0% acharam este documento útil (0 voto)
17 visualizações142 páginas

Gestão e Desafios no Agronegócio Brasileiro

Enviado por

amandaasntos
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
17 visualizações142 páginas

Gestão e Desafios no Agronegócio Brasileiro

Enviado por

amandaasntos
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

ISSN 1517-3879

Departamento de Administração e Economia


Universidade Federal de Lavras

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-426, set./dez. 2011


Organizações Rurais & Agroindustriais, a revista de Administração da UFLA, tem como missão divulgar
trabalhos científicos e ensaios desenvolvidos nas áreas de “gestão de cadeias agroindustriais”, “gestão social,
ambiente e desenvolvimento”, “organizações/associativismo”, “mudança e gestão estratégica”, “economia,
extensão e sociologia rural”.

FICHA CATALOGRÁFICA
Preparada pela Divisão de Processos Técnicos da Biblioteca Central da UFLA

O868 Organizações Rurais & Agroindustriais. v. 1, n.1, jan./jun. (1999)-


Lavras: Departamento de Administração e Economia – UFLA, 1999-

Semestral: 1998-2004. Quadrimestral: 2005-


Continuação de: Cadernos de Administração Rural, v. 10, n. 3, set./dez. 1998.
(ISSN 0103-412X)
ISSN 1517-3879

1. Administração. 2. Agronegócio. 3. Economia Rural. 4. Gestão social,


ambiente e desenvolvimento. I. Universidade Federal de Lavras. II. Departamento
de Administração e Economia.

CDD-350.0073
-630.68
-658.93

Indexada na base de dados do projeto Redalyc - Red de Revistas Científicas de América Latina y Caribe,
Espanha e Portugal - Redalyc: [Link]
Reitor da UFLA
Antônio Nazareno Guimarães Mendes
Vice-Reitor
José Roberto Soares Scolforo
Pró-Reitor de Pesquisa
Édila Vilela de Resende Von Pinho
Chefe do DAE/UFLA
Maria das Graças Paula
Coordenador do PPGA
Luiz Marcelo Antonialli
Editora UFLA – Conselho Editorial
Renato Paiva (Presidente)
Brígida de Souza, Carlos Alberto Silva,
Flávio Meira Borém, Joelma Pereira,
Luiz Antônio Augusto Gomes
Capa
Helder Tobias
Impressão
Indi Gráfica
Circulação
Biblioteca Central da UFLA/Setor de Intercâmbio: <cecilia@[Link]>
Tiragem: 500 exemplares
Edição Eletrônica
[Link]
[Link]
EXPEDIENTE
Secretária
Goretti Aparecida da Silva
Estagiário
William Ferreira França
Editoração Eletrônica
Fernanda Campos Pereira
Patrícia Carvalho de Morais
Renata de Lima Rezende
Revisão de Português
Jane Cherem
Revisão de Inglês
Adriano Messias de Oliveira
Revisão de Referências Bibliográficas
Márcio Barbosa de Assis
Organizações Rurais & Agroindustriais
Departamento de Administração e Economia
Universidade Federal de Lavras
Caixa Postal 3037 – CEP 37200-000
Lavras, MG – Brasil
Fone: +55 35 3829-1762
Fax: +55 35 3829-1772
Contato: revistadae@[Link]
Acesso Eletrônico: [Link]
CONSELHO EDITORIAL
Cristina Lelis Leal Calegario - Presidente/Editor
Adalberto Américo Fischmann - USP
Bruno Lanfranco - INIA - Instituto de Investigación Agropecuária - Uruguai
Décio Zylbersztjan - USP
Edgard Alencar - UFLA
Ellen F. Woortmann - UNB
Fábio Ribas Chaddad - University of Missouri
Jaime Evaldo Fensterseifer - UFRGS
José Edson Lara – UFMG
Marcelo José Braga - UFV
Mozart José Brito - UFLA
Paulo Furquim Azevedo - FGV/SP
Peter J.P. Zuurbier - WUR - Wageningen University - Holanda
Tales Wanderley Vital - UFRPE
Terence Centner - UGA - University of Georgia - EUA

EDITORES DE SEÇÃO
Ana Alice Vilas Boas - UFLA
Cristina Lelis Leal Calegario - UFLA
Ricardo Pereira Reis - UFLA
EDITORIAL

Prezados leitores,

Fechamos este último número de 2011 orgulhosos com as conquistas deste ano, mas cientes de que ainda temos
um longo caminho a percorrer. Estamos aguardando ansiosos o resultado de uma nova avaliação dos periódicos da
Capes, pois nem sempre achamos que as conquistas foram suficientes para uma melhor avaliação. De qualquer forma, só
temos que agradecer a todos os que trabalharam em prol da Revista, colegas aqui da edição e, em especial, os revisores
que criteriosamente acompanharam a avaliação dos artigos submetidos.
Para esta edição apresentamos, inicialmente, três artigos construídos ao redor da temática da concentração,
desenvolvimento e eficiência do agronegócio da cana-de- açúcar. No primeiro artigo, verificou-se a concentração na
agroindústria canavieira do estado de Minas Gerais, durante as safras 1996/1997 a 2005/2006. Os resultados apontaram
para um aumento da concentração da produção, dado, principalmente, mediante o crescimento das empresas de grande
porte, o qual se justifica pela reestruturação do setor baseada no aumento da competitividade.
Já no segundo artigo, o objetivo foi analisar os impactos da expansão da cana no Vale do São Patrício – região
localizada no centro-norte do estado de Goiás. Dentre os resultados obtidos, está a constatação de que 70% da área de
culturas temporárias estão ocupadas pela cana-de-açúcar, a qual domina as paisagens e provoca um processo de êxodo
rural. Os dados indicam, ainda, que, apesar do crescimento econômico verificado nos últimos anos, a riqueza gerada não
tem resultado em benefícios para a população rural.
No terceiro artigo sobre o tema, obtiveram-se indicadores multicriteriais de eficiência empregando modelagem de
análise envoltória de dados (DEA), para uma amostra de 38 usinas no estado de São Paulo. Uma posterior análise de
clusters identificou três grupos diferentes de usinas em relação à eficiência econômica. Os resultados da pesquisa
podem representar utilidade e implicações práticas para gerentes no setor sucroalcooleiro, no sentido de fornecer
parâmetros para comparações de desempenhos operacional e econômico entre usinas.
Na sequência dos artigos, no quarto e quinto trata-se da certificação e da adoção de tecnologia na cafeicultura.
No quarto artigo discutem-se os diferentes padrões de certificação presentes na cafeicultura brasileira hoje, sendo os
principais Orgânico, Fair Trade (FT), Utz Certified (UC) e Rain Forest Alliance (RA). Apresenta também como cada um
desses padrões cobre diferentes aspectos e seus respectivos produtos, chegando ao mercado carregados com
características distintas. Conclui-se que a certificação na cafeicultura nacional continuará em crescimento e seus
benefícios, aos poucos, estão chegando à sociedade.
No quinto artigo identificaram-se os determinantes da adoção da tecnologia pós-colheita de despolpamento
pelos produtores rurais na atividade cafeeira de Viçosa, MG. Aplicou-se o modelo Logit para identificar os determinantes
da adoção da despolpa do café. Os resultados apresentam as variáveis associativismo, capital próprio, escolaridade,
rentabilidade e treinamento como fatores que determinam a adoção da tecnologia de despolpamento, sendo o treinamento
e o associativismo os fatores que mais contribuem.
No sexto artigo exploram-se os elementos teóricos, tendo como objeto o processo de implementação da estratégia
de internacionalização da Vinícola Miolo. Este é um estudo de caso exploratório-descritivo com abordagem qualitativa.
Com base na análise do caso, foi possível identificar aspectos que ilustram a implementação da estratégia, o processo de
internacionalização e o empreendedorismo estratégico, como o papel do aprendizado, do conhecimento e do
desenvolvimento de recursos e de capacidades.
Na sequência, têm-se o sétimo artigo,no qual se estuda a cadeia do melão, analisando os canais de comercialização
e as relações contratuais entre compradores e produtores no estado do Rio Grande do Norte. Os resultados mostram que
os arranjos contratuais entre compradores internacionais e produtores, bem como entre empresas intermediárias e
produtores, são bem delineados. No entanto, arranjos com compradores domésticos ainda oferecem margem para
melhoria. Conclui-se que produtores sem certificação precisam de apoio para um upgrade e para aumentarem a eficiência
ao longo cadeia produtiva.
No oitavo artigo analisam-se a competitividade e as potencialidades da piscicultura no Lago de Três Marias, em
Minas Gerais. Realizou-se um levantamento de dados in loco por meio de entrevistas e da organização de um workshop
com agentes participantes do APL. Foi possível concluir que, a despeito das grandes vantagens em termos de recursos
naturais e apoio governamental, grande parte dos desafios para aumentar a competitividade da atividade está relacionada
à consolidação das instituições e à melhoria da coordenação vertical e horizontal entre os agentes participantes.
No nono artigo, a decisão de hedge simultâneo dos produtores de soja de Mato Grosso com contratos futuros de
preço e taxa de câmbio da BOVESPA-BM&F foi analisada. Um modelo de hedge simultâneo do risco de preços e taxa de
câmbio foi obtido e as eficiências de diferentes estratégias de hedge foram calculadas. A principal conclusão foi a de que
o hedge simultâneo de risco de preços e a taxa de câmbio reduzem de forma acentuada o risco da receita total,
comparativamente ao hedge de preços isolado. A mitigação do risco de taxa de câmbio, em conjunto com o de preços, é
fundamental para uma gestão estratégica dos exportadores de commodities.
Finalizando, no décimo artigo demonstram-se os aspectos presentes na criação de conhecimento em propriedades
rurais vinculadas a uma cooperativa agrícola. Com os dados obtidos foi possível desenvolver uma figura representativa
dos aspectos envolvidos na criação de conhecimento. Os resultados demonstraram que, para a ocorrência da criação de
conhecimento, é necessária a existência de grupos de relacionamento e de certa liderança, no âmbito da propriedade, de
comunidades de prática (CoPs) ou da cooperativa. O aspecto cultural e o estilo das relações, bem como a forma de
conduzir os negócios, podem afetar o modo como se dá a criação de conhecimento.

Uma boa leitura a todos!


Cristina Lelis Leal Calegario
Editora Chefe
ISSN 1517-3879

SUMÁRIO/CONTENTS

CONCENTRAÇÃO NAAGROINDÚSTRIA CANAVIEIRAMINEIRA DURANTE AS SAFRAS


1996/1997 A 2005/2006
Concentration on the sugarcane agro-industry in Minas Gerais state from 1996/1997 to 2005/2006 harvests
Amarildo Hersen,Pery Francisco Assis Shikida, Vanessa de Souza Dahmer............................................................................. 303

EXPANSÃO CANAVIEIRA NO CERRADO GOIANO: CRESCIMENTO ECONÔMICO É DESENVOLVIMENTO?1


The sugarcane expansion in Goiás state "cerrado": does economical growth mean development?
Silvia Regina Starling Assad de Ávila, Mario Lucio de Ávila, Iara Guimaraes Altafin............................................................. 317

EFICIÊNCIAECONÔMICA NO SETOR SUCROALCOOLEIRO: UMAANÁLISE DEALGUMAS USINAS DO ESTA-


DO DE SÃO PAULO
Economic efficiency in the production of sugar and eethanol: an analysis of several mills of São Paulo state
Alceu Salles Camargo Júnior, Márcio Mattos Borges de Oliveira............................................................................................... 330

CARACTERÍSTICAS DA CERTIFICAÇÃO NA CAFEICULTURA BRASILEIRA


Coffee certification features in Brazil
Cassio Moreira Franco, Elisabete A. de Nadai Fernandes, Carlos Eduardo de Freitas Vian.................................................... 344

DETERMINANTES DAADOÇÃO DATECNOLOGIA DE DESPOLPAMENTO NA CAFEICULTURA: ESTUDO DE


UMA REGIÃO PRODUTORA DA ZONA DAMATA DE MINAS GERAIS1
Determinants for the adoption of pulping technology by coffee producers: a study on a producing region of Zona of Mata
in Minas Gerais state
Giovani Blasi Martino Lanna, Erly Cardoso Teixeira, Ricardo Pereira Reis................................................................................ 352

IMPLEMENTAÇÃO DE ESTRATÉGIA EMPREENDEDORAINTERNACIONAL NO SETOR DE VINHOS: O CASO


DA VINÍCOLA MIOLO
Implementing of International Entrepreneurial Strategy in Wine's Market: The Vinicola Miolo's Case
Vilmar Antônio Gonçalves Tondolo, Cláudia Cristina Bitencourt, Rosana da Rosa Portela Tondolo.................................... 363

MARKETING CHAIN ANALYSIS:A CASE STUDY OFTHE MELON SECTOR IN RIO GRANDE DO NORTE STATE
IN BRAZIL
Análise dos canais de comercialização: estudo de caso do setor de melões do estado do Rio Grande do Norte Brasil
Andrea Cristina Door, Ulrike Grote................................................................................................................................................... 377
ANÁLISE DA COMPETITIVIDADE DO APL DE PISCICULTURA NO LAGO DE TRÊS MARIAS
A competitiveness analysis of Tilapia Cluster at the Lake of Tres Marias
Luciano Thomé e Castro, Marina Darahem Mafud, Roberto Fava Scare....................................................................................389

O HEDGE SIMULTÂNEO DOS RISCOS DE PREÇO E DE CÂMBIO DAPRODUÇÃO DE SOJA EM RONDONÓPOLIS


(MT), UTILIZANDO CONTRATOS DA BOVESPA-BM&F
The price and exchange rate risk simultaneous hedge of the Rondonópolis (MT) soybean production using future
contracts of Bovespa-BM&F
Waldemar Antônio da Rocha de Souza, João Gomes Martines-Filho, Pedro Valentim Marques............................................403

CRIAÇÃO E USO DO CONHECIMENTO NAS COMUNIDADES DE PRÁTICA: O CONTEXTO DE UMA COOPERA-


TIVAAGRÍCOLA
Production and Use of Knowledge in Communities of Practice: the Context of an Agricultural Cooperative
Erlaine Binotto, Elisabete Stradiotto Siqueira, Flávio José Simioni..............................................................................................414
CONCENTRAÇÃO
ConcentraçãoNA AGROINDÚSTRIA
na agroindústria CANAVIEIRA
canavieira mineira... 303
MINEIRA DURANTE AS SAFRAS 1996/1997 A 2005/2006

Concentration on the sugarcane agro-industry in Minas Gerais


state from 1996/1997 to 2005/2006 harvests

RESUMO
Objetivou-se, neste trabalho, verificar a concentração na agroindústria canavieira do Estado de Minas Gerais, durante as safras 1996/
1997 a 2005/2006. Os resultados (obtidos via CR4 e CR8, índices de Hirschmann-Herfindahl, de Rosenbluth e entropia) apontaram
para um aumento da concentração da produção de cana. Esse aumento da concentração, dado principalmente mediante crescimento
das empresas de grande porte, justifica-se pela reestruturação do setor baseada no aumento da competitividade.

Amarildo Hersen
Economista, Mestre em Desenvolvimento Regional e Agronegócio
amarildohersen@[Link]

Pery Francisco Assis Shikida


Economista, Professor do Programa de Mestrado em Economia Regional
Universidade Estadual de Londrina
peryshikida@[Link]

Vanessa de Souza Dahmer


Economista, Mestranda em Desenvolvimento Regional e Agronegócio
Universidade Estadual do Oeste do Paraná
nessadahmer@[Link]

Recebido em: 1/4/08. Aprovado em: 18/5/11


Avaliado pelo sistema blind review
Avaliador Científico: Cristina Lelis Leal Calegario

ABSTRACT
The objective of this paper is to verify the concentration of sugarcane agro-industry in Minas Gerais State from 1996/1997 to 2005/
2006 harvests. The results (CR4 and CR8, Hirschmann-Herfindahl index, Rosenbluth, and entropy index) have demonstrated an
increase of concentration related to sugarcane production. This increase of concentration - occurred mainly due to the growth of the
biggest companies – can be explained from the restructuring of the industry based on increasing competitiveness.
Palavras-chave: Economia canavieira, economia mineira, concentração de mercado.

Key-words: sugarcane economy, Minas Gerais State economy, market concentration

J.E.L. Classification: Q12, Q13, L13.

1 INTRODUÇÃO da produção nacional de álcool total (anidro e hidratado) –


média dos dados para as duas últimas safras computadas,
Objetivou-se, n este t rabal ho, verifica r a 2007/2008 e 2008/2009 –, Minas Gerais configura-se como
concentração na agroindústria canavieira do Estado de uma das maiores regiões produtoras da agroindústria
Minas Gerais, durante as safras 1996/1997 a 2005/2006. canavieira brasileira, sendo superado nesses quesitos
Esse período foi escolhido porque abarca exatamente o apenas por São Paulo, que é o destaque ímpar, responsável
ponto de inflexão do forte crescimento da produção de por 60,9%, 63,3% e 60,8% das produções nacionais de cana,
cana-de-açúcar de Minas Gerais ocorrido após a safra açúcar e álcool total, respectivamente (dados da safra 2008/
1996/1997. Durante as safras 1996/1997 a 2005/2006, a 2009) (UNIÃO DA AGROINDÚSTRIA CANAVIEIRA DE
taxa geométrica de crescimento médio da produção SÃO PAULO - UNICA, 2010).
canavieira mineira foi de 9,2% a.a., apenas para cotejo, a De acordo com dados da Companhia Nacional de
taxa geométrica de crescimento médio da produção Abastecimento - CONAB (2010), a cana-de-açúcar é um
canavieira mineira, entre as safras 1991/1992 a 1995/1996, dos principais produtos agrícolas em Minas Gerais, que
foi de -2,1% a.a. possui a segunda maior área plantada de cana-de-açúcar
Participando com 7,3% da produção nacional de destinada à agroindústria canavieira no Brasil, ou seja, com
cana-de-açúcar, 7% da produção nacional de açúcar, 7,9% 648 mil hectares, atrás apenas de São Paulo (com 4.397,5

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-316, 2011


304 HERSEN, A. et al.

mil hectares). A produção mineira de cana-de-açúcar Sendo assim, para enfrentar o acirramento da
destinada à indústria sucroalcooleira, em 2010, deverá competição nos mercados, setores e elos das cadeias
atingir 56,2 milhões de toneladas, superando a produção produtivas, as usinas procuram adquirir maior capacitação
obtida na safra 2008/2009, que foi de 42,5 milhões de produtiva, tecnológica e mercadológica, o que pode ser
toneladas. A maior concentração está na região do traduzido em redução dos custos de produção e busca
Triângulo Mineiro (responsável por mais de 60% de toda a constante por novas oportunidades para o setor
produção estadual), por ser a região que reúne condições (PAULILLO et al., 2007).
de solo e clima favoráveis, e ainda possui infraestrutura de No entanto, diversas unidades não se
armazenamento e logística, facilitando o escoamento da modernizaram. Para Souza, Shikida e Martins (2005), o
produção até o porto de Santos. Os municípios que detêm movimento de fusões, compras e ampliações de empresas
o maior volume de produção canavieira, localizados no da agroindústria canavieira passou a ter outra dinâmica
Triângulo, são os seguintes: Uberaba, Conceição das diante desse novo cenário competitivo, no qual as
Alagoas, Ituiutaba, Frutal e Iturama. empresas que insistem em continuar operando com baixos
Minas Gerais conta atualmente com 40 unidades índices de produtividade estarão fadadas ao fracasso.
produtoras de açúcar e/ou álcool que atingem Conforme Mello e Paulillo (2005), as aquisições nesse setor
economicamente quase 100 dos 853 municípios mineiros, justificam-se mormente pelas vantagens advindas da
gerando mais de 140 mil empregos diretos (BRASIL, 2010; economia de escala e da diminuição de despesas através
FEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO da integração das estruturas administrativas. Soma-se a
ESTADO DE MINAS GERAIS - FAEMG, 2010). isso o fato da internacionalização do uso do etanol abrir a
De acordo com o Sindicato da Indústria de possibilidade de diversas empresas estrangeiras investirem
Fabricação do Álcool no estado de Minas Gerais/Sindicato na agroindústria canavieira brasileira.
da Indústria do Açúcar no estado de Minas Gerais - Nesse contexto, a reorganização das estruturas
SIAMIG/SINDAÇÚCAR-MG (2010b), os fatores produtivas vem ocorrendo de forma heterogênea, o que
responsáveis pelo aumento significativo da produção de resulta em diferenças tecnológicas, aumentando a
cana-de-açúcar em Minas Gerais estão atrelados, em grande concentração da produção canavieira. Assim, o atual
parte, ao lançamento dos veículos bicombustíveis e às processo de concentração/centralização de capitais que
perspectivas favoráveis de exportação do etanol vem marcando algumas regiões no Brasil pode ser visto
combustível. Isso fez com que a produção expandisse da como uma etapa do processo de reestruturação dinâmica e
região paulista para novas fronteiras agrícolas. Pari passu, expansão em novas bases competitivas. As diferentes
favorável ao crescimento da produção de cana é a estratégias articuladas pelas empresas como a
possibilidade de ampliação de sua área cultivável. diversificação, a diferenciação de produtos ou o
Para Vian (2003), o processo de desregulamentação aprofundamento e intensificação da produção de açúcar e
da agroindústria canavieira nacional a partir dos anos 1990 álcool dificultam e tornam, de certa forma, obsoleta uma
alterou a função do Estado, ou seja, esse deixou de ser maior intervenção do Estado (VIAN, 2003). Não obstante,
interventor para tornar-se coordenador. Destarte, várias é nesse momento que se realça a importância de analisar-
modificações ocorreram no setor sucroalcooleiro com o se a concentração na agroindústria canavieira, vinculando
intuito de adequação dessa atividade a um ambiente mais esse estudo à política brasileira de defesa da concorrência.
concorrencial. Isto posto, este artigo está organizado em quatro
Essas modificações podem ser entendidas como seções, além dessa introdução. Na seção dois é apresentada
sendo responsáveis por alterar a organização setorial, bem uma breve revisão de literatura sobre a agroindústria
como redefinir os modelos de gestão vigentes na atividade canavieira de Minas Gerais. A seção três contempla a
produtiva. Esse processo tem como elemento principal um exposição de um sucinto referencial teórico e material e
conjunto de inovações tecnológicas incorporadas pelas método. No item quatro são apresentados os resultados e
empresas mais dinâmicas. Essas inovações estão inseridas discussão derivados da pesquisa. A seção cinco apresenta
em uma conjunção peculiar de investimentos, tempo e as considerações finais.
necessidades, em que gradualmente as empresas
2 REVISÃO DE LITERATURA
promovem melhorias e aperfeiçoamentos em seus produtos,
equipamentos e métodos de fabricação (LARANJA; Nos próximos anos, a expansão da área plantada
SIMÕES; FONTES, 1997). com cana-de-açúcar no país será decorrente,

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-316, 2011


Concentração na agroindústria canavieira mineira... 305

fundamentalmente, do aumento da demanda por etanol produtivas (usinas e destilarias) e na estrutura competitiva
(com o boom dos veículos flex fuel) e melhoria da da agroindústria canavieira, sendo que elas foram
rentabilidade do setor advinda dos avanços tecnológicos. moldadas pelas estratégias adotadas por algumas empresas
Nesse panorama, novas e antigas regiões se destacarão, no período pré-liberalização do setor e que se difundiram
com proeminência para os estados de Minas Gerais, Paraná na era pós-liberalização (BELIK; RAMOS; VIAN, 1998).
e São Paulo, juntamente com Goiás e Mato Grosso do Sul Assim sendo, os capitais do ramo têm procurado
(GOES; MARRA; SILVA, 2008; SOUZA; MACEDO, 2009). implementar novas estratégias competitivas, entre as quais
Atualmente, a agroindústria canavieira de Minas as de diferenciação de produto, de diversificação produtiva
Gerais conta com 40 unidades produtivas, das quais 20 e de aprofundamento na especialização produtiva (BELIK;
são produtoras de açúcar e álcool, 19 produzem somente RAMOS; VIAN, 1998). Evidentemente, tais estratégias não
álcool e apenas 1 é produtora de açúcar. Na Tabela 1 são mutuamente excludentes, embora estejam permitindo
apresenta-se a relação das unidades produtoras em Minas uma evolução desigual dos capitais no interior da
Gerais (usinas e destilarias) cadastradas em Brasil (2010), agroindústria canavieira.
bem como as cidades onde estão localizadas e na Figura 1 A desregulamentação que afetou a agroindústria
a localização dessas usinas no estado mineiro. canavieira brasileira pós-1990, e que se intensificou ao final
A explicação para o crescimento da produção da década de 1990, contribuiu para ampliar a
canavieira em Minas Gerais surge a partir de 1975 com a competitividade setorial. Isso porque, com o fim do controle
implantação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), estatal, as usinas e destilarias tiveram que se adaptar ao
sendo que até 1985 a produção de álcool cresceu livre mercado e caminhar sem os incentivos, os subsídios
consideravelmente, enquanto a produção de açúcar não e a coordenação do Estado, outrora existentes. Nesse
logrou o mesmo êxito. A queda do preço do petróleo, em contexto, os atores passaram a desenvolver competências
meados da década de 1980, levou à estagnação da produção visando à geração de vantagens técnicas que lhes
de álcool combustível, somente rompida a partir dos primeiros permitissem se manter na atividade de maneira sustentável
anos da década de 1990, quando recrudesceu a produção de (PAULILLO et al., 2007; SHIKIDA, 1998).
açúcar, efeitos que podem ser relacionados com a fase de No tocante ao aumento da produção, a Tabela 2
evidencia as produções brasileira e mineira de cana-de-
desregulamentação do setor sucroalcooleiro. Minas Gerais,
açúcar, açúcar e álcool total (hidratado e anidro), bem como
entretanto, somente viria responder ao dinamismo desse
a representatividade mineira em termos de Brasil. Nota-se
mercado a partir de meados da década de 1990.
o crescimento da participação de Minas Gerais na produção
De acordo com Shikida (1998), o Proálcool foi criado
nacional de cana-de-açúcar (6,5% a.a.), açúcar (7,3% a.a.) e
com o intuito de estimular a produção e uso do etanol álcool total (6,4% a.a.). Outrossim, as taxas de crescimento
como combustível em substituição à gasolina, bem como geométricas da produção de cana-de-açúcar (12,2% a.a.),
proporcionar a expansão das unidades industriais no país, açúcar (15,2% a.a.) e álcool (11,4%) de Minas Gerais são
garantindo preço e mercado ao setor. Dentro desse maiores que as do Brasil.
contexto, o Proálcool também proporcionou o Neste panorama visível de crescimento, um aspecto
desenvolvimento de novas regiões produtoras como o no processo da agroindústria canavieira de Minas Gerais –
Paraná, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. a concentração da produção – merece aprofundamento.
A partir do início dos anos 1990, a economia canavieira Com o escopo de redução dos custos e obtenção de
nacional voltou a ser afetada por mudanças políticas maiores ganhos, observada em um ambiente concorrencial
importantes, como a extinção do IAA, a desregulamentação mais dinâmico, uma empresa pode muito bem optar por
do setor e a liberação dos preços (da cana-de-açúcar, do açúcar maiores escalas de produção, ampliando ou absorvendo
e do álcool), a política de combate à inflação, entre outras, que parques industriais e agrícolas. Vale realçar que na
resultou em novas crises e no fechamento de dezenas de agroindústria canavieira brasileira é peculiar a tendência à
usinas e aquisição de outras (que acabaram sendo centralização do capital, via concentrações industrial e
incorporadas pelas mais dinâmicas). Com a saída do Estado fundiária, que se revertem, neste caso, em concentrações
do setor, as empresas adotaram diferentes estratégias de técnica e econômica (RAMOS, 1999). A indagação que
concorrência. O progresso técnico é um dos elementos surge é: como está o nível de concentração da produção
fundamentais dessas estratégias (SHIKIDA, 1998). canavieira de Minas Gerais? É o que se pretende responder
Com efeito, ao longo dos anos 1990, houve uma nessa pesquisa. Para tanto, a seção seguinte procura
enorme diferenciação na estrutura interna das unidades elucidar o referencial teórico e material e método propostos.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-316, 2011


306 HERSEN, A. et al.

TABELA 1 – Unidades produtoras de açúcar e álcool em Minas Gerais – posição 11/06/2010.


Nome Fantasia Razão Cidade Produção
Agropeu Agropeu Agro Industrial de Pompéu S/A Pompéu Álcool
Alcana Alcana Destilaria de Álcool de Nanuque S/A Nanuque Mista*
Alvorada Usina Alvorada Ltda Açúcar e Álcool Araporã Mista
Alvorada do Bebedouro S/A - Açúcar e
Alvorada Bebedouro Álcool Guaranésia Álcool
Atenas Destilaria Atenas Ltda São Pedro dos Ferros Álcool
Cabrera Central Energética Açúcar e Álcool
Cabrera Energética Limeira do Oeste Álcool
Ltda
Cachoeira Destilaria Cachoeira Ltda Tupaciguará Álcool
Conceição das
Caeté - Unidade Volta Grande Usina Caeté S/A - Unidade Volta Grande Mista
Alagoas
Carneirinho Carneirinho Agroindustrial S/A Carneirinho Mista
São Sebastião
Central Energética Paraíso Central Energética Paraíso S/A Paraíso Mista
Cerradão Usina Cerradão Ltda Frutal Álcool
Coruripe - Filial Campo Florido S. A. Usina Coruripe Açúcar e Álcool Campo Florido Mista
Coruripe - Filial Limeira do
Oeste S.A. Usina Coruripe Açúcar e Álcool Limeira do Oeste Álcool
DAMFI DAMFI - Destilaria Antônio Monti Filho Ltda Canápolis Álcool
Dasa Destilaria de Álcool Serra dos Aimorés S/A Serra dos Aimorés Álcool
Delta Usina Caeté S/A - Unidade Delta Delta Mista
Frutal Açúcar e Álcool Usina Frutal Açúcar e Áclool S/A Frutal Mista
Itaiquara Usina Itaiquara de Açúcar e Álcool S/A Passos Mista
Itapagipe Usina Itapagipe Açúcar e Álcool Ltda Itapagipe Mista
Ituiutaba Ituiutaba Bioenergia Ltda Ituiutaba Álcool
Iturama S/A Usina Iturama Coruripe Açúcar e Álcool Iturama Mista
Jatiboca Companhia Agrícola Pontenovense Urucânia Mista
LDC Unidade Lagoa da Prata LDC Bioenergia S/A Lagoa da Prata Mista
Usina Mendonça Agroindustrial e Comercial
Mendonça Conquista Açúcar
Ltda
Monte Alegre Usina Monte Alegre Ltda Monte Belo Mista
Planalto Destilaria Planalto Ltda Ibiá Álcool
Rio do Cachimbo Destilaria Rio do Cachimbo Ltda João Pinheiro Álcool
Santa Juliana Agroindustrial Santa Juliana S/A Santa Juliana Álcool
Santo Angelo Usina Santo Angelo Ltda Pirajuba Mista
São Judas Tadeu Bio-Emergia e Agricultura Ltda Jaíba Álcool
Cia. Energética Vale do São
Companhia Energética Vale do São Simão Santa Vitória Mista
Simão
Senhora da Glória Destilaria Senhora da Glória Ltda Santo Hipólito Álcool
Continua...

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-316, 2011


Concentração na agroindústria canavieira mineira... 307

TABELA 1 – Continuação...
Nome Fantasia Razão Cidade Produção
Triálcool Laginha Agro Industrial S/A Canápolis Mista
Uberaba Usina Uberaba S/A Uberaba Mista
Usina Bambuí Total Agroindústria Canavieira S.A. Bambuí Álcool
Vale do Ivaí - Unidade Fronteira Vale do Ivaí S/A - Açúcar e Álcool Fronteira Álcool
Vale do Paranaíba Laginha Agro Industria S/A Capinópolis Mista
Vale do Paracatu Destilaria Vale do Paracatu Agroenergia Ltda Paracatu Álcool
Destilaria Veredas Ind. De Açúcar e Álcool
Veredas João Pinheiro Álcool
Ltda
WD Destilaria [Link] João Pinheiro Mista
Fonte: Brasil (2010)
* Mista = produção de açúcar e álcool

TABELA 2 – Produções brasileira e mineira de cana-de-açúcar, açúcar e álcool total (anidro e hidratado) – safras 1996/97 a 2008/09
Produção de Cana-de-açúcar Produção de Açúcar Produção de Álcool total
(em toneladas) (em toneladas) (em m3)
Safra
Minas % Minas % Minas %
Brasil Brasil Brasil
Gerais MG/BR Gerais MG/BR Gerais MG/BR
1996/97 9.906.236 287.809.852 3,4 489.372 13.659.380 3,6 471.977 14.372.351 3,3
1997/98 11.971.312 303.057.415 4,0 493.526 14.880.691 3,3 641.667 15.399.449 4,2
1998/99 13.483.617 314.922.522 4,3 625.036 17.942.109 3,5 636.595 13.868.578 4,6
1999/00 13.599.488 306.965.623 4,4 802.058 19.387.515 4,1 643.805 13.021.804 4,9
2000/01 10.634.653 257.622.017 4,1 619.544 16.248.705 3,8 485.063 10.593.035 4,6
2001/02 12.206.260 293.050.543 4,2 747.053 19.218.011 3,9 524.441 11.536.034 4,5
2002/03 15.599.511 320.650.076 4,9 1.093.233 22.567.260 4,8 635.816 12.623.225 5,0
2003/04 18.915.977 359.315.559 5,3 1.346.598 24.925.793 5,4 799.252 14.808.705 5,4
2004/05 21.649.645 386.119.910 5,6 1.664.693 26.642.636 6,2 803.575 15.413.151 5,2
2005/06 24.626.045 387.441.876 6,4 1.741.649 25.834.486 6,7 958.902 15.946.994 6,0
2006/07 29.034.195 425.535.761 6,8 1.909.516 29.882.433 6,4 1.291.445 17.719.209 7,3
2007/08 35.723.246 495.723.279 7,2 2.117.696 31.026.170 6,8 1.774.988 22.526.824 7,9
2008/09 42.480.968 569.062.629 7,5 2.207.621 31.049.206 7,1 2.167.616 27.512.962 7,9
cresci-
mento 12,2 5,3 6,5 15,2 7,3 7,3 11,4 4,7 6,4
anual*
Fonte: UNICA (2010)
* taxa média de crescimento anual calculada pelo método dos mínimos quadrados ordinários.

3 BREVE REFERENCIAL TEÓRICO como a concorrência, a política antitruste, os processos


E MATERIAL E MÉTODO de fusões e aquisições, além de outros arranjos
3.1 Concentração e desempenho
empresariais e institucionais que afetam e transformam
as estruturas organizacionais de mercado – essas
A estrutura de mercado é analisada pela Organização independentemente da natureza de sua atividade,
Industrial, ramo da Ciência Econômica que estuda aspectos podendo ser industrial, agrícola, agroindustrial,

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-316, 2011


308 HERSEN, A. et al.

FIGURA 1 – Mapa de localização das unidades produtivas da agroindústria canavieira em Minas Gerais – posição em
2010
Fonte: SIAMIG/SINDAÇÚCAR-MG (2010a)

somente de serviços, etc. (SCHERER; ROSS, 1990; DE DEFESA ECONÔMICA - CADE, 2010). Contudo, há
TIROLE, 1988). quem reconheça em uma (certa) concentração um potencial
Dois pontos discutidos sobremaneira por esse ramo de conduta benéfica à economia, conquanto os próprios
dizem respeito a: 1º) se a redefinição estratégica das empresas mercados são dotados da capacidade de eliminar as firmas
é função da adequação ao cenário competitivo imposto pelo incapazes de se comportar diante do princípio maximizador
mercado; 2º) se é possível o exercício de um poder de lucros (FRIEDMAN, 1984).
concentrado de mercado pari passu com a livre iniciativa e A “Escola de Chicago”1, aqui representada por
a busca pela maior competitividade das empresas. Cumpre Friedman (1984) e Stigler (1968), por exemplo, afirma que
lembrar que o primeiro passo nos estudos de organização uma determinada concentração de mercado em si não é um
industrial é a definição de mercado relevante, tanto em termos fator iníquo à sociedade capitalista, desde que nessa
geográficos quanto na dimensão de produto. estrutura de mercado exista eficiência econômica e
No Brasil, amiúde se discutem as políticas públicas produção ao menor custo. “Estruturas concentradas, se
de defesa da concorrência e a necessidade de regulação de resultarem em uma economia de recursos que compense
monopólios, ambos ligados à concentração do poder de seus efeitos anticompetitivos, não podem ser consideradas
mercado em estruturas organizacionais (POSSAS et al., 2002). ineficientes” (GAMA; RUIZ, 2005, p. 2).
Com efeito, o maior poder de mercado derivado de Assim como a “Escola de Chicago”, o paradigma
uma estrutura concentrada tem sido alvo dos órgãos de “estrutura, conduta e desempenho” busca explicar como
defesa da concorrência (CONSELHO ADMINISTRATIVO as forças do mercado agem sobre o desempenho das firmas

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-316, 2011


Concentração na agroindústria canavieira mineira... 309

(a definição da medida de desempenho é um dos estorvos q = volume total de cana-de-açúcar moída no estado de
empíricos associados a esse paradigma, que pode ser o Minas Gerais.
lucro, o market-share da empresa, etc.). Neste contexto, o Para o cálculo da razão de concentração, os valores
desempenho seria resultado da conduta (padrões de de yi foram ordenados de maneira que y1 > y2 > ... > yn.
comportamento) das firmas, sendo essa determinada pelas A razão de concentração das k maiores usinas/
especificidades da estrutura de mercado (características grupos é:
como grau de concentração, condições básicas de oferta e
k
demanda, etc.) (DIAS; SANTOS JÚNIOR; PADULA, 2008;
FERGUNSON; FERGUNSON, 1994).
CRk  y i 1
i

3.2 Técnicas para mensuração da concentração


Para efeito deste trabalho, e diante do número de
Visto esse conciso referencial teórico, para mensurar usinas/grupos mineiros, foram consideradas duas razões
a concentração na agroindústria canavieira mineira foram de concentração: CR4 e CR8.
utilizadas quatro medidas positivas2: razão de concentração, Sal ien ta -se, con tudo, que a s r az ões de
índice de Hirschmann-Herfindahl, índice de Rosenbluth e con centr ação n ão levam em con ta os dados da
entropia. O instrumental econométrico para o cálculo dessas totalidade das empresas em operação num determinado
medidas está baseado em Hoffmann (1998), Kupfer e setor, sendo consideradas medidas de concentração
Hasenclever (2002) e Resende (1994); segue também a parciais. A omissão das (n – k) empresas dificulta o uso
orientação metodológica exposta em Shikida et al. (2007) e do CRk como medida de poder de mercado (RESENDE;
Vian, Lima e Lima (2006). A utilização de várias medidas BOFF, 2002). Essa deficiência pode ser superada com a
justifica-se pelo fato da teoria econômica não fornecer utilização de outras medidas, quais sejam: o índice de
elementos conclusivos para uma escolha pontual entre os Hirschmann-Herfindahl (H), índice de Rosenbluth (B) e
índices (BRAGA; MASCOLO, 1982). entropia (E).
Para tanto, inicialmente foi verificada a participação O índice de Hirschmann-Herfindahl (H) é definido
de cada usina ou grupo sobre o total de cana-de-açúcar por:
moída no estado de Minas Gerais, em cada um dos períodos
referentes às médias trienais, definida por: n
Em que: H   yi2
i 1
yi = xi / qi
Em que:
yi = participação da i-ésima usina ou grupo no total de n = número total de usinas/grupos;
cana-de-açúcar moída em Minas Gerais; yi = participação das usinas/grupos no total ao quadrado.
xi = volume de cana-de-açúcar moída pela i-ésima usina Para o cálculo do índice de Rosenbluth foi
ou grupo; considerada a ordenação das usinas/grupos, de maneira
que y1 > y2 > ... > yn. O índice de Rosenbluth (B) é:

1
A “Escola de Chicago” (nos Estados Unidos), referência à 1
professores de expressão que aí lecionam ou lecionaram B
(FRIEDMAN, 1984; STIGLER, 1968), desde 1950 vem se
2 iyi  1
notabilizando por rejeitar o keynesianismo (linha defensora da
maior atuação do Estado na economia), em favor de uma liberdade O valor do índice de Hirschmann-Herfindahl, assim
de mercado quase absoluta. como o do índice de Rosenbluth, varia de H = 1/n (divisão
2
Medidas de concentração positivas não dependem de qualquer igualitária entre todas as usinas/grupos) até H = 1 (máxima
parâmetro comportamental, limitando-se ao nível e distribuição concentração, considerando que existam n usinas/grupos
de parcelas de mercado. Já as medidas normativas consideram em Minas Gerais). Para Resende (1994), o índice de
também as preferências dos consumidores e interesses dos Hir schma nn-Her finda hl tr ata-se da m edida de
produtores, visando uma avaliação social (RESENDE; BOFF, concentração mais conveniente para comparações
2002). intertemporais.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-316, 2011


310 HERSEN, A. et al.

A entropia [vide Theil (1967)] da distribuição é desregulamentação, em que foram extintos as cotas de
definida por: produção e exportação e, principalmente, os controles de
preços. Shikida (1998) destaca que, nesse período, o
n
1 dinamismo do setor acentuou-se com o aparecimento de
E  y ln y
i 1
i
i
novas estratégias competitivas, em que empresas menos
dinâmicas no mercado foram absorvidas pelas mais
O índice de entropia pode ser considerado uma competitivas.
medida inversa de concentração (o valor máximo do índice Com a desregulamentação, segundo Shikida et
correspondente a uma situação de concentração mínima), al. (2007), as unidades produtivas passaram a adotar o
haja vista que o valor da entropia varia de E = 0 (mercado paradigma tecnológico como forma de criar novos e
composto por apenas um participante, ou seja, monopólico) melhorados produtos e processos de produção e,
até E = ln n (mercado composto por n usinas/grupos com consequentemente, aumentaram sua competitividade
o mesmo volume de moagem). para não somente se manterem no mercado, mas também
Isto posto, os dados da produção de cana-de- melhorarem a capacitação para se inserir em outros,
açúcar mineira (utilizou-se a tipificação cana-de-açúcar sobretudo absorvendo empresas que não se adequaram
moída) foram coletados pessoalmente junto à SIAMIG/ ao novo ambien te con corr encial , i mposto pela
SINDAÇÚCAR-MG (posto não serem publicados no site desregulamentação. Frente a esse cenário competitivo
da instituição) e se referem aos anos-safras de 1996/97 até desta ca -se que di ver sa s uni da des produt ivas,
2005/06, porquanto procurou-se analisar as mudanças acomodadas com o paradigma subvencionista que
estruturais ocorridas nesse setor diante do forte reinou na agroindústria canavieira até o início dos anos
crescimento da produção de cana-de-açúcar de Minas 1990, faliram, predominando a lógica de acumulação
Gerais ocorrido após meados dos anos 1990, quando intensiva – seja essa com progresso técnico, redução
Minas Gerais passa a despontar no cenário nacional, do emprego, e/ou aumento da produção de forma
favorecido pela desregulamentação setorial (e mediante a diferenciada.
disponibilização possível de dados).3 Com a Figura 2, podem-se visualizar as evoluções
Visando suavizar os efeitos do clima e das dos índices de concentração citados.
var ia ções de tr a tos cul tura i s na pr oduçã o e Pormenorizando a análise de cada índice de
produtividade da cultura canavieira (MACEDO, 2005), concentração da produção canavieira no estado de Minas
foram calculadas as médias trienais móveis referentes a Gerais, verifica-se que o CR4 aumentou em 17,7% no
essas moagens. período analisado, enquanto o CR8 aumentou em 5,5%.
Uma ressalva importante diz respeito aos dados da Remontando às observações feitas na seção 2, tem-se
produção canavieira não se referirem à concentração da que o segmento é fruto de um gradual processo de
moagem com base somente nas unidades industriais concentração no país. A concentração está diretamente
(usinas/destilarias), mas também considerando os grupos atrelada à procura por maior eficiência industrial,
econômicos (que controlam duas ou mais usinas/ impulsionada pelo fim da desregulamentação do setor
destilarias). sucroalcooleiro. Motivadas pela necessidade de
A próxima seção apresenta os resultados e competirem em um mercado de preços liberados para cana-
discussão desses dados. de-açúcar, açúcar e álcool, as unidades produtoras
investiram na ampliação do seu parque industrial e na
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO eficiência produtiva.
Os indicadores de concentração calculados para a
produção canavieira do estado de Minas Gerais encontram-
se na Tabela 3. Pode-se dizer, de forma generalizada, que 3
Frisa-se que essa disponibilização de dados foi a que foi possível
houve um aumento da concentração da produção. Esse obter junto ao SIAMIG/SINDAÇÚCAR-MG.
processo de concentração está estreitamente relacionado 4
Azevedo (2000) salienta que, muitas vezes, a palavra
com o avanço da competitividade4 das empresas, que competitividade vem sendo associada, erroneamente, ao termo
buscam estratégias com intuito de conquistar, ou no mínimo concorrência. A competitividade deve ser entendida como a
manter posição no mercado. A constatação que se faz capacidade de uma empresa sobreviver e crescer de modo
presente também está associada ao ambiente de sustentável.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-316, 2011


Concentração na agroindústria canavieira mineira... 311

TABELA 3 – Índices de concentração da produção canavieira no estado de Minas Gerais – safras 1996/97 a 2005/06
Índice de
Razão de Razão de Índice de Entropia da
Hirschmann- Número de
Safras* concentração concentração Rosenbluth distribuição
Herfindahl usinas / grupos
CR(4) CR(8) B E
HH
96-97/98-99 50,55% 73,71% 0,0937 0,0964 2,5842 18
97-98/99-00 49,31% 73,68% 0,0924 0,0952 2,5980 18
98-99/00-01 48,62% 73,10% 0,0918 0,0943 2,6060 18
99-00/01-02 47,83% 73,46% 0,0914 0,0939 2,6098 18
00-01/02-03 50,54% 73,91% 0,0974 0,0965 2,5804 18
01-02/03-04 54,99% 75,64% 0,1117 0,1022 2,5140 18
02-03/04-05 58,19% 77,06% 0,1226 0,1068 2,4622 18
03-04/05-06 59,49% 77,75% 0,1259 0,1090 2,4434 18
Fonte: Dados da Pesquisa
* Médias trienais móveis de moagem de cana-de-açúcar em Minas Gerais.

70% 3,0

60%
2,5

50%
2,0

CR(4)

HH, BeE
40%
CR4

HH
1,5
B
30%
E
1,0
20%

0,5
10%

0% 0,0
96/98- 97/99- 98/00- 99/01- 00/02- 01/03- 02/04- 03/05-
99 00 01 02 03 04. 05. 06.

FIGURA 2 – Índices de concentração da produção canavieira no estado de Minas Gerais – safras 1996/97 a 2005/06
Fonte: Dados da Pesquisa

De acordo com a SIAMIG/SINDAÇÚCAR-MG Grupo Coruripe possui 1 no Nordeste – uma das maiores
(2010b), a mudança na paisagem da região do Triângulo da região – e 3 instaladas em Minas Gerais: Iturama, Campo
Mineiro, que concentrou grandes produtores de grãos e Florido e Limeira do Oeste.
de gado de corte, começou a partir de 1993, com o anúncio As Usi na s do Grupo Ca r los Lyr a (que
de investimentos dos alagoanos Tércio Wanderley, Triunfo, corresponde ao CR1) passaram de 19,53% na média trienal
João Lyra e Carlos Lyra. O Grupo Carlos Lyra possui 2 1996/97-1998/99, para 25,02% na média trienal 2003/04-
unidades em Minas Gerais (Unidade Caeté S/A – Unidade 2005/06. Citando Vian, Lima e Lima (2006), uma posição
Volta Grande e Unidade Delta), sendo que as outras 3 dominante é definida quando uma empresa detém pelo
unidades do Grupo estão concentradas em Alagoas. O menos 20% de participação no mercado, controlando

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-316, 2011


312 HERSEN, A. et al.

boa parcela do mercado total, o que se verificou no setor greenfields com participação estrangeira estão
sucroalcooleiro de Minas Gerais. em fase de construção. O interesse estrangeiro é
Mesmo com este avanço do CR1, o CR4 permaneceu real e terá um grande papel na consolidação do
abaixo do limite “sugerido” de 60%, que ainda proporciona setor (SIAMIG/SINDAÇÚCAR-MG, 2009, p. 1).
oportunidade para comportamento oligopolístico (LEME,
Diante deste cenário, a expectativa do SIAMIG/
1999). Se for considerado o CR8, essa situação é ainda
SINDAÇÚCAR-MG (2010b) é que o Estado suba uma
mais crítica, pois sua média no período corresponde a
posição e ultrapasse o Paraná, ocupando, ainda em 2010, o
74,79%. Assim sendo, haja vista as caracterizações
segundo lugar, tanto em termos de moagem, quanto na
relatadas, confirma-se o que Vian e Pitelli (2005, p. 227)
afirmaram, isto é, “o setor sucroalcooleiro nacional possui produção de açúcar e álcool. Tal cenário afetará ainda mais
algumas características dos setores de oligopólio a concentração da produção da cana-de-açúcar moída em
concentrado”. Minas Gerais.
Com relação ao evidenciado pelos três outros Este cenário de concentração da produção de cana-
indicadores calculados – índice de Hirschmann-Herfindahl, de-açúcar moída em Minas Gerais não é muito diferente do
de Rosenbluth e entropia – corrobora-se o nítido aumento que ocorreu, por exemplo, em Alagoas. Segundo Carvalho
da concentração ocorrido ao longo do período analisado. (2002), a partir de 1990 deu-se início um processo de
Há de se destacar que, em todo o período, os índices reestruturação produtiva que atingiu diretamente as
estiveram muito mais próximos dos limites que representam agroindústrias canavieiras alagoanas e, num espaço
valores que seriam obtidos em caso de alta concentração, aproximado de uma década, esse processo levou à
do que em casos em que todas as usinas/grupos desativação das unidades menos competitivas e à
apresentassem a mesma moagem (significando baixa concentração da produção de cana-de-açúcar, álcool e
concentração). Considerando os limites extremos, ou seja, açúcar na mão de seletos grupos empresariais. Por
de 1996/97-1998/99 a 2003/04-2005/06, o aumento no índice conseguinte, essa concentração da produção veio
de Hirschmann-Herfindahl e de Rosenbluth foram de, acompanhada pela diversificação produtiva, pela
respectivamente, 34,4% e 13,07%, e o índice de entropia incorporação de inovações tecnológicas e diferenciação
(que trata de uma medida inversa de concentração) teve de produtos, além do uso de novos métodos de gestão.
Outro Estado que também vem apresentando
uma variação negativa de 5,45%.
aumento da concentração da produção de cana-de-açúcar
Há também uma tendência mais recente de
moída é o Paraná. Para Shikida et al. (2007), em seu estudo
ampliação da participação do capital internacional nas
sobre a concentração da agroindústria canavieira
usinas brasileiras. Na Tabela 4, apresenta-se esse quadro
paranaense pós-desregulamentação setorial, as usinas da
da participação do capital estrangeiro na agroindústria
família Meneguetti (correspondentes ao CR1) passaram de
canavieira para o estado de Minas Gerais, com base nos
12,8% na média trienal 1991/92 – 1993/94, para 20,1% na
dados da safra 2007/2008. Nota-se, pois, que a participação média trienal 2001/02 – 2003/04. Essa evolução do CR1
do capital estrangeiro já perfaz 12,8% da cana-de-açúcar demonstra que, neste Estado, a família Meneguetti controla
moída em Minas Gerais, e a tendência, pelas unidades que uma significativa parcela do mercado. Verificou-se também
ainda não entraram em operação, é de aumento desse que o CR4 aumentou em 6,9% no período analisado (1991/
percentual. Com efeito, 92 – 2003/04), enquanto o CR8 aumentou em 4,8%. Com
Nos últimos anos, diversas outras empresas in- efeito, o aumento da concentração no Paraná está atrelado
ternacionais, com destaque para as grandes ao crescimento das empresas de grande porte, que elevaram
tradings e grupos asiáticos, realizaram investi- a escala de produção buscando reduzir custos e ganhar
mentos importantes no setor. Atualmente, já são eficiência.
mais de 20 conglomerados internacionais que co- De acordo com Vian, Lima e Lima (2006), em São
mandam ou têm participação acionária nas em- Paulo, ao contrário do que acontece em Minas Gerais,
presas do setor. Isso sem contar a participação Alagoas e Paraná, a concentração no setor sucroalcooleiro
estrangeira nas três empresas que possuem ca- foi reduzida. Surgiram novas estratégias competitivas,
pital aberto na BM&FBovespa. [...] A tendência acentuando o dinamismo do setor, estimulando crescimento
atual é a ampliação da participação do capital de empresas de pequeno e médio porte, o que resultou em
estrangeiro nas usinas brasileiras. Diversos redução de custos e ganhos de eficiência. Assim sendo, a

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-316, 2011


Concentração na agroindústria canavieira mineira... 313

TABELA 4 – Participação do capital estrangeiro nas unidades produtivas da agroindústria canavieira de Minas Gerais
Produção na % do Grupo na
%
Grupo Investidor Usina Situação Safra 2007/2008 Cana-de-açúcar
Acionária
(t) Moída (t)
Adecoagro (EUA /
Monte Alegre 100% em operação 891.147 891.147
Argentina)
Bunge (EUA) Santa Juliana 100% em operação 864.994 864.994
Cargill (EUA) Itapagipe 43,75% em operação 1.404.577 614.502
Infinity Bio (Inglaterra
Alcana 100% em operação 904.386 904.386
e outros)
Infinity Bio (Inglaterra
Paraíso 100% sem operação - -
e outros)
Louis Dreyfus (França) Luciânia 100% em operação 1.311.110 1.311.110
Global Foods / CNAA - Ituiutaba 72% sem operação - -
Carlyle/Rivestone / CNAA - Campina
72% sem operação - -
Goldman Sachs / Verde
Discovery Capital CNAA - Platina
(EUA) 72% sem operação - -
MG
ADM (EUA) Limeira do Oeste 50% sem operação - -
Fonte: SIAMIG/SINDAÇÚCAR-MG (2009).

participação relativa das maiores empresas na moagem total nacionais ou internacionais. A partir disso, uma alternativa
de cana-de-açúcar tem caído, refletindo a queda da para as empresas do setor, na busca por maior competitividade,
concentração. A tendência é que esse processo continue refere-se à estratégia de auferir receitas não operacionais por
nos próximos anos, considerando-se que as grandes meio, por exemplo, da atividade de cogeração de energia
unidades produtoras enfrentam problemas de elétrica (proveniente da própria cana-de-açúcar), e que está
deseconomias de escala em transporte de cana-de-açúcar sendo fulcro de políticas públicas (PAULILLO et al., 2007).
e não devem investir na ampliação do parque já instalado.
Outro fator determinante para a desconcentração em São 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Paulo, refere-se ao fato de que as maiores empresas estão Objetivou-se, aqui, verificar a concentração na
em regiões de baixo crescimento e a tendência é de que o agroindústria canavieira do estado de Minas Gerais durante
aumento da produção se dê em áreas de fronteira, ou seja, as safras 1996/1997 a 2005/2006, utilizando como ferramenta
o Oeste Paulista, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul de análise o cálculo das principais medidas de
e Minas Gerais. concentração.
Não obstante, um levantamento da UNICA Pode-se verificar que o CR4 aumentou em 17,7% no
corrobora os resultados apresentados por esta pesquisa, período analisado (1996/97 a 2005/06), enquanto o CR8
evidenciando que 67 grupos econômicos sucroalcooleiros aumentou em 5,5%. Inseridas nesse, as Usinas do Grupo
do Centro-Sul detinham 154 unidades produtoras no país Carlos Lyra (que corresponde ao CR1) passou a ter posição
na safra 2006/2007. A expectativa é de que para 2012/2013 dominante, detendo mais que 20% de participação no
os mesmos 67 grupos tenham, juntos, 219 unidades mercado de cana-de-açúcar moída, ou seja, 25,02%. Essa
produtoras, considerando que nesse período essas observação permite dizer que o aumento da concentração
companhias vão investir na expansão de novas unidades, deu-se via crescimento das empresas de grande porte, e o
caracterizando um processo contínuo de concentração no perfil característico desse mercado é de um oligopólio
setor (MAGALHÃES, 2009). concentrado. Os três outros indicadores calculados – índice
É importante destacar também que a dinamicidade do de Hirschmann-Herfindahl, de Rosenbluth e entropia –
setor sucroalcooleiro em Minas Gerais apresenta forte também indicaram um aumento da concentração, ocorrido
tendência de atração de novos investimentos, sejam eles ao longo do período analisado.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-316, 2011


314 HERSEN, A. et al.

Cumpre lembrar que o capital estrangeiro também BRAGA, H. C.; MASCOLO, J. L. Mensuração da
avançou na agroindústria canavieira mineira (a partir de con centra ção in dustri al no Brasil . Pesquisa e
meados da primeira década do século 21), seja no comando Planejamento Econômico, São Paulo, v. 12, n. 2, p. 399-
acionário ou com participação acionária nas empresas do 454, ago. 1982.
setor, com destaque para grupos americanos, ingleses,
franceses. A participação do capital estrangeiro já perfaz BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e
12,8% da cana-de-açúcar moída em Minas Gerais, e a Abastecimento. Relação das unidades produtoras
tendência é de aumento desse percentual. cadastradas no departamento da cana-de-açúcar e
O aumento de concentração da produção na agroenergia posição 11/06/2010. Disponível em: <http://
agroindústria canavieira de Minas Gerais está relacionado [Link]/pls/portal/docs/PAGE/MAPA/
ao avanço da competitividade das empresas, especialmente S E RV I C O S / U S I N A S _ D E S T I L A RI A S /
as maiores, que buscam uma redefinição estratégica a fim USINAS_CADASTRADAS/UPS_11-06-2010_0.PDF>.
de ganhar e/ou consolidar posição no mercado; Acesso em: 22 jun. 2010.
igualmente, não se pode esquecer que a competição nesse
setor foi motivada pelo processo de desregulamentação CARVALHO, C. P. de O. Novas estratégias competitivas
ocorrido nos anos 1990. Dentro desse contexto, as
para o novo ambiente institucional: o caso do setor
empresas que aumentaram a quantidade de cana-de-açúcar
sucroalcooleiro em Alagoas, 1990/2001. In: MORAES, M.
moída buscam constantemente a redução de custos e o
A. F. D. de; SHIKIDA, P. F. A. (Org.). Agroindústria
ganho de eficiência com o intento principal de atingir a
canavieira no Brasil: evolução, desenvolvimento e
maior rentabilidade possível.
desafios. São Paulo: Atlas, 2002. p. 262-288.
Cumpre dizer que tais apontamentos seguem, a
fortiori, o enfoque da Escola de Chicago, visto que o
aumento na concentração (e, portanto, a busca pela maior COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO. 1º
economia de escala) está atrelado à ideia de redução de levantamento de cana-de-açúcar: abril/2010. Disponível em:
custos e de ganhos de eficiência, cujo escopo maior é a <[Link] Acesso em: 22
obtenção de uma elevada rentabilidade. jun. 2010.
Por último, mas não menos importante, sugere-se,
como agenda de trabalho, que mais pesquisas possam ser CONSELHO ADMINISTRATIVO DE DEFESA
implementadas para perscrutar os aspectos ECONÔMICA. Disponível em: <[Link]
caracterizadores da produção canavieira de Minas Gerais >. Acesso em: 23 jun. 2010.
ou de outros Estados, contribuindo assim para o debate
acerca do setor. Nesse sentido, com a atual tendência de DIAS, M. F. P.; SANTOS JÚNIOR, S.; PADULA, A. D.
concentração da produção de cana-de-açúcar e Estrutura conduta e desempenho da produção das
internacionalização do capital agroindustrial canavieiro vinícolas gaúchas: período 1989 a 2006. In: CONGRESSO
estará o consumidor sendo beneficiado? A pergunta foge BRASILEIRO DE ECONOMIA E SOCIOLOGIA RURAL,
ao escopo desse trabalho, porém, pode instigar outros 46., 2008, Rio Branco. Anais... Rio Branco: SOBER/UFAC,
pesquisadores a buscarem respostas... 2008. 1 CD-ROM.

6 REFERÊNCIAS FEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO


AZEVEDO, P. F. de. Concorrência no agribusiness. In: ESTADO DE MINAS GERAIS. Valor bruto da produção
ZYLBERSZTAJN, D.; NEVES, M. F. (Org.). Economia e agropecuária. Disponível em: <[Link]
gestão dos negócios agroalimentares. São Paulo: Pioneira, arquivos/[Link]>. Acesso em: 12 jun. 2010.
2000. p. 61-79.
FERGUNSON, P. R.; FERGUNSON, G. J. Industrial
BELIK, W.; RAMOS, P.; VIAN, C. E. F. Mudanças economics: issues and perspectives. London: MacMillan,
institucionais e seus impactos nas estratégias dos capitais 1994.
do complexo agroindustrial. In: ENCONTRO NACIONAL
DA SOBER, 36., 1998, Poços de Caldas. Anais... Poços de FRIEDMAN, M. Capitalismo e liberdade. São Paulo: Abril
Caldas: SOBER, 1998. 1 CD-ROM. Cultural, 1984. (Série os economistas).

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-316, 2011


Concentração na agroindústria canavieira mineira... 315

GAMA, M. M.; RUIZ, R. M. A práxis antitruste no Brasil: RESENDE, M. Medidas de concentração industrial: uma
uma análise do CADE no período entre 1994 e 2004. In: resenha. Análise Econômica, São Paulo, ano 11, p. 24-33,
ENCONTRO NACIONAL DE ECONOMIA, 33., 2005, Natal. mar./set. 1994.
Anais... Natal: ANPEC, 2005.
RESENDE, M.; BOFF, H. Concentração industrial. In:
GOES, T.; MARRA, R.; SILVA, G. S. Setor sucroalcooleiro KUPFER, D.; HASENCLEVER, L. (Org.). Economia
no Brasil: situação atual e perspectivas. Revista de Política industrial. Rio de Janeiro: Campus, 2002. p. 73-90.
Agrícola, Brasília, ano 17, n. 2, p. 39-51, abr./jun. 2008.
SCHERER, F. M.; ROSS, D. Industrial market structure
HOFFMANN, R. Distribuição de renda: medidas de and economic performance. Boston: Houghton Mifflin,
desigualdade e pobreza. São Paulo: EDUSP, 1998. 280 p. 1990.

KUPFER, D.; HASENCLEVER, L. (Org.). Economia SHIKIDA, P. F. A. A evolução diferenciada da agroindústria


industrial. Rio de Janeiro: Campus, 2002. canavieira no Brasil de 1975 a 1995. Cascavel: Edunioeste,
1998.
LARANJA, M. D.; SIMÕES, V. C.; FONTES, M. Inovação
SHIKIDA, P. F. A. et al. Mudança organizacional da
tecnológica: experiência das empresas portuguesas. Lisboa:
agroindústria canavieira paranaense pós-
Texto, 1997.
desregulamentação setorial. In: ENCONTRO BRASILEIRO
DE ESTUDOS REGIONAIS, 5., 2007, Recife. Anais... Recife:
LEME, M. F. P. Concentração e internacionalização de
ENABER, 2007. 1 CD-ROM.
capital na indústria brasileira de alimentos. 1999. 89 f.
Dissertação (Mestrado) - Escola Superior de Agricultura
SINDICATO DA INDÚSTRIA DE FABRICAÇÃO DO
“Luiz de Queiroz”, Piracicaba, 1999.
ÁLCOOL NO ESTADO DE MINAS GERAIS. SINDICATO
DA INDÚSTRIA DO AÇÚCAR NO ESTADO DE MINAS
MACEDO, I. de C. (Org.). A energia da cana-de-açúcar:
GERAIS. Capital estrangeiro no setor sucroalcooleiro
doze estudos sobre a agroindústria da cana-de-açúcar no
brasileiro: relatório econômico nº 007. Belo Horizonte, 2009.
Brasil e a sua sustentabilidade. São Paulo: União da Disponível em: <[Link] Acesso em:
Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo, 2005. 23 jun. 2010.
MAGALHÃES, M. Cresce o movimento de concentração ______. Mapa de localização das unidades produtivas da
de unidades. Disponível em: <http:// agroindústria canavieira em Minas Gerais: posição em
[Link]/>. Acesso em: 23 dez. 2009. 2010. Belo Horizonte, 2010a.

MELLO, F. O. T.; PAULILLO, L. F. Recursos de poder e ______. Relatórios econômicos. Disponível em: <http://
capacidade dinâmica de aprendizado dos atores [Link]>. Acesso em: 21 jun. 2010b.
sucroalcooleiros paulistas pós-desregulamentação estatal.
Informações Econômicas, São Paulo, v. 35, n. 6, p. 17-29, SOUZA, E. L. de; MACEDO, I. de C. Etanol e
2005. bioeletricidade: a cana-de-açúcar no futuro da matriz
energética. São Paulo: UNICA, 2009. 46 p.
PAULILLO, L. F. et al. Álcool combustível e biodiesel no
Brasil: quo vadis? Revista de Economia e Sociologia Rural, SOUZA, E. C. de; SHIKIDA, P. F. A.; MARTINS, J. P.
Brasília, v. 45, n. 3, p. 531-565, jul./set. 2007. Uma análise da agroindústria canavieira do Paraná à
guisa da matriz de capacidades tecnológicas. Revista de
POSSAS, M. L. et al. Ensaios sobre economia e direito da Economia e Agronegócio, Viçosa, v. 3, n. 3, p. 349-375,
concorrência. São Paulo: Singular, 2002. jul./set. 2005.

RAMOS, P. Agroindústria canavieira e propriedade STIGLER, G. The organization of industry. Chicago:


fundiária no Brasil. São Paulo: Hucitec, 1999. Universith of Chicago, 1968.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-316, 2011


316 HERSEN, A. et al.

THEIL, H. Economics and information theory. Amsterdam: VIAN, C. E. de F.; LIMA, R. A. de S.; LIMA, A. A. Estudo
North-Holland, 1967. de impacto econômico (eis) para o setor agroindustrial
canavieiro paulista e alagoano: conjuntura e agenda de
TIROLE, J. The theory of industrial organization. pesquisa . In : CONGRE SSO BRASILE IRO DE
Cambridge: The MIT, 1988. ECONOMIA E SOCIOLOGIA RURAL, 44., 2006,
Fortaleza. Anais... Fortaleza: SOBER/UFC, 2006. 1 CD-
UNIÃO DA AGROINDÚSTRIA CANAVIEIRA DE SÃO ROM.
PAULO. Estatísticas. Disponível em: <http://
[Link]/portalunica/>. Acesso em: 24 maio VIAN, C. E. de F.; PITELLI, M. M. Estruturas de mercado e
2010. introdução à economia industrial. In: VIAN, C. E. de F.;
PELLEGRINO, A. C. G. T.; PAIVA, C. C. (Org.). Economia:
VIAN, C. E. de F. Agroindústria canavieira: estratégias fundamentos e práticas aplicados à realidade brasileira.
competitivas e modernização. Campinas: Átomo, 2003. Campinas: Alínea, 2005. p. 215-250.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 303-316, 2011


EXPANSÃOExpansão
CANAVIEIRA NO
canavieira no CERRADO
cerrado goiano... GOIANO: 317
CRESCIMENTO ECONÔMICO É DESENVOLVIMENTO?1

The sugarcane expansion in Goiás state “cerrado”:


does economical growth mean development?

RESUMO
Objetivou-se, neste trabalho, analisar os impactos da expansão da cana, no Vale do São Patrício – região localizada no Centro-Norte
do estado de Goiás. Principal área goiana produtora de cana-de-açúcar destinada à produção de álcool combustível, o Vale do São
Patrício apresenta transformações em aspectos diversos, como na configuração ambiental, na dinâmica econômica e na estrutura do
tecido social. O estudo foi realizado a partir da reunião de entrevista e observações in loco com a análise de dados secundários para os
22 municípios que formam o Vale. Dentre os resultados obtidos, está a constatação de que 70% da área de culturas temporárias estão
ocupadas pela cana-de-açúcar, a qual domina as paisagens e provoca um processo de êxodo rural. Os dados indicam ainda que, apesar
do crescimento econômico verificado nos últimos anos, a riqueza gerada não tem resultado em benefícios para a população rural.

Silvia Regina Starling Assad de Ávila


Administradora de empresas rurais, Mestre em Agronegócios
silassad@[Link]

Mario Lucio de Ávila


Zootecnista, Doutor em Desenvolvimento Sustentável
iapecmario@[Link].

Iara Guimaraes Altafin


Jornalista, Doutora em Desenvolvimento Sustentável
altafin@[Link].

Recebido em: 16/10/09. Aprovado em: 29/6/11


Avaliado pelo sistema Blind Review
Avaliador Científico: Ricardo Pereira Reis

ABSTRACT
This study aims to analyze the impacts of the sugarcane expansion in Vale do São Patrício, a region located in the Central Northern
part of Goiás state, Brazil. Vale do São Patrício - the main sugarcane producer area destined to ethanol production - has presented
transformations in several aspects in the last years, such as environment configuration, economic dynamics, and in the social
structure. In order to investigate possible impacts, we have accomplished and analysed interviews and local observations, gathering
secondary information on the 22 municipal districts that compose Vale do São Patrício. The results demonstrated that 70% of
temporary crops areas are occupied by sugarcane, thus dominating the landscape and causing rural exodus. They also indicate that,
despite economic growth in recent years, the wealth does not result in benefits to the rural population.
Palavras-chave: Expansão da cana-de-açúcar, produção de etanol, transformações, desenvolvimento.

Key-words: sugarcane expansion, ethanol production, transformations, development.

1 INTRODUÇÃO conforme dados da Empresa de Pesquisa Energética2. Em


meio a esse processo de expansão, surge o debate sobre as
A produção canavieira vem apresentando trajetória vantagens e as desvantagens do avanço da cana-de-açúcar.
de expansão desde 2001, principalmente devido à ampliação De um lado, os que defendem a atividade
do mercado de veículos bicombustíveis, os chamados flex argumentam que a cultura é uma eficiente fonte de energia
fuel, movidos tanto a álcool como a gasolina. A área renovável, que contribui para tornar mais limpa a matriz
ocupada pela cultura no país praticamente dobrou entre energética do Brasil, para reduzir a dependência externa de
2001 e 2007, passando de 4,8 milhões de hectares para 8,36 energia e ainda para elevar as exportações do país.
milhões de hectares. No mesmo período, a produção de
etanol cresceu mais de 150%, passando de 10,5 bilhões de
1
litros para 27,5 bilhões de litros. Este trabalho faz parte da dissertação de mestrado em
Como resultado, a cana-de-açúcar consolidou-se agronegócios, desenvolvido pela primeira autora.
2
como a segunda principal fonte de energia primária do país, Balanço Energético Nacional (EMPRESA DE PESQUISA
atrás apenas do petróleo, superando a energia hidráulica, ENERGÉTICA, 2009), resultados preliminares.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 317-329, 2011


318 ÁVILA, S. R. S. A. de et al.

De outro lado, os críticos alertam que a monocultura Posteriormente, estão reunidos os resultados obtidos com
de cana-de-açúcar ocupa espaço de cultivos alimentares, a pesquisa referente às transformações em curso no
compromete dinâmicas locais e afeta reservas florestais, conjunto dos municípios que formam o Vale e ainda os
ao empurrar a pecuária para a Amazônia. resultados obtidos em quatro municípios que sediam
O governo defende a atividade com o argumento usinas. Por fim, as principais conclusões do estudo.
de que o crescimento da cana-de-açúcar ocorre sobre A metodologia exploratória foi adotada e o estudo
pastagens subutilizadas e que a manutenção de níveis foi realizado a partir da reunião de informações de
ascendentes de produção de alimentos no país confirmaria entrevistas, observação in loco e análise de dados
não haver competição por área. secundários para os 22 municípios que formam o Vale. Para
Tais argumentos, no entanto, esbarram em a abordagem foram trabalhados dados (área plantada e
evidências verificadas em estudos regionais e produção de culturas temporárias) disponibilizados pela
microrregionais feitos nos últimos anos3. Mesmo que ainda base anual da Produção Agrícola Municipal (PAM) e pelos
restritos, os resultados dos estudos indicam a ocorrência Censos Agropecuários (variação populacional), ambos do
de impactos negativos, tanto nas áreas tradicionais da Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
atividade canavieira como nas novas fronteiras de índices de desenvolvimento ligados à saúde, educação,
expansão da atividade, na região Centro-Oeste. emprego e renda (FIRJAN, 2005) e dados relativos a
Nessa região, Goiás destaca-se com um crescimento emprego advindos da base de dados (RAIS/CAGED) do
de 220% na produção de etanol e de mais de 110% na área Ministério do Trabalho e Emprego.
plantada com cana-de-açúcar, nas ultimas seis safras. Desse As análises foram realizadas por meio do cruzamento
total, o Vale do São Patrício (VSP), localizado no Centro- da evolução dos indicadores estudados e a
Norte do estado de Goiás, concentra cerca de 30% de toda contextualização das observações e relatos das entrevistas,
a área plantada do estado. Região tradicional de pequenos favorecendo a comparação e a interpretação no caso
produtores dedicados à produção de grãos e pecuária, o estudado.
Vale possui seis usinas em funcionamento, todas em 2 CRESCIMENTO ECONÔMICO E
processo de crescimento. No entanto, as transformações DESENVOLVIMENTO
em curso ainda não foram dimensionadas e estudadas.
Objetivou-se, no presente estudo, reunir Para possibilitar a análise das transformações no
informações e discutir as implicações locais da expansão Vale do São Patrício, à luz dos questionamentos feitos ao
sucroalcooleira no Vale do São Patrício. recente processo de expansão da cana-de-açúcar, será
O texto está organizado em quatro etapas, além inicialmente apresentada uma breve caracterização do
dessa introdutória. São apresentadas considerações processo de modernização da agricultura no Brasil,
teóricas sobre a polaridade existente entre crescimento buscando identificar seus principais traços e
econômico e desenvolvimento, reunindo elementos de consequências.
discussão sobre modernização da agricultura, Modernização da agricultura
desenvolvimento endógeno e territorial. Em seguida são
O processo de transformação da agricultura
apresentados aspectos relacionados à produção de cana-
brasileira iniciado nos primeiros anos após o golpe militar
de-açúcar e de etanol no Brasil, focando a experiência no
setor, suas perspectivas e também seus impactos. de 1964 e que se estendeu até o fim da década de 1980,
chamado de ‘modernização conservadora’, foi bastante
estudado e debatido na literatura, especialmente no fim do
3
Predominam estudos sobre os impactos na Região Sudeste, que período e a partir da abertura política que deu início à
concentra a maior parte da produção sucroalcooleira do país, redemocratização do país. Mesmo sabendo que aquele
havendo também levantamentos sobre a situação na Região período já seja amplamente conhecido, considera-se
Centro-Oeste e Nordeste, reunidos nas obras: Azevedo, Thomas necessário, para os propósitos deste trabalho, reunir os
Júnior e Oliveira (2006), BANCO NACIONAL DE principais aspectos do processo de modernização do país.
DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL - BNDES De início, é importante destacar que as ações
(2008), INSTITUTO SOCIEDADE, POPULAÇÃO E implementadas para a transformação do campo tinham por
NATUREZA - ISPN (2008), Santos, Pereira e Andrade (2007) e base a noção de desenvolvimento como sinônimo de
Schlesinger (2006). crescimento e industrialização. Sunkel e Paz (1988)

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 317-329, 2011


Expansão canavieira no cerrado goiano... 319

observam que o avanço da industrialização foi durante O governo que se estabeleceu após 1964 também
algum tempo considerado como sinônimo de via o atraso tecnológico da agricultura como fator limitante
desenvolvimento econômico, ideia essa reforçada pelo ao desenvolvimento do País. O caminho adotado para
desempenho das nações mais industrializadas, como solucionar esse problema, no entanto, não foi o da reforma
Estados Unidos e Inglaterra, por exemplo, que alcançaram agrária, mas da modernização tecnológica de grandes
níveis elevados de conforto e de qualidade de vida. propriedades, promovida pela ação centralizada do Estado.
Como expoente das abordagens teóricas nesse “Isto vem representar a satisfação dos interesses das elites
período, François Perroux destaca a importância das industriais sem afetar a configuração histórica de relações
macrodecisões e dos polos de crescimento. Como pontua no campo, com o poder nas mãos dos grandes produtores”,
Cazella (2008), a construção de Perroux pertence à escola destaca Altafin (2003, p. 84).
de pensamento que vê desenvolvimento como resultado A partir desse momento, a modernização da
de ações operadas de cima para baixo, noção que orientou agricultura passou a ser incentivada por políticas públicas,
todo o processo de modernização da agricultura. sendo o Estado o promotor da articulação entre agricultura
No Brasil, por influência, sobretudo, da experiência e indústria. Para tanto, o governo militar lança mão do
e das teorias geradas nos Estados Unidos, a industrialização crédito rural subsidiado e dos serviços de pesquisa e
foi adotada como vetor do desenvolvimento, tanto no extensão rural estruturados no âmbito do Ministério da
espaço urbano como no espaço rural. A indústria de base, a Agricultura. Esses instrumentos de política pública são
industrialização de bens voltados às necessidades urbanas direcionados para regiões com maior capacidade de
e a revolução tecnológica na agricultura foram articuladas resposta, para grandes produtores e para determinados
como propulsoras do modelo que associava produtos mais dinâmicos.
desenvolvimento ao crescimento da economia do país. A aquisição de tecnologias era facilitada pelos
Convém lembrar que, apesar de esse processo estar subsídios ao crédito e por incentivos à instalação de
associado ao conjunto de políticas implementadas pelo indústrias de máquinas e insumos. Já a disseminação do
regime militar, o marco referencial para a modernização da pacote tecnológico ficava a cargo da pesquisa e da extensão
agricultura no Brasil está na segunda metade da década de rural.
1950 e início da década de 1960. Com a aceleração do Esse esforço resulta na abertura de um imenso
processo de industrialização no governo de Juscelino mercado de máquinas, sementes e insumos agrícolas e
Kubitschek, a agricultura brasileira se viu pressionada a promove a modernização e a expansão do setor
fornecer alimentos, matéria-prima e mão de obra para a agropecuário no país, configurado na implantação em larga
consolidação de um setor industrial no país. escala de sistemas monocultores, com emprego intensivo
Na época, a limitada capacidade do setor agrícola de mecanização, fertilizantes e agrotóxicos.
na oferta de alimentos e matérias-primas resultava no Silva (1999) explica que o modelo de modernização
aumento geral dos preços, o que limitava o crescimento da agricultura adotado no país aumentou a dependência
industrial. A agricultura era responsabilizada pelo atraso da agricultura em relação a outros setores da economia,
da economia. A entrada da agricultura na modernidade, principalmente o industrial e o financeiro, assim como
portanto, era condição para que o país seguisse o rumo do aumentou o desequilíbrio social e o impacto da atividade
crescimento econômico. agrícola sobre o meio ambiente.
Nos anos que antecederam o golpe militar, o atraso Tais resultados, amplamente discutidos na literatura,
da agricultura, caracterizado pela baixa adoção de revelam a concentração dos incentivos públicos nas
modernas tecnologias de produção e pelas limitações na grandes fazendas do Centro-Sul do País, deixando de fora
oferta de alimentos, estava associado à predominância a maior parcela dos produtores rurais e suas famílias. O
de latifúndios. Como explica Altafin (2003, p. 83), “o crescimento da economia, afinal, não melhorou a vida da
tamanho dos latifúndios era entendido como gerador de população. Constatava-se, assim, que o crescimento havia
grande ociosidade das terras agricultáveis e sua estrutura beneficiado apenas uma parte da população, e, ao mesmo
como entra ve à i ntrodução de novas técni cas, tempo, havia acentuado as desigualdades no país.
comprometendo o futuro do País”. Tal diagnóstico Com a modernização, veio a especialização da
favoreceu a articulação de forças em favor da reforma agricultura em alguns produtos e em algumas áreas,
agrária, processo que, como se sabe, foi interrompido ampliando a exploração monocultora, liberando mão de
pelo golpe militar. obra e acentuando o êxodo rural. Conforme explica Veiga

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 317-329, 2011


320 ÁVILA, S. R. S. A. de et al.

(2000), esse processo levou um grande número de exemplo, no trabalho de Oliveira (2007). O mesmo autor
agricultores à decadência: forçou grande parte da força de cita Amaral Filho (2001) para amparar sua argumentação
trabalho rural a se favelizar nas periferias urbanas; contrária à noção de crescimento como fruto
aumentou a concentração fundiária e a pobreza rural; elevou exclusivamente de mecanismos exógenos, apontando a
os níveis de violência e criminalidade no país; e acentuou importância do que ele chama de ‘ativação social’,
a degradação ambiental. representada pela atuação de atores locais na promoção
Wanderley (1985) lembra que os reflexos desse do desenvolvimento.
processo foram mais intensos sobre a agricultura familiar, Essa noção de desenvolvimento endógeno logo se
que sempre ocupou um lugar secundário na estratégia de amplia para além do âmbito local, sendo então identificada a
desenvolvimento adotada para o setor. processos que aglutinavam potencialidades e forças em nível
No mesmo sentido, Almeida (1997) afirma que a regional. No trabalho realizado por Boisier (1989 citado por
modernização agrícola apresentou objetivos que não OLIVEIRA; SOUZA-LIMA, 2003) o caráter endógeno do
levaram ao desenvolvimento. Enquanto modernização desenvolvimento regional é entendido como um fenômeno
indica a capacidade que tem um sistema social de produzir que ocorre em pelo menos quatro planos que se cruzam: 1)
a modernidade, o desenvolvimento se refere à vontade o plano político, visto como a capacidade regional para tomar
dos diferentes atores sociais (ou políticos) de transformar decisões relevantes: negociação, concepção e
a sua sociedade. implementação de políticas de desenvolvimento; 2) o plano
No período pós-regime militar, acentua-se a econômico, dado pela apropriação regional do excedente a
controvérsia sobre o conceito de desenvolvimento, como fim de diversificar a economia regional; 3) um plano
observa Scatolin (1989, p. 6): envolvendo ciência e tecnologia, visto como a capacidade
de gerar seus próprios impulsos e mudanças tecnológicas;
Poucos são os outros conceitos nas Ciências 4) e um nível de cultura, entendida como uma espécie de
Sociais que têm se prestado a tanta controvérsia. matriz geradora de identidade socioterritorial.
Conceitos como progresso, crescimento, Evidencia-se assim a importância de não se enxergar
industrialização, transformação, modernização, uma região somente como um fator geográfico, “mas
têm sido usados frequentemente como sinônimos também como um elemento vivo do processo de
de desenvolvimento. Em verdade, eles carregam planejamento e que, por isso, depende da conciliação entre
dentro de si toda uma compreensão específica políticas que impulsionam o crescimento e os objetivos
dos fenômenos e constituem verdadeiros locais” (OLIVEIRA; SOUZA-LIMA, 2003, p. 36).
diagnósticos da realidade, pois o conceito Faria (2003), ao tratar a dinâmica que se forma dentro
prejulga, indicando em que se deverá atuar para de uma região como estratégia de desenvolvimento, coloca
alcançar o desenvolvimento. incentivos a tal dinâmica como importantes instrumentos
de políticas para a correção de desigualdades regionais. O
Começa então a ganhar espaço percepções de que autor identifica como elementos essenciais à promoção do
não basta crescer. Conforme explica Souza (1993 citado por desenvolvimento a existência do conhecimento e da
OLIVEIRA, 2002), ao lado da corrente de pensamento que informação, de instituições determinadas dentro da região
encara o crescimento como sinônimo de desenvolvimento, e de capital humano e capital social. O pesquisador acredita
avança a noção de que crescimento é condição indispensável que a região dotada destes fatores teria melhores
para o desenvolvimento, mas não é condição suficiente. condições de atingir um desenvolvimento acelerado e
Desenvolvimento como processo endógeno e articulado equilibrado, auxiliando ainda o governo a atingir seus
no território objetivos de promover o desenvolvimento da sociedade.
Contribuíram para essa visão estudos sobre a
O período de redemocratização do país favoreceu a chamada ‘terceira Itália4’, mostrando que algumas cidades
expressão de novas visões que rompiam com o modelo ‘de na parte norte daquele país avançaram no processo de
cima para baixo’ e ‘de fora para dentro’ que prevaleceu no desenvolvimento, a partir da formação de um sistema de
período militar. Inicialmente, ganha expressão a noção de
desenvolvimento como um processo endógeno e local.
A participação da sociedade local no planejamento 4
Região no norte da Itália, historicamente conhecida como reduto
contínuo da ocupação do espaço e na distribuição dos de pobreza e que atualmente se destaca pela alta renda per capita
frutos do processo de crescimento é destacada, por e por apresentar baixos índices de desemprego.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 317-329, 2011


Expansão canavieira no cerrado goiano... 321

confiança e cooperação entre empresas. Ao reunir transformações de ordem econômica, política e,


informações sobre a região, Becattini (1987) e Puga (2000) principalmente, humana e social. Desenvolvimento
citados por Cazella, Bonnal e Maluf (2009), comprovam nada mais é que o crescimento – incrementos
que laços econômicos, sociais, políticos, culturais e positivos no produto e na renda – transformado
históricos permitiram que até mesmo estruturas produtivas para satisfazer as mais diversificadas
consideradas ineficientes fossem eficientes. necessidades do ser humano, tais como: saúde,
Putnam (2007) especifica as características do educação, habitação, transporte, alimentação,
processo de desenvolvimento na ‘terceira Itália’, lazer, dentre outras.
apontando para aspectos institucionais relacionados no
desenvolvimento regional, sobretudo para o capital social 3 RESULTADOS
como vetor determinante das trajetórias das regiões e As transformações observadas no Vale do São
empresas estudadas. Patrício com o avanço da cultura da cana-de-açúcar serão
Relaciona-se capital social à formação de uma rede apresentadas, para o conjunto dos 22 municípios que
de relações sociais abertas, estabelecidas em um formam a região, partindo de dados secundários reunidos
determinado território. O capital social não é visto como sobre diversos aspectos.
uma condição suficiente para o desenvolvimento local, Atualmente, os 22 municípios do Vale contam com
mas capaz de valorizar o capital humano, físico e financeiro, uma população de mais de 215 mil habitantes, composta
por meio de cooperação entre sujeitos locais. por uma primeira geração ainda com raízes em outros
Nessa perspectiva, capital social é compreendido Estados e uma segunda geração já bastante identificada
como um bem coletivo, que reúne vantagens para todos com a região. Essa característica expressa-se nas culturas
que estão na rede, diferente do capital financeiro e humano. e tradições que mesclam origens e valores de mineiros,
Essa percepção de sinergia de vários paulistas e goianos.
microssistemas locais que se cruzam e efetuam trocas entre A figura apresenta a região do Vale do São Patrício
eles e com sistemas mais amplos, conforme destacado por e a área de influência das usinas.
Coulmin (1984 citado por CAZELLA, 2008), passa a ser A economia do Vale do São Patrício é bastante
articulada, nos últimos anos, sob a noção de diversificada, a começar pelas atividades agrícolas e do
desenvolvimento territorial. Três características identificam agronegócio sucroalcooleiro. Também destaca-se na região
essa noção de desenvolvimento: o setor de serviços, principalmente saúde e educação, e o
a) ele é endógeno, já que as potencialidades e os setor de confecções, com mais de 1000 micros e pequenas
particularismos locais são valorizados e as solidariedades empresas.
internas fortalecidas para que a maioria da população local A produção agrícola é basicamente pautada na
possa aproveitar da nova situação; produção de arroz, feijão, milho, sorgo e mandioca, além de
b) ele é interdependente das redes diversificadas abacaxi, melancia e maracujá. A produção de leite e carne
dos âmbitos espacial e social. O espaço local deve ser também é bastante expressiva na região.
transgredido pela articulação com vários atores sociais e A população da região é, em grande parte, originária
organizações externas à coletividade. A mobilização local dos movimentos históricos como a ocupação do interior e
é fundamental, mas insuficiente. Assim como a ausência a instalação das Colônias Agrícolas. Uma passagem de
de uma categoria de atores sociais pode comprometer a Dayrell (1974, p. 85) ilustra a afirmação:
dinâmica do desenvolvimento; A notícia de terras férteis e baratas, ouvida nas
c) e trata-se de um processo coletivo, que recusa os áreas áridas, principalmente de Minas Gerais, foi
interesses exclusivos e imediatos da economia e do responsável por um afluxo imigratório
benefício individual. Ele pressupõe a existência de um considerável. E não foi só o trabalhador rural que
sistema de valores que leve em consideração a educação, dirigiu suas vistas e esperanças para a região.
as solidariedades internas e a coerência afetiva, de convívio Grupos paulistas e cariocas já tinham planos, nos
e ideologia dos atores sociais. fins dos anos trinta, para subdividir enormes áreas
No mesmo sentido, Oliveira (2002, p. 40) explicita que possuíam e vendê-las, em pequenas
que: fazendolas. A abertura da estrada até Lavrinhas
O desenvolvimento deve ser encarado como um já se relaciona ao processo, visando valorizar a
processo complexo de mudanças e região em função de maiores lucros.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 317-329, 2011


322 ÁVILA, S. R. S. A. de et al.

FIGURA 01 – Região do Vale do São Patrício, com área de influência das usinas.
Fonte: elaborado pela autora

Atualmente, os 22 municípios do Vale contam com A seguir, serão analisadas as transformações


uma população de mais de 215 mil habitantes, composta por observadas nos 22 municípios que integram o Vale do São
uma primeira geração ainda com raízes em outros Estados e Patrício, em decorrência da ampliação das áreas cultivadas
uma segunda geração já bastante identificada com a região. com cana-de-açúcar e do aumento da produção de álcool
Esta característica expressa-se nas culturas e tradições que combustível.
mesclam origens e valores de mineiros, paulistas e goianos. Inicialmente, caracterizou-se o avanço da cana-de-
açúcar e a análise da participação da cultura no conjunto
O avanço da cana-de-açúcar no Vale do São Patrício
das culturas temporárias. Na sequencia, discutiu-se os
A cana-de-açúcar chega ao Vale do São Patrício impactos na oferta de empregos, na composição da
como cultura comercial expressiva em 1982, com a população, na geração de riquezas e no desenvolvimento
instalação da primeira usina de produção de açúcar e álcool local.
na região. Atualmente, o Vale do São Patrício concentra
A cana-de-açúcar em relação ao conjunto das culturas
30% da área ocupada com a cultura em Goiás, que se
temporárias
destaca como pólo de crescimento de etanol no país.
O avanço da área plantada com cana-de-açúcar está A participação da cana-de-açúcar no conjunto das
diretamente relacionado ao crescimento da produção das lavouras temporárias no Vale do São Patrício apresentou
usinas existentes na região. São seis5 usinas no Vale do São acentuado crescimento no período estudado. Em 1996, a
Patrício, das quais quatro foram investigadas na pesquisa. cultura ocupava 31% das terras desse conjunto de cultivos,
situação que se mantém com pouca alteração até 2001. No
entanto, a partir de 2002, observa-se um acelerado aumento
5
Além das quatro usinas estudadas, existe também a usina da área ocupada com cana-de-açúcar e uma redução nos
Goianésia do grupo Monteiro de Barros (no município de mesmo demais cultivos, em especial nas quatro outras culturas
nome), além da usina em Itapuranga, reativada em 2007, quando temporárias com relevância na região – milho, arroz, feijão
adquirida pelo grupo Farias (Vale Verde). e mandioca.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 317-329, 2011


Expansão canavieira no cerrado goiano... 323

GRÁFICO 01 – Área plantada (ha) com cana-de-açúcar e outras culturas temporárias no VSP, de 1996 a 2007.
Fonte: IBGE - Produção Agrícola Municipal/elaborado pela autora

Em 2007, constatou-se que 68% da área ocupada desenvolver lavoura temporária. A redução observada entre
com lavouras temporárias foram destinados ao cultivo de 1996 e 2006, quando 27% das propriedades rurais então
cana-de-açúcar. Todas as demais culturas, conforme envolvidas com culturas temporárias deixam de registrar
apresenta-se no gráfico 04, tiveram suas áreas reduzidas, seu envolvimento com tais cultivos, pode ter sido causada
em especial o feijão, que em 1996 ocupava cerca de 6.300 por pelo menos 3 fatores: a) cessão de áreas às usinas,
hectares, caindo para 142 hectares em 2007 – uma redução onde antes o proprietário desenvolvia lavoura temporária,
de 97,7%. A área ocupada com arroz caiu 37%. No milho, a b) por um provável abandono das lavouras nas áreas
redução foi de 32,8%, passando de cerca de 36 mil hectares parcialmente arrendadas ou mesmo em áreas vizinhas aos
cultivados para pouco mais de 24 mil hectares e, na cultura cultivos de cana-de-açúcar, em que a atividade ficou
da mandioca, a redução foi de quase 30% inviável, ou até mesmo c) pela saída da atividade devido a
As lavouras de cana-de-açúcar, que ocupavam insatisfatória rentabilidade dos cultivos. É preciso também
cerca de 30 mil ha (300 quilômetros quadrados) em 1996, observar que uma parcela do avanço da cana-de-açúcar
chegam a uma área pelo menos três vezes maior em 2007, deu-se em áreas de pastagens. Pelos dados do IBGE
perto de 90 mil ha (900 quilômetros quadrados) plantados. comprova-se que a participação das pastagens no conjunto
Pelo gráfico 01 ilustra-se o acentuado crescimento das áreas rurais do Vale do São Patrício sofreu uma redução
das áreas de cana-de-açúcar a partir de 2001 – mais de 58 de 10%, no período em estudo.
mil hectares foram acrescentados no período, totalizando O crescimento de áreas plantadas com cana-de-
mais de 84 mil hectares destinados à cultura em 2007. Parte açúcar na região, que segue o eixo da BR-153, principal
desse crescimento da cana-de-açúcar deu-se sobre terrenos ligação entre o Centro-Oeste e o Meio-Norte do país, alterou
anteriormente cultivados com arroz, milho e feijão – a área de forma significativa a paisagem do Vale do São Patrício.
ocupada com essas culturas foi reduzida em cerca de 27 Em muitos dos municípios, a cultura domina a paisagem,
mil hectares. Isso se confirma pelo aumento de contratos sendo rara a visualização de áreas ocupadas por outros
efetuados pelas usinas, para plantio de cana-de-açúcar, cultivos e áreas contínuas de cerrado.
em propriedades rurais que antes eram voltadas para Essa alteração da paisagem, com a predominância
cultivos alimentares. da cana-de-açúcar, aponta para prejuízos à região, que perde
O impacto dos arrendamentos pode ainda ser pela redução da biodiversidade com as consequências daí
constatado pela redução do número de proprietários rurais decorrentes. Aponta ainda para a retração da função de
que declararam aos pesquisadores do Censo Agropecuário preservação de recursos naturais e da paisagem rural

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 317-329, 2011


324 ÁVILA, S. R. S. A. de et al.

desempenhada pela diversificação de cultivos presentes serviços, como lojas agropecuárias, topógrafos, oficinas e
na agricultura familiar. borracharias. A jusante, os entrevistados citaram o fato de
Em termos de configuração da paisagem, o diversas estruturas terem ficado obsoletas, como armazéns
processo em curso reúne elementos muito mais e classificadoras para grãos, hoje desativados.
semelhantes ao verificado no processo modernizante, com Ao passar de produtora de grãos a importadora
grandes áreas monocultoras impondo uma identidade desses produtos, e ao ver reduzida a oferta de hortaliças e
visual às localidades. frutas (devido aos contratos com as usinas ou por
Para além desse aspecto, a redução de 46,2% na dificuldades de convivência com a cana-de-açúcar), a região
área de cultivos alimentares citados (arroz, feijão, milho e também sofreu impactos em suas estratégias de
mandioca), somada ao avanço das plantações de cana-de- abastecimento alimentar, conforme observado e levantado
açúcar sob o domínio das usinas, resultou em impactos de nas entrevistas de campo. Observa-se que pequenos
diversas naturezas. A redução de oportunidades de pontos de venda do varejo nas cidades, como mercadinhos
trabalho no campo foi um dos primeiros impactos e mercearias, foram substituídos por supermercados, com
percebidos. Os cultivos alimentares citados, principalmente capacidade de buscar os produtos em mercados fora do
quando realizados em pequenas unidades, em que parte Vale, como em Anápolis e Goiânia. Também as feiras foram
do processo produtivo não é mecanizada, são importantes afetadas, havendo a redução da oferta de alimentos
geradores de ocupações produtivas. A tabela a seguir produzidos na cidade e redondezas, e o crescimento de
ilustra a evolução da oferta e emprego em diferentes setores bancas com produtos industrializados, pequenos
da economia no período de 1997 a 2007. eletrônicos, brinquedos e produtos “pirateados”.
A concentração da riqueza é outra consequência do
Variação populacional no Vale do São Patrício
processo em curso no Vale do São Patrício. Sustenta essa
afirmação, a evolução dos índices de emprego e renda na No período estudado, observa-se que houve um
região. A distribuição de renda está inversamente relacionada esvaziamento do campo na região do Vale do São Patrício.
à concentração da riqueza. Enquanto os municípios que não Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -
possuem usina melhoraram em 35% no indicador, entre 2000 IBGE (2008) apontam que a população rural diminuiu 34%.
e 2005, os municípios com usina melhoraram em 33%. No entanto, o crescimento verificado na população urbana,
O modelo de produção de álcool combustível adotado que ficou em torno dos 16%, e a quase estabilidade da
na região, no qual as usinas controlam desde o plantio da população total, conforme ilustra-se pelo gráfico 06, revelam
cana-de-açúcar até a comercialização, reduz as possibilidades que o Vale mudou seu padrão de ocupação no período.
de participação de outros atores e aumenta a concentração De acordo com os dados, observa-se que a
da geração de riquezas nas indústrias, mantendo dinâmica promovida pelo aumento da atividade
historicamente as desigualdades no espaço rural brasileiro. sucroalcooleira na região não favorece a manutenção da
A redução da produção de grãos tem ainda impactos população rural no campo. Além disso, verifica-se que os
sobre as redes de relações existentes nas localidades impactos das usinas sobre a economia das cidades não
estudadas. A montante da produção observou-se a redução têm sido suficientes para reter, nos municípios do Vale, a
de pontos de venda de insumos e também de prestação de população que deixa o campo.

TABELA 01 – Evolução da oferta de emprego formal no Vale do São Patrício, 1997 e 2007.
1997 2007
Número % Número %
Agricultura 4.523 36,8 3.437 25,5
Fabricação alimentos 3.219 26,2 3.222 23,9
Combustíveis 2.921 23,7 3.041 22,6
Comércio varejista 1.478 12,0 3.215 23,9
Confecções 157 1,3 549 4,1
Total 12.297 100 13.464 100
Fonte: Brasil (2009)

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 317-329, 2011


Expansão canavieira no cerrado goiano... 325

TABELA 02 – Variação do Índice FIRJAN de desenvolvimento para municípios com e sem usinas do Vale do São
Patrício (200/2005).
Índice Região 2000 2005 Var (%)
VSP 0,285272992 0,386032379 35%
IFDM-Emprego e renda Com usina 0,272907061 0,361970627 33%
Sem usina 0,289137345 0,393109364 36%
Fonte: Elaborado pela autora

A estratégia de produção de cana-de-açúcar O setor onde está inserida a produção de álcool


adotada pelas usinas da região, baseada no arrendamento combustível apresenta redução de cerca de 22% da oferta
de um número cada vez maior de propriedades rurais, tem de emprego entre 1997 e 2001. No período seguinte, até
contribuído para a migração rural-urbana. Para as famílias 2007, passa por recuperação e aumenta as contratações
que firmaram contratos com as usinas, a cessão das áreas em 30%. Nos dez anos estudados, os empregos nesse
representa a expectativa de renda mensal ou anual, contra segmento apresentaram aumento de apenas 5%.
as incertezas da produção agrícola. Pelas entrevistas Por sua vez, o setor de fabricação de alimentos
realizadas com proprietários rurais, que firmaram contrato sofreu queda ainda mais acentuada no primeiro período
com as usinas, percebe-se ser comum a expectativa de que (cerca de 55%) entre 1997 e 2001, mas também apresentou
o dinheiro do arrendamento possibilite a instalação e a melhor recuperação no segundo período, mais que
permanência da família na cidade. dobrando (110%) o número de empregos. Isso se deve não
No entanto, o fato de a população urbana do Vale apenas ao aquecimento das atividades de produção de
do São Patrício ter crescido a taxas inferiores à média de açúcar pela alta do preço do produto no mercado, mas
crescimento demográfico verificado no Estado (35%) e no também a investimentos no processamento de frutas e
País (29%) evidencia que, parte das cerca de 20 mil pessoas atomatados em algumas cidades do Vale. No entanto,
que deixaram o campo não conseguiu se viabilizar nas considerando-se o período de dez anos, os empregos nesse
cidades da região. Os recursos gerados pelas usinas que segmento ficaram estagnados em cerca de 3 mil postos de
existem nas cidades não têm resultado em aumento das trabalho.
oportunidades de trabalho capaz de atender à demanda, o Percebe-se, porém, um crescimento constante de
que é agravado pela desqualificação da mão de obra que oferta de emprego nas atividades do comércio de varejo
deixa o campo. em todo o período, com aumento de mais de 115% nos dez
Nas cidades do Vale do São Patrício, surgem anos estudados. O ritmo de crescimento, no entanto, não
periferias urbanas, habitadas por pessoas que, em sua foi constante. Até 2001, os empregos no comércio varejista
maioria, formam um reduto de mão de obra das usinas de cresceram 35%, já o avanço entre 2001 e 2007 foi de 62%.
açúcar e álcool. Nesse conjunto, estão agricultores que Ao se analisar o total de empregos gerados no
não se viabilizaram após o arrendamento de suas áreas, período estudado, constata-se que o aumento de postos
mas também agregados e trabalhadores que antes atuavam de trabalho foi de apenas 9%. Goiás, no mesmo período,
nas propriedades que foram arrendadas. teve aumento de cerca de 70% nos postos de trabalho e o
Brasil, de quase 48%.
Variação na oferta de empregos
De 2001 a 2007 é verdade que houve um aumento
A redução do trabalho no setor agropecuário fica de 63% das contratações em atividades ligadas às usinas,
evidente quando se analisa a variação do trabalho formal que voltam a superar, a partir de 2004, as contratações em
entre 1997 e 2007. As contratações em atividades ligadas à atividades ligadas à agricultura e à pecuária. No entanto, é
agricultura, pecuária e serviços relacionados sofreram uma importante observar que o número de contratações no fim
redução de 24% nesses dez anos. Convém observar que, do período é de apenas 2% superior ao verificado no início
até 2002, o setor passa por períodos de queda e do período estudado, o que aponta praticamente uma
recuperação. No entanto, nos últimos cinco anos estagnação na oferta de trabalho do período.
estudados, a redução na oferta de empregos na Sobre a queda da oferta de emprego nas atividades
agropecuária chega quase a 27%. agropecuárias, observa-se que a redução ocorre mais nas

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 317-329, 2011


326 ÁVILA, S. R. S. A. de et al.

ocupações oferecidas pela agricultura patronal do que pela Analisando estes dados, evidencia-se o aumento
agricultura familiar. As ocupações produtivas caíram 22% do PIB de maneira considerável no período para as cidades
nos casos em que o trabalhador mantém laço de parentesco com usina. No entanto, pelo Índice Firjan de
com o proprietário e 52% em empregos sem laço de Desenvolvimento Municipal (IFDM)6 constata-se que esse
parentesco. No geral, os números do IBGE confirmam a aumento de PIB não tem se revertido em desenvolvimento
tendência de queda no emprego agrícola entre 1996 e 2006, para a população. Esse índice, que permite a comparação
apresentando percentual de redução de quase 34%. entre os anos 2000 e 2005, disponibiliza um indicador global
Na categoria dos patronais estão os vaqueiros, por municípios e ainda indicadores de “Emprego e Renda”,
peões e demais trabalhadores rurais que perderam o “Educação” e “Saúde”7. Para a análise desses dados no
emprego devido à cessão de terras às usinas, sendo que presente estudo, os municípios do Vale do São Patrício
muitos passaram a constituir o excedente de mão de obra foram distribuídos em dois grupos – os que sediam usinas
disponível para a usina, conforme citado anteriormente. e os que não sediam usinas.
Apesar de os diferentes registros da evolução do Os municípios do Vale do São Patrício com usinas
emprego no Vale apontarem a redução da oferta de trabalho apresentavam, no ano de 2000, índice global melhor do
no setor agropecuário, os dados revelam que houve um que aqueles sem usinas. Já em 2005, a situação se inverte
aumento da formalização nos contratos de trabalho. Entre e os municípios que não sediam usinas passam a ter melhor
1996 e 2006, a população empregada com carteira assinada índice. O IFDM do grupo dos municípios com usinas é,
aumentou em 9%. Isso se deve ao fato de as ocupações nas inclusive, inferior à média obtida no Vale do São Patrício.
cidades e na atividade sucroalcooleira, mesmo que Isso demonstra que, para o conjunto de variáveis
insuficientes para a demanda realizam mais registros formais acompanhadas, as usinas existentes no Vale do São Patrício
que atividades ligadas à agricultura e à pecuária, reflexo da não contribuem para elevar a qualidade de vida das
ampliação das fiscalizações do Ministério do Trabalho e populações dos municípios onde estão sediadas. Já de
Emprego sobre as usinas, que passam a cumprir normas não início, pelos dados comprova-se que crescimento e
apenas com relação à mão de obra usada no corte de cana-de- desenvolvimento não são sinônimos. Crescimento
açúcar, mas também nas contratações de trabalhadores econômico pode ser visto como uma das condições para o
alocados no plantio e tratos culturais dos canaviais. desenvolvimento, no entanto, isoladamente não assegura
a realização desse. Objetivamente, pelo índice FIRJAM as
Evolução da geração de riqueza e do desenvolvimento na
região
O Produto Interno Bruto (PIB) dos municípios que 6
O Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal varia numa escala
formam o Vale do São Patrício apresentaram um crescimento de 0 (pior) a 1 (melhor) para classificar o desenvolvimento
de 135%, entre 2001 e 2006, sendo que o PIB per capita humano. Estabelece quatro categorias: baixo (0 a 0,4), regular
cresceu 104% no mesmo período. Esse crescimento explica- (0,4001 a 0,6), moderado (de 0,6001 a 0,8) e alto (0,8001 a 1)
se pela renda injetada pelas usinas e pelo aumento de desenvolvimento municipal. Em 2005, a média brasileira do IFDM
arrecadação devido ao crescimento do comércio e ao foi de 0,7129 pontos.
aumento dos empregos formais (principalmente no setor 7
O indicador IFDM-Emprego&Renda acompanha as variáveis:
de prestação de serviços). Taxa de Geração de Emprego formal sobre o Estoque de
Os municípios com usina tiveram variação do PIB Empregados e sua Média Trienal; Saldo Anual Absoluto de
corrente no período estudado de 203%, enquanto naqueles Geração de Empregos; Taxa Real de Crescimento do Salário Médio
sem usinas a variação foi de 91%. Em relação ao PIB per Mensal e sua Média Trienal; e, Valor Corrente do Salário Médio
capita, municípios com usina tiveram variação de 212% Mensal.
entre 2001 e 2006, enquanto naqueles que não possuem O indicador IFDM-Educação acompanha as variáveis: Taxa de
usina a variação foi de 85%. Atendimento no Ensino Infantil; Taxa de Distorção Idade-série;
Enquanto no ano de 2001 o PIB per capita médio Percentual de Docentes com Curso Superior; Número Médio
das cidades com usina era de R$ 2.890, aqueles que não Diário de Horas-Aula; Taxa de Abandono Escolar; e, Resultado
possuíam usina tinham um PIB per capita médio de R$3.644. Médio no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica.
Em 2006 a situação se inverte, os municípios com usina O indicador IFDM-Saúde acompanha as variáveis: Quantidade
passam a ter PIB per capita médio de R$9.004 contra R$6.753 de Consultas Pré-Natal; Taxa de Óbitos Mal-Definidos; e, Taxa
daqueles sem usina. de Óbitos Infantis por Causas Evitáveis.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 317-329, 2011


Expansão canavieira no cerrado goiano... 327

cidades com presença de usinas não são mais predominância de uma cultura sobre as demais,
“desenvolvidas” que outras. configurando-se em exploração monocultora. Os canaviais
Com relação à variação no período estudado, hoje se impõem na paisagem na região, sendo essa a primeira
observa-se que na média do conjunto de municípios do e mais visível evidência do processo em curso.
Vale do São Patrício houve uma evolução de 20% do índice Revertidos em produção de álcool combustível,
IFDM, entre 2000 e 2005 - saindo de 0,52 para 0,62. A mesma essas extensas áreas de cultivos de cana-de-açúcar têm
variação (20%) foi verificada nos municípios sem usinas, contribuído para o crescimento econômico da região, o
tendo os municípios com usinas uma variação de 19%. que se confirma pelo aumento do PIB no conjunto do Vale,
Quanto ao IFDM-Emprego e Renda, o que se e ainda mais pelo maior avanço do PIB dos municípios que
verifica é que, tanto em 2000 quanto em 2005, os melhores sediam usinas.
índices são dos municípios sem usinas. Esse grupo de No entanto, esse crescimento econômico não tem
municípios inclusive apresenta índice de emprego e renda se revertido em melhores condições de vida para a
superior à média do Vale, nos dois períodos. população. Trata-se de um processo exógeno, que em nada
Enquanto os municípios que não possuem usina valoriza as potencialidades locais.
melhoraram 35% no indicador Emprego e Renda, entre 2000 Evidência de que se trata muito mais de crescimento
e 2005, os municípios com usina melhoraram 33%. do que de desenvolvimento é o fato de as cidades que não
No índice IFDM-Educação, ocorre a seguinte sediam usinas apresentaram melhores índices de
situação: os municípios com usinas têm melhor resultado, desenvolvimento social que aquelas com usinas. Isso
tanto em 2000 quanto em 2005, no entanto, a variação desse indica que a atividade das indústrias sucroalcooleiras
índice entre 2000 e 2005 para os municípios sem usina (35%) presentes nas localidades estudadas não consegue elevar
foi maior que a variação dos municípios com usina (26%) e a qualidade de vida das populações dos municípios onde
também do próprio Vale (33%) as mesmas estão sediadas.
E em relação ao IFDM-Saúde, os municípios sem Pelo estudo apreendeu-se ainda que está em curso
usinas estavam melhores em 2000, situação que se inverte no Vale do São Patrício um esvaziamento crescente do
em 2005, quando o grupo de municípios com usinas passa campo. Esse êxodo rural-urbano não se limita às famílias
a apresentar índices melhores que o outro grupo e superior que firmaram contratos de cessão de terras às usinas e se
à média do Vale. Nesse indicador, o índice médio do Vale mudam para a cidade, mas envolve também vaqueiros,
do São Patrício ficou praticamente inalterado no período – peões, retireiros e demais trabalhadores rurais antes ligados
apenas 4% de variação. Os municípios que têm usina às propriedades arrendadas e que passaram a compor
elevaram seus índices de saúde em 8% e municípios que reserva de mão de obra das usinas.
não as possuem em 3%. Ficou também evidente a queda relativa da
Em suma, a análise realizada mostra que são população total do Vale, que, no período estudado, cresceu
pertinentes as criticas à associação direta entre a taxas inferiores à média de crescimento demográfico
crescimento econômico e desenvolvimento. Oliveira (2002) verificado em Goiás e no Brasil. Isso pode evidenciar que
ressalta que desenvolvimento deve estar associado não as pessoas que deixaram o campo não têm conseguido se
só à mudanças e transformações de ordem econômica, mas manter nas cidades da região.
também política, humana e social. Nesse sentido é possível Corrobora com essa análise os dados sobre o total
afirmar que o crescimento econômico da região não se de empregos gerados no período estudado, mostrando que
traduziu em desenvolvimento. a oferta de trabalho no Vale foi bastante inferior à verificada
no Estado. Os recursos gerados pelas usinas não resultaram
4 CONCLUSÕES
em aumento de oportunidades de trabalho em volume capaz
A pesquisa realizada no Vale do São Patrício de atender à demanda. Ressalta-se que, mesmo nesse
permitiu a identificação, em diferentes aspectos, de conjunto insuficiente de oferta de emprego, os postos de
impactos gerados pela expansão canavieira, em torno das trabalho gerados no comércio de varejo têm sido
consequências diretas da expansão da cana-de-açúcar na crescentes, com ênfase para o setor de confecções.
região. Contrariando o discurso governamental que afirma
De início, tem-se a dimensão da expansão da cultura: que a cana-de-açúcar no Brasil não concorre com áreas de
cerca de 70% da área de culturas temporárias do Vale são produção de alimentos, as evidências encontradas na
hoje ocupados com cana-de-açúcar. Trata-se, portanto, da região estudada apontam para a diminuição de cultivos de

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 317-329, 2011


328 ÁVILA, S. R. S. A. de et al.

itens considerados essenciais na cesta básica. A redução CAZZELA, A. A.; BONNAL, P.; MALUF, R. (Org.).
pela metade das áreas das lavouras de arroz, feijão, milho e Agricultura familiar: multifuncionalidade e
mandioca, têm ocasionado alterações no abastecimento, desenvolvimento territorial no Brasil. Rio de Janeiro:
acesso e disponibilidade de alimentos. Mauad, 2009.
Assim, a expansão da exploração monocultora da
DAYRELL, E. G. Colônia agrícola nacional de Goiás:
cana-de-açúcar na região, associada a um modelo onde o análise de uma política de Colonização. 1974. Dissertação
poder se concentra nas usinas e desconfigura o tecido (Mestrado em Sociologia) - Universidade Federal de Goiás,
local, assemelha-se muito mais à lógica de intervenções Goiânia, 1974.
exógenas e ‘top-down’, que marcaram o período
desenvolvimentista. Como agravante, tal processo tem EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA. Resultados
levado à desconstrução de elementos necessários à preliminares 2009: Balanço Energético Nacional - BEN.
promoção do desenvolvimento do Vale do São Patrício. Disponível em: <[Link]
PressReleases/20090415_1.pdf>. Acesso em: 29 ago. 2009.
5 REFERÊNCIAS
FARIA, E. O desenvolvimento regional como estratégia
ALMEIDA, J. A problemática do desenvolvimento de desenvolvimento para o Brasil. Disponível em: <http://
sustentável. In: BECKER, D. F. (Org.). Desenvolvimento [Link]/colunas/faria/[Link]>. Acesso
sustentável: necessidade e/ou possibilidade? Santa Cruz em: 13 mar. 2009.
do Sul: EDUNISC, 1997. p. 17-26.
FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DO RIO
ALTAFIN, I. G. Sustentabilidade, políticas públicas e DE JANEIRO. IFDM índice Firjan de desenvolvimento
agricultura familiar: uma apreciação sobre a trajetória municipal. Disponível em: <[Link]
brasileira. 2003. Tese (Doutorado em Desenvolvimento 2005/Publicacao_IFDM2.pdf>. Acesso em: 8 jul. 2009.
sustentável) - Universidade de Brasília, Brasília, 2003.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E
AZEVEDO, J. R. N. de; THOMAZ JÚNIOR, A.; OLIVEIRA, ESTATÍSTICA. Censo Agropecuário 2006. Disponível em:
<[Link]
A. M. S. de. A nova ofensiva do capital canavieiro e os
agropecuaria/censoagro/2006/[Link]>. Acesso em:
desdobramentos para o trabalho no Pontal do 17 maio 2008.
Paranapanema e Alta Paulista. Geografia em Atos, São
Paulo, v. 1, n. 6, p. 10-16, dez. 2006. INSTITUTO SOCIEDADE, POPULAÇÃO E NATUREZA.
Cana-de-açúcar avança em áreas prioritárias para a
BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO conservação e uso sustentável do Cerrado. Brasília, 2008.
ECONÔMICO E SOCIAL. Impactos da indústria
canavieira no Brasil: poluição atmosférica, ameaça a OLIVEIRA, G. B. de. Uma discussão sobre o conceito de
recursos hídricos, riscos para a produção de alimentos, desenvolvimento. Revista da FAE, Curitiba, v. 5, n. 2, p. 37-
relações de trabalho atrasadas e proteção insuficiente à 48, maio/ago. 2002.
saúde de trabalhadores. Brasília: IBASE, 2008. Disponível
em: <[Link] Acesso em: 27 OLIVEIRA, G. B. de; SOUZA-LIMA, J. E. de. Elementos
endógenos do desenvolvimento regional: considerações
out. 2008. sobre o papel da sociedade local no processo de
desenvolvimento sustentável. Revista da FAE, Curitiba, v.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. RAIS. 2, n. 2, p. 29-37, maio/dez. 2003.
Disponível em: <[Link] Acesso
em: 13 maio 2009. PUTNAM, R. D. Comunidade e democracia: a experiência
da Itália moderna. Rio de Janeiro: FGV, 2007.
CAZELLA, A. A. As bases sociopolíticas do
desenvolvimento territorial: uma análise a partir da SANTOS, A. L. da S.; PEREIRA, E. C. G.; ANDRADE, L. de
experiência francesa. In: CONGRESSO DA SOCIEDADE H. C. A expansão da cana-de-açúcar no espaço Alagoano
BRASILEIRA DE ECONOMIA, ADMINISTRAÇÃO E e suas consequências sobre o meio ambiente e a identidade
SOCIOLOGIA RURAL, 46., 2008, Rio Branco. Anais... Rio cultural. Campo-Território: Revista de Geografia Agrária,
Branco: UFAC, 2008. 1 CD-ROM. Brasília, v. 2, n. 4, p. 19-37, ago. 2007.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 317-329, 2011


Expansão canavieira no cerrado goiano... 329

SCATOLIN, F. D. Indicadores de desenvolvimento: um SUNKEL, O.; PAZ, P. El sudesarrollo latinoamericano y la


sistema para o Estado do Paraná. Porto Alegre, 1989. teoría del desarrollo. México: Siglo XX, 1988.
Dissertação (Mestrado em Economia) – Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1989.
VEIGA, J. E. da. Diretrizes para uma nova política agrária.
SCHLESINGER, S. Agronegócio e bicombustíveis: uma In: BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Agrário.
mistura explosiva: impactos da expansão das monoculturas Reforma agrária e desenvolvimento sustentável. Brasília,
para a produção de bioenergia. Rio de Janeiro, 2006. Disponível 2000. p. 19-35.
em: <[Link]
biocomb_port.pdf>. Acesso em: 23 set. 2008.
WANDERLEY, M. de N. B. O camponês: um trabalhador
SILVA, J. G. da. Tecnologia e agricultura familiar. Porto para o capital. Cadernos de Difusão de Tecnologia, Brasília,
Alegre: UFRGS, 1999. 239 p. v. 2, n. 1, p. 13-78, jan./abr. 1985.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 317-329, 2011


330 EFICIÊNCIACAMARGO
ECONÔMICA
JÚ[Link]
A. [Link] SUCROALCOOLEIRO:
& OLIVEIRA. M. M. B. de
UMA ANÁLISE DE ALGUMAS USINAS DO ESTADO DE SÃO PAULO

Economic efficiency in the production of sugar and eethanol:


an analysis of several mills of São Paulo state

RESUMO
No atual cenário global de busca por alternativas mais limpas e mais eficientes de energia, o etanol brasileiro pode desempenhar papel de
grande importância não só internamente, mas também em nível internacional, na medida em que se apresenta como um biocombustível de alto
balanço energético, além dos sistemáticos ganhos de produtividade nas últimas décadas, principalmente no estado de São Paulo. Por este
trabalho, obtêm-se indicadores multicriteriais de eficiência empregando modelagem de análise envoltória de dados (DEA) para uma amostra
de 38 usinas no estado de São Paulo, com boa representatividade no universo de usinas no referido estado. Dados dos balanços patrimoniais
de 2006 como ativos permanentes, imobilizados e despesas figuram como variáveis de entrada, enquanto níveis de produção de cana moída,
receita bruta e lucro operacional são empregados como variáveis de saída na modelagem DEA. Uma posterior análise de clusters identificou
três grupos diferentes de usinas em relação à eficiência econômica. Mediante os testes de Kruskal-Wallis mostraram-se ser estatisticamente
significativas as diferenças entre os níveis de eficiência econômica e os três clusters, devido principalmente à diferenças nos níveis de
investimentos e alocação de ativos e não nas variáveis de resultado como produção de cana, receita bruta ou lucro operacional. Os resultados
da pesquisa podem representar utilidade e implicações práticas para gerentes no setor sucroalcooleiro no sentido de fornecer parâmetros para
comparações de desempenhos operacional e econômico entre usinas. Limitações e pesquisas futuras apresentam-se também.

Alceu Salles Camargo Júnior


Professor Doutor junto ao Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo
(FEA/USP)

Márcio Mattos Borges de Oliveira


Universidade de São Paulo, Faculdade de Economia Administração e Contabilidade, Departamento de Administração
mmattos@[Link]

Recebido em: 28/10/08. Aprovado em: 28/6/11


Avaliado pelo sistema blind review
Avaliador Científico: Ricardo Pereira Reis

ABSTRACT
In the current global trend to search cleaner and more efficient energy, the Brazilian ethanol can perform an important role, not only
internally but also in the international scenery, because it is revealing itself as a biofuel with very high energy balance and also because
its consistent productivity improvements in the last decades - mostly in São Paulo state. This work achieves multicriteriaL efficiency
indicators employing DEA (data envelopment analysis) modeling for a sample of 38 ethanol and sugar mills in São Paulo state. Data
from the 2006 financial balance sheets such as fixed and plant assets and expenses figure as entry variables, while sugarcane
production levels beyond the gross yield and gross operational profit are used as output variables according to the DEA modeling. A
cluster analysis identified three groups of mills with different economic efficiency levels. Kruskal-Wallis tests found significant
statistical differences among the efficiency of the three clusters due mostly to the differences among the levels of investment and
assets allocation and not due to the result variables such as sugarcane production, gross yield or operational profit. The results of this
research can represent a support or practical implications for managers of sugar and ethanol mills by supplying parameters in order
to make comparisons of the operational and economic performance among mills. Limitations and future researches are also presented.
Palavras-chave: Eficiência econômica, investimentos e resultados financeiros, produção de cana-de-açúcar, DEA (análise por
envoltória de dados).

Key-words: Economic efficiency, investments and profit results, sugarcane production, DEA (data envelopment analysis)

1 INTRODUÇÃO O Brasil e os Estados Unidos são hoje os grandes


produtores e também os grandes consumidores de etanol
O setor sucroalcooleiro brasileiro, constituído de como combustível líquido e, juntos, são responsáveis por
usinas de produção de açúcar e álcool, é conhecido quase 90% do consumo total de etanol no mundo nos
mundialmente pelos seus altos níveis de produtividade últimos anos (ENERGY INFORMATION
nos dois elos da cadeia produtiva, isto é, no cultivo e ADMINISTRATION - EIA, 2010). O contexto que se forma
colheita como também no processamento do açúcar e do a partir de uma tendência de alta nos preços do petróleo,
álcool e seus derivados. em conjunto com um arrefecimento da demanda por

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 330-343, 2011


Eficiência econômica no setor sucroalcooleiro... 331

combustíveis renováveis por conta do aquecimento global industrial. Algumas usinas adquirem sua cana a partir de
acaba por criar interesses e disposições por grande parte fornecedores, outras arrendam terras, enquanto outras
dos países em estabelecer metas e prazos para a utilização usinas têm preferido comprar e cultivar terras próprias,
crescente do uso de combustíveis menos poluentes de principalmente aquelas mais apropriadas para a
origem renovável em substituição àqueles de origem fóssil mecanização. Os fornecedores de cana para as usinas
(CENTRO DE GESTÃO E ESTUDOS ESTRATÉGICOS - também têm usado arrendamentos e, segundo Guedes,
CGEE, 2007; EIA, 2010; DINIZ, 2001; NEVES; CONEJERO, Terci e Peres (2007), a prática já estaria sendo aplicada por
2009; ZUURBIER; VOOREN, 2009). mais de 51% e 54% dos fornecedores de cana,
Com a forte tendência de substituição dos respectivamente, nas regiões de Ribeirão Preto e de
combustíveis fósseis por aqueles mais limpos provenientes Piracicaba.
da biomassa, o etanol brasileiro pode assumir uma grande Objetiva-se, neste trabalho, investigar as diferenças
responsabilidade não só internamente como também a de desempenho das usinas sucroalcooleiras em relação à
nível mundial. O contínuo avanço de produtividade obtido eficiência econômica, isso é, à eficiência com que as usinas
nos últimos anos é, pois, necessário para manter o sistema organizam sua produção e como realizam seus resultados
produtivo brasileiro como o mais eficiente e financeiros em consequência das decisões estratégicas e
economicamente viável. operacionais que tomam e de como alocam seus recursos
Vários estudos apontam a disparidade de eficiência financeiros e administrativos na produção.
operacional no setor sucroalcooleiro no Brasil. Mesmo A análise da eficiência econômica tem a vantagem
desconsiderando-se as maiores diferenças existentes entre de examinar e contrapor os grandes fluxos financeiros que
as duas tradicionais regiões produtoras que são o Nordeste envolvem, de um lado, os investimentos e despesas e, de
brasileiro e o estado de São Paulo, há ainda um grande outro, aqueles que representam os resultados com a
variabilidade na eficiência das usinas, mesmo no estado operação do negócio. Assim, a análise dessa pesquisa e
de São Paulo que produzem mais de 60% de toda a cana os resultados obtidos podem gerar implicações gerenciais
moída do Brasil e tem a colheita com maior índice de no sentido de proporcionar uma base de comparação para
mecanização do país (BACCARIN; GEBARA; BORGES, as usinas. Essas comparações podem ser importantes para
2010; BELIK; VIAN, 2002; FREDO et al., 2008; MACEDO, as usinas obterem uma avaliação de suas operações
2007; SHIKIDA; NEVES; REZENDE, 2002; VIAN, 2003). perante os desempenhos de outras usinas, principalmente
A colheita mecanizada da cana é viabilizada para aquelas que se constituem em benchmarkings, por
grandes extensões de terra que apresentem declividades apresentar altos padrões de eficiência econômica.
inferiores a 12° e, no estado de São Paulo, tem apresentado Para isto, a pesquisa utiliza-se do método de análise
um crescimento à taxa de 22% anuais entre os anos de envoltória de dados (DEA – Data Envelopment Analysis)
1997 e 2006. Dos cerca de 320 milhões de toneladas colhidas que busca encontrar índices de eficiência global para
na safra 2006/2007, aproximadamente 41% foi mecanizada unidades de análise de forma relativa, empregando
no estado de São Paulo havendo, contudo, uma grande modelagem de programação linear (HILLIER; LIEBERMAN,
dispersão entre os índices de mecanização no Estado. As 2005). A modelagem DEA estima indicadores relativos de
regiões de Ribeirão Preto, Franca e Fernandópolis atingem eficiência entre várias unidades produtoras num contexto
altos níveis de colheita mecanizada, variando de 50% a multicriterial, isso é, obtém um indicador de eficiência a
70% devido, entre outros fatores, à vantagem do terreno partir da consideração de vários fatores ou recursos de
mais plano, o que viabiliza uma maior operacionalização da entrada e também várias medidas de resultado (ou saída).
colheita mecanizada. As regiões ao centro do Estado Assim, a eficiência resultante pode ser compreendida como
apresentam índices abaixo da média, como Piracicaba, com uma medida holística que carrega no bojo um olhar
19,4% da colheita mecanizada na safra 2006/2007. As regiões multidimensional da organização e da gestão da operação
mais novas, como o Vale do Paraíba e o Centro-Oeste do sistema produtivo.
Paulista apresentam índices de mecanização abaixo de 30% A pesquisa emprega variáveis de investimento e
(BACCARIN; GEBARA; BORGES, 2010; FREDO et al., despesas para representar os recursos de entrada e receita,
2008). lucro operacional e quantidade de cana moída, do ano de
Por outro lado, há também uma disparidade entre 2006, como variáveis de resultado de uma amostra de 38
as usinas em relação às estratégias empregadas na usinas do estado de São Paulo como parâmetros para a
obtenção da cana para o posterior processamento modelagem DEA. A amostra apresenta boa

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 330-343, 2011


332 CAMARGO JÚNIOR. A. S. & OLIVEIRA. M. M. B. de

representatividade em relação ao universo de usinas em órgão do governo dos EUA, esse ritmo deverá elevar a
operação, na safra de 2005/2006, no estado de São Paulo. participação de 11,5% de combustíveis renováveis no total
Depois de obtidos os índices de eficiência com a de combustíveis líquidos no mundo, em 2007, para algo em
modelagem DEA, uma análise de clusters classificou as torno de 45% em 2035. A produção brasileira de etanol
usinas em três grupos com níveis diferenciados de deverá saltar dos 0,3 milhões de barris por dia para 1,6
eficiência. Testes não paramétricos de Kruskal-Wallis milhões de barris, por dia (EIA, 2010).
confirmaram diferenças significativas nas variáveis de Mesmo com uma considerável disparidade interna
entrada, mas não nas de saída, entre os clusters de em termos de estratégias de operação e produtividade, o
eficiência de usinas, mostrando ser, os investimentos e setor sucroalcooleiro brasileiro é conhecido mundialmente
despesas na operação e comercialização, as variáveis pelos seus altos níveis de produtividade nos dois elos da
preponderantes para, na distinção dos clusters de cadeia produtiva, tanto no cultivo e colheita da cana-de-
diferentes eficiências. Por fim, o estudo classifica as usinas açúcar como também no processamento do etanol.
em grupos de diferentes níveis de eficiência e resultado Com a forte tendência de substituição dos
operacional. Esses resultados apresentam implicações e combustíveis fósseis por aqueles mais limpos provenientes
utilidade gerencial, pois podem ser úteis para comparação de biomassa, o etanol brasileiro pode assumir uma grande
entre as usinas além da identificação de unidades responsabilidade, não só internamente, como também a
produtoras com os melhores desempenhos. nível mundial. Enquanto o cultivo de milho pode fixar
O texto está estruturado em cinco seções. A somente entre 15 e 40% do carbono empregado no ciclo
segunda seção traz a Revisão Bibliográfica, com uma total de produção e uso do combustível, o cultivo da cana-
discussão sobre a competitividade da produção brasileira de-açúcar pode fixar mais de 80% de todo o carbono
de etanol com a análise de progresso técnico, evoluções e utilizado no ciclo de produção e uso do etanol,
dinâmicas organizacionais dos últimos anos no setor apresentando, pois um desempenho ambiental bastante
sucroalcooleiro, além dos conceitos de eficiência superior (CGEE, 2009; TURNER; PECK; PEARSON, 2007).
econômica e sobre a metodologia DEA. A terceira apresenta O etanol brasileiro desponta como uma das
a discussão metodológica da pesquisa. A quarta traz a principais alternativas de biocombustíveis limpos, de
apresentação e discussão dos resultados, enquanto a grande qualidade e viabilidade econômica devido à sua
quinta fecha o artigo com as conclusões. alta eficiência, tanto no processamento industrial quanto
no balanço energético natural. A quantidade de energia
2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA renovável obtida com a produção de etanol, a partir da
Esta seção apresenta a revisão bibliográfica sobre cana-de-açúcar no Brasil, pode chegar a mais de oito vezes
a competitividade na operação de usinas do setor a energia usada, de origem fóssil, em todos os elos da
sucroalcooleiro brasileiro e também sobre a teoria e produção, isso é, na plantação e colheita da cana e também
modelagem de análise por envoltória de dados (DEA), no processamento do etanol. Esse alto desempenho é, pois,
empregada para a obtenção da eficiência multicritério, em bastante superior aos balanços energéticos na produção
sistemas de operações. de etanol a partir de outras matérias-primas como o milho
nos EUA, cuja relação está em torno de 1,5 ou de 2,0 a
2.1 Competitividade do Setor Sucroalcooleiro Brasileiro. partir de beterraba ou trigo na Europa (MACEDO, 2007).
O agravamento das condições climáticas do planeta A grande competitividade do etanol brasileiro não
em decorrência do aquecimento global e a consequente advém somente da superioridade no balanço natural de
busca de fontes energéticas limpas com menor emissão de energia, mas também dos ganhos de produtividade obtidos
gases de efeito estufa, além da atual elevação significativa sistematicamente na cadeia produtiva do etanol que acabam
do preço do petróleo são fatores que têm colaborado muito por possibilitar reduções de custo de produção. Os ganhos
para o aumento da demanda internacional por de produtividade na produção do etanol brasileiro são
biocombustíveis. provenientes tanto de avanços na agricultura como também
Enquanto o consumo mundial de combustíveis de inovações nos processos produtivos nas usinas. O
líquidos deve crescer à taxa de 0,9% ao ano, entre 2007 e processo de desregulamentação do setor, ocorrida nos
2035, o ritmo de crescimento de combustíveis renováveis anos 1990, acabou por motivar ainda mais a busca de
deverá apresentar uma taxa de 2,6% ao ano. Segundo as maiores produtividades. Pesquisas e inovações foram
projeções do EIA (Energy Information Administration), intensificadas por parte de fornecedores de sementes,

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 330-343, 2011


Eficiência econômica no setor sucroalcooleiro... 333

fertilizantes e defensivos agrícolas e de fornecedores de melhorias e lançamento de novos produtos, usos e


equipamentos e processos automatizados, além de buscas mercados, de rearranjos, fusões e aquisições, além de novos
por melhorias administrativas internas (BELIK; VIAN, investimentos, inclusive de capital de origem externa
2002; MELLO; PAULILLO, 2005; NEVES; TROMBIN; (BENETTI, 2009; CAMARGO et al., 2008; GUEDES;
CONSOLI, 2010; ROSILLO-CALLE; BAJAY; ROTHMAN, GIANOTTI, 2009; MELLO; PAULILLO, 2005; MILANEZ;
2005; SHIKIDA; NEVES; REZENDE, 2002; VIAN, 2003). BARROS; FAVERET FILHO, 2008; NASSAR et al., 2009;
Segundo Macedo (2007), os principais avanços de VIAN; LIMA; FERREIRA FILHO, 2007).
produtividade na década de 1980 e 1990 foram advindos Novas terras são procuradas, especialmente
principalmente pela introdução de novas variedades de aquelas com declives menores de 12° visando à viabilidade
cana no Brasil, pelo uso da vinhaça como fertilizante, pelo da colheita mecanizada, como regiões do Triângulo
desenvolvimento da moagem com quatro rolos e também Mineiro, Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná, além do
do emprego do bagaço da cana para gerar energia elétrica. próprio estado de São Paulo. A maior parte das expansões
Esses avanços persistiram por toda a década seguinte, das operações têm ocorrido no estado de São Paulo em
sendo que, entre os anos de 1990 e 2000, ocorreram direção às regiões Norte, Noroeste e Oeste, principalmente
melhorias e automatizações do processo produtivo e próximo às cidades de São José do Rio Preto, Barretos,
avanços na logística de cultivo. Evoluções na mecanização Votuporanga, Dracena, Tupã e Presidente Prudente. De
da colheita e no transporte da cana, bem como na co- 1995 a 2007, a área total destinada ao setor sucroalcooleiro
geração de energia elétrica também figuram como os aumentou em 70% no estado de São Paulo, passando dos
principais responsáveis pela escalada dos níveis de 2,26 para 3,9 milhões de hectares cultivados (CAMARGO
produtividade. Entre 1975 e 2000, estima-se um ganho de et al., 2008; NASSAR et al., 2009).
produtividade em torno de 130% no processo de Como consequência desses movimentos, muitas
fermentação do etanol e de 33% na parte agrícola empresas estrangeiras também têm se interessado pela
(MACEDO, 2007). produtividade do etanol brasileiro e têm encontrado nas
O custo de produção do etanol nas usinas mais fusões, aquisições, parcerias para pesquisa, joint-ventures,
eficientes no Brasil é de aproximadamente US$ 0,20 por suas estratégias de entrada para operações no Brasil. Entre
litro em 2004 e, portanto, bastante inferior ao custo do elas, temos as francesas Louis Dreifrus e Tereos, as
etanol de milho (US$ 0,33) produzido nos Estados Unidos japonesas Mitsui e Mitsubishi Corporation, as norte-
e ao custo do etanol de trigo (US$ 0,38) ou beterraba (US$ americanas ADM (Archier Daniels Midland), Cargill,
0,52) produzido na Europa (BAKE et al., 2009; CGEE, 2004; Amyris, Adecoagro e Globex e as inglesas Evergreen e
MACEDO, 2005). Infinity Bio-Energy. Num desses projetos, a Amyris e a
Por outro lado, novas estratégias organizacionais SantaElisa Vale S.A. buscam desenvolver e produzir diesel
e comerciais visam a tornar as operações mais produtivas a partir de etanol, empregando processos bioquímicos
e sustentáveis, principalmente depois da específicos (BENETTI, 2009; RAMOS et al., 2008).
desregulamentação do setor, nos anos 1990. Entre elas, Financiando boa parte desses movimentos, os
encontramos a diferenciação de produtos, diversificação investimentos aprovados pelo BNDES (Banco Nacional
da produção, cooperações, fusões e aquisições, bem como de Desenvolvimento Econômico e Social) para o setor
estratégias de responsabilidade social e ambiental, de sucroalcooleiro totalizaram cerca de R$ 9,95 bilhões de reais,
melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores, de entre os anos 2004 e 2008. A participação desses
racionalização do uso da terra e da água e mitigação dos investimentos em relação ao total anual do BNDES reflete
efeitos da mecanização da colheita (BELIK; VIAN, 2002; o aquecimento e expansão do setor, tendo evoluído de
MELLO; PAULILLO, 2005; NEVES; TROMBIN; CONSOLI, 1,24%, em 2004 para 5,64%, em 2008. Cerca de 87% desses
2010; VIAN; LIMA; FERREIRA FILHO, 2007). investimentos foram direcionados para expansão e
Sustentado pelos contínuos ganhos de implantação de novas unidades produtoras do setor
produtividade e motivado pelo sucesso do carro flex, sucroalcooleiro e direcionados em grande parte (70%) para
lançado no Brasil em 2003, e pelas expectativas de adoção o estado de São Paulo, seguido por Minas Gerais, Paraná
do etanol como uma commodity em nível internacional para e Goiás. Por outro lado, as inversões externas diretas no
substituir ou ser adicionado à gasolina em escala mundial, setor sucroalcooleiro brasileiro atingiu a cifra média de
o setor sucroalcooleiro brasileiro tem experimentado uma US$ 619 milhões anuais, entre os anos de 200 e 2006,
nova dinâmica nos negócios, com expansões de operações, representando 27,5% de toda a entrada de investimento

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 330-343, 2011


334 CAMARGO JÚNIOR. A. S. & OLIVEIRA. M. M. B. de

no setor de alimentos e bebidas brasileiro, no período níveis máximos de produção dada uma certa restrição de
considerado (GUEDES; GIANOTTI, 2009; MILANEZ; emprego de recursos ou fatores de produção (variáveis de
BARROS; FAVERET FILHO, 2008). entrada) (HILLIER; LIEBERMAN, 2005). Esse relaxamento,
de restrições e pressupostos, dá grande vantagem às
2.2 Eficiência Econômica e a Análise por Envoltória de
técnicas não paramétricas para análise de eficiências,
Dados (DEA).
empregando estudo de fronteiras.
A modelagem por análise envoltória de dados A abordagem DEA baseada nos recursos (inputs)
(DEA) é empregada para medir-se a eficiência de uma forma busca maximizar as quantidades de resultados, isso é,
global ou multidimensional de um processo ou sistema de maximizar uma combinação linear das quantidades dos
produção e, nesse sentido, tem condição de analisar a vários resultados ou produção. A modelagem busca
eficiência numa forma holística, mais abrangente. A encontrar os pesos para cada resultado (e também para
modelagem DEA pode, pois, analisar a eficiência global cada recurso empregado nas atividades produtivas e de
proveniente de um conjunto de resultados operacionais e gestão) de forma que a combinação linear dos produtos
econômicos como consequências da gestão e estratégias seja máxima. Além disso, faz-se a restrição de que, com
de operação. A modelagem considera, por outro lado, esses pesos encontrados, as eficiências de cada uma das
simultaneamente, também um conjunto de recursos (de unidades produtoras não sejam superiores que a unidade
entrada) produtivos e administrativos na operação (RETZLAFF-ROBERTS, 1996).
expandindo, pois, a forma mais comum e tradicional de Assim, obtém-se, para cada usina da amostra, uma
análise de eficiência que considera somente uma variável família de pesos que faz com que sua eficiência seja máxima
de entrada e uma de saída (CHARNES; COOPER; RHODES, e comparar tal eficiência com as demais usinas,
1978). simplesmente pela utilização desses mesmos pesos. O
Uma das formas mais utilizadas para medidas de método obtém medidas relacionadas de eficiências entre
eficiência de empresas ou setores industriais quando há a as várias unidades produtoras na amostra. Apesar de os
análise conjunta de muitos recursos empregados e muitos valores das eficiências se alterarem quando uma nova
produtos ou resultados é o levantamento da fronteira unidade produtiva é considerada na amostra, as relações e
eficiente usando-se para isso as próprias funções de as diferenças se mantêm na modelagem DEA. Assim, o
produção das empresas. A fronteira apresenta as máximas conjunto de unidades produtoras mais eficientes se mantém
possibilidades de produção dados um conjunto fixado de discriminado do conjunto de unidades ineficientes, de forma
recursos empregados. Empresas ou organizações que não que as comparações relativas de eficiência entre as
atingem a fronteira são consideradas ineficientes, na unidades não se alteram (NUNAMAKER, 1985).
medida em que poderiam obter mais resultados com a Em seu modelo seminal, Charnes, Cooper e Rhodes
mesma quantidade alocada de recursos ou, por outro lado, (1978) levantam a eficiência operacional (hs) de uma empresa
poderiam continuar obtendo as mesmas quantidades de s, conforme apresentada na expressão 2.1.
produtos ou resultados, com uma menor quantidade de
recursos empregados. m
As abordagens paramétricas de obtenção de
fronteiras eficientes requerem, segundo Pastor, Pérez e
u y
i 1
i is
hs  n (2.1)
Quesada (1997), que se façam proposições a respeito dos
modelos e das variáveis utilizadas para representação das  v j x js
j 1
funções de produção e de custos das unidades produtoras
ou setores industriais analisados, como as funções
tecnológicas de Cobb-Douglas, comumente empregadas onde:
(ALI; NAKOSTEEN, 2005). yis representam as quantidade de cada uma das m variáveis
As técnicas não paramétricas, como a modelagem de saída (resultado) da usina s;
DEA, permitem a obtenção da fronteira eficiente sem a xjs representam as quantidades de cada uma das n variáveis
necessidade de pressupostos sobre as variáveis ou de entrada (recurso) da usina s;
funções de produção e/ou de custo. São modelagens ui são os pesos para cada um dos m resultados da usina s;
baseadas em programação matemática de onde se obtêm vj são os pesos de cada um dos n recursos de entrada,
as unidades eficientes, na medida em que se apresentam empregados na produção da usina s.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 330-343, 2011


Eficiência econômica no setor sucroalcooleiro... 335

A modelagem CCR busca, então, encontrar os do balanço patrimonial do ano de 2006 e de produção de
valores de cada um dos ui e dos vj para os quais a eficiência cana na safra de 2005/2006 de 38 usinas paulistas de
hs da usina seja máxima. Contudo, faz-se necessária a produção de açúcar e álcool. Depois de ter acesso a dados
restrição de que a eficiência para cada uma das N usinas financeiros de 56 usinas do estado de São Paulo, a pesquisa
(inclusive a própria usina s) da amostra seja menor que a identificou que somente 38 usinas apresentavam as
unidade quando empregada a família de pesos ui e vj informações financeiras necessárias, por completo, para a
encontradas para a usina s. Tal restrição é apresentada na pesquisa.
expressão 2.2: Há usinas de capital aberto na amostra, mas a
amostra não é constituída somente de usinas de capital
m
aberto. Apesar de a seleção da amostra ter um caráter de
u y i ir
conveniência (HAIR JÚNIOR et al., 2005; MALHOTRA,
hr  i 1
1 (2.2)
n 2001; NEWBOLD, 1995), ela apresenta boa
v j 1
j x jr representatividade em termos de produção média de cana
moída, pois, conforme a Tabela 1, a produção média das
usinas em nossa amostra é de 2.127.944 toneladas, um
para toda e qualquer usina r, sendo r=1,2...,N. pouco superior quando comparada à média total do estado
Para que o valor da eficiência de cada uma das N de 2.065.000, na safra de 2005/2006, considerando o total
usinas da amostra sejam números entre 0 e 1 e como artifício de, aproximadamente, 285 milhões de toneladas produzidas
para a linearização da modelagem, há a necessidade de por 138 usinas no estado de São Paulo naquela safra
uma outra restrição. É preciso, com relação à combinação (INSTITUTO DE ECONOMIAAGRÍCOLA - IEA, 2010).
linear dos custos ou das utilizações dos recursos de Desta forma, a amostra da pesquisa, abrangendo
entrada, que essa igual à unidade para a usina s em análise, 27,5% do total de 138 usinas que operaram na safra de
conforme expressão 2.3. 2005/2006 no estado de São Paulo, apresenta boa
representatividade com pequeno viés de alta, isto é, é
n
constituída por usinas com níveis de produção um pouco
v x
j 1
j js 1 (2.3)
superiores à media geral do estado de São Paulo, naquela
safra.
Uma análise de correlação auxiliou na seleção das
Charnes, Cooper e Rhodes (1978) desenvolveram a
variáveis de forma que os pares de variáveis de entrada e
modelagem DEA linearizada conhecida por CCR e
saída tivessem fortes correlações. Assim, as variáveis de
apresentada na expressão 2.4.
entrada (input) selecionadas para representar, na
m modelagem DEA, os esforços e recursos empregados na
Maximizar hs   u i y is produção são:
i 1 • Ativo Total Circulante (ATIVOC);
m n • Ativo Total Permanente (ATIVOP);
Sujeito a u y i ir   v j x jr  0 ; r  1,..., N ; • Ativo Imobilizado (IMOBIL);
i 1 j 1 • Máquinas, Equipamentos e Ferramentas
(2.4) (MAQEQUIP);
• Despesas Administrativas (DESPADMI).
n
Assim, a alocação de recursos (entradas) fica
v x
j 1
j js 1 representada pelas duas principais dimensões, isso é, o
histórico de investimentos representado pelas três
variáveis de Ativos e os fluxos com aquisições e despesas
ui , v j  0 i  1,..., m; j  1,....n com máquinas, equipamentos e ferramentas e também com
Despesas Administrativas.
Por outro lado, figuram como variáveis de saída
3 MÉTODO DE PESQUISA
(output):
Para a obtenção dos indicadores de eficiência • Nível de Produção (cana moída em toneladas)
global, pela modelagem DEA, a pesquisa utilizou variáveis (PRODUÇÃO);

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 330-343, 2011


336 CAMARGO JÚNIOR. A. S. & OLIVEIRA. M. M. B. de

• Receita Bruta (RECEITAB); índices de eficiência econômica para cada uma das 38
• Resultado Operacional Bruto (RESULTAD). usinas podem ser observados na Tabela 2.
As dimensões de saída são representadas por duas
importantes dimensões e etapas no ciclo de operação, isso
TABELA 2 – Índices de Eficiência das 38 usinas paulistas
é, as dimensões física e econômica. Enquanto a dimensão
de açúcar e álcool.
econômica captura os fluxos das receitas e lucros
financeiros finais do ciclo produtivo todo, a física mede a Usinas Eficiência Usinas Eficiência
cana moída por cada usina, uma medida importante de Usina 1 100,0% Usina 20 68,6%
resultado intermediário entre os elos agrícola e industrial. Usina 2 100,0% Usina 21 68,5%
A receita bruta está relacionada, dentre outros aspectos, Usina 3 100,0% Usina 22 67,2%
às estratégias de tamanho e à capacidade da usina em
Usina 4 100,0% Usina 23 67,1%
vender e comercializar açúcar e álcool e/ou outros produtos
derivados e também à sua competitividade em disputar Usina 5 100,0% Usina 24 66,6%
fatias de mercado em cooperação ou não. Por outro lado, o Usina 6 100,0% Usina 25 66,6%
resultado operacional bruto é o resultado final da usina e Usina 7 100,0% Usina 26 62,3%
acaba por evidenciar o sucesso ou não de estratégias ou Usina 8 100,0% Usina 27 60,7%
habilidades da usina em operacionalizar seu lucro, depois Usina 9 100,0% Usina 28 56,2%
de cobrir os custos totais de produção. Esses custos são Usina 10 98,3% Usina 29 55,8%
inerentes à cada decisão ou estratégia diferenciada de Usina 11 86,5% Usina 30 54,4%
operação que pode considerar ou não o uso de terras
Usina 12 85,9% Usina 31 54,3%
próprias ou arrendamento, diferentes níveis de
mecanização tanto no elo agrícola quanto no industrial, e Usina 13 84,3% Usina 32 54,2%
diferentes despesas operacionais, administrativas e de Usina 14 83,6% Usina 33 51,3%
vendas. Usina 15 81,0% Usina 34 49,8%
Usina 16 76,9% Usina 35 47,1%
4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO
DE RESULTADOS Usina 17 76,7% Usina 36 46,8%
Usina 18 75,7% Usina 37 44,2%
A Tabela 1 apresenta uma análise descritiva dos Usina 19 75,0% Usina 38 18,4%
dados para as variáveis de entrada e de saída para a
Fonte: Elaborada pelos autores.
modelagem DEA, para a amostra de 38 usinas paulistas
desta pesquisa. Na sequência, a Figura 1 apresenta a
distribuição desses dados em gráficos do tipo box-plot. Com o objetivo de segmentar a amostra em três
Depois da implementação da modelagem DEA com grupos de diferentes níveis de eficiência econômica,
a rotina Solver da planilha MS-Excel, os resultados para os procedeu-se a uma análise de cluster (HAIR JÚNIOR et al.,

TABELA 1 – Resumo descritivo dos dados das variáveis de entrada e de saída para a amostra de 38 usinas paulistas
desta pesquisa.
Variáveis Mediana Média Desvio-Padrão
Ativo Circulante (R$) 48.466.500 70.583.185 64.741.259
Ativo Permanente (R$) 86.670.000 118.682.142 108.951.296
Imobilizado (R$) 60.596.500 93.784.613 82.186.080
Máquinas e Equipamentos (R$) 33.149.205 59.090.765 66.156.720
Despesas Administrativas (R$) 7.972.000 11.698.778 11.101.623
Receita Bruta (R$) 117.669.751 165.761.881 139.058.805
Resultado Operacional Bruto (R$) 27.899.404 41.314.966 44.652.659
Produção (cana moída - em t) 1.703.835 2.127.944 1.481.623
Fonte: Elaborada pelos autores.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 330-343, 2011


Eficiência econômica no setor sucroalcooleiro... 337

R$ (em R$ 1.000) Em seguida, a pesquisa procedeu a uma análise do


350.000 comportamento das variáveis de entrada e saída,
300.000
empregadas na modelagem, discriminadas pelos três
clusters de usinas com desempenhos ou eficiências
250.000 econômicas diferentes. A Figura 3 apresenta as
distribuições dos níveis de produção em cada um dos três
200.000
clusters de usinas, em que pode-se observar que os níveis
150.000 de produção dos três clusters parecem similares em termos
medianos.
100.000

50.000
PRODUÇÃO (em t)
0
N= 38 38 38 38 38 38 38 5.000.000
ATIVOC IMOBIL DESPADMI RESULTAD
ATIVOP MAQEQUIP RECEITAB
4.000.000
FIGURA 1 – Representação gráfica em Box-Plot dos dados
financeiros da amostra da pesquisa.
Fonte: Elaborada pelos autores. 3.000.000

1998; JOHNSON; WICHERN, 1998) que classificou as 38 2.000.000


usinas em três grupos diferenciados em relação aos índices
de eficiência. O grupo das usinas com os maiores índices
de eficiência apresentou média de 95,6%, enquanto o grupo 1.000.000
com os menores índices apresentou média de 48,4% de 0
eficiência. O terceiro grupo, com níveis intermediários de N= 14 13 11
PRODUTIV. PRODUTIV. PRODUTIV.
eficiência, apresentou média de 70,2%. A Figura 2, obtida
ALTA MÉDIA BAIXA
com o software SPSS, apresenta a distribuição da eficiência
em cada um dos três clusters obtidos. FIGURA 3 – Representação gráfica da distribuição dos
níveis de produção das usinas da amostra, classificadas
em relação aos três clusters.
EFICIÊNCIA Fonte: Elaborada pelos autores.

100% Na sequência, as Figuras 4 e 5 apresentam,


respectivamente, as variáveis financeiras de saída e de entrada
80% (da modelagem DEA) para a amostra da pesquisa, nos três
clusters de eficiência. Na Figura 4 mostra-se que os níveis
60% medianos das receitas e dos resultados econômicos são
bastante similares entre os três clusters, e também para a
40% produção, a outra variável de saída. Assim, podemos observar,
pelas Figuras 3 e 4, que as variáveis de saída (produção,
20% 38 receita e resultados econômicos) não são, aparentemente, as
0 que diferenciam as eficiências econômicas das usinas.
N= 14 13 11 Testes não paramétricos de Kruskal-Wallis (CONOVER,
PRODUTIV. PRODUTIV. PRODUTIV.
ALTA MÉDIA BAIXA 1999; NEWBOLD, 1995; SIEGEL, 1977) foram implementados e
comprovam as diferenças como estatisticamente significativas
FIGURA 2 – Representação gráfica da distribuição dos em todas as variáveis de entrada e também nos próprios índices
índices de eficiência nos três clusters. de eficiência, quando comparadas entre os três clusters de
Fonte: Elaborada pelos autores. eficiência, conforme Tabela 3. O teste não aponta diferenças

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 330-343, 2011


338 CAMARGO JÚNIOR. A. S. & OLIVEIRA. M. M. B. de

R$ TABELA 3 – Resultados do teste de Kruskal-Wallis, para


500.000.000 as variáveis das usinas, nos três clusters de eficiência.
Variáveis Chi-Square df Asymp. Sig.
400.000.000
ATIVOC 5,655344 2 0,059150†
ATIVOP 6,383398 2 0,041102*
300.000.000
IMOBIL 7,592295 2 0,022457*
MAQEQUIP 10,09719 2 0,006418**
200.000.000
DESPADMI 10,07263 2 0,006498**
100.000.000
RECEITAB 3,353812 2 0,186951
RESULTAD RESULTAD 3,7178 2 0,155844
0 RECEITAB PRODUÇÃO 0,124167 2 0,939804
N = 14 14 13 13 11 11
PRODUTIV. PRODUTIV. PRODUTIV. EFICIÊNCIA 33,23353 2 6,07E-08***
ALTA MÉDIA BAIXA
† sign < 0,10 * sign < 0,05 ** sign < 0,01 ***sign< 0,001
FIGURA 4 – Representação gráfica da distribuição dos Fonte: Elaborada pelos autores.
níveis de resultado e receita bruta das usinas da amostra,
classificadas em relação aos três clusters.
equipamentos e despesas administrativas, já que não há
Fonte: Elaborada pelos autores.
distinção dos níveis das variáveis de saída entre as usinas dos
diferentes clusters de eficiência.
R$ Desta forma, os valores das variáveis de ativos,
500.000.000 despesas e investimentos, na Figura 5 podem, pois, ser úteis
para se distinguir ou discriminar as usinas em cada um dos
400.000.000 três clusters, isso é, em relação aos diferentes níveis de
eficiência econômica. É nesse sentido que os resultados dessa
pesquisa podem ser bastante úteis para classificar uma usina
300.000.000
qualquer, em termos de sua eficiência econômica bastando,
DESPADMI
para isso, conhecer os valores dos ativos permanentes,
200.000.000 imobilizados e de despesas e investimentos, conforme a Figura
MAQEQUIP
5. Para que a usina seja classificada como eficiente, seus níveis
ATIVOC
100.000.000 de imobilizados, despesas e investimentos devem ser
IMOBIL pequenos, isso é, devem situar-se próximos daqueles níveis
0 ATIVOP mais baixos, na Figura 5, relativos aos clusters de alta eficiência.
N = 14 14 14 14 14
PRODUTIV.
13 13 13 13 13
PRODUTIV.
11 11 11 11 11
PRODUTIV.
Estes resultados da pesquisa expressam um padrão
ALTA MÉDIA BAIXA de eficiência entres as usinas que pode ser compreendido
FIGURA 5 – Representação gráfica da distribuição de mais em termos de decisões e estratégias de alocação de
algumas das variáveis financeiras da pesquisa das usinas recursos (variáveis de entrada) do que em termos daquelas
da amostra, classificadas em relação aos três clusters. decisões e estratégias mais relacionadas à comercialização
Fonte: Elaborada pelos autores. e realização de lucro. É importante notar que esses
resultados e esse padrão podem estar revelando a alocação
muito maior de equipamentos e ativos imobilizados, como
significativas nas variáveis de resultado (saída), para as usinas
entre os três clusters. terra, por exemplo, por parte de algumas usinas que
Os resultados dos testes de Kruskal-Wallis deixam claro acabaram sendo classificadas como ineficientes quando
que as usinas têm eficiências econômicas diferentes, não em comparadas com a utilização dos mesmos recursos por
relação às variáveis de saída (produção, receita e resultados usinas classificadas como eficientes.
econômicos), mas sim em relação às variáveis de entrada como A Figura 6 apresenta a classificação das usinas num
os ativos, imobilizados, despesas e investimentos. As usinas gráfico em que a eficiência e os lucros (resultados
mais eficientes são as que apresentam valores menores de operacionais) estão apresentados, respectivamente, nos
ativos, imobilizados, investimentos em máquinas e eixos das abcissas e das ordenadas. O gráfico classifica as

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 330-343, 2011


Eficiência econômica no setor sucroalcooleiro... 339

usinas em quatro grupos quanto aos seus desempenhos TABELA 5 – Eficiência e Resultado Operacional Bruto de
em termos de resultados operacionais e eficiência. A Usinas do Grupo II.
segmentação foi obtida usando-se as medianas de 71,8%
Resultado
e de R$ 27.899.403, respectivamente, para a eficiência e Usinas Eficiência
Oper. Bruto
para o resultado operacional. Esse mapeamento pode ser
útil para comparação entre as usinas e identificação nos Usina 2 100,00% 26.721.000
quadrantes (grupos) e pode ser usado por uma usina Usina 9 100,00% 10.252.201
qualquer para encontrar seu posicionamento em relação Usina 6 100,00% 7.298.000
ao mapeamento de eficiência e resultado operacional. Usina 3 100,00% 16.618.000
As Tabelas 4, 5, 6 e 7 apresentam os valores dos Usina 10 98,33% 7.947.000
resultados operacionais brutos e dos índices de eficiência Usina 11 86,53% 12.552.000
para as usinas em cada um dos quatro grupos identificados Usina 13 84,32% 5.098.000
pela classificação da Figura 6.
Usina 14 83,58% 7.238.000
Usina 16 76,92% 6.181.000
250.000.000 Resultado Op.
Bruto
Usina 17 76,71% 18.825.000
Usina 37
Usina 19 74,98% 9.093.104
200.000.000 Usina 7
Média 89,2% 11.620.300
Grupo I Desvio-Padrão 10,6% 6.614.746
150.000.000
Usina 15
Fonte: Elaborada pelos autores.
Grupo III
Usina 38 Usina 1
100.000.000 Usina 22 Usina 4
Usina 32 Usina 5 TABELA 6 – Eficiência e Resultado Operacional Bruto de
Usina 36 Usina 18 Usina 8
50.000.000 Usinas do Grupo III.
Usina 35 Usina 12
Grupo II Resultado
Grupo IV Usina 28 Usina 20 Usinas Eficiência
0 Oper. Bruto
0,00% 20,00% 40,00% 60,00% 80,00% 100,00%
Produtividade Usina 22 67,15% 76.529.000
FIGURA 6 – Classificação das usinas em relação à eficiência Usina 24 66,58% 33.504.000
e resultado operacional bruto. Usina 25 66,56% 55.092.000
Fonte: Elaborada pelos autores. Usina 26 62,29% 42.122.000
Usina 29 55,78% 43.865.000
TABELA 4 – Eficiência e Resultado Operacional Bruto de Usina 32 54,17% 60.259.433
Usinas do Grupo I. Usina 34 49,82% 41.245.299
Resultado Usina 35 47,13% 31.236.000
Usinas Eficiência Usina 36 46,84% 51.540.000
Oper. Bruto
Usina 7 100,00% 184.136.000 Usina 37 44,18% 204.382.000
Usina 1 100,00% 43.748.000 Usina 38 18,35% 98.888.000
Usina 4 100,00% 38.071.000 Média 52,6% 67.151.157
Usina 5 100,00% 34.766.642 Desvio-Padrão 14,2% 49.624.540
Usina 8 100,00% 32.320.000 Fonte: Elaborada pelos autores.
Usina 12 85,88% 28.948.378
As usinas do Grupo I apresentam os melhores
Usina 15 81,03% 127.964.394
desempenhos tanto em relação aos níveis de eficiência
Usina 18 75,67% 43.205.000 quanto em termos de resultado operacional enquanto as
Média 92,8% 66.644.927 usinas do Grupo IV apresentam os menores níveis de
Desvio-Padrão 10,3% 57.408.130 eficiência e também de resultado operacional. Os Grupos
Fonte: Elaborada pelos autores. II e III são constituídos de usinas com desempenhos

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 330-343, 2011


340 CAMARGO JÚNIOR. A. S. & OLIVEIRA. M. M. B. de

intermediários, isso é, as usinas do Grupo II apresentam estatísticos mostraram ser as variáveis econômicas relativas
altos níveis de eficiência, porém resultados operacionais aos investimentos em equipamentos e máquinas, ativos
relativamente menores e aquelas do Grupo III apresentam imobilizados e despesas administrativas como
bons desempenhos em termos de resultados operacionais, preponderantes para a distinção entre grupos de usinas
porém níveis relativamente menores de eficiência. mais e menos eficientes, já que os níveis das variáveis de
resultados mostraram-se bastante similares ente os clusters
TABELA 7 – Eficiência e Resultado Operacional Bruto de de diferentes eficiências. Esses resultados apresentam
Usinas do Grupo IV. implicações e utilidades gerenciais no sentido de fornecer
aos gestores de usinas parâmetros para obterem uma
Resultado medida da eficiência econômica de suas operações com
Usinas Eficiência
Oper. Bruto base principalmente em suas alocações de recursos como
Usina 20 68,62% 15.700.838 investimentos em equipamentos e máquinas, ativos
Usina 21 68,49% 24.613.000 imobilizados e despesas administrativas.
Usina 23 67,09% 23.931.000 Pelos resultados dessa pesquisa aponta-se para um
Usina 27 60,75% 26.850.429 padrão que revela que a usina ineficiente é aquela com
maiores quantidades de recursos alocados, de
Usina 28 56,23% 9.023.000
equipamentos e ativos imobilizados como terra, por
Usina 30 54,36% 26.000.000 exemplo, quando comparadas às alocações das usinas
Usina 31 54,29% 23.218.000 eficientes. Nesse contexto, surge uma questão, como
Usina 33 51,27% 20.987.000 decorrência dos resultados da pesquisa. A maior
Média 60,1% 21.290.408 quantidade de ativos e investimentos alocados representa,
Desvio-Padrão 7,1% 6.055.065 na verdade, uma fonte de ineficiência por razões de
Fonte: Elaborada pelos autores. subutilização ou mesmo de baixa produtividade da usina
ou, por outro lado, estaria representando o resultado de
dinâmicas de investimentos e expansões por parte de
5 CONCLUSÕES algumas usinas. Esse pode ser um questionamento
O setor sucroalcooleiro brasileiro tem experimentado importante para pesquisas futuras objetivando-se estudar
uma demanda crescente por etanol para uso como a evolução da eficiência de usinas paulistas num horizonte
combustível líquido devido basicamente aos sistemáticos maior de tempo, inclusive antes e depois da safra de 2005/
ganhos de produtividade, devido também aos sucessivos 2006, analisada aqui.
aumentos no preço do petróleo e à tendência de substituição Outros estudos poderiam, além de medir as
crescente de combustíveis de origem fóssil por aqueles de eficiências econômicas e mapeá-las ao longo do tempo
fontes renováveis e menos poluentes. A intensificação da para monitorar e compreender possíveis ciclos e dinâmicas
demanda pelo etanol brasileiro em nível mundial depende, de expansões, investimento e eficiência, expandir essa
entre outros fatores, da continuidade nos avanços pesquisa para outras regiões do país. Ainda, outras
tecnológicos e também de estratégias eficientes de operação variáveis poderiam ser empregadas na modelagem DEA
e comercialização das usinas brasileiras. para representar outras dimensões como a área de cultivo,
Neste trabalho, levanta-se a eficiência econômica o número de trabalhadores, operações e contratos para a
para uma amostra de 38 usinas do estado de São Paulo. A exploração da terra, variedades e medidas relacionadas ao
eficiência econômica é obtida pela análise por envoltória tipo de tecnologia usada para a colheita e também para a
de dados (DEA), numa visão holística que considera várias moagem da cana.
medidas de resultados provenientes da operação das Por outro lado, estudos podem considerar também
unidades produtoras como consequências dos empregos outras variáveis para representar resultados importantes
de vários recursos produtivos e administrativos. como as relacionadas ao balanço social e ambiental da
Pelos resultados da pesquisa mostra-se uma usina. Benefícios advindos da atividade de cogeração de
disparidade de eficiência econômica na amostra de 38 energia elétrica, de programas sociais e qualidade de vida
usinas da pesquisa que, submetidos a uma análise de no trabalho certamente podem trazer novas dimensões aos
clusters, apontaram a classificação das 38 usinas em três índices de eficiência e melhorar sua mensuração e
clusters de diferentes níveis de eficiência. Testes representatividade.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 330-343, 2011


Eficiência econômica no setor sucroalcooleiro... 341

6 REFERÊNCIAS ______. Estudo prospectivo de solo, clima e impacto


ALI, A. I.; NAKOSTEEN, R. Ranking industry performance ambiental para o cultivo da cana-de-açúcar e análise
in US. Socio-Economic Planning Sciences, v. 39, n. 1, p. técnica/econômica para o uso do etanol como combustível:
11-24, 2005. fase 3 relatório final. São Paulo, 2007. Disponível em: <http://
w w w. c g e e . o r g . b r / b u s c a / C o n s u l t a P r o d u t o
BACCARIN, J. G.; GEBARA, J. J.; BORGES, J. C. Avanço [Link]?f =1&id Produto=3984>. Acesso em: 24
da mecanização canavieira e alterações na composição, fev. 2011.
na ocupação, na sazonalidade e na produtividade do
trabalho em empresas sucroalcooleiras, Estado de São CHARNES, A.; COOPER, W. W.; RHODES, E. Measuring
Paulo. Informações Econômicas, São Paulo, v. 40, n. 9, the efficiency of decision making units. European Journal
p. 1-10, 2010. Disponível em: <[Link] of Operational Research, Dordrecht, v. 2, p. 429-444, 1978.
out/[Link]?codTexto=11979>. Acesso em: 2 mar.
2011. CONOVER, W. J. Practical nonparametric statistics. New
York: J. Wiley, 1999.
BAKE, J. D. V. D. et al. Explaining the experience curve:
cost reductions of the brazilian ethanol from sugarcane. DINIZ, E. M. Crescimento, poluição e o protocolo de
Biomass and Bioenergy, Amsterdam, v. 33, p. 644-658, 2009. Quioto: uma avaliação do caso brasileiro. São Paulo: Banco
Santos, 2001.
BELIK, W.; VIAN, C. E. F. Desregulamentação estatal e as
novas estratégias competitivas da agroindústria canavieira ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION.
em São Paulo. In: MORAES, M. A. F. D.; SHIKIDA, P. F. A. International energy outlook 2010. Washington, 2010.
Agroindústria canavieira no Brasil: evolução, Disponível em: <[Link]
desenvolvimento e desafios. São Paulo: Atlas, 2002. 0484(2010).pdf>. Acesso em: 2 mar. 2011.

BENETTI, M. D. A internacionalização recente da indústria FREDO, C. E.; VICENTE, M. C. M.; BAPTISTELLA, C. S.


de etanol brasileiro. Indicadores Econômicos FEE, São L; VEIGA, J. E. R. Índice de mecanização na colheita de
Paulo, v. 36, n. 4, p. 149-160, 2009. Disponível em: <http:// cana-de-açúcar no Estado de São Paulo e nas regiões
[Link]/[Link]/indicadores/issue/view/ produtoras paulistas em junho de 2007. Análises e
148>. Acesso em: 24 fev. 2011. Indicadores do Agronegócio, São Paulo, v. 3, n. 3, p. 1-5,
2008. Disponível em: <[Link]
CAMARGO, A. M. M. P. et al. Dinâmica e tendência da [Link]?codTexto=9240>. Acesso em: 19 jul. 2008.
expansão da cana-de-açúcar sobre as demais atividades
agropecuárias, Estado de São Paulo, 2001-2006. GUEDES, S. N. R.; GIANOTTI, L. E. A presença recente e
Informações Econômicas, São Paulo, v. 38, n. 3, p. 47- algumas conseqüências do investimento estrangeiro direto
66, 2008. Disponível em: <[Link] (IED) na agroindústria canavieira brasileira. Informações
out/[Link]?codTexto=9237>. Acesso em: 25 fev. Econômicas, São Paulo, v. 39, n. 5, p. 51-61, 2009. Disponível
2011. em:<[Link]
Texto=10487>. Acesso em: 25 fev. 2011.
CENTRO DE GESTÃO E ESTUDOS ESTRATÉGICOS.
Avaliação da expansão da produção de etanol no Brasil. GUEDES, S. N. R.; TERCI, E. T.; PERES, M. T. M. O
São Paulo, 2004. Disponível em: <[Link] arrendamento como estratégia para enfrentar mudanças
busca / Con sul t a Pr odut oNcom Topo. ph p?f= 1&i d institucionais: um estudo com fornecedores de cana do
Produto =1833>. Acesso em: 24 fev. 2011. Estado de São Paulo. Organizações Rurais &
Agroindustriais, Lavras, v. 9, n. 2, p. 229-240, 2007.
______. Estudo de Sustentabilidade da Produção de Etanol Disponível em: <[Link]
de Cana-de-Açúcar: relatório técnico final. São Paulo, 2009. [Link]>. Acesso em: 2 mar. 2011.
Disponível em: <[Link]
[Link]?f=1&idProduto=5846>. HAIR JÚNIOR, J. F. et al. Fundamentos de métodos de
Acesso em: 24 fev. 2011. pesquisa em administração. Porto Alegre: Bookman, 2005.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 330-343, 2011


342 CAMARGO JÚNIOR. A. S. & OLIVEIRA. M. M. B. de

______. Multivariate data analysis with readings. New NEVES, M. F.; TROMBIN, V. G.; CONSOLI, M. O mapa
York: Prentice Hall, 1998. sucroenergético do Brasil. In: Etanol e bioeletricidade: a cana-
de-açúcar no futuro da matriz energética. Piracicaba: ÚNICA,
HILLIER, F. S.; LIEBERMAN, G. J. Introduction to 2010. Disponível em: <[Link]
operations research. Boston: McGraw-Hill Higher estudosmatrizenergetica/[Link]>. Acesso em: 27 fev. 2011.
Education, 2005.
NEWBOLD, P. Statistics for business and economics. 4th.
INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA. Disponível em: ed. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1995.
<[Link] Acesso em: 25
fev. 2010. NUNAMAKER, T. R. Using data envelopment analysis to
measure the efficiency of non-profit organizations: a critical
JOHNSON, R. A.; WICHERN, D. W. Applied multivariate evaluation. Managerial and Decision Economics, New
statistical analysis. New York: Prentice Hall, 1998. York, v. 6, n. 1, p. 50-58, 1985.

MACEDO, I. C. A energia da cana-de-açúcar: doze estudos PASTOR, J. M.; PÉREZ, F.; QUESADA, J. Efficiency
sobre a agroindústria da cana-de-açúcar no Brasil e a sua analysis in banking firms: an international comparison.
sustentabilidade. São Paulo: ÚNICA, 2005. European Journal of Operational Research, Cambridge,
v. 98, p. 395-407, 1997.
______. Situação atual e perspectivas do etanol. Estudos
Avançados, São Paulo, v. 21, n. 59, p. 15-21, 2007. RAMOS, H. R. et al. A internacionalização do setor
sucroalcooleiro do Brasil através da teoria do born global.
MALHOTRA, N. K. Pesquisa de marketing: uma In: ENCONTRO SLADE BRASIL, 2., 2008, Lisboa. Anais...
orientação aplicada. Porto Alegre: Bookman, 2001. Lisboa, 2008.
MELLO, F. O. T.; PAULILLO, L. F. Recursos de poder e RETZLAFF-ROBERTS, D. Relating discriminant analysis
capacidade dinâmica de aprendizado dos atores
and data envel opment an alysis t o one another.
sucroalcooleiros paulistas pós-desregulamentação estatal.
Computers Operations Research, London, v. 23, n. 4, p.
Informações Econômicas, São Paulo, v. 35, n. 6, p. 17-29,
311-322, 1996.
2005. Disponível em: <[Link]
[Link]?codTexto=2627>. Acesso em: 2 mar. 2011.
ROSILLO-CALLE, F.; BAJAY, S. V.; ROTHMAN, H. Uso da
MILANEZ, A. Y.; BARROS, N. R.; FAVERET FILHO, P. S. biomassa para produção de energia na indústria brasileira.
C. O perfil do apoio do BNDES ao setor sucroalcooleiro. Campinas: Unicamp, 2005.
BNDES Setorial, Rio de Janeiro, n. 28, p. 3-36, 2008.
Disponível em: <[Link] SHIKIDA, P. F. A.; NEVES, M. F.; REZENDE, R. A. Notas
bn des/bn des_pt/In stitucion al/Publicacoes/ sobre a dinâmica tecnológica e agroindústria canavieira
C on s u l t a _ E x p r e s s a / S e t o r / B i o c om b u s t i v e i s / no Brasil. In: MORAES, M. A. F. D.; SHIKIDA, P. F. A.
200809_set2801.html>. Acesso em: 2 mar. 2011. Agroindústria canavieira no Brasil: evolução,
desenvolvimento e desafios. São Paulo: Atlas, 2002.
NASSAR, A. M. et al. Prospects of the sugarcane expansion
in Brazil: impacts on direct ad indirect land use changes. SIEGEL, S. Estatística não-paramétrica: para as ciências do
In: ZUURBIER, P.; VOOREN, J. V. Sugarcane ethanol: comportamento. Rio de Janeiro: McGraw Hill do Brasil, 1977.
contributions to climate change mitigation and the
environment. Laxenburg: Wageniguen Academic, 2009. TURNER, J. W. G.; PECK, A.; PEARSON, R. J. Flex-fuel
Disponível em: <[Link] vehicle development to expedite alcohols as the basis of a
bioenergyinfo/background/detail/en/news/8726/icode/6/>. viable negative-CO2 energy economy. In: ASIA PACIFIC
Acesso em: 27 fev. 2011. AUTOMOTIVE CONFERENCE, 14., 2007, Hollywood.
Proceedings... Hollywood, 2007.
NEVES, M. F.; CONEJERO, M. A. Estratégias para a Cana
no Brasil: um negócio de classe mundial. São Paulo: Atlas, VIAN, C. E. F. Agroindústria canavieira: estratégias
2009. competitivas e modernização. Campinas: Átomo, 2003.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 330-343, 2011


Eficiência econômica no setor sucroalcooleiro... 343

VIAN, C. E. F.; LIMA, R. A. S.; FERREIRA FILHO, J. B. ZUURBIER, P.; VOOREN, J. V. Introduction to sugarcane
S. Estudo de impacto econômico (EIS) para o complexo ethanol contributions to climate change mitigation and the
agroindustrial canavieiro: desafios e agenda de environment. In: ______. Sugarcane ethanol: contributions
pesquisa. Revista de Economia Agrícola, São Paulo, v. to climate change mitigation and the environment. Laxenburg:
54, n. 2, p. 5-26, 2007. Disponível em: <http:// Wageniguen Academic, 2009. Disponível em: <http://
[Link]/out/[Link]?codTexto=9086>. [Link]/bioenergyinfo/background/detail/
Acesso em: 25 fev. 2011. en/news/8726/icode/6/>. Acesso em: 27 fev. 2011.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 330-343, 2011


344 CARACTERÍSTICAS DA CERTIFICAÇÃO
FRANCO, C. [Link]
et [Link] BRASILEIRA

Coffee certification features in Brazil

RESUMO
O mercado cada vez mais demanda produtos agrícolas certificados. Os países de primeiro mundo, principalmente, exigem em seus
produtos informações sobre o processo produtivo e origem, visando tanto à sustentabilidade socioambiental quanto à qualidade
intrínseca do produto. O consumidor quer saber como seu alimento foi produzido. Produtos certificados, de acordo com diferentes
padrões, estão cada vez mais presentes nas prateleiras de supermercados do mundo todo. Na cafeicultura, isso se repete, talvez sendo
o setor agrícola nacional mais evoluído quanto à certificação, muito à frente de outros produtos agrícolas. Diferentes padrões de
certificação estão presentes na cafeicultura brasileira hoje, os principais sendo Orgânico, Fair Trade (FT), Utz Certified (UC) e Rain
Forest Alliance (RA). Entretanto, cada um desses padrões cobre diferentes aspectos e seus respectivos produtos chegam ao mercado
carregados com características distintas. Importante é a caracterização de cada certificação, bem como a sua exposição aos produtores
e consumidores para que tomem sua decisão de forma clara e consciente. A certificação de café no Brasil tem contribuído muito para
consideráveis melhorias socioambientais no setor produtivo, bem como para a organização interna das propriedades. A certificação na
cafeicultura nacional continuará em crescimento e seus benefícios, aos poucos, estão chegando à sociedade.

Cassio Franco Moreira


Engenheiro Agrônomo / Doutor em Agroecologia
organicassio@[Link]

Elisabete A. de Nadai Fernandes


Universidade de São Paulo - Centro de Energia Nuclear na Agricultura, Laboratório de Radioisótopos
lis@[Link]

Carlos Eduardo de Freitas Vian


Universidade de São Paulo, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Departamento de Economia e Sociologia Rural
cefvian@[Link]

Colaboradores:
Fábio Sileno Tagliaferro
Monsanto do Brasil Ltda., Departamento de Regulamentação
fabiotag@[Link]

Christian Turra
Universidade de São Paulo, Centro de Energia Nuclear na Agricultura
cturra@[Link]

Recebido em: 3/7/08. Aprovado em: 30/8/11


Avaliado pelo sistema blind review
Avaliador Científico: Ana Alice Vila Boas

ABSTRACT
The market of certified agricultural products increases everyday. Developed countries demand information on the production system
and the origin of the product concerning socioenvironmental sustainability and quality attributes. The consumer seeks to know how
his/ her food has been produced. Certified products are more and more present at shops and supermarkets worldwide. In the coffee
sector this also happens, and the Brazilian coffee is perhaps the most national developed agriculture sector regarding certification.
Distinct coffee certification standards are present at the Brazilian coffee production, and the following are the main ones: Organic, Fair
Trade (FT), Utz Certified (UC), and Rain Forest Alliance (RA). However, each of these standards considers distinct aspects of coffee
production and its respective products are in the market carried with different characteristics. The characterization of each certification
standard as well as its exhibition to the producers and consumers is important so that they make their decision in a clear and conscious
way. Coffee certification in Brazil has contributed to considerable social and environmental improvements in the production sector.
Coffee certification in Brazil is still improving and its benefits are reaching society.
Palavras-chave: Certificação agrícola, sustentabilidade, café, mercado de café, qualidade de café.

Key-words: Agriculture certification, sustainability, coffee, coffee market, coffee quality

1 INTRODUÇÃO 2005). O consumo de cafés especiais, como orgânicos,


mercado justo/Fair trade, Utz Certified e Rain Forest
O café é a segunda commodity mundial, somente Alliance, está aumentando intensamente, seguindo
atrás do petróleo, movimentando aproximadamente US$ tendência de consumo de produtos “responsáveis”, do
70 bilhões por ano (CUNHA, 2006; LOUREIRO; LOTADE, ponto de vista socioambiental. De acordo com Illy (2006),

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 344-351, 2011


Características da certificação na cafeicultura... 345

o consumo de cafés do tipo commodity cresce a taxas de em 2003, foi 310.000 sacas de 60kg, 17% superior a 2002.
1,5% ao ano enquanto o de especiais a taxas de 12% ao Os Estados Unidos importaram 140.000 sacas de 60kg de
ano. Os preços desses cafés no mercado nacional e cafés FT em 2003, volume 92% superior ao de 2002
internacional são mais atraentes para os produtores, como (VILLALOBOS, 2004). O crescimento na importação de
consequência da qualidade do produto, valorização de cafés orgânicos pelos Estados Unidos é impressionante,
processos produtivos menos agressivos e menor oferta sendo que, em 2005, a quantidade importada foi 320.000
(CUNHA, 2006; RICCI; NEVES, 2004), gerando sacas de 60kg, um crescimento de 23,5% em relação a 2004
oportunidades de mercado para os cafeicultores dos países (VILLALOBOS; GIOVANNUCCI, 2006). É importante
em desenvolvimento. considerar que aproximadamente 50% dos cafés FT são
O Brasil é, há muito tempo, o maior produtor e também certificados orgânicos. Não há referências ainda
exportador mundial de café com média de 42,5 milhões de quanto aos volumes de exportação e importação de cafés
sacas de 60 kg produzidas e 29,7 milhões de sacas exportadas UC e RA.
nos últimos 5 anos (COMPANHIA NACIONAL DE Dentre as certificações abordadas, a orgânica foi a
ABASTECIMENTO - CONAB, 2011; OIC, 2011). O Brasil primeira a ocorrer na cafeicultura brasileira. Há produtores
sempre se posicionou no mercado de forma competitiva mais exportando café orgânico certificado desde 1990. Esta
por volume e preço do que por qualidade. Entretanto, nos apresentou-se, durante longo tempo, como uma das únicas
últimos 10 anos, o setor tem atuado fortemente, divulgando opções de certificação (PEREIRA et al., 2006). Na recente
e comprovando a qualidade do café nacional o que ajudou crise do café, de 2000 a 2004, muitos produtores iniciaram
a elevar o preço do café brasileiro, além de aumentar as a conversão de suas lavouras para o sistema orgânico na
exportações e o consumo interno (AGÊNCIA DE NOTÍCIAS expectativa de vender seu café a preços até 200%
BRASIL-ÁRABE - ANBA, 2007). A certificação é um superiores, o que ocorreu com alguns produtores
instrumento que contribui nesse sentido. orgânicos. Entretanto, alguns desses produtores entraram
Objetivou-se, aqui, trabalhar dois aspectos: no sistema somente com objetivos comerciais e não por
Com o primeiro levantaram-se informações sobre ideologia ecológica, desistindo do sistema orgânico com a
as principais certificações de café existentes no Brasil: recuperação dos preços da commodity (SCARAMUZZO,
Orgânica, Fair Trade (FT), Utz Certified (UC) e Rain Forest 2005). Por outro lado, um produtor de Machado, sul de
Alliance (RA), fazendo uma descrição de cada uma dessas, Minas Gerais, trabalha desde 1990 com produção orgânica
comparando as características de cada e também de café, sendo que seu objetivo principal é preservar a
identificando o perfil dos cafeicultores que estão adotando natureza e a qualidade de vida dos trabalhadores bem como
tais certificações. eliminar os agrotóxicos. Atingir o exigente, remunerador e
Pelo segundo objetivo atingem-se os setores estável mercado japonês foi uma consequência. O
consumidor, científico e principalmente produtivo, importador torra o café no Japão e vende o produto com o
fornecendo características técnicas e mercadológicas dessas nome da fazenda e fotos das pessoas envolvidas na
certificações, além de expor as diferenças entre elas e seus produção, agregando valor à história da propriedade.
benefícios. No caso do setor produtivo, visa-se também Trata-se de uma relação em que os dois lados lucram,
alinhar o perfil do produtor com os tipos de certificação. havendo uma dependência bilateral, em que o produtor
Esta é uma pesquisa de caráter exploratório cuja depende do torrefador para a colocação de seu produto e
metodologia de levantamento das informações baseou-se o torrefador depende do fornecedor para continuar seu
na revisão de artigos científicos de revistas internacionais, negócio (SAES, 2004). Essa não é uma relação de mercado
reportagens de jornais, páginas da internet e revistas do spot. Há um vínculo de longo prazo entre as partes, baseado
setor de café e certificação agrícola, bem como em na confiança.
entrevistas abertas com representantes do setor produtivo A segunda certificação a existir no Brasil, entre as
nacional e de certificadoras. quatro abordadas, foi a Fair Trade (FT), em português
“Mercado Justo” ou “Mercado Solidário”. O conceito de
2 HISTÓRICO DA CERTIFICAÇÃO NA FT existe desde o início dos anos 60, entre importadores
CAFEICULTURABRASILEIRA
da Europa e pequenos produtores de países em
Apesar de difícil acesso, pelos números mostra-se desenvolvimento, que visavam um comércio direto entre
o grande crescimento na comercialização mundial de cafés as partes, buscando melhores preços e ausência de
certificados. O volume importado pela Europa de café FT, atravessadores. O sistema de certificação FT propriamente

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 344-351, 2011


346 FRANCO, C. M. et al.

dito surgiu em 1989, na Holanda, sendo o café o primeiro orgânico). Esse processo monitora todos os insumos,
produto certificado. A certificação FT foi lá chamada “Max técnicas de produção, produtividade, vendas, estoques e
Havelaar” (KILIAN et al., 2006). A organização FLO (Fair rastreabilidade, além dos aspectos sociais e ambientais
Trade Labelling Organizations), fundada em 1997, é uma (CONSELHO INTERNACIONAL DO CAFÉ - CIO, 1997;
associação de vinte entidades que representam a HARADA, 2001; INSTITUO BIODINÂMICO DE
certificação FT nos seus respectivos países (FAIR TRADE DESENVOLVIMENTO RURAL - IBD, 2008).
LABELLING ORGANIZATIONS - FLO, 2007). Um dos
3.1 Certificação Orgânica
projetos pioneiros de café Fair Trade no Brasil situa-se na
cidade de Poço Fundo, sul de Minas Gerais. Em 1997, a A certificação orgânica exige que não seja aplicada
associação iniciou suas atividades visando certificação nenhuma forma de agrotóxico nem de adubos químicos
orgânica e Fair Trade e passou a exportar seu café com solúveis. Também é recomendado o aumento da
essas certificações, em 2003. Em 2004, a associação diversidade vegetal nos plantios e a maior independência
transformou-se em Coopfam (Cooperativa dos agricultores de insumos externos. O preenchimento de tabelas de
familiares de Poço Fundo) para facilitar a comercialização. controle dos insumos aplicados, colheita, estoque, vendas
A Coopfam possui aproximadamente 200 produtores com e apresentação de plano de manejo constituem
áreas entre 0,5ha e 25ha e trabalha tanto com cafés documentação necessária ao processo de certificação
convencionais quanto orgânicos, ambos FT. Seu principal orgânica permitindo o monitoramento do sistema bem como
mercado é o norte americano, seguido de Inglaterra e outros o controle e a rastreabilidade do produto. Para adquirir a
países europeus (SAES; MIRANDA, 2007). certificação internacional de café são necessários três anos
A certificação UC foi criada em 1997 por produtores de manejo orgânico da lavoura, período que deve ser
de café da Guatemala junto com uma torrefação holandesa. acompanhado pela certificadora orgânica (GROSSMAN,
É uma certificação que visa a produção responsável de 2003; KILIAN et al., 2006; LOUREIRO; LOTADE, 2005). As
café e seus parâmetros incluem manutenção de registros, certificadoras atuantes no Brasil trabalham de acordo com
uso minimizado e documentado de defensivos agrícolas, os padrões internacionais de produção orgânica. Hoje
proteção de direitos trabalhistas e acesso à assistência e existem três padrões de certificação orgânica internacional:
educação para os empregados e seus familiares (UTZ o da União Européia, baseado na lei 2092/91 da Comunidade
CERTIFIED, 2009). Essa certificação busca o grande Européia, o dos Estados Unidos, chamado NOP (National
mercado consumidor (VILLALOBOS, 2004). Organic Program) e controlado pelo USDA (United States
A certificação RA, conhecida no Brasil como Department of Agriculture) e o do Japão, JAS (Japanese
certificação socioambiental teve sua origem em 1998 por Agricultural Standards), controlado pelo MAF (Ministério
meio de uma coalizão de organizações não governamentais de Agricultura e Florestas do Japão).
de oito países (Brasil, Honduras, Costa Rica, El Salvador, O Brasil também conta com uma legislação para
Guatemala, Equador, Colômbia e Estados Unidos). Objetiva- produção, certificação, processamento e transporte de
se, fundamentalmente, aliar conservação ambiental à produtos orgânicos. Após longo período, foi aprovado o
produção de commodities agrícolas cultivadas nos países Decreto n.º 6.323 de 27 de dezembro de 2007 que
tropicais. Produtos como banana, cacau, flores, folhagens regulamenta a Lei n.º 10.831, publicada em 23 de Dezembro
e frutas já se encontram certificados, mas o café é o que de 2003 pelo Ministério de Agricultura, Pecuária e
possui a maior área certificada bem como o maior Abastecimento (BRASIL, 2007). Esse conta com 118 artigos,
crescimento (GONÇALVES et al., 2007). construído com base em uma intensa articulação nacional
entre as instituições governamentais e as organizações
3 OPÇÔES DE CERTIFICAÇÃO não governamentais, com atuação na produção orgânica
DE CAFÉ NO BRASIL
(IBD, 2008). De dezembro de 2007 ao final de 2009, diversas
O acompanhamento das certificadoras às unidades instruções normativas vêm sendo publicadas visando
de produção é basicamente realizado da mesma forma para complementar o Decreto n.º 6.323 a fim de se organizar
os quatro padrões abordados. Constitui-se de um processo toda a cadeia. A Instrução Normativa n.º 64 de 18 de
de auditoria em que uma empresa ou associação acreditada dezembro de 2008 é uma das mais importantes pois
por normas nacionais e/ou internacionais acompanha o apresenta as normas técnicas brasileiras para a produção
processo produtivo da unidade por meio de visitas vegetal e animal de orgânicos. O prazo para que todos os
periódicas bem como de visitas surpresas (no caso de segmentos envolvidos na rede de produção se adequem à

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 344-351, 2011


Características da certificação na cafeicultura... 347

legislação nacional é 31 de Dezembro de 2010, conforme o na Tabela 1 e o valor é de US$ 10 centavos por libra peso e
Decreto n.º 7.048 de 23 de dezembro de 2009 (BRASIL, independe do café ser orgânico ou convencional.
2009).
3.3 Certificação Utz Certified
A certificação orgânica cobra aspectos sociais e
ambientais de seus projetos, sendo que o IBD (Instituo A certificação UC busca principalmente responder
Biodinâmico de Desenvolvimento Rural), única certificadora a duas perguntas: (a) de onde veio o café? e (b) como foi
brasileira com credenciamento internacional, trabalha “da produzido esse café? Portanto, enfatiza a rastreabilidade
lei federal para cima”. Essa certificadora exige o registro do produto e o monitoramento dos insumos utilizados,
dos funcionários e verifica se os vencimentos deles estão por meio de registros detalhados de transporte, manuseio
pelo menos dentro da lei, bem como exige projeto de e aplicação de defensivos agrícolas, bem como de rígido
adequação ao código florestal brasileiro, acompanhando controle sobre as condições de colheita, pós-colheita e
a recuperação das áreas de preservação permanentes e de documentação desses processos. A questão
reserva legal (ASSOCIAÇÃO DE CAFEICULTURA socioambiental é considerada, sendo que agroquímicos
ORGÂNICA DO BRASIL - ACOB, 2009). proibidos pela União Européia, Estados Unidos e Japão
devem ser abolidos na produção de café certificado. A
3.2 Certificação Fair Trade
utilização de equipamentos de proteção individual para
A certificação FT é destinada a pequenos aplicação de agroquímicos é uma exigência. Os
produtores de café organizados em associações ou agroquímicos utilizados devem ser registrados para o uso
cooperativas. O café FT pode ser cultivado de forma na cafeicultura e serem aplicados de acordo com as
convencional ou orgânica, mas quando convencional há instruções do rótulo. Estimula-se a adoção de manejo
uma lista de agroquímicos que não podem ser aplicados integrado de pragas bem como a utilização de defensivos
visando maior segurança socioambiental. A característica não químicos alternativos. O produtor deve gerir a água
principal da certificação FT é a garantia de um preço mínimo visando mais eficiência na sua utilização com menor gasto
ao produtor. Um preço que cubra seus custos de produção e menores perdas. Na área social é grande a preocupação
e propicie melhorias na sua qualidade de vida, ficando o com saúde e segurança do trabalhador bem como seus
produtor menos sujeito às oscilações do mercado. O preço direitos, educação e assistência médica. Quanto ao meio
mínimo a ser recebido pelo produtor é apresentado na ambiente e vida selvagem, é proibido o desmatamento e há
Tabela 1 e está no site da FLO (FLO, 2011). Vale dizer que um estímulo ao aumento da biodiversidade na propriedade
esse é o preço mínimo e que preços superiores ocorrem de (UTZ CERTIFIED, 2009).
acordo com a qualidade do produto, cotações da bolsa e
3.4 Certificação Rain Forest Alliance
leis de mercado.
Além disto, há um “prêmio” fixo que deve ser A certificação RA visa critérios socioambientais
destinado a um projeto social escolhido pelo grupo de bastante rígidos. Embora permita a aplicação de
produtores, bem como de estímulo a contratos de longo agroquímicos, exige a redução do volume aplicado bem
prazo e ajuda na obtenção de crédito (BACON, 2005; como a não utilização de produtos muito tóxicos. Além
FERRAN; GRUNERT, 2007; KILIAN et al., 2006; dessas duas exigências, consideradas críticas, há outros
LOUREIRO; LOTADE, 2005). Esse prêmio é apresentado critérios que devem ser plenamente cumpridos para se

TABELA 1 – Preços mínimos de Café Fair Trade, em centavos de dólar US$ por libra-peso F.O.B porto de origem.
Preço Mínimo de Café Preço Mínimo de Café
Prêmio Fixo de
Comércio Justo Comércio Justo
Comércio Justo
Convencional Orgânico
Café Arábica lavado* 1,25 1,45 10
Café Arábica não lavado 1,20 1,40 10
Café Robusta lavado* 1,05 1,25 10
Café Robusta não lavado 1,01 1,21 10
Fonte: FLO (2011)
*Café semilavado/cereja descascado é considerado café lavado

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 344-351, 2011


348 FRANCO, C. M. et al.

obter a certificação. Alguns desses critérios são de crise, uma vez que essas certificações são recentes no
rastreabilidade bem estabelecida, programa de conservação Brasil. Entretanto, é possível inferir que essas serão
dos ecossistemas, proibição da caça de animais silvestres, bastante significativas com baixos preços de café, quando
proibição da descarga de águas residuais sem tratamento mesmo um pequeno diferencial de preço ao produtor pode
em corpos de água, inexistência de discriminação nas ser decisivo entre a permanência ou não no mercado.
políticas trabalhistas (GONÇALVES, 2007). O nome Rain
3.6 Perfil dos produtores em relação às certificações
Forest (“Floresta Tropical”) é dado aos cafezais e às
fazendas que possuem áreas de florestas que são refúgios A partir do exposto até aqui, associado aos dados
para a vida selvagem. Nos locais onde a vegetação natural da Tabela 2 a seguir, é possível dizer que a certificação
é floresta deve-se estabelecer e manter sombra permanente orgânica atinge principalmente pequenos e médios
nos cafezais, com pelo menos 70 árvores por hectare e um produtores preocupados com preservação ambiental e
mínimo de 12 espécies por hectare. No Brasil, o diferenciação de seu produto. Pode- se também constatar
sombreamento das lavouras não é exigido. Para a que a certificação FT atinge esse mesmo perfil, só que de
conservação dos ecossistemas exige-se que 30% da área micro e pequenos produtores organizados em associações
da propriedade seja destinada à manutenção da vegetação e/ou cooperativas. Já a certificação RA, até o momento,
natural (RAIN FOREST ALLIANCE, 2005). aparece como uma alternativa a grandes produtores com
ótima infraestrutura e alta produtividade. Esses produtores,
3.5 Mercado
geralmente, possuem acesso ao mercado internacional e
O destino dos cafés certificados é certamente o talvez tenham entrado na certificação por perceberem o
mercado internacional. Fontes do setor concordam que, ágio e a pouca oferta do café nacional nesse mercado.
aproximadamente 95% desse café seja destinado à Além disso, têm como diferencial as grandes áreas de
exportação. Apenas o café orgânico apresenta volume preservação de matas em suas propriedades. A certificação
considerável no mercado interno (PEREIRA et al., 2006). UC atinge médios e grandes produtores que possuem boa
Preços de cafés certificados no mercado internacional são organização e visão de mercado, buscando agregar valor
superiores aos de cafés commodities. Após o período de sem alterações consideráveis no seu manejo, promovendo
grave crise no setor (2000-2004) em que a commodity o reconhecimento de sua organização interna e suas boas
encontrava-se com preços muito baixos, a cotação da bolsa práticas de produção.
de Nova Iorque alcançou melhores patamares e tem se É possível recomendar a certificação orgânica a
situado entre US$ 0,95/lb e US$ 1,40/lb, no período de pequenas, médias e grandes propriedades que tenham
outubro de 2004 a março de 2008. Os prêmios para cafés potencial de qualidade de grãos, estejam localizadas em
orgânicos nacionais exportados mundialmente têm regiões de baixa pressão de pragas e doenças e de boa
oscilado entre US$ 0,20/lb a US$ 1,0/lb, para cafés FT fertilidade natural do solo. Esses são alguns, fatores
convencionais entre US$ 0,30/lb a US$ 0,40/lb, para cafés técnicos que permitirão o sucesso do projeto, além da
orgânicos e FT entre US$ 0,40/lb e US$ 1,0/lb, para cafés ideologia ecológica do produtor.
RA entre US$ 0,10/lb a US$ 0,40/lb e para cafés UC entre Quanto à certificação FT, esta é uma ótima opção
US$ 0,05/lb e US$ 0,15/lb. Essas variações possuem para micro, pequenos e até médios produtores que tenham
influência da qualidade (bebida, defeitos, tamanho de grãos, média (FT convencional) ou grande preocupação ambiental
etc.), país e região de origem, leis de oferta e procura bem (FT orgânico) e que estejam organizados em associações
como país de destino (ACOB, 2009; KILIAN et al., 2006; ou cooperativas. Vale dizer que cada vez mais o mercado
VILLALOBOS, 2004; VILLALOBOS; GIOVANNUCCI, demanda o café FT associado à certificação orgânica e que
2006). Em períodos de baixas cotações da commodity, o o ágio obtido pela dupla certificação é superior, enquanto
café orgânico chegou a ser vendido com preços até 250% o café FT convencional, em alguns casos, pode apresentar
superiores, podendo-se afirmar que a produção de café dificuldades de mercado (COOPERATIVA DE
orgânico é vantajosa economicamente, principalmente nos AGRICULTORES FAMILIARES DE POÇO FUNDO -
períodos de crise da commodity (SCARAMUZZO, 2005). COOPFAM, 2007).
No caso do FT, tende a ocorrer o mesmo que com o orgânico, O grande atrativo para o mercado de café orgânico e
uma vez que o preço mínimo passa a atuar como piso de café FT é o alto ágio recebido principalmente nos períodos
chegando-se a ágio de até 200%. Não se sabe ainda como de crise da commodity, o que resulta em preços médios menos
se comportarão os preços dos cafés RA e UC em períodos voláteis, permitindo maior estabilidade ao produtor.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 344-351, 2011


Características da certificação na cafeicultura... 349

TABELA 2 – Tipos de Certificação, área total em ha, sacas de 60kg por cada certificação em 2009, números de projetos
certificados (no caso de Fair Trade cada projeto possui em média 40 propriedades) e produção média por propriedade
em sacas de 60kg).
Produção
Sacas de Número
Certificação Área em ha média/propriedade
60kg safra 2006 de Projetos
em sacas de 60kg
1
Orgânico 6.000 65.000 100 650
Fair Trade2 2.000 20.000 10 projetos = 400 50
propriedades
Rain Forest Alliance3 36.000 1.000.000 40 18.750
Utz Kapeh4 60.000 1.800.000 170 10.590
Fonte: ACOB (2009), FLO (2007), IMAFLORA (2010) e UTZ Certified (2009)
1
Estimativa ao final da safra de 2009, fornecida pela ACOB (Associação de Cafeicultura Orgânica do Brasil)
2
Estimativa ao final da safra de 2009, fornecida pela FLO (Fair Trade labelling Organizations)
3
Números oficiais fornecidos pelo Ima Flora (certificadora Rain Forest Alliance no Brasil) referentes ao final da safra 2009
4
Números oficiais fornecidos pela Utz Certified referentes ao final da safra 2009

As certificações RA e UC são recomendadas a O trabalho fornece ricas informações ao setor


médios e grandes produtores que possuam ou que visem produtivo, científico, consumidor e extensionista e
ótima organização documental, política de recursos contribui para que o processo de tomada de decisão do
humanos bem estabelecida, ótimas condições sociais nas cafeicultor seja consciente das características de cada
propriedades e boas práticas de produção. A certificação certificação e das suas possíveis vantagens e
RA deve ser destinada a produtores que possuam grandes desvantagens.
áreas de preservação vegetal e também condições de reduzir
constantemente a quantidade e a periculosidade dos 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
agroquímicos utilizados. O maior ágio pago a cafés É grande a contribuição da certificação na
certificados RA frente ao UC é, provavelmente, organização interna e nas melhorias socioambientais das
consequência dessa maior exigência ambiental bem como propriedades. A capacitação dos funcionários, melhoria
da menor oferta de cafés brasileiros certificados RA. Com do sistema gerencial e da qualidade de vida dos
o aumento da produção de cafés RA, espera-se que o ágio funcionários, redução na utilização de agroquímicos,
diminua. aumento da biodiversidade e da eficiência do uso da água
são alguns dos resultados mais significativos atingidos.
4 CONCLUSÕES Além disso, as melhorias nas propriedades tendem a ser
Pode –se concluir que cada certificação está mais vistas como exemplos a serem seguidos por outros projetos,
direcionada a um perfil de produtor, estratificadas potencializando os resultados da certificação.
principalmente quanto ao tamanho da propriedade e A certificação de café tem gerado consideráveis
volume de produção. A certificação orgânica e a FT estão avanços nas regiões cafeeiras, rumo a uma maior
associadas a pequenos e médios produtores com alta sustentabilidade socioambiental da cafeicultura nacional.
preocupação ambiental localizados em regiões propícias à
qualidade. Talvez, por esses fatores, estas duas 6 REFERÊNCIAS
certificações agreguem mais valor ao seu produto do que AGÊNCIA DE NOTÍCIAS BRASIL-ÁRABE. A década
as outras. As certificações UC e RA estão associadas a mágica do café: agronegócios. Disponível em: <http://
médios e grandes produtores que possuem boa [Link]/[Link]?id=334>. Acesso em: 10
organização e visão de mercado, objetivando agregar valor mar. 2007.
sem alterações consideráveis no seu manejo, mas sim
através do reconhecimento de sua organização interna e ASSOCIAÇÃO DE CAFEICULTURA ORGÂNICA DO
de suas boas práticas de produção. O diferencial da BRASIL. Comunicação Pessoal por Cristiano Ottoni, Diretor
certificação RA são as grandes áreas de preservação de Superintendente da Associação de Cafeicultura Orgânica do
matas em suas propriedades. [Link]@[Link], outubro 2009.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 344-351, 2011


350 FRANCO, C. M. et al.

BACON, C. Confronting the coffee crisis: can fair trade, GONÇALVES, E. T. A certificação socioambiental no Brasil
organic, and specialty coffees reduce small-scale farmer e os cafés com o selo Rainforest Alliance: café point:
vulnerability in northern Nicaragua? World Development, certificação e qualidade. Disponível em: <http://
New York, v. 33, p. 497-511, 2005. www. c a fep oi n t . c om . br / ? a c t A = 7 &a r e a I D= 32 &
secaoID=88>. Acesso em: 15 jan. 2007.
BRASIL. Ministério de Agricultura e Pecuária. Decreto n.º
6.323, de 27 de dezembro de 2007. Regulamenta a Lei n.º HARADA, D. Y. Selo único ou biodiversidade na
10.831. Brasília, 2007. Disponível em: <http:// certificação. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE
w w w. p r e f i r a o r g a n i c o s . c o m . br / a g r o r g a n i c a / HORTICULTURA ORGÂNICA, NATURAL, ECOLÓGICA
[Link]?search=%20&page=2>. Acesso E BIODINÂMICA, 1., 2001, Piracicaba. Resumos...
em: 28 dez. 2009. Piracicaba: FEALQ, 2001. 1 CD-ROM.

______. Decreto n.º 7.048, de 23 de dezembro de 2009. Dá ILLY, E. Notícias da Universidade Illy do café. Disponível
nova redação ao art. 115 do Decreto n.º 6.323. Brasília, e m : < h t t p : / / www. u n i l l y. c om . br / s i t e / n ot i c i a s .
2009. Disponível em: <[Link] [Link]?idNoticia =167>. Acesso em: 25 jun. 2006.
a gr or ga ni ca /l egi sl acaona ci on a l. aspx?sea rch= %
20&page=2>. Acesso em: 28 dez. 2009. IMAFLORA. Cenário mundial de cafés rain forest
alliance. Piracicaba, 2010.
COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO. Safra
café. Disponível em: <[Link] INSTITUTO BIODINÂMICO DE DESENVOLVIMENTO
politica_agricola/SafraCafe/[Link]>. Acesso em: 10 RURAL. Certificação Geral. Disponível em: <http://
fev. 2006. [Link]>. Acesso em: 6 maio 2008.

CONSELHO INTERNACIONAL DO CAFÉ. Análise KILIAN, B. et al. Is sustainable agriculture a viable strategy
agroeconômica do café cultivado organicamente ou café to improve farm income in Central America?: a case study
“orgânico”. London, 1997. 19 p. Apostila. on coffee. Journal of Business Research, Athens, v. 59, p.
322-330, 2006.
COOPERATIVA DE AGRICULTORES FAMILIARES DE
POÇO FUNDO. Comunicação Pessoal por Luiz Adauto de LOUREIRO, L. M.; LOTADE, J. Do fair trade and eco-labels
Oliveira, Presidente da Cooperativa de Agricultores in coffee wake up the consumer conscience? Ecological
Familiares de Poço Fundo. ,coopfam.2007@hotmail., Economics, Amsterdam, v. 53, p. 129-138, 2005.
agosto 2007.
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO CAFÉ. Statistics.
CUNHA, L. F. Lavoura gourmet. Globo Rural, Rio de Disponível em: <[Link]
Janeiro, v. 244, p. 54-58, 2006. Acesso em: 9 mar. 2007.

FAIR TRADE LABELLING ORGANIZATIONS. Coffee. PEREIRA, S. P. et al. Situação atual da certificação de café
Disponível em: <[Link] Acesso em: 5 no Brasil. Disponível em: <[Link]
mar. 2007. ?actA=7&areaID=32&secaoID=88>. Acesso em: 15 jan.
2007.
FAIR TRADE LABELLING ORGANIZATIONS. Standards.
Disponívelem:<[Link] RAIN FOREST ALLIANCE. Certification and Services.
Acesso em: 10 fev. 2011. Disponível em: <[Link]
programs/agriculture/certified-crops/
FERRAN, F.; GRUNERT, K. G. French fair trade coffee standards_2005.html>. Acesso em: 15 mar. 2008.
buyers purchasing motives: an exploratory study using
means-end chains analysis. Food Quality and Preference, RICCI, M. S. F.; NEVES, M. C. P. Cultivo do café orgânico.
Barking, v. 18, p. 218-229, 2007. Seropédica: Embrapa, 2004. 95 p.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 344-351, 2011


Características da certificação na cafeicultura... 351

SAES, M. S. M. Evitando a queda da rentabilidade na UTZ CERTIFIED. Standards & Certification &
produção agrícola: basta diferenciar? In: ENCONTRO DA Monitoring. Disponível em: <[Link]
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS GRADUAÇÃO E [Link]>. Acesso em: 10 jun. 2009.
PESQUISA EM ADMINISTRAÇÃO, 2004, Curitiba.
Anais... Curitiba: EnANPAD, 2004. 1 CD-ROM.
VILLALOBOS, A. Sustainable coffee, the market in Europe
SAES, M. S. M.; MIRANDA, B. V. Fair trade: conquistas e and in USA. Alajuela: Sustainable Markets Inteligence
dilemas. Disponível em: <[Link] Center, 2006.
?actA=7&areaID=26&secaoID=64>. Acesso em: 10 mar. 2007.
VILLALOBOS, A.; GIOVANNUCCI, D. Acelerado
SCARAMUZZO, M. Alta do preço do café convencional crecimiento del café orgânico em [Link]. +Kfe Revista del
afeta o avanço do orgânico. São Paulo: Agronegócios, 2005. Café Diferenciado, San José, v. 3, p. 9, 2006.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 344-351, 2011


352DETERMINANTES DAADOÇÃO DA TECNOLOGIA
LANNA, G. B. M. et al. DE DESPOLPAMENTO NA
CAFEICULTURA: ESTUDO DE UMA REGIÃO PRODUTORA
DA ZONA DA MATA DE MINAS GERAIS1

Determinants for the adoption of pulping technology by coffee producers:


a study on a producing region of Zona of Mata in Minas Gerais state

RESUMO
Objetivou-se, neste trabalho, identificar os determinantes da adoção da tecnologia pós-colheita de despolpamento pelos produtores
rurais na atividade cafeeira de Viçosa, MG. Os cafeicultores que despolpam o café foram considerados adotantes de tal tecnologia.
Aplicou-se o modelo Logit para identificar os determinantes da adoção da despolpa do café. Os resultados apresentam as variáveis
associativismo, capital próprio, escolaridade, rentabilidade e treinamento como fatores que determinam a adoção da tecnologia de
despolpamento, sendo o treinamento e o associativismo os fatores que mais contribuem na adoção.

Giovani Blasi Martino Lanna


Gerente da ViçosaTec
giovaniblasi@[Link]

Erly Cardoso Teixeira


Professor do Departamento de Economia Rural
Universidade Federal de Viçosa, Centro de Ciências Agrárias
teixeira@[Link]

Ricardo Pereira Reis


Professor do Departamento de Administração e Economia
Universidade Federal de Lavras
ricpreis@[Link]

Recebido em 19/10/09. Aprovado em 29/8/11


Avaliado pelo sistema Blind Review
Avaliador Científico: Cristina Lelis Leal Calegario

ABSTRACT
The objective of this paper was to identify some determinants for the adoption of pulping technology by coffee producers in Viçosa,
MG. The Logit model has been applied to identify the determinants for the adoption of pulping technology. The results present the
variables coop affiliation, own capital stock, years of school, profitability, and training as factors that determine the adoption of
pulping technology. Training and coop affiliation are the variables that most contribute for the adoption.
Palavras-chave: Café, adoção tecnológica, despolpamento.

Key-words: coffee, technology adoption, pulping.

1 INTRODUÇÃO Conforme Alves e Contini (1992), foi a partir da


década de 60 que o governo brasileiro passou a investir na
Os avanços tecnológicos aplicados ao setor agrícola geração de conhecimento e na difusão tecnológica. Nesse
são responsáveis por ganhos de produtividade e eficiência período iniciou-se o entendimento, a nível nacional, da
para as unidades produtoras. O advento da modernização importância do aumento da produtividade da terra e da
agrícola tem proporcionado melhorias no processo produtivo ciência para a conquista da fronteira agrícola.
que ocasionam melhor adequação da produção às exigências A difusão e adoção de novas tecnologias na
de mercado e aumento da competitividade dos produtores. literatura moderna da agricultura, está comumente
No Brasil, o processo de modernização da agricultura associada a fatores relacionados à educação e à habilidade
ocorreu a partir de meados dos anos 60, quando houve dos produtores. Entretanto a simples difusão das novas
elevação dos patamares técnicos da produção e do nível técnicas não garante a sua adoção, haja vista a existência
geral de monetarização do setor. Esse processo teve como de fatores limitantes que, em parte, estão relacionados aos
principais resultados, em termos de produção, a preços relativos da técnica moderna que podem ser pouco
reorientação do esforço produtivo no sentido do aumento vantajosos em relação aos da técnica tradicional. Dessa
da produção exportável/agroindustrializável e a elevação forma, a adoção de novas técnicas ou novos insumos pode
da produtividade (HOFFMAN, 1992). ser justificada pela expectativa de maiores retornos, ou

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 352-362, 2011


Determinantes da adoção da tecnologia de despolpamento... 353

seja, a mudança tecnológica será efetiva se os retornos commoditie, atualmente ganha destaque com o surgimento
esperados com a adoção da tecnologia moderna superarem de novos segmentos de mercados que priorizam a
o custo de mudança (CONTADOR, 1975). diferenciação do produto e sua qualidade. Embora as
De acordo com o modelo de Hayami e Ruttan (1988), exigências desses segmentos possuam padrões elevados,
as inovações tecnológicas na agricultura são induzidas o cafeicultor que atenda a esses padrões tem a possibilidade
pela disponibilidade relativa de fatores na economia. Nesse de auferir maior lucratividade e, consequentemente, ser
sentido, as tecnologias podem ser desenvolvidas de modo mais competitivo. Conforme Pereira, Bartholo e Guimarães
a facilitar a substituição de fatores relativamente escassos, (2004), a melhora nos atributos de qualidade do café requer
portanto dispendiosos, por fatores relativamente a atenção com variáveis de ordem tecnológica, tanto na
abundantes, e portanto baratos. Os autores destacam dois colheita como na pós-colheita.
tipos de tecnologia na agricultura: a tecnologia mecânica, Historicamente, o café foi o principal financiador
poupadora de mão de obra e que viabiliza a utilização de do processo de industrialização do país, sendo responsável
equipamentos mecânicos induzido pelo propósito de por geração de renda e emprego no campo. Em Minas
reduzir os custos com o fator trabalho; a tecnologia Gerais, a cafeicultura colaborou para o desenvolvimento
biológica e química, poupadora de terra e induzida, econômico e social de muitas regiões como a Zona da
principalmente, para se aumentar a produção da cultura Mata, esta na safra 2007/2008, em conjunto com as regiões
por unidade de área ou para melhorar o rendimento de do Jequitinhonha, Mucuri, Rio Doce, Central e Norte
produtos de origem animal. representaram 36,16% da produção total do Estado, com
Já Cavallo e Mundlak (1982) argumentam que a 5,6 milhões de sacas de café de 60 kg (COMPANHIA
mudança tecnológica não ocorre em resposta apenas aos NACIONAL DE ABASTECIMENTO - CONAB, 2009).
movimentos dos preços dos fatores de produção, mas Na Zona da Mata Mineira está localizado o
também ao estoque de capital disponível, pois a município de Viçosa, MG, que tem na cafeicultura uma
acumulação de capital na economia favorece a adoção da atividade importante para economia local, como geradora
técnica moderna. de emprego e renda. A estrutura agrária do município é
Devido à importância dos insumos modernos para constituída, em sua maioria, por minifúndios, sendo que
ganhos de produtividade no processo produtivo e para a 93,9% das propriedades rurais com área inferior a 50
qualidade dos produtos, estudos têm buscado demonstrar hectares, apresentando uma concentração expressiva de
quais são os fatores determinantes na adoção das pequenos produtores rurais. A área plantada de café possui
tecnologias modernas na agricultura. No estudo de Silva e 2000 hectares em produção e 700 hectares em formação
Teixeira (2002) foi constatado que os principais (PROGRAMA MUNICIPAL DE FOMENTO À
determinantes da adoção da tecnologia “plantio direto” CAFEICULTURA - PRÓ-CAFÉ, 2003).
da soja em Goiás são rentabilidade, capital próprio e Neste particular, a Secretaria Municipal de
treinamento. No tocante à tecnologia de pós-colheita, Agricultura e Meio Ambiente (SEAMA) de Viçosa, MG, ao
Monte e Teixeira (2006) salientam que os fatores avaliar a importância socioeconômica da cafeicultura para
rentabilidade, associativismo e treinamento são os mais o município e para os seus produtores rurais, elaborou e
relevantes na determinação da adoção da tecnologia de lançou o “Programa Municipal de Fomento á Cafeicultura –
despolpamento2, fundamental para a produção de um café Pró-Café”. Este programa tem como principais objetivos a
de melhor qualidade, na atividade cafeeira do município de ampliação do parque cafeeiro local, aumento de
Venda Nova do Imigrante, ES. produtividade das lavouras existentes e em via de
Em relação ao café, a adoção de tecnologias implantação, proporcionar capacitação do produtor rural e
modernas tem contribuído significativamente para do trabalhador e, por fim permitir assistência técnica
obtenção de um produto de melhor qualidade. O café, que individual e gratuita. Os objetivos propostos buscam a
por muito tempo foi comercializado apenas em forma de produção de cafés com qualidade de bebida cada vez
melhores e com menores custos, aumentando a
1
O despolpamento consiste na retirada da casca dos frutos lucratividade e competitividade do produtor. Desta forma,
maduros ou cerejas por meio de um descascador mecânico e para se atingir as metas iniciais propostas neste programa,
posterior fermentação e lavagem dos grãos, eliminando-se a a SEAMA buscou parcerias com as empresas do Sistema
mucilagem (EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA Operacional da Agropecuária do Estado de Minas Gerais
AGROPECUÁRIA - EMBRAPA, 2008). (EPAMIG, EMATER, IMA, RURALMINAS), firmou

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 352-362, 2011


354 LANNA, G. B. M. et al.

convênio com a Empresa Júnior de Agronomia da Para determinar o número de cafeicultores a serem
Universidade Federal de Viçosa, além de fazer gestão junto entrevistados, utilizou-se um nível de confiança de 90%
à Prefeitura Municipal (PRÓ-CAFÉ, 2003). (Z  1,645) , uma margem de erro de 10 % e um valor
Dada a importância da adoção de técnicas agrícolas ( p) de 50%, já que a proporção de cafeicultores adotantes
modernas para o desenvolvimento agrícola, e as iniciativas da tecnologia de despolpamento é desconhecida.
de fomento para a produção de cafés de qualidade em Consequentemente, o valor (q) foi de 50%.
Viçosa, MG, torna-se atraente identificar os fatores que Utilizando-se os dados preliminares para o cálculo
determinam a adoção da tecnologia de despolpamento, da amostra, foi encontrado um valor amostral (n) de 59,
fundamental para aumentar a qualidade do café. Frente ao ou seja, o número da população total a ser entrevistada
exposto, objetivou-se, sobretudo, neste trabalho, seria de 59 produtores de café, mas a população
identificar os fatores que determinam a adoção da entrevistada para a realização do trabalho foi de 61
tecnologia pós-colheita de despolpamento pelos produtores rurais.
cafeicultores do município de Viçosa, MG. Para se verificar a influência das variáveis estudadas
na probabilidade de adoção da tecnologia de
2 METODOLOGIA despolpamento, foi especificado o modelo em que a
2.1. Fonte de dados e procedimentos analíticos variável dependente admite valores discretos, zero e um –
variável binária. Assim, a probabilidade de ocorrência de
Os dados coletados referem-se às safras agrícolas cada resposta binária é decorrente de um conjunto de
de 2002/2003 a 2006/2007 e a pesquisa foi realizada no atributos dos indivíduos, tais como nível educacional,
município de Viçosa, MG, que está localizado na Zona da renda, idade do agricultor, sexo etc. (GUJARATI, 2000).
Mata Mineira e que possui uma área de 299 km². O município Um dos principais objetivos dos modelos de
situa-se a 225 km da capital do Estado, Belo Horizonte, 170 respostas binárias é calcular a probabilidade de um
km de Juiz de Fora e 395 km do Rio de Janeiro. indivíduo, com determinado conjunto de atributos, tomar
Na determinação da amostra, o modo utilizado foi o uma decisão sobre um dado evento.
aleatório simples, em que a escolha de um indivíduo em O modelo Logit usa a função de distribuição
uma determinada população tem a mesma probabilidade acumulada logística, que é dada por:
de ocorrência. Foi realizado um sorteio entre os elementos
da população de cafeicultores existentes no município para 1
selecionar os produtores representantes da amostra. L X i    (2)
Para o cálculo da seleção de amostras da população 1  e Xi
finita foi utilizado o método apresentado por Fonseca e em que L representa a função de distribuição
Martins (1996), Expressão 1: logística; X i , vetor de variáveis independentes;  , vetor
de parâmetros; e e , base do logaritmo natural.
Z 2 . p.q. N (1) Na tomada de decisão sobre adotar ou não uma
n
d 2 ( N  1)  Z 2 . p.q dada tecnologia, admite-se que o produtor avalie as
vantagens e as desvantagens da adoção. Como os
em que n é tamanho da amostra; Z , abscissa da curva parâmetros dessa decisão não são observáveis para cada
normal padrão; p , estimativa da verdadeira proporção de propriedade i , pode-se definir uma variável latente ou não
um dos níveis da variável escolhida, expresso em decimais; observada, Y * , como:
q  1  p ; N , tamanho da população; e d , erro
amostral admitido, expresso em decimais. Yi *  X i    i (3)
Segundo a Empresa de Assistência Técnica e
Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (EMATER-MG) em que Yi * é variável dependente, i  1,..., n ;  ,
de Viçosa, MG, o município possui, aproximadamente, 450 parâmetro; , conjunto de variáveis explicativas, ; e , erro
produtores de café que representam o tamanho da aleatório.
população de cafeicultores. Entretanto, devido à A decisão de adoção pode ser descrita pela variável
inexistência de documento contendo os dados (nome e binária, , tal que , se o produtor adota tecnologia e , se não
localidade) de todos os cafeicultores, o sorteio foi realizado adota. Esses valores observados de estão relacionados
com 209 elementos, número de dados disponíveis. com , como segue:

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 352-362, 2011


Determinantes da adoção da tecnologia de despolpamento... 355

Nota-se que o efeito marginal da cada variável


Yi  1 , se Yi*  0 ; e, Yi  0 , se Yi*  0
explicativa sobre a probabilidade não é constante, visto
que depende do efeito do valor em que cada variável é
Prob Yi  1 = Prob Yi*  0 = Prob  i   X i   (4)
considerada, ou seja, o valor médio de cada variável .
A variável dependente para este estudo será a
 
Prob Yi  0  = Prob Y *  0 = Prob  i   X i   (5) adoção da tecnologia de despolpamento na cafeicultura
de Viçosa, MG, e para isso buscam-se identificar os fatores
Dado logística, o modelo é estimado pelo Método que determinam a adoção de tal tecnologia pelos
de Máxima Verossimilhança, ou seja, produtores de café do município, que visam melhorar a
qualidade do café produzido na região.
e X i 1 Para análise da adoção das tecnologias de
L  i  Xi
j X 
(6)
1 e 1 e j despolpamento, fez-se a divisão dos cafeicultores em dois
grupos: o primeiro, considera como adotantes da
em que refere-se aos cafeicultores que adotam a tecnologia
tecnologia aqueles que despolpam café e, os demais, como
de despolpamento, e , aos cafeicultores que não adotam
não adotantes.
tal tecnologia.
As variáveis independentes são definidas a seguir.
A probabilidade de adoção da tecnologia de
despolpamento é calculada da seguinte forma: a) Associativismo (ASSO)
A variável associativismo é dada pela participação
1 dos produtores de café de Viçosa, MG, em alguma
Pi  (7)
1  e  X i associação de produtores do município, ou seja, faça parte
da ARCA (Associação Regional de Cafeicultores), ou da
em que é probabilidade de adoção da tecnologia de Associação de Produtores de Café das Serras de Minas,
despolpamento; , variáveis explicativas do modelo; e , ou se é assistido pelo PRÓ-CAFÉ (Programa Municipal de
coeficiente das variáveis explicativas. Fomento à Cafeicultura). A variável é binária e admite valor
A probabilidade de não adoção da tecnologia de um para os cafeicultores associados e zero para os não
despolpamento pode ser calculada pela expressão, são associados. O efeito marginal esperado para a variável
associativismo é positivo, pois a participação do produtor
e X i em associação eleva o seu nível de informação sobre a
1  Pi  (8) tecnologia de despolpamento, sendo maior a probabilidade
1  e X i de adoção de tal tecnologia.

sendo a probabilidade de não adoção da tecnologia de b) Capital próprio (KP)


despolpamento; , variáveis explicativas do modelo; e , A variável capital próprio é dada pelo capital
coeficiente das variáveis explicativas. próprio do produtor em forma de benfeitorias, máquinas
Para determinar o efeito marginal de cada variável ou equipamentos na propriedade rural. Espera-se um efeito
sobre a probabilidade de adoção de uma dada tecnologia, marginal positivo, ou seja, o produtor mais capitalizado
faz-se necessário o uso de valores médios das variáveis possui m enor a versã o ao risco, aumentando a
explicativas. probabilidade de adoção da tecnologi a de
O efeito marginal da variável sobre a variável despolpamento.
dependente é expresso da forma descrita pela equação 9:
c) Crédito (CRED)
A variável crédito de custeio e de investimento
Pi 1 e  X i (9) indica se o produtor utilizou de crédito para financiar a
 
X i 1  e  Xi 1  e X i atividade cafeeira nas safras agrícolas de 2002/2003 a 2006/
2007. A variável é binária e admite valor um para os
cafeicultores que utilizaram o crédito e zero para os que
1 e  Xi não o utilizaram. O efeito marginal esperado para a variável
considerando-se Pi  e 1  Pi  .
1  e  Xi 1  e Xi crédito é positivo, ou seja, quanto maior a utilização de

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 352-362, 2011


356 LANNA, G. B. M. et al.

crédito para financiar a atividade cafeeira, maior será a utilizam, em média, oito operações pós-colheita, sendo as mais
probabilidade de adoção da tecnologia de despolpamento. comuns a colheita seletiva, o uso do lavador, terreiro secador
revestido e/ou, secador, máquina de beneficiar, despolpador,
d) Escolaridade (ES)
armazenamento em coco na propriedade e armazenamento em
A variável escolaridade é medida pelo total de anos locais de terceiros. Já os que não despolpam são considerados
em que o produtor frequentou a escola. Espera-se um efeito como não adotantes dessa tecnologia de pós-colheita, e
marginal positivo, indicando que um nível escolar elevado utilizam em média cinco operações, sendo as mais comuns a
facilita a absorção e compreensão de novas tecnologias, separação de café bóia e separação de café do chão, e o uso
aumentando assim a probabilidade de adoção da tecnologia de terreiro secador não revestido, terreiro secador revestido e
de despolpamento. armazenamento em coco, na propriedade.
e) Produtividade (PROD) A área média das propriedades rurais é de 40,9
hectares, com amplitude de 3 a 176 hectares. A média das
A variável produtividade é dada pela produtividade áreas destinadas à exploração cafeeira é de 14,1 hectares,
média, em sacas por hectare, produzida nas safras agrícolas com amplitude de 0,35 a 70 hectares.
de 2002/2003 a 2006/2007. Acredita-se que uma maior Pela Figura 1, demonstra-se como é constituído o grupo
produtividade seja associada à melhor utilização dos dos produtores adotantes e o dos não adotantes, de acordo
recursos produtivos, sendo maior a probabilidade de com segmentos de área. Considerando a área da propriedade,
adoção da tecnologia de despolpamento. no segmento de 1 a 10 hectares, 5% dos adotantes e 27% dos
f) Rentabilidade (R) não adotantes possuem propriedades nesse intervalo. No
segmento de 11 a 20 hectares, concentra-se 15% dos adotantes
A variável rentabilidade é medida pelo preço médio e 20% dos não adotantes. No intervalo de 21 a 50 hectares,
da saca de café recebido pelo produtor, nas safras agrícolas abrange-se 35% dos adotantes e 33% dos não adotantes. Em
de 2002/2003 a 2006/2007. O efeito marginal esperado é áreas maiores acima de 51 hectares, dentre os adotantes há
positivo, ou seja, quanto maior a rentabilidade oferecida presença de 45% e 20% dentre os não adotantes. Essa
pela tecnologia de despolpamento maior será a segmentação demonstra que 80% dos cafeicultores que
probabilidade de adoção. despolpam têm propriedades com mais de 21 hectares.
g) Treinamento (T) No caso das áreas destinadas à cultura do café, a
maioria dos adotantes e não adotantes, 55% e 87%
A variável treinamento indica o recebimento de respectivamente, concentram-se em áreas de até 20
treinamento ou assistência técnica, por parte do produtor, hectares. Nas lavouras maiores que 21 hectares, dentre os
referente à cafeicultura. A variável é binária e admite valor adotantes há presença de 45%, enquanto apenas 13% dos
um para o produtor que já recebeu algum tipo de não adotantes possuem áreas destinadas à cafeicultura
treinamento e zero para o que não o recebeu. O resultado nessas dimensões. Nota-se que os adotantes da tecnologia
esperado no efeito marginal é positivo, ou seja, com
de despolpamento possuem maiores áreas destinadas à
efetivação de treinamento, aumenta a probabilidade de
cafeicultura e que parte significativa dos não adotantes
adoção da tecnologia de despolpamento.
possuem menos de dez hectares destinados à cultura.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES Quanto ao grau de escolaridade dos cafeicultores,
na Figura 2 apresentam-se os níveis escolares dos
3.1. Características dos produtores e determinantes da adotantes e não adotantes da tecnologia de
adoção de despolpa de café despolpamento. Nota-se que os cafeicultores não
adotantes têm menor grau escolar. Dos cafeicultores que
3.1.1 Caracterização dos cafeicultores possuem até ensino fundamental completo, 89% são de
Dos cafeicultores que participaram da pesquisa, não adotantes e 11% de adotantes. A nível de até ensino
32,79% despolpam café. Os que despolpam são considerados médio completo, existe igualdade entre os adotantes e não
adotantes dessa tecnologia de pós-colheita. O adotantes. Já a níveis superiores de ensino, até o terceiro
despolpamento é visto pela maioria dos produtores como a grau completo, os adotantes representam 71% e os não
tecnologia de pós-colheita mais importante para obtenção de adotantes 29%. Um maior grau de escolaridade parece
um café de melhor qualidade e maior preço. Com intuito de influenciar na adoção do despolpamento, pelos
melhorar a qualidade do café, os produtores que despolpam cafeicultores de Viçosa, MG.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 352-362, 2011


Determinantes da adoção da tecnologia de despolpamento... 357

80

45
33 35 35
27 25
20 20 20 20
15 10
5 7 3

1 a 10 11 a 20 21 a 50 51 a Acima 1 a 10 11 a 20 21 a 50 51 a Acima

Área da propriedade (ha) Área da propriedade com Café (ha)

Não Adotantes Adotantes

Fonte: Dados da pesquisa.


FIGURA 1 – Constituição do grupo dos adotantes e dos não adotantes da tecnologia de despolpamento, em porcentagem
por segmento de área (em hectares).

89

71

50 50

29

11

ensino fundamental completo ensino médio completo ensino superior completo

Não adotantes Adotantes

Fonte: Dados da pesquisa.


FIGURA 2 – Escolaridade dos cafeicultores, em porcentuais, de acordo com os adotantes e não adotantes da tecnologia
de despolpamento.

Em relação ao surgimento de novas técnicas de de médias com confiança de 5% foi estaticamente significativo
produção ou novo tipo de insumo e maquinário para o para ES, KP e PROD indicando que as médias são diferentes,
café, a sua adoção pelos cafeicultores é cuidadosa: 77% ou seja, não são oriundas da mesma população. Já as médias
esperam os resultados das pesquisas e do uso feito por da rentabilidade para os produtores foram estatisticamente
produtores inovadores ou vizinhos para depois adotarem iguais a 5% de confiança, demonstrando que as médias para
ou não essas novas tecnologias; cerca de 13% adotam- a rentabilidade são provenientes da mesma população.
nas de acordo com o orçamento e planejamento; e somente
3.1.2. Fatores que determinam à adoção da tecnologia de
10% adotam esses novos recursos à primeira vista.
despolpamento
Na Tabela 1 apresentam-se os valores médios das
variáveis contínuas, escolaridade (ES), capital próprio (KP), Os fatores que determinam a adoção da tecnologia
produtividade (PROD) e rentabilidade (R). O teste de diferença de despolpamento em Viçosa, MG, são apresentados na

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 352-362, 2011


358 LANNA, G. B. M. et al.

TABELA 1 – Valores médios das variáveis contínuas, determinantes da adoção da tecnologia de despolpamento.
Variáveis Média geral (1) Média para os não adotantes (2) Média para os adotantes (3)
ES 9,03 6,20ª 14,85ª
KP 124.420,64 75.126,22ª 225.474,20ª
PROD 25,24 22,58ª 30,69ª
R 213,22 204,23b 231,65b
Fonte: Dados da pesquisa.
Nota: 1) Nível de significância estatística das médias: 5% (a = estatisticamente significativo, b = não significativo); 2) ES =
escolaridade do produtor medida em anos; KP = capital próprio em forma de benfeitorias, máquinas e equipamentos na unidade
produtora; e PROD = produtividade (sacas/ha); R = preço médio da saca recebido pelo produtor, nas safras agrícolas de 2002/2003
a 2006/2007.

Tabela 2. Para realizar a análise foram utilizados os softwares também comercializa o café dos associados e busca maior
EViews e Statistical Package for Social Science (SPSS). preço para o produto no mercado.
O ajustamento do modelo Logit apresenta as A importância do associativismo para adoção de
variáveis associativismo (ASSO), escolaridade (ES), capital novas tecnologias também foi identificada por Monte e
próprio (KP), rentabilidade (R) e treinamento (T) como Teixeira (2006), em seu estudo feito no município de Venda
estatisticamente significativas para determinar a adoção Nova do Imigrante, ES. O estudo analisou os determinantes
da despolpa do café. Essas variáveis apresentaram os da adoção da tecnologia de pós-colheita na cultura do café,
e o associativismo foi o segundo fator mais importante para
coeficientes estatisticamente diferentes de zero, com sinais
os produtores na adoção da tecnologia de pós-colheita,
positivos, como esperado. Em relação às variáveis crédito
nesse caso a despolpa do café. Resultado semelhante foi
(CRED) e produtividade (PROD), essas não se
encontrado por Burton et al. (1998), em estudo realizado no
apresentaram estaticamente significativas. estado do Paraná, com o intuito de analisar a adoção de
O acerto total do modelo foi de 88,52%, isso é, esse tecnologias sustentáveis (orgânicas/biodinâmicas).
foi o porcentual de acerto na classificação, em adotantes e Observou-se que, os produtores aumentam a probabilidade
não adotantes, da adoção da tecnologia de despolpamento de adoção de tais tecnologias à medida que recebem
para os cafeicultores, obtido pelo modelo estimado. Esse informações de alguma associação de produtores.
porcentual demonstra que há boa aderência entre o Em relação à variável crédito (CRED), dada pela
fenômeno estudado e o modelo utilizado. A reta de utilização de crédito de custeio ou investimento nas safras
regressão foi confirmada pelo teste ANOVA (F =15,188, F agrícolas de 2002/2003 a 2006/2007, essa se apresenta
de significação < 0,000). O teste de Durbin-Watson foi de estatisticamente não significativa, ou seja, a utilização do
2,331, demonstrando não haver autocorrelação na crédito não influencia o produtor na adoção da tecnologia
regressão, assim como os Fatores de Inflação de Variância de despolpamento. Apesar de o volume médio de crédito
(VIF) que estiveram entre1,031 e 1,843, indicando não haver utilizado pelos adotantes ser igual a R$ 30.554,17, esse valor
multicolinearidade entre as variáveis independentes que representa apenas 13,6% do capital próprio do produtor,
possa ser prejudicial aos pressupostos da análise. logo a utilização de crédito parece não ser tão importante.
A variável associativismo (ASSO) que indica se o A variável escolaridade (ES) apresentou-se
estatisticamente significativa. A escolaridade do produtor
produtor participa de alguma associação de produtores
é determinante para que ele adote tecnologias mais
do município, ARCA e Serra de Minas, ou se é assistido
modernas. De acordo com Schuh (1975), a educação é
pelo PRÓ-CAFÉ, apresentou-se estatisticamente altamente complementar à mudança técnica e é o meio de o
significativa. Com o associativismo, há um fluxo maior de produtor decodificar as informações necessárias à adoção
informações e incentivos à produção de um café de melhor da nova tecnologia.
qualidade. Em particular, a ARCA possui uma central que Ilha e Lima (1989) realizaram estudos sobre o impacto
despolpa o café para os cafeicultores associados. Essa da educação em pequena produção agrícola de Minas
iniciativa oferece a possibilidade de o associado adotar a Gerais, e observaram que a educação aumenta a produção
tecnologia de despolpamento e assim produzir um café de agrícola, principalmente pela melhoria da habilidade na
melhor qualidade. Além da despolpa do café, a ARCA tomada de decisão do agricultor (eficiência alocativa).

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 352-362, 2011


Determinantes da adoção da tecnologia de despolpamento... 359

TABELA 2 – Coeficientes estimados do modelo Logit, para os determinantes da adoção da tecnologia de despolpamento.
Variáveis Coeficientes Erro-Padrão Valor de Z Prob.
C -14.70859 4.615211 -3.186980 0.0014
ASSO 2.675097 1.364972 1.959819 0.0500**
CRED 0.932315 1.146555 0.813145 0.4161 ns
ES 0.165677 0.085876 1.929259 0.0537*
KP 2.47E-05 9.00E-06 2.741024 0.0061***
PROD -0.008823 0.048843 -0.180640 0.8567 ns
R 0.017453 0.010181 1.714190 0.0865*
T 3.532915 2.150274 1.643007 0.1004*

Probabilidade (LR stat) 5.16E-08


Total de observações 61
Obs. Com variável dependente = 0 41
Obs. com variável dependente = 1 20
Predições corretas 88,52%
Fonte: Dados da pesquisa.
Nota: 1) *** Significativo a 1%, ** Significativo a 5%, * Significativo a 10%, ns Não significativo a 10%; 2) C = constante; ASSO =
associativismo; CRED = utilização de crédito para cafeicultura; ES = escolaridade do produtor; KP = capital próprio em forma de
benfeitorias, máquinas e equipamentos na unidade produtora; PROD = produtividade (sc/ha); R = preço médio da saca recebido
pelo produtor nas safras agrícolas de 2002/2003 a 2006/2007; e T = treinamento (presença de treinamento e/ou assistência técnica
referente à cafeicultura).

Quanto à variável capital próprio (KP), que apresenta-se como mais importante para determinar a
representa o capital próprio na forma de benfeitorias, adoção da tecnologia de despolpamento. Com o
máquinas e equipamentos na unidade produtora foi treinamento sobre cafeicultura, o agricultor se torna mais
estatisticamente significativa. O produtor que possui maior capacitado em utilizar e aprender novas técnicas. Em Viçosa,
volume de capital convertido em benfeitorias, máquinas e MG, os agricultores são assistidos pela EMATER-MG, que
equipamentos na propriedade, tem mais chances de adotar proporciona assistência técnica e realiza cursos
a tecnologia de despolpamento. O investimento na relacionados à extensão rural, pela Secretaria de Agricultura
propriedade para despolpa do café requer um alto volume e Abastecimento de Viçosa (SEAMA) responsável pelo
de capital e esse investimento advem da busca de um PRÓ-CAFÉ e pela ARCA, que promove palestras,
produto de maior qualidade junto com maior preço. seminários e encontros entre seus associados. Resultado
A variável produtividade (PROD), correspondente à
semelhante foi encontrado por Oliveira, Khan e Lima (2005),
produtividade média nas safras agrícolas de 2002/2003 a
em estudo que procurava identificar a adoção tecnológica
2006/2007, medida em que sacas por hectares, foi
e seus condicionantes na bananicultura no estado do Ceará.
estatisticamente não significativa na determinação da adoção
da tecnologia de despolpamento. Apesar de os cafeicultores Constatou-se que a assistência técnica foi importante para
que despolpam café possuírem maior produtividade em elevar a possibilidade do produtor em adotar níveis
relação aos não adotantes, esse fator parece não influenciar tecnológicos adequados na produção de banana.
na adoção da tecnologia. Resultado contrário foi encontrado Em relação à variável rentabilidade (R), dada pelo
por Monte e Teixeira (2006), que identificou a produtividade preço médio da saca recebido pelo produtor nas safras
como variável determinante para os cafeicultores do agrícolas de 2002/2003 a 2006/2007, essa foi estatisticamente
município de Venda Nova do Imigrante, ES, na adoção da significativa. Silva e Teixeira (2002), em estudo realizado
tecnologia de despolpa do café. no estado de Goiás, identificaram a rentabilidade como um
De acordo com o esperado, a variável treinamento dos fatores determinantes da adoção da tecnologia
(T) foi estatisticamente significativa. Essa variável “plantio direto” na cultura da soja. Segundo os autores, a

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 352-362, 2011


360 LANNA, G. B. M. et al.

rentabilidade da cultura tem sido fator determinante da Os efeitos marginais das variáveis contínuas
modernização agrícola, já que o produtor é motivado a significativas para adoção da tecnologia de
realizar investimentos nas culturas que apresentam maior despolpamento, escolaridade (ES), capital próprio (KP) e
rentabilidade. Vale ressaltar que a tecnologia de rentabilidade (R), são apresentados na Tabela 3.
despolpamento corresponde a um investimento de valor Nota-se que o efeito marginal das variáveis
significativo, e o retorno do capital investido é um atrativo contínuas que determinam a adoção da tecnologia de
para que o produtor invista em tal tecnologia. despolpamento, ES, KP e R, são baixos. Portanto, quando
Em relação à adoção da tecnologia de o produtor não participa da associação de produtores e
despolpamento, é relevante destacar que a rentabilidade não recebe treinamento, há privamento de informação
da atividade cafeeira juntamente com o associativismo e referente à cafeicultura e perda da capacidade de utilização
treinamento são fatores importantes para a adoção de novas tecnologias, existindo pouco incentivo para que
tecnológica. Dos produtores adotantes de tal tecnologia, ele adote tecnologias modernas.
85% são associados, 95% receberam algum tipo de Em relação às variáveis binárias, associativismo
treinamento referente à cafeicultura e ainda apresentam (ASSO) e treinamento (T), essas influenciam o efeito
uma rentabilidade 13,43% maior que a dos não marginal de acordo com sua ausência ou presença,
[Link] a interação dessas variáveis parece ser admitindo valores zero e um, respectivamente. Na Figura 4
fundamental para que o produtor adote novas tecnologias. apresentam-se os efeitos marginais das variáveis discretas,
Vale destacar que a adoção do despolpamento eleva associativismo (ASSO) e treinamento (T), significativas
os custos de produção da atividade cafeeira, portanto sua na probabilidade de adoção.
adoção necessita de um preço compensatório para o café Observa-se, quando o produtor não participa da
despolpado, de forma que incentive o produtor a utilizar associação de produtores e não recebe treinamento
tal tecnologia. No entanto, é uma tecnologia que requer referente à cafeicultura, tendo influência das variáveis
capacitação por parte do produtor para que seja utilizada contínuas ES, KP e R, em valores médios, a probabilidade
de forma adequada, o que ressalta a importância da presença de adoção da tecnologia de despolpamento é de 0,0013.
de cursos e treinamento sobre novas tecnologias e a Na situação em que o produtor é associado e não recebe
rentabilidade da atividade. treinamento, o efeito marginal é de 0,0186, o que implica um
aumento de 1,73 pontos porcentuais na probabilidade de
3.1.3. Efeitos marginais dos fatores determinantes da adoção. Já quando o produtor não é associado e recebe
adoção da tecnologia de despolpamento treinamento, o efeito marginal é de 0,0428, implicando
O efeito marginal das variáveis explicativas sobre a aumento de 4,15 pontos porcentuais. Por fim, quando o
probabilidade de adoção da tecnologia de despolpamento produtor é associado e recebe treinamento, o efeito marginal
não é refletido nos seus coeficientes, que foram estimados é de 0,3936, significando aumento de 39,23 pontos
pelo modelo Logit. Para definir os efeitos marginais de porcentuais na adoção da tecnologia de despolpamento.
cada variável sobre a probabilidade de adoção, são Nota-se, então, a importância das variáveis associativismo
utilizados os valores médios das variáveis explicativas (ASSO) e treinamento (T): com a ausência delas, ASSO = 0
contínuas, apresentados na Tabela 1, coluna 1, de acordo e T = 0, a probabilidade de adoção é de 0,0013, e, na
com a expressão 9. presença, ASSO =1 e T = 1, essa probabilidade é de 0,3936.

TABELA 3 – Efeitos marginais das variáveis contínuas, pelo modelo Logit.


Variáveis Efeito Marginal
ES 0,0002
KP 3,219E-08
R 2,275E-05
Fonte: Dados da pesquisa.
Nota: 1) ES = escolaridade do produtor; KP = capital próprio em forma de benfeitorias, máquinas e equipamentos na unidade
produtora; R = preço médio da saca recebido pelo produtor, nas safras agrícolas de 2002/2003 a 2006/2007.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 352-362, 2011


Determinantes da adoção da tecnologia de despolpamento... 361

0,3923

0,0415
0,0013 0,0173

ASSO = 0 T = 0 ASSO = 1 T = 0 ASSO = 0 T = 1 ASSO = 1 T = 1

Efeito M arginal

Fonte: Dados da Pesquisa.


FIGURA 4 – Efeito marginal das variáveis associativismo e treinamento, para diferentes situações de associativismo e
treinamento, na cafeicultura

4 CONCLUSÕES Conclui-se que as tecnologias mais inovadoras,


como o despolpamento, requerem, para sua adoção, além
Objetivou-se, neste trabalho, identificar os
da disponibilidade da tecnologia, principalmente:
determinantes da adoção da tecnologia pós-colheita de
associativismo, treinamento, estoque de capital e
despolpamento, na atividade cafeeira no município de
Viçosa, MG, uma vez que a despolpa do café é fundamental rentabilidade. No caso da rentabilidade essa deve ser
na obtenção de um café de melhor qualidade e, compensadora e estável no tempo, oferecendo aos
consequentemente, possibilita ao produtor auferir melhor tomadores de decisão confiança no futuro da atividade e
lucratividade. capacidade de acumulação de capital.
Os resultados demonstram que as variáveis 5 REFERÊNCIAS
associativismo (ASSO), escolaridade (ES), capital próprio
(KP), rentabilidade (R) e treinamento (T) são determinantes ALVES, E.; CONTINI, E. A modernização da agricultura
na adoção de tal tecnologia pelos produtores, sendo o brasileira. In: BRANDÃO, A. S. P. Os principais problemas
treinamento e o associativismos os fatores que mais da agricultura brasileira: análise e sugestões. 2. ed. Rio
contribuem na adoção. Janeiro: IPEA, 1992. p. 49-95.
Vale ressaltar a importância das variáveis
treinamento (T) e associativismo (ASSO) para o aumento BURTON, M. et al. Adoção de tecnologias sustentáveis
considerável da probabilidade de adoção do no Paraná. Revista de Economia e Sociologia Rural, Brasília,
despolpamento pelos cafeicultores. Com a presença de v. 36, n. 4, p. 71-87, 1998.
treinamento referente à cafeicultura, o agricultor se torna
mais capacitado em utilizar e aprender novas técnicas, e o CAVALLO, D.; MUNDLAK, Y. Agriculture and economic
associativismo contribui para maior fluxo de informações growth in an open economy: the case of Argentina.
sobre as novas técnicas, incentivando a produção de um Washington: Internacional Food Policy Research Institute,
café de melhor qualidade. 1982. 162 p. (Research report, 36).
Os resultados obtidos são semelhantes aos verificados
por Monte e Teixeira (2006), em estudo que analisou os COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO.
determinantes da adoção da tecnologia pós-colheita de Indicadores agropecuarios. Disponível em: <http://
despolpamento, na cultura do café no município de Venda [Link]>. Acesso em: 1 fev. 2009.
Nova do Imigrante, ES. Identificaram-se as variáveis
rentabilidade, associativismo e treinamento que foram as que CONTADOR, C. R. Tecnologia e rentabilidade na
mais contribuíram para a adoção de tal tecnologia. agricultura brasileira. Rio de Janeiro: IPEA, 1975. 276 p.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 352-362, 2011


362 LANNA, G. B. M. et al.

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA Nova do Imigrante, ES. Revista de Economia e Sociologia


AGROPECUÁRIA. Sistemas de produção: café. Disponível Rural, Brasília, v. 44, n. 2, p. 201-217, abr./jun. 2006.
em: <[Link] Acesso em: 2 jun.
2008. OLIVEIRA, M. A. S.; KHAN, A. S.; LIMA, P. V. P. S. Adoção
tecnológica e seus condicionantes: o caso da bananicultura
FONSECA, J. S.; MARTINS, G. A. Curso de estatística. no agropolo Cariri, CE. Revista de Economia e Agronegócio,
São Paulo: 6. ed. São Paulo: Atlas, 1996. 320 p. Viçosa, v. 3, n. 3, p. 377-398, 2005.

GUJARATI, D. N. Econometria básica. São Paulo: Makron PEREIRA, S. P.; BARTHOLO, G. F.; GUIMARÃES, P. T. G.
Books, 2000. 845 p. Cafés especiais: iniciativas brasileiras e tendências de
consumo. Belo Horizonte: Epamig, 2004. 80 p. (Série
HAYAMI, Y.; RUTTAN, V. Desenvolvimento agrícola: documentos).
teoria e experiências internacionais. Brasília: Embrapa, 1988.
583 p. PROGRAMA MUNICIPAL DE FOMENTO À
CAFEICULTURA. Divulgação dos trabalhos do IV Encontro
HOFFMAN, R. Distribuição de renda na agricultura. In: de avaliação técnica, III Ciclo de palestras e I Encontro
BRANDÃO, A. S. P. (Ed.). Os principais problemas da regional de cafeicultores. Viçosa, MG: UFV, 2003. 32 p.
agricultura brasileira: análise e sugestões. 2. ed. Rio
Janeiro: IPEA, 1992. p. 11-47. SCHUH, G. E. A modernização da agricultura brasileira: uma
interpretação. In: CONTADOR, C. R. (Ed.). Tecnologia e
ILHA, A. S.; LIMA, J. E. Impacto da educação na pequena desenvolvimento agrícola. Rio de janeiro: IPEA/INPES,
produção agrícola em Minas Gerais. Pesquisa e 1975. p. 7-46.
Planejamento Econômico, Brasília, v. 19, n. 1, p. 183-202,
abr. 1989. SILVA, S. P.; TEIXEIRA, E. C. Determinantes da adoção da
tecnologia “plantio direto” na cultura da soja em Goiás.
MONTE, E. Z.; TEIXEIRA, E. C. Determinantes da adoção Revista de Economia e Sociologia Rural, Brasília, v. 40, n.
da tecnologia “pós-colheita” na cultura do café em Venda 2, p. 305-326, 2002.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 352-362, 2011


IMPLEMENTAÇÃO DE ESTRATÉGIA
Implementação EMPREENDEDORA
de estratégia empreendedora... 363
INTERNACIONAL NO SETOR DE VINHOS: O CASO DA VINÍCOLA MIOLO

Implementing of International Entrepreneurial Strategy in


Wine’s Market: The Vinicola Miolo’s Case

RESUMO
Em termos de desenvolvimento teórico, há no campo de estudo da estratégia um gap significativo entre os processos de formulação
e implementação da estratégia. Apesar de esses elementos serem inter-relacionados e fundamentais para a gestão estratégica, a
formulação tem recebido mais atenção, tanto no âmbito acadêmico como no profissional. Assim como o processo de internacionalização
das empresas, a aproximação entre os campos da estratégia e do empreendedorismo, também necessitam ser enfocados pela literatura
da gestão estratégica. Com base nesse contexto acadêmico e empresarial, objetiva-se, com este trabalho, explorar elementos teóricos
tendo como objeto o processo de implementação da estratégia de internacionalização da Vinícola Miolo. Este é um estudo de caso
exploratório-descritivo com abordagem qualitativa. Com base na análise do caso, foi possível identificar aspectos que ilustram a
implementação da estratégia, o processo de internacionalização e o empreendedorismo estratégico, tais como o papel do aprendizado,
do conhecimento, e do desenvolvimento de recursos e de capacidades.

Vilmar Antônio Gonçalves Tondolo


Universidade do Sul de Santa Catarina, Programa de Pós-graduação em Administração
[Link]@[Link]

Cláudia Cristina Bitencourt


Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Centro de Ciências Econômicas, Área de Conhecimento e Aplicação de Recursos Humanos
[Link]@[Link]

Rosana da Rosa Portela Tondolo


Escola Superior de Administração, Direito e Economia
[Link]@[Link]

Recebido em: 5/11/08. Aprovado em: 20/6/11


Avaliado pelo sistema blind review
Avaliador Científico: Cristina Lelis Leal Calegario

ABSTRACT
In terms of theoretical development there is in the strategy field study a significant gap between strategy formulation process and
strategy implementation process. Although these factors are interconnected and fundamental to the strategic management, the
formulation has received more attention academically and professionally. As well as the internationalization companies process, the
rapprochement between strategy and entrepreneurship fields also need to be focused on the literature of strategic management. Based
on this academic and business context, this paper aims to explore theoretical elements having as object the implementation process
of the internationalization strategy of Miolo company. This work is characterized as a descriptive and exploratory qualitative case
study. Based on case analysis it has been possible to identify aspects that illustrate the strategy implementation, the internationalization
strategy and entrepreneurship, such as the role of learning, knowledge, and development of resources and capabilities.
Palavras – Chave: Estratégia, implementação, internacionalização.

Key-words: Strategy, implementing, internationalization.

1 INTRODUÇÃO implementação quanto empregam na formulação da


estratégia (SHAH, 2005).
A habilidade da organização em se adaptar Isso ocorre porque os gestores consideram mais
continuamente ao seu ambiente é um dos pontos centrais fácil e menos custoso em termos de emprego de tempo,
da gestão estratégica. A gestão estratégica abarca um selecionar a estratégia do que implementá-la. Apesar do
grupo de decisões e ações, resultando na formulação e reconhecimento da importância da implementação no
implementação da estratégia, voltados para a obtenção processo de gestão estratégica, pouca atenção tem sido
do propósito e dos objetivos da organização. A despendida no campo de estudo da estratégia, suscitando
implementação é vista como parte integrante do processo trabalhos adicionais abordando o tema (SHAH, 2005).
de gestão estratégica, porém os gestores de forma geral Por outro lado, em se tratando de
não empregam a mesma at enção n o plan o de internacionalização, o tema está atraindo cada vez mais a

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 363-376, 2011


364 TONDOLO, V. A. G. et al.

atenção dos pesquisadores na área da administração. (HREBINIAK; JOYCE, 2005).


Percebe-se também um movimento de empresas nacionais Formulação e implementação são atividades
visando à entrada em mercados internacionais. Uma das relacionadas que devem ser realizadas para que a
principais motivações desse movimento por parte das organização alcance os seus objetivos. Porém, deve-se ter
empresas é a procura de um padrão competitivo mais cuidado ao considerar que formulação e implementação
elevado. A intensidade da relação com o comprador são idênticas, pois tal consideração pode ser prejudicial
internacional e a disposição do fabricante local em aprender ao desenvolvimento do campo de estudo da estratégia
favorecem o upgrading interno da empresa para o processo (HREBINIAK; JOYCE, 2005). Nesse aspecto, os autores
de internacionalização (SCHMITZ; KNORRINGA, 2000). destacam três argumentos que sustentam a sua percepção:
A associação entre empreendedorismo e
Primeiro, a formulação e a implementação da es-
internacionalização também tem sido destacada na
tratégia são áreas complementares e distintas da
literatura. Nessa lógica, o empreendedorismo internacional
pesquisa em gestão estratégica. Segundo, por
é o processo de investigação de novas oportunidades no
causa disso, chamar tudo da mesma coisa é
mercado externo, sem se perder a perspectiva da vantagem
logicamente confuso e teoricamente disfuncional.
competitiva (ZAHRA; GEORGE, 2006). Observa-se, na
Terceiro, quando nós admitimos que a gestão
literatura, estudos no campo da estratégia defendendo a
estratégica é mais que só a formulação da estra-
aproximação entre a estratégia e o empreendedorismo, como
tégia, pesquisas empíricas revelam que muitas
Hitt et al. (2001) e Venkataraman e Sarasvathy (2005).
variáveis relacionadas à implementação são vi-
A partir das contribuições de Shah (2005) sobre
talmente importantes na explicação do desempe-
obstáculos da implementação da estratégia; e de Hrebiniak
nho da firma. De fato, essas variáveis podem ex-
e Joyce (2005) sobre a necessidade de maior
plicar mais a variância no desempenho da firma
desenvolvimento de pesquisas acerca da implementação
que aquelas relacionadas à formulação
da estratégia; da crescente importância dos estudos de
internacionalização de empresas; e, sobre a lógica do (HREBINIAK; JOYCE, 2005, p. 603).
empreendedorismo estratégico, objetiva-se, neste estudo, Assim, é necessário desenvolver pesquisas que
principalmente explorar o processo de implementação da contemplem tanto a formulação quanto a implementação
estratégia de internacionalização da empresa Miolo. Para da estratégia, principalmente o tema implementação. A
tal, foi desenvolvido um estudo de caso com abordagem formulação e a implementação são partes distinguíveis e
qualitativa, explorando e ampliando aspectos da empresa, interdependentes do processo de gestão estratégica, e
observados em estudos anteriores (BITENCOURT, 2007; logicamente a formulação precede a implementação
DOLABELLA, 2006; DOLABELLA; BITENCOURT, 2006). (HREBINIAK; JOYCE, 2005). Contudo, a implementação
Além dessa parte introdutória, o presente estudo está deve ser considerada ao longo do processo de formulação
organizado nas seguintes seções: revisão de literatura, (HAMBRICK; CANELLA, 1989).
procedimentos metodológicos, análise do caso, A formulação da estratégia está concentrada em
considerações finais e referências bibliográficas. determinar a direção futura da organização, pelo desenho
de estratégias apropriadas, já a implementação, está voltada
2 REVISÃO DE LITERATURA ao processo de traduzir a estratégia em ação (SHAH, 2005).
De acordo com os objetivos desta pesquisa, a Quando uma nova estratégia não é implementada com
revisão teórica ateve-se à: implementação da estratégia, sucesso ela não passa de uma fantasia (HAMBRICK;
empreendedorismo estratégico e os aspectos centrais na CANELLA, 1989).
Escola de Uppsala. A implementação da estratégia pode ser entendida
como um conjunto de questões que necessitam de
2.1 Implementação da estratégia pesquisas adicionais, devendo ser eclética, interdisciplinar
O tópico da implementação foi negligenciado ou e integradora de variáveis e abordagens. Estudos
pelo menos tratado superficialmente na literatura sobre anteriores identificaram que as empresas hábeis para
campo de estudo da estratégia. Apesar dos trabalhos já sustentar alto desempenho, ou que foram hábeis em
publicados, os estudos e frameworks sobre implementação alcançar o alto desempenho, realizaram as seguintes
não têm recebido a mesma ênfase do campo de estudo, se atividades: desenvolveram uma direção estratégica clara;
comparados à questão de formulação da estratégia construíram uma organização rápida e efetiva;

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 363-376, 2011


Implementação de estratégia empreendedora... 365

estabeleceram uma cultura adaptativa; e executaram foco (HREBINIAK; JOYCE, 2005, p. 620). Nessa lógica, destaca-
sobre a necessidade dos consumidores e redução de se com pontos centrais no estudo do campo da estratégia,
custos. Apenas a primeira atividade-chave está mais tanto a criação de estratégias para adaptação às mudanças
direcionada à formulação da estratégia, enquanto as demais, ambientais, como o desempenho como objetivo fim e
estão mais voltadas para implementação da estratégia resultado da aprendizagem gerada.
(HREBINIAK; JOYCE, 2005). Nesse aspecto, tanto a abordagem do
As recomendações em termos de pesquisa e prática posicionamento competitivo, como a abordagem dos
sobre implementação ainda são fracas, mesmo recursos e das capacidades são contribuições que recebem
considerando a contribuição da literatura sobre o processo grande atenção no campo da estratégia. Porém, nesse
de estratégia, bem como a contribuição da perspectiva do ponto, a abordagem do processo de monitoramento nas
posicionamento estratégico e das perspectivas dos organizações não recebeu o mesmo interesse dos
recursos, capacidades e competências. O conhecimento pesquisadores do campo, mesmo sendo um dos aspectos
sobre a execução da estratégia e a sua influência sobre o importantes da adaptação da organização (HREBINIAK;
desempenho da organização é subenfatizado na literatura JOYCE, 2005).
da gestão estratégica, do processo decisório e da gestão O processo de monitoramento compreende as
corporativa (HREBINIAK; JOYCE, 2005). O desempenho atividades de geração de informações necessárias ao
da organização não depende apenas de como a estratégia alinhamento entre os recursos e as capacidades
foi formulada, mas também de como a estratégia foi organizacionais e suas estratégias. Nesse aspecto,
implementada (SHAH, 2005). pesquisas futuras sobre implementação devem estudar os
Uma possível razão para a assimetria de produção determinantes e as correlações dos processos de
e interesse tanto acadêmico como empresarial entre monitoramento para permitir o conhecimento de como as
formulação e implementação da estratégia pode ser o nível organizações implementam e mudam seus planos, ao longo
de dificuldade enfrentada. A implementação da estratégia do processo de adaptação (HREBINIAK; JOYCE, 2005).
possui um nível de dificuldade superior à formulação, sendo As competências centrais ou recursos específicos
os fatores que descrevem essa dificuldade o período de dirigem os processos de monitoramento. A falta de
tempo envolvido; o número de pessoas envolvidas e o capacidades pode afetar a implementação da estratégia e a
grau de complexidade das tarefas; e a necessidade de habilidade da organização para adaptar-se às pressões
pensamento simultâneo e sequencial (HREBINIAK; ambientais. O aprendizado é um aspecto central para a
JOYCE, 2005). A implementação exige dos gestores a adaptação e o desempenho, podendo interferir em como a
habilidade de coordenar um escopo amplo de aspectos, organização implementa a estratégia. Pesquisas adicionais
para transformar intenções estratégicas em ação (SHAH, são necessárias ao entendimento dos efeitos do
2005). aprendizado na busca e implementação da estratégia
É provável que se saiba mais sobre a implementação (HREBINIAK; JOYCE, 2005).
da estratégia do que se pensa. Tópicos de gestão Em relação a estudos sobre a implementação da
estratégica, teoria organizacional, comportamento estratégia, Shah (2005) elaborou uma pesquisa sobre os
organizacional e desenvolvimento organizacional obstáculos à implementação da estratégia. O autor aplicou
contribuem tanto para a teoria como para uma visão mais uma survey com 145 gestores, envolvendo 35 empresas
pragmática da implementação (HREBINIAK; JOYCE, 2005). dos setores (bens duráveis, bens não duráveis,
Porém, o conhecimento é fragmentado, seguindo a automóveis, componentes para automóveis, tecnologia da
organização dos departamentos acadêmicos, contribuindo informação, têxtil, farmacêutico e instituições financeiras).
de certa forma, para o retardo no interesse por essa área de Todas as empresas são da região de Nova Deli, na Índia.
pesquisa. São necessários frameworks para auxiliar a Pelos resultados percebeu-se que os respondentes
conversão de novas estratégias em “sucesso competitivo” identificaram 11 variáveis como obstáculos ao processo
(HAMBRICK; CANELLA, 1989). de implementação. Dentre essas 11 variáveis, 80,7% da
A adaptação da organização ao longo do tempo é amostra identificaram como principais barreiras: habilidades
central para a implementação da estratégia, indicando que, gerenciais inadequadas; compreensão fraca dos papéis;
na organização, “o aprendizado ocorreu, que o retorno do direção e liderança inadequada por parte dos gestores
desempenho foi recebido, avaliado e foram feitos os departamentais; tarefas e atividades-chave para
necessários ajustes na sua instância competitiva” implementação mal definidas; e a falta de comprometimento

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 363-376, 2011


366 TONDOLO, V. A. G. et al.

dos empregados. Já 50,88% da amostra consideraram como Ainda que o empreendedorismo sendo uma prática
barreiras à implementação da estratégia a coordenação e um campo de estudo com algum tempo, não foi
insuficiente entre os departamentos; a insuficiente estabelecido um paradigma de pesquisa bem desenvolvido
capacitação dos funcionários; e linhas de e comumente aceito. Nesse aspecto, a integração entre
responsabilidades pouco claras. Por fim, sistemas de estratégia e empreendedorismo pode se desenvolver como
informação deficientes e monitoramento não efetivo foram um paradigma, além de, contribuir para o campo de estudo
considerados barreiras moderadas à implementação da da estratégia (HITT et al., 2001).
estratégia pelos respondentes (SHAH, 2005). Das diferentes escolas de pensamento do
O mesmo estudo identificou, segundo a percepção empreendedorismo apresentadas por Fayolle (2002),
dos respondentes, seis fatores centrais para a considera-se a clássica, a de gestão e a do
implementação da estratégia: difusão da estratégia; intrapreneurship como relacionadas à abordagem da teoria
alocação eficiente de recursos; envolvimento dos gestores; organizacional e da gestão. O foco da escola clássica é a
entendimento e envolvimento dos empregados; inovação, a criatividade e a identificação de oportunidades.
recompensas financeiras; e sistemas de informação. Esses Já o foco da escola de gestão é a busca de oportunidades
fatores são fundamentais para que a organização de negócio e o uso de ferramentas gerenciais apropriadas
transponha os obstáculos à implementação (SHAHA, para concretizar essa realização. E o foco da escola do
2005). Assim, identifica-se a necessidade de uma análise intrapreneurship é o comportamento empreendedor em
mais ampliada dos seus achados, possibilitando a organizações já existentes. Para cada uma das escolas
generalização dos resultados. elabora-se uma afirmação. A afirmação da escola do
intrapreneurship é: “Competências empreendedoras
2.2 Empreendedorismo e Estratégia
podem ser utilizadas, proveitosamente, em organizações
Empreendedorismo envolve a exploração de novas já existentes. Intrapreneurship sendo definido como o
oportunidades. No entanto, para gerar valor as empresas desenvolvimento de unidades independentes para criar
devem atuar de forma estratégica. Nesse sentido, o novos mercados e novos produtos” (FAYOLLE, 2002, p.
empreendedorismo estratégico é o ato de empreender com 266).
perspectiva estratégica (HITT et al., 2001). Cinco linhas de abordagens de significante
O empreendedorismo enfoca a criação, e a estratégia sobreposição intelectual com o campo de
enfoca como a vantagem é estabelecida e mantida, sendo empreendedorismo podem ser destacadas:
a criação de valor o ponto central de ambas as perspectivas empreendimento capital; empreendedorismo corporativo;
(VENKATARAMAN; SARASVATHY, 2005). Nessa lógica, economia; empreendedorismo estratégico e
essas perspectivas devem ser integradas para que se empreendedorismo ético. Ao analisar as divisões do
entendam as estratégias empreendedoras que geram valor, Academy of Management identificaram-se uma forte relação
denominado de empreendedorismo estratégico (HITT et entre a linha do empreendedorismo e a linha de estratégia
al., 2001). e política de negócios. Tal relação tem inclinado as
Destaca-se ainda que, empreendedorismo pesquisas em empreendedorismo em direção ao
estratégico é a integração das perspectivas de empreender entendimento do crescimento, sobrevivência, morte e
(comportamento de busca de oportunidades) com desempenho das firmas (GARTNER; DAVIDSSON;
estratégia (busca de vantagem), no desenvolvimento e ZAHRA, 2006).
tomada de ações voltadas para criação de valor. Doh e Nesse desen volvi men to concei t ua l a
Perace (2004) afirmam que os pesquisadores têm Entrepreneurial Orientation (EO) é pontuada como o
demonstrado, na literatura, a sensível relação entre principal construto, nos últimos anos, na literatura do
iniciativas empreendedoras e estratégia corporativa. campo do empreendedorismo e da estratégia (COVIN;
Para Hitt et al. (2001) existem diversos domínios em GRENN; SLEVIN, 2006). A lógica de empreendedorismo
que a integração entre empreendedorismo e estratégia pode na formulação da estratégia preconizada por Mintzberg
ocorrer naturalmente, os quais envolvem raízes foi central para o desenvolvimento desse construto
econômicas, negócios internacionais, teoria (DESS; LUMPKIN, 2005). Nessa lógica, as empresas,
organizacional, sociologia e estratégia. No quadro 1, a par a ger ar va lor, n ecessi ta m agi r de ma neir a
seguir, estão sintetizados os domínios explorados pelos empreendedora e estratégica ao mesmo tempo (HITT et
autores em relação à geração de valor. al., 2001).

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 363-376, 2011


Implementação de estratégia empreendedora... 367

Domínios Aspectos relacionados ao empreendedorismo


Redes externas Redes podem ser fontes de informação para auxiliar firmas empreendedoras para identificar
oportunidades em potencial;
Fontes de recursos e capacidades necessárias para competição às firmas empreendedoras;
Fontes de acesso a recursos complementares;
Fontes de aprendizado de novas capacidades.
Recursos e Orientação empreendedora, capacidades tecnológicas e recursos financeiros são bases para o
aprendizagem crescimento de novos empreendimentos;
organizacional Aquisição de conhecimento e sua exploração em novas tecnologias contribuem às firmas
construírem vantagem no desenvolvimento de produtos;
Aprender novos conhecimentos ajudam as empresas a se adaptarem às mudanças;
Desenvolvimento de capacidades dinâmicas e competências são necessárias em novos
empreendimentos.
Inovação Forte relação de duas vias entre inovação e empreendedorismo;
Inovações radicais (inovação destrutiva) são o ponto central para o empreendedorismo e a
criação de valor;
Firmas que empregam capacidades de inovação para implementação de estratégias
empreendedoras geram valor.
Internacionalização O número de pequenos negócios empreendedores aumentou com a abertura dos mercados e a
negociação por meio de novas tecnologias;
O empreendedorismo internacional pode ocorrer em pequenas empresas e em empresas
estabelecidas;
Cada novo mercado internacional conduz a novos aprendizados nas organizações;
Alianças são formadas para o acesso a recursos e capacidades necessárias para o processo de
internacionalização.
QUADRO 1 – Estudos de geração de valor no empreendedorismo
Fonte: Adaptado de Hitt et al. (2001)

No entanto, as empresas requerem determinados oportunidades é central para a pesquisa em


tipos de recursos e capacidades para tal desafio. Destaca- empreendedorismo. Nesse sentido, esse introduz a lógica
se a importância dos recursos e das capacidades, na medida de barreira de escala, destacando a importância de três
em que as empresas devem construir uma base de recursos recursos-chave (financeiros, capacidades organizacionais
para explorar capacidades. O desafio que a organização e gerenciais, e posição competitiva). Destaca-se dessa
enfrenta ao empreender e gerar valor passa pela forma que, com o surgimento da Visão Baseada em Recursos
identificação e construção de uma base de recursos e pela (VBR), diversos pesquisadores sobre o tema
especificação, combinação e transformação de recursos empreendedorismo começaram a incorporar a importância
pessoais e organizacionais em novos empreendimentos dos recursos no entendimento do desempenho de novos
para a empresa (BRUSH; GREENE; HART, 2001). empreendimentos.
Por meio de um estudo longitudinal, Lichtenstein e As barreiras de escala podem ser compreendidas
Brush (2001) identificaram que diferentes tipos de recursos como requisito em termos de recursos que a empresa deve
são necessários em diferentes estágios do possuir para explorar uma nova oportunidade em uma
empreendimento de novos negócios. As organizações determinada indústria. Nesse aspecto, destaca-se a
devem identificar as alternativas de quais recursos podem importância das estratégias de acumulação de recursos,
ser obtidos, identificados e combinados para que se que são a aquisição, o estabelecimento de alianças e o
possam explorar novos empreendimentos de forma efetiva. desenvolvimento interno (SHELTON, 2005).
Shelton (2005) aborda que a importância do Nessa ótica, recursos internos como capacidades
entendimento dos obstáculos à exploração de novas gerenciais e organizacionais são necessárias para a

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 363-376, 2011


368 TONDOLO, V. A. G. et al.

coordenação do processo de empreender, bem como, processos envolvidos na relação entre recursos,
recursos externos são necessários para que a organização desempenho e empreendedorismo (VENKATARAMAN;
se posicione e explore as novas oportunidades (SHELTON, SARASVATHY, 2005).
2005). Baseados na visão de Schumpeter - Lee, Peng e
2.3 Aspectos centrais da Escola de Uppsala
Barney (2007) definem empreendedores como indivíduos
que combinam recursos de novas formas e riscos, buscando A Escola de Uppsala entende o processo de
o potencial para valor à sociedade. internacionalização como um processo incremental
Assim emerge o empreendedorismo corporativo, construído pelo desenvolvimento e acumulação da
considerado como central ao crescimento e à sobrevivência aprendizagem. Nesse sentido, o modelo proposto por
das empresas por (BARRINGER; BLUEDORN, 1999). O Johanson e Vahalne (1977) aborda que o processo de
empreendedorismo corporativo também pode ser internacionalização das empresas ocorre pela aquisição
destacado enfocando a geração de valor pelo uso dos gradual, integração e uso do conhecimento do mercado
recursos em novas formas e também pelo desenvolvimento externo. Três aspectos centrais da lógica da Escola
de novos recursos. Dentre o desenvolvimento de novos de Uppsala podem ser destacados. Primeiro, que o processo
recursos, os novos conhecimentos emergem do processo de internacionalização emerge do desempenho local da
de empreendedorismo corporativo (AHUJA; LAMPERT, empresa no mercado. Segundo, que o processo ocorre de
2001). forma incremental, pelo desenvolvimento de conhecimentos,
As empresas variam no uso de estratégias desde a exportação até o investimento direto no exterior.
empreendedoras, porém, o uso desse tipo de estratégia Terceiro, visando à redução da distância psíquica, as
conduz a resultados superiores as inovações. Nesse empresas buscam mercados mais próximos ao seu mercado
sentido, pode existir o efeito do círculo virtuoso do local (GARRIDO; LARENTIS; SLONGO, 2006).
empreendedorismo estratégico nas empresas, e que, para O conhecimento é um aspecto essencial ao
a busca de tecnologias desconhecidas é necessário processo de internacionalização, sendo necessário
demandar recursos de forma extensiva. Em termos de distinguir o conhecimento geral do conhecimento
aplicação gerencial, o pioneirismo surge como mais uma específico do mercado. Esse último, refere-se às
alternativa de empreendedorismo para as grandes características específicas do mercado externo, dos clientes,
empresas, além da fixa, da imitativa e da adaptativa das dinâmicas do negócio no exterior, entre outros. Nesse
(AHUJA; LAMPERT, 2001). sentido, o conhecimento específico pode ser considerado
Nesse sentido, empreendedorismo corporativo como um recurso - quanto mais qualificado é o
pode ser entendido como uma opção que as empresas conhecimento específico do mercado, mais valioso se torna
utilizam para explorar novas oportunidades, para tal as esse recurso (JOHANSON; VAHALNE, 1977). Na lógica
empresas devem acessar e organizar recursos rapidamente. da Escola de Uppsala a internacionalização se refere ao
As firmas estabelecidas devem aprender a agir de forma grau no qual as vendas e/ou as operações da empresa
empreendedora (COVIN; GRENN; SLEVIN, 2006). Como estão relacionadas ao mercado externo (ELANGO;
suporte organizacional interno, as capacidades dinâmicas PATTINAIK, 2007).
que novos negócios e empresas estabelecidas Nesse sentido, a posse do recurso conhecimento é
desenvolvem são as fontes de desempenho superior. A uma condição essencial ao processo de
atividade de empreender tem papel central no desempenho internacionalização. A posse de recursos estratégicos e a
da firma, sendo as capacidades dinâmicas fundamentais habilidade de em termos operacionais é uma das condições
para as relações entre recursos, capacidades, aprendizado elementares para a internacionalização da organização.
e resultados. O processo de empreendedorismo pode ser Nessa lógica, a internacionalização de novos negócios,
encarado como um dos pontos de partida para o como uma organização, pode ser visto como um processo
desenvolvimento de capacidades dinâmicas (ZAHRA; gradual. Nesse sentido, avançando do mercado doméstico
SAPIENZA; DAVIDSSON, 2006). Como identificou-se, o ao internacional. Em se tratando da Escola de Uppsala, o
empreendedorismo admite diversas oportunidades de conhecimento necessário ao processo inicial de
pesquisa no campo da estratégia. Por exemplo, não é internacionalização deve ser capaz de gerar o retorno
apenas o acesso aos recursos que reflete o desempenho esperado pela empresa, que é uma das condições para que
das firmas, mas a forma como os recursos são utilizados. a internacionalização avance para estágios mais intensos
Nessa lógica, surge um caminho de investigação sobre os (OVIATT; MCDOUGALL, 1994).

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 363-376, 2011


Implementação de estratégia empreendedora... 369

No entanto, a abordagem da Escola de Uppsala é Em relação à análise documental, destacam-se os


mais explicativa para processos iniciais de seguintes documentos: “Relatório de Pesquisa de Mercado
internacionalização. Estudos anteriores como os de Dal- Brasileiro de Vinhos Finos” (CENTRO DE ESTUDOS E
Soto, Paiva e Souza (2007) e Paiva e Hexsel (2005) confirmam PESQUISAS EM AGRONEGÓCIOS - CEPAN, 2001); “Vinho
essa limitação. Nesse sentido, essa escola não é a mais brasileiro: más notícias e bons presságios”
indicada na busca do entendimento do investimento (FENSTERSEIFER, 2005); “Produção e Comercialização de
estrangeiro direto. Assim, cabe destacar que o caso que se Uvas e Vinhos - Panorama 2004” (MELLO, 2006b); “Atuação
analisa neste estudo se caracteriza por estar em um do Brasil no Mercado Internacional de Uvas e Vinhos”
processo inicial de internacionalização, justificando a (MELLO, 2006a).
escolha pela Escola de Uppsala. Além disso, também houve a consulta de pesquisas
Tendo em vista o referencial teórico acima desenvolvidas anteriormente pelo grupo de pesquisa
abordado, destacam-se os elementos centrais relacionados GEMAC (Grupo de Estudos em Mudança, Aprendizagem
ao desenvolvimento deste trabalho: (i) a implementação e Competências), das quais se destacam: “A análise e a
da estratégia deve estar balizada por um foco estratégico articulação das competências organizacionais em setores
definido; (ii) a implementação da estratégia requer o agroindustriais do Rio Grande do Sul – o caso das
desenvolvimento de recursos e capacidades ao longo da indústrias de vinhos, aves e suínos” (BITENCOURT, 2007)
trajetória organizacional; (iii) o empreendedorismo e a dissertação de mestrado “A consolidação das
estratégico reflete o ato da organização na busca da competências organizacionais na vitivinicultura brasileira:
competitividade via exploração de novas oportunidades; um estudo de caso na Vinícola Miolo” (DOLABELLA,
(iv) e, o aprendizado como principal aspecto nos estágios 2006).
iniciais do processo de internacionalização. Para a análise dos dados utilizou-se a técnica de
anál ise de conteúdo. As categorias de aná lise
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS desenvolvidas foram: (i) barreiras à implementação da
Caracteriza-se, essa pesquisa, como um estudo de estratégia internacional; (ii) tipo de orientação estratégica
caso exploratório-descritivo, com abordagem qualitativa internacional adotada pela organização; (ii) recursos e
(MARSHALL; ROSSMAN, 1999). A empresa selecionada capacida des desenvolvida s pel a empr esa para
para o estudo foi a Vinícola Miolo. Justifica-se este fato implementar a estratégia internacional (iii) papel do
pela empresa apresentar resultados crescentes em termos empreendedorismo no processo de internacionalização
de participação no mercado e rentabilidade, enquanto o (iv) e, resultados do processo de internacionalização
setor como um todo segue a tendência decrescente em observados pela empresa.
termos de resultados. Isso se dá por uma crise que o setor Destaca-se que, no aspecto referente à validação,
enfrenta devido à abertura do mercado, a falta de apoio houve a utilização de protocolos para o desenvolvimento
governamental, as altas taxas de tributação, entre outros e formalização do estudo de caso, que teve como base o
fatores. Contudo, é curioso observar a curva crescente de referencial teórico previamente definido, e teve por
resultados apresentada pela Vinícola Miolo. Isso leva a objetivo uniformizar e sistematizar a tarefa de observação
questionar e buscar compreender melhor o porquê desse e análise, aumentando a confiabilidade do estudo (validade
movimento. interna). Também houve o cuidado em se utilizar múltiplas
As técnicas de coleta de dados utilizadas foram: (i) fontes de evidências, buscando a triangulação dos dados,
entrevista semiestruturada; (ii) análise documental baseada através do cruzamento de diferentes fontes para o estudo
em registros de arquivos; (iii) e, dados secundários de do mesmo objeto, como forma de validar e verificar a
estudos anteriores sobre a empresa baseando-se em consistência dos dados coletados (STAKE, 1998; YIN,
Bitencourt (2007), Dolabella (2006) e Dolabella e Bitencourt 2001).
(2006). Esses dados secundários referem-se basicamente Quanto à validade externa, acredita-se que seja
à história da empresa. As entrevistas foram realizadas com possível adotar o método da generalização analítica (YIN,
um dos sócios proprietários, com o diretor de marketing e 1994), no qual uma teoria previamente desenvolvida serve
relações internacionais, com 2 enólogos, com o gerente de de quadro de referência na comparação entre resultados
recursos humanos, com o coordenador de produtores empíricos obtidos. Portanto, sugerem-se novos estudos
integrados. Cada entrevista durou cerca de 1 hora. Todas que possam avançar na discussão proposta neste
elas foram gravadas e transcritas para posterior análise. momento.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 363-376, 2011


370 TONDOLO, V. A. G. et al.

4 ESTRATÉGIA DE INTERNA Como destacado anteriormente, o setor visa exportar


CIONALIZAÇÃO: O CASO MIOLO vinhos viníferas, buscando inserir no mercado um produto
A vinicultura começou no Brasil, de maneira mais com maior valor agregado, ou seja, uma orientação quality-
específica no Rio Grande do Sul, com a chegada dos colonos driven. Schmitz e Knorringa (2000) argumentam que esse
italianos. Embora as outras regiões do Brasil também tipo de orientação favorece o desenvolvimento de
estejam desenvolvendo a atividade de vitivinicultura, esse capacidades dos fabricantes. De certa forma, esse tipo de
estado contribui com a parcela mais significativa do volume orientação requer um maior nível de alinhamento das
produzido no País (DOLABELLA, 2006). práticas das empresas, para que o setor como um todo seja
Em termos de estratégia do setor, as empresas têm reconhecido internacionalmente.
buscado exportar vinhos de uvas viníferas de melhor No caso do setor vinícola gaúcho, algumas
qualidade do que as uvas de mesa, tendo em vista o maior empresas como a Vinícola Miolo são referência na
valor agregado do produto (DOLABELLA, 2006). Identificou- implementação desse tipo de estratégia. No entanto, ao se
se que os valores exportados são baixos, mas apresentaram comparar a exportação do setor dos tipos de vinho, vinífera
uma elevação em 2004. A queda da exportação ocorre por e de mesa, observa-se que o maior volume é do produto de
dois fatores principais: o nível de competitividade menor valor agregado. Os dados desse comparativo são
internacional e o processo inicial de estratégias de inserção apresentados no gráfico 3 abaixo.
internacional. No Gráfico 1 abaixo, apresenta-se uma De certa forma, essas evidências indicam que as
ampliação dos dados utilizados no estudo anterior. práticas de exportação de vinhos com conceito de maior
Como pode ser observado no gráfico 1, apesar de valor agregado não predominam no setor. A exportação
uma pequena queda em 2006, a exportação de vinhos finos de vinhos de mesa correspondeu a 71% do volume
segue uma tendência crescente após 2004. No entanto, ao se exportado da produção gaúcha no período entre 1998 a
relacionar a exportação de vinhos viníferas com a sua 2007.
comercialização no mercado interno, percebe-se que a Apesar de a empresa ser relativamente nova,
internacionalização ainda permanece em estágio inicial em fundada em 1989, o desenvolvimento histórico pode ser
termos de volume. Essa relação é apresentada no gráfico 2. sintetizado em quatro períodos distintos. Com base em
Como se pode observar, o volume de exportação não Dolabella e Bitencourt (2006) esses períodos estão
representa 2,5% da comercialização interna de vinhos viníferas. representados na Figura 1 abaixo.

Comercialização de vinhos viníferas produzidos no RS - mercado


externo - valores em litros
800.000
700.000
600.000
500.000
400.000
300.000
200.000
100.000
-
12
GRÁFICO 1 – Comercialização de vinhos viníferas elaborados no RS – 1999 a 2007 - Mercado Externo – em litros.
Fonte: Adaptado de União Brasileira de Vitivinicultura - Uvibra (2008).

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 363-376, 2011


Implementação de estratégia empreendedora... 371

Comparação: merca do externo/mercado interno da comercia liza ção de


vinhos vinífera s produzidos no RS - valores %

2,50%

2,00%

1,50%

1,00%

0,50%

0,00%
12
GRÁFICO 2 – comparativo da comercialização de vinhos viníferas elaborados no RS – 1999 a 2007.
Fonte: Adaptado de Uvibra (2008).

29%
71%

1998
Tipo de vinho - participação nas exportações da produção do RS -

13%

1999
21%

2000
23%

2001
valores %

mercado externo vinho viníferas

87%
79% 77%

54%
46%

2002
34%
mercado externo vinho de mesa

66%

2003
62%

38%

2004
40%
60%

2005

FIGURA 3 – Tipo de vinho - participação nas exportações da produção do RS – valores em %.


Fonte: Fonte: Adaptado de Uvibra (2008).

FIGURA 1 – Síntese do histórico da Vinícola Miolo.


Fonte: Dolabella e Bitencourt (2006, p. 6).
71%

29%

2006
39%

2007
61%

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 363-376, 2011


372 TONDOLO, V. A. G. et al.

Como pode ser observado na Figura 1, a empresa Cabe destacar que, independente do mercado, a
possui tradição centenária no setor vinícola, sendo a maior Miolo visa implementar sua estratégia internacional com
parcela do tempo dedicada à produção de uvas. Outro ponto produtos de conceito, na linha de vinhos viníferas. Nesse
de destaque é que a busca pela qualificação da produção e sentido, a empresa tem uma orientação quality-driven.
pela inserção internacional aflora na primeira década em que Destaca-se que além dessa orientação fazer parte de sua
a Miolo efetivamente entrou na fabricação de vinhos. Isso estratégia corporativa, uma orientação price-driven requer
representa a presença de uma orientação empreendedora uma operação baseada na economia de escala. O que até
voltada para o mercado externo, sem deixar de observar que certo ponto, não foi o enfoque de desenvolvimento de
o alcance desse alvo necessitou do desenvolvimento de recursos e capacidades escolhido em sua trajetória.
recursos e capacidades essenciais, como a qualidade do A China é um mercado alvo que a empresa está
processo produtivo e da matéria-prima, as uvas viníferas. buscando atualmente. Nesse mercado, a empresa está
A orientação estratégica e a sua trajetória permitiram enfrentando algumas dificuldades para implementar a sua
à Miolo desenvolver competências distintas em relação às estratégia, em especial devido à falta de conhecimento do
empresas concorrentes. Essas competências são mercado. Em termos da Escola de Uppsala, a Miolo está
agrupadas em duas categorias centrais, a gestão de enfrentando barreiras psíquicas. Para ultrapassar essa barreira,
recursos ao longo da cadeia e a integração de atividades a empresa está buscando desenvolver parceiros locais,
comerciais (DOLABELLA; BITENCOURT, 2006). especialmente para obter conhecimento desse mercado.
Em relação ao foco deste estudo, a implementação Observa-se que o empreendedorismo da empresa
da estratégia empreendedora internacional, destaca-se que não está associado apenas à buscas por novos mercados,
o pioneirismo ao longo dos anos e a criação de alternativas mas também na tentativa de implementar novas estratégias
para exportação foram os pilares básicos. Segundo Dolabella de entrada, frente às barreiras a ela impostas. Como
e Bitencourt (2006), o pioneirismo representa a característica destacam Paiva e Hexsel (2005), no estágio inicial de
inovadora da empresa ao longo de sua trajetória. internacionalização, o conhecimento e a aprendizagem são
Já em relação à criação de alternativas para exportação, elementos prioritários. Em geral, segundo os mesmos
a empresa investiu na qualidade da sua produção, buscando autores, as decisões estratégicas mais importantes se
reconhecer essa qualificação na participação de concursos referem às atividades de serviços, logística e distribuição.
internacionais. Além disso, a empresa investiu em processos Como foi observado anteriormente, um aspecto frequente
de exportação, desenvolvendo parcerias com outras da estratégia de entrada da Miolo em novos mercados se
organizações e também novos mercados. Por isso, considera- refere à questão da distribuição dos produtos.
se neste trabalho que essas duas competências são os pilares O estágio atual de internacionalização da Miolo se
da implementação da estratégia empreendedora internacional assemelha ao que Oviatt e MacDougall (1994) denominam
da Miolo. de new international market markers. Nesse tipo de novo
O processo de internacionalização da empresa negócio internacional, internalizar o conhecimento sobre
começou em 2002. Atualmente 10% da produção da empresa as atividades logísticas é a principal atividade da cadeia
é direcionada ao mercado externo. Desse volume, de valor. A exportação e/ou importação inicia-se com
aproximadamente 70% do que a empresa exporta é direcionado aqueles países onde a empresa possui mais familiaridade,
aos seguintes mercados: EUA, Alemanha e Reino Unido. expandindo na medida em que as barreiras de conhecimento
Nesses mercados, a empresa utiliza representantes que são são transpostas.
responsáveis pela distribuição do produto. De modo geral, a empresa utiliza a sua linha de
O restante do volume exportado é direcionado aos vinhos viníferas em todos os mercados alvo internacionais.
demais países da Europa e da Ásia. Nesses mercados, a No entanto, de acordo com o nível de conhecimento
empresa utiliza representantes exclusivos para cada linha adquirido pela empresa desses mercados, como o tipo de
de produto. Um ponto de destaque é que empresa está barreiras enfrentadas, a empresa implementa estratégias
replicando a estratégia de entrada utilizada inicialmente nos de entrada diferentes para cada contexto de mercado. Nesse
EUA, Reino Unido e Alemanha. Dessa forma, a empresa aspecto, como destacam Craig e Grant (1999) e Porter (1986),
está buscando utilizar conhecimento anterior ao processo em termos de linha de produto a empresa segue um padrão
de internacionalização, para entrada em novos mercados. de estratégia global. Já em relação à entrada em novos
Percebe-se que o recurso conhecimento é fundamental para mercados, a empresa segue um padrão de estratégia
a implementação da estratégia empreendedora internacional. multidoméstica.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 363-376, 2011


Implementação de estratégia empreendedora... 373

Barreiras Ações empregadas para reduzir as barreiras


- Questões institucionais do Brasil: - Busca de certificação dos processos
Legislação - Busca de capacitação contínua
Atraso nas negociações internacionais - Cultura de inovação da empresa
Falta de uma política pública eficaz voltada à - Fortificação da marca Wines From Brazil e das marcas
internacionalização da empresa
Falta de demarcação das regiões produtivas
- Internas da empresa:
Mudança da cultura interna em relação à certificação dos
processos
- Internacionais:
Conceito de que o Brasil é um produtor de baixa
qualidade
QUADRO 2 – Barreias e ações empregadas pela empresa
Fonte: Autores com base na entrevista

As pri ncipais barr eira s im post as e ações 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS


empregadas pela empresa para implementar a sua
Objetivou-se, neste trabalho, explorar elementos
est ra tégia em pr eendedora in tern a ci on a l estã o
teóricos da implementação da estratégia,
sintetizadas no Quadro 2. As principais barreiras à
empreendedorismo estratégico e processo de
implementação da estratégia impostas à empresa se internacionalização, tendo como objeto de análise o
caracterizam como sendo: institucionais, internas da processo de implementação da estratégia de
empresa e internacionais. Já em termos de ações internacionalização da Vinícola Miolo. Para tal foi
empregadas pela empresas, essas se caracterizam por desenvolvido um estudo de caso exploratório-descritivo
ações internas e por ações setoriais. com abordagem qualitativa.
Em relação a recursos e capacidades desenvolvidos O desenvolvimento teórico da formulação da
pela empresa para implementar a estratégia empreendedora estratégia está atualmente mais adiantado que o
internacional, foi destacada a busca pelas certificações ISO desenvolvimento teórico da implementação da estratégia.
9001 e 22000. Foi mencionado pelo Diretor de Relações Também ressalta-se que, no campo empresarial, apresenta-
Internacionais que a empresa se antecipou às exigências se o mesmo efeito. No entanto, cabe destacar que, no caso
dos mercados internacionais, refletindo sua cultura em estudo, a empresa procurou desenvolver recursos e
empreendedora. Com essas certificações a empresa capacidades para implementação da estratégia de
capacita-se frente a clientes de mercados exigentes, como internacionalização, como por exemplo a qualificação da
o europeu. Ademais, a certificação resultou em melhores produção para sustentar o posicionamento quality-driven.
práticas nos processos internos e na qualificação do Quanto ao processo de implementação da estratégia
produto final. internacional, observa-se que a empresa fez uso de 3
Por fim, um dos resultados mais significativos da atividades-chave destacadas por Hrebiniak e Joyce (2005),
i mplem en ta ção da est r at égi a em preen dedor a sendo: o desenvolvimento de uma postura estratégica clara;
internacional refletiu-se na competitividade da empresa. a construção de uma organização rápida e efetiva; e o
A busca pela competitividade no mercado externo estabelecimento de uma cultura adaptativa.
manteve o elevado padrão competitivo da empresa no O aprendizado é um aspecto central para a
mercado nacional. Ainda que se observasse a crise do implementação da estratégia (HREBINIAK; JOYCE, 2005),
setor, a empresa buscou posicionar seu produto no para processo de internacionalização (JOHANSON;
mercado interno, mantendo o mesmo padrão de VAHALNE, 1977) bem como aos novos negócios
posicionamento no mercado externo, tendo em vista a internacionais (OVIATT; MACDOUGALL, 1994). Nesse
abertura do mercado e as altas taxas de tributação do sentido, observou-se que o aprendizado acumulado ao
produto nacional. longo da trajetória da empresa foi um dos recursos centrais

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 363-376, 2011


374 TONDOLO, V. A. G. et al.

na implementação da estratégia internacional. Ademais, a Mesmo não sendo o foco deste trabalho, cabe
obtenção de conhecimento dos mercados internacionais destacar que aspectos como: acesso a ativos/recursos
está imbricado na estratégia da Miolo. complementares, assim como empreendedorismo
O conhecimento é um recurso essencial para a corporativo (no sentido de novas estratégias) possam
implementação da estratégia internacional da empresa. Já emergir em esforços futuros. Esses aspectos devem ser
a aplicação desse conhecimento, gerando aprendizado é observados em termos de implicações gerencias como
uma capacidade fundamental ao desenvolvimento das contribuição a estudos futuros.
competências da empresa. Nesse sentido, dos fatores Por fim, destacam-se as limitações deste estudo no
centrais para a implementação da estratégia abordados por que se refere a sua capacidade de generalização e da
Shaha (2005), destaca-se no caso da Miolo, a alocação necessidade de se conhecer a percepção dos clientes,
eficiente de recursos. podendo assim cruzar as percepções de membros internos
Em relação à integração entre estratégia e e externos à organização. Sugere-se ainda, o
empreendedorismo com base em Hitt et al. (2001) e o desenvolvimento de estudos complementares enfocando
intrapreneurship de Fayolle (2002), foi possível observar a implementação de estratégias em outros setores do
que o empreendedorismo ocorreu em uma empresa agronegócio, mais especificamente estudos que explorem
estabelecida. Igualmente, a cada novo mercado, o entendimento do empreendedorismo estratégico do
conhecimentos e aprendizados adicionais foram agronegócio no Brasil, em termos de novos negócios, como
necessários e adquiridos. Ademais, tanto a busca por em termos de novos mercados e o processo de
novos mercados, como as inovações desenvolvidas na internacionalização desenvolvido. Destaca-se, portanto a
empresa, ilustram o comportamento empreendedor da importância de se realizarem estudos em empresas do setor
Vinícola Miolo. de agronegócios que estejam em estágios mais avançados
Tendo em vista as contribuições de Brush, Greene no processo de internacionalização.
e Hart (2001), Hitt et al. (2001), Lee, Peng e Barney (2007),
Lichtenstein e Brush (2001) e Shelton (2005), as 6 REFERÊNCIAS
necessidades de recursos e capacidades podem ser AHUJA, G.; LAMPERT, C. M. Entreprenueurship in the
barreiras à implementação da estratégia empreendedora. large corporation: a longitudinal study of how establlished
Observou-se que foram impostas à empresa barreiras de firms create breakthrough inventions. Strategic
ordem interna e externa. A empresa empregou ações Management Journal, Sussex, v. 22, p. 521-543, 2001.
visando transpor essas barreiras, utilizando-se de recursos
e capacidades desenvolvidas ao longo de sua trajetória, BARRINGER, B. R.; BLUEDORN, A. C. The relationship
tais como a busca pelas certificações e qualificação da between corporate entrepreneurship and strategic
produção management. Strategic Management Journal, Sussex, v.
O empreendedorismo corporativo além de ser um 20, n. 5, p. 421-445, 1999.
processo central para a sobrevivência das empresas é
também fonte de geração de novos recursos e capacidades BITENCOURT, C. A análise e a articulação das
(AHUJA; LAMPERT, 2001; BARRINGER; BLUEDORN, competênc ias organiz acionais e m setores
1999; COVIN; GRENN; SLEVIN, 2006; agroindustriais do rio grande do sul o caso das
VENKATARAMAN; SARASVATHY, 2005; ZAHRA; indústrias de vinhos, aves e suínos. Brasília: CNPq, 2007.
SAPIENZA; DAVIDSSON, 2006). Nessa lógica, observou- Relatório de pesquisa.
se que a empresa, por meio da implementação da estratégia
internacional reforçou a sua competitividade no mercado BRUSH, C. G.; GREENE, P. G.; HART, M. M. From initial
interno. A Miolo também empreendeu ações visando o idea to unique advantage: the entrepreneurial challenge of
desenvolvimento de novos recursos e capacidades, constructing a resource base. Academy of Management
elevando o padrão competitivo da empresa. Assim como Executive, New York, v. 15, n. 1, p. 64-82, 2001.
nos estudos de Dal-Soto, Paiva e Souza (2007) e Paiva e
Hexsel (2005), a Escola de Uppsala é uma abordagem teórica CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM
útil para se entender o processo de internacionalização da AGRONEGÓCIOS. Ibravin: relatório de pesquisa de
empresa em estágios iniciais, no qual o conhecimento é mercado brasileiro de vinhos finos. Porto Alegre: UFRGS,
um recurso essencial. 2001.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 363-376, 2011


Implementação de estratégia empreendedora... 375

COVIN, J. G.; GREEN, K. M.; SLEVIN, D. P. Strategic GARRIDO, I. L.; LARENTIS, F.; SLONGO, L. A. Estratégias
process effects on the entrepreneurial orientation-sales de entrada em mercados internacionais e performance
growth rate relationship. Entrepreneurship Theory and exportadora. In: ENCONTRO DE MARKETING EMA, 2006,
Practice, San Francisco, v. 16, p. 57-81, 2006. Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: EMA, 2006. 1 CD-
ROM.
CRAIG, J. C.; GRANT, R. M. Gerenciamento estratégico.
São Paulo: Littera Mundi, 1999. GARTNER, W. B.; DAVIDSSON, P.; ZAHRA, S. A. Are
you talking to me?: the nature of community in
DAL-SOTO, F.; PAIVA, E. L.; SOUZA, Y. S. Análise de entrepreneurship scholarship. Entrepreneurship Theory
competências organizacionais na internacionalização de and Practice, San Francisco, v. 16, p. 321-331, 2006.
empresas da cadeia coureiro-calçadista. Revista de
Administração de Empresas, São Paulo, v. 40, n. 3, p. 40- HAMBRICK, D. C.; CANELLA, A. Strategy implementation
52, 2007. as substance and selling. The Academy of Management
Executive, Columbia, v. 3, n. 4, p. 278-285, 1989.
DESS, G. G.; LUMPIKIN, G. T. Emerging issues in strategy
process research. In: HITT, M.; FREEMAN, R. E.; HITT, M. et al. Guest editor’s introduction to the especial
HARRISSON, J. S. (Ed.). The blackwell handbook of issue strategic entrepreneurship?: entrepreneurial
strategic management. New York: J. Wiley, 2005. p. 3-34. strategies for wealth creation. Strategic Management
Journal, Sussex, v. 22, p. 479-491, 2001.
DOH, J. P.; PEARCE, J. A. corporate entrepreneurship and
real options in transitional policy environments: theory HREBINIAK, L. G.; JOYCE, W. F. Implemenring strategy:
development. Journal of Management Studies, Sussex, v. appraisal and agenda for future research. In: HITT, M.;
41, n. 4, p. 645-664, 2004.
FREEMAN, R. E.; HARRISSON, J. S. (Ed.). The blackwell
handbook of strategic management. New York: J. Wiley,
DOLABELLA, R. A consolidação das competências
2005. p. 602-626.
organizacionais na vitivinicultura brasileira: um estudo
de caso na Vinícola Miolo. 2006. Dissertação (Mestrado
JOHANSON, J.; VAHLNE, J. Internationalization process
em Administração) - Universidade do Vale do Rio dos Sinos,
of firm: model of knowledge development and increasing
São Leopoldo, 2006.
foreign market commitmentsm. Journal of International
Business Studies, Columbia, v. 8, n. 1, p. 23-32, 1977.
DOLABELLA, R.; BITENCOURT, C. C. A consolidação das
competências organizacionis na vitivinicultura brasileira:
um estudo de caso na Vinícola Miolo. In: ENCONTRO DA LEE, S.; PENG, M. W.; BARNEY, J. Bankruptcy law and
ASSOCIAÇÃO DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM entrepreneurship development: a real options perspective.
ADMINISTRAÇÃO, 30., 2006, Salvador. Anais... Salvador: Academy of Management Review, Mississipi, v. 32, n. 1, p.
ENANPAD, 2006. 1 CD-ROM. 257-272, 2007.

ELANGO, B.; PATTNAIK, C. Building capabilities for LICHTENSTEIN, B. M.; BRUSH, C. G. How do “resource
international operations through networks: a study of bundles developed and change in new ventures?: a
Indians firms. Journal of International Business Studies, dynamic model and longitudinal exploration.
Columbia, v. 38, p. 541-555, 2007. Entrepreneurship Theory and Pratice, San Francisco, v.
20, p. 37-59, 2001.
FAYOLLE, A. Insights to research on the entrepreneurial
process form a study on perceptions of entrepreneursship MARSHALL, C.; ROSSMAN, G. B. Designing qualitative
and entrepreneurs. Journal of Enterprise Culture, New research. Davis: Sage, 1999.
York, v. 10, n. 4, p. 257-285, 2002.
MELLO, L. M. R. Atuação do Brasil no mercado
FENSTERSEIFER, J. E. Vinho brasileiro: más notícias e bons internacional de uvas e vinhos: panorama 2004. Disponível
presságios. In: ______. Administração do milênio. São em: <[Link] Acesso em:
Paulo: E. Blucher, 2005. 5 fev. 2006a.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 363-376, 2011


376 TONDOLO, V. A. G. et al.

______. Produção e comercialização de uvas e vinhos: STAKE, R. Investigación con estudio de casos. Madrid:
panorama 2004. Disponível em: <[Link] Morata, 1998.
publica/artigos>. Acesso em: 5 fev. 2006b.
UNIÃO BRASILEIRA DE VITIVINICULTURA.
OVIATT, B. M.; MCDOUGALL, P. P. Toward a theory of Comercialização de vinhos e derivados elaborados no RS,
international new ventures. Journal of International 1999 a 2007: mercado interno e externo, em litros: dados
Business Studies, Columbia, v. 25, n. 1, p. 45-64, 2005. estatísticos. Disponível em: <[Link]
dados_estatisticos.htm>. Acesso em: 10 abr. 2008.
PAIVA, E. L.; HEXSEL, A. E. Contribuição da gestão de
operações para a internacionalização de empresas. Revista VENKATARAMAN, S.; SARASVATHY, S. D. Strategy and
de Administração Contemporânea, São Paulo, v. 9, n. 4, p. entrepreneurship. In: HITT, M.; FREEMAN, R. E.;
73-95, 2005. HARRISSON, J. S. (Ed.). The blackwell handbook of
strategic management. New York: J. Wiley, 2005. p. 650-
PORTER, M. Competition in global industries: a conceptual 668.
framework. In: ______. Competition in global industries.
Boston: Harvard Business School, 1986. p. 15-60. YIN, R. Estudo de caso: planejamento e métodos. Porto
Alegre: Bookman, 2001.
SCHMITZ, H.; KNORRINGA, P. Learning from global
buyers. Journal of Development Studies, Sussex, v. 37, n. ZAHRA, S. A.; GEORGE, G. International entrepreneurship:
2, p. 177-205, 2000. the current status of the field and future research agenda.
In: HITT, M. et al. (Ed.). Strategic entrepreneurship:
SHAH, A. M. The foundations of sucessful strategy creating a new mindset. New York: J. Wiley, 2006. p. 255-
implementation: overcoming the obstacles. Global 288.
Business Review, New York, v. 6, n. 2, p. 293-302, 2005.
ZAHRA, S. A.; SAPIENZA, H. J.; DAVIDSSON, P.
SHELTON, L. M. Scale barriers and growth opportunities: a Entrepreneurship and dynamic capabilities: a review, model
resource model of new venture expansion. Journal of and research agenda. Journal of Management Studies,
Enterprising Culture, NewYork, v. 13, n. 4, p. 333-357, 2005. Oxford, v. 43, n. 4, p. 917-955, 2006.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 363-376, 2011


MARKETINGMarketing
CHAIN ANALYSIS:
chain analysis: aA CASE
case studySTUDY OF THE MELON
of the melon... 377
SECTOR IN RIO GRANDE DO NORTE STATE IN BRAZIL

Análise dos canais de comercialização: estudo de caso do setor


de melões do estado do Rio Grande do Norte Brasil

RESUMO
A cadeia de frutas frescas está focando de forma crescente no valor adicionado e na redução de custos, procurando atender a demanda
do consumidor. Novos canais de comercialização são abertos como resultado da mudanca dos hábitos dos consumidores e do crescente
domínio de grandes atacadistas nos países industrializados. Os estados de Rio Grande do Norte e Ceará são responsáveis por 98% da
exportação brasileira de melão onde 99% destinam-se à União Europeia. Este artigo objetiva descrever a cadeia do melão, entender os
canais de comercialização e analisar as relações contratuais entre compradores e produdores. Além disso, o artigo também se propõe
a analisar as estruturas de governança predominantes na cadeia de valor em relação às características das respectivas transações. Foram
conduzidos seis estudos de caso com produtores de melão no estado do Rio Grande do Norte no Brasil. O referencial teórico baseou-
se nos conceitos da Cadeia Global de Valor e da Economia dos Custos de Transação. Os resultados mostram que os arranjos
contratuais entre compradores internacionais e produtores, bem como entre empresas intermediárias e produtores são bem delineados.
No entanto, arranjos com compradores domésticos ainda oferecem margem para melhoria. Conclui-se que produtores sem certificação
precisam de apoio para um upgrade e para aumentarem a eficiência ao longo cadeia produtiva. Isto seria possível por meio da
integração vertical, cooperação e coordenação, incluindo contratos formais entre os agentes da cadeia. Um upgrading na cadeia
contribui para com padrões de qualidade, aumento no mercado internacional e melhorias nos arranjos contratuais.

Andrea Cristina Door


Professora Adjunta do Departamento de Ciências Econômicas e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Agronegócios Universidade Federal de
Santa Maria, Centro de Ciências Sociais e Humanas, Departamento de Ciências Econômicas
andreadoerr@[Link]

Ulrike Grote
Department of Economic and Technological Change
grote@iuw.uni_hannover.de

Recebido em: 17/12/08. Aprovado em: 30/8/11


Avaliado pelo sistema blind review
Avaliador Científico: Cristina Lelis Leal Calegario

ABSTRACT
The fresh fruit marketing system is increasingly focused on adding value and decreasing costs by streamlining distribution and
understanding customer demands. New marketing channels have opened up as a result of a combination of changing consumer tastes
and the increasing dominance of large retailers in the markets of industrialized countries. Rio Grande do Sul and Ceara states are
responsible for 98% of the country’s total exports of melons when almost 99% of the fruit is designated to the European Union. This
paper aims at describing the melon chain to understand the marketing chain and evaluate contractual arrangements between buyers and
farmers. It also proposes an analysis of the type of governance used in this value chain regarding the characteristics of their
transactions. 6 case studies were conducted with melon producers in Rio Grande do Norte state, Brazil. The theoretical background
was based on concepts of Value Chain and the Transaction Cost approaches. The results demonstrate that contractual arrangements
between international buyers and farmers as well as between trading companies and farmers are well-developed. However, arrangements
with domestic buyers still open margin for some improvement. It is concluded the need of a support to upgrade and increase
efficiency along the chains as something highly important - mainly for non-certified farmers. This would be possible via vertical
integration, cooperation and coordination, including the use of written contracts among the actors in the chain. Upgrading along the
value chains can help moving towards quality standards, increased international access, and better contractual arrangements.
Palavras-chave: Melão, contrato, cadeia de mercado

Key-words: melon, contract, marketing chain

1 INTRODUCTION continue trading with major retailers (FOOD AND


AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED
European retail chains have assumed a leading role NATIONS - FAO, 2007). It is widely recognized that quality
in the formulation of food safety and quality standards. and safety standards play an important role for developing
Their international supplier base, especially in developing countries, especially for their agricultural sectors. There is
countries, needs to adapt and comply, if they wish to a growing concern that standards will undermine the

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 377-388, 2011


378 DOOR, A. C. & GROTE, U.

competitive progress already made by some developing in 2009 when almost 99% of the fruit was designated to the
countries and present insurmountable barriers to new European Union.
entrants in the high-value food trade (JAFFEE et al., 2005). Therefore, the objective of this study is to describe
Henson & Loader (2001) find that Sanitary and the melon chain, understand the marketing chain and
Phytosanitary Measures (SPS) are the greatest impediment evaluate the contractual arrangements between buyers and
to developing countries’ exports to the EU, surpassing farmers. The paper proceeds as follows: after this
transport and further direct export costs, tariffs or introductory section, recent studies will be reviewed in
quantitative restrictions. the second section. Section 3 presents the theoretical
Nevertheless, food safety standards can also have background and Section 4 presents the primary data base
positive implications for developing countries. These and methods applied in the study. Section 5 presents the
countries may gain and maintain access to markets of high- results which will be followed by a final Section 6 with the
value agricultural and food products, especially in main conclusions.
industrialized countries (HENSON; JAFFEE, 2007). From
this standards-as-catalyst angle, the challenge inherent in 2 LITERATURE REVIEW
compliance with food safety and agricultural health The rising competition in the fresh fruit industry
standards may as well provide a powerful incentive for the and the need to meet norms and standards related to e.g.
modernization of developing countries export supply product characteristics, the production process and its
chains and give greater clarity to the necessary and impact on food safety and on the environment have meant
appropriate management functions. Further, via increased a changing relationship between growers and buyers. The
attention to the spread and adoption of good practices in alternative strategies of buyers like supermarkets include
agriculture and food manufacture, there may be spillovers formal and informal contracts directly with farmers and the
into domestic food safety and agricultural health to the establishment of their own distribution centers, which allow
benefit of the local population and domestic producers. them a higher leverage when forcing their quality and safety
Hence, part of the costs of compliance could be considered norms and standards (FARINA, 2002). The compliance on
as investments into the national economy. the producers’ side is driven by the demand of
Rather than degrading the comparative advantage supermarkets on varieties, production methods, post
of developing countries, the enhancement of capacities to harvesting technologies, packaging and labeling
meet stricter standards could potentially create new forms specifications, as well as acceptable environmental impacts
of competitive advantage. Thus, the process of standards and working conditions. The global value chain analysis
compliance could conceivably provide the basis for a more emphasizes that local producers learn significantly from
sustainable and profitable trade over the long term, albeit global buyers on how to improve their production
with some particular winners and losers (HENSON; processes in order to attain consistent high quality and
JAFFEE, 2004). increase the speed of response (HUMPHREY; SCHMITZ,
Fresh fruits are an example of a traditional 2002).
agricultural export crop and they illustrate the potential For example, the banana market structure is very
for agricultural diversification and production of high- heterogeneous, depending on the producing and importing
value crops. Brazil is the third largest producer of fruits countries. The presence of diverse economic actors is also
among developing countries, after China and India. Its different among countries and regions at the several stages
total production was 43.1 million tons in 2009, of the banana chain. Due to a high perishability, bananas
representing 4% of the production of all developing require a careful control of its growing, packaging,
countries. However, it is estimated that around 2% of the transport, ripening, and distribution process. This leads
country fruit production (in terms of volume) is exported to a highly vertically integrated banana sector, where large
generating US$560 million (INSTITUTO BRASILEIRO DE transnational companies tend to control from direct
FRUTAS - IBRAF, 2009). growing of bananas in producing countries, through
Rio Grande do Norte state, covering Mossoró/Serra ownership of specialized refrigerated shipping and ripening
do Mel, together with Ceará state is considered the second facilities to distribution networks in importing countries.
biggest irrigated tropical fruits region in Brazil with about An analysis of the banana marketing chain reveals that
20,000 hectares (ha) (COSTA et al., 2007). Both states are companies face the challenge of an increasing role that is
responsible for 97% of the country’s total exports of melons being played by supermarkets and retail chains in the

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 377-388, 2011


Marketing chain analysis: a case study of the melon... 379

distribution of bananas in developed countries, mainly in cooperatives or with individual buyers, who sell the fruit
the US and the EU. Supermarkets tend to build long-term production in the domestic market.
relationships with preferred suppliers in order to guarantee However, farmers who expect to export, may trade their
a continuous supply at the required level of quality fruit in the domestic market in case of a non-favorable situation.
(UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND Such a situation is given if there is a lack of quality caused by
DEVELOPMENT - UNCTAD, 2007b). a bad-crop formation, diseases or climate conditions. Non-
In another study UNCTAD (2007a) develops the certified farmers are also vulnerable to those factors. However,
international citrus marketing chain. The international trade non-certified producers may also export directly or indirectly
in the fresh citrus fruits sector is characterized by a reduced to international markets. Direct exports occur when they export
degree of concentration of supply with a multitude of via a trading company; indirect when they sell the fruit
medium-sized firms providing the fruit. On the contrary, production to the middleman who repack and export.
orange juice trade is highly concentrated. A small number Entering new export markets could be considered a
of companies that operate in Brazil and Florida dominate major challenge for many companies in developing
the market. The major supplier of orange juice in the world countries. New skills and knowledge are demanded, mainly
is Brazil, followed by the US. The most significant players related to bureaucratic procedures, national standards and
in the distribution channels for orange juice and fruit juices procedures, marketing channels and consumers’ tastes.
are the global retail chains, responsible for more than 80% Upgrading could facilitate and promote competitiveness
of the total exports to Europe. to access those markets.
Cueller (2003) aims to identify challenges faced by The value chain literature focuses on the role of
retailers in different marketing specificities in the US market. global buyers and chain governance in defining upgrading
The study reveals that the key issues in the marketing of opportunities. Humphrey & Schmitz (2000) use the concept
imported fruits and vegetables among retailers are food of upgrading to refer to three different shifts that companies
safety assurance, transportation cost reduction and quality could undertake. Firstly, a process upgrading: companies
improvement. Further, the key issues in marketing include can upgrade either through transforming inputs into
improving packaging, adding value to products, and outputs more efficiently by re-organizing the production
assuring food safety. system or introducing superior technology; secondly, a
product upgrading: companies can upgrade by moving
3 THEORETICAL BACKGROUND into more sophisticated product lines. Thirdly, a functional
1.1 Conceptual framework of the marketing chain upgrading: companies can upgrade by higher value added.
Kaplinsky & Morris (2002) added a fourth case,
An analysis of marketing channels and upgrading intersectional upgrading: where firms can upgrade by
strategies for fresh fruit demonstrate how the development of moving out of a chain into a new one.
niche markets for high-value produce creates new Value chain approach
opportunities for developing countries’ producers and The concept of governance
exporters that can meet the required standards. New marketing
channels have opened up as a result of a combination of […] is central to the global value chain approach […];
changing consumer tastes and the increasing dominance of the concept is used to refer to the inter-firm
large retailers in the markets of industrialized countries. The relationships and institutional mechanisms through
identification of opportunities for adding value and the which non-market co-ordination of activities in the
development of strategies to take advantage of them are based chain takes place. This coordination is achieved
on an analysis of the changing governance structures of through the setting and enforcement of product and
food value chains (UNCTAD, 2000). process parameters to be met by actors in which
The framework presented in Figure 1 aims to developing country producers typically operate
facilitate the understanding of the marketing chain process (HUMPHREY; SCHMITZ, 2001, p. 3).
of non-certified and certified producers in the melon sector. The authors use the concept of governance “to
Certified farmers are more likely to have access to express that some firms in the chain set and/or enforce the
international markets and non-certified ones are more likely parameters under which others in the chain operate. A chain
to sell the fruit production in the domestic market. Farmers without governance would be a string of market relations.”
can either trade with groups, associations and (HUMPHREY; SCHMITZ, 2001, p. 4).

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 377-388, 2011


380 DOOR, A. C. & GROTE, U.

Producers with certification Producers without certification

•Type of contract
•Market condition
•Fruit quality
•Requirement
of certification Group
[group, association,
cooperative]
To individuals
[middleman, specific buyer,
trading company]

International Domestic
market market

FIGURE 1 - Conceptual framework on the marketing chain for certified and non-certified melon producers.
Source: personal illustration

The determinants of governance presented by that products and processes meet the required standards.
Humphrey & Schmitz (2000) are: arm’s length market relations The second reason - in this case the gap needs to be quickly
[buyer and supplier do not define the product; no long term closed - is that buyers will need to invest in a few selected
relationship and the buyers’ and producers’ risks are low]; suppliers and help them to upgrade. Mostly buyers have a
networks [the buyer and supplier define the product higher interest in suppliers according to their relationships.
specifications together; the buyers’ risk is minimized because Gereffi, Humphrey & Sturgeon (2005) propose a more
of the suppliers’ high level of competence]; quasi-hierarchy complete typology of value chain governance divided into
[high degree of control from buyers over suppliers; the five types: (i) markets: market linkages can persist over time
former define the product] and hierarchy [buyers control with repeated transactions - the cost of shifting the partner
the supplier production process]. The authors suggest that is low for both; (ii) modular value chains: suppliers make the
quasi-hierarchy is more likely to occur where global value products according to the customers’ specifications, detailed
chains frequently link producers in developing countries more or less by the former; (iii) relational value chains: complex
and retailers in developed countries. interactions among buyers and sellers, often creating mutual
Similarly, Keesing & Lall (1992) argue that producers dependence and a high level of asset specificity; (iv) captive
in developing countries are expected to meet requirements value chains: small suppliers are transactional dependent
that frequently do not apply to their domestic market. For on larger buyers, characterized by a high degree of
instance, this creates a gap between the capabilities monitoring and control by lead firms; and finally (v) hierarchy:
required for the domestic market and those required for characterized by vertical integration.
the international one. This gap is widened when the buyers In the same study, the authors develop a theory of
require consistent quality and supply, creating two reasons value chain governance based on three factors: (i) the
for quasi-hierarchical governance. The first refers to complexity of information and knowledge required to
monitoring and control, which might be required to ensure sustain a particular transaction with respect to product

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 377-388, 2011


Marketing chain analysis: a case study of the melon... 381

and process specifications, (ii) the extension in which several forms of possible interviews: open-ended, focused
knowledge and information are codified and transmitted and structured or survey types. In open-ended interviews,
efficiently, and (iii) the capabilities of actual and potential key respondents are asked to comment on certain events.
suppliers regarding the requirements of the transaction. In focused interviews, the interviewer asks a set of
questions in a short period of time. In the third type of
4 METHODOLOGY structured interviews, the researcher organizes and details
Multiple-design cases were conducted through the questions in advance.
personal structured interviews with the 6 owners or managers
of the companies, considering constraints like transportation 5 RESULTS AND DISCUSSIONS
and access to the melon farms. The study seeks to understand 1.2 A) Descriptive statistics of the survey
the characteristics of these farmers, their perception of
The descriptive statistics based on the survey are
certification and their marketing chains. More specifically,
presented in the following. It is structured according to:
the interview was divided into 6 categories composed by
(a) the characteristics of the farms, (b) investments and
open questions on: socio-economic factors, characteristics
certification costs, (c) benefits of certification, (d)
of the farms, investments necessary to comply with
availability of information, and (e) farmers’ expectation
certification, benefits of certification, availability of information
about the future. The results from six interviews with melon
and future expectation. Based on this information, it was
farmers, labeled as cases A-F, are discussed. While the
possible to follow with data descriptive analysis and to design
first three cases A, B and C relate to non-certified farmers,
the marketing chain of melons. The interview was recorded
D, E and F refer to certified ones.
with the interviewees’ permission. In order to preserve the
Characteristics of the farms
integrity of the farmers, names were not mentioned.
Comparing certified and non-certified growers of
A list of producers has been provided by the Comitê
Executivo de Fitossanidade do Rio Grande do Norte melons, it is found that the certified ones have more land
(COEX). There are 26 companies of melons located in the allocated to this fruit, a higher productivity and more years
region (Table 1). The categorization into small, medium of experience in the field. All surveyed producers harvest
and large farms is according to the definition of COEX. the Yellow type of melon and some Piel del Sapo, both
Six interviews were carried out with melon growers, considered as common varieties. Certified growers plant
considering their access to international markets, either additionally other varieties classified as nobles1. Taking
directly or indirectly, and their farm size (Table 2). Direct into consideration the soil and climatic conditions, a drip
access means that farmers export to international buyers irrigation system is needed for a successful production.
without a trader. Indirect access to international markets Table 3 presents a summary of the main variables of
means that farmers sell the fruit production to a trader or a characteristics of the farms and investments.
bigger company, being responsible for the exports. Each Since the production of melons has a very intensive
interview has the character of a case study. capital with investments per ha ranging from R$11,000 to
The methodology of case studies is recommended R$ 15,000 per ha, the trading company or importer provides
when the researcher aims to increase the understanding of a certain percentage of the value required to finance in
the subject. According to the author, general applicability advance a portion for the coming harvesting year to the
results can be obtained from the qualitative data. In addition, producer. Alternatively, it is found that the producer invests
case studies meet three branches of the qualitative method: his/ her own resources. This was the case for one non-
describing, understanding, and explaining. Further details certified producer; two certified producers indicated that
on procedures for constructing a case were also mentioned: they financed 90% and 70% respectively from their own
case studies can have single or multiple-case designs. Single financial resources. A third possibility refers to take loans
designs are applied in cases where there is no chance for from commercial banks, however this is considered the
replication, while a multiple design refers to cases with last and not favored option due to the high rates of
replication. Therefore, generalization of results from both interests. Only two producers indicated that they took a
designs is straightforward in the case of theory but not in very small amount of loans from the bank.
the case of populations (YIN, 1994).
Further, interviews are considered one of the most
important sources of case study information. There are 1
Cantaloupe, Orange Flesh, and Galia.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 377-388, 2011


382 DOOR, A. C. & GROTE, U.

TABLE 1 - Population of the melon producers in Mossoró region


Size of producer Ha Number of producers
Small <100 11
Medium ≥100 up to 499 12
Large ≥500 3
Total 26
Source: own compilation based on a list of producers provided by COEX

TABLE 2 - Case studies selected according to the type of producer


Size of producer Exports directly Exports indirectly
Small 1 0
Medium 1 2
Large 2 0
Total 4 2
Source: own compilation based on information released by COEX

1.2.1 Investments and certification costs (Case D and E) expected to increase the planted area. Also,
those farmers without certification had a clear plan to increase
The estimated values on new infrastructure and
the planted area and to obtain certification in the future.
reconstruction indicate that all certified farmers
Besides, all certified farmers agreed that training courses and
concentrated more on the latter. Comparing the amount
increased awareness about the certification requirements of
invested, two of the certified farmers (case D and E) are the workers play an important role with relation to the benefits.
quite similar (R$60,000 or R$500 per ha), while the third one With respect to environmental benefits, two certified
(case F) presented a value of R$1,000,000 (R$555 per ha). farmers (case D and F) answered that they have an
Non-certified farmers plan to invest huge amounts on their environmental plan, a plant native vegetation and a mapping
farms: one plans to build a packing house estimated at of fauna and flora species. Having a conservation area has
R$1,000,000; the other two expect to invest around been mentioned by all farmers. Nevertheless, to maintain
R$300,000 (R$1,500 per ha) and R$80,000 (R$615 per ha). natural fences, avoid burning, minimize soil degradation and
With relation to the monitoring, certified farmers recycle empty packages were mentioned by five farmers
mentioned that the certifying company which they are (except case B) as advantages of certification.
working with is a foreign one with a branch in Brazil. According to the results, two certified farmers
Monitoring activities vary between one to three times a highlighted that the clients ask if the farm is certified with
year. It is interesting to note that one of the farmers faced a certain scheme. From the perspective of the three farmers
three annual audits and paid R$15,000, while another paid without certification, there is an increasing need for
an amount of R$11,300 for only one visit. The third certified promoting and ensuring quality, safety and no residues in
farmer who indicated that has received 2 visits a year paid fruit production. This was perceived by the uncertified
only around R$6,000. Thus, there seem to be large differences farmers, although they also indicate that domestic
regarding the monitoring and the costs of certification. consumers do not seem to be concerned about their health
Benefits of certification or aware about the meaning of food safety. Thus,
Opposed to farmers without certification, producers certification is expected to provide a control of the whole
with certification expected to receive a price premium, but this chain. The main challenge faced by all producers is the
expectation was not met (Table 4). Instead, the farmers Normative N. 58 launched in 2006 by the Brazilian Ministry
mentioned that certification enabled them to remain in the of Agriculture, Livestock and Food, which monitors agro-
market of fresh melons. One of the certified farmers (case F) toxics residues in fruits produced under the PIF system.
answered that the level of exports and the quality of his/her More specifically, farmers who aim to export to the EU are
melons have increased. The two remaining certified producers obliged to have a PIF certification.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 377-388, 2011


TABLE 3 - Summary of the variables on farms and farmers characteristics.
Non-certified farmers Certified farmers
Description of the variables Case A Case B Case C Case D Case E Case F
If gender is male yes yes yes yes yes yes
Is the manager also the owner? yes yes yes yes yes yes
Years of schooling 16 16 16 16 16 16
Belongs to a group yes no no yes no no
Area only with melons (in ha) 3.4 130 200 120 400 1,800
Production (mean value in tons) 62 2,170 4,600 NA* 12,000 NA*
Productivity (tons per ha) 18,2 16,7 23,0 NA 30,0 NA
Labor intensity (permanent and temporary workers per ha) NA* 1,7 0,7 0,8 0,8 1,1
Number of simple varieties produced: Yellow, Piel de Sapo 1 1 1 2 2 2
Number of noble varieties produced: Cantaloupe, Orange Flesh, Galia 1 0 0 3 0 3
If the type of irrigation system is drip yes yes yes yes yes yes
Years of experience in producing melons 3 8 11 11 7 18
Financing the melon production
Receives resources in advance (in %) 0,0% trader (75%) trader (75%) 0,0% clients (NA*) buyers (30,0%)
Owns resources (in %) 100,0% 0,0% 25,0% 90,0% NA* 70,0%
Loans obtained from banks (in %) 0% 25% 0,0% 10% 0,0% 0,0%
Current infrastructure
Packing house no yes yes yes yes yes
Cold storage no no No yes yes yes
Shed yes yes No no no no
Loggings no no yes no yes yes
Deposit of agro toxics and fertilizers yes yes yes yes yes yes
Artesian wells yes yes yes yes yes yes
Machinery, tractors, trucks yes yes yes yes yes yes
Source: own compilation (Note: NA = not applicable; NA* = not available)
Marketing chain analysis: a case study of the melon...

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 377-388, 2011


383
384 DOOR, A. C. & GROTE, U.

TABLE 4 – Farmers perspectives of certification


Non-certified farmers Certified farmers
Variables Case A Case B Case C Case D Case E Case F
If receives price premium NA NA NA No No No
Expect to receive a price premium yes no no yes yes yes
If he had or will have increased
no no no yes no no
exports
Hired workers or he intends to hire unknown 2 0 3 0 2
Workers reallocation unknown 0 Yes 3 yes 198
Advantages of certifying:
To access/remain the EU market yes yes Yes yes yes yes
Guarantee of food safety, hygiene NA yes Yes yes yes NA
To have control of the whole system NA NA Yes yes NA Yes
To decrease environ. damages NA yes NA NA NA NA
Training courses for workers NA NA NA yes yes yes
Disadvantages of certifying:
High investment to comply yes yes Yes yes yes yes
Unfair market NA yes NA yes NA yes
Environmental concerns on the farm
Having environmental plan No No No yes no yes
Having natural fences yes yes NA NA NA yes
Planting native vegetation NA yes NA Yes NA NA
Avoiding burns yes yes NA NA yes NA
Having conservation area yes NA Yes yes yes yes
Recycling packages yes NA Yes yes NA NA
Minimizing soil damages yes NA Yes NA yes NA
Mapping fauna and flora NA NA NA yes NA yes
Source: own compilation; (Note: NA = not applicable; NA* = not available)

1.2.2 Availability of information that the main source of information was the buyer with
whom they were trading. Updates are done basically
The high level of melon exports to different markets
through the certifying company and via internet.
leads certified farmers to have different certification
schemes according to each buyer. According to the results, 1.2.3 Future expectation and perspectives
GlobalGAP was adopted by three farmers in 2002, 2003 The surveyed melon producers also have positive
and in 2005 (Table 5). However, PIF was only adopted in future expectations. However, two uncertified farmers
recent years. Melon farmers delay the adoption of PIF (cases A and B) and one certified farmer (case F) believe
mainly due to its non-acceptance in the international market. that certification schemes exclude the less capable growers
Asking the non-certified farmers which certification from the market. The increasing level and number of
program they would accept, they indicated that their choice requirements per se selects farmers who are able to comply
would be GlobalGAP or PIF. One of the PIF certified farmers with them. With respect to market changes, two certified
also intends to enter the Fair Trade market, BRC and farmers (case D and E) intend to continue producing the
UsGAP2 certification schemes depending on the type of
buyer. Furthermore, farmers revealed where they obtained 2
Good Agricultural Practices (GAP) protocol aiming to access
information regarding standards. Five farmers mentioned the US market.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 377-388, 2011


Marketing chain analysis: a case study of the melon... 385

TABLE 5 – Main variables on type of certification adopted and information


Non-certified farmers Certified farmers
Variables Case A Case B Case C Case D Case E Case F
Having
NA NA NA 2002 2005 2003
GlobalGAP
Having
Natural NA NA NA 2006 NA 2005
Choice/PIF
PIF/FAIR
Year at GlobalGAP/PIF GlobalGAP/PIF GlobalGAP/PIF PIF TRADE/
NA
aiming 2007 2008 unknown 2006 USGAP/BRC:
unknown
client
Getting
SEBRAE internet,
informed trader trader client client
internet certif.
via
comp.
internet,
consulting
Updates on internet, social certif. clients,
trader trader company,
certification network comp. certif.
internet
comp
Source: own compilation; (Note: NA = not applicable; NA* = not available)

same type of melon and dealing with the same clients in market. In the domestic market, fruits are mainly sold on
the future. Case F aims to conquer new markets and wholesale markets in Sao Paulo and in supermarket chains.
diversify the range of clients while case B believes that Two non-certified farmers, for instance, trade all production
once he/ or she is being certified he/ she will be able to with wholesalers in different states in Brazil including Sao
export directly to international markets. Finally, case A Paulo. However, one non-certified farmer is not aware
together with other farmers plan to organize themselves about the final destination of his/ her melons. In addition,
and export as a group. the findings reveal that the volume which remains in the
1.2.4 B) Marketing chain analysis of the melon sector domestic market is usually comprised of fruits of low
quality. More specifically, it derives from overproduction
The analysis of this chain is unique when
or/and fruits which have not met the standards (quality,
considering the type of marketing channel, final
size, and brix3) indicated in the contract.
destination, and the contractual arrangements (Table 6).
Contractual arrangements
The discussion starts with an overview of the
Moreover, negotiations between Brazilian fruit
chain. Figure 2 shows the marketing chain of selected
farmers and international buyers are based on a type of pre-
producers from the melon sector. The cases A, B and C
fixed contract named consignment, which depends on market
relate to non-certified farmers and the cases D, E and F to
oscillations (NACHREINER; SANTOS, 2002). Further,
the certified farmers. The contractual relationship between
Gomes (2004) argues that many small and medium fruits
non-certified farmers and the trading companies is based
farmers also participate in markets by engaging in informal
on formal contracts. Likewise, the majority of the certified
ones have a formal contract with the international buyer, contractual arrangements with large-scale farmers. They
but a verbal and consignment type of contract with the benefit from these relationships by receiving clear standards
domestic buyers. based on which to produce, input packages and technical
Marketing channel
Around 80% of certified farmers designate their 3
Brix is used to measure the approximate amount of sugar in
melons to the international market and 20% to the domestic fruits and vegetables and to determine ideal harvesting times.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 377-388, 2011


386 DOOR, A. C. & GROTE, U.

TABLE 6 – Summary of data on marketing chain for melon growers


Non-certified farmers Certified farmers
Case A Case B Case C Case D Case E Case F
Destination to IM
0% NA* 80,0% 80,0% 70,0% 90,0%
(in %)
Target international
NA Unknown Europe Europe Europe Europe
markets
Destination to DM
00% NA* 20,0% 20,0% 10,0% 10,0%
(in %)
Target domestic Wholesale Supermarket Supermarket
NA* CEAJESP NA*
markets CEASA s CEAJESP s, CEAJESP
Exports individually 100% 80%
100% NA NA 100%
(in %)
Exports via a trading
NA 100% 100% NA 20% NA
company (in %)
Type of contract: DM consignation NA NA consignation NA verbal
Written Written Written
Type of contract: IM NA NA NA
contract contract contract
Type of contract: with Written Written Written
NA NA NA
a trader comp. contract contract contract
Source: own compilation (Note: NA = not applicable; NA* = not available)

Type of Non-certified farmers Certified farmers


producer

Size of the Small [<100 ha] Medium [=100<500 ha] Large [>500 ha]
farms

Cases Case A Case B Case C Case D Case E Case F

Marketing Indirectly Directly


channels (to trading company) (to individual)

Final destination
International market Domestic market

Buyer Trading company International buyer

written contract
Contractual Domestic buyer
arrangements verbal

consignation

FIGURE 2 - Marketing chain of the melon sector


Source: own compilation

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 377-388, 2011


Marketing chain analysis: a case study of the melon... 387

assistance from production through post-harvest. from the economies of scale and the need to ensure
Therefore, contractual ties with large producers enable many consistent quality supply through the adoption of
small and medium farmers to participate in markets that are certification. Based on the findings from this study,
more demanding than the local ones. Not only do small and certification is considered a catalyst to increase exports,
medium farmers benefit from contractual ties, but also large with farmers benefiting in economic and environmental
companies which establish a range of contracts. terms. On the one hand, farmers have an incentive to
With the aim of understanding the contractual upgrade and are able to access the international market
arrangements between farmers and buyers, all interviewees with certification. Thus, certification is indeed a passport
have been asked to detail their own situation. Contractual to access international markets. On the other hand,
arrangements vary according to the form of exports. Even certification excludes less capable growers from the market,
though two certified farmers have a consignment or verbal meaning that the increasing level of requirements per se
type of relationship in the domestic market, they are highly selects farmers who are able to comply. But also the access
dependent on daily price fluctuations. Hence there is no to information may restrict farmers from participation in
guarantee of payment; farmers have to build a relationship certification programs. Thus, organizations supported by
based on trust with the buyer to assure the payment. government should assure that information is available and
Therefore, one of them intends to trade with supermarket chains. that certification is a transparent and a voluntary process.
Moreover, a further analysis shows that two non- Adopting two certificates does not necessarily pay off, but
certified farmers deliver their total melon production to in some cases it might open the market to specific countries.
the trading company and the latter takes over all the Although the major importer of melons is the EU,
responsibility. Evidently they depend on daily price the status of pest-free zone of the fruit fly Anastrepha
fluctuations as well, but their payment is assured. On the Grandis enables Brazilian farmers to also access the US
contrary, the farmers who export either directly or indirectly market. Contractual arrangements between international
to international markets mention to have a written contract. buyers and farmers as well as between trading companies
The procedure of settling contracts and particular details and farmers are well-developed. However, arrangements
on the fruit characteristics is similar. Usually contracts are with domestic buyers still open margins for improvement.
set from March and April for the coming harvesting season Support to upgrade and increase efficiency along
which encompasses the period from August to February the chains is highly important mainly for non-certified
specifying the quality, price, quantity, brix, and size. farmers. This would be possible via vertical integration,
cooperation, and coordination, including the use of written
6 CONCLUSIONS contracts, among the actors in the chain. Upgrading along
Although some melon farmers are not certified, they the value chains can help moving towards quality
have indirect access to international channels through standards, increased international access, and better
trading companies. Contractual relationships between non- contractual arrangements.
certified farmers and trading companies as well as between
7ACKNOWLEDGEMENTS
certified farmers and international buyers are all based on
written contracts. According to the concepts of The authors are thankful to the German Academic
governance, transactions done directly and indirectly with Exchange Service (DAAD) and the German Ministry for
international buyers are characterized as a captive type of Economic Cooperation and Development (BMZ) for the
governance where quasi-hierarchical relationships financial support. The authors are also thankful to Comitê
dominate [the buyer defines the product and controls over Executivo de Fitossanidade do Rio Grande do Norte
the suppliers]. The results confirm that the sector is well- (COEX) for arranging the contacts and access to the farms.
coordinated along the chain up to the international buyer.
In contrast, selling melons in the domestic market presents 8 REFERENCES
a high risk of payment failure. The lack of guarantees COSTA, A. C. et al. O potencial fruticultor do Rio Grande
through formal contracts with national buyers and the do Norte gerando oportunidades no mercado internacional.
dependence on daily price fluctuations contribute to make In: CONGRESSO DE PESQUISA E INOVAÇÃO DA REDE
unstable the trading conditions in the country. NORTE NORDESTE DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA, 2.,
The reasons motivating farmers to vertically 2007, Joao Pessoa. Anais... João Pessoa: UFPB, 2007. 1
integrate are the reduction in transaction costs resulting CD-ROM.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 377-388, 2011


388 DOOR, A. C. & GROTE, U.

CUELLER, S. Marketing Fresh fruit and vegetables imports HUMPHREY, J.; SCHMITZ, H. Governance and Upgrading:
in the United States: status, challenges and opportunities. Linking Industrial Clusterand Global Value Chain Research.
Smart Marketing Newsletter, London, v. 11, n. 3, p. 3, IDS Working Paper. Brighton: University of Sussex, 2000.
Mar. 2003. p. 40. (IDS Working Paper 120).

FARINA, E. M. M. Q. Consolidation, multinationalisation HUMPHREY, J.; SCHMITZ, H. Governance in global value


and competition in the supermarket and processing sectors chains. IDS Bulletin, Brighton, v. 32, n. 3, 2001. p. 19-23.
in Brazil: impacts on horticulture and dairy products.
Development Policy Review, London, v. 20, n. 4, p. 441-457, ______. How does insertion in global value chains affect
2002. upgrading in industrial cluster? Brighton: Institute of
Development Studies, 2002.
FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE
UNITED NATIONS. Costs and benefits in food quality INSTITUTO BRASILEIRO DE FRUTAS. Statistics.
systems: concepts and a multi-criteria evaluation approach. Disponível em: <[Link] Acesso em: 10
Rome, 2007. (Working document, 22). mar. 2005.

GEREFFI, G.; HUMPHREY, J.; STURGEON, T. The JAFFEE, S.; MEER, K. van der; HENSON, H. Food safety
governance of global value chains. Review of International and agricultural health standards: challenges and
Political Economy, London, v. 12, n. 1, p. 78-104, 2005. opportunities for developing country exports. Washington-
DC: World Bank, 2005.p. 166.
GOMES, R. Upgrading without exclusion: lessons from
SMEs in fresh fruit clusters in Brazil. In: ______. Progetto KEESING, D.; LALL, S. Marketing manufactured exports
di ricerca di interesse nazionale: capabilities dinamiche from developing countries: learning sequences and public
tra organizzazione d´impresa e sistemi locali di produzione. support. In: HELLEINER, G. (Ed.). Trade policy,
Norara: Unintá Unità di Ricerca di Novara, 2004. p.23. industrialization and development. Oxford: Oxford
(Working paper, 15). University, 1992.

HENSON, S.; JAFFEE, S. Developing country responses NACHREINER, M. L.; SANTOS, R. R. Janelas de mercado:
to the enhancement of food safety standards. In: GROTE, oportunidades e entraves no comércio internacional de
U.; BASU, A. K.; CHAU, N. H. (Ed.). New frontiers in frutas. Piracicaba: CEPEA/USP/ESALQ, 2002.
environmental and social labeling. London: Physica-
Verlag, 2007. p. 193-220. UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND
DEVELOPMENT. Banana. Disponível em: <http://
HENSON, S.; JAFFEE, S. Standards and agro-food exports [Link]/infocomm/anglais/banana/[Link]>.
from developing countries: rebalancing the debate. Acesso em: 7 jan. 2007a.
Washington-DC: World Bank, 2004. (World Bank Policy
Research Working Paper, 3348). ______. Citrus fruit. Disponível em: <http://
[Link]/infocomm/anglais/orange/[Link]>.
HENSON, S.; LOADER, R. Barriers to agricultural exports Acesso em: 7 jan. 2007b.
from developing countries: the role of sanitary and
phytosanitary requirements. World Development, New YIN, R. K. Case study research: design and methods.
York, v. 29, n. 1, p. 86-102, 2001. Beverly Hills: Sage, 1994.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 377-388, 2011


ANÁLISE
AnáliseDA COMPETITIVIDADE
da competitividade DO APL DE
do apl de piscicultura... 389
PISCICULTURA NO LAGO DE TRÊS MARIAS
A competitiveness analysis of Tilapia Cluster at the Lake of Tres Marias

RESUMO
Objetivou-se, neste artigo, analisar a competitividade e as potencialidades da piscicultura no Lago de Três Marias em Minas Gerais,
dado que é latente o desenvolvimento dessa atividade como alternativa econômica para a região. São utilizadas a visão de APL (Arranjo
Produtivo Local), com contribuições da Nova Economia Institucional e de coordenação em sistemas agroindustriais, como modelos de
análise. Como método para coleta de dados, foi realizado um levantamento de dados in loco por meio de entrevistas e da organização
de um workshop com agentes participantes do APL. Foi possível concluir que, a despeito das grandes vantagens em termos de
recursos naturais e apoio governamental, grande parte dos desafios para aumentar a competitividade da atividade está relacionada à
consolidação das instituições e à melhoria da coordenação vertical e horizontal entre os agentes participantes. Uma vez que essas ações
e definições estejam implementadas, é razoável supor que recursos e competências locais existentes serão mais bem aproveitados,
gerando benefícios econômicos e sociais relevantes para uma região ainda pouco desenvolvida no Brasil, mas com potencial notável.

Luciano Thomé e Castro


Professor do departamento de Mercadologia da EAESP FGV
Fundação Getulio Vargas - SP, Escola de Administração de Empresas de São Paulo
ltcastro@[Link]

Marina Darahem Mafud


Mestre em Administracao de Empresas pela FEARP-USP
marinamafud@[Link]

Roberto Fava Scare


Coordenador do Núcleo de Pesquisa em Agronegócios da FEA-RP (AgroFEA Ribeirão Preto) e Pesquisador do Centro de Pesquisa em Marketing e
Estratégia
Universidade de São Paulo, Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, Departamento de Administração
rfava@[Link]

Colaborador:
Ricardo Messias Rossi
rrossi@[Link]

Recebido em: 9/6/09. Aprovado em: 30/8/11


Avaliado pelo sistema Blind Review
Avaliador Científico: Cristina Lelis Leal Calegario

ABSTRACT
The objective of this article is to analyse the competitiveness of tilapia production at Tres Marias lake, in Minas Gerais state. The
cluster concept as well as the new institutional economics along with agro-industrial systems coordination concepts were used as
frameworks for the analysis and data interpretation. For gathering such data, several interviews were done and a workshop was
organized with paticipants of this specific cluster. It has been possible to conclude that despite the great advantages concerning
natural resources and governamental support, the great challenges to improve the cluster competitiveness are related to the consolidation
of institutions and better horizontal and vertical coordination among the participants. Once actions towards this direction are
implemented, it is reasonable to believe that the local resources will be better exploited, generating relevant economic and social
benefits for a still underdeveloped region in Brazil, but with great potential.
Palavras-chave: Piscicultura, competitividade, sistema agroindustrial da tilápia.

Key-words: tilapia, clusters, competitiveness

1 INTRODUÇÃO nacional. Tradicionalmente, o baixo índice pluviométrico


sempre foi apontado como uma das razões que dificultam
A região semiárida brasileira é delimitada, o desenvolvimento econômico dessa região. Por esse
predominantemente, por dois vales. O primeiro, o Vale do motivo, o governo federal desenvolve programas
São Francisco, ocupa uma área de 640.000 Km2, entre os específicos para estimular o crescimento econômico do
estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás, Pernambuco, semiárido.
Sergipe e Alagoas. O segundo, o Vale do Parnaíba, ocupa A abundância de recursos hídricos, seja nos
uma área de 330.000 Km2, entre os estados do Piauí, reservatórios ou nos canais, advindos de projetos públicos
Maranhão e Ceará. Essa região representa 11% do território de irrigação e de hidrelétricas, gera grande potencial de

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 389-402, 2011


390 CASTRO, L. T. e et al.

produção aquícola e por isso é uma alternativa de atividade aquícolas na região. Indicadores qualitativos interessantes
econômica. No Vale do São Francisco, há seis estações de quanto à disputa pelos recursos naturais entre pescadores
piscicultura, montadas pela CODEVASF (Companhia de e piscicultores, bem como turistas e ainda a indicação de
Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do uma baixa capacidade de articulação e associativismo entre
Parnaíba), em parceria com diversas outras organizações a microempresários e produtores na região indicavam
depender da localidade, focadas na produção de alevinos desafios importantes.
de espécies de peixes de importância econômica e Diante deste processo de nascimento e
ecológica. Esses alevinos são utilizados para desenvolvimento de um polo de produção de tilápia
repovoamentos de rios, lagoas, açudes e grandes (espécie priorizada para cultivo comercial) no Lago de Três
reservatórios de água, e também são fornecidos a Marias, surge a oportunidade de uma análise crítica sobre
produtores rurais para o cultivo comercial, incrementando as potencialidades e fatores críticos para o seu avanço,
a piscicultura comercial no Vale do São Francisco, gerando bem como ressaltar ações capazes de contribuir com a
trabalho e renda para pequenos produtores. estruturação do mesmo, a partir de uma análise sistêmica
embasada em literatura relevante, como clusters e arranjos
Entre estas estações de piscicultura, uma está produtivos locais (APL) e a nova economia institucional.
instalada no Lago de Três Marias (MG). A Esse tema é especialmente importante no momento em que
produção de tilápia foi estimulada dentro da ação o Brasil desenvolve e consolida o marco regulatório para
de desenvolvimento econômico dessa estação. exploração de parques aquícolas, formados pelo
Estima-se que, atualmente, cerca de 150 pequenos represamento das águas de rios em usinas hidrelétricas e
produtores estejam produzindo tilápia no lago. também canais de irrigação. Para isso, os seguintes
Esses reúnem cerca de 640 tanques rede e, juntos, objetivos foram propostos para este trabalho:
atingiram, em 2009, uma produção próxima a 1.200
toneladas anuais, que ainda é uma pequena fração • Fazer o diagnóstico da situação da piscicultura
perto das 58.000 toneladas anuais estimadas como do Lago de Três Marias, em suas potencialidades e
potencial pleno de produção do lago. aspectos de melhoria no que tange a fatores relacionados
à busca da competitividade por um APLs.
Lira (2004) analisou a região do Baixo São Francisco • Fazer o diagnóstico quanto à coordenação dos
no estado de Alagoas, no contexto da piscicultura em agentes do SAG (Sistema Agroindustrial) da tilápia no Lago
tanques escavados praticada em perímetros públicos de de Três Marias para geração de valor aos consumidores
irrigação e concluíram pela insuficiência dos órgãos finais bem como para os participantes desse SAG.
públicos para a canalização e liderança na geração de • Fazer o diagnóstico da importância das
competitividade para um APL (Arranjo Produtivo Local) instituições no desenvolvimento local, ressaltando os
analisado. Por sua vez, Satolani et al. (2008) consideraram aspectos positivos e também os desafios a serem
os aspectos institucionais que necessitavam de melhor superados.
definição, referente às espécies de peixes cultivadas e
2 REFERENCIAL TEÓRICO
normas ambientais, além da necessária profissionalização
dos elos envolvidos no sistema agroindustrial e, finalmente, Ao fazer-se uma análise crítica de uma região,
a questão do escasso financiamento da atividade no estado pensando em sua competitividade na produção de
do Mato Grosso do Sul. Todavia, os autores destacaram o determinado produto ou serviço é interessante entender
importante papel da atividade de piscicultura como fator como os fatores característicos dessa região podem
de desenvolvimento em determinada região. Já Piedras e favorecer na atividade. Questões de localização, matérias
Bager (2007) ocuparam-se da questão da competitividade primas, educação e mesmo tradição são aspectos que
na piscicultura no estado do Rio Grande do Sul e levantaram justificam muitas vezes a existência de determinada
aspectos relacionados à dificuldade de licenciamento atividade em uma região. Por outro lado, mas ainda
ambiental, assistência técnica e comercialização, como relacionado a esse primeiro ponto, empresários locais
sendo os principais entraves ao desenvolvimento e precisam ser capazes de construir vínculos para a boa
crescimento da atividade. compra de insumos e principalmente a boa comercialização
Nunes (2007) analisou o polo de Três Marias com o da produção, construindo sistemas agroalimentares
objetivo de entender as suas peculiaridades eficientes. Ainda, em uma região como a do Lago de Três
socioeconômicas devido à iminente demarcação de parques Marias, originário do represamento de águas para a

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 389-402, 2011


Análise da competitividade do apl de piscicultura... 391

construção da hidrelétrica de Três Marias, no contexto de Por isso, Clusters representam uma faceta do diamante.
exploração de uma atividade nova com direitos de No entanto, clusters podem ser melhor entendidos como
propriedade sobre a água não totalmente definidos, o papel manifestação das interações entre todas os quatros fatores
da regulamentação pode ter uma importância-chave. que apresentam-se no quadro acima, já que o cluster e
Gomes e Sugano (2006) afirmam que a vantagem suas possibilidades podem alterar a condição dos fatores.
competitiva corresponde a um benefício significativo e, Por exemplo, o cluster pode atuar viabilizando e barateando
preferencialmente, de longo prazo, de uma empresa sobre insumos de produção, coletivamente pensando em
sua concorrência. Pensando no APL de tilápias do Lago soluções de infraestrutura ou mesmo melhorando o
de Três Marias, esse pode ser mais ou menos competitivo contexto de competição local e assim por diante
e fatores como os descritos acima serão cruciais para o (MARSHAL, 1985).
seu desenvolvimento. No Brasil, os agentes institucionais que estimulam
Por isso, três referências são selecionadas para o desenvolvimento de clusters junto aos órgãos
servir como base de análise neste texto. O primeiro enfoca governamentais, adotaram o termo Arranjo Produtivo Local
o APL sob o ponto de vista dos fatores necessários para a (APL) ao invés de cluster, para definir essas aglomerações.
competitividade, fazendo uso do modelo diamante Esse termo foi definido pela Redesist (2003 citado por
proposto por Porter (2009). O segundo. analisará a LASTRES; CASSIOLATO, 2005) como:
eficiência na organização das transações entre os agentes
aglomerações territoriais de agentes econômicos,
envolvidos na produção, industrialização e distribuição
políticos, e sociais – com foco em um conjunto
no sistema agroindustrial e o terceiro ressaltará o papel
específico de atividades econômicas – que
das instituições como promotoras de desenvolvimento
apresentam vínculos mesmo que incipientes,
usando para isso a Nova Economia Institucional. A seguir,
geralmente envolvem a participação e a interação
essas linhas conceituais serão brevemente exploradas.
de empresas – que podem ser desde produtoras
Modelo Diamante, APLs e Competitividade de bens e serviços finais até fornecedoras de
insumos e equipamentos, prestadoras de
Apresentam-se, no quadro abaixo, as fontes de
consultorias e serviços, comercializadores e
vantagem competitiva para a localização, denominado por
clientes, entre outros.
Porter (2009), como modelo diamante. As características
desses fatores, segundo o autor, influenciarão a Schmitz e Nadvi (1999, citados por CROCCO et al.,
competitividade da região, ou seja, se melhores os fatores, 2006, p. 213), defendem que “aglomerações produtivas
serão maiores as chances de uma região tornar-se locais podem ser definidas como uma concentração setorial
competitiva, em determinada atividade econômica. e espacial de firmas”. O escopo amplia-se para incorporar
As condições de fatores dizem respeito à posição da outros elementos relacionados à intensidade das trocas
região nos fatores de produção, ou seja, existência de trabalho intra-aglomeração, à existência de relações de cooperação,
especializado, infraestrutura ou matérias-primas necessárias ao grau de especialização e desintegração vertical da
à competição em determinada indústria. A estratégia e aglomeração, ao ambiente institucional voltado ao
rivalidade das empresas estão vinculadas às condições que desenvolvimento do APL.
regem e orientam a maneira pela qual as empresas são APLs criam vantagem competitiva de três maneiras
organizadas e dirigidas buscando a inovação. A presença ou amplas: primeiro, pelo aumento da produtividade das suas
ausência de indústrias correlatas define potencialmente a troca empresas e/ou setores componentes; segundo, pelo
de informações e promoção de intercâmbio de idéias. As fortalecimento da capacidade de inovação e consequente
condições de demanda que caracterizam o tipo de demanda elevação da produtividade; terceiro pela atração e estímulo
da própria região sobre produtos e serviços podem à formação de novas empresas que reforçam a inovação e
impulsionar as empresas à melhoria da qualidade e inovação. ampliam o arranjo.
Dessa forma, o modelo diamante é uma ferramenta Assim, deve-se entender que “fontes locais de
que deve guiar uma análise crítica dos fatores de uma região competitividade são importantes, tanto para o crescimento
para determinada atividade econômica. Vale explorar, porém, das firmas, quanto para o aumento da sua capacidade
a questão da presença de indústrias correlatas e de apoio. inovativa” e que o desenvolvimento nacional ocorre por
Indústrias correlatas e de apoio fisicamente meio da concentração de organizações (CASSIOLATO;
próximas foram denominadas por Porter (2009) como cluster. SZAPIRO, 2003, p. 1).

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 389-402, 2011


392 CASTRO, L. T. e et al.

QUADRO 1 – Modelo Diamante - Fontes de Vantagem Competitiva para a Localização.


Condições de Fatores Quantidade e Custo dos Fatores (Insumo)
(Insumos) Qualidade dos Fatores
Especialização dos Fatores
(Recursos naturais, recursos humanos, recursos de capital, infraestrutura física,
infraestrutura administrativa, infra-estrutura de informação, infraestrutura científica e
tecnológica)
Contexto para a Contexto local que encoraje formas apropriadas de investimento e aprimoramento
Estratégia e sustentado
Rivalidade da Competição vigorosa entre rivais situados na localidade
Empresa
Setores Correlatos e Presença de fornecedores capazes, situados na localidade
de Apoio Presença de setores correlatos competitivos
Condições da Clientes locais sofisticados e exigentes
Demanda Necessidades dos clientes que antecipem as que surgirão em outros lugares
Demanda local pouco comum em segmentos especializados que possam ser globalmente
atendidas.
Fonte: Porter (2009, p. 226)

A influência sobre a produtividade se dá por meio produto em uma região. Um SAG pode ser mais ou menos
do acesso a insumos e a pessoal especializado; acesso a eficientemente coordenado, o que significa dizer, que ele
informações técnicas e de mercado acumuladas dentro do pode funcionar melhor ou pior, buscando cumprir sua meta
arranjo; pela facilitação das complementariedades entre as de disponibilizar alimentos para os consumidores finais a
atividades dos diferentes participantes, acesso a uma qualidade e preço esperados.
instituições e bens públicos, que colaboram resolvendo A visão de SAG incorpora o enfoque sistêmico.
ou atenuando conflitos e facilitam a avaliação de Por meio dessa evolução, de um enfoque isolacionista para
desempenho. um enfoque sistêmico, qualquer agente inserido nesse
No tocante à inovação, a existência de um arranjo sistema deve considerar aspectos a montante e a jusante
produtivo local pode acelerar o entendimento de novas da sua atuação. Diversas empresas deverão interagir desde
necessidades do consumidor. O APL pode permite melhor a produção, passando pelo processamento e distribuição
acesso a novas possibilidades tecnológicas, operacionais e essa interação pode ser mais ou menos eficiente,
e de distribuição, acelerar a aquisição da tecnologia e conflituosa ou lucrativa (MARTINS, 2000). Diferente da
reduzir seu custo para os envolvidos (VASCONCELOS; visão de APL, não existe a necessária concentração espacial
NASCIMENTO, 2005). dessas empresas e o foco está nas transações a montante
Muito embora a visão de APLs inclua a questão e a jusante que essa organização estabelecerá para
dos vínculos verticais e horizontais, como já dito, vale conseguir se inserir no sistema de forma lucrativa.
trazer a perspectiva de SAGs como complemento. A visão As transações entre os agentes em um SAG podem
de SAG foca-se nas transações na direção do mercado e, ocorrer com diferentes mecanismos tais como preço (ou
além de descrever as conexões entre empresas, explora mercados), contratos, e finalmente a integração vertical,
também a questão da eficiência dos modelos de transação quando arranjos contratuais são todos definidos dentro dos
existentes que devem minimizar os custos de transação e limites da empresa e ela se responsabiliza por todo o processo,
aumentar o valor para os agentes envolvidos. da originação até a venda ao consumidor final (COASE, 1991;
WILLIAMSON, 1985; ZYLBERSZTAJN, 1995).
Coordenação em Sistemas Agroindustriais (SAGs) e
Os agentes processadores de alimentos, atacadistas
Competitividade
e varejistas, de maneiras diferentes, são os agentes mais
Um Sistema Agroindustrial (SAG) pode ser próximos do cliente final do SAG e, por isso mesmo, mais
entendido como o conjunto de empresas envolvido na capazes de captar as necessidades dos consumidores. Para
produção, industrialização e distribuição de determinado atender às demandas específicas do consumidor final,

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 389-402, 2011


Análise da competitividade do apl de piscicultura... 393

empresas do setor alimentício que precisam de matérias- entre agentes de um mesmo elo (coordenação horizontal),
prima in natura ou semiprocessadas com qualidade como entre agentes de elos distintos, denominada
uniforme, estão cada vez mais estabelecendo transações coordenação vertical. Isso quer dizer, por exemplo, que os
na base de contratos, formais ou informais, de compra com produtores pertencentes a um mesmo elo de produção
produtores rurais (MACHADO, 2000). aquícola podem melhor se coordenar para obter ganhos
O nível de especificidade de ativos está relacionado coletivos em cooperativas ou associações, como exemplo
aos investimentos específicos que uma empresa realiza e de coordenação horizontal. Por isso, precisam buscar um
que a colocam em situação de desvantagem quanto à modelo de governança que minimize custos de transação
realocação desse investimento, em uma situação de quebra entre eles. Já verticalmente, produtores e frigoríficos podem
contratual. A presença de investimentos dessa natureza estabelecer mecanismos de definição de preço que reduzam
em uma relação empresarial, somada à incerteza, geram conflitos e facilitem os negócios, como exemplo de
relacionamentos de altos custos de transação. Esses custos coordenação de tipo vertical.
aparecem antes da transação ocorrer como a elaboração Nesse sentido a análise do polo de produção de
de demorados e complexos contratos, ou mesmo durante a tilápia da represa de Três Marias deve considerar sua
transação com modificações desses contratos ou quebras estruturação como um APL inserido em um SAG (Sistema
e, por fim, depois da transação com renegociações e até Agroindustrial) onde os agentes buscam coordenação
possíveis questões judiciais (AZEVEDO, 1996). vertical e horizontal. A Figura 1 esquematiza as atividades
Esses custos de transação podem levar a empresa necessárias que precisam ser compartilhadas entre os
a buscar formas de governança que permitam a ela minimizar diferentes participantes da cadeia produtiva. Ou seja, o
esse risco. Tipicamente, empresas caminham na direção de conjunto das empresas participantes deve empenhar-se
contratos mais rígidos ou até a integração vertical quando em esforços que podem ser mais sinérgicos.
na presença de transações com alto custo de transação e, Uma vez compreendida a questão de
por isso, com risco (FARINA et al., 1997). competitividade na visão dos modelos de diamante e APLs
O conceito de coordenação em SAG tem foco na e a exploração da visão das transações em um SAG, vale
melhoria dos relacionamentos entre as organizações tanto entender como as instituições podem impulsionar ou

Insumos Produção Indústria Distribuição Consumo

Atividades de Produtos: Como a logística deve funcionar ao longo do SAG?


Atividades de Promoção: Quais as atividades promocionais que devem ser
desenvolvidas pelos participantes?
Atividades de Serviços: Quais serviços devem ser prestados pelos participantes como
apoio ao elo anterior ou posterior?
Atividades de Informações: Que atividades de pesquisa devem ser desenvolvidas pelos
participantes para melhorar a troca de informação, sobretudo tendências de consumo e
qualidade?
Atividades Pedidos e Financeiras: Como os pedidos de compra serão coletados e como
a renda será dividida no SAG?
FIGURA 1 – Atividades para o bom funcionamento de um SAG.
Fonte: Zylbersztajn e Neves (2000).

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 389-402, 2011


394 CASTRO, L. T. e et al.

retardar situações ótimas nessas duas visões descritas diferentes, ocupando o quadro institucional posição de
anteriormente. destaque no resultado econômico.
Nova Economia Institucional e Competitividade Segundo North (1990), as instituições são restri-
ções (normas) construídas pelos seres humanos,
O ambiente institucional engloba as instituições,
que estruturam as interações social, econômica e
sejam públicas ou privadas, que estabelecem as “regras do
política. Elas consistem em restrições informais
jogo”. Em uma sociedade, conforme afirma North (1990), as
(sanções, tabus, costumes, tradições e códigos
instituições são as regras do jogo, são os limites
de conduta) e regras formais (constituições, leis
estabelecidos para moldar o comportamento humano e sua
interação. As instituições estabelecem incentivos e padrões e direitos de propriedade).
para a transação e o relacionamento humano, tanto político Em modelo proposto por Williamson (1993), o
como econômico ou social. A principal razão para a existência arranjo institucional desenvolve-se dentro dos limites
de instituições é a redução da incerteza, estabelecendo um impostos pelo am biente insti tucion al e pelos
aparato estável que estrutura o comportamento humano que, pressupostos comportamentais sobre os indivíduos.
embora não seja necessariamente eficiente, afeta o Assim o ambiente institucional fornece o quadro
desempenho da economia pelos seus efeitos nos custos de fundamental de regras que condicionam o aparecimento
produção e nos de transação. das formas organizacionais que comporão o arranjo
Complementando as instituições, North (1994) institucional. A garantia mais incisiva de direitos de
conceitua as organizações que, assim como as instituições, propriedade reduzirá a incerteza implícita nas transações,
também provêem estrutura para a interação humana. Dessa o que altera, por sua vez, a eficiência relativa das diferentes
forma, é preciso diferenciar as regras dos participantes. O formas organ izacionais, modificando o arranjo
propósito das regras é definir como o jogo será realizado. institucional eficiente.
O objetivo do time, dadas as regras, é vencer o jogo, As instituições podem tanto acelerar, como atrasar
combinando suas habilidades, estratégias e capacidade o desenvolvimento dos empreendimentos que compõem
de coordenação. o arranjo produtivo local. Exemplos são o aumento dos
O aparato institucional influencia custos de rompimento de contratos ou acordos entre os
fundamentalmente a forma como as organizações surgem agentes, em um APL, como também assegurar critérios de
e como elas evoluem, sendo verdadeira também a recíproca qualidade não auferíveis por consumidores e assegurar
da influência das organizações na evolução institucional. direitos de propriedade sobre investimentos realizados e
As instituições determinam as oportunidades em uma estabelecer critérios para a competição comercial,
sociedade, enquanto as organizações são criadas para estabelecendo o que é válido ou não.
aproveitar as vantagens dessas oportunidades. Conforme Em síntese, a visão de APLs permite uma análise da
as organizações evoluem, elas alteram as instituições. região com base em elementos de recursos e fatores de
A Nova Economia Institucional aborda a função competitividade. Apesar dessa visão incluir questões
das instituições em dois planos analíticos distintos: sobre a intensidade das inter-relações entre agentes e
ambiente institucional e estruturas de governança, mesmo questões institucionais, a visão de SAGs permite
contemplando respectivamente macroinstituições - aquelas operacionalizar melhor os itens verificados, tais como a
que estabelecem as bases para as interações entre os seres coordenação horizontal ou vertical, questões das
humanos - e microinstituições - aquelas que regulam uma dimensões das transações e formas de governança.
transação específica (AZEVEDO, 2000). As Finalmente, a visão da Nova Economia Institucional permite
microinstituições foram descritas no tópico anterior, dentro entender com mais detalhes componentes institucionais
da visão dos SAGs. que podem impulsionar ou até reter o desenvolvimento no
Williamson (1993), apoiado em conceitos de momento em que as regras do jogo são colocadas ou estão
economia de custos de transação, apresenta a interação mal definidas e até ausentes. A seguir, o método de
entre o ambiente institucional e as instituições de desenvolvimento do trabalho é apresentado.
governança, demonstrando sua complementaridade,
2 MÉTODO
aspecto especialmente relevante para este trabalho. O autor
destaca que ambos se apoiam no mesmo objeto, a economia O método para a realização da pesquisa pode ser
de custos de transação, porém em níveis analíticos dividido em duas etapas, sendo a primeira a escolha dos

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 389-402, 2011


Análise da competitividade do apl de piscicultura... 395

referenciais teóricos e quadros de análise para melhor da instituição pública, usando para isso o referencial de
analisar a competitividade da região e, a segunda, as instituições, a questão da capacitação da mão de obra local,
técnicas de coleta de dados para trazer as informações com o referencial de clusters e competitividade.
necessárias às análises. Foram realizadas visitas às cooperativas de
produtores da região, Coopim, Coopeixe a um frigorífico
Técnicas de Análise de Dados
local bem como a um produtor de alevinos. Estas visitas
Os referenciais escolhidos e as ferramentas de foram muito úteis como complemento às informações
análise foram: (a) o modelo de diamante de Porter: por ter levantadas via entrevistas, permitindo aos pesquisadores
em seu objetivo a discussão dos fatores de competitividade, melhor compreensão dos fenômenos investigados, por
objetivos esses presentes em determinada localidade e meio da observação. De acordo com Malhotra (2001), o
também fator relacionado aos benefícios da concentração método da pesquisa por observação busca registrar os
de empresas geograficamente, formando APLs; (b) SAG padrões de comportamento de pessoas, objetos e eventos
(Sistema Agroindustrial) por avaliar a questão da boa a fim de se obter informações relevantes sobre os
coordenação entre elos presentes em um sistema produtor acontecimentos de interesse. Na observação não
de alimentos, ponderando a presença de modelos eficientes estruturada, são monitorados pelo observador todos os
de governança de transações e componentes para o seu aspectos desses acontecimentos, que parecem importantes
bom funcionamento, como os fluxos de informações, para o problema em foco.
comunicação, financeiro e físico e, finalmente (c) a análise Durante o mesmo período de trabalho na região, foi
crítica do papel das instituições, em função do realizado um “workshop” com agentes do APL
desenvolvimento do arcabouço institucional quanto a (fornecedores de alevinos, fornecedores de ração,
aspectos críticos presentes na realidade analisada, com frigorífico e produtores), além das instituições de apoio
regularização dos parques aquícolas, a presença de alto como a EPAMIG (Empresa de Pesquisa Agropecuária de
nível de informalidade e baixa prática local referente a Minas Gerais), EMATER (Empresa de Assistência Técnica
modelos de acordos de maior longo prazo entre agentes. e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais) e o SEBRAE
Técnicas de Coleta de Dados (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), em que
os problemas e oportunidades foram discutidos. O
Para esse diagnóstico, foi feito um levantamento workshop seguiu a seguinte estrutura metodológica.
de informações por meio de visitas dos autores ao Lago de Primeiro foram apresentados exemplos de funcionamento
Três Marias, durante o mês de setembro de 2008 e fevereiro de cadeias produtivas de outros setores no Brasil com
de 2009. Durante as visitas, foram realizadas oito entrevistas casos bem sucedidos e emblemáticos, como forma de
em profundidade com especialistas do setor, sendo quatro motivar e “provocar” a discussão. Depois, uma principal
técnicos locais da Codevasf, inclusive o responsável geral questão foi debatida, em plenária, para a consolidação: (a)
pela área na Codevasf, na sede em Brasília, além de três quais os principais desafios para o crescimento de sua
produtores entrevistados individualmente. O roteiro de atividade na piscicultura no Lago de Três Marias?
entrevista utilizado foi construído com base no referencial Dada a heterogeneidade do público participante
utilizado e é apresentado no anexo 1 deste artigo. do workshop, estando entre as participantes pessoas sem
Cada entrevista foi analisada com base no método escolaridade básica, mas também pessoas com formação
de análise de discurso. O procedimento para a análise de superior completa optou-se por colocar a questão de forma
discurso seguiu a estrutura sugerida por Nogueira (2001). ampla e clara e facilitar a discussão, capturando as
As frases transcritas nas entrevistas eram interpretadas e principais mensagens passadas pelo público, seguindo
classificadas seguindo a estrutura conceitual utilizada. Por as estruturas de análise de dados escolhidas. Ao total, 36
exemplo, o discurso de um dos entrevistados por parte da pessoas participaram desse workshop com duração de
Codevasf aborda “a importância da Codevasf, no início, 2,5 horas. Os tópicos debatidos foram estruturados tais
em manter vivo o APL através das constantes doações em como o questionário utilizado na entrevista. As mensagens
equipamentos ou ração e, ao mesmo tempo, a dificuldade também foram classificadas conforme pertinência aos
desses produtores usarem de forma eficiente essas temas observados dentro de fatores de competitividade
doações, já que havia perda de peixes e diversos erros de APLs, sistemas agroindustriais e o papel das
resultantes ainda da baixa qualificação”. Essa sentença instituições. A seguir os principais resultados são
então era decomposta nos fatores relacionados ao papel apresentados e discutidos.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 389-402, 2011


396 CASTRO, L. T. e et al.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO • Existência de investimentos privados na produção


Os resultados são divididos conforme as três de alevinos para melhorar a eficiência produtiva, reduzindo
perspectivas conceituais utilizadas e, ao fim deste tópic o, a mortalidade nos primeiros momentos da criação, época
uma síntese é colocada. Primeiro será abordado o tema mais delicada do ciclo produtivo.
enfocando o APL e a análise de fatores proposta pelo • Existência de uma importante cooperativa de
crédito (CREDINOVA) que fomenta a atividade da
modelo Diamante, depois a visão de SAGs é discutida e,
piscicultura na região.
finalmente, os aspectos institucionais são apresentados.
• Existência de um frigorífico ainda não inaugurado,
Condicionantes de Competitividade segundo o Modelo construído pela CODEVASF em parceria com a Prefeitura
Diamante e APLs de Morada Nova de Minas, que absorverá parte da
produção de tilápia da região, com capacidade de processar
Como breve descrição, o Lago de Três Marias conta
cerca de 520 toneladas anuais.
hoje com aproximadamente 640 tanques rede e duas
Já os aspectos desfavoráveis e os obstáculos para
cooperativas formadas.
o desenvolvimento do APL de piscicultura no Lago de
A produção mensal é estimada em 100 toneladas de
Três Marias foram assim identificados:
tilápias. Grande parte da produção é comercializada nos
• Necessidades de melhorar a capacitação da mão
municípios adjacentes ao lago de Três Marias e em outros
de obra local - como a piscicultura é uma atividade muito
locais em um raio de 150 km dos locais de produção. Em
recente na região, a mão de obra local ainda não conta com
Morada Nova de Minas existe um investimento privado o conhecimento técnico e a habilidade necessária para uma
focado na produção de alevinos, além de um investimento eficiente condução da criação intensiva de tilápias em
público em uma unidade de beneficiamento de pescado. tanques-rede.
Ao analisar este APL, buscando fatores de • Necessidade de melhorar a gestão dos
competitividade, pôde ser identificado: empreendimentos – os produtores da região ainda
• A grande extensão do Lago de Três Marias, com encontram dificuldade no controle e gestão dos seus
1.040 km2 de superfície, que confere uma vantagem natural empreendimentos, controle de custos e composição dos
significativa, dado o potencial de expansão da atividade custos de produção.
de piscicultura, estimado em cerca de 58.000 toneladas • Ausência de padronização nas práticas de produção –
anuais; os piscicultores da região conduzem seus cultivos de forma
• A existência de empreendimentos de produção, muito individualizada, cada qual com sua estratégia de
que somam cerca de 640 tanques-rede no Lago; produção, muitas vezes ineficiente do ponto de vista da
• O Lago, na região de Morada Nova, se mantém produtividade e do custo. Isso contribui para a grande variação
preservado em relação à presença de esgotos domésticos no resultado e sucesso dos empreendimentos entre os
e industriais, assegurando condições adequadas de produtores da região. Isso também prejudica a padronização
qualidade de água para os cultivos; da qualidade da tilápia na região.
• A temperatura da água do lago se mantém dentro • Baixa capacidade de obter financiamentos, devido
da zona de conforto dos peixes praticamente durante todo à baixa informação sobre linhas, alternativas de crédito e
o ano, proporcionando ótimas condições de crescimento, principalmente da dificuldade dos produtores em
sem a sazonalidade de produção observada mais ao sul do fornecerem garantias.
estado e nos demais estados do Sudeste; • A capacidade de processamento de tilápia ainda é
• A piscicultura como alternativa econômica para a limitada diante do potencial de produção de todo o Lago.
comunidade local dá aos investidores regionais o acesso • O abate e processamento da tilápia ainda são
à mão de obra; realizados em sua grande parte de modo informal, sem
• O posicionamento geográfico favorável para o certificação sanitária de um órgão de inspeção (SIF, SIE ou
atendimento do mercado de Belo Horizonte (250 km) e mesmo da vigilância sanitária municipal).
Brasília (550 km) através da BR 040, além das oportunidades • Comercialização informal dos produtos –
para o Triângulo Mineiro, Goiânia e capitais do Nordeste; geralmente os produtos são comercializados sem
• Existência de um frigorífico privado em Funilândia certificação de um órgão de inspeção, as vendas são feitas
(MG), a cerca de 250 km, que tem absorvido uma parte da sem nota fiscal e, muitas vezes, o transporte dos produtos
produção e permitido a venda da tilápia, com registro no é inadequado considerando o que se espera para o
SIF (Serviço de Inspeção Federal). transporte de produtos perecíveis.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 389-402, 2011


Análise da competitividade do apl de piscicultura... 397

O quadro a seguir usa o modelo diamante para desafios para viabilizar o relacionamento entre os
enquadrar os fatores positivos e negativos, classificando produtores e frigoríficos na região, no contexto da melhor
o que foi apresentado acima: coordenação vertical.
No que diz respeito ao primeiro item, as duas
Sistemas Agroindustriais como Condicionantes da
Competitividade cooperativas existentes são pequenas e seus escopos ainda
são restritos perto das oportunidades existentes. Diversos
Quando se analisa o SAG da tilápia no Lago de itens poderiam fazer parte das atribuições de cooperativas.
Três Marias, sob uma perspectiva de coordenação, pode As entrevistas e workshop permitiram vislumbrar as
ser percebido que o que ocorre é a venda no mercado à seguintes oportunidades, a partir dos problemas colocados
vista da produção para frigoríficos ou mercados e potenciais encaminhamentos sugeridos pelos
alternativos informais como uma forma de oportunamente entrevistados e colocações feitas no workshop:
tentar maximizar, no curto prazo, a receita dos produtores. • Compra e negociação conjunta dos principais
A inexistência de acordos ou contratos mostra a insumos de produção: Ração e alevinos, juntamente com a
não prática do planejamento conjunto entre os diferentes mão de obra, compõem grande parte dos custos de produção
elos. Da mesma forma, horizontalmente produtores não em piscicultura. A competitividade dos empreendimentos
exploram os benefícios que a ação coletiva poderia criar. depende muito da habilidade dos produtores em negociar a
Aspectos relacionados à cultura local bem como o grau de aquisição desses insumos e de capacitar a mão de obra local.
maturidade da atividade foi apresentado por Nunes (2007). A qualidade da ração e dos alevinos é fundamental ao
Devem ser destacados estes dois tópicos centrais: sucesso do empreendimento pois afetam o crescimento, a
(a) o escopo restrito de atividades cooperativas entre os conversão alimentar, o rendimento no processamento e a
produtores no contexto da coordenação horizontal; (b) os qualidade dos produtos. Assim, a compra desses insumos

QUADRO 2 – Fatores Positivos e Negativos do APL de Piscicultura, no Lago de Três Marias.


Dimensão Fatores Positivos Fatores Negativos a Serem Superados
Condições de  Quantidade e Qualidade da água  Capacitação de mão de obra local
Fatores  Disponibilidade de mão de obra  Capacidade de Processamento local
(Insumos)  Existência de empreendimentos que baixa
somam mais de 640 tanques-rede  Processamento e comercialização
 Cooperativas formadas clandestina
 Existência da estação de piscicultura
trazendo informações e tecnologia
 Serviços de apoio governamental
Contexto para a  Produtores competem principalmente
Estratégia e na informalidade para comercialização
Rivalidade da de peixe
Empresa  Frigoríficos competem com mercados
informais
Setores  Existência de cooperativa de crédito  Atividade econômica ao lado de
Correlatos e de aumentando atividade econômica de agricultura são as alternativas existentes
Apoio pequenos produtores o que confere baixa troca de informação
para avanço
 Pouca cooperação entre produtores e
outros agentes no APL
Condições da  Proximidade de mercados exigentes  Dependência e costume de
Demanda como Brasília e Belo Horizonte comercialização imediata em feiras- -
livres e mercados locais
Fonte: Elaborado pelos autores.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 389-402, 2011


398 CASTRO, L. T. e et al.

pode ser organizada através de uma ação mais cooperativa, tendências de mercado em termos quantitativos (número
para que o preço de aquisição seja o mínimo possível, de consumidores estimados, pontos de venda, volumes
obtendo descontos com volumes maiores de compra e com produzido, etc.), potencial de novos mercados no Brasil e
contratos de fornecimento. no exterior, concorrência com outros tipos de peixes, bem
• Logística de saída – As ações de promoção, venda como dados qualitativos sobre demanda, por exemplo,
e distribuição dos produtos da piscicultura na região são como o peixe deve ser produzido e apresentado, de forma
realizadas individualmente pelos próprios produtores, a atender as expectativas de alimento saudável e para se
disponibilizando seus veículos particulares e contando com ajustar às mais variadas formas de preparo em diferentes
seu próprio trabalho ou o de familiares. Esse tipo de regiões do país e do mundo.
atividade, em um primeiro momento minimizam os custos de Já em relação aos desafios para viabilizar a
comercialização. No entanto, impossibilita o crescimento coordenação vertical, sobretudo o relacionamento entre
estruturado do SAG, pois é limitada pela capacidade os produtores e um ou mais frigoríficos na região, faz-se
individual de cada produtor de, pessoalmente e com seus necessária a coordenação vertical. A coordenação vertical
próprios recursos, avançar sobre as áreas de comercialização. engloba as alianças entre os diferentes elos de um SAG.
• Obtenção de serviços de empresas fornecedoras Assim, fabricantes de rações e produtores de alevinos
por meio da cooperativa: - serviços que podem ser podem se coordenar com produtores de tilápia e frigoríficos
oferecidos por empresas de insumos, já que essas de modo a estabelecer preços e padrões de qualidade para
vislumbram oportunidades de vendas maiores aos os insumos, bem como ações de cooperação técnica e demais
produtores quando esses estão organizados em maior suportes que favoreçam a produção de tilápia com qualidade
número, em uma cooperativa. e a preço competitivo, possibilitando, ainda, uma agregação
• Suporte técnico em conjunto, contratado pela justa de valor em cada etapa do SAG.
cooperativa - O emprego desses insumos na produção As oportunidades ou opções de arranjos são
deve ser feito da forma mais adequada possível, a fim de inúmeras. Essa relação pode ter diversas características.
que o seu potencial seja utilizado ao máximo. Para isso, é Quando se consegue um alto grau de comprometimento
necessário que o produtor seja orientado e treinado para entre as partes, pode-se chamar de produção integrada ou
aplicar as melhores práticas de produção. coordenada. Isso implicaria no compartilhamento de
• Capacitação em gestão do negócio aos produtores – responsabilidades, resultando em contratos de maior prazo
além do uso eficiente dos recursos e aplicação de boas entre produtores e indústrias.
práticas de produção, os produtores devem ser capacitados Em Morada Nova, a situação atual é de quase total
no gerenciamento e administração de seus informalidade no processamento e comercialização da tilápia.
empreendimentos. Controle de despesas e receitas (fluxos Por isso, frigoríficos a serem instalados devem estimular os
de caixa), gerenciamento de custos e recursos humanos e produtores a aderirem às vias legais de comercialização
composição dos custos de produção são tópicos através de modelos com incentivos corretos para compras.
importantes a serem assimilados. Por isso, deve-se pensar na solução de processamento de
• Desenvolvimento de mercado - com um produto forma ampla, atuando em mercados onde a concorrência se
beneficiado de boa qualidade e padronizado, o passo dá por qualidade e preço, seja no Brasil ou no exterior.
seguinte será desenvolver canais de distribuição e a
Aspectos Institucionais como Condicionantes da
prospecção de novos mercados. Os produtores da região
Competitividade
podem montar um esforço comercial comum,
potencializando as vendas. A forma como estes recursos são explorados podem
• Comunicação para formação da marca - a ser fomentados por aspectos regulatórios e através de
comunicação sobre a tilápia produzida no Lago de Três apoio governamental como já discutido no referencial
Marias ocorre de maneira desestruturada. Também há teórico. Esses aspectos estão relacionados ao papel das
iniciativas individuais dos produtores que, mesmo sem ter instituições em estabelecer regras para assegurar a
o produto regularizado, estão criando marcas fazendo competitividade da região. Os aspectos positivos da ação
referência ao estado de Minas e ao Lago de Três Marias. institucional na região enumeram-se enumerados, a seguir:
Existe o Festival da Tilápia de Morada Nova. • A existência de parques aquícolas já demarcados
• Informações do mercado para os agentes pela SEAP (Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca), no
produtores - Existem poucas informações a respeito de Lago de Três Marias, disponibilizando, através de licitação

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 389-402, 2011


Análise da competitividade do apl de piscicultura... 399

pública, áreas aquícolas com licenciamento ambiental já qualidade da água, a manutenção da infraestrutura comum
aprovado junto aos órgãos que aprovam a outorga do uso de acesso ao Lago, o suporte técnico especializado, a
da água e da área. Isso facilita o processo de implantação capacitação técnica e gerencial de recursos humanos e a
das pisciculturas em tanques-rede, sendo um grande atrativo mediação de potenciais conflitos com outros usuários do
a potenciais empreendedores locais e de outras regiões. recurso hídrico e seu entorno, ficam sem responsável direto.
• A proximidade da Estação de Hidrobiologia e do • A formalização do processamento do pescado:
Lago de Três Marias (1ª EPT - CODEVASF), que pode vir a fiscalização do processamento, seguindo a legislação do
ser um importante centro de difusão de tecnologia e Sistema de Inspeção Federal, para incentivar investimentos
capacitação técnica e gerencial de recursos humanos na na área de beneficiamento, já que esses deverão competir
região. menos com o sistema informal que, naturalmente, possui
• A presença de equipe de assistência técnica da preços mais baixos ao consumidor;
CODEVASF na região, que já vem atuando na orientação • A emancipação paulatina dos produtores, para que
dos produtores e de potenciais investidores. Esse fator esses passem a gerir seus empreendimentos de forma
permite que produtores entrem na atividade e que exista independente. Muitos produtores ainda dependem da ação
suporte técnico e orientação para o desenvolvimento de federal quanto à assistência técnica, recursos e
seus negócios. informações;
Porém, algumas lacunas institucionais que deverão
Inter-relação e Síntese dos Condicionantes de
ser preenchidas para consolidar o APL da piscicultura na
Competitividade Analisados
região de Morada Nova, existem. São elas:
• A gestão dos parques aquícolas, quando parques O quadro a seguir esquematiza os desafios, por agente
implantados: uma vez regulamentados, os parques do SAG, da Tilápia no Lago de Três Marias, apresentando
aquícolas dentro do Lago de Três Marias apresentarão também o aspecto institucional , bem como aspectos já
demandas em comum. Entre muitas, o monitoramento da discutidos na visão de APLs, resultante das análises.

QUADRO 3 – Principais desafios dos Agentes do SAG da Tilápia, no Lago de Três Marias e aspectos institucionais.
Aspectos Institucionais: Consolidação dos marcos jurídicos quanto à exploração de parques aquícolas, direitos
sobre áreas comuns em parques aquícolas, fiscalização de abate e comercialização informal e emancipação paulatina
de pequenos produtores dos serviços federais.
Sinais do
Fornecedores de Produtores de
Frigoríficos Distribuição Consumidor de
Insumos Tilápia
Alimentos
- Melhoria na Potenciais ganhos Necessário aumento Necessário a Economia
produção de em ações coletivas da capacidade organização e canais Qualidade
alevinos em em associações ou existente de distribuição Saúde
quantidade e cooperativas Desenvolvimento ou legais e alternativos Conveniência
qualidade Necessária evolução atração de
- Aproximação com na profissionalização competência no
produtores para de gestão processamento e
comercialização Necessário comercialização de
mais eficiente desenvolvimento tilápia
técnico Necessidade de
Necessário ganho desenvolvimento de
em produtividade modelo de parceria
com produtores
Enfrentamento da
competição com
abate informal
Fonte: elaborado pelos autores.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 389-402, 2011


400 CASTRO, L. T. e et al.

Buscou-se mostrar acima que, para o atendimento na correta produção, processamento e comercialização do
ao consumidor de alimentos que possuem exigências com pescado, porque esses são penalizados pela competição
relação à qualidade dos alimentos, bom preço, com produtores que usam métodos clandestinos de abate
conveniência entre outros atributos, o SAG precisa se e comercialização. Quanto à qualidade, o fato da não
desenvolver para fazer frente a outros SAGs de tilápia, qualidade de diversos produtores não legalizados, acaba
outras espécies de peixes e mesmo outras carnes. Esse também prejudicando a imagem da tilápia da região como
desenvolvimento passa por cada um dos níveis existentes alternativa real para consumidores que estariam dispostos
no SAG desde o fornecimento de insumos até a a pagar preços mais atrativos.
comercialização, como discutido ao longo do texto. Também Já em relação aos desafios organizacionais
as instituições podem acelerar esse processo no momento analisados, reforça-se a necessidade de maior
em que criar as condições de investimento com os profissionalização dos produtores no que tange não só à
incentivos corretos. É possível entender se a correlação produção do pescado, como também à gestão do negócio
entre competitividade de um APL, boa coordenação e (custos, vendas, finanças). Além disso, existe o desafio
instituições eficientes. O APL se fortalecerá, no momento cultural de desenvolvimento e crescimento do
em que potencializar seus recursos e competências, mas cooperativismo. Por fim, vale ratificar a necessidade da
conseguirá extrair benefícios se construir boa inserção em coordenação vertical na cadeia produtiva, por meio do
sistemas de comercialização que tragam recursos alinhamento com empresas processadoras, distribuidoras
financeiros para a região. Caso contrário ficará dependente e outros agentes envolvidos.
de mercados regionais de baixo volume de e, principalmente, É importante colocar que, apesar de comentários
baixas margens para os participantes. unânimes dos participantes das entrevistas e workshop com
relação à necessidade de maior profissionalização da
4 CONCLUSÕES produção, coordenação horizontal e vertical do SAG, a
Este artigo discutiu a situação da piscicultura do realidade diária dos produtores colocam esses aspectos como
Lago de Três Marias em termos de fatores de resultantes de um processo evolutivo. Agentes ainda são
competitividade, presentes em clusters ou APLs, ambiente carentes com relação a informações e preparação profissional,
institucional e coordenação em Sistemas Agroindustrias. bem como, os ganhos de melhor coordenação do SAG
Esses referenciais apresentaram-se úteis para que os deverão aparecer conforme as redes de relacionamentos com
desafios para o bom desenvolvimento do APL pudessem confiança e propósito comum são desenvolvidas. Todavia,
ser melhor compreendidos e analisados. agentes públicos e privados, conscientes desse processo,
Puderam ser constatadas inúmeras vantagens podem trabalhar nessa direção criando as condições para
naturais da região analisada, como a extensão do lago, a esses fatores possa ocorrer mais rapidamente.
qualidade sanitária e temperatura das águas, entre outras, Como limitações, muito embora este artigo tenha por
formando uma atividade econômica nascente. Porém, para base uma experiência rica em visitar e entrevistar os agentes
que a região, por meio dessa atividade, cresça e se do APL, seguindo um método de entrevistas em profundidade
desenvolva de forma competitiva, existe a necessidade de e workshop, esse possui as limitações referentes à própria
superação de alguns desafios encontrados, tanto intervenção do pesquisador na interpretação dos dados, bem
institucionais como organizacionais. Em relação aos como a dependência dos resultados de um grupo ainda
desafios institucionais discutidos, reforça-se a pequeno de pessoas entrevistadas e aquelas que participaram
necessidade de fomentar a independência dos empresários do workshop promovido.
do setor em relação ao poder público, de maneira que esses
consigam desenvolver suas atividades sem entraves. Além 5 REFERÊNCIAS
disso, a regulamentação do uso dos recursos hídricos em AZEVEDO, P. F. Integração vertical e barganha. 1996. 220
represas e lagos no Brasil é necessária e prioritária, para o f. Tese (Doutorado em Administração) - Universidade de
crescimento da piscicultura no país. Outro fator crucial é a São Paulo, São Paulo, 1996.
importância da fiscalização sobre o modo de produção,
abate e comercialização clandestino que acaba por reduzir ______. Nova economia institucional: referencial geral e
a atratividade do negócio para investidores na economia aplicações para a agricultura. Revista de Economia Agrícola,
formal. As instituições, da forma como estão colocadas São Paulo, v. 47, n. 1, p. 33-52, 2000. Disponível em: <http://
hoje na região, dão incentivos contrários ao investimento [Link]>. Acesso em: 20 out. 2010.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 389-402, 2011


Análise da competitividade do apl de piscicultura... 401

CASSIOLATO, J. E.; SZAPIRO, M. Pequena empresa: NORTH, D. C. Economic performance through time. The
cooperação e desenvolvimento local organizado. São Paulo: American Economic Review, Madison, v. 20, p. 359-368,
Relume Dumará, 2003. June 1994.

COASE, R. H. The institutional structure of production. ______. Institutions, institutional change and economic
American Economic Review, Madison, v. 82, p. 713-719, performance. Cambridge: Cambridge University, 1990.
Sept. 1991.
NUNES, T. T. Relatório sócio-econômico e cultural do
CROCCO, M. A. et al. Metodologia de identificação de projeto de delimitação de Parque Aquícola no Lago da Usina
aglomerações produtivas locais. Nova Economia, Belo Hidroelétrica de Três Marias, MG: convênio 8713
Horizonte, v. 16, n. 2, p. 211-241, maio/ago. 2006. FUNDEP-UFMG Parques Aquícolas SECTES-MG, 2007.
Três Marias: FUNDEP, 2007.
FARINA, E. M. M. Q. et al. Competitividade: mercado,
estado e organizações. São Paulo: Singular, 1997. 285 p. PIEDRAS, S. R. N.; BAGER, A. Caracterização da
aqüicultura desenvolvida na região sul do Rio Grande do
GOMES, C. S.; SUGANO, J. Y. A busca de vantagem Sul. Revista Brasileira de Agrociência, Pelotas, v. 13, n. 3,
competitiva à luz de algumas abordagens teóricas. Bauru: p. 403-407, jul./set. 2007.
SIMPEP, 2006.
PORTER, M. E. Arranjos produtivos locais e competição:
LASTRES, H. M. M.; CASSIOLATO, J. E. Políticas para novas agendas para empresas, governos e instituições.
promoção de arranjos produtivos e inovativos locais de In: ______. Competição. São Paulo: Ática, 2009.
micro e pequenas empresas: conceito, vantagens e
restrições, e equívocos usuais. Disponível em: <http:// SATOLANI, M. F. et al. Análise do ambiente institucional
[Link]/[Link]>. Acesso em: 12 out. e organizacional da piscicultura no Estado de Mato Grosso
2005. do Sul. Revista de Economia e Agronegócio, São Paulo, v.
6, n. 2, p. 22-28, 2008.
LIRA, F. J. Piscicultura no Baixo São Francisco (AL).
2004. Dissertação (Mestrado em Administração) - VASCONCELOS, M. C. R. L.; NASCIMENTO, R. M. E.
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Estratégia de relacionamento entre membros da cadeia
2004. produtiva no Brasil: reflexões sobre o tema. Gestão e
Produção, São Paulo, v. 12, n. 3, p. 393-404, set./dez.
MACHADO, R. T. M. Rastreabilidade, tecnologia da 2005.
informação e coordenação de sistemas agroindustriais.
2000. Tese (Doutorado em Administração) - Universidade WILLIAMSON, O. E. The economic institutions of
de São Paulo, São Paulo, 2000. capitalism: firms, markets, relational contracting. New York:
The Free, 1985. 449 p.
MALHOTRA, N. Pesquisa de marketing. Porto Alegre:
Bookman, 2001. 720 p. ______. Transaction cost economics and organization
theory. Berkeley: University of California, 1993. 58 p.
MARTINS, L. M. de. Os relacionamentos privilegiados
pela agroindústria láctea gaúcha no gerenciamento de ZYLBERSZTAJN, D. Estruturas de governança e
sua cadeia de suprimentos. Disponível em: <http:// coordenação do agribusiness: uma aplicação da nova
[Link]/bitstream/handle/10183/3026/ economia das instituições. 1995. 238 p. Tese (Livre-
[Link]?sequence=1>. Acesso em: 25 out. 2010. Docência em Administração) - Universidade de São Paulo,
São Paulo, 1995.
NOGUEIRA, C. Análise do discurso. In: ALMEIDA, L.;
FERNANDES, E. Métodos e técnicas de avaliação: novos ZYLBERSZTAJN, D.; NEVES, M. F. (Org.). Economia e
contributos para a prática e investigação. Braga: CEEP, gestão dos negócios agroalimentares. São Paulo: Pioneira,
2001. 2000. 361 p.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 389-402, 2011


402 CASTRO, L. T. e et al.

Anexo 1

QUADRO 4 – Questões utilizadas durante entrevistas.


Questão Referencial Abordado
Como as condições locais naturais e de insumos ajudam ou atrapalham a Aspectos dos insumos e fatores
atividade de piscicultura? (PORTER, 2009)
Como que a os produtores competem entre si? (para especialistas)
Rivalidade (PORTER, 2009)
Quem são seus maiores concorrentes na venda da tilápia?
Quais são as grandes oportunidades para a venda da tilápia? Quais os problemas Condições de Demanda
na comercialização? (PORTER, 2009)
O fato de existir um grupo de produtores concentrados aqui na região, tem
ajudado o seu desenvolvimento como produtor? (produtores)
APLs (CASSIOLATO;
Qual a importância do status de APL (e seus diferentes esforços vindos de
SZAPIRO, 2003)
diferentes entidades) para o desenvolvimento da atividade na região?
(especialistas)
Coordenação Horizontal
Qual tem sido a importância da cooperativa para os produtores? (ZYLBERSZTAJN; NEVES,
2000)
Coordenação Vertical
Como ocorre a venda para frigoríficos? O que é positivo ou negativo nessa
(ZYLBERSZTAJN; NEVES,
transação?
2000)
Coordenação Vertical
Como se dá a compra dos principais insumos como alevinos e ração? Alvo
(ZYLBERSZTAJN; NEVES,
vantajoso na transação com estas empresas de insumos ou desvantajoso?
2000)
Quais são suas preocupações com relação a leis, regulamentos e fiscalização? Instituições (NORTH, 1994)
Por que o formato de comercialização informal é a melhor alternativa? Instituições (NORTH, 1994)
Como a questão da regulamentação dos parques aquícolas pode impactar a
Instituições (NORTH, 1994)
produção (especialistas)?
Como que a ausência de regulamentação dos parques aquícolas afeta hoje a
Instituições (NORTH, 1994)
produção?
Modelos de Governança de
Existem contratos para venda de tilápias para frigoríficos? Por que sim ou por
transações (WILLIAMSON,
que não?
1985; ZYLBERSZTAJN, 1995)
Modelos de Governança de
Como é determinado o preço de venda para frigoríficos? É satisfatório? Quais as
transações (WILLIAMSON,
alternativas?
1985; ZYLBERSZTAJN, 1995)
Como a Codevasf ajuda o desenvolvimento da atividade? Porter (2009)
Como as informações a respeito da preferência de compra de consumidores de
Machado (2000)
peixe e frigoríficos são obtidas?
A marca referente à tilápia produzida no lago de Três Marias é ressaltada? Machado (2000)

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 389-402, 2011


O HEDGE SIMULTÂNEO DOS RISCOS
O hedge DE
simultâneo PREÇO
dos E DE CÂMBIO DA PRODUÇÃO
riscos de preço... 403
DE SOJA EM RONDONÓPOLIS (MT), UTILIZANDO
CONTRATOS DA BOVESPA-BM&F

The price and exchange rate risk simultaneous hedge of the Rondonópolis
(MT) soybean production using future contracts of Bovespa-BM&F

RESUMO
A decisão de hedge simultâneo dos produtores de soja de Mato Grosso com contratos futuros de preço e taxa de câmbio da
BOVESPA-BM&F foi analisada. Um modelo de hedge simultâneo do risco de preços e taxa de câmbio foi obtido e as eficiências de
diferentes estratégias de hedge foram calculadas. As principais conclusões foram que o hedge simultâneo de risco de preços e a taxa
de câmbio reduzem de forma acentuada o risco da receita total, comparativamente ao hedge de preços isolado. A mitigação do risco de
taxa de câmbio, em conjunto com o de preços é fundamental para uma gestão estratégica dos exportadores de commodities.

Waldemar Antônio da Rocha de Souza


Professor Adjunto da Universidade Federal do Amazonas
warsouza@[Link]

João Gomes Martines-Filho


Professor do Departamento de Economia, Administração e Sociologia - LES
Universidade de São Paulo - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz
martines@[Link]

Pedro Valentim Marques


Professor Titular do Departamento de Economia, Administração e Sociologia - LES
Universidade de São Paulo - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz
pvmarque@[Link]

Recebido em: 3/11/10. Aprovado em: 23/8/11


Avaliado pelo sistema blind review
Avaliador Científico: Ricardo Pereira Reis

ABSTRACT
The joint hedging decision of soybean producers of Mato Grosso state with price and exchange rate futures contracts of BOVESPA-
BM&F has been analyzed. A simultaneous price and exchange risk hedging model has been obtained and the efficiencies of different
hedging strategies have been calculated. The main findings were that the simultaneous hedging of price and exchange rate risk strongly
reduces revenue risk comparatively to hedging with price futures only. The exchange risk jointly with price risk offset is a key for a
strategic management of commodities exporters.
Palavras-chave: Hedge simultâneo,risco de preços e taxa de câmbio, soja, Mato Grosso.

Key-words: simultaneous hedge, price and exchange rate risk, soybeans, Mato Grosso.

JEL Classification: G13, Q13, Q14

1 INTRODUÇÃO de Chicago (EUA), onde os valores são explicitados em


dólar americano, conforme Associação dos Produtores de
A comercialização de uma safra de commodities
agrícolas deve ser avaliada em termos da alocação do Soja e Milho de Mato Grosso - APROSOJA (2009). Por seu
portfólio individual do produtor agrícola que objetiva turno, os contratos futuros de soja da BOVESPA-BM&F
maximizar a sua receita total, minimizando simultaneamente também são expressos em dólar americano. Assim, o
a variância associada. O portfólio ideal do produtor deve problema decisório enfrentado por um tomador de hedge
consistir de posições da commodity no mercado físico e em MT deve, necessariamente, incluir a flutuação das taxas
futuro, com percentuais em cada mercado sinalizados por cambiais, além do risco de preço, devido à exposição à taxa
uma taxa ótima de hedge, ou seja, o percentual da produção de câmbio e à elevada participação das exportações na
negociado no mercado futuro que minimiza a variância da receita total dos produtores.
receita total, dadas as condições de mercado. Dessa forma, uma estratégia eficiente de hedge para
No caso da soja de Mato Grosso, o processo de os produtores de soja de MT não pode ignorar as variações
formação de preços toma por referência principal a praça cambiais, as quais contribuem de forma decisiva para o

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 403-413, 2011


404 SOUZA, W. A. da R. et al.

risco total do portfólio individual do produtor. Logo, para especuladores mais tolerantes a risco. A abordagem teórica
uma decisão eficiente de hedge para a produção de soja mainstream considera a motivação econômica com base
em MT, deve-se avaliar o hedge simultâneo de preços e na lucratividade para modelar o comportamento do
taxa de câmbio. tomador de hedge, utilizando-se mercados futuros.
Neste artigo, analisa-se a decisão de se efetuar o O mercado futuro é um mercado derivativo,
hedge simultâneo dos riscos de preço e cambial da existente em conjunto com outros mercados. Segundo Hull
produção de soja em MT, utilizando contratos futuros da (2009), um derivativo é um instrumento financeiro cujo valor
BOVESPA-BM&F. A introdução da simultaneidade de depende, ou deriva, do valor de outras variáveis básicas
hedge de riscos de preço e cambial proporciona melhoria subjacentes, em geral os preços de ativos negociados em
no hedge agregado dos agentes, comparativamente à única mercado.
posição isolada de hedge do risco de preço, melhorando a Working (1953) elaborou a concepção do hedge
renda agregada dos participantes, particularmente os com fundamentação econômica, através da análise dos
dependentes de receita em moeda estrangeira, como os objetivos e consequências das práticas de operações de
produtores de soja de MT. Deriva-se um modelo para o hedge no mercado futuro de trigo dos EUA,
hedge simultâneo ótimo, considerando ambos os riscos particularizando a análise para os agentes que mantinham
de preços e cambial, através de contratos futuros de soja e altos estoques e para a operacionalização do hedge,
de taxa de câmbio na BOVESPA-BM&F. Objetiva-se, avaliando os seus impactos econômicos. Concluiu-se que
principalmente, a análise do grau de risco e a sua redução. as principais razões para efetur hedge eram: i. facilitar as
Objetiva-se responder, ainda, à seguinte questão decisões de compra e venda; ii. dar maior liberdade para as
de pesquisa (research question): em que grau o hedge atividades empresariais; iii. proporcionar uma base
simultâneo de risco de preços e cambial, usando contratos confiável para armazenagem de excessos de estoques de
futuros da BM&F, melhora o resultado final do hedge, em commodities; e, iv. reduzir os riscos empresariais.
termos de redução da variância da receita total, para Rolfo (1980) desenvolveu modelo de hedge ótimo
produtores de soja de MT, comparativamente ao hedge para exportadores de cacau sujeitos ao risco de preço e
único de risco de preços. produção, a partir de medidas de expectativas de incertezas
As seguintes perguntas de análise (survey sobre os riscos de preço e de produção. Concluiu que o
questions) serão exploradas: i. qual é a relação fundamental hedge ótimo utilizava poucos contratos futuros, com
entre as variáveis econômicas que propiciam a maior resultado superior ao hedge simples, em que toda a
eficiência do hedge simultâneo de preços e taxa de câmbio; produção é vendida no mercado futuro.
ii. qual é o grau de eficiência do hedge simultâneo de preços Chu e Morrison (1984) analisaram a depressão
e cambial em termos de redução da variância total do ocorrida nos mercados de commodities primárias em 1981-
portfólio individual do produtor de soja de MT; e, iii. quais 82, contextualizando historicamente, avaliando as causas
são as estratégias mais eficientes e os resultados dos movimentos e instabilidade dos preços de commodities
probabilísticos de hedge simultâneo de preços e taxa de primárias não petrolíferas, comparando as tendências de
câmbio, obtidos através de testes empíricos e de curto e longo prazo e os determinantes dos preços.
simulações de Monte Carlo. Concluíram que os preços das commodities primárias não
O artigo divide-se em revisão de literatura, petrolíferas sofreram mudanças significativas nos padrões
metodologia e dados, resultados e discussão, resumo e de comportamento nos anos 70. As principais variáveis
conclusões. Faz-se a modelagem do hedge simultâneo de impactantes foram o nível de atividade econômica, com
preços e cambial para commodities agrícolas exportáveis e forte influência, a inflação mundial, as taxas cambiais, dólar
a aplicação do arcabouço em estratégias de minimização americano versus demais moedas, os choques de oferta e
de riscos de preços e de câmbio para a soja de MT. Cabe as taxas de juros.
ressaltar que ambos os tópicos, da forma abordada, são Thompson e Bond (1985) analisaram os principais
inéditos na literatura, onde se insere a contribuição do fatores que justificavam a participação de traders
artigo. internacionais de commodities nos mercados futuros
americanos. Revisaram a evidência empírica indicativa da
2 REVISSÃO BIBLIOGRÁFICA
magnitude de influência dos fatores de gerenciamento de
O hedge pode ser caracterizado como o ato de risco de base e cambial nas decisões de hedge. Tomaram-
transferência de risco de agentes avessos para se por referência as operações de hedge de trigo australiano

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 403-413, 2011


O hedge simultâneo dos riscos de preço... 405

e de gado canadense nos EUA, concluindo que o hedge para os operadores brasileiros de soja em grão de diferentes
cambial tem impacto substancial na decisão de hedge de regiões, através do cálculo do quadrado da correlação entre
operadores estrangeiros. As operações de hedge podem os preços a vista e futuro.
ser limitadas a períodos de alta volatilidade de base e à Concluíram que as cotações dos contratos futuros,
existência de risco de base disseminado. com vencimento no segundo semestre, seriam mais
Em abordagem complementar, Thompson e Bond influenciadas pela safra norte-americana e as do primeiro
(1987) examinaram as implicações da variabilidade da taxa semestre, pelo volume de estoque do grão. Além disso, os
de câmbio sobre o hedge ótimo de commodities, através hedgers localizados mais próximos aos portos de embarque
da derivação da taxa ótima de hedge nos EUA, num de soja obteriam maior efetividade do hedge. Observaram
arcabouço teórico de média-variância, pela análise das que seria recomendável aos hedgers brasileiros utilizarem
decisões de hedge de traders estrangeiros para estabilizar contratos futuros, de julho ou agosto, em suas operações.
a receitas em moeda nacional, sujeitas à variação cambial, Maia e Aguiar (2010) analisaram, a partir do enfoque
através da metodologia VAR, comparando-se traders da base, os retornos e os riscos de estratégias de hedge
australianos e americanos em termos do número de com contratos futuros de soja em grão da CBOT, nas
contratos de risco de preço, com e sem hedge cambial. principais regiões produtoras do País. Formularam quadros
Concluiu-se que o risco cambial pode afetar as identificadores dos retornos médios e riscos esperados,
decisões de hedge das commodities quando os preços e dependendo do período operacional do hedge, do
câmbio são relacionados no tempo, existindo potencial de vencimento do contrato futuro escolhido e da duração da
hedge de risco de preço e cambial nos mercados futuros e operação.
a termo. Sem o hedge cambial, o número de contratos Concluíram que, apesar de variações numéricas
futuros do tomador de hedge para trigo australiano seria o entre regiões e vencimentos dos contratos futuros, a
dobro do tomador americano, e com o hedge cambial o base entre os preços à vista no Brasil e as cotações a
número de contratos é aproximadamente o mesmo. futuro da CBOT apresentam um padrão definido, com
Novak e Unterschultz (1996) apresentaram fortalecimento entre maio e novembro, seguido por
metodologia simplificada para mensurar a redução de risco enfraquecimento nos seis meses subsequentes. Tal fato
de preço total de curto prazo usando contratos futuros de sugeriu que, em média, operações de hedge de venda
commodities no exterior. O risco de preço de curto prazo só devessem ser assumidas entre os meses de maio e
foi decomposto em riscos de preço futuro, de base e novembro. As operações de hedge de compra só
cambial, através de previsões “perfeitas” usando testes deveriam ocorrer nos demais meses.
empíricos de medida de risco com base no erro quadrático A principal referência metodológica deste artigo
médio (EQM), aplicado a um pecuarista canadense que é Nayak e Turvey (2000), os quais desenvolveram
opere contratos futuros nos EUA para hedge. Concluíram modelagem teórica para a obtenção da taxa ótima de
que, para o pecuarista canadense, o risco cambial era baixo, hedge simultâneo de riscos de preço, produtividade e
não sendo afetado significativamente pelo hedge da taxa cambial, com dados de produtores de milho canadenses,
de câmbio, e que o hedge de preço neutraliza operando contratos futuros nos EUA. A efetividade do
aproximadamente 60% do risco e 39% do risco de base. hedge simultâneo foi simulada e avaliada através de um
Fernandez (2006) avaliou os benefícios potenciais modelo teórico com aplicação quantitativa a partir de
de estratégias de minimização de risco cambial e de inflação dados primários e simulações de Monte Carlo, em vários
nos mercados futuros chilenos, através do hedge cenários alternativos. Concluíram que um tomador
simultâneo de risco de preços e cambial. Simulando estrangeiro que faça hedge simultâneo de preço,
diferentes cenários de risco cambial, este obteve que a produtividade e cambial obterá significativas reduções
maior parte do risco cambial poderia ser reduzida através de risco, do que simplesmente fazendo hedge de risco
de estratégias de rolagem contínua com contratos futuros de preço.
de câmbio de peso chileno e dólar americano. A contribuição diferenciada do presente artigo é a
A literatura acadêmica sobre a utilização dos modelagem do hedge simultâneo de preços e cambial para
mercados futuros de soja baseia-se na avaliação da commodities agrícolas, analisando a sua efetividade
efetividade do hedge de risco de preço. Nesse sentido, empiricamente no mercado de soja de Mato Grosso e
Martins e Aguiar (2004) avaliaram a efetividade do hedge através de simulações de Monte Carlo, destacando-se o
dos contratos futuros da CBOT em diferentes vencimentos ineditismo da abordagem.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 403-413, 2011


406 SOUZA, W. A. da R. et al.

3 REFERENCIAL METODOLÓGICO E DADOS f2 = o preço futuro commodity no final do período;


O produtor de soja de Mato Grosso que opere na c = a posição no mercado futuro de taxa de câmbio;
BOVESPA-BM&F como tomador de hedge de preços no E1 = a taxa de câmbio no início da posição no
mercado futuro de soja deve, adicionalmente, projetar a mercado futuro de câmbio;
expectativa de variação cambial futura, para avaliar o hedge e2 = a taxa de câmbio no final da posição no mercado
em contratos futuros de taxa de câmbio. Na BOVESPA- futuro de câmbio;
BM&F são negociados contratos futuros de dólar er = a taxa de câmbio no mercado a vista no final do
americano, o qual é a principal moeda referência de valor período.
para o mercado de soja de MT. O fluxo de receita total do produtor agrícola no final
do período, baseado na decisão de fazer hedge do risco de
3.1. O modelo renda operando contratos futuros de preço e taxa de
Com base em Nayak e Turvey (2000), desenvolve- câmbio, expresso em moeda local, será dado por :
se modelagem teórica de hedge simultâneo de preços e
cambial para commodities agrícolas cujos mercados sejam HR = R + h(F1 – f2)er + c(E1 – e2) (1)
afetados pelo risco de câmbio, além do risco de preços. O Onde:
modelo será testado empiricamente com dados de preços HR = receita incluindo posição de hedge;
nos mercados à vista em MT e futuros de preços de soja e R = A x p = a receita a vista no final do período.
dólar americano na BOVESPA-BM&F, além de simulações Ambas as variáveis R e HR têm natureza estocástica
probabilísticas das trajetórias das estratégias de hedge,
no início do período quando a decisão de hedge é feita.
através do método de Monte Carlo.
Definindo-se:
Por hipótese, o produtor agrícola individual detém
um conjunto fixo de oportunidades de produção, tal que a f = F1 – f 2
decisão de plantio é feita exogenamente e não é afetada
pelos preços futuros, isolando-se o problema de decisão e = E1 – e2
de hedge de preços e cambial. Considera-se apenas o
processo de decisão de um período, com a decisão de A equação (1) pode ser reescrita como:
hedge sendo feita no início do período e a posição em (2)
contratos futuros fechada no final. O mercado é líquido e HR = R + hfer + ce
transparente e os contratos são divisíveis em qualquer A variância da receita com posição de hedge pode
tamanho. ser escrita como:
De maneira análoga à Nayak e Turvey (2000),
desconsideraram-se os custos de transação no estudo. 2HR = 2R + h2 fer + c22e + 2hR,fer + 2cR,e + 2hcfer,e
Entretanto, segundo Campbell, Lo e MacKinlay (1997), a
existência de diversos custos operacionais, tais como (3)
Onde:
spread de compra e venda, custo de execução de ordens,
taxas e outros, caracterizam-se como fricções de mercado, 2R = Var (R);
limitando a capacidade de exploração dos padrões
financeiros identificados empiricamente. Tal fato implica  fer = Var (fer);
na interpretação dos resultados analíticos com certa
cautela. 2 e = Var (e);
A seguir, explicitam-se as variáveis do modelo, com
minúsculas indicando as variáveis aleatórias, as maiúsculas R,fer = Cov (R, fer);
as variáveis determinísticas, adotando-se a seguinte
R,e = Cov (R, e);
notação:
A = o volume de produção plantado de determinado fer,e = Cov (fer, e).
produto;
p = o preço à vista local no final do período; As variâncias e covariâncias dos termos compostos
h = a posição no mercado futuro da commodity; são calculadas a partir das médias, variâncias e
F1 = o preço futuro da commodity no início do período; covariâncias das variáveis originais.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 403-413, 2011


O hedge simultâneo dos riscos de preço... 407

A decisão de hedge é feita através da minimização termo decorre da presença de risco cambial no uso de
da variância da receita com posição de hedge na equação contratos futuros, considerando a covariância entre os
(3) com relação a h e c, as posições nos mercados futuros preços locais do mercado a vista e a taxa de câmbio, e
de preços e taxa de câmbio, respectivamente. As posições também dos preços futuros e da taxa de câmbio futura.
de venda ou compra nos mercados futuros derivam dos A decisão de minimizar hedge de um produtor
sinais de h e c. Se h é positivo, o tomador de hedge está agrícola na presença de risco cambial sinaliza que as
vendido em contratos de preços. Se c é negativo, a posição variâncias e covariâncias avaliadas entre a receita no
é comprada em contratos de taxa de câmbio. mercado à vista e os preços futuros em moeda nacional
As condições de primeira ordem são dadas por: não são iguais às variâncias e covariâncias expressas em
moeda estrangeira.
 2 HR Para exemplificar, tem-se sR,fer, a covariância entre a
= 2h2fer + 2cfer,e + 2R,fer = 0 (4.1) receita e os preços futuros em moeda nacional, onde a R é
h
a receita à vista no final do período, f indica o diferencial
entre a taxa de câmbio atual e futura, expresso em moeda
 2 HR nacional, e er define a taxa de câmbio no mercado à vista no
= 2c2e + 2hfer,e + 2R,e = 0 (4.2)
c final do período.
3.2. Valores do hedge e da redução de risco
Rearranjando as eqs. (4.1) e (4.2), tem-se que :
Os hedges de risco mínimo são derivados a partir
h2fer + cfer,e = - R,fer (5.1) das avaliações das covariâncias entre preço e taxa de
câmbio à vista, bem como do preço e taxa de câmbio futuros.
hfer,e + c2e = - R,e (5.2) Diversas combinações de
instrumentos de hedge são avaliadas para
A estratégia de hedge da firma é determinada administração do risco da receita (variância), usando
resolvendo-se o sistema de equações acima para h e c. As mercados futuros, conforme explicitado no Quadro 1:
posições de hedge de risco mínimo em contratos futuros
de preços e taxa de câmbio são dadas por: Objetivos Ajustes nas Equações de Hedge
Hedge de preço e cambial Eqs. 6.1 e 6.2 inalteradas
1   R , fer  R ,e fer ,e  Hedge de preço R,e = 0 e fer,e = 0 na equação (6.1)
RM
hpe    2 2  (6.1) Hedge cambial R,fer = 0 e fer,e = 0 na equação (6.2)
1   2fer ,e   2fer  fer  e 
QUADRO 1 – Níveis de hedge possíveis pela combinação
de derivativos.
Fonte: Adaptado de Nayak e Turvey (2000).
1   R ,e  R , fer  fer ,e 
c RM
    (6.2)
1   2fer ,e   e2  2fer  e2 
pe
Percebe-se que uma desvalorização cambial da moeda
nacional eleva os preços das commodities expressos em
Onde: moeda nacional, o que implica que as relações de covariância
 2fer ,e dever ser consideradas nas decisões de hedge. Porém, não
2
 fer ,e  2 2 = o quadrado do coeficiente de se avaliam os efeitos da covariância entre os preços e a taxa
 fer  e correlação entre os preços futuros, de câmbio sobre a magnitude da taxa de hedge.
expressos em moeda local, e
3.3. O uso dos contratos futuros de preços e cambial
preços dos contratos futuros de
taxa de câmbio. A avaliação do hedge é feita de forma indireta pela
obtenção de medidas de sua efetividade (hedge
O primeiro termo entre parênteses do hedge de effectiveness). No caso do hedge de variância mínima, a
preços, na equação (6.1), indica a posição dos contratos efetividade é medida pela redução na variância da receita.
futuros necessária para minimizar a variabilidade da receita Os hedges de variância mínima de preços e taxa de câmbio
associada às flutuações em moeda nacional. O segundo foram obtidos pelas equações (6.1) e (6.2).

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 403-413, 2011


408 SOUZA, W. A. da R. et al.

A redução absoluta de risco (variância) é dada pela Serão avaliadas as posições de hedge de preços
diferença entre a variância da receita sem hedge e com isolado, cambial isolado e de preços e cambial simultâneo,
hedge ao se utilizarem ambos os contratos futuros: através da análise da redução de risco (variância), com o
(8) uso de contratos futuros. Os preços são considerados
RM 2 2 RM 2 2
 (h pe )  fer  (c pe )  e   estocásticos e o hedge da receita resultante é feito usando-
 RM 2
 R2   HR pe
 
  RM RM RM RM
 se a combinação acima, através da matriz de variância-
2h pe  R , fer  2c pe  R ,e  2h pe c pe  fer ,e 
covariância entre a receita total, o hedge de preços, o hedge
Onde as variáveis foram definidas anteriormente. cambial e o hedge simultâneo de preços e cambial.
Com o uso apenas de contratos de preço, a redução 3.4. Estratégias de hedge e resultados probabilísticos
de risco (variância) será dada por:
Para se obter inferências adicionais sobre as
diversas estratégias de hedge, serão feitas simulações de
2
 
R  RM 2
HR p  
h  1
2 2
fer  2 h1  R , fer  (9)
Monte Carlo com as taxas de hedge explicitadas, usando-
se a matriz de variância-covariância das taxas de hedge.
Onde: Por hipótese, a matriz de covariâncias é normal multivariada
conjunta (joint multivariate normal) e os custos de
 R ,fe r transação são nulos. Os detalhes e deduções matemáticas
h1  
 fe2 r estão disponíveis por solicitação aos autores.

A equação (9) representa a redução da variância 3.5. Dados utilizados


RM 2
dada pelo hedge isolado de preços,  R2   HR p
. O valor   Foram utilizados quatro conjuntos de dados:
de h indica o percentual da produção total que deve ser 1. os preços à vista em Rondonópolis (MT), fonte
1
negociado no mercado futuro de soja, com contratos da ESALQ/CEPEA, dados diários, em R$/saca de 60 kgs.;
BOVESPA-BM&F. 2. os preços dos contratos futuros de soja da
Com o uso apenas de contratos de taxas de câmbio, BOVESPA-BM&F, dados diários, em US$/saca de 60 kgs.;
a redução de risco (variância) será dada por: 3. os preços dos contratos futuros de dólar
americano da BOVESPA-BM&F, dados diários, em R$/US$;
 R2   HR
RM
e

   c12 e2  2c1  R,e
2
 (10) 4. a taxa de câmbio à vista, cotação de venda PTAX-
800, do Banco Central do Brasil, em R$/US$.
Carchano e Pardo (2009) indicaram que, dentre as cinco
 R ,e diferentes metodologias usadas para construir séries
c1  
 e2 contínuas de índices de contratos futuros, com objetivos
acadêmicos e operacionais, não existem diferenças
A equação (10) representa a redução da variância significativas entre as séries resultantes, concluindo que pode
RM 2
dada pelo hedge isolado de câmbio,  R2   HR e
. O valor   ser utilizado o método com o menor grau de complexidade.
de c1 indica o número de contratos que deve ser negociado Dessa forma, para obtenção da série de preços
no mercado futuro de câmbio na BOVESPA-BM&F. contínua para os contratos futuros de soja da BOVESPA-
A magnitude da redução de risco depende da BM&F, são considerados o mês de vencimento e o último
correlação e covariância entre os resultados aleatórios. O dia de negociação do contrato para a construção de
modelo teórico será usado para calcular os níveis de hedge intervalos de tempo sucessivos, sem interseção entre si. A
de risco mínimo e de redução de risco. data de rolagem, i. e., o ponto no tempo em que a série de
Dentre as hipóteses do modelo teórico de hedge um contrato é trocada pela de outro, é o dia útil anterior ao
simultâneo encontra-se a hipótese básica de não-viés dos vencimento do contrato.
preços futuros, ou seja, F1 = E(f2) e E1 = E(e2), para os Para todas as séries de dados acima, calculam-se
preços e taxa de câmbio, respectivamente. O ganho as médias mensais entre Março de 2004 e Maio de 2009. Os
esperado de se operar nos mercados futuros é nulo, por dados dos preços à vista em Rondonópolis (MT), foram
hipótese. Como resultado, a receita esperada é usados em R$ e US$/saca de 60kgs, conversão pela taxa
independente dos níveis de hedge e o objetivo do agente de câmbio à vista, cotação de venda PTAX-800, do Banco
é minimizar o risco, mensurado pela variância. Central do Brasil, em R$/US$.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 403-413, 2011


O hedge simultâneo dos riscos de preço... 409

Conforme Nayak e Turvey (2000), usa-se a hipótese Na Tabela 3, explicitam-se as estatísticas descritivas
fundamental de não viés nos preços futuros, ou seja, F1 = dos dados mensais:
E(f2), e no câmbio futuro, E1 = E(e2). O lucro esperado por Observa-se que, o alto coeficiente de variação do
operar em ambos os mercados futuros é, por hipótese, preço à vista da soja em MT em US$ (0.35) pode indicar forte
nulo. A receita esperada independe dos níveis de hedge e variância da receita total em dólares americanos, sinalizando
o objetivo do agente é minimizar o risco, medido pela a necessidade de uso de mecanismos de mitigação de risco
variância. dos preços cotados em moeda estrangeira.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.2 Matriz de variância e covariância utilizada no cálculo


dos níveis de hedge e redução de risco
Apresentam-se os principais resultados, utilizando-
se o arcabouço metodológico descrito na seção anterior. Tem-se que, seguindo Nayak e Turvey (2002):

4.1 Estatísticas dos dados utilizados nas análises fer = (F1 - f2)er
empíricas
Onde:
No Gráfico 1 explicitam-se, para fins comparativos, F1 = preço do contrato futuro de soja na BM&F-BOVESPA,
as médias mensais dos preços da soja à vista em média mensal do mês t, em US$,
Rondonópolis (MT), em reais e dólares americanos, bem f2 = média dos preços futuros do período Abril de 2004 a
como os preços futuros da BOVESPA-BM&F, em dólares Maio de 2009 (US$ 18.38),
americanos, por saca de 60 kgs: er = média das taxas de câmbio a vista do período Abril de
2004 a Maio de 2009 (R$ 24).
E: e = E1 – e2
Onde:
E1 = taxa de câmbio futuro na BM&F-BOVESPA, média
mensal do mês t, em R$,
e2 = média das taxas de câmbio à vista do período Abril de
2004 a Maio de 2009 (R$ 24).
A partir das relações indicadas obtém-se a matriz
de variância e covariância e os coeficientes de correlação
entre as variáveis explicitadas, usados no cálculo das razões
de hedge simultâneo, ótimas conforme as Tabelas 4 e 5:
GRÁFICO 1 – Soja: preços à vista em Rondonópolis (MT),
em R$ e US$, e preços futuros (BOVESPA-BM&F), em 4.3 Níveis de hedge de variância mínima e reduções de
US$. Médias mensais – Março de 2004 a Maio de 2009Fonte: risco (variância)
Dados da pesquisa. Avaliam-se diversas combinações de instrumentos
de hedge disponíveis na BOVESPA-BM&F, para reduzir o
Na Tabela 1, apresenta-se a matriz de variância e risco da receita total (variância) do produtor de soja de
covariância entre as séries de preços, utilizadas na obtenção MT. Indicam-se os níveis de hedge em R$/saca de 60 kgs.
Na Tabela 6, comparam-se as diversas estratégias de hedge
das razões ótimas de hedge simultâneo, conforme as
e a reduções da variância da receita total do produtor de
variáveis descritas na seção de Metodologia: soja de MT, obtidas através das Equações (8), (9) e (10):
Na Tabela 2, encontram-se os coeficientes de A eficiência do hedge é medida pela redução da
correlação dos dados mensais: variância da receita, considerando-se estocásticos os
Observa-se a baixa e negativa correlação (-0.08) preços e taxas de câmbio à vista e futuros. Comparando-se
entre a taxa de câmbio futuro e os preços à vista em R$ em diferentes mix de instrumentos de hedge conforme a Tabela
Rondonópolis (MT). Também destacam-se as altas e 6, observa-se que a estratégia de hedge com maior impacto
negativas correlações (0.66) entre as taxas de câmbio sobre a variância é a de hedge simultâneo de risco de preços
à vista e futura e os contratos futuros de soja da BOVESPA- e de câmbio, com o uso simultâneo de contratos de câmbio
BM&F. Tais ocorrências podem ajudar a explicar o grau de e futuros de soja da BOVESPA-BM&F. O resultado está
efetividade do hedge simultâneo. em linha com o encontrado por Nayak e Turvey (2000).

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 403-413, 2011


410 SOUZA, W. A. da R. et al.

TABELA 1 – Matriz de variância e covariância dos dados mensais. médias mensais – Março/04 a Maio/09.
MATRIZ DE VARIÂNCIA-COVARIÂNCIA
US$ FUTS US$ SPOT Rondo cash US$ Rondo cash R$ BMF futs US$
US$ FUTS 0.16 0.16 -1.31 -0.25 -1.56
US$ SPOT 0.16 0.16 -1.29 -0.25 -1.54
Rondo cash US$ -1.31 -1.29 27.78 34.01 30.41
Rondo cash R$ -0.25 -0.25 34.01 64.58 36.44
BMF futs US$ -1.56 -1.54 30.41 36.44 35.19
Fonte: Dados da pesquisa. Obs.: US$ FUTS: taxa do dólar americano futuro na BOVESPA-BM&F, em R$/US$; US$ SPOT: taxa
de venda do dólar americano à vista, PTAX-800, do BACEN; Rondo cash US$: preço à vista da saca de 60 kgs de soja em
Rondonópolis (MT), em US$/sc; Rondo cash R$: preço a vista da saca de 60 kgs de soja em Rondonópolis (MT), em R$/sc; BMF
futs US$: preço do contrato futuro de soja na BOVESPA-BM&F, em US$/sc de 60 kgs.

TABELA 2 – Coeficientes de correlação dos dados das médias mensais – Março/04 a Maio/09.
COEFICIENTES DE CORRELAÇÃO
US$ FUTS US$ SPOT Rondo cash US$ Rondo cash R$ BMF futs US$
US$ FUTS 1.00 1.00 -0.62 -0.08 -0.66
US$ SPOT 1.00 1.00 -0.62 -0.08 -0.66
Rondo cash US$ -0.62 -0.62 1.00 0.82 0.99
Rondo cash R$ -0.08 -0.08 0.82 1.00 0.78
Fonte: Dados da pesquisa. Obs.: US$ FUTS: taxa do dólar americano futuro na BOVESPA-BM&F, em R$/US$; US$ SPOT: taxa
de venda do dólar americano à vista, PTAX-800, do BACEN; Rondo cash US$: preço a vista da saca de 60 kgs de soja em
Rondonópolis (MT), em US$/sc; Rondo cash R$: preço a vista da saca de 60 kgs de soja em Rondonópolis (MT), em R$/sc; BMF
futs US$: preço do contrato futuro de soja na BOVESPA-BM&F, em US$/sc de 60 kgs.

TABELA 3 – Estatísticas descritivas dos dados mensais. Médias mensais – Março/04 a Maio/09.
ESTATÍSTICAS DESCRITIVAS
US$ FUTS US$ SPOT Rondo cash US$ Rondo cash R$ BMF futs US$
MÉDIA 25 24 14.95 323 18.38
DESV PAD 0.40 0.40 5.27 8.04 5.93
COEF VAR 0.18 0.18 0.35 0.25 0.33
Fonte: Dados da pesquisa. Obs.: US$ FUTS: taxa do dólar americano futuro na BOVESPA-BM&F, em R$/US$; US$ SPOT: taxa
de venda do dólar americano à vista, PTAX-800, do BACEN; Rondo cash US$: preço a vista da saca de 60 kgs de soja em
Rondonópolis (MT), em US$/sc; Rondo cash R$: preço à vista da saca de 60 kgs de soja em Rondonópolis (MT), em R$/sc; BMF
futs US$: preço do contrato futuro de soja na BOVESPA-BM&F, em US$/sc de 60 kgs.

TABELA 4 – Matriz de variância e covariância.


Receita Total fer e
Receita Total 641 81.90 -0.53
fer 81.90 174.75 -49
e -0.53 -49 0.17
Fonte: Dados da pesquisa.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 403-413, 2011


O hedge simultâneo dos riscos de preço... 411

4.4. Estratégias de Hedge e Simulações Probabilísticas hedge simultâneo de preços e câmbio. O resultado confirma
de Monte Carlo os ganhos de eficiência econômica pela utilização do hedge
simultâneo, permitindo atingir-se maior mitigação de risco
Segundo Boyle, Broadie e Glasserman (1997), as
da receita dos produtores de soja de MT.
simulações de Monte Carlo são úteis em várias modelagens
Entretanto, como é usual em estratégias de hedge
financeiras, tais como a valoração e estimação de sensibilidade
usando contratos futuros, uma forte redução no risco de
de títulos, análise de risco e testes de stress de portfólios. baixa, inferior ao valor esperado, corresponde a uma alta
Campbell, Lo e MacKinlay (1997) observaram que, redução no risco de elevação, acima do valor esperado.
estimadores discretos gerados por simulações de Monte Com efeito, os resultados da simulação indicam que
Carlo, aproximavam-se assintoticamente de estimadores o intervalo de variação da estratégia de hedge simultâneo
contínuos, necessitando-se apenas calibrar o número de situa-se entre R$ 21.04/saca de 60 kgs e R$ 48.40/saca de
observações e repetições. 60 kgs. Comparativamente, o intervalo da estratégia sem
Conforme Nayak e Turvey (2000) fizeram-se hedge situa-se entre R$10.88/saca de 60 kgs e R$ 59.30/
simulações de Monte Carlo para obter maiores inferências saca de 60 kgs.
sobre as diversas estratégias estocásticas de hedge, gerando- Na Tabela 8, explicitam-se os decis das simulações
se 1.000 (mil) iterações e considerando a matriz de variância- de Monte Carlo das estratégias alternativas de hedge:
covariância entre R, fer e e como sendo normal multivariada Pelos resultados da Tabela 8, confirma-se que a
conjunta. Os resultados da simulação estão na Tabela 7: estratégia de hedge simultâneo domina as demais, devido
Observam-se na Tabela 7, as fortes reduções das ao menor valor da variância da receita total. Porém, ressalta-
oscilações da receita total com a estratégia de hedge se que os resultados devem ser interpretados com cautela,
simultâneo, indicadas pelos baixos valores do coeficiente pois a hipótese de inexistência de custos de transação poderia
de variação e da variância, indicando a maior eficiência do alterar o resultado final da estratégia de hedge simultâneo.

TABELA 5 – Coeficientes de correlação.


fer e
Receita Total 0.79 -0.16
fer 1.00 -0.66
Fonte: Dados da pesquisa.

TABELA 6 – Redução da Variância da Receita Total em Valor Absoluto (R$/saca de 60 kgs) e Percentual.
Estratégia Hedge Vlr. Absoluto %
Preços apenas 38.38 60.5%
Câmbio apenas 1.67 6%
Preços e Câmbio 51.16 80.7%
Fonte: Dados da pesquisa.

TABELA 7 – Simulação de Monte Carlo das estratégias de hedge.


Estratégias de Hedge
SEM HEDGE PREÇOS CÂMBIO SIMULTÂNEO
MÍNIMO 10.88 14.30 8.95 21.04
MAXIMO 59.30 49.23 60.50 48.40
MÉDIA 35.30 33.30 31.67 32.90
DESV PAD 7.74 4.88 7.90 2.00
COEF VAR 0.24 0.15 0.25 0.09
VARIÂNCIA 59.84 28.40 64.20 9.15
Fonte: Dados da pesquisa.
Obs.: Valores expressos em R$/sc de 60 kgs.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 403-413, 2011


412 SOUZA, W. A. da R. et al.

TABELA 8 – Decis das estratégias de hedge.


Estratégias de Hedge
DECIL SEM HEDGE PREÇOS CÂMBIO SIMULTÂNEO
10% 21.71 25.90 21.33 28.36
20% 25.28 28.35 25.10 29.65
30% 27.53 30.00 27.79 30.71
40% 29.61 31.19 30.13 31.63
50% 31.50 35.00 32.00 33.80
60% 38.20 34.70 34.22 30.50
70% 36.23 34.62 36.26 38.30
80% 38.47 35.91 38.54 34.88
90% 46.20 38.22 40.90 36.17
100% 61.06 47.49 56.86 45.00
Fonte: Dados da pesquisa.
Obs.: Valores expressos em R$/sc de 60 kgs.

5 RESUMO E CONCLUSÕES produtores de soja de Rondonópolis (MT) observa-se a


forte redução na variância da receita total com a adoção da
Objetivou-se comparar os resultados finais das
diferentes estratégias de hedge para os produtores de soja estratégia do hedge simultâneo, o que melhora a eficiência
de MT, particularmente do município de Rondonópolis das decisões alocativas, de produção e comercialização,
(MT), com contratos futuros da BOVESPA-BM&F, em ao permitir maior transferência de risco.
termos de redução da variância da receita total: i. o hedge Entretanto, para avaliar abordagens com objetivos
isolado dos preços; ii. o hedge isolado da taxa de câmbio; operacionais o comportamento de mercado dos produtores
e, iii. o hedge simultâneo dos preços e da taxa de câmbio. de soja de MT sugere-se a inclusão em futuras pesquisas
A relação fundamental entre as variáveis dos custos do hedge e a comparação da efetividade do
econômicas que propiciam a maior eficiência do hedge hedge em diferentes praças de mercados futuros, p. ex.
simultâneo de preços e taxa de câmbio foi obtida. A Chicago (EUA) e Tóquio (Japão). Também, as estratégias
modelagem do hedge simultâneo de preços e câmbio, de hedge analisadas possuem características estáticas, o
deduzida no estudo, pode ser aplicável às demais que pode ser refinado a partir de análise em um contexto
commodities agropecuárias em mercados geograficamente dinâmico e simultâneo, como o modelo GARCH-BEKK.
distintos.
O grau de eficiência da estratégia de hedge 6 REFERÊNCIAS
simultâneo de preços e taxa de câmbio também foi calculado, ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES DE SOJA E
em termos de redução da variância da receita total dos MILHO DE MATO GROSSO. [mensagem pessoal].
produtores de soja de MT, através de testes empíricos e Mensagem recebida por <warsouza@[Link]> em
de simulações de Monte Carlo. Confirmou-se que a 1 jul. 2009.
estratégia de hedge simultâneo de preços e taxa de câmbio
é a mais eficiente em termos de redução de variância da BOYLE, P.; BROADIE, M.; GLASSERMAN, P. Monte Carlo
receita total, resultado em linha com pesquisas similares já methods for security pricing. Journal of Economic
realizadas em outros países. Dynamics and Control, Amsterdam, v. 21, n. 8/9, p. 1267-
Conclui-se que os exportadores de commodities 1321, 1997.
agrícolas sujeitos à exposição de risco de taxa de câmbio
devem necessariamente considerar o hedge simultâneo CAMPBELL, J. Y.; LO, A. W.; MACKINLAY, A. C. The
como forma de melhorar a gestão estratégica de sua econometrics of financial markets. Princeton: Princeton
alocação produtiva total. No caso específico dos University, 1997.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 403-413, 2011


O hedge simultâneo dos riscos de preço... 413

CARCHANO, O.; PARDO, A. Rolling over stock index NAYAK, G. N.; TURVEY, C. G. The simultaneous hedging
futures contracts. Journal of Futures Markets, of price risk, crop yield risk and currency risk. Canadian
Charlottesville, v. 29, n. 7, p. 684-694, 2009. Journal of Agricultural Economics, Ottawa, v. 48, n. 2, p.
123-140, 2000.
CHU, K. E.; MORRISON, T. K. The 1981-82 recession and
nonoil primary commodity prices. IMF Staff Paper, NOVAK, F. S.; UNTERSCHULTZ, J. R. Simple risk measures
Washington, v. 31, p. 93-140, 1984. when hedging commodities using foreign markets: a note.
Journal of Futures Markets, Charlottesville, v. 16, n. 2, p.
FERNANDEZ, V. Emerging derivatives markets: the case 211-217, 1966.
of Chile. Emerging Markets Finance and Trade,
Edwardsville, v. 42, n. 2, p. 63-92, 2006. ROLFO, J. Optimal hedging under price and quantity
uncertainty: the case of a cocoa producer. The Journal of
HULL, J. Options, futures, and other derivatives. 7th ed. Political Economy, Chicago, v. 88, n. 1, p. 100-116, 1980.
Upper Saddle River: Pearson Education, 2009.
THOMPSON, S. R.; BOND, G. E. Basis and exchange rate
MAIA, F. N. C. S.; AGUIAR, D. R. D. Estratégias de hedge risk in offshore futures trading. American Journal of
com os contratos futuros de soja da Chicago Board of Agricultural Economics, Milwaukee, v. 67, n. 5, p. 980–
Trade. Gestão e Produção, São Carlos, v. 17, n. 3, p. 617- 985, 1985.
626, 2010.
______. Offshore commodity hedging under floating
MARTINS, A. G.; AGUIAR, D. R. D. Efetividade do Hedge exchange rates. American Journal of Agricultural
de Soja em grão brasileira com contratos futuros de Economics, Milwaukee, v. 69, n. 1, p. 46–55, 1987.
diferentes vencimentos na Chicago Board of Trade.
Revista de Economia e Agronegócio, Viçosa, v. 2, n. 4, p. WORKING, H. Hedging reconsidered. Journal of Farm
449-472, 2004. Economics, Menasha, v. 35, n. 4, p. 544-561, 1953.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 403-413, 2011


414 CRIAÇÃO E USO DO CONHECIMENTO
BINOTTO, E. et al. NAS COMUNIDADES DE
PRÁTICA: O CONTEXTO DE UMA COOPERATIVA AGRÍCOLA

Production and Use of Knowledge in Communities of


Practice: the Context of an Agricultural Cooperative

RESUMO
Objetivou-se, neste artigo, demonstrar os aspectos presentes na criação de conhecimento em propriedades rurais vinculadas a uma
cooperativa agrícola. A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo descritivo de caráter qualitativo. É realizado um estudo de
caso, utilizando-se de documentação e observação in loco, questionário, entrevista e focus group. Os dados obtidos possibilitaram o
desenvolvimento de uma figura representativa dos aspectos envolvidos na criação de conhecimento. Os resultados demonstraram que,
para a ocorrência da criação de conhecimento, é necessária a existência de grupos de relacionamento e de certa liderança em nível de
propriedade, de comunidades de prática (CoPs) ou da cooperativa. A forma de conduzir os negócios pode afetar o modo como se dá
a criação de conhecimento. Por exemplo, numa propriedade em que as pessoas buscam socializar, questionar e inovar constantemente
evidencia-se haver maior espaço para transformar conhecimento tácito em explícito. O aspecto cultural e o estilo das relações, bem
como a forma de conduzir os negócios podem afetar o modo como se dá a criação de conhecimento. Há um grande percurso entre o
produtor rural ter conhecimento e a capacidade de torná-lo atitude que traga bons resultados nos negócios.

Erlaine Binotto
Professora do Programa de Pós-Graduação em Agronegócios, Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Economia da Universidade
Federal da Grande Dourados
e-binotto@[Link]

Elisabete Stradiotto Siqueira


Universidade Federal Rural do Semi Árido
betebop@[Link]

Flávio José Simioni


Centro de Educação Superior do Oeste – da Universidade do Estado de Santa Catarina
fjsimioni@[Link]

Recebido em: 23/7/07. Aprovado em: 14/7/11


Avaliado pelo sistema blind review
Avaliador Cientifico: Ana Alice Vila Boas

ABSTRACT
This paper aims to demonstrate aspects present in the production of knowledge on farms linked to agricultural cooperative. The
research is a descriptive study employing both qualitative and quantitative data. The investigation has involved one case study from
documentation and in loco observation, questionnaire, interview, and focus group instruments. The data found have favored the
development of a representative scenery of aspects involved in the production of knowledge. The results have demonstrated that to
produce knowledge there is a necessity of group relationships and leadership regarding property, communities of practice (CoPs) or
cooperatives. Cultural aspects and relation styles as well as the way farmers conduct their business are able to affect the modes of
production of knowledge. For instance: on a farm with people constantly interested in interacting, questioning, and innovating, there
is more scope to transform tacit knowledge into explicit one. There is a large gap between farmers’ knowledge and their ability to
develop an attitude that enables improved business success.
Palavras-chave: Criação de conhecimento, comunidade de prática e cooperativa agrícola.

Key-words: Production of nowledge, communities of practice and agricultural cooperative.

1 INTRODUÇÃO entrar na área de processamento (WANER, 2000). As


cooperativas têm tido sucesso em algumas áreas, por
Os produtores operando individualmente são, em permitirem aos produtores atuarem conjuntamente e
muitos casos, incapazes de expandir a escala necessária controlarem os ativos enquanto buscam poder econômico
para se tornarem processadores, o que demanda muito e político através dos seus membros (STEFANSON;
capital, conhecimento e tempo. Em contrapartida, se estão FULTON; HARRIS, 1998).
ligados a uma cooperativa, embora sejam pequenos Com o desenvolvimento do agronegócio brasileiro,
produtores, conjuntamente se tornarão maiores e poderão as cooperativas passaram e passam por um profundo
ter níveis de produção para integrar-se verticalmente e processo de mudanças, buscando adequar-se às

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 414-426, 2011


Criação e uso do conhecimento nas comunidades de prática... 415

transformações nos agronegócios local, regional, nacional Objetiva-se, neste artigo, demonstrar os aspectos
e internacional. Nesse contexto mutável, destaca-se a presentes na criação de conhecimento, em propriedades
importância do capital humano como meio de se buscar rurais vinculadas a uma cooperativa agrícola. O modelo
novas oportunidades de negócios e do gerenciamento das adotado para a análise é o de Nonaka e Takeuchi (1997). O
mudanças (BATALHA, 2000). O conhecimento, muito mais estudo desenvolveu-se em uma realidade no estado do
que o trabalho intensivo, foi se tornando a maior riqueza. Rio Grande do Sul.
Para Jank (1997), as fortes mudanças estruturais que estão
acontecendo nos agronegócios nessa década são fatores 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
que determinam a necessidade de novas relações, posturas 2.1 Gestão do conhecimento e a criação de conhecimento
e formas de conduta dos negócios para os envolvidos
nesse setor. O termo gestão do conhecimento já era mencionado
Na atualidade, os produtores rurais são vistos como em décadas anteriores (GOERL, 1975; HENRY, 1975;
gerenciadores dos negócios muito mais do que supridores MCCAFFERY, 1975), bem como o de capital intelectual
da produção primária, atuando num mercado pouco (FEIWEL, 1975). Na década de 1990, Stewart popularizou o
conhecido ou sendo apenas executores de atividades conceito de capital intelectual e trouxe a noção de bem
técnicas. Deles são requeridas posturas gerenciais intangível. Após o conceito ser definido, tem crescido o
qualificadas, com conhecimentos atualizados, habilidades número de publicações dando ênfase à gestão do
e competências, com vistas a atender a determinados conhecimento e capital intelectual, chegando em 2010, a
mercados com crescentes exigências referentes a padrões, dez mil publicações (SERENKO; BONTIS, 2004). Mcadam
à qualidade e a inovações nos produtos. Assim, um dos e Mccreedy (1999) salientam que as publicações abrangem
muitas disciplinas e áreas de interesse tanto de acadêmicos
grandes desafios que se apresentam é como lidar
como de outros pesquisadores. Entretanto para Bhatt
eficazmente com as informações e tomar decisões nesse
(2001), gestão do conhecimento não é uma simples questão
ambiente de incertezas.
de capturar, estocar e transferir informação; requer
Para isso, é necessário não apenas processar
interpretação e organização da informação em múltiplas
informações, mas criar conhecimentos (NONAKA, 1994).
perspectivas.
Sonka et al. (1999), trazem a noção de criação de Blackler (1995), Nonaka (1991, 1994), Nonaka e
conhecimento no agronegócios usando-se o modelo de Takeuchi (1997) e Spender (1996, 1998) têm desenvolvido
Nonaka e Takeuchi (1997), com ênfase na agricultura de estudos que auxiliam no entendimento da criação de
precisão e na tecnologia da informação; e comprova-se conhecimento e das formas como têm sido utilizados nas
que ocorreram significativos avanços na disponibilidade organizações, ou das mudanças no domínio das formas de
e na capacidade de utilização da informação tecnológica conhecimento organizacional, num nível amplo na
nesse contexto, o que causa muitos impactos na sociedade. organização. Para Marakas (1999, p. 440), “a criação de
Os autores referem-se à criação de conhecimento, conhecimento refere-se à habilidade de uma organização
porém não evidenciam o modelo como um todo, detendo- de desenvolver conhecimento novo e usar as idéias e
se em alguns aspectos da teoria e relacionando-os soluções”.
restritamente à agricultura de precisão e à tecnologia da Os conhecimentos tácitos e explícitos são os que
informação. melhor representam o conhecimento no contexto
Muito se tem falado em criação de conhecimento, organizacional, na perspectiva de Nonaka e Takeuchi
mas pouco se tem estudado sobre como esse processo se (1997). A distinção entre ambos não implica uma
dá na prática, pois é evidente que os produtores rurais separação das duas partes do todo; ao contrário, seu
necessitam de tecnologias e informações para viabilizar seus caráter indivisível e de interdependência envolve trocas
processos, mas sem a base de conhecimentos isso pode se permanentes, interações constantes, gerando formas
tornar inviável operacional e economicamente. É importante particulares de conversão do conhecimento (NONAKA;
também o entendimento de como o conhecimento é criado TAKEUCHI, 1997; NONAKA; UMEMOTO; SENOO,
nas rotinas diárias, pois num mundo caracterizado por 1996). Para Nonaka, Toyama e Byosiere (2001), apesar
rápidas mudanças e transformações, a habilidade das de toda a atenção dada à questão da criação de
organizações agronegociais de decifrar o ambiente, de buscar conhecimento organizacional, é pouco conhecido o
contribuições e de responder rapidamente a ele tem modo como as organizações criam e gerenciam
despertado interesse tanto teórico quanto prático. conhecimento.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 414-426, 2011


416 BINOTTO, E. et al.

Para definir conhecimento tácito, Polanyi (1967) para combinar os conhecimentos explícitos e informações
toma como frase-chave “we can know more than we can presentes nos indivíduos; internalização é a conversão
tell” (nós conhecemos mais do que somos capazes de de explícito para tácito, conhecimento operacional ou know-
expressar), ou seja, a habilidade das pessoas de conhecerem how, surge a noção de aprendizagem e há o estímulo com
além daquilo que é expresso pela fala por saberem mais do processos de tentativa e erro, “do aprender fazendo”, com
que podem verbalizar, ou seja, o conhecimento vai além base no conhecimento tácito e com o compartilhamento
das possibilidades da língua. Pode-se exemplificar pela do conhecimento explícito.
dificuldade em explicar como um trabalho ou um processo O centro da teoria de Nonaka e Takeuchi (1997, p.
é desenvolvido, assim pode-se dizer que nenhuma 62) consiste na espiral da criação de conhecimento: “(...) a
quantidade de conhecimento explícito proporciona a parte espiral surge quando a interação entre conhecimento tácito
tácita; são duas dimensões do conhecimento distintas, de e conhecimento explícito eleva-se dinamicamente de um
modo que a tentativa de reduzi-las compara-se à tentativa nível ontológico inferior até níveis mais altos”. Os autores
de transformar um desenho de duas dimensões numa única salientam que o segredo para a criação de conhecimento
(POLANYI, 1967), ou seja, a complexidade envolvida na está na mobilização e na conversão do conhecimento tácito.
explicitação do conhecimento tácito sempre estará Desse modo, relatam a existência de duas dimensões do
presente. conhecimento: a epistemológica e a ontológica.
Polanyi (1967) apresenta uma significativa rejeição A dimensão epistemológica está baseada na
à análise restrita ao conhecimento absolutamente objetivo, distinção entre conhecimento tácito e explícito, ao passo
dando bastante relevância ao conhecimento tácito em que a ontológica abrange os níveis de entidades criadoras
todos os casos. Para o autor, a busca de explicitação de do conhecimento: individual, coletivo, organizacional e
todo conhecimento, eliminando-se o elemento tácito interorganizacional.
pessoal, pode destruí-lo. O tácito inclui a habilidade de Nonaka (1994) apresenta o aprendizado como
perceber particularidades que constituem os indivíduos, resultado da participação numa comunidade de interação,
grupos e organizações. envolvendo mais a aquisição de uma nova identidade do
Assim, o modelo apresentado por Nonaka, que o conteúdo cognitivo. Nas Comunidades de Prática
complementado em trabalhos com outros autores (CoPs), está presente um aspecto importante do
(NONAKA, 1991, 1994; NONAKA; KONNO, 1998; conhecimento e, especificamente, a parte tácita e não
NONAKA; TOYAMA; BYOSIERE, 2001; NONAKA; formalizada, que pode ser perpetuada e modificada,
TOYAMA; KONNO, 2000; NONAKA; REINMOELLER, aumentando o aprendizado (GHERARDI; NICOLINI, 2000).
2000; NONAKA; REINMOELLER; SENOO, 1998; Seu conceito e suas características são apresentados a
NONAKA; TAKEUCHI, 1997; NONAKA; UMEMOTO; seguir.
SENOO, 1996) pode ser considerado um dos que melhor
2.2 Comunidades de Prática
conseguiu desenvolver uma abordagem que traz o
processo social e epistêmico num modelo coerente, O termo CoP foi apresentado por Lave e Wenger
relacionando a inovação aos conhecimentos tácitos e (1991) em seu livro Situated Learning.
explícitos da organização. Pelo modelo mostra-se como as Os autores mostram como ocorre o aprendizado e a
empresas japonesas geram a dinâmica da inovação. Esses comunicação simultânea, em termos da prática e da
autores veem a criação de conhecimento como um comunidade. O aprendizado de uma prática envolve tornar-
processo interativo entre o racional e o empírico, mente e se membro de uma CoP, não implicando, simplesmente,
corpo, análise e experiência e entre implícito e explícito. numa questão de adquirir informações; mas sim em,
Por sua vez, Nonaka (1991, 1994), Nonaka e disposição, conduta e perspectiva profissional.
Takeuchi (1997), Nonaka, Toyama e Byosiere (2001) e Na concepção de Wenger e Snyder (2000, 2001), a
Nonaka, Umemoto e Senoo (1996), em seus modelos, CoP é um grupo de pessoas informalmente ligadas pelo
apresentam os quatro modos de conversão: socialização conhecimento especializado compartilhado e pela paixão por
é o modo que possibilita converter conhecimento tácito um empreendimento conjunto. O foco é o que as pessoas
por meio da interação entre indivíduos; externalização aprendem e como aprendem no contexto social através da
consiste no processo de articular conhecimentos tácitos participação no mundo social. Lave e Wenger (1991)
em explícitos; combinação envolve a conversão do descrevem as CoPs como um processo com limites que são
conhecimento explícito em tácito e utiliza processos sociais históricos, com relações de longo prazo entre as pessoas e

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 414-426, 2011


Criação e uso do conhecimento nas comunidades de prática... 417

QUADRO 1 – Comparação de CoP com outras formas de organização.


Características
CoPs Time de Projeto Rede Informal
Desenvolver nos participantes o
aprendizado, a criação de Colher e transmitir informações
Objetivo conhecimento e competências Realizar determinada tarefa empresariais
Participantes que se Empregados escolhidos por Amigos e conhecidos do meio
Participantes autoselecionam gerentes seniores empresarial
Paixão, compromisso e As metas e pontos
O que possuem identificação com habilidades importantes do projeto ou Necessidades mútuas e
em comum comuns do grupo objetivos conhecimento interpessoal
Sem tempo pré-determinado para Temporário, termina quando Enquanto as pessoas tiverem
acabar ou enquanto houver o projeto entregue é um motivo para manterem
Duração interesse em manter o grupo concluído contato
Limite Domínio do conhecimento Registro formal Relações mais amplas
Compromisso com os
Conexão Aplicação de uma prática objetivos
Permanência do Membros constantes durante Ligações baseadas nos
Grupo Membros constantes o projeto conhecimentos
Fonte: Binotto (2005)

seus espaços. Para eles, o desenvolvimento do aprendizado (BROWN; DUGUID, 2001). O que impulsiona a perpetuação
concerne ao desenvolvimento do conhecimento identificado das CoPs é a geração de conhecimento, provocando o seu
na prática. A CoP é a condição intrínseca para a existência reforço e renovação (WENGER, 1998; WENGER; SNYDER,
do conhecimento e para que possam ser adotadas as 2001).
melhores práticas e obtido um padrão na atividade (LAVE; Para Gropp e Tavares (2006, p. 27), a COP “são
WENGER, 1991; WENGER, 2000). estruturas auto-organizadas, responsáveis pela construção
Com o advento da era da informação, muitas das do conhecimento aplicado na prática do dia-a-dia”.
CoPs podem se utilizar de outras formas para realizar os A confiança é construída através da interação no
contatos. Com isso, surge o termo comunidades de prática decorrer do tempo, na medida em que as pessoas podem fazer
virtuais, que se valem dos recursos disponíveis da questões ou expor as suas dúvidas sem medo de mostrar
tecnologia da informação, seja através de e-mail, chat ou ignorância sobre um assunto. É possível, entre os membros
telefone, dentre outros. do grupo, identificarem e conhecerem quem pode dar uma
Nas comunidades de praticantes, é rejeitada a ideia resposta para uma dúvida surgida; sentirem-se mais
da simples transferência de conhecimento pelo fato de isolar confidentes e serem bem-vindos ou reconhecerem que alguém
o conhecimento da prática; considera-se o conhecimento é suficientemente competente em determinado aspecto para
como algo teórico, e aborda-se a questão da aprendizagem que o tempo seja gasto numa discussão (WENGER, 2000).
como algo socialmente construído, conectando o que está Enfim, a CoP pode ajudar na criação de uma
sendo aprendido com as condições nas quais isso ocorre infraestrutura social que poderia capacitar a criação e a
(BROWN; DUGUID, 1991; DUGUID; BROWN, 2001). transferência do conhecimento. Pelo fato de seu foco estar
Murty (2011), Wenger, Mcdermott e Snyder (2002) na aprendizagem, no desenvolvimento de capacidades e
e Wenger e Snyder (2001) apresentam algumas na difusão do aprendizado entre os membros do grupo,
características das CoPs e comparam-nas a outras formas aumentam-se as capacidades para a solução de problemas
de organização. e a realização de melhoramentos em todos os aspectos.
A CoP inclui os aspectos formal e informal da Na comunidade virtual, as características são as
organização, sendo mais duradouros que projetos e mais mesmas: as pessoas mantêm contatos informais para trocar
estruturados que as redes informais. O grupo identifica-se ideias sobre temas que possuem interesse comum, sendo
como CoP pelo fato de ter interesses comuns; centra-se na que o que os diferencia são os contatos à distância. Isso
motivação, é autogerenciável, autoselecionável e possui não significa que não possam existir contatos presenciais,
uma série de interesses motivados pelo modelo de trabalho que podem ser esporádicos e não programados.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 414-426, 2011


418 BINOTTO, E. et al.

O que se mostra importante ao se falar de CoPs é o de Rochdale, que surgiu das necessidades de defesa dos
aspecto cultural. A visão de cultura sugere que, assim como direitos, para suprimento de necessidades básicas e
ocorre com as pessoas, as organizações têm a capacidade emprego. A cooperativa ainda se propunha a cultivar uma
de resistir à mudança ou de incorporá-la; porém, mesmo área rural, plantando alimentos necessários à sobrevivência
que a organização de aprendizagem seja possível, isso dos operários desempregados e gerando empregos para
poderá ser uma limitação (PEDLER, 1992). as pessoas excluídas do mercado de trabalho (BENATO,
A cultura é um traço que identifica e diferencia as 1994), ou seja, as cooperativas, muitas vezes, surgem em
organizações em suas particularidades. Alguns aspectos momentos de adversidade (WILSON, 1999).
não são possíveis de explicitação, por serem cercados de
subjetividade, que nem sempre é interessante explicitar; já A singela mensagem dos pioneiros de Rochdale
outros aspectos são pontualmente gerenciáveis e podem é de grande utilidade para uma reflexão sobre os
ser explicitados. Algumas culturas podem inibir a rumos do cooperativismo e referência importante
capacidade de aprendizagem das pessoas, visto que a para se entender que certos objetivos só serão
verdadeira aprendizagem não ocorre somente quando a atingidos quando houver disciplina, esforço con-
organização refina as suas teorias e pressupostos acerca tinuado e metas claras, a partir de princípios e
da forma como o mundo funciona, mas constitui-se num normas que funcionem como guias de conduta,
processo contínuo. A extensão em que cada indivíduo obrigando todos na partilha de benefícios e na
interage com outro depende da cultura organizacional distribuição de encargos (NASCIMENTO, 2000,
(BHATT, 1998). Enfim, a cultura inclui todas as áreas da p. 2).
vida do grupo (SCHEIN, 1990). A experiência dos rochdaleanos foi o marco na
Para Schein (1985), cultura resulta do origem do cooperativismo e trouxe contribuições para o
compartilhamento de experiências importantes no processo
Brasil, como a base doutrinária pregada nas cooperativas.
de solução de problemas internos e externos, o qual pode
Além da Inglaterra, as cooperativas também foram criadas
levar a uma visão de mundo construída pelo grupo. Assim,
na Alemanha, em 1847, chamadas “Caixa de Empréstimo
cultura é fruto do aprendizado da experiência do grupo e
Rural”, modelo que, posteriormente, seria trazido para o
pode ser encontrada somente onde há um grupo definido
Brasil pelo padre suíço Theodoro Amstad. O surgimento
com uma história significativa. Cultura é conceituada como
das cooperativas no século XIX, tanto no Brasil como nos
a construção coletiva da realidade social (SACKMANN,
Estados Unidos, ocorreu devido a fatores econômicos, à
1991). Inseridos no aspecto cultural estão as histórias, os
organização dos produtores e às políticas públicas (COOK,
modelos mentais, que não somente servem de orientação,
1995).
mas também de obstáculo para que o aprendizado ocorra
A cooperativa era vista como uma forma de negócio
(HEDBERG, 1981). Esse conceito é o que melhor se ajusta a
esse estudo. inserida numa economia de mercado, sendo particularmente
adaptada para servir às necessidades do setor agrícola,
2.3 Cooperativas Agrícolas considerando o seu arranjo estrutural. Cooperativas são
O cooperativismo é resultado de séculos de designadas para prover serviços aos associados, os quais,
evolução do homem, no que diz respeito à arte de identificar como indivíduos, não podem prover a si próprios ou não
formas de sobrevivência ou mesmo de viver melhor, diante são capazes de ser tão eficazes (MCBRIDE, 1986).
das dificuldades que cada momento da história apresenta. Crúzio (1997, p. 7) entende por cooperativa “uma
A cooperação sempre existiu nas sociedades humanas união de pessoas, cujas necessidades individuais de
desde eras mais remotas, resultante da necessidade de trabalho, de comercialização ou de prestação de serviços
sobrevivência e vista como meio de sobrevivência e, em grupo, e respectivos interesses sociais, políticos e
sobretudo, como agrupamento de pessoas que, na econômicos fundem-se nos objetivos grupais da
reciprocidade do trabalho, no conjunto de suas ideias e no associação”.
esforço continuado de suas ações, realizavam seus Para Lauschner (1995, p. 125), a cooperativa “é a
propósitos e atingiam seus objetivos. forma histórica ideal de participação do produtor rural para
As primeiras cooperativas surgiram na Inglaterra assegurar a renda e o nível de exploração rural e de
no final do século XVIII. Surge a primeira cooperativa, organização da produção agroindustrial”. Irion (1997, p.
criada em 1844 e organizada formalmente, a dos tecelões 45) complementa que a cooperativa “é um instrumento

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 414-426, 2011


Criação e uso do conhecimento nas comunidades de prática... 419

eficaz para a organização da população, a democracia dos Theodore Amstad foi considerado o pioneiro do
investimentos, a distribuição da renda, a regularização do cooperativismo no Rio Grande do Sul, trazendo
mercado, a geração de empregos e assim, uma cooperativa contribuições importantes no que se refere à integração
instrumentaliza a justiça social”. dos associados à cooperativa e ao desenvolvimento das
A finalidade, o objetivo e a doutrina das perspectivas micro e macroeconômicas. Sentindo a
cooperativas são específicos do sistema. A finalidade é: necessidade de desenvolver ações mais profundas no
- correção de distorções econômico – sociais, pacífica e auxílio aos produtores, uma vez que a revolução federalista
gradativamente; (1893-1895) causaria sérios problemas na zona colonial e
- prestação de serviços; impedia a colocação dos produtos agrícolas no mercado
- geração de produtos; (PURPER, 1980) fundou, em 1902, a primeira Caixa Rural
- obtenção de preço justo por esses. Cooperativa, em Nova Petrópolis, tornando o estado o
Entretanto, uma das dificuldades para a berço do cooperativismo brasileiro (CAMPOS, 1998).
compreensão da importância da cooperação é que os Em 1911, com o apoio dos governos federal e
indivíduos estão inseridos numa sociedade capitalista, estadual, foi intensificado o incentivo pela cooperação
permeada pelo individualismo e pela competição. Fulton agrária, mas foi em 1930 que se deu o reatamento histórico
(1995) questiona se essa forma de cooperativa pode do movimento cooperativista de produção, quando os
sobreviver diante desse crescente individualismo, no qual agricultores sofriam os efeitos da crise mundial e não tinham
a propriedade e o uso são vistos separadamente. O objetivo outra alternativa senão reiniciar o agrupamento e a
é difundir os ideais em que se baseia, no intuito de atingir- formação de cooperativas (CAMPOS, 1998). Um aspecto
se o pleno desenvolvimento financeiro, econômico e social característico do estado do Rio Grande do Sul, é reunir um
de todas essas sociedades (OLIVEIRA, 1984). grande núcleo de colonização estrangeira, sobretudo o
As cooperativas agrícolas são associações de italiano e o alemão.
produtores primários que possuem objetivos comerciais O decreto 22.239 normatizou a constituição e o
comuns com maior possibilidade de sucesso do que se funcionamento das cooperativas brasileiras no início da
trabalhassem individualmente (WILSON, 1999). Para década de 1930, facilitando e simplificando a sua fundação,
Knutson (1966) a diferença entre uma cooperativa e uma além de conceder isenção de diversos impostos. A partir
empresa é perceptível no fato de que a primeira busca o daí, o cooperativismo foi auxiliado e estimulado pelo Estado
máximo retorno para os seus associados e a segunda busca até o final da década de 1980, pois atendia aos interesses,
maximizar o seu lucro e minimizar o retorno para os seus tanto desse quanto dos produtores, no que se referia à
proprietários. Podem ser classificadas de diversas formas, organização da produção, substituindo as importações e a
como pelo tamanho, pela estrutura financeira, pela estrutura industrialização de bens não duráveis. Isso refletiu-se
organizacional, pela área geográfica de abrangência, pelo diretamente sobre o setor rural, uma vez que caberia a ele a
nível de atividades, pelo âmbito de suas ações, etc. (COOK, função principal de produzir alimentos para o mercado
1995). interno (DUARTE, 1986).
A base doutrinária das cooperativas apresenta-se Mudanças mais profundas ocorreram no final da
como sociedades inspiradas na democracia, em que o capital década de 1950, quando o setor rural e o cooperativismo
constitui-se num meio de participação, nunca num fim de adotaram a perspectiva desenvolvimentista, centrada
lucro. Para a realização de seus objetivos, a cooperativa principalmente na inserção do Brasil no modelo de
não busca o lucro mas, na ocorrência de excedente acumulação capitalista internacional e na aceleração do
financeiro, esse retorna para o associado; a todos, desenvolvimento do complexo agroindustrial. As
indistintamente, é exigida neutralidade política, religiosa e cooperativas, então, eram parte do esquema governamental
racial, e a adesão é livre para quem queira participar. O de exportação para garantir divisas e o equilíbrio da balança
homem, principal objetivo dessa sociedade, deve ser comercial (DUARTE, 1986).
educado constantemente e, como usuário do serviço, deve Schneider (1991, p. 254) complementa essa análise
administrar suas compras de forma coerente (IRION, 1997). afirmando que, com a industrialização da agricultura a partir
Fica clara na cooperação, a riqueza do aprendizado de 1965, o Brasil desenvolveu o complexo agroindustrial
conjunto, visto que os indivíduos, isoladamente, teriam visando oportunizar uma agricultura voltada para o mercado
enormes dificuldades alcançar, sendo a cooperativa um externo. Assim, “o estado passa a ver o cooperativismo
bom espaço para a concretização dessa prática. como um dos instrumentos que melhor viabilizaria a execução

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 414-426, 2011


420 BINOTTO, E. et al.

das políticas econômicas voltadas para o setor rural, Os participantes dessa pesquisa foram escolhidos
inserindo-o assim no novo padrão de acumulação aleatoriamente, de acordo com um perfil estabelecido
capitalista”. A nova legislação, no início da década de 1970, (atividade principal: a produção de grãos - soja, milho, trigo,
conferiu flexibilidade às cooperativas brasileiras, permitindo aveia e cevada) e também a acessibilidade. Onze produtores
uma gestão mais moderna e dinâmica (DUARTE, 1986). rurais ligados a Cotrijal responderam aos questionários e
Na atualidade, no país, encontram-se cooperativas participaram das entrevistas e 25 na soma dos três focus
agrícolas em diferentes situações: algumas, em situação groups, bem como gerentes e alguns funcionários da
econômica privilegiada; outras ainda buscando formas de cooperativa.
sobrevivência e adequação à realidade e as demais, O questionário foi utilizado como base para a
impossibilitadas de operar por causa de dificuldades obtenção de informações socioeconômicas e de utilização
financeiras e em processo de autoliquidação. Pode-se da informática nas propriedades, bem como para dar suporte
afirmar que, algumas das causas disso estão na capacidade à construção dos demais instrumentos de pesquisa.
de adequação às mudanças, às novas tecnologias, na As categorias de análise utilizadas foram as
instabilidade econômica das últimas décadas e nos presentes no modelo de criação de conhecimento de
decorrentes planos que se fizeram presentes por um longo Nonaka e Takeuchi (1997). Para a análise dos dados
período na economia brasileira. qualitativos, foi utilizada análise de conteúdo, de acordo
Os conceitos de cooperativa agrícola adotados com a metodologia de Krippendorff (2004).
neste estudo são a complementação dos de Irion (1997) e Krippendorff (2004) considera a estrutura simples e
Lauschner (1995). geral, empregando apenas parte dos componentes
conceituais, tais como:
3 METODOLOGIA - texto, os dados a que um analista de conteúdo tem
A pesquisa caracterizou-se por um estudo descritivo disponíveis para começar um esforço analítico;
de caráter qualitativo. Delineia-se por estudo de casos, - a questão de pesquisa a que o analista busca responder
utilizando-se de documentação e observação in loco, para examinar o texto;
questionário, entrevista e focus group. - no contexto, a escolha do analista, o que dará sentido
Fizeram parte da amostra produtores associados da para o texto;
Cooperativa Tritícola Mista Alto Jacuí Ltda (Cotrijal), situada - um construto analítico que operacionaliza o analista a
na região nordeste do estado do Rio Grande do Sul. conhecer sobre o contexto;

CONTEXTO
Os muitos mundos Como concebido pela análise de conteúdo

Respostas Inferências
Evidência da
validade Questão de pesquisa
?
Construto
Significados, Correlações Estáveis Análise de
referências, usos analítico
conteúdo
Condições que
contribuem
Textos
Textos

FIGURA 1 – Estrutura para análise de conteúdo


Fonte: Krippendorff (2004, p. 30)

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 414-426, 2011


Criação e uso do conhecimento nas comunidades de prática... 421

- inferências pretendidas para responder à questão de Mercado Externo


pesquisa, a qual constitui realização da análise de Situação Econômica do País
conteúdo; Política Agrícola do Governo
- evidência de validade, que é a justificativa última da análise
de conteúdo.
A questão de pesquisa dá direcionamento para a
Sociedade
inferência na análise do texto. Pode-se responder à questão Aspectos Criação de
através do exame do corpo do texto, pois a mesma delineia culturais Cooperativa conhecimento
um conjunto de possíveis respostas. O contexto especifica
o mundo no qual o texto pode ser relatado para responder Cursos Comunidades
à questão de pesquisa. O construto analítico operacionaliza de prática Palestras
Suporte
o que o analista de conteúdo conhece sobre o contexto, Dias de
especialmente a rede de correlações consideradas para Expo- Associados
campo
direto cooperativa
explicar como o texto disponível está conectado com as
Fatores
possíveis respostas às questões de pesquisa e às tangíveis
condições sob as quais essas correlações poderiam mudar Relações
(KRIPPENDORFF, 2004). Decisão mais
Para a aplicação dos questionários, a realização das social informais
entrevistas e dos focus groups com os produtores rurais, Dispersão
foi solicitada uma autorização prévia dos participantes, geográfica Risco
pequena decrescente
explicitando sua concordância ou não na participação, ou
seja, foi feito um contrato, através do consentimento
informado.
Experimentação
4 ANÁLISE DOS RESULTADOS
Socialização
A cooperativa é um elo da cadeia produtiva e exerce Busca
um papel intermediário entre o produtor e a indústria, embora Adoção
muitas vezes industrialize alguns produtos; ainda dá suporte Estímulo
ao produtor para se adequar às exigências de produtos e
mercados. O modelo de Nonaka e Takeuchi (1997), com base
na realidade estudada, deu suporte à construção de uma
figura representativa (Figura 2) para demonstrar como se dá Resultados
a criação de conhecimento nas mesmas. globais
O mercado externo, a situação econômica do país e
a política agrícola do governo exercem forte influência sobre
o agronegócio. Contudo, a intensidade do impacto dessas FIGURA 2 – Fatores que envolvem o processo de criação
variáveis sobre os elos das cadeias produtivas varia de de conhecimento, no elo da produção no agronegócio
acordo com o contexto em que os negócios estão inseridos. Fonte: Elaborado pelos autores, com base nos dados da
Essas variáveis podem tanto oferecer maiores vantagens pesquisa
como até mesmo inviabilizar o desenvolvimento das
atividades agrícolas.
A realidade estudada caracteriza-se por uma de algum grupo ou instituição, uma vez que o governo não
sociedade permeada por aspectos culturais originados de lhes oferecia o suporte necessário. Atualmente, a
europeus, principalmente italianos, alemães e holandeses, cooperativa assessora-os por meio de cursos, dias de
que chegaram à região nordeste do RS há muitos anos. campo, palestras, a Expodireto (exposição de novas
Apresenta as organizações cooperativas como apoio aos tecnologias e variedades de sementes), dentre outras
produtores rurais, que, diante das dificuldades para a formas de qualificação. As CoPs formam-se com base nesse
realização de suas atividades, buscaram novas formas de ambiente de interação, em que o compartilhamento de
organização. Os mesmos sentiram necessidade do apoio informações e conhecimentos pode acontecer.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 414-426, 2011


422 BINOTTO, E. et al.

As decisões tomadas nessas CoPs consideram a para inovar sem recursos financeiros”. Para alguns
existência de um grupo que atua numa base cooperativa e produtores, os valores tangíveis, tais como o tamanho da
voltam-se para o desenvolvimento e o crescimento do propriedade, equipamentos, condições financeiras, dentre
corpo social. Para dar maior suporte à formação de grupos outros fatores, são determinantes para terem ou não maiores
e CoPs, a cooperativa desenvolve trabalhos com foco na perspectivas futuras quanto à atividade, bem como
liderança, como eleger líderes nas comunidades para que estímulos para a busca de algo novo.
sejam disseminadores de informações da organização e A criação de conhecimento ocorre no ambiente
estimuladores de constante qualificação e inovação nas cooperativo, onde a cooperativa, em diferentes momentos
CoPs. Pode-se inferir, portanto, que o estímulo ao de interação, estimula os associados a inovar, ou seja,
desenvolvimento das lideranças exerce forte influência no busca criar um campo para a interação dos associados.
ambiente da propriedade, onde conta com a participação Acredita-se que o processo individual de criação de
ativa da mulher. Nesse sentido, os produtores pesquisados conhecimento do associado da cooperativa passa por
afirmaram que a atuação das mulheres vem crescendo tanto diferentes estágios e não possui um ponto de referência
na administração da propriedade como na atuação junto à inicial. As diferentes formas de interação oferecidas pela
cooperativa como líderes de comunidade, o que foi possível cooperativa podem instigar o associado a buscar algo novo;
observar pela participação ativa de muitas delas na ao receber o estímulo, ele vai em busca de mais informações
pesquisa, respondendo a questionários, entrevistas e no através do contato com os técnicos da organização, com
focus group. outros associados ou junto a outras fontes. Após essas
As relações entre os associados da cooperativa e, fases, ele socializa ou experimenta a novidade em sua
de certa forma, entre os dirigentes caracterizam-se pela propriedade e, posteriormente, socializa-a com a CoP ou as
informalidade. Os associados utilizam-se de diferentes CoPs de associados de que faz parte. Após o
oportunidades para realizar trocas de informações entre si, compartilhamento com outros produtores, o associado
entre as quais estão as atividades desenvolvidas pela pode buscar mais informações, ser estimulado para novas
cooperativa e as visitas semanais à organização, que buscas ou colocá-las em ação como uma prática cotidiana
auxiliam na criação de vínculos; os encontros na igreja, no na sua propriedade. Para Binotto et al. (2004), a
clube social, nos jogos de futebol e festas; as rodadas de experimentação ocorre na aplicação prática do novo,
chimarrão nos grupos sociais e os encontros em reuniões buscando validar o conhecimento.
nas escolas em que os filhos estudam. Esse estilo de Portanto, a cooperativa demonstrou ser a base para
relações está diretamente ligado aos aspectos culturais o estímulo à criação de conhecimento através das CoPs
próprios da sociedade. As facilidades nos encontros face que vão se formando no decorrer das situações de
a face devem-se também à pequena dispersão geográfica interação, as quais demonstraram necessitar de tempo para
entre os produtores nessa realidade. sua maturação e gerar resultados. Assim, infere-se que o
Com o suporte da cooperativa, há tendência de processo de criação de conhecimento está
redução nos riscos no gerenciamento da atividade dos institucionalizado na cooperativa através das muitas formas
associados; por outro lado, com a organização oferecendo de interação com os associados e dos vínculos existentes
serviços e suporte financeiro, seus riscos crescem. A partir entre ambos. Diante disso, as CoPs no ambiente
do momento em que o governo passou a não assumir cooperativo podem agregar valor aos processos, aos
totalmente a função de suporte para os produtores rurais, produtos e aos serviços através do espaço e das
a cooperativa exerce esse papel visando viabilizar o possibilidades para o desenvolvimento profissional e para
desenvolvimento de seu associado. Com essa postura, o compartilhamento de ideias e ideais.
mostra-se cumprindo seu papel de garantir ao produtor Como decorrência de todo o processo de criação
rural a renda, o nível de exploração rural e de organização de conhecimento envolvendo essas variáveis, há um
da produção agroindustrial, bem como a regularização do objetivo maior, que é a obtenção de resultados globais, os
mercado. quais se referem a aspectos tangíveis e intangíveis, ou
Os fatores tangíveis provaram exercer influência seja, relacionam-se tanto com obtenção de retorno
na criação de conhecimento por poderem ser limitadores financeiro como aprendizado. Dessa forma, podem ser
das trocas, até mesmo do estímulo para a busca de algo estímulos motivadores para que haja busca por
novo. Algumas pessoas pesquisadas comentaram que “não aperfeiçoamento nas atividades que lhes garantam
se sentiam grandes o suficiente para inovar”, ou “não dá sobrevivência e bons resultados num mercado competitivo.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 414-426, 2011


Criação e uso do conhecimento nas comunidades de prática... 423

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS no aprendizado, no desenvolvimento de novas ideias e


Objetivou-se, no presente trabalho, demonstrar os nos relacionamentos pessoais, podem ser suporte para a
aspectos presentes na criação de conhecimento em criação de conhecimentos. Assim, os grupos que têm
propriedades rurais em um contexto cooperativo, com base oportunidade para realizar discussões podem trazer
no modelo de Nonaka e Takeuchi (1997). contribuições para as pessoas conhecerem e assimilarem
Na realidade estudada ficou evidente a forte conhecimentos ao permitirem que todos perguntem e
influência do aspecto cultural para a ocorrência das trocas relatem algo novo que tenham tido a chance de conhecer
e na maior ampliação da atuação das CoPs. Por isso a e, ao mesmo tempo, revisem seus pontos de vista.
cultura, presente em cada realidade pode influenciar A observação desses aspectos pode auxiliar na
fortemente na forma como as pessoas se relacionam, agem transferência do aprendizado para o conhecimento. O
e se comportam, enfim, se elas se propõem ou não a processo de aprendizagem visando à criação de
compartilhar o que conhecem e a contribuir para a criação conhecimento pode trazer mais cooperação, engajamento,
de conhecimento. confiança, criatividade e valorização, pois o conhecimento
A obtenção de informações originadas de fontes não pode ser visto separadamente dos aspectos tangíveis
diversas demonstrou auxiliar significativamente na e intangíveis da comunidade que se cria.
utilização de ferramentas mais dinâmicas no gerenciamento A forma de conduzir os negócios pode afetar a forma
da propriedade. Contudo, é preciso ter clareza de que o como se dá a criação de conhecimento. Numa propriedade,
volume de informações não é determinante da criação de em que as pessoas buscam socializar-se, questionar e inovar
conhecimento. A informação necessita ser reconhecida constantemente, demonstra haver maior espaço para
como importante pelo produtor rural para que possa ser transformar conhecimento tácito em explícito. Pessoas mais
transformada em conhecimento. Assim, considera-se que abertas ao novo e ao questionamento de suas práticas
a propriedade, por si só, não cria conhecimentos; ela demonstraram apresentar maiores possibilidades de criar
necessita de pessoas engajadas nas atividades, instigadas um campo de interação para que o conhecimento seja criado.
a buscar inovações e com um objetivo definido. Por isso, a Assim, a criação de conhecimento está ligada e é
existência de relacionamentos cria maiores possibilidades dependente de qualidades pessoais, tais como curiosidade,
de melhorar o aprendizado. Uma organização criadora de insights, ideias e determinação, ou seja, depende de pessoas
conhecimento é vista como um sistema aberto, com aplicando conhecimentos em meios que lhes tragam
permanentes intercâmbios com o ambiente externo, soluções úteis para velhos e novos problemas.
buscando constante adequação, que lhe garanta Assim, as CoPs não se constituem num processo
sobrevivência e garantia de competitividade no mercado. tecnológico e, sim, num processo social e cognitivo; sua
A Cotrijal apresentou práticas que estimulam o formação não demonstrou ser dependente da tecnologia,
desenvolvimento da cultura de aprendizagem junto aos mas do estabelecimento de relações informais, por meio
associados. A cultura de aprendizagem é importante porque das quais os indivíduos utilizam-se de ambientes para
o nível de informação e conhecimento que o produtor rural definir suas verdades quanto às suas posturas diante dos
possui influencia em suas decisões, trazendo como processos de mudança. As CoPs não parecem surgir e se
resultado o sucesso ou o fracasso no gerenciamento dos tornar produtivas rapidamente; necessitam de tempo para
negócios. se estruturar e produzir resultados, sofrem a influência da
Com o reconhecimento da existência das CoPs, cultura e podem ser determinantes do bom desempenho
podem ser oferecidas maiores possibilidades para futuro dos empreendimentos, uma vez que são parte natural
discussão, compartilhamento de informações e da vida das organizações.
conhecimentos e, ao mesmo tempo, para otimização da As pessoas, nas CoPs, necessitam de um ambiente
sua utilização. Diante disso, é possível a identificação do propício para o compartilhamento, no qual não se sintam
local onde estão as melhores práticas e dos especialistas, forçadas a participar. Portanto, confiança é a palavra-chave
o que poderá, de alguma forma, através do para haver socialização no contexto da CoP, e o
compartilhamento, oferecer maiores espaços para a engajamento tem se mostrado importante tanto no nível
otimização dos processos. organizacional como no coletivo e individual.
Constata-se, portanto, que as CoPs, cuja base da Provou-se, por este estudo, que há um grande
existência centra-se na paixão dos produtores pelas suas distanciamento entre a existência do conhecimento e a
atividades, na busca de soluções para problemas comuns, capacidade de torná-lo uma atitude, pois há necessidade

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 414-426, 2011


424 BINOTTO, E. et al.

de muito mais do que a informação. O ser humano tende, BINOTTO, E. et al. The cycle of knowledge creation and
de modo geral, a buscar situações de conforto. O fato de learning in agribusiness. In: INFORMING SCIENCE,
mudar qualquer coisa sempre exige algum esforço, sair da INFORMATION TECHNOLOGY EDUCATION, JOIN
rotina rumo ao desconhecido. Isso se constitui num desafio CONFERENCE, 2004, Rockhampton. Proceedings....
que muitos evitam, preferindo, então, continuar em situação Rockhampton, 2004. 1 CD-ROM.
menos ameaçadora, a sua atividade.
O conhecimento tácito dos produtores rurais está BLACKLER, F. Knowledge, knowledge work and
presente em diversas formas e meios, podendo tornar-se organizations: an overview and interpretation. Organization
explícito nos produtos e processos. É importante, quando Studies, New York, v. 16, n. 6, p. 1021-1046, 1995.
se pensa em conhecimento tácito, encontrar formas de as
pessoas manterem contato frequente, ou seja, criar um BROWN, J. S.; DUGUID, P. Equilibrismo: como capturar o
campo de interação para que as trocas ocorram e o tácito conhecimento sem matá-lo. In: REVIEW, H. B.
se manifeste espontaneamente ou ao acaso. As Aprendizagem organizacional. Rio de Janeiro: Campus,
organizações são vistas como um espaço para o convívio 2001. p. 48-60.
humano e para a realização de trocas através da
cooperação, do engajamento, da confiança, da criatividade ______. Organizational learning and communities-of-
e da valorização. Portanto, é preciso ter em mente que, practice: toward a unified view of working, learning, and
nesse caso, o mais importante é a aplicação do innovation. Organization Science, New York, v. 2, n. 1, p.
conhecimento, muito mais que a sua origem. 58-81, 1991.
Assim, acredita-se que este estudo servirá para
gestores de cooperativas analisarem esses aspectos em CAMPOS, G. L. R. Cooperativismo agrário e integração
suas organizações, servir de referência para pesquisadores econômica: a agricultura familiar no Mercosul. Passo
desenvolverem pesquisas em cooperativas de outras Fundo: Adiupf, 1998.
regiões e assim dar continuidade a esse trabalho. Também
poderia ser desenvolvido um estudo para evidenciar as COOK, M. L. The future of U.S. agricultural cooperatives: a
contribuições em termos de resultados das CoPs, bem neo-institutional approach. American Journal of Agricultural
como a possibilidade da maior inserção da virtualidade Economics, Madison, v. 77, n. 5, p. 1153-1159, 1995.
nas práticas de socialização e de qualificação.
DUARTE, L. M. B. Capitalismo e cooperativismo no Rio
6 REFERÊNCIAS Grande do Sul. Porto Alegre: L&PM, 1986.
BATALHA, M. O. Recursos humanos para o agronegócio
brasileiro. Brasília: CNPq, 2000. DUGUID, P.; BROWN, J. S. Estrutura e espontaneidade:
conhecimento e organização. In: FLEURY, M. T.; OLIVEIRA
BENATO, J. V. A. Cooperativismo, encontro e desencontros. JÚNIOR, M. D. M. O. Gestão estratégica do conhecimento:
São Paulo: ICA-OCESP, 1994. integrando aprendizagem, conhecimento e competências.
São Paulo: Atlas, 2001. p. 50-85.
BHATT, G. D. Knowledge management in organizations:
examining the interaction between technologies, FEIWEL, G. R. The intellectual capital of Michal Kalecki:
techniques, and people. Journal of Knowledge a study in economic theory and policy. Knoxville: University
Management, New York, v. 5, n. 1, p. 68-75, 2001. of Tennessee, 1975.

______. Managing knowledge through people. FULTON, M. The future of canadian agricultural
Knowledge and Process Management, New York, v. 5, n. 3, cooperatives: a property rights approach. American
p. 165-171, 1998. Journal of Agricultural Economics, Madison, v. 77, n. 5,
p. 1144-1152, 1995.
BINOTTO, E. Criação de conhecimento em propriedades
rurais no Rio Grande do Sul, Brasil e em Queensland, GHERARDI, S.; NICOLINI, D. The organizational learning
Austrália. 2005. 268 p. Tese (Doutorado) - Universidade of safety in communities of practice. Journal of
Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005. Management Inquiry, London, v. 9, n. 1, p. 7-18, 2000.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 414-426, 2011


Criação e uso do conhecimento nas comunidades de prática... 425

GOERL, G. F. Knowledge management: cybernetics, MCCAFFERY, J. Knowledge management in fiscal policy


professionalization, and knowledge management: an formation. Public Administration Review, London, v. 35,
exercise in assumptive theory. Public Administration n. 6, p. 598-602, 1975.
Review, London, v. 35, n. 6, p. 581-588, 1975.
MURTY, K. S. Building and sustaining communities of
GROPP, B. M. C.; TAVARES, M. G. P. Comunidade de practice, association of knowledge work, 2004. Disponível
prática: gestão de conhecimento nas empresas. São Paulo: em: <[Link]
Trevisan, 2006. [Link]>. Acesso em: 10 maio 2004.

HEDBERG, B. How organizations learn and unlearn. In: NASCIMENTO, F. R. D. Cooperativismo como alternativa
NYSTROM, P. C.; STARBUCK, W. H. (Ed.). Handbook of de mudança: uma abordagem normativa. Rio de Janeiro:
organizational design. New York: Oxford University, 1981. Forense, 2000.
p. 3-27.
NONAKA, I. A. Dynamic theory of organizational
HENRY, N. Knowledge management: bureaucracy, knowledge creation. Organization Science, New York, v.
technology, and knowledge management. Public 5, n. 1, p. 14-37, 1994.
Administration Review, London, v. 35, n. 6, p. 572-578,
1975. ______. The knowledge-creating company. Harvard
Business Review, Oxford, v. 69, n. 6, p. 96-103, 1991.
IRION, J. E. Cooperativismo e economia social. São Paulo:
STS, 1997. NONAKA, I.; KONNO, N. The concept of “Ba”: building a
foundation for knowledge creation. California
JANK, M. S. O vendaval nas bolsas e o agribusiness. Management Review, Davis, v. 40, n. 3, p. 40-54, 1998.
Revista Pecuária de Corte, São Paulo, n. 2, p. 34, 1997.
NONAKA, I.; REINMOELLER, P. Dynamic business
KNUTSON, R. D. Cooperatives and the competitive ideal. systems for knowledge creation and utilization. In:
Journal of Farm Economics, London, v. 48, n. 3, p. 111- DESPRES, C.; CHAUVEL, D. Knowledge horizons: the
121, 1966. present and the promise of knowledge management.
Boston: Butterworth-Heinemann, 2000. p. 89-112.
KRIPPENDORFF, K. Content analysis: an introduction to
its methodology. Thousand Oaks: Sage, 2004. NONAKA, I.; REINMOELLER, P.; SENOO, D. The ‘ART’
of knowledge: systems to capitalize on market knowledge.
LAUSCHNER, R. Agribusiness cooperativa e produtor European Management Journal, Oxford, v. 16, n. 6, p. 673-
rural. São Leopoldo: Unisinos, 1995. 684, 1998.

LAVE, J.; WENGER, E. Situated learning: legitimate NONAKA, I.; TAKEUCHI, H. A criação de conhecimento
peripheral participation. Cambridge: Cambridge University, na empresa. Rio de Janeiro: Campus, 1997.
1991.
NONAKA, I.; TOYAMA, R.; BYOSIERE, P. A theory of
MARAKAS, G. M. Decision support systems in the twenty- organizational knowledge creation: understanding the
first century. New Jersey: Prentice Hall, 1999. dynamic process of creating knowledge. In: DIERKES, M.
et al. Handbook organizational learning and knowledge.
MCADAM, R.; MCCREEDY, S. A critical review of Oxford: Oxford University, 2001. p. 491-517.
knowledge management models. The Learning
Organization, New York, v. 6, n. 3, p. 91-100, 1999. NONAKA, I.; TOYAMA, R.; KONNO, N. SECI, BA and
leadership: a unified model of dynamic knowledge
MCBRIDE, G. Agricultural cooperatives: their why and creation. Long Range Planning, New York, v. 33, n. 1, p.
their how. Westport: AVI, 1986. 5-34, 2000.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 414-426, 2011


426 BINOTTO, E. et al.

NONAKA, I.; UMEMOTO, K.; SENOO, D. From SPENDER, J. C. Organizational knowledge, learning and
information processing to knowledge creation: a paradigm memory: three concepts in search of a theory. Journal of
shift in business management. Technology in Society, Organizational Change Management, New York, v. 9, n. 1,
London, v. 18, n. 2, p. 203-218, 1996. p. 63-78, 1996.

OLIVEIRA, N. B. D. Cooperativismo: guia prático. Porto ______. Pluralist epistemology and the knowledge-based
Alegre: Fundação para Desenvolvimento de RH, 1984. theory of the firm. Organization, Chicago, v. 5, n. 2, p. 233-
256, 1998.
PEDLER, M. Biography work for organisational learning:
strategy or destiny? Management Education and STEFANSON, B.; FULTON, M.; HARRIS, A. New
Development, New York, v. 23, n. 3, p. 258-271, 1992. generation co-operatives: rebuilding rural economies Centre
of the Study of Cooperatives. Disponível em: <[Link]
POLANYI, M. The tacit dimension. New York: Garden City, [Link]/>. Acesso em: 5 abr. 2008.
1967.
WANER, J. NGC case study: new generation cooperatives
PURPER, D. L. Integração social: condição para o and the future of agriculture: an introduction. Illinois: Illinois
desenvolvimento cooperativo, reflexões preliminares na Institute for Rural Affairs, 2000. Disponivel em: <http://
busca de um modelo. Perspectiva Econômica, São Paulo, [Link]/>. Acesso em: 4 abr. 2008.
ano 15, v. 10, n. 27, p. 73-98, 1980.
WENGER, E. C. Communities of practice: learning, meaning,
SACKMANN, S. A. Cultural knowledge in organizations: and identity. Cambridge: Cambridge University, 1998.
exploring the collective mind. Newbury Park: Sage, 1991.
______. Communities of practice: the structure of
SCHEIN, E. H. Organizational culture. American knowledge stewarding. In: DESPRES, C.; CHAUVEL, D.
Psychologist, Chicago, v. 15, p. 109-119, Feb. 1990. Knowledge horizons: the present and the promise of
knowledge management. Boston: Butterworth-Heinemann,
______. Organizational culture and leadership. San 2000. p. 205-265.
Francisco; London: Jossey-Bass, 1985.
WENGER, E. C.; MCDERMOTT, R.; SNYDER, W.
SCHNEIDER, J. O. Democracia, participação e autonomia Cultivating communities of practice: a guide to managing
cooperativa. Perspectiva Econômica - Série knowledge. Boston: Harvard Business School, 2002.
Cooperativismo, São Paulo, v. 26, p. 29-30, 1991.
WENGER, E. C.; SNYDER, W. M. Communities of practice:
SERENKO, A.; BONTIS, N. Meta-review of knowledge the organizational frontier. Harvard Business Review,
management and intellectual capital literature: citation Oxford, v. 78, n. 1, p. 139-145, 2000.
impact and research productively rankings. In:
MANAGEMENT OF INNOVATION AND NEW ______. Comunidades de prática a fronteira organizacional.
TECHNOLOGY RESEARCH CENTRE, 2004, Ottawa. In: REVIEW, H. B. Aprendizagem organizacional. Rio de
Proceedings… Ottawa, 2004. 1 CD-ROM. Janeiro: Campus, 2001. p. 9-26.

SONKA, S. T. et al. Production agriculture as a knowledge WILSON, W. E. Co-operation: some thoughts for the future:
creating system. The International Food and Agribusiness a personal view. Journal of Royal Agricultural Society of
Management Review, Oxford, v. 2, n. 2, p. 165-178, 1999. England, London, v. 160, p. 99-105, 1999.

Organizações Rurais & Agroindustriais, Lavras, v. 13, n. 3, p. 414-426, 2011


NORMAS E ORIENTAÇÕES PARA PUBLICAÇÃO

A revista “Organizações Rurais & Agroindustriais”, a partir de 2005 passa a ser um periódico
quadrimestral editado pelo Departamento de Administração e Economia da Universidade Federal de Lavras,
com o apoio da Editora UFLA. Enfatizando o conhecimento sobre a Administração de setores específicos,
seu objetivo é publicar artigos científicos e ensaios elaborados pela comunidade acadêmica e interessados
nas áreas de “gestão de cadeias agroindustriais”, “gestão social, ambiente e desenvolvimento”, “organizações/
associativismo”, “mudança e gestão estratégica”, “economia, extensão e sociologia rural”.
Os textos devem ser redigidos em linguagem clara, direta e objetiva, seguindo as normas da ABNT,
em respeito aos leitores, a maioria composta de pesquisadores e praticantes de administração de organizações
públicas e privadas ligadas, direta e indiretamente, aos setores rural e agroindustrial.
As contribuições podem ser escritas em Português, Espanhol, Francês e Inglês. O artigo deve ser
inédito, não tendo sido enviado a outro veículo de publicação. A critério do Conselho Editorial, trabalhos
originalmente publicados em língua estrangeira podem ser aceitos em caráter excepcional.

Normas de apresentação:

1 O artigo deve ser formatado em papel A4; margens superior (3 cm), inferior (2 cm), esquerda (3 cm),
direita (2 cm); espaçamento de 1,5 linha e alinhamento justificado, empregando editor de texto MS Word,
versão 6 ou superior, fonte Times New Roman tamanho 12 e limite máximo de 25 páginas, incluindo quadros,
tabelas, notas, gráficos, ilustrações e referências bibliográficas. Colocar o título no início do trabalho, omitindo
a identificação do(s) autor(es).

2 Após o título, incluir um resumo em Português com cerca de 15 linhas ou até 250 palavras, sem parágrafos,
contendo objetivo, método, resultados e conclusão do trabalho, assim como um mínimo de três e o máximo de
cinco palavras-chave. Todos os resumos deverão ter a versão em Inglês (abstract, incluindo o título do artigo
e as key words). Os artigos submetidos em Espanhol ou Francês deverão ter resumo e palavras-chave no
idioma original, em Português e em Inglês.

3 O trabalho deverá ser enviado pelo correio em disquete de 3 ½ HD ou CD-ROM e três cópias impressas
em papel A4.

4 Imprimir e anexar, em folha de papel separada, o título do artigo em Português e em Inglês, identificando
o(s) nome(s) completo(s) do(s) autor(es), acompanhado(s) de breve curriculum vitae, incluindo titulação
acadêmica, experiência profissional e/ou acadêmica, área(s) de interesse em pesquisa, instituição(ões) de
vinculação, endereço, e-mail, telefone e fax. Tais dados devem também ser gravados como arquivo adicional
no disquete, sob o título “Identificação-Autores”.

5 Aconselha-se o número máximo de três autores por artigo. Havendo mais de três, os demais deverão ser
apresentados como colaboradores.

6 As Referências Bibliográficas deverão atender às normas da ABNT – NBR-6023. Ao pé das tabelas


apresentadas deverá constar a fonte de origem dos dados.

7 Caso o artigo contenha figuras, fotografias, gráficos, símbolos e fórmulas, essas deverão obedecer as
seguintes normas:

7.1 Figuras e/ou fotografias deverão ser apresentadas em preto e branco, nítidas e com contraste, inseridas
no texto após a citação das mesmas e também em um arquivo a parte, salvas em extensão “TIFF” ou
“JPEG”com resolução de 300 dpi. As figuras deverão ser elaboradas com fonte Times New Roman,
tamanho 10, sem negrito, sem caixa de textos e agrupadas;
7.2 Gráficos deverão ser inseridos após citação dos mesmos, dentro do próprio texto, elaborado
preferencialmente em Excel, com fonte Times New Roman, tamanho 10, sem negrito;
7.3 Símbolos e fórmulas matemáticas deverão ser feitas em processador que possibilite a formatação
para o programa Page Maker (ex: MathType, Equation), sem perda de suas formas originais.

8 O autor principal será notificado sobre o recebimento do original e, posteriormente, será informado sobre
sua publicação. Os artigos que necessitarem de modificações serão devolvidos ao autor para a devida revisão.
9 Todos os artigos serão avaliados por consultores Ad Hoc pelo sistema “BLIND REVIEW”.

10 O trabalho dos autores e consultores não será remunerado. O artigo publicado fará jus a 01 (um) exemplar
da revista, a ser enviado a cada um dos seus autores.

Os trabalhos deverão ser enviados para o seguinte endereço:


Organizações Rurais & Agroindustriais
Conselho Editorial
Departamento de Administração e Economia – Universidade Federal de Lavras/UFLA
Caixa Postal 3037 – CEP: 37200-000 – Lavras, MG
Fone: (35) 3829-1762
Informações adicionais: revistadae@[Link] ou [Link]
NORMAS Y ORIENTACIÓN PARA PUBLICACIÓN

La revista “Organizaciones Rurales y Agroindustriales”, a partir de 2005 pasa a ser un periódico


cuatrimestral editado por el Departamento de Administración y Economía de la Universidad Federal de
Lavras, con el apoyo de la editora UFLA.
Enfatizando el conocimiento sobre la administración de sectores específicos, su objetivo es publicar
artículos científicos y ensayos elaborados por la comunidad académica e interesados en las áreas de “gestión
de cadenas agroindustriales”, “economía, extensión y sociología rural”.
Los textos deben ser escritos en lenguaje claro, directo y objetivo, siguiendo las normas de la ABNT,
en respeto a los editores, la mayoría compuesta de investigadores y practicantes de administración de
organizaciones públicas y privadas, ligadas directa e indirectamente, a los sectores rural y agroindustrial.
Las contribuciones pueden ser escritas en Portugués, Español, Francés e Inglés. El artículo debe ser
inédito y puede ser enviado a otras publicaciones. Por criterio del Consejo editorial, trabajos originalmente
publicados en lengua extranjera pueden ser aceptados con carácter excepcional.

Normas de Presentación

1. El articulo debe en formato de papel A4; márgenes superior (3cm), inferior(2cm), izquierda(3cm),
derecha(2cm); espacio entre líneas de 1,5 y alineamiento justificado, empleando editor de texto MS Word,
versión 6, o superior, fuente Times New Roman, tamaño 12 y limite de máximo 25 páginas, incluyendo
cuadros, tablas, notas, gráficos, ilustraciones y referencias bibliográficas. Colocar el título al inicio del trabajo,
omitiendo la identificación de los autores.

2. Después del título, incluir un resumen en Portugués con cerca de 15 líneas o hasta 250 palabras, sin
párrafos, debe contener objetivo, método, resultados y conclusión del trabajo, así como un mínimo de tres y
máximo de cinco palabras clave. Todos los resúmenes deben tener versión en inglés (abstract, incluyendo el
titulo del articulo y las Key words). Los artículos sometidos en español o Francés, deberán tener resumen y
palabras clave en el idioma original, en Portugués y en Inglés.
3. El trabajo deberá ser enviado por correo en CD-ROM y tres copias impresas en papel A4.

4. Imprimir y anexar en hoja de papel separada, el titulo del articulo en Portugués y en Inglés, identificando el
(los) nombre (s) completo (s) de el (los) autor (es), acompañados de un breve currículo vitae, incluyendo
titilación académica, experiencia profesional y o académica, áreas de interés en investigación, instituciones
de vinculación, dirección, e-mail, teléfono y fax. Todos los datos deben ser grabados como archivo adicional
en el CD con el titulo “Identificación-Autores”.

5. Se aconseja un número de máximo tres autores por artículo. Habiendo más de tres, los demás deberán ser
presentados como colaboradores.
6. Las referencias bibliográficas deberán atender a las normas de la ABNT-NRB-6023. Igualmente al final
de las tablas, deberán constar la fuente de origen de los datos.

7. Caso el articulo contenga fotografías, gráficos, figuras, símbolos e formulas, esas deberán obedecer a las
siguientes normas.

Figuras/Fotografías deberán ser presentadas en negro y blanco, nítidas y con contraste, colocadas en el texto
después de ka citación de las mismas y también en un archivo aparte, guardadas en extensión “TIFF” o
“JPEG” con resolución de 300 dpi. Las figuras deberán ser elaboradas con fuente Times New Roman,
tamaño 10, sin negrita, sin cajas de texto y agrupadas.

Gráficos, deberán ser insertados después de la citación de los mismos, dentro del propio texto, elaborados
preferencialmente en Excel (ej: Mathtype, Equation), sin perdida de sus informaciones originales.
8. El autor principal será notificado sobre el recibimiento del original y posteriormente, será informado sobre
su publicación. Los artículos que necesiten modificaciones serán devueltos al autor para la debida revisión.

9. Todos los artículos serán evaluados por consultores Ad Hoc por el sistema “Blind Review”.
10. El trabajo de los autores y consultores no será remunerado. El artículo hará jus a 01 (un) ejemplar de la
revista, a ser enviado a cada uno de sus autores.

Los trabajos deberán ser enviados para la siguiente dirección:

Organizações Rurais & Agroindustrias


Conselho Editorial
Universidade Federal de Lavras
Departamento de Administração e Economia-Universidade Federal de Lavras/UFLA
Caja Postal 3037 – CEP 37200-000 – Lavras-MG
Telefono: (35) 3829-1762
Informaciones Adicionales: revistadae@[Link] ou http//[Link]/revista
GUIDELINES AND ORIENTATION FOR SUBMISSION

Since 2005 the Journal “Organizações Rurais e Agroindustriais” has been edited four-monthly by the
Department of Business Administration and Economy of Federal University of Lavras, with support from
UFLA Publishing.
Emphasizing the development of knowledge in Business Administration of specific sectors, the goal of
this Journal is to publish scientific articles as well as working papers developed by the academic community
and collaborators in the areas of “management of agribusiness chain,” “social management, environment and
development,” “organization/association forms”, “strategic management and changing”, “economy, rural
sociology and extension.”
The manuscripts must be written in clear, straight and objective form, under the norms of ABNT, in
order to reach our readers, most of whom researchers, as well as people related to the management of
organizations in public or private sectors, direct or indirectly associated to rural and agri-industrial fields.
The manuscripts can be submitted in Portuguese, Spanish, French, and English. The manuscripts must
be original and not been previously sent elsewhere for publishing. Works originally published in foreign languages
can exceptionally be accepted under evaluation by the Editorial Board.

Rules of presentation

1 The article must be configured for A4 paper; with 3cm of superior margin, 2cm of inferior, 3cm of right, and
2cm of left, using 1,5 lines of line spacing and justified alignment. The word processor utilized is the Microsoft
Word, version 6 or later, Times New Roman font size 12. Manuscripts must not exceed the maximum of 25
pages including charts, tables, figures, illustrations and references. Manuscripts must contain a title in the
heading line of the work without the authors’ identification.

2 The manuscript must include an abstract in Portuguese following its title, of approximately 15 lines or 250
words, without paragraphs, containing the article’s objective, methodology, results and conclusion, as well as
a minimum of three and a maximum of five key-words. Abstracts in Portuguese must contain a respective
version in English, including title and key-words. Manuscripts submitted in Spanish or French must contain an
abstract and key-words in the original language, as well as in Portuguese, and English.
3 Submissions can be done by mail in 3 ½ HD disk or CD-ROM, including three printed copies in A4 paper.

4 Submissions must include an additional page containing the title in both Portuguese and English, along with
the identification of the author(s), containing the full name(s) of the author(s) and a brief curriculum vitae
with information on academic titles, professional and/or academic experiences, research fields of interest,
belonging institutions, address, e-mail, telephone and fax number. Such information must be saved in a separate
file in the disk under the file’s name “Identification of the Author(s)”.
5 This Journal will consider a maximum of three authors per article. In case of more than three, the exceeding
one(s) will be referred to as collaborator(s).
6 Bibliography references must follow the rules of ABNT – NBR-6023. Tables presented in the manuscript
must contain the data source of origin.

7 Figures, photographs, graphs, symbols and formula must be configured as follows:

7.1 Figures and photos must be presented in black and white, clear and with contrast, and inserted
in the text after their citation. They also must be saved in a separate file (on the same diskette as the
article) in extention “ TIFF” or “JPEG”, with format in 300 dpi resolution. The figures must be
elaborated using Times New Roman font, size 10, without bold and text box; they also must be
arranged;
7.2 Graphs must be inserted in the text after their citation, elaborated preferentially in Excel, using Times
New Roman font, size 10, without bold;
7.3 Symbols and mathematic formula must be presented using a processor that they can be handled by the
Page Maker program (ex: Math Type, Equation), without loss of their original form.

8 The first author will be notified upon the receiving of the manuscript and informed afterwards of its
acceptance for publication. Manuscripts needing reviewing will be sent back to the authors for proceedings
in that sense.
9 All submissions will be evaluated by the Ad Hoc reviewers under the BLIND REVIEW system.

10 Authors and reviewers will not be paid for the work: each article published will assure the right to receive
01 (one) issue of the Journal, which will be sent to the authors.

Manuscripts should be mailed to:


Organizações Rurais & Agroindustriais
Conselho Editorial
Departamento de Administração e Economia/ Universidade Federal de Lavras
Caixa Postal 3037 – Lavras, MG – Brazil – CEP: 37200-000
Tel. (55xx35)3829-1762
Further information: revistadae@[Link] or [Link]
ORGANIZAÇÕES RURAIS & AGROINDUSTRIAIS
DEPARTAMENTO DE ADMINISTRAÇÃO E ECONOMIA
UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS – CAIXA POSTAL 3037
LAVRAS, MG – CEP: 37.200-000
FONE: (35) 3829-1762 FAX: (35) 3829-1772
e-mail: revistadae@[Link]
site: [Link]/revista/assinatura

Prezado (a) Senhor (a):

Gostariamos de convidar V. S. a para iniciar ou renovar a assinatura da revista Organizações Rurais &
Agroindustriais. Para isso preencha o cupom em anexo, garantindo assim o recebimento dos exemplares diretamente
no seu endereço com todo o conforto.

( ) NOVA ( ) RENOVAÇÃO

Nome: ________________________________________________________________________________________

Razão Social: __________________________________________________________________________________

Endereço: _____________________________________________________________________________________

Bairro: _______________ Caixa Postal: ______________ Estado:_________ Cidade: ______________________

CNPJ: _____________________________________ Inscrição Estadual: _________________________________

Telefone/Fax: ____________________________________e-mail: _______________________________________

Anexo comprovante de depósito _______________________________ Banco _____________________________

No valor de R$ ______________________________________________________________ Data: ____/____/____

DADOS BANCÁRIOS:
UFLA - DAE - REVISTA
Banco do Brasil, Agência 0364-6, Conta Corrente: 2071-0 FAEPE -
Enviar o comprovante de depósito via Fax ou pelo Correio. CNPJ: 19.084.599/0001-17

ASSINATURA:
1 ano: R$ 50,00
2 anos: R$ 80,00
Número avulso: R$ 20,00/ cada

Common questions

Com tecnologia de IA

The primary challenges in hedging agricultural commodities like soy in Mato Grosso include managing price volatility and exchange rate fluctuations due to their significant impact on revenue, particularly as exports constitute a substantial portion of producers' incomes . However, opportunities arise from employing strategies like simultaneous hedging of price and exchange rate risks, using futures contracts on platforms like BOVESPA-BM&F, which can reduce overall portfolio variance and improve income stability . Efficient hedging strategies can mitigate risks, but require accurate forecasts of economic variables and understanding of market dynamics .

The deregulation process in Brazil's sugar-alcohol sector has shifted the role of the state from an interventionist to a coordinator, fostering a more competitive and dynamic industry environment . This transformation led to technological advancements and strategic reorganizations within companies, resulting in increased productivity and reduced production costs . In the long term, deregulation encourages market efficiency and global competitiveness, yet may also increase market concentration, potentially limiting competition and innovation if not managed appropriately .

The concentration of sugarcane production in Minas Gerais has increased significantly, with larger enterprises gaining a greater market share . Foreign capital has played a crucial role in this process, constituting 12.8% of the sugarcane crushed in Minas Gerais, with a trend towards increasing participation . This influx of international investments has led to the dominance of large conglomerates in the sector, further driving the concentration of production . The involvement of foreign capital also facilitates the incorporation of technological innovations and new management methods within the sector .

Shifts in international capital participation have significantly transformed the sugarcane industry in Minas Gerais by increasing competitiveness and market concentration . The involvement of foreign investors has led to the establishment of new ventures and modernization of existing facilities, enhancing economies of scale and productivity . As a result, this influx of capital has contributed to a more oligopolistic market structure, potentially raising entry barriers for smaller players and concentrating industry control among a few major entities, which impacts both strategic direction and innovation .

Adopting modern post-harvest technologies in Brazilian agriculture can lead to significant benefits, including improved product quality, reduced losses, and enhanced marketability, especially for export . These technologies can optimize processing and packaging, ensuring that products meet international standards and consumer expectations . However, drawbacks include the high initial costs and the need for skilled labor or training to effectively implement such technologies . Furthermore, smaller producers may face challenges in accessing these technologies due to financial constraints or lack of infrastructure .

International supply chain standards have significantly influenced Brazilian fruit production and export, as compliance with these standards is essential for accessing global markets . These norms often surpass domestic requirements, compelling local producers to improve production methods, post-harvest technologies, and environmental practices . The demand for consistent quality and supply from international buyers has led to greater integration in the value chain, improving the speed and quality of production through knowledge transfer from global buyers to local producers .

Government policies have a significant influence on cooperative farming practices in Brazil by providing support and incentives that encourage collaboration among local agricultural communities . Policies that promote cooperative organization can lead to enhanced resource sharing, reduced individual farmer risks, and improved access to markets . These initiatives can strengthen rural communities by fostering a collective approach to problem-solving and innovation. However, the effectiveness of these policies depends on their alignment with local needs and the provision of sufficient resources and training to support farmers in adapting to new cooperative models .

Vertical coordination in the agricultural supply chain can enhance the competitiveness of aquaculture in Minas Gerais by fostering stronger alliances among producers, suppliers, and processors . Such coordination can facilitate standard pricing, quality standards, and cooperative technical support, ensuring a competitive edge in both domestic and international markets . This approach could reduce informality in the supply chain and ensure consistent quality and pricing, which are crucial for competing on a global scale. Additionally, vertical integration can lead to the aggregation of value at each stage, improving market positioning and profitability .

Since the 1960s, the Brazilian government has placed significant emphasis on generating and disseminating knowledge and technology, recognizing the importance of increased land productivity and scientific advancement in driving agricultural expansion . This focus on technological diffusion has been critical for improving agricultural productivity, as it allows for the adoption of new methods that enhance efficiency and output. The success of these technologies depends on factors such as profitability, access to capital, and training, highlighting the complex interplay between technological advancements and socio-economic factors in agriculture .

The increase in sugarcane production in Minas Gerais is largely attributed to the launch of flex-fuel vehicles and favorable export prospects for ethanol fuel, which have encouraged expansion into new agricultural frontiers beyond São Paulo . Additionally, the process of deregulation in the 1990s led to a shift in the state's role from intervener to coordinator, creating a more competitive environment that encouraged technological innovation among dynamic companies . These innovations, in turn, facilitate improvements in products, equipment, and manufacturing methods, enhancing productivity and reducing production costs .

Você também pode gostar