extraído dos Pães da Proposição; desse modo, acende o fogo que faz com que o
Corpo-Alma se torne luminoso. E o aroma do serviço amoroso prestado aos outros atravessa o véu como um doce
perfume para Deus, que habita na Glória de Shekinah, então criada pairando sobre a Arca no mais íntimo santuário, o
Santo dos Santos.

311
N.T.: Jo 14:6
Capítulo VI – A Lua Nova e a Iniciação

Quando o candidato entrava pela porta Leste do Templo, procurando pela luz, confrontava com uma chama
de fogo no Altar dos Sacrifícios, que emitia uma luz fraca envolta em nuvens de fumaça. Ele estava na condição de
escuridão espiritual do ser humano comum, necessitando da luz interior e era, consequentemente, necessário lhe
fornecer a luz externa. Porém, quando chegava ao ponto onde ele estava pronto para entrar pela Sala Ocidental
escura, se supunha que ele tenha evoluído à condição de ter o luminoso Corpo-Alma, desenvolvido por meio do
serviço à humanidade. Então, supõe-se que ela tenha a luz dentro de si, “a luz que ilumina todo ser humano”. A
menos que ele tenha essa luz, ele não pode penetrar na sala escura do Templo.
O que acontece secretamente no Templo é abertamente mostrado nos céus. Assim como a lua recolhe a luz
do Sol durante seu caminho da “Nova” para “Cheia”, assim também o ser humano que percorre Caminho da
Santidade recolhe, na Sala Leste, pela utilização de suas preciosas oportunidades de serviço altruísta o material com o
qual faz seu luminoso “traje nupcial”, e esse material é mais bem amalgamado na noite de Lua Cheia. Contudo,
inversamente, assim como a Lua vai dissipando, gradualmente, a luz acumulada e extraída à medida que se aproxima
mais do Sol, para entrar num novo ciclo no período da Lua Nova, assim também aqueles que, de acordo com a lei da
analogia, colheram seus tesouros e os guardaram nos céus pelo serviço estão, nessa época da Lua, mais perto de sua
Origem e do seu Criador, de seu Fogo-Pai, nas mais elevadas esferas, do que em qualquer outro período.
Da mesma forma que os grandes salvadores da humanidade nascem no Solstício de Dezembro, na noite mais longa e
escura do ano, assim também o processo de Iniciação, que traz à luz o nascimento nos Mundos invisíveis um dos
salvadores menores, os Auxiliares Invisíveis, é mais facilmente realizado na noite mais longa e escura noite do mês,
isto é, na noite da Lua Nova, quando a esfera lunar está na parte mais ocidental dos céus.
Todo desenvolvimento oculto começa com o Corpo Vital, e a tônica deste veículo é a “repetição”. Para
sobressairmos melhor em qualquer assunto, a repetição é necessária. Para compreender a consumação final à qual
tudo isso está sendo levado, vamos examinar de outro ângulo os três tipos de fogo que havia no interior do Templo.
Perto do portão leste ficava o Altar dos Sacrifícios. Naquele Altar, a fumaça era gerada continuamente pelos
corpos sacrificados, e a coluna de fumaça era vista por toda parte pela multidão que não era instruída nos mistérios
internos da vida. A chama, a luz, escondida nessa nuvem de fumaça era, na melhor das hipóteses, apenas fracamente
percebida. Isso mostrava que a grande maioria da humanidade é ensinada, principalmente, pelas leis imutáveis da
natureza, que exigem dela um sacrifício, quer se apercebam disso ou não. Assim como a chama da purificação era,
então, alimentada pelos corpos mais grosseiramente construídos e inferiores de animais sacrificados, como exigidos
pela lei mosaica, assim também, hoje a massa mais baixa e passional da humanidade está sendo subjugada pelo medo
da punição, submetida pela lei do mundo atual, mais do que pelo temor daquilo que possa acontecer no mundo
vindouro.
Uma luz de uma natureza diferente brilhava na Sala Leste do Tabernáculo. Ao invés de retirar seu combustível
da carne pecaminosa e passional dos animais sacrificados, ela era alimentada com o azeite de oliva extraído do casto
Reino vegetal; e sua chama não estava envolta em fumaça, mas era clara e distinta para que pudesse iluminar o
recinto e guiar os sacerdotes, que eram os servos do Templo, em seus ofícios. Os sacerdotes se empenhavam para
trabalhar em harmonia com o plano divino, por isso, eles percebiam a luz mais claramente do que a multidão não
instruída e negligente. Também hoje, a luz mística brilha para todos os que estão se esforçando para realmente servir
no altar do auto sacrifício, particularmente para os Aspirantes comprometidos com uma Escola de Mistérios como a
Ordem Rosacruz. Eles estão caminhando em uma luz invisível para a multidão e, se realmente estão servindo,
recebem a verdadeira orientação dos Irmãos Maiores da humanidade, que estão sempre prontos em ajudá-los nos
momentos difíceis no Caminho.
Entretanto, o fogo mais sagrado de todos era a Glória de Shekinah, na Sala Oeste do Tabernáculo, acima do
Propiciatório. Como essa Sala Oeste era escura, nós compreendemos que ali estava um fogo invisível, uma luz de
outro mundo.
Observe bem isso, o fogo que estava envolto na fumaça e na chama sobre o Altar dos Sacrifícios, consumindo
os corpos sacrificados ali trazidos em expiação dos pecados cometidos sob a lei, era o símbolo de Jeová, o Dador da
Lei; e relembremos que a lei foi dada para nos conduzir a Cristo. A luz clara e bela que brilhava na Sala do Serviço, a
Sala Leste do Tabernáculo, é a cor dourada da luz de Cristo, que guia aqueles que se esforçam por seguir Seus passos
no caminho do serviço altruísta.
Como disse Cristo, “Eu vou ao meu Pai”, quando Ele estava para ser crucificado, assim também o Servo da Cruz, que
aproveitou ao máximo suas oportunidades no Mundo visível, tem permissão para entrar na glória de seu Fogo-Pai, a
invisível Glória de Shekinah. Então, ele deixa de ver através do vidro escuro do Corpo, e vê seu Pai face a face, nos
Reinos invisíveis da natureza.
A torre da igreja é muito larga na base, mas se estreita gradualmente mais e mais até que na cúspide é só uma
ponta com a cruz em cima. O mesmo acontece com o Caminho da Santidade; no princípio há muitas coisas que
podemos nos permitir, mas conforme avançamos, os desvios devem ser suprimidos e devemos nos dedicar mais e
mais exclusivamente ao Serviço da Santidade. No final chega um ponto em que o caminho é tão estreito como o fio de
uma navalha e, então, só podemos nos segurar na Cruz. Contudo, quando alcançamos isso, o mais estreito de todos os
caminhos, também nós estaremos capacitados para seguir a Cristo além e servir lá, como temos servidos aqui.
Assim, esse antigo símbolo representa a prova e o triunfo do fiel servo, e embora tenha sido substituído por
outros símbolos de maiores elevações que sustentam um ideal e uma promessa maior, o princípio básico encerrado
nele é tão válido hoje como sempre será.
Vemos claramente no Altar dos Sacrifícios a natureza nauseante do pecado e a necessidade de expiação e justificação.
Por meio do Mar Fundido nós fomos ensinados que devemos viver uma vida pura de santidade e consagração.
Da Sala Leste, nós aprendemos hoje como fazer uso apropriado de nossas oportunidades para cultivar o grão
dourado do serviço altruísta e preparar o “pão vivo” que alimenta a alma, o Cristo interior.
E quando nós ascendemos os degraus da Justificação, Consagração e Auto abnegação, alcançamos a Sala
Oeste, que é o umbral da Libertação. Através dele, seremos conduzidos a Reinos mais elevados, onde um maior
desenvolvimento anímico poderá ser conseguido alcançar.
Embora esse antigo Templo não se encontre mais no lugar onde as hostes errantes levantaram seus
acampamentos no longínquo passado, pode ser um fator muito mais poderoso para o crescimento anímico pelo
Aspirante atual, do que o foi para os antigos israelitas, contanto que ele construa de acordo com o modelo indicado.
Nem a falta de ouro para construí-lo pode afligir a alguém, agora, o verdadeiro Tabernáculo deve ser construído no
céu; e “o céu está dentro de nós”. Para construir bem e verdadeiramente, de acordo com as regras do antigo ofício da
Maçonaria Mística, o Aspirante deve aprender primeiramente a construir, dentro de si, o Altar com seu próprio
sacrifício; então, deverá orar e vigiar, enquanto espera pacientemente que o fogo divino consuma a sua oferenda.
Então ele deve se banhar com lágrimas de contrição até que tenha se lavado das manchas do pecado.
Enquanto isso, deve conservar a lâmpada cheia da divina orientação, para que possa discernir como, quando e
onde servir; ele deve trabalhar duramente para ter abundância de “pão para apresentar”, e o incenso da aspiração e
da oração devem estar sempre em seu Coração, assim como em seus lábios. Então, Yom Kippur, o Grande Dia da
Expiação, certamente o encontrará preparado para ir até seu Pai e aprender como melhor ajudar seus irmãos mais
novos no Caminho da ascensão.
A Iniciação Cristã Mística
Capítulo I – A Anunciação e a Imaculada Concepção
Muito é dito a respeito da Iniciação em certas classes do Mundo Ocidental. A Iniciação na Mente da maioria
das pessoas, normalmente, parece estar associada ao ocultismo ensinado nas Religiões do distante Oriente; algo que
é peculiar aos devotos do Budismo, Hinduísmo e aos sistemas semelhantes de fé, e que de modo algum tenha a ver
com a Religião do Mundo Ocidental, particularmente a Religião Cristã.
Demonstramos no capítulo anterior, onde tratamos sobre os “Símbolos da Iniciação Antiga e Moderna”, que
essa ideia é inteiramente gratuita e que o antigo Tabernáculo no Deserto retrata, em seu simbolismo, o caminho da
progressão desde a ignorância infantil até o conhecimento super-humano. Assim como os Vedas312 traziam luz aos
devotos que adoravam, com fé e fervor, próximos das margens do Ganges no ensolarado Sul, também os Eddas313
foram uma estrela-guia para os filhos da escarpada região do Norte, que procuravam a Luz da vida na antiga Islândia,
onde os robustos Vikings conduziam seus navios nos mares gelados. “Arjuna” 314, que trava uma nobre luta no
“Mahabharata”315, ou “Grande Guerra”, constantemente sendo travada entre o “Eu superior” e o “Eu inferior”, não
difere em nada do herói do mito da alma do Norte, “Siegfried” 316, que significa “Aquele que, através da vitória,
alcança a paz”.
Ambos são representações do candidato que está se submetendo à Iniciação. E embora suas experiências,
nessa grande aventura, variem em certos aspectos conhecidos pelas diferenças temperamentais entre os povos do
norte e do sul317, e fornecidas pelas respectivas escolas às quais são referenciados para o crescimento anímico, as
características principais são idênticas e o objetivo final, que é a iluminação, é o mesmo. As almas aspirantes
caminharam para a Luz nos templos Persas brilhantemente iluminados, onde o deus-sol em sua carruagem
resplandecente era o símbolo da Luz, da mesma forma que sob a magnificência mística da iridescência derramada
pela aurora boreal do Norte gelado. Há uma ampla evidência que pode ser demonstrada que a verdadeira Luz do
conhecimento esotérico mais profundo sempre esteve presente em todas as épocas, mesmo na mais escura que
chamamos trevas.
Raphael318 utilizou de sua habilidade maravilhosa com o pincel para incorporá-lo em duas de suas grandes
pinturas, “A Madona Sistina”319 e “O Casamento da Virgem”, as quais aconselharíamos o leitor interessado a examinar
por si mesmo. Cópias dessas pinturas podem ser encontradas em quase todas as lojas de arte. No original, há uma
tonalidade peculiar de névoa dourada por trás da Madona e do Menino que, embora excessivamente grosseira para
alguém dotado de visão espiritual, é uma imitação bem próxima da cor básica do Primeiro Céu, tanto quanto possível
fazê-lo com os pigmentos da Terra. Uma inspeção mais cuidadosa desse pano de fundo revelará o fato de que ele é
composto por uma multitude do que costumamos chamar de cabeças e asas de Anjos.
Essa é, novamente, uma literal representação pictórica dos fatos concernentes aos habitantes do Primeiro
Céu, tanto quanto pode ser revelada, pois durante o processo de purgação, que ocorre nas regiões inferiores do
Mundo do Desejo, as partes inferiores do corpo são, realmente, desintegradas de modo que somente a cabeça, que
contém a inteligência humana, permanece quando ele entra no Primeiro Céu, fato esse que intriga a muitos que
312
N.T.: Denominam-se Vedas as quatro obras, compostas em um idioma chamado Sânscrito védico, de onde se originou
posteriormente o sânscrito clássico. Inicialmente, os Vedas eram transmitidos apenas de forma oral porque ainda hoje, em
algumas regiões da Índia, como Kerala, há escolas védicas onde as crianças aprendem de cor o seu conteúdo.
313
N.T.: Eddas, Edas ou simplesmente Edda, é o nome dado a duas coletâneas distintas de textos do séc. XIII, encontradas na
Islândia, e que permitiram iniciar o estudo e a compilação das histórias referentes aos deuses e heróis da mitologia nórdica e
germânica.
314
N.T.: Arjuna (também conhecido como Parth, significando filho de Prita ou Cunti) é uma personagem da mitologia hindu, um
dos heróis do épico Maabárata. Filho do deus Indra é um dos cinco heróis da epopeia hindu.
315
N.T.: O Mahabharata, conhecido também como Maabárata, Mahabarata e Maha-Bharata, é um dos dois maiores épicos
clássicos da Índia, juntamente com o Ramáiana. Sua autoria é atribuída a Krishna Dvapayana Vyasa. O texto é monumental, com
mais de 74 000 versos em sânscrito, e mais de 1,8 milhões de palavras.
316
N.T.: igurd (nórdico antigo: Sigurðr; também conhecido em alemão como Siegfried) é um herói lendário da mitologia nórdica e
personagem central da Saga dos Volsungos. As primeiras representações de sua lenda vêm de sete pedras rúnicas da Suécia.
Como Siegfried, é o herói do Nibelungenlied, e das óperas Siegfried e Götterdämmerung de Richard Wagner. O nome Sigurðr não
é o mesmo que o alemão Siegfried. A versão em nórdico antigo seria Sigruþr, uma forma que aparece no petróglifo de Ramsund.
Nota-se que todas as variações do nome possuem o prefixo “Sig”, que significa vitória.
317
N.T.: aqui Norte e Sul como vimos no parágrafo anterior.
318
N.T.: Rafael Sanzio (1483-1520), frequentemente referido apenas como Rafael, foi um mestre da pintura e da arquitetura da
escola de Florença durante o Renascimento italiano, celebrado pela perfeição e suavidade de suas obras. Segundo historiadores e
mestres da arte, o mais adequado é chamá-lo de Raffaello Santi, já que Sanzio fazia referência apenas ao seu local de nascimento
e Santi era o sobrenome de seu pai, Giovanni Santi, nascido em Lucca, na Toscana. Junto com Michelangelo e Leonardo da Vinci
forma a tríade de grandes mestres do Alto Renascimento.
319
N.T.: também chamada Madonna di San Sisto.
podem ali ver as almas. As asas, naturalmente, não são reais fora da pintura, mas ali foram colocadas para mostrar a
habilidade em se mover com grande velocidade, o que é inerente a todos os seres nos Mundos invisíveis. O Papa está
representado apontando para a Madonna e o Cristo Menino, e um exame mais acurado revelará que a mão, com a
qual ele aponta, tem seis dedos. Não há nenhuma evidência histórica de que o Pontífice, realmente, tivesse tal
deformidade, tampouco o fato pode ter sido acidental; portanto, os seis dedos na pintura devem ter sido pintados por
parte do pintor.
Para compreender qual era o seu propósito examinemos o “Casamento da Virgem”, onde pode se observar
uma anomalia semelhante. Naquela imagem, Maria e José estão representados juntos com o Cristo-Menino, e sob tais
condições, evidencia que estavam às vésperas da partida para o Egito, e um Rabino estava unindo-os em matrimônio.
O pé esquerdo de José é o principal destaque na imagem, e se contarmos seus dedos veremos que são seis. Em ambas
as pinturas, os seis dedos da mão do Papa e os seis dedos do pé de José, Rafael quer nos mostrar que os dois
possuíam um sexto sentido, faculdade que é despertada pela Iniciação. Por essa sutil senso, o pé de José era o guia
durante a sua fuga para manter em segurança as coisas sagradas que haviam sido confiadas aos seus cuidados. O
outro adquiriu um sexto sentido para ele que não pudesse ser um líder cego conduzindo outros cegos, mas que
tivesse o “olho que vê”, necessário para indicar o Caminho, a Verdade e a Vida. E é um fato, embora desconhecido por
muitos, que com uma ou duas exceções em que o poder político foi o suficientemente forte para corromper o
Colegiado dos Cardeais, todos aqueles que se sentaram no chamado trono de Pedro tinham a visão espiritual, em
maior ou menor grau.
Vimos nos artigos sobre “Símbolos de Iniciação Antiga e Moderna”, que precedeu o presente artigo, que o
Templo de Mistérios Atlante conhecido como Tabernáculo no Deserto era uma escola de crescimento anímico, e não
deve surpreender-nos saber que os quatro Evangelhos narrados sobre a vida do Cristo são também fórmulas de
Iniciação, revelando um outro e posterior Caminho para o poder. Nos antigos Mistérios Egípcios, Hórus foi o primeiro
exemplo a quem o aspirante se esforçou por imitar, e é significativo que no Ritual de Iniciação, em voga naqueles dias,
e que agora conhecemos como o “Livro dos Mortos”, o aspirante à Iniciação sempre dirigiu a ele como Hórus fulano
de tal.
Seguindo o mesmo método atualmente podemos nos dirigir apropriadamente àqueles que seguem o Caminho
da Iniciação Cristã, como Cristo fulano de tal, pois, de fato todos os que trilham esse Caminho são realmente Cristos
em formação. Cada um, por sua vez, terá que alcançar as diferentes estações da Via Dolorosa, ou Caminho da
Angústia profunda e da Tristeza, que o conduzirá ao Calvário, e experimentará no seu próprio corpo as angústias ou
agonias e as dores sofridas pelo Herói dos Evangelhos. A Iniciação é um processo cósmico de iluminação e evolução do
poder; portanto, as experiências de todos são semelhantes nas principais características.
A forma de uma Iniciação Cristã Mística difere radicalmente do método Rosacruz, que visa trazer o candidato
à compaixão por meio do conhecimento e, para isso, procura cultivar nele as faculdades latentes da visão e da audição
espiritual desde o início de sua peregrinação como um Aspirante a vida superior, lhe ensinando a conhecer os
mistérios ocultos do ser e a perceber, intelectualmente, a unidade de cada um com todos, de modo que, finalmente,
por meio desse conhecimento, haja despertado internamente o sentimento que o faz perceber, verdadeiramente, sua
ligação com tudo o que vive e se move, e isso o coloca em perfeita e completa sintonia com o Infinito, tornando-o um
verdadeiro auxiliar e trabalhador no divino Reino da evolução.
A meta alcançada por meio da Iniciação Cristã Mística é a mesma, porém o método, como mencionado acima,
é inteiramente diferente. Em primeiro lugar, o candidato geralmente está inconsciente do fato de que está tentando
atingir algum objetivo definido, pelo menos durante os primeiros estágios de seus esforços, e há nessa nobre Escola
de Iniciação tão somente um Mestre, o Cristo, que está sempre diante da visão espiritual do candidato como o Ideal e
a Meta de todo o seu empenho. O mundo ocidental, infelizmente, se tornou tão enredado na intelectualidade que
seus Aspirantes somente iniciam a Caminhada quando sua razão foi satisfeita; e, infelizmente, é apenas o desejo por
mais conhecimento que traz a maioria dos Estudantes para a Escola Rosacruz. É uma tarefa árdua cultivar neles a
compaixão, que deve ser mesclada com o seu conhecimento e ser o fator determinante no uso dele, antes que
estejam habilitados para entrar no Reino de Cristo. Contudo, aqueles que são atraídos para o Caminho Cristão Místico
não sentem nenhuma dificuldade desta natureza. Eles têm dentro de si um amor abrangente que os impulsiona e que,
finalmente, gera neles um conhecimento que o autor acredita ser muito superior ao obtido por qualquer outro
método. Aquele que segue o Caminho do desenvolvimento intelectual tende a menosprezar, arrogantemente, o outro
cujo temperamento o impele a um Caminho Místico.
Tal atitude mental não prejudica somente o desenvolvimento espiritual de quem a coloca em prática, mas é
totalmente gratuita, como pode ser vista nas obras de Jacob Boehme 320, Thomas de Kempis321 e muitos outros que
seguiram o Caminho Místico. Quanto mais conhecimento nós possuirmos, maior a condenação nós mereceremos se
fizermos mal uso dele. Todavia, o amor, que é o princípio básico na vida do Cristão Místico, nunca poderá nos levar à
condenação ou conflitar com os propósitos de Deus. É infinitamente melhor ser capaz de sentir emoções nobres, do
que ter o intelecto tão aguçado e hábil para definir todas as emoções. Tecer algo sobre a constituição e evolução do
átomo, seguramente, não promoverá o crescimento anímico tanto quanto a humilde ajuda direcionada ao próximo.

Figura 6

320
N.T.: Jakob Böhme, por vezes grafado como Jacob Boehme (1575-1624) foi um filósofo e místico luterano alemão. Passou por
experiências místicas em toda a sua juventude, culminando em uma epifania no ano de 1600, a qual ter-lhe-ia revelado a
estrutura espiritual do mundo, assim como as relações entre o Bem e o Mal. Na época, ele decidiu não divulgar a sua experiência
e continuou trabalhando como sapateiro na cidade de Goerlitz, na Silésia, constituindo família e tendo quatro filhos. Entretanto,
após uma outra visão em 1610, ele começou a escrever sua primeira obra, Aurora Nascente (Die Morgenroete im Aufgang),
resultante dessa iluminação.
321
N.T.: Tomás de Kempis, também conhecido como Tomás de Kempen, Thomas Hemerken, Thomas à Kempis ou Thomas von
Kempen (1379 ou 1380-1471) foi um monge e escritor místico alemão. Tomás de Kempis produziu cerca de quarenta obras
representantes da literatura devocional moderna. Destaca-se o seu livro mais célebre, Imitação de Cristo, composto por quatro
volumes, no qual apela a uma vida seguida no exemplo de Cristo, valorizando a comunhão como forma de reforçar a fé.
Há nove degraus definidos na Iniciação Cristã Mística, começando com o Batismo, que é introdutório. A
Anunciação e a Imaculada Concepção precedem como temas de curso por razões que serão dadas posteriormente.
Tendo preparado nossas Mentes pelas considerações anteriores, agora estamos prontos para considerar cada estágio
separadamente, nesse glorioso processo de desenvolvimento espiritual.

A Anunciação e a Imaculada Concepção

O Cristão Místico, definitivamente, não é o produto de uma única vida, mas o florescimento de várias
existências preparatórias, durante as quais ele cultivou aquela compaixão sublime que o faz sentir o sofrimento
profundo – devido ao infortúnio, à aflição e a sensação de estar perdido – de todo mundo e evoca diante de sua visão
espiritual o Ideal Crístico como o verdadeiro bálsamo de Gileade 322, ideal esse que é a única panaceia contra toda dor
e tristeza humana. Semelhante alma recebe um especial cuidado das Hierarquias divinas que têm a seu cargo o nosso
progresso ao longo do Caminho da Evolução e, quando chega o tempo para tal alma renascer naquela vida, na qual ele
deve percorrer o caminho final para alcançar a meta e se tornar um Salvador de sua espécie, os Anjos estão
observando bem de perto, esperando e cantando hosanas em regozijosa antecipação do grande evento.
Como sempre, semelhante atrai semelhante e, naturalmente, os pais são cuidadosamente selecionados para
(e por) receber uma alma tão nobre, entre os “filhos e filhas do Rei”. Sob o ponto de vista mundano, eles podem estar
nas piores condições; pode ser necessário embalar o bebê numa manjedoura, mas, nenhum presente é tão valioso
como aquele que é recebido pelos pais de tão nobre alma. Entre as qualificações necessárias para ser pais de tal Ego
está a necessidade de a mãe ser uma “virgem” e o pai um “construtor”.
Diz-se na Bíblia que José era um carpinteiro, mas a palavra grega é “tekton”, que significa “construtor”. Na
Maçonaria Mística, Deus é chamado de O Grande Arquiteto. Arche é uma palavra grega que significa substância
primordial e, um tekton é um construtor. Assim, Deus é o Grande Mestre Construtor que a partir da substância
primordial moldou o mundo como um Campo de Evolução para vários graus de seres. Ele usa no Seu universo muitos
tektons ou construtores, de vários graus. Todo aquele que segue a Senda do desenvolvimento espiritual, esforçando-
se por trabalhar construtivamente com as leis da natureza, como um servo da humanidade, é um tekton ou um
construtor no que se refere a ter as qualificações necessárias para ajudar a dar à luz a uma grande alma. Desse modo,
quando se diz que Jesus era um carpinteiro e filho de um carpinteiro, entendemos que ambos eram tektons ou
construtores ao longo de linhas cósmicas.
A Imaculada Conceição, como todos os outros mistérios sublimes, tem sido lançada na vala da materialidade
e, sendo de tal sublime espiritualidade, talvez sofra mais por esse rude tratamento do que qualquer outro dos
ensinamentos espirituais. Talvez tenha sofrido mais com as explicações desajeitadas dos ignorantes defensores, do
que pela jocosidade e zombaria dos cínicos.
A doutrina da Imaculada Conceição, como popularmente é conhecida, diz que há dois mil anos atrás Deus, de
uma forma milagrosa, fecundou uma certa Maria, que era virgem, e que como resultado ela deu à luz Jesus, um
indivíduo que, em consequência, era o Filho de Deus, e nesse sentido diferente de todos os outros seres humanos. Há
também, no conhecimento popular, a ideia de que esse acontecimento é único na história do mundo.
Particularmente, isso é a última falácia que serviu para distorcer a beleza espiritual da verdade relativa à Imaculada
Conceição. De modo algum é o único caso nesse sentido. Toda grande alma que nasceu aqui nesse mundo para viver
uma vida de uma santidade sublime, tal como exigiu para a Iniciação Cristã Mística, também encontrou acesso por
meio de pais de imaculada virgindade, que não foram manchados pela paixão, durante a realização do ato gerador. Os
seres humanos não colhem uvas dos abrolhos. É uma verdade axiomática que o semelhante atrai semelhante, e antes
que alguém possa se tornar um Salvador, deverá ser puro e sem pecado. Ele, sendo puro, não poderá nascer de uma
pessoa vil, terá de nascer de pais virgens.
No entanto, a virgindade a qual nos referimos não abrange uma condição meramente física. Não há virtude
inerente em uma virgindade física, pois todos a possuem no início da vida, não importa quão vil seja sua disposição

322
N.T.: ou bálsamo de Geliad. Bartolomeu Angélicus, monge inglês que preparou a primeira enciclopédia de preciosas resinas e
essências, disse: “A árvore do bálsamo cresce na Babilônia, no Egito, e suas virtudes são únicas e todas medicinais. Seus sucos
curam o cérebro à semelhança de um fogo; sua virtude e dissolver e temperar, consumir e desgastar, resguardar e evitar a
decomposição dos cadáveres”. O bálsamo de Gilead de Mecca e de La Matéria perto da Babilônia, foi considerado o melhor. As
árvores de onde é extraído, eram protegidas por paredes altas. Atualmente, a goma é extraída especialmente por incisão, porém,
antes, havia três diferentes meios de consegui-la. O primeiro, era pelo cozimento de brotos novos e chamava-se Xobalsamum; o
outro, era produzido espremendo-se o suco da fruta e era chamado de Canapobalsamum; e o terceiro método, era usado para
obter o mais fino bálsamo de todos, conhecido como Opobalsamum. Este óleo precioso era usado na medicina, e fornecia,
também, às mulheres, os melhores cosméticos. O corpo era ungido com óleo, antes do banho, e agia não só como desinfetante,
como também para atender à crença de que seu uso prolongava vida até idade avançada. O bálsamo de Gilead tem propriedades
valiosas e é usado hoje pelos farmacêuticos que manipulam ervas, no preparo de uma excelente mistura para a tosse. Em algumas
partes da Índia, a resina da Comm’phora Mokal é usada como remédio para doenças da pele e doenças reumáticas.
possa ser. A virgindade da mãe do Salvador é uma qualidade da alma, que permanece sem mácula,
independentemente do ato físico da fecundação. Quando as pessoas efetuam o primeiro ato criador sem o objetivo
de ter filhos, meramente para a gratificação de suas luxúrias e propensões animais, elas perdem a única virgindade
(física) que já possuíam; mas quando os futuros pais, unidos em espírito de oração, oferecendo seus corpos no Altar
do Sacrifício com o propósito de fornecer a uma alma, que precisa renascer naquele momento, um Corpo Denso
apropriado para obter um maior desenvolvimento espiritual, então a pureza deles devido a esse objetivo preserva as
suas virgindades e atrai uma nobre alma para os seus corações e para o lar. Se uma criança será concebida em pecado
ou de forma imaculada, dependerá da própria qualidade inerente da sua alma, pois, infalivelmente, isso a atrairá para
pais de natureza semelhante à sua. Tornar-se filho de uma virgem pressupõe muita vivência anterior de
espiritualidade para essa criança que assim nasceu.
O “nascimento místico” de um “construtor” é um evento cósmico de grande importância e, portanto, não é
surpreendente que seja retratado nos céus, de ano para ano, mostrando um simbolismo gráfico no grande mundo ou
no macrocosmo, o que finalmente se realizará no ser humano, o pequeno mundo ou o microcosmo. Todos nós
estamos destinados a obter as experiências nas coisas que Jesus também obteve, incluindo a Imaculada Conceição,
que é um pré-requisito para a vida dos santos e salvadores em seus mais variados graus. Compreendendo esse grande
simbolismo cósmico, compreenderemos mais facilmente a sua aplicação no ser humano individual.
O Sol é “a luz do mundo” num sentido material. Quando no inverno ele atinge a maior declinação sul, no
Solstício de Dezembro, as pessoas no hemisfério norte, onde nasceram todas as religiões atuais, estão mergulhadas na
mais profunda escuridão e desprovidos de toda a força vital sustentadora emanada do Sol que, então, está morto no
que diz respeito à sua influência sobre os seres humanos. Portanto, é necessário que uma nova luz brilhe na
escuridão, que nasça um Sol da Bondade nessa mesma humanidade, pois, inevitavelmente, resultará o frio e a fome,
se o Sol permanecesse nessa posição meridional, ocupada por ele no Solstício de Dezembro.
Na noite entre 24 e 25 de dezembro, quando o Sol começa a se elevar gradualmente em direção ao Equador
da Terra, temos o Signo Zodiacal de Virgem, a imaculada Virgem celestial, no horizonte oriental em todas as latitudes
ao norte (nas horas imediatamente anteriores à meia-noite). Na ciência da Astrologia, o que determina a forma ou o
corpo do indivíduo no momento do seu nascimento é o Signo e o grau no horizonte oriental. Portanto, é dito que o Sol
da Bondade nasceu da Virgem, a sublime Virgem celestial, que permanece tão pura, mesmo depois de dar à luz a seu
Filho Solar. Por analogia, o Filho de Deus, que veio para salvar a humanidade, também deve nascer de uma imaculada
virgem espiritual.
De tudo o que foi dito, é evidente que um longo período de preparação precede a entrada de um Cristão
Místico na atual esfera da vida humana, embora ele normalmente, em sua consciência física, é totalmente alheio ao
fato da grande aventura que o aguarda. Com toda a probabilidade, sua infância e juventude serão passadas na
obscuridade, enquanto ele vive uma vida interior de uma profundidade inusitada, inconscientemente preparando-se
para o Batismo, que é o primeiro dos nove passos desse método de realização.
Capítulo II – O Ritual Místico do Batismo
Vale frisar que quase todos os sistemas religiosos prescreviam abluções 323 prévias ao celebrar as funções
religiosas e o culto realizado no antigo Templo de Mistérios Atlante, o Tabernáculo no Deserto, não foi exceção, como
vimos nos artigos precedentes sobre “Símbolos da Iniciação Antiga e Moderna”. Após ter obtido a justificação pelo
sacrifício no Altar de Bronze, o candidato se sentia compelido a se lavar no Lavabo da Consagração, o Mar Fundido,
antes de ter a permissão para receber as instruções sobre os deveres de seu ministério no próprio santuário. E está
em conformidade com essa regra que nós encontramos no Herói dos Evangelhos a caminho do Rio Jordão, onde Ele
passou pelo ritual Místico do Batismo. Quando Ele emergiu, nós aprendemos que o Espírito desceu sobre Ele.
Portanto, é óbvio que aqueles que seguem o Caminho de Iniciação do Cristão Místico também devem ser batizados de
maneira semelhantes, antes de poderem receber o Espírito, que é para ser o seu verdadeiro líder através de todas as
ações e processos que lhes tentarão ou os colocarão à prova.
Porém, o que constitui o Batismo é uma questão que tem suscitado argumentos de intensidade quase
inacreditável. Alguns alegam que está correto e que basta uma aspersão com água, e outros insistem na imersão de
todo o corpo. Muitos dizem que é suficiente levar uma criança à igreja e aspergi-la com água, apesar de seu protesto e
pronto (!): ela se torna uma Cristã, uma herdeira do Céu; ao passo que, se infelizmente ela morrer antes desse rito
sagrado, inevitavelmente deverá ir para o inferno. Outros defendem a posição mais lógica que o desejo de um
indivíduo para a sua admissão na igreja é o fator principal e necessário para que o ritual seja eficaz e, portanto,
aguardam até a idade adulta antes de realizar a cerimônia, o que requer uma imersão de todo o corpo na água. Mas,
seja o ritual realizado na infância ou na vida adulta, parece estranho que a imersão momentânea ou apenas a
aspersão com água teria o poder de salvar a alma; e quando examinamos a vida subsequente daqueles que tenham
sido batizados, mesmo em idade adulta e com seu pleno consentimento e desejo, encontramos pouco ou nenhuma
melhoria significativa na grande maioria deles. Portanto, parece evidente que esse não pode ser o ritual apropriado,
porque o Espírito não desceu sobre eles. Consequentemente, devemos procurar uma outra explicação para o que
constitui um verdadeiro ritual Místico do Batismo.
Conta-se a história de um rei Otomano que declarou guerra a uma nação vizinha, travou inúmeras batalhas
contra ela, com diferentes níveis de sucesso, mas finalmente foi vencido e levado cativo para o palácio do vitorioso,
onde foi obrigado a trabalhar na mais servil condição como um escravo. Depois de muitos anos, a fortuna o favoreceu
e ele fugiu para um país distante onde, mediante muito trabalho árduo, ele adquiriu uma pequena propriedade, se
casou e teve vários filhos, que cresceram ao seu redor. Finalmente, se viu em seu leito de morte com uma idade bem
avançada e, em um esforço de dar o seu último suspiro, ele se levantou sobre o travesseiro e olhou em volta, mas não
havia ali nenhum de seus filhos e de suas filhas. Ele não estava no lugar que havia considerado como o seu lar por
tantos anos, mas em seu próprio palácio, aquele em que ele pensava ter deixado em sua juventude e ele estava tão
jovem quanto naquele tempo. Lá ele se viu sentado em uma cadeira com uma bacia de água perto do seu queixo e um
criado dedicado em lavar seus cabelos e sua barba. Tinha acabado de imergir seu rosto na água, quando começou a
sonhar com o início da guerra, e uma vida inteira tinha sido vivida na terra dos sonhos e que durou poucos segundos,
terminando tão logo retirou o rosto da água. Há milhares de outros casos para mostrar que fora do Mundo Físico o
tempo é inexistente, e as ocorrências milenares são facilmente revistas em poucos instantes.
É também bem conhecido que quando as pessoas estão debaixo d'água e prestes a se afogar, toda a sua vida
anterior é passada diante de seus olhos com uma clareza cristalina; mesmo os mínimos detalhes, que foram
esquecidos durante o passar dos anos, se destacam nitidamente. Portanto, deve haver e há um repertório de eventos
que podem ser contatados sob certas condições, quando os sentidos estão acalmados e nós estamos sonolentos ou à
beira da morte.
Para tornar mais claro o que foi dito acima, deve ser compreendido e tido em conta que o ser humano é um
ser composto, tendo outros veículos mais sutis que interpenetram o Corpo Denso e que, normalmente, se considera o
indivíduo como um todo. Durante a morte e o sono, o Corpo Denso se torna inconsciente devido a uma completa
separação entre ele e os veículos mais sutis, mas, essa separação é somente parcial durante o sono com sonhos e
pouco antes de um afogamento. Essa condição capacita o Espírito impressionar os acontecimentos no cérebro, com
maior ou menor exatidão e de acordo com as circunstâncias, particularmente, para aqueles incidentes que estão
relacionados com ele próprio. À luz dessas coisas é que nós devemos compreender o que realmente se constitui o
ritual do Batismo.
De acordo com a Teoria Nebular, o que agora é a Terra foi, outrora, uma névoa ígnea luminosa que,
gradualmente, se esfriou em contato com o frio do espaço. Esse contato do calor com o frio gerou uma difusão líquida
ou condensada, que se evaporava e que emergia do centro aquecido até se condensar pelo frio e caindo novamente
como uma difusão líquida ou condensada sobre o mundo aquecido. Assim, a superfície da Terra ficou sujeita a
alternação entre liquefação e evaporação por muito tempo, até que finalmente ela se cristalizou em uma concha que

323
N.T.: A ablução é um rito de purificação, com símbolos, atos e significados variados em diversas situações. Relacionam-se a ritos
de preparação para o sacrifício. As abluções são feitas com água, folhas, areia ou sangue.
cobriu inteiramente o centro ígneo. Essa concha de suave difusão líquida ou condensada em grande quantidade,
naturalmente, gerou uma névoa que envolveu o Planeta como uma atmosfera, e esse foi o berço de tudo o que tem
sua existência na Terra, o ser humano, o animal e a planta.
A Bíblia descreve essa condição no segundo capítulo de Gênesis, onde lemos que no tempo do primeiro ser
humano uma névoa subia da terra, “pois ainda não havia chovido”. Evidentemente, que essa condição perdurou até o
Dilúvio, quando a difusão líquida ou condensada, finalmente, baixou e deixou a atmosfera clara, de modo que o arco-
íris foi visto pela primeira vez, a escuridão foi dissipada e a era de alternância, dia e noite, verão e inverno, começou.
Ao estudarmos a cosmologia e o relato pictórico da evolução encontrado nos Em um estudo da cosmologia e
do relato pictórico da evolução fornecido no Eddas 324 do Norte, estimados entre os sábios da Escandinávia antes da
Era Cristã, podemos aprender mais sobre esse período da história da Terra e da influência que tem sobre o nosso
assunto. Do mesmo modo que ensinamos as nossas crianças, por meio de histórias e imagens, as verdades que eles
não poderiam compreender intelectualmente, os líderes divinos da humanidade costumavam ensinar as almas
infantis, que estavam a seus cuidados, utilizando ilustrações e alegorias e por meio dessas as preparavam para
ensinamentos mais elevados e nobres a serem fornecidos em um futuro próximo. O grande poema épico que é
chamado O Anel dos Nibelungos325 nos conta a história do que estamos buscando, a origem cósmica do ritual do
Batismo e porque ele é, necessariamente, o primeiro passo para o desenvolvimento espiritual do Cristão Místico.
A cosmogonia dos Eddas é semelhante à da Bíblia em alguns aspectos e em outros fornece indicações que
comprovam a teoria de Laplace326. Transcrevemos a versão poética de Oehlenschlaeger327:

Na primitiva alvorada do Ser


Tudo era um abismo escuro,
Nem o céu nem a terra eram conhecidos.
A fria névoa e o gelo nocivo,
Ao norte do buraco escuro de Niflheim,
Nas montanhas se agrupavam;
Do polo radiante de Muspel,
Para o Sul o fogo dominava.
Então, depois que se passaram anos,
No meio do caos se encontraram
Um sopro quente, explosão de Niflheim,
O frio com calor fecundo.
Portanto, gotas cheias foram formadas,
Vindas pelo ar celeste
Da região de Muspel aquecido,
Produziu um grande Aurgelmer.

Assim, pela ação do calor e do frio Aurgelmer ou, como também é chamado, o Gigante Ymer, foi formado pela
primeira vez. Esse foi o terreno com sementes férteis de onde surgiram as Hierarquias espirituais, os espíritos da
Terra, do Ar e da Água e, finalmente, do ser humano. Ao mesmo tempo, o Pai Todo-Poderoso criou a Vaca Audumla,
de cujas quatro tetas saíam quatro jatos de leite, que nutriam todos os seres. Esses são os quatro Éteres, um dos quais
agora sustenta minerais, dois alimentam a planta, três o animal e todos os quatro alimentam o Reino humano. Na
Bíblia, eles são os quatro rios que saíam do Éden.

324
N.T.: Eddas, Edas ou simplesmente Edda, é o nome dado a duas coletâneas distintas de textos do séc. XIII, encontradas na Islândia, e que
permitiram iniciar o estudo e a compilação das histórias referentes aos deuses e heróis da mitologia nórdica e germânica: a Edda em prosa e a
Edda em verso.
325
N.T.: O Anel de Nibelungo é, na mitologia nórdica, um anel mágico que daria ao seu portador um grande poder e, posteriormente, uma
grande maldição. Foi forjado por Alberich, senhor dos Nibelungos, o povo das neblinas, após roubar das náiades o ouro do Reno, o tesouro mais
precioso do mundo, mergulhando no fundo do rio.
326
N.T.: As bases do modelo de formação do Sistema Solar atualmente mais aceito foram propostas, na segunda metade do século 18,
independentemente, pelo filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) e pelo matemático, astrônomo e físico francês Pierre Simon de Laplace
(1749-1827). É a chamada hipótese Kant-Laplace da nebulosa protossolar. O modelo da nebulosa protossolar visa a reproduzir as características
observadas do Sistema Solar: i) todos os Planetas giram em torno do Sol na mesma direção, e o Sol gira em torno de seu eixo, na direção do
movimento dos Planetas; ii) os Planetas (exceção de Vênus e Urano) giram em torno de seu eixo nessa mesma direção; iii) as órbitas dos
Planetas são quase circulares e coplanares; iv) apesar de variações que dependem da distância ao Sol, todos os corpos têm composição química
similar e uma única idade de solidificação (4,55 milhões de anos); v) 99,8% da massa do Sistema Solar estão concentrados no Sol. Portanto, a
Hipótese de Laplace, de Pierre Laplace explicou que a nossa estrela, o Sol, não poderia ter tido outra origem a não ser oriunda da condensação
gradual de matéria nebulosa primitiva, assim como ocorreu com todas as outras estrelas do universo. Ele se baseou na hipótese de Kant para
melhor estudá-la e desenvolvê-la. A hipótese de Laplace se tornou uma das mais conhecidas das teorias evolucionárias.
327
N.T.: Adam Gottlob Oehlenschläger (1779-1850) foi um poeta e dramaturgo dinamarquês, celebrado como o introdutor do romantismo na
literatura dinamarquesa.
Finalmente, como postulado pela ciência, uma crosta deve ter sido formada pela contínua ebulição da água, e
dessa crosta seca ascendia uma névoa, conforme ensinado no segundo capítulo do Gênesis. Gradualmente, a névoa
deve ter esfriado e condensado, bloqueando a luz do Sol, de modo que teria sido impossível para a humanidade
comum perceber o corpo, mesmo se tivesse a visão física, pois, sob tais condições ela não necessitava mais de olhos,
do mesmo modo que uma toupeira que escava a terra não precisa. No entanto, não eram cegos, pois nos foi dito que
“eles viram a Deus”; e como “coisas espirituais (e seres) são percebidos espiritualmente”, eles deviam ter sido dotados
de visão espiritual. Nos Mundos espirituais, há um padrão de realidade diferente da que temos aqui, a qual é a base
dos mitos.
Sob essas condições, lá não poderia haver conflito de interesses, e a humanidade se considerava como a filha
de um grande Pai, enquanto vivia sob as águas da antiga Atlântida. O egoísmo surgiu no mundo somente quando a
névoa se condensou e a humanidade teve que deixar a atmosfera aquosa da Atlântida. Quando os olhos dos seres
humanos se abriram para que pudessem perceber o Mundo Físico e as coisas ali contidas, e quando cada um viu a si
mesmo como separado e distinto de todos os outros, a consciência do “eu e meu, você e seu” tomou forma nas
Mentes nascentes e um desejo egoísta e excessivo por bens materiais, chegando até ao ponto da crueldade,
substituiu o sentimento de interesse comum e de compreensão mútua – bem como de solidariedade – em que cada
um vivia sob as águas da antiga Atlântida. Desde aquela época, e até os dias de hoje, o egoísmo é considerado uma
atitude legítima e mesmo em nossa alardeada civilização o altruísmo continua sendo um sonho utópico, longe de ser
aceito no dia a dia das pessoas.
Tivesse a humanidade a permissão para trilhar o caminho do egoísmo sem obstruções ou impedimentos, é
difícil prever onde isso tudo chegaria. Porém, sob a imutável Lei de Consequência, toda causa deve produzir um efeito
correspondente. O princípio do sofrimento nasceu do pecado, com o propósito benevolente de nos guiar de volta ao
caminho da virtude. Isso requer muito sofrimento e muitas vidas para cumprir com esse propósito, porém, finalmente
quando nos tornamos seres humanos sujeitos à angustia profunda, à tristeza e ao arrependimento e nos
familiarizarmos com ele, quando tivermos cultivado esta intensa e propensa compaixão, que sente toda a miséria do
mundo, quando o Cristo tiver nascido dentro de nós, então chega ao Cristão Místico aquela ardente aspiração para
buscar e salvar aqueles que ainda se encontram perdidos, lhes mostrando o caminho para eterna luz e paz.
Entretanto, para indicar o caminho, nós devemos conhecer tal caminho; sem uma verdadeira compreensão da
causa da angústia profunda, tristeza ou do arrependimento não podemos ensinar os outros a obter a paz permanente.
Nem pode essa compreensão da angústia profunda, tristeza ou do arrependimento, do pecado e da morte ser obtida
por meio de livros, de palestras ou mesmo por meio de ensinamentos individuais de outra pessoa; pelo menos, uma
impressão suficientemente intensa para preencher todo o ser do Aspirante não pode ser transmitida dessa forma.
Somente o Batismo alcançará o propósito de uma forma adequada; por isso, o primeiro passo na vida de um Cristão
Místico é o Batismo.
Contudo, quando dizemos Batismo, necessariamente, não estamos nos referindo ao Batismo físico, onde o
candidato é aspergido ou imerso e onde ele faz certas promessas àquele que o batiza. O Batismo Místico pode ocorrer
tanto em um deserto quanto facilmente em uma ilha, porque é um processo espiritual com o objetivo de atingir um
propósito espiritual. Pode ocorrer a qualquer hora da noite ou do dia, no verão ou no inverno; assim, ele ocorre no
momento em que o candidato sente, com suficiente intensidade, um intenso desejo, quase uma ansiedade, de
conhecer a causa da angústia profunda, tristeza ou do arrependimento alheio e aliviá-la. Então, o Espírito é conduzido
sob as águas da Atlântida, onde vê a condição primordial do amor fraternal e da afeição; onde percebe Deus como o
grande Pai de Seus filhos, que estão ali envolvidos por Seu maravilhoso amor. E, pelo retorno consciente a esse
Oceano de Amor, o candidato se torna tão completamente imbuído com o sentimento de natureza ou caráter
semelhante, que o espírito de egoísmo é banido dele para sempre. É por causa dessa saturação com o Espírito
Universal que ele, mais tarde, é capaz de dizer: “àquele que quer pleitear contigo, para tomar-te a túnica, deixa-lhe
também a veste; e se alguém te obriga a andar uma milha, caminha com ele duas.”328. Sentindo-se um com todos, o
candidato nem mesmo considera o seu assassinato como maus-tratos, mas pode dizer: “Pai, perdoai-os”329. Eles são
idênticos a si mesmo, que sofrem com sua ação; ele é tanto o agressor quanto a vítima. Esse é o verdadeiro Batismo
Espiritual do Cristão Místico, e qualquer outro batismo que não produza esse sentimento fraterno universal não é
digno de ter esse nome.

328
N.T.: Mt 5:40-41
329
N.T.: Lc 23:34
Capítulo III – A Tentação
Frequentemente ouvimos queixas a respeito de Cristãos devotos sobre seus momentos de depressão. Às
vezes, eles estão quase no sétimo céu de exaltação espiritual, todos veem a face de Cristo e sentem como se Ele os
guiasse a cada passo. Então, de repente e sem motivo aparente, formam-se nuvens espessas ao redor, o Salvador
oculta a Sua face e o mundo se obscurece por um tempo. Eles não conseguem trabalhar, não conseguem orar; o
mundo ao redor fica sem graça e as portas do céu parecem fechada para eles, parecendo que a vida se tornou inútil,
enquanto essa expressão espiritual persistir. É claro que a razão disso é que essas pessoas vivem em suas emoções e,
segundo a imutável Lei da Alternância, o pêndulo está fadado tanto a oscilar para um lado quanto para o outro.
Quanto mais brilhante é a luz, mais profunda é a sombra e quanto maior a exaltação, mais profunda é a depressão do
espírito que a segue. Somente aqueles que controlam suas emoções pela fria razão escapam dos momentos de
depressão, mas também nunca experimentam a bem-aventurança celestial da exaltação. E é essa efusão emocional
de si mesmo que proveu, ao Cristão Místico, com a energia dinâmica para se projetar nos Mundos invisíveis, onde ele
se torna um com o ideal espiritual que o acenou e despertou em sua alma o poder de se elevar, tal como o Sol
construiu os olhos com os quais o percebemos. O passarinho que ainda não saiu do ninho sofre muitos tombos antes
de aprender a usar suas asas com confiança e segurança, e o Aspirante no caminho do Misticismo Cristão pode se
elevar ao próprio trono de Deus por muitas vezes e, então, pode cair no abismo profundo do desespero do inferno.
Porém, algum dia ele vencerá o mundo, desafiará a Lei da Alternância e se elevará pelo poder do Espírito até ao Pai,
livre das labutas da emoção e preenchido com a paz que excede todo o entendimento.
Mas esse é o final alcançado somente depois do Gólgota e do Batismo Místico. Esse último, o Batismo Místico
já discutido no capítulo anterior.
Aliás, isso é apenas o início da carreira ativa do Cristão Místico, na qual ele se torna profundamente
impregnado com o fato extraordinário da unidade de toda a vida, e imbuído com um sentimento de fraternidade por
todas as criaturas, em tal medida que, daqui em diante, ele não só enunciará como também praticará os princípios do
Sermão da Montanha.
Mesmo que as experiências espirituais do Cristão Místico não o levem tão longe, ainda assim, seria a aventura
mais maravilhosa do mundo, e a magnitude do evento está além das palavras e suas consequências, vagamente,
imagináveis. A maioria dos Estudantes de filosofias superiores acreditam na fraternidade entre os seres humanos pela
convicção mental de que todos nos originamos da mesma fonte, assim como os raios que emanam do Sol. Porém, há
um abismo de profundidade e largura inconcebíveis entre essa fria concepção intelectual e a impregnação batismal do
Cristão Místico, que sente isso em seu Coração e em cada fibra de seu ser com uma tal intensidade que, realmente,
exige muito esforço e empenho por parte dele; isso o preenche com um desejo terno e imediato, com um amor que
anseia e que causa ou reflete uma angústia, emoção profunda ou um desejo como aquele expresso nas palavras do
Cristo: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes quis eu
ajuntar os teus filhos, como a galinha recolhe os seus pintinhos debaixo das suas asas”330, um amor inquietante, ávido
e angustiante, que não pede nada para si mesmo, somente o privilégio de nutrir, de proteger e de acalentar.
Se houvesse uma leve similaridade com um sentimento de fraternidade universal entre os seres humanos,
nesses dias tenebrosos, que paraíso seria a Terra. Ao invés de nós, com uma espada na mão, lutarmos um contra o
outro com o objetivo de matar, com rivalidade e competição, ou de destruir a sua moral, de degradar na prisão, de
aprisionar em um emprego, sob a pressão da necessidade, não deveríamos ser nem guerreiros e nem prisioneiros,
mas trabalhar para ter um mundo feliz e satisfeito, vivendo em paz e harmonia, aprendendo as lições que nosso Pai
Celestial nos deseja ensinar nessa condição material. E toda a miséria no mundo pode ser atribuída ao fato de que se
cremos na Bíblia, nós acreditamos com o nosso intelecto e não com o nosso Coração.
Quando nos elevamos através das águas do Batismo, o Dilúvio Atlante, para a Era do Arco-Íris das estações
alternantes, nos tornamos presas das mudanças de emoções, que nos levam de um lado para outro no mar da vida. A
fé “fria”, limitada pela razão e considerada pela maioria dos Cristãos professos, pode lhes proporcionar uma dose de
paciência e equilíbrio mental que os sustenta diante das provações da vida, mas quando a maioria tiver obtido a FÉ
VIVA do Cristão Místico que supera a razão porque SENTE com o CORAÇÃO, então a Era das Alternâncias passará, o
Arco-Íris cairá com as nuvens e com o ar, que agora compõe a atmosfera, e haverá um novo céu de puro Éter, onde
receberemos o Batismo do Espírito e “haverá paz” (Jerusalém).
Ainda estamos na Era do Arco-Íris, sujeitos à sua lei, então podemos perceber que como o “Batismo” do
Cristão Místico ocorre num momento de exaltação espiritual, esse deve ser necessariamente seguido por uma reação.
A enorme magnitude da revelação o sobrepõe, e ele não pode percebê-la ou contê-la em seu veículo carnal, então,
ele foge frequentemente de lugares onde há pessoas e se refugia na solidão, alegoricamente representada como um
deserto. Ele fica tão arrebatado em sua sublime descoberta que, durante o tempo em que está em seu êxtase, ele vê o
Tear da Vida, em que são construídos todos os corpos de todos os que vivem, do menor ao maior, do rato e do ser
humano, do caçador e de sua presa, do guerreiro e de sua vítima. Mas, para ele, eles não estão separados e à parte,

330
N.T.: Mt 23:37
pois, também contempla o único divino halo dourado da luz da vida “que atravessa tudo e que a todos une” 331. Mais
ainda, ele ouve em cada um a nota-chave flamejante soando suas aspirações e expressando suas esperanças e seus
temores, e ele percebe esse som composto de cores cromáticas como uma canção ou hino de louvor ou alegria
mundial de Deus que se fez carne. A princípio, tudo isso está além de sua compreensão, a enorme magnitude da
descoberta esconde isso dele, e não pode conceber o que vê e o que sente, pois não há palavras para descrevê-lo e
nenhum conceito pode explicá-lo. Mas, aos poucos, se dá conta que está na própria Fonte da Vida, não mais
contemplando-a, mas com o SENTIMENTO de cada pulsação dela, e com essa compreensão atinge o clímax de seu
êxtase.
Tão arrebatado fica o Cristão Místico em sua belíssima aventura, que as necessidades físicas são
completamente esquecidas, enquanto durar o êxtase e, portanto, é natural que a sensação de fome seja sua primeira
necessidade consciente ao retornar ao estado normal de consciência de vigília e, naturalmente, também chega a voz
da tentação: “manda que estas pedras se transformem em pães.”332
Poucas passagens das Sagradas Escrituras são mais sombrias do que os versículos iniciais do Evangelho
Segundo São João: “No princípio era o Verbo. . . e nada do que foi feito, foi feito sem Ele”. Um pequeno estudo da
ciência do som nos familiariza com o fato de que som é vibração e que os diferentes sons moldarão a areia ou outros
materiais leves em figuras de variadas formas. O Cristão Místico pode ignorar completamente esse fato, do ponto de
vista científico, mas ele aprendeu na Fonte da Vida a cantar a Canção do Ser, que impulsiona de modo protetor e
intimamente para uma criação tudo o que um mestre na arte musical deseja. Há uma nota-chave para a pedra mineral
indigesta, porém, uma modificação irá transformá-la em ouro, com o que irá adquirir os meios de subsistência, e outra
nota-chave peculiar ao Reino vegetal a transformará em alimento, um fato conhecido por todos os ocultistas
avançados que praticam legitimamente encantamentos para propósitos espirituais, porém, nunca por ganho material.
Mas o Cristão Místico, que acabou de emergir de seu Batismo na Fonte da Vida, imediatamente se contorce
horrorizado com a sugestão de usar seu poder recém-descoberto para um propósito egoísta. Foi a própria qualidade
altruística da alma que o conduziu às águas da consagração na Fonte da Vida, e ele preferiria sacrificar tudo, até a
própria Vida, do que usar esse poder recém-descoberto para se poupar de um sofrimento doloroso. Ele não viu
também a condição de profundo sofrimento por infortúnios, aflições e tristezas do mundo? E não sente isso em seu
Grandioso Coração, com tal intensidade que a fome imediatamente desaparece e é esquecida? Ele pode, deseja e usa
livremente esse maravilhoso poder para saciar os milhares que se reúnem para ouvi-lo, contudo, nunca para
propósitos egoístas, pois, se assim o fizer, ele perturbaria o equilíbrio do mundo.
Entretanto, o Cristão Místico não raciocina assim. Conforme escrito acima, ele não tem nenhuma razão, pois,
existe uma orientação muito mais segura, uma voz interior que sempre lhe fala, nos momentos em que se deve tomar
uma decisão. “...Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.” 333; – outro mistério. Não
há nenhuma necessidade de partilhar o Pão terreno, quando se tem acesso à Fonte da Vida. Quanto mais nossos
pensamentos estiverem centrados em Deus, menos procuraremos os chamados “prazeres da mesa”, e alimentando o
nosso Corpo Denso com moderação e alimentos simples e selecionados, adquiriremos uma iluminação espiritual
impossível àqueles que se deleitem a uma dieta excessiva de alimentos grosseiros que nutrem a natureza inferior.
Alguns santos usaram o jejum e a flagelação como meio de crescimento da alma, mas esse é um método incorreto por
razões explicadas em um artigo sobre “Jejum como um fator no crescimento anímico” publicado na Revista “Rays from
the Rose Cross de dezembro de 1915”. Os Irmãos Maiores da humanidade, que compreendem a Lei e vivem de acordo
com ela, utilizam os alimentos apenas em intervalos calculados durante o ano. A palavra de Deus é para eles um “pão
vivo”. A mesma coisa é válida para o Cristão Místico e a tentação, ao invés de trabalhar para sua queda, o leva a
alturas cada vez mais elevadas.

331
N.T.: da obra A Visão de Sir Launfal de James Russel Lowell
332
N.T.: Mt 4:3
333
N.T.: Mt 4:4
Capítulo IV – A Transfiguração
Recordemos que pelos processos místicos do verdadeiro Batismo Espiritual, o Aspirante se torna tão
completamente saturado com o Espírito Universal que, de fato, pelo sentimento e pela experiência, ele se torna um
com tudo o que vive, o que se move e tem o seu ser, um com a pulsante Vida divina que surge em uma cadência
rítmica, através do menor e do maior; e tendo captado a nota-chave da canção celestial, ele então é dotado de um
poder de tremenda magnitude, que poderá ser usado para o bem ou para o mal. Devemos compreender e recordar
que, embora a pólvora e a dinamite possam ser utilizada para fazer o bem na agricultura, quando usadas para explodir
tocos de árvores que, de outra forma, exigiriam grande trabalho manual para serem extraídos, também podem ser
usadas para fazer o mal, como na Grande Guerra Europeia 334. Os poderes espirituais também podem ser usados para o
bem ou para o mal, dependendo do motivo e do caráter de quem os exerce. Entretanto, aquele que passou com êxito
pelo ritual do Batismo e, assim, adquiriu o poder espiritual é imediatamente tentado para que possa decidir
definitivamente se ele ficará do lado do bem ou do mal. Nesse ponto, ele se tornará um futuro “Parsifal” 335, um
“Cristo”, um “Herodes”336 ou um “Klingsor”337, que combateu os Cavaleiros do Santo Graal com todos os poderes e
recursos da Fraternidade das Trevas.
Há uma tendência na ciência materialista moderna de repudiar, como fábula, digna de atenção apenas entre
as criaturas supersticiosas e as mulheres mais velhas, as ideias comumente aceitas até a Idade Média, de que
comunidades espirituais, como a dos Cavaleiros do Graal já existiram, ou que existem seres como os “Irmãos das
Trevas”. As sociedades ocultistas, na última metade do século 338, instruíram milhares de pessoas para o fato de que os
Irmãos do Bem ainda estão em evidência, e podem ser encontrados por aqueles que os procuram da maneira
apropriada. Agora, infelizmente, a tendência entre essa classe de pessoas é aceitar qualquer um em suas alegações
infundadas como um Mestre ou um Adepto. Porém, mesmo entre essa classe existem poucos que levam a sério a
existência dos Irmãos das Trevas, ou percebem um enorme mal que eles estão fazendo no mundo, e como eles são
auxiliados e estimulados pela tendência geral da humanidade, para atender aos desejos da carne. Assim como as
forças do bem, que são simbolizadas pelos servos do Santo Graal, que vivem e crescem pelo serviço altruísta,
aumentando a luminosidade da reluzente Taça do Graal, assim também os Poderes do Mal, conhecidos como o Graal
Negro, e representados na Bíblia como a corte de Herodes, se alimentam do orgulho, da sensualidade, voluptuosidade
e paixão, personificados na figura de Salomé, que se glorifica no assassinato de João Batista e dos inocentes. Foi
mostrado na lenda do Graal, personificada no “Parsifal” de Wagner, que quando a inspiração da Taça do Graal era
negada aos Cavaleiros, da qual se alimentavam e que os impulsionavam a atos de maior amor e serviço, a coragem
deles esmorecia e eles ficavam sem disposição para até se mover. Algo similar ocorre com os Irmãos do Graal Negro. A
menos que sejam providos de palavras moralmente muito más, eles morrerão de inanição. Portanto, eles estão
sempre ativos no mundo, causando discórdias e incitando os outros para o mal. E se essas atividades perniciosas não
fossem neutralizadas, em grande parte, pelos Irmãos Maiores em seus Serviços da Meia-noite, em que eles se tornam
ímãs para todos os pensamentos malignos do Mundo Ocidental e, depois, por meio da alquimia de amor sublime,
transmutam todo aquele mal em bem, já teria ocorrido um cataclismo de uma magnitude muito maior do que a
334
N.T.: 1ª Guerra Mundial
335
N.T.: Principal personagem de Parsifal (WWV 111), uma ópera de três atos com música e libreto do compositor alemão Richard
Wagner. Estreou no Bayreuth Festspielhaus em Bayreuth no mês de julho de 1882. É vagamente baseada em Parzival, atribuído a
Wolfram von Eschenbach, um poema épico do século XIII do cavaleiro arturiano Parzival (Percival) e sua busca pelo Santo Graal
(século XII).
336
N.T.: Herodes foi um rei do território da Palestina, como representante (rei cliente) do Império Romano, entre 37 a.C. e 4 a.C.
Descrito como “um louco que assassinou sua própria família e inúmeros rabinos”, Herodes é conhecido por seus colossais projetos
de construção em Jerusalém e outras partes do mundo antigo, em especial a reconstrução que patrocinou do segundo Templo,
naquela cidade, por vezes chamado de Templo de Herodes. Foi durante seu reinado que nasceu Jesus, segundo a narrativa bíblica.
Herodes foi visitado pelos Três Reis Magos, que foram adorar o Rei dos Judeus, Herodes pediu aos magos que seguissem para
Belém e que depois voltassem para reportar se tinham conseguido encontrar a criança, porém, os Magos foram avisados em
sonho a seguir outro caminho e não passarem por Herodes, que mandou matar todas as crianças de até 2 anos de idade (Mt 2:1-
16).
337
N.T.: o mago negro da obra Parsifal.
338
N.T.: refere-se ao século XIX. A ópera se passa nas legendárias colinas do Monte Salvat, na Espanha, onde vive uma
fraternidade de cavaleiros do Santo Graal. O mago negro Klingsor teria construído um jardim mágico povoado com mulheres que,
com seus perfumes e trejeitos, seduziriam os cavaleiros e faria com que eles quebrassem seus votos de castidade, e teria ferido
Amfortas, rei do Graal, com a lança que perfurou o flanco de Cristo, e todas as vezes em que Amfortas olha em direção ao Graal
sente a ferida arder. Tal redenção só poderia ser realizada por um “inocente casto” (significado da palavra “Parsifal”). Este, em sua
primeira aparição na ópera, surge ferindo um dos cisnes que purificavam a água do banho de Amfortas, e a todas as perguntas
que os cavaleiros lhe fazem responde dizendo que não sabe de nada, nem ao menos seu nome. Parsifal atravessa o jardim mágico
de Klingsor e é seduzido pela amazona Kundry, que ora é uma fiel serva do Graal, ora é escrava de Klingsor. Ao beijá-la, sente os
estigmas das feridas que afligiam Amfortas e, quando Klingsor atira a lança contra ele, a lança dá a volta em seu corpo, e todo o
castelo mágico é destruído. Tempos depois, tendo os cavaleiros se convencido de que ele é o “inocente casto” que faria a
salvação, Parsifal cura as feridas de Amfortas e o destrona, assumindo a nova condição de rei do Graal.
recente Guerra Mundial. Devido a essa atuação, o Gênio do Mal tem sido mantidos dentro dos limites, pelo menos até
certa medida. Se a humanidade não estivesse tão inclinada para o mal, o êxito teria sido maior. Porém, é esperado
que o despertar espiritual, iniciado pela guerra, resulte em uma mudança de escala e que forneça aos agentes
construtores a vantagem, a maestria e o controle no caminho evolutivo.
É uma força maravilhosa que está centrada no Cristão Místico no momento do seu Batismo, devido ao
processo descendente e de concentração em si mesmo do Espírito Universal, e quando ele recusa durante o período
de tentação, a profaná-lo em proveito próprio ou poder para si mesmo, ele tem que, necessariamente aspirar por
outra direção, pois está impelido por um estímulo interior irresistível que não permitirá que ele se acomode numa
vida sem a disposição para até se mover e inativa de oração e meditação. O poder de Deus está sobre ele para que
pregue as boas novas à humanidade para ajudar e curar. Sabemos que uma lareira que está cheia, queimando lenha,
não pode deixar de aquecer o ambiente ao redor; do mesmo modo o Cristão Místico não pode deixar de ajudar a
irradiar a compaixão divina que transborda de seu Coração, não tendo dúvidas sobre a quem amar, a quem servir ou
onde buscar a oportunidade para tal. Assim como o fogão cheio aceso irradia calor para todos os que estão dentro de
sua esfera de radiação, da mesma forma o Cristão Místico sente o amor de Deus queimando em seu Coração e o
irradia continuamente para todos com quem se põe em contato. Assim como a fogão aquecido atrai para si com seu
calor aconchegante aqueles que sofrem com o frio físico, também os raios calorosos do amor do Cristão Místico são
um ímã para todos aqueles corações que estejam gelados pela crueldade do mundo, ou seja, pela desumanidade do
ser humano para com o ser humano.
Se o fogão estivesse vazio, mas dotado da faculdade da fala, poderia pregar para sempre o evangelho caloroso
àqueles que se sentem fisicamente frios, mas, mesmo a melhor oratória jamais satisfaria seu público. Quando se está
cheio de conteúdo e irradiando calor, o sermão se torna desnecessário. Todos se aproximarão e ficarão satisfeitos. Da
mesma forma, um sermão sobre fraternidade feito por alguém que não tenha se banhado na “Fonte da Vida”
parecerá sem valor real, sem substância e insincero. O verdadeiro Místico não precisa pregar. Cada ato seu, mesmo
com sua presença silenciosa, é mais poderoso do que todos os mais profundos discursos elaborados por doutores em
filosofia.
Há uma história de São Francisco de Assis que, particularmente, ilustra esse fato, e que nós acreditamos que
possa servir para ilustrar esse conceito, pois isso é extremamente importante. Conta-se que um dia São Francisco foi
falar com um jovem monge, que lhe tinha muito apreço, em um mosteiro e lhe convidou: “Irmão, vamos descer até a
vila e pregar a eles”. O jovem irmão, naturalmente, se encheu de grande regozijo e se sentiu honrado com a
oportunidade de acompanhar um homem tão santo como São Francisco e, juntos, os dois começaram a caminhar em
direção à vila, conversando sobre coisas espirituais e sobre a vida que conduz a Deus. Absorvidos nessa conversa, eles
passaram pela vila, caminhando pelas ruas; às vezes paravam para dirigir uma palavra gentil a um ou outro que
encontravam pelas ruas. Depois de dar uma volta pela vila, São Francisco tomou a direção da estrada que levava ao
mosteiro quando, de repente, o jovem irmão o lembrou de sua intenção de pregar na vila e lhe perguntou se ele havia
esquecido. A isso, São Francisco respondeu: “Meu filho, você não se deu conta de que quando estivávamos
caminhando na vila pregamos às pessoas ao nosso redor? Em primeiro lugar, nossas vestes simples revelaram o fato
de que somos devotados ao serviço de Deus e, assim que alguém nos via, seus pensamentos, naturalmente, se
dirigiam para o céu. Tenha certeza de que todos os moradores nos observavam, prestaram atenção no modo como
nos comportamos para ver até que ponto estaríamos de acordo com nosso ideal religioso. Eles ouviram nossas
palavras para saber se eram sobre assuntos espirituais ou profanos. Observaram, também, nossos gestos e
ponderaram nossas palavras de simpatia que vinham direto dos nossos corações e que repercutiam profundamente
no deles. Pregamos um sermão mais poderoso do que se tivéssemos ido à uma praça do mercado, reunindo-os ao
nosso redor e iniciando um longo e verborrágico discurso com uma exortação sobre a santidade”.
São Francisco era um Cristão Místico no mais profundo sentido da palavra e, tendo sido instruído
internamente pelo espírito de Deus ele conhecia bem os mistérios da vida, assim como Jacob Boehme e outros santos
homens que também foram instruídos. De certo modo, eles são mais sábios do que o mais sábio da escola intelectual,
mas não é necessário para eles que exponham os grandes mistérios para cumprir sua missão e servir como setas no
caminho para outros que, também, buscam a Deus. A grande simplicidade de suas palavras e de seus atos contêm em
si o poder da convicção. Naturalmente, é claro, nem todos alcançam o mesmo desenvolvimento. Nem todos possuem
os mesmos poderes, como nem todos os fogões têm dimensões idênticas e nem a mesma capacidade de
aquecimento. Aqueles que seguem o caminho do Cristão Místico, do menor ao maior, experimentaram os poderes
conferidos pelo Batismo, de acordo com a sua capacidade. Eles foram tentados a usar esses poderes para o mal, para
proveito pessoal, e tendo superado o desejo pelas coisas mundanas, eles se voltaram para o caminho do ministério e
do serviço, como Cristo fez, e suas vidas são marcadas não tanto pelo que disseram, mas pelo que eles fizeram. O
verdadeiro Cristão Místico é facilmente distinguido. Ele jamais ocupa os seis dias da semana para se preparar para
uma grande alocução para emocionar seus ouvintes no domingo, mas gasta, igualmente, todos os dias num humilde
esforço de cumprir a vontade do Mestre, independentemente dos aplausos externos. Assim, inconscientemente, ele
trabalha sempre em direção ao grande clímax que, na história dos mais nobres de todos os que percorreram esse
caminho, é conhecido como “Transfiguração”.
A Transfiguração é um processo alquímico pelo qual o Corpo Denso, formado pela química dos processos
fisiológicos, se converte na pedra viva, tal como é mencionado na Bíblia. Os alquimistas medievais, que buscavam a
Pedra Filosofal, não estavam preocupados na transmutação de tais impurezas em ouro significativo, mas visavam o
objetivo maior conforme narramos acima.
A umidade concentrada nas nuvens cai na terra em forma de chuva, quando suficientemente condensada e é
novamente evaporada pelo calor do Sol em novas nuvens. Essa é a fórmula cósmica original.
O espírito também se condensa em matéria e se torna mineral, mas, embora seja cristalizado numa forma tão
dura quanto a pedra, a vida ainda permanece, e pela alquimia da natureza, trabalhando por meio de outra corrente
de vida, os constituintes minerais densos do solo são transmutados numa estrutura mais flexível no vegetal, que serve
como alimento ao animal e ao ser humano. Essas substâncias se tornam corpos sencientes pela alquimia da
assimilação. Quando notamos as mudanças na estrutura do corpo humano, evidenciadas pela comparação dos sãs 339,
chineses, indianos, latinos, celtas e anglo-saxões, evidentemente está claro que o Corpo Denso do ser humano está,
atualmente, passando por um processo de refinamento com a erradicação das substâncias mais rudimentares e
grosseiras. Com o tempo, pela evolução, esse processo de espiritualização tornará nosso corpo radiante e
transparente pela Luz que brilhará internamente, radiante como o rosto de Moisés, como o corpo de Buda e o de
Cristo na Transfiguração. Presentemente, a luz do Espírito interno residente está efetivamente obscurecida por nosso
Corpo Denso, mas podemos ter esperanças advindas da ciência da química. Não há nada na terra tão raro e precioso
quanto o rádio340, o extrato luminoso do denso mineral negro chamado pechblenda 341; e nada há mais precioso e tão
raro como o extrato do corpo humano, o Cristo radiante. Presentemente, estamos trabalhando para desenvolver o
Cristo interno, mas quando o Cristo dentro de nós estiver plenamente desenvolvido, Ele brilhará através do corpo
transparente como a Luz do Mundo.
É um fato anatômico, comumente conhecido, que a medula espinhal está dividida em três seções, através das
quais os nervos motor, sensorial e simpático são controlados. Astrologicamente, são regidos por Marte, Mercúrio e a
Lua, respectivamente, que são Hierarquias divinas que desempenham papel importante na evolução humana através
dos sistemas nervosos citados.
Entre os antigos alquimistas, esses eram designados pelos três elementos alquímicos: sal, enxofre e mercúrio.
Entre eles, e acima deles, está colocado o Fogo Espiritual espinhal de Netuno. Ele ascende na coluna serpentina
através da medula espinhal até os ventrículos do cérebro. Na grande maioria da humanidade, o Fogo Espiritual ainda é
extremamente fraco. Porém, quando ocorre um despertar espiritual em alguém é como uma conversão genuína, ou
melhor ainda, pelo Batismo do Cristão Místico, como uma queda constante e intensa do Espírito vindo dos céus, que é
um fato real, intensifica o Fogo Espiritual espinhal numa extensão quase inacreditável e, imediatamente, inicia um
processo de regeneração, em que as substâncias grosseiras do Tríplice Corpo do ser humano são gradualmente
eliminadas, tornando os veículos mais permeáveis e prontamente adaptáveis aos impulsos espirituais. Quanto mais
desenvolvido o processo, mais eficientes eles se tornam na “vinha do Mestre”.

339
N.T.: ou bushmen são membros de várias etnias de caçadores-coletores da África Austral, cujos territórios abrangem Botsuana,
Namíbia, Angola, Zâmbia, Zimbábue e África do Sul. Há uma diferença linguística significativa entre os povos que vivem nesses
lugares. Eles contribuem uma riqueza de informações para os campos da antropologia e da genética. Um amplo estudo sobre a
diversidade genética africana concluído em 2009 descobriu que os “sãs” estavam entre as cinco populações com os níveis mais
altos medidos de diversidade genética entre as 121 populações africanas distintas amostradas. Os “sãs” são um dos catorze povos
ainda existentes da chamada “população ancestral” existentes, a partir do qual todos os seres humanos modernos conhecidos
descendem.
340
N.T.: um elemento químico de símbolo Ra, número atômico 88 (88 prótons e 88 elétrons) com massa atómica [226] u,
pertencente à família dos metais alcalino-terrosos, grupo 2 ou IIA da classificação periódica dos elementos. À temperatura
ambiente, o rádio encontra-se no estado sólido. É um metal altamente radioativo encontrado em minerais de urânio como na
pechblenda. As suas aplicações são derivadas do seu caráter radioativo. Foi usado em medicina, porém substituído por
radioisótopos mais eficientes. Foi descoberto por Marie Curie e seu marido Pierre em 1898 na pechblenda/uranita.
341
N.T.: Descoberta por Antoine Henri Becquerel, a pechblenda é uma variedade, provavelmente impura, de uraninita. Dela é
retirado o urânio, que é constituinte de muitas rochas. É extraído do minério, purificado e concentrado sob a forma de um sal de
cor amarela, conhecido como “yellowcake”.
Figura 7
O despertar espiritual que inicia esse processo de regeneração no Cristão Místico, que se purifica pela oração
e pelo serviço, evidentemente, chega também para aqueles que buscam Deus por meio do conhecimento e do
serviço, mas atua de forma diferente, o que é observado pelo investigador espiritual. No Cristão Místico, o Fogo
Espiritual espinhal regenerador está concentrado, principalmente, no segmento lunar da medula espinhal, que
governa os nervos simpáticos sob a regência de Jeová. Portanto, seu crescimento espiritual é alcançado pela fé, tão
simples, infantil e inquestionável como nos dias da primitiva Atlântida, quando os seres humanos ainda não tinham
Mentes. Assim, ele atrai a grande Luz da Deidade branca refletida por meio de Jeová, o Espírito Santo, e adquire toda
a sabedoria do mundo, sem necessidade de trabalhar por ela intelectualmente. Isso, gradualmente, transmuta seu
corpo na branca Pedra Filosofal, a Alma Diamante.
Por outro lado, aqueles cujas Mentes são fortes e insistentes em saber a razão do porquê de cada sentença e
dogma, o Fogo Espinhal da regeneração atuará sobre os segmentos do vermelho Marte e do incolor Mercúrio,
buscando infundir o desejo com a razão para purificar a antiga paixão primordial, para que se torne casta como a rosa
e, assim, transmuta o corpo na Alma Rubi, a vermelha Pedra Filosofal, provada pelo Fogo, purificada, uma
individualidade criativa em desenvolvimento.
Todos os que estão buscando o Caminho, seja pelo caminho do ocultista ou pelo do misticismo, estão tecendo
o “Dourado Manto Nupcial” por esse trabalho por dentro e por fora. Em alguns, o ouro é extremamente pálido e em
outros é profundamente vermelho. Mas, finalmente, quando o processo da Transfiguração tiver sido concluído, ou
melhor, quando estiver próximo a isso, os extremos se fundirão e os corpos transfigurados terão uma cor equilibrada,
pois o ocultista deve aprender a lição com profunda devoção, e o Cristão Místico deve aprender como adquirir
conhecimento por seus próprios esforços, sem a necessidade de recorrer à fonte universal de toda a sabedoria.
Essa perspectiva nos fornece uma visão mais profunda da Transfiguração relatada nos Evangelhos. Devemos
nos lembrar claramente que os veículos de Jesus foram transfigurados, temporariamente, pelo residente Espírito de
Cristo. Mas, mesmo considerando a enorme potencialidade do Espírito de Cristo em efetuar a Transfiguração, é
evidente que Jesus devia ser de um sublime caráter, sem igual. A Transfiguração como é vista na Memória da
Natureza revela o Seu corpo com uma brancura deslumbrante, assim evidenciando a sua comunhão com o Pai, o
Espírito Universal. Há uma grande diversidade em como tais resultados atualmente são alcançados, porém, no Reino
de Cristo, essas diferenças desaparecerão gradualmente, e uma cor uniforme, indicando tanto o conhecimento como
a devoção, será alcançada por todos. Essa cor corresponderá à cor rosa, vista pelos ocultistas como o Sol Espiritual, o
veículo do Pai. Quando isso for alcançado, a Transfiguração da humanidade estará completa. Então, seremos um com
nosso Pai, e Seu Reino terá chegado.
Capítulo V – A Última Ceia e o Lava-pés
Lemos nos Evangelhos, que relatam a história da Iniciação Cristã Mística, como na noite quando Cristo
compartilhou da experiência na Última Ceia com Seus Discípulos, foi mostrando que seu ministério estava terminando
naquele momento, e como Ele se levantou da mesa, se cingiu com uma toalha e, em seguida, despejou água numa
bacia e começou a lavar os pés de Seus Discípulos, um ato do mais humilde serviço, mas, motivado por uma
importante consideração oculta.
Quando ascendemos na escala da evolução, comparativamente, poucos percebem que fazemos isso pisando,
ferindo e até destruindo os corpos de nossos irmãos e imãs mais fracos, consciente ou inconscientemente,
esmagando-os e usando-os como degraus para atingir nossos próprios objetivos. Essa afirmação é válida para todos os
Reinos da natureza. Quando uma onda de vida é conduzida ao nadir da involução e encrustada na forma mineral, é
imediatamente aproveitada por outra onda de vida ligeiramente superior, que recebe o desintegrante cristal mineral,
adequando-o a seus próprios objetivos como cristaloide e assimila-o como parte de uma forma vegetal. Se não
houvesse minerais desintegrados que pudessem ser aproveitados e transformados, a vida vegetal não seria possível.
Da mesma maneira, as formas dos vegetais são absorvidas por várias classes de animais, quando são devoradas e
trituradas até virar uma pasta e servidas de nutrição para esse Reino superior. Se não houvesse plantas, os animais
não existiriam e o mesmo princípio é válido na evolução espiritual, pois se não houvesse aspirantes no degrau mais
baixo da escada do conhecimento em busca de instrução, não haveria necessidade de um professor. Todavia, existe
uma diferença importantíssima. O professor cresce ao doar aos seus alunos e servindo-os. Ascende, dos ombros deles,
um degrau mais alto na escada do conhecimento. Ele ascende elevando os demais, no entanto, tem uma dívida de
gratidão para com eles, que é simbolicamente reconhecida e extinta com o Lava-pés - um ato de serviço humilde com
aqueles que o serviram.
Quando percebemos que a natureza, que é a expressão de Deus, está continuamente se esforçando ao
máximo para criar e produzir, também devemos compreender que quem mate alguma coisa, mesmo que seja tão
pequena e aparentemente insignificante, está frustrando e se opondo ao propósito de Deus. Isso se aplica
particularmente ao Aspirante à vida superior e, para tanto, o Cristo exortou os Seus Discípulos a “ serem prudentes
como as serpentes, mas sem malícia como as pombas”342. Porém, não importa o quão sério e intenso é o nosso desejo
de seguir o preceito de não ferir, não machucar ou não destruir, as nossas tendências e necessidades relacionadas
com a constituição dos nossos Corpos e veículos nos obrigam a matar em determinados momentos de nossas vidas, e
não são somente nos grandes feitos que, constantemente, cometemos assassinatos. Era comparativamente fácil para
a alma que busca o desenvolvimento espiritual, simbolizada por Parsifal, quebrar o arco com o qual ele havia atirado
uma flecha no cisne dos cavaleiros do Graal, quando lhe explicaram do erro que ele havia cometido. A partir daquele
momento, Parsifal estava comprometido com uma vida sem ferir, machucar ou destruir, no que diz respeito aos
grandes feitos. Todos os Aspirantes sinceros concordam piamente com ele nesse quesito, uma vez que tenham
compreendido quão subversiva é, para o crescimento da alma, essa prática de compartilhar alimentos que requerem a
morte de um animal.
Contudo, mesmo a pessoa mais nobre e gentil entre a humanidade está, em cada respiração, envenenando
aqueles ao seu redor e, que por sua vez, está sendo envenenada por eles, uma vez que todos exalam o dióxido de
carbono e, por isso, somos uma ameaça uns aos outros. Não se trata de uma ideia improvável, porém, é um perigo
real que se tornará muito mais manifesto no decorrer do tempo, quando a humanidade se tornar mais sensível. Em
um submarino desativado ou sob condições similares, onde várias pessoas estão juntas, o dióxido de carbono por elas
exalado rapidamente torna a atmosfera incapaz de sustentar a vida. Há uma história de uma rebelião indiana, em que
vários prisioneiros ingleses foram amontoados numa sala onde havia apenas uma pequena abertura para entrada de
ar. Rapidamente o oxigênio se esgotou e os pobres prisioneiros começaram a lutar entre si como animais na tentativa
de conseguir um lugar próximo àquela entrada de ar, e lutaram até que quase todos fossem exterminados pela luta e
asfixia.
O mesmo princípio é demonstrado no antigo Templo de Mistérios Atlante, o Tabernáculo no Deserto, onde
encontramos um odor nauseante e uma fumaça sufocante subindo do Altar dos Sacrifícios, onde os corpos carregados
de veneno das vítimas involuntariamente sacrificadas para pagar os pecados foram consumidos, e onde a luz brilhava
fracamente através da fumaça envolvente. Isso nós podemos contrastar com a luz clara e brilhante emanada do
Candelabro de Sete Braços, alimentado com o puro azeite extraído a partir da planta casta e onde o incenso,
simbolizado pelo serviço voluntário de sacerdotes devotados, elevava-se ao céu como um suave aroma. Como já dito
em outras ocasiões, isso era agradável à Divindade, enquanto o sangue das vítimas relutantes, os bovinos e os
caprinos, eram uma fonte de dor e pesar para Deus, que se deleita mais com o sacrifício da oração, que auxilia o
devoto e a ninguém prejudica.
Tem sido explicitamente declarado sobre o fato de alguns dos santos exalarem um suave odor e, como muitas
vezes tivemos a oportunidade de dizer, essa não é uma mera história fantasiosa – é um fato oculto. A grande maioria

342
N.T.: Mt 10:16
da humanidade inala, durante toda a vida aqui, o oxigênio vitalizante contido na atmosfera circundante. A cada
expiração exalamos uma carga de dióxido de carbono que é um veneno mortal e que, certamente e com o tempo,
contaminaria todo o ar, se a planta pura e casta não inalasse esse veneno, usando parte dele para construir corpos
que, algumas vezes, permanecem por séculos ou até milênios, como exemplificado nas sequoias da Califórnia,
devolvendo-nos o restante em forma do oxigênio puro que necessitamos para a nossa vida aqui. Esses corpos
carboníferos das plantas, por processos contínuos da natureza, se tornaram mineralizados no passado e se
transformaram nas pedras, ao invés de se desintegrarem. Hoje nós os encontramos como carvão, a Pedra Filosofal
perecível elaborada por meios naturais no laboratório da natureza. Mas, a Pedra Filosofal também pode ser
construída artificialmente pelo ser humano a partir do seu próprio corpo. Isso deve ser compreendido
definitivamente: a Pedra Filosofal não é elaborada num laboratório químico externo, mas que o próprio corpo é o
laboratório do Espírito, que contém todos os elementos necessários para produzir esse Elixir da Vida, e que a Pedra
Filosofal não está fora do corpo, mas ele é o próprio alquimista que se torna a Pedra Filosofal. O sal, o enxofre e o
mercúrio, emblematicamente contidos nos três segmentos da coluna espinhal e que controlam os nervos simpático,
motor e sensorial são acionados pelo Fogo Espiritual Netuniano espinhal, e constituem os elementos essenciais no
processo alquímico.
Não há necessidade alguma de argumentos para demostrar que a indulgência com a sensualidade, a
brutalidade e a bestialidade tornam o corpo não refinado em gostos, maneiras e linguagem. Por outro lado, a devoção
à Deidade, uma atitude constante de prece, um sentimento de amor e compaixão por tudo que vive e se move,
pensamentos de amor enviados a todos os seres e aqueles, inevitavelmente, recebidos em troca, invariavelmente
todos têm o efeito de purificar e espiritualizar a nossa natureza. Referimo-nos a uma pessoa desse tipo como
respirando ou irradiando amor, uma expressão que descreve muito mais próximo o fato do que a maioria das pessoas
imaginam, pois, é uma questão real de se observar que a quantidade de veneno contida na respiração de um
indivíduo está na proporção exata do mal existente na sua natureza, na sua vida interior e nos pensamentos que
emite. A ioga hindu consiste em uma prática de encerrar o candidato a um certo grau de Iniciação em uma caverna
que tem o tamanho não muito maior do que o corpo dele. Lá deverá viver por várias semanas respirando,
repetidamente, o mesmo ar para demonstrar na prática que ele cessou de exalar o mortífero dióxido de carbono e
que, assim, está começando a construir seu corpo. Então, esse não é um corpo da mesma natureza da planta, embora
seja puro e casto, mas é um corpo celestial, como aquele de que São Paulo se refere na Segunda Epístola aos
Coríntios, capítulo 5, um corpo que se torna imortal como um diamante ou uma pedra de rubi. Não é duro e inflexível
como o mineral; é um diamante macio (ou rubi) e por cada ato executado na natureza, o Cristão Místico está
construindo esse corpo, embora provavelmente ele esteja inconsciente disso por um longo tempo. Quando ele atinge
esse grau de Santidade, não é necessário para ele executar o ritual do Lava-pés, como o é para o aluno que ainda não
construiu tal corpo e que o auxilia a se elevar, porém, terá sempre o sentimento de gratidão, simbolizado por aquele
ato, para com aqueles a quem teve o privilégio de atrair para si como Discípulos e a quem pode dar o pão vivo que
nutre até à imortalidade.
Os Estudantes perceberão que isso é parte do processo que culmina na Transfiguração, mas também devem
perceber que na Iniciação Cristã Mística não há graus fixados e definidos. O candidato vê o Cristo como o autor e
finalizador da sua fé, procurando imitá-Lo e seguir os Seus passos em todos os momentos de sua existência. Assim, os
vários estágios que estamos considerando são alcançados por processos de crescimento da alma que,
simultaneamente, o levam a aspectos mais elevados de todas essas etapas que agora estamos analisando. A esse
respeito, a Iniciação Cristã Mística difere radicalmente dos processos em voga dos Rosacruzes, em que a compreensão
por parte do candidato do que está para acontecer é considerada indispensável.
Mas chega o momento em que o Cristão Místico precisa percorrer o caminho que tem pela frente, e é isso que
constitui o Getsemani, que consideraremos no próximo capítulo.
Capítulo VI – Getsemani, o Horto da Aflição
“Depois de terem cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras. Jesus disse-lhes: ‘Todos vós vos
escandalizareis, porque está escrito: Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão. Mas, depois que Eu ressurgir, Eu vos
precederei na Galileia’. Pedro lhe disse: ‘Ainda que todos se escandalizem, eu não o farei!’. Disse-lhe Jesus: ‘Em
verdade te digo que hoje, esta noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes me negarás!’ Ele, porém, reafirmou
com mais veemência: ‘Mesmo que tivesse de morrer contigo, não Te negarei’. E todos diziam o mesmo.
E foram a um lugar cujo nome é Getsemani. E Ele disse a seus discípulos: ‘Sentai-vos aqui enquanto vou orar’.
E, levando consigo Pedro, Tiago e João, começou a apavorar-se e a angustiar-se. E disse-lhes: ‘A minha alma está triste
até a morte. Permanecei aqui e vigiai’. E, indo um pouco adiante, caiu por terra, e orava para que, se possível,
passasse d’Ele a hora. ‘Abba! Ó pai! Tudo é possível para Ti: afasta de mim este cálice; porém, não o que Eu quero,
mas o que Tu queres’. Ao voltar, encontra-os dormindo e diz a Pedro: ‘Simão, estás dormindo? Não foste capaz de
vigiar por uma hora? Vigiai e orai para que não entreis em tentação: pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca. ’”
(Mc 14:26-38).

Na narrativa do Evangelho, citado acima, temos uma das mais tristes e difíceis experiências do Cristão Místico,
delineada de forma espiritual. Durante toda a sua experiência anterior, ele vagueou cegamente, isto é, cego para o
fato de que ele está no caminho, que se consistentemente seguido, o conduzirá a um objetivo definido, embora
também se sinta intensamente prevenido ao menor suspiro de cada alma sofredora. Ele concentrou todos os seus
esforços em aliviar a dor física, moral ou mental de cada alma sofredora. Ele serviu a cada alma sofredora com toda a
sua capacidade e ensinou a cada uma o evangelho do amor: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”343; e ele foi
sempre um exemplo vivo para todos por meio da sua prática. Por isso, atraiu para si um pequeno grupo de amigos,
aos quais amou com a mais terna afeição. A eles também ensinou e serviu sem restrições, até mesmo no lava-pés.
Entretanto, durante esse período de serviço, ele ficou tão exaurido com as aflições e tristezas profundas do mundo,
que ele de fato se tornou um Homem das Aflições e Tristezas Profundas e familiarizado tanto com a aflição, mais do
que qualquer outra pessoa.
Essa é uma experiência muito definida do Cristão Místico, e é o fator mais importante para intensificar o seu
progresso espiritual. Enquanto nos sentirmos entediados quando as pessoas que vêm até nós e nos contam seus
problemas, enquanto fugirmos delas e procurarmos escapar de ouvir suas histórias de tristezas, arrependimentos e
angústias, estaremos bem longe do Caminho. Mesmo quando as ouvimos e nos disciplinamos para não demonstrar
que estamos entediados, mesmo quando verbalizamos algumas poucas palavras simpáticas que chegam ao ouvido do
sofredor, nada ganharemos em crescimento espiritual. É absolutamente essencial para o Cristão Místico que se torne
tão sintonizado com os sofrimentos, as aflições e as tristezas do mundo, que sinta cada ataque agudo de dor ou
ansiedade extrema como se fosse o seu próprio e o guarde dentro do seu Coração.
Quando Parsifal estava no templo do Santo Graal e viu o sofrimento de Amfortas, o rei do Graal ferido com
uma lança, ele permaneceu calado com pesar e compaixão por um longo tempo depois que a procissão saiu do salão,
e, consequentemente, não podia responder às perguntas de Gurnemanz, e foi esse profundo sentimento de empatia
que o levou a procurar a lança que deveria curar Amfortas. Foi a dor de Amfortas, sentida no Coração de Parsifal pela
compaixão, que o manteve firmemente equilibrado no caminho da virtude quando a tentação se tornou mais forte. Foi
tão profunda a dor de compaixão que o impeliu, por muitos anos, a buscar pelo sofredor Rei do Graal e, finalmente,
quando encontrou Amfortas, esse sentimento profundo e sincero o permitiu derramar o bálsamo curativo.
Assim como está demostrado no mito da alma de Parsifal, assim também ocorre na vida e na experiência do
Cristão Místico: ele deve beber abundantemente do cálice da angústia e da tristeza profundas, ele deve bebê-lo até a
última gota, de modo que pela dor cumulativa que ameaça explodir seu Coração, ele possa se derramar sem reservas
e sem restrições para curar e auxiliar o mundo. Então Getsemani, o Horto da Aflição, se torna um lugar familiar para
ele, regado com as lágrimas nascidas das angústias, das tristezas e dos sofrimentos da humanidade.
Porém, durante todos os seus anos de auto sacrifício, aquele pequeno grupo de amigos tinha sido seu consolo.
Ele já havia aprendido a renunciar aos laços de sangue. “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? Aqueles que
fazem a vontade de meu Pai”344. Embora nenhum verdadeiro Cristão negligencie suas obrigações sociais ou negue o
amor a seus familiares, os laços espirituais são, entretanto, os mais fortes, e por meio deles vem a coroa das aflições e,
através da deserção de seus amigos espirituais ele aprende a beber até a última gota do cálice das angústias e das
tristezas profundas. Ele não os culpa pela deserção deles, mas desculpa-os com as palavras: “O Espírito realmente está
pronto, mas a carne é fraca”345, pois sabe, por experiência própria, como isso é verdade. Mas ele descobre que na
suprema angústia e tristeza profundas eles não podem confortá-lo e, portanto, se volta para a única fonte de

343
N.T.: Lc 1:27
344
N.T.: Mt 12:48-50
345
N.T.: Mt 26:41
conforto, o Pai Celestial. Ele chegou ao ponto em que a resistência humana parece ter atingido o seu limite e ora para
ser poupado de uma provação maior, porém, com uma confiança cega no Pai, ele se curva à Sua vontade, oferecendo-
se inteiramente, sem reservas.
Esse é o momento da realização. Tendo bebido completamente do cálice da angústia e da tristeza profundas
até a última gota e sendo abandonado por todos, ele experimenta o temporário temor terrível de estar
absolutamente só, sendo essa uma das piores experiências, senão a mais terrível, que pode ocorrer na vida de um ser
humano. O mundo todo parece envolvido em trevas. Ele sabe que, apesar de todo o bem que fez ou tentou fazer, os
poderes das trevas estão tentando dizimá-lo. Ele sabe que a turba, que alguns dias antes o havia acenado com
“Hosana”, amanhã estará pronta para gritar “Crucifica-o! Crucifica-o!”. Seus familiares e, agora, seus poucos amigos
desapareceram e, também, estavam prontos a negá-lo.
Entretanto, quando nos encontramos no pináculo da aflição, é que estamos mais próximos do trono da graça.
A agonia, a aflição, a tristeza profunda e o sofrimento acolhidos no peito do Cristão Místico são mais valiosos e
preciosos do que todo o dinheiro do mundo, pois quando ele perde toda a companhia humana e se entrega sem
reservas ao Pai, uma transmutação ocorrerá: a aflição se transforma em compaixão, o único poder no mundo capaz de
fortalecer o ser humano que está prestes a subir até o Gólgota e dar sua vida pela humanidade, não como um
sacrifício mortal, mas como um sacrifício vivente, elevando-se na medida em que eleva os outros.
Capítulo VII – Os Estigmas e a Crucificação
Como dissemos no começo dessa série de artigos, a Iniciação Cristã Mística difere radicalmente da Iniciação
Ocultista empreendida por aqueles que se aproximam do Caminho pelo lado intelectual. No entanto, todos os
caminhos convergem para o Getsemani, em que o candidato à Iniciação é saturado com as tristezas e angústias
profundas que florescem em compaixão, um anseio ao amor materno que tem apenas um desejo absorvente, de
verter a si mesmo para o alívio das tristezas e angústias profundas do mundo, para salvar e amparar todos os que
estão fracos e sobrecarregados, para confortá-los e lhes fornecer um descanso. Nesse ponto, os olhos do Cristão
Místico são abertos para uma plena compreensão da aflição, do arrependimento e da agonia do mundo e de sua
missão como um Salvador, e o ocultista também encontra aqui o Coração de amor, o único que pode fornecer o
regozijo, o entusiasmo e zelo na busca. Pela união da Mente e do Coração, ambos estão prontos para a próxima etapa,
que envolve o desenvolvimento dos estigmas, uma preparação necessária para a morte e ressurreição místicas. A
narrativa do Evangelho relata a história dos estigmas nas seguintes palavras, desenrolando-se a cena de abertura no
Horto do Getsemani:
“Tendo, pois, Judas recebido a escolta e, dos principais sacerdotes e dos fariseus, alguns guardas, chegou a
este lugar com lanternas, tochas e armas. Sabendo, pois, Jesus todas as coisas que sobre ele haviam de vir, adiantou-
se e perguntou-lhes: A quem buscais? Responderam-lhe: A Jesus, o Nazareno. Então, Jesus lhes disse: Sou eu... Então
o capitão e os oficiais dos judeus pegaram Jesus, amarraram-no e levaram-no primeiro a Anás. . . O sumo sacerdote
então perguntou a Jesus sobre Seus discípulos e sobre Sua doutrina. Jesus respondeu-lhe: eu falei abertamente ao
mundo. . . Por que me interrogas? Interroga aos que me ouviram o que eu lhes disse; eis que eles sabem o que eu
ensinei. . . Ora, Anás enviou-o manietado ao sumo sacerdote Caifás. . . Em seguida, eles conduziram Jesus, de Caifás
para a sala do julgamento. . . Pilatos saiu então a ter com eles e perguntou: Que acusação trazeis contra este homem?
Responderam-lhe eles: Se ele não fosse malfeitor, não o entregaríamos. . . Pilatos tornou a entrar no pretório, chamou
a Jesus e disse-lhe: Tu és o rei dos judeus? Jesus respondeu-lhe: Tu dizes isso de ti mesmo ou outros te falaram de
mim? . . . O meu reino não é deste mundo: se o meu reino fosse deste mundo, então os meus servos lutariam para
que eu não fosse entregue aos judeus; mas o Meu reino não é daqui.
Pilatos disse-lhe, então: Tu és rei, então? Jesus respondeu: Tu dizes que eu sou rei.
Para isso nasci e para isso vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade
ouve a minha voz. Pilatos disse-lhe: O que é a verdade?... Então ele voltou aos judeus e disse-lhes: Não acho nele
crime algum. É costume entre vós que eu vos solte alguém por ocasião da Páscoa; quereis, pois, que vos solte o rei dos
judeus? Então, gritaram todos, novamente: Não este, mas Barrabás! Ora, Barrabás era salteador. Então, por isso,
Pilatos tomou a Jesus e mandou açoitá-lo. Os soldados, tendo tecido uma coroa de espinhos, lhe puseram na cabeça e
vestiram-no com um manto de púrpura. Chegavam-se a ele e diziam: Salve, rei dos judeus! E davam-lhe bofetadas.
Outra vez saiu Pilatos e lhes disse: Eis que eu vo-lo apresento, para que saibais que eu não acho nele crime algum.
Saiu, pois, Jesus trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Disse-lhes Pilatos: Eis o homem! Ao verem-no, os
principais sacerdotes e os seus guardas gritaram: Crucifica-o! Crucifica-o! Disse-lhes Pilatos: Tomai-o vós outros e
crucificai-o; porque eu não acho nele crime algum.
Responderam-lhe os judeus: Temos uma lei, e, de conformidade com a lei, ele deve morrer, porque a si
mesmo se fez Filho de Deus... Pilatos procurava soltá-lo, mas os judeus clamavam: Se soltas a este, não és amigo de
César! Todo aquele que se faz rei é contra César! . . . Eles, porém, clamavam: Fora! Fora! Crucifica-o! Disse-lhes
Pilatos: Hei de crucificar o vosso rei? Responderam os principais sacerdotes: Não temos rei, senão César! Então, ele o
entregou a eles para ser crucificado. E eles pegaram Jesus e o levaram embora. Tomaram eles, pois, a Jesus; e ele
próprio, carregando a sua cruz, saiu para o lugar chamado Calvário, Gólgota em hebraico, onde o crucificaram e com
ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio. E Pilatos escreveu um título e o colocou na cruz. E a escrita era:
Jesus de Nazaré, o Rei dos Judeus.”
Temos aqui o relato de como os estigmas ou as punções foram produzidas no Herói dos Evangelhos, embora
as suas localizações não estejam descritas corretamente, e o processo é representado em uma forma narrativa,
diferindo amplamente da maneira como essas coisas realmente acontecem. Mas, nós estamos diante de um dos
Mistérios que devem permanecer selados para o profano, embora os fatos místicos subsequentes sejam tão claros
como o é a luz do dia para aqueles que os conhecem. O corpo físico não é de forma alguma o ser humano real.
Tangível, sólido e pulsante de vida como o vemos é, na verdade, a parte mais morta do ser humano, cristalizado
dentro de uma matriz de veículos mais sutis que são invisíveis à nossa visão física atual. Se colocarmos uma bacia de
água numa temperatura suficientemente baixa, a água logo se converte em gelo, e quando examinamos esse gelo,
descobrimos que ele é feito de inúmeros pequenos cristais com variadas formas geométricas e linhas de demarcação.
Existem linhas etéricas de forças que estavam presentes na água antes de congelar. Assim como a água congelou e
modelou ao longo dessas linhas, nossos corpos físicos se congelaram e se solidificaram ao longo das linhas etéricas de
força do nosso Corpo Vital invisível, que está, portanto, no curso normal da vida inextricavelmente ligado ao Corpo
Denso, ele esteja desperto ou adormecido, até que a morte traga a dissolução dessa ligação. Mas como a Iniciação
implica na libertação do ser humano verdadeiro do corpo do pecado e da morte para que ele possa deslizar para as
esferas mais sutis à vontade e retornar ao corpo quando desejar, é óbvio que antes que isso possa ser alcançado,
antes que o objetivo da Iniciação se realize, o vigoroso entrelaçamento entre o corpo físico e o veículo etérico, que é
acentuadamente mais forte e rígido na humanidade comum, deve ser desfeito. Como essa união é mais forte nas
palmas das mãos, nos arcos dos pés e na cabeça, as escolas ocultas concentram seus esforços para romper a conexão
em tais pontos e produzir os estigmas invisivelmente.
O Cristão Místico necessita do conhecimento de como realizar o ato sem produzir uma manifestação exterior.
Os estigmas se desenvolvem nele espontaneamente pela constante contemplação de Cristo e por seus esforços
incessantes em imitá-Lo em todas os momentos. Esses estigmas exteriores não compreendem somente as chagas nas
mãos, nos pés e aquela no lado do corpo, mas também as marcadas na cabeça pela coroa de espinhos e pela
flagelação. O exemplo mais notável de estigmatização é aquele que ocorreu, em 1224, a São Francisco de Assis 346 na
montanha de Alverno. Absorto na contemplação da Paixão, viu um Serafim se aproximar, resplandecente em fogo e
tendo entre as asas a figura do Crucificado. São Francisco percebeu que nas mãos, nos pés e no lado ele recebeu
externamente as marcas da crucificação. Essas marcas permaneceram durante os dois anos até a sua morte, e muitas
testemunhas oculares dizem que as viram, incluindo o Papa Alexandre IV.
Os Dominicanos polemizaram o acontecimento, no entanto; fizeram a mesma reclamação de credibilidade em
relação a Santa Catarina de Siena347, cujos estigmas foram explicados, por ela mesma, como tendo se tornado
invisíveis para os outros. Os Franciscanos apelaram a Sisto IV para que proibisse a apresentação em público dos
estigmas de Santa Catarina de Siena. Ainda mais, o acontecimento dos estigmas consta no Gabinete do Breviário, e
Benedito XIII concedeu aos Dominicanos uma Festa em homenagem à Santa Catarina de Siena para comemorar esse
fato. Outras pessoas, especialmente mulheres, que têm Corpo Vital positivo, afirmam ter recebido alguns ou todos os
estigmas. A última a ser canonizada pela Igreja Católica, por essa razão, foi Santa Veronica Giuliani 348 (1831). Há casos
mais recentes como os de Anna Catherine Emmerich 349, que se tornou uma freira em Agnetenberg; A “Extática” Maria

346
N.T.: São Francisco de Assis (Assis, 1181 ou 1182-1226), foi um frade católico nascido na atual Itália. Depois de uma juventude
irrequieta e mundana, voltou-se para uma vida religiosa de completa pobreza, fundando a ordem mendicante dos Frades
Menores, mais conhecidos como Franciscanos, que renovaram o Catolicismo de seu tempo. Durante uma dessas meditações, em
14 de setembro de 1224, no dia da Festa da Exaltação da Santa Cruz, no Monte Alverne, acompanhado do Frei Leo, Francisco viu a
figura de um homem com seis asas, semelhante a um serafim, e pregado a uma cruz, e à medida que continuava na
contemplação, que lhe dava imensa felicidade, mas era sombreada de tristeza, sentiu se abrirem em seu corpo as feridas que o
tornaram uma imitação do próprio Cristo crucificado. Foi, dessa forma, o primeiro Cristão a ser estigmatizado, mas enquanto isso
lhe trazia alegria, sendo um sinal do favor divino, foi-lhe motivo de muito embaraço e sofrimento físico. Sempre tentou ocultar os
estigmas com faixas e seu hábito, e poucos irmãos os viram enquanto ele viveu. Mas eles lhe causavam muita dor e com isso
dificultavam seus movimentos, além de sangrarem com frequência. Muitas vezes teve de ser carregado por não poder andar, ou
teve de viajar sobre uma mula, o que não era permitido aos irmãos por ser um luxo.
347
N.T.: nascida Caterina Benincasa (1347-1380), foi uma terceira da Ordem dos Pregadores (dominicanos), filósofa escolástica e
teóloga do século XIV. Nascida em Siena, ela cresceu lá e queria muito cedo se consagrar a Deus, contra a vontade de seus pais.
Ela se juntou às irmãs da Penitência de São Domingos e fez seus votos lá. Muito rapidamente marcada por fenômenos místicos,
como estigma e casamento místico, ela se deu a conhecer. (...) foi em Pisa, em 1375, que ela recebeu seus estigmas (visíveis,
depois de um pedido dela, somente para ela).
348
N.T.: Santa Verônica Giuliani (também “Veronica de Julianis”; 1660-1727), foi uma freira e mística italiana Clarissa Capuchinha.
Verônica tinha uma devoção ao longo da vida a Cristo crucificado que eventualmente se manifestou em sinais físicos. As marcas
da coroa de espinhos apareceram em sua testa em 1694 e as cinco feridas em seu corpo em 1697.
349
N.T.: Anna Catarina Emmerich (1774–1824) foi uma freira alemã, agostiniana, mística, visionária e arrebatada. Emmerich é
notável por suas visões sobre a vida e a paixão de Jesus Cristo, cuja reputação é revelada a ela pela Bem-aventurada Virgem Maria
sob êxtase religioso. Durante toda a vida, Anna Emmerich ajudava os pobres e enfermos com tudo o que possuía, dividindo o
pouco que conseguia em sua pobreza, e por vezes não lhe restava nada nem para o próprio sustento, tendo que ser ajudada pela
mãe e amigos; porém, mesmo assim, não deixava de dividir tudo que ganhava com os que mais necessitavam. E quando não os
encontrava, rezava para que Deus os revelasse. Também tinha visões com almas presas no Purgatório, e por muitas vezes rezou
por essas almas e era acordada por elas no meio da noite, pedindo-lhe que rezasse por elas. Aos 24 anos, em 1798, Anne teve
uma visão na Igreja dos Jesuítas, em Coesfeld, na qual ela vislumbrava Jesus Cristo com uma coroa de espinhos e outra de rosas
em cada mão, pedindo a ela que escolhesse, decidindo-se Anne pela de espinhos e enterrando-a na própria cabeça. Desde então,
passou a receber estigmas, que ocultava de todos usando lenços envoltos na testa.
Von Mörl de Kaltern350; Anne-Louise Lateau351, cujos estigmas sangravam todas as sextas-feiras; e a Sra. Girling da
comunidade Newport Shaker352.
No entanto, sejam os estigmas visíveis ou invisíveis, o efeito é o mesmo. As correntes espirituais geradas no
Corpo Vital da pessoa são tão poderosas que é como se o corpo fosse flagelado por elas, especialmente, na região da
cabeça, em que elas produzem uma sensação essencialmente similar à da coroa de espinhos. Com isso, finalmente
desperta na pessoa uma plena compreensão de que o corpo físico é uma cruz que ela suporta, uma prisão e não o ser
humano real. Isso o conduz ao próximo passo da sua Iniciação, a saber, a crucificação, que é experimentada pelo
desenvolvimento de outros centros em suas mãos e em seus pés, pontos em que o Corpo Vital é, então, separado do
Corpo Denso.
Consta, na narração retirada do Evangelho, que Pilatos colocou um letreiro na cruz de Cristo com as palavras:
“Jesus Nazarenus Rex Judaeorum” e isso é traduzido, na versão mais utilizada da Bíblia, como “Jesus de Nazaré, o Rei
dos Judeus”. Mas as iniciais INRI colocadas na cruz representam os nomes dos quatro elementos em hebraico: Iam,
água; Nour, fogo; Ruach, espírito ou ar vital; e Iabeshah, terra. Essa é a chave oculta do mistério da crucificação, pois
simboliza, em primeiro lugar, o sal, enxofre, mercúrio e azoth que foram usados pelos antigos alquimistas para fazer a
Pedra Filosofal, o solvente universal, o elixir-vitae. Os dois “Is” (Iam e Iabeshah) representam a água lunar salina:
a. em um estado fluídico contendo sal em solução e
b. o extrato coagulado dessa água, o “sal da terra”;
em outras palavras, os veículos fluídicos mais sutis do ser humano e seu Corpo Denso, respectivamente. N (Nour)
representa, em hebraico, o fogo e os elementos combustíveis, entre os principais o enxofre e o fósforo tão
necessários à oxidação, sem os quais o sangue quente seria uma impossibilidade. O Ego sob essa condição não
poderia funcionar no corpo, nem o pensamento poderia encontrar uma expressão material. R (Ruach) é o equivalente
a espírito em hebraico, isto é, o Azoth, funcionando na Mente mercurial. Assim, as quatro letras - INRI - colocadas
sobre a cruz de Cristo, de acordo com o relato na história do Evangelho, representam o ser humano composto, o
Pensador, no ponto de seu desenvolvimento espiritual em que se prepara para a libertação da cruz de seu veículo
denso.
Prosseguindo na mesma linha de elucidação, podemos notar que INRI é o símbolo do candidato crucificado
pelas seguintes razões adicionais:
Iam é a palavra hebraica que significa água, o fluídico ou elemento lunar, que constitui a parte principal do
corpo humano (cerca de 57 por cento). Essa palavra também é o símbolo dos veículos fluídicos mais sutis do desejo e
da emoção.
Nour, a palavra hebraica que significa fogo, é uma representação simbólica do sangue vermelho quente,
carregado do ferro marcial, do fogo e da energia de Marte, que é visto pelo ocultista circulando como um gás nas
350
N.T.: nome completo Maria Theresia von Mörl zu Pfalzen and Sichelburg (1812-1868) era uma nobre tirolesa, mística e
estigmatizada, é referida na literatura como uma “senhora extática”. Depois dos 19 anos, ela experimentou estados cada vez mais
de êxtase. Depois de receber a Sagrada Comunhão, ela permaneceu em êxtase silencioso por horas, ajoelhada na cama ou
flutuando, como mostram muitas fotos. Por outro lado, ela sofreu ataques físicos e mentais agonizantes, que não podiam ser
explicados de forma natural. Em 1834, ela teve as marcas de Cristo em suas mãos e pés. Ela parecia ver a Paixão de Cristo todas as
sextas-feiras. Seus amigos a descrevem como amorosa e, também, descrevem a convivência infantil e feliz com ela.
351
N.T.: Foi uma mística belga (1850-1883). O caso de Louise Lateau é um dos mais bem documentados sobre os estigmas. Ela teve
sofrimentos imensos quando perdeu seu pai, que era ferreiro e foi tomado pela varíola a 18 de abril de 1950. Ela viu e ajudou
muitos irmãos vítimas da cólera. Muitos morreram na epidemia que tomou conta da região em 1866. Louise trabalhava muito e
costurava as vestimentas destinadas aos pobres. Ela entrou na Ordem Terceira de São Francisco em 1867. Sua vida foi modificada
em 1868, quando Louise tinha 18 anos, e pela primeira vez o sangue escorreu de suas mãos, do seu lado e de seus pés. Médicos,
especialistas em teologia, padres, personalidades civis se apresentaram em sua casa para constatar esses fatos extraordinários. Na
noite da primeira-sexta feira de 1868, em 3 de janeiro, Louise fez uma oração quando um raio de luz penetrou em sua alma. E a
transportou para fora dela mesma, e a fez sentir uma grande alegria, seguida de grandes sofrimentos. Essas manifestações agudas
partiam seu coração com sulcos de dor, que arrebentavam nos pés e nas costas. Essas manifestações misteriosas se renovavam
nas sextas-feiras seguintes, a partir da sexta-feira de 24 de abril. A imitação das chagas de Jesus, o sangue fluía do seu lado
esquerdo, dos pés e mãos. Também apareciam os ferimentos da coroa de espinhos e mais tarde uma chaga no ombro direito. No
lugar dos estigmas permanecia uma marca rosada, seca, inteiramente fechada, um pouco mais lisa que a pele. A quantidade de
sangue que perdia era no mínimo de 250 g. A partir de 17 de julho de 1868, o surgimento dos estigmas era acompanhado pelos
êxtases, a duração do êxtase era variada. Mas, se manifestava antes do meio-dia da sexta-feira. Louise falou desses êxtases aos
padres que a interrogaram. Ela era tomada por uma luz espiritual que revelava algo da grandeza de Deus. “Eu sou envolvida por
um grande sentimento da presença de Deus, e não sei onde me encontro. Eu O vejo tão grande e me sinto tão pequena que não
sei onde me esconder.”
352
N.T.: Mary Ann Girling (1827-1886) foi uma líder religiosa americana, fundadora da seita chamada “O Povo de Deus”, também
conhecida como New Forest Shakers. Mrs. Girling teve uma visão de Jesus Cristo no dia de Natal de 1858. Um sinal disso foram os
estigmas que apareceram em suas mãos, pés e lado. Ela costumava descrever com detalhes minuciosos a emoção extraordinária
que a dominou no momento em que experimentou o chamado divino. A partir desse período, ela proclamou a nova revelação e
falou com conhecimento absoluto dos mistérios ocultos.
veias e artérias do corpo humano, infundindo-lhe a energia e o desejo para agir, para se esforçar, sem os quais não
poderia haver progresso, nem material nem espiritual. Também representa o enxofre e o fósforo necessários para a
manifestação material do pensamento, conforme já mencionado.
Ruach, a palavra hebraica para indicar espírito ou ar vital é um excelente símbolo do Ego revestido pela Mente
mercurial, que torna o ser humano em um indivíduo e o capacita a controlar e dirigir seus veículos corporais e suas
atividades de uma maneira racional.
Iabeshah é a palavra hebraica para terra, representando a parte carnal sólida que constitui o corpo terrestre
cruciforme, cristalizado dentro dos veículos mais sutis no nascimento e separado deles ao morrer, no curso normal das
coisas, ou em um acontecimento extraordinário, pelo qual aprendemos a morrer misticamente e ascender às gloriosas
esferas superiores, durante um curto período.
Esse estágio do desenvolvimento espiritual do Cristão Místico envolve, portanto, uma reversão da força
criadora de seu curso normal para baixo, onde é desperdiçada na geração para satisfazer as paixões, para um curso
ascendente através da medula espinhal tripartida, cujos três segmentos são regidos pela Lua, por Marte e Mercúrio,
respectivamente, e onde o raio de Netuno acende o fogo espiritual espinhal regenerativo. Essa ascensão provoca o
início da vibração do Corpo Pituitário 353 e da Glândula Pineal354, abrindo a visão espiritual; e atingindo o seio frontal 355,
ele inicia a coroa de espinhos latejando de dor, enquanto o vínculo com o corpo físico é queimado pelo Fogo Espiritual
sagrado, que desperta esse centro de seu sono de letargia, para uma vida ritmicamente vibrante e pulsante que se
estende para os outros centros na estrela estigmatizada de cinco pontas. Esses centros também são vitalizados, e todo
o veículo se torna brilhante com uma glória dourada. Então, com um movimento final de torção, o grande vórtice do
Corpo de Desejos, localizado no fígado, é liberado e a energia marciana contida nesse veículo impulsiona para cima o
veículo sideral (assim chamado, porque os estigmas na cabeça, nas mãos e nos pés estão localizados nas mesmas
posições relativas entre si que as pontas de uma estrela de cinco pontas), que ascende através do crânio (Gólgota),
enquanto o Cristão crucificado emite seu grito triunfante, “Consummatum est” (está consumado), e desliza para as
esferas mais sutis ao encontro de Jesus, cuja vida ele imitou com pleno êxito e de quem, desde então, ele é
inseparável. Ele é seu Mestre e seu guia para o Reino de Cristo, onde todos estaremos unidos em um só corpo para
aprender e praticar a Religião do Pai, para quem o Reino acabará revertendo, para que Ele possa ser Tudo em Todos.

353
N.T.: ou hipófise, também conhecida como Glândula Pituitária ou conarium, é uma glândula endócrina de cerca de 1 cm de
diâmetro e 1 g de peso, localizada na base do cérebro, em uma área chamada sela túrcica, ou mais tecnicamente, localizada
abaixo do hipotálamo e posteriormente ao quiasma óptico, estando ligada ao hipotálamo pela haste pedúnculo hipofisário ou
infundíbulo, é envolvida pela dura-máter (exceto o infundíbulo).
354
N.T.: ou epífise neural, é uma glândula endócrina, que tem uma forma de pinha, medindo em média 25 mm por 12 mm e pesa
cerca de 500 mg, localizada no topo da medula espinhal, terminando dentro do cérebro, logo acima do cerebelo, ou mais
tecnicamente, localizada logo superiormente ao colículo superior e atrás da stria medullaris, entre os corpos talâmicos
posicionados lateralmente.
355
N.T.: situa-se na região do osso frontal (testa). É um dos espaços pareados, mas raramente simétricos, preenchidos de ar,
localizados entre as camadas compactas interna e externa do osso frontal.
Figura 8
Parte XI - Maçonaria e Catolicismo

Por
Max Heindel

Capítulo I - Lúcifer, o Anjo Rebelde


A Fraternidade Rosacruz pretende educar, construir a ser caridosa até mesmo com quem possa divergir,
jamais pretendendo censurar, ou ter sentimentos de rancor com aqueles que, deliberadamente, parecem dispostos a
enganar. Nós reverenciamos a religião Católica, pois ela é tão divina em sua essência quanto o é a Maçonaria Mística.
Ambas têm suas raízes na remotíssima antiguidade. Ambas nasceram para favorecer a aspiração da alma que se
esforça a ambas têm uma mensagem a uma missão no mundo que não estão aparentes nos dias de hoje, porque o
cerimonial feito pelos homens escondeu, como uma escama, a semente divina de cada uma delas. O objetivo deste
livro é remover essa escama e mostrar a finalidade Cósmica dessas duas Grandes Organizações, tão acirradamente
antagônicas. Não pretendemos reconciliá-las, pois, embora destinadas a promover a emancipação da alma, seus
métodos são diferentes a os atributos da alma alimentados por um método, são muito diferentes dos alimentados
pela outra Escola. Portanto, a luta deve prosseguir até que a batalha pelas almas dos homens esteja perdida ou ganha.
A questão, no entanto, não é a persistência com que agem as instituições Católica ou Maçônica, mas o resultado disto
é que determinará a natureza da instrução que a humanidade receberá nos restantes Períodos da nossa evolução.
Esforçar-nos-emos para demonstrar a origem cósmica das duas instituições, o propósito de cada uma e, se bem
sucedidas, o treinamento que cada uma iniciará, e também a natureza da qualidade da alma que se poderá obter
como resultado de cada método. O autor não é um maçom, portanto sente-se livre para dizer o que sabe, sem medo
de violar compromissos, mas é Maçom de coração, por isso é francamente contrário ao Catolicismo.
Nossa oposição, contudo, não é fanática ou cega aos méritos da Religião Católica. O Católico é nosso irmão
como o é um Maçom; nada diremos de menosprezo ou irreverência à sua fé ou àqueles que vivem por ela, de modo
que, se em alguma passagem deste livro assim parecer, isso será resultado de mero descuido. O leitor deve notar que
distinguimos rigorosamente o que seja Hierarquia Católica e Religião Católica, mas a anterior é também constituída de
irmãos nossos; não vamos atirar pedra alguma de ordem moral ou física, pois conhecemos muito bem nossas próprias
fraquezas a não pretendemos atacar quem quer que seja. Assim, nossa oposição não é pessoal, mas espiritual, e é
para ser efetuada com a arma do Espírito-Razão. Acreditamos firmemente nisso a para o eterno bem da humanidade
é que os Maçons deverão vencer. Não estamos certos de apresentar o lado Católico de uma maneira imparcial, mas
pedimos aos nossos estudantes, para quem isto está sendo escrito, que acreditem que tentaremos ser justos. Temos
certeza dos Fatos Cósmicos, mas é possível detectar-se algum erro em nossas conclusões, por isso, cada um deve usar
seu próprio raciocínio a fim de comprovar o que iremos dizer, sendo assim, "comprove todos os fatos a retenha para si
o que julgar bom".
A grande lei da analogia é em todos os lugares a chave-mestra dos mistérios espirituais e, embora a Maçonaria
e o Catolicismo não tenham tido seu começo até chegarmos ao Período Terrestre, tiveram seus protótipos em
Períodos anteriores; portanto, faremos um breve relato dos fatos essenciais.
No Período de Saturno, a Terra em formação era escura; Calor, que é a primeira manifestação do sempre
invisível fogo, era o único elemento então manifestado; a humanidade embrionária era como mineral, o único reino
inferior da vida evoluinte. Unidade era observada por toda a parte a os Senhores da Mente, que eram humanos,
formavam uma unidade entre si.
Nos Ensinamentos da Sabedoria Ocidental falamos do. mais alto Iniciado do Período de Saturno, como O Pai.
No Período Solar, o princípio de um novo elemento, Ar, foi desenvolvido a unido ao verdadeiro fogo, o qual,
note novamente, é sempre invisível a manifestou-se como calor no Período de Saturno. Então, o fogo explodiu em
chamas, e o mundo escuro tornou-se uma resplandecente bola de névoa ígnea luminosa em virtude da palavra de
poder: "Que se faça luz ".
Convém que o estudante pondere bem a relação entre fogo a chama; o primeiro está adormecido, invisível
em todas as coisas e, por várias maneiras, é convertido em luz: pelo golpe de um martelo na pedra, pela fricção da
madeira contra a madeira, por combinação química, etc. Isto nos dá um indício da identidade a estado do O PAI, "a
quem nenhum homem jamais viu" mas que é revelado na "A Luz do Mundo", o Filho, que é o mais alto Iniciado do
Período Solar. Como o fogo invisível é revelado na chama, assim também a plenitude do Pai habita no Filho a Eles são
Um, como o fogo é Um com a chama na qual se manifesta. Esta é a origem de toda verdadeira adoração ao Sol ou ao
Fogo. Todos veem além do símbolo físico a adoram "Nosso Pai que está no céu". Os Maçons Místicos de hoje
conservam essa fé no fogo tão firmemente como sempre.
Por conseguinte, vemos que a Unidade que prevaleceu no Período de Saturno prosseguiu no Período Solar. A
humanidade comum daquele tempo havia já evoluído até a glória dos Arcanjos; alguns eram mais avançados que
outros, mas não havia antagonismo entre eles. A humanidade atual tinha avançado para um estágio análogo ao do
vegetal a encontrava-se um pouco acima da nova Onda de Vida começada no Período Solar, e a unidade também aqui
prevalecia.
No Período Lunar, o contato da esfera aquecida com o Espaço frio gerou umidade e a batalha dos elementos
começou com todo seu ímpeto. A ardente bola de fogo procurava evaporar a umidade, forçá-la para fora e criar um
vácuo no qual pudesse manter sua integridade e arder tranquilamente. Mas não há e nem pode haver vazio na
natureza, assim, a corrente expelida condensou-se a certa distância da bola ardente, e foi de novo impelida para
dentro pelo frio do Espaço, para ser novamente evaporada e expelida para fora, em um incessante giro que se
manteve por eras e eras, como um jogo de peteca entre diversas Hierarquias de Espíritos que compunham os vários
Reinos de Vida, representados na Esfera-Fogo e no Espaço Cósmico, que são uma expressão do Homogêneo Espírito
Absoluto. Os Espíritos de Fogo estão trabalhando ativamente para obter um aumento de consciência. Mas o Absoluto
repousa sempre revestido pelo invisível traje do Espaço Cósmico. N'Ele todos os poderes e possibilidades estão
latentes, e Ele procura desencorajar e reprimir qualquer tentativa de gastar a força latente que, como energia
dinâmica, é necessária na evolução de um sistema solar. Água é o agente que Ele usou para apagar o fogo dos
espíritos ativos. A zona entre o centro ardente do separado Espírito Esfera e o Ponto onde sua atmosfera individual
encontra o Espaço Cósmico, é o campo de batalha dos espíritos evoluintes, nas diversas etapas de evolução.
Os Anjos atuais eram humanos no Período Lunar, e o mais alto Iniciado é o Espírito Santo (Jeová).
Da mesma forma que a nossa humanidade e os outros Reinos de Vida na Terra são diversamente afetados
pelos elementos presentes, porque alguns gostam de calor, outros preferem o frio, alguns desenvolvem-se na
umidade e outros necessitam de aridez, assim também entre os Anjos do Período Lunar, uns tinham afinidade com a
água, outros a detestavam e amavam o fogo.
Os contínuos ciclos de condensação e evaporação da umidade que circundava o centro ígneo causaram,
consequentemente, a incrustação, e o propósito de Jeová foi moldar esta "terra vermelha", traduzido Adam, em
formas que pudessem encarcerar e extinguir os espíritos no fogo. Para este fim, Ele pronunciou o fiat criador, e os
protótipos do peixe, da ave e de todo o ser vivente apareceram, incluindo mesmo a primitiva forma humana, e estas
formas foram todas criadas por Seus Anjos. Assim, Ele desejou fazer, subservientes à Sua vontade, tudo o que vive e
se movimenta. Contra este plano, uma minoria de Anjos rebelou-se. Eles tinham grande afinidade com o fogo para
suportar o contato com a água, e recusaram-se a criar as formas como lhes foi ordenado. Por isso, privaram-se de uma
oportunidade de evoluir através das linhas convencionais, e tornaram-se também uma anomalia na natureza. Além
disso, tendo repudiado a autoridade de Jeová, tiveram que conseguir sua própria salvação, à sua maneira. Como isto
foi conseguido por Lúcifer, seu Grande Líder, será esclarecido nos capítulos seguintes. Por enquanto, é suficiente dizer
que no Período Terrestre, quando vários planetas foram diferenciados para proporcionar ambiente adequado à
evolução para cada classe de espíritos, os Anjos, sob Jeová, foram enviados para trabalhar com os habitantes de todos
os planetas que possuem Luas, enquanto os espíritos de Lúcifer fizeram sua morada sobre o planeta Marte. O Anjo
Gabriel é o representante na Terra da Hierarquia Lunar, presidida por Jeová; o Anjo Samael é o embaixador das forças
Marcianas de Lúcifer. Gabriel (que anunciou a Maria o próximo nascimento de Jesus) e seus anjos lunares são,
portanto, os dadores da vida física, enquanto Samael e as hostes de Marte são os Anjos da Morte.
Deste modo, originou-se a discórdia na obscura aurora deste Dia Cósmico, e o que vemos hoje como Franco-
Maçonaria é uma tentativa das Hierarquias de Fogo, os espíritos de Lúcifer, para trazerem a nós o encarcerado
espírito "Luz", a fim de que, através dele, possamos ver e conhecer. O Catolicismo é uma atividade das Hierarquias de
água, por isso coloca na porta de seu Templo a "Água Benta", para extinguir os espíritos que procuram a luz e o
conhecimento, e para incutir fé em Jeová.
O equinócio da primavera se dá no primeiro ponto de Áries, não importa em que constelações o Sol se
encontre por precessão. Assim também o ponto onde o átomo-semente humano vem do mundo invisível e é
conduzido pelo Deus Lunar da Geração, Jeová, por intermédio de Seu embaixador, o Anjo Gabriel, é esotericamente o
primeiro ponto de Câncer. Este é o signo Cardeal da Triplicidade aquosa, e é regido pela Lua. Aí, a Concepção
acontece; mas, se a forma fosse construída de água e somente de suas concreções, ela nunca poderia chegar a nascer.
Portanto, quatro meses depois, quando o feto alcança o estágio de desenvolvimento correspondente ao segundo
signo da triplicidade aquosa, Scorpius, o oitavo signo, que corresponde à casa da morte, Samael, o intrépido
embaixador dos Espíritos de Lúcifer, invade o domínio aquoso da Hierarquia Lunar e introduz a centelha ígnea do
espírito na forma inerte para fermentá-la, vivificá-la e moldá-la em uma expressão de si mesma.
Lá, o Cordão Prateado que cresceu do átomo-semente do corpo denso (localizado no coração) desde a
concepção, é unido à parte brotada do vórtice central do corpo de desejos (localizado no fígado), e quando o Cordão
Prateado é ligado pelo átomo-semente do corpo vital (localizado no plexo solar), o espírito morre para a vida no
mundo suprassensível e vivifica o corpo que vai usar na próxima vida terrena. Esta vida terrena dura até que o curso
dos acontecimentos simbolizados na roda da vida, o horóscopo, tenha decorrido; e, quando o espírito alcança
novamente o reino de Samael, o Anjo da Morte, a mística 8a Casa, o cordão prateado é desatado e o espírito, que foi
dado por Deus, retorna a Ele, até que a aurora de um outro dia de Vida na Escola da Terra lhe indique um novo
nascimento, aonde possa ganhar mais proficiência nas artes e ofícios da construção do templo.
Cerca de cinco meses após o ato vivificante, quando o último dos signos aquosos, Pisces, já passou, o
representante dos espíritos de Lúcifer, Samael, focaliza as forças do signo ígneo, Áries, no qual Marte é polarizado
positivamente. de maneira que, sob o impulso de sua energia dinâmica, as águas do útero são expelidas e o espírito
cativo é libertado para o mundo físico, para lutar a batalha da vida. Ele pode bater cegamente sua cabeça contra as
forças Cósmicas representadas pelo primeiro dos signos de fogo, Áries, o Carneiro, que é um símbolo da força bruta
com que as raças mais primitivas suportavam problemas da vida; ou pode adotar o método mais moderno da astúcia,
como um meio de alcançar o domínio sobre outros, cuja característica é indicada no segundo dos signos de fogo, Leo,
o Leão, o rei dos animais; ou pode erguer-se acima da natureza animal e apontar para as estrelas com o arco da
aspiração espiritual, representado pelo último dos signos de fogo, Sagittarius, o Centauro. O Centauro está
precisamente na frente do signo aquoso Scorpius, uma advertência de que aquele que tentar alcançar aquele último
estágio e afirmar seu direito divino de escolha e prerrogativa como "Phree Messen", um filho do Fogo e da Luz, sentirá
por certo a ferroada do Escorpião no seu calcanhar, o que o incentivará a ir em frente, pelo caminho onde o homem
se torna "sábio como serpentes". Desta classe é que a Maçonaria Mística arregimenta homens que têm a indômita
coragem de ousar, a inquebrantável energia de fazer, e o diplomático discernimento de saber calar.
Capítulo II - A Lenda Maçônica
Um verdadeiro movimento místico tem sua lenda, que narra em linguagem simbólica sua condição na ordem
cósmica e o ideal que procura realizar. Do Velho Testamento, que contém ensinamentos do Mistério Atlante,
aprendemos que a humanidade foi criada macho-fêmea, bissexual, e que cada um era capaz de propagar sua espécie
sem a cooperação de outro, como hoje é o caso de algumas plantas. Mais tarde, Jeová removeu um pólo da força
criadora de Adão, a humanidade primitiva, e daí resultaram dois sexos. O ensinamento esotérico complementa essa
informação declarando que a finalidade dessa mudança foi utilizar um pólo da força criadora para a construção de um
cérebro e de uma laringe, por meio dos quais a humanidade pudesse adquirir conhecimento e expressar-se em
palavras. A conexão íntima entre o cérebro, laringe e genitais é evidente a qualquer um, após um ligeiro exame dos
fatos. A mudança de voz do menino na puberdade, a deficiência mental resultante da indulgência com a natureza
passional, a fala inarticulada do deficiente mental e muitos outros fatos que poderiam ser citados, provam esta
afirmação.
Segundo a Bíblia, nossos primeiros pais foram proibidos de comer da Árvore do conhecimento, mas Eva,
seduzida pela serpente, comeu, induzindo depois o homem a seguir seu exemplo. Quem são as serpentes e o que é a
Arvore do Conhecimento, pode ser entendido em certas passagens na Bíblia. Foi-nos dito, por exemplo, que Cristo
exortou Seus discípulos a serem "sábios como serpentes e inofensivos como pombas". A chamada maldição, proferida
sobre Eva após sua confissão, declara que ela deve dar à luz com aflição e dor, e que a raça morrerá. Foi sempre um
grande obstáculo para os comentaristas da Bíblia descobrir a ligação que poderia existir entre o comer uma maçã, a
morte e o parto doloroso; mas, quando temos conhecimento das castas expressões da Bíblia, que designam o ato
criador por passagens tais como " Adão conheceu Eva, e ela concebeu Caim"; "Adão conheceu Eva, e ela concebeu
Abel", `Como posso dar à luz uma criança, se não conheço um homem?" etc., fica muito claro que a Árvore do
conhecimento é uma expressão simbólica para o ato criador. Assim, fica evidente que as serpentes ensinaram Eva
como efetuar o ato criador e que Eva instruiu Adão. Portanto, Cristo designou as serpentes como nocivas, embora
admitindo sua sabedoria. Para compreender a identidade das serpentes é necessário recorrer ao ensinamento
esotérico, que as aponta como espíritos do marcial Lúcifer, regentes do signo serpentino de Scorpius. Seus Iniciados,
mesmo tão atrasados como a Dinastia Egípcia, ostentavam na fronte o Uraeus ou símbolo da serpente, como um sinal
da fonte de sua sabedoria.
Em consequência do uso desautorizado da força criadora, a humanidade deixou de ser etérea e cristalizou-se
em um revestimento de pele ou corpo físico, que agora oculta dela os deuses que habitam os reinos invisíveis; e
grande foi sua tristeza por esta perda.
Geração foi originariamente estabelecida pelos Anjos, sob Jeová. Era efetuada nos grandes templos debaixo
de favoráveis condições planetárias e o parto era indolor, como ainda o é hoje entre os animais selvagens, que não
abusam da função criadora para gratificar os sentidos.
Degeneração resultou do abuso ignorante e desautorizado do ato gerador, iniciado pelos Espíritos de Lúcifer.
Regeneração deve ser empreendida com a finalidade de restituir ao homem a sua perdida condição de ser
espiritual, e libertá-lo deste corpo de morte aonde está agora aprisionado. A Morte deve ser absorvida na
Imortalidade.
Para alcançar este objetivo, um acordo foi feito com a humanidade, quando ela foi expulsa do jardim de Deus
para vagar no deserto do mundo. De acordo com aquele plano, construiu-se um Tabernáculo consoante um modelo
planejado por Deus, Jeová, e uma arca, simbolizando o espírito humano, foi nele colocada. Suas hastes nunca eram
tiradas de seu lugar, para mostrar que o homem é um peregrino sobre a terra, e que nunca poderá descansar até que
alcance sua meta. Havia dentro dela um vaso dourado com "maná" (man - homem) "caído do céu", juntamente com a
tábua das leis divinas que o homem precisa aprender em sua peregrinação pelo deserto da matéria. Esta arca
simbólica continha também um bastão mágico, um emblema do poder espiritual, chamado vara de Arão, o qual acha-
se agora latente em todos, no caminho que leva para o céu do repouso - o templo místico de Salomão. O Velho
Testamento conta também como a humanidade foi milagrosamente guiada e sustentada, como depois da luta com o
mundo foi-lhe dada a paz e a prosperidade pelo Rei Salomão. Em suma, sem rebuscamentos, a história relata os fatos
mais salientes da descida do homem do céu, suas principais transformações, sua transgressão às leis do Deus Jeová,
como foi guiado no passado e como Jeová deseja guiá-lo no futuro até alcançar o Reino do Céu - a terra da paz - para
seguir de novo, docilmente, a orientação do Regente Divino.
A lenda Maçônica tem pontos de desacordo, como também de acordo, com a história da Bíblia. Relata que
Jeová criou Eva, que o Espírito Lucífero Samael se uniu a ela, mas que foi expulso por Jeová e forçado a deixá-la antes
do nascimento do seu filho Caim, que ficou sendo assim o filho de uma viúva. Então, Jeová criou Adão, para ser
marido de Eva, e dessa união nasceu Abel. Por conseguinte, desde o princípio, tem havido dois tipos de pessoas no
mundo. Um, gerado pelo espírito de Lúcifer, Samael e possuidor de uma natureza semidivina, imbuído com a dinâmica
energia marcial herdada de seu divino antecessor, é agressivo, progressista e possuidor de grande iniciativa, mas
impaciente à repressão ou autoridade, tanto humana como divina. Esta classe é relutante em aceitar ideias pela fé e
inclina-se a provar tudo à luz da razão. Estas pessoas acreditam nas obras mais do que na fé, e, pela sua coragem e
energia infatigáveis, transformaram a aridez dos desertos do mundo num jardim cheio de vida e beleza, realmente tão
encantador que os Filhos de Caim esqueceram o Jardim de Deus, o Reino do Céu, de onde foram expulsos pelo
decreto do Deus lunar, Jeová. Rebelaram-se constantemente contra Ele, porque Ele os prendeu pelo "cordão"
umbilical. Perderam sua visão espiritual e estão aprisionados no corpo, na fronte, onde se diz que Caim foi marcado.
Eles precisam vagar como filhos pródigos na relativa escuridão do mundo material, esquecidos do seu alto e nobre
estado até encontrarem a porta do templo, e aí pedirem e receberem Luz. Então, como "Phree Messen" ou filhos de
luz, serão instruídos de como construir um novo templo sem ruído de martelo, e, quando tiverem aprendido isto,
poderão "viajar por países estrangeiros" para aprenderem mais do ofício. Em outras palavras, quando o espírito
percebe que está longe de seu lar celestial, um filho pródigo, alimentando-se das insatisfatórias migalhas do mundo
material quando separado do Pai está "pobre, nu e cego"; quando bate à porta de um templo místico como o dos
Rosacruzes e pede luz; quando recebe a desejada instrução, depois de ter merecidamente construído um corpo-alma
etérico, um templo ou casa eterna nos céus, não feita com mãos e sem ruído de martelo; quando sua nudez é vestida
por aquela casa (ver Cor. 5:1), então, o neófito recebe a "palavra", o "abre-te sésamo" dos mundos internos e
aprende a viajar em lugares estrangeiros nos mundos invisíveis. Aí, realiza vôos da alma em regiões celestiais e
qualifica-se para graus mais elevados, sob a instrução direta de O Grande Arquiteto do Universo, que criou o Céu e a
Terra.
Tal é o temperamento dos filhos da viúva, herdado do seu divino progenitor Samael, e dado por ele ao seu
antepassado Caim. Sua história é uma luta contra condições adversas, seu progresso é a vitória sobre todas as forças
contrárias, e isto deve-se à sua indômita coragem e ao seu esforço persistente, nunca desanimando por uma derrota
temporária.
Por outro lado, enquanto Caim, regido pela ambição divina, labutava e cultivava o solo para fazer crescer duas
folhas de grama onde só crescia uma, Abel, o descendente humano de pais humanos, não desejava nada, nem se
inquietava. Sendo ele próprio uma criatura de Jeová, por meio de Adão e Eva, ele estava satisfeito em conduzir os
rebanhos também criados por Deus, e aceitar o seu modo de vida, cônscio de sua descendência divina, gerada sem
esforço ou iniciativa própria. Essa atitude dócil era o que mais agradava ao Deus Jeová, que era extremamente
ciumento de Sua prerrogativa como Criador. Portanto, Ele aceitou cordialmente as oferendas de Abel obtidas sem
esforço ou iniciativa, mas desprezou as oferendas de Caim, porque derivavam do seu próprio instinto criativo divino,
análogo ao de Jeová. Então, Caim matou Abel, mas não exterminou outras criaturas de Jeová, porque, como foi-nos
dito, Adão conheceu Eva novamente e ela deu à luz Seth. Seth tinha as mesmas características de Abel, e transmitiu-as
aos seus descendentes, que até hoje continuam a confiar inteiramente no Senhor e vivem pela fé e não pelo trabalho.
Por árdua e enérgica diligencia nos trabalhos do mundo, os Filhos de Caim adquiriram a sabedoria mundana e o poder
temporal. Foram capitães de indústria e mestres na arte da política, enquanto os Filhos de Seth, tomando o Senhor
por guia, tornaram-se canais para a sabedoria divina e espiritual. Eles constituem o sacerdócio. A animosidade entre
Caim e Abel perpetuou-se de geração a geração entre seus respectivos descendentes. Nem podia ser de outro modo,
porque uma classe, como governantes temporais, aspira elevar o bem-estar físico da humanidade através da
conquista do mundo material, enquanto o Sacerdócio, no seu papel de guia espiritual, estimula seus seguidores a
abandonar o mundo perverso, o vale de lágrimas, e a buscar consolo em Deus. Uma escola visa formar mestres
trabalhadores, peritos no uso de ferramentas com as quais possam tirar seu sustento da terra, que foi amaldiçoada
por seu adversário divino, Jeová. A outra produz mestres mágicos, hábeis no uso da palavra para fazer invocações e,
dessa forma, ganham aqui o apoio daqueles que trabalham e rezam para que eles alcancem o céu.
Quanto ao futuro reservado para os Filhos de Caim e seus seguidores, a lenda do templo é também muito
eloquente. Relata que de Caim descenderam Matusalém, que inventou a escrita, Tubal Caim, artífice hábil em metais,
e Jubal, que originou a música. Em resumo, os Filhos de Caim foram os que originaram as artes e ofícios. Assim,
quando Jeová escolheu Salomão, descendente da raça de Seth, para construir uma casa com seu nome, a
espiritualidade sublime de uma longa linha de ancestrais, divinamente guiados, floresceu na concepção do magnífico
templo, chamado Templo de Salomão, embora Salomão fosse apenas o instrumento de realização do plano divino
revelado a Davi por Jeová. Mas, Salomão era incapaz de executar o projeto divino em forma concreta. Por isso,
precisou apelar para o Rei Hiram de Tyro, descendente de Caim, que escolheu Hiram Abiff, o filho de uma viúva (como
eram chamados todos os Franco-Maçons, em virtude da relação do seu divino progenitor com Eva). Hiram Abiff
tornou-se, então, o Grande Mestre de todos que trabalhavam na construção. Nele floresciam as artes e ofícios de
todos os Filhos de Caim que o precederam. Era mais habilidoso que qualquer outro no trabalho do mundo, sem o que
o plano de Jeová teria permanecido para sempre um sonho divino, e nunca poderia ter-se tornado uma realidade
concreta. A argúcia mundana dos Filhos de Caim era tão necessária ao acabamento desse templo, como o era a
concepção espiritual dos Filhos de Seth e, portanto, durante o período de construção, as duas classes uniram forças,
ocultando a inimizade latente sob uma superficial demonstração de amizade. Essa foi de fato a primeira tentativa de
uni-los, e, se isso tivesse sido conseguido, a história do mundo teria sido provavelmente alterada em uma maneira
substancial.
Os Filhos de Caim, descendentes dos espíritos ígneos de Lúcifer, eram naturalmente peritos no uso do fogo.
Por isso, os metais acumulados por Salomão e seus ancestrais foram fundidos em altares, lavabos e vasos de vários
tipos. Sob a direção de Hiram Abiff, os operários ergueram pilares e arcos que se apoiavam neles. O grande edifício
estava perto de ser acabado quando ele determinou moldar o "Mar Fundido", que seria o coroamento de seu esforço,
sua obra-prima. Foi na construção deste grande trabalho que se manifestou a traição dos Filhos de Seth, frustrando
assim o plano divino de reconciliação. Eles tentaram apagar o fogo que era usado por Hiram Abiff, com sua arma
natural, água, e quase o conseguiram. Os incidentes que levaram a esta catástrofe, seu significado e suas
consequências, serão relatados no capítulo seguinte.
Capítulo III - A Rainha de Sabá
A Lenda Maçônica é volumosa, circunstancial, até mesmo comum, parecendo artificial e fantástica aos não
iniciados, aos que não conseguem ver o importante sentido oculto por trás de cada palavra; mas, daremos apenas
alguns fragmentos que se relacionam com o nosso principal assunto e a necessária explicação para ligá-los.
Os acontecimentos que levaram à conspiração contra o Grande Mestre, Hiram Abiff, mencionados no último
capítulo, e que culminaram com o seu assassinato, começaram com a chegada da Rainha de Sabá, atraída à corte de
Salomão pelo que se contava de sua maravilhosa sabedoria e do esplendor do templo que estava empenhado em
construir. Conta-se que ela chegou com presentes deslumbrantes e logo impressionou-se com a sabedoria de
Salomão. Mas, até mesmo a Bíblia, que foi escrita do ponto de vista das Hierarquias Jeovísticas, insinua que ela viu na
corte de Salomão alguém que era mais perfeito que ele, e aí a narrativa bíblica não a menciona mais. Seu casamento
com Salomão nunca foi consumado, senão o nome Maçom ter-se-ia apagado da memória muito antes dos dias atuais,
e a humanidade, em geral, seria agora filha dócil da Igreja dominante, sem livre vontade, escolha ou prerrogativas.
Nem a rainha poderia casar-se com Hiram, que representava o poder temporal, senão a Religião teria sido reprimida.
Ela devia esperar pelo noivo que incorporasse as boas qualidades de Salomão e Hiram, mas purificado das fraquezas
deles, poisa Rainha de Sabá é a alma composta da Humanidade, e na consumação da obra de nossa era evolucionária,
ela será a noiva, enquanto Cristo, a quem Paulo chamou de Sumo Sacerdote da Ordem de Melquisedeque, preencherá
o cargo duplo, tanto de chefe espiritual quanto temporal. Ele será rei e sacerdote para o bem-estar eterno da
humanidade, que está agora sujeita à Igreja ou ao Estado, mas espera, quer os homens compreendam isso ou não,
pelo dia da emancipação, simbolicamente representada pelo Milênio, quando haverá uma cidade maravilhosa, uma
nova Jerusalém, uma cidade da paz. E quanto mais cedo se efetuar essa união, tanto melhor para a humanidade.
Portanto, uma tentativa foi feita na época e no lugar aonde, diz a lenda, deve ter sido o cenário do episódio amoroso
de Salomão e o de Hiram. Ali as duas Ordens iniciáticas se encontraram para consumação de um trabalho definido de
amalgamação, simbolicamente chamado Mar Fundido, um trabalho que foi tentado, então, pela primeira vez. Isto não
pôde ser efetuado nos períodos anteriores porque o homem não estava suficientemente evoluído. Naquele tempo,
parecia que o esforço combinado das duas escolas poderia realizar a tarefa e, não fora o desejo de cada um de afastar
o outro da afeição da simbólica Rainha de Sabá - a alma da humanidade - eles teriam conseguido uma união equitativa
entre Igreja e Estado e a evolução humana teria recebido um grande impulso. Mas, tanto a Igreja como o Estado eram
ciumentos de suas prerrogativas particulares. A Igreja só se uniria sob a condição de manter todo seu antigo poder
sobre a humanidade, ficando também para si, os poderes que estivessem ligados ao governo temporal. O Estado era
igualmente egoísta e a Rainha de Sabá, a humanidade em geral, está ainda solteira. A Lenda Maçônica conta assim a
história dessa tentativa e seu fracasso:
Quando foi mostrado à Rainha de Sabá o suntuoso palácio de Salomão, ela ofertou ao Rei preciosos presentes
de ouro e ricas peças lavradas e, em seguida, quis ver o grande Templo, cuja construção estava chegando ao fim.
Maravilhou-se com a magnitude da obra, mas estranhou a aparente ausência de operários, assim como o silêncio do
lugar. Por isso, pediu a Salomão que chamasse os trabalhadores para que ela pudesse ver quem havia feito esta
maravilha. Embora os servos de Salomão no palácio obedecessem ao mínimo desejo do monarca, e ele tivesse sido
designado pelo Deus Jeová para edificar o Templo, esses trabalhadores não estavam sujeitos à sua autoridade e
somente prestavam obediência àquele que tinha "A Palavra" e "O Sinal". Portanto, ninguém apareceu ao chamado de
Salomão e a Rainha de Sabá não pôde deixar de concluir que este maravilhoso milagre tinha sido feito por outro e
alguém maior que Salomão. Assim, ela insistiu em conhecer e ver o Rei dos Artífices e seus maravilhosos
trabalhadores, para dissabor de Salomão que sentiu ter caído em sua estima.
O templo de Salomão é nosso Universo Solar, que forma a grande escola da vida para a nossa humanidade
evoluinte; as linhas gerais de sua história passada, presente e futura estão escritas nas estrelas, podendo seu perfil ser
distinguido por qualquer pessoa de inteligência mediana. No esquema microcósmico, o templo de Salomão é também
o corpo do homem, onde o espírito individualizado ou ego está evoluindo, assim como Deus o está no grande
universo. O trabalho verdadeiro no templo, conforme nos foi dito em II Coríntios Cap. 5°, é efetuado por forças
invisíveis que atuam silenciosamente, edificando o templo sem ruído de martelo. Como o templo de Salomão foi
visível, em toda sua glória, à Rainha de Sabá, a evidência do trabalho dessas forças invisíveis é facilmente percebida
tanto no universo como no homem, mas elas próprias mantêm-se nos bastidores, trabalhando sem ostentação;
ocultam-se de todos os que não têm o direito de vê-las nem de governá-las. A relação dessas forças da natureza e o
trabalho que realizam no universo, talvez possa ser melhor compreendida se usarmos uma ilustração: suponhamos
que um construtor queira construir uma casa para morar. Ele escolhe o lugar onde vai construir, leva para lá o
material e, com as ferramentas de seu ofício, começa a assentar os alicerces. Pouco a pouco, as paredes são erguidas,
o teto é colocado, o interior completado, e a estrutura terminada. Durante todo o tempo de trabalho, um cão, que é
um espírito inteligente pertencente a outra e posterior onda de vida, observa seus atos e todo processo de construção
e vê, gradualmente, a casa tomar forma e chegar ao fim. Falta-lhe, porém, a compreensão adequada daquilo que o
construtor está fazendo e do propósito final que ele tem em mente. Suponhamos que o cão fosse incapaz de ver o
construtor ou de ouvir o ruído do martelo e demais ferramentas. Então, o cão estaria na mesma relação com o
construtor como a humanidade em geral está para o Arquiteto do Universo e para as forças que trabalham sob seu
comando. Isto porque o cão veria somente os materiais entrosando-se lentamente, tomando forma, e, na sequência
final, terminando uma estrutura. A humanidade também vê o silencioso crescimento da planta, do animal e da ave,
mas não pode compreender o que causa este crescimento físico e as mudanças no universo visível, pois não vê o
enorme exército de operários invisíveis que estão trabalhando no silêncio, sem som, para produzir estes resultados.
Eles não respondem à chamada de quem não tenha o sinal e a palavra de poder, por mais alta que seja sua posição ou
posto no mundo.
Os Clérigos sempre enfatizam a necessidade da fé, enquanto os Estadistas enfatizam e realçam o trabalho.
Mas, quando a fé floresce em obras, alcançamos o mais elevado ideal de expressão. A humanidade pode e admira os
sentimentos elevados e a oratória brilhante; mas quando Lincoln rompe as correntes de uma raça escravizada, ou
quando um Lutero se rebela em nome dos espíritos agrilhoados da humanidade, garantindo-lhes liberdade religiosa, a
ação externa desses emancipadores revela uma beleza de alma que não é vista naqueles que só sonham e que
receiam sujar as mãos em um trabalho real no templo da humanidade. Os últimos não são os verdadeiros
construtores do templo, e seriam incapazes de se inspirar no maravilhoso templo descrito por Manson no livro "O
Servente da Casa". O autor chama o personagem de "Man-son"; isto pode significar que ele o considera Filho do
Homem (Son of Man), mas pode ser também que ele quis dizer "Mason", pois o Servente na Casa era, ao mesmo
tempo, um construtor do templo. É maravilhosa a visão interior que o autor da peça deve ter tido quando planejou a
cena em que o servo, o operário enamorado de sua obra, fala ao clérigo mundano, que é leviano e tão inexpressivo
quanto um sepulcro caiado, do templo que ele, operário, construiu. Esta concepção é uma gema mística e preciosa
que anexamos para a meditação do leitor:
"Receio que você não considere este templo de grande importância. Ele deve ser visto de certo modo e sob
determinadas condições. Algumas pessoas nunca o veem na sua totalidade. Compreenda que ele não é um monte de
pedras mortas e vigas insignificantes, mas É UMA COISA VIVA".
"Quando você entra nele, ouve um som - um som como o de um vigoroso poema cantado. Procure escutar
bem, e poderá perceber que esse som é o palpitar de corações humanos, é a inexprimível música das almas dos
homens, isto é, se você tem ouvidos para ouvir. Se você tem olhos, verá agora o próprio templo, um enorme mistério
de muitas formas e imagens, projetando-se verticalmente do solo à cúpula, OBRA DE EXTRAORDINÁRIO
CONSTRUTOR".
"Suas colunas levantam-se como vigorosos troncos de heróis; a delicada carne de homens e mulheres é
modelada em torno de seus fortes e inexpugnáveis baluartes. Em cada pedra fundamental, rostos sorridentes de
crianças; seus espantosos vãos e arcos são as mãos unidas dos companheiros e, em cima, nas alturas e espaços,
acham-se inscritas as inumeráveis meditações de todos os idealistas do mundo".
"Ele se acha ainda em construção e a construção continua. Às vezes, a obra segue sob escuridão profunda,
outras vezes, sob luz ofuscante; ora, sob o peso de indizível angústia, ora, com a música de sonoras risadas e
aclamações heroicas como o ribombar do trovão. Às vezes, no silêncio da noite, pode-se ouvir o suave martelar dos
companheiros trabalhando na cúpula - SÃO OS COMPANHEIROS QUE CHEGARAM AO ALTO".
Tal é o templo que o Maçom Místico está construindo. Ele se esforça por trabalhar no templo da Humanidade,
e como "quando a rosa se adorna, ela adorna o jardim", ele também almeja cultivar seus próprios poderes espirituais,
conforme prenunciado no MAR FUNDIDO.
Salomão já havia pedido a mão da Rainha de Sabá, e ela aceitou o pedido. No entanto, sentindo que o
encontro com Hiram Abiff poderia mudar a afeição dela, tentou consumar seu casamento antes de atender ao seu
pedido de conhecer o Grande Mestre. Todavia, a Rainha foi obstinada, ela percebeu a grandeza do Mestre
Trabalhador, cuja perícia tinha construído o maravilhoso Templo. Sentiu-se intuitivamente mais atraída para este
homem de ação do que pela sabedoria de Salomão, no qual somente encontrou muita expressão verbal em palavras
rebuscadas e em alguns ideais elevados, mas que era incapaz de realizá-los. A relutância de Salomão em deixá-la
encontrar-se com Hiram Abiff tornou a Rainha mais ansiosa e insistente, e, de má vontade, Salomão foi obrigado a
ceder ao seu pedido, mandando, finalmente, chamar o Grande Mestre. Quando Hiram Abiff apareceu e Salomão viu a
chama de amor nos olhos da Rainha de Sabá, ciúme e ódio se instalaram em seu coração, mas ele era sábio demais
para trair seus sentimentos. Não obstante, desde aquele momento, o plano de reconciliação e união dos Filhos de
Seth com os Filhos de Caim, traçados pelas Hierarquias Divinas, foi condenado ao fracasso, destroçado nas rochas da
inveja e do egoísmo.
Segundo a Lenda Maçônica, a Rainha de Sabá pediu a Hiram Abiff que lhe mostrasse os trabalhadores do
Templo. O Grande mestre golpeou com seu martelo uma rocha próxima, de maneira que faíscas de fogo se soltaram
e, ao sinal de fogo combinado com a ação do poder, os trabalhadores do Templo juntaram-se em volta do seu Mestre,
formando uma multidão incalculável, todos prontos e ansiosos para cumprir suas ordens. Este espetáculo do
admirável poder desse homem impressionou tanto a Rainha de Sabá, que ela decidiu romper com Salomão e
conquistar o coração de Hiram Abiff. Em outras palavras, a Humanidade quando tem seus olhos abertos para a
impotência do clero, os Filhos de Seth, que também dependem do favor divino, e quando vê o poder e a potência dos
regentes temporais, sente-se impelida para eles e deixa o espiritual pelo material. Isto sob o angulo Microcósmico da
matéria.
Do ângulo ou ponto de vista Cósmico, observamos novamente que o Templo de Salomão é o Universo Solar e
Hiram Abiff, o Grande Mestre, é o Sol, que percorre os doze signos do Zodíaco encenando lá o drama místico da Lenda
Maçônica. No Equinócio da Primavera, o Sol deixa o aquoso signo de Pisces, que é também feminino e dócil, pelo
beligerante, marcial, energético signo ígneo de Áries, o carneiro ou cordeiro, onde ele é exaltado em poder. Ele enche
o Universo com um fogo criador, do qual imediatamente se apoderam os inumeráveis bilhões de espíritos da
Natureza, que com ele constroem o Templo do ano vindouro, tanto na floresta como no pântano. As forças de
fecundação aplicadas nas incontáveis sementes que dormitam no solo, fazem com que elas germinem e encham a
terra de vegetação luxuriante, enquanto os espíritos-grupo acasalam os animais e aves a seu encargo, para que
produzam e aumentem o suficiente para manter em estado normal a fauna do nosso planeta. De acordo com a Lenda
Maçônica, Hiram Abiff, o Grande Mestre, usou um martelo para chamar seus trabalhadores e é significativo que o
símbolo do signo Aries, onde começa essa maravilhosa atividade criadora, é formado por um par de chifres de
carneiro, que também se assemelha a um martelo. É também digno de nota que na antiga Mitologia Nórdica, as Vanir,
divindades da água, diziam ter sido vencidas pelas Assir, ou deusas do fogo. O martelo, com o qual o Deus nórdico
Thor golpeava o fogo vindo do Céu, encontra sua contraparte nos raios de Jove; como Hiram, as Assir pertencem à
Hierarquia do Fogo, e os Espíritos de Lúcifer, os Filhos de Caim, lutavam por domínio positivo através do esforço
individual, sustentando, portanto, o ideal masculino, o qual é diametralmente oposto ao da hierarquia que trabalha
no elemento plástico Água. Presentemente, nos Templos da última Ordem, a água mágica fica na porta e pede-se a
todos que entram, que apliquem esse líquido no ponto da testa onde reside o Espírito; suas razões afogam-se em
máximas e dogmas, e o ideal feminino é venerado na Virgem Maria. Fé é o fator principal em sua salvação, sendo
cultivada a atitude infantil de cega obediência.
No Templo da outra Ordem é diferente; quando o candidato entra lá "pobre", "nu" e "cego", perguntam-lhe
logo: o que está procurando? Quando ele responde "Luz", é dever do Mestre dar-lhe o que pede e torná-lo Phree
Messen - um Filho da Luz. Também é seu dever ensiná-lo a trabalhar, e um ideal masculino, Hiram Abiff, o Mestre
Trabalhador, é lhe apresentado como estímulo. Da mesma forma, aprende a estar sempre preparado para dar razão à
sua fé. Conforme se qualifica no trabalho, sobe passo a passo, sendo-lhe dada mais luz a cada grau. Nos Mistérios
Menores há 3x3 graus; quando o candidato transpõe o nono Arco, ele está no Santo dos Santos, o que forma a
entrada para maiores campos além do alcance da Maçonaria. Para maior esclarecimento desse assunto, o estudante
pode recorrer aos capítulos sobre Iniciação, Erupção Vulcânica e o número nove, no Conceito Rosacruz do Cosmos.
Progresso e promoção na Maçonaria Mística não dependem de favor. Não podem ser dados enquanto não
houver merecimento e o candidato precisa acumular em si o poder para elevar-se, da mesma maneira que um
revólver só pode disparar quando estiver carregado. Iniciação é simplesmente como puxar o gatilho, e consiste em
mostrar ao candidato como usar o poder latente que existe nele.
Entre os trabalhadores do Templo, haviam alguns que pensavam que seriam promovidos a um grau mais
elevado, mas eles não tinham o poder dentro de si, por isso Hiram Abiff não podia iniciá-los. Como eram incapazes de
ver que a falta residia neles, irritaram-se contra Hiram, como acontece hoje com candidatos muito ambiciosos que se
sentem menosprezados e classificam o instrutor espiritual como um logro, incapaz de lhes dar rápida iluminação e
acesso ao invisível, embora ainda comam dos "caldeirões-de-carne do Egito" e não queiram sacrificar-se no altar da
abnegação. Os insatisfeitos entre os homens de Hiram passaram a conspirar para danificar sua grande Obra Prima, o
Mar Fundido.
Capítulo IV - Moldando o Mar Fundido
Assim como os dons espirituais dos Filhos de Seth floresceram em Salomão, o mais sábio dos homens, e o
capacitaram a conceber e projetar o maravilhoso Templo segundo o plano de seu Criador, Jeová, assim também
Hiram, o hábil artífice, incorporava em si a consumada perícia de uma longa e antiga linhagem de artífices. Possuía a
concentrada quintessência do conhecimento material adquirido pelos Filhos de Caim quando, do deserto do mundo,
forjaram uma civilização concreta. Na execução do magnífico Templo de Salomão, essa perícia suprema encontrou
pleno desenvolvimento.
Assim, esse esplêndido edifício era a obra-prima de ambas as linhagens, a incorporação da sublime
espiritualidade dos sacerdotes, os Filhos de Seth, com a superlativa habilidade dos artífices, os Filhos de Caim. As
honras eram iguais e as realizações eram idênticas. Salomão estava satisfeito; realizara o projeto que lhe fora
transmitido, tinha edificado um lugar de adoração digno do Senhor a Quem venerava; porém, a alma de Hiram não
estava satisfeita. Armado com a arte secular, erigiu uma incomparável obra de arte em arquitetura. Mas o projeto não
era seu; ele tinha sido unicamente o instrumento de um arquiteto invisível, Jeová, que agia através de um
intermediário, Salomão. Isto mortificava seu coração, pois era-lhe tão necessário criar como respirar.
Quando Caim e Abel viviam na Terra, Abel cuidava com satisfação dos rebanhos que foram criados - assim
como ele e seus pais Adão e Eva - por Jeová; porém, em Caim, estirpe semidivina do Espírito Lucífero Samael e de Eva,
a criatura de Jeová, ardia o divino incentivo do esforço original; ele lavrou o campo e fez brotar dois pés de erva onde
nascia anteriormente um só; o instinto criador precisava ter expressão.
Hiram, sendo o foco e tendo herdado toda a habilidade de Caim, estava também investido com o Espírito de
Samael intensificado em proporção correspondente; por isso, foi consumido por um desejo dominante de acrescentar
ao Templo alguma coisa que ofuscasse em beleza e importância o resto da estrutura. De seu espírito nasceu a
concepção do MAR FUNDIDO e ele executou esse grande ideal ainda que céu e terra, atemorizados, prendessem a
respiração diante da audácia de seu propósito.
A Bíblia dá pouca informação sobre o Mar Fundido. No segundo livro das Crônicas, no capítulo quarto, lemos
que Hiram construiu um lavabo de considerável tamanho, que assentava sobre 12 bois dispostos de tal maneira que
as cabeças estavam na periferia dessa bacia circular e as traseiras voltadas para seu centro. Era destinado
exclusivamente para uso dos sacerdotes. Muitas coisas são ditas de uma forma que parece confundir o leitor, mas os
pontos acima mencionados provam a notável importância desse objeto, e isto vamos verificar, ao estudarmos e
compararmos a narrativa maçônica com esta palavra velada da Bíblia. Diz a história maçônica:
Quando Hiram terminou o Templo, começou a fundir os diferentes vasos necessários ao serviço, de acordo
com os desenhos feitos por Salomão, como agente de Jeová. O principal dentre estes era o grande lavabo, destinado
ao banho da purificação, ao qual todos os sacerdotes tinham de submeter-se para entrar ao serviço do Senhor. Este, e
todos os vasos 15
menores, foram fundidos com êxito por Hiram, segundo a Bíblia descreve. Porém, há uma "diferença" importante
entre o Mar Fundido e o lavabo, o qual foi desenhado por Hiram para reter seu conteúdo e, até que vertesse com
sucesso, o lavabo estava sem virtude no que se refere às propriedades purificadoras. Sendo assim, não podia mais
purificar a alma manchada de pecado, da mesma forma que um lavabo seco não pode ser utilizado para limpar o
corpo. Nem mesmo Salomão podia emitir a Palavra, a fórmula para esse trabalho maravilhoso. Ninguém a não ser
Hiram a conhecia. Este trabalho devia ser sua Obra Prima e, se ele a realizasse com êxito, sua arte o elevaria acima da
condição humana e o faria divino como o Elohim Jeová. No jardim do Éden, seu divino progenitor Samael assegurou à
sua mãe, Eva, que ela poderia se tornar "como o Elohim" se comesse da Árvore do conhecimento. Por várias eras seus
antepassados trabalharam no mundo. Pela habilidade acumulada dos Filhos de Caim, um edifício foi erguido onde
Jeová ocultou-se "atrás do véu" e comunicou-se unicamente com seus sacerdotes escolhidos, os Filhos de Seth. Os
Filhos de Caim foram repelidos do Templo que eles tinham construído, como seu pai Caim foi expulso do jardim que
ele tinha cultivado. Hiram considerou isto uma afronta e injustiça; então, preparou os meios pelos quais os Filhos de
Caim pudessem "rasgar o véu" e abrir o caminho para Deus a "todo aquele que desejasse".
Com esta finalidade, ele enviou mensageiros para todas as partes do mundo, para recolher os metais com os
quais os Filhos de Caim sempre tinham trabalhado. Com seu martelo triturou-os e lançou-os em uma fornalha ardente
para extrair alquimicamente e de cada partícula, a quintessência do conhecimento obtido nessa experiência de
trabalho. Desse modo, a quintessência desses diversos metais básicos formaria um sublimado conhecimento
espiritual, incomparável em potência e mais valioso do que todas as coisas da Terra. Sendo de máxima pureza, não
conteria nenhuma cor, mas se assemelharia a um "mar de vidro". Todo homem que aí se lavasse, seria dotado de
perpétua juventude. Filósofo algum poderia comparar-se com ele em sabedoria; este conhecimento da "pedra
branca" o capacitaria a erguer o véu da invisibilidade e o poria em contato com as Hierarquias super-humanas, que
trabalham no mundo com uma potência jamais sonhada pela maioria das pessoas.
As tradições maçônicas contam-nos que os preparativos de Hiram eram tão perfeitos que o sucesso seria total, se não
tivesse havido traição. Porém, os artífices incompetentes, que Hiram fora incapaz de iniciar nos graus superiores,
conspiraram para deitar Água no recipiente moldado para receber o Mar Fundido, pois sabiam que o Filho do Fogo
não era adestrado na manipulação do elemento aquoso e não poderia combiná-lo com sua maravilhosa liga. Desta
forma, frustrando o acalentado projeto de Hiram e estragando sua Obra-prima, eles aspiravam vingar-se do Mestre.
Salomão estava secretamente informado dessa conspiração sinistra, mas o ciúme pela Rainha de Sabá atava-lhe a
língua e paralisava-lhe o braço. Esperava que fracassando o plano ambicioso de Hiram, o afeto da Rainha, dado a seu
rival humilhado, voltaria para ele. Portanto, fechou olhos e ouvidos à conspiração e conspiradores.
Quando Hiram, confiante, abriu as comportas, o fogo líquido precipitou-se para fora, encontrou-se com a água e
houve um rugido que parecia abalar o céu e a terra, enquanto os elementos ferviam e lutavam. Todos, menos Hiram,
ocultaram suas faces à pavorosa destruição; então, do centro do fogo, ele ouviu o chamado de Tubal Caim,
ordenando-lhe que se atirasse no Mar Fundido. Cheio de fé no seu antepassado, que trilhara antes dele o 16
caminho do fogo, Hiram obedeceu e arrojou-se corajosamente nas chamas. Submergindo até ao fundo desintegrado
do lavabo, foi conduzido com êxito através de nove camadas da terra em forma de arcos até o Centro, onde se viu na
presença de Caim, o fundador de sua família, que lhe deu instruções relativas à mistura da Água e do Fogo e forneceu-
lhe um NOVO MARTELO E UMA NOVA PALAVRA, os quais o capacitariam a produzir novos resultados. Caim investigou
o futuro e fez uma profecia que tem sido cumprida parcialmente; o restante está em processo de ser realizada, dia
após dia e, tão certo como o tempo passa, tudo acontecerá.
"Tu, Hiram", disse Caim, "estás destinado a morrer sem ver realizadas tuas esperanças, mas a viúva terá
muitos filhos que manterão viva a tua memória no transcurso das eras e depois de um longo período surgirá alguém
maior que Tu. Não despertarás até que o Leão de Judá te levante com a poderosa força das Suas garras. Hoje
recebeste teu batismo de fogo, porém, Ele te batizará com Água e com Espírito a ti e a todo filho da viúva que O
procurar. Maior que Salomão, Ele edificará uma nova cidade e um Templo onde as nações poderão prestar culto. Os
Filhos de Caim e os Filhos de Seth se encontrarão ali em Paz, no mar de vidro. E, assim como Melquisedeque, Rei de
Salem (Salem significa Paz), e Sacerdote de Deus, abençoou Abraão, o pai das nações, quando a Humanidade estava
ainda na sua infância, assim também, essa nova Luz reunirá em si os ofícios, o de Rei e o de Sacerdote da Ordem de
Melquisedeque. Julgará as nações com a lei de amor e, para aquele que vencer, ser-lhe-á dada uma Pedra Branca com
um nome que servirá como senha para o templo. Ali encontrará o Rei, face a face."
Hiram foi novamente conduzido à superfície da terra e ao afastar-se da cena de sua ambição destruída, foi
assaltado pelos conspiradores que o feriram mortalmente. Todavia, antes de morrer, ele ocultou o martelo e o disco
sobre o qual tinha escrito a Palavra. Estes objetos nunca foram encontrados até o momento em que Hiram, o "Filho da
viúva", renasceu como Lázaro e tornou-se o amigo e discípulo do Leão de Judá, que o ressuscitou através da iniciação.
Quando o martelo foi encontrado, tinha a forma de uma cruz e o disco era uma rosa. Por isso, Hiram ocupou seu lugar
entre os imortais sob o novo e simbólico nome
Christian Rosenkreuz
Ele fundou a Ordem dos Construtores do Templo que leva o seu nome; nessa Ordem, as almas aspirantes
ainda recebem instruções de como fundir os metais básicos e produzir a Pedra Branca.
A simbologia do que foi dito será explicada nos capítulos seguintes.
Capítulo V - O Mistério de Melquisedeque
Entre todos os personagens mencionados na Bíblia, nenhum é mais misterioso do que Melquisedeque. Não
teve pai, mãe ou outro parente terrestre e mantinha o duplo cargo de rei e sacerdote. Paulo, em sua Epístola aos
Hebreus, dá-nos muita informação a respeito, mostrando a ligação entre Cristo e Melquisedeque, ambos Reis e Sumo-
Sacerdotes, ainda que de dispensações diferentes:
*** "Deus, tendo falado outrora muitas vezes e de várias maneiras aos nossos pais, pelos profetas, a nós falou
nestes últimos dias pelo Seu Filho, a quem Ele constituiu herdeiro de todas as coisas, por quem Ele fez também os
mundos
*** Nenhum homem toma para si esta honra, senão aquele que é chamado por Deus, como foi Arão. Assim
também Cristo não Se glorificou para se tornar Sumo Sacerdote, mas Aquele que Lhe disse: `Tu és meu Filho, hoje Te
gerei.' Como Ele também diz em outro lugar Tu és um Sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque, o qual
nos dias de Sua carne, quando Ele ofereceu, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que O podia salvar
da morte e foi ouvido quanto ao que temia, e, embora fosse o Filho, ainda aprendeu a obediência pelas coisas que
padeceu; e, tornando-se perfeito, tornou-se a causa de eterna salvação para todos que O obedecem; chamado por
Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque, do qual muito temos que dizer, de difícil interpretação.
* * * Porque este Melquisedeque, que era rei de Salem, sacerdote do Deus Altíssimo, e que saiu ao encontro
de Abraão quando ele regressava de destroçar os reis, e o abençoou; a quem também Abraão deu o dízimo de tudo, e
primeiramente é, por interpretação, rei de justiça e depois também rei de Salem, que quer dizer rei de paz; sem pai
nem mãe, sem genealogia, sem princípio de dias nem fim de vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus,
permanece sacerdote para sempre.
*** E aqui certamente recebem dízimos os homens que morrem (os Levitas); ali, porém, Ele acolhe aquele de
quem se afirma que vive.
*** De sorte que, se a perfeição tivesse podido ser realizada pela lei e seu sacerdócio, que necessidade havia
de que outro sacerdote se levantasse, segundo a ordem de Melquisedeque, e não segundo a ordem de Arão?
*** Porque é manifesto que nosso Senhor procedeu da tribo de Judá, tribo da qual Moisés nunca atribuiu o
sacerdócio. E muito mais manifesto é ainda se, à semelhança de Melquisedeque, se levantar outro sacerdote que não
foi feito segundo a lei do mandamento carnal, mas segundo o poder da vida eterna, porque dele assim se testifica; `Tu
és sacerdote através dos séculos, segundo a ordem de Melquisedeque.'
*** Jesus tornou-se, por isso mesmo, o fiador de uma aliança melhor:
*** mas este, porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo;
*** porque a lei constituiu sumos sacerdotes a homens débeis, mas a Palavra de Deus que era desde a lei,
constituiu o Filho, consagrado para sempre. A suma do que temos dito é que temos um sumo sacerdote que está
assentado nos céus à direita do trono da majestade, ministro do santuário, e do verdadeiro tabernáculo, o qual o
Senhor erigiu, e não o homem:
*** E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue, e sem derramamento de sangue não há
remissão; de sorte que era bem necessário que as figuras das coisas que estão no céu assim se purificassem; mas as
mesmas coisas celestiais com sacrifícios melhores do que estes, porque Cristo não entrou num santuário feito por
mão de homem, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer por nós diante de Deus;
*** Mas agora alcançou Ele ministério tanto mais elevado, quanto é mediador da melhor aliança, que está
confirmada em melhores promessas; porque se aquela primeira aliança fora irrepreensível, nunca se teria buscado
lugar para a segunda. Porque, repreendendo-os, lhes diz: Eis que virão dias em que com a casa de Israel e com a casa
de Judá estabelecerei uma nova aliança. Não como a aliança que fiz com seus pais no dia em que os tomei pela mão
para tirá-los da terra do Egito; como não permaneceram na minha aliança, eu para eles não atentei, diz o Senhor.
*** Porque esta é a aliança que depois daqueles dias farei com a casa de Israel, diz o Senhor: "porei as minhas
leis no seu entendimento, e em seus corações as escreverei; e Eu lhes serei por Deus, e eles Me serão por povo; e não
ensinará cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conheça o Senhor: porque todos me
conhecerão, desde o menor deles até ao maior".
As citações anteriores foram tiradas dos diversos capítulos da Epístola de São Paulo aos Hebreus. É necessário
juntar inteligentemente a narrativa da Bíblia, para que possamos obter um esboço do futuro desenvolvimento que foi
delineado pelas Divinas Hierarquias para constituir nossa evolução. A compreensão deste plano é nossa evolução. A
compreensão deste plano é essencial para o completo entendimento da relação Cósmica entre a Maçonaria e o
Catolicismo; é também necessário entender integralmente a finalidade do Mar Fundido e aprender como fazer, com
discernimento, esta maravilhosa liga. Como diz Paulo, estas coisas são difíceis de dizer, mas tentaremos apresentar
em linguagem simples, o mistério de Melquisedeque e do Mar Fundido, para que possamos, como foi expresso na
Bíblia, ajudar a iluminar do menor ao maior dos homens, para que todos conheçam o objetivo da evolução e tenham a
oportunidade de alinharem-se com os acontecimentos Cósmicos.
Para compreendermos o mistério de Melquisedeque devemos retroceder à época relacionada com a
existência do homem na Terra, a Época Hiperbórea. A Terra estava, então, em uma condição extremamente aquecida.
O homem em formação era bissexual, masculino-feminino, como muitas das nossas plantas atuais, com as quais se
parecia por ser inerte e por faltar-lhe desejo e aspiração. Naquele tempo, o homem era o tutelado dócil das
Hierarquias Divinas que o guiavam fisicamente, sendo isto veladamente referido na Bíblia como "Reis de Edom". Mais
tarde, na Época Lemúrica, quando o corpo do homem se cristalizou e condensou um pouco mais, a humanidade foi
dividida fisicamente em sexos. Porém, como a consciência dos homens ainda estava focalizada no mundo espiritual,
eles eram inconscientes do ato físico da geração, como somos agora da digestão. Não conheciam nascimento nem
morte e eram totalmente inconscientes da posse de um veículo físico, mas, com o tempo, sentiram-no no processo
gerador. Então, foi dito que "Adão conheceu Eva". Nessa época, os Espíritos Lucíferos, os Anjos caídos e habitantes do
belicoso planeta Marte, ensinaram os homens a comer da Árvore do conhecimento, nome simbólico do ato gerador.
Assim, gradativamente, seus olhos abriram-se e tornaram-se conscientes do mundo físico, mas perderam o contato
com o mundo espiritual e com os Anjos Guardiães, que tinham sido, anteriormente, seus guias benevolentes.
Somente alguns dos mais espiritualizados conservaram sua visão superior e a comunhão com as Hierarquias Divinas.
Eram os profetas, que agiam como mensageiros entre os divinos guias invisíveis e seus respectivos povos. Porém, com
o decorrer do tempo, a humanidade desejou escolher seus próprias guias e exigiu reis visíveis; sabemos que os
Israelitas repudiaram a divina liderança e exigiram um rei e daí Saul ter sido designado. A seguir, o duplo cargo de
Governante e Sacerdote, abrangendo a liderança temporal e espiritual, foi também dividido, pois nenhum homem
que estivesse capacitado em problemas do mundo para exercer com eficiência o cargo de Rei, era bastante santo para
também exercer a liderança espiritual de seus irmãos e vice-versa. Um verdadeiro sacerdote, capaz de guiar
espiritualmente seu rebanho, não pode controlar, ao mesmo tempo e bem, riquezas materiais como governante de
um domínio temporal. Assim como a Política, no seu aspecto mais elevado, visa dirigir as massas focalizando somente
seu bem estar físico, o Sacerdócio, exercido benevolentemente, procura guiá-las unicamente para o progresso da
alma. Portanto, é natural que o conflito aconteça após essa separação, mesmo que ambos, governantes espirituais e
temporais, sejam movidos pelos motivos mais elevados e altruístas. Melquisedeque era o nome simbólico das
Hierarquias divinas que desempenharam o duplo cargo de sacerdote e rei na orientação dos seus tutelados bissexuais,
e enquanto eles reinaram houve paz sobre a Terra. Mas logo que os cargos de rei e sacerdote foram separados e os
sexos divididos, é fácil compreender pela razão acima apresentada, que o reino cheio de paz de Melquisedeque foi
seguido por uma era de guerras e conflitos, tal como acontece na atual dispensação. Antigamente, os fatores
unificantes de um cargo duplo no governo e o sexo duplo do seu povo, impediam o conflito de interesses que agora
existe, e que continuará até que um outro regente divino se apresente para incorporar as qualidades do duplo cargo
de Rei e Sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque e até que a geração pelo sexo seja abolida. É significativo
observar-se que a narrativa bíblica começa no Jardim do Éden, onde a humanidade era macho-fêmea e inocente. No
capítulo seguinte, falam-nos da divisão dos sexos, da transgressão à ordem de não comerem da Árvore do
conhecimento e dos castigos impostos - parto doloroso e morte. Daí por diante, o Antigo Testamento fala de guerras,
lutas e contendas, e, no último capítulo, faz a profecia de que um Sol de justiça surgirá trazendo a cura em suas asas.
O Novo Testamento começa com um relato sobre o nascimento do Cristo, que proclamou um Reino do céu que está
para ser estabelecido. Posteriormente, Ele é chamado de Rei e Sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque,
unindo em si o cargo duplo. Também é dito que no céu não haverá matrimônio, ninguém será dado em casamento,
pois a soma psuchicon, ou corpo-alma, que Paulo disse ser o veículo que usaremos no reino do céu, (Coríntios 1,
capítulo XV), não está sujeito à morte nem à desintegração. Assim, não haverá morte, e o nascimento dos corpos
gerados pelo casamento será dispensável, pois Paulo nos diz que a carne e o sangue não podem herdar o Reino de
Deus. Portanto, o casamento será desnecessário e o choque de interesses, devido à luxúria do sexo e do amor ao
poder, desaparecerá e o amor das almas será santificado pelo espírito da paz.
Este é o plano que os Filhos de Caim, os Artífices, e os Filhos de Seth, os Sacerdotes, e seus respectivos
seguidores devem amalgamar para ficar unidos no Reino de Cristo. Já vimos como Hiram Abiff, o Filho da Viúva,
deixou seu pai, o espírito Lucífero Samael, depois do batismo de fogo no Mar Fundido e como recebeu a missão de
preparar o caminho do reino para seus irmãos, os filhos de Caim, pelo desenvolvimento de suas artes e ofícios como
construtores do templo - Maçons - ensinando-os a preparação da Pedra Filosofal, ou Mar Fundido. Assim, os
fisicamente negativos Filhos de Seth devem aprender a deixar seu pai Jeová e é natural que o primeiro a dar este
passo seja uma grande alma.
Como a suprema habilidade dos Filhos de Caim foi focalizada em Hiram Abiff na ocasião do seu batismo de
fogo, assim também a sublime espiritualidade dos Filhos de Seth foi centralizada em Jesus na ocasião de Seu batismo
nas águas do Jordão. Quando Ele se ergueu dessa água, estava na mesma situação que Hiram ao emergir do fogo;
cada um tinha deixado seu pai, respectivamente Jeová e Samael, e cada um estava pronto para servir o Cristo. Por
isso, o Espírito Cristo foi visto no Batismo descendo sobre o corpo de Jesus, o qual foi habitado e usado por Cristo
durante Seu ministério. Jesus, o Espírito, deixou aquele corpo e foi-lhe dada a missão de servir as igrejas enquanto seu
corpo estava sendo usado por Cristo para divulgar os novos ensinamentos e seu sangue estava sendo preparado como
um Abre-te-Sésamo para o Reino de Deus, uma Panacéia para ser usada pelos Seus irmãos, os Filhos de Seth, do
mesmo modo que o Mar Fundido serve os Filhos de Caim.
Na Epístola aos Hebreus, Paulo deu-nos algumas alusões acerca do Mistério de Melquisedeque na qualidade
de Sumo Sacerdote, e enfatizou a necessidade absoluta do sangue como um complemento para o Serviço do Templo.
Mostrou que era exigido que o Sumo Sacerdote oferecesse primeiro sangue pelos seus próprios pecados, antes de
oferecer sacrifício pelos pecados do povo, e que este sacrifício duplo devia ser efetuado ano após ano. Ele indicou o
sacrifício no Gólgota como o que representou isto, uma vez e para sempre, proporcionando um caminho de redenção
por meio do sangue de Jesus. Durante o regime de Jeová, o sangue da humanidade tornou-se impregnado de
egoísmo, que é o fator separativo nesta era. O sangue deve ser purificado deste pecado antes que a humanidade seja
unida e entre no Reino de Cristo. Esta foi uma tarefa gigantesca, pois a humanidade estava tão impregnada de
egoísmo, que raramente alguém fazia um favor a outro. Por esta razão, o panorama "post-mortem" da vida, na época
de Cristo, nada continha que pudesse impulsionar uma vida no Primeiro Céu ou dar-lhe progresso espiritual. Quase
toda existência "post-mortem" das pessoas era consumida na expiação purgatorial de suas más ações, e mesmo suas
vidas no Segundo Céu, onde o homem aprende a fazer trabalho criativo, era infrutífera. Então, o Rei Salomão foi
chamado novamente à arena da vida para cumprir uma missão em benefício e bem estar dos seus irmãos, os Filhos de
Seth. Estava qualificado para este trabalho porque era realmente generoso, como foi revelado pelo pedido que fez
quando Jeová apareceu-lhe em um sonho e perguntou-lhe o que ele queria receber, como presente, quando subisse
ao trono. Salomão respondeu a Deus: " Tu mostraste grande misericórdia com David meu pai e me colocaste para
reinar em seu lugar; agora, Oh! Senhor, confirma Tua promessa dada a David meu pai, porque me fizeste rei de um
povo que é como o pó da terra em multidão. Dá-me agora sabedoria e conhecimento para que eu possa sair e estar
diante deste povo, pois quem pode julgar Teu povo tão numeroso?" E Deus disse a Salomão: "Porque isto estava no
teu coração e não pediste riquezas, opulência, poder ou glória, nem a vida dos teus inimigos, nem ainda pediste vida
longa, mas pediste sabedoria e conhecimento para ti, para que possas julgar o meu povo sobre o qual Eu te fiz rei;
sabedoria e conhecimento te serão dados e Eu te darei riqueza, opulência e glória como ninguém dos reis possuiu
antes de ti, nem haverá ninguém semelhante depois de ti".
Esta característica de altruísmo desenvolvida em vidas anteriores, preparou o espírito de Salomão, que
habitou o corpo de Jesus, para a alta missão a que foi destinado, isto é, servir como um veículo para o generoso e
unificante Espírito Cristo, com o propósito de acabar com a divisão entre os Filhos de Seth e os Filhos de Caim, unindo-
os na Fraternidade, formando o reino do Céu.
Quando Fausto fez o pacto com Mefistófeles, como é lembrado no antigo mito-alma daquele nome, ele estava
prestes a assiná-lo com tinta, quando Mefisto disse: "Não, assina em sangue". Quando Fausto perguntou a razão
disso, Mefistófeles disse esperta e astutamente: "O sangue é uma essência muitíssimo peculiar!" A Bíblia diz que o
sangue dos touros e bezerros não tirará os pecados e isso é compreensível, mas qual a explicação para o sangue de
Jesus que é exaltado como uma panacéia? Para compreender esse grande mistério do Gólgota é necessário estudar a
composição e função do sangue, do ponto de vista oculto.
Quando o sangue é examinado em um microscópio, parece ter um número de minúsculos glóbulos ou discos,
porém, quando um clarividente treinado pode vê-lo enquanto circula através de um corpo vivo, constata que o
sangue é um gás, uma essência espiritual. O calor é causado pelo Ego que está dentro deste sangue, pois, como diz a
Bíblia, a vida está no sangue. Mefistófeles estava certo quando disse que o sangue é uma essência muitíssimo
peculiar, pois contém o Ego e todo aquele que quiser obter um poder sobre o Ego, tem que possuir o seu sangue.
O Ego humano é mais poderoso que o espírito-grupo do animal, como podemos ver quando aplicamos o teste
científico conhecido como hemólise. Sangue estranho de um animal superior, se inoculado nas veias de um de espécie
inferior, causará a morte deste. Se tomarmos sangue humano e o injetarmos em um animal, este será incapaz de
suportar as altas vibrações que estão no sangue do ser humano e morrerá. Por outro lado, um ser humano poderá ser
inoculado com o sangue de um animal inferior sem sofrer dano. Nos tempos primitivos era rigorosamente proibido
alguém pertencente a uma tribo casar-se dentro de uma outra tribo, pois era sabido, então, pelos guias da
humanidade, que o sangue estranho mataria alguma coisa; sempre o faz. Lemos que Adão e Matusalém viveram
vários séculos; naquele tempo era costume casarem-se em família, casar tão próximo quanto possível, para que os
laços de sangue ficassem cada vez mais fortes. Assim, o sangue que circulava nas veias das pessoas naquela família
continha as imagens de todos os acontecimentos referentes aos seus ancestrais; esses quadros eram guardados na
mente, que é agora o subconsciente. Naquela época, eram conscientes e estavam sempre diante da visão interior das
pessoas e cada família estava unida por este sangue comum, onde as imagens dos seus ancestrais permaneciam. Os
filhos viam a vida dos seus pais e, em consequência, os pais viviam nos filhos; e, uma vez que as consciências de Adão,
de Matusalém e de outros Patriarcas viveram durante séculos em seus descendentes, diz-se que viveram
pessoalmente essa longevidade.
O matrimônio fora da família era considerado um crime, como agora casar-se dentro dela é considerado um
mal. Sabemos que entre os primitivos escandinavos, se alguém quisesse casar em uma família estranha, era obrigado
primeiro a misturar o sangue, que devia ser testado para ver se esse sangue se misturaria com o da família na qual
desejava entrar. Desta forma, a hemólise foi sentida por muitos, pelo menos em algumas de suas fases. Se o sangue
não se misturasse podia trazer "confusão de casta", como diz o Hindu; uma linha pura de descendência devia ser
mantida, pois, de outra maneira, aquelas imagens ou visão interna se misturariam e se tornariam confusas. Este
matrimônio na família ou tribo foi o que engendrou o egoísmo, o espírito de clã, o conflito e a luta no mundo. Para
acabar com isso, a prática devia ser interrompida, e quando Cristo veio à Terra, Ele advogou a interrupção desse
hábito, quando disse: "Antes que Abraão fosse, Eu sou". De fato, Ele disse: "Eu não me importo pelo pai da raça, mas
Eu me glorifico no Eu Sou, o Ego que era há muito tempo antes que ele fosse". E Ele também disse: "Quem não deixa
pai e mãe não pode seguir-Me". Enquanto estivermos amarrados à família, à nação ou tribo, estamos ligados ao velho
sangue, aos velhos caminhos e não podemos fundir-nos em uma fraternidade universal. Isto poderá ser alcançado
quando as pessoas se casarem além das fronteiras, porque quando existem tantas nações, a maneira de uni-las é
através do casamento. Deixemos Abraão, o pai da raça e da tribo morrer; deixemos o "Eu Sou" viver. Cristo tinha
conhecimento do fato oculto de que a mistura do sangue em casamento entre diversas raças e famílias sempre mata
algo; quando não mata o corpo, mata alguma outra coisa. Se cruzarmos um cavalo e um burro, teremos um híbrido, a
mula; nela alguma coisa está faltando devido à mistura de sangue estranho, a saber, a faculdade da propagação que
está faltando em todos os híbridos. De forma análoga, quando os casamentos ocorrem fora do círculo da raça ou
família, alguma coisa é destruída, e, neste caso, são os quadros da visão interna. Os diferentes quadros de diferentes
famílias se chocam e, em consequência, a clarividência, o contato com o mundo espiritual e com a memória da
Natureza foi desaparecendo desde que a prática do casamento dentro do mesmo grupo cessou. Somente os
escoceses das montanhas que casam na clã, e os ciganos, retêm, de certa forma, esta segunda visão. Assim, vemos
que o sangue é agora constituído diferentemente do que era nas idades primitivas da evolução humana. O corpo de
Jesus era um veículo pioneiro, de máxima pureza, quando o Espírito Cristo entrou nele como um meio de ingressar no
centro da Terra pelo idêntico caminho que, previamente, tinha sido percorrido por Hiram Abiff quando se lançou no
Mar Fundido e foi conduzido pelo caminho da Iniciação para o centro da Terra, onde Caim, seu antepassado, habitava.
Essa viagem de Cristo é citada na 1 Epístola de S. Pedro 3:18-19, depois de Cristo ter-se libertado da carne pela
morte violenta no Gólgota. Quando alguém morre, o sangue venoso com suas impurezas adere firmemente à carne e,
portanto, o sangue arterial que corre fica visivelmente mais limpo do que em outras circunstancias; está mais livre de
paixão e de desejo. Sendo eterizado pelo grande Espírito Cristo, o sangue limpo de Jesus inundou o mundo, purificou
grandemente a região etérica do egoísmo, e deu ao homem uma melhor oportunidade para atrair para si materiais
que lhe permitirão formar propósitos e desejos altruísticos. A era do altruísmo foi aí inaugurada. Pela fé neste sangue
e pela imitação da vida de Cristo, os Filhos de Seth foram preparados para eliminar de si a maldição do egoísmo;
enquanto que aos Filhos de Caim foi-lhes dado o emblema da Rosa e da Cruz, para ensinar-lhes como trabalhar
fielmente no preparo do Mar Fundido, a Pedra Filosofal, e encontrar a Nova Palavra que os admitirá no reino, pois
eles acreditam mais no trabalho do que na fé.
O Diagrama ( seguinte ) mostra as três Eras mencionadas neste artigo:
(1) A Primeira Era, quando cada ser humano era uma unidade criadora completa, macho-fêmea, bissexual e
regida por um Hierarca, Melquisedeque, que exercia o duplo cargo de Rei e Sacerdote.
(2) A Segunda Era, quando a divisão da raça em homens e mulheres, e a divisão de governo em Estado e
Igreja, causaram guerras e lutas.
O Estado abraça a causa da Paternidade e do Homem e eleva o ideal masculino das Artes, Ofícios e Indústria,
encarnado em Hiram Abiff.
A Igreja abraça a causa da Maternidade e da Mulher e mantém erguido o ideal feminino do amor e do lar,
encarnado na Madona e seu filho.
São os interesses conflitantes entre o homem e a mulher, o lar e o trabalho, a Igreja e o Estado, que causam as
lutas econômicas, a guerra e as disputas com as quais a humanidade é atormentada e faz com que todos desejemos e
oremos pelo reino da paz.
(3) A Terceira Era, quando um Cristo divino que, como Melquisedeque, exercerá o cargo duplo de Rei e Sacerdote e
reinará sobre uma humanidade purificada e glorificada que se elevou do amor-sexo ao amor-alma.
Capítulo VI - Alquimia Espiritual
Quando expomos um pedaço de ferro ao ar, o oxigênio contido no último elemento oxida o ferro e, com o
tempo, desintegra-o. Este processo é comumente conhecido como ferrugem. O sangue entra em contato com o ar
todas as vezes que passa pelos pulmões e, da mesma maneira que uma agulha é atraída para um imã, o oxigênio do ar
inspirado se mistura com o ferro no sangue. Realiza-se, então, um processo de combustão que é semelhante à
ferrugem ou oxidação que observamos no ferro exposto ao ar.
O éter contido em uma fibra densa de madeira, depois de ter passado pelo processo de combustão em uma
fornalha, passa para fora através do ferro sob forma de ondas de calor semi-invisíveis, que vibram em diferentes
velocidades, de acordo com o grau de calor na fornalha. Assim, a vibração espiritual, gerada pela combustão de
oxigênio e ferro em nossos corpos físicos, passa para fora e colore nossos veículos invisíveis de acordo com o seu grau
vibratório. As vibrações baixas parecem vermelhas, as mais altas são amarelas e as mais altas de todas são azuis. A
experiência ensinou-nos que material combustível pode ser colocado em uma fornalha com todas as condições
necessárias para a combustão, porém, até que se use o fósforo, os materiais não serão consumidos. Aqueles que
estudaram as leis de combustão sabem que uma corrente de ar bem forte leva consigo grande quantidade de
oxigênio, que é necessário para se obter calor do combustível que contém muito mineral. A razão disto é que os
minerais, por estarem mais baixo na escala da evolução, vibram em grau mais lento do que a planta, o animal ou o
homem. Portanto, é necessário o máximo esforço para elevar as vibrações a um grau em que a combustão possa
liberar sua essência espiritual. Oxigênio é o acelerador desse processo. Se a mesma quantidade de oxigênio fosse
aplicada a um bom combustível vegetal que vibra a um grau muito mais elevado que o do mineral, a fornalha correria
o risco de destruição devido à intensidade do calor gerado.
Um processo similar ocorre dentro do corpo, que é o templo do espírito. É a chama que acende o fogo interior
e gera o produto espiritual que se exterioriza de todas as criaturas de sangue quente, da mesma maneira que o calor
se irradia de uma estufa. (Criaturas de sangue frio estão tão baixo na escala da evolução que ainda não possuem
nenhuma vida dentro de si, no entanto, são muito ajudadas de fora pelo espírito-grupo e é o espírito-grupo que gera
as correntes dadoras de vida, responsáveis pela animação nestas criaturas. Estas correntes passam para dentro para
sustentar a vida nascente, até que esta seja capaz de responder e começar a enviar, de si própria, correntes para fora).
Estas linhas radiantes de força que emanam de nossos corpos densos de maneira invisível à visão física, são nossa
aura, como já foi dito, e, não obstante a cor da aura de cada indivíduo diferir da dos outros, existe uma cor básica ou
fundamental que mostra sua posição na escala da evolução. Nas raças inferiores esta cor básica é um vermelho fraco,
semelhante ao vermelho de um fogo que queima lentamente, que indica sua natureza passional e emocional. Ao
examinarmos as pessoas que estão em grau mais elevado na escala da evolução, a cor básica ou a vibração irradiada
por elas parece ser de uma tonalidade alaranjada, que é o amarelo do intelecto misturado com o vermelho da paixão.
Pela alquimia espiritual, que elas realizam inconscientemente à medida que avançam no caminho do progresso e
aprendem a fazer com que suas emoções sejam subservientes à mente através de muitas experiências na escola da
vida, elas estão se libertando aos poucos da dependência dos espíritos marciais de Lúcifer e do Deus da Guerra, Jeová,
cujas cores são escarlate e vermelha. Isto também acontece ao obedecermos consciente ou inconscientemente ao
Espírito Cristo unificante e altruísta, cujas vibrações produzem uma cor amarela que está assim se mesclando com o
vermelho e gradualmente o eliminará. A auréola dourada ao redor dos santos, pintada por artistas dotados de visão
espiritual, é a representação física de uma promessa espiritual que se aplica à humanidade como um todo, embora
isto tenha sido compreendido apenas por alguns poucos, que são chamados Santos. Após vidas de luta com suas
paixões, perseverança no fazer o bem, cultivando nobres aspirações e depois de aderir firmemente a propósitos
superiores, estas pessoas elevaram-se acima do raio vermelho e estão agora totalmente imbuídas com o raio dourado
de Cristo e sua vibração. Este fato espiritual foi incorporado por artistas medievais dotados de visão espiritual em seus
quadros de santos, que os pintavam rodeados por uma auréola dourada, indicando sua emancipação do poder dos
espíritos Lucíferos de Marte, que são os anjos caídos, assim como de Jeová e Seus anjos, que pertencem a um estágio
anterior de evolução e são os guardiães das religiões nacionais e de raça. Os espíritos de Lúcifer encontram expressão
no ferro em nosso sangue. Ferro é um metal de Marte, difícil de ser colocado em alta vibração, tão difícil que demora
muitas vidas de grande esforço para mudar o produto de sua combustão para a cor dourada que designa o Santo.
Quando isto é conseguido, o grande feito da alquimia foi consumado; o metal base se transformou em ouro, a
maravilhosa liga do Mar Fundido que foi feita da escória da terra. Então, só falta "abrir as comportas" e despejá-la. A
cor dourada natural é o raio de Cristo, que encontra sua expressão química no oxigênio, um elemento solar, e, à
medida que avançamos no caminho da evolução em direção à Fraternidade Universal, até mesmo os que não são
declaradamente religiosos adquirem um matiz de ouro em suas auras, devido aos mais altos impulsos altruístas,
comuns no Ocidente. Paulo se refere a isto, ao dizer "Cristo sendo formado em vós", pois quando tivermos aprendido
a misturar a liga por meio de vidas espirituais, quando vibrarmos no mesmo grau que Ele, seremos semelhantes a
Cristo, prontos para "abrir as comportas" dos cadinhos e verter a liga do Mar Fundido. Cristo foi libertado da cruz por
centros espirituais localizados nos lugares onde os cravos foram pregados, e em outras partes. Aquele que já preparou
o Mar Fundido também é instruído pelo Mestre como abrir as comportas e voar para esferas mais altas e, conforme a
expressão Maçônica, "viajar por países estrangeiros".
Isto está em harmonia com a máxima de Cristo quando diz que para tornarmo-nos Seus discípulos, é preciso
deixar pai e mãe. Esta é uma das severas asserções do Evangelho e geralmente é mal compreendida por entender-se
que se refere ao pai e à mãe físicos na vida presente, enquanto que, segundo o ponto de vista esotérico, pretendeu-se
algo muito diferente. Para captarmos a ideia, vamos recordar que os espíritos de Lúcifer, com a introdução do ferro no
sistema, fizeram com que fosse possível ao ego humano tornar-se um espírito interno; porém, a contínua oxigenação
do sangue faz com que, com o tempo, o corpo fique inadequado como morada, seguindo-se a morte. Embora os
espíritos de Lúcifer nos tenham ajudado dentro do corpo, eles são também os anjos da morte, e os descendentes de
Samael e de Eva estão sujeitos a ela, assim como os filhos dela e de Adão pois são todos de carne.
O Sol é o centro de vida e rege o gás dador de vida que conhecemos como oxigênio, o qual se mistura com o
ferro marcial. Assim, Cristo, o Senhor do Sol, é também o Senhor de Vida e quando, pela alquimia espiritual como já
foi explicado, tornamo-nos semelhantes a Ele, somos imortais e assim deixamos nosso pai Samael e nossa mãe Eva, e
a Morte não terá mais domínio sobre nós. Isto não quer dizer que a morte não possa acontecer para o corpo de tais
pessoas, mas o corpo está totalmente sob o controle delas e um corpo usado por tais pessoas geralmente dura
centenas de anos, a menos que se torne conveniente tomar outro corpo. Então, pelo mesmo processo de alquimia
espiritual, elas são capazes de criar um corpo adulto para si mesmas e abandonar o antigo que desejam substituir pelo
novo que fizeram anteriormente e que está apto a servir a seus propósitos. A pergunta surgirá agora na mente do
leitor: "Como pode um Iniciado criar um novo corpo adulto, pronto para ser usado, antes de abandonar seu velho
corpo?" A resposta a esta pergunta envolve a compreensão da lei de assimilação. Devemos dizer, no entanto, que
nem mesmo aquele que tem conhecimento do mundo espiritual e aprendeu recentemente a funcionar no corpo alma,
é capaz de realizar este feito. Isto requer um desenvolvimento espiritual muito grande e somente aqueles que estão
muito elevados na escala da iniciação, na nossa época atual, são capazes disto. Diz-se, porém, que o método é o
seguinte:
Quando o alimento é ingerido, seja por um Adepto ou por um ignorante destes conhecimentos, a lei de
assimilação diz que ele deve primeiro dominar cada partícula e ajustá-la a si próprio. Deve subjugar e conquistar a
célula vital individual antes que esta se torne parte de seu corpo. Quando isto tiver sido feito, a célula ficará com ele
por maior ou menor espaço de tempo, de acordo com a constituição e o lugar, no processo de evolução da vida que
nele habita. A célula composta de tecido que uma vez foi incorporada no corpo de um animal e interpenetrada por um
corpo de desejos, possui a mais desenvolvida célula de vida, portanto, esta vida rapidamente se recompõe e deixa o
corpo que a assimilou temporariamente. Esta é a razão porque aquele que segue um regime de carne precisa
alimentar-se com mais frequência. Este alimento não é o apropriado para a construção de um corpo, que precisa
esperar algum tempo antes que o Adepto entre nele. Alimentos constituídos de vegetais, frutas e nozes,
principalmente quando estão maduros e frescos, são interpenetrados por grande quantidade de éter que compõe o
corpo vital da planta. São muito mais fáceis de dominar e de se incorporar na constituição do corpo, como também
permanecem por muito mais tempo lá, antes que a célula de vida individual possa se ajustar. O Adepto que deseja
construir um corpo para ser usado antes de deixar o antigo, deve construí-lo de vegetais frescos, frutas e nozes,
consumindo estes alimentos diariamente para que se tornem sujeitos à sua vontade, e sejam uma parte de si.
O corpo-alma de tal homem é, naturalmente, muito amplo e poderoso; ele separa uma parte desse corpo e
faz um molde ou matriz no qual pode construir, diariamente, com partículas físicas supérfluas, não necessárias para o
corpo que está usando. Assim, aos poucos, tendo assimilado grande quantidade de material novo, ele pode retirar do
veículo que está usando, material que será incorporado ao novo corpo. Com o decorrer do tempo, gradualmente,
consegue transmutar um corpo em outro e quando chega ao ponto em que o definhamento do corpo velho pode ser
observado exteriormente, ele já preparou o novo que está pronto para ser usado, podendo, então, sair do velho corpo
e entrar no novo. Mas não faz isto somente para viver na mesma comunidade. Ele pode, devido ao seu grande
conhecimento, usar o mesmo corpo por muitos séculos e ainda parecer jovem, porque nele não existem os desgastes
naturais que nós, mortais comuns, produzimos com nossas paixões, emoções e desejos. Mas, quando ele cria um
corpo novo, pelo menos até onde o autor tem conhecimento, é sempre com o objetivo de sair do ambiente em que
está para trabalhar em um novo lugar. Esta é a razão de ouvirmos falar de homens como Cagliostro, Saint Germain e
outros, que um dia apareciam em um certo lugar, realizavam um importante trabalho e depois desapareciam.
Ninguém sabia de onde vinham ou para onde iam, mas todos que os conheceram atestaram suas relevantes
qualidades, quer caluniando-os ou elogiando-os. Esta transição do Adepto, do domínio da morte para o domínio da
imortalidade, foi pressagiada no salto ousado de Hiram Abiff, o Grande Mestre Artífice do Templo de Salomão, no mar
ardente de metal fundido e na sua passagem pelos nove arcos, semelhantes aos estratos da terra que formam o
caminho da iniciação. Da mesma forma, no batismo de Jesus e na Sua subsequente descida do Gólgota à região
subterrânea, onde seu corpo vital ainda está à espera do dia da definitiva saída do Espírito Cristo, no segundo
advento. Em nosso próximo capítulo seguiremos Hiram Abiff através deste caminho de iniciação até a incorporação
que usou na época do aparecimento de Cristo na Terra, mostrando onde e como ele recebeu a nova iniciação.
Capítulo VII - A Pedra Filosofal: O Que É e Como É Feita
Aqueles que estudam o que escreveram os antigos alquimistas, ficam sempre confusos com o que foi dito a
respeito da Pedra Filosofal e do processo de transmutação dos metais inferiores em ouro. Estas explicações suscitam,
o que é natural, grande número de especulações. Algumas vezes, os nossos estudantes solicitam uma declaração do
autor sobre este assunto de suma importância, e, como estamos no umbral de uma nova era, onde esta joia preciosa
com todo seu poder será possuída por um número considerável de pessoas, sentimos que é importante levantar o
mistério que o envolve e falar dele de maneira clara. Portanto, todos que realmente desejam passar pelo trabalho que
isto envolve -trabalho árduo, pois tudo que vale a pena ter jamais é conseguido sem um custo - podem saber como
obter esta gema valiosa.
Aprendemos que no início Deus criou o Céu e a Terra - na verdade todo o universo - e compreendemos que
esta grande força criadora se expressa como vontade e imaginação. Pela imaginação, o Grande Arquiteto do Universo
deve ter visualizado primeiro tudo como é agora, ou como no início foi criado. Depois, por Sua vontade, os átomos
físicos foram ordenados nesta matriz de pensamento, fazendo com que o universo, gradualmente, entrasse em
manifestação, como foi designado pelo seu criador. Este processo ainda não está completo, mas continuará até que o
Todo se torne perfeito como originalmente projetado.
As divinas Hierarquias que executaram o plano do Grande Criador, também usaram a mesma dupla força
criadora ao modelarem o cristal no mineral, a folha da planta, ou a forma do animal. Sua poderosa imaginação retrata,
na região arquetípica da terra, o que elas desejam criar e, com esta vontade concentrada, elas moldam a matéria mais
grosseira nesta matriz até que ela tome uma forma física definida, como foi desejada.
O homem, o espírito, possui um poder criador semelhante, e aprendeu, através das eras sob a orientação dos
Deuses, a construir corpos de valor cada vez maior como instrumentos para sua expressão. Sua peregrinação através
da matéria foi empreendida com o propósito de torná-lo uma inteligência criadora independente e, para alcançar este
fim, era necessário que no devido tempo fosse emancipado da tutela dos Deuses para aprender a criar, não só para si
próprio, mas também para ajudar e ensinar outros na grande Escola da Vida.
Durante o curso de sua evolução, o homem tornou-se cada vez mais iluminado em relação ao mistério da
Vida. Contudo, há algumas centenas de anos atrás, a vida e a liberdade foram colocadas em perigo pela expressão de
opiniões que eram consideradas avançadas para os pontos de vista comumente aceitos. Foi por esta razão que os
alquimistas, que haviam estudado este assunto com mais profundidade, foram forçados a expressar seus
ensinamentos em linguagem altamente alegórica e simbólica. Seus ensinamentos relativos à evolução espiritual do
homem, e o uso dos termos Sal, Enxofre, Mercúrio e Azoth, tão confusos para as massas, estavam enraizados em
verdades cósmicas, altamente iluminadoras para o Iniciado. Os estudantes dos ensinamentos Rosacruzes, que
aprenderam como o mundo surgiu e o processo da criação gradual, não deveriam ter dificuldade em compreender
adequadamente a linguagem dos alquimistas.
Sabemos que houve uma época em que o homem em formação era um hermafrodita, masculino-feminino, e
capaz de criar a partir de si mesmo, e nos lembramos também que, naquela época, ele era, em outros aspectos,
semelhante ao vegetal. Sua consciência era iguala que possuímos no sono sem sonhos e que é possuída pelo vegetal.
A energia vital, que ele absorveu em seu corpo, era usada exclusivamente com o propósito de crescer até o momento
da propagação, quando um novo corpo embrionário era libertado para também crescer. Não havia incentivo para agir,
mas, se tivesse havido, o homem não teria tido nem mente nem vontade para dirigi-lo.
Para a emancipação da humanidade desta condição negativa, metade da força criadora foi dirigida para cima,
sob a direção dos Anjos, com o propósito de construir uma laringe e um cérebro para que o homem pudesse aprender
a criar pelo pensamento como fazem as divinas Hierarquias, e expressar o pensamento criador em palavras. Assim, o
homem parou de ser fisicamente hermafrodita e tornou-se unissexual. Não pode mais criar fisicamente de si mesmo,
como fazem as plantas hermafroditas, nem psiquicamente como fazem os Elohim, os Hierarcas masculino-feminino,
de cuja imagem ele foi originalmente feito, e assim ocupa, no período atual, uma indesejável posição intermediária
entre o vegetal e Deus.
Na época em que metade da força sexual humana foi dividida com o propósito de construir o cérebro, os
homens estavam desamparados e não sabiam como superar essas condições. Não tinham nem mesmo consciência
para compreender que havia uma dificuldade e se não tivesse havido ajuda externa, a raça teria desaparecido.
Portanto, os Anjos da Lua, que eram os guardiães da humanidade, agrupavam os sexos em grandes templos quando
as linhas interplanetárias de força eram propícias à propagação e, assim, perpetuavam a raça. Foi proposto também
que, quando o cérebro se completasse, os Senhores de Mercúrio, os Irmãos Maiores de nossa atual humanidade, que
possuíam uma inteligência excepcional, deveriam ensinar-nos como usar a mente e torná-la realmente criadora para
que não mais ficássemos dependentes do processo de geração através da separação sexual, agora em voga. Pelo
trabalho destas duas grandes Hierarquias fomos elevados da inconsciência para o primeiro estágio de inteligência
criadora, do vegetal para Deus.
Aprendemos que este plano foi frustrado pelos Espíritos de Lúcifer, os atrasados da humanidade do Período
Lunar, que vivem no planeta Marte. Eles precisavam de um campo físico de ação, mas não foram capazes de criar um
para eles próprios; daí, por razões egoístas, ensinaram à humanidade como, com a cooperação dos sexos, um novo
corpo podia ser criado a qualquer momento e, para dar um incentivo maior, instilaram na humanidade a natureza
passional animal que possuímos hoje.
Assim, para os antigos alquimistas, os Anjos da Lua que regem as marés foram designados pelo termo "Sal".
Eles descobriram que uma determinada quantidade de sal no sangue é necessária para os processos mentais,
enquanto que o excesso produz insanidade, como é provado pelas experiências de marinheiros náufragos que se
tornaram lunáticos ao beberem água que continha o elemento lunar Sal. Portanto, estabeleceram uma conexão entre
a Lua e a mente.
Os ígneos espíritos de Lúcifer, que tiveram uma participação tão maléfica na evolução do homem, foram
associados ao elemento ígneo "Enxofre". Os alquimistas diziam que o homem se tornava inconsciente e morria pela
contínua inalação deste elemento, isto é, o homem, o espírito, tornava-se inconsciente e morria para os reinos
espirituais através dos ensinamentos que lhes foram instilados pelos espíritos de Lúcifer.
O metal Mercúrio, eles argumentavam, é o mais ardiloso de todos os metais, pois penetra e se evapora
através da maioria das substancias com as quais é posto em contato.
Daí, compararem-no aos Senhores de Mercúrio, que são os antigos mestres em penetrar os segredos da
natureza através da mente. Mercúrio é capaz, também, de libertar o espírito de sua casa-prisão física.
Pelo processo da geração, levado a efeito em época propícia sob a direção dos Anjos, o homem estava
trilhando o caminho do vegetal para Deus, seguindo a estrada da evolução como foi planejada originalmente.
Deste caminho ele se desviou para os atalhos da degeneração, dirigido pelos espíritos de Lúcifer, e, em
consequência, está agora em um lamaçal do qual não pode se desenredar a não ser com a ajuda de outros mais
avançados que ele.
Quando toma consciência disto, começa a procurar a luz e coloca-se no caminho da regeneração, protegido
pelos Senhores de Mercúrio que, com sua sabedoria, o guiarão à meta desejada. O método esboçado pelos antigos
alquimistas será comentado em poucas palavras depois de termos resumido os pontos já abordados. Estes devem ser
bem fixados para o entendimento completo do que se segue.
A força criadora usada por Deus na manifestação de um sistema solar e a força usada pelas divinas Hierarquias
para formar o veículo físico dos reinos inferiores, sobre os quais elas reinam como espíritos-grupo, expressam-se de
dupla maneira como Vontade e Imaginação, e é a mesma força criadora unida ao macho e à fêmea que resulta na
criação de um corpo humano. Em uma determinada época, o homem era bissexual, masculino-feminino e cada um
era capaz de propagar sua espécie sem a ajuda de outrem. Porém, metade da força criadora foi, temporariamente,
desviada para cima a fim de construir um cérebro e uma laringe, com a finalidade de capacitá-lo a criar, algum dia, por
sua própria mente, a formar pensamentos e expressar a palavra de poder que farão de seus pensamentos, carne. Três
grandes Hierarquias criadoras estavam especialmente ligadas a esta mudança: Os Anjos da Lua, os Mercurianos e os
espíritos Lucíferos de Marte. Os Alquimistas relacionavam os Anjos da Lua, que regem as marés salinas, com o
elemento sal; os espíritos Lucíferos de Marte com o elemento enxofre; e os Mercurianos com o metal mercúrio. Eles
usavam esta representação simbólica, em parte devido à intolerância religiosa que tornava inseguro divulgar qualquer
outro ensinamento que não fosse o aprovado pela igreja ortodoxa daqueles dias e, em parte, porque a humanidade
como um todo, ainda não estava preparada para aceitar as verdades incorporadas em sua filosofia. Falavam, também,
de um quarto elemento, Azoth, um nome composto da primeira e da última letra de nossas línguas clássicas, que
pretendia exprimir a mesma ideia de "alpha e ômega" - a ideia de abranger tudo. Isto se referia ao que agora
conhecemos como o raio espiritual de Netuno, que é a oitava de Mercúrio e que é a essência sublimada do poder
espiritual.
Os alquimistas sabiam que a natureza moral e física do homem havia se tornado grosseira e vulgar devido às
paixões inculcadas pelos espíritos de Lúcifer, e que um processo de destilação e refinamento era necessário para
eliminar estas características e elevar o homem às alturas sublimes, onde o esplendor do espírito não fosse mais
obscurecido pela cobertura grosseira que agora impede que ele seja visto. Consequentemente, viam o corpo como
um laboratório e se referiam aos processos espirituais em termos químicos. Perceberam que estes processos têm seu
começo e seu campo particular de atividade na medula espinhal que forma o elo entre os dois órgãos criadores, o
cérebro, que é o campo de operação para os intelectuais Mercurianos, e os genitais, que são terreno próprio dos
sensuais e passionais espíritos de Lúcifer.
Esta medula espinhal tripartida era, para os alquimistas, o cadinho da consciência; eles sabiam que na secção
simpática da medula, que governa especialmente as funções ligadas à conservação e ao bem-estar do corpo, os Anjos
Lunares estavam ativos, e este segmento foi designado como o elemento sal. O segmento que governa os nervos
motores, os quais gastam a energia dinâmica armazenada no corpo por nossa alimentação, estavam sob o domínio
dos marciais espíritos de Lúcifer, daí terem chamado este segmento de enxofre. O segmento remanescente, que
marca e registra as sensações desenvolvidas pelos nervos, foi chamada de mercúrio porque dizia-se que estava sob o
domínio de seres espirituais de Mercúrio. O Canal espinhal, ao contrário das ideias dos anatomistas, não está cheio de
fluído, mas de um gás que se assemelha ao vapor, no sentido de que pode ser condensado quando exposto à
atmosfera externa, mas que pode também ser superaquecido pela atividade vibratória do espírito, de tal maneira que
se torna um fogo brilhante e luminoso, o fogo da purificação e da regeneração. Este é o campo de ação da grande
Hierarquia espiritual de Netuno e é designada como Azoth pelos alquimistas. Este fogo espiritual não é igual em todos
os homens, e a sua luminosidade difere de um para outro, de acordo com o avanço espiritual da pessoa.
Quando o aspirante à vida superior era instruído nestes mistérios de simbolismo e chegava o momento de
falar-lhe claramente, novos ensinamentos eram-lhe comunicados, não necessariamente nestas palavras ou desta
maneira. De qualquer modo, ficava claro para ele que - "anatomicamente o homem relaciona-se com os animais, e
abaixo desse reino, na escala da evolução, estão as plantas. Elas são puras e inocentes, suas práticas de propagação
são destituídas de paixão, e toda sua força criadora está voltada para cima, em direção à luz, onde se manifestam
como a flor, proporcionando prazer e beleza para todos que a veem. Todavia, as plantas são incapazes de agir de
outra maneira, pois não têm inteligência, consciência do mundo externo, nem livre arbítrio para a ação. Portanto, só
podem criar no mundo físico".
"Acima do homem, na escala de evolução, estão os deuses, criadores nos planos espiritual e físico. Eles
também são tão puros como as plantas, pois toda sua força criadora está voltada para cima e ela é usada de acordo
com a sua inteligência; sendo assim, conhecendo o bem e o mal, eles sempre escolhem fazer o bem".
"Entre os deuses e o reino vegetal fica o homem, um ser dotado de inteligência, poder criador e de livre
arbítrio para usá-lo para o bem ou para o mal. No momento, ele está dominado pela paixão instilada pelos espíritos de
Lúcifer e envia metade de sua força criadora para baixo, para gratificar seus sentidos. No mais íntimo de sua alma ele
percebe que isto está errado, e esconde esse instinto com vergonha, sentindo-se aborrecido quando isto é trazido à
luz. Esta condição deve ser alterada para que possa haver o progresso espiritual e é necessário levar-se em
consideração a semelhança entre a planta casta e os puros deuses espirituais, sendo que ambos voltam toda sua força
criadora para cima, em direção à luz. No decorrer da evolução, o homem elevou-se acima da planta que possui poder
criador somente no mundo físico, e tornou-se igual aos deuses, possuindo poder criador nos planos mental e físico da
existência, além da inteligência e do livre arbítrio para dirigi-lo. Isto foi conseguido pelo desvio de metade de sua força
sexual para cima para construir um cérebro e uma laringe, órgãos que ainda são alimentados e nutridos por esta
elevação da metade da força sexual. Porém, enquanto os deuses dirigem toda sua força criadora para propósitos
altruístas pelo poder da mente, o homem ainda desperdiça metade de sua herança divina no desejo e na gratificação
dos sentidos. Portanto, se quisermos ser iguais a eles, precisamos aprender a dirigir toda nossa energia criadora para
cima. para ser usada inteiramente sob a direção de nossa inteligência. Só assim poderemos ser iguais aos deuses e
criar de nós mesmos pelo poder de nossa mente e pela Grande Palavra, pela qual poderemos enunciar o fiat criador.
Lembremos que, fisicamente, já fomos um dia hermafroditas como a planta, e capazes de criar por nós mesmos.
Olhando para o futuro através da perspectiva do passado, percebemos que a atual condição unissexual é somente
uma fase temporária de evolução e que, no futuro, toda nossa força criadora deverá ser dirigida para cima afim de
sermos espiritualmente hermafroditas e capazes de objetivar nossas ideias e pronunciar a palavra vivente que nos
dotará de vida e nos fará vibrantes com energia vital. Esta dual força criadora, assim expressa pelo cérebro e pela
laringe, é o "elixir vitae" que surge da pedra viva do filósofo espiritualmente hermafrodita. O processo alquimista de
despertá-lo e elevá-lo é realizado na medula espinhal onde o sal, o enxofre, o mercúrio e o Azoth são encontrados. Ele
é elevado à incandescência pelo pensamento sublime e nobre, pela meditação sobre assuntos espirituais, e pelo
altruísmo expresso na vida diária. A segunda metade da energia criadora assim atraída para cima através do canal
espinhal, é um espírito-fogo espinhal, a serpente da sabedoria. É conduzido cada vez mais para o alto e, ao alcançar o
corpo pituitário e a glândula pineal no cérebro, faz com que elas vibrem abrindo os mundos espirituais e capacitando
o homem a se comunicar com os deuses. Então, este fogo se irradia em todas as direções, permeia todo o corpo assim
como sua atmosfera áurica, e o homem se torna uma pedra viva, cujo brilho supera o do brilhante ou o do rubi. ELE é
então "A Pedra Filosofal".
Existem muitos outros símbolos tirados do mundo da química e aplicados aos processos de crescimento
espiritual que, eventualmente, fazem com que os homens sejam pedras vivas no templo de Deus. Muito já foi dito
sobre os antigos alquimistas e a razão de encobrirem seus ensinamentos em linguagem simbólica. O caminho para a
iniciação está e sempre esteve aberto a qualquer um que, real e verdadeiramente, procure a iluminação e deseje
pagar o preço com a moeda da abnegação e do auto sacrifício. Portanto, procure a porta do templo e a encontrará;
bata e ela ser-lhe-á aberta. Se procurá-la piedosamente, se bater com persistência e se trabalhar nobre e bravamente,
você alcançará o objetivo e se tornará A Pedra Filosofal.

Celibato e Matrimônio

Para evitar algum mal-entendido, devemos dizer que esta lição foi dada ao aspirante ao discipulado, para
mostrar-lhe porque é necessário que viva uma vida pura e casta. Isto não se aplica às massas que não possuem
nenhuma aspiração espiritual e são ainda incapazes de dominar suas paixões. Os Rosacruzes não pregam uma vida
totalmente celibatária para seus estudantes, ao contrário, eles consideram um dever religioso para o homem ou
mulher místicos e iluminados casarem-se com uma pessoa de espírito semelhante, se for possível encontrá-la, e
fornecerem às almas uma oportunidade para o renascimento. Quando um casal devotado realiza o ato gerador na
aspiração de servir um ego que está à espera, quando as condições pré-natais são mental, moral e fisicamente puras,
quando os dias da primeira infância do ego são passados em um ambiente familiar de elevados e nobres
pensamentos, tanto os pais quanto os filhos estão fazendo um maravilhoso progresso. E, como grandes almas não
podem nascer de pais ignóbeis, da mesma maneira que a água não pode descer abaixo de seu nível, seria errado que
o aspirante ao discipulado vivesse uma vida totalmente celibatária para auto desenvolver-se, quando as condições
permitem que ele contraia matrimônio. Além do mais, o uso da força criadora nas ocasiões da vida em que ela é
requerida legitimamente para a propagação, não vai interferir no desenvolvimento espiritual empreendido para se
tornar a Pedra Filosofal, e o crescimento anímico, adquirido ao assumir os deveres da paternidade e maternidade,
excederiam o peso de qualquer perda possível.
O que os Rosacruzes ensinam é que o casamento entre pessoas que limitam o uso da função criadora com o
propósito da propagação, é eminentemente bom, nobre e produz um grande crescimento anímico, mas os aspirantes
que não se casam devem viver uma vida absolutamente celibatária se desejarem elevar-se.
Capítulo VIII - O Caminho da Iniciação
Em um capítulo anterior, observamos que a transição do Adepto, do domínio da morte para o reino da
imortalidade, foi pressagiado no salto audacioso de Hiram Abiff, o Grande Mestre Construtor do Templo de Salomão,
quando se atirou no agitado mar de metal fundido, passando pelos nove estratos da terra, que se assemelham ao arco
que forma o caminho da Iniciação. Lembramo-nos também que, ao fim daquele percurso, Hiram Abiff, o Filho de
Caim, recebeu de seu ancestral um novo martelo e uma nova palavra para usar na Nova Era. De acordo com os
Evangelhos, também descobrimos que Jesus, o Filho de Seth, logo após sua descida do Gólgota, entrou no estrato
subterrâneo onde permaneceu por algum tempo em comunicação com os espíritos que lá habitam. Assim, os vários
estratos da terra, da circunferência até o centro, formam o caminho da Iniciação tanto para os Filhos de Seth quanto
para os Filhos de Caim, e é por isso que pouco ou nada é dito sobre a construção interna da terra no grande número
de livros que tratam de assuntos de ocultismo. Aqueles que são simplesmente psíquicos, não sabem disto, e aqueles
que realmente sabem, não dizem muito. Há um capítulo sobre este assunto no "Conceito Rosacruz do Cosmos", e é a
esta obra que o leitor deverá recorrer caso queira ter outras informações que aqui não foram dadas.

Hiram Abiff

O caminho da Iniciação é mantido de diversas maneiras. Enquanto caminhamos na terra em nossos corpos
físicos, somos atraídos para o centro dela pela força de gravidade; mas, como nossos corpos são sólidos na mesma
densidade do material do qual é composto nosso globo, não afundamos na terra por deslocamento como
afundaríamos na água, ou por interpenetração como passaríamos pelo éter. Quando a morte vem e abandonamos o
chamado invólucro mortal, encontramo-nos em veículos mais sutis que os elementos da terra. Uma pessoa revestida
com estes veículos mais sutis poderia penetrar facilmente nos vários estratos de nosso globo até o centro, se não
existissem outros obstáculos. Tendo largado o corpo denso, ela não está mais sujeita à gravitação, mas à levitação e,
por isso, sempre acha muito difícil ficar na superfície da terra. Somente durante a primeira parte de sua experiência
"post-mortem", quando ainda está carregada do éter mais grosseiro e da matéria de desejos, é que isto é possível
para ela. Quanto maior quantidade desta substancia densa tiver reunido pela indulgência à sua natureza inferior e
pelo cultivo dos hábitos de embriaguez, cobiça, ódio, maldade, imoralidade e outros vícios, mais fácil será para a
pessoa ficar próxima a bares, casas de jogo, zonas de meretrício e lugares semelhantes. Mas, o homem de ideais
elevados e aspirações sublimes, aquele que procura o caminho da Iniciação, sente a força impelente da levitação
puxando-o para fora, para o estrato mais puro do ar onde o Primeiro Céu está localizado e assim não há possibilidade
de desviar-se do caminho da Iniciação. Contam-se histórias de Iniciados que conseguiram dominar a lei de gravitação
enquanto ainda no corpo denso, para elevarem-se no ar em determinados momentos com um propósito definido. Os
Iniciados aprendem como interromper a lei da levitação quando estão em seus corpos alma, e como passar pelos nove
estratos da terra. Diz-se que Jesus era o filho de um carpinteiro, mas a palavra grega é tekton e significa construtor;
arche é o nome grego de matéria primordial. Diz-se que Jesus era também um carpinteiro (tekton) . É verdade, ele era
um tekton, construtor ou maçom, um Filho de Deus, o Grande Archetekton. Com a idade de trinta e três anos, quando
havia recebido os três vezes três (9) graus da Maçonaria Mística, Ele desceu ao centro da terra. O mesmo faz qualquer
outro tekton, maçom ou Phree Messen (filho da luz), como os Egípcios os chamavam, que desce através dos nove
estratos da terra em forma de arco. Encontraremos, na época do primeiro advento de Cristo, tanto Hiram Abiff, o
Filho de Caim, quanto Salomão, o Filho de Seth, renascidos para receber dEle a grande Iniciação dos Mistérios
Cristãos.
No último capítulo vimos, ao refletirmos sobre "A Pedra Filosofal", que a medula espinhal é o principal
laboratório do alquimista e que o espírito-fogo espinhal é gerado ao dirigir-se a força criadora para cima através do
canal espinhal, passando entre o corpo pituitário e a glândula pineal no cérebro. Isto dá ao homem um terceiro olho,
com o qual pode ver os mundos espirituais. Quando este espírito fogo serpentiforme evoluir o suficiente, ele poderá
ler, através de sua luz, a sabedoria das eras. Portanto, Cristo exortou Seus Discípulos para serem sábios como
serpentes. A palavra egípcia Naja, que significa serpente, é usada pelo menos uma vez na Bíblia Hebraica, no Salmo
58. No antigo Egito, os Faraós eram Reis e Sacerdotes, exercendo um cargo duplo, e, por isto, usavam uma coroa
dupla com um Uraeus ou cabeça de serpente colocada de tal maneira que, ao usar esta coroa, o Uraeus parecia
projetar-se da testa do Imperador por entre as sobrancelhas. A serpentiforme Uraeus era, portanto, um símbolo
adequado da sabedoria de quem a usasse.
Lembremo-nos que, de acordo com a Bíblia, o espírito de Lúcifer apareceu a Eva como uma serpente, um filho
da Sabedoria. Caim, de acordo com a lenda maçônica, nasceu desta união com Eva. É relatado, também, que o espírito
de Lúcifer abandonou Eva, que se tornou assim uma viúva e Caim era, portanto, o filho do espírito de Lúcifer, a
serpente da Sabedoria e de Eva, a viúva. Todo Iniciado tem, até hoje, o símbolo da serpente em sua fronte e é
conhecido por seus companheiros por aquele sinal como um filho da viúva e do espírito de Lúcifer.
Consequentemente, devemos reconhecer Hiram Abiff em sua próxima incorporação por esse sinal e é particularmente
valioso, de acordo com a lei, chamarmos atenção especial para os seguintes pontos do Testamento Latino Católico:
Em 1.° Samuel, Cap. 19, versão do rei James, Naioth é tido como um lugar onde moravam muitos profetas e
videntes, e dentre eles Samuel. Naioth é o plural feminino de Naja, uma serpente, que já mencionamos como sendo
uma palavra egípcia usada na Bíblia. Na versão latina, o mesmo lugar é tido como Naim, e Eusébio diz que estava
localizada próximo a Endor, famosa como a morada da feiticeira, por intermédio da qual Saul falou com Samuel depois
da morte do último. Mas, não é para supor-se que Naioth e Naim sejam lugares, ou que foram usados
alternadamente. Eles descrevem duas classes totalmente diferentes de pessoas espiritualmente dotadas, que os
antigos egípcios marcavam colocando o Uraeus na fronte de um e no umbigo do outro. Os últimos eram pessoas
mediúnicas, que recebiam impressões dos espíritos-controle através do plexo solar. Eles eram adequadamente
designados Naioth pelos Hebreus que usavam o sufixo feminino para indicar suas qualidades negativas. Mas os
clarividentes voluntários e o Iniciado, representados pelos Egípcios como tendo a serpentiforme Uraeus na testa,
eram chamados de Naim pelos Hebreus, que usavam o sufixo masculino para designar a faculdade espiritual positiva
que possuíam. E a versão latina Católica do Novo Testamento (Lucas, capítulo VII, versículos 11-15,) fala de uma
pessoa ressuscitada por Cristo como o filho da viúva de Naim.
Como a serpente não se desenvolve completamente até que o nono arco dos Mistérios Menores tenha sido
transposto e os candidatos tenham se tornado aspirantes dos Grandes Mistérios e, além disso, porque a Loja dos
Phree Messen (Filhos da Luz) do antigo Egito foi transferida para os diversos ramos da atual raça Anglo-Saxônica onde
o som Naim significa "nine" (nove), a palavra original foi alterada para enganar os que não estavam ainda preparados
para o conhecimento.
Como todas as coisas mudam nesta esfera terrestre, isto também se aplica aos métodos de Iniciação e aos
requisitos para adquiri-la. Hiram Abiff falhou em seu grande esforço para fazer o Mar Fundido na época em que estava
construindo o Templo de Salomão, porque ele, o filho dos ígneos espíritos de Lúcifer, não sabia como misturar o
elemento fogo com a água derramada em seu molde pelos Filhos de Seth, as criaturas do Deus da água, Jeová. Nesta
época foi-lhe dado um novo Martelo e uma nova Palavra. O Martelo tinha forma de uma Cruz. A Palavra foi escrita
sobre um disco, antes dele ser morto por seus adversários. Assim, ele adormeceu até que, como Lázaro, o filho da
viúva de Naim, ele foi ressuscitado pelo aperto forte da garra do leão, o Leão de Judá. Então, o disco foi encontrado,
assim como o novo Martelo em forma de cruz e, sobre o disco, o símbolo místico, A Rosa. Estes dois símbolos ocultam
o grande segredo da vida, a mistura da água e do fogo, como está simbolizado pela seiva fluídica nascida da terra, que
sobe através do tronco e do cálice da flor até as pétalas tingidas de fogo, nascidas pela pureza do Sol, porém ainda
protegidas pelos espinhos dos marciais espíritos de Lúcifer.
A Maçonaria exotérica, que é apenas a parte externa da Ordem Mística formada pelos Filhos de Caim, tem
atraído atualmente o elemento masculino com seus veículos físicos positivamente polarizados, e os tem dirigido para
a indústria e para a política, controlando, assim, o desenvolvimento material do mundo. Os Filhos de Seth, que
constituíam o Sacerdócio, empregaram sua fórmula mágica sobre os corpos vitais positivos do elemento feminino
para dominar o desenvolvimento espiritual. Enquanto os Filhos de Caim, através da Maçonaria e de movimentos afins,
lutaram abertamente pelo poder temporal, o Sacerdócio tem lutado com muita força e até mais eficazmente, para
manter seu controle sobre o desenvolvimento espiritual do elemento feminino. Para um observador comum pode
parecer que não existe antagonismo entre estes dois movimentos na época atual. Mas, embora a Maçonaria de hoje
não tenha mais o seu verdadeiro caráter místico antigo e o Catolicismo, pelo passar do tempo, tenha externamente
perdido o seu brilho, a divergência está tão viva como sempre. Os esforços da Igreja não estão concentrados nas
massas, como estão naqueles que procuram viver a vida superior a fim de ganhar a admissão ao Templo dos Mistérios
e aprender como fazer a Pedra Filosofal.
À medida que a humanidade avança em evolução, o corpo vital torna-se permanentemente mais positivo e
polarizado, dando aos dois sexos um maior desejo de espiritualidade e, embora mudemos do masculino para o
feminino em renascimentos alternados, a polaridade positiva do corpo vital está se tornando mais pronunciada,
independente do sexo. Este fato é responsável pela crescente tendência ao Altruísmo que está se manifestando em
razão do sofrimento advindo da grande guerra em que estamos agora lutando (1918), pois todos concordam que as
nações estão procurando obter uma paz duradoura, onde as espadas possam transformar-se em arados e as lanças
em podadeiras. No passado, a humanidade reivindicou a fraternidade universal como um grande ideal, mas
precisamos ficar mais perto disto tudo para estarmos em plena concordância com Cristo. Ele disse a Seus discípulos:
"Vós sois meus amigos". Entre irmãos e irmãs pode existir ódio e inimizade, mas a amizade é a expressão do amor e
um não pode existir sem o outro. Portanto, amizade universal é a palavra mágica que nivelará todas as diferenças,
trará paz ao mundo e boa vontade entre os homens. Este é o grande Ideal proclamado pela Fraternidade Rosacruz,
um Ideal que indica o caminho mais curto para o Novo Céu e a Nova Terra, onde os Filhos de Caim e os Filhos de Seth
finalmente serão unidos.
Capítulo IX - Armageddon, a Grande Guerra e a Próxima Era
O gráfico apresentado no Capítulo V mostra que houve uma Era em que a humanidade vivia em paz e
felicidade sob a guarda de um regente que exercia o duplo cargo de Rei e Sacerdote, sendo chefe tanto temporal
quanto espiritual da raça humana de duplo sexo. Ele é chamado Melquisedeque na terminologia bíblica e diz que ele
era o Rei de Salem, e Salem significa Paz. Depois, a humanidade foi dividida em dois sexos, masculino e feminino, e
colocada sob dupla regência: a de um Rei, dominando seus negócios temporais e procurando desenvolvê-los pela
indústria e política, e a de um Sacerdote, exercendo uma autoridade espiritual da maneira como considerava ser o
caminho para o bem eterno de seus tutelados.
A política empregada pelos Filhos de Caim favorece o ideal masculino, Hiram Abiff, o Senhor Artífice, o Filho
do Fogo, enquanto que os Filhos de Seth, o Sacerdócio, defendem o ideal feminino na Virgem Maria, a senhora do
mar.
Assim, fogo e água, masculino e feminino, Igreja e Estado são opostos entre si, com o inevitável resultado da
luta que vem sendo travada desde a separação. O pecado, a tristeza e a morte são predominantes e a humanidade
está orando para o dia da redenção, quando as duas correntes serão unidas no Reino do Céu, onde não existe nem
matrimônio nem o dar-se em matrimônio, e onde reina Cristo, o Rei da Paz, exercendo o cargo duplo de Rei e
Sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque, para o bem de todos.
Mas esta nova ordem não pode surgir em um dia. São precisas eras de preparação, não só na Terra em si,
como do povo que irá habitá-la. Para termos uma ideia de como as pessoas e esta Terra são constituídas será de muita
ajuda levarmos em consideração a carreira evolutiva da humanidade que nos conduziu até aqui e a Terra onde
vivemos hoje. Isto nos dará a possibilidade de avaliarmos o que está reservado para nós no futuro.
As tradições bíblicas e ocultas concordam com a ciência de que houve um tempo em que a escuridão reinava
sobre a profundidade do espaço. O material para o futuro planeta Terra estava sendo reunido e colocado em
movimento pelas Divinas Hierarquias. Este estágio foi seguido por um período de luminosidade, quando a nuvem
escura de matéria se tornou uma névoa incandescente. Em seguida, houve um período em que o frio do espaço e o
calor do planeta em formação geraram uma atmosfera de vapor próxima ao núcleo ígneo e também de neblina mais
adiante do centro ígneo. Quando a névoa se resfriava, caía de novo como chuva sobre o núcleo ígneo para ser re-
evaporada, e isto continuou por ciclos intermináveis até que, pela ebulição repetida das águas, uma incrustação
começou a formar-se ao redor do núcleo ígneo. Pelas incrustações no oceano de fogo, aprendemos que a humanidade
habitou em corpos físicos sólidos, que eram muito diferentes daqueles que temos hoje. Durante o estágio seguinte, a
crosta da Terra tornou-se suficientemente forte para cobrir todo o núcleo interior, e a humanidade viveu, então, nas
bacias da Terra, na região da névoa que era tão densa que a respiração era realizada por meio de brânquias
semelhantes as dos peixes e ainda observadas no embrião humano.
Quando as névoas de Atlântida começaram a acomodar-se, alguns de nossos antepassados tinham
desenvolvido pulmões embrionários e foram forçados a ir para as terras altas, anos antes de seus companheiros.
Portanto, eles vagaram no deserto enquanto a terra prometida, como a conhecemos hoje, estava emergindo das
névoas mais leves e, ao mesmo tempo, seus pulmões em crescimento os preparavam para viverem sob as atuais
condições atmosféricas. Duas outras raças nasceram nas depressões da Terra, depois que os pioneiros a deixaram.
Mais tarde, uma sucessão de enchentes os impeliu para as terras altas. A última enchente aconteceu quando o Sol,
por precessão, entrou no signo aquoso de Câncer, cerca de dez mil anos atrás, como foi contado a Platão pelos
Sacerdotes Egípcios. Vemos assim, que não existe mudança brusca de constituição ou de ambiente para toda a raça
humana quando uma nova época é introduzida. Há uma sobreposição de condições que torna possível para a maioria,
através da adaptação gradual, entrar nas novas condições, embora a mudança possa parecer repentina para o
indivíduo quando o trabalho preparatório é realizado inconscientemente. A metamorfose do sapo como um habitante
da água até o elemento aéreo, dá uma analogia da passada emersão da humanidade do continente da Atlântida para
a Era do Arco-íris ou Ariana. A transformação de uma larva em uma borboleta voando pelo espaço, é uma ilustração
apropriada da mudança que está por vir, do nosso atual estado e condição para os da Nova Galiléia, onde o Reino de
Cristo será estabelecido. Como será a mudança na constituição humana e no meio-ambiente, pode ser observado se
examinarmos as condições passadas como descritas na Bíblia, que está de acordo nos principais pontos com as
tradições ocultas. Este Novo Céu e Nova Terra estão agora em formação. Quando o celestial marcador do tempo, o
Sol, entrou em Áries por precessão, um novo ciclo começou e as boas novas foram pregadas por Cristo. Ele afirmou
implicitamente que o Novo Céu e a Terra ainda não estavam prontos, e disse a Seus discípulos "para onde Eu vou, vós
não podeis seguir-Me agora, mas podereis seguir-Me depois, Eu vou preparar um lugar para vós e voltarei e vos
receberei". Mais tarde, João viu, em visão, a Nova Jerusalém descendo do Céu, e Paulo exortou os Tessalonicenses,
pela palavra do Senhor, que aqueles que vivem em Cristo serão, na Sua próxima vinda, arrebatados no ar para
encontrá-Lo e estar com Ele para a Era. Isto está de acordo com as características mostradas nos desenvolvimentos
passados. Os Lemurianos viviam muito próximos ao núcleo ígneo da terra. Os Atlantes habitavam as bacias, um pouco
mais afastados do centro. Os Arianos foram impelidos pelas enchentes para o alto das montanhas onde estão vivendo
agora. E, analogamente, os cidadãos da Era por vir habitarão o ar.
Sabemos que nosso corpo denso gravita em direção ao centro da terra, portanto, uma mudança deve
acontecer. Paulo nos diz que a carne e o sangue não podem herdar o Reino do Céu. Mas ele também mostra que
temos uma soma psuchicon (traduzido erroneamente como corpo natural), um corpo-alma, e este é feito de éter, que
é mais leve que o ar e, portanto, capaz de levitação. Este é o Traje Nupcial Dourado, a Pedra Filosofal ou a Pedra Viva,
mencionados em algumas das filosofias antigas como a Alma Diamantina, pois esse traje é luminoso e brilhante - uma
gema sem preço. Era também chamado de Corpo Astral pelos Alquimistas medievais, devido à capacidade que ele
conferia àquele que o possuísse de atravessar as regiões estelares. Mas não deve ser confundido com o Corpo de
Desejos que alguns dos modernos pseudo ocultistas chamam erroneamente de Corpo Astral. Este veículo, o Corpo-
alma, será eventualmente desenvolvido pela humanidade como um todo, mas durante a mudança da época Ariana
para as condições etéricas da Nova Galiléia, haverá pioneiros que precederão seus semelhantes, da mesma maneira
que os Semitas o fizeram na mudança da Época Atlante para a Ariana. Cristo mencionou esta classe em Mateus, 11.°
Capítulo, 12.° versículo, quando disse: "Faz-se violência ao reino dos Céus e pela força se apoderam dele". Esta não é a
tradução correta. Devia ser: "O Reino dos Céus tem sido invadido" (do grego biaxetai) "e os invasores se apoderaram
dele". Homens e mulheres já aprenderam, através de uma vida santa e útil, a deixar de lado o corpo de carne e
sangue, de forma intermitente ou permanente, e a andar pelos céus com pés alados, concentrando-se sobre os
serviços de seu Senhor, vestidos no traje nupcial etérico da nova dispensação.
Esta mudança pode ser realizada através de uma vida de simples ajuda e prece, como é praticada pelos
Cristãos devotos, não importando a que igreja estejam filiados ou se seguem o caminho dos Filhos de Seth. Outros
conseguiram isso, seguindo os exercícios específicos dados pelos Rosacruzes. Assim, o processo da unificação das duas
correntes já está se processando. Mas a guerra entre a carne e o espírito ainda agita a maioria das pessoas, tão
ferozmente como aconteceu nos dias em que Paulo deu vazão a seus sentimentos reprimidos e falou-nos de como a
carne estava lutando contra o espírito dentro dele, e como fez coisas erradas que não queria fazer, omitindo as boas
ações que tão ardentemente aspirava realizar. A luta jamais cessará para o maçom Místico enquanto ele não aprender
a construir o Templo sem as mãos; templo que não estará completo até que ele chegue ao Décimo-oitavo (1 mais 8)
Grau, que é o Grau da Rosa Cruz. Este é o último do Trigésimo-terceiro Grau, pois três vezes três são nove, e um mais
oito são nove. Sendo nove o mais alto grau dos Mistérios Menores, aquele que já tenha passado este grau da genuína
Ordem Mística é, então, e somente aí, o filho da viúva de nove ou Naim, pronto para ser ressuscitado pelo forte
aperto da garra do Leão de Judá até ao Reino dos Céus. Lá receberá o "bem fizeste tu, bom e fiel servo, entra na
alegria de teu Senhor"; pois, "Aquele que supera, Eu o farei um Pilar na Casa de Deus, então dali não mais sairá". Ele é
imortal, liberto da roda de Nascimento e Morte.
Resumo
Para concluir, seria bom resumir os pontos que foram abordados nestes artigos sobre Maçonaria e
Catolicismo, entendendo-se que o termo "Catolicismo", como foi empregado aqui, não se refere apenas à Igreja
Católica Romana, sendo que "Católico" é usado no sentido de Universal, de maneira que o termo inclui todos os
movimentos iniciados pelos Filhos de Seth, o Sacerdócio.
A origem das correntes temporal e espiritual de evolução é a seguinte:
Jeová criou Eva, um ser humano.
O espírito Lucífero Samael uniu-se a Eva e gerou um filho semidivino, Caim. Como ele abandonou Eva antes do
nascimento do filho, Caim era o filho de uma viúva e uma Serpente da Sabedoria.
Depois Jeová criou Adão, um ser humano iguala Eva.
Adão e Eva se uniram e geraram um filho, humano como eles, cujo nome era Abel. Jeová, por ser o Deus
Lunar, está associado à água, daí ter havido inimizade entre Caim, o Filho do Fogo, e Abel, o Filho da Água. Caim,
então, matou Abel e Abel foi substituído por Seth.
Com o tempo e através de gerações, os Filhos de Caim tornaram-se os artesãos do mundo, hábeis no uso do
fogo e do metal. O ideal deles era masculino, Hiram Abiff, o Mestre artífice.
Os Filhos de Seth, por outro lado, tornaram-se clérigos, que defendiam um ideal feminino, a Virgem Maria, e
que regiam seu povo através da água mágica colocada nas portas de seus templos.
Várias tentativas foram feitas para unir as duas correntes da humanidade e emancipá-las de seus
progenitores, Jeová e os espíritos Lucíferos.
Com este objetivo, o Templo simbólico foi construído de acordo com as instruções de Salomão, Filho de Seth,
e o Mar Fundido foi moldado por Hiram Abo Filho de Caim; mas o objetivo principal foi frustrado como vimos, e a
tentativa de unificação malogrou.
Moisés, o líder da antiga dispensação, divinamente indicado e depois renascido como Elias, guiou a
humanidade durante os períodos de sua infância, e finalmente encarnou-se como João, o Batista, o arauto da nova
dispensação, a Era Cristã. Na mesma ocasião, os outros atores no Drama do Mundo também foram levados ao
nascimento para que pudessem servir seus irmãos.
Ao moldar o Mar Fundido, Hiram Abiff recebeu o batismo de fogo de Caim, o que o livrou dos espíritos
Lucíferos e foi-lhe dado um novo Martelo e uma nova Palavra. Quando a nova Era se manifestou, ele nasceu como
Lázaro, o filho da viúva de Naim, e ressuscitou, pelo aperto forte da garra do leão, para a fileira dos Imortais como
Christian Rosenkreuz.
Salomão, o Filho de Seth, renasceu como Jesus. O batismo da água administrado por João como
representante de Jeová, também o libertou. Naquele momento, Ele cedeu seu corpo para o Espírito Cristo que estava
descendo e permaneceu ao lado do novo líder.
A religião tem sido terrivelmente maculada com o decorrer do tempo, sua pureza primitiva há muito
desapareceu sob o regime do credo, e não é mais Católica, isto é, Universal. Seitas e "ismos" proliferam-se em várias
direções, mas Jesus, dos mundos invisíveis, ainda envolve com seu amor todos os Filhos de Seth que invocarão seu
nome pela fé e, finalmente, unirá as igrejas dispersas no Reino de Cristo.
Christian Rosenkreuz ficou encarregado dos Filhos de Caim, que procuram a luz do conhecimento no fogo
sagrado do Santuário Místico. Da mesma forma que a energia criadora implantada por seu divino antepassado Samael
fez com que Caim trabalhasse e criasse, assim também, essa mesma necessidade espiritual induz seus descendentes a
elaborar sua própria salvação através do fogo da tribulação, confeccionando o Dourado Manto Nupcial, que é o "Abre-
te-Sésamo" para o Mundo Invisível. Embora o sangue purificador de Jesus tenha sido uma necessidade absoluta para
milhões de irmãos mais fracos, dificilmente haverá alguma dúvida quando afirmamos que quanto mais homens e
mulheres ligarem-se à Maçonaria Mística para conscientemente construírem este Templo da Alma, mais cedo veremos
o segundo advento de Cristo, e mais forte será a raça que Ele regerá pela lei do amor.
Parte XII - Mistérios das Grandes Óperas

Por Max Heindel

Mysteries of the great operas (1921)


Fausto
Capítulo I - Divina Discórdia

Quando o nome Fausto é mencionado, a maioria das pessoas pensam imediatamente na representação
teatral da obra de Gounod. Alguns admiram a música, porém a história em si mesma não parece impressioná-los. A
primeira vista, parece ser a história, infelizmente muito comum, de um indivíduo sensual que seduz uma jovem
confiante e depois a abandona, deixando-a expiar sua loucura e sofrer por ter confiado nele. O toque de magia e
encantamento que permeia a obra é considerado por muitos como simples fantasia de um autor, que as usou para
tornar mais interessantes as sórdidas condições apresentadas.
Quando Fausto é levado por Mefistófeles para o submundo e Margarida é levada, no final da peça, para o céu
em asas angelicais, parece prevalecer apenas o sentido moral comum, para dar à história um fim sentimental.
Uma minoria sabe que a ópera de Gounod é baseada no drama escrito por Goethe. E os que estudaram as
duas partes de sua apresentação de Fausto, percebem a diferença entre a ideia original e a que foi apresentada na
peça. Esses poucos, que são místicos iluminados, veem na obra de Goethe a mão inconfundível de um Iniciado
esclarecido, e percebem plenamente o grande significado cósmico nela contido.
Devemos entender que a história de Fausto é um mito tão antigo quanto a humanidade. Goethe apresentou-a
envolta numa verdadeira luz mística, iluminando um dos maiores problemas da época, o relacionamento e luta entre
a Franco-Maçonaria e o Catolicismo, que apresentamos sob outro ponto de vista num livro anterior.
Dissemos diversas vezes em nossa literatura, que um mito é um símbolo velado que encerra uma grande
verdade cósmica, uma concepção que difere radicalmente da que é geralmente aceita. Do mesmo modo que damos
livros ilustrados para nossas crianças para transmitir-lhes lições além de sua capacidade intelectual, também os
grandes Mestres deram à humanidade infantil estes símbolos pictóricos, e, assim, inconscientemente para a
humanidade, uma percepção dos ideais apresentados foi gravada em nossos veículos mais sutis.
Assim como uma semente germina oculta no solo antes que possa florescer acima da superfície da terra, do
mesmo modo essas gravações traçadas pelos mitos sobre nossas sutis e invisíveis vestes colocaram-nos num estado
de receptividade que nos leva prontamente a ideais mais altos e eleva-nos acima das condições mesquinhas do
mundo material. Estes ideais teriam sido sufocados pela natureza inferior se não tivessem sido preparados durante
eras pela influência legítima de mitos tais como Fausto, Parsifal e narrações semelhantes.
Semelhante à história de Jó, a cena do mito de Fausto tem seu início no céu, com a convocação dos Filhos de
Seth, entre eles Lúcifer. O final é também no céu como o apresentou Goethe. Como é muito diferente daquilo que é
representado comumente no palco, estamos face a face com um problema gigantesco. Na realidade, o mito de Fausto
retrata a evolução da humanidade durante a época presente. Também nos mostra como os Filhos de Seth e os Filhos
de Caim representam sua parte no trabalho do mundo.
O autor tem o hábito de ater-se e concentrar-se o mais possível sobre cada assunto que está expondo. Mas,
algumas vezes, as circunstâncias justificam o afastamento do tema principal, como agora acontece com o mito de
Fausto. Se fôssemos discorrer sobre ele, apenas no que se refere à Franco-Maçonaria e ao Catolicismo, teríamos que
voltar ao tema mais tarde, para iluminar outros pontos de vital interesse como o desabrochar da alma e o trabalho da
raça humana. Esperamos, portanto, que as digressões não sejam criticadas.
Na cena de abertura, três dos Filhos de Deus, Espíritos Planetários, são vistos curvando-se ante o Grande
Arquiteto do Universo, cantando a música das esferas em sua adoração ao Ser Inefável, que é a fonte de vida, o autor
de todas as manifestações. Goethe apresenta um desses sublimes Espíritos estelares dizendo:
"O Sol entoa sua velha canção,
Entre os cânticos rivais das esferas irmãs,
Seu caminho predestinado vai trilhar
Através dos anos, em retumbante marchar".
Modernos instrumentos científicos foram inventados, por meio dos quais, em testes de laboratório, ondas de
luz são transmutadas em som, demonstrando assim no Mundo Físico o aforismo místico da identidade dessas
manifestações. O que antes era evidente apenas para o místico capaz de elevar sua consciência para a Região do
Pensamento Concreto, agora também é percebido pelos cientistas. Portanto, o canto das esferas, primeiramente
mencionado por Pitágoras, não deve ser encarado como uma ideia vaga concebida por uma imaginação poética, nem
como uma alucinação de um cérebro demente.
Goethe pôs um significado em toda a palavra que proferiu. As estrelas têm, cada uma, sua própria nota-chave
e viajam em torno do Sol à velocidades tão diversas que suas posições de agora não se repetirão até que se passem
27.000 anos. Assim, a harmonia dos céus muda a cada momento e, ao mudar, o mundo altera também suas ideias e
ideais. A dança circular dos orbes em movimento, ao som da sinfonia celestial criada por elas, marca o progresso do
homem ao longo do caminho que chamamos evolução.
Mas é uma ideia errada pensar que a harmonia constante é agradável. A música assim expressa tornar-se-ia
monótona; ficaríamos fatigados com a harmonia contínua. Na verdade, a música perderia seu atrativo se não fossem
as dissonâncias entremeadas frequentemente. Quanto mais próximo da dissonância o compositor puder chegar, sem
realmente incorporá-la à partitura, mais agradável será sua composição quando esta criar vida através de
instrumentos musicais. O mesmo acontece no canto das esferas; nós nunca atingiríamos a individualidade para a qual
toda a evolução se dirige, sem a dissonância divina.
Portanto, o Livro de Jó designa Satã como sendo um dos Filhos de Deus. E o mito de Fausto fala de Lúcifer
como estando presente também na convocação que ocorre no capítulo inicial da história. Dele vem a nota salvadora
de dissonância que forma um contraste na harmonia celestial, e, como a luz mais brilhante provoca a sombra mais
densa, a voz de Lúcifer realça a beleza do canto celestial.
Enquanto os outros Espíritos Planetários inclinam-se em adoração quando contemplam as obras do Mestre
Arquiteto reveladas no Universo, Lúcifer emite a nota de crítica, de censura, nas palavras dirigidas contra a obra-prima
de Deus, o rei das criaturas, o homem:
"Dos sóis e dos mundos nada tenho a dizer,
Vejo apenas quanto o homem se atormenta:
Esse pequeno deus do mundo, sua marca quer reter,
Tão surpreendente agora como no primeiro dia.
Pobre ser, se ele pudesse ter-se afastado, melhor seria,
Tivesses Tu conservado nele a luz celestial,
Que ele chama de razão, mas não a usa,
E cresce mais grosseiro que o irracional".
Considerado sob o ponto de vista de gerações anteriores, isto pode soar como sacrilégio, mas, sob a luz dos
tempos modernos, podemos entender que mesmo em um ser tão exaltado que é designado pelo nome de Deus, deve
haver crescimento. Podemos sentir o esforço para maiores aptidões, a contemplação de futuros universos oferecendo
maiores facilidades para a evolução de outros Espíritos Virginais, que são o resultado das imperfeições notadas no
esquema de manifestação por seu exaltado Autor. Além disso, como "em Deus vivemos, nos movemos e temos nosso
ser", assim também a nota dissonante emitida pelos Espíritos de Lúcifer elevar-se-ia dentro Dele. Não seria um agente
externo que chamaria a atenção para erros ou O censuraria, mas Seu próprio e divino reconhecimento de uma
imperfeição a ser transmutada em bem maior.
Lemos na Bíblia que Jó era um homem perfeito, e no mito de Fausto, o detentor do papel principal é
designado como um servidor de Deus, pois naturalmente o problema do desabrochar, de maior crescimento, deve ser
solucionado pelos mais avançados. Pessoas comuns, ou aqueles que estão mais baixo na escala da evolução, ainda
têm que percorrer a parte da estrada já vencida por outros, como Fausto e Jó, que são a vanguarda da raça e que são
considerados pela humanidade comum da mesma maneira que Lúcifer os descreve, isto é, como tolos e esquisitos.
"Pobre tolo, sua comida e bebida não são da terra,
Um impulso interno para a frente o empurra;
Ele próprio, meio consciente de seu humor exaltado.
Pela mais linda estrela do céu tem ansiado.
O melhor e o mais alto da terra tem desejado,
E tudo o que está perto e está longe, do mesmo jeito;
Nada pode acalmar os anseios do seu peito".
Para tais pessoas devem ser aberto um novo e mais elevado caminho para
lhes dar maiores oportunidades de crescimento; daí a resposta de Deus:
"Embora, em perplexidade, ele me sirva agora,
Para onde aparecer a luz, Eu logo o guiarei;
Quando a árvore nova tiver brotos, o jardineiro sabe,
Com flores e frutos seus anos vindouros beneficiarei".
Capítulo II - As Tristezas da Alma que Procura
Parte I

Como o exercício é necessário ao desenvolvimento dos músculos físicos, assim o desenvolvimento da natureza
moral é realizado pela tentação. Ao ser dada uma alternativa ao Ego, este poderá exercitá-la em qualquer direção que
escolher, pois aprende tanto por seus erros como por seus atos corretos, e estes são bem mais proveitosos. Portanto,
no mito de Jó, o demônio tem permissão para tentar, e no mito de Fausto, ele pede:

"Meu Senhor, se eu puder conduzi-lo a meu gosto,


Tu o perderás, eu aposto".
Ao que o Senhor responde:
"Consinto-o!
Desvia este espírito da original fonte,
Podes dominá-lo, exerce o teu poder,
Se ele por tua direção for descer.
Mas ficarás envergonhado
Quando a reconhecer fores forçado,
Que um homem bom em sua mais escura aberração
Conhece ainda o caminho que o conduz à salvação.
Vai, és livre para agir sem controle enfim.
Pelos que são como tu, não nutro aversão;
De todos os espíritos de negação
O cínico é o menos aborrecido vara Mim.
Do trabalho, o homem é inclinado a se esquivar
Ele viveria de bom grado, tranquilo a descansar.
Por isso, de propósito,
Eu te dou este companheiro
Que se agita, se excita e como um demônio deve trabalhar.
Mas vós, ó fiéis Filhos de Deus, a ninguém ides ofender,
Regozijai-vos em toda a imortal beleza,
O imortal, tão próprio e crescente em grandeza;
Preparai-vos agora com amor e no dever".

A trama está pronta e Fausto está prestes a ser enredado nas armadilhas que cercam o caminho de toda alma
que procura. As linhas seguintes mostram o propósito benéfico e a necessidade da tentação. O Espírito é uma parte
integral de Deus; originalmente inocente, mas não virtuoso. A virtude é uma qualidade positiva, desenvolvida ao
tornar-se uma posição firme diante da tentação ou pelo sofrimento suportado em consequência dos erros cometidos.
Assim, o prólogo no céu dá ao mito Fausto seu mais alto valor como um guia, e também o encorajamento à alma que
procura. Mostra o objetivo eterno que está por detrás das condições terrenas que nos causam dor e tristeza.
Em seguida, Goethe apresenta-nos o próprio Fausto, que está de pé em seu escuro gabinete. Ele está
empenhado na introspecção e na retrospecção:

"Eu tenho, ai de mim, filosofia, medicina e lei,


Teologia também eu estudei!
Agora aqui estou com todo o meu saber,
Um tolo, não mais sábio do que antes.
Pensei a humanidade melhorar
E a mente humana elevar;
Por proveitos ou tesouros nunca trabalhei,
Nem por honras mundanas, posição ou prazer;
Com livros toda vida eu batalhei.
Mas, agora, à mágicas eu me dou;
Espero, através do espírito, pela voz e poder,
Segredos velados à luz trazer.
Que eu não mais com semblante dolorido
Necessite falar do que não hei sabido.
Pobre de mim! Ainda prisioneiro desta escuridão estou
Neste abominável e bolorento quarto gelado,
Onde a querida luz do céu passou
Obscuramente através do vidro pintado.
Avante! Em frente para a terra distante.
Não é este o livro de mistérios
Que pela mágica mão de Nostradamus
Será um guia suficiente?
Verás o curso das estrelas e saberás, então,
Quando a natureza for seus pensamentos revelar A ti.
Tua alma se elevará e irá procurar
Ter com ela uma elevada e duradoura comunhão".

Uma vida inteira de estudos não trouxe a Fausto um conhecimento real. As fontes convencionais de
aprendizado provaram ser estéreis no resultado final. O cientista pode considerar Deus desnecessário, uma
redundância; pode acreditar que a vida consiste só de ação e reação química - isto acontece quando ele está no
começo. Mas, quanto mais se aprofunda na matéria, maiores são os mistérios que encontra em seu caminho, e, ao
fim, será forçado a abandonar algumas pesquisas ou passa a acreditar em Deus como um Espírito cuja vida envolve
cada átomo de matéria. Fausto chegou a esse ponto. Ele diz que não tem trabalhado por ouro, "nem tesouros", nem
honras mundanas, posição ou prazer". Esforçou-se pelo amor à pesquisa e atingiu o ponto em que percebe que um
mundo espiritual está todo ao seu alcance; e através desse mundo, por magia, ele aspira agora um conhecimento
mais elevado e mais real do que aquele contido nos livros. Tem em sua mão um volume escrito pelo famoso
Nostradamus, e ao abri-lo contempla o emblema do macrocosmo. O poder nele contido abre em sua consciência uma
parte do mundo que ele está procurando e, num êxtase de alegria, exclama:

"Ah! A este espetáculo através de todos os sentidos,


Que súbito êxtase de alegria está fluindo;
Sinto novo enlevo, abençoado e intenso.
Do mundo do homem sábio o sentido estou aprendendo:
O mundo do espírito e o saber são revelados,
Teu coração está morto, teus sentidos fechados;
Avante, estudante! Com zelo imorredouro vem banhar
Teu peito terrestre no rubro amanhecer.
Como tudo que vive e produz estão sempre a combinar,
Tece um grande todo da ampla gama do Ser,
Que a força celeste, subindo e descendo, possas ver,
Suas taças douradas incessantemente cruzando.
Seu vôo no enlevo de sussurrantes asas vagando,
Do céu à terra, o ritmo trazer".

Mas, novamente o pêndulo oscila para trás. Como a tentativa de fitar diretamente a brilhante luz do Sol
resultaria na destruição da retina, assim a audaciosa tentativa de penetrar o Infinito resulta em malogro e a alma que
procura é lançada do êxtase da alegria para a escuridão do desespero:

"Um maravilhoso espetáculo, mas, ah! um espetáculo somente.


Onde poderei agarrar-te, natureza infinita, onde?
Teu peito, tu és fonte de toda a vida
Onde se apoiam os céus e a terra, onde o coração debilitado
Por consolo anseia, e tu ainda tens partilhado
De tuas doces e encorajadoras marés: onde estás. onde te ouvir?
Tu jorras, e, em desespero, eu hei de me consumir".
Antes de podermos com sucesso aspirar a um conhecimento superior, devemos primeiro entender o inferior.
Falar e delirar sobre os mundos além, sobre corpos mais sutis, quando temos só uma leve ideia dos veículos com os
quais trabalhamos todos os dias e do ambiente em que nos movimentamos, é ignorar a realidade. "Homem, conhece-
te a ti mesmo", é um ensinamento sábio. A única segurança está em galgarmos a escada, degrau por degrau, nunca
tentando dar um novo passo enquanto não nos sentirmos firmes e equilibrados naquele em que estamos. Muitas
almas podem repetir, pela sua própria experiência, o desespero personificado nas palavras de Fausto.
Ingenuamente, ele começou pelo ponto mais alto. Sofreu a decepção, mas ainda assim não compreendeu que
devia começar pela base. Portanto, inicia uma evocação ao Espírito da Terra:

"Espírito da Terra, Tu para mim estás mais perto,


Ainda agora minha força está crescendo,
Coragem eu sinto para em toda parte do mundo ousar,
O infortúnio e a bem-aventurança da terra suportar;
Lutar contra as tempestades, e com bravura o fulgor do raio enfrentar,
Em meio ao fragor do naufrágio não desesperar.
Nuvens acumulam-se sobre mim, a luz do luar ocultando
O fulgor da lâmpada que se extingue com a escuridão da noite,
Erguem-se brumas, uma emanação vermelha e lampejante
Em minha cabeça esses feixes de luz vão penetrar;
Estou dominado por um trêmulo pavor angustiante.
Espírito, compelido pela prece,
Tu que vais pairar Por perto, revela-te agora, por favor,
Meu coração jubilosamente vou-Te entregar;
Deves aparecer, se livre a vida for".

Como dissemos no 'Conceito Rosacruz do Cosmos", e como já elucidamos na Filosofia Rosacruz uma questão
concernente ao ritual latino na Igreja Católica, um nome é um som. Corretamente proferido, não importa por quem,
tem uma forte influência sobre a inteligência que representa, e a palavra usada em cada grau de Iniciação, dá ao
homem acesso a uma particular esfera de vibração Povoada por certas classes de Espíritos. Portanto, como um
diapasão corresponde a uma nota de igual intensidade, assim também Fausto ao pronunciar o nome do Espírito da
Terra, abre sua consciência à essa presença totalmente penetrante.
Devemos lembrar que a experiência de Fausto não é um exemplo isolado do que pode acontecer sob
condições anormais. Ele é um símbolo da alma que procura. Num certo sentido, você e eu somos Faustos, pois em
algum estágio de nossa evolução encontraremos o Espírito da Terra e compreenderemos o poder do Seu nome
corretamente pronunciado.
Parte II

Em A Estrela de Belém, um Fato Místico, tentamos transmitir aos estudantes uma noção de certa fase da
Iniciação. A maioria das pessoas caminha na Terra e vê apenas uma massa aparentemente morta. Mas, um dos
primeiros fatos revelados em nossa consciência pela Iniciação, é a realidade viva do Espírito da Terra. Como a
superfície de nosso corpo é morta comparada com os órgãos internos, assim também o invólucro externo da Terra
não dá ideia da maravilhosa atividade interna. No caminho da Iniciação nove camadas diferentes são reveladas, e no
centro desta esfera giratória deparamos, face a face, com o Espírito da Terra. É verdade que ele está "gemendo e
sofrendo" na Terra por todos nós, trabalhando e esperando ansiosamente por nossa manifestação como Filhos de
Deus para que, assim como a alma que procura e aspira a libertação é desprendida de seu corpo denso, também o
Espírito da Terra possa ser libertado de seu corpo mortal no qual está agora confinado por nós. Para Fausto, as
palavras do Espírito da Terra, ditas por Goethe, oferecem esplêndido material para meditação, pois representam
misticamente o que o candidato sente quando percebe pela primeira vez a verdadeira realidade do Espírito da Terra
como uma presença viva, trabalhando sempre ativamente para nossa elevação.

"Nas correntes da vida, na ação da tempestade,


Eu flutuo e balanço em movimento ondulado;
Nascimento e túmulo, um oceano ilimitado;
Um constante tecer em oportunidade abundante,
Uma Vida ardente, um movimento incessante,
Zunindo o tear do tempo, eu tenho continuamente seguido;
O vivo traje de Deus, é assim por mim tecido".

Naturalmente, o Espírito da Terra não é para ser idealizado com o aspecto de um homem grande, ou como
tendo uma forma física que não seja a da própria Terra. O corpo vital de Jesus, o qual o Espírito Cristo utilizou antes de
seu ingresso na Terra, tem a forma humana comum; está preservado e é mostrado ao candidato num certo ponto de
sua escalada. Algum dia, num futuro distante, abrigará novamente o benevolente Espírito Cristo em Seu retorno do
centro da Terra. Isto acontecerá quando nós nos tivermos eterizado, e quando Ele estiver pronto para ascender à
esferas mais elevadas, deixando-nos para que sejamos instruídos sobre o Pai, cuja religião será mais elevada do que a
religião Cristã.
A verdade esotérica de que quando um Espírito entra por uma determinada porta, deve também retornar da
mesma maneira, é ensinada por Goethe em relação à aparição inicial de Mefistófeles a Fausto. Fausto não está no
caminho regular da Iniciação. Não recebeu permissão nem ajuda dos Irmãos Maiores; está batendo na porta errada
devido à sua impaciência. Portanto é rejeitado pelo Espírito da Terra e, quando pensa ter conseguido entrar, é lançado
dos píncaros da alegria ao abismo do desespero, onde compreende que realmente falhou.

"Eu, a própria imagem de Deus, desta labuta de barro


Já liberto, eu que saudei
O espelho da eterna verdade e a revelei,
Em meio ao dia celestial e à luz fulgurando,
Eu, cuja alma está se libertando
E. com olhar penetrante, aspirei fluir
Pelas veias da natureza, e ainda criando
Conheço a vida dos deuses ... agora estão a me punir,
Uma fulminante palavra afastou-me do caminho!
Espírito. eu não ouso elevar-me à tua esfera, sozinho;
E embora meu poder te compelisse a aparecer
Minha arte foi inútil para aqui conseguir te deter.
Cruelmente, do reino do pensamento senti o arremessar
De volta ao destino incerto da humanidade!
Quem agora vai me ensinar? A que devo eu renunciar?"
Ele pensa que as fontes de informação estão exauridas e que nunca poderá atingir o verdadeiro
conhecimento. E, temendo a depressiva monotonia de uma existência trabalhosa e comum, agarra um frasco de
veneno e está prestes a bebê-lo, quando canções do lado de fora proclamam a ascensão de Cristo, pois é manhã de
Páscoa. A este pensamento, nova esperança agita sua alma. Além disso, é também perturbado em seu propósito pela
chegada de Wagner, seu amigo.
Caminhando em direção a ele, Fausto emite o grito de agonia arrancado de toda alma aspirante na terrível
luta entre as naturezas superior e inferior. Enquanto vivemos nossa vida mundana, sem aspirações elevadas, há paz
em nosso íntimo. Mas, uma vez sentido o chamado do Espírito, nosso equilíbrio é alterado, e quanto mais
ardentemente persistimos na procura do Graal, mais violenta é esta luta interna. Paulo considerava-se um homem
desditoso porque os desejos inferiores da carne combatiam as suas mais elevadas aspirações espirituais. As palavras
de Fausto têm um significado semelhante:

"Duas almas, oh! moram dentro do meu peito,


E aí lutam por um indivisível reino;
Uma aspira pela terra, com vontade apaixonada
Às íntimas entranhas ainda está ligada.
Acima das névoas, a outro aspira, de certeza,
Com ardor sagrado por esferas onde reine a pureza".

Mas ele não percebe que o caminho para obter a realização desejada é árduo e que cada um deve trilhá-lo
sozinho para alcançar a paz. Julga que os Espíritos podem dar-lhe o poder da alma, pronto para ser usado:

"Oh! Há Espíritos no ar,


Que flutuam entre o céu e a terra em domínio atuando?
Inclinai-vos de vossa atmosfera dourada e levai-me
Para cenários, nova vida e em plena rendição ireis me guiando.
Se eu Possuísse um manto mágico, simplesmente,
Para transportar-me como que em invisíveis asas, largamente,
Muito mais do que custosas vestes eu o prezaria,
E nem por um manto real o trocaria".

Por esperar assim a ajuda dos outros, está condenado à desilusão. Se és Cristo, ajuda-te a ti mesmo", é a regra
universal, e a autoconfiança é a virtude fundamental a qual os aspirantes são exortados a cultivar na Escola de
Mistérios Ocidental. Ninguém deve apoiar-se nos Mestres ou seguir cegamente os Guias. Os Irmãos da Rosacruz
procuram emancipar as almas que a eles recorrem; dispõem-se a orientá-las, fortalecê-las e torná-las coparticipantes
diretas nesse trabalho. Filantropos não aparecem facilmente e quem pretender do Mestre mais do que uma
orientação, terá uma decepção. Não importa as pretensões que alguns mestres possam ter, não importa se eles vêm
fisicamente ou como Espíritos, não importa quão espirituais pareçam, os Mestres positivamente não podem fazer por
nós as boas ações necessárias para o crescimento anímico, nem nos dar o consequente poder da alma pronto para ser
usado, do mesmo modo que não podem conferir-nos força física ingerindo nosso alimento. Na verdade, Fausto, a
alma que procura, atrai um Espírito pronto para servi-lo, mas é um Espírito de natureza indesejável: Lúcifer. Quando
Fausto pergunta seu nome, ele responde:

"O Espírito de Negação: a força que mesmo o mal planejando,


Para o bem está trabalhando".

Pessoas ou Espíritos que se dispõem a satisfazer nossos desejos, geralmente têm um fim em vista.
Chegamos agora a um ponto que envolve uma importante lei cósmica, que fundamenta vários fenômenos
espiritualistas e corrobora o singular ensinamento da Fraternidade Rosacruz (e da Bíblia) de que Cristo não voltará
num corpo denso, mas sim num corpo vital. Mostra também por que Ele deve voltar. Os estudantes devem
empenhar-se em ler cuidadosamente o seguinte, Atraído pela atitude mental de Fausto, Lúcifer segue-o em seu
gabinete. No chão, junto à porta, está uma estrela de cinco pontas, com duas das pontas próximas da porta. No
processo normal da Natureza, o Espírito humano entra em seu corpo denso durante a vida pré-natal e retira-se, na
ocasião da morte, pela cabeça. Os Auxiliares Invisíveis que aprenderam a transmutar sua força sexual em poder da
alma no corpo pituitário, também saem e entram no corpo denso pela cabeça; portanto, o pentagrama com uma
ponta para cima, simboliza a alma aspirante que trabalha em harmonia com a Natureza.
O mago negro, que não tem alma nem poder de alma, também usa a força do sexo. Ele deixa e entra em seu
corpo pelos pés, o cordão prateado projetando-se do órgão sexual. Portanto, o pentagrama com duas pontas para
cima é o símbolo da magia negra. Lúcifer não teve dificuldade para entrar no gabinete de Fausto, mas, quando ele
quer sair depois de dialogar com seu interlocutor, uma única ponta barra seu caminho. Ele pede a Fausto para
remover o símbolo e este pergunta:

Fausto: "O Pentagrama tua Paz perturba,


Explica-me, filho do inferno,
Se ele tua saída impede, como pudeste entrar?
Onde está a armadilha,
Por que pela janela não te podes retirar?"
Lúcifer: "Para os fantasmas e espíritos é uma lei
Por onde entrarmos, por aí sair devemos.
Somos livres para a primeira entrada escolher,
Mas da segunda, escravos vamos ser".

Até o ano 33 D.C., Jeová guiou nosso planeta em sua órbita e a humanidade no caminho da evolução, de fora.
No Gólgota, Cristo entrou na Terra, que Ele agora guia de dentro, e continuará até que um número suficiente de nossa
humanidade tenha desenvolvido a força de alma necessária para pairar na Terra e guiar nossos irmãos mais jovens.
Isto requer habilidade para viver em corpos vitais, capazes de levitação. O corpo vital de Jesus, através do qual Cristo
entrou na Terra, é Seu único meio de retornar ao Sol. Portanto, o Segundo Advento será no corpo vital de Jesus.
Capítulo III - Vendendo sua Alma a Satanás
Parte I

O mito de Fausto apresenta uma situação curiosa no encontro do herói, que é a alma que procura, com
diferentes classes de Espíritos. O Espírito de Fausto, inerentemente bom, sente-se atraído para as ordens superiores;
sente afinidade pelo benevolente Espírito da Terra, e deplora a incapacidade de retê-lo e aprender com ele. Face a
face com o espírito de negação, ao qual está disposto a servir, ele se sente de um certo modo senhor da situação,
porque esse espírito não pode sair pela parte superior do símbolo da estrela de cinco pontas na posição em que está
colocada no chão. Mas, tanto sua incapacidade em reter o Espírito da Terra e obter instrução desse exaltado Ser,
como seu domínio sobre o espírito de negação, decorrem do fato dele ter entrado em contato com eles por acaso e
não através do poder da alma desenvolvido internamente.
Quando Parsifal, o herói de outro desses grandes mitos da alma, visitou pela primeira vez o Castelo do Graal,
foi-lhe perguntado como havia chegado ali, e ele respondeu: "Eu não sei". Aconteceu que ele entrou no lugar sagrado
da mesma forma que uma alma percebe, às vezes, um vislumbre dos reinos celestiais numa visão; mas ele não podia
ficar no Monte Salvat. Foi forçado a sair novamente para o mundo e aí aprender suas lições. Muitos anos depois ele
retornou ao Castelo do Graal, triste e cansado da busca e a mesma pergunta lhe foi feita: "Como chegaste aqui?" Mas,
desta vez, sua resposta foi diferente, pois disse: "Através da procura e do sofrimento eu vim".
Este é o ponto fundamental que marca a grande diferença entre alguns que se põem em contato com
Espíritos dos reinos suprafísicos por acaso e tropeçam no entendimento de uma lei da Natureza, ou aqueles que, por
zelosos estudos e principalmente por viver a vida, obtêm a Iniciação, conscientes dos segredos da Natureza. Os
primeiros não sabem como usar este poder inteligentemente e estão, portanto, desamparados. Os últimos são
sempre senhores das forças que manejam, enquanto os outros são vítimas de quem quiser tirar vantagem deles.
Fausto é o símbolo do homem, e a humanidade foi, no princípio, dirigida pelos Espíritos de Lúcifer e pelos
Anjos de Jeová. Agora estamos olhando para o Espírito Cristo na Terra como o Salvador, para emancipar-nos da
influência egoísta e negativa dos lucíferos.
Paulo nos dá uma visão da evolução futura que nos está destinada, quando disse que, após Cristo estabelecer
Seu reino, Ele o entregará ao Pai, e então será tudo em tudo.
No entanto, Fausto procura primeiro comunicar-se com o macrocosmo, que é o Pai. Como o centauro celeste,
Sagitários, ele aponta seu arco para as estrelas mais altas. Não está satisfeito em começar por baixo e galgar o cimo
gradativamente. Quando repelido por aquele sublime Ser, desce um degrau na escala e procura comunhão com o
Espírito da Terra, que também o desdenha, pois ele não pode tornar-se o pupilo das elevadas forças enquanto não se
ajustar às suas regras, para assim poder entrar no caminho da Iniciação pela porta verdadeira. Portanto, quando
percebe que o pentagrama junto da porta detém o Espírito do mal, entrevê uma oportunidade para fazer um acordo.
Está pronto para vender sua alma a Satanás.
Mas, como foi dito antes, está totalmente despreparado para manter o domínio com êxito, e o poder do
espírito rapidamente desobstrui o caminho e liberta Lúcifer. Mas este, embora saia do gabinete de Fausto, logo volta,
pronto para negociar com a alma que procura. Ele descreve, diante dos olhos de Fausto, quadros brilhantes de como
viver a vida, como poderá satisfazer suas paixões e desejos. Fausto, sabendo que Lúcifer não está desinteressado,
pergunta que compensação ele quer. A isto, Lúcifer responde:

" Eu me comprometo a ser teu servo aqui, enfim,


E a todo o teu aceno e chamado, alerta vou estar;
Mas, quando na esfera além nos formos encontrar,
Então, tu farás o mesmo para mim".

O próprio Fausto acrescentou uma condição aparentemente singular com respeito à época em que o serviço
de Lúcifer terminar, e quando sua própria vida terrestre tiver chegado ao fim.
Emborapareça estranho, nós temos na aquiescência de Lúcifere na cláusula proposta por Fausto, leis básicas de
evolução. Pela Lei de Atração somos postos em contato com Espíritos semelhantes, tanto aqui como na vida futura. Se
servimos as forças superiores aqui e trabalhamos para elevar-nos, encontraremos companheiros com a mesma índole
neste mundo e no próximo. Mas, se gostamos da escuridão mais do que da luz, estaremos ligados ao submundo aqui
e no futuro também. Não há como escapar desta lei.
Além disso, somos todos "construtores do templo" trabalhando sob a direção de Deus e Seus ministros, as
divinas Hierarquias. Se evitarmos a tarefa que nos foi imposta na vida, seremos colocados sob condições que nos
forçarão a aprender. Não há descanso nem paz no caminho da evolução e se procurarmos prazer e alegria a ponto de
excluir o trabalho da vida, o dobrar fúnebre dos sinos logo será ouvido. Se chegarmos, alguma vez, a um ponto em
que estejamos inclinados a ordenar que as horas parem ou se estamos tão satisfeitos com a nossa vida que até
cessamos nossos esforços para progredir, nossa existência estará rapidamente terminada. Observamos que as pessoas
que se retiram dos negócios vivendo apenas para aproveitar o que acumularam, logo morrem; enquanto que o
homem que troca sua profissão por uma outra ocupação, geralmente vive mais tempo. Nada é tão fácil para encerrar
uma existência do que a inatividade. Como já foi dito, as Leis da Natureza são enunciadas no acordo de Lúcifer e na
condição acrescentada por Fausto:

"Se eu me satisfizer com a indolência e o lazer,


Que seja essa, então, a última hora que eu possa ter.
Quando tu com lisonjas me fores adular
Até que autocomplacente eu venha a ser;
Quando tu com prazeres me puderes enganar, Seja esse o meu dia final.
Sempre que a hora for passando
Eu digo: 'Oh! fica, és tão leal!' Assim, a força a ti eu vou dando
De levar-me ao mais profundo desespero. Meu dobrar de sinos não o deixes prolongar,
De meu serviço, livre irás ficar;
E quando do relógio o ponteiro indicador tiver caído,
Esteja, então, o meu tempo concluído".

Lúcifer pede a Fausto que assine o contrato com uma gota de sangue. E quando perguntado por que, diz
astuciosamente: "O sangue é uma essência muitíssimo peculiar". A Bíblia diz que é assento da alma.
Quando a Terra estava em processo de condensação a aura invisível que circundava Marte, Mercúrio e Vênus,
penetrou na Terra e os Espíritos desses planetas estiveram em relacionamento especial e íntimo com a humanidade.
O ferro é metal de Marte e pela mescla do ferro com o sangue, a oxidação torna-se possível; assim, o calor interno,
necessário para a manifestação de um Espírito que habita internamente, foi obtido pela ação dos Espíritos Lucíferos
de Marte. Eles são, portanto, responsáveis pelas condições sob as quais o Ego está enclausurado no corpo denso.
Quando o sangue é extraído do corpo humano e coagula, cada partícula tem uma forma especial, distinta das
partículas de qualquer outro ser humano. Portanto, quem tiver sangue de uma certa pessoa, tem um elo de ligação
com o Espírito que construiu as partículas do sangue. Ele tem poder sobre essa pessoa, se souber como usar esse
conhecimento. Foi essa a razão porque Lúcifer exigiu a assinatura com o sangue de Fausto, pois com o nome de sua
vítima escrito em sangue, poderia conservar a alma escravizada de acordo com as leis envolvidas.
Sim, de fato! O sangue é uma essência muitíssimo peculiar, importante tanto na magia branca como na negra.
Todo conhecimento usado em qualquer direção, deve necessariamente alimentar-se da vida que é primariamente
derivada dos extratos do corpo vital, isto é, a força do sexo e o sangue. Todo conhecimento que não seja assim
alimentado e nutrido, é tão impotente como a filosofia que Fausto tirou de seus livros. Livros não são suficientes por si
só. Somente na medida em que trazemos esses conhecimentos para nossas vidas, alimentando-os e vivenciando-os, é
que eles têm real valor.
Existe, no entanto, uma importante diferença a considerar: enquanto o aspirante da Ciência Sagrada alimenta
sua alma com sua própria força sexual, e as paixões inferiores com seu próprio sangue que, então, ele transmuta e
depura, aqueles que aderem à magia negra vivem corno vampiros à custa da força sexual dos outros e do sangue
impuro sugado das veias de suas vítimas. No Castelo do Graal vemos o sangue puro e depurador operando maravilhas
sobre os cavaleiros virtuosos que aspiravam desempenhar elevadas ações. Porém, no Castelo de Herodes, a
personificação da voluptuosidade - Salomé - fez com que o sangue da paixão corresse desenfreadamente pelas veias
dos participantes, e o sangue que jorrou da cabeça do martirizado Batista serviu para dar-lhes o poder que eles não
tinham, por serem muito covardes para adquiri-lo através do sofrimento e da própria depuração.
Fausto tenciona adquirir poder rapidamente com o auxílio de outros, tocando num ponto perigoso, do mesmo
modo como fazem hoje aqueles que seguem os que se intitulam "adeptos" ou "mestres". Estes estão prontos para
explorar os mais baixos apetites dos crédulos, da mesma forma que Lúcifer ofereceu-se para ajudar Fausto. Mas eles
nunca poderão dar o poder da alma, não importa o que aleguem. Isto é conquistado internamente, pela paciente
perseverança em fazer o bem, um fato que nunca será demasiado repetir.
Parte II

Por estar aborrecido, Fausto responde com desdém à exigência de Lúcifer de assinar com sangue o pacto
entre eles e, então, profere as seguintes palavras:

"Não temas que faltar à minha palavra eu vá. O propósito de toda a minha energia
Em inteira concordância com meu juramento está.
Levianamente, muito alto tenho aspirado; Estou no mesmo nível que tu;
Eu, o Grande Espírito escarnecido; desafiado. A própria Natureza se escondeu de mim.
Rasgada está a teia do pensamento; minha mente Abomina toda a classe de conhecimento.
Nas profundezas. de prazeres sensuais mergulhadas
Deixemos ficar nossas paixões incendiadas, Envoltas nos abismos de mágicos véus formosos,
E que nossos sentidos vibrem em encantos assombrosos".

Tendo sido desdenhado pelas forças que conduzem ao bem e estando completamente dominado pelo desejo
de obter conhecimento direto e de verdadeiro poder, está disposto a ir até as últimas consequências. Mas Deus está
sempre presente, como foi dito no prólogo:

"Um homem bom em sua mais escura aberração,


Conhece ainda o caminho que o conduz à salvação".

Fausto é a alma aspirante, e a alma não pode ser permanentemente desviada do caminho da evolução.
A declaração de Fausto sobre seu objetivo corrobora a afirmação de que ele tem um ideal elevado, mesmo quando
chafurda na lama. Ele quer experiência:

"O fim que eu aspiro não é o prazer.


Agonizante bem-aventurança - eu anseio por realização.
Ódio enamorado, rápido aborrecimento.
Purgado do amor do saber, minha vocação.
De hoje em diante, o objetivo de todos os meus poderes vai ser
Livrar meu peito de toda angústia, conhecer
Todo o infortúnio e o bem estar humanos no âmago do meu coração.
O sublime e o profundo em pensamento abraçar,
Os vários destinos do homem em meu peito acumular".

Antes que alguém possa ser realmente compassivo, deve sentir, como Fausto também o deseja, tanto a
profundidade das tristezas da alma humana como suas elevadas alegrias; pois, somente quando conhecemos estes
extremos dos sentimentos humanos podemos sentir a compaixão necessária por aqueles que precisam ser ajudados,
e assim colaborar na elevação da humanidade.
Através de Lúcifer, Fausto é capaz de conhecer tanto a alegria como a tristeza. Lúcifer também admite isto
quando diz:
"A força que mesmo o mal planejando
Para o bem está trabalhando".

Pela interferência dos Espíritos de Lúcifer no esquema da evolução, as paixões da humanidade foram
despertadas, intensificadas e conduzidas para um canal que tem causado todas as tristezas e enfermidades no mundo.
Não obstante, isso despertou a individualidade no homem e libertou-o das condições liderantes dos Anjos. Fausto,
pela ajuda de Lúcifer, é afastado dos caminhos convencionais, tornando-se assim individualizado. Quando o pacto
entre Fausto e Lúcifer foi concluído, tivemos a réplica dos Filhos de Caim, que são os descendentes e protegidos dos
Espíritos de Lúcifer, como vimos em "Maçonaria e Catolicismo".
Na tragédia de Fausto, Margarida é a protegida dos Filhos de Seth, o clero, descrito na lenda Maçônica. No
momento, as duas classes representadas por Fausto e Margarida devem defrontar-se, e entre elas será encenada a
tragédia da vida. Em consequência das desgraças sofridas por elas, a alma criará asas que a elevarão novamente aos
reinos das bem-aventuranças de onde veio. Nesse ínterim, Lúcifer leva Fausto à cozinha das bruxas onde ele vai
receber o elixir da juventude, para que, rejuvenescido, possa tornar-se desejável aos olhos de Margarida.
Quando Fausto aparece no palco, a cozinha das bruxas está repleta de instrumentos que são usados em
magia. Um fogo infernal queima sob uma chaleira onde são preparadas as poções de amor, e há aí muito mais coisas
fantásticas. Observamos vários objetos inanimados, mas o que mais desperta a nossa atenção é uma família de
macacos, a qual tem um grande significado porque representa uma fase da evolução humana.
A humanidade, satisfeita com a paixão instigada pelos Espíritos de Lúcifer ou Anjos caídos, libertou-se da
hoste angelical liderada por Jeová. Como consequência desse obstinado desejo, foram logo envolvidos por
"revestimentos de pele" e separados uns dos outros. O egoísmo suplantou o sentimento de fraternidade, atingindo o
nadir do materialismo. Alguns foram mais passionais que outros. Por isso, seus corpos cristalizaram-se mais. Eles
degeneraram e tornaram-se antropoides. Seu tamanho foi reduzido à medida que se aproximavam do limite onde a
espécie devia ser extinta. Eles são, portanto, os pupilos especiais dos Espíritos lucíferos. Assim, o mito de Fausto
mostra-nos uma fase da evolução humana não incluída na lenda Maçônica, e dá-nos uma visão mais completa e
conjunta do que realmente aconteceu.
Houve uma época em que toda a humanidade passou pelo ponto onde os cientistas acreditam estar
localizado o elo perdido. Os que agora são antropoides degeneraram a partir daquele ponto, enquanto a família
humana evoluiu até o presente estágio de desenvolvimento. Sabemos como a indulgência para com as paixões
embrutece aqueles que por elas se deixam levar. Podemos compreender prontamente que quando o homem estava
ainda em formação, sem individualidade e sob controle direto das forças cósmicas, esta indulgência não era
controlada pelo sentimento da individualidade que, de certo modo, nos protege hoje. Portanto, os resultados seriam
naturalmente mais desastrosos e de maiores consequências.
Alguma vez, a alma aspirante deve entrar na cozinha das bruxas como o fez Fausto, e encarar o objetivo da
lição que nos leva a considerar a consequência do mal, representada pelo macaco. A alma tem, então, permissão para
encontrar-se com Margarida no jardim, para tentar e ser tentada, para escolher entre a pureza e a paixão, para cair
como Fausto, ou permanecer firmemente na pureza, como fez Parsifal. Sob a Lei da Compensação receberá sua
recompensa pelas ações praticadas no corpo. De fato, a sorte é irmã gêmea do merecimento, como Lúcifer mostra a
Fausto, e a verdadeira sabedoria só se conquista com paciente perseverança na prática do bem.

"Quão ligada está a sorte ao merecimento,


Isso ao tolo jamais ocorreria.
Eu juro, tivesse ele a pedra do homem sábio,
A pedra do filósofo não seria".

Fiel a seu propósito de estudar a vida em vez de livros, Fausto pede a Lúcifer que consiga introduzi-lo na casa
da Margarida. Tenta conquistar a afeição dela com um principesco presente de joias, que Lúcifer introduziu às
escondidas em seu armário. O irmão de Margarida está ausente, lutando por sua pátria. Sua mãe não é capaz de
decidir o que fazer com o presente, e o leva ao seu guia espiritual na igreja. Este aprecia mais o brilho das gemas do
que as preciosas almas a ele confiadas. Negligencia seu dever à vista de um colar de pérolas, mais ansioso em garantir
as joias para o adorno de um ídolo, do que defender uma filha da igreja contra o perigo moral que a cerca. Assim,
Lúcifer vence e rapidamente recebe uma recompensa de sangue e, em seguida, de almas humanas. Para conseguir
acesso aos aposentos de Margarida, Fausto a persuade a dar à sua mãe uma poção para dormir, o que causa a esta, a
morte. Valentino, o irmão de Margarida, é morto por Fausto. Margarida é encarcerada e sentenciada a sofrer pena
capital.
Quando uma semente adere à polpa de uma fruta ainda verde, é doloroso retirá-la de lá. Da mesma forma, o
sangue, que é o assento da alma, está no corpo de uma pessoa e, quando esta encontra um fim súbito e prematuro, é
fácil perceber o sofrimento de tal morte. Os Espíritos de Lúcifer deleitam-se com a intensidade do sentimento e
evoluem através disso. Em relação ao objetivo, a natureza de uma emoção não é tão essencial quanto sua
intensidade. Por isso, eles agitam as paixões humanas de natureza inferior, que são mais intensas em nosso presente
estágio de evolução do que os sentimentos de alegria e amor. Como resultado, incitam à guerra e ao derramamento
de sangue, e o que nos parece maligno agora, na realidade, são degraus para ideais mais nobres e elevados, pois,
através da tristeza e do sofrimento, tais como foram gerados em Margarida, o Ego eleva-se cada vez mais na escala da
evolução. Aprende o valor da virtude quando desliza na direção do vício.
Foi com verdadeira compreensão deste fato que Goethe escreveu:
"Quem nunca comeu seu pão em amargo afã,
Quem nunca, acordado, a meia-noite viu passar,
Chorando, esperando pelo amanhã,
Os Poderes celestiais não sabe ainda avaliar".
Capítulo IV - O Preço do Pecado e os Caminhos da Salvação

"O preço do pecado é a morte", diz a Bíblia e quando semeamos para a carne, por certo colheremos
corrupção. Também não devemos ficar surpresos quando alguém de caráter negativo, como os Filhos de Seth
representados por Margarida no mito de Fausto, torna-se vítima desta lei da Natureza, logo após ter cometido o
pecado. A rápida prisão de Margarida pelo crime de matricídio é uma ilustração de como funciona a lei. O sagrado
horror da igreja, que foi omissa não a protegendo enquanto ainda havia tempo, é um exemplo de como a sociedade
procura encobrir sua negligência e ergue suas mãos chocada pelos crimes pelos quais, em grande parte, é a própria
responsável.
Se o padre, em vez de cobiçar as joias, tivesse ficado atento à confidência de Margarida, poderia tê-la ajudado
em tão dura sina, e, embora ela pudesse ter sofrido por perder seu amado, teria conservado sua pureza. Contudo, é
pela intensidade da dor que a alma sofredora encontra seu caminho de volta à fonte de seu ser, pois nós todos, como
filhos pródigos, deixamos nosso Pai no Céu, afastamo-nos dos reinos do espírito e alimentamo-nos das escórias da
matéria para adquirir experiência e ganhar individualidade.
Quando estamos no abismo do desespero, começamos a compreender nossa alta linhagem e exclamamos:
"Vou erguer-me e ir ao encontro de meu Pai". Ser membro de uma igreja, ou estudar o misticismo do ponto de vista
intelectual, não trazem a compreensão do até onde, que é necessário para podermos seguir o Caminho. Porém,
quando estamos despojados de todo apoio mundano, quando estamos doentes ou na prisão, encontramo-nos mais
próximos e somos mais queridos do Salvador do que em qualquer outro momento. Portanto, Margarida na prisão,
proscrita pela sociedade, está mais próxima de Deus do que aquela inocente, bela e pura Margarida, que tinha o
mundo diante de si quando encontrou Fausto no jardim.
O Cristo não tem mensagem para aqueles que estão satisfeitos e amam o mundo e seus costumes. Enquanto
estiverem com essa mentalidade, Ele não lhes pode falar, nem eles podem ouvir Sua voz. Mas há uma infinita ternura
nas palavras do Salvador: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos e eu vos darei descanso" 356. A alma
pecadora simbolizada por Margarida em sua cela na prisão, solitária, banida da sociedade como uma leprosa moral e
social, é compelida a elevar seus olhos aos céus e suas preces não são em vão. Contudo, até o último momento, as
tentações perseguem a alma que procura. As portas do céu e do inferno estão igualmente próximas à cela da prisão de
Margarida, como vemos pela visita de Fausto e Lúcifer, que tentam arrastá-la da prisão e da morte iminente para uma
vida de vergonha e servidão. Mas ela mantém-se firme. Prefere a prisão e a morte à vida e liberdade na companhia de
Lúcifer. Dessa maneira resistiu à prova e qualificou-se para o Reino de Deus.
Salomão era servo de Jeová e como Filho de Seth estava ligado ao Deus que o criou e a seus ancestrais. Mas,
numa vida posterior, como Jesus, ele deixou seu Primeiro Mestre no Batismo, e depois recebeu o Espírito do Cristo.
Assim, todos os Filhos de Seth devem, algum dia, deixar seus protetores e escolher Cristo, sem se importarem com o
sacrifício consequente, ainda que o preço seja a própria vida.
Margarida em sua cela da prisão toma essa importante decisão e qualifica- se para a cidadania no Novo Céu e
na Nova Terra, pela fé em Cristo. Por outro lado, Fausto permanece com o Espírito de Lúcifer por um tempo
considerável. Ele possui agora um caráter mais Positivo, é um verdadeiro Filho de Caim e, embora o preço do Pecado
possa eventualmente levá-lo à morte, a salvação pode vir através de uma concepção mais pura do amor, e através de
obras.
Na segunda parte de Fausto, encontramos o herói com o espírito alquebrado pela desgraça que, por sua
causa, caiu sobre Margarida. Percebe sua culpa e começa a galgar o caminho da redenção. Usa o Espírito de Lúcifer,
ligado a ele pelo pacto de sangue, como um meio de atingir sua finalidade. Torna-se um fator importante nos assuntos
de estado do país por onde viaja, pois todos os Filhos de Caim deleitam-se com a arte de governar, assim como os
Filhos de Seth gostam da política clerical.
Fausto, contudo, não satisfeito em servir outros sob as condições existentes, invoca as forças diabólicas sob
seu comando para criar uma região, emergi-la do mar e fazer uma Nova Terra. Ele sonha uma utopia, pretendendo
que este lugar livre seja o lar de um povo livre que a habitará em paz e alegria, vivendo à altura dos mais elevados
ideais da vida.
Estes ideais são originados em sua alma pelo amor de uma personagem chamada Helena, um amor da mais
sublime e espiritual natureza, inteiramente separado do pensamento de sexo e paixão. Com o decorrer do tempo, ele
vê esta terra elevar-se do mar, mas seus olhos estão ficando cegos, pois está substituindo sua contemplação de uma

356
Mt 11:28
condição terrestre para uma celestial. Enquanto fica assim contemplando as forças dirigidas por Lúcifer, labutando em
seu comando dia e noite, Fausto compreende que tornou real a predição de Lúcifer para ser:

"A força que mesmo o mal planejando, Para o bem está trabalhando".

Ele percebe que seu trabalho com as forças inferiores está chegando ao término e que sua visão está
diminuindo. Mas, com o desejo veemente que se apodera da sua alma para ver o fruto de suas obras, ele quer reter a
visão até que tudo esteja completado e seu sonho utópico convertido em realidade. Porém, como a visão que tem
diante de si - a terra surgindo do mar e o feliz povo que nela vive em fraternidade - se desvanece sob seus olhos quase
cegos, ele profere as palavras fatídicas que disse quando de seu pacto como Lúcifer:

"Sempre que a hora for passando Eu digo:


'Oh! fica! és tão leal', Assim, a força a ti eu vou dando
De levar-me ao mais profundo desespero.
Meu dobrar de sinos não o deixes prolongar, De meu serviço, livre irás ficar;
E quando do relógio o ponteiro indicador tiver caído,
Esteja, então, o meu tempo concluído".

Pelos termos desse pacto, quando Fausto proferiu as palavras fatídicas, as forças do inferno soltaram-se da
escravidão e foram para ele que, por sua vez, tornou-se vítima delas. Pelo menos assim parecia ser. Mas Fausto não
desejou deter a marcha do tempo com o objetivo de desfrutar os prazeres sensuais, nem de satisfazer desejos
egoístas, como foi projetado no pacto. Para a realização de um ideal altruístico e nobre, ele desejou deter a hora que
passava. Por conseguinte, está realmente livre de Lúcifer, e uma batalha entre as forças angélicas e as hostes
lucíferas termina finalmente com o triunfo das primeiras, que conduzem a alma que procura para o porto do descanso
no reino de Cristo, enquanto proferem as seguintes palavras:

"A nobre alma está salva do mal, Nosso espírito ressurge. Todo aquele
Que se esforça para adiante, com desejo de mudar,
Nós podemos libertá-lo.
E, se nele, o amor celestial tomou lugar,
Para encontrá-lo desçam os anjos do céu
Com afeto cordial, eles o vão saudar".

Assim, o Fausto do mito é uma personalidade inteiramente diferente do Fausto do palco; e o drama que
começa no céu, onde foi dada permissão a Lúcifer para tentá-lo, como Jó foi tentado na antiguidade, também acaba
no céu quando a tentação foi vencida e a alma voltou para seu Pai.
Goethe, o grande místico, finaliza apropriadamente sua versão com o mais místico de todos os versos encontrados em
qualquer literatura:

'Tudo que é perecível, É somente uma ilusão.


O inatingível, É aqui consumação.
O indescritível, Aqui ele é ação.
O Eterno Feminino, É para nós uma atração".

Esta estrofe confunde todos os que não são capazes de penetrar nos reinos onde ela é cantada, isto é, no céu.
Nela se diz que "tudo que é perecível é somente uma ilusão". Quer dizer, as formas materiais que estão sujeitas à
morte e à transmutação são apenas uma ilusão do arquétipo visto no céu. "O inatingível é aqui consumação" - o que
pareceu impossível na Terra é consumado no céu. Ninguém sabe disso melhor do que quem é capaz de agir nesse
reino, pois aí toda aspiração elevada e sublime encontra satisfação. As indescritíveis aspirações, ideias e experiências
da alma, que nem ela pode expressar para si própria, são claramente definidas no céu. O Eterno Feminino, a Grande
Força Criadora na Natureza, a Mãe-Deus que nos conduz pelo caminho da evolução, torna-se lá uma realidade. Assim,
o mito de Fausto conta a história do Templo do Mundo, que as duas classes de pessoas estão construindo e que serão,
finalmente, o Novo Céu e a Nova Terra profetizados no Livro dos Livros.
Parsifal
Capítulo V - Célebre Drama Musical Místico de Wagner

Ao olharmos ao nosso redor, no universo material, vemos miríades de formas. Todas elas têm uma certa e
muitas emitem um som definido; na verdade todas o fazem, pois há som mesmo na chamada Natureza inanimada. O
vento na copa das árvores, o murmúrio do regato, o marulho do oceano, são contribuições definidas para a harmonia
da Natureza.
Destes três atributos da Natureza, forma, cor e som, a forma é o mais estável, tendendo a permanecer no
status quo por muito tempo e mudando lentamente. Por outro lado, a cor muda com mais facilidade, desvanece, e há
algumas cores que mudam seu matiz quando colocadas à luz em diferentes ângulos; mas o som é o mais fugaz dos
três; vai e vem como um fogo-fátuo, que ninguém pode agarrar ou reter.
Há, também, três artes que procuram expressar o bom, o verdadeiro e o belo nestes três atributos da Alma do
Mundo: escultura, pintura e música.
O escultor que lida com a forma procura aprisionar a beleza numa estátua de mármore que, por milênios,
resistirá à inclemência do tempo; porém, uma estátua de mármore é fria e fala apenas a alguns poucos que são
evoluídos e capazes de impregnar a estátua com suas próprias vidas.
A arte do pintor trabalha principalmente com a cor; não dá forma palpável às suas criações. Do ponto de vista
material, a forma numa pintura é uma ilusão, entretanto, é muito mais real para a maioria das pessoas do que a
verdadeira estátua tangível, pois as formas do pintor são vivas. Há beleza viva na pintura de um grande artista, uma
beleza que muitos podem perceber e apreciar.
Mas no caso de uma pintura somos novamente afetados pela alteração de cor; o tempo logo empana seu
frescor e, na melhor das hipóteses, nenhuma pintura durará mais do que uma estátua.
Contudo, nas artes que lidam com forma e cor, há uma criação permanente; elas têm isso em comum, e nisso
diferem radicalmente da arte do som, pois a música é tão indefinível que deve ser recriada cada vez que desejamos
apreciá-la, e tem um poder de falar a todos os seres humanos de uma maneira que está além das outras duas artes.
Aumenta nossas alegrias e conforta nossas mais profundas tristezas. Pode acalmar a paixão de uma natureza
selvagem e despertar a bravura no maior covarde; é o fator mais poderoso conhecido pelo homem para exercer
influência sobre a humanidade, e, no entanto, analisada unicamente sob o ponto de vista material, é supérflua, como
demonstrado por Darwin e Spencer.
Somente quando nos encontramos atrás dos bastidores do visível e compreendemos que o homem é um ser
composto de Espírito, alma e corpo, é que entendemos por que somos tão diversamente afetados pelas três artes.
Enquanto o homem vive uma vida exterior no mundo da forma, uma vida de forma entre outras formas,
também vive uma vida interior, que é muito mais importante para ele. Uma vida onde seus sentimentos,
pensamentos e emoções criam diante de sua "visão interna" quadros e cenas em contínua mudança. Quanto mais
intensa for esta vida interior, menos necessidade terá o homem de procurar companhia fora de si mesmo, pois ele é
seu melhor companheiro, independente de entretenimento exterior, tão ansiosamente procurado por aqueles cuja
vida interior é árida, que conhecem legiões de outras pessoas, mas sentem-se estranhas a elas, receosas de sua
própria companhia.
Se analisarmos esta vida interior veremos que ela é dupla:

a. A vida da Alma, que lida com os sentimentos e emoções.


b. A atividade do Ego, que dirige todas as ações pelo pensamento.

Assim como o mundo material é a base de suprimento de onde os materiais para nosso corpo denso são
extraídos (e que é preeminentemente o mundo da forma), existe também um mundo da alma, chamado Mundo do
Desejo entre os Rosacruzes, que é a base de onde as vestes sutis do Ego, que chamamos a alma, foram tiradas, e este
é, particularmente, o mundo da cor. O ainda mais sutil Mundo do Pensamento é o lar do Espírito Humano, o Ego, e o
reino do som. Portanto, das três artes, a música exerce o maior poder sobre o homem. Nesta vida terrestre nós
estamos exilados de nosso lar celestial e, frequentemente, esquecemos nossa herança Divina quando envolvidos em
atividades materiais, mas, então, ouvimos música e sentimos o fragrante odor carregado de memórias inexprimíveis.
Como um eco vindo do lar, ela faz-nos lembrar aquela terra esquecida, onde tudo é alegria e Paz e, mesmo que
possamos olvidar tais ideias em nossa mente material, o Ego conhece cada nota abençoada como uma mensagem
vinda da terra natal, e alegra-se com isso.
É necessária uma compreensão da natureza da música para apreciar devidamente esta obra-prima que é
Parsifal, de Richard Wagner, onde a música e os personagens estão interligados como em nenhuma outra produção
musical moderna.
O drama de Wagner é baseado na lenda de Parsifal, que tem sua origem envolta no mistério que sombreia a
infância da raça humana. É uma ideia errônea supor que um mito é uma invenção da fantasia humana, sem
fundamento. Ao contrário, um mito é uma caixa contendo as mais profundas e preciosas joias da verdade espiritual,
pérolas de beleza tão rara e etérica que não podem permanecer expostas ao intelecto material. Para protegê-las e ao
mesmo tempo permitir que atuem sobre a humanidade para sua elevação espiritual, os Grandes Mestres são os guias
da evolução. Invisíveis, mas poderosos, eles dão à humanidade nascente estas verdades espirituais, envoltas no
pitoresco simbolismo dos mitos, para que possam trabalhar sobre nossos sentimentos até que nossos intelectos
nascentes tenham se tornado suficientemente evoluídos e espiritualizados para que nós possamos tanto sentir como
entender.
Este é o mesmo princípio pelo qual transmitimos aos nossos filhos ensinamentos morais por meio de livros
contendo gravuras e histórias de fadas, reservando os ensinamentos mais profundos para o futuro.
Wagner fez mais do que simplesmente copiar a lenda. As lendas, na verdade, quando transmitidas tornam-se
limitadas e perdem sua beleza. É uma evidência marcante da grandeza de Wagner, que ele nunca se deixou influenciar
por modismos ou credos. Sempre afirmou a prerrogativa da arte ao lidar com alegorias e o fez espontânea e
livremente.
Como ele diz em Religião e Arte: "Pode-se dizer que onde a religião se torna artificial, é reservado à arte salvar o
espírito da religião reconhecendo o valor figurativo do símbolo místico - o qual a religião queria que acreditássemos
num sentido literal - e revelar suas profundas e ocultas verdades através de uma apresentação ideal... Enquanto o
sacerdote apoia tudo nas alegorias religiosas para que sejam aceitas como realidade, o artista não tem preocupação
alguma com tal coisa, pois, aberta e livremente, divulga sua obra como sua própria criação. Mas, a religião afundou-se
numa vida artificial quando se sentiu compelida a continuar aumentando o edifício de seus símbolos dogmáticos e,
consequentemente, ocultando a única verdade divina sob um sempre crescente amontoado de incredibilidades, as
quais recomenda que se acredite. Sentindo isto, ela sempre procurou o auxílio da arte que, por sua vez, permaneceu
incapaz de uma maior evolução enquanto precisasse apresentar essa pretensa realidade para o devoto, sob a forma
de amuletos e ídolos, visto que só poderia cumprir sua verdadeira vocação quando, por uma apresentação ideal da
figura alegórica, levasse a compreensão de sua essência interior - a verdade inefavelmente divina".
Considerando novamente o drama de Parsifal, observamos que a cena de abertura se situa nas terras do
Castelo de Monte Salvat. Este é um lugar de paz onde toda vida é sagrada; os animais e aves são mansos porque os
cavaleiros são inofensivos, não matando nem para comer nem por esporte, como fazem os homens realmente santos.
Aplicam a todas as criaturas vivas a máxima: "Vivei e deixai viver".
Amanhece e vemos Gurnemanz, o mais velho dos Cavaleiros do Graal, com dois jovens escudeiros, sob uma
árvore. Acabaram de acordar de seu repouso noturno, e percebem Kundry à distância, que se aproxima galopando
num corcel selvagem. Vemos em Kundry uma criatura de dupla existência. Uma, como servidora do Graal, disposta e
ansiosa por favorecer, por todos os meios ao seu alcance, os interesses dos Cavaleiros do Graal. Esta parece ser sua
verdadeira natureza. A outra, como relutante escrava do Mago Klingsor, é forçada por ele a tentar e a importunar os
Cavaleiros do Graal, aos quais anseia servir. A passagem de uma existência para a outra é o de sono", e ela está
prestes a servir quem a encontre e a acorde. Quando Gurnemanz a encontra, ela é a desejosa servidora do Graal, mas
quando Klingsor a invoca com suas magias perversas, e ele tem direito a seus serviços, ela tem de o servir, quer queira
ou não.
No primeiro ato, ela está vestida com um manto de pele de serpente, símbolo da doutrina do renascimento, Pois,
assim como a serpente troca sua própria pele expelindo camada por camada, assim também o Ego em sua
peregrinação evolucionária emana de si próprio um corpo após outro, expelindo cada veículo como a serpente expele
sua pele quando esta se torna dura, rígida e cristalizada, perdendo assim sua eficiência. Esta ideia também se insere
nos ensinamentos da Lei de Consequência, que nos devolve, como colheita, tudo o que semeamos, e isto está
explícito na resposta de Gurnemanz ao jovem escudeiro pela confissão da falta de confiança em Kundry:
"Sob uma maldição ela bem pode estar
De alguma vida passada que não vemos,
Procurando do pecado o grilhão soltar,
Por ações pelas quais melhor passemos.
Certamente este bem, assim ela o está seguindo,
Ajudando-se à si mesma, enquanto à nós servindo".
Quando Kundry entra em cena, retira do seio um frasco que diz ter trazido da Arábia, esperando que seja um
bálsamo para o ferimento que Amfortas, o Rei do Graal, tem num lado do corpo e que lhe causa sofrimentos indizíveis
e não cicatriza. O rei sofredor é então carregado para o palco e deitado num sofá. Está a caminho de seu banho diário,
no lago próximo, onde dois cisnes nadam e transformam a água numa loção curativa que alivia seus terríveis
sofrimentos. Amfortas agradece a Kundry, mas acredita que não há alívio para ele até que venha o libertador
profetizado pelo Graal: "Um simplório puro, iluminado pela piedade". Mas Amfortas pensa que a morte virá antes da
libertação.
Amfortas é carregado para fora, e quatro dos jovens escudeiros reúnem-se ao redor de Gurnemanz e pedem-
lhe que conte a história do Graal e do ferimento do rei. Todos se recostam debaixo da árvore e Gurnemanz começa:
"Na noite em que Nosso Senhor e Salvador, Cristo Jesus, celebrou a última Ceia com Seus discípulos, Ele bebeu o vinho
de um certo cálice, que mais tarde foi usado por José de Arimatéia para colher o sangue da vida que fluía do ferimento
do Redentor. Também guardou a lança ensanguentada usada para feri-lo, e carregou consigo essas relíquias através
de muitos perigos e perseguições. Por fim, elas ficaram aos cuidados dos Anjos, que as guardaram até a noite em que
um mensageiro místico, enviado por Deus, apareceu e ordenou a Titurel, pai de Amfortas que construísse um castelo
para receber e proteger essas relíquias. Assim, o Castelo de Monte Salvat foi construído numa montanha, e as
relíquias foram ali depositadas, sob a guarda de Titurel e de um grupo de santos e castos cavaleiros que havia atraído
à sua volta. Este lugar tornou-se um centro de onde influências espirituais poderosas fluíam para o mundo exterior.
"Mas, num distante e agreste vale, vivia um cavaleiro negro que não era casto, mas desejava tornar-se um
Cavaleiro do Graal. Para tanto, mutilou- se. Privou-se da capacidade de gratificar sua paixão, mas esta permaneceu
nele. O Rei Titurel notou seu coração repleto de desejos inferiores, e recusou-se a admiti-lo. Klingsor então jurou que
se não pudesse servir ao Graal, o Graal o serviria. Construiu um castelo com um jardim mágico e povoou-o com
donzelas de beleza arrebatadora. Elas recendiam a flores perfumadas e abordavam os Cavaleiros do Graal (que
deviam passar pelo castelo ao sair ou voltar ao Monte Salvat) enganando-os para atrair sua confiança e violar seus
votos de castidade. Assim, muitos tornaram-se prisioneiros de Klingsor e apenas alguns permaneceram como
defensores do Graal.
"Nesse ínterim, Titurel havia delegado a guarda do Graal a seu filho Amfortas e este, vendo a grave
devastação provocada por Klingsor, resolveu ir ao seu encontro e combatê-lo. Com esse propósito levou consigo a
lança sagrada.
"O astuto Klingsor não foi pessoalmente ao encontro da Amfortas, mas evocou Kundry e transformou-a, da criatura
hedionda que apareceu como serva do Graal, numa mulher de beleza transcendental. Sob a magia de Klingsor ela
encontrou e tentou Amfortas, que. rendeu-se caindo em seus braços, deixando escapar das mãos a lança sagrada.
Klingsor então apareceu, agarrou a lança, feriu o indefeso Amfortas e, se não fosse pelos esforços heroicos de
Gurnemanz, teria levado Amfortas prisioneiro para seu castelo mágico. No entanto, ele detém a lança sagrada
enquanto o rei encontra-se inválido pelo sofrimento, pois a ferida não se cicatrizará".
Os jovens escudeiros erguem-se exaltados, jurando subjugar Klingsor e recuperar a lança. Gurnemanz sacode
tristemente a cabeça dizendo que a tarefa é superior às suas forças, mas reitera a profecia de que a redenção virá por
"um simplório puro, iluminado pela piedade".
Ouvem-se gritos: "O cisne! Oh, o cisne!" e um cisne cruza o palco em grande agitação e cai morto aos pés de
Gurnemanz e dos escudeiros, que ficam muito agitados pela visão. Outros escudeiros trazem um jovem intrépido,
armado de arco e flecha que, à triste pergunta de Gurnemanz: "Por que mataste a inofensiva criatura?" responde
inocentemente: "Fiz mal?" Gurnemanz fala-lhe então sobre o rei sofredor e da contribuição do cisne na preparação do
banho curativo. Parsifal fica profundamente comovido pela narrativa e quebra seu arco.
Em todas as religiões, o espírito vivificante tem sido simbolicamente representado por uma ave. No Batismo,
quando o corpo de Jesus estava na água, o Espírito de Cristo desceu sobre ele na forma de uma pomba. "O Espírito
move-se sobre as águas", um meio fluídico, como os cisnes se movem no lago debaixo do Yggdrasil, a árvore da vida
da mitologia nórdica, ou sobre as águas do lago na lenda do Graal. A ave é, portanto, a representação direta da mais
alta influência espiritual e, com razão, os cavaleiros entristeceram-se com a perda. A verdade tem muitas facetas. Há
pelo menos sete interpretações válidas para cada mito, uma para cada mundo. Encarada pelo lado material e literal, a
compaixão gerada em Parsifal e o ato de quebrar seu arco, marcam um passo definido para a vida mais elevada.
Ninguém pode ser verdadeiramente compassivo e almejar a evolução, enquanto matar para comer, seja de forma
pessoal ou indireta. A vida inofensiva é um requisito absoluto e essencial para a vida prestativa.
Gurnemanz começa a questioná-lo: quer saber quem é ele e como chegou ao Monte Salvat. Parsifal
demonstra a mais surpreendente ignorância. A todas as perguntas, responde: "Eu não sei". Por fim, Kundry diz em voz
alta: "Eu posso dizer-vos quem ele é. Seu pai era o nobre Gamuret, um príncipe entre os homens, que morreu
combatendo na Arábia enquanto este jovem estava ainda no ventre de sua mãe, Lady Herzleide. Em seu último
suspiro, seu pai chamou-o Parsifal, o simplório puro. Sua mãe temendo que ele pudesse crescer, aprender as artes da
guerra e ser afastado dela, criou-o numa densa floresta na ignorância de armas e guerras".
Aqui Parsifal interrompe e diz: "Sim, um dia eu vi alguns homens montados em belos animais e quis ser igual a
eles, por isso segui-os por muitos dias até que cheguei aqui e tive que lutar com muitos monstros semelhantes aos
homens".
Nesta história temos um excelente quadro da alma à procura das realidades da vida. Gamuret e Parsifal são
fases diferentes da vida da alma. Gamuret é o homem do mundo que se casou com Herzleide, que representa um
coração aflito. Conhece o infortúnio e morre para o mundo, como todos nós fazemos quando ingressamos numa vida
superior. Enquanto a barca da vida flutua nos mares do verão e nossa existência parece uma bela e doce melodia, não
há incentivo para voltarmo-nos para a vida superior; cada fibra em nosso corpo grita "Isto é suficientemente bom para
mim". Mas, quando os vagalhões da adversidade se elevam à nossa volta e cada nova onda ameaça tragar-nos, então,
unidos às aflições do coração, tornamo-nos homens sofredores e estamos prontos para nascer como Parsifal, o
simplório ou a alma pura que esqueceu a sabedoria do mundo e está à procura da vida superior. Enquanto o homem
procurar acumular dinheiro ou aproveitar a vida, como tão equivocadamente se diz, ele torna-se sábio pela sabedoria
do mundo; mas, quando passa a encarar as coisas do Espírito, torna-se um simplório aos olhos do mundo. Esquece
tudo sobre sua vida passada e deixa para trás suas tristezas, como Parsifal deixou Herzleide, que morreu quando
Parsifal não voltou para ela. Assim, a tristeza morre quando dá nascimento à alma aspirante que foge do mundo. O
homem pode estar no mundo para cumprir seu dever, mas não ser do mundo.
Gurnemanz está imbuído com a ideia de que Parsifal vai ser o libertador de Amfortas e o leva ao Castelo do
Graal. E, à pergunta de Parsifal: "O que é o Graal?" ele responde:

"Não podemos dizê-lo; mas se por Ele tu foste enviado.


De ti a verdade não ficará escondida.
Julgo que tua face me é conhecida.
Nenhum caminho conduz ao Seu Reino,
E a procura d'Ele mais distante te vai levar,
Se não for Ele próprio a te guiar".

Aqui vemos Wagner levando-nos de volta aos tempos anteriores ao Cristianismo. Antes do advento de Cristo,
a Iniciação não estava liberada para "quem quisesse" procurá-la, mas era reservada para alguns escolhidos, como os
Brâmanes e os Levitas, aos quais foram dados privilégios especiais como recompensa por terem sido dedicados ao
serviço do templo. Contudo, a vinda de Cristo estabeleceu certas mudanças definidas na constituição da humanidade,
de modo que agora todos podem entrar no caminho da Iniciação. De fato, tinha que ser assim, quando os casamentos
entre as várias nacionalidades dissolveram as castas.
No Castelo do Graal, Amfortas está sendo pressionado de todos os lados para oficiar o rito sagrado do Graal,
para descobrir o cálice sagrado à cuja visão possa ser renovado o ardor dos cavaleiros impulsionando-os a atos de
serviço espiritual. Mas, ele se esquiva, com medo da dor que a visão lhe irá causar. O ferimento sempre volta a
sangrar à vista do Graal, como a dor do remorso aflige a todos nós quando pecamos contra o nosso ideal. Finalmente,
ele cede aos rogos conjuntos de seu pai e dos cavaleiros. Celebra o rito sagrado, embora durante todo o tempo sofra a
mais torturante agonia. Parsifal, que está a um canto, sente, por compaixão, a mesma dor, sem compreender a razão.
Depois da cerimônia, Gurnemanz pergunta-lhe ansiosamente o que ele viu, mas ele permanece mudo e, por ter ficado
desapontado, o velho cavaleiro irado expulsa-o do castelo.
As emoções e os sentimentos não controlados pelo conhecimento são fontes férteis de tentação. A própria
inocência e a sinceridade da alma que aspira, frequentemente tornam-se uma presa fácil do pecado. Para o
crescimento da alma é necessário que surjam essas tentações, a fim de revelar nossos pontos fracos. Se caímos,
sofremos como Amfortas sofreu. Mas a dor desenvolve a consciência e traz aversão ao pecado, tornando-nos fortes
contra a tentação. Toda criança é inocente porque não foi tentada. Porém, só quando tivermos sido tentados e
permanecermos puros, ou quando após a queda arrependermo-nos e corrigimo-nos, é que somos virtuosos.
Consequentemente, Parsifal deve ser tentado.
No segundo ato, vemos Klingsor no momento de invocar Kundry, pois percebeu que Parsifal vem em direção
ao seu castelo, e ele o teme mais do que a qualquer outro que tenha vindo antes, porque ele é um simplório. Um
homem prudente, conhecedor do mundo, não é facilmente levado pelas tentações, mas a ingenuidade de Parsifal o
protege. E, quando as meninas flores agrupam-se em torno dele, ele inocentemente pergunta: "Vocês são flores?
Vocês cheiram tão bem!" Contra ele é necessária a astúcia refinada de Kundry e, embora ela implore, proteste e se
rebele, é forçada a tentar Parsifal. Para isso apresenta-se como uma mulher de grande beleza, chamando Parsifal pelo
nome. Esse nome desperta-lhe lembranças de sua infância, do amor de sua mãe. Kundry chama-o para perto de si e
começa a trabalhar sutilmente sobre seus sentimentos, fazendo voltar à sua memória visões do amor de sua mãe e da
tristeza que ela sentiu com sua partida, o que pôs termo à sua vida. Depois, fala-lhe sobre um outro amor. o que pode
compensá-lo, o amor do homem pela mulher, e, por fim, dá-lhe um longo, ardoroso e apaixonado beijo.
Segue-se um silêncio profundo e terrível, como se o destino de todo o mundo estivesse pendente desse beijo
apaixonado. Enquanto ela o prende em seus braços, o rosto de Parsifal muda gradualmente e torna-se a estampa da
dor. De repente, ele salta como se esse beijo tivesse causado em seu ser uma nova dor, as linhas de sua face pálida
acentuam-se, e ambas as mãos apertam fortemente seu coração palpitante, como para reprimir uma terrível agonia, o
cálice do Graal surge diante de sua visão. Depois, Amfortas aparece na mesma terrível agonia, e, por fim, ele grita:

"Amfortas, oh. Amfortas! Agora eu sei


o ferimento da lança no teu lado ele queima meu coração,
ele queima minha própria alma ...
Oh dor! Oh miséria! Angústia indescritível!
A ferida está sangrando aqui no meu próprio lado!"

Depois, novamente, com o mesmo terrível esforço: "Não, este não é o ferimento da lança no meu lado, isto é,
fogo e chama, dentro de meu coração, que inclinam meus sentidos ao delírio, a espantosa loucura do tormento do
amor ... Agora eu sei porque as pessoas ficam agitadas, excitadas, convulsionadas e frequentemente perdidas pelas
terríveis paixões do coração".
'Kundry o tenta novamente: "Se este único beijo te trouxe tanta sabedoria, quanto mais sabedoria tu terás se
cederes ao meu amor, mesmo que seja só por uma hora?"
Mas não há hesitação agora. Parsifal despertou, distingue o certo do errado e responde: "A eternidade estaria
perdida para nós dois se eu sucumbisse a ti, mesmo por apenas uma curta hora. Mas eu te salvarei e também te
libertarei da maldição da paixão, pois o amor que arde em ti é apenas sensual, e entre esse e o verdadeiro amor dos
corações puros, abre-se um abismo como o que existe entre o céu e o inferno".
Finalmente, Kundry reconhece estar derrotada, mas tem um acesso de raiva. Chama Klingsor para ajudá-la, e
ele aparece com a lança sagrada, que arremessa contra Parsifal. Mas ele é puro e inofensivo, portanto, nada pode feri-
lo. A lança flutua inofensivamente acima de sua cabeça. Ele a agarra, faz com ela o sinal da Cruz e o castelo de Klingsor
e o jardim mágico desmoronam em ruínas.
O terceiro ato começa na Sexta-feira Santa, muitos anos depois. Um guerreiro, exausto da viagem, vestido
com uma cota de malha negra, adentra a propriedade de Monte Salvat, onde Gurnemanz vive numa cabana. Tira seu
elmo, pousa uma lança contra uma rocha próxima e ajoelha-se para rezar. Gurnemanz entra com Kundry, que acaba
de encontrar adormecida no bosque, reconhece Parsifal com a lança sagrada e, radiante, dá-lhe as boas-vindas,
perguntando de onde ele vem.
Tinha feito a mesma pergunta na primeira visita de Parsifal e a resposta fora: "Eu não sei". Mas, desta vez, é
muito diferente, pois Parsifal responde: "Venho da busca e do sofrimento". A primeira experiência retrata um dos
vislumbres que a alma tem das realidades da vida superior, mas a segunda é a consciente chegada do homem a um
nível superior de atividade espiritual, que desenvolveu através de tristezas e sofrimentos. Parsifal conta como foi
penosamente assediado por inimigos, e poderia ter-se salvado se usasse a lança, mas sempre se conteve, pois ela era
um instrumento para curar e não para ferir. A lança é o poder espiritual que chega à vida e aos corações puros, mas só
deve ser usada para propósitos altruístas; impureza e paixão causam a sua perda, como sucedeu a Amfortas. Embora
o homem que a possuiu pôde usá-la para alimentar cinco mil pessoas famintas, não transformou uma simples pedra
em pão para saciar sua própria fome. Embora a tenha usado para estancar o sangue que correu da orelha decepada
de um captor, não a usou para estancar o sangue vital que se esvaiu de seu próprio lado. Sempre foi dito sobre isto:
"Outros Ele salvou; não pôde (ou não quis) salvar-se a Si próprio".
Parsifal e Gurnemanz entram no Castelo do Graal onde Amfortas está sendo instado para celebrar o rito
sagrado, mas ele se recusa, pois quer salvar-se da dor que sempre o aflige quando vê o Santo Graal. Descobrindo seu
peito, implora a seus seguidores que o matem Neste momento, Parsifal aproxima-se dele e toca seu ferimento com a
lança, curando-o. Contudo, destrona Amfortas e assume a guarda do Santo Graal e da Lança Sagrada. Somente
aqueles dotados do mais perfeito altruísmo, unido ao melhor discernimento, estão aptos a receber o poder espiritual
simbolizado pela lança. Amfortas tê-la-ia usado para atacar e ferir um inimigo. Parsifal não a usaria nem para
defender-se. Portanto, ele está apto a curar, enquanto Amfortas caiu na cova que havia aberto para Klingsor.
No último ato, Kundry, que representa a natureza inferior, diz apenas uma palavra: Serviço. Por seu trabalho
perfeito ela ajuda Parsifal, o Espírito, a realizar-se. No primeiro ato, ela adormeceu quando Parsifal visitou o Graal.
Nesse estágio, o Espírito não pode elevar-se aos céus, a não ser quando o corpo está adormecido ou morto. Mas, no
último ato, Kundry, o corpo, também vai ao Castelo do Graal, que é dedicado ao Eu superior, e quando o Espírito,
como Parsifal, alcançou a meta, ele conseguiu atingir o estágio de libertação mencionado na Revelação: "Aquele que
vencer, Eu o converterei num pilar na casa de meu Deus, e dali não sairá mais" 357. Esse alguém irá trabalhar para a
humanidade desde os mundos superiores; não necessitará mais do corpo denso; estará além da Lei do Renascimento
e, consequentemente, Kundry morre.
Em seu lindo poema "The Chambered Nautilus", (O Náutilo Enclausurado), Oliver Wendell Holmes
personificou esta ideia de progressão constante em veículos gradativamente melhorados, e a libertação final. O
náutilo constrói sua concha espiralada dividida em compartimentos, deixando constantemente as menores, que se
tornaram pequenas pelo seu crescimento, pela última que construiu.

"Ano após ano, sempre no silêncio


prossegue na labuta de ampliar suas reluzentes espirais; e, à medida que elas crescem mais,
deixa a morada do ano que passou e na nova vai habitar.
Com suaves passadas deslizando através dos umbrais construídos com vagar, acomoda-se outra vez em novo lar
e não mais o anterior vai recordar.
Pela mensagem celeste que me trazes, graças te dou, filho do oceano, lançado do teu meio desolado!
Dos teus lábios mortos nasce uma nota mais clara
que quaisquer das que Tritão já tirou do seu corno espiralado! Enquanto em meus ouvidos ela soar,
através das cavernas profundas do pensamento
ouço uma voz, a cantar:
"Oh! Minh'alma, constrói Par ti mansões mais majestosas. enquanto as estações passam ligeiramente!
Abandona o teu invólucro finalmente;
Deixa cada novo templo, mais nobre que o anterior, com cúpula celeste com domo bem maior,
e que te libertes decidida,
largando tua concha superada nos agitados mares desta vida".

357
Ap 3:12
O Anel do Niebelungo
Capítulo VI - As Donzelas do Reno

Repetição é a nota-chave do corpo vital e o extrato do corpo vital é a alma intelectual, que é o pábulo do
Espírito de Vida, o verdadeiro princípio de Cristo no homem. Como é trabalho específico do Mundo Ocidental
desenvolver este princípio de Cristo para formar o Cristo interno, fazendo-o brilhar na escuridão materialista dos
tempos atuais, a repetição de ideias é essencial. Inconscientemente, todo o mundo está obedecendo esta lei.
Quando os jornais começam a inculcar certas ideias na mente do público, não esperam consegui-lo através de
um editorial apenas, mesmo que este seja muito bem redigido, mas com artigos repetidos diariamente, criando na
mente dos leitores o sentimento desejado. A Bíblia vem pregando o princípio do amor há 2.000 anos, domingo após
domingo, dia após dia, em centenas de milhares de púlpitos. A guerra ainda não foi abolida, mas o sentimento a favor
da paz universal está ficando cada vez mais forte à medida que o tempo passa. Esses sermões têm causado apenas um
leve efeito nas pessoas, embora um determinado público possa comover-se no momento da pregação, pois o corpo
de desejos é a parte do homem que fica sensibilizada no momento.
O corpo de desejos é uma aquisição posterior à do corpo vital, daí não estar tão cristalizado e,
consequentemente, ser mais impressionável. Por ser de uma textura mais sutil que o corpo vital, é menos retentivo, e
as emoções facilmente geradas são também facilmente dissipadas. Um impacto menor é produzido no corpo vital
quando ideias e ideais infiltram-se nele através do invólucro áurico, mas o que adquirir por intermédio de estudos,
sermões, conferências ou leituras, é de natureza mais duradoura. Muitos impactos na mesma direção criam
impressões poderosas para o bem ou para o mal, de acordo com suas naturezas.
Para que sejamos beneficiados por esta lei de impactos cumulativos, tomemos para objeto de estudo outro
dos grandes mitos da alma, o qual projeta luz sobre o mistério da vida visto de um ângulo diferente, para que
possamos aprender mais profundamente, de onde viemos, porquê estamos aqui e para onde vamos.
Como já foi dito, todos os mitos são veículos de verdades espirituais veladas sob alegorias, símbolos e quadros
e, portanto, capazes de compreensão sem exigir o uso da razão. Como as histórias de fadas são uma forma de
ensinamento para as crianças, assim estes grandes mitos foram usados para transmitir as verdades espirituais à
humanidade infantil.
O Espírito-Grupo atua sobre os animais através de seus corpos de desejos; evocando quadros que dão ao
animal um sentimento e uma sugestão do que deve fazer. Da mesma maneira, quadros alegóricos contidos nos mitos
formaram no homem a base para seu desenvolvimento presente e futuro. Subconscientemente, estes mitos agiram
sobre ele e o levaram ao estágio em que hoje se encontra. Sem essa preparação, o homem teria sido incapaz de
realizar o trabalho que está fazendo agora.
Hoje, esses mitos ainda estão trabalhando para preparar-nos para o futuro, mas algumas pessoas sentem mais
suas influências que outras. O caminho da civilização vem seguindo o curso do Sol, de leste a oeste, e na atmosfera
etérica da costa do Pacífico, estes quadros míticos quase desapareceram, e o homem está contatando mais
diretamente as realidades espirituais. Mais para o leste, especialmente na Europa, ainda encontramos a atmosfera de
misticismo pairando sobre ela. Lá, o povo aprecia os mitos antigos que lhes falam de maneira incompreensível para os
do oeste. Nos fiordes da Noruega, nos pântanos da Escócia, nos mais profundos recantos da Floresta Negra da
Alemanha, e entre as Geleiras Alpinas, a vida espiritual do Povo é tão profunda e mística hoje, como o foi há mil anos
atrás. Eles estão em contato mais direto com os Espíritos da Natureza e com outras realidades sentidas através das
fábulas, do que nós que avançamos no caminho da aspiração pelo conhecimento direto. Se evocarmos este
sentimento e o combinarmos com nosso conhecimento, teremos conseguido uma enorme vantagem. Tentemos, pois,
assimilar uma das mais profundas histórias místicas do passado, que é "O Anel do Niebelungo", o grande poema épico
do norte da Europa. Relata a história do homem, desde o tempo em que vivia na Atlântida até ao dia em que este
mundo chegar ao fim por uma grande conflagração e também alude ao Reino dos Céus que será estabelecido, como é
relatado na Bíblia.
A Bíblia fala-nos do Jardim do Éden, onde nossos primeiros pais viviam em contato direto com Deus, puros e
inocentes como crianças. Fala-nos de como esta situação terminou, e de como a tristeza, o pecado e a morte
chegaram ao mundo. Nos mitos antigos, como O Anel do Niebelungo, também tomamos conhecimento da
humanidade que vivia sob condições iguais às da criança inocente. A cena de abertura deste drama de Wagner
representa a vida sob as águas do Reno, onde as donzelas nadam em movimentos rítmicos, com uma canção nos
lábios, imitando o balanço das ondas dançantes. As águas estão iluminadas por uma rocha de ouro reluzente e em
redor dela circulam as Filhas do Reno, como os planetas se movem ao redor do Sol. Aqui temos a réplica microcósmica
do macrocosmo, onde os corpos celestiais se movem ao redor do dador da Luz Central, numa majestosa dança
circular.
As donzelas do Reno representam a humanidade primitiva durante a época em que vivíamos no fundo do
oceano, na atmosfera densa e nebulosa de Atlântida. O ouro que iluminava a cena, como o Sol ilumina o universo
solar, é uma representação do Espírito Universal que, então, pairava sobre a humanidade. Não víamos nada em
contornos claros e precisos como vemos hoje os objetos ao nosso redor, mas nossa percepção interior em relação às
qualidades da alma dos outros, era mais aguçada do que é agora.
O Espírito individual considera-se, ele próprio, um Ego e denomina-se "EU", em claro contraste com todos os
outros, mas este princípio separatista não havia penetrado nos homens infantis da antiga Atlântida. Não tínhamos o
sentimento do "eu" e "tu"; fazíamos parte de uma grande família, como filhos do Pai Divino. Não nos preocupávamos
com o que comeríamos ou beberíamos, como as crianças de hoje não têm o encargo das necessidades materiais da
vida. O tempo era vivido em grande divertimento e folguedos.
Mas, este estado não podia continuar ou então não haveria evolução. Como a criança cresce para tornar-se
um homem ou uma mulher, para participar da batalha da vida, assim também a humanidade primitiva estava
destinada a abandonar sua terra natal, nas terras baixas, e ascender através das águas da Atlântida quando estas se
condensaram e inundaram as bacias da Terra. A humanidade em evolução passou a viver nas condições atmosféricas
em que hoje vivemos, como foi dito sobre os antigos Israelitas que atravessaram o Mar Vermelho para entrar na Terra
Prometida, e sobre Noé, que deixou sua terra natal quando as águas do dilúvio se precipitaram.
O mito nórdico conta-nos a história de um outro modo, mas embora o ângulo de visão seja diferente, os
pontos principais da narrativa apontam as mesmas ideias essenciais. No Jardim do Éden, nossos primeiros pais não
pensavam por si próprios. Obedeciam incondicionalmente qualquer ordem que lhes fosse dada pelos seus guias
divinos, como uma criança em seus primeiros anos faz o que seus pais desejam, porque ela não tem consciência de
si. Falta-lhe individualidade. Isto, de acordo com a história da Bíblia, foi conquistado quando Lúcifer imbuiu os da
ideia de que poderiam tornar-se iguais aos deuses e conhecer o bem e o mal.
No mito teutônico sabemos que Albérico, um dos Filhos da Névoa (Niebel é névoa, ung é criança ou filho,
eram assim chamados porque viviam na atmosfera nebulosa da Atlântida), cobiçava o ouro que resplandecia com
tanto brilho no Reno. Ouviu dizer que quem obtivesse o ouro e o transformasse num anel seria capaz de conquistar o
mundo e dominar todos que não possuíssem o tesouro. Consequentemente, nadou até a grande rocha onde estava o
ouro, agarrou-o e voltou rapidamente à superfície, perseguido pelas filhas do Reno, muito aflitas pela perda desse
tesouro.
Quando Albérico, o ladrão, atingiu a superfície das águas, ouviu uma voz dizendo-lhe que ninguém poderia
transformar o ouro num anel, como era exigido para dominar o mundo, a não ser que renegasse o amor. Ele o fez
imediatamente e, em seguida, começou a roubar a Terra de seus tesouros, satisfazendo assim seu desejo de riqueza e
poder.
Como foi dito antes, o ouro, enquanto está em seu estado informe sobre a rocha do Reno, representa o
Espírito Universal que não é propriedade exclusiva de ninguém. Albérico representa o primeiro entre a humanidade
que foi impelido pelo desejo de conquistar mundos novos. Primeiro, os homens foram vivificados pelo Espírito interno
e emigraram para as terras altas. Mas, uma vez na atmosfera clara de Ariana - o mundo como o conhecemos hoje -
viram-se clara e distintamente como entidades separadas. Cada um percebeu que seus objetivos eram diferentes;
que, para ter êxito e conquistar o mundo para si, deveriam cuidar de seus próprios interesses sem considerar os dos
outros. Assim, o Espírito traçou um anel em torno de si mesmo e tudo dentro desse anel era "eu" e "meu", uma
concepção que o tornou antagônico aos outros. Por conseguinte, a fim de formar este anel e conservar um centro
separado, foi-lhe necessário renunciar ao amor. Por isso, e somente por isso, ele pôde ignorar os interesses dos outros
para poder prosperar e dominar o mundo.
Contudo, Albérico não é o único a desejar traçar um anel em torno de si com o propósito de conquistar o
poder. "Como é em cima, assim é embaixo", e vice-versa, diz o axioma hermético- Os deuses também estão
evoluindo. Eles também têm aspirações ao poder - um desejo de traçar um anel ao redor deles - pois há guerra no
céu, do mesmo modo que há na Terra.
Diferentes cultos procuram apropriar-se das almas dos homens, e suas limitações são também simbolizadas
por anéis.
Capítulo VII - O Anel dos Deuses

Ao apropriar-se de uma parte do ouro do Reno, que representa o Espírito Universal, e transformando-o em
um anel, simbolizando que o Espírito não tem princípio nem fim, o Ego veio à existência como uma entidade separada.
Dentro dos limites deste anel áurico, ele é regente supremo, autossuficiente, ressentindo-se de qualquer intromissão
em seus domínios. Assim, ele se coloca além do âmbito da fraternidade. A parábola do filho pródigo diz-nos que ele
vagueou para longe do Pai, mas, mesmo antes de perceber que estava se alimentando dos resíduos da matéria, a
religião surgiu para guiá-lo de volta ao seu lar eterno, para libertá-lo da ilusão e da desilusão próprias da existência
material, para redimi-lo da morte que ocorre nesta fase da incorporação densa, e mostrar-lhe o caminho para a
verdade e para a vida eterna.
No mito teutônico, as sentinelas da religião são representadas como deuses. Seu chefe é Wotan, que é
idêntico ao Mercúrio latino, e Wotansday (dia de Wotan), ou Wednesday (quarta-feira) é assim chamado em sua
honra. Freya, a Vênus da Noruega, era a deusa da beleza, que alimentava os outros deuses com maçãs douradas que
lhes preservavam a juventude. Friday (sexta-feira) é seu dia. Thor, o Júpiter dos escandinavos, dirige seu carro pelos
céus e o barulho que se ouve é o trovão, e o relâmpago são as faíscas que voam de seu martelo quando golpeia seus
inimigos. Loge é o nome do deus de Sábado. (Lorday em escandinavo, um derivado de lue que é o nome escandinavo
para chama) Ele não é propriamente um dos deuses, mas é relacionado com os gigantes ou forças da natureza. Sua
chama não é apenas a chama física, mas é também o símbolo da ilusão, e ele próprio é o espírito da fraude, às vezes,
conseguindo os favores dos deuses e traindo os gigantes, outras vezes, enganando os deuses e ajudando os gigantes
para favorecer seus próprios planos. Como Lúcifer, o flamejante Espírito de Marte, ele também é um espírito de
negação, e alegra-se em obstruir a vida como o frio Saturno.
Há na mitologia nórdica uma referência a um culto ainda mais antigo, no qual as divindades da água eram
adoradas, mas os deuses que mencionamos as substituíram, e diz que cavalgavam para o lugar do julgamento, todos
os dias, sobre uma ponte de arco-íris, Bifrost. Assim, vemos que esta religião data do alvorecer da época presente,
quando a humanidade emergiu das águas de Atlântida para a clara atmosfera de Ariana - na qual estamos vivendo
agora - e onde contemplou o arco-íris pela primeira vez.
Foi dito a Noé, quando ele guiou a humanidade primitiva afastando-a do dilúvio, que, enquanto o sinal do
arco-íris permanecesse nas nuvens, os ciclos alternantes de verão e inverno, noite e dia, não cessariam. O mito
nórdico também nos mostra os deuses reunidos na ponte do arco-íris no princípio desta era. Ele e os deuses
permanecerão até o momento em que termine esta fase de nossa evolução, um acontecimento que será mostrado
para ser idêntico à descrição dada no Apocalipse Cristão e que o mito escandinavo ajudará a explicar.
A verdade é universal e ilimitada. Não conhece fronteiras, mas, quando o Ego se envolveu num anel de
veículos separados que segregou, o dos outros, esta limitação tornou-o incapaz de compreender a verdade absoluta.
Portanto, uma religião incorporando a plenitude da verdade pura teria sido incompreensível para a humanidade e
inadequada para ajudá-la. Como uma criança que vai para a escola e aprende algumas lições elementares no primeiro
ano, preparando-se para enfrentar problemas mais complicados no futuro, assim foram dadas à humanidade religiões
da mais primitiva natureza, a fim de educá-la para algo mais elevado através de estágios gradualmente fáceis.
Desta maneira, os sentinelas da religião, os deuses, são representados como desejosos de construir uma
fortaleza murada para que possam entrincheirar-se por detrás dessa barreira e concentrar seus poderes contra a
outra fé. O Espírito não pode ser limitado sem enredar-se no materialismo; portanto, os deuses, aconselhados por
Loge, o espírito da fraude e da desilusão, fazem um pacto com os gigantes, Fafner e Fasolt (representando o egoísmo)
para construir a muralha da limitação. Quando essa muralha cerca os deuses, eles perdem a luz universal e o
conhecimento; em consequência, o mito deseja que parte do pagamento para os construtores do Valhal, sejam o Sol e
a Lua.
Além disso, quando a religião limitou-se a ficar por detrás da muralha da crença, o espírito do declínio é
apresentado; envelhece como uma vestimenta. Diz-se que Wotan (sabedoria ou razão), concordou em dar Freya, a
deusa da beleza, aos gigantes, pois ela alimentava os deuses com suas maçãs douradas para preservar-lhes a
juventude. Seguindo o conselho de Loge, o espírito da fraude, os deuses sacrificaram sua luz e seu conhecimento pela
esperança da vantagem de uma eterna juventude. Como já foi dito, este procedimento era de certo modo necessário,
senão a humanidade não poderia ter alcançado a verdade em sua plenitude, embora nós não possamos entendê-la,
nem mesmo agora.
O poder espiritual da religião é simbolizado pela vara mágica de Arão na Bíblia, pela lança de Parsifal. no mito
do Graal, e pela lança de Wotan na história dos Niebelungos. Para firmar o pacto com os gigantes, caracteres mágicos
foram talhados no cabo da lança, que assim ficou enfraquecida e, deste modo, fica demonstrado que a religião perde
em poder espiritual o que ganha em aspecto material, quando faz um pacto com os governantes do mundo e
estabelece intrigas satisfazendo os mais baixos anseios.
De acordo com os ensinamentos dos nórdicos, apenas os que morriam combatendo adquiriam o direito de
serem conduzidos ao Valhal. Wotan nada deseja, a não ser guerreiros fortes e poderosos. Os que morriam de
enfermidades ou em paz em seus leitos eram condenados ao reino do inferno, o submundo. Isto também encerra
uma grande lição, pois ninguém, a não ser os persistentes e os destemidos, que passam seus dias lutando a batalha da
vida até o último alento, são dignos de progresso. Os ociosos, que preferem a comodidade e a paz ao trabalho do
mundo, não têm direito à promoção na escola da vida. Não importa onde trabalhemos ou qual seja a linha de nossa
experiência, é imprescindível que batalhemos fielmente com os problemas da vida conforme eles se nos apresentam.
Também não basta que o façamos por um ano ou dois e depois voltemos à inatividade; devemos continuar
trabalhando e esforçando-nos até o fim da vida.
Assim, a velha religião nórdica ensina a mesma lição transmitida por Paulo quando aconselhou "paciente
perseverança em fazer o bem". Mesmo que compreendamos que não possuímos toda a verdade, mesmo que
estejamos limitados pela separatividade - o egoísmo simbolizado pelo Anel de Niebelungo e por credos e convenções
representados pelo Anel dos deuses, ainda assim, se cumprirmos nossa tarefa específica com o melhor de nossa
capacidade através de toda nossa vida, temos a certeza de. estarmos em direção ao progresso numa era futura.
Veremos mais claramente quando eliminarmos o véu do egoísmo; quando, com boa vontade, vivermos a vida aonde
fomos colocados, pois os Anjos do Destino não cometem erros. Eles colocaram-nos no lugar onde devemos receber as
lições necessárias e assim preparar-nos para uma esfera mais elevada e útil.
É evidente que a condição limitada da crença ditada pelas várias igrejas, a insistência sobre dogmas e rituais,
não é o mal maior, como deve ter parecido a muitos. Na realidade, a necessária consequência das limitações que
incidem sobre a existência material, através da qual o Espírito humano está agora passando, é que deve ser
devidamente cuidada. Que o Espírito adquira tanta verdade quanto possa compreender e que ela seja benéfica para
seu presente desenvolvimento. Não há necessidade de uma maior preocupação, pois ninguém ficará perdido. "Como
em Deus vivemos, nos movemos e temos nosso ser", se alguém ficasse perdido, uma parte do Divino Autor do nosso
sistema estaria também perdida, e esta é uma proposição inconcebível.
Mas, enquanto a maioria da humanidade está sendo orientada pelas religiões ortodoxas, há sempre alguns
pioneiros - alguns cuja faculdade intuitiva fala-lhes de maiores alturas ainda não escaladas, que enxergam a luz do sol
da verdade além da muralha do credo. Suas almas estão enfraquecidas pelos dogmas, e anseiam ardentemente pelo
amor e pelas maçãs da juventude vendidas pelos deuses aos gigantes. Mesmo os deuses estão envelhecendo
rapidamente, pois nenhuma religião que seja destituída de amor pode esperar reter a humanidade por qualquer
período de tempo. Em consequência, os deuses foram forçados a procurar novamente os conselhos de Loge, o
espírito da fraude, esperando que sua astúcia os libertasse dos dilemas. Loge conta-lhes como Albérico, o Niebelungo,
conseguiu acumular um imenso tesouro escravizando seus irmãos. Com o consentimento dos deuses, ele usa de
meios fraudulentos para capturar Albérico e força- o a restituir todos seus tesouros. Depois, aproveita-se da natureza
avarenta dos gigantes e finalmente consegue resgatar Freya.
Assim, a maldição do Anel (egocentrismo e egoísmo) maculou até mesmo os deuses. Por causa do Anel
(poder), Albérico, o Niebelungo, rejeitou o amor. Oprimiu seus irmãos e governou-os com disciplina férrea. A religião,
por seu lado, renegou o amor vendendo Freya e enganando, aviltou-se para forçar os governantes do mundo a pagar
tributo. Quando o Anel dos Niebelungos passou às mãos dos gigantes, o mau destino o acompanhou, pois um irmão
mata o outro para ser o único possuidor das riquezas do mundo.
Os deuses, na verdade, resgataram Freya, mas ela não é mais a pura deusa do amor. Foi prostituída; portanto,
ela é apenas a imagem do que foi, e não consegue satisfazer aqueles cuja intuição vêem além da aparência.
Na mitologia escandinava estes são chamados Walsungs. A primeira sílaba é derivada da palavra alemã
wahlen, escolher, ou da escandinava vaelge. A última sílaba significa filhos. Eles são filhos do desejo por livre vontade
e escolha, e querem escolher seu próprio caminho procurando seguir sua intuição divina.
Capítulo VIII - As Valquírias

"As Valquírias" é o nome da segunda parte do grande drama musical de Wagner, baseado no mito nórdico dos
Niebelungos, e as portadoras do nome eram as filhas de Wotan, como também eram os Walsungs.
Este nome é bem apropriado quando compreendermos que a missão das Valquírias era ir onde lutas
estivessem sendo travadas entre dois ou mais guerreiros, colocar os mortos em seus cavalos e levá-los ao Valhal.
Portanto, um campo de batalha ou um lugar de combate era chamado Valplads, o lugar onde Wotan, o deus, escolhia
os valentes que morriam lutando pela busca da verdade (como eles a viam), para serem seus companheiros no reino
da bem-aventurança (como eles o concebiam). Brunilda, o espírito da verdade, era, portanto, a chefe dentre as
Valquírias, a líder de suas irmãs, as outras virtudes. Era a filha favorita do deus Wotan.
Mas, quando os deuses restringiram-se e excluíram a universalidade da verdade pelo Anel do Credo e do
dogma - simbolizados pelo Valhal - os Walsungs, que são antes de tudo os que procuram a verdade, rebelaram-se. Eles
se manifestam sob diferentes aspectos, como é indicado pelos nomes que lhes são conferidos nos mitos nórdicos. A
raiz de seu nome é Sieg, uma palavra alemã que significa vitória e é muito apropriada, pois não importa o que haja
contra ela, no fim a verdade vencerá.
Siegmund, o corajoso, que é impelido a procurar a verdade, não importa quais as consequências, pode ser
assassinado como resultado de sua audácia. Em breve saberemos como e porquê, Sieglinda, sua irmã e mais tarde sua
esposa, que tem o mesmo anseio interior, mas não se atreve a seguí-lo abertamente, pode morrer em desespero. Ela
transmite este anseio pela verdade ao descendente deles, Siegfried, aquele que através da vitória ganha a paz; assim,
o que uma geração que procura a verdade não consegue realizar, futuramente será conseguida por seus
descendentes e, por fim, a verdade triunfará sobre o credo e permanecerá suprema.
Não podemos deixar passar a oportunidade de descrever ou opinar sobre acontecimentos que serão
apresentados na formosa lenda que temos diante de nós, mas não podemos abster-nos de repetir muitas vezes este
pensamento glorioso: "Porque agora vemos como por um espelho, obscuramente". Embora as muralhas e as
limitações da existência física acompanhem-nos em todas as direções, chegará o momento em que "veremos e
conheceremos como também somos conhecidos".
Quando Siegmund, impelido pelo desejo incontrolável da busca da verdade, deixa o Valhal, Wotan fica
enraivecido e para refrear o espírito independente dos Walsungs, ordena o casamento de Sieglinda com Hunding, que
é o espírito do convencionalismo. Ela, desesperada, desmaia em seus braços, pois não tem coragem de deixar seus
ancestrais como fez seu irmão. Como vemos, ela é o símbolo perfeito daqueles que, embora se revoltem no mais
profundo de suas naturezas, estão casados com as convenções do mundo e têm medo de fazer uma mudança radical
no código estabelecido pela igreja, temendo o que as pessoas possam pensar deles. Embora ultrajados no mais íntimo
de suas naturezas e frustrados em suas mais santas aspirações, continuam a suportar o jugo do convencionalismo e
servem a igreja para salvar as aparências.
Depois de algum tempo, Siegmund vem à casa de Hunding e encontra lá sua irmã. A princípio, não sabe quem
ela é, mas quando se reconhecem, ele a convence a fugirem. Ambos sabem que este ato, este ultraje a Hunding, o
espírito do convencionalismo, não será perdoado pelos deuses e, para fortalecerem-se na batalha que terão pela
frente, levam consigo uma espada mágica chamada Nothung. Noth é necessidade ou infortúnio e ung, como já vimos,
significa filho. Consequentemente, a espada é a filha do infortúnio, a coragem do desespero. Esta espada esteve
enterrada até o punho em Yggdrasil pelo próprio Wotan, para prevenir uma emergência como esta. Para que
possamos entender perfeitamente este lindo símbolo e a conduta aparentemente paradoxal de Wotan, será
necessário elucidar o significado de Yggdrasil, a árvore da vida e do ser, como é explicado na mitologia escandinava.
Segundo o conceito deles, esta maravilhosa árvore eleva-se da Terra ao céu. Uma de suas raízes estava no
submundo com Hel, uma terrível feiticeira que dominava aqueles que haviam morrido de enfermidade e não estavam,
portanto, qualificados para habitar com Wotan no Valhal. Representam a classe de pessoas indolentes que
negligenciam lutar até ao fim a batalha da vida. Hel tem três filhos e todos têm grande afinidade com ela, estando
sempre combatendo os deuses, que se preocupam realmente com o bem estar dos homens. Eles são símbolos dos
elementos que compõem o mundo material, onde a morte reina sozinha. Um é a serpente Midgaard, um monstro
enorme circundando a Terra e mordendo sua própria cauda: é o oceano. O outro é o lobo Fenris, tão sutil, embora tão
forte que nada pode detê-lo: ele representa a atmosfera que circunda a Terra e os ventos que não podem ser
controlados. Loge, que já conhecemos, é o espírito do fogo, do engano e da ilusão. A outra raiz de Yggdrasil está no
caos com os Gigantes de Gelo, de onde se originou todo este universo. A terceira raiz está com os deuses.
Debaixo da raiz que está com Hel, a serpente, Nidhog repousa roendo. É o espírito da inveja e da malícia que
corrompe o bem. Nid significa inveja, e hog, cair. Como Yggdrasil, a árvore da vida em manifestação, vive pelo amor, a
inveja e a malícia querem cortar a árvore e derrubá-la para a morte e para Hel. Mas, sob a raiz que está com os deuses
encontra-se a fonte Urd, de onde as três Norns ou Parcas buscam a água da vida, o ímpeto espiritual, com a qual a
árvore é regada e conserva suas folhas frescas e verdes. Os nomes destas três Parcas são Urd, Skuld e Verdende. Urd
vem do alemão Ur, o passado, a origem ou estado virgem em relação ao homem e ao universo. Ela tece na roca o fio
do destino gerado por nós no passado; e Skuld, que significa dívida, é a segunda Parca, que representa o presente. Urd
entrega-lhe o fio do destino das vidas passadas que devemos expiar neste renascimento Em seguida, ele é dado a
Verdende, a terceira Parca, cujo nome é derivado de werdende, a palavra alemã para o que há de vir. Ela representa o
futuro, e quando o fio do destino, simbolizando a dívida paga na época atual é-lhe entregue, ela o parte, pedaço por
pedaço. Assim, este maravilhoso símbolo diz-nos que, quando a causa gerada em vidas passadas produziu efeitos
nesta vida, a dívida está cancelada para sempre.
A mitologia nórdica diz-nos que além destas três Parcas principais, haviam muitas outras e que cada uma
assistia a um nascimento e cuidava do destino da criança que nascia. Sabemos também que essas Norns ou Parcas não
trabalhavam seguindo a própria vontade, mas estavam sujeitas às ordens do invisível Orlog. O nome é uma corruptela
da palavra Ur, que significa primordial, e log, lei. Sabemos que o símbolo nórdico ensina que as Parcas não estavam
sujeitas aos deuses, e que nosso destino não é regido por capricho, mas por uma inexorável lei da Natureza, a Lei de
Causa e Efeito.
Debaixo da terceira raiz, que estava com os Gigantes de Gelo, ficava o poço de Mime. Os Gigantes de Gelo, ou
forças da natureza, existiram antes da criação da Terra. Ajudaram na sua formação e, consequentemente, sabiam
muitas coisas que estavam ocultas aos deuses. Portanto, mesmo Wotan, o deus da sabedoria, tinha o hábito de ir
beber no poço de Mime para que pudesse receber algum conhecimento do passado. Ele também precisava beber da
fonte de Urd para poder renovar sua vida.
Constatamos que as Hierarquias que nos ajudam a evoluir estão também vivendo para aprender, e o próprio
fato de que estão aprendendo, mostra que são passíveis de erro e justificam a razão por que Wotan, seu chefe,
deveria providenciar a espada Nothung - a coragem do desespero - para que, numa emergência, aqueles contra quem
ele errou, pudessem ter uma arma para se defender. Muito mais poderia ser dito sobre esta maravilhosa Arvore da
Vida, o Yggdrasil, mas o estudante tem agora informações suficientes para capacitá-lo a compreender a relação da
espada com o que vem a seguir.
Quando Siegmund e Sieglinda, fortificados com a espada mágica, a coragem do desespero, deixam a casa de
Hunding, o espírito do convencionalismo, à procura da verdade no vasto mundo, o ultrajado Hunding não necessita
do comando de Wotan para perseguí-los com a intenção de matá-los. Wotan ordena a Brunilda, a Valquíria, que esteja
invisivelmente presente durante a esperada batalha e lute por Hunding, o espírito do convencionalismo. Mas, como o
espírito da verdade não pode lutar contra aquele que procura a verdade, Brunilda, com pesar, recusa-se a obedecer as
ordens de Wotan. Quando Siegmund se defronta com Hunding num combate mortal e está prestes a derrotá-lo,
Wotan interpõe sua lança e, sobre esta, a espada Nothung é despedaçada e Siegmund, indefeso, é morto por um
golpe de Hunding.
A verdade está sempre ao lado de quem a procura e também em sua batalha contra os convencionalismos da
igreja e costumes sociais. Mas, quando o poder da religião, que forneceu a coragem do desespero necessária para
defender suas convicções, contrapõe-se ao poder da crença, simbolizado pela lança de Wotan, muitas almas
fervorosas são vencidas, embora não persuadidas. Siegmund pode morrer e Sieglinda pode seguí-lo até a sepultura
com o coração partido, mas, assistida por Brunilda, dá a luz a Siegfried, o vitorioso. Como já mencionamos, a sede pela
verdade, uma vez sentida, não pode ser saciada enquanto não for totalmente satisfeita.
Nesse ínterim, Wotan, impossibilitado de abandonar Valhal, o Anel do Credo, é forçado a afastar de si
Brunilda, o espírito da verdade, que o desobedeceu, pois é uma condição do credo ser autocrático e não tolerar
contestações. Como todas as religiões estão inerentemente imbuídas de um espírito de amor e um desejo sincero de
beneficiar e elevar a humanidade, Wotan sente uma esmagadora tristeza por essa providência, que é necessária para
a continuação da política por ele adotada e à qual ele adere apesar das angustiantes súplicas de Brunilda. É uma coisa
terrível ter que separar-se da verdade, e ambos sentem muito mais do que as palavras podem expressar, quando o
credo mesquinho obrigou Wotan a adormecer Brunilda, dizendo: "Nunca será despertada até que venha alguém mais
livre do que eu".
Com essas palavras, ele revela o requisito principal para a busca da verdade. "A menos que um homem deixe
pai e mãe", disse Cristo, "não pode tornar-se meu discípulo". Todas as limitações devem ser primeiramente
eliminadas, para podermos obter sucesso na busca da verdade.
Capítulo IX - Siegfried, o que busca a Verdade

Vimos que é necessário pôr de lado todas as limitações de religião, família, ambiente e qualquer outro
impedimento para sermos capazes de alcançar a verdade, mas há ainda outro grande requisito, que talvez já esteja
incluído no primeiro. Nós nos apegamos à nossa religião, nossos amigos e nossas famílias, por medo de ficarmos
sozinhos. Obedecemos às convenções porque tememos seguir o ditame da voz interior que nos impele às coisas mais
elevadas, incompreensíveis para a maioria. Portanto, na realidade, o medo é o principal obstáculo que nos impede de
chegar à verdade e vivê-la.
Isto também é mostrado no Anel do Niebelungo. Wotan sentencia que Brunilda, o espírito da verdade, seja
adormecida, porque teme a perda de seu poder, caso a retenha, depois que ela se rebelou contra as suas limitações e
recusou-se a defender Hunding, o espírito do convencionalismo. Ele pronuncia sua condenação com tristeza, dizendo
que ela deve dormir até que alguém mais livre do que ele, o deus, venha acordá-la. "O perfeito amor expulsa todos os
medos", e apenas os destemidos são livres para amar e viver a verdade. Portanto, Brunilda é adormecida numa rocha
solitária, e, ao seu redor, arde para sempre um círculo de chamas ateadas por Loge, o espírito do engano. Ninguém, a
não ser os livres - as almas libertas e destemidas - pode esperar penetrar nesse círculo de ilusão (convencionalismo) e
viver para amar o espírito desperto da verdade, sempre adorável e jovem.
Vemos que a segunda parte do drama místico acaba com o abandono da verdade e o triunfo do
convencionalismo. O credo é firmemente estabelecido na Terra. Siegmund, o que busca a verdade, jaz vencido e
morto. Sua irmã-esposa, Sieglinda, também pagou com sua vida por ter insistido na busca, e parece que Brunilda
deverá dormir para sempre. Agora, os Walsungs têm apenas um representante, o órfão Siegfried, que foi deixado na
caverna de Mime, o Niebelungo, pela mãe moribunda, Sieglinda.
Entretanto, a criança cresce e torna-se um jovem vigoroso com a força de um gigante. Belo como um deus, ele
é um estranho contraste com Mime, o Niebelungo feio, um anão que alega ser seu pai. Siegfried mal pode acreditar
nisso, pois quando olha em torno de si na floresta, observa que os passarinhos e os filhotes de todos os animais têm
as mesmas características encontradas em seus pais. Somente ele é diferente daquele que o reivindica como filho.
Quando, com força prodigiosa, agarrou um urso e o levou à caverna de Mime, este quase ficou paralisado de
medo, uma emoção totalmente desconhecida para Siegfried. Mime, um dos mais engenhosos ferreiros entre os
Niebelungos, forjou várias espadas para o uso deste jovem gigante, mas cada uma delas foi despedaçada pelo
poderoso braço que a empunhava. Mime, na verdade, tentou soldar a espada Nothung, a filha da desgraça, que foi
despedaçada pela lança de Wotan na luta fatal entre Siegmund e Hunding. Os fragmentos desta espada foram
trazidos por Sieglinda para a caverna de Mime, mas quem for covarde não pode forjar ou soldar a espada Nothung, a
coragem do desespero, portanto, Mime, apesar de toda sua habilidade, falhou todas as vezes que tentou. Um dia,
quando Siegfried zomba dele por sua inabilidade de fazer uma espada que dure, Mime pega os fragmentos de
Nothung e diz-lhe que se ele puder soldá-la, ela lhe servirá perfeitamente. Possuindo aquela qualificação fundamental
dos que buscam a verdade, a intrepidez, Siegfried consegue, sem experiência manual, o que Mime não conseguiu.
Forja novamente a espada mágica e está preparado para a busca da verdade e do conhecimento.
Apesar de decorridos séculos desde que Albérico, o Niebelungo, foi forçado a separar-se do Anel, como
resgate para os deuses, nem ele nem sua classe esqueceram o poder conferido a seu possuidor. O desejo de reaver o
tesouro perdido ainda predomina entre todos eles. A humanidade, sendo inerentemente espiritual e livre, nunca se
conformará com a perda da individualidade exigida pelo regime da igreja. Embora, como Mime, eles possam estar
imbuídos de um medo incontrolável, ainda assim adulam e bajulam as forças superiores, como Albérico adulou
Wotan. Consciente ou subconscientemente, eles sempre se lembram de sua herança espiritual e procuram recuperar
suas posições como agentes livres, libertos de credos ou outras limitações.
Para este fim, planejam e conspiram com muita sutileza, como é simbolizado pelo auxílio que Mime presta a
Siegfried para forjar novamente a espada que havia sido despedaçada por Wotan. Ele percebe que o jovem que
procura a verdade é destemido. Sabe que Fafner, um dos gigantes que obteve o Anel dos deuses, protege seu tesouro
sob a forma de um imenso dragão -que inspira pavor. Ele acredita ser impossível alguém subjugar este monstro, mas
se isto puder acontecer, este destemido jovem Siegfried será o único capaz de consegui-lo. Na verdade, sabe- se que
quem forjar Nothung poderá matá-lo, e Mime confia em sua astúcia e espera que se Siegfried matar o dragão, ele,
Mime, poderá obter a posse do Anel do Niebelungo e tornar-se o senhor do mundo.
Há um profundo significado espiritual neste conto, isto é, a natureza inferior planejando usar o ego superior
para seus vis propósitos. Siegfried (aquele que pela vitória ganha a paz) é o ego superior naquele estágio de sua
peregrinação em que foi deixado completamente só, sem amigos e parentes, de onde vê que a figura de barro,
simbolizada por Mime, não é parte dele, mas de uma raça e linhagem inteiramente diferentes. Está pronto para
continuar sua busca da verdade empreendida em vidas anteriores, como fizeram Siegmund e Sieglinda, dos quais
herdou a coragem indômita que não conhece medo nem derrota.
Mas, embora a alma que procura possa abandonar o mundo, como fez Hertzleide, a mãe de Parsifal, que deu
à luz ao que procura a verdade numa floresta densa, e como Sieglinda que deu à luz Siegfried, na caverna de Mime - a
natureza inferior persiste, tramando usar o poder do espírito para fins temporais. Quantos deixaram as igrejas por
causa do credo, como Siegmund deixou Wotan. Quanto adquiriram um certo conhecimento das coisas superiores e
depois fizeram mau uso de seus poderes celestiais, sob forma de sugestão mental e de hipnotismo para atrair para si
próprios os bens deste mundo, preferindo antes procurar as coisas da Terra que escravizam, do que os tesouros do
céu que libertam a alma.
Nunca houve uma época na Terra em que esta parte do grande mito tenha sido tão comumente promulgada
como o é hoje. Há milhares de pessoas que representam Siegfried e Mime, Dr. Jekyl e Mr. Hyde. Eles são despertados
para maiores ou menores realizações dos poderes do espírito por sua natureza e atributos divinos, como Siegfried o
foi, mas a fase inferior de suas naturezas, Mime, continua planejando para benefício material.
Se chamarmos este uso dos poderes divinos de atitude cristã ou por qualquer outro nome, não falamos certamente
da ciência da alma.
Deveríamos ser honestos e reconhecer o fato de que Ele, que não tinha um lugar onde pousar Sua cabeça e
que era a própria incorporação do atraente poder de Cristo, recusou usar esse poder para Seu próprio benefício.
Mesmo na hora da morte Ele se absteve e foi dito que outros Ele salvou, mas, a Si mesmo, Ele não pôde (ou não quis)
salvar, porque a Lei do sacrifício é maior do que a Lei da autopreservação: "Pois, para que servirá ao homem ganhar o
mundo todo e perder sua própria alma?"
No momento em que começamos a percorrer seriamente o caminho, a natureza inferior está condenada, apesar de
todos os seus engenhosos esforços para salvar-se. Quando Mime planeja mandar Siegfried contra o dragão, Fafner, o
espírito do desejo, decidiu seu próprio destino. Quando a alma vence o desejo pelas posses terrenas, ficamos mortos
para o mundo, embora possamos ainda viver aqui onde realizamos nosso trabalho. Encontramo-nos no mundo, mas
não pertencemos a ele.
Guiado por Mime, Siegfried encontra o Gigante Fafner guardando a caverna onde escondeu o tesouro dos
Niebelungos. A natureza inferior sempre incita a natureza superior a procurar a riqueza material, almejando obter
prestígio e poder na sociedade. Tudo isto é muito comum, este desejo e sede de riqueza e poder! Somos todos como
Mime, prontos para arriscar nossas vidas na busca do ouro. Embora Mime estremeça só de pensar em ficar perto do
terrível dragão, continua conspirando, pois sabe que quando o Ego, representado pelo Anel do Niebelungo, está tão
emaranhado nas armadilhas do materialismo a ponto do corpo o possuir, e, quando todas as suas energias são
dirigidas pela natureza inferior, não há limite para o poder que ele almeja alcançar. Mas Siegfried, o destemido
buscador da verdade, quando venceu o dragão que representa a natureza do desejo, também matou Mime, que é o
símbolo do corpo denso.
Livre do invólucro mortal, o Espírito é capaz de compreender a linguagem da Natureza. Intuitivamente, ele
sente onde está oculta a verdade, representada por Brunilda, a Valquíria, e seguindo esta intuição, representada no
mito por um pássaro, dirige-se para a rocha rodeada pelo fogo para despertar e cortejar a bela adormecida. Embora
possamos entrar no reino onde se acha a verdade, deixando de lado o corpo denso, o caminho não está livre, pois
Wotan, o sentinela do credo, estende sua lança no caminho de Siegfried, empenhando-se ao máximo para dissuadir
ou desencorajar o independente buscador da verdade. Contudo, o poder do credo, representado pela lança de
Wotan, ficou enfraquecido quando ele negociou com os gigantes, isto é, quando apelou para o lado inferior da
natureza do homem. Como símbolo desse enfraquecimento, caracteres mágicos foram entalhados no cabo da lança,
que é facilmente partida em dois pedaços ao primeiro golpe de Nothung, a coragem do desespero.
Quando o que busca a verdade atingiu o ponto aqui descrito, não mais permitirá ser frustrado em sua busca,
quer as forças opostas sejam demônios como Fafner ou deuses como Wotan. Com mão impiedosa remove cada
obstáculo, pois tem apenas um único desejo no mundo, o anseio invencível de conhecer a verdade. Portanto, depois
de despedaçar a lança de Wotan, ele segue adiante, guiado pelo pássaro da intuição, até chegar ao círculo de chamas
que esconde Brunilda, o adormecido Espírito da Verdade. Não se intimida à vista das chamas da ilusão e da alucinação
de Loge. Lança-se através delas audaciosamente e vê com alegria que ali está aquela por quem tem desejado durante
muitas vidas. Curva-se, segura Brunilda em seus fortes, mas ternos braços, e, com um beijo ardente, acorda o Espírito
da Verdade de seu longo sono.
Capítulo X - A Batalha da Verdade e do Erro

Não há palavras adequadas para exprimir o que a alma sente quando se encontra diante dessa presença,
muito acima deste mundo (onde o véu da carne esconde, debaixo de uma máscara, as realidades vivas) e muito além
do mundo do desejo e da ilusão, onde formas fantásticas e ilusórias nos enganam para que acreditemos que elas são
algo muito diferente do que, na realidade, o são. Somente na Região do Pensamento Concreto, onde os arquétipos de
todas as coisas unem-se no grande coro celestial, ao qual Pitágoras referiu-se como "a harmonia das esferas",
encontramos a verdade revelada em toda sua beleza.
Mas, o Espírito não pode permanecer lá para sempre. Esta verdade e esta realidade - tão ardentemente
desejadas por todos que foram conduzidos a esta procura por uma necessidade interna mais forte do que os laços de
amizade, parentesco ou outra consideração qualquer são apenas meios para atingirmos um fim. A verdade deve ser
trazida para este reino de forma física, a fim de que possa ser um valor real no trabalho do mundo. Portanto,
Siegfried, o que busca a verdade, deve necessariamente deixar a rocha de Brunilda, retornar através do fogo da ilusão
e reentrar no mundo material para ser provado e tentado, comprovando sua fidelidade aos juramentos de amor
trocados entre ele e a recém-acordada Valquíria.
É dura a batalha que o espera. O mundo não está preparado para a verdade e, embora afirme
veementemente seu desejo nessa direção, continua planejando e conspirando por todos os meios ao alcance de seu
grande poder, para derrubar quem quer que traga a verdade até suas portas, pois existem poucas instituições capazes
de suportar o deslumbrante brilho de sua luz.
Nem mesmo os deuses podem suportar esse brilho, como, para sua tristeza, constatou Brunilda, pois não foi
ela exilada por Wotan, por ter se recusado a usar seu poder a favor do convencionalismo? E quem se insurgir contra o,
convencionalismo para apoiar a verdade, verá que todo o mundo está contra si e que deve permanecer sozinho.
Wotan era seu pai e jurou amá-la ternamente. Ele a amava a seu modo, mas apreciava mais o poder simbolizado por
Valhal. O Anel do Credo, com o qual dominava a humanidade, era mais desejável a seus olhos do que Brunilda, o
espírito da verdade, por isso ele a adormece atrás do círculo flamejante da ilusão.
Se esta é a atitude dos deuses, o que podemos esperar dos homens que não professam ideais elevados e
nobres, e que os deuses, como sentinelas da religião, deveriam ter-lhes transmitido? Tudo isto e muito mais do que
podemos pôr em simples palavras - sobre as quais o estudante deveria meditar - passou pela mente de Brunilda no
momento de se separar de Siegfried e, para lhe dar pelo menos uma chance na batalha da vida, ela lhe magnetiza
todo o corpo para torná-lo invulnerável. Todas as partes são assim protegidas, menos um ponto nas costas, entre os
ombros. Aqui temos um caso análogo ao de Aquiles, cujo corpo foi tornado invulnerável, exceto num de seus
calcanhares. Há um grande significado neste fato, pois, enquanto o soldado da verdade usar sua armadura, da qual
nos fala Paulo, na batalha da vida, e corajosamente enfrentar seus inimigos, é certo que, não importa quão
duramente seja assediado, finalmente vencerá. Enfrentando o mundo e expondo seu peito às flechas do antagonismo
da calúnia e da difamação, ele demonstra que tem a coragem de suas convicções e sabe que existe um poder mais
elevado que ele, o poder que está sempre trabalhando para o bem, que o protege por maior que seja a violência que
enfrente. Mas, a qualquer momento, um infortúnio poderá advir se ele virar suas costas, porque, quando não estiver
atento ao ataque violento dos inimigos da verdade, eles encontrarão o ponto vulnerável, esteja no calcanhar ou entre
os ombros. Portanto, convém-nos e a quem ame a verdade, tirar uma lição desta maravilhosa simbologia, e
compreender a responsabilidade de amar a verdade acima de tudo. Amizade, parentesco e todas as outras
considerações não deveriam ter nenhuma influência sobre nós, comparadas com este grande trabalho com a verdade
e pela verdade. Cristo, que era a própria incorporação da verdade, disse a Seus discípulos, "Eles me odiaram e vos
odiarão".
Portanto, não nos iludamos: o caminho da integridade é uma estrada acidentada e é árduo o trabalho da
subida. No caminho poderemos provavelmente perder prestígio com todos os que nos são queridos e estão perto de
nós. Embora o mundo confesse admitir a liberdade de religião, os dias de perseguição ainda não acabaram. Credo e
dogmatismo ainda detêm o poder, prontos para julgar e perseguir quem não seguir as linhas do convencionalismo.
Enquanto os enfrentarmos e prosseguirmos em nosso caminho, apesar das críticas, a verdade sempre sairá incólume
da batalha. Somente quando nos mostramos covardes é que essas forças inimigas conseguem desferir o golpe de
morte através deste ponto vulnerável.
Outra consideração: quando Siegfried abandona a rocha da Valquíria para reentrar no mundo, ele dá a
Brunilda o Anel do Niebelungo. Lembremo-nos que este Anel foi formado com o Ouro do Reno - o ouro representa o
Espírito Universal - por Albérico, o Niebelungo. Também lembremos que ele não poderia moldar esta pepita enquanto
não abjurasse do amor, pois a amizade e o amor cessavam quando o Espírito Universal era circundado pelo anel do
egoísmo. Desde então, a batalha da vida foi ferozmente declarada: a luta de irmão contra irmão por causa do
egoísmo, que impele cada um a procurar seu próprio interesse sem levar em conta o bem estar do outro.
Mas, quando o Espírito encontra a verdade e entra em contato com as realidades divinas; quando penetra na Região
do Pensamento Concreto que é o céu, e percebe esta única grande verdade -que todas as coisas são uma - e que,
embora pareçam estar separadas aqui, há um fio invisível unindo cada uma a todas; quando o Espírito tiver assim
reconquistado universalidade e amor, não poderá mais ser separado. Portanto, quando entra no reino da verdade, ele
abandona o sentimento de separatividade e de egocentrismo simbolizado pelo Anel, e adquire uma grandeza maior,
semelhante a de Thomas Paine, quando disse:

"O mundo é minha pátria;


fazer o bem é minha religião."

Esta atitude mental é representada alegoricamente quando Siegfried dá a Brunilda o Anel do Niebelungo.
Lembremo-nos que as Valquírias eram filhas de Wotan, o deus principal da mitologia nórdica. Cavalgavam
pelo ar, à grande velocidade, para qualquer lugar onde estivessem sendo travados combates mortais, fossem entre
duas ou mais pessoas. Logo que o combatente caia morto, elas o erguiam carinhosamente colocando-o em suas selas
e o levavam para o Valhal, a morada dos deuses, onde era ressuscitado e viveria em paz para todo o sempre.
Lembremo-nos que o nome Valquíria foi interpretado como escolhido por aclamação. Aqueles que lutavam a batalha
da vida até o fim eram escolhidos, por aclamação, para serem os companheiros dos deuses.
Brunilda era a chefe destas filhas de Wotan, e seu cavalo Grane era o mais veloz dos corcéis. Este animal, que
tinha tão fielmente transportado o espírito da verdade, ela o deu ao seu marido, pois a verdade é considerada a noiva
daquele que a encontrou. O cavalo é o símbolo da velocidade e da decisão e quem tiver desposado a verdade está
capacitado para escolher acertadamente e distinguir a verdade do erro - contanto que se conserve fiel.
Com o amor da verdade em seu coração e montando o corcel do discernimento, Siegfried parte para lutar a
batalha da verdade e trazer o mundo cativo para os pés de Brunilda. Céu e Terra estão na balança, pois ele pode
revolucionar o mundo se for fiel e corajoso; mas, se esquecer sua missão e ficar enredado na esfera da ilusão, a última
esperança de redimir o mundo estará perdida. O crepúsculo dos deuses estará próximo quando o presente estado de
coisas for desfeito, quando os céus se derreterem no calor ardente para que, da agonia da Natureza, possa nascer um
Novo Céu e uma Nova Terra, onde a virtude, como um manto, envolverá tudo e todos.
Voltemos agora nossos olhos do céu, de Siegfried e de Brunilda para a Terra, onde o mundo, que a verdade vai
libertar, espera pelo herói que está chegando. O mito nórdico introduz-nos na corte de Gunther, um rei honesto e
justo de acordo com os padrões do mundo. Sendo solteiro, sua irmã Gutrune é a maior personagem feminina do
reino. Entre os cortesãos está Hagen, um nome que significa gancho, demonstrando um egoísmo inerente. É um
descendente dos Niebelungos, aparentado com Albérico que moldou o Anel fatal. Desde o dia em que perderam a
posse desse Anel, os Niebelungos vigiaram de perto os seus possuidores: primeiro Wotan, que enganou AIbérico e
roubou-lhe o Anel; depois Fafner e Fasolt, os gigantes que construíram Valhal para Wotan e que o forçaram a
entregar-lhes o Anel como parte do pagamento do resgate de Freya, a deusa do amor e da juventude, a quem Wotan
prostituiu e vendeu por causa do poder. Quando Fafner assassinou Fasolt, os Niebelungos vigiaram de perto a caverna
onde o assassino estava estendido sobre o tesouro oculto do Niebelungo, como um enorme dragão. Mime, o pai
adotivo de Siegried, pagou com sua vida por tramar obter a posse do cobiçado tesouro. Nem Siegfried se encontrava a
salvo da atenta: vigilância deles, a não ser quando estava na rocha da Valquíria, pois nenhum Niebelungo, nem alguém
que seja vil ou covarde, pode penetrar no reino da verdade além do círculo flamejante da ilusão. Portanto, os
Niebelungos não sabem o que aconteceu com o Anel quando Siegfried surge novamente no mundo, embora
suponham que tenha ficado com Brunilda e, imediatamente, começam a planejar como obtê-lo.
A corte de Gunther situa-se exatamente no caminho que Siegfried percorre e Albérico apressa-se, correndo à
frente, para informar Hagen que o último possuidor do Anel está chegando. Juntos, tramam como obter o anel, mas,
cada um, em seu negro coração, também planeja como lograr o outro e obter o tesouro somente para si. Não há
honra na batalha do eu separado, mas aqui cada um é contra todos os outros, sem levar em conta quem eles são.
Embora no mundo encontremos cooperação para um objetivo comum, a pergunta principal que ainda está na mente
de todos é: "O que eu posso lucrar com isto?" A não ser que haja uma recompensa clara e pessoal à vista, a maioria da
humanidade reluta em trabalhar em favor dos outros. O apóstolo nos diz, "não atente cada um para o que é
propriamente seu, mas também para o que é dos outros". Temos procurado estar em harmonia intelectual com o
pensamento cristão, mas, quão poucos estão dispostos a cumprir com o ideal de servir altruisticamente.
Capítulo XI - O Renascimento e a Bebida Letal

Nosso nascimento não é mais que um sonho e um esquecimento.


A alma que conosco se eleva, nossa Estrela da vida,
Teve seu pôr-do-sol em qualquer outro lugar E vem de longe.
Não está em completo esquecimento,
Nem em total nudez parece estar.
Wordsworth

Quando Siegfried deixa a rocha da Valquíria e chega à corte mundana de Gunther, dão-lhe uma bebida
preparada para fazê-lo esquecer tudo sobre sua vida passada e sobre Brunilda, o Espírito da Verdade, a quem ele
havia conquistado para si.
Supõe-se que a doutrina do renascimento foi ensinada apenas nas antigas religiões do Oriente, mas um
estudo da mitologia escandinava logo desmentirá esse conceito errôneo. Na verdade, eles acreditavam tanto no
renascimento como na Lei de Causa e Efeito aplicada à conduta moral, até que o Cristianismo obscureceu essas
doutrinas por razões descritas no "Conceito Rosacruz do Cosmos". É curioso ler sobre a confusão causada quando a
antiga religião de Wotan estava sendo suplantada pelo Cristianismo. Os homens acreditavam realmente no
renascimento, mas o repudiavam externamente, como é mostrado na seguinte história sobre Santo Olaf, rei da
Noruega, um dos primeiros e mais ardorosos convertidos ao Cristianismo. Quando Asta, a rainha do rei Harold, estava
em trabalho de parto, mas não conseguia dar à luz, um homem chegou à corte trazendo algumas joias, sobre as quais
relatou o seguinte: O rei Olaf Geirstad, que havia reinado na Noruega há muitos anos e era o ancestral direto de
Harold, havia-lhe aparecido num sonho e instruiu-o a abrir o grande outeiro em que jazia seu corpo e, depois de
separá-lo da cabeça com uma espada, devia levar à rainha certas joias que encontraria no caixão, e suas dores, então,
cessariam. As joias foram levadas ao aposento da rainha, e, logo em seguida, ela deu à luz uma criança do sexo
masculino, ao qual deram o nome de Olaf. Era crença geral que o espírito de Olaf Geirstad tinha passado para o corpo
da criança, que assim levou seu nome.
Muitos anos depois, quando Olaf se tornou Rei da Noruega e abraçou o Cristianismo, cavalgava um dia, como fazia
com frequência, pelo outeiro onde jazia seu ancestral, e um cortesão que o acompanhava perguntou:

"É verdade, meu senhor, que vós em outra época jazíeis neste outeiro?"
"Nunca meu espírito habitou dois corpos", respondeu o rei.
"Contudo, conta-se que ouviram-vos dizer, ao passar por este outeiro: "Eu estava aqui. Aqui eu vivia".
"Eu jamais disse isto", retorquiu o rei, "eu nunca direi tal coisa".

Estava muito embaraçado e cavalgou em outra direção, provavelmente para evitar discutir uma convicção
íntima que todos os dogmas da nova fé não conseguiram erradicar.
A verdade é que todos os povos antigos, tanto no Leste como no Oeste, sabiam muito sobre nascimento e
morte, o que foi esquecido nos tempos modernos porque a segunda visão era, então, mais predominante. Até hoje,
muitos camponeses da Noruega asseguram ter capacidade de ver o Espírito saindo do corpo na ocasião da morte,
como uma nuvem branca, comprida e estreita, que é certamente o corpo vital. Os Ensinamentos Rosacruzes - de que
os mortos pairam em torno de suas moradas terrestres por algum tempo depois da morte, que assumem um corpo
luminoso e que ficam extremamente afligidos pelo pesar de seus entes queridos - eram de conhecimento geral entre
os antigos nórdicos. Quando o finado rei Helge da Dinamarca materializou-se para mitigar o pesar de sua viúva, e ela
exclamou angustiada:

"O orvalho da morte banhou teu corpo de guerreiro", ele respondeu:


"És tu, Sigruna, A causa única
De que Helge. seja banhado Pelo orvalho da tristeza.
Não queres pôr fim a teu pesar,
Nem as amargas lágrimas secar. Cada lágrima ensanguentada.
Cai em meu peito gelada.
Elas não me deixam descansar".
Quando os estudantes compreendem o renascimento, geralmente perguntam porque a memória de vidas
passadas é apagada, e muitos sentem um desejo quase incontrolável de conhecer o passado. Eles não podem
entender o benefício que decorre da bebida letal do esquecimento, e olham com inveja as pessoas que alegam
conhecer suas vidas passadas, quando asseguram haver sido reis, rainhas, filósofos, padres, etc. Contudo, há
um propósito altamente benéfico neste esquecimento, pois nenhuma experiência tem valor na vida, exceto pela
impressão que ela deixa na vivência "post-mortem", no purgatório ou no céu. Esta impressão atua de tal maneira que,
em determinado momento, dirige, adverte ou impele a uma certa linha de ação. Este aviso ou impulso, embora
dissociado da experiência da qual foi extraído, age com maior rapidez do que aquela do pensamento.
Para esclarecer este ponto, talvez possamos comparar este registro, gravado em nossos mais sutis veículos, a
um disco, cujo movimento faz com que uma bateria de diapasões colocada perto dele vibre quando cada nota é
tocada. Do ponto de vista externo, parece não haver razão por que um certo denteado num disco deva corresponder
a um outro no diapasão e, quando a agulha cai nesse denteado, um determinado som deve ser produzido, o que fará
o diapasão vibrar. Mas, entendamos ou não, a demonstração indica uma ligação de tonalidade entre esse pequeno
denteado e o diapasão. E isto não depende de um conhecimento de como a impressão foi gravada no disco, ou o que
fez o diapasão responder a essa vibração. Ela está lá, quer conheçamos ou não todos os fatos sobre isso.
De igual maneira, quando tivemos uma certa experiência na vida, tenha sido alegre ou não, ela é condensada
na experiência "post-mortem", deixando uma determinada impressão na alma que serve para prevenir, se a
experiência for purgatorial, e para estimular, se for celestial. Numa vida posterior, quando uma experiência surge
semelhante à que causou a impressão, a vibração é sentida pela alma, despertando o tom da dor ou do prazer no
registro da vida passada, de forma mais rápida e exata do que se a própria experiência fosse evocada perante nossa
visão mental. Atualmente, ainda não somos capazes de ver a experiência na sua luz verdadeira, pois estamos
impedidos pelo véu da carne. Mas o fruto da experiência colhido no céu ou no inferno diz-nos, sem perigo de errar, se
devemos repetir ou evitar nosso passado. Além disso, se nós realmente conhecêssemos nossas vidas passadas e por
nossos atuais esforços tivéssemos conquistado a faculdade de viver bem e dignamente, mesmo sabendo que
pautamos nossas vidas pela devassidão, crueldade, crime e egoísmo; e agora, em consequência disso, as pessoas nos
desprezassem, nós acharíamos que elas não deveriam julgar-nos pelo passado. e estariam erradas em condenar-nos
ao ostracismo. Arguiríamos que o julgamento deveria ser baseado nos esforços meritórios de nossa vida presente,
com exclusão de condições anteriores, e nisto estaríamos totalmente certos. Pela mesma razão, por que deveríamos
exigir honras na vida presente, adulação ou admiração, só porque em vidas anteriores fomos reis e rainhas? Mesmo
se fosse verdade que tivéssemos ocupado essas posições, por que deveríamos expor-nos ao ridículo dos céticos
contando essas histórias? Portanto, quer tenhamos ou não memória de nossas vidas passadas, é melhor
concentrarmos nossos esforços sobre as possibilidades mais elevadas de hoje.
Não há dúvida de que a pessoa que for capaz de investigar a Memória da Natureza, e o fizer pela investigação
ligada ao progresso e evolução do homem, cedo ou tarde entrará em contato com vislumbres de seu próprio passado.
Mas, um verdadeiro servidor, que sente ser um trabalhador na vinha de Cristo, nunca se desviará do caminho do
serviço para seguir a trilha da curiosidade. O discípulo que recebe os ensinamentos dos Irmãos Maiores é advertido,
na primeira Iniciação, a nunca empregar seu poder para satisfazer a curiosidade, e, em todas as suas visitas
subsequentes ao Templo, esta ideia lhe é relembrada.
A diferença entre o uso legítimo e o ilegítimo dos poderes espirituais é tão tênue e sutil que, à medida que
crescemos neste campo, as restrições pelas quais nos sentimos cercados multiplicam-se tanto, que se a narrativa fosse
contada a outros, noventa entre cem diriam: "Então, qual é a vantagem de desenvolver a visão espiritual ou ser capaz
de sair do corpo? Ao ficarmos tão limitados, quando a possibilidade de transgredir é tão multiplicada, não há
vantagem em possuir essas faculdades". Respondemos que elas são realmente de grande valor e a responsabilidade é
apenas o resultado natural de maior crescimento anímico.
Um animal toma livremente qualquer coisa que deseje, não comete nenhum pecado e não é considerado
responsável por seus atos porque não tem consciência disso. Mas, desde que a ideia do "meu" e "teu" foi impressa na
nossa consciência, surge, em decorrência, a responsabilidade. À medida que nosso conhecimento cresce, aumenta
essa responsabilidade, e quanto mais refinadas forem as qualidades da alma, mais sutis serão as distinções entre o
certo e o errado. Isto observamos em nossas vidas diárias, onde os critérios do que é permissível ou não, variam
conforme o caráter de cada indivíduo.
E quando desejamos esse poder, pelo qual podemos conhecer o passado, descobrimos que não há razão para
usá-lo para nosso engrandecimento, nem para obter riquezas e poderes mundanos. Assim, a vida ou vidas que
tenhamos levado estão ocultas para nós por um propósito, isto é, até sabermos como abrir a porta, mas, quando
tivermos a chave, provavelmente não vamos querer usá-la.
Por essa razão, é dada a Siegfried a bebida letal no momento em que entra na corte de Gunther.
Imediatamente ele se esquece de sua vida passada com Mime, o anão, que alega ser ele seu filho. Esquece como
forjou a espada mágica, "a coragem do desespero", que tanto o ajudou na luta com Fafner, o espírito da paixão e do
desejo. Esquece que foi assim que conquistou o Anel do Niebelungo, o emblema do egoísmo, pelo qual adquiriu
conhecimento de sua verdadeira identidade espiritual e matou Mime, a personalidade, que erradamente alegou ser
seu progenitor. Esquece como, sendo um Espírito livre não dominado pelo medo, quebrou a lança de Wotan, a
sentinela do credo, e seguiu o pássaro da intuição até a morada do adormecido Espírito da Verdade. Esquece seu
casamento com ela e o voto de altruísmo subentendido quando lhe deu o Anel.
Mas, cada um destes importantes acontecimentos deixou impressões em sua alma e agora ele deve ser
provado, isto é, verificar se aquela impressão foi profunda ou superficial. A tentação sobrevém-nos, vida após vida,
até que o tesouro armazenado no prova pela tentação na Terra céu tenha sido posto à se aguentará ou não a traça da
corrupção. Depois do Batismo, quando o Espírito de Cristo ocupou o corpo carnal de Jesus, este foi levado ao deserto
da tentação para provar sua fraqueza ou sua força. Do mesmo modo e depois de cada experiência celeste, devemos
esperar ser reconduzidos à Terra para que possamos aprender a resistir ou a cair na fornalha da aflição.
Capítulo XII - O Crepúsculo dos Deuses

Quando Siegfried chega à corte de Gunther, Gutrune, a formosa irmã do rei oferece-lhe a taça mágica do
esquecimento. Imediatamente ele perde a memória do passado e de Brunilda, o Espírito da Verdade, tornando-se
uma alma nua, pronta para lutar a batalha da vida. Mas ele está armado com a sublime essência da experiência
anterior. A espada de Nothung, a coragem do desespero, com a qual combateu a ganância e a crença simbolizadas por
Fafner, o dragão, e Wotan, o deus, ainda está com ele; também está com Tarncap, ou o capacete da ilusão, que é um
símbolo apropriado para o que nos tempos modernos chamamos de poder hipnótico, pois, aquele que colocasse este
capacete mágico em sua cabeça apareceria aos outros em qualquer forma que desejasse. E possui ainda o cavalo de
Brunilda, Grane, o discernimento, pelo qual ele próprio pode perceber a verdade e distingui-la do erro e da ilusão.
Tem ainda poderes que pode usar para o bem ou para o mal, de acordo com a escolha que fizer.
Como já dissemos anteriormente, nossa ideia do que é a verdade muda à medida que progredimos. Gradativamente
estamos galgando a trilha da evolução e, ao fazê-lo, fases da verdade antes nunca percebidas aparecem, e o que nos
parecia correto num estágio, pode ser errado em outro. Contudo, toda vez que estamos na carne, vemos através do
véu da ilusão simbolizado pela chama de Loge que circunda a rocha de Brunilda. Seu corcel Grane, o discernimento,
também está conosco, e se lhe dermos rédea solta, a mente do cérebro material que está impregnada com a bebida
letal do esquecimento, nunca poderá ganhar ascendência sobre o Espírito.
A primitiva Época Atlante, quando os homens viviam como inocentes "Filhos da Névoa" (Niebelungos) nas
bacias nebulosas da Terra, está representada no Ouro do Reno. O último período Atlante é uma época de selvageria,
onde a humanidade renega o amor, como fez Albérico, e forma o "Anel" do egoísmo, empregando suas energias para
aquisições materiais simbolizadas pelo "tesouro" dos Niebelungos, pelo qual gigantes, deuses e homens lutam com
brutalidade selvagem e vil astúcia, como é representado em "As Valquírias".
A primitiva Época Ária marca o nascimento do idealista, simbolizado pelos "Walsungs" (Siegmund, Sieglinda e
Siegfried), uma nova raça que aspira, com sagrado ardor, algo novo e mais elevado, cavaleiros valorosos com coragem
de manter suas convicções, estando sempre prontos para lutar pela verdade tal como eles a entendiam, e para dar
suas vidas como penhor na defesa de suas sinceras convicções. Assim, a idade da selvageria realista deu lugar a uma
era de bravura idealista.
Estamos agora na última fase da Época Ária. Os que procuravam a verdade do passado deixaram mais uma vez
a rocha flamejante de Brunilda. Novamente assumimos o véu da carne e compartilhamos da bebida letal. Hoje
estamos verdadeiramente participando da última parte do grande drama épico "O Crepúsculo dos Deuses", idêntico
em importância ao nosso Apocalipse Cristão. "O Evangelho do Reino" nos tem sido pregado; "O Caminho, a Verdade e
a Vida" nos foram abertos do mesmo modo que o foram para Siegfried. Estamos sendo provados agora, como ele o foi
na corte de Gunther, para ver se viveremos como "casados com a verdade", ou se a tiraremos de seu refúgio e a
prostituiremos, como fez Siegfried. Para ganhar a mão de Gutrune, ele arrebatou da mão de Brunilda o emblema do
egoísmo, o Anel do Niebelungo, e colocou-o novamente em seu dedo; prendeu Gutrune e levou-a até Gunther para
ser sua esposa. Ele a prostituiu e ele próprio cometeu adultério com Gutrune pois, tendo uma vez desposado a
verdade, é adultério espiritual ambicionar as honras do mundo.
Céu e Terra foram ultrajados por esta tremenda traição à verdade. O grande mundo "Ash", a árvore da vida e
do ser, treme em suas raízes, onde Urd, Skuld e Verdende, o passado, o presente e o futuro tecem o fio do destino.
Começa a escurecer na Terra; a lança de Hagen encontra o único ponto vulnerável do corpo de Siegfried - sua vida é o
castigo, e como o mais alto ideal da época fracassou, não há razão para perpetuar a ordem das coisas existentes.
Portanto, Heimdal, o guardião celestial, toca seu clarim e os deuses cavalgam pela última vez em procissão solene pela
ponte do arco-íris para enfrentar os gigantes na batalha final, envolvendo a destruição do Céu e da Terra.
Este é um ponto muito significativo, pois na abertura do drama encontramos os Niebelungos "no fundo do
rio". Mais tarde, Albérico molda o "Anel" em fogo, que só pode arder na atmosfera límpida como a da Época Ária.
Nessa época, os deuses também celebraram suas reuniões sagradas na ponte do arco-íris, que é o reflexo do fogo
celestial. Quando Noé conduziu os Semitas originais através do "Dilúvio", ele acendeu o primeiro fogo. "O arco" foi,
então, colocado nas nuvens para permanecer por toda a época e, durante esse período, ficou convencionado que os
ciclos alternantes, verão e inverno, dia e noite, etc., não cessariam. No Apocalipse (IV: 3), João recebeu instruções
referentes às "coisas que virão", por "Alguém que tenha um arco-íris em redor de Si"; e mais tarde (X: 1) "um Anjo
poderoso, com um arco-íris em sua cabeça proclamará solenemente o fim dos tempos". Está claro pelo mito nórdico e
pelos ensinamentos Cristãos, que a época começou quando o arco foi colocado nas nuvens. Quando o arco for
removido, a época terminará e novas condições físicas e espirituais surgirão.
O outro fenômeno acompanhando esta época conturbada é apresentado no antigo mito. Loge, o espírito da
ilusão, tem três filhos: a serpente Midgaard - que rodeia a Terra mordendo sua própria cauda - é o elemento aquoso,
o oceano que refrata e distorce todo objeto nele mergulhado. Os homens temem este elemento traiçoeiro; sempre
empalidecem ao pensar no que pode acontecer quando revolto. O lobo Fenris - a atmosfera - também é filho da ilusão
(óptica), e o pavoroso rugir da tempestade pode incutir medo no mais destemido coração. Hel - a morte - é a terceira
filha de Loge e "a rainha dos terrores". Antes do homem entrar na existência concreta, como está descrito no começo
do grande mito e no Gênesis, sua consciência estava focalizada nos mundos espirituais, onde os elementos ilusórios,
Loge (fogo), Fenris (ar), e a Serpente (água) inexistem, portanto, a morte também era desconhecida. Mas, durante a
presente época, quando a constituição do corpo humano está sujeita à ação dos elementos, a morte física é uma
realidade.
Ao som da trombeta de Heimdal, todos os fatores de destruição atacam a planície de Bigrid, a contraparte de
Armageddon, onde os deuses da crença e seus defensores estavam reunidos para uma última pausa. Os filhos de
Muspel (o fogo físico) vindos do sul, atacam demolindo a ponte do arco-íris. Os Gigantes de Gelo avançam vindos do
norte. Com um grande rugido, Fenris, a atmosfera condutora da tempestade, lança-se sobre a Terra. Sua velocidade é
tão terrível que a fricção gera fogo, pelo que se diz que sua mandíbula inferior está sobre a Terra, a superior alcança o
Sol e que de suas narinas saem correntes de fogo. Engole Wotan, o deus que é responsável pela idade do ar, quando o
arco estava nas nuvens. A serpente Midgaard, ou elemento aquoso, é vencida por Thor, o deus do raio e do trovão,
mas quando as descargas elétricas finalmente acabarem com o elemento água, não poderá mais haver raio e trovão;
daí o mito nórdico informar-nos que Thor morre pelos vapores que vêm da serpente. No nosso Apocalipse Cristão,
também se fala em relâmpagos e trovões e nos é dito que, finalmente, "não haverá mais mar".
Mas, como a Fênix ressurge rejuvenescida e formosa de suas próprias cinzas, assim também uma nova Terra,
visualizada pela antiga profetiza, ressurgirá da grande conflagração, mais bela e mais etérica, onde "os elementos
derretem-se com o calor ardente". Ela chamou essa Terra de "Gimle", onde não faltaram habitantes, pois, enquanto a
grande conflagração acontecia, um homem e uma mulher chamados Lif e Liftharaser (lif significa vida) foram salvos, e
deles surge uma nova raça que vive em paz e perto de Deus.

"Um vestíbulo eu vejo, Mais brilhante que o Sol, Com ouro revestido,
No cume de Gimle, Lá viverá
Uma raça virtuosa e, na verdade, Abençoada será
Até a eternidade.
"Dela vem o Onipotente - o Todo - o Pai, Para a reunião dos deuses,
Na Sua força que do alto vem.
Ele, que por todos pensa bem, Emite opiniões, sabe julgar;
Com as desavenças consegue acabar, A paz estabelecer
E para sempre durar".

O antigo mito nórdico ensina, mas por um ângulo diferente, as mesmas verdades encontradas em maior
plenitude nas Escrituras Cristãs, desde o Gênesis até o Apocalipse, e é importante que percebamos a verdade destes
contos. Infelizmente, há muitos no grupo descrito por Pedro que dizem: "Onde está a promessa de Sua vinda? Desde
que os antepassados adormeceram, todas as coisas continuam como eram no princípio". Há poucos que
compreendem a importância da afirmação no segundo capítulo do Gênesis, de que "uma névoa se elevou do solo e
molhou a terra antes que chovesse", e que, portanto, os filhos da névoa devem ter sido fisiologicamente diferentes
dos homens de hoje, que respiram ar desde "o dilúvio", quando a névoa se condensou e tornou-se mar. Mas, com a
mesma certeza de que ocorreram essas mudanças no passado, assim também estamos na iminência de novas
mudanças. É verdade que poderá não acontecer em nossos tempos - "essa hora não a conhece o homem, nem os
Anjos, nem o Filho" e, repetidamente, o aviso de Noé é-nos apresentado nesta passagem. Naquele dia, eles comeram
e beberam, casaram e foram dados em matrimônio, mas, subitamente, as águas os envolveram e todos os que não
haviam desenvolvido os requisitos fisiológicos, pulmões, necessários para viver na nova condição, pereceram. A Arca
conduziu os pioneiros em segurança através da catástrofe.
Para que a próxima transformação ocorra em segurança, é necessário tecer o Dourado Manto Nupcial, e é de
suma importância que trabalhemos para isso. A mesma soma psuchicon ou "corpo-alma" mencionado por Paulo (I
Cor. XV: 44), é um veículo etérico de primordial importância, pois, quando os elementos atuais forem dissolvidos na
transformação iminente, como poderemos sobreviver se pudermos funcionar, como agora, apenas num corpo denso?
A raça Germano-Anglo-Saxônica será, com certeza, sucedida por mais duas outras, antes que a Sexta Época
seja definitivamente introduzida, mas hoje, e proveniente da nossa estirpe, está sendo preparada a semente para a
Nova Era. É exatamente a missão da Ordem Rosacruz, trabalhando através da Fraternidade Rosacruz, propagar um
método científico de desenvolvimento, adequado especialmente para os povos ocidentais, pelo qual este Manto
Nupcial poderá ser tecido, para que possamos apressar o dia do Senhor.
Tannhauser
Capítulo XIII - O Pêndulo da Alegria e da Tristeza

Neste drama divulgamos mais uma das antigas lendas. Ela foi dada à humanidade em linguagem pictórica
pelas divinas Hierarquias que nos guiaram pelo caminho do progresso, para que a humanidade pudesse
subconscientemente absorver os ideais pelos quais teria que lutar em vidas futuras.
Nos tempos antigos o amor era brutal. A noiva era comprada, roubada ou tomada como presa de guerra. A
posse do corpo era tudo o que era desejado; assim, a mulher era uma escrava apreciada pelo homem pelo prazer que
lhe proporcionava, e nada mais do que isso. As mais elevadas e sutis faculdades de sua natureza não tinham a
oportunidade de expressão. Esta condição tinha que ser modificada ou o progresso humano teria cessado. A maçã
sempre cai perto da árvore. Qualquer ser gerado de uma união sob tão brutais condições, devia ser brutal; e, se a
humanidade devia ser elevada, o padrão do amor tinha de ser erguido. Tannhauser é uma tentativa nessa direção.
Esta lenda é também chamada "O Torneio dos Trovadores", pois os menestréis da Europa eram os educadores
da Idade Média. Eram cavaleiros andantes, dotados do poder da palavra e da canção e viajavam de um lugar para
outro sendo benvindos e honrados nas cortes e castelos. Exerciam poderosa influência na formação de ideais e ideias
da época. No Torneio da Canção, realizado no Castelo de Wartburg, uma das questões era se a mulher teria ou não
direito ao seu próprio corpo, um direito de proteção contra os abusos licenciosos de seu marido; se deveria ser
considerada uma companheira para ser amada de alma para alma ou uma escrava obrigada a submeter-se aos
ditames de seu senhor - era a questão a ser decidida.
Naturalmente, à cada mudança, sempre há os que são favoráveis à manutenção das coisas antigas em
detrimento das novas, e defensores das duas facções tomaram parte naquele torneio de canções no Castelo de
Wartburg.
O problema até hoje permanece. Ainda não foi solucionado pela maioria da humanidade, mas o princípio
levantado é verdadeiro e somente ajustando-nos a este princípio de elevação do padrão do amor, poderá nascer uma
raça melhor. Isto é particularmente essencial para quem almeja levar uma vida mais elevada. Embora o princípio
pareça tão evidente, ainda não é aceito por todos, mesmo por aqueles mais desenvolvidos. Com o passar do tempo,
todos aprenderão que somente considerando a mulher igual ao homem poderá a humanidade elevar-se, pois, sob a
Lei do Renascimento, a alma renasce alternadamente em ambos os sexos, e os opressores de uma época tornam-se os
oprimidos da seguinte.
A ilusão de um duplo padrão de conduta que favorece um sexo em prejuízo do outro, deveria ser percebida
imediatamente por quem quer que acredite na sucessão de vidas, pela qual a alma progride desde a impotência até a
onipotência. Tem sido amplamente aceita a ideia de que, longe de ser inferior ao homem, a mulher o iguala, e com
muita frequência o supera no desempenho de profissões intelectuais, embora isso não apareça claramente neste
drama.
A lenda conta-nos que Tannhauser, que representa a alma num certo estágio de desenvolvimento, ficou
desiludido do amor porque o objeto do mesmo, Elizabeth, era muito pura e jovem para ser abordada e instada a
render- se. Ansioso, com um desejo apaixonado, ele atrai algo de natureza idêntica.
Nossos pensamentos são como diapasões. Despertam eco naqueles que são capazes de responder-lhes. O
pensamento apaixonado de Tannhauser leva-o, portanto, àquela que é chamada a "Montanha de Vênus".
Tal como em Um Sonho de Uma Noite de Verão de Shakespeare, esta história conta-nos como ele encontra a
Montanha de Vênus, como é recebido por essa adorável deusa e preso nas cadeias da paixão por seus encantos. Isso
não está totalmente fundamentado na imaginação. Há espíritos no ar, na água e no fogo e, sob certas condições são
contatados pelo homem Não tanto, talvez, na atmosfera elétrica da América, mas em toda a Europa, particularmente
no Norte, onde predomina uma atmosfera mística capaz de induzir as pessoas a visualizarem esses elementais. A
deusa da beleza ou Vênus, da qual estamos falando, é realmente uma das entidades etéricas que se alimenta das
emanações do desejo inferior, na gratificação da força criadora que é liberada abundantemente. Muitos espíritos de
controle apossam-se dos médiuns e os incitam ao relaxamento da moral e aos abusos, e agem como amantes de suas
almas e enfraquecem seriamente suas vítimas. Pertencem a uma mesma classe que é extremamente perigosa, para
dizer o mínimo. Paracelso menciona-os como "incubi" e "succubi".
A cena de abertura de Tannhauser mostra-nos uma orgia na Caverna de Vênus. Tannhauser está ajoelhado
diante da deusa que está deitada num sofá. Ele desperta como que de um sonho, sentindo uma ânsia de visitar
novamente a Terra. Ele diz isso à deusa Vênus, que responde:
"Que tolo lamento! Do meu amor estás tu cansado?
Lá em cima, pela tristeza, teu coração foi esmagado. Levanta-te, menestrel,
pega tua harpa e as bem-aventuranças divinas vem cantar.
Pois a deusa do amor é tua, o maior tesouro de amar".

Inflamado com novo ardor, Tannhauser pega sua harpa e canta louvores a ela:

"Todos os louvores a ti! A ti aguarda imortal celebridade.


Hinos de louvor a ti sempre cantarei.
Cada meigo encanto que me proporcionou tua doce bondade,
Enquanto o tempo e o amor forem jovens, minha harpa despertarei;
Para a doce alegria do amor e a satisfação de agradar,
Minha razão ansiou, meu coração suspirou;
E tu, cujo amor só um Deus pode avaliar,
A mim tu o deste e com esta felicidade estou banhado.
Mas, mortal eu sou, e um amor divino,
É muito imutável para com o meu ficar casado.
Um deus pode amar sem interrupção,
Mas, sob leis alternantes,
Tanto de dor como de prazer temos o nosso quinhão,
Nós mortais precisamos disso em medidas variantes.
Repleto de alegria, novamente pela dor estou a suspirar,
Portanto, Rainha, eu não posso aqui ficar".

Quando a humanidade emergiu da Atlântida e alcançou a atmosfera de Ariana, o arco-íris apareceu pela
primeira vez no céu como sinal da nova era. Nessa época dizia-se que enquanto este arco estivesse nas nuvens, as
estações não cessariam de mudar; dia e noite, verão e inverno, vazante e enchente e todas as outras medidas
alternantes da Natureza seguir-se-iam umas às outras em sucessão ininterrupta. Na música nem sempre pode haver
harmonia. De vez em quando há uma dissonância para ressaltar a melodia. Isso também acontece na questão da dor e
da tristeza, da alegria e da felicidade: elas também são medidas de alternação. Não podemos viver numa, sem desejar
a outra, como também não poderíamos permanecer no céu e aí adquirir as experiências apenas encontradas na Terra.
É este impulso interno, este balanço do pêndulo da alegria para a tristeza, e da tristeza para a alegria, que afasta
Tannhauser da caverna de Vênus. Ele precisa conhecer novamente a rivalidade e a luta do mundo; precisa adquirir a
experiência que só a tristeza pode oferecer e assim esquecer os prazeres que não lhe trazem poder anímico.
Entretanto, é característica das forças inferiores tentar sempre influenciar negativamente a alma; usar todos os meios
para afastá-la do caminho da retidão; e Vênus, que aparece no drama de Tannhauser como representante destes
poderes, adverte-o tentando dissuadi-lo:

"No pó, tua alma em breve será humilhada,


A adversidade teu orgulho irá cortar,
Então, com o ardor esmagado, a vontade subjugada,
Para sentir meu fascínio, novamente virás suplicar".

Mas Tannhauser está firme em seu propósito. A ansiedade dentro dele é tão forte que nada pode detê-lo e,
embora ainda sinta o fascínio, exclama com grande fervor:

"Enquanto eu tiver vida, só a ti minha harpa irá louvar,


Em nenhum outro tema minha canção vai se inspirar
A não ser em ti, fonte de beleza e de suave graça,
O desejo de amor estimula-se com a mais doce canção;
Uma chama no altar arderá só para ti,
Pelo fogo que acendeste em meu coração.
Com tristeza agora eu te deixarei,
Mas, teu herói eu sempre serei,
Se aqui permanecer, ser escravo será minha sorte;
Anseio pela vida na terra, por isso devo partir.
Tenho sede de liberdade, ainda que signifique a morte,
Portanto, ó Rainha, de ti eu vou fugir!"

Assim, quando Tannhauser deixa a caverna de Vênus, ele é o herói comprometido com o lado sensual e
inferior do amor, e isto ele vai ensinar ao mundo, pois esta é a natureza da humanidade: tudo o que o coração sente
deve ser externado.
Conhecendo bem o país, dirige-se imediatamente para Wartburg, onde um grupo de menestréis permanece
sempre ao lado do senhor e da senhora do domínio feudal. Estes normalmente são grandes patrocinadores das artes,
hospitaleiros e generosos em seus presentes.
Tannhauser se encontra com vários menestréis que caminham pelo bosque, e estes, seus antigos amigos,
surpreendem-se por não o verem há muito tempo. Perguntam-lhe onde tem estado, mas Tannhauser, sabendo que
há um sentimento geral contra as forças elementais inferiores da Natureza, esconde-lhes o seu paradeiro anterior,
dando-lhes uma resposta evasiva. Os menestréis falam-lhe sobre um torneio de trovadores que haverá no castelo e o
convidam para acompanhá-los.
Sabendo que o tema para esta competição da canção será o amor e que o prêmio será entregue ao vencedor
pelas mãos da linda filha do castelão, Elizabeth, (a jovem que Tannhauser amou tão ardentemente e que tanto
inflamou sua alma em dias passados, a ponto de levá-lo para a caverna de Vênus) ele espera, pelo ardor com o qual é
inspirado, induzir a linha jovem a ouvir seus lamentos. Como sempre colhemos sofrimento quando nos posicionamos
contra às leis do progresso, Tannhauser, por este ato, está semeando a dor que colherá um dia, em decorrência do
que ambicionou na caverna de Vênus.
Capítulo XIV - Menestréis, os Iniciados da Idade Média

Quando Tannhauser saiu da caverna de Vênus, um dos primeiros sons que ouviu foi o canto de um grupo de
peregrinos que estavam indo para Roma, para obter o perdão de seus pecados e isto despertou-lhe um sentimento
muito forte de sua própria culpabilidade. Por isso, ajoelha-se e exclama em profunda contrição:

"Todo-Poderoso, a Ti louvores eu dou,


Peço-Te que Tua misericórdia me seja mostrada.
Pelo senso do pecado oprimido estou,
A carga para mim é muito pesada.
Não tenho paz, descanso não posso ter
Até que o perdão de Ti, eu venha a receber".

Enquanto se sente abatido e infame, condenado a vagar solitário e amaldiçoado pelo mundo por causa de seu
profano amor por Vênus, os menestréis aproximam-se dele e, reconhecendo-o, tentam persuadi-lo a acompanhá-los a
Wartburg. Mas, como já foi dito, foi o apaixonado amor por Elizabeth que o levou aquele lugar, e ele se sente
desencorajado a aproximar-se dela. Como argumento final, Wolfram, von Eschenbach diz a Tannhauser que Elizabeth
o ama. Elizabeth não havia assistido a nenhum torneio de canções desde que Tannhauser partiu, e Wolfram von
Eschenbach, uma das mais puras e belas personalidades da história medieval, procura assegurar a felicidade de
Elizabeth trazendo Tannhauser de volta para ela, apesar dele mesmo amá-la e, ao fazê-lo, despedaça seu próprio
coração. Ao ouvir isto, a paixão inflama novamente a alma de Tannhauser, e ele canta:

"Oh! sorri-me novamente!


Mundo radiante que eu perdi!
Oh, sol dos céus, tu não escapas mais de mim.
Por nuvens tormentosas há tanto atravessadas,
É Maio, doce Maio. Milhares de cantos em louvor,
Libertam meus pesares alegremente.
Um raio novo de invulgar esplendor
Ilumina minha alma, Oh, alegria, é ela finalmente!"

Encontrando Tannhauser no castelo, Elizabeth diz-lhe:

"Agora para mim o mundo está na escuridão.


O repouso e a alegria afastaram-se de mim. Desde que com ternura ouvi tua canção,
As angústias da beatitude e do infortúnio conheci;
Quando desta terra desertaste,
A paz também sumiu do meu coração.
Nenhum menestrel minha alma conseguiu despertar,
Suas canções parecem tristes e sem vida para mim,
Quase sempre de coração partido ia repousar.
Ao acordar, cada angústia era sempre recordada;
Toda a alegria desapareceu de minha vida assim.
Oh! diz-me, por que estou tão fascinada!”

A isto, Tannhauser responde:

"Todo o elogio ao amor por esta doce lembrança!


Minha harpa com mágica doçura o amor tocou.
Por minha canção, o amor a ti falou
Rendo-me aos teus pés, tudo em ti me cativou".

Elizabeth então confessa:


"Oh! Abençoada hora do encontro!
Oh! Abençoado poder do amor!
Finalmente te venho saudar
Para não mais te ver vagar.
A vida novamente despertada
Dentro deste meu coração;
A nuvem de tristeza dissipada,
E o sol da alegria brilha com emoção".

Assim, Elizabeth inspirou amor nos corações de dois dos menestréis, Wolfram e Tannhauser, mas o quanto
este amor é diferente, será visto no modo pelo qual cada um trabalha o tema no torneio de canções, que acontece no
segundo ato, onde Senhor de Wartburg abre o concurso com as seguintes palavras:

"Como sempre em tempo de guerra, a morte enfrentamos,


E para manter a honra como cavaleiros lutamos,
Assim vós, menestréis, tendes lutado e a virtude salvaguardado.
E com doces melodias de vozes e de harpas, a verdadeira fé elevado.
Novas canções compondes e entoais novamente
Descrevei o verdadeiro amor, para que o possamos conhecer;
Aquele que o cantar mais nobremente,
A princesa vai a ele o prêmio oferecer".

Nesta poesia compreendemos o verdadeiro alcance da missão e da dignidade dos cavaleiros e dos menestréis.
Era dever do cavaleiro ir à guerra, defender com a espada todos aqueles que necessitassem de ajuda, e lutar com
braço forte a batalha do fraco. Desde que o cavaleiro seguisse o código de honra prevalecente na época, defendendo
o fraco, mantendo fidelidade para com o amigo e com o inimigo, ele aprendia as lições de coragem física e, de certo
modo, de coragem moral, tão necessária para o desenvolvimento da alma. Quem trilhar o caminho da realização
espiritual é considerado também um cavaleiro de nascimento nobre, cabendo-lhe entender que deve cultivar as
mesmas virtudes requeridas pela classe dos cavaleiros, pois, no caminho espiritual, também há perigos e lugares onde
a coragem física é necessária. O Espírito, por exemplo, não pode alcançar a libertação sem incômodo físico. A doença
geralmente acompanha o crescimento da alma em maior ou menor extensão, e requer coragem física suportar e
aceitar o sofrimento que incide sobre esta realização pela qual todos lutamos e, muitas vezes, temos de sacrificar o
corpo para obter esse crescimento anímico.
Era missão do menestrel alimentar esta coragem e indicar também as mais sutis virtudes. Portanto, todos os
menestréis tinham aquele senso poético que os colocava em contato com os mais elevados e mais sutis elementos da
Natureza, não sentidos pela humanidade comum. Mais do que isso, muitos dentre os menestréis dos tempos
medievais eram iniciados ou talvez irmãos leigos. Portanto, quase sempre suas palavras eram pérolas de sabedoria.
Eram considerados professores, homens sábios e amigos da verdadeira nobreza.
Naturalmente haviam exceções, mas Tannhauser não era um destes. Ele era realmente uma alma nobre,
apesar de seus defeitos, e devemos nos lembrar que somos todos Tannhauser antes de nos tornarmos Wolframs. Nós
todos correspondemos à definição do amor de Tannhauser antes de atingirmos a concepção espiritual de Wolfram,
como ficou demonstrado no torneio.
Muitos foram atraídos para ver quem começaria o torneio e o nome de Wolfram apareceu na primeira ficha
tirada da caixa. Assim ele começa:

"Esta nobre assembleia contemplando,


Como o coração se expande ao ver esta cena!
Estes galantes heróis, valentes, sábios e gentis,
Como majestosas florestas frescas e verdes crescendo,
E, em torno deles, em doce perfeição florescendo,
Uma guirlanda de damas e lindas jovens vejo.
Suas glórias combinadas deslumbram o espectador,
Meu canto é mudo diante desta rara visão.
Elevo meus olhos para uma, cuja brilhante esplendor
Neste céu resplandecente brilha com meigo sorriso,
E. contemplando essa pura e carinhosa radiação,
Mergulha em devotos e santos sonhos meu coração.
E assim a fonte de todo prazer e poder
É, então, à minha alma reverente revelada.
De cujas inescrutáveis profundezas, toda a alegria derrama
O suave bálsamo pelo qual toda mágoa é sanada.
Oh! que eu nunca suas límpidas águas possam turvar
Nem com desejos selvagens impetuosamente eu as possa agitar.
Eu te venerarei, genuflexo, com alma devotada.
A viver e morrer por ti, meu coração aspira.
Não sei se estas minhas pobres palavras podem traduzir
O verdadeiro e suave amor que tenho estado a sentir".

No fim do canto de Wolfram, Tannhauser sobressalta-se como se desperto de um sonho. Levanta-se e canta:

"Eu também bebi desta fonte de prazer;


Suas águas, Wolfram, eu as conheço bem;
Quem tem vida, ousa isto não saber?
Suas virtudes vou tentar mostrar:
Mas perto de sua borda eu não me vou retirar,
A não ser que o desejo minha alma consumisse;
Somente, então, sua onda me refrescaria,
E nova e completa a minha vida ficaria.
Ó onda de alegria, deixa-me possuir-te!
Todo medo e dúvida tua presença faz desaparecer:
Deixa que os teus insondáveis enlevos me abençoem!
Por ti somente meu coração vai bater,
Para que eu possua teu brilhante esplendor,
Deixa-me com este desejo veemente sempre arder.
Eu te digo, Wolfram, assim vou descrever
O que eu aprendi sobre o verdadeiro amor".

Aqui temos a verdadeira descrição dos dois extremos do amor; o de Wolfram é o amor da alma pela alma, o
de Tannhauser é o amor dos sentidos. Um é o amor que anseia dar, o outro exige a posse que almeja receber. Este é
apenas o começo da competição, sobre a qual ouviremos falar, integralmente, mais adiante. Mas, sendo estas as
definições dadas em primeiro lugar pelos dois principais expoentes do amor, convém notar que Wolfram von
Eschenbach representa o expoente do novo e mais lindo amor que deve suplantar a concepção primitiva.
Até hoje, infelizmente, predomina a antiga ideia de que a posse é sinal de amor. Aqueles que acreditam em
renascimentos em sexos alternados, deveriam estar suficientemente convencidos de que, como a alma é bi- sexual e
nossos corpos contêm órgãos rudimentares pertencentes ao sexo oposto, nada mais natural e justo que cada ser
humano, independente da polaridade da aparência presente, deva possuir os mesmos privilégios que o outro.
Capitulo XV - O Pecado Imperdoável

Durante o torneio, os ideais sublimes e celestiais do companheirismo da alma pela alma são aceitos pela
maioria dos menestréis, mas, a cada apresentação, Tannhauser retruca apaixonadamente defendendo a parte sensual
do amor. Por fim, exasperado com a aparente indiferença dos menestréis, o que considera tolice sentimental, grita:
"Vão à Vênus! Ela lhes mostrará o que é o amor!"
Com este comentário revela seu segredo culposo. Todos consideram que ele cometeu, no pior aspecto, um
pecado imperdoável, isto é, manter relações sexuais com uma entidade etérica. Percebendo tratar-se de um
depravado além da redenção, lançam-se sobre ele de espada em punho e o teriam matado se Elizabeth não tivesse
intercedido, rogando que não lhe tirassem a vida por seus pecados, mas que lhe fosse dada uma oportunidade de
arrepender-se. Ouve-se um grupo de peregrinos à distância e os menestréis concordam que, se Tannhauser suplicar o
perdão da Santa Sé, em Roma, sua vida será poupada.
Quando Elizabeth revela a todos a dor de seu coração por seu apelo a favor de Tannhauser, ele percebe,
finalmente, a enormidade de seus pecados e atinge-o um doloroso reconhecimento de sua depravação. Ansiosamente
aceita a sugestão que lhe foi dada, junta-se ao grupo de peregrinos e dirige-se para Roma. Sendo uma alma forte,
nada faz pela metade. Sua contrição é tão sincera quanto seu pecado foi impetuoso. Todo seu ser deseja
ardentemente limpar-se das impurezas, para que possa aspirar ao mais elevado e nobre amor despertado em seu
coração por Elizabeth.
Os outros peregrinos cantavam salmos de louvor, mas ele mal ousava olhar para a distante Roma, repetindo
com toda a sinceridade: "Deus, tende piedade de mim, que sou pecador". Enquanto os peregrinos descansavam e
dormiam em hospedarias, ele dormia sobre a neve. Enquanto eles andavam pela estrada normal, ele caminhava sobre
os espinhos, e, quando chegaram a Itália, para não ter nem mesmo a alegria de ver as lindas paisagens dessa terra,
vendou seus olhos e assim caminhou na direção da Cidade Eterna.
Finalmente chegou a manhã na qual iria ver o Santo Padre, e a esperança cresceu em seu coração. Durante
todo o dia esperou pacientemente, vendo milhares de outros peregrinos voltarem com expressão de êxtase celestial
em suas fisionomias, pois receberam o perdão que ambicionavam, saindo com o coração mais leve, alegres e prontos
para começar uma nova vida.
Quando chegou a sua vez, prostrou-se diante da augusta presença e aguardou pacientemente pela mensagem
do Santo Padre, esperando e desejando uma palavra amável que o levasse de volta alegremente. Em vez disso, ouviu
as trovejantes palavras: "Se te associaste com demônios, não há perdão para ti, nem no céu nem na Terra. É mais fácil
este cajado seco que seguro em minhas mãos florescer, do que teus pecados serem perdoados".
À esta cruel declaração, a última centelha de esperança morreu dentro de Tannhauser, e a luxúria, um fator
do sangue, levantou sua cabeça. Seu amor transformou-se em ódio e num arroubo de raiva amaldiçoou o céu e a
Terra, jurando que se não pudesse ter o verdadeiro amor, voltaria à caverna e procuraria Vênus novamente.
Afastando-se de seus companheiros peregrinos, resolve voltar sozinho para sua terra natal.
Nesse ínterim, as preces de Elizabeth, a pura e casta virgem por quem o amor de Tannhauser tinha-o feito
partir, pediam incessantemente perdão ao pecador. Esperançosa, ela aguardava o retorno dos peregrinos.
Finalmente, quando chegaram e Tannhauser não estava com o grupo, ela foi acometida de desespero e, sentindo que
não havia outro caminho, partiu desta fase da vida para apresentar pessoalmente sua petição perante o Trono da
Graça, diante do nosso Pai Celestial. O cortejo fúnebre cruza com Tannhauser que retornava de Roma, e ele, à essa
visão, curva-se com indescritível dor.
Então, chega outro grupo de peregrinos, contando sobre o grande milagre que aconteceu em Roma. O cajado
do Papa tinha florescido, significando que um pecador, a quem havia sido recusada a remissão na Terra, havia
encontrado perdão no céu.
Embora a lenda esteja envolta em fraseologia medieval e católica, e descartemos a ideia de que qualquer
homem tenha o poder de perdoar pecados ou negar a remissão, ela contém verdades espirituais que se tornam mais
claras a cada ano que passa. Referem-se ao pecado imperdoável: o único pecado que não pode ser redimido, mas
deve ser expiado. Como se sabe, Jeová é o mais alto Iniciado do Período Lunar, o regente dos Anjos, que durante este
presente Dia de Manifestação trabalha com nossa humanidade através da Lua. Ele é o regente da fecundação e o fator
principal da gestação, o que propicia a prole ao homem e aos animais, usando o raio lunar como seu veículo de
trabalho durante as épocas propícias para a fecundação. Jeová é um Deus ciumento de suas prerrogativas e, portanto,
quando o homem comeu da árvore do conhecimento e assumiu o ato da fecundação, Ele o expulsou do paraíso para
que vagasse pelo deserto do mundo. Ali não haveria perdão. Deveria expiar em trabalhos e dores, colhendo o fruto de
sua transgressão.
Antes da Queda, a humanidade ainda não havia conhecido o bem nem o mal. Os homens faziam o que lhes
era ordenado e nada mais. Ao tomar os problemas em suas próprias mãos pela dor e tristeza advindas de sua
transgressão, aprenderam a diferença entre o bem e o mal, tornando-se capazes de escolha. Adquiriram
prerrogativas. Este grande privilégio compensa o sofrimento e a tristeza que o homem tem de suportar para expiar as
ofensas contra a Lei da Vida e que consiste em praticar o ato criador quando os raios estelares não são propícios,
causando assim parto doloroso e uma infinidade de outras doenças que são a herança da humanidade de hoje.
Em relação a isso, posso mencionar que a Lua é a regente do signo de Câncer e que o câncer, em sua forma
mais maligna, não admite cura, não importa quantos medicamentos a ciência possa produzir de tempos em tempos.
Investigações sobre a vida das pessoas que sofrem dessa doença, têm provado em todos os casos que a vítima foi
extremamente sensual em existências anteriores, embora eu não esteja preparado para dizer se. isto é uma lei, uma
vez que as investigações foram insuficientes para comprová-lo. Entretanto, é significativo observar que Jeová, o
Espírito Santo, dirige as funções fecundantes através da Lua, que esta governa Câncer e que aqueles que abusaram
violentamente da função sexual, sofrem da doença chamada câncer, confirmando os dizeres da Bíblia de que todas as
coisas podem ser perdoadas menos o pecado contra o Espírito Santo.
Há uma relação mística entre o Querubim com a espada flamejante no Jardim do Éden e o Querubim com a
flor aberta à porta do Templo de Salomão; entre a lança e a taça do Graal; entre a vara de Arão e o cajado do Papa
que ambos floresceram e a morte da casta e pura Elizabeth, por cuja intercessão a mancha foi removida da alma do
errante Tannhauser. Quem nunca conheceu o tormento da tentação, não consegue avaliar a posição de alguém que
sucumbiu. O próprio Cristo sentiu, no corpo de Jesus, toda a paixão e todas as tentações a que nós também estamos
sujeitos, e isto aconteceu com o propósito de fazê-lo misericordioso, como um Sumo Sacerdote, em relação à nós.
Tendo Ele sido tentado, isto prova que a tentação em si não é pecado. A condescendência é que é o pecado; portanto,
Ele estava sem pecado. Quem for assim tentado e resistir, é, com certeza, altamente evoluído; mas devemos lembrar
que ninguém da presente humanidade ainda conseguiu chegar a este estágio de perfeição. Nós nos tornamos
melhores homens e mulheres quando após pecarmos, e, em consequência sofrermos, despertamos para o fato
importante de que o caminho do transgressor é penoso. Assim, tornamos ao caminho da virtude e somente aí
encontramos a paz interior. Tais homens e mulheres alcançam um estágio mais elevado de desenvolvimento espiritual
do que aqueles que vivem vidas castas sem tentações, por estarem num ambiente protegido. Cristo enfatizou isto
quando disse haver maior regozijo por um pecador arrependido, do que por noventa e nove que não precisam se
arrepender.
Há uma distinção muito significativa entre inocência e virtude e o que é mais importante ainda, é que
devemos perceber a falácia do duplo padrão de conduta que dá liberdade ao homem, ou melhor, tudo perdoa no
homem, enquanto insiste em que um passo em falso arruinará a vida de uma mulher para sempre. Se eu tivesse hoje
que escolher uma esposa, e mais tarde descobrisse que sua vida estava manchada por um erro pelo qual sofreu,
saberia que ela aprendeu a conhecer o sofrimento e com isso desenvolveu a compaixão e a indulgência. Adquiriu
qualidades que a tornarão uma companheira mais compreensiva do que aquela que se manteve "inocente" no limiar
da vida, e está sujeita a cair vítima da primeira tentação.
Capítulo XVI - O Cajado que Floresceu

No prólogo de Fausto, referindo-se ao herói, Deus é representado dizendo:

"Embora, em perplexidade, ele me sirva agora,


Para onde aparecer a luz, Eu logo o guiarei;
Quando a árvore nova tiver brotos, o jardineiro sabe,
Com flores e frutos seus anos vindouros beneficiarei".

Este é um fato real concernente a toda humanidade. Na época atual, todos nós servimos a Deus
imperfeitamente por causa de nossa visão limitada. Não temos a real e verdadeira percepção do que seremos, e de
que modo deveríamos usar os talentos com os quais somos dotados. No entanto, Deus, através do processo de
evolução, está constantemente dirigindo-nos para uma luz cada vez maior e, gradativamente, deixaremos de ser
espiritualmente estéreis: floresceremos e daremos frutos. Assim, seremos capazes de servir a Deus como deveríamos
e não como o fazemos.
Embora o que dissemos acima se refira a todos em geral, aplica-se particularmente àqueles que são
professores, pois, naturalmente, onde a luz é mais forte, as sombras também são mais profundas, e as imperfeições
daqueles entre nós que devem arcar com a responsabilidade do ensino são, por isso, mais notadas.
Na história de Tannhauser, o Papa fecha a porta da esperança na face do penitente, porque a palavra da lei
assim o exige, mas, nem por isso a misericórdia de Deus foi frustrada. O cajado do Papa floresceu para provar que o
penitente foi perdoado devido à sincera penitência e, em consequência, o mal foi apagado do registro impresso no
átomo-semente. Por uma lei superior, a inferior foi suplantada.
Há nesta lenda do cajado do Papa uma semelhança com o conto do Santo Graal e da lança; com a história da
vara de Arão que também floresceu, e com o cajado de Moisés que fez brotar da rocha, a água da vida. Todos esses
fatos têm um importante significado sobre a vida espiritual do Discípulo que, almejando seguir o caminho para a vida
superior, procura, como Kundry, desfazer as más ações de vidas passadas por uma vida presente de serviço
totalmente dedicada ao Eu superior. A lenda do Graal distingue a taça do Graal, propriamente dita, e o Sangue
Purificador que ela contém.
A história conta como Lúcifer, quando lutou com o Arcanjo Miguel sobre o corpo de Moisés, perdeu a pedra
mais preciosa de sua coroa. Ela caiu durante a luta. Esta linda e incomparável gema era uma esmeralda chamada
"Exilir". Foi lançada ao abismo, mas foi recuperada pelos Anjos, e dela foi feito o cálice ou Santo Graal, que mais tarde
foi usado para conter o Sangue Purificador que fluiu do lado do Salvador quando foi ferido pela lança do centurião.
Notemos que esta joia era uma esmeralda: era verde, e verde é uma combinação do azul com o amarelo e é,
portanto, a cor complementar da terceira cor primária, o vermelho. No Mundo Físico, o vermelho tem a tendência de
excitar e energizar, enquanto que o verde tem um efeito refrescante e calmante, mas o oposto é verdadeiro, quando
vemos o assunto do ponto de vista do Mundo do Desejo. Aí, a cor complementar é ativa e tem o efeito sobre nossos
desejos e emoções que atribuímos à cor física. Portanto, a cor verde da gema perdida por Lúcifer mostra seu efeito e
sua natureza. Esta pedra é a antítese da Pedra Filosofal. Tem o poder de atrair a paixão e gera o amor do sexo para
sexo, que é o vício oposto ao amor casto e puro, simbolizado pela pedra branca apocalíptica, cujo final é o amor da
alma para alma. Como este efeito das cores complementares é bem conhecido, embora não percebido
conscientemente, falamos também do ciúme, que é gerado pelo amor impuro, caracterizado como um monstro de
olhos verdes.
O Santo Graal tem sua réplica no cálice ou na casca da semente da planta, que é verde. O fogo criador está
adormecido dentro da casca. Igualmente, o mesmo fenômeno deve manifestar-se dentro de cada um que começa a
procura do Santo Graal. Vontade é a qualidade masculina da alma; imaginação é a qualidade feminina. Quando a
vontade é o atributo mais forte, a alma, durante uma certa vida, usa um revestimento masculino e, em outra, onde a
qualidade da imaginação é maior, uma forma feminina. Pela Lei de Alternância que prevalece nesta presente era do
arco-íris, a alma usa trajes diferentes em vidas alternadas, mas, quer seja feminino ou masculino, o órgão do sexo
oposto está sempre presente em estado latente. Por conseguinte, o homem é agora e será tanto masculino como
feminino, enquanto o corpo denso permanecer.
No passado, quando sua consciência estava focalizada no mundo espiritual, ele era uma perfeita unidade
criadora com os dois órgãos sexuais igualmente desenvolvidos, como muitas flores o têm ainda hoje. Portanto, era
capaz de gerar um novo corpo quando o antigo já estivesse gasto, mas, nessa época, ele não estava ciente, como está
hoje, do fato de que possuía um corpo. Os pioneiros - alguns que viram mais claro do que os outros - contaram a seus
companheiros a extraordinária história de que o homem tinha um corpo e é natural que tenham enfrentado o mesmo
ceticismo que hoje enfrentam aqueles que afirmam que o homem possui uma alma.
Vemos que a história simbólica de Lúcifer, perdendo a gema verde, é a mesma do homem quando deixou de
conhecer-se a si próprio e passou a conhecer sua mulher: de como o Graal foi perdido e como só poderá ser
encontrado quando o sangue físico saturado de paixão estiver novamente purificado como o contido originalmente
nesse vaso verde.
Numa época propícia do ano, nem antes nem depois, os raios emanados das orbes celestiais penetram na
semente plantada e despertam suas forças geradoras latentes para a atividade. Então, uma nova planta surge do solo
para novamente embelezar a Terra. Desta maneira, o ato de gerar é executado em perfeita harmonia com a Lei da
Natureza, e uma coisa bela é gerada para adornar a Terra. O resultado é diferente nos seres humanos, desde a época
em que a qualidade feminina da imaginação foi despertada por Lúcifer.
Presentemente, o ato gerador é executado independente dos raios solares propícios e, como resultado, o
pecado e a morte apareceram no mundo. Desde então, a luz espiritual empalideceu e agora estamos cegos para a
glória celestial.
Nas mãos dos divinos guias da humanidade, um deles representado por Arão, a vara viva era um veículo de
poder. Mais tarde, a vara florida secou e foi preservada na Arca. Não devemos concluir que, por causa disso, não haja
mais redenção. Mas, como o homem foi exilado do seu estado celestial quando a gema verde da paixão e do desejo
caiu da coroa de Lúcifer, que guiou a humanidade através da geração para a degeneração, assim também existe a
pedra branca, a Pedra Filosofal, o símbolo da emancipação. Usando o poder de geração para a regeneração,
superamos a morte e o pecado e isto confere-nos a imortalidade e leva-nos a Cristo.
Esta é a mensagem da história de Tannhauser. Paixão é veneno. O abuso da geração, sob a influência de
Lúcifer, tem sido o meio de nos afundarmos nas trevas da degeneração. O mesmo poder canalizado em direção
oposta, e usado com propósitos de regeneração, é capaz de livrar-nos das trevas e elevar-nos a um estado celestial, e
então, teremos vencido a batalha. Pela paixão, o Espírito cristalizou-se num corpo e os grilhões somente poderão ser
quebrados pela castidade, pois o céu é a morada da virgem e somente quando elevarmos o amor do sexo pelo sexo à
categoria do amor da alma pela alma, poderemos desatar as algemas que nos prendem. Portanto, quando
aprendermos a criar pela concepção imaculada, nascerão salvadores que abrirão os grilhões do pecado e do
sofrimento que agora nos prendem.
Ao realizarmos este ideal, devemos lembrar que a repressão do desejo sexual não é o celibato; a mente deve
contribuir para isso e devemos de boa vontade abster-nos da impureza. Isto só pode ser conseguido pelo que os
místicos chamam "encontrar a mulher dentro de si mesmo". (Para a mulher é, naturalmente, encontrar o homem
dentro de si mesma). Quando conseguirmos isto, teremos chegado ao estágio em que poderemos viver a mesma vida
pura da flor.
Em relação a isto, poderá ser também muito esclarecedor lembrar que o "Guardião do Umbral que devemos
enfrentar antes que possamos entrar nos mundos suprafísicos, assume sempre a aparência de uma criatura do sexo
oposto. No entanto, esta aparência assemelha-se à nossa própria. Devemos também compreender que quanto mais
licenciosos ou libidinosos tenhamos sido, pior será a aparência deste monstro. Parsifal permanecendo ereto diante de
Kundry - quando sua recusa de submissão a ela converteu-a num virago - está na mesma situação que o candidato fica
ao defrontar-se face a face com o guardião, antes que a lança lhe seja colocada nas mãos.
Lohengrin
Capítulo XVII - O Cavaleiro do Cisne

Entre as óperas de Wagner, talvez nenhuma seja tão universalmente apreciada pela maioria das pessoas do
que Lohengrin. Provavelmente porque a história, numa apreciação superficial, pareça muito simples e bonita. A
música é de um caráter primoroso e incomum, agradando a todos de um modo não igualado pelas outras óperas do
mesmo autor baseadas em mitos como Parsifal, o Anel do Niebelungo ou mesmo Tannhauser.
Apesar dessas obras afetarem poderosamente as pessoas que as ouvem pelo seu conteúdo espiritual (estejam
conscientes ou não do fato), nem sempre são apreciadas, principalmente na América, onde o espírito de misticismo
não é tão forte como na Europa.
É diferente com Lohengrin. Aqui há uma história do tempo em que a classe de cavaleiros florescia e, embora
haja um encanto mágico na chegada de Lohengrin e do cisne em resposta às preces de Elsa, isto é apenas uma linda
fantasia poética sem significado mais profundo. Neste mito é revelado um dos supremos requisitos da Iniciação, a fé.
Quem não possuir esta virtude não poderá obter a Iniciação, e quem a possuir verá atenuadas muitas de suas faltas.
O resumo do enredo é o seguinte: o herdeiro do Ducado de Brabant desapareceu. É apenas uma criança e
irmão de Elsa, a heroína da peça, que no início da cena é acusada por seus inimigos, Ortrud e Telramund, de ter feito
desaparecer esse irmão mais novo para que ela pudesse obter a posse do principado. Em consequência, foi intimada a
comparecer perante a corte real para defender-se de seus acusadores. Na cena de abertura, nenhum cavaleiro havia
ainda aparecido para defender sua causa e matar seus caluniadores. Então, aparece no rio um cisne com um cavaleiro
que se aproxima do lugar onde está havendo o julgamento. Ele salta em terra e oferece-se para defender Elsa com a
condição de que se casem. Ela logo concorda, pois ele não lhe é estranho; ela o tem visto frequentemente em seus
sonhos e aprendeu a amá-lo. No duelo entre o cavaleiro desconhecido e Telramund, este último é derrubado, mas sua
vida é magnanimamente poupada pelo vencedor, que depois reivindica Elsa como sua noiva.
Contudo, havia imposto outra condição, isto é, que ela nunca perguntasse quem ele era e de onde viera, bom
e nobre, e como viera em resposta às suas preces, ela também não faz objeção a esta condição, e o casal se retira para
os aposentos nupciais.
Embora temporariamente vencidos, Ortrud e Telramund não desistem da conspiração contra Elsa, e seu
próximo passo é envenenar sua mente contra seu nobre protetor, para que ela o mande embora e fique novamente à
mercê deles. Esperam, futuramente, ficar de posse do principado do qual Elsa e seu irmão são os legítimos herdeiros.
Com este propósito em vista, ambos se apresentam à porta de Elsa e conseguem ser ouvidos por ela. Aparentam estar
extremamente arrependidos pelo que fizeram e muito solícitos pelo seu bem-estar. Dizem sentir muito que ela tenha
desposado alguém cujo nome nem mesmo sabe, e que tem tanto medo de que sua identidade seja conhecida, que a
proibiu de perguntar seu nome, sob pena de ser abandonada por ele.
Argumentam que deve haver alguma coisa em sua vida da qual ele se envergonha, algo que não pode
suportar a luz do dia, do contrário, por que desejaria negar a quem uniu-se por toda a vida, o conhecimento de sua
identidade e antecedentes?
Por meio destes argumentos eles conseguem suscitar uma dúvida na alma de Elsa que, em seguida, dirige-se
transformada para Lohengrin. Ele nota a diferença e pergunta-lhe a causa. Ela admite estar insegura em relação a ele
e que gostaria de saber seu nome. Assim, quebrou a promessa feita, e ele lhe diz que agora havendo expressado uma
dúvida a seu respeito, ser-lhe-á impossível ficar. Nem lágrimas nem protestos podem mudar esta resolução, e eles vão
juntos para o rio onde Lohengrin chama seu fiel cisne. Quando este aparece, ele revela sua identidade dizendo: "Eu
sou Lohengrin, o filho de Parsifal". Em seguida, o cisne transforma-se e aparece diante deles como o irmão de Elsa.
Torna-se, portanto, seu protetor no lugar de Lohengrin, que se afasta.
Como foi dito, a história de Lohengrin contém uma das mais importantes lições a serem aprendidas no
caminho da realização. Ninguém poderá jamais alcançar a Iniciação até que tenha aprendido isto. Para que possamos
entender devidamente este ponto, olhemos primeiramente para o símbolo do cisne, vejamos o que ele representa e
por que é usado. Os que assistiram a ópera Parsifal, ou que tenham lido atentamente a literatura sobre o Graal, já
estão cientes do fato de que os cisnes estavam presentes nos emblemas usados por todos Cavaleiros do Graal.
Na própria ópera, são mencionados dois cisnes preparando um banho curativo para o sofredor Rei Amfortas
Parsifal é mostrado matando um destes cisnes, e os Cavaleiros do Graal manifestam uma grande tristeza por esta
crueldade não justificada.
O cisne é capaz de movimentar-se em vários elementos. Pode voar com grande ligeireza; também desliza
majestosamente sobre a água; e, com seu longo pescoço, pode explorar profundidades e investigar o que pode ser
encontrado no fundo de um lago não muito profundo. É o símbolo apropriado para o Iniciado que, em virtude do
poder desenvolvido internamente, é capaz de elevar-se aos reinos superiores e movimentar-se em mundos
diferentes. Assim como o cisne voa pelo espaço, da mesma forma alguém que tenha desenvolvido os poderes de seu
corpo-alma, pode viajar por cima das montanhas e lagos; assim como o cisne mergulha abaixo da superfície da água,
também o Iniciado pode ir abaixo da superfície do oceano, em seu corpo-alma, pois não está exposto aos perigos do
fogo, da terra, do ar, ou da água. Na verdade, este é um dos primeiros ensinamentos mostrados aos Auxiliares
Invisíveis e por isso quando se revestem com o Dourado Manto Nupcial, sobre o qual muito temos falado, estão
imunes a qualquer perigo que possa atingi-los no corpo denso. Podem entrar num edifício em chamas para ajudar os
que estão em perigo, algumas vezes de maneira miraculosa; ou podem estar a bordo de um navio que está
naufragando para encorajar aqueles que estão próximos a enfrentar a grande mudança.
A antiga mitologia nórdica descreve como os nobres guerreiros de então entoavam seu canto de cisne
quando, tendo guerreado, eram finalmente derrotados ou mortalmente feridos. Mas não pensemos que isto
significava apenas a luta brutal travada no campo de batalha com espada e lança. Simbolizava, principalmente, a luta
interna, o significado oculto, a luta de uma nobre alma na batalha da vida cantando seu canto de cisne, quando
alcançava o que era possível nessa época, isto é, após ter feito seu juramento de Iniciação, tornar-se capaz de entrar
em outro reino para lá ajudar outros como os havia ajudado aqui. Foi sempre o sagrado dever de um cavaleiro nobre
socorrer os fracos e os oprimidos.
Elsa é filha de um rei. Portanto, é da mais alta e nobre linhagem. Ninguém que não seja tão bem-nascido pode
exigir os serviços de um cavaleiro como Lohengrin. Isto quer dizer, naturalmente, que não há na humanidade nem
superiores nem inferiores, a não ser na escala da evolução. Quando uma alma já passou por vários estágios da vida,
quando já cursou a escola em muitos renascimentos, gradualmente adquire essa nobreza que se origina do
aprendizado das lições e do trabalho executado, segundo as linhas estabelecidas pelos Mestres, nossos Irmãos
Maiores, que estão agora a ensinar-nos as lições da vida. A nobreza conseguida pelo anseio de praticar boas ações em
favor dos nossos companheiros menos desenvolvidos, é a chave para obtermos a sua preferência. Vimos que quando
Elsa estava em perigo, foi-lhe enviada uma alma nobre para ensiná-la e guiá-la.
No Livro da Revelação lemos sobre o casamento místico da Noiva e do Cordeiro. Esse enlace existe na
experiência de cada alma e sempre sob as mesmas circunstâncias. Um dos primeiros requisitos é que a alma tenha
sido abandonada por todos os demais: deve estar sozinha, sem nenhum amigo no mundo. Quando este ponto for
atingido, quando a alma não conta com nenhum socorro de origem terrena, quando se volta com todo seu coração
para o céu e reza pela libertação, então, chega o libertador e também o pedido de casamento. Em outras palavras, o
verdadeiro Mestre sempre vem em resposta às preces sinceras do aspirante, mas não antes que este tenha
abandonado o mundo e tenha sido abandonado por ele. O Mestre se oferece para cuidar daquele que anseia por um
guia e, imediatamente, vence a mentira com a espada da verdade, mas, tendo dado esta prova, exige doravante uma
fé absoluta e inquestionável. Lembre-se por favor - deixe que isto fique gravado em sua mente, com letras de fogo e
no mais íntimo do seu ser. Quando o Mestre vem, em resposta às orações do aspirante (que não devem ser apenas
palavras, mas uma vida de aspiração), é-lhe dada a prova indubitável e inquestionável do poder e habilidade do
Mestre para ensiná-lo, guiá-lo e ajudá-lo. Daí para a frente, é exigido que haja fé absoluta nEle, do contrário, torna-se
Lhe impossível trabalhar com o aspirante.
Esta é a grande lição ensinada por Lohengrin e tem em si uma suprema importância. Há, atualmente, milhares
de pessoas andando pelas ruas de muitas cidades, olhando para lá e para cá, procurando um Mestre. Alguns
pretendem tê-lo encontrado ou iludem-se com essa crença: mas a exigência que é enunciada em Lohengrin é um
requisito verdadeiro. O Mestre deve, quer e prova sua, capacidade. Ele é conhecido por seus frutos. Em troca, exige
lealdade, e a não ser que esta fé, esta lealdade, esta prontidão em servir, esta disposição para fazer o que for exigido
estejam disponíveis no aspirante, o relacionamento estará terminado. Não importa quão amargas sejam as lágrimas
de arrependimento que possam ser vertidas no caso de o aspirante falhar em sua lealdade para com o Mestre; não
importa quão sincero seja seu arrependimento, a próxima oportunidade não virá na sua vida presente.
Portanto, é da máxima importância que aqueles que procuram a Iniciação compreendam que há algo que
devem observar no pretenso Mestre, antes de aceitá-lo. Ele deve mostrar os frutos de seu trabalho, pois como Cristo
disse "Vós os conhecereis por seus frutos". Isto o autêntico Mestre sempre apresenta sem lhe ser solicitado e sem
parecer fazê-lo ou querer apresentar um sinal. Ele sempre apresenta alguma evidência à qual a mente do aspirante
pode unir-se, como uma prova indubitável de seu superior conhecimento e habilidade. Quando isto for demonstrado,
é absolutamente essencial que o passo seguinte seja a lealdade ao Mestre. Não importa quem diga isto, aquilo, ou
qualquer outra coisa, o aspirante não deve se deixar perturbar, mas apegar-se firmemente ao fato provado, aferrar-se
ao que acredita ser verdadeiro e apoiar-se fielmente naquele a quem recorre para ensiná-lo, pois, a não ser que essa
fé exista, não há razão para continuar o relacionamento.
Entretanto, é muito significativo, como aprendemos na cena final, que o irmão de Elsa fosse o próprio cisne
que levou Lohengrin até sua irmã, e que voltou à sua forma natural quando Lohengrin partiu. Havia passado pela
Iniciação. Sem dúvida, ele sabia da situação angustiante de sua irmã, e como uma alma avançada e versada nestes
assuntos, compreendia a luta dos outros. Mas, embora visse o dilema desta aspirante sincera ou alma irmã, não teve
medo, pois, não foi ele o agente que trouxe o auxílio que ela poderia ter tido permanentemente, se tivesse sido tão
fiel como ele o foi?

FIM
APENDICE
Conto de um Teólogo
A Bela Lenda

“Se você tivesse ficado, eu teria ido embora!”


Isso é o que a Visão disse.
Sozinho em sua cela,
No chão de pedra ajoelhado,
O monge orava em profunda contrição
Por seus pecados de indecisão.
Suplicava por maior renúncia
Na tentação e na provação;
O mostrador meio-dia já marcava
E o monge em solidão ainda orava.
De repente, como num relâmpago,
Algo incomum resplandeceu, afora e no âmago,
E nessa estreita cela de pedra fez abrigo;
Então, o monge teve com o Poder do Clarão
De Nosso Senhor, a Abençoada Visão.
Como um manto, O envolveu,
Como uma veste, O abrigou.
Não como crucificado e morto,
Não em agonias de dor,
Não com mãos e pés sangrando,
O Monge viu seu Mestre;
Mas como na rua da aldeia,
Na casa ou no campo de colheita,
Como o paralítico, o coxo e o cego que Ele curou,
Quando ele andou na Galileia.
A alma em preces acalentada,
Cada mão sobre o peito cruzada,
Reverente, adorando, assombrado,
O monge, perdido em êxtase, caiu ajoelhado
Senhor, ele pensou, no céu que reina,
Quem sou eu, para que assim Te dignas
Para se revelar a mim?
Quem sou eu, que do centro
Da Tua glória Tu deves entrar
Nessa pobre cela, para ser meu convidado?
Depois, em meio à sua exaltação,
Retumbante o sino do convento em exortação
De seu campanário tangeu, ressoou,
Por pátios e corredores reverberou
Com persistência badalando,
Como nunca antes ousou.
Era agora a hora marcada
Quando, do mesmo modo, sob o brilho do sol ou sob a chuva,
Sob o frio do inverno ou o calor do verão,
Para os portais do convento vieram
Todos os cegos e mancos e coxos,
Todos os mendigos da rua,
Por sua doação diária de comida
A irmandade fornecia;
E o esmoleiro do convento era ele
Quem de joelhos dobrados,
Arrebatado em êxtase silencioso
Da mais divina autoentrega,
Viu a Visão e o Esplendor.
Profunda angústia e hesitação
Misturavam-se à sua adoração;
Deveria ir, ou deveria ficar?
Poderia os pobres deixar
Famintos no portão a esperar,
Até a Visão se dissipar?
Poderia ele seu brilhante hóspede desprezar?
Seu visitante celestial desconsiderar
Por um grupo de míseros esfarrapados,
Mendicantes no portão do convento sediados?
Será que a Visão esperaria?
Será que a Visão retornaria?
Então, dentro do seu peito uma voz
Audível e clara sussurrou,
E ele, nitidamente escutou:
“Faça o seu dever; isto é o melhor;
Deixa para Teu Senhor o restante!”
Imediatamente ergueu-se resoluto,
E com um olhar ardente, decidido e arguto
Dirigido à Abençoada Visão,
Lentamente A deixou em sua cela na solidão,
Diligentemente foi cumprir sua missão.
No portão, os pobres estavam esperando
Através do gradil de ferro observando,
Com terror no semblante
Que só se vê no suplicante
Que em meio a desgraças e desditas
Ouve o som das trancas lhe cerrando as portas,
Pobres, por todos desprezados,
Com o desdém, familiarizados,
Com o dissabor, acostumados,
Buscam o pão pelo qual muitos sucumbem!
Mas hoje, sem o motivo sequer saberem bem,
Tal como Portal do Paraíso no além
Abre-se a porta do convento!
E como um divino Sacramento
Parecia-lhes o pão e o vinho nesse momento!
Em seu coração o Monge estava orando,
Nos pobres sem teto pensando,
Tudo que sofrem e suportam
E vendo ou ignorando, muitos rejeitam.
Enquanto isso uma voz interna ao Monge dizia:
O que quer que faças
Ao último e menor dos meus,
A Mim o fazes!”
A Mim! Mas se tivesse a Visão
Se apresentado em farrapos e errante,
Como um desvalido suplicante,
Ter-me-ia ajoelhado em adoração?
Ou A receberia com escárnio e presunção
E até ter-me-ia afastado com aversão.
Assim questionou sua consciência,
Com insinuações e incômoda insistência,
Quando, por fim, com passo apressado
Dirigindo-se à sua cela com ânsia,
Seus olhos contemplaram o convento iluminado
Por uma luz sobrenatural inundado,
Como uma nuvem luminosa se expandindo
E sobre o chão, paredes e tetos subindo.
Mas, assombrado parou a extasiar,
Da porta contemplou, no limiar!
A Visão que lá permanecera,
Exatamente como antes A deixara
Na hora em que o sino do convento soou,
De seu campanário clamou, clamou,
E para os pobres alimentar o intimou.
Por longa e solitária hora esperara,
Seu regresso iminente aguardara.
O coração do Monge ardeu
Quando Sua mensagem compreendeu,
Logo que o Vulto Amado deixou esclarecido:
“Se você tivesse ficado, eu teria ido embora!”
(tradução livre do poema: The Theologian's Tale; The Legend Beautiful (1871) de Henry Wadsworth Longfellow (1807-1882))

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