Comemorações do Dia do Exército 2024
Comemorações do Dia do Exército 2024
Comemorações do
Dia do Exército
GUARDAmo-vos no coração!
SUMÁRIO
06 18 52
05 Editorial
68 Acontecimentos
Greca – Artes Gráficas, Lda. – Rua José Maria
Baptista Valente, 194 Armazém – A
4465-260 S. Mamede de Infesta,
Tel: 229 069 660, e-mail: comercial@[Link]
Tiragem: 3000 exemplares
Depósito Legal n.º 1465/82 ISSN – 0871/8598
Preço de Capa: €2,00;
Assinatura anual: 11 números; via superfície –
Continente, Açores e Madeira (€20,00); via aérea –
países europeus (€45,00); restantes países: (€65,00)
3
EDITORIAL
Caros leitores,
C
elebrou-se, em 24 de outubro, o Dia do Exér- Na secção do Jornal dedicada à Cultura e Lazer, con-
cito, data a que naturalmente damos destaque cretamente na Visão da História, na senda da evocação
nesta edição do Jornal do Exército, através da dos feitos de armas de D. Afonso Henriques, lembramos,
reportagem realizada na cidade da Guarda, palco este ano no artigo “A Tomada de Lisboa de 1147”, a data histórica
das comemorações oficiais, a par da cidade de Coimbra, que se consagrou como Dia do Exército.
onde, entre outros eventos, teve lugar uma evocação his- Igualmente na Visão da História, na subsecção Tra-
tórica ao Patrono do Exército e a tradicional Celebração dições Militares, o Sargento-Chefe de Administração
Eucarística em Homenagem a D. Afonso Henriques. Militar José Santos recorda-nos a origem das “Salvas de
A Artilharia de Campanha desempenha um papel Artilharia”, com uma longa tradição no cerimonial das
central no âmbito do Apoio de Fogos, em cenários de continências e honras militares, desde o século XVI.
alta intensidade como o que carateriza o atual conflito da O Jornal do Exército agradece o valioso contributo da-
Ucrânia. O obus autopropulsionado CAESAR surge em dos pelos seus colaboradores, que em muito vem enrique-
resposta a esta necessidade, destacando-se pela sua mo- cer esta publicação.
bilidade, alcance e simplicidade operacional. Na rubrica
Atualidades, no artigo “Aquisição Conjunta de Obuses Boas leituras
CAESAR”, o Major de Artilharia Aires Carqueijo descre-
ve-nos as caraterísticas desta nova arma, bem como o seu Jornal do Exército
processo de aquisição conjunta, decorrente de uma ini-
ciativa de cooperação europeia liderada pelo Ministério
da Defesa Francês.
Na mesma rubrica, o Coronel Tirocinado de Infanta-
ria António José Oliveira, autor da obra A Presença Mili-
tar em Coimbra, em conjunto com a Major Ana Rita Mar-
ques, descreve-nos o Centro Interpretativo da Presença
Militar em Coimbra, um núcleo museológico integrado
no Aquartelamento de Sant’ Ana, sede da Brigada de In-
tervenção, um espaço também ele ligado à História e à
memória da cidade e do Exército.
Ainda na rubrica Atualidades, divulgamos o “Seminá-
rio de Guerra Irregular e Defesa Nacional”, realizado na
Academia Militar, o qual teve por objetivo dar a conhecer
as capacidades e o conhecimento do Exército no emprego
de operações irregulares em contexto de defesa nacional,
tendo em conta o capital de conhecimento detido pelo
Exército Português nesta área e, bem assim, o atual con-
texto de segurança na Europa.
Assinalou-se, em 29 de setembro, uma data históri-
ca no âmbito das relações bilaterais entre Portugal e Es-
panha, a assinatura há 160 anos do Tratado de Limites
entre os dois Estados, o qual definiu uma linha de fron-
teira assente em critérios científicos. A data e a história
da secular relação entre os dois países foram relembradas
na conferência realizada no Palácio da Ajuda, local da as-
sinatura do Tratado em 1864, de que aqui recuperamos
algumas notas.
No plano operacional, o artigo “Cross Trainings na
Missão Multidimensional integrada das Nações Unidas
na República Centro Africana”, da autoria do Tenente de
Infantaria João Dias, fala-nos nos exercícios realizados
pela Força nacional naquele Teatro de Operações, con-
juntamente com forças de outros países, tendo em vista
Capa do Jornal do Exército, "Conjunto de uniformes militares de tropas de
reforçar a interoperabilidade e a eficácia das operações e infantaria portuguesa nos séc. XVIII e XIX", agosto de 1978,
melhorar a cooperação entre as forças. aguarelas de Coronel Ribeiro Artur.
5
Frederica Alvarenga da Cunha
Alferes
Redatora do Jornal do Exército
O
Dia do Exército comemora-se a 24 de outubro, as Unidades, Estabelecimentos e Órgãos do Exército pro-
data que celebra a tomada de Lisboa aos Mou- moveram a “abertura de portas à comunidade”, visando o
ros, em 1147, pelas tropas de D. Afonso Hen- reforço da relação de proximidade e ligação à população
riques, Patrono do Exército Português. Este ano, as ativi- da região onde estão inseridas, assim como a apresentação
dades comemorativas do Dia do Exército centraram-se na de meios e capacidades.
cidade da Guarda, de 22 a 27 de outubro, e em Coimbra, A magnífica cidade da Guarda, a mais alta de Portugal,
no dia 24 de outubro. Na semana de 21 a 27 de outubro, insere-se numa região marcada pelo granito, pelo clima
6
EM FOCO
8
EM FOCO
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EM FOCO
obra do Professor Luís Miguel Mo- Francesa, General Diaz de Tuesta, e da Guarda, e, como referido anterior-
rais, docente do Instituto dos Pupilos do Diretor-Geral de Recursos de De- mente, o ponto alto das comemora-
do Exército, que homenageia a ci- fesa Nacional, Dr. Vasco Hilário; e ções - a Cerimónia Militar, no Parque
dade e o seu legado, recriando o seu um Concerto da Banda Sinfónica do Urbano Rio Diz. A finalizar as cele-
símbolo icónico, o "Cristal de Gelo", Exército, com a participação da Tuna brações do Dia do Exército, decor-
elaborado com metais ferrosos, ferro Copituna d´Oppidana e de Rita Mo- reu a Cerimónia de Encerramento,
e aço; o Desfile Militar pelas ruas da rais, que alegraram o final da noite. na Praça Luís de Camões, momento
cidade, com uma coluna de viaturas O último dia teve início com as em que o Comandante do Exército
representativas das várias capacida- Cerimónias de Homenagem ao Regi- entregou a Bandeira Nacional, que
des do Exército, combinando veícu- mento de Infantaria 12 e aos Mortos esteve hasteada durante os seis dias,
los modernos e relíquias históricas; em Campanha, seguindo-se a Missa ao Presidente da Câmara Municipal
um Sarau Gímnico e Musical, que de Ação de Graças e Sufrágio, na Sé da Guarda. JE
contou com apresentações de dança,
ginástica e música, interpretadas por
jovens talentos da Academia Militar,
do Colégio Militar e do Instituto dos
Pupilos do Exército, reunindo, igual-
mente, jovens de estabelecimentos
de ensino da região; a Cerimónia
de Assinatura do Framework Arran-
gement, referente à aquisição de um
novo sistema de armas de artilharia,
o Obus Caesar, a qual foi presidida
pelo Ministro da Defesa Nacional,
Dr. Nuno Melo, e contou com a pre-
sença da Embaixadora da República
Francesa, Dr.ª Hélène Farnaud-De-
fromont, do Diretor do Desenvol-
vimento Internacional da Direção-
-Geral do Armamento da República
1
Forte: A força da cidade é demonstrada pela torre do castelo, as muralhas e a sua posição geográfica. Farta: Pela riqueza do vale do Rio Mondego. Fria:
Devido à proximidade da Serra da Estrela e à sua elevada altitude. Fiel: Porque Álvaro Gil Cabral, Alcaide-Mor do Castelo da Guarda e trisavô de Pedro
Álvares Cabral recusou entregar as chaves da cidade ao Rei João I de Castela durante a Crise Dinástica de 1383–1385. Ele também lutou na Batalha de Al-
jubarrota e participou nas Cortes de Coimbra de 1385, onde elegeu o Mestre de Avis como Rei Dom João I de Portugal. Formosa: Pela sua beleza natural.
Major de Artilharia
Coordenador de Área, da Repartição de Capacidades, da Divisão de Planeamento Militar Terrestre, do Estado-Maior do Exército
N
o campo da defesa e em particular ao nível das A crescente necessidade de equilibrar fogos de precisão
Forças Terrestres, a modernização das capaci- com fogos de massa tornou-se não apenas desejável, mas
dades de Apoio de Fogos (AF) é essencial para essencial, exigindo forças de AC versáteis, interoperáveis
enfrentar os desafios das operações contemporâneas. Nes- e prontas para responder a múltiplas ameaças, reforçando
te âmbito, a Artilharia de Campanha (AC) desempenha a urgência em dotar o Exército com sistemas modernos e
um papel central, destacando-se como elemento decisivo fiáveis. Neste contexto, o obus CAESAR 1 surge como uma
em cenários de alta intensidade, como se verifica no con- solução robusta e comprovada, destacando-se pela sua
flito em curso na Ucrânia. mobilidade, alcance e simplicidade operacional.
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CAPACIDADES >>> ATUALIDADES
O Obus CAESAR
O obus CAESAR é um sistema
autopropulsado, comercializado pela
KNDS 2, equipado com um tubo ca-
nhão de 155mm e 52 calibres de
comprimento. Destaca-se pela com-
binação de mobilidade tática, capaci-
dade de resposta rápida e baixo cus- tiro computadorizado, permitindo bilidade e flexibilidade tática. Monta-
to de operação em comparação com elevada precisão e rapidez na execu- do sobre um chassis de uma platafor-
sistemas de AC mais pesados. Além ção de missões de tiro. A capacidade ma com tração 6x6, destaca-se pela
disso, o vasto portefólio de munições de efetuar "shoot-and-scoot" 4 mini- sua capacidade de operar em terre-
compatíveis e a facilidade de opera- miza o tempo de exposição após os nos variados, incluindo zonas urba-
ção/manutenção tornam-no a esco- disparos. nas e áreas de difícil acesso. Com um
lha ideal para forças que necessitam Este obus está disponível em três peso de 18 toneladas, comprimento
de soluções flexíveis e eficazes. versões principais, cada uma com total de 9,86 metros e altura de 2,64
Permite disparar até seis projéteis características distintas, mas man- metros, é ideal para projeção rápida,
por minuto e possui um alcance má- tendo a base comum de eficiência e podendo ser transportado por aero-
ximo que ronda os 40 km (munições robustez: naves como o C-130. O CAESAR 6x6
base bleed), podendo chegar aos 50 CAESAR 6x6 - O obus CAESAR 6x6 é especialmente valorizado por forças
com munições Excalibur 3. Está equi- é a versão mais compacta e ligeira, que priorizam agilidade logística e a
pado com um sistema de controlo de concebido para oferecer elevada mo- simplicidade operacional.
CAESAR 8x8 - O obus CAESAR 8x8
é a versão mais longa e pesada, tendo
sido projetado para oferecer maior
capacidade de carga. Montado sobre
um chassis de uma plataforma com
tração 8x8, com um comprimento
de 12,3 metros, permite o transpor-
te de até 30 munições prontas para
uso (quase o dobro da versão 6x6). É
particularmente útil em missões de
apoio prolongado e para forças com
maiores recursos logísticos, sendo
necessário considerar o acréscimo de
recursos necessários para a sua proje-
ção, bem como a dificuldade acresci-
da de ocultação no campo de batalha.
CAESAR 6x6 MK II - A versão CAE-
SAR 6x6 MK II introduz melhorias
Obus CAESAR 6X6 significativas em relação às versões
Fonte: KNDS anteriores, com foco na proteção, re-
O Processo Aquisitivo
A aquisição conjunta de obuses
CAESAR 155mm decorre de uma
iniciativa de cooperação europeia
liderada pela Direction Générale de
l’Armement (DGA) do Ministério
da Defesa Francês. O acordo origi- Obus CAESAR MK II
nal – Framework Arrangement 5 (FA) Fonte: KNDS
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CAPACIDADES >>> ATUALIDADES
1
CAmion Équipé d'un Système d'ARtillerie.
2
Holding europeia da indústria de defesa, criada em 2015 como resultado da fusão entre a Krauss Maffei Wegmann (empresa alemã) e a Nexter Systems
(empresa francesa), que comercializa o obus CAESAR.
3
Munição de precisão que possui um foguete propulsor integrado.
4
Técnica que consiste em mudar de posição imediatamente após os disparos, antes que o adversário possa localizar e atacar a unidade. Diminui o risco de
ataques de contrabateria e confunde o adversário.
5
“Acordo-Quadro” que estabelece as condições gerais para cooperação entre as partes.
6
Emenda ou alteração formal efetuada a um documento, que permite adicionar participantes, atualizar ou modificar termos e especificar detalhes opera-
cionais, mantendo a base jurídica do acordo inicial.
7
Termo que descreve equipamentos ou sistemas comercialmente disponíveis no mercado e que podem ser adquiridos "como estão" (ou com ajustes mí-
nimos) para atender às necessidades.
C
oimbra, a cidade dos estudantes, reconhecida A sua localização estratégica tornou-a palco de impor-
como símbolo do conhecimento e da cultura, tantes eventos históricos e centro de operações militares.
tem também uma longa e profunda ligação à Sendo escolha de Dom Afonso Henriques para sua base
história militar portuguesa. Desde as suas origens como de operações na expansão do novo reino, constituindo-
um bastião defensivo no centro de Portugal, desempe- -se como sua última morada, a cidade viu-se no centro
nhou um papel fundamental na expansão, consolidação e dos acontecimentos militares e políticos na Guerra Civil
defesa do território nacional. de 1245-1247. Teve posteriormente um papel muito ati-
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DIVULGAÇÃO >>> ATUALIDADES
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DIVULGAÇÃO >>> ATUALIDADES
Alferes
Redatora do Jornal do Exército
N
o passado dia 10 de setembro, o Auditório O seminário visou afirmar, tanto a nível nacional como
Marquês de Sá da Bandeira, da Academia Mi- internacional, a competência e domínio do Exército Por-
litar, na Amadora, foi palco do «Seminário tuguês na execução de Operações Irregulares. A invasão
de Guerra Irregular e Defesa Nacional». Este evento teve da Ucrânia pela Rússia, iniciada em fevereiro de 2022, de-
como objetivo destacar as capacidades e o conhecimento sencadeou uma crise de segurança que afeta toda a Euro-
do Exército Português no emprego de Operações Irregu- pa, sublinhando a importância das atividades irregulares
lares em contexto de Defesa Nacional. como forma de defesa territorial. Neste contexto, as For-
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DOUTRINA >>> ATUALIDADES
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DOUTRINA >>> ATUALIDADES
das da Ucrânia. O Tenente-Coronel sentantes do Comando de Operações restres, as suas capacidades e o modo
destacou a Resistência como um pi- Especiais do Reino de Espanha, do de implantação em rede, concluindo
lar da resiliência nacional, afirmando Comando de Operações Especiais com a valorização das Forças de Ope-
que o Movimento de Resistência é “o da Finlândia, das Forças Armadas rações Especiais Terrestres na Guerra
povo da Ucrânia”, organizado pelas de França e das Forças Armadas dos Irregular.
Forças de Operações Especiais nos Estados Unidos da América. O pai- Na apresentação seguinte, o Co-
territórios ocupados. Para o sucesso nel integrou cinco reflexões distintas ronel Carlos Reina, segundo Co-
da resistência nacional, enfatizou a sobre a visão da Guerra Irregular e a mandante do Comando das Opera-
importância da formação ideológica Defesa Nacional, abrangendo as pers- ções Especiais do Exército Espanhol,
de toda a população, desde os mais petivas do Reino Unido, dos Estados abordou o tema “Guerra Irregular e
jovens aos mais velhos, além da for- Unidos, da Finlândia e da França. a Defesa Nacional em Espanha”. Du-
mação militar. Sobre as ações das O Brigadeiro-General Neil Grant, rante a sua apresentação, o Coronel
Forças de Segurança da Federação Assistant Chief of Staff das Forças de Reina destacou a crescente comple-
Russa nos territórios ucranianos ocu- Operações Especiais do Exército do xidade dos conflitos modernos, onde
pados, o Tenente-Coronel descreveu Reino Unido, apresentou a sua visão os conceitos de Guerra Irregular
os métodos usados para identificar e sobre “O Recurso à Guerra Irregular refletem novas dinâmicas entre Go-
neutralizar os centros do Movimento na Defesa do Reino Unido”. Destacou vernos, Populações e Exércitos. Enfa-
de Resistência, incluindo interroga- a importância da Guerra Irregular e tizou que as Forças de Operações Es-
tórios com tortura. detalhou a relevância da participação peciais terão um papel cada vez mais
O terceiro tema do painel foi apre- das Forças de Operações Especiais, crucial nesses cenários. O Coronel
sentado pelo Tenente-Coronel Paweł utilizando os princípios das “Soft Reina utilizou exemplos históricos da
Ludwin, do Comando das Operações Truths”. O Brigadeiro-General enfati- experiência espanhola em ambientes
Especiais da NATO – SOFCOM, zou a primazia do ser humano sobre de guerra irregular para ilustrar pa-
que discutiu “A Defesa Abrangen- o equipamento e a qualidade das pes- ralelismos com os conflitos atuais.
te e Recurso à Guerra Irregular”. soas sobre a quantidade, sublinhando Também identificou as principais
Destacou a Comprehensive Defense, que o treino das Unidades de Ope- ameaças contemporâneas, delinean-
descrevendo seu contexto histórico, rações Especiais é um processo de- do como as Operações Especiais do
através do exemplo do Exército Po- morado que não pode ser acelerado, Exército Espanhol estão a contribuir
laco durante a ocupação pelo Reich sendo essencial que estas unidades para a Guerra Irregular, tanto no pre-
Alemão e a União Soviética. Mesmo estejam prontas em tempos de paz. sente quanto no futuro.
com o Governo e a liderança da Re- Também ofereceu uma descrição his- Ao abordar o futuro dos conflitos
sistência no exterior, conseguiram tórica das Operações Especiais Ter- militares, o Coronel Reina obser-
unificar suas atividades. Apesar das
inúmeras perdas de pessoal, material
e infraestruturas, o Movimento de
Resistência polaco foi reconstruído
com ações heroicas de cidadãos des-
conhecidos e a formação de diversas
organizações, realizando operações
de sucesso contra os dois inimigos.
A evolução e integração das diver-
sas estruturas permitiram uma luta
coordenada e abrangente. Ludwin
destacou a importância da manuten-
ção das estruturas civis do Estado e
o reconhecimento do Governo no
exílio como autoridade política e mi-
litar. Em termos de estrutura militar,
foram apresentados detalhes táticos,
destacando a importância da prepa-
ração da sociedade para contribuir
para a luta de libertação.
No segundo painel do evento,
intitulado “A Guerra Irregular: Pers-
petivas de Defesa Nacional”, o Tenen-
te-General António Martins Pereira
assumiu a moderação. Este painel
contou com a participação de repre-
30
DOUTRINA >>> ATUALIDADES
outro ator procura influenciar atra- No final deste seminário ainda do Estado-Maior do Exército, entre
vés de diversos métodos, de forma houve espaço para a apresentação dos outras entidades militares e civis.
a negar o seu envolvimento direto. livros O Exército Português na Guerra Este evento ajudou a sublinhar a
No entanto, o planeamento militar Subversiva - Volumes III, IV e V, cuja importância da cooperação e da pre-
finlandês adota a “influência alarga- responsabilidade de elaboração cou- paração estratégica na defesa nacio-
da”, que combina a influência híbrida be ao Major-General Jorge Nunes dos nal, frente às complexas ameaças da
com o uso aberto da força militar. No Reis. Esta obra procurou documen- guerra híbrida. JE
contexto da “comprehensive security”, tar e perpetuar o vasto conhecimen-
na Finlândia, o Comité de Seguran- to e as experiências adquiridas pelo
ça define as tarefas estratégicas para Exército nos Teatros de Operações
salvaguardar as funções vitais da de África entre 1961 e 1974. Os três
sociedade, sendo esta a base para a volumes finais da coleção focam-se
resiliência nacional. Este conceito, na "Ação Psicológica", no "Apoio às
centrado no cidadão, integra diversos Autoridades Civis" e na "Administra-
setores da sociedade num modelo de ção e Logística", e são parte de uma
cooperação. As Forças de Operações edição revista e bilingue (português e
Especiais têm tarefas específicas de inglês) do manual de 1966, enrique-
Assistência Militar, colaborando com cida com comentários, citações, fo-
diversos atores dos setores público e tografias e outros elementos visuais.
privado. O Counter Hybrid Warfare Nas notas de abertura, o Coman-
Center desempenha um papel crucial dante do Exército, General Eduardo
na preparação desses atores. Mendes Ferrão, destacou a excelência
Na última apresentação sobre «O das obras, chamando-as de “legado
Recurso à Guerra Irregular na De- valioso” para aprender com o passa-
fesa da França», o Tenente-Coronel do e preparar o futuro.
Stanislas Letondot, do Comando A apresentação ficou a cargo do
das Operações Especiais do Exército Tenente-General Campos Serafino,
Francês, traçou uma evolução histó- com participação especial de John
rica da Guerra Irregular na França. P. Cann, por videoconferência. Esta
Letondot descreveu o atual modelo apresentação dos livros foi presidida
de organização do Comando de For- pelo Ministro da Defesa Nacional,
ças de Operações Especiais francês, Dr. Nuno Melo, e contou com a pre-
destacando a importância integra- sença do Chefe do Estado-Maior-Ge-
dora dos augmentees, que combinam neral das Forças Armadas, General
todos os efetores híbridos. José Nunes da Fonseca, e do Chefe
Técnica Superior
Redatora do Jornal do Exército
D
ecorreu em 2 de outubro, no Palácio da Aju- de 1864, naquele mesmo lugar, entre o Rei D. Luís, pelo
da, em Lisboa, a Conferência «O Exército e o lado português, e a Rainha Isabel II de Espanha, o qual
Tratado de Limites entre Portugal e Espanha estabelecia os limites entre os dois reinos desde a foz do
– 160 anos a manter a Raia», organizada pelo Centro de Rio Minho até à confluência do Rio Caia com o Guadiana.
Informação Geográfica do Exército. Segundo os seus próprios termos, o Tratado de Limites
Como o próprio título indicia, tratou-se de evocar o foi celebrado “tendo em consideração o estado de desas-
Tratado celebrado entre as duas Nações ibéricas, no ano sossego em que se encontram muitos povos situados nos
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DIVULGAÇÃO >>> ATUALIDADES
confins de ambos os reinos”, conflitos as fronteiras entre os dois países, “é em estabilidade. Portugal e Espa-
esses motivados por disputas territo- muito mais do que uma simples linha nha, mercê dessa mesma estabilida-
riais, tendo sido um tratado pioneiro, traçada no mapa. Representa o com- de duradoura, partilham “desígnios
numa Europa marcada por constan- promisso entre duas nações vizinhas comuns”, tendo vindo a reforçar a
tes e convulsionadas mudanças po- em coexistir pacificamente, respei- cooperação em áreas essenciais como
líticas que se prolongariam pelo séc. tando-se mutuamente, garantindo a segurança e defesa, o desenvolvi-
XX. a estabilidade e o desenvolvimento mento económico e a valorização do
O encontro, organizado em dois próspero de ambos os países.” património cultural partilhado.
painéis, reuniu diplomatas e milita- Revisitando um passado comum, Um desses desígnios comuns
res de ambos os países, tendo-se o referia o Comandante do Exército materializa-se através do trabalho
primeiro painel subordinado ao títu- que “ao longo dos séculos, Portugal contínuo e rigoroso do Centro de
lo «Representações da Fronteira Lu- e Espanha enfrentaram inúmeros de- Informação Geoespacial do Exército
so-Espanhola» e o segundo ao título safios, tanto internos como externos. e do Centro Geográfico del Ejército
«Perspetivas diferenciadas da Fron- A relação entre os nossos países pas- cujos esforços conjuntos têm sido es-
teira Luso-Espanhola». sou por rivalidades e ofensas estraté- senciais para a atualização da deli-
A sessão de abertura esteve a cargo gicas, conflitos territoriais e dinâmi- mitação das nossas fronteiras. O seu
do Chefe do Estado-Maior do Exérci- cas políticas divergentes, reflexos das trabalho representa “um exemplo no-
to, General Eduardo Mendes Ferrão, conjunturas históricas.” tável de colaboração técnica e cientí-
que saudou a iniciativa, enaltecendo Já na História recente, o Tratado fica entre os dois exércitos”, traduzido
a celebração do Tratado, assinado tem permanecido como “um símbo- na partilha de conhecimento e tecno-
naquele mesmo Palácio da Ajuda, lo resiliente de união e cooperação” logia, assegurando que “continuemos
no seu dizer, “um marco histórico na entre dois países que detêm uma das a honrar o espírito do Tratado, adap-
relação entre Portugal e Espanha”. O fronteiras mais antigas da Europa e tando-o às necessidades e realidades
Tratado de Limites, que regularizou do mundo, e que vivem há décadas modernas e sobretudo preparando o
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DIVULGAÇÃO >>> ATUALIDADES
por vários reinos e em que a fronteira “não foi só a guerra da restauração tações cartográficas de dois irmãos
será também redefinida ao longo da da independência, mas foi também a que laboraram em perspetivas diver-
linha de costa, pois nesse período a restauração da linha de fronteira que gentes, um ao serviço de Portugal e
fronteira da Península Ibérica vai ser deixou de existir durante 60 anos.” o outro de Espanha. O primeiro foi
empurrada pelos seus limites exte- Assim, partir de 1640 a linha de fron- João Teixeira Albernaz, um cartó-
riores. Com efeito, durante o período teira torna-se o centro das atenções. grafo português que permaneceu em
filipino houve uma preocupação, por O orador revisitou alguma da car- Lisboa depois de 1640, e que aqui
parte dos Filipes, de fortificar esta li- tografia elaborada no período pós- continuou a trabalhar para D. João
nha de fronteira litoral, ligando-se a -Restauração, demonstrando como VI, o Restaurador, e o seu irmão, o
fronteira à linha de fortificações. as preocupações dos cartógrafos re- cartógrafo Pedro Teixeira, que foi
Associando as representações fletem as preocupações políticas de para Madrid no início do séc. XVII
cartográficas a opções políticas, o restabelecimento da raia, designada- e por lá permaneceu fiel à monarquia
autor apresentou os exemplos de mente através da recuperação da sua Habsburga. No primeiro caso, o foco
imagens diferentes representadas em vertente defensiva. Trouxe então à da atenção centra-se na raia: “Em-
mapas contemporâneos, nomeada- liça um mapa da autoria de Vaz Pe- bora esteja em más condições, ainda
mente num mapa elaborado aquan- reira de Miranda, de 1642, o qual vai é visível uma linha de fronteira que
do da visita de Filipe II a Portugal em recuperar dois mapas antigos de Por- retoma a perspetiva portuguesa de li-
1622, em que o território de Portugal tugal – o primeiro mapa de Portugal, mite político e natural.” Em oposição,
“parece isolado, delimitado, cujos de Álvaro Seco, em que os limites po- no mapa de Pedro Teixeira, “não há
limites políticos coincidem com os líticos correspondem aos limites na- diferença de densidade de informa-
limites naturais”, ao passo que, num turais, e o mapa com a representação ção. É um Portugal integrado na Es-
outro mapa, Portugal aparece per- das fortificações, de Duarte D’Armas. panha.” Na perspetiva deste último,
feitamente integrado no território Como refere, “ali estão os castelos, a é também curioso estar o Ocidente
ibérico. Ambos representam então linha fortificada que assegura a defe- marcado no topo do mapa, centran-
duas perspetivas que neste período sa da linha política, materializada no do-se então, na perspetiva de Madrid,
se confrontam. território.” o objetivo na costa e não na raia.
O período da União ibérica ter- Ainda no contexto da Guerra da Porém, seja qual for a perspetiva
mina com a Guerra da Restauração Restauração, o orador convocou o da análise, regional ou local, “o que
que, conforme sublinhou o orador, curioso exemplo de duas represen- vamos encontrar é uma linha política
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DIVULGAÇÃO >>> ATUALIDADES
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DIVULGAÇÃO >>> ATUALIDADES
designadamente a manutenção dos nha que têm constituído as equipas tivas diferenciadas da fronteira Lu-
marcos, a fiscalização e a disponibi- técnicas mistas.” so-Espanhola”. O professor Doutor
lização de informação. Relativamente ao Sistema de In- Pedro Julião, da Universidade Nova
Cabe, assim, ao CIGeoE a respon- formação Geográfica de Apoio à de Lisboa, proferiu uma alocução
sabilidade de apoiar tecnicamente a Fronteira, uma das competências do subordinada ao tema “A Dinâmica
delegação portuguesa à Comissão In- Ministério é disponibilizar à popu- demográfica da raia”. Numa pers-
ternacional de Limites (CIL) e é neste lação toda a informação recolhida petiva complementar das anteriores,
âmbito que vão ser criadas as equipas e informatizada através de bases de o professor caraterizou a evolução
técnicas mistas, que fazem trabalhos dados. E assim, em 2007, depois de populacional ao longo da linha de
de campo na fronteira. concluído o trabalho de georrefe- fronteira, do lado português, uma
A fronteira é atualmente delimita- renciação, foi considerada a possibi- zona caraterizada por um acentuado
da por cerca de 5000 marcos (5279), lidade de existência de uma base de envelhecimento populacional e de-
de vários tipos. Um marco de fron- dados comum, o que foi concretiza- sertificação. A assimetria que carate-
teira é uma pedra, em granito ou em do, procedendo-se anualmente à sua riza a distribuição populacional, com
mármore, com a letra “P” ou a letra atualização. o desequilíbrio demográfico entre o
“E”, existindo três tipos de marcos de O SIGAF permite, assim, através litoral e o interior e a questão da “di-
fronteira, entre os quais: os designa- de uma plataforma open source, o namização do interior”, por forma a
dos “marcos principais”, que são 965; Google Earth, visualizar, analisar e torna-lo atrativo para a população re-
os auxiliares, colocados no terreno explorar dados para o planeamento sidente foram algumas das questões
devido à necessidade de adensar a li- de trabalhos de fronteira e o apoio ao analisadas.
nha de fronteira; e ainda os marcos desenvolvimento de projetos relacio- O orador circunscreveu a sua
de fronteira de referência, que são nados com a segurança/controlo de apresentação à faixa raiana, “porque
colocados nas passagens a vau, um de fronteiras e coordenação de outras se há uma fronteira ela tem de estar
cada lado da linha de água. atividades transfronteiriças. povoada para ter esse significado”,
A equipa técnica mista sempre foi Conforme destacava o orador, em definindo como faixa raiana “todos
composta por militares de ambos os conclusão: os municípios que confinam com
países. Nos anos 90, tendo em vista A cooperação internacional entre a Espanha”, ou seja, 39 municípios,
a necessidade de proceder ao levan- o Exército de Portugal e o Exército do desde Caminha a Vila Real de San-
tamento da linha de todos os marcos Reino de Espanha visa preservar em to António e tomando por base os
de fronteira, era composta por 12 bom estado de conservação os pon- dados do Instituto Nacional de Es-
elementos. A partir do ano 2007, en- tos físicos de soberania que unem as tatística, relativos aos últimos recen-
contrando-se todos os marcos geor- duas nações, assim como o bom rela- seamentos da população. Com efeito,
referenciados, as equipas tornaram- cionamento das populações raianas, desde 1991 até ao último censo, em
-se mais pequenas, sendo de realçar mantendo viva a raia. 2021, “se ao nível do número de lu-
o “espírito de camaradagem existente O segundo painel desta conferên- gares, a diminuição não é muito sig-
entre os militares de Portugal e Espa- cia foi subordinado ao tema “Perspe- nificativa, em termos de população
residente nesses lugares temos uma
linha de decréscimo contínuo nestes
últimos anos.” Uma quebra que se
salda em 20% de decréscimo entre os
anos 2011 e 2021.
Esta dinâmica de decréscimo
populacional é, segundo o orador,
“um pouco alarmante”, se conside-
rado o nível de município, pois nos
dois últimos censos todos os muni-
cípios portugueses ao longo da faixa
raiana registaram um decréscimo
populacional. Por outro lado, o fac-
to de haver esta perda não quer dizer
que o fenómeno seja generalizado
dentro dos municípios, dado existi-
rem municípios “com uma dinâmica
própria”, capazes de “absorverem al-
guma população, inclusive oriunda
das aldeias em redor que, mercê da
oferta de um conjunto de serviços
diversificados, conseguem reter algu-
40
DIVULGAÇÃO >>> ATUALIDADES
42
DIVULGAÇÃO >>> ATUALIDADES
tografia nunca poderá ser posta em que esteja com ele. está no limbo do futuro do Exército - o
causa e a sua simbologia permanece (…) que é que todos nós temos de trabalhar
basilar”. O Dia do Exército vai ser na Guar- a nível tecnológico – não é só bases de
Como conclusão, o Embaixador da. Se estivermos em Almeida, se esti- dados: há geolocalização, há satélites,
Sousa Amaro sublinhou o seu “orgu- vermos no Buçaco e em muitos outros há coisas que podemos no terreno por
lho”, ao afirmar que “Portugal e Es- sítios, estaremos com Portugueses e em prática e que materializam aqui-
panha são exemplo de uma História Espanhóis, lado a lado, a afirmarem lo que é o desiderato nacional e da
de proximidade, com uma fronteira a História e a afirmarem o caminho Comissão de Limites entre Portugal e
que nos une, que é respeitada e que para a frente. Espanha, de afirmar que a fronteira é
é fruto de um relacionamento inten- Desta conferência ressalta aquilo uma linha, mas é uma linha de conti-
so, estável, duradouro e claramente que foi a pergunta do meu Chefe e que nuidade entre duas vontades. JE
positivo.”
O encerramento da sessão esteve
a cargo do Vice-CEME, General Maia
Pereira, que declarou:
A presente sessão vai muito além
do marco que delimita as fronteiras.
O que estamos a fazer aqui hoje é a
comemorar 160 anos de um instru-
mento diplomático que materializa a
vontade de dois povos e que ao longo
do tempo vai sendo mantido como
exemplo da cooperação, solidarieda-
de e, por que não dizê-lo, irmandade,
amizade profunda de dois povos que
estão condenados a entender-se mui-
to bem e a aprender da História o que
têm de aprender e olhar para o futuro,
evoluindo num quadro em que temos
de cooperar.
Queria dizer aos senhores Embai-
xadores da Comissão de Limites que
o Exército se sente muito honrado em
poder colaborar com o Exército irmão,
com o qual temos relações de coopera-
ção imensas, em todas as organizações
de que fazemos parte, com o qual es-
tamos na Eslováquia, na Roménia, na
República Centro-Africana, coopera-
mos em Moçambique, em Angola, na
Colômbia, pelo mundo fora…
(…)
Contem com o Exército Português
como parte integrante do esforço de
ambos os países para materializar
aquilo que nos une. O que nos separou
é o mote daquilo que nos une. E o ca-
minho que nós fazemos todos os dias
é um caminho que olha para o futuro,
é um caminho de trabalho de muitos
militares em condições às vezes com-
plicadas. Mas a matriz militar é essa.
(…)
O Exército Português tem uma
pegada crescente de afirmação junto
dos municípios raianos. Não há um só
município que não tenha uma Unida-
de militar (mais longe ou mais perto) Mapa da fronteira de Portugal e Espanha
Tenente de Infantaria
15.ª Quick Reaction Force / MINUSCA
Cross-Trainings na Missão
Multidimensional Integrada das
Nações Unidas para a Estabilização na
República Centro Africana
Os exercícios de cross-training constituem uma oportunidade
de treino, ao nível das técnicas, táticas e procedimentos
conduzidos no âmbito de forças multinacionais, tendo em vista
fomentar a interoperabilidade e a eficácia em operações, e
melhorar o nível de entendimento e cooperação entre as forças
O
cenário das Operações de Paz, particular- cooperação entre diferentes forças militares interna-
mente no âmbito da Missão Multidimen- cionais para alcançar os seus objetivos. Nesse contex-
sional Integrada das Nações Unidas para a to, os exercícios de cross-training entre contingentes
Estabilização na República Centro Africana, requer a de diferentes nações são fundamentais para garantir
44
EXERCÍCIOS >>> ATUALIDADES
a interoperabilidade e a eficácia das tares e treinos específicos com forças contingentes do Bangladesh, Ban-
operações. de outros países, nomeadamente, o gladesh Special Force e Camboja,
Esses momentos não são apenas Bangladesh e o Camboja. Esses exer- Explosive Ordenance Disposal Unit
oportunidades de treino, mas são, cícios têm como principais objetivos 98-2, durante a 15.ª Quick Reaction
também, oportunidades para me- promover a partilha de experiências, Force verteram-se nas seguintes áreas
lhorar habilidades técnicas e cultivar táticas, técnicas e procedimentos en- principais:
a verdadeira camaradagem entre os tre forças com diferentes culturas mi- – Close-Quarters Battle
militares. A experiência comparti- litares, superar barreiras linguísticas, O combate em áreas urbanas,
lhada durante os treinos/exercícios bem como a familiarização com dife- definido pelas suas características
reforça a noção de que o sucesso em rentes equipamentos e meios, contri- de reduzida duração, mas de alta in-
operações complexas é alcançado buindo para o sucesso das missões e a tensidade e violência súbita a curtas
através do apoio mútuo, um princí- segurança de todos os envolvidos em distâncias, exige treino contínuo,
pio que ressoa fortemente entre os futuras missões ou cooperações. mecanização de procedimentos e téc-
Paraquedistas. Afinal, é somente com nicas altamente especializadas, que
a ajuda dos camaradas que se conse- A importância do Cross-Training combinam precisão e coordenação
gue vencer os desafios impostos pelo em Operações Multinacionais entre unidades de vários escalões,
ambiente operacional, garantindo a As realidades operacionais, geo- desde a Esquadra à Companhia. O
segurança e a sobrevivência de todos gráficas e sociais na República Cen- Close-Quarters Battle exige sintonia
os envolvidos. Através dessa colabo- tro Africana são extremamente volá- entre as Unidades no terreno para
ração, os contingentes não apenas se teis. Os militares são frequentemente garantir a neutralização de ameaças,
preparam para as exigências das mis- confrontados com diferentes variá- minimizando os danos colaterais e o
sões, como também criam e solidifi- veis, assumindo-se como essenciais fratricídio.
cam relações, essenciais para enfren- ferramentas tais como Close-Quar- O treino com o Bangladesh Special
tar as adversidades juntos, sempre ters Battle, Tatical Combat Casualty Force permitiu aos militares portu-
com a consciência de que a vitória é Care e a neutralização de ameaças gueses percecionarem as suas táticas,
um esforço coletivo. explosivas. técnicas e procedimentos, adquirin-
No âmbito da 15.ª Quick Reaction do novas perspetivas na abordagem,
Force composta por Paraquedistas Componentes do Cross-Training na assalto e limpeza de objetivos, mas
provenientes do 1.º Batalhão de In- Missão Multidimensional Integrada permitindo uma simbiose esclareci-
fantaria Paraquedista e que inclui das Nações Unidas para a Estabiliza- da e segura em caso de uma operação
também elementos de outras Uni- ção na República Centro Africana conjunta, por ambas as partes. Além
dades, Órgãos e Estabelecimentos, Os exercícios de cross-training disso, a utilização de procedimentos,
como os módulos Explosive Orde- realizados pelos Paraquedistas da armamento e equipamentos diferen-
nance Disposal, Route Clearance e Sa- Unidade de Manobra do 1.º Batalhão tes dos que os militares utilizam no
nitário, realizaram-se exercícios mili- de Infantaria Paraquedista com os Exército Português permite diversifi-
Cooperação Internacional e
Integração de Procedimentos
Uma das principais metas do
cross-training é a partilha de táticas,
técnicas e procedimentos, facilitando
a cooperação entre as forças interna-
cionais. A participação dos paraque-
distas do 1.º Batalhão de Infantaria
Paraquedista nos exercícios com os
contingentes do Bangladesh e do
Camboja, na Missão Multidimensio-
nal Integrada das Nações Unidas para
a Estabilização na República Centro
Africana (MINUSCA), promove a
capacidade das Forças de operar em
car conhecimentos e é essencial para conjunto com militares do Camboja, conjunto, mesmo com formação e
o sucesso destas operações. realizaram treinos com o objetivo de doutrina distinta. Isso reflete-se em
– Tatical Combat Casualty Care identificar, neutralizar e destruir de várias áreas:
Os procedimentos de emergên- forma segura estas ameaças. Estes – Troca de Experiências e Boas
cia médica são cruciais para salvar exercícios foram cruciais para o de- Práticas
vidas no campo de batalha, manter senvolvimento de uma abordagem Durante os exercícios, os milita-
a capacidade de combate e o moral.
Durante os treinos com as forças do
Bangladesh e do Camboja, os mi-
litares dos diferentes contingentes
simularam cenários de combate, em
que a capacidade de prestar cuidados
médicos imediatos foi testada sob
pressão, incluindo as diferentes fases
do protocolo de Tatical Combat Ca-
sualty Care, o Care Under Fire, Tati-
cal Field Care e o Tatical Evacuation
Care. A cooperação entre os contin-
gentes permite tomar conhecimento
dos protocolos de primeiros socorros
usados por outras forças, possibili-
tando que as equipas de apoio sanitá-
rio colaborem em uníssono, aumen-
tando a sua eficácia no combate.
– Explosive Ordenance Disposal
O Teatro de Operações da Repú-
blica Centro Africana inclui a presen-
ça de minas terrestres, dispositivos
explosivos improvisados e munições
não detonadas, que representam uma
ameaça constante às forças de paz e
à população. As equipas de desati-
vação de explosivos da 15.ª QRF, em
46
EXERCÍCIOS >>> ATUALIDADES
“Além de preparar
tecnicamente as
forças para os
desafios do campo
de batalha, esses
treinos permitem
o entendimento
entre os diferentes
contingentes,
facilitando a
cooperação
num ambiente
operacional
complexo e
multicultural.”
48
EXERCÍCIOS >>> ATUALIDADES
necessidades do terreno e das práticas permitem que os milita- eficiência operacional, mas também
operações conjuntas. A práti- res de diferentes nações adquiram prepara os contingentes para res-
ca regular não apenas reforça conhecimentos mutuamente, ali- ponder de forma coordenada a cri-
as competências existentes, nhando táticas, técnicas e proce- ses, garantindo a segurança de todos
mas também permite que as dimentos em áreas críticas como os envolvidos.
tropas se atualizem em novas Close-Quarters Battle, Tactical Em suma, os exercícios de
técnicas e tecnologias, garan- Combat Casualty Care e Explosive cross-training não são apenas uma
tindo que estejam sempre à Ordenance Disposal. Além de pre- questão de táticas, técnicas e proce-
frente das ameaças e desafios parar tecnicamente as forças para dimentos. Representam uma opor-
emergentes. os desafios do campo de batalha, tunidade valiosa para a construção
Estes fatores combinados re- esses treinos permitem o entendi- de relações duradouras e um enten-
sultam num impacto positivo nas mento entre os diferentes contin- dimento entre as forças que atuam
capacidades operacionais da mis- gentes, facilitando a cooperação em diferentes cenários operacionais.
são, aumentando as probabilidades num ambiente operacional comple- A importância destes cross-train-
de sucesso nas diversas situações xo e multicultural. ings é intemporal, uma vez que são
enfrentadas. Estes exercícios contribuem para essenciais para as operações con-
Os exercícios de cross-training a criação de um ambiente de traba- juntas entre os diferentes países. À
entre os militares portugueses e lho mais harmonioso e integrado, medida que o mundo enfrenta de-
outros contingentes no âmbito da onde as forças podem apoiar-se mu- safios cada vez mais complexos e
MINUSCA são essenciais para a tuamente em situações de risco. A multifacetados, a cooperação entre
promoção da interoperabilidade familiarização com diferentes equi- forças torna-se um fator crucial e
e do sucesso das operações. Essas pamentos e táticas não só aumenta a diferenciador. JE
* Coautores:
Tenente de Infantaria João Pereira, 15.ª Quick Reaction Force / MINUSCA
Tenente de Infantaria Tymur Hozhda, 15.ª Quick Reaction Force / MINUSCA
Alferes
Redatora do Jornal do Exército
L
isboa, uma cidade de grande importância estra- Desde a sua instalação em Coimbra, Dom Afonso Hen-
tégica na Península Ibérica muçulmana, foi um riques estabeleceu como objetivo estratégico avançar as
objetivo crucial para o rei português Dom Afon- fronteiras do Condado Portucalense até à linha do Tejo, al-
so Henriques. Este monarca não governava um reino em mejando conquistar os bastiões de Santarém e Lisboa. Lis-
paz, mas sim um reino em expansão, empenhado na Re- boa, além de ser um porto significativo, dominava a linha
conquista Cristã. do rio Tejo, tornando-se essencial para o avanço cristão.
52
VISÃO DA HISTÓRIA >>> CULTURA E LAZER
Mapa da Lisboa muçulmana, com a implantação dos três acampamentos de cerco. Representa-se também, aproximadamente, o
esteiro do Tejo, que entrava terra adentro
Os mouros haviam tomado in- no contexto da Segunda Cruzada. Para Dom Afonso Henriques, sem
justamente as terras cristãs durante No início de junho de 1147, um gru- esta ajuda a esperança de conquistar
a invasão muçulmana da Península po de cruzados, incluindo ingleses, Lisboa a curto prazo seria nula, pois
Ibérica no século VIII. Em 1142, uma escoceses, normandos, flamengos e havia testemunhado a impossibilida-
primeira tentativa de cerco a Lisboa alemães, chegou à foz do rio Douro, de de tomar a cidade cinco anos an-
falhou. Contudo, em 1147, após fir- desembarcando na cidade do Porto, tes, mesmo com um contingente de
mar um acordo com os Cruzados, no norte de Portugal. auxílio menor. A presença dos Cru-
Afonso Henriques decidiu atacar no-
vamente a cidade. O cerco, iniciado
em julho e prolongado por cerca de Resposta do Ancião Mouro
três meses, culminou na rendição de
Lisboa, a 25 de outubro, marcando "Vejo que tendes bom domínio da palavra; nem vos arrebata o uso dela nem ela vai mais
um capítulo decisivo na Reconquista longe do que planeastes. Uma única orientação teve em vista o vosso discurso: tomar
Cristã. a nossa cidade. Há, no entanto, uma coisa que não consigo reconhecer em vós: uma só
A conquista de Santarém no mes- floresta ou região dá para muitos elefantes ou leões viverem; para vós, porém, não basta
mo ano foi crucial para o sucesso do nem o mar nem a terra. Efectivamente, não é a necessidade das coisas que vos força,
cerco a Lisboa, fornecendo o apoio mas a ambição do espírito. Relativamente ao que anteriormente propusestes sobre a
necessário. Sem a tomada de Santa- sorte reservada a cada um, vós estais inquietos pela nossa sorte; designando a vossa
rém, o cerco a Lisboa teria sido im- ambição por zelo de justiça, trocais o nome de vícios pelo de virtudes; efectivamente,
possível, sublinhando a importância a vossa cupidez, veio tanto a terreiro que as torpezas não apenas vos agradam como
desta vitória na campanha de Dom também vos comprazem e já quase deixou de haver lugar de cura, pois, ao consumar-se,
Afonso Henriques. a infelicidade da cupidez quase já ultrapassou os limites naturais (...)"
A conquista de Lisboa contou
com o apoio vital da frota dos Cru- (tradução de Aires A. Nascimento)
zados, que se dirigia à Terra Santa
"É o Tejo um rio remansoso que desce da região de Toledo; nas suas margens no tempo da Primavera, quando se recolhe ao leito, encontra-
-se ouro e é também tão grande a abundância de peixes que os habitantes acreditam que dois terços do rio é de água e um terço de peixes.
(...) A norte do rio, no topo de um monte redondo, fica a cidade de Lisboa, cujas muralhas descem em socalcos até à margem do rio Tejo,
dele ficando separadas apenas por um pano de muralhas que assentam no chão. No momento da nossa chegada era a mais rica e opulenta
em provisões de toda a África e de grande parte da Europa. (...)
Os seus territórios, no perímetro em redor, se forem comparados com os melhores não ficam atrás de nenhum, pela fartura dos produtos
do solo, se atendermos à produtividade quer das árvores quer das vinhas. É rica em qualquer mercadoria seja de artigos de luxo seja de
uso corrente. Tem ouro e prata e nunca faltam produtos de ferro. Predomina a oliveira. (...)
Por outro lado, ao tempo da nossa chegada, a cidade, incluindo os subúrbios em volta, contava com 60 000 famílias que pagavam tributo,
a que se somavam os homens livres isentos de impostos. O cimo do monte é cingido por uma muralha em redondo e tanto da esquerda
como da direita as muralhas da cidade descem em declive até à margem do Tejo. Os arrabaldes ficam albergados sob as muralhas, a modo
de bairros recortados nas rochas, de tal forma que cada bairro se toma por castelo bem fortificado, tais são os obstáculos de que está
rodeado. Tem mais população de que se poderia imaginar, pois, como depois de tomarmos a cidade pudemos saber do alcaide, ou seja,
do governador, chegou esta cidade a ter 154 000 homens, sem contar crianças e mulheres, se bem que incluindo nesse número as pessoas
do castelo de Santarém que neste ano foram expulsas desse castelo e ali moravam como recém-chegados e bem assim todos os nobres de
Sintra, Almada e Palmela, além de muitos mercadores vindos de todas as regiões de Espanha e de África. Embora sendo tantos, apenas
tinham 15 000 de armas, com lanças e escudos e com elas saíam a combater ora uns ora outros, segundo plano estabelecido pelo alcaide.
Os edifícios formam aglomeração tão apertada que dificilmente se conseguirá encontrar ruas com mais de oito pés de largura a não ser
nas dos mercadores. Razão de tamanha aglomeração era que não havia entre eles nenhuma forma de entrave, pelo que cada um se dava a
lei que queria, de tal modo de todas as partes do mundo, os maiores viciados para aí convergiam como para uma sentina, viveiro de toda
a licenciosidade e imundície."
54
VISÃO DA HISTÓRIA >>> CULTURA E LAZER
Pormenor do quadro de Roque Gameiro, sobre a torre de assalto inglesa existente prometeram respeitar as regras.
no Museu Militar de Lisboa No dia 25 de outubro de 1147, o
Rei Dom Afonso Henriques entrou
na cidade com os seus homens, mar-
cando a conquista de Lisboa.
O cerco de Lisboa destaca-se na
História Militar da Idade Média por
diversos motivos. A longa duração do
assédio, a participação de contingentes
de várias nacionalidades - nem sempre
de forma harmoniosa -, o uso de di-
ferentes armas de cerco, a disposição
das tropas e os movimentos estratégi-
cos para alvos periféricos fazem desta
conquista um exemplo notável da po-
liorcética e do combate medievais.
Em Portugal, algumas datas per-
manecem eternamente marcadas
na nossa História, como o dia 25 de
outubro de 1147. Nesta data, Dom
Afonso Henriques conquistou Lis-
boa, um feito que o consolidou como
uma das figuras mais emblemáticas
do país. É importante salientar que,
após a queda de Lisboa, as localida-
des vizinhas de Sintra e Palmela en-
tregaram os seus castelos aos portu-
gueses, reforçando e consolidando
a linha do Tejo. Este fortalecimento
permitiu um avanço mais rápido
e progressivo para o sul, tanto por
Dom Afonso Henriques quanto pelos
reis que o sucederam. JE
Salvas de Artilharia
O
atual Regulamento de Continências e Honras Art.º 89.º As entidades a quem são prestadas estas hon-
Militares, no que diz respeito às salvas de arti- ras recebem-nas de pé, em continência, ou descobertas,
lharia, estabelece: quando trajando civilmente.
Art.º. 87.º - 1 - As salvas de artilharia atribuídas às en- Art.º 90.º As fortificações marítimas ou baterias encar-
tidades a quem se presta essa honra, quando superiormente regadas de prestar as honras do porto correspondem, tiro
tal for determinado, são as que constam do quadro B do por tiro, às salvas dos navios de guerra.
presente capítulo. Art.º 91.º As fortificações marítimas ou baterias salvam
2 - Em terra, só se efetuam à chegada das entidades. com vinte e um tiros quando passar ou fundear navio con-
Arº 88.º A bordo dos navios de guerra, as salvas que duzindo o Presidente da República, trazendo içado o res-
competem às diferentes categorias e as condições em que se petivo distintivo ou quando, fundeado, içar esse distintivo.
efetuam são as indicadas na Ordenança do Serviço Naval. *****
58
NA SENDA DAS TRADIÇÕES MILITARES >>> CULTURA E LAZER
A maior parte dos historiado- Galego ao portaló, disse-lhe, que o seu números ímpares foram escolhidos
res parece concordar que os tiros de General desejava saber a razão, por- porque, na época, os números pares
peça de artilharia terão surgido como que entrando naquele Porto, não aba- indicavam a morte 2.
uma tradição naval no final do século tera a Bandeira, nem salvara a Esqua- Com o aumento da qualidade
XVI. Os vasos de guerra que se deslo- dra de Sua Majestade? da pólvora naval, através da utiliza-
cavam a um porto estrangeiro dispa- ção de nitrato de potássio, as honras
*****
ravam todas as suas armas para mos- prestadas no mar foram aumentadas
trar que estas ficavam vazias. Dado Por Alvará de 10 de junho de para corresponder às de terra. Vinte
que o navio não teria tempo suficien- 1618, foi regulada a etiqueta das Ar- e um disparos tornaram-se a sauda-
te para recarregar antes de se encon- madas Reais do reino, já sob jurisdi- ção honorífica de maior valor, embo-
trar ao alcance das baterias em terra, ção Filipina, determinando para os ra durante algum tempo as monar-
ficava demonstrando claramente as navios da Armada de Portugal: quias recebessem mais salvas do que
suas intenções amigáveis. Num texto (…) devendo as de Portugal, quan- repúblicas.
referente a 1546, pode ler-se 1: do encontrarem esta (Armada de Alto Com a restauração da indepen-
De Sagres partiu para o Mediter- Mar), ou a Almirante, na sua ausên- dência, Portugal estabeleceu acordos
râneo, e nos mares de Levante se de- cia, abater o Estandarte, e salvar com com as principais potências navais.
morou três anos, em que deu muitos quatro peças, a que aquela correspon- Assim em 10 de julho de 1670, Por-
combates a Turcos, e Mouros, e fez derá com duas, tornando só depois a tugal e França acordaram as salvas e
muitas, e boas presas; e voltando rico levantar o seu estandarte. cortesias que reciprocamente os na-
para Portugal, entrou em Cádis a fa- vios de Guerra destes países deviam
*****
zer água, em ocasião que estava surto executar nos respetivos portos:
naquela Bahia, o Conde Pedro Navar- De referir que esta numeração par (...) que SM Portuguesa mandas-
ro com uma Esquadra de Galés. Pedro passará a ímpar sendo, provavelmen- se dar ordem aos Governadores das
Galego, ignorando as cortesias navais te, uma adaptação ao sistema de nu- torres e fortes de seus Reinos para que
usadas naquela época, não abateu meração de salvas atribuído a Samuel entrando neles o Almirante de França
a Bandeira nem salvou a Capitânia Pepys (1633-1703), secretário da Ma- respondessem tiro por tiro á cortesia
de Espanha, de que sentido o Conde, rinha britânica, como uma maneira que a armada francesa lhes fizesse, do
mandou hum Oficial a reconhecer o de economizar no uso de pólvora. mesmo modo por que se respondera a
navio. Este, chegando á fala, pergun- A regra até então era de que fossem ela e ao Almirante Inglês em Cádis, na
tou pelo Comandante, e vindo Pedro disparados todos os canhões. Os certeza de que nos portos d’El-rei Cris-
tianíssimo os Almirantes de Portugal e
de Castela receberiam o mesmo trata-
mento (...) 3.
*****
Curiosamente, estes acordos vo-
gavam ao sabor das boas relações
existentes entre as nações. Assim, na
Ordenança da Marinha de 1689 do
rei francês Luiz XIV, onde são deter-
minadas as salvas a utilizar nas diver-
sas situações, determina:
2.° As naus do Rei, levando ban-
deira, e encontrando as dos outros
Reis, levando bandeiras iguais às suas,
exigirão a salva destas, em quaisquer
mares e costas que se faça o encontro;
o que se praticará também no encon-
tro de nau a nau, ao que os estrangei-
ros serão constrangidos pela força, se
recusarem fazê-lo 4.
*****
Esta terá sido a razão que levaria
o nosso rei D. João V a ordenar, em
31 de março de 1722, aos seus capi-
tães que:
Se encontrardes navios France-
ses, vós saudareis o navio Almirante
60
NA SENDA DAS TRADIÇÕES MILITARES >>> CULTURA E LAZER
1
QUINTELLA, Ignacio da Costa - Annaes da marinha portugueza, Volume 1, Typ. da Academia das Ciências de Lisboa, 1839, pp. 437-38.
2
TPERRIN, W. G. – Boteler’s Dialogues, vol. 65, Navy Recordos Society, Londres, 1929, pp. 267-268.
3
Academia Real das Sciencias. Quadro elementar das relações políticas e diplomaticas de Portugal: com as diversas potencias do mundo, desde o principio da
monarchia portugueza até aos nossos dias. Volume 4, Parte 2, J. P. Aillaud, 1844, p.640.
4
SOARES, Joaquim Pedro Celestino - Quadros navaes: t. 1. Folhetins.- pts. 2, t. 2-3. Epopéia.- t. 4 Additamentos aos Quadros navaes, Volume 1, Edição 2,
Impr. Nacional, 1861, pp. 202-03.
5
Academia Real das Sciencias. Quadro elementar das relações políticas e diplomaticas de Portugal: com as diversas potencias do mundo, desde o principio da
monarchia portugueza até aos nossos dias. Volume 7, J. P. Aillaud, 1865, p. 306.
6
CONCEIÇÃO, Cláudio da - Gabinete historico: Tomo VII. Na Impressão regia, 1820, p. 279.
7
CONCEIÇÃO, Cláudio da - Gabinete historico: Tomo I, Na Impressão regia, 1818, p. 313.
8
HIPOLITO, José da Costa - Correio braziliense, ou Armazém literário, Volume 1, Correio Braziliense, 1808, p. 28.
9
Ordenança Geral da Armada portuguesa de 1866.
10
Ordem do Exército nº17, 1ª Série, 15 de julho de 1914, p. 1020.
Ejército
A revista EJÉRCITO tem como objeti- temas como: “Dez anos de Serviço,
vo abordar temas militares facilitando Compromisso e Dever – uma década
de maneira bastante coerente a liga- de desafios”, “A Força Terrestre e a sua
ção entre o Exército e a sociedade para contribuição ao Exército 35” e “O Ini-
uma maior participação na cultura de migo que não vemos: o Governo Talibã
Defesa. Nesta revista bimestral vemos 2001-2021”.
Mais Alto
62
LIVROS E REVISTAS >>> CULTURA E LAZER
O Livro Timor autópsia de uma tragédia livro faz referência a temas como a re-
é uma obra que analisa detalhadamen- sistência local, a intervenção estrangei-
te os acontecimentos em Timor-Leste ra e as consequências políticas e sociais
desde a Revolução dos Cravos em 25 de da transição para a independência.
Abril de 1974 até ao final de 1976. Este
Fernando Reis, Povô Flogá - O povo brinca, Câmara Municipal de São Tomé, 1969
Militares do Exército participam na maior marcha do Mundo. Quatro militares do Exército mar-
caram presença na 106.ª edição da Marcha dos Quatro Dias, em Nijmegen, nos Países Baixos, evento que contou com a
participação de 44.626 pessoas, oriundas de mais de 70 países. A prova consistiu na realização de quatro percursos pe-
destres de 40 km, no tempo limite de 12 horas e trinta minutos por dia, totalizando 160 km, os quais foram percorridos
transportando um peso mínimo de 10 kg. O evento foi criado em 1909, com o objetivo de promover a robustez física dos
militares do Exército Holandês, através de marchas de longas distâncias, durante quatro dias consecutivos. Rapidamente,
a iniciativa transcendeu o seio militar, tornando-se na marcha com o maior número de participantes do planeta.
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